Ocasiões perdidas

José Horta Manzano

Alca 1Estávamos no começo dos anos 1990. A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento do Império Soviético marcavam o fim da Guerra Fria. Meio estonteado, o planeta se reorganizava militar e economicamente.

Tomando como espelho o sucesso da Comunidade Econômica Europeia, estrategistas de Washington imaginaram aplicar o mesmo princípio a todas as Américas. O objetivo da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era derrubar paulatinamente barreiras alfandegárias e transformar o continente num enorme e poderoso mercado comum.

O intento era ambicioso, portanto, a adesão dos principais atores era crucial ‒ os países menores acompanhariam por inércia. O problema é que o plano colidia frontalmente com a ambição de alguns líderes populistas que despontavam na América Latina. Assim mesmo, a ideia progrediu, bem ou mal, até a desastrosa cúpula de Mar del Plata, realizada em 2005.

Cúpula de Mar del Plata, 1995

Cúpula de Mar del Plata, 2005

Naquela altura, a Venezuela já estava manietada por Chávez. Na Argentina, Kirchner já comandava o barco. Para completar o trio, o Brasil tinha o Lula na presidência. No posto de assessor de nosso guia, já estava o inoxidável Marco Aurélio «top-top» Garcia, exatamente aquele que, ressentido e rancoroso, estacionou nos anos 1970 e rumina, desde então, seu antiamericanismo primário.

Nenhum dos três ‒ nem Chávez, nem Kirchner, nem o Lula ‒ via com bons olhos a aliança de livre comércio. A seu modo, cada um deles tinha o objetivo de se tornar protagonista dos novos tempos. A parceria com os EUA atrapalhava os planos. Juntos, bombardearam a Alca e despacharam o projeto de aliança comercial para o espaço.

Nafta

Nafta

O México, mais ajuizado e mais realista, preferiu ignorar ideologias ultrapassadas. Aliou-se aos EUA e, junto com o Canadá, formaram a Nafta ‒ versão regional da natimorta Alca ‒ restrita aos três grandes países da América do Norte. O mercado comum norte-americano continua de pé. Vai de vento em popa, obrigado. Os três sócios estão satisfeitos.

Enquanto isso, na América do Sul, tudo deu errado. A baixa do preço do petróleo aliada ao desastre administrativo de Chávez e de seu sucessor rebaixaram a Venezuela a um patamar indigente. A roubalheira e a gestão calamitosa travaram o avanço do Brasil e da Argentina.

E quem é que acaba ganhando com isso? O México, minha gente, aquele que, dez anos atrás, fez a boa opção. Artigo publicado no diário El Financiero (equivalente mexicano de nosso Valor Econômico) leva título significativo: «As penas do Brasil seriam uma bênção para o México

Menção é feita ao recente rebaixamento da nota de risco do Brasil, fato que levará obrigatoriamente importantes fundos de investimento a livrar-se de títulos brasileiros. Calcula-se que muitos bilhões de dólares serão retirados de papéis brasileiros e tomarão rumos mais seguros. Não precisávamos de mais essa.

Boa parte dessa bolada será investida no México, única nação latino-americana cuja inflação está abaixo da meta. A economia do país deve crescer 2.5% este ano e 2.8% em 2016 ‒ que inveja! Este ano, o peso mexicano desvalorizou-se 13% com relação ao dólar, enquanto o real caiu assustadores 32%.

Assim é a vida ‒ nada sai de graça. Mais cedo ou mais tarde, opções obtusas acabam cobrando a conta. Estamos todos pagando pela ignorância e pela miopia de uns poucos. Qualquer dia, a casa cai.

Fugiu de medo

José Horta Manzano

Este último fim de semana, importante reunião de cúpula do Mercosul teve lugar na capital paraguaia. Como se sabe, porém, grandes decisões costumam ser acertadas em reuniões de corredor e de sala de café, dificilmente em encontro de chefes de Estado.

Mercosul 5Cúpula solene, com aquela imensa mesa retangular ao redor da qual se sentam mais de cem pessoas, com todo aquele aparato, aquelas reverências, aqueles convidados ilustres, não é lugar propício para discussões. Cada figurão já vem com discurso pronto, escrito, burilado, ensaiado. Não há surpresa, a atmosfera é modorrenta.

Desta vez, no entanto, havia expectativa de ebulição. Señor Macri, recém-empossado presidente da Argentina, já havia deixado claro que cobraria de señor Maduro, presidente da Venezuela, mudança radical de atitude com relação à democracia em geral e a presos políticos em particular.

Mercosul 6Receoso de passar vergonha em público, ainda por cima em terra estrangeira, Maduro renunciou à viagem na última hora. Dilma, Mauricio Macri (Argentina), Tabaré Vazquez (Uruguai) e Horacio Cartes (Paraguai) ‒ os chefes de Estado do Mercosul ‒ estavam lá. Até Michèle Bachelet, presidente do Chile, compareceu. A deserção do brutamontes venezuelano foi gritante e pegou pra lá de mal.

De pouco adiantou ter fugido. Cumprindo o que havia prometido, Macri balançou o coreto ao pedir publicamente «por la pronta liberación de los presos políticos en Venezuela». Para enfatizar seu pensamento, acrescentou que «no puede haber lugar para la persecución política por razones ideológicas ni la privación ilegítima de la libertad por pensar distinto». Mais claro, impossível. Dona Dilma deve ter engolido em seco.

Como se sabe, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. O castigado povo argentino, finalmente, começa a avistar luz no fim do túnel. Ainda vai demorar pra chegar lá, mas estão em boas mãos. Resta-nos a esperança de que os bons (e novos) ares de Buenos Aires soprem em nossa direção e nos ajudem a livrar-nos dos miasmas que nos sufocam.

O lado folclórico da cúpula ficou por conta de dona Dilma. Apesar de pronunciar discurso já escrito e de estar sendo atentamente vigiada pelo inefável assessor Marco Aurélio «top-top» Garcia, tropeçou.

Na intenção de prestar homenagem ao Paraguai, país que organizava a reunião, declarou: «O povo e o governo brasileiros têm, pelo povo e pelo governo uruguaio (sic), uma grande amizade.» Desculpou-se em seguida, mas o mal estava feito.

Senhora Rousseff acrescentou uma pérola a seu (já extenso) rosário.

Interligne 18h

PS: Notei que nenhum dos participantes se servia de fone de ouvido, daqueles que costumam transmitir tradução simultânea. Cada um falava sua língua e os outros que se virassem. Fico aqui a me perguntar até que ponto dona Dilma terá entendido o que diziam os hermanos. E, principalmente, até que ponto os hermanos terão entendido a fala claudicante de dona Dilma.

Supersaco

José Horta Manzano

Você sabia?

Café 3Faz setenta ou oitenta anos, a economia brasileira era baseada na cultura do café. A pauta de exportação dependia desesperadamente da cotação da rubiácea, como se costuma dizer. A crise de 1929, que empobreceu boa parte do mundo desenvolvido, foi catastrófica para nosso país. Da noite pro dia, os preços do café em grão desabaram.

Assim como países que produzem petróleo em grande volume têm seu Ministério do Petróleo, o Brasil teve o IBC ‒ Instituto Brasileiro do Café, autarquia que regulava produção, promoção e comercialização do produto. Só desapareceu em 1989.

Bolsa Oficial do Café (hoje Museu do Café), Santos (SP)

Bolsa Oficial do Café (hoje Museu do Café), Santos (SP)

Até os anos cinquenta, curiosa situação persistia: embora fosse o maior produtor mundial, o Brasil exportava grão e importava café solúvel. As latinhas vinham da Europa, fabricadas nas usinas suíças e francesas da Nestlé. É que nosso mercado não estava preparado para a novidade. O preço que o consumidor pagava pela bebida era baixíssimo, a ponto de desestimular todo investimento em fabrico de café solúvel.

O tempo passa, as coisas mudam. O distinto leitor deve ter ainda na memória o tradicional saco de aniagem (ou de juta, se preferir) que servia para o transporte dos grãos. Comportava 60 quilos de café e era carregado nas costas, tanto no galpão do atacadista quanto na estiva. Mas isso era nos tempos passados.

Estivador 1Leio no portal francês Zone Bourse, especializado em assuntos econômico-financeiros, que as velhas embalagens, símbolo do transporte de café por mais de dois séculos, estão em via de extinção. Vão sendo, pouco a pouco, substituídas por empacotamento à base de matéria plástica. As sacas de 60kg sobrevivem, mas vão perdendo terreno para grandes embalagens de uma tonelada ‒ e até para superfardos de 20 toneladas! ‒ feitos de polipropileno e de polietileno.

Supersacas

Supersacas

Longe de decorrer de preocupações ecológicas, a razão da mudança é puramente comercial. Para encher um contêiner com sacas de juta de 60kg, é necessário o trabalho de nove homens durante uma hora. Se o café estiver embalado em supersacos, o mesmo trabalho pode ser feito em apenas 25 minutos por um homem só ao volante de uma empilhadeira.

Aceita um cafezinho, patrão? Passado na hora!

Nozes & castanhas

José Horta Manzano

Sabe o distinto leitor de onde vem o costume de guarnecer a mesa das festas de fim de ano com nozes, castanhas, avelãs, figos secos e damascos? É costume europeu, sabemos disso. Mas por que precisamente esses alimentos? E por que justamente nesta época do ano?

Para quem vive em terras tropicais, a resposta não é evidente. Para os habitantes das zonas temperadas do Norte, salta aos olhos: são produtos da estação.

Fruta 1Hoje em dia, encontram-se por toda parte frutas fora de época, trazidas de avião do outro lado do globo. Pessoalmente, recuso-me a comprar. Não me parece ajuizado poluir a atmosfera com toneladas de querosene só para ter morangos em dezembro, quando o natural é comê-los em maio. A julgar pela enorme oferta que se vê por aí de produtos ‘exóticos’ e fora de época, imagino que nem todos pensem como eu.

Pois bem, nozes, castanhas, avelãs, figos secos, damascos e outras especialidades consumidas entre Natal e ano-novo cruzam oceanos antes de chegar às mesas brasileiras. Os preços são exorbitantes. Em épocas de carestia, como a atual, o consumo desses produtos arranha o meio ambiente e fere o bom senso.

Fruta 2Brasileiros há que chegam a privar-se de artigos necessários só para ter à mesa esses alimentos que, robustos e encorpados, nem de longe combinam com os calores de nosso Natal tropical. Sob risco de parecer iconoclasta, acho isso uma grande bobagem.

O Brasil é o maior produtor de frutas do planeta. Dezembro e janeiro marcam o apogeu da colheita. Por que não aproveitar? É mais leve, sai bem mais barato e dá mais cor e vida à mesa.

Rabanada 1Para não romper totalmente com a tradição ‒ e se não estiver de regime ‒, prepare uma boa rabanada e salpique com açúcar e canela. Faça com pão dormido, de preferência. As receitas estão na internet, é fácil achar. Bom apetite.

Na cueca

José Horta Manzano

Leio n’O Globo que a Polícia Rodoviária deteve dois ocupantes de um veículo que trafegava por estrada de rodagem federal. A notícia não esclarece se era contrôle de rotina ou sob denúncia. Fato é que, no porta-malas, havia três valises recheadas de dinheiro.

Ao cabo de minuciosa contagem, os policiais constataram que as valises continham quase quatro milhões de bolívares venezuelanos, quantia que, convertida ao câmbio oficial, equivale a 2,4 milhões de reais.

Dinheiro 3Pacotes de dinheiro venezuelano viajando em porta-malas no Estado de São Paulo? A descoberta de dólares, euros, ienes ou francos suíços caberia dentro do molde habitual. Moeda venezuelana em volume industrial não se encaixa nos parâmetros. A ninguém viria a ideia maluca de fazer poupança em bolívares, a moeda mais corrída pela inflação. A origem do dinheiral é pra lá de intrigante.

Se, entre os desdobramentos diários da Lava a Jato, ainda lhe sobrar tempo e disposição, a Polícia Federal tem bons motivos para investigar nos detalhes esse achado. Aliás, ninguém se espantaria se fosse descoberta ligação entre nossos atuais escândalos político-financeiros e as malas de dinheiro venezuelano.

Os ocupantes do automóvel alegaram que a bolada provinha da venda de empreendimento imobiliário. Hmmm… Podiam também alegar ter encontrado as malas numa praia deserta, abandonadas, sem dono. Por que não?

Dinheiro 4Falando sério, a França encontrou meio de cercear essa circulação de dinheiro debaixo do pano. A lei que coíbe pagamentos em dinheiro vivo, que existe há muitos anos, está sendo reforçada. Para dificultar lavagem de dinheiro, grandes operações em espécie estão enquadradas. Veja alguns exemplos de limitação de transações em dinheiro:

Interligne vertical 17bVenda de imóvel: 10 mil euros.

Salário: mil euros.

Impostos: 300 euros.

Compra de moeda estrangeira: mil euros.

Pagamento de compra em loja: mil euros.

Acima desses montantes, só se pode pagar com cheque, cartão de crédito ou remessa bancária. Ainda que essa regulamentação não elimine todo risco de lavagem de dinheiro ilícito, cria forte empecilho. Pagamentos com cheque, cartão e remessa bancária deixam rastro. Está mais que na hora de implantar medidas rigorosas no Brasil.

A tradição continua

Elio Gáspari (*)

by Ueslei Marcelino, jornalista e fotógrafo brasiliense

by Ueslei Marcelino, jornalista e fotógrafo brasiliense

O fotógrafo Ueslei Marcelino captou a doutora Dilma num momento Debret ao caminhar nos jardins do Palácio da Alvorada rumo a um helicóptero. Ela ia à frente de um grupo de quatro cidadãos, todos de roupa escura e em fila indiana. O primeiro a protegia com um guarda-chuva aberto. Já o quarto carregava um guarda-chuva fechado. O segundo levava pequena sacola de papel.

by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Em famosa gravura, o pintor Jean-Baptiste Debret retratou um fidalgo do Rio de Janeiro seguido por uma fila de dez pessoas. Provavelmente iam para alguma cerimônia.

No tempo do imperador, era comum ver D. Pedro II carregar sua valise.

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Verba volant

José Horta Manzano

Verba volant 1A frase marcante da semana que passou foi, sem dúvida, aquela com que o vice-presidente encabeçou a carta enviada à chefe: Verba volant, scripta manent – palavras voam, escritos permanecem.

Firme e robusto, o adágio romano vigorou por dois milênios até que a revolução digital destas últimas décadas viesse injetar um grão de areia no azeitado mecanismo. De fato, escritos podem ser facilmente destruídos, enquanto dados digitalizados tedem a ser reproduzidos e conservados com segurança.

Toda moeda, no entanto, tem duas faces. Adulterar documentos escritos é possível, mas não é tarefa simples. Rasuras e correções costumam deixar rastro, ao passo que fraude em dados digitais é muito mais difícil de detectar.

Caramuru 1Faz duas semanas, soltei fogos ao receber a notícia do fim do voto eletrônico no Brasil. Infelizmente, não eram fogos Caramuru, aqueles que nunca dão chabu. A esmola era grande demais para sacola pequena. A boa-nova não se manteve de pé.

A crer no desmentido que acaba de surgir, continuaremos a apertar botões na hora de escolher representantes. E estaremos na incapacidade de conferir se a opção de cada eleitor terá sido realmente respeitada.

Era bom demais pra ser verdade. Em matéria eleitoral, a exceção brasileira prossegue. A comprovação de nosso voto continuará embrulhada nos mistérios impenetráveis da informática e avessa a toda tentativa de autentificação. É pena.

Wishful thinking

José Horta Manzano

Nossa língua é rica. Infelizmente, a deterioração do ensino básico tem negado aos mais jovens a chave do baú. O vocabulário encolhe, palavras-ônibus engolem termos específicos, a transmissão das ideias vai ficando mais complicada. A dificuldade de compreensão contamina até altas esferas: exemplo típico é o de nossa presidente, cujos pronunciamentos absconsos exigem interpretação.

Na Suíça, cada região fala a própria língua. Isso, no entanto, não causa particulares tensões – faz séculos que tem sido assim. Pelo contrário, costuma-se até brincar dizendo que os suíços se entendem bem justamente porque não se compreendem. É galhofa, mas não deixa de ter lá seu fundo de verdade. Talvez venha a se tornar realidade no Brasil de amanhã.

Na estrada 04A línguas germânicas, que muitas vezes dispensam preposições, têm características sintéticas. São, assim, mais maleáveis. Em inglês, por exemplo, com duas palavras exprimem-se conceitos complexos, daqueles que exigiriam uma linha de explicação em nosso idioma. É o caso de wishful thinking.

Ao pé da letra, a tradução «pensamento desejoso» não transpõe a ideia exata. Precisaria verter como «formular conceitos que levam a tomar decisões baseadas menos na realidade e mais no desejo que temos de que algo se concretize». Trabalhoso, não? Pra remediar, ficamos com o original mesmo. É verdade que a conhecida fórmula: “me engana, que eu gosto” exprime, com ironia, pensamento semelhante. Mas não é exatamente a mesma coisa, além de a expressão ser longa demais.

Evidenciando uma característica de nossos tempos, a cada dia pilhas de exemplos de wishful thinking despontam no horizonte político brasileiro. Topei com dois deles esta semana. O primeiro foi proferido por nosso guia. De visita à Espanha, onde chegou a ser recebido pelo rei, disse, sem corar, que «é um luxo para o Brasil ter uma presidente da qualidade da Dilma». Exemplo acabado de wishful thinking.

2015-1211-01 TeleSurOutro belíssimo espécime fez manchete no portal da venezuelana TeleSur, a chamada ‘tevê do Chávez’. Dando uma forcinha a nossa mandatária, noticiaram que «aumenta apoyo a Dilma Rousseff ante juicio político» – cresce apoio a Dilma Rousseff diante de julgamento político.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Ou subtrai, dependendo da conveniência.

Falta de tacto ou desaforo?

José Horta Manzano

Não me canso de apontar a enxurrada de erros primários que tem encharcado nossa diplomacia desde que o «governo popular» se aboletou no Planalto. O inspirador de grande parte dessas iniciativas calamitosas é senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, assessor que dispõe de cadeira cativa: entrou em função no primeiro governo do Lula e está lá até hoje.

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Pode até nem parecer, mas esse senhor não é nenhum ignorantão. Estudou, tem formação. Seu problema – que acaba apequenando a diplomacia brasileira – é a fixação numa ultrapassada visão terceiro-mundista. Seu pensamento ficou ancorado no mundo dos anos 1960 e 1970, quando Nasser, Indira Gandhi e Tito tentavam escapar (sem realmente conseguir) da dualidade da Guerra Fria. Hoje, essa dicotomia não faz mais sentido.

Política externa não é o forte do Lula nem de dona Dilma. Tanto ele quanto ela decidiram abandonar esse importante espaço. Na falta de luminares, sobrou para senhor «Top-top». Que fazer? Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

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Cônsules e embaixadores são enviados temporários. Dependendo das normas e da conveniência do Estado que representam, permanecem alguns meses ou alguns anos em cada missão. Em seguida, como numa dança de cadeiras, são removidos e despachados a outro país.

O posto de embaixador de Israel em Brasília vagou. O primeiro-ministro daquele país decidiu indicar senhor Dani Dayan para preencher o cargo. O governo brasileiro foi informado. Em princípio, o país receptor dá sua aprovação ao cabo de duas ou três semanas. Neste caso, passadas oito semanas, nosso Planalto se fecha num silêncio ensurdecedor.

Em artigo de 10 dez° 2015, o jornal The Times of Israel acredita ter entendido a razão da atitude de Brasília. O embaixador designado é notório ativista conhecido por seu empenho na causa da implantação de colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.

Relações internacionais by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Relações internacionais
by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Ao que tudo indica, em julho de 2014, quando tratou o Brasil de «anão diplomático», o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense não estava usando figura de linguagem. Estava realmente expressando a convicção dos mandachuvas daquele país. A designação do novo embaixador é a prova flagrante.

Se enviassem esse senhor para um país pequeno e inexpressivo, o fato passaria despercebido. Nomeá-lo para representar Israel no Brasil é, no mínimo, falta de tacto. Na pior das hipóteses, é desaforo.

Grande e populoso, nosso país conta com importante comunidade de confissão judaica. Além disso, Brasília já mostrou sua desaprovação quanto à persistência de Israel na política de implantação de colônias em território ocupado.

As credenciais do novo embaixador dificilmente serão acolhidas pelo Planalto. Desta vez, justiça seja feita, não se pode atirar pedra no “top-top”. A aceitação desse diplomata seria interpretada como conivência com a ocupação da Cisjordânia, atitude que o atual governo brasileiro desaprova. E eu também.

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?

Fim de ciclo

José Horta Manzano

De uns dez dias pra cá, parece que os ventos mudaram de quadrante pelas bandas da América do Sul. Fazia já tanto tempo que a coisa andava degringolando, que a gente já estava ficando desesperançado. Agora parece que uma luzinha apareceu lá no fim do túnel. É tênue, mas alumia.

Brasil
Começou no Brasil dia 25 de novembro. Foi quando, em acontecimento extremamente raro nesta República, um senador – no exercício de seu mandato – foi parar na cadeia(*). Parece pouco? Não é. Há que lembrar que nosso país já nasceu dividido em castas. Entre elas, a dominante sempre foi integrada pelos abastados, pelo clero e pelos amigos do rei.

America do Sul 1Se clérigo não é, o líder do PT no senado, hoje encarcerado, é integrante de carteirinha da turma do andar de cima. É lícito também supor que esteja ‘bem de vida’, pra não dizer podre de rico. A prisão do figurão deu mais uma prova de que a lei se aplica também aos que dela, ainda não faz muito tempo, costumavam escapar.

Dias depois, a Câmara Federal, (ainda) presidida pelo folclórico senhor Cunha, acolheu pedido de destituição da mal-amada presidente da República. Um espanto! Que o voto final expulse ou mantenha a mandatária é de somenos. A notícia boa é que as instituições continuam funcionando. Figurões sentem-se hoje mais vigiados do que no passado.

Argentina – símbolos

Argentina – símbolos

Argentina
Domingo passado, a eleição de señor Macri ao «sillón de Rivadavia» (como é chamado o trono presidencial argentino) fez cair o pano final sobre a ópera-bufa encenada durante 12 anos pelo exótico casal Kirchner. Ponto para o mundo e especialmente para o Brasil!

Venezuela
Neste fim de semana, chegou outra notícia alvissareira. Mostrando haver despertado de longo torpor, os hermanos venezuelanos deixaram explícito seu repúdio ao modo «bolivarianista» de governar. Ao renovar a assembleia nacional, deram maioria a antichavistas.

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No mundo globalizado em que vivemos, governos que tentam sair dos trilhos encontram resistência no plano internacional. Precisam procurar aliados e juntar forças. Essa é justamente uma das principais razões pelas quais o Lula e seus aspones fecharam os olhos a iniquidades cometidas na Venezuela, em Cuba, na Argentina. Precisavam de aliados.

Tunel 1O que vemos hoje é prenúncio do fim de um ciclo. Brasil, Argentina e Venezuela – todos com a economia cambaleante – buscam horizontes mais arejados, livres do mofo de ideologias falecidas.

O estrago feito durante a última década é grande. Assim mesmo, chegaremos lá. O céu se está desanuviando.

Interligne 18h

(*) Há um antecedente. Ocorreu em 1963, quando o senador Arnon de Mello (pai de Fernando Collor de Mello) trocou ofensas com um desafeto, sacou o revólver, atirou e… feriu mortalmente um suplente de senador que teve a infelicidade de estar no lugar errado na hora errada. O assassino ficou alguns meses preso para, em seguida, ser inocentado e solto. Não perdeu sequer o mandato.

Porta aberta

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 dez° 2015

Vicente CelestinoNo longínquo ano de 1946, com vozeirão potente que caracterizava cantores da era anterior à chegada do microfone, Vicente Celestino lançou a toada Porta Aberta. Fez sucesso retumbante. Falava da porta de uma igreja que, simbolicamente, se abria para acolher de volta uma ovelha desgarrada, um vivente abandonado pela sorte.

Toda casa costuma ter porta. À discrição do dono, visitas são recebidas ou rechaçadas. A porta se abre para os bem-vindos, cheguem eles para visita de médico, para algumas horas ou até para pousar. Quanto aos indesejados, que procurem outra freguesia. Dono não é obrigado a permitir entrada a quem não lhe convém.

Porta 1Assim como igrejas e casas, país soberano também tem porta. Virtual, ela não está presa por gonzos a nenhum batente. Os nacionais, que têm franqueada a saída do país e a volta a ele, quase não se dão conta da sutil barreira. É que não lhes faz falta nenhuma autorização especial, o que não ocorre com estrangeiros.

Afora casos especiais em que a livre passagem tenha sido sacramentada por tratados – como acontece entre alguns países da União Europeia –, não se entra em terra estrangeira como se adentra o botequim da esquina. Nem todos os viajantes são iguais perante inspetor de alfândega e polícia de fronteiras.

Trafic 4Caso o viajante seja titular de passaporte emitido por país com o qual foi assinado acordo de liberação de visto, terá direito a entrar como turista, por período limitado, sem exercer atividade remunerada. No Brasil e na maior parte do mundo, a permanência padrão é de 90 dias. Na hipótese de o estrangeiro vir a trabalho ou estar planejando longa estada, é imperativo ter obtido previamente visto específico emitido por representação consular brasileira.

Visando a regrar a exigência de documentos, o Brasil – nação soberana e responsável – assinou, ao longo dos anos, convenções com a quase totalidade dos países. Esses acordos, fruto de tratativas cuidadosas, respondem a interesses mútuos. Cidadãos de numerosos países estão dispensados de visto para visita turística de até 90 dias a nosso país. Por razões ligadas à segurança do território e dos habitantes, o Estado brasileiro decidiu não conceder a mesma facilidade a todos. Cidadãos de determinados países só pisarão nosso chão se estiverem munidos de visto obtido no estrangeiro.

Não é segredo para ninguém que a política econômica dos últimos anos deixou o país em estado calamitoso. Rapinagem crônica e gestão arrevesada esvaziaram as burras. Para remediar, nosso governo anda no sufoco, raspando fundo de gaveta e matando cachorro a grito. Na esperança de incrementar o número de turistas que acudirão aos JOs 2016, mentes iluminadas imaginaram suspender a exigência de visto de entrada… para cidadãos de todos os países!

Passaporte 2Sancionada por dona Dilma, a lei já está em vigor. Vale até setembro do ano que vem. Abriu-se um hiato de dez meses durante os quais nosso país virou casa de mãe joana: entra quem quiser. O Brasil abre mão de um dos atributos maiores da soberania tão cara a nosso governo popular: o direito de filtrar a entrada do território. Durante quase um ano, passa qualquer um. Entre sem bater, minha gente, que a boca é livre!

Num mundo assolado por atentados, ataques terroristas e migrações de proporções bíblicas, a decisão é, no mínimo, temerária. Os caraminguás que um hipotético acréscimo de turistas trará não compensam a amplificação dos riscos. Um atentado perpetrado durante os JOs sairá bem mais caro que os dólares adicionais.

Passaporte 1A outra ameaça evidente é a de um acréscimo descontrolado da imigração ilegal. Sem a triagem do visto prévio, qualquer um vai poder se achegar. Ninguém é capaz de predizer o volume desse afluxo. Não é impossível que, daqui a um ano, tenhamos recebido milhões de estrangeiros aos quais, em circunstâncias normais, teria sido negado o visto. É lícito supor que centenas de milhares de viventes abandonados pela sorte – como cantava Vicente Celestino – aproveitem a porta aberta, entrem e não queiram mais sair. Estará armada uma sinuca de bico.

Um quarto de século atrás, o socialista Michel Rocard, então primeiro-ministro da França, pronunciou frase célebre: «La France ne peut pas accueillir toute la misère du monde» – a França não pode acolher toda a miséria do mundo. O Brasil tampouco. No intuito de vestir um santo, estamos despindo outro. Com todos os problemas que já temos, não precisamos correr atrás de mais um. Arrombada a porta, minha gente, será tarde pra botar tranca.

Contra ou a favor?

José Horta Manzano

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015 às 9h30

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Chamada de O Globo, 4 dez° 2015

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015 às 9h30

4 de dezembro de 2015, 9h30

O Diário do Poder afirma que dona Dilma dispõe de 124 votos a seu favor.

O jornal O Globo afirma que dona Dilma dispõe de 258 votos a seu favor.

Que significa essa diferença? Significa que ninguém sabe de nada. Quem disser que sabe estará mentindo.

A resposta só virá no dia da votação depois de o último parlamentar ter declarado o voto. Antes disso, tudo não passa de especulação.

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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Palestras do Lula

Cláudio Humberto (*)

O ex-presidente Lula se enrola para explicar como faturou R$ 52,3 milhões, inclusive com sua empresa de palestras – a Lils (suas iniciais) – entre 2011 e 2014.

Lula caricatura 2Lula jurou que sua receita vem de “palestras”, que, curiosamente, não são encontradas nas redes sociais. Tampouco no YouTube, onde palestrantes profissionais divulgam seu trabalho. O Instituto Lula se recusa a informar a lista de palestras do ex-presidente.

Se Lula tiver trabalhado os 1460 dias de 2011 a 2014, os R$ 52,3 milhões que ganhou com palestras representam R$ 35,8 mil por dia(!).

A movimentação financeira milionária nas contas de Lula foi detectada pelo Coaf, órgão de inteligência do Ministério da Fazenda.

A mídia segue Lula diariamente, mas só há registro de poucas palestras em grandes empresas, tipo LG, Santander, Itaipava e Caixa.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Fim do voto eletrônico

José Horta Manzano

Dizem que o saco de Papai Noel anda meio vazio e que, este ano, muitos se deverão contentar com presente magro. Se presente houver. Bom, reconheçamos que todo ano dizem a mesma coisa. Assim mesmo, este Natal leva jeito de ser ainda menos folgado que os anteriores.

Papai Noel 4Na esfera pessoal, o que acabo de dizer é verdadeiro. No entanto, ainda que nem todos se deem conta, o bom velhinho já trouxe um presentão para o aperfeiçoamento da democracia brasileira: acabou-se o voto eletrônico! Não é esperança nem suposição: saiu no Diário Oficial de ontem. A maquineta de que meio mundo desconfia vai para o museu das antiguidades obsoletas. Fará companhia à palmatória, à galocha e ao toca-fitas.

De maneira sutil e elegante – atitude rara nestes tempos brutais – o abandono foi atribuído à falta de dinheiro. Tenho cá minhas dúvidas. Se as 400 mil urnas ainda tivessem de ser compradas, podia até ser. Mas elas já existem. Organizar a votação e a logística é gasto que terá de ser feito de qualquer maneira, seja o voto eletrônico ou tradicional.

Urna 9É permitido supor que o pessoal do andar de cima tem sentido a pressão da opinião pública. Anestesiada durante dez anos pela falácia de um governo que se autodefinia como «popular», a nação deu mostra de haver despertado. Começou, bruscamente, com os protestos de junho de 2013. Continuou com a monumental vaia à presidente no jogo de abertura da Copa. De lá pra cá, os escândalos do petrolão trouxeram a todos nós mais emoção que final de novela. Não passou uma semana sem revelação escabrosa. Coisa nunca antes vista nessepaiz.

Já disse e repito que nunca ouvi falar de país, além do nosso, que se valha unicamente do voto eletrônico – sem controle e sem comprovante – para eleger representantes. É, como se diz, uma ‘jabuticaba’, uma exclusividade nacional. Jabuticaba bichada.

Urna 5Se o voto tradicional, com cédula e urna transparente, for mantido nas eleições de 2018, pode o distinto leitor ter certeza: saberemos, finalmente, quem são os escolhidos pelo povo brasileiro. Dificilmente serão os mesmos que hoje lá estão. As dúvidas sobre a lisura do pleito desaparecerão.

Alegremo-nos, irmãos, com a melhor notícia do mês – verdadeiro presente de Natal adiantado!

Os jabutis de senhor Cunha

José Horta Manzano

Animal 09A malandragem nacional não tem limites. Com certeza, o distinto leitor já ouviu falar dos “jabutis”, nome curioso dado a emendas bizarras que parlamentares tentam enxertar em MPs em tramitação no Congresso.

São penduricalhos que nada têm a ver com o tema central do projeto. Trata-se de ardil para apanhar incautos. Distraído, o deputado pode até votar a favor de uma MP sem se dar conta de que ela carrega, de contrabando, dispositivo ao qual ele nunca daria seu voto consciente.

Animal 08Senhor Eduardo Cunha, personagem cuja fama hoje se esparrama pelo território nacional, é presidente da Câmara. Por quanto tempo, ninguém sabe. Em agosto de 2011, quando o deputado era líder do PMDB, a OAB rejeitou seu nome para relatar a reforma do Código de Processo Civil. A razão alegada foi a ausência de formação jurídica do parlamentar.

Rancoroso e vingativo, senhor Cunha inscreveu a OAB em sua lista de desafetos. E jurou “implodir” a Ordem. Imediatamente após ser rejeitado, apresentou projeto de lei para abolir a exigência de exame da Ordem para todo bacharel que aspire ao título de advogado. Não teve sucesso.

Animal 10Desde então, o (ainda hoje) presidente da Câmara não sossegou. A cada MP que se apresenta, tenta adicionar um penduricalho para acabar com o exame da Ordem. Matéria publicada em maio 2013 pelo Portal Último Segundo conta que, das 17 MPs votadas ou em tramitação no Congresso naquele ano, 11 continham um “jabuti” incrustado por senhor Cunha pedindo a extinção do exame da Ordem. O homem é tenaz, do tipo que guarda mágoa em geladeira.

O afastamento do rancoroso parlamentar parece ser questão de tempo. A gente chega a se perguntar, aliás, como é possível que ainda esteja ocupando a cadeira-mor da Câmara. Assim que ele cair, a Ordem dos Advogados do Brasil há de respirar aliviada.

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PS: Matéria do Estadão desta segunda-feira informa que Eduardo Cunha acaba de ser sancionado pelo Tribunal Federal Suíço por tentativa de atravancar a comunicação de seus dados bancários às autoridades brasileiras. Recebeu pena pecuniária. Mas o Ministério Público suíço não enterrou a possibilidade de processá-lo criminalmente por lavagem de dinheiro.

COP21 e as oportunidades perdidas

José Horta Manzano

A 21a edição da Conferência Internacional sobre o Clima tem lugar em Paris. Começa hoje e termina amanhã. O nome oficial – COP – é contração da expressão COnferência das Partes. Em princípio, todas as partes interessadas na evolução do clima estão representadas. No fundo, todos os países.

Cop 21A primeira COP realizou-se em 1992 no Rio de Janeiro. Collor de Mello, nosso mandatário de então, presidia. De lá pra cá, os coabitantes do planeta já se reuniram uma vintena de vezes para discutir sobre modificações climáticas. As esperanças são sempre enormes, mas os resultados costumam desapontar. É muito difícil pôr de acordo tanta gente. Dado que os interesses de determinados países colidem com os de outros, é difícil encontrar meio-termo.

Paris está em pé de guerra. Pudera: são 195 delegações nacionais, 147 delas encabeçadas pelo chefe de Estado. Essas delegações totalizam 25.000 componentes. Outras 25.000 pessoas – repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, cientistas e gente do ramo – completam a lista de visitantes.

Cinquenta mil hóspedes assim, da noite pro dia, não é fácil de gerir. Ainda mais numa cidade que acaba de sofrer importantes atentados terroristas. Os parisienses foram incentivados a não sair de casa na segunda-feira. Quem puder, que tire um dia de férias. As autoridades pedem que só metam o nariz na rua aqueles que tiverem absoluta necessidade.

Internacional 1Por reunir dezenas de chefes de Estado, megaconferências costumam ser palco de reuniões paralelas, conversas de bastidores. Como se sabe, grandes decisões e bons acertos costumam ser alinhavados nesses encontros fora dos holofotes.

Dona Dilma, num esforço desesperado para comprir metas fiscais, tomou a constrangedora decisão de anular viagem ao Japão e ao Vietnã programada para a semana que entra. A COP21 favorece encontros bilaterais – desde que haja vontade de ambas as partes. Seria razoável supor que a presidente se preparasse a aproveitar a estada em Paris para trocar pontos de vista com os mandatários extremo-orientais que não poderá visitar.

Dilma Evo CorreaIsso era sem contar com a influência do inefável aspone Marco Aurélio «top-top» Garcia, personagem movido por lógica pessoal, diferente da nossa e frequentemente estranha aos interesses do Estado brasileiro. Entre 146 chefes de Estado, sabem os distintos leitores quais foram os escolhidos para um bate-papo neste domingo? Apenas quatro: a primeira-ministra da Noruega, um representante do Caribe, o presidente do Equador e… o presidente da Bolívia. Para nossa política externa, a conferência universal será tão proveitosa quanto uma reunião de condomínio.

Ir até Paris (com nosso dinheiro) para encontrar-se com Rafael Correa e Evo Morales, nossos vizinhos de parede? Francamente. Tendo à mão tanta gente de maior peso para os interesses brasileiros – grandes clientes, importantes fornecedores, fortes parceiros comerciais – por que deixar passar a ocasião? É de chorar.

Reação tardia ou intencional?

José Horta Manzano

«A presidente Dilma Rousseff vai editar um decreto de programação financeira com bloqueio de R$ 10,7 bilhões em despesas discricionárias como água, luz, fiscalização da Receita, da Polícia Federal a partir de 1º de dez°. A decisão segue a orientação do TCU e põe o governo em estado de calote.»

Tricher 1Acabo de citar matéria do Diário do Poder. Se for verdade – e tudo indica que é – está aí a evidência de que nosso Executivo sulca o Mar dos Sargaços, aquele atoleiro marinho que tanto assustou navegadores no século XVI. A água entorno está coalhada de algas traiçoeiras que perigam, a todo momento, se enroscar na hélice e paralisar a nave.

Teria o distinto leitor ideia do que sejam 11 bilhões de reais? Dificilmente. Tirando meia dúzia de terráqueos do tipo Bill Gates e Warren Buffett, essa quantia está fora de nosso referencial. A imagem mais aproximada é a de um quarto cheio de notas graúdas. Do chão ao teto.

Em vez de cortar na própria carne, como seria razoável, dona Dilma decidiu cortar em carne alheia. Não cogita dispensar funcionários supérfluos nem extinguir boquinhas tão apetitosas quanto inúteis. O corte será feito em despesas essenciais como água, luz e… Polícia Federal. É sintomático.

Tricher 2Embaixadas e representações brasileiras no exterior já foram avisadas que a torneira secou. Como todos sabem, dona Dilma, alérgica a relações exteriores, considera inútil toda despesa feita nesse ramo. A menos que se destine a ditaduras companheiras naturalmente.

Já a diminuição de verbas da Polícia Federal não é de natureza ideológica – o buraco é mais fundo. Dona Dilma há de supor que a supressão de verbas vá frear o ímpeto da PF. Os do andar de cima andam apavorados com a ideia de não mais serem os eternos vencedores do jogo de cartas marcadas ao qual se acostumaram estes últimos anos.

Grande burrada

José Horta Manzano

Para o Lula, tentativa de Delcídio de barrar a Lava a Jato foi uma grande burrada.

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Burro 3Esse foi o título de matéria publicada pelo Estadão de 26 novembro. A declaração de nosso guia, proferida em fino e típico linguajar, foi dada num almoço havido na sede da CUT, em São Paulo.

O encontro era particular, do tipo ação entre amigos. No entanto, sacumé, ninguém consegue costurar língua alheia. Sempre há os que saem por aí dando nos dentes. Segredo confessado a uma pessoa – umazinha só – deixa de ser confidência.

Burro 4Provocado por companheiros que botaram o termômetro pra medir a reação do chefe, o Lula tentou escapulir. Com respostas lacônicas do tipo “que absurdo!” ou “que loucura!”, imaginou esgueirar-se. Não deu certo. Os comensais da boca-livre exigiam mais. Sem estender-se em longo discurso, o demiurgo declarou que o que o senador fez “foi uma grande burrada”.

Burro 5Todos entenderam que o Lula se estivesse referindo ao mérito. Interpretaram o pronunciamento como censura e repúdio às intenções criminosas do senador. Quanto a mim, habituado que estou a observar mui atentamente o ex-metalúrgico, entendi diferente. E acho que não estou enganado.

Mais adiante, o artigo do Estadão diz que, para o Lula, o senador preso é político experiente, sofisticado, que não poderia ter-se deixado gravar de forma simples como foi feito por Bernardo Cerveró.

Burro 6Pronto, para mim, esse complemento de informação deixou as coisas claras. Ao acusar Delcídio de haver cometido “uma grande burrada”, o antigo presidente da República não alude ao mérito, mas à forma. A grande burrada foi ter caído na armadilha. Nosso guia não censura os planos do senador, mas a ingenuidade na execução. Pouco importa que projetos urdisse, desde que agisse discretamente e resguardasse os malfeitos de comprometedora exposição pública.

Por enquanto, fica no ar a pergunta: por que será que o senador teme e treme ante revelações que possam ser feitas? Que segredos escabrosos ainda estão por vir? No próximo capítulo da Lava a Jato, saberemos.

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Burro 7PS: Tenho grande simpatia pelo burro – falo do animal, não de demiurgos nem de senadores. Acho deveras injusto atribuir o epíteto de burro a humano de pouca inteligência.

Suficientemente rica, a língua cobre a supressão do humilde animal. Tapado, idiota, bronco, ignorante, parvo, estulto, tolo, estúpido, imbecil, lerdaço, néscio, inepto, palerma dão o mesmo recado.