Alinhamento automático

José Horta Manzano

Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.

De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.

Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?

Banquete medieval

Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.

Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.

Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.

Tudo errado

José Horta Manzano

Contra a atual corrente que leva pequenos Estados a unir forças para atingir «massa crítica», como se costuma dizer, o movimento independentista tem-se exacerbado na Catalunha, uma das regiões autônomas que formam o Reino da Espanha. Liberdade de usar a própria língua e permissão de ser dirigidos por governo autônomo não lhes parecem suficientes. Muitos catalães querem cortar o cordão umbilical e conseguir independência total.

As motivações são tão diversas quanto o número de adeptos da independência: cada um tem avaliação própria do assunto. Não há um objetivo único. Cada cidadão tem sua visão pessoal. Visto assim, de fora, é difícil entender.

Entre os partidários da separação, há de tudo. Alguns se sentem oprimidos pelo governo central, como se não passassem de colônia de Madrid. Outros, menos altruístas, julgam que o fato de não serem independentes atravanca o progresso da região que, afinal, tem o PIB per capita mais elevado do país. Há ainda os ressentidos, aqueles que viveram os anos da ditadura franquista e não conseguem esquecer o (longo) tempo em que, rebaixados e humilhados, não tinham sequer o direito de utilizar a própria língua.

Do outro lado da cerca, estão os que se opõem à separação. Mais realistas, dão-se conta de que a Espanha é o maior comprador da produção catalã e que, sem esse importante cliente, a produção local periga desabar. Muitos se lembram também de que, uma vez independentes, serão automaticamente excluídos da União Europeia. Para toda nova admissão no clube, a regra exige aprovação unânime. É aí que a porca torce o rabo: como conseguir aprovação da Espanha? Não será tarefa simples. Tem mais. Os mais idosos se perguntam quem garantirá sua pensão de velhice? E a questão da nacionalidade, como é que fica? Que fatores determinarão quem será e quem não será catalão? E a dupla nacionalidade será reconhecida? E a moeda ‒ obterão permissão para continuar dentro da zona do euro?

Muitas são as questões em aberto. Tenho, cá pra mim, a impressão de que, se Madrid permitisse a realização do plebiscito, o resultado poderia ser decepcionante para os independentistas. Embora sejam muito barulhentos, nada garante que sejam majoritários.

Por seu lado, a atitude que está sendo tomada pela Espanha é prepotente e antipática. Proibir a consulta popular, confiscar urnas e cédulas de voto pode ficar bem numa Venezuela. Na Espanha, não combina. Antipatia gera antipatia. Prepotência provoca violência. O empenho de Madrid em impedir a realização do plebiscito deixa a impressão de que o direito à independência está sendo negado a uma imensa maioria de cidadãos. Pode ser que não passem de minoria. Sem plebiscito, quem saberá?

Entendo que a Espanha não queira ver seu território amputado de uma região importante. Assim mesmo, julgo que, se os catalães querem seguir o próprio caminho, que assim seja. Tchau e bênção. Madrid deveria adotar atitude menos prepotente. O fato de proibir o atual plebiscito não sufocará o anseio independentista de muitos catalães. Melhor seria deixar que votassem. Se, como imagino, o voto unionista fosse majoritário e o plebiscito confirmasse isso, os ânimos se acalmariam por dez anos pelo menos.

Nota
O território da Catalunha, cuja capital é a cidade de Barcelona, se estende por 32 mil quilômetros quadrados, pouco mais que nosso estado das Alagoas. Conta com 7,5 milhões de habitantes, um pouco mais que a população do estado do Maranhão.

Florão da América

José Horta Manzano

Querem uma prova de como a gente sai formatado da escola? Aprendemos todos que, em 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. E aprendemos também que oito anos antes, em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo tinha descoberto a América.

Fatos excludentes não podem coexistir. Se um for verdadeiro, o outro não o será. Se a América já tinha sido ‘descoberta’, o Brasil não podia usufruir de descobertazinha particular, só pra ele. A não ser que não faça parte da América. E vice-versa. Se o Brasil foi realmente descoberto em 1500, a descoberta do genovês Colombo se restringiu à Ilha Hispaniola, que abriga hoje o Haiti e a República Dominicana. Portanto, não se lhe deve atribuir o achamento da América.

Não me recordo que alguém tenha apontado essa flagrante incongruência nas aulas de História de então. Foi só alguns anos depois que a contradição me pareceu evidente. Já era tarde demais pra questionar a professora. Ignoro se a perspicácia dos estudantes de hoje é mais aguda.

Na segunda série do antigo ginásio ‒ que mudou de nome e hoje corresponde ao sexto ano de estudo ‒ o ensino da História era dividido em duas matérias, lecionadas por professores diferentes. Um dava História Geral enquanto outro ensinava História da América. Nas aulas de um, dava-se uma perpassada na história da civilização europeia e médio-oriental, dos Sumérios à Revolução Francesa. Nas do outro, adquiria-se uma visão geral do Novo Mundo, que começava com os ameríndios, passava por Colombo, pelos peregrinos do Mayflower, mencionava as façanhas de Bolívar e de San Martín, mostrava pinceladas da Guerra de Secessão e chegava até a independência de Cuba, última colônia ibérica na América.

Naquela época, enxergávamos a América como um todo do qual o Brasil fazia parte. Aliás, está aí nosso hino que eleva o país ao pedestal de «florão da América»(*). De uns decênios pra cá, a noção tem-se esvaído. Embora não tenha sido o iniciador dessa tendência, o lulopetismo deu-lhe boa acelerada. Em virtude de virtual amputação, a América desmembrou-se entre América Latina e as antigas colônias britânicas do norte. Antigas possessões francesas e holandesas ficaram no meio do caminho, sem estatuto definido.

Ficou esquisito. De um lado, temos hoje a América Latina, formada essencialmente pelas terras colonizadas pelos ibéricos. De outro, a América (tout court, sem adjetivo), formada pelas ex-colônias inglesas. A gente fica sem entender por que isso foi feito. Será por ideologia? Mas… de que ideologia estamos tratando? Será por rejeição da língua inglesa? Mas… se é a primeira língua que todo latino-americano anseia aprender. Será por afinidade? Mas… por que o Brasil estaria mais afinado com Honduras e com a República Dominicana do que com os EUA ou com o Canadá?

Um doce pra quem apontar a razão dessa bizarrice.

(*) No sentido próprio, florão é o ornamento em forma de flor que se destaca na fachada de catedrais góticas. O termo é mais usado em sentido figurado ‒ como em nosso hino ‒ com o significado de joia, coisa preciosa. Portanto, florão da América = joia da América.

Organização dos Estados Americanos

José Horta Manzano

Desde que os primeiros europeus aportaram no continente americano, começaram a surgir estabelecimentos estáveis e permanentes. Ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, holandeses se fixaram ao longo da costa.

Com o passar do tempo, colônias inglesas, portuguesas e espanholas se mostraram mais vigorosas que as demais. À custa de muito enfrentamento e muita briga ‒ tudo temperado com boa pitada de vaidades pessoais ‒ as colônias primitivas foram-se sentindo cada dia mais fortes para pleitear independência da metrópole. Após pouco mais de três séculos de colonização, a maior parte do território tinha alcançado independência. Uma vintena de novos Estados havia surgido.

OEA 1A linha histórica comum a todos incentivou-os a criar um foro de encontro e discussão. A ideia, que já vinha das primeiras décadas do século 19, foi tomando corpo com os anos. A forma atual foi sacramentada com a adoção da Carta de 1948, quando todos os países americanos independentes aderiram à Organização dos Estados Americanos.

Por seu peso econômico e militar, os EUA sempre representaram papel importante no bloco. No entanto, tirando um ou outro esporádico atrito aqui e ali, essa situação não incomodou a maioria. Isso durou até o fim do século 20.

Os anos 2000 trouxeram mudanças significativas que viriam balançar o coreto. Governantes populistas e pseudonacionalistas pipocaram em diversos países do continente. Venezuela, Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Honduras, Nicarágua sofreram as agruras que esse tipo de medalhões costuma gerar. Pouco a pouco, os regimes vão caindo de podres. Mas as consequências da corrupção e da incompetência se farão sentir por muitos anos.

OEA 2No auge do movimento populista, dirigentes se mancomunaram na defesa de seus interesses. Como outros governantes autoritários registrados pela História, julgavam-se inamovíveis e definitivamente instalados. Nosso guia juntou-se aos pranteados Chávez e Kirchner para fundar uma nova organização. No fundo, funcionaria exatamente como a OEA, com uma grande diferença: os EUA não seriam admitidos no clube.

E assim foi feito. Criou-se a Unasur, que as más línguas apelidam de União dos Cucarachas. Lula, Chávez, Kirchner & companhia exultaram por ter mandado a OEA para escanteio. Enfim, livres dos imperialistas!

Interligne 18h

Estes dias, em desespero de causa, os advogados de dona Dilma estão queimando os gravetos de que ainda dispõem para alimentar fogareiro moribundo. Algum assessor, brilhante como os demais, teve a genial ideia de denunciar, pela milésima vez, o «golpe» desferido contra a (ainda) presidente.

Diabo 3Para obter maior eco internacional, foi escolhida naturalmente a Unasur, certo? Errado, distinto leitor. Engolindo cobras, lagartos e jacarés, apelaram para… a Organização dos Estados Americanos. Ai, ai, ai… Pedir socorro aos odiados «loiros de olhos azuis», que vergonha! Só faltava isso.

Nossa idolatrada líder declarou, um dia, que, nas eleições, «se faz o diabo». Agora fica claro que não é só nas eleições

Falta de tacto ou desaforo?

José Horta Manzano

Não me canso de apontar a enxurrada de erros primários que tem encharcado nossa diplomacia desde que o «governo popular» se aboletou no Planalto. O inspirador de grande parte dessas iniciativas calamitosas é senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, assessor que dispõe de cadeira cativa: entrou em função no primeiro governo do Lula e está lá até hoje.

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Pode até nem parecer, mas esse senhor não é nenhum ignorantão. Estudou, tem formação. Seu problema – que acaba apequenando a diplomacia brasileira – é a fixação numa ultrapassada visão terceiro-mundista. Seu pensamento ficou ancorado no mundo dos anos 1960 e 1970, quando Nasser, Indira Gandhi e Tito tentavam escapar (sem realmente conseguir) da dualidade da Guerra Fria. Hoje, essa dicotomia não faz mais sentido.

Política externa não é o forte do Lula nem de dona Dilma. Tanto ele quanto ela decidiram abandonar esse importante espaço. Na falta de luminares, sobrou para senhor «Top-top». Que fazer? Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Interligne 18c

Cônsules e embaixadores são enviados temporários. Dependendo das normas e da conveniência do Estado que representam, permanecem alguns meses ou alguns anos em cada missão. Em seguida, como numa dança de cadeiras, são removidos e despachados a outro país.

O posto de embaixador de Israel em Brasília vagou. O primeiro-ministro daquele país decidiu indicar senhor Dani Dayan para preencher o cargo. O governo brasileiro foi informado. Em princípio, o país receptor dá sua aprovação ao cabo de duas ou três semanas. Neste caso, passadas oito semanas, nosso Planalto se fecha num silêncio ensurdecedor.

Em artigo de 10 dez° 2015, o jornal The Times of Israel acredita ter entendido a razão da atitude de Brasília. O embaixador designado é notório ativista conhecido por seu empenho na causa da implantação de colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.

Relações internacionais by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Relações internacionais
by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Ao que tudo indica, em julho de 2014, quando tratou o Brasil de «anão diplomático», o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense não estava usando figura de linguagem. Estava realmente expressando a convicção dos mandachuvas daquele país. A designação do novo embaixador é a prova flagrante.

Se enviassem esse senhor para um país pequeno e inexpressivo, o fato passaria despercebido. Nomeá-lo para representar Israel no Brasil é, no mínimo, falta de tacto. Na pior das hipóteses, é desaforo.

Grande e populoso, nosso país conta com importante comunidade de confissão judaica. Além disso, Brasília já mostrou sua desaprovação quanto à persistência de Israel na política de implantação de colônias em território ocupado.

As credenciais do novo embaixador dificilmente serão acolhidas pelo Planalto. Desta vez, justiça seja feita, não se pode atirar pedra no “top-top”. A aceitação desse diplomata seria interpretada como conivência com a ocupação da Cisjordânia, atitude que o atual governo brasileiro desaprova. E eu também.

O Brasil e a pobreza da Guiné

José Horta Manzano

Confesso que sinto dificuldade pra acompanhar a linha de ação de nossa diplomacia.

Levando em conta o princípio básico de que diplomacia é prerrogativa do Estado – a cujos interesses deve servir – a atuação bipolar de nosso governo de turno é desconcertante. Ressalve-se que ‘bipolar’ é expressão moderna e chique. Até alguns anos atrás, diríamos que o Itamaraty age ‘de veneta’, de forma lunática, em zigue-zague.

A África conta com três países que incluem Guiné no nome. Para fazer a diferença, é costume dizer: Guiné-Bissau (antiga colônia portuguesa), Guiné-Conakry (ex-colônia francesa) e Guiné Equatorial (minúsculo território cujo dono anterior era a Espanha). Esta última é aquela onde o Lula foi perguntar ao ditador (e dono) atual como é que se faz pra ficar 38 anos no poder. Não minto: foi nosso guia mesmo quem contou.

Guiné 1A Guiné-Conakry, com território equivalente ao do Estado de São Paulo, já conheceu turbulência no passado. Atualmente, vive período de calma relativa. Assim mesmo, falta um bocado pra atingir patamar aceitável de desenvolvimento.

Seu portal de informação – GuineeNews –publica entrevista com o embaixador do Brasil em Conakry. Num acesso de soberba, o diplomata declara que é «difficile de comprendre que vous soyez si pauvres»difícil entender que vocês sejam tão pobres.

Ora, todos sabem que as riquezas naturais e o trabalho da África sub-saariana, antes confiscados pelo colonizador, estão sendo abocanhados por ditaduras sangrentas, ávidas e insaciáveis. O diplomata faz cara de paisagem para os espoliadores atuais. Prefere fixar-se nos antigos rapinantes. Faz questão de deixar claro que o Brasil não tenciona se apoderar de riquezas guineanas. «O Brasil não precisa tomar o que a Guiné tem» – declara ele. E continua: «Vocês têm ouro, nós temos ouro. Vocês têm bauxita, nós também.»

E não pára por aí. O embaixador faz questão de remexer a faca na ferida. Ele se pergunta como é possível que o Brasil tenha chegado lá enquanto a Guiné ainda engatinha. Ao final, emite o julgamento: segundo ele, os guineanos precisam “organizar-se para ver a luz no fim do túnel”.

Blabla 2Santo Deus, quanta arrogância! Não precisa ser especialista pra entender que o Brasil chafurda num mar de lama, desorganizado, bagunçado, rapinado, depredado, longe de ver a luz no fim do túnel.

O representante de um país que mal consegue manter em dia o pagamento de contas de manutenção de suas embaixadas não está em condições de dar lições a quem quer que seja. Fosse eu guineano, me sentiria incomodado.

Fica a impressão de que os quadros do Itamaraty andam fazendo pronunciamentos sem sentido nem utilidade, só pra bater cartão. Se há alguma intenção oculta por detrás disso tudo, não identifiquei. Só espero que não tenha nada a ver com financiamento de grandes obras pelo BNDES. Já basta.

Até o Vietnã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Vietnam 2Em superfície, o pequeno Vietnã, situado na península indochinesa, é o 64° entre os países. Para compensar, é densamente povoado. Com seus quase 90 milhões de habitantes, aparece classificado em 14° lugar.

Em meados do século 19, a França tomou conta da região e fez dela a colônia conhecida como Cochinchina(1). À custa de mais de 20 anos de luta, o território conseguiu se livrar dos franceses. Os acordos de independência foram assinados em 1954.

O sossego não teve vida longa. Dez anos depois, o país foi invadido pelos americanos, que tinham por objetivo barrar a ameaça comunista vinda da vizinha China. A guerra foi terrível e desigual. De um lado, estava o exército mais poderoso do planeta; do outro, viam-se combatentes de pés descalços.

É verdade que a China e a União Soviética deram sólido apoio. Mas há que se reconhecer o valor dos pequenos vietnamitas. Acabaram despachando os americanos de volta pra casa. A briga entrou para a história como a única guerra oficialmente perdida pelos EUA. Uma façanha!

Do país destroçado de quarenta anos atrás, surgiu um novo Vietnã à força de muito trabalho. Turismo, exportação de peixes, de crustáceos, de café e de outros produtos agrícolas formam hoje a base da receita. Já faz anos que o crescimento do PIB é superior a 5% ao ano.

Artigo do portal VietnamPlus de 4 jan° 2015 informa que o comércio com o Brasil movimentou 3 bilhões de dólares nos 11 primeiros meses de 2014. Prevê-se forte aumento para estes próximos anos.

O Vietnã exporta manufaturados ao Brasil: telefones celulares, fibras artificiais, sapatos, sandálias(!). Nossas exportações para aquele país constituem-se, essencialmente, de produtos agrícolas: milho, soja, tabaco, algodão.

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte (arroz de banhado)

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte
(arroz de banhado)

Parece-me paradoxal que um país com importante parque industrial como o Brasil tenha de importar celulares, sapatos e sandálias(!) do Vietnã. Parece que o mundo está de cabeça pra baixo. Nós é que deveríamos estar exportando esses produtos para eles.

Por que é que, em vez de saquear a Petrobrás, nossos governantes não se preocupam em apoiar e fomentar a pequena indústria brasileira? Por outro lado, como é possível que os mesmos elementos(2) continuem sendo sufragados, eleição após eleição? Será que a casa não vai cair um dia?

(1) Atenção! Não é Conchinchina. É Cochinchina – a letra o não é nasalizada. Pronuncia-se como se fosse Co-chinchina.
(2) No jargão policial, meliantes costumam ser designados como
elementos.

No llores por mi

José Horta Manzano

Não é de hoje que a história dos dois vizinhos ibéricos, Portugal e Espanha, se entrelaça. Condenados a uma proximidade física incontornável, os dois países já viveram momentos de tensão, de briga, de reconciliação. Houve até um longo período de unificação, que os espanhóis conhecem como «união fraterna» ou «união dinástica», enquanto os portugueses o chamam «domínio espanhol» quando não «abominável dominação castelhana».

Críquete

Críquete

Na época das grandes navegações, a partir de 1450, a concorrência entre os dois reinos se acirrou. No entanto, o sentimento de nacionalidade, tal como o conhecemos hoje, ainda não estava ancorado nos espíritos. Decisões pessoais e procedimentos individuais que atualmente poderiam se assemelhar a uma traição à pátria eram encarados com naturalidade.

Sem o menor sentimento de culpa, navegadores espanhóis punham-se ao serviço do rei de Portugal, assim como portugueses serviam à Casa Real espanhola. O ultraconhecido Fernão de Magalhães, o primeiro a comandar uma expedição que deu ― reconhecidamente ― uma volta completa ao planeta, era português. Mas navegou a serviço da coroa espanhola.

Quase um século depois de Magalhães, um outro português, nascido em Évora em 1565, também se pôs a explorar novas terras a serviço do rei da Espanha. Chamava-se Pedro Fernandes de Queirós, nome que às vezes aparece castelhanizado em Fernández de Quirós.

Naquela época já se intuía que devesse existir um grande continente austral. As nações mais bem equipadas para fazê-lo lançavam periodicamente expedições em busca de novas descobertas.

Alguns historiógrafos já tentaram demonstrar que Fernandes de Queirós foi o primeiro europeu a avistar as costas australianas, décadas antes de Tasman e de Cook. Os documentos que nos chegaram, no entanto, não trazem a prova incontestável de tal primazia.

Muitos acreditam também que o navegante português tenha sido o primeiro europeu a chegar à ilha de Tahiti, em 1606. Se a grande ilha onde desembarcou a expedição era realmente Tahiti, é difícil afirmar. Nenhuma prova sobreviveu. A descoberta oficial da ilha é atribuída a uma expedição britânica que lá acostou 150 anos mais tarde.

Tahiti

Tahiti

Depois de seu achamento, a ilha foi objeto de disputa entre ingleses e franceses, uma história longa e acidentada. Em 1877, o último rei autóctone abdicou do trono em favor da França. Desde então, Tahiti perdeu sua soberania e tornou-se colônia francesa.

O termo colônia, em desuso há mais de 50 anos, é hoje politicamente inaceitável, quase ofensivo. As antigas dependências francesas hoje são conhecidas como departamentos ou territórios ultramarinos.

Tahiti faz parte da Polinésia Francesa, coletividade subordinada a Paris. A língua oficial da ilha é o francês, mas o falar originário guardou sua vivacidade. A maioria da população é bilíngue. Na política, persiste uma forte corrente a favor da independência do território.

Les Nouvelles de Tahiti 24 junho 2013

Les Nouvelles de Tahiti
24 junho 2013

Tahiti não é terra de futebol. Fica até difícil entender por que a fraca seleção local foi chamada a participar de um torneio como a Copa das Confederações. Por mais que os jogadores sejam simpáticos, há uma discrepância gritante ― em matéria de excelência futebolística ― entre o nível tahitiano e o das demais equipes.

De qualquer maneira, a leitura dos jornais locais desta segunda-feira deixa claro que os resultados da Copa não fazem parte das preocupações principais do povo de lá. Nenhum dos dois principais quotidianos faz, na primeira página, menção alguma ao evento que nós outros julgamos planetário. Para você ver…

La Dépêche de Tahiti 24 junho 2013

La Dépêche de Tahiti
24 junho 2013

As derrotas acachapantes sofridas pela sorridente seleção polinésia abalaram mais os brasileiros que os tahitianos. É mais ou menos como se a seleção brasileira de críquete ou de beisebol fosse esmagada por adversários mais fortes. Poucas lágrimas correriam.