Reflexões – 2

José Horta Manzano

Fugiu da escola
Em 16 de fevereiro, Bolsonaro esteve em Moscou. Foi recebido por Vladímir Putin. Diante das câmeras, expressou solidariedade com a Rússia. Em seguida, confidenciou o seguinte: “A leitura que eu tenho do presidente Putin é que ele é uma pessoa também que busca a paz.

Exatamente oito dias depois, as tropas de Putin (aquele que “busca a paz”, segundo Bolsonaro), invadiram a Ucrânia, um país independente e soberano. Vê-se que o capitão deve ser péssimo estrategista, visto que é bem ruinzinho de leitura. Devia voltar pr’a escola.

Brics
O capitão está aperreado com a reunião do Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, prevista para junho próximo em formato virtual. Encarregada da organização, a China não fala em cancelamento do encontro. Nem há por que cancelá-lo. Portanto, ele deve ocorrer.

Uma semana depois de Bolsonaro ter prestado “solidariedade à Rússia”, Putin deu sinal verde a seus exércitos para a invasão da Ucrânia. Ao agir assim, tornou-se um pária  e foi banido dos países mais avançados (Europa ocidental, América do Norte, Japão, Austrália). O banimento deve durar por muitos anos.

O capitão está metido numa saia justa.  Precisa ter em mente que ele próprio também está sendo olhado de soslaio pelos dirigentes de países decentes. O encontro do Brics está cada vez mais parecendo um fórum de autocratas confirmados e aspirantes a autocrata. Faltar a uma reunião virtual não pega bem, visto que, salvo uma crise de intestino solto, não há desculpa.

Então, vai ou não vai?

China
O que devia incomodar o capitão é outra coisa. A organizadora do evento é a China “comunista”, que ele escolheu como sua arqui-inimiga favorita. Virtual ou não, participar da reunião é como entrar na casa do inimigo! Será que os devotos não vão se escandalizar?

Até na hora de escolher seu pária favorito ou seu inimigo preferencial o capitão se empepina.

Quem vai ganhar a guerra?

José Horta Manzano


Como diz o outro, fazer prognósticos é muito difícil, especialmente para o futuro.


Pra responder à pergunta “Quem vai ganhar a guerra?”, é preciso primeiro saber o que se entende por “ganhar a guerra”.

Rússia
Para a Rússia, ganhar a guerra consistiria numa anexação pura, em que a Ucrânia seria engolida inteira, crua, sem mastigar. A crer nas falas de Putin, a vitória seria coroada pela total ‘desnazificação’ do país – o que subentende a derrubada do governo atual e sua substituição por um governo vassalo. O ditador russo cometeu a afronta de afirmar que a Ucrânia não existe como país, que não passa de uma invenção de prancheta, que aquele território foi, é e sempre será russo.

Decorridos dois meses desde o início da invasão, vai ficando evidente que a Rússia não tem como atingir os objetivos fixados. Submeter e ocupar um país cabisbaixo e desarmado é uma coisa; vencer e se apossar de um país habitado por gente bem armada e disposta a defender seu solo palmo a palmo é outra coisa. Nem o analista mais pró-Putin consegue vislumbrar a bandeira russa ondulando no topo de todas as prefeituras do país.

Nesses termos, a Rússia, desde já, perdeu a guerra. Movimenta-se, agita-se, ameaça o mundo com guerra nuclear. Mas não passa de figuração – pelo menos, é o que se espera. É ponto pacífico que não atingirá os objetivos iniciais.

Ucrânia
Para a Ucrânia, a vitória seria a total expulsão do exército russo do território pátrio, incluindo Crimeia e Donbás. Seria a reconquista de todo o terreno que as tropas russas ocuparam nestes meses de guerra. Impossível não é, mas não será tarefa fácil. A Ucrânia tem drones, mas não tem mais aviação. Tem mísseis antitanque, mas não tem mísseis de longo alcance. Não dispõe de forças navais. Nesse particular, por mais que o Ocidente forneça armamento aos ucranianos, os meios da Rússia serão sempre superiores.

A Ucrânia está semidestruída. Suas cidades foram bombardeadas, aeroportos estão impraticáveis, pontes foram dinamitadas, edifícios, teatros e hospitais foram pulverizados, a infraestrutura foi seriamente danificada.

Nesses termos, pode-se dizer que também a Ucrânia, desde já, perdeu a guerra.

Conclusão
A fim de evitar uma longa guerra de posição, como não se via desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as partes beligerantes terão de sentar-se ao redor de uma mesa e chegar a um acordo. Nenhum dos lados vai atingir seus objetivos. Mas não há outro jeito. Em seguida, cada dirigente poderá apresentar a seu povo a “narrativa” que lhe parecer mais conveniente.

A grande ganhadora deste conflito está a milhares de quilômetros do front. É a China, que, sem disparar um tiro, tem agora a Rússia a seus pés. Uma Rússia que precisa vender seu gás, seu petróleo e seu trigo. Uma Rússia que precisa importar insumos e peças tecnológicas. Pelos próximos anos, as normas do comércio exterior russo e, até certo ponto, da economia russa serão ditadas pela China.

No resultado final, a Rússia sai humilhada e diminuída. A Otan sai ressuscitada. Os EUA mostram quem é que dá as ordens no mundo ocidental. A União Europeia prova que, quando se sente ameaçada, tem capacidade para dar resposta rápida, unânime e enérgica. E a China, que ganha a Rússia como fornecedor e cliente preferencial, continua crescendo.

O mal que Bolsonaro nos faz

Em azul: países que condenaram a invasão russa
Em vermelho: países que aprovaram
Em amarelo: países que ficaram em cima do muro
Crédito infográfico: Le Temps, Genève

José Horta Manzano

A Guerra de Putin, como vem sendo apropriadamente descrita por vários órgãos de imprensa, tem feito efeito de um tsunami: repentino, violento, não deixa escapar ninguém, cada um se protege no lugar que escolhe. Há quem corra para o morro, mas há alguns que correm para a praia.

Coisas nunca vistas têm acontecido. Desde que Adolf Hitler invadiu metade da Europa, na virada dos anos 1930 para a década seguinte, nada de parecido tinha voltado a ocorrer.

Em 48 horas, a Alemanha encontrou saída legal que lhe permita enviar armas a zona de guerra – ato inconcebível até a semana passada.

Após pequena hesitação inicial, o Conselho Federal Suíço (o Executivo colegiado) decidiu arranhar a histórica neutralidade do país, em vigor desde o Congresso de Viena, de 1815. Essa brecha, que permitiu a Berna opor-se à Guerra de Putin e designar Moscou como agressor, deu base legal para a adesão total da Suíça às sanções aplicadas pela União Europeia.

Os países da União Europeia inteira, mais a Suíça, fecharam seu espaço aéreo para todo e qualquer avião russo. Aviões de carreira e jatinhos privados esbarram na mesma proibição.

A China, que, faz poucas semanas, tinha recebido Vladímir Putin com tapete vermelho e juras de amor, começa a tomar suas distâncias de Moscou. É sintomático da visão longa que os chineses têm do futuro. O que a Rússia está fazendo na Ucrânia é exatamente o que a China gostaria de fazer em Taiwan. No entanto, Pequim prefere esperar. Não gostaria de sofrer as duríssimas sanções aplicadas a Moscou. Taiwan fica para quando der.

A Finlândia e a Suécia, que sempre preferiram manter-se neutras e nunca aderiram à Otan, dão sinais de rever sua posição. Quer Putin goste ou não, a realidade atual na Ucrânia mostra que abrigar-se sob o guarda-chuva do Tratado do Atlântico Norte não é mau negócio. Não há que esquecer que a Rússia é vizinha de parede da Finlândia, com 1.340 km de fronteira terrestre, em terreno absolutamente plano. Com um Putin no trono, nunca se sabe.

A perspectiva de escassez de gás e de petróleo, matérias primas que a Rússia exporta em quantidade, está levando a Europa a reconsiderar rapidamente sua matriz energética. Em vez de depender da Rússia, os europeus terão de encontrar, da noite para o dia, outro fornecedor. A longo prazo, quem vai sentir os efeitos duradouros é a própria Rússia.

É de apostar que todos os países europeus, que tinham afrouxado seus investimentos militares desde a queda do Muro de Berlim, voltem a dedicar maior fatia do orçamento a despesas bélicas. É o rearmamento em marcha forçada.

Como se vê, que Putin anexe a Ucrânia ou que aquilo se transforme num atoleiro como o Vietnã, pouco importa. A loucura de Putin teve o condão de despertar um medo que todos imaginavam morto e enterrado há 30 anos. Durante todo o período da Guerra Fria, que durou 45 anos, o mundo ocidental cultivou o pavor dos russos. Agora, justamente quando todos começavam a esquecer e considerar a Rússia como um país normal e igual aos outros, catapum! Eis que a estupidez de um autocrata de visão limitada nos traz de volta um passado de pesadelo.

Desde já, a Rússia já está excluída do conjunto das nações civilizadas. E por décadas. E a Guerra de Putin, tenha ela o desenlace que tiver, terá dado um resultado positivo: pôs a Ucrânia no mapa. Um país obscuro, perdido nos confins das estepes, pobre, do qual ninguém sabia grande coisa, agora entrou para o time dos países europeus. E não é impossível que, dentro de algum tempo, seja aceito como membro da União Europeia. E até da Otan. Ou será otimismo demais?

Enquanto isso, o Planalto resiste. No infográfico que aparece na abertura, os países que condenaram a invasão russa aparecem em azul – coincidentemente, são os mais civilizados e avançados. Em vermelho, estão os que aprovam Moscou. Em amarelo, aparece a turma que ficou em cima do muro, incluindo o Brasil de Bolsonaro, naturalmente.

Repare que estamos em má companhia. Na América Latina, nossos companheiros são Cuba, Nicarágua e Bolívia. Em seguida, vêm a China, a Índia, o sudeste asiático, o Irã, as autocracias petroleiras árabes e a África praticamente inteira.

Como dizia um antigo chanceler do capitão, o Brasil tem orgulho de ser pária. Bolsonaro segue o ensinamento à risca.

A moda do “fake” se alastra até a China

José Horta Manzano

Parece que a moda que nos obriga a conviver com uma realidade paralela já chegou até a China. Alguém já imaginou organizar os Jogos Olímpicos de Inverno na região de Garanhuns (PE)? Parece coisa de maluco, não é? Pois deve haver no mundo muito mais malucos do que se imagina. E alguns ocupam cargos de importância planetária. Antes dos finalmentes, vamos aos considerandos.

No Brasil, Olimpíada de Inverno não tem repercussão, o que é compreensível. Pra quem não sabe, ela ocorre de quatro em quatro anos, intercalada com os Jogos de Verão, que já tiveram lugar no Rio de Janeiro e que ficaram na história do país pelo “legado” que deixaram.

A China foi designada para abrigar a edição invernal deste ano, que começa no fim de semana que vem. Até aí, nada de espantoso. O clima do país, em princípio, é compatível com os requisitos dos esportes de gelo e neve. Na região escolhida – Pequim e seus arredores – faz um frio congelante no inverno. Em janeiro, a temperatura oscila entre 7°C abaixo de zero de noite e 3° abaixo de zero no momento mais “quente” do dia. É pra pinguim nenhum botar defeito.

Só que tem um probleminha: não neva. Embora muito morador dos trópicos acredite que basta fazer um frio do cão pra cair neve, não é bem assim. Neve é precipitação, exatamente como chuva. Pra nevar, é preciso que haja nuvens e umidade. Com céu claro e sem nuvens dia e noite, não tem como nevar.

Assim, escolher organizar os Jogos de Inverno em Pequim equivale a escolher organizá-los em Garanhuns. Ambas as cidades têm morros por perto, onde pistas de esqui podem ser facilmente desenhadas. Estádio olímpico, é fácil construir, principalmente com dinheiro público. Propaganda, é fácil fazer. Povo entusiasta, é sempre fácil encontrar. Só que cada uma das sedes tem seu problema. Enquanto Garanhuns não tem frio suficiente pra aguentar a parada, Pequim não tem neve. Como contornar o problema?

Estamos entrando nos Jogos Olímpicos de Inverno mais antiecológicos da história. Primeiro, o leitor precisa saber que, na falta eventual de neve, as pistas de esqui podem ser atapetadas com neve artificial. Não, não se trata de neve de cinema, com floquinhos de plástico. A neve artificial é produzida por canhões de neve, enormes tubos que cospem no ar, geralmente à noite, quando todos dormem, água sob alta pressão. Ao entrar em contacto com o ar muito frio, as gotículas de água vaporizada se tranformam instantaneamente em flocos de neve.

Todas as pistas de esqui do mundo dispõem de dezenas desses dispositivos. Servem para completar o tapete de neve nas pistas, quando já está bastante achatado pela passagem dos esquiadores e quando o tempo anda claro, sem precipitações. Só servem para suprir uma certa porcentagem do cobertor branco.

O problema é que em Pequim, região semidesértica situada junto à poeirenta aridez que recobre a China central e ocidental, toda a neve das pistas será artificial. Todinha. Tudo 100% artificial. A paisagem das colinas onde estão as pistas está sui-generis: faixas brancas que serpenteiam em meio a montes escuros e totalmente desprovidos de neve. Bem pouco natural. (Confira a imagem na entrada do artigo.)

Evidentemente, os canhões espirram água e são movidos a combustível fóssil. Pra começar, precisa levar água até lá em cima, o que consome uma enormidade de energia. Em seguida, o funcionamento de centenas deles durante duas semanas, numa região já altamente poluída, só vai fazer aumentar o grau de poluição que os pequineses terão de respirar. Atenção: respirar sem reclamar, como costuma ser na China. Todos estão convidados a aplaudir. E ai de quem der um pio!

Fica agora uma dúvida ingrata. A escolha do Catar para a Copa do Mundo foi obra dos conchavos e da notória corrupção da Fifa. Onde já se viu jogar futebol no deserto, num país sem nenhuma tradição esportista, onde não se joga nem futebol de várzea (mesmo porque não há várzea)?

Será que o COI (Comitê Olímpico Internacional), que cuida das Olimpíadas, sofre do mesmo mal?

Brasil vai virar comunista?

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, dizia-se que comunistas eram perigosos porque devoravam criancinhas. Não se espante, distinto leitor, muitos acreditavam nisso. Na verdade, ninguém tinha ideia exata de como era a vida nos países de regime comunista. Pouquíssima informação escapava da URSS de Stalin e da China de Mao. E dos satélites deles, naturalmente.

Em 1989, a queda do Muro de Berlim não só eliminou o muro, mas levantou o véu que encobria os podres do império soviético. Por detrás dos escombros, o mundo pôde constatar o estado de indigência em que viviam os povos castigados pelo comunismo durante 70 anos.

Com isso, na Europa e nas Américas, virou-se a página desse sistema de organização do Estado. Partidos comunistas, que ainda eram fortes na Europa, murcharam. Ficou claro que não havia meio de aquilo dar certo.

A China, contida pela mão pesada do partido único, mantém um comunismo apenas de fachada; na realidade, o nome do jogo é ditadura ultra-autoritária, onde “comunismo” não passa de firula semântica.

Já Cuba é uma excrescência, uma fábrica de pobreza que ainda sobrevive com os euros trazidos pelas hordas de turistas europeus que passam uma semana bronzeando baratinho em Varadero all inclusive. Sem conversar com nenhum nativo, a não ser com os ultravigiados serviçais do “resort”. O regime, mais dia menos dia, desmorona.

Em meados de dezembro passado, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa detalhada. Entre outras questões, quis tomar a temperatura da população e saber que percepção tinham de uma certa “ameaça comunista” constantemente denunciada pelos bolsonaristas.

A pergunta era se o entrevistado concordava ou não com a afirmação de que havia risco de o Brasil se tornar comunista na próxima eleição. Espantosamente, 44% dos eleitores declararam ter esse receio. Do outro lado do espectro, 50% consideram que não há perigo. Sobram 6% que não têm a menor ideia. Considerando que quem cala consente, os que não se pronunciaram podem ser acrescentados aos receosos.

Logo – é espantoso! – metade dos eleitores brasileiros têm algum receio (pouco ou muito, dependendo do grau de adesão às ideias do capitão) de que o país se torne comunista na próxima eleição. Supõe-se que estejam entrevendo a eleição do Lula.

Acho inacreditável que metade dos brasileiros ainda vivam nos anos da Guerra Fria, com os mesmos temores. Esse deve ser o contingente que teme uma invasão da Amazônia com bombas, aeroplanos e tanques de guerra. Decerto os terraplanistas fazem parte da turma. Coisa de louco!

Não é possível que Bolsonaro, apesar de se esforçar durante três anos de diabruras, tenha incutido essas caraminholas na cabeça do povo. Isso tem nome certeiro, uma praga bem anterior à chegada do capitão: é desinformação. O que falta a essa gente é desempoeirar as ideias, abrir-se para o mundo, aprender o que vem acontecendo no planeta no último meio século.

Fica claro que passar o dia grudado no telefone a se divertir com memes, videozinhos, conversas de zap e fake news não dá camisa a ninguém. A raiz do mal está no mesmo lugar de sempre: falta de instrução.

Vírus brasileiro

 

José Horta Manzano

Os jornais televisivos desta terça-feira abriram todos com a notícia principal: a França fecha seus aeroportos para todo voo proveniente do Brasil. Dos países com os quais temos relações mais próximas, três já tomaram medida idêntica – França, Portugal e Reino Unido.

Não estou familiarizado com viagem em jatinhos executivos, mas imagino que a restrição lhes diga respeito também. Pelo jeito, deve ter por aí muita gente fina aborrecida por não poder mais dar um pulinho a Paris pra degustar um croissant fresquinho saído do forno de uma boulangerie.

Emissoras de rádio e de tevê têm feito programas especiais com entrevistas e mesas redondas em torno das quais se discute a periculosidade da variante brasileira do coronavírus e os meios de evitar sua propagação.

No Brasil, adeptos de teorias complotistas juram de pés juntos que essa variante mais peçonhenta do vírus veio direto da China, desenvolvida por comunistas malvados cuja única intenção é derrubar nosso presidente, para poderem em seguida dominar o mundo. Por seu lado, gente com a cabeça no lugar começa a considerar uma origem interna. A nova cepa teria conseguido desenvolver-se em nosso país justamente por encontrar aqui terreno propício.

Ainda é cedo pra apontar culpados. Vamos esperar que a pesquisa científica tire as devidas conclusões. (A não ser que a CPI o faça…) A tese de que a variante brasileira teria nascido no Brasil mesmo faz sentido. A contínua sabotagem com que o capitão nos brindou desde a chegada da pandemia – com recusa de distanciação social, de máscara e de confinamento – criou terreno fértil para mutações aceleradas do vírus.

Enquanto não se determina com exatidão a origem do novo patógeno, o que se percebe é mais uma picaretada na rápida destruição da imagem do Brasil no exterior. Essa descida de nosso país ao limbo dos ‘emergentes que não conseguem emergir’ é efeito secundário indesejável do ambiente tóxico que se instalou em terras nacionais.

Euclides da Cunha disse que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Tomando como gancho o pensamento do escritor, pode-se dizer que todo brasileiro conservou, lá no fundo do peito, a alma forte do sertanejo. Todavia, a conjunção Bolsonaro + pandemia é dose pra leão. Não sei se vai dar pra aguentar.

Observação
Está chegando a hora em que as redes devotas vão ter de se render à evidência. O “vírus chinês” se naturalizou e procriou. Os filhinhos, todos nascidos em território nacional, são gente de casa. Recusam-se a ser tratados como estrangeiros. Cada um deles é agora um legítimo vírus brasileiro.

A China perdeu a face

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 janeiro 2021.

O povo chinês é extremamente sensível, dono de uma sensibilidade que foge a nossos padrões. A deles é mais rigorosa, formal, à flor da pele, apegada a valores milenares. O peso do coletivo esmaga arroubos individuais. Espera-se que todos se comportem como manda o figurino. No Brasil, somos mais indulgentes; não está em nossa índole levar tudo a ferro e fogo. Situações que consideramos triviais podem chocar os chineses. Quem se relaciona com eles – se quiser ser bem sucedido – deve tomar cuidado para não se indispor com o interlocutor. Deve ter em mente que até atitudes que nos parecem anódinas podem melindrar e bloquear o que estava sendo tratado.

Em qualquer parte do mundo, “perder a face” é visto como situação desagradável. Na China, é mais grave. Por um lado, não precisa muito para uma pessoa “perder a face”; por outro, é uma das ofensas mais profundas que se possa infligir a alguém. De todas as peculiaridades da alma chinesa, talvez seja o conceito de “face” o mais difícil de assimilar. Faz séculos que tradutores pelejam para encontrar o melhor termo para traduzi-lo. É mais ou menos o que ocorre com a palavra ‘saudade’. Assim mesmo, nossa saudade, que é sentimento humano e universal, pode ser traduzida com um rodeio de duas ou três palavras. Já o conceito chinês de “face”, para ser plenamente percebido, requer um mergulho na civilização daquele país.

Se a tradução exata é difícil de encontrar, os conceitos de orgulho, brio, dignidade e prestígio se aproximam e dão uma pista. O culto da “face” regula os relacionamentos sociais na China. O simples fato de interromper alguém que fala é considerado comportamento ofensivo, porque faz o interlocutor “perder a face”. Aquele que falava vai se sentir desprestigiado. Consertar o estrago não será tarefa simples. O único modo é “dar-lhe face”, conceito complementar ao anterior. Para devolver a face ao cidadão ofendido, pedido de desculpas não vale. As palavras-chave para reaver dignidade arranhada são: elogio, prestígio, admiração, deferência. Há que lisonjear, incensar, acariciar, paparicar.

Na China, espera-se que cada cidadão respeite o próximo como respeita a si mesmo. Um exemplo emblemático é quando duas pessoas travam conhecimento. Cada um vai entregar seu cartão de visitas ao outro segurando-o com as duas mãos. E, naturalmente, toma com as duas mãos o que lhe está sendo oferecido. Esse gesto de deferência significa que o respeito que se tem pelo próximo é igual ao que se tem por si mesmo.

Os chineses são especialmente ciosos da própria imagem quando se trata de relações internacionais. É terreno minado. Como toda nação antiga e de passado glorioso, os chineses sentem aquela nostalgia do brilho perdido, o que os torna deveras susceptíveis. Em 1999, quando de sua visita oficial à Suíça, Jiang Zemin, presidente da China, foi alvo de protestos populares. Não houve agressão física, apenas a presença de manifestantes com faixas que pediam a independência do Tibete – país anexado pela China em 1951. Furioso, o dirigente recusou-se a cumprir o resto do programa. Em rápido e inflamado discurso de despedida, declarou que aquilo não eram modos de receber um visitante, e que a Suíça havia perdido um bom amigo. As relações entre os dois países ficaram abaladas por uma década.

Imagine agora o distinto leitor como devem estar sendo recebidas, na China, as agressões proferidas por ministros e deputados nossos, compartilhadas pelos mais altos escalões sem que o presidente da República digne de reprovar. É a China inteira “perdendo a face”! A humilhação, como se sabe, é a melhor maneira de fazer inimigos duráveis. Quem faz um chinês “perder a face” arruma um inimigo vitalício.

Bolsonaro (ou quem lhe suceder) terá de tentar “devolver a face” à China para abrandar os efeitos da ofensa. Um “desculpa aí, pô!” não vai bastar. Há de ser tarefa longa e paciente. Um bom começo será convidar o presidente chinês para visita de Estado, com direito a recepção de arromba, todas as honras, desfile do 7 de Setembro ou camarote num sambódromo, giro turístico pelo Brasil, hospedagem em palácios de prestígio, banquetes de 15 pratos. Na hora da sobremesa, é bom lembrar que chinês não aprecia pratos de gosto açucarado demais. Convém evitar leite condensado.

Pensando bem – 18

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Na sua aproximação com o Oriente
Bolsonaro mexe com a alma da gente

Desdenhou, desprezou, receitou aspirina
E acabou engolindo a vacina da China

Numa prova de que é mesmo bom de astúcia
Fez o marketing do Telegram da Rússia

O próximo passo vai nos trazer muita sorte:
Bananinha embaixador na Coreia do Norte!

O general e a selva

José Horta Manzano

Cada macaco no seu galho. Para a guerra, vão os militares. Para a mesa de discussões, vão os diplomatas. Não convém misturar os profissionais, se não é capaz de dar choque.

Nosso presidente, como o Brasil e o mundo já se deram conta, sofre de séria disfunção cognitiva; em termos familiares: é imbecil. Essa dificuldade de apreensão da realidade é agravada por seu caráter agressivo e por suas reações paranoicas.

De um personagem com essas características, não se poderia esperar que acertasse na hora de escolher assessores. Recheou ministérios e autarquias com militares. Não se sabe se fez isso para confortar sua paranoia ou por outra absconsa razão. O resultado é um desastre. O inefável general Pazuello, ‘gerentão’ da Saúde Pública, é brilhante exemplo.

A subida ao trono de Joe Biden ratifica a perda do único apoio externo com que Bolsonaro podia contar. Agora que o presidente se sente vulnerável, a paranoia aumentou e seus efeitos se espalham pelos altos círculos da República. Doutor Bolsonaro perde o sono ao imaginar que, qualquer dia destes, a Amazônia será invadida por sabe-se lá quais inimigos. Sem dificuldade, tem conseguido contaminar generais. Militares são treinados a enxergar o mundo em preto e branco, sem nuances intermediárias. Em princípio, interlocutores têm de se encaixar obrigatoriamente em um de dois grupos: ou são amigos, ou são inimigos.

Quando dirigentes estrangeiros criticam a política ambiental do Brasil, não é hora de ‘mandar pólvora’, como insinuou Bolsonaro. É hora de mandar a diplomacia para a linha de frente. É hora de conversar, de ouvir, de explicar, de entender, de refletir, de apaziguar, de maneirar. É hora de escutar, de se abrir, de argumentar, de convencer. É hora de perceber que a riqueza das florestas brasileiras não se resume ao estrondo do abate de árvores, ao lucro da extração de madeira, à tristeza da extinção da vida animal.

Diferentemente do que pensam Bolsonaro e seus amigos militares, ninguém no mundo tem séria intenção de tomar a Amazônia brasileira. Nem mesmo a China, capitão! O que assusta o mundo é a ameaça de perder a mais importante floresta equatorial do planeta. Se ela desaparecesse, o clima mundial – e, naturalmente, do Brasil também – sofreria consequências desastrosas para a vida de todos nós. Mas Bolsonaro e seus amigos não entendem isso. Ou se recusam a entender, o que dá no mesmo.

Fiquei sabendo hoje que o Exército está cuidando de ocupar a Amazônia antes que algum aventureiro lance mão. A derrocada de Trump e o sentimento de impotência estão por trás. Este escriba tem uma sugestão – gratuita e sem compromisso. Sugiro que o comando da organização de resistência ao invasor seja confiado ao general Pazuello. Com essa cajadada, mata-se um coelhão: o general será curto-cirtuitado, fazendo desaparecer o principal entrave(*) à Saúde Pública. O país vai respirar aliviado. Os cidadãos estão precisando respirar – no sentido próprio.

(*) ‘Principal entrave’ é modo de dizer. O principal entrave à Saúde Pública não é o general trapalhão, mas seu chefe.

Kit covid

José Horta Manzano

Meses atrás, sob instigação de nosso doutor presidente, o Ministério da Saúde havia encomendado caminhões de hidroxicloroquina e de azitromicina para entregar aos estados a título de «tratamento precoce» da covid-19.

Os governadores, mais chegados às orientações da ciência do que o presidente, recusaram-se a fornecer as drogas à população. A montanha de comprimidos encalhou nos armazéns federais. Para esvaziar os galpões, o governo federal planeja despachar os remédios para as farmácias populares, com a ordem de distribui-los gratuitamente a quem pedir.

Na França, logo que a epidemia estourou, um médico do Hospital Universitário de Marselha lançou a ideia de usar hidroxicloroquina combinada com azitromicina em pacientes com covid. Fez, por sua conta, um estudo com apenas uma vintena de (jovens) pacientes seus. Concluiu que o remédio era eficaz, visto que nenhum dos doentes desenvolveu um quadro grave. Vaidoso, convocou a imprensa e foi à televisão divulgar sua descoberta. Teve seu momento de glória e ficou conhecido no país.

As autoridades sanitárias se debruçaram sobre o caso. Depois de analisar os considerandos e os finalmentes, concluíram que a administração dessa combinação de remédios, além de não ter eficiência comprovada por teste de larga escala, é problemática. De fato, exige acompanhamento médico rigoroso e contínuo, pelo risco de importantes efeitos secundários. Desde então, ficou proibido administrar essa combinação de drogas como «preventivo» de covid ou mesmo como «tratamento precoce». Unicamente pacientes hospitalizados podem receber o tratamento.

by Nando Motta, músico e ilustrador

A azitromicina é um antibiótico. Sabe-se que a ingestão indiscriminada de antibióticos favorece o aparecimento de resistência no organismo. No futuro, quando o paciente realmente precisar, esse medicamento poderá não fazer efeito.

Quanto à hidroxicloroquina, contraindicações e efeitos secundários são da pesada. Insuficiência cardíaca, arritmia ventricular, lesões da retina, hipoglicemia, convulsões, vertigens estão entre eles. Não são drogas a serem distribuídas a quem pedir, como se fossem balas de açúcar.

Ao administrar essas drogas ao paciente internado, a intenção é evitar que a doença evolua para um quadro grave. É importante repetir que a combinação de cloroquina e azitromicina não cura a covid-19. Até o momento, não foi descoberto nenhum remédio para curar essa doença.

Na minha opinião, a atitude de nosso governo federal é temerária. Em outras terras, antibióticos só são vendidos com apresentação de receita médica. A ideia do governo brasileiro de distribuir indiscriminadamente drogas que deveriam ser controladas é porta aberta para o surgimento de um problema nacional de saúde: uma legião de cidadãos resistentes a uma classe de antibióticos. Sabe-se que essa situação favorece o aparecimento de superbactérias que não cedem a nenhum tratamento. Uma calamidade.

Um último detalhe
Relatório da Anvisa informa que 72% dos ingredientes básicos que compõem os medicamentos vendidos no Brasil são produzidos na China (37%) e na Índia (35%). De genuinamente nacional mesmo, só a embalagem e a bula, se tanto. Alguém precisa contar a nosso doutor presidente que, com o «kit covid», a China ganha mais que ele.

Embaixador não grato

José Horta Manzano

De onde vem a palavra?
Nosso vocábulo embaixador tem origem um tanto controversa. Os estudiosos se dividem em duas correntes.

Alguns acreditam que a palavra embaixada provenha de uma voz latina ambaxus, que significa servo, servidor.

No entanto, a maior parte dos etimologistas considera que embaixada seja de origem germânica. É parente do termo Amt, que, no alemão moderno, equivale ao bureau francês e ao office inglês. Em português, Amt se traduz por repartição, secretaria, departamento – dependendo do contexto.

Seja qual for a origem, embaixada e embaixador traduzem uma noção de serviço prestado. De serviço prestado ao público, mais precisamente.

Embaixador nos tempos de antigamente

Como atiçar (mais) uma crise
Neste domingo, vazou a notícia de que doutor Bolsonaro proibiu seus ministros de entrarem em contacto com o embaixador da China no Brasil.

Está, portanto, vedado a todos os ministros, assessores e auxiliares do presidente receber o embaixador, visitá-lo ou comunicar-se com ele por qualquer meio que seja. Como já explicou uma vez nosso ministro da Saúde, “um manda e outro obedece”. É de crer que, também desta vez, a ordem presidencial será cumprida. Sem um pio.

É de conhecimento de todos que nosso presidente é ignorante em matéria de relações internacionais. Só que tem uma coisa: ainda que sejam ignoradas, regras são regras e continuam a existir.

A função diplomática é carregada de simbologia. Recusar-se a receber o representante oficial de um país estrangeiro é ofensa grave feita àquele país. Enquanto o desplante é obra de um dos bolsonarinhos arteiros, sempre se pode pôr na conta de desvario de adolescente desocupado. Quando, porém, a afronta vem do presidente em pessoa, a coisa sobe de patamar e se torna oficial.

Se o embaixador está em Brasília a representar seu país, é porque foi acreditado pelo governo brasileiro, ou seja, recebeu o que em francês diplomático se diz “agrément”.

Ao rejeitar esse senhor e privá-lo do exercício de suas funções, o governo brasileiro o está descredenciando, o que equivale a declará-lo persona non grata (= pessoa indesejável), um convite a deixar rapidinho o território nacional.

Talvez o governo chinês, que é pragmático, consinta em engolir (mais) essa cobra. Mas pode até ser que estejam de paciência esgotada. Se reagirem expulsando o embaixador do Brasil em Pequim, que ninguém se surpreenda.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Visto da China

José Horta Manzano

O inacreditável papelão cometido por doutor Bolsonaro ao declarar, alto e bom som, que não permitiria a compra da “vacina chinesa do Dória”(*) continua levantando ondas muito fortes.

Leio hoje um artigo postado na edição em linha (BR=online) do portal chinês Global Times. O título já dá uma indicação do estado de espírito: Brazil politicizes vaccines, may hurt ties with Beijing – Brazil politiza vacinas, o que pode prejudicar laços com Pequim”.

Entrevistado pelo jornal, o diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Xangai declarou que o principal motivo que leva Bolsonaro a opor-se à vacina desenvolvida na China é o desejo de esmagar um concorrente potencial. Acrescentou que a recusa de Bolsonaro de aceitar a vacina serve também para alimentar sua malta de devotos.

Chamada Global Times, Pequim

Essa leitura não bate exatamente com a que fazemos nós no Brasil, vejam como são as coisas. A gente põe esse ruído todo na conta da falta de educação do presidente e de sua compulsão de abastecer a turba fanatizada. Não nos passa pela ideia que ele tenha, lá no fundo do bestunto, intenção de eliminar a concorrência chinesa. Primeiro, porque ele não nos parece capaz de um raciocínio tão complexo; segundo, porque não vemos de que modo uma grande indústria farmacêutica estrangeira poderia concorrer com o Brasil – afinal, tirando pérolas como Butantã e Fiocruz, todos os laboratórios que consideramos ‘nossos’ são estrangeiros.

Veja o perigo que umas palavras irrefletidas podem representar. Na sequência das desastradas palavras presidenciais, a China já está imaginando que o governo brasileiro teme a concorrência do gigante asiático e, pior ainda, que estamos tentando prejudicar o desenvolvimento do perigoso rival. Quanto mal-entendido! A cabecinha de doutor Bolsonaro é que não é suficientemente desenvolvida pra elaborar raciocínio arrematado como esse.

Mário Quintana disse: “A gente pensa uma coisa, escreve outra, o leitor entende outra, e a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita”.

Parafraseando o poeta, podemos imaginar que: “O doutor pensa uma imbecilidade, escreve outra, os chineses entendem outra, e a imbecilidade propriamente dita desconfia que não foi dita”.

(*) Essas são as palavras elegantes de que o doutor se serve para se referir à vacina anticovid, desenvolvida pelo respeitado laboratório chinês Sinovac em colaboração com o Instituto Butantã de São Paulo.

De vacinas

José Horta Manzano

Lê-se a todo momento que a vacina contra a covid está para sair. Russos, chineses, americanos, europeus e até indianos dedicam-se seriamente ao assunto. Cada semana, aparece notícia animadora sobre a vacina: a russa está no ponto; na China só falta o derradeiro teste; os americanos afirmam que a deles estará no mercado antes do Natal. E assim por diante. Tanto falam nisso, que a gente acredita que, sim, um dia virá a vacina.

Algo me escapa, porém. A covid é causada por vírus, um bichinho minúsculo que até sob as lentes potentes de um microscópio eletrônico aparece como uma mancha embaçada, não é? A aids também é dano causado pour outro terrível vírus, pois não? Ora, esta última enfermidade se espalhou pelo mundo inteiro a partir do fim dos anos 70, ou seja, 40 anos atrás. Desde então, muitos laboratórios de pesquisa vêm se dedicando a fabricar uma vacina. Passados 40 anos, não conseguiram.

Como é que é possível ter tanta certeza de que estará disponível, em um ano, vacina eficaz contra a covid, quando se sabe que, no caso da aids, não se conseguiu em quarenta anos?

Faço votos para que encontrem rapidamente (mesmo porque, pessoalmente, no teste de múltipla escolha dos grupos de risco, assinalo três ou quatro quadradinhos). Assim mesmo, sem querer ser profeta de desgraça, fico dubitativo. Vamos torcer.

Bochecha com bochecha

José Horta Manzano

Todos os brasileiros não-robotizados têm uma sensação de desconforto quando doutor Bolsonaro solta suas barbaridades. Elas são costumeiras, mas – que remédio? – a gente não se acostuma. Para nós que vivemos longe da pátria, então, o desconforto é maior; chega a ser vergonha. Quando alguém começa a falar do presidente do Brasil, a gente se mexe na cadeira e quer mais é que a conversa se desvie logo pra outro assunto. É muito chato ter de explicar o tempo como é que esse estropício chegou lá.

Quanto aos ministros, enquanto seus insultos não atingem personalidades do exterior, ninguém fala deles. Felizmente. Só entram para o noticiário quando algum, mais ousado ou com mais pressa de agradar ao chefe, agride um país estrangeiro ou um figurão internacional. Aí, de novo, a gente pode ir se preparando para uma sessão desculpa.

Estes dias foi a vez de senhor Guedes, ministro que gere os dinheiros da nação. Em videoconferência patrocinada por The Aspen Institute – uma célula de reflexão frequentada por investidores estrangeiros –, o auxiliar de Bolsonaro rodou a baiana. Ele falou em inglês. Procurei o vídeo em versão original, infelizmente só circula a versão semidublada, aquela em que a voz do locutor cobre a fala original. Portanto, tenho de botar fé na (má) tradução.

O ministro foi instado a dar explicações sobre a política ambiental do governo do qual participa. Em vez de responder, decidiu, malandro, imitar a manjada linha de defesa lulopetista: arreganhou os dentes e partiu para a agressão pra cima dos mensageiros – no caso, os jornalistas. Disse horrores. Esbravejou lembrando que os EUA já tinham matado seus índios e destruído suas florestas, portanto, que nos deixassem e paz pra matar os nossos e destruir as nossas. Classudo, não?

Cheek to cheek
by Romero Britto (1963-), artista pernambucano radicado nos EUA

Acusou os EUA de serem Estado escravagista e racista. Denunciou a política econômica daquele país por estar dançando «de rosto colado» com a China (a tradução, digna de um aplicativo de tradução automática, diz ‘bochecha com bochecha’, mas desconfio que o original fosse mesmo ‘cheek to cheek’). Num insuperável rasgo de elegância, disse que nem um brasileiro bêbado ousaria conduzir o sistema bancário como fizeram os EUA quando da crise bancária de 2008 – repare na classe! Numa passagem um tanto obscura, mencionou o Lula e disse que estaria dando «apertos de mão» a Obama porque havia corrupção e compra de pessoas no Brasil. Esse pedaço, confesso, não entendi.

Entender o que dizem auxiliares de Bolsonaro é tarefa árdua. Esse senhor Guedes não foge à regra. Petulante, rosna e atira insultos assim que um microfone lhe aparece. Se o objetivo era afastar investidores, o sucesso está garantido. Se era resgatar a confiança do empresariado internacional num governo aprumado, o tiro saiu pela culatra. Se era desviar a atenção da criminosa destruição da Amazônia, em cartaz atualmente, conseguiu o efeito contrário: todos se deram conta de que Guedes tentou fugir às respostas. Fugiu às respostas, mas seu chefe não fugirá às consequências.

Aqui na Europa, a conferência não foi divulgada. Melhor para nós, que não teremos de dar explicação. Tenho pena de nossos conterrâneos que vivem nos EUA – e são muitos. Desta vez, a canseira e a vergonha são para eles. Ânimo, patrícios!

Publicado também no site Chumbo Gordo.

TV Brasil Internacional

José Horta Manzano

Certas coisas são difíceis de compreender. Acabo de ler um artigo no Estadão que fala do projeto de recriação da TV Brasil Internacional. A intenção é melhorar a imagem internacional do Brasil (leia-se: do governo brasileiro), embaçada pela maldosa mídia comunista internacional, que não pára de inventar ruindades e inverdades.

Privatização
O artigo informa que a EBC (conglomerado que abrange a TV Brasil) está na lista, preparada pelo governo Bolsonaro, de estatais a privatizar. Por minha parte, acho excelente a ideia de vender estatais ineficientes e deficitárias, só me pergunto quem é que vai querer comprar empresa ineficiente e deficitária.

Bom, estou me desviando do assunto. Não sei se a EBC faz parte das ineficientes, mas sei que ela é uma estatal que controla diversas mídias públicas. Mídias públicas não são financiadas por publicidade mas pelo dinheiro dos impostos.

Não entendo como é que essa empresa pôde entrar na lista das privatizáveis. Na hipótese de ser posta à venda, é bem capaz de surgir algum maluco disposto a comprar. Uma vez vendida, perderá o financiamento público (senão, não faria sentido vender). Não mais financiada com nosso dinheiro, terá de se sustentar com propaganda. Se já não tem muita plateia sem anúncios, fico a imaginar quem serão os futuros aficionados dispostos a assistir a programas entrecortados por reclames de sabão em pó ou de remédio contra dor de cabeça.

Sem aumentar custos
Os gênios que estão por detrás dessa ideia de internacionalização da TV Brasil pretendem executar o projeto ‘sem aumento de custos para a emissora pública’. Seria bom se fosse realista.

Consultei o site da EBC. Ele é inteiramente escrito em língua pátria. Nem uma palavra de língua estrangeira – nem um suspiro de inglês macarrônico pra dar água na boca. Já escutei a Rádio MEC e a Rádio Nacional, braços do conglomerado. Só proseiam em versão tupiniquim não-legendada. Nunca assisti à TV Brasil; a não ser que eu esteja enganado, devem também transmitir em português, mais nada.

Agora conte-me, distinto leitor, como é possível “melhorar a imagem do Brasil no exterior” através de órgãos de mídia que não têm petrechos linguísticos pra se comunicar com esse “exterior”? Como é que se fará essa abertura para o mundo sem aumento de custos? Pretendem abrir contratação de pessoal voluntário? Onde está a mágica?

Confira como a mídia pública internacional se comunica

France 24, conglomerado de mídia pública francesa voltada para o exterior, transmite em francês e mais 3 línguas.

RT, conglomerado de mídia pública russa voltada para o exterior, transmite em russo e mais 5 línguas.

Xinhua, conglomerado de mídia pública chinesa voltada para o exterior, transmite em chinês e mais 8 línguas.

SWI, conglomerado de mídia pública suíça voltada para o exterior, transmite em alemão e mais 9 línguas.

SR, conglomerado de mídia pública sueca voltada para o exterior, transmite em sueco e mais 10 línguas.

NHK, conglomerado de mídia pública japonesa voltada para o exterior, transmite em japonês e mais 20 línguas.

DW, conglomerado de mídia pública alemã voltada para o exterior, transmite em alemão e mais 29 línguas.

BBC, conglomerado de mídia pública britânica voltada para o exterior, transmite em inglês e mais 33 línguas.

Nesse clube, nosso conglomerado monolíngue vai fazer papel de pé-descalço.

Tuíte – 15

José Horta Manzano

A indecência do ministro da Educassão, Abraham Weintraub, escandaliza até doutor Bolsonaro – uma façanha! Acuado, o presidente procura “saída honrosa”, como se fosse possível medir comportamento de ministro jagunço por padrões de honra. Insustentável, o petulante tem de sair.

No Planalto, busca-se urgentemente uma sinecura ou um posto diplomático para acolher o banido. Este blogueiro sugere que o (quase) ex-ministro seja nomeado embaixador em Pequim. Não é excelente ideia? Volta e meia, ele se refere à China, nem sempre de maneira airosa. Uma mudança de ares e uma (longa) estada por lá haviam de fazer-lhe grande bem.

Para Weintraub, a nomeação seria prêmio e castigo ao mesmo tempo. Ele sairia de circulação e – longe dos olhos, longe do coração – sairia também da lembrança de todos. No Brasil, ninguém lamentaria. A solução contentaria Bolsonaro, que, como se sabe, é do tipo morde-assopra.

E tem uma cereja em cima desse bolo: o despudorado ex-ministro terá de comer no próprio prato em que cuspiu. E comer de pauzinho (em português: chopsticks)! Castigo agridoce.