A dimensão humana da revolução

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Quando termina a revolução?”

É com essa pergunta que, no belíssimo filme “Danton – O Processo da Revolução” dirigido por Andrzej Wajda, em uma das cenas de maior tensão dramática da historiografia do cinema, Danton confronta Robespierre, na tentativa de induzi-lo a dar fim à perseguição dos dissidentes e interromper a grotesca sequência de decapitações ocorridas nos dias turbulentos da França pós-monarquia.

O questionamento, ainda que ingênuo na aparência, não tem caráter retórico. O que ele implicitamente conota é que, cedo ou tarde, toda revolução terá que se ver às voltas com um momento especialmente delicado de sua história: o de decidir pela manutenção ou flexibilização de sua pureza ideológica.

Revolution 2É curioso observar como, em suas etapas iniciais, toda revolução se assemelha ao florescimento de uma nova religião. A mobilização dos combatentes é embasada na promessa de surgimento de um mundo novo, onde as regras serão outras e onde a bem-aventurança será eterna. Um código doutrinário é estabelecido e dogmas são criados, em especial o da infalibilidade de seu líder máximo. Como caberá a ele zelar para que a revolução se perenize e não brotem dissidências internas, sua autoridade técnica e moral não pode jamais ser contestada. Qualquer tentativa de introduzir mudança para se adequar a novas demandas externas pode ser entendida como conspiração e, como tal, será imediatamente rechaçada.

Se, para a racionalidade fria e calculista de Robespierre, perseguição e morte de tantos potenciais revisionistas era preço aceitável, para o iluminista Danton era um contrassenso inaceitável continuar lutando pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade em meio a um banho de sangue permanente. Não há, portanto, como responder a seu questionamento fazendo uso de generalizações, argumentando teoricamente a respeito da dificuldade de fixação de prazos e limites ou alegando motivos nobres para dar continuidade às perseguições.

Nesse sentido, a pergunta não se limita a época específica, cultura, país ou liderança. Aplica-se igualmente a todo processo revolucionário, desde lutas tribais dos tempos da caverna, passando por conflitos medievais e guerras coloniais, até os mais significativos movimentos libertários do século 20, como a Revolução Russa, a guerra contra o nazifascismo, a Revolução Cubana, a Revolução Iraniana, as lutas para derrubada de ditaduras na África e na América Latina. Se pensarmos bem, concluiremos que, do ponto de vista lógico, a única resposta possível à questão de Danton é que uma revolução só termina quando outra, em franca oposição, eclode e a supera. Tese → antítese → síntese, como ensina a dialética.

Jean-Paul Marat e Charlotte Corday Crédito: Steve Breslow

Jean-Paul Marat e Charlotte Corday
Crédito: Steve Breslow

Assistindo ao julgamento final do impeachment à brasileira, a emoção que experimentei ao ouvir a pergunta pela primeira vez naquele filme voltou forte. Depois de longos meses de exasperação com o infindável embate que destemperou o ânimo dos brasileiros, eu sentia enfim estar preparada para encarar a ira verborrágica dos contendores sem qualquer forma de resistência intelectual ou emocional. Tornava-se claro para mim naquele instante que, travestida de suas implicações econômicas e financeiras, a pergunta estava sendo reeditada: Quando termina a revolução do lulopetismo?

Difícil responder neste momento em que os ânimos ainda estão acirrados e nem todas as emoções foram devidamente processadas. O espetáculo farsesco da decapitação de Dilma não parece poder ser equiparado ao término do sonho de uma sociedade de iguais. Não é só isso. O clima econômico caótico, a crise universal da democracia representativa e a sensação de estarmos mergulhados até o pescoço num oceano de dejetos éticos parecem indicar a necessidade de reformulação da pergunta. Talvez fosse mais sábio questionar: Quando termina a revolução dos costumes políticos?

Seja como for, o que emerge diante dos olhos de uma população desesperançada é um fato esmagadoramente óbvio: toda revolução tem uma face humana. Não são apenas as teses que são falhas ou incompletas. Não há como nenhum agrupamento ideológico proclamar a própria superioridade moral, nem defender que sua interpretação dos fatos históricos é a única legítima. Continuaremos a conviver ad æternum com todos os vícios inerentes à condição humana, como a hipocrisia, o apego ao poder, a desfaçatez, a miopia social, o partidarismo fundamentalista e o analfabetismo político de muitos dos comandados. Para cada Danton que se apresentar como salvador da pátria um Robespierre se erguerá tentando barrar seus avanços.

Hoje, em plena ressaca do ‘day after’, o delírio voltou a tomar conta de mim. Na tela de minha mente, as cenas do filme eram reencenadas num cenário tropical com os personagens da Revolução Francesa interpretados por atores políticos tupiniquins. Lá está o fanfarrão Danton/Lula, abraçado aos amigos numa mesa de bar, cabelo e roupas em desalinho, discursando como última esperança dos “sans-culotte” para recuperar a glória de seu ideário político-social. Na cena seguinte, a enlouquecida Charlotte Corday/Dilma tenta entregar a lista que preparou com o nome de todos aqueles a quem chama de conspiradores, golpistas e algozes. Seu comportamento errático não comove e não empresta credibilidade a suas palavras. Num último gesto desesperado, ela grita que é imprescindível extirpar o “pecado original” enquanto esfaqueia o corpo sarnento de Marat/Cunha ainda mergulhado na banheira.

Crédito: Art Puff Delphine

Crédito: Art Puff Delphine

Na sequência, num gabinete estreito do palácio, o impoluto e insensível Robespierre assume a chefia do governo afiançando que somente ele poderá capitanear com eficácia o processo de inclusão social e recuperação do prestígio nacional. Na cena final, o populacho em fúria invade praças e ruas exigindo a cabeça dos integrantes da elite “canaille”. Aqui e ali, pequenos grupos de desempregados entoam timidamente a cantiga-símbolo da resistência:

       “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…
        Ainda pago pra ver esse dia nascer qual você não queriiaaa…”

A praça se esvazia, a fumaça das fogueiras se extingue. A quarta-feira de cinzas termina melancólica e todos voltam cabisbaixos para suas casas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem garante?

José Horta Manzano

Impeachment? Votação fatiada? Tomada de posse? Viagem à China? Entrar com recurso total? Recurso parcial? Recurso fatiado? Ministro do STF impedido? Conchavo? Conspiração das «direitas»? Conspiração das «esquerdas»?

Para nós, trancafiados contra nossa vontade neste hospício, está ficando cansativo. Já a mídia internacional está-se convencendo de que a política brasileira ultrapassa o entendimento de não iniciados. Notícias sobre a destituição da presidente estão sendo rebaixadas a nota de rodapé. Estrangeiros de cultura mediana não têm formação suficiente para acompanhar nossas reviravoltas nem nossos vaivéns.

Fatiado à moda da casa

Fatiado à moda da casa

Estes dias, na falta de catástrofes, as manchetes têm destacado assuntos internos de cada país. Na parte internacional, os editores estão evitando falar do Brasil. As declarações esquizofrênicas de Mister Trump e as arruaças que se seguiram à proclamação do resultado das eleições presidenciais no Gabão dominam o noticiário. Deu-se também destaque à impressionante manifestação de centenas de milhares de venezuelanos antibolivarianos.

Quarenta anos atrás, tive um colega de trabalho muito espirituoso. Com voz de trovão, leve sotaque estrangeiro, alto, corpulento e desinibido, o homem não passava despercebido. Estávamos em pleno período militar, época em que o Exército ocupava o topo da pirâmide do poder. Pais protegiam filhos. Professores velavam por alunos. Patrões garantiam empregados. E assim por diante, na complexa hierarquia social, até que se chegava ao cume. Lá em cima, «protegendo» todos, estava o poder militar. Irrespeitoso, meu amigo costumava perguntar ‒ com o vozeirão característico: “E quem garante o Exército?”

Lula & Omar Bongo em 2004. Bongo foi "presidente" do Gabão durante 41 anos e meio, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

Lula & Omar Bongo em 2004.
Bongo foi “presidente” do Gabão durante 41 anos e meio, até o dia em que morreu. Foi então substituído pelo filho, que está lá até hoje.

Lembrei desse episódio hoje. Os brasileiros, cuja maioria não suporta mais os descaminhos do andar de cima, forçaram seus representantes a dar um jeito. A solução mais evidente era a destituição da presidente, o que afastaria do poder os personagens mais nefastos. Deputados votaram e garantiram a vontade popular. O Senado votou e garantiu a decisão da Câmara.

Muitos se mostraram desagradados com o «rito». Inconformados, estão apelando ao Supremo Tribunal Federal. Até o momento em que escrevo, mais de uma dezena de representações já foi apresentada ao tribunal maior. Por bem ou por mal, querendo ou não, o STF vai ter de se pronunciar.

Se, quarenta anos atrás, a dúvida era: «Quem garante o Exército?», temos hoje o direito de perguntar: «Quem garante o STF?»

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?