Petição

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Petições estão circulando pela internet estes dias, pedindo à Fifa que a final da Copa do Mundo de futebol seja jogada de novo, veja você. Alegam que o árbitro era corrupto e que fez o que pôde para tirar a vitória da Argentina. Contam até que o homem já foi preso, algum tempo atrás, na Bósnia, numa operação contra o crime organizado. Na Bósnia… Crime organizado…

Veja como são as coisas. Até outro dia, antes da final, o que se ouvia era que a Argentina estava sendo favorecida pelos árbitros, como se estivessem todos instruídos para “aliviar” para os hermanos porque a Copa tinha que ir para eles. Certos lances de arbitragem realmente transmitiram essa impressão. É surpreendente ver, agora, reclamações no outro sentido.

Uma das petições que correm atualmente já recolheu quase cem mil assinaturas. Quero acreditar que os signatários estão todos (ou quase) na Argentina.

É comovente ver tanta gente ingênua a ponto de acreditar que uma tal petição tem alguma chance. Imagine só, se a Fifa se desse ao trabalho de atender a petições de torcedores, ainda estaríamos discutindo e jogando de novo a final da Copa de 1958, após pedido da Suécia, réplica do Brasil, tréplica da Suécia, e assim por diante.

Nem que, num rasgo de sincericídio, um árbitro viesse a reconhecer em público – e com firma reconhecida – que trapaceou, ainda assim nenhum jogo poderia ser redisputado. Jogo jogado, apito final dado e resultado homologado é fim de papo. Assunto encerrado.

Não é impossível que nosso amigo Trump tenha, sem querer, incentivado petições dessa natureza. Pois não foi ele que pediu anulação do cartão vermelho recebido por um jogador americado? E não foi a obsequiosa Fifa que, rapidinho, parcelou a suspensão do atleta em suaves prestações? Essa contradança deve ter tocado o coração de torcedores mais ingênuos: se Trump conseguiu sozinho, nós, que somos muitos, podemos também tentar.

Sugiro iniciarmos uma petição para repetir o jogo Brasil x Noruega. Desta vez, vai.

O espetáculo argentino

José Horta Manzano

Quando eu era pequeno, o Brasil era muito diferente de hoje. Era caipira, meio atrasado, e todo o mundo sabia disso. O brasileiro tentava olhar para fora do país e imaginar como seria a vida no estrangeiro.

As influências que recebíamos vinham pelo cinema, com filmes em grande maioria norte americanos. Imaginávamos que os EUA fossem um país fabuloso, em que todos tinham automóvel, viviam em casas rodeadas de jardim, eram ricos e comiam omelete com toucinho de porco logo de manhã. Mas os Estados Unidos estavam muito longe, naquele mundo em que viagens intercontinentais custavam um patrimônio.

Mais próximo de nós estava a Argentina, país que julgávamos adiantado, moderno, nosso vizinho de parede. Vizinho é modo de dizer, porque, apesar da distância relativamente pequena, quase ninguém viajava até lá. Estradas havia, mas era impensável rodar tantos quilômetros. De trem, era impossível. O melhor meio de chegar a Buenos Aires era de navio. Vosmecê não acredita? Pois era assim.

Os poucos que viajavam até lá traziam objetos que não existiam aqui. Mantas de pura lã, frutas secas de produção local, vinhos. Em nossas feiras, vendiam-se maçãs e peras argentinas, porque não havia produção brasileira. Cerejas, quando apareciam, vinham de lá e custavam uma fortuna.

Tive uma tia-avó que, toda semana, comprava uma revista feminina argentina, porque ainda não havia nada parecido no Brasil. Era o Para Ti, que trazia romances em capítulos, receitas, artigos sérios, ilustrações coloridas – um deslumbre. Foi essa revista, aliás, que me deu as primeiras lições de língua espanhola. Sempre tive grande admiração pela Argentina.

Passado tanto tempo, simpatias vindas da infância às vezes se chocam com a realidade. Assisti ao jogo de domingo, final da Copa, com o duelo Espanha x Argentina. Tendo já assistido à partida das semifinais entre a Argentina e a Inglaterra, eu já estava ressabiado. Aquilo foi uma desgraceira, uma pancadaria sem fim. Era assim, então, que a campeã da última Copa pretendia defender seu título? Que horror. Passaram 90 minutos daquela semifinal massacrando fisicamente os ingleses, como se estivessem num campo de batalha.

Um jogador argentino faz um espanhol fazer um voo acrobático e aterrissar no gramado.

Um analista creditou esse comportamento a um “rancor persistente” (pela derrota sofrida 44 anos atrás, na Guerra das Malvinas). Rancor? – pergunto eu. Por algo que ocorreu antes que todos os jogadores tivessem nascido? Não acredito. Aquilo foi mostra de agressividade própria de um grupo desclassificado, surgido não se sabe de que caverna.

No jogo final da Copa, os ferozes jogadores argentinos repetiram a dose. Deram pancada e cotovelada a granel. Abusaram das faltas e do comportamento antiesportivo. Foi constrangedor. Alcançaram um recorde nada invejável: pela primeira vez, uma seleção atravessa os 90 minutos da partida final sem chutar a gol. Não digo nem fazer um gol, mas apenas chutar em direção à meta. Não é impressionante? Acho que estavam tão vidrados na agressividade contra os adversários, que não deu tempo de pensar em fazer gol.

A imprensa mundial pouco falou desse aspecto deplorável do jogo. Artigos e análises preferiram passar batidos por esse capítulo desagradável. O New York Times não deixou passar em branco. O articulista intitulou “A Argentina desonrou a si mesma — e a final da Copa do Mundo — com sua petulância sem charme”. Leandro Paredes, talvez o mais feroz dos argentinos, teve direito ao epíteto de “vilão sorrateiro” por parte do NYT.

Barraco armado por um furibundo jogador argentino depois da derrota.

E o barraco não acabou com o apito final. Terminado o encontro, o mesmo Paredes arrumou confusão com o banco espanhol. Atracou-se furiosamente com um jovem reserva, e atirou-o ao chão com um golpe semelhante ao ippon do judô. Foi apartado, se não o assustado reserva teria ido direto para o Pronto Socorro.

Espetáculo deprimente oferecido por uma turma sem eira nem beira. Alguém sugeriu excluir a Argentina da próxima Copa. Imagine só se a gananciosa Fifa havia de perder a fonte de renda representada por um país de mais de 40 milhões de habitantes.

A Argentina vai estar presente em 2030, pode ter certeza. Resta esperar que a próxima leva seja de jogadores mais civilizados. É permitido duvidar.

Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

O prepotente e o capacho

José Horta Manzano

Interferência do poder público no esporte, sempre houve. Desde o prefeito que “compra” o árbitro com o dinheiro da prefeitura, até o presidente do país que, discretamente, avisa que não aceitará nenhum outro vencedor do campeonato nacional que não seja o time para o qual ele torce.

Às vezes dá certo, às vezes não. O problema é a extrema dificuldade de se denunciarem fatos assim com base em provas irrefutáveis. Essas interferências costumam tomar dois caminhos: ameaça ou “compra” (corrupção).

Já quando se trata de Copa do Mundo, fica mais complicado. Dada a visibilidade desse evento, qualquer interferência fica escancarada, Embora tenha acontecido no passado, a última vez foi há quase meio século.

Não se tem notícias de que Hitler tenha tentado meter o bedelho nas copas de 1934 e 1938, mas sabe-se que Mussolini interferiu. Principalmente na Copa de 1934, sediada pela Itália, há forte suspeita de intervenção do “Duce”, embora a história não tenha guardado prova. Coincidência ou não, a Itália venceu aquela edição.

Foi em 1978, na Copa da Argentina, que a mão pesada da ditadura ficou mais evidente. Se não serve de prova, pelo menos é forte indício. O pecado, desta feita, foi a corrupção, com dinheiro grosso rolando por baixo da mesa. A uma certa altura, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols a fim de deixar o Brasil para trás e chegar à final.

No torneio, até então, a defesa peruana havia se mostrado forte. Pois justamente no jogo contra a Argentina abriram o bico e concederam vitória aos albicelestes pelo inacreditável placar de 6 a 0. Com isso, a Argentina foi à final e, derrotando os holandeses, sagrou-se campeã do mundo.

Prova, não há. Mas há forte suspeita de corrupção. Depois desse episódio, nâo se registraram, em Copas do Mundo, outros eventos dignos de nota. Isso foi até ontem.

Durante o jogo contra a Bósnia, um atacante dos EUA deu um pisão pra valer no pé de um adversário. Depois de consultar o VAR, o árbitro deu cartão vermelho ao agressor, o que significa suspensão para o próximo jogo. Uns gostaram da expulsão, outros não, mas ficou por isso mesmo.

Alertado para o fato de o melhor atacante americano estar suspenso para o próximo jogo, Donald Trump não hesitou: ligou para seu amigo Gianni Infantino, presidente da FIFA, e exigiu anulação do cartão vermelho. Em ato de submissão desbragada, Infantino acedeu ao pedido de Trump: o cartão foi anulado, e o atacante americano poderá jogar a próxima partida.

Inconformados, jornais do mundo inteiro denunciaram o escândalo. Se, no passado, havia suspeita de interferência do poder na Copa, desta vez há denúncias até no ultrassério The New York Times. E Trump ainda se manifestou louvando a FIFA por ter corrigido uma “enorme injustiça”.

É lamentável essa intervenção descarada. Demonstra que, do encontro de um homem prepotente (Trump) com um homem com vocação para capacho (Infantino), não se pode esperar nada de sério. O esporte mundial não ganhou nada com o ocorrido. A credibilidade da FIFA sai do episódio ainda mais arranhada do que de costume.

Infantino, que é candidato à sua própria sucessão na presidência da FIFA, certamente está contando com o apoio de delegações asiáticas e africanas que, contra um punhado de dólares, costumam dar seus votos a ele.

A meu ver, está brincando com fogo. As delegações mais fortes e que mais contribuem para a saúde financeira da FIFA são as europeias, que não hão de apreciar ser participantes de jogo tão abertamente sujo.

Casus belli

José Horta Manzano

O fato de

Lula
ir a Buenos Aires para um compromisso,
não ter encontro com Milei,
em vez disso, visitar a ex-presidente Cristina Kirchner
(atualmente condenada e comprindo prisão domiciliar)

equivale a

Milei
vir a Brasília para um compromisso,

não ter encontro com Lula,
em vez disso, visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro,
(atualmente inelegível e réu em processo criminal).

O distinto leitor e a encantadora leitora, se assim o desejarem, podem fazer uma visita dessas sem causar dano a ninguém. Mau gosto é sempre atributo pessoal e indiscutível. No entanto, se o protagonista da historieta for o presidente da República, o fato sobe uns degraus na escala de importância. O que é permitido ao reles cidadão comum nem sempre é admissível se provier de um alto dignitário.

Em termos despojados, estou falando da visita que Lula fez, dias atrás, a Cristina Kirchner, condenada por corrupção e atualmente cumprindo pena de prisão em regime domiciliar. Desconheço os montantes envolvidos nos processos nos quais foi condenada, desconheço também se ela provém de família abastada, mas avalio que o preço da tapeçaria que ela exibe na parede da sala deva corresponder a um certo número de meses do salário que recebia como “presidenta”. Madame tem bom gosto, ninguém há de contestar.

Lula da Silva, Mauro Vieira, o nobelizado Adolfo Pérez Esquivel e um quarto senhor, dois deles segurando cartazes de “Cristina libre” e um anacrônico “Lula livre”, todos posando com fundo de tapeçaria de valor, formam um conjunto desengonçado e ridículo. Brandir cartazes com reivindicações combina com jovens, que manifestam em passeata de avenida, megafone na mão. Na mão de nosso presidente, esse cartaz, francamente, não tem lugar de ser.

Como de costume, Lula da Silva não se limita ao script. Ele faz questão de falar, ao microfone ou em entrevista. São as horas mais perigosas, momentos que seus auxiliares temem. Não deu outra. Depois da visita à ex-presidente argentina, Lula afirmou: “Acredito na inocência de Cristina Kirchner”.

Sem se dar conta, Luiz Inácio cometeu afronta à Justiça do país vizinho. Vejam só: acreditar na inocência de um indivíduo já julgado, considerado culpado e sentenciado equivale a dizer que a Justiça argentina faz trabalho malfeito.

Lula é reincidente nesse tipo de ofensa. Na época de Cesare Battisti, fugitivo da Justiça italiana, chegou a dizer a mesma coisa: que acreditava “na inocência” do italiano. Anos mais tarde, foi obrigado a se retratar publicamente, um vexame.

Em tempos mais civilizados, o dirigente máximo de um país, em visita a um país vizinho, jamais ousaria ofender as instituições do anfitrião. Se o fizesse, sua tagarelice poderia ser considerada um “casus belli” – ato que provoca ou justifica uma guerra.

Se os antigos códigos de honra ainda estivessem em vigor, Lula da Silva seria considerado tão perigoso quanto Bolsonaro. Que São Benedito nos ampare!

O palavreado de Milei

José Horta Manzano

Num aprendizado benfeito, o aprendiz que se aplica de verdade chega, às vezes, a superar o mestre.

Tome por exemplo Donald Trump, presidente eleito dos EUA. Seu palavreado tem feito sucesso entre os que apreciam um governo autoritário. O personagem é mentiroso contumaz, dono de um discurso recheado de lorotas. Um dia, falando em público na época do covid, revelou que tinha o hábito diário de tomar creolina(*) como preventivo contra a doença. Pois sim… (como se dizia antigamente para demonstrar que não dava pra acreditar).

Tremendas mentiras, sim. Apesar delas, Trump não é conhecido por fazer discursos recheados de insultos e palavrões. Pode ser que escape alguma coisinha aqui ou ali, mas não é a tônica.

Nosso Jair Bolsonaro nacional, admirador declarado de Trump, tentou adotar o estilo oratório do ídolo. Só que seu baú de expressões é pobre e sua mente, pouco criativa. Em decorrência, decerto por falta de palavras, não conseguiu elevar o nível de suas invectivas. Seus quatro anos na Presidência escorreram sem que ele fosse além de palavrões rasteiros, daqueles de boteco de beira de estrada. Foi incapaz de estruturar um raciocínio sequer.

Virada a página de Bolsonaro, novo aprendiz apareceu na Argentina. Chama-se Javier Milei. Mais jovem, mais vigoroso e mais instruído que o capitão, conseguiu juntar, em seus discursos, a agressividade de Trump e a vulgaridade de Bolsonaro. Mas não se contentou de apenas continuar vivendo de carona, aboletado no calhambeque dos tutores. Com sua motosserra, alargou a picada a fim de poder trafegar com seu caudal de impropérios.

Assustados com seu palavreado, catedráticos da própria universidade em que Milei se formou vêm publicando artigos no site da instituição, textos que acabam repercutindo na mídia argentina. Karina Galperín, diretora-geral de estudos da universidade, declarou que a luta selvagem de Milei pela desregulamentação atingiu seu discurso político. O jornal La Nación analisou um discurso pronunciado pelo presidente no mês passado e descobriu que, em 70 minutos de fala, o discursante cometeu nada menos que 29 agressões.

Aqui estão alguns dos insultos, cuja variedade deixa Trump e Bolsonaro comendo poeira: casta podre, vendidos, kirchneristas, ratazanas, bando de delinquentes, ladrões, excremento humano(!), mentirosos, traidores, covardes, imbecis, ratos miseráveis, bunda suja, degenerados fiscais, esterco imundo(!).

Essa moda de se comportar há de corresponder a uma tendência mundial. Ainda outro dia, a cidade de São Paulo passou pertinho de mandar para o segundo turno um forasteiro aventureiro que parecia ter incorporado o espírito do presidente argentino. Desta vez, foi por pouco, mas ninguém garante que, da próxima, o resultado não seja diferente.

Os argentinos usam um verbo cujo significado, à primeira vista, nos escapa: putear. Em política, se usa para definir um palavreado chulo, rasteiro, recheado de palavrões. A imprensa informa que Milei sempre foi fã desse modo de se exprimir. Só que, enquanto era um personagem obscuro, o problema não era tão grave. Agora, que se tornou chefe do Estado, o eco chega mais longe.

Como se vê, parece que a puteada está se tornando o dialeto habitual dos novos dirigentes autoritários, uma política de comunicação eficiente e aceita pelos eleitores. Os discípulos de Trump estão se saindo melhor que o mestre.

(*) Não me lembro bem se Trump disse creolina, benzina ou querozene. Tanto faz, dá no mesmo: seja qual for o desinfetante, a mentira da afirmação é ululante.

Lembro a meus queridos leitores que “creolina” não tem nada a ver com as palavras hoje proibidas por habitarem no index verborum prohibitorum. Creolina não tem a ver com raça. É marca comercial de um antigo desinfectante e antisséptico feito à base de creosoto, daí o nome. Não sei se ainda é produzido.

Inútil troca de insultos

José Horta Manzano

Desde que Javier Milei, atual presidente da Argentina, fazia campanha eleitoral, já lançava insultos a nosso presidente tratando-o de “corrupto” e “ladrão”. Clamava que “o lugar de Lula é na cadeia”. Não sei se esse comportamento extravagante lhe valeu alguns votos a mais – é possível, neste mundo há bobo pra tudo.

Por seu lado, nosso Luiz Inácio não deixou os desaforos sem resposta. Torceu ostensivamente contra Milei. Deixou de comparecer à sua cerimônia de tomada de posse, atitude fortemente deselegante. É insultante deixar o presidente hermano assim, com a mão estendida no vazio.

Milei comprou a briga e botou o sarrafo mais alto. Faltou à cúpula do Mercosul, deixando assim meia dúzia de colegas chefes de Estado falando sozinhos, entre eles. Em linguagem diplomática, sua ausência soou como se ele dissesse: “Eu sou superior a todos vocês e não estou disposto a me misturar com essa ralé”.

A partir daí, os encarregados do cerimonial dos lugares em que os dois perigam estar presentes ao mesmo tempo (G20, por exemplo) caminham pisando em ovos para garantir que os dois jamais tenham de sentar lado a lado.

Na minha visão, esse tipo de querela pode ser admitida entre adolescentes. Já entre chefes de Estado vizinhos, hermanos e sem nenhum contencioso, é briga totalmente absurda. Aquele famoso “quando um não quer, dois não brigam”, que Lula opinou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, teria de ser aplicado justamente num caso como este.

Foi Milei quem começou, estou de acordo. Os insultos de Milei foram gratuitos, emitidos sem provocação, estou de acordo. Lula faltou à posse do colega por temer ser vaiado em Buenos Aires, estou de acordo. Só que agora, chega. A brincadeira acabou, os dois foram investidos no cargo de chefe de Estado. Ficam pra trás as brigas pessoais e entram em cena os ritos do cargo.

Luiz Inácio, que é o mais velho e mais experiente, devia mostrar o caminho ao fogoso vizinho. Não é assim que um chefe de Estado deve se comportar. Atitudes assim não constroem, só dividem e destroem. Que se convide o argentino para uma visita oficial ao Brasil. Que se prepare recepção com a pompa devida a visitantes de primeira grandeza.

Fico feliz de constatar que a diplomacia do Itamaraty, apesar de Lulamorim, não parece ter sido contaminada por essas infantilidades. Na sequência da decisão de Milei de não reconhecer a “vitória” de Maduro, o ditador venezuelano cortou relações diplomáticas entre Caracas e Buenos Aires e ordenou a partida imediata do pessoal diplomático argentino.

Acontece que, além dos funcionários, a embaixada argentina em Caracas abriga meia dúzia de refugiados políticos. Que fazer? A Argentina pediu e o Brasil atendeu imediatamente: nossos diplomatas em Caracas vão substituir os argentinos que tiveram de ir-se. Vão dar o expediente burocrático (emissão de passaportes, por exemplo) e vão cuidar dos refugiados (que, sem isso, perigavam morrer de fome).

Na diplomacia mundial, é relativamente frequente que um país cuide dos interesses de outro cuja embaixada teve de ser fechada. A Suíça é muito solicitada para esse tipo de serviço. Por exemplo, desde que os EUA e o Irã cortaram relações diplomáticas, em 1980, a Suíça representa os interesses americanos em Teerã (Irã).

Em nosso atual episódio sul-americano, o Brasil aceitou imediatamente a solicitação argentina e já está exercendo as funções de representante diplomático de Buenos Aires em Caracas.

Aconteceu tão rápido, que eu me pergunto se Lula foi posto a par. Seja como for, a agilidade e a prestimosidade do Itamaraty continuam em plena forma. E isso é excelente notícia.

O que sei é que Milei , em publicação nas redes, agradeceu efusivamente pela colaboração do Brasil. Lula perdeu a oportunidade de fazer as pazes ao convidar o rapaz para uma visita e uma conversa olho no olho. Ou talvez ainda não seja tarde.

“Ô, Lula, vê se dá um jeito nesse menino travesso!”

Orbis terrarum novissima tabula in Brasilia facta

Mapa-múndi de Nicolaes Visscher, 1658

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 abril 2024

No ano de 1658, o cartógrafo e editor holandês Nicolaes Visscher publicou um planisfério de sua autoria intitulado “Orbis terrarum nova et accuratissima tabula” – Mapa novo e exato do globo terrestre. O mapa, que mostra nossa Terra distribuída por dois hemisférios, é verdadeira obra de arte, com cenas mitológicas desenhadas nos quatro cantos da folha. Os dizeres são em latim, que ainda era a língua das obras sérias, não destinadas ao povão mas a um público culto.

É interessante notar que a porção de América do Sul que mais tarde viria a ser nosso país é a terra mais central do globo. Aparece em destaque, bem no meio do mundo. Europa e América do Norte se encontram distantes do meridiano central. É compreensível que Visscher tenha decidido retratar dessa maneira o mundo então conhecido. À época, muitas terras situadas na região do Oceano Pacífico ainda estavam por descobrir, o que possibilitou ao cartógrafo amputar parte do Japão e da Austrália, regiões mal conhecidas que acabaram ficando fora do mapa. Hoje, nenhum profissional sério faria mais isso.

Duas semanas atrás, o IBGE revelou ao grande público, com estrondo, sua mais recente façanha: um mapa-múndi que, enfim, coloca o Brasil no lugar que lhe é devido – no centro do mundo! Nas palavras de Doutor Pochmann, diretor do Instituto, o costume de desenhar o planisfério com o Meridiano de Greenwich no centro não passa de “projeto eurocentrista de modernidade ocidental”. São palavras panfletárias, distantes do processo científico. Na Ciência de verdade, projetos diferentes não se excluem, se complementam.

Assim mesmo, vamos admitir que o tal “projeto eurocentrista de modernidade ocidental” existe e que o Meridiano de Greenwich são suas impressões digitais. Ainda assim, será ingenuidade acreditar que o fato de o Brasil impor a seus estudantes um planisfério em que o meridiano central foi empurrado com o cotovelo vá influir nos desígnios do planeta. A Terra vai continuar a girar e o Meridiano de Greenwich continuará aparecendo no centro dos mapas-múndi que não forem impressos pelo IBGE. Eis aí o tipo de protesto naïf e inútil, que só vai servir para confundir a cabecinha de nossos estudantes, que terão mais dificuldade em entender por que razão esse meridiano foi escolhido para iniciar a contagem das 24 horas do dia.

O alvoroço gerado pela publicação do novíssimo Atlas Geográfico Escolar do IBGE destoa da seriedade do objeto. Um atlas é coleção de conhecimentos, uma enciclopédia sócio-geográfica que tem direito a ser lançada com a reverência e o recato que lhe são devidos.

Nosso cartógrafo holandês do século XVII até que tinha direito de omitir terras ainda não exploradas. Tinha também o direito de cortar as terras distantes e pouco conhecidas em dois pedaços, aparecendo um de cada lado do planisfério. Nosso IBGE, herdeiro de 150 anos de tradição de seriedade, não tem mais esse direito. Quando preparamos um mapa do Brasil, toda a atenção tem de estar focada no Brasil, evidentemente. Já quando desenhamos um mapa-múndi, nosso horizonte tem de se alargar. Além do Brasil, temos de cartografar também o resto do mundo. Se não temos capacidade de fazer isso certinho, é melhor desistir e importar planisférios já prontos.

O Novíssimo Atlas Escolar do IBGE peca em diversos aspectos. Com o deslocamento do Meridiano de Greenwich de 30 graus a leste, a Austrália aparece cortada em dois pedaços. A China e a Rússia idem. O mesmo vale para a Indonésia. Detalhe: como integrantes do G20, nenhum desses 4 países há de apreciar a travessura de nossa Novissima Tabula. Tem mais: o Canal da Mancha é descrito como “Estreito de Dover” enquanto o Estreito de Malaca aparece como “Estreito de Málaca”. Outra pérola: as Ilhas Falkland (Malvinas), território britânico, são unilateralmente atribuídas à Argentina.

Numa prova de inconsistência, a “arte de deslocar o Brasil para fazê-lo entrar à força no centro do mundo” não contaminou toda a coleção de mapas-múndi guardados no site do IBGE. De meia centena de planisférios, somente uma meia dúzia foram redesenhados conforme a novíssima versão. Os demais continuam mostrando Greenwich no centro do mapa. Parece que nem o IBGE acredita em sua própria mágica.

No centro do mundo não se entra pela janela nem pela porta dos fundos. Se um dia o Brasil chegar lá, terá que passar pela porta da frente. E ser recebido com dupla ala de guardas de honra, emplumados e engalanados.

¡Extranjeros, no!

José Horta Manzano

O misterioso título do artigo da Folha me chamou a atenção:


“Argentina aperta cerco contra estudantes brasileiros sem visto e falsos turistas”.


Sei que os brasileiros têm o direito de permanecer na Argentina até 3 meses sem visto. Sei também que o período é prorrogável por 3 meses. Cogitei: “Onde estarão esses ‘falsos turistas’ e por que razão um cerco se aperta contra eles?” Intrigado pela enigmática chamada, li o artigo.

O drama, creio eu, tem a ver com má circulação da informção no emaranhado de funcionários burocráticos argentinos que fixam diferentes taxas. Há jovens brasileiros que optam por estudar numa faculdade argentina, o que pode ser uma ideia interessante. Em princípio, para eles, o roteiro deveria ser: primeiro, matrícula no estabelecimento; segundo, obtenção de um visto de estudante; terceiro, viagem rumo à Argentina e entrada no país.

Só que aí tem um problema – burocrático, acredito. O visto de residência para estudar na Argentina (normalmente solicitado antes de entrar no país) custa 550 dólares (R$ 2.700). No entanto, o mesmo visto solicitado por um estrangeiro que já se encontra no país sai bem mais barato: 14 mil pesos (R$ 80).

Essa disparidade explica que muito candidato a estudar num estabelecimento argentino de ensino superior tente burlar a regra fazendo o caminho inverso. Em vez de solicitar o visto antes de entrar na Argentina, o indivíduo entra como turista, sem pagar nada, e só então faz a solicitação do visto de residência para estudante. Sai por R$ 80.

A diferença de custo entre os dois vistos é tão brutal que dá margem a esse tipo de “caminho alternativo”. Pecadinho que, convenhamos, não é tão grave assim.

Agora, com a subida de Javier Milei à Presidência, ficou mais difícil escapar da taxa de 2.700 reais. Controles têm sido feitos para desmascarar e expulsar do país os “falsos turistas”, ou seja, os estrangeiros que os agentes de imigração julgam ser futuros estudantes. Há muito de adivinhação nesse procedimento, e a consequência são injustiças aos montes.

Para corrigir o problema na raiz, bastaria que a burocracia argentina acertasse os ponteiros com referência às taxas. Basta igualar as duas e o nó será desfeito. Todos entrarão no país já com o visto no bolso e os “falsos turistas” serão coisa do passado.

O que surpreende nesse drama é o fato de o governo argentino dificultar a vinda de estudantes estrangeiros que buscam as universidades do país. Os alunos não argentinos acabam se sentindo “personae non gratae”, expressão que anda por todas as bocas. Não atino a razão por detrás dessa prática de estigmatizar alunos estrangeiros.

Em princípio, todo país, principalmente os que já são (ou gostariam de ser) potências importantes, trabalham para difundir sua cultura e seu modo de vida. Foi assim que a cultura dos EUA e seu “American way of life” marcaram e continuam marcando o globo. Países importantes mantêm escolas e institutos no estrangeiro para espalhar sua influência. Todos querem ser sede de encontros importantes: G7, G20, Brics, Olimpíadas, Copa do Mundo.

O estudante que passa quatro ou cinco num país como a Argentina chega ao fim do curso com uma bagagem cultural que conservará por toda a vida. E essa bagagem inclui a língua e os costumes do país no qual passou esses anos todos.

Parece-me que a Argentina, ao tratar estudantes estrangeiros como penetras, está na direção errada. O aluno rejeitado encontrará de qualquer maneira outro país que o acolha. A continuarem as coisas desse jeito, quem sai perdendo é a Argentina.

Lula na Cúpula do Mercosul

José Horta Manzano

Lula acolheu os chefes de Estado dos países integrantes do Mercosul para um encontro no Rio de Janeiro. Foi no dia 7 de dezembro. Gostaria de saber quem teve a luminosa ideia de marcar o convescote para essa data.

É de conhecimento público que o novo presidente da Argentina, escolhido mês passado pelas urnas de seu país, tomará posse do cargo no dia 10 de dezembro. No regime presidencial das repúblicas sul-americanas, o chefe do Executivo tem forte influência sobre políticas públicas, particularmente sobre a política externa. Por que, diabos, a cúpula foi marcada para 3 dias antes da posse do novo presidente dos hermanos?

Pode ter sido por distração. Ninguém se deu conta de que, três dias depois, a Argentina teria novo presidente. Será?

Pode ter sido uma homenagem ao presidente que deixa o cargo, como a festinha que se faz para o colega de trabalho que se aposenta. Será?

Pode ter sido para evitar acolher, sob o mesmo teto e junto com os outros dirigentes mersossulinos, señor Javier Milei, novo presidente argentino, que já declarou que retiraria seu país do Mercosul. Será?

Tenho tendência a acreditar na terceira possibilidade. Lula, o anfitrião, deve fechado as portas a seu novo colega, o autodeclarado “anarcocapitalista”. Lula deve ter raciocinado: “Ah, está desdenhando de nós? Pois então vá ficando fora desde já!”.

É atitude infantil, de criança mimada que fecha a porta ao coleguinha bagunceiro. Tivesse 7 anos de idade, Luiz Inácio estaria desculpado. Mas ele tem mais que isso. Já perto dos 80, Lula não só está distante da infância, como também é chefe de Estado de um país grande. Nessa situação, não se fica de mal dando o dedinho.

No dia seguinte à eleição, Milei já abriu o jogo: grande parte do que havia declarado em campanha era pra ser esquecido. Declaração de palanque não se escreve, que não é pra valer. E Lula sabe bem disso.

Costuma-se falar em “lobo em pele de cordeiro”. Pois o figurino de Milei parece corresponder mais ao de um “cordeiro em pele de lobo”. Eleito, desvencilhou-se da fantasia de lobo que o atrapalha e tenta agora mostrar que, lá no fundo, dorme um cordeirinho de cartão de Natal.

Lula recebeu convite pessoal e especial para a posse. Milei mandou ainda sua futura ministra de Relações Exteriores visitar Lula em Brasília enfatizar o convite. Luiz Inácio preferiu não ir. É escolha sua.

Mas seria de bom alvitre pelo menos ouvir o que o argentino tem a dizer. Será que mudou mesmo? Será que continua firme na intenção de bombardear o Mercosul? Se voltar as costas aos vizinhos, vai comerciar com quem? Na igreja, o padre costuma escutar a confissão do fiel antes de condená-lo ou dar-lhe absolvição. Lula bobeou feio ao não marcar a cúpula para depois da posse.

Pra piorar, Lula aproveitou a cúpula para confessar estar pessoalmente triste com o fim do mandato do presidente argentino que se vai. A frase que dirigiu a Fernández, “Acho que você merecia melhor sorte. A economia poderia ter melhor sorte”, foi óbvia flechada endereçada ao novo presidente.

Em política externa, Lula tem seus rasgos de Bolsonaro. Tanto um como o outro acreditam que amizade e sintonia pessoal entre dirigentes contam mais do que os interesses próprios dos países. Não é assim que funciona na vida real. Sintonia pessoal ajuda, sem dúvida, mas não é essencial. O interesse nacional nem sempre coincide com a amizade entre os presidentes.

A esse propósito, veja-se o caso atualíssimo dos arroubos de Maduro contra a vizinha Guiana. Apesar da “amizade fraterna” que une Lula e Maduro, os interesses nacionais brasileiros divergem totalmente das intenções belicosas do dirigente venezuelano. Apesar da simpatia que os une, Lula deverá (ou deveria?) dar um basta na brincadeira perigosa do compañero bolivariano.

Quer Lula queira, quer não, Brasil e Argentina são maiores do que Lula e Milei. Governantes passarão, mas os países continuarão vizinhos de parede até que, talvez um dia, as placas tectônicas resolvam nos separar. Daqui até lá, periga levar alguns milhões de anos.

Argentina e o jogo do bicho

José Horta Manzano

Por motivo de defasagem de fuso horário, não pude esperar acordado até o fim da apuração na Argentina. Logo de manhã, ligo o rádio e fico sabendo que Milei venceu. “Que horror!”, foi minha reação. “Eu é que não teria votado nesse sujeito!”

Terminado o café com pão (sem leite condensado), veio o tempo da reflexão. Os 56% de votos que o homem recebeu – já roçando os 60%! – significam que praticamente 3 em cada 5 eleitores cravaram o nome dele na cédula. Será que 60% dos hermanos são destrambelhados? Será que já se pode antever, qualquer dia desses, a invasão dos palácios governamentais da bela Buenos Aires, por uma turba ensandecida que entra e quebra exigindo golpe militar?

Minha bola de cristal foi pro conserto e me deixou sem meios de adivinhar. Assim mesmo, eu diria que não, que os mileiístas (com o perdão do neologismo) não invadirão palácio nenhum. Se por acaso invadirem, não será pra pedir golpe mas pra pedir comida. E isso só acontecerá se a situação do país se agravar a ponto de criar legiões de esfomeados. (O que não é impossível.)

Eu falava do destrambelho dos hermanos. Não, certamente uma eventual inconsistência cognitiva não afeta um contingente tão enorme no país vizinho. Em outras palavras: não endoidaram de vez.

Antes de julgar, tente se enfiar na pele de um cidadão que vê seu país desmanchando. Com 100% de inflação anual, os preços aumentam todos os dias, ninguém sabe quanto vai receber de salário no fim do mês, compras mais importantes ficam imparceláveis visto que a inflação futura é um jogo de azar e ninguém quer arriscar. Produtos comuns rareiam, falta isto, falta aquilo.

Os que podem, dão adeus definitivo ao país e se mandam para Miami (os mais abastados), ou para a Espanha ou Itália (os demais). Na verdade, grande parte da população da Argentina descende de imigrantes espanhóis e italianos. Pululam empresas especializadas em facilitar busca genealógica e recuperação da nacionalidade dos ancestrais. Quem pode, se inscreve. No país, a coisa está feia e os prognósticos são pessimistas.

De repente, aparece um candidato à presidência, saído do nada, um sujeito de quem pouca gente tinha ouvido falar. Lá vem ele, teatral, agressivo, cheio de energia, com pose de salvador da pátria. Garante que vai demolir e arrasar ‘tudo o que está aí’ pra construir tudo novo. Afirma que vai atrelar a economia do país ao dólar (na Argentina, o doce som da palavra ‘dólar’ cai como carícia aos ouvidos). Assevera, ainda, que o futuro será risonho para todos.

O eleitor argentino, cansado de ver o país governado por corruptos e ladrões incapazes, dificilmente consegue escapar ao canto de sereia entoado por Milei. Ao povo, pouco se lhe dá que as Malvinas (Falkland) sejam ou não argentinas, que isso é coisa do passado. Pouco importa também o fato de Milei “explodir” ou deixar de explodir o Banco Central. Quanto ao Mercosul, ao eleitor, pouco se lhe dá que a Argentina continue ou não no grupo. Na verdade, o que importa a nosso eleitor cansado é que a curva da decadência argentina se inverta e que o futuro venha realmente mais risonho.

Javier Milei promete que assim será. Os demais candidatos não têm alternativa melhor a oferecer se não a continuidade ‘do que aí está’. Os eleitores seguiram a receita ‘Tiririca’: pior que está não fica. Seis em cada dez resolveram tentar. Na minha opinião, não são “mileiístas” de carteirinha. Só jogaram no 14 porque gostam de gato. (E 14 é o grupo do gato.)

Torço para que seja verdadeira a promessa, feita por Milei no discurso de vitória, que a Argentina vai recuperar o brilho, a força, a grandeza e a riqueza de décadas passadas. Será um problema a menos para o Brasil. Nada como ter vizinhos ricos. Dado que dinheiro não compra belas praias ensolaradas de areia fina, os argentinos continuarão sem elas. Isso nos garante a vinda de multidões de turistas (abonados) no verão. Para nossa economia, é melhor que ganhar no jogo do bicho.

O brasileiro não pode atirar a primeira pedra, visto já ter passado recentemente por essa estrada. Aqui vão nossos votos sinceros de que a aventura deles não termine em desastre como aconteceu com a nossa.

Desejamos felicidades a nuestros hermanos!

O quarteto final

José Horta Manzano

Nestes últimos dias de Copa, as ruas de Doha estão se esvaziando. À medida que seleções vão ficando à beira da estrada, os torcedores desapontados vão deixando o país, sem ânimo de assistir aos últimos jogos. Para o torcedor entusiasmado, quando seu time nacional se vai, o campeonato perde a graça.

É verdade, nós também demos adeus ao verde-amarelo. Mas a Terra não parou de girar. O espetáculo prossegue com embates entre os quatro sobreviventes, dentre os quais sairá o campeão do mundo. Que fazer agora? Torcer pra que todos percam? Não faz sentido.

Por minha parte, sigo o raciocínio seguinte. As quatro seleções remanescentes são uma fotografia representativa da distribuição geográfica do futebol atual: sobraram duas equipes europeias, uma sul-americana e uma africana.

A opulenta Liga Europeia, com 53 países membros, tem direito a duas vagas entre os quatro finalistas. O continente americano também merece mandar um representante: desta vez, foi a Argentina. A presença da seleção marroquina simboliza a periferia do futebol mundial, excluída a Europa e a América do Sul; é uma periferia em plena ascensão.

Acho que não vale a pena dar de ombros e desligar a televisão justo agora que se pode apreciar o espetáculo de modo desapaixonado. Por minha parte, torço para a Argentina, último representante de nossa região. Se ganhar, ganhou; se não, tanto faz. Vamos aproveitar, que ainda temos quatro jogos até domingo.

Deu zebra

Jogo do bicho

José Horta Manzano

Nesta terça-feira, surgiu a primeira zebra da Copa 22: a Argentina, forte candidata ao título, foi derrotada pela Arábia Saudita, uma das equipes mais fracas do campeonato.

Jornais argentinos online estão arrasados. São páginas e páginas de desconsolo, com entrevistas, análises, comentários, lamúrias. Dá pra entender.

Mas é bom não tripudiar em cima dos hermanos. De criança, a gente já tinha a sabedoria de dizer que quem cospe para cima recebe o cuspe de volta na cabeça. Vai que o Brasil pega a República dos Camarões ou a Sérvia em dia inspirado – como é que fica? Pode dar zebra pra nós também.

Falando em “dar zebra”, sabe de onde vem essa expressão? Pois vem do jogo do bicho. O sistema é baseado num quadro de 25 animais, que vão da avestruz à vaca. A zebra não aparece entre esses bichos.

Quando Dona Maricotinha procura a vizinha pra saber o resultado do sorteio de hoje, pode ouvir em resposta: “Deu gato na cabeça”, “Deu águia”, “Deu o burro”. Mas jamais ouvirá “Deu zebra”, porque esse simpático animal listrado não faz parte do jogo.

Portanto, utiliza-se a expressão “dar zebra” quando algo não dá certo, quando o resultado é inesperado, imprevisto, difícil de acreditar, completamente fora de eixo.

Atentado

José Horta Manzano

A língua francesa formou o substantivo attentat tomando como base o verbo attenter, que é filhote do latino attentare. Em latim, o verbo significava pôr em prática qualquer meio para que uma coisa seja bem sucedida.

Nossa língua foi buscar o substantivo francês e o aportuguesou: virou atentado. O sentido continua bem próximo ao original. Em atentado, está embutida a ideia de tentativa. Como toda tentativa, tanto pode dar certo como não.

A vice-presidente da vizinha Argentina foi ontem vítima de um atentado. Um indivíduo apontou uma arma, tentou atirar, mas a bala não saiu. A vice-presidente teve sorte. O agressor, menos. Além de não ser bem sucedido, foi dormir atrás das grades.

A Folha de SP acertou ao dar a notícia. Falou em “atentado contra Cristina”. Correto.

Folha de São Paulo

 

 

O Globo também acertou. Foi até mais longe. Falou em “tentativa de assassinato”. Correto.

O Globo

 

 

Já o Estadão escorregou. Tratou a notícia de “tentativa de atentado”. Além de soar complicado (tentativa de atentado), desvirtua a verdade. O que o agressor cometeu foi um atentado de verdade, não uma “tentativa”. Se não deu certo, é uma outra história.

Estadão

 

 

Se o redator fizer questão de qualificar o ato, pode falar em atentado falho, atentado fracassado, atentado infrutífero, atentado frustrado – ou outro adjetivo parecido.

Mas é bom não esquecer que, apesar de o agressor não ter conseguido chegar a seus fins, o ato foi um atentado de verdade, não só um ensaio ou uma tentativa.

Brasil à mesa dos grandes

José Horta Manzano


Este blogueiro não tem a menor simpatia pelo Lula. E jamais votou em candidato petista. Quem me lê sabe disso, mas não custa repetir.


Cúpulas do G7
As reuniões anuais de cúpula dos países mais industrializados começaram em 1975 e continuaram a ser organizadas anualmente. Os que têm mais de 30 anos hão de se lembrar que o grupo dos países mais industrializados se chamava G8. Isso foi enquanto a Rússia, que era um dos participantes, foi considerada terra civilizada. Tudo mudou em 2014, quando Putin mandou a tropa invadir e tomar a região ucraniana da Crimeia. A partir de então, a Rússia foi suspensa do grupo e nunca mais conseguiu seu bilhete de entrada.

Tirando o ano de 2019, em que a covid grassava freio, houve cúpula todos os anos. Desde a virada do século, o país que hospeda a reunião ganhou o direito de propor a líderes de países não-membros que participem como convidados de honra. Lula da Silva, então presidente do Brasil, foi convidado nas seguintes cimeiras:

2003, realizada na França
2005, realizada no Reino Unido
2006, realizada na Rússia
2007, realizada na Alemanha
2008, realizada no Japão
2009, realizada na Itália

Nosso Guia, como se sabe, deixou a Presidência em 2010. Coincidência ou não, depois disso, o Brasil nunca mais recebeu convite para participar. Nem Dilma, nem Temer, nem muito menos Bolsonaro tiveram a honra. A bem da verdade, diga-se que o capitão estava na lista de convidados para a cúpula de 2019, a ter lugar nos EUA durante o governo de Trump. A pandemia acabou com a festa e obrigou ao cancelamento.

Aqui vai uma curiosidade pra deixar o atual presidente verde de inveja. Sabe quem esteve entre os convidados de honra este ano, na cúpula que acaba de terminar na Alemanha? Pois foi Señor Alberto Fernández, representando a Argentina. Além dele, foram homenageados os líderes da Indonésia, da Índia, da África do Sul e do Senegal. O Brasil ficou na geladeira, fazendo companhia à Rússia (banida) e à China (que nunca entrou).

Sabe quando é que o Brasil de Bolsonaro vai voltar a ter alguma chance de participar? Nunca. Só depois que voltar ao normal, ou seja, após a partida de Bolsonaro. Nem que, por impiedade do destino, o homem fosse reeleito e ficasse mais quatro anos no palácio: seriam quatro anos sem Brasil entre os grandes. Agora, se Nosso Guia vestir a faixa em janeiro próximo, boas são as chances de o Brasil subir de novo ao palco.

Anote aí
As próximas reuniões de cúpula do G7 estão previstas para 2023 no Japão e 2024 na Itália.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Campeonato de baixaria

José Horta Manzano

12 agosto 2019
Antes das eleições presidenciais pra valer, o sistema eleitoral argentino prevê a realização de prévias. Com 48% dos votos, Señor Fernández (esquerda) botou pra correr Señor Macri (direita), que só obteve 32%.

Bolsonaro, que já era presidente, se encontrava no Rio Grande do Sul. Soltou uma fala raivosa em que mandava os gaúchos se prepararem para um afluxo de refugiados vindos da Argentina, caso a “esquerdalha” ganhasse a Presidência naquele país. Em referência aos refugiados venezuelanos, acrescentou que o Rio Grande ia se transformar “num novo estado de Roraima”.

13 agosto 2019
No dia seguinte, Señor Fernández, ainda candidato, declarou que, com o Brasil, teria uma relação esplêndida, e que Bolsonaro não passava de “uma conjuntura” na vida do país. Classificou o capitão como “racista, misógino e violento”.

21 agosto 2019
Bolsonaro resolveu dar mais uma martelada no prego. Tuitou: “Com o possível retorno da turma do Foro de São Paulo na Argentina, agora o povo saca, em massa, seu dinheiro dos bancos. É a Argentina, cada vez mais próxima da Venezuela”.

Nosso extravagante chanceler, aquele barbudinho bobão, seguiu o caminho do chefe e criticou, por antecipação, o futuro governo Fernández.

1° novembro 2019
Dois dias depois da vitória de Fernández, que derrotou o candidato favorito de Bolsonaro, nosso capitão deixou claro que não compareceria à tomada de posse do novo presidente do país hermano. Com sublime elegância, acrescentou que a Argentina havia “escolhido mal” e que ele não ia dar parabéns ao vencedor. Assim mesmo, num repente de condescendência, prometeu não fazer “retaliação”(?) à Argentina.

30 novembro 2020
Neste dia teve lugar a primeira Cúpula do Mercosul à qual os dois presidentes compareceram. Conciliador, Fernández pediu a Bolsonaro que deixasse de lado as rusgas entre os dois e que ajudasse a dar um impulso ao mercado comum. Não consta que o capitão tenha dito sim ou não.

10 junho 2021
Em discurso pronunciado diante de Señor Sánchez (primeiro-ministro espanhol em visita a Buenos Aires), Fernández ousou a seguinte frase: “Los mexicanos salieron de los indios, los brasileños salieron de la selva, pero nosotros, los argentinos, llegamos en los barcos, de Europa” (Os mexicanos vêm dos índios, os brasileiros vêm da selva, mas nós, os argentinos, chegamos nos barcos, da Europa).

Em suma, o presunçoso mandatário nos tratou de selvagens. Pegou mal pra caramba. Não consta, até agora, nenhuma reação do capitão, que viu seu povo inteiro tratado de bugre.

Resumo
Nesse campeonato de baixaria várias perguntas flutuam no ar.

Quem é…

… o mais agressivo dos dois presidentes?

… o mais insensível?

… o mais inconsequente?

… o mais presunçoso?

… o mais antidiplomático?

… o mais despreocupado com o futuro do próprio povo?

… o mais malcriado?

… o mais elefante em loja de porcelana?

… o mais desagradável?

… o mais imbecil?

… o mais perigoso?

O páreo é duro. Cartas para a redação, por favor.

Esquerdalha

Elio Gaspari (*)

Em agosto de 2019, quando Alberto Fernández venceu as primárias para a Presidência da Argentina, Jair Bolsonaro resolveu atravessar a fronteira para escorregar numa casca de banana em terras alheias:

“Não esqueçam que, mais ao sul, na Argentina, o que aconteceu nas eleições de ontem. A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma de Dilma Rousseff, que é a mesma de Hugo Chávez, de Fidel Castro. (…) Se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima”.

Era o tempo em que venezuelanos atravessavam a fronteira e vinham para o Brasil. Hoje os brasileiros gostariam de dar um pulinho na Argentina. Lá, desde a semana passada, a população está sendo vacinada contra a Covid.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 3 jan° 2021.

Os problemas argentinos

Carlos Brickmann (*)

Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos. Um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas.

É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”) enquanto o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é.

Juan Domingo Perón (1895-1974), político argentino

Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais (=R$ 3.300,00). E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos (=R$ 1.370,00).

Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Guerra de religiões

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 fevereiro 2020.

Fosse mineiro, doutor Bolsonaro teria aprendido, desde criança, que mingau quente se come pelas bordas. Está evidente que não aprendeu. Em repetidos ataques, o homem mira sempre o topo da hierarquia. Desde os tempos em que era candidato, já assestou golpes pesados à China (nosso maior parceiro comercial), à França (nosso único fornecedor de submarinos), à Argentina (nosso vizinho mais significativo), ao Congresso (que, na hora do aperto, será o garante da continuidade de seu mandato), à CNBB (congregação maior da Igreja no Brasil). O homem é desastrado. Esses ataques frontais têm alto potencial destrutivo. De ricochete, o próprio presidente sai um pouco chamuscado em cada episódio. E, por extensão, o Brasil e o povo perdem.

Em 2022, nem chineses, nem franceses, nem argentinos votarão em nossa eleição presidencial. Portanto, não há por que perder tempo a acariciá-los. Mas os brasileiros católicos, ainda majoritários no país, sim, votarão. Muitos deles estão se sentindo incomodados com a deferência que doutor Bolsonaro tem demonstrado para com as denominações neopentecostais. Essa tendência ficou ainda mais clara quando ele propôs alívio fiscal à conta de luz de templos; quando declarou desejar ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF; quando se deixou filmar de joelhos, em posição de submissão, diante de um pastor paramentado.

Não se espera que o presidente de todos os brasileiros abrace uma raça, uma origem ou uma religião em detrimento das demais. Ao passar por cima dessa regra de bom senso, doutor Bolsonaro aciona perigosa armadilha que pode fechar-se em volta dele mesmo. Decerto avisado por seu entourage, mandou que a ministra Damares entrasse em contacto com dignitários católicos pra apagar o incêndio. Talvez dê certo, mas desagravo emitido pessoalmente pelo presidente teria mais força.

Por seu lado, o esperto (e agora experto) Lula da Silva já pressentiu o trunfo que se lhe apresenta. Nas trevas que envolvem a atual presidência, descobriu um fiapo de luz que pode ajudá-lo a subir de volta ao palco iluminado. O raciocínio é simples: se Bolsonaro for para um lado, ele tem de ir para o outro; tem de captar a simpatia dos abandonados por Bolsonaro. Tendo em vista o bate-cabeça que corre solto pelos corredores do Planalto – e que desagrada a muita gente –, a estratégia do Lula não tem nada de adoidada. Paparicar o novo governo argentino pode dar manchete, mas não traz votos. Há caminho mais direto.

Na onda do aceno que, ainda na cadeia, tinha recebido do papa Francisco, Lula fez questão de visitar Sua Santidade. Obra do acaso ou não, a viagem caiu bem no dia em que o ex-presidente tinha de comparecer a uma audiência judicial. Conseguiu adiamento e embarcou. E a notícia saiu em todos os jornais, tevês e portais. Protestantes, judeus e maometanos terão ficado indiferentes. Evangélicos terão feito muxoxo. Já católicos terão visto com alívio um importante personagem que, embora caído, dá mostras de estar bem com a Igreja. Faz um ano que os fiéis da religião majoritária no país se encontram reféns do estranho estrabismo que afeta o presidente, distorção que o faz considerar que adeptos de denominações neopentecostais valem mais do que os demais brasileiros.

Se, um quarto de século atrás, um futurólogo profetizasse que o Brasil destes anos 20 estaria armando a bomba-relógio de um conflito religioso interno, seria tachado de embusteiro. Naquela época, ninguém se dava conta de que o país era percorrido por tão profundas linhas de fratura, só à espera de um estopim. De lá pra cá, a estratégia do nós x eles fez grande estrago. Agora cada cidadão se equilibra entre laços de pertencimento de ordem étnica, sexual e, agora se vê, religiosa. Conflitos religiosos são a marca de países atrasados. Na Europa, num passado distante, guerras de religião chegaram a durar séculos. Hoje, estão extintas. Só faltava agora este florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo, seguir por esse caminho de pedra e retroceder às trevas medievais.