Frase do dia — 295

«Delcídio contou aos procuradores, com impressionantes pormenores, o esquema de corrupção iniciado em 2004, no primeiro governo Lula.

Diante do teor da delação de Delcídio, as bravatas de Dilma e Lula mostram que eles ainda não fazem a menor ideia de que a casa caiu.»

Cláudio Humberto, em sua coluna do Diário do Poder, 21 mar 2016.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

Interligne 34

Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Grande burrada

José Horta Manzano

Para o Lula, tentativa de Delcídio de barrar a Lava a Jato foi uma grande burrada.

Interligne 18c

Burro 3Esse foi o título de matéria publicada pelo Estadão de 26 novembro. A declaração de nosso guia, proferida em fino e típico linguajar, foi dada num almoço havido na sede da CUT, em São Paulo.

O encontro era particular, do tipo ação entre amigos. No entanto, sacumé, ninguém consegue costurar língua alheia. Sempre há os que saem por aí dando nos dentes. Segredo confessado a uma pessoa – umazinha só – deixa de ser confidência.

Burro 4Provocado por companheiros que botaram o termômetro pra medir a reação do chefe, o Lula tentou escapulir. Com respostas lacônicas do tipo “que absurdo!” ou “que loucura!”, imaginou esgueirar-se. Não deu certo. Os comensais da boca-livre exigiam mais. Sem estender-se em longo discurso, o demiurgo declarou que o que o senador fez “foi uma grande burrada”.

Burro 5Todos entenderam que o Lula se estivesse referindo ao mérito. Interpretaram o pronunciamento como censura e repúdio às intenções criminosas do senador. Quanto a mim, habituado que estou a observar mui atentamente o ex-metalúrgico, entendi diferente. E acho que não estou enganado.

Mais adiante, o artigo do Estadão diz que, para o Lula, o senador preso é político experiente, sofisticado, que não poderia ter-se deixado gravar de forma simples como foi feito por Bernardo Cerveró.

Burro 6Pronto, para mim, esse complemento de informação deixou as coisas claras. Ao acusar Delcídio de haver cometido “uma grande burrada”, o antigo presidente da República não alude ao mérito, mas à forma. A grande burrada foi ter caído na armadilha. Nosso guia não censura os planos do senador, mas a ingenuidade na execução. Pouco importa que projetos urdisse, desde que agisse discretamente e resguardasse os malfeitos de comprometedora exposição pública.

Por enquanto, fica no ar a pergunta: por que será que o senador teme e treme ante revelações que possam ser feitas? Que segredos escabrosos ainda estão por vir? No próximo capítulo da Lava a Jato, saberemos.

Interligne 18c

Burro 7PS: Tenho grande simpatia pelo burro – falo do animal, não de demiurgos nem de senadores. Acho deveras injusto atribuir o epíteto de burro a humano de pouca inteligência.

Suficientemente rica, a língua cobre a supressão do humilde animal. Tapado, idiota, bronco, ignorante, parvo, estulto, tolo, estúpido, imbecil, lerdaço, néscio, inepto, palerma dão o mesmo recado.

Frase do dia — 272

O suicídio de Delcídio

Ex-ministro de Itamar Franco, ex-diretor da Petrobrás na era FHC, líder até do governo Dilma no Senado até esta quarta-feira, Delcídio está politicamente morto antes até que Eduardo Cunha. Suicidou-se pela ganância, pela esperteza, enfim, pelo escárnio de tentar comprar um bandido preso. Nem sempre bandidos que roubam ou compram bandidos têm cem anos de perdão…

Mas, muito além de Delcídio, o principal réu, ou vítima, desta quarta-feira foi o PT. Não é trivial que tenham sido presos dois ex-presidentes, dois ex-tesoureiros, um ex-presidente da Câmara, um ex-vice-presidente da Câmara e agora o líder do governo de um mesmo partido, há treze anos no poder.

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 26 nov° 2015.

Os palácios estão desabando

Castelo de cartas 2Fernão Lara Mesquita (*)

Na gravação, Delcídio citou o nome de todos os juízes do STF. Se não mandassem prender, tavam desmoralizados. E isso botou na cara do Senado algo maior que o Senado. Um nó que nem mesmo o imortal Renan Calheiros conseguiu desatar. Xeque-mate de Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal! A coisa mudou de prateleira.

Castelo de cartas 1Os palácios estão balançando e vão desabar. O PT foi o primeiro a entender isso. E, como é do DNA do lulismo, apressou-se em atirar Delcídio às feras pra dar a entender que não tem nada com o peixe. Isso pode fazer com que o senador venha a abrir o bico. O bicho vai pegar!

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro.