O espetáculo argentino

José Horta Manzano

Quando eu era pequeno, o Brasil era muito diferente de hoje. Era caipira, meio atrasado, e todo o mundo sabia disso. O brasileiro tentava olhar para fora do país e imaginar como seria a vida no estrangeiro.

As influências que recebíamos vinham pelo cinema, com filmes em grande maioria norte americanos. Imaginávamos que os EUA fossem um país fabuloso, em que todos tinham automóvel, viviam em casas rodeadas de jardim, eram ricos e comiam omelete com toucinho de porco logo de manhã. Mas os Estados Unidos estavam muito longe, naquele mundo em que viagens intercontinentais custavam um patrimônio.

Mais próximo de nós estava a Argentina, país que julgávamos adiantado, moderno, nosso vizinho de parede. Vizinho é modo de dizer, porque, apesar da distância relativamente pequena, quase ninguém viajava até lá. Estradas havia, mas era impensável rodar tantos quilômetros. De trem, era impossível. O melhor meio de chegar a Buenos Aires era de navio. Vosmecê não acredita? Pois era assim.

Os poucos que viajavam até lá traziam objetos que não existiam aqui. Mantas de pura lã, frutas secas de produção local, vinhos. Em nossas feiras, vendiam-se maçãs e peras argentinas, porque não havia produção brasileira. Cerejas, quando apareciam, vinham de lá e custavam uma fortuna.

Tive uma tia-avó que, toda semana, comprava uma revista feminina argentina, porque ainda não havia nada parecido no Brasil. Era o Para Ti, que trazia romances em capítulos, receitas, artigos sérios, ilustrações coloridas – um deslumbre. Foi essa revista, aliás, que me deu as primeiras lições de língua espanhola. Sempre tive grande admiração pela Argentina.

Passado tanto tempo, simpatias vindas da infância às vezes se chocam com a realidade. Assisti ao jogo de domingo, final da Copa, com o duelo Espanha x Argentina. Tendo já assistido à partida das semifinais entre a Argentina e a Inglaterra, eu já estava ressabiado. Aquilo foi uma desgraceira, uma pancadaria sem fim. Era assim, então, que a campeã da última Copa pretendia defender seu título? Que horror. Passaram 90 minutos daquela semifinal massacrando fisicamente os ingleses, como se estivessem num campo de batalha.

Um jogador argentino faz um espanhol fazer um voo acrobático e aterrissar no gramado.

Um analista creditou esse comportamento a um “rancor persistente” (pela derrota sofrida 44 anos atrás, na Guerra das Malvinas). Rancor? – pergunto eu. Por algo que ocorreu antes que todos os jogadores tivessem nascido? Não acredito. Aquilo foi mostra de agressividade própria de um grupo desclassificado, surgido não se sabe de que caverna.

No jogo final da Copa, os ferozes jogadores argentinos repetiram a dose. Deram pancada e cotovelada a granel. Abusaram das faltas e do comportamento antiesportivo. Foi constrangedor. Alcançaram um recorde nada invejável: pela primeira vez, uma seleção atravessa os 90 minutos da partida final sem chutar a gol. Não digo nem fazer um gol, mas apenas chutar em direção à meta. Não é impressionante? Acho que estavam tão vidrados na agressividade contra os adversários, que não deu tempo de pensar em fazer gol.

A imprensa mundial pouco falou desse aspecto deplorável do jogo. Artigos e análises preferiram passar batidos por esse capítulo desagradável. O New York Times não deixou passar em branco. O articulista intitulou “A Argentina desonrou a si mesma — e a final da Copa do Mundo — com sua petulância sem charme”. Leandro Paredes, talvez o mais feroz dos argentinos, teve direito ao epíteto de “vilão sorrateiro” por parte do NYT.

Barraco armado por um furibundo jogador argentino depois da derrota.

E o barraco não acabou com o apito final. Terminado o encontro, o mesmo Paredes arrumou confusão com o banco espanhol. Atracou-se furiosamente com um jovem reserva, e atirou-o ao chão com um golpe semelhante ao ippon do judô. Foi apartado, se não o assustado reserva teria ido direto para o Pronto Socorro.

Espetáculo deprimente oferecido por uma turma sem eira nem beira. Alguém sugeriu excluir a Argentina da próxima Copa. Imagine só se a gananciosa Fifa havia de perder a fonte de renda representada por um país de mais de 40 milhões de habitantes.

A Argentina vai estar presente em 2030, pode ter certeza. Resta esperar que a próxima leva seja de jogadores mais civilizados. É permitido duvidar.

Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

O prepotente e o capacho

José Horta Manzano

Interferência do poder público no esporte, sempre houve. Desde o prefeito que “compra” o árbitro com o dinheiro da prefeitura, até o presidente do país que, discretamente, avisa que não aceitará nenhum outro vencedor do campeonato nacional que não seja o time para o qual ele torce.

Às vezes dá certo, às vezes não. O problema é a extrema dificuldade de se denunciarem fatos assim com base em provas irrefutáveis. Essas interferências costumam tomar dois caminhos: ameaça ou “compra” (corrupção).

Já quando se trata de Copa do Mundo, fica mais complicado. Dada a visibilidade desse evento, qualquer interferência fica escancarada, Embora tenha acontecido no passado, a última vez foi há quase meio século.

Não se tem notícias de que Hitler tenha tentado meter o bedelho nas copas de 1934 e 1938, mas sabe-se que Mussolini interferiu. Principalmente na Copa de 1934, sediada pela Itália, há forte suspeita de intervenção do “Duce”, embora a história não tenha guardado prova. Coincidência ou não, a Itália venceu aquela edição.

Foi em 1978, na Copa da Argentina, que a mão pesada da ditadura ficou mais evidente. Se não serve de prova, pelo menos é forte indício. O pecado, desta feita, foi a corrupção, com dinheiro grosso rolando por baixo da mesa. A uma certa altura, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols a fim de deixar o Brasil para trás e chegar à final.

No torneio, até então, a defesa peruana havia se mostrado forte. Pois justamente no jogo contra a Argentina abriram o bico e concederam vitória aos albicelestes pelo inacreditável placar de 6 a 0. Com isso, a Argentina foi à final e, derrotando os holandeses, sagrou-se campeã do mundo.

Prova, não há. Mas há forte suspeita de corrupção. Depois desse episódio, nâo se registraram, em Copas do Mundo, outros eventos dignos de nota. Isso foi até ontem.

Durante o jogo contra a Bósnia, um atacante dos EUA deu um pisão pra valer no pé de um adversário. Depois de consultar o VAR, o árbitro deu cartão vermelho ao agressor, o que significa suspensão para o próximo jogo. Uns gostaram da expulsão, outros não, mas ficou por isso mesmo.

Alertado para o fato de o melhor atacante americano estar suspenso para o próximo jogo, Donald Trump não hesitou: ligou para seu amigo Gianni Infantino, presidente da FIFA, e exigiu anulação do cartão vermelho. Em ato de submissão desbragada, Infantino acedeu ao pedido de Trump: o cartão foi anulado, e o atacante americano poderá jogar a próxima partida.

Inconformados, jornais do mundo inteiro denunciaram o escândalo. Se, no passado, havia suspeita de interferência do poder na Copa, desta vez há denúncias até no ultrassério The New York Times. E Trump ainda se manifestou louvando a FIFA por ter corrigido uma “enorme injustiça”.

É lamentável essa intervenção descarada. Demonstra que, do encontro de um homem prepotente (Trump) com um homem com vocação para capacho (Infantino), não se pode esperar nada de sério. O esporte mundial não ganhou nada com o ocorrido. A credibilidade da FIFA sai do episódio ainda mais arranhada do que de costume.

Infantino, que é candidato à sua própria sucessão na presidência da FIFA, certamente está contando com o apoio de delegações asiáticas e africanas que, contra um punhado de dólares, costumam dar seus votos a ele.

A meu ver, está brincando com fogo. As delegações mais fortes e que mais contribuem para a saúde financeira da FIFA são as europeias, que não hão de apreciar ser participantes de jogo tão abertamente sujo.

Jabuti francês

José Horta Manzano

A Fifa foi fundada em Paris em 1904. Nos primeiros tempos, não era essa potência financeira que conhecemos hoje. Na época, não havia rádio nem televisão, portanto, alguma parca entrada de fundos se limitava aos anúncios fixos que dão a volta ao campo de futebol. Ao final, eram os próprios países membros que financiavam a instituição, e não o contrário, como é hoje.

Depois da quebra da bolsa de Nova York, em 1929, a situação financeira piorou. Para não desaparecer, a Federação aceitou a proposta da Suíça, que oferecia tratamento fiscal favorável. Deixaram Paris e foram para Zurique, onde estão até hoje.

Só que não está gravado na pedra que a sede da Fifa tem de continuar na Suíça por todo o sempre. Faz tempo que a França está de olho no assunto, com muita vontade de trazer a Federação de volta. Os Jogos Olímpicos, programados para o ano que vem em Paris, abriram boa oportunidade.

Ontem, no finalzinho dos debates da Lei Orçamentária de 2024, um grupo de deputados governistas embutiu um jabuti (com perdão do eco). Trata-se de um artigo que prevê um regime fiscal muito vantajoso para federações esportivas internacionais. Concretamente, fica instituída uma exoneração de imposto de renda e de outras taxas menores para toda federação esportiva que vier a se instalar no país.

A valer a partir do ano que vem, a isenção de imposto vale também para todos os funcionários dessas insituições: não pagarão nem um centavo de imposto durante cinco anos (!).

Os benefícios que a instalação da Fifa traz ao país que a hospeda são tantos, que os candidatos, como a França, estão dispostos a fazer concessões impressionantes.

Os deputados que ontem inseriram o jabuti no texto estão hoje meio sem jeito e preferem não dar entrevista.

Mas pode apostar que a lei será aprovada. Se a Fifa vai aceitar o tapete vermelho? Isso é outra história.

Hino recuperado

José Horta Manzano

Estava lembrando da primeira vez que, num jogo do Brasil de Campeonato Mundial, percebi que nosso hino tinha sido truncado. Aconteceu faz umas três ou quatro Copas. A execução parou no “salve, salve”. Foi esquisito. Cioso do respeito aos símbolos da nação, cheguei a pensar que a vitrola tivesse enguiçado, como ocorria nos discos de antigamente. Depois me informaram que o problema não era de toca-discos, o encolhimento era decisão da Fifa. Como assim?

Pois é, a imensa (e bilionária) empresa que regula o futebol no planeta um dia decidiu que nenhum hino poderia mais passar de 90 segundos (um minuto e meio). O nosso, incluindo a introdução, excedia o prazo estipulado. Portanto, guilhotina nele!

Achei revoltante. A meu ver, a Fifa não é a instância adequada para determinar o tempo de execução de hinos nacionais. Podem decidir, por exemplo, que hinos não sejam mais tocados. Mas não faz sentido alocarem um tempo “tamanho único” para todos.

Essa é minha visão. O Brasil de 2014, ansioso por hospedar a Copa, passou por cima dessas miudezas. Não se avexaram e engoliram o hino truncado. Cutucado, o público deu o troco. Uma vez desligado o som nos estádios na altura do “salve, salve”, o povo continuou cantando a cappella, sem orquestra, num espetáculo de dar arrepio.

Este ano, talvez o leitor já tenha reparado, nosso hino voltou a ser cantado até o fim. Talvez alguém tenha feito uma reclamação à Fifa, argumentando que do “Ouviram do Ipiranga” até o “Pátria amada, Brasil” correm 95 segundos, ou seja, somente 5 a mais que o permitido. Não era pedir muito. Foi concedido.

Bom, graças à Fifa, já recuperamos o hino. Falta que nos devolvam a bandeira, que anda por aí, coitada, tomando chuva e envolvendo ombros zumbis.

A Copa do Catar

Em Copas passadas, um jogo Suíça x Brasil trazia muita gente à Fan Zone de Genebra

José Horta Manzano

A decisão de confiar ao Catar a realização da Copa do Mundo 2022 foi tomada exatamente 12 anos atrás. Naquela época, muita gente desconfiou que havia algo estranho nessa atribuição. O país anfitrião era pequeno demais, sem tradição futebolística, com estádios fora das normas, desértico na paisagem, infernal no clima. Não fazia sentido.

Ficou a impressão de que havia corrido muito dinheiro para compra de votos numa assembleia que descartou os EUA e escolheu o pequeno país. Apesar dos murmúrios, porém, ninguém se revoltou a ponto de sair em passeata pelas avenidas das grandes capitais mundiais. O tempo foi correndo e parecia que todos tinham se acostumado à ideia.

Só que mais de dez anos se passaram, o mundo mudou, certos fatos não são mais visto pelo mesmo ângulo. Este ano, à medida que a data do início da Copa se aproximava, os protestos começaram a surgir e a se encorpar.

Para acolher a Copa, o Catar construiu 6 estádios novos e renovou 2 antigos, stuados a um pulinho de distância uns dos outros. Não existem operários cataris. A mão de obra é exclusivamente constituída de estrangeiros oriundos de países pobres: indianos, paquistaneses, filipinos.

As condições de trabalho se aproximam da escravidão, com jornadas de 12 horas sob sol de 50°, alojamento em dormitórios sem conforto, passaporte retido, proibição de mudar de emprego, condições de segurança lastimáveis. Observadores internacionais calculam que, durante a construção dos estádios, os acidentes de trabalho tenham causado centenas, talvez milhares de mortes.

Alguns dos estádios novos são inteiramente fechados e contam com ar condicionado, ideia considerada aberrante pela consciência ecológica que cresceu nesta última década nos países mais avançados.

Em decorrência do verão escaldante, a Copa teve de ser adiada. Em vez de programar os jogos para o verão do Hemisfério Norte (junho/julho), como tinha sido feito desde as primeiras Copas, a Fifa atrasou o campeonato para novembro e dezembro. Isso acabou perturbando os campeonatos nacionais, que deveriam estar a todo vapor a estas alturas. Assim mesmo, os torcedores enfrentarão tardes de 30° nos estádios – daí a decisão de instalar ar condicionado.

De uns seis meses para cá, a opinião pública mundial finalmente acordou. É verdade que covid-19, guerra na Ucrânia e outros problemas graves tinham ocupado a cena e a Copa foi relegada a segundo plano. De uns seis meses para cá, a Copa entrou na pauta.

  • Por um lado, estão as suspeitas de cooptação e corrupção para a atribuição da Copa ao Catar;
  • Por outro, está a aberração de instalar ar condicionado no deserto, fato que, além de ser um desperdício, contribui para aumentar as emissões de gás de efeito estufa;
  • Pra coroar, está o horror de um regime escravagista e medieval, em que os humildes são maltratados e relações homossexuais são punidas com 7 anos de cadeia.

Por essas razões, manifestações de repulsa têm pipocado por toda a Europa. Há quem garanta que não assistirá a nenhum jogo dessa Copa, afirmação difícil de ser fiscalizada. Há figurões, futebolistas e não-futebolistas, se manifestando e denunciando os podres da Copa 2022.

O boicote mais visível vai ficar por conta da anulação de numerosas “fan zones”, aqueles imensos telões montados em praça pública para mostrar os jogos a milhares de fãs acomodados em roda, como num cinema ao ar livre. Paris, Bruxelas, Berlim já anunciaram que não haverá fan zones este ano. Grandes cidades francesas e suíças apoiam o boicote no mesmo tom: nada de telões.

Acho apreciável que o distinto público manifeste sua reprovação, só que ela chega demasiado tarde. A hora de reclamar era em 2010, assim que o Catar foi escolhido, antes da construção dos estádios e da morte dos operários. Perdeu-se o momentum.

O humorista e o imbecil

Manchete do jornal russo Ria Novosti
28 fev° 2022

José Horta Manzano

Francamente, Bolsonaro não perde uma oportunidade para escancarar sua estupidez. Sua estreiteza mental é tão impressionante, que às vezes a gente acha que ele está brincando. Parece que sua visão de mundo, bitolada por natureza, se afunila a cada dia que passa.

Num momento em que o mundo civilizado se movimenta para mostrar a Putin que ele errou ao invadir a Ucrânia, lá vai nosso capitão defender o ditador. E aproveita o ensejo para desmerecer, gratuitamente, o presidente da Ucrânia, eleito democraticamente por seu povo.

A mídia russa, enfeudada a Putin, não tem liberdade para publicar nada que possa desagradar ao capo. A manchete de ontem do Ria Novosti, que reproduzo acima, narra uma frase de Bolsonaro:


«Bolsonaro declara que os ucranianos “confiam em um humorista para determinar o destino da nação”»


Na arte de fazer inimigos, o capitão é imbatível. Imprudente, não se dá conta de que, ao pronunciar com desdém a palavra “comediante”, ele está ofendendo por tabela todos os humoristas, cômicos e comediantes do planeta. O néscio não sabe que o “comediante” que ele despreza tem-se revelado ser providencial chefe de guerra, um homem corajoso e combativo, um esteio, uma referência para um povo martirizado pela covarde invasão de Putin. Não se pode afirmar que Bolsonaro agiria com tanta dignidade se estivesse no lugar do “comediante”.

A mente estreita do capitão não lhe permite enxergar que, ao fixar seu empenho na importação de fertilizantes, está se posicionando na contracorrente do mundo civilizado. Todos os países que estão condenando a Rússia e impondo sanções econômicas ao país também comerciam com o país dirigido por Putin. Todos vão sofrer em maior ou menor escala. Há países, na Europa principalmente, cuja dependência da Rússia é bem maior que a do Brasil. No entanto, todos entenderam que a hora é grave e que o equilíbrio mundial está ameaçado. Eis por que aderiram ao embargo.

O espaço aéreo europeu está fechado para aviões russos. Os haveres dos bilionários oligarcas próximos de Putin estão congelados, indisponíveis. As reservas do Banco Central russo também estão bloqueadas. A própria Fifa excluiu a Rússia de toda competição de futebol – coisa nunca vista! A onda de solidariedade que se levanta em todos os países europeus é impressionante. Doações se amontoam nos centros de coleta; para acolher refugiados, cada um oferece o que pode: uma casa de campo, um quarto, uma cama.

O ministro da Economia da França declarou nesta terça-feira que as sanções impostas pela parte civilizada do mundo vão estrangular e derrubar a economia russa. É exatamente esse o objetivo. Se der certo – e certamente vai dar –, Bolsonaro terá apostado mais uma vez no cavalo errado. Esta nova (e irresponsável) aposta vai entrar para uma longa lista que inclui candidatos derrotados no Brasil, na Argentina, na Bolívia, no Chile. E até o mais vistoso de todos: o folclórico Donald Trump.

É nas horas difíceis que se conhecem os verdadeiros líderes. Na sua terrível desgraça, os ucranianos têm hoje um consolo. Sabem que elegeram um presidente à altura do cargo. O “humorista” tem a coragem e a dignidade que sua posição exige, e que nosso capitão não tem.

Não é à toa que Volodímir Zelenski se tornou o alvo número um de Putin. Ninguém sabe como as coisas vão evoluir e como vai terminar essa infame agressão. Mas uma coisa é certa: que saia dessa vivo ou morto, o “comediante” tem lugar para sempre reservado na memória nacional ucraniana. As gerações futuras ainda vão ver estátuas do herói e estudar suas façanhas nos livros de história.

Já quanto a nosso capitão, ai, ai, ai…

Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Pobre Messi

José Horta Manzano

A Fifa anunciou ontem que Señor Lionel Messi, jogador argentino de futebol, foi punido por desrespeito ao artigo 57 do Código Disciplinar daquela entidade. Em jogo entre o Chile e a Argentina, contando pela classificação para a Copa de 2018, o hábil esportista «pronunciou palavras injuriosas contra um árbitro assistente». Supõe-se que a injúria tenha sido dirigida à mãe do árbitro, mas o comunicado da Fifa não esclarece esse particular.

A sanção é dupla. Por um lado, señor Messi está proibido de atuar nos quatro próximos jogos da Seleção de seu país. Por outro, terá de desembolsar uma multa de dez mil francos suíços (pouco mais de nove mil euros). O esportista deve estar dando pulos de alegria.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo

Por quê? Ora, distinto leitor, raciocinemos. A edição de ontem de France Football informa o ganho dos jogadores mais bem pagos na temporada 2016-2017. Pela primeira vez em cinco anos, Messi não foi o campeão ‒ perdeu a taça para Cristiano Ronaldo. O português levou pra casa 87,5 milhões de euros enquanto o argentino teve de se contentar com 76,5 milhões (cerca de 260 milhões de reais), uma ninharia. A multa da Fifa não há de lhe pesar muito.

É sabido que essas fortunas abocanhadas por jogadores provêm do salário e são engordadas pela receita publicitária. Quatro jogos de suspensão no «Seleccionado» não fazem grande diferença. Ou melhor, fazem diferença, sim: dão ao jogador «punido» excelente pretexto para gozar de alguns dias de férias.

Fiquei com muita pena do talentoso argentino.

A quem interessar possa
Na lista de France Football, o terceiro lugar na classificação dos mais bem pagos coube ao brasileiro Neymar. Esta temporada, o jovem terá de se contentar com 55,5 milhões de euros (cerca de 190 milhões de reais). Uma miséria.

Fifa-Mafia

José Horta Manzano

O alemão Thomas Kistner (1958-) é jornalista e escritor. Especializado em esportes, escreve para o quotidiano de Munique Süddeutsche Zeitung. Nos últimos anos, publicou meia dúzia de livros, os mais polêmicos dos quais mostram a promiscuidade entre esporte, dinheiro e dopagem. Naturalmente, seu cavalo de batalha é a Fifa, organização que coordena o esporte mais popular do mundo.

Seu penúltimo livro, lançado em 2014, chama-se FIFA-Mafia. Die schmutzigen Geschäfte mit dem Weltfußball ‒ Fifa-Mafia, os negócios sujos do futebol mundial. O nome já diz tudo. E olhe que foi escrito antes da espetaculosa ação da polícia suíça que mandou para o xilindró um certo senhor José Maria Marín acompanhado de meia dúzia de cartolas planetários.

blatter-2«A Fifa e a máfia se assemelham ao oferecer cargos e empregos a filhos, tios, sobrinhos, amigos próximos, que trabalham em empresas secretas mundo afora. Há uma enorme rede de negócios em torno da Fifa que inclui parentes de dirigentes.» Profundo conhecedor da cúpula futebolística, Kistner faz afirmações dessa magnitude.

No entanto, como se sabe, pau que nasce torto não tem jeito. Em que pese a prisão e a extradição para os EUA de figurões medalhados, a chefia do futebol mundial continua a dar mostras de compadrio e conivência com o crime. Proteger companheiros ainda é palavra de ordem.

O exemplo mais recente é o novo estatuto da Conmebol, o organismo que coordena o futebol sul-americano. Como é natural, encontros periódicos reúnem os presidentes das diversas confederações do subcontinente. Em geral, têm lugar no Paraguai, onde está a sede da entidade. Nada estava previsto para o caso de algum presidente faltar à reunião. Pois essa lacuna foi preenchida.

jornal-5Dado que senhor Del Nero, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) teme ser preso caso viaje ao exterior, o estatuto da Conmebol aceita, desde setembro último, que um substituto tome o lugar de qualquer presidente ausente. A medida, como se vê, tem beneficiário líquido e certo. O cartola que preside aos destinos do futebol pentacampeão não ousa pôr os pés além das fronteiras nacionais por medo de ser preso. A situação já dura mais de três anos. Charmoso, não?

Mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Enfronhado no assunto, o mencionado jornalista alemão avalia que as condenações e as multas bilionárias aplicadas pela Justiça americana devem ser anunciadas a qualquer momento e poderão significar o fim da Fifa. Não seria má notícia. Quando a maioria das laranjas está podre, mais vale jogar fora o cesto inteiro.

Novos ares na Fifa

José Horta Manzano

Emparelhada com o CIO (Comitê Internacional Olímpico), a Fifa é a mais poderosa organização esportiva do planeta. Sua importância era secundária até os anos 1970. A partir da gestão do brasileiro João Havelange ‒ o único não europeu a ter-lhe ascendido ao topo ‒, a Fifa tornou-se mais e mais potente. E rica.

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

Sepp Blatter, antigo presidente da Fifa

A popularização da televisão foi determinante no sucesso da entidade. Com os direitos de transmissão, surgiram as firmas patrocinadoras. Coca-Cola foi a primeira, logo seguida por Adidas e outros colossos. Maior número de telespectadores significava maior potencial publicitário. O valor cobrado pelos direitos de transmissão subiram vertiginosamente.

Como se sabe, quanto mais dinheiro houver, tanto maior será o risco de corrupção e rapina. Os assaltantes de nossa Petrobrás deram prova disso. Inexperientes e vorazes, foram tão fundo no mingau que debilitaram a empresa a deixaram em estado pré-falimentar. Mais comedidos, os dirigentes da Fifa lograram agir durante quatro décadas sem abalar a saúde financeira da organização.

Um dia, escancarou-se o que todo o mundo já desconfiava fazia tempo. A corrupção e o compadrio corriam soltos na associação mundial de futebol. Deu no que deu: parte dos cartolas encarcerados, o presidente autodestituído, figurões banidos e os demais atemorizados.

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Gianni Infantino, novo presidente da Fifa

Uma limpeza tornou-se urgente. Novo presidente foi eleito neste 26 de fevereiro. O escolhido é Gianni Infantino, carequinha simpático de 45 anos. A menos que se trate de louco varrido, é de se supor que não esteja envolvido em tenebrosas transações. O risco de terminar atrás das grades seria demasiado elevado.

Infantino, de quem poucos tinham ouvido falar até hoje, não vem de um passado exclusivamente futebolístico. Filho de imigrantes italianos, nasceu e cresceu na cidadezinha suíça de Brig, no Cantão do Valais. Mais tarde, ao adquirir a cidadania suíça, tornou-se binacional. Poliglota, ganhou duas línguas maternas: o alemão e o italiano. Formou-se em Direito pela Universidade de Friburgo (Suíça). Conhece a língua francesa perfeitamente. Fala ainda inglês, espanhol e árabe. É casado com uma libanesa, com quem tem quatro filhas. Uma figura internacional, como se vê.

Brig ‒ Ulrichen mapa Google

Brig ‒ Ulrichen
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Dele, espera-se muito. Para começar, o mais difícil, ou seja, devolver à Fifa a imagem de organização séria e honesta. Vai ser complicado, mas não há outro jeito. Foi escolhido exatamente para essa tarefa. Infantino sabe que seu desempenho estará sendo monitorado por meio mundo. Terá de andar na linha.

Um detalhe curioso o liga a Sepp Blatter, o presidente caído. Ambos nasceram e cresceram no mesmo vale alpino, em lugarejos separados por menos de 40km. Mas não são da mesma família.

Lavanderia alpina

José Horta Manzano

Lavanderia 2Mrs. Loretta Lynch esteve de visita à Suíça na segunda-feira dia 14 set°. Attorney General dos EUA – posto equivalente a nosso Procurador Geral da República –, é ela quem se tem empenhado pessoalmente no trato do escândalo da Fifa.

Depois de conversar com o procurador geral da Suíça, convocaram coletiva de imprensa. Deu no rádio, na tevê e nos jornais. Pra dizer a verdade, não havia novidade nenhuma. Foi dito o que todos já sabiam, ou seja, que a meia dúzia de cartolas colhidos em maio no Hotel Baur au Lac (Zurique) continuam presos na Suíça e que pelejam, desde então, para não ser extraditados para os EUA.

Lavanderia 3Foi também informado que havia outros indivíduos na mira dos investigadores americanos, mas nenhum nome foi citado. O mais importante, aquilo que todos esperavam com impaciência não foi dito: se Sepp Blatter periga, sim ou não, ser denunciado no escândalo.

Lavanderia 4Para não deixar leitores sem graça, jornais noticiaram a única novidade que surgiu: que havia suspeita de que chalés alpinos estivessem sendo comprados para lavar dinheiro. Soou meio esquisito. Entendido ao pé da letra, deu a impressão de que, por falta de espaço dentro do apartamento, certos cartolas estivessem investindo em espaçosos chalés nos Alpes para transformá-los em lavanderia.

Vista a ausência de novidades, sussurra-se que o verdadeiro intuito de Mrs. Lynch era afagar o próprio ego.

Vamos abraçar a Fifa!

José Horta Manzano

Dilma Blatter«Joseph Blatter garante que não existe corrupção no futebol» – foi o título de artigo do Estadão de alguns dias atrás. A crer que a quase-lógica de nosso guia anda fazendo escola por aí. O medalhão da Fifa explica que a instituição não é corrupta, mas sim os indivíduos que a compõem. Ah, bom.

O pronunciamento não deixa de lembrar o que têm repetido figurões de nossa República quando falam da roubalheira na Petrobrás. Dizem que a petroleira não é corrupta; se rapina houve, foi obra de diretores e funcionários.

Fifa 1Mas é uma evidência, cáspite! Estamos brincando com palavras. Uma empresa – entidade jurídica – é desprovida de alma e de sentimento. São os funcionários que, agindo em nome da entidade, assumem atitude honesta ou desonesta, ética ou aética, honrosa ou pérfida, sábia ou desastrosa.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Tanto mais hipócritas soam as palavras de Herr Blatter quando se sabe – como sabemos todos – que a roubalheira não se restringe à Fifa, mas se espalha por todo o tecido do futebol: jogos de resultado combinado, transferência de jogadores com pagamento ‘por fora’, evasão fiscal por parte de todos os que têm possibilidade de fazê-lo.

Para seguir a receita de nosso guia até o fim, faltou Blatter convocar manifestação popular para «abraçar a Fifa». O problema é que a sede da entidade está em Zurique, na Suíça, país onde não é fácil reunir algumas dezenas de manifestantes contra um sanduíche e uma tubaína. Eis por que não se animou.

Sem apoio

José Horta Manzano

Príncipe Ali bin al-Hussein

Príncipe Ali bin al-Hussein

Quando autoridades americanas estouraram a bolha da roubalheira deslavada em que medalhões do futebol nadavam de braçada, o mundo ficou sabendo de coisas assombrosas. Muitos já suspeitavam, agora todos têm certeza: cartolas-mores levam vida de nababo.

Doravante, por algum tempo, o nível de corrupção nas altas esferas do futebol deve baixar. Assim mesmo, com ou sem roubalheira, o cargo máximo da Fifa continua pra lá de atraente. Dinheiro, poder, favores e mordomias despertam apetite em muita gente.

Foi dada a partida da corrida para a sucessão de Sepp Blatter. Muitos gostariam de se candidatar, poucos têm ousado. Para se apresentar, postulantes têm de obter o apoio oficial e declarado de pelo menos cinco federações nacionais.

O candidato natural e esperado é o príncipe Ali bin al-Hussein, da Jordânia, justamente o desafiante de Blatter na última eleição. Os 73 votos que recebeu em maio dão-lhe cacife. É rico e vem de país insignificante no futebol – qualidades interessantes.

Outro candidato evidente é Michel Platini, antigo craque da seleção da França, que preside, há anos, a poderosa Uefa – União Europeia de Futebol. Esse também tem grande possibilidade de ser eleito.

Fifa del NeroAlém dos dois, há meia dúzia de paraquedistas. Entre eles, o antigo futebolista carioca Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico. O moço terá, é certo, dificuldade grande pra chegar lá.

O histórico de suspeitas que embaçam brasileiros como Havelange, Teixeira e del Nero (aquele que fugiu de Zurique pra escapar da polícia) contamina a candidatura de Zico.

Pra conseguir os cinco apoios, ele começou por pedir a bênção de del Nero. Ao deixar-se fotografar ao lado do cartola, embora fosse passagem obrigatória, assinou sua sentença de exclusão do páreo.

Michel Platini

Michel Platini

Para piorar, nossos hermanos já começaram a nos dar as costas. Ah, os ingratos! A Asociación Paraguaya de Fútbol já comunicou oficialmente à Fifa seu apoio a Platini. O Paraguai não está sozinho: Chile, Uruguai, México e a União Caribenha de Futebol também estão com o antigo craque francês.

A “liderança regional” brasileira ambicionada por Marco Aurélio “top-top” Garcia e pelo lulopetismo ainda está longe de se tornar realidade.

¡Que viva nuestra Latinoamérica!

País fechado

José Horta Manzano

Prisioneiro 2O Brasil é um país fechado – afirmação comum no campo da economia. Quer dizer, entre outras coisas, que a proporção de nosso comércio exterior em relação ao PIB está bem abaixo da média mundial.

O clima tíbio que domina as relações do Brasil com o resto do mundo não se restringe, porém, ao campo econômico. A dimensão continental do país e nosso proverbial desapego à cultura e ao aperfeiçoamento intelectual são fatores que, conjugados, fazem que o brasileiro médio ignore o que se passa além-fronteiras.

Exemplos aparecem diariamente. Li hoje o mais recente. Como todos sabem, senhor Marín, cartola da CBF e figurinha carimbada da política nacional, está encarcerado na Suíça, acusado de enriquecimento ilícito no caso da Fifa. O prisioneiro é vice-presidente do braço paulista do Partido Trabalhista Brasileiro – o PTB de Getúlio, histórico defensor dos oprimidos.

Videoconferencia 1Visto o estado de pobreza em que se encontra o acusado, um grupo de correligionários, em louvável ato humanitário, cotizou-se para garantir-lhe assistência jurídica. Despacharam dois advogados brasileiros à Suíça.

Os causídicos vão a Zurique ver em que podem ajudar o cartola. Visivelmente desprovidos de conhecimento das práticas processuais e penais em vigor no estrangeiro, imaginam que o estado de saúde e os 83 anos de idade do figurão sejam suficientes para assegurar-lhe tratamento de favor. Não se dão conta de que, fora do Brasil, idade avançada não diminui a responsabilidade nem a culpa do acusado. Pelo contrário, pode ser circunstância agravante.

Como o distinto leitor pode adivinhar, a bilionária Fifa já se encarregou de contratar robusta assistência jurídica para os que já foram presos e para os que ainda podem sê-lo. Todo cuidado é pouco.

Autoridades suíças são parcimoniosas em matéria de comunicação. São também pouco inclinadas a negociações, o que torna o ambiente jurídico bastante diferente do que vigora no Brasil.

Zurique, Suíça

Zurique, Suíça

Não ficou claro que ajuda a presença in corpore de advogados brasileiros poderá trazer ao processo. Se a intenção for obter maiores informações sobre o andamento do caso, videoconferência seria suficiente. Se imaginam que tapinha nas costas pode ajudar, perigam voltar decepcionados.

Em todo caso, Zurique vale a visita, principalmente nesta época do ano. Se a chuva não atrapalhar.

Operação sorriso

José Horta Manzano

Fifa WM 2010Há forte similitude entre o modus operandi da clique que se apoderou da cúpula da Fifa e a que se aboletou na cúpula federal do Brasil. Para chegar lá e perenizar-se no poder, ambas se valeram do mesmo expediente: fizeram uso das regras em vigor. Concebidas para ser usadas por gente bem-intencionada, as regras não resistiram ao mau uso. Acabaram se voltando contra si mesmas num processo autodestrutivo.

No Brasil, mensalões e petrolões cuidaram da compra dos mandarins. A cooptação dos pequenos, menos complicada e menos arriscada, fluiu pela bolsa família – genial achado que garantiu ao governo o enfeudamento perene de hordas de assistidos.

Fifa WM 2006Pros lados de Zurique, embora tenha saído mais caro, a Fifa seguiu caminho análogo. De todo modo, caro ou barato, que importa? A conta é sempre paga por terceiros.

Por mais benévolo que seja nosso olhar, não encontramos mais que uma vintena de grandes nações futebolísticas. A Fifa tem 209 membros. Na hora das escolhas, o voto de uma Andorra vale tanto quanto o de uma Alemanha. A voz do Nepal tem o mesmo peso que a da Inglaterra.

Fifa WM 2002Os medalhões logo se deram conta de que, se era difícil cooptar uma Alemanha ou uma Inglaterra, ganhar o voto de numerosos pequenos países demandava menos esforço. E saía mais barato.

E assim fizeram durante anos e anos. Como o sistema estava dando certo, afrouxaram os controles. Boladas de dinheiro, cada vez mais consistentes, foram movimentadas pelo circuito bancário. Acreditando-se inimputáveis, os dirigentes do futebol mundial acharam que estava tudo dominado. Enganaram-se.

Os EUA começaram a se interessar pelo que acontecia. As razões são múltiplas:

Interligne vertical 11a* depois da Copa 1994, o esporte da bola no pé conheceu ganho de popularidade naquele país;

* os montantes movimentados são tão elevados que chamam a atenção e despertam desconfiança;

* os maiores patrocinadores da Fifa são empresas americanas, entre elas Visa e Coca-Cola;

* com bilhões, prestígio e métodos opacos, a Fifa começava a incomodar o poderio americano;

* a próxima copa está programada para se desenrolar na Rússia, país com o qual os EUA têm uma pendenga. A tentação de melar o jogo era muito grande.

No meu entender, está aí a explicação para o que está acontecendo. Sepp Blatter diz que pretende continuar no trono até o fim do ano. Imprudente, a afirmação não faz sentido. Seria como se Collor, havendo renunciado, guardasse as rédeas do País durante quase um ano, à espera de novas eleições.

Imagino que Herr Blatter seja despachado rapidinho. Depois disso, o mais adequado será substituí-lo pelo príncipe jordaniano – o único que ousou desafiar o poderoso capo. Agora que o chefão caiu, são muitos os que criaram coragem para se candidatar. São como toureiros posando com o pé em cima de touro morto. Valor tem de ser dado àquele que enfrentou a fera enquanto ela rugia.

Copa 14 logo 2No frigir dos ovos, o mundo saiu ganhando. Corruptores e futuros corrompidos pensarão duas vezes antes de agir. Por alguns anos, a Fifa deverá ser governada sem derivas mafiosas. Muita gente sente que, a partir de agora, o esporte mais popular do mundo será mais bem administrado.

Os EUA saíram bem na foto e acabaram ficando com o crédito desta verdadeira operação sorriso.

Reação vigorosa

José Horta Manzano

No Estadão online deste 30 maio 2015, aparece a chamada: “Joseph Blatter diz que ação dos EUA contra Fifa é revanche”.

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

A bem dizer, errado não é. Mas a língua oferece outras palavras que dão o recado com maior precisão. São elas: retaliação, desforra, revide e vingança.

Convém guardar revanche para o domínio esportivo. Assim: “A seleção de futebol do Brasil, que perdeu para a Alemanha, não vê a hora de conseguir sua revanche.”

Quem quer pizza?

by Cláudio de Oliveira, desenhista potiguar

by Cláudio de Oliveira, desenhista potiguar      –     Clique para ampliar

Para justificar o retorno precipitado, o senhor Del Nero alegou que, de todo modo, não ia votar na eleição do presidente da Fifa.

Fica no ar a pergunta: o que é que ele foi fazer em Zurique então?

Passou dos limites

José Horta Manzano

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Ainda ontem, eu falava sobre excessos. Hoje, logo de manhãzinha, estourou uma notícia que deve ter feito muita gente engasgar com o croissant: a polícia de Zurique prendeu sete medalhões da Fifa.

Foi raio em céu sereno. Como assim? Dirigentes da Fifa? Mandarins da mais rica e poderosa das máfias? É inacreditável. E como é que foi acontecer?

Foram os excessos, distinto leitor, os excessos. Suborno e corrupção sempre houve, sempre haverá, lá e cá, ontem, hoje e amanhã. «Se você me der isso, eu lhe dou aquilo» é conversa velha como o mundo. Todavia, enquanto o troca-troca se mantém dentro de limites discretos e razoáveis, passa batido. Acontece que a Fifa, há décadas especializada no toma lá dá cá, exagerou. Riu na cara do mundo.

Fifa 1Basta lembrar os países aos quais foi atribuída a organização da mais recente e das duas próximas edições da Copa do Mundo: Brasil 2014, Rússia 2018 e Catar 2022. Nenhum dos três aparece em bom lugar na classificação mundial da lisura. À boca pequena, alastrou-se a desconfiança de que muitos milhões – não necessariamente declarados – estejam por detrás da designação desses países.

Os EUA não detêm o monopólio da seriedade e da firmeza. Dezenas de países são tão respeitáveis quanto o grande irmão do Norte. O que marca a diferença é o peso conferido aos EUA por sua descomunal força econômica. É como aquele parente rico que ninguém, na família, ousa contradizer.

De olho no promissor mercado norte-americano, a Fifa fez o que pôde para organizar seu campeonato mundial naquelas terras. Conseguiu o intento em 1994. De lá pra cá, não há dúvida de que o horizonte comercial ligado ao futebol se alargou. No entanto, toda moeda tem duas faces.

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique. Alguns hóspedes dormirão hoje no xadrez.

A ampliação da influência mundial do futebol aos EUA converteu-se em faca de dois gumes. O esporte mais popular no mundo, até então ignorado, passou a angariar número crescente de admiradores americanos. Por consequência, o futebol entrou na mira dos funcionários encarregados do planejamento a longo prazo do país. O «soccer», antes tão considerado por lá quanto nós consideramos o críquete, deixou de ser atividade exótica.

Os excessos da Fifa são evidentes para todos. Tá na cara, como diz o outro, que muita propina anda correndo por debaixo do pano. Mas cadê coragem de enfrentar a máfia maior?

Dilma BlatterAutoridades dos EUA resolveram encarar. Lançaram, contra dirigentes da Fifa, mandado internacional de busca e captura. Sete medalhões – entre os quais um brasileiro – foram colhidos num cinco estrelas e convidados a passar uma temporada nas agradáveis masmorras de Zurique. Devem permanecer sob custódia das autoridades suíças até que o pedido de extradição seja julgado.

Como vemos, dinheiro pode até ajudar, mas não blinda. Neste momento, o mais engasgado de todos há de ser Sepp Blatter, o presidente da Fifa e candidato a um quinto mandato. O escrutínio – de cartas marcadas, dizem as más línguas – está programado para sexta-feira 29 de maio. Estava. Vamos ver como evolui a situação.