Casamento para todos

José Horta Manzano

Ehe für alle
Mariage pour tous
Matrimonio per tutti

Na Suíça, uma nova lei não costuma ser feita da noite para o dia. Tirando em casos de emergência, como com a pandemia, quando a situação exige criação imediata de regras, as artes legislativas suíças caminham lentamente, a passo de tartaruga. Não se veem leis serem votadas a toque de caixa, como é comum no Brasil, país onde se dorme com uma regra e se acorda com outra.

Cerca de quinze anos atrás, foi dado estatuto legal à união entre duas pessoas do mesmo sexo. Não era ainda um verdadeiro casamento, mas já foi um passo ousado, vista a mentalidade da época. A lei, votada em 2004 e referendada por plebiscito de 2005, instituiu novo estado civil além dos tradicionais (solteiro, casado, viúvo e divorciado). A partir de então, os que assinavam esse contrato de união deixavam de ser solteiros, mas também não se tornavam casados; estavam “vinculados por uma união civil” – nome que variava conforme a língua oficial da região.

A “união civil” era, por assim dizer, um casamento capenga. Primeira grande diferença: dado que era reservado aos casais de mesmo sexo, era um denunciador da orientação sexual do cidadão, criando situações constrangedoras – no emprego, por exemplo. Em segundo lugar, o casal unido por esse pacto estava proibido de adotar filhos. Havia ainda algumas diferenças notáveis. Em resumo, já era um avanço, mas ainda insuficiente para os tempos atuais.

Desde a época em que a “união civil” entrou em vigor, associações militantes e grupos de parlamentares de cabeça mais aberta vêm batalhando para instituir um verdadeiro casamento igual para todos, quer os contraentes tenham o mesmo sexo, quer não. A luta foi longa, como são todas as que mexem com estruturas sociais cristalizadas. Finalmente, em dezembro de 2020, as duas câmaras do Parlamento aprovaram nova lei instituindo o casamento para todos.

Desta vez, sim: os direitos são iguais para todos. Casais de mesmo sexo são tratados como casais heterossexuais em caso de sucessão (herança), uso do nome de família, estado civil (todos têm o direito de se dizer “casados”, sem distinção de orientação sexual), direito à naturalização facilitada para o cônjuge estrangeiro de um cidadão suíço. Todos têm direito a adotar, independentemente do sexo dos cônjuges – o que era proibido antes. As mulheres têm direito à procriação medicamente assistida, ou seja, toda criança nascida de uma delas terá oficialmente duas mães, escapando à menção infamante “pai desconhecido”.

Só que, sacumé, sempre tem os desmancha-prazeres. Um grupo de ultraconservadores não apreciou o novo dispositivo legal. Lançou uma petição, coletou o número de assinaturas necessário e forçou a lei a ir a julgamento. Na Suíça, em casos assim, quem julga não é o Tribunal Federal, mas o povo. Seguindo o protocolo, o governo organizou um referendo popular em que a pergunta era: “Aceita a Lei n° tal, assim assim?”. A resposta só podia ser sim ou não.

O voto foi anteontem, domingo, 26 de setembro. A lei dita de “casamento para todos” foi aprovada, sob aplausos, por uma forte maioria de dois em três suíços. A participação no plebiscito foi até um pouco superior à média. Agora, sim, o novo dispositivo será inscrito na Constituição Suíça. A meu ver, um sistema de escolha sólido como esse vale mais que o simples voto de parlamentares. Tem legitimidade maior.

A Suíça até que estava atrasada nessa corrida ao “casamento para todos”. Já em 1989, a Dinamarca tinha aberto o caminho, ao autorizar as primeiras uniões civis para casais homossexuais – uma extravagância à época. Mas foram os Países Baixos (Holanda), em 2001, os primeiros a darem base legal a um casamento homossexual de verdade.

De lá pra cá, só na Europa, mais 15 países seguiram esse caminho: Bélgica, Espanha, Portugal, Islândia, Noruega, Suécia, Dinamarca, França, Irlanda, Finlândia, Alemanha, Luxemburgo, Malta, Áustria e Reino Unido. A partir de agora, a Suíça é o 17° a entrar para o clube. Na prática, os primeiros casamentos gays poderão ser celebrados a partir de 1° julho de 2022.

Outros países europeus, embora não tenham (ainda) o casamento para todos, têm algum estatuto de união civil para casais de mesmo sexo: Chipre, Itália, Croácia, Hungria, Grécia, Eslovênia, Estônia e Tchéquia.

Na América Latina, a Argentina foi o primeiro país a autorizar casamentos homossexuais. O Brasil, a Colômbia, a Costa Rica, o Equador e o Uruguai também autorizam. No México e nos EUA, é mais complicado; a legislação pode variar de um estado a outro. Em Cuba, estão quase chegando lá, mas ainda falta amansar a Igreja, que, ao que parece, tem força por lá. Na Ásia, Taiwan é o pioneiro e, por enquanto, único país a reconhecer o casamento para todos.

Israel vive uma situação um tanto esquizofrênica. Não pode haver matrimônio gay no país; no entanto, se ele tiver sido contraído no estrangeiro, será reconhecido. Nova Zelândia e Austrália já deram o passo.

A África e a Ásia ainda estão bem atrasadas nessa corrida. Tirando a honrosa exceção da África do Sul, o resto é dramático. Em muitos países, toda homossexualidade é reprimida, que dirá o casamento gay. Em países como Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Nigéria, Arábia Saudita, Paquistão, Catar, Emirados – e em diversos outros – toda relação gay é crime que pode levar à cadeia ou, dependendo do humor do tribunal, até à pena de morte.

Como se vê, tem horas em que a gente quase acredita que o brasileiro, apesar da escuridão bolsonariana, ainda não deixou de ser um povo cordial.

De que cô qué?

José Horta Manzano

Na Suíça, vigora um sistema original de democracia. Dois métodos correm paralelos, ambos destinados à manifestação da vontade popular.

Do lado tradicional do sistema, estão os representantes do povo, deputados e senadores, eleitos pelo voto universal e secreto, com mandato fixo – como em qualquer democracia que se preze.

Por outro lado, menos comum em outras partes do mundo, o método plebiscitário é muito utilizado. Embora a possibilidade também seja prevista pela Constituição de outros países (inclusive a nossa), é raramente utilizada. Não é o caso da Suíça, país onde qualquer cidadão (ou grupo de cidadãos) pode lançar uma coleta de assinaturas, conhecida como “iniciativa popular”. O objetivo é reunir um determinado número de cidadãos que, com sua assinatura, confirmam estar de acordo com a matéria proposta.

Para ser válida, a iniciativa não pode entrar em colisão com a Constituição. Portanto, antes de lançá-la, seu texto será submetido à autoridade competente para análise. Uma vez considerada constitucional, é liberada. A coleta de assinaturas pode ser iniciada e deverá estar terminada dentro do prazo estipulado. Há diferentes modalidades de iniciativa, cada qual com um determinado número de assinaturas necessárias.

Uma vez obtido o número mínimo de assinaturas dentro do prazo, as pilhas de documentos são entregues ao departamento encarregado de validá-las. Cada assinatura será conferida. Se as regras tiverem sido respeitadas e o número de assinaturas válidas tiver sido alcançado dentro do prazo fixado, o governo marcará a data do voto popular.

É um dos aspectos que integram a chamada democracia direta. Em média, o povo suíço vota quatro vezes por ano. O voto não é obrigatório. Cada votação pode reunir duas, três ou mais iniciativas. O eleitor dará sua opinião sobre cada uma delas. Tanto podem ser de âmbito municipal, cantonal ou federal.

Assim mesmo, apesar de já ter esses amplos meios de exprimir sua vontade, a população ainda conta com a possibilidade de manifestar seus desejos (ou, mais frequentemente, suas contrariedades) por meio de passeatas e manifestações ao ar livre. (“Carreatas” ainda não estão na moda aqui. E muito menos “motociclatas”.)

Passeatas, há muitas. Nessas horas, o importante não costuma ser a vestimenta dos manifestantes, mas os slogans escandidos e, principalmente, os cartazes brandidos. O que vai aparecer na mídia e na tevê são justamente os cartazes, a palavra escrita. Vê-se gente vestida de preto, branco, azul, vermelho, amarelo, cor-de-rosa, e quantas mais cores houver. Não há código vestimentar. A mensagem não está na cor da roupa, mas na palavra gritada ou escrita.

É estranho que, nas manifestações de rua do Brasil deste começo de século, a vestimenta fale mais alto que as palavras. Às vezes, penso que essa bizarrice se deve à falta de argumentos – quem não tem o que dizer, veste-se de determinado modo como marca de identificação tribal. Mas posso estar enganado.

Nos tempos do lulopetismo, vinham todos de vermelho. Até o Lula e os acólitos. Vermelho, por acaso, é a cor preferida deste blogueiro, mas isso não vem ao caso; já gostava dessa cor antes que o PT existisse. Agora, desde que o capitão assinou contrato de locação no Palácio do Planalto, a cor dos desfilantes mudou: vêm todos de verde-amarelo.

Quando de grandes movimentos do passado, como as Diretas Já e as Marchas de 1964, o povo não vinha fantasiado. As convicções, boas ou más, estavam dentro das gentes e vinham expressas em cartazes. Por que mudou?

Lula e Bolsonaro são do tipo cabeça-dura. Não lhes viria à ideia sugerir a seus devotos que variassem a cor da indumentária. Então, aproveito a deixa para dizer o que penso. Acho que tanto um lado quanto o outro ganhariam se maneirassem no uso do vermelho, por um lado, e do verde-amarelo, por outro. Do jeito que está, fica caricato. Passa a ideia de rebanho domesticado e amestrado, o que não pega bem pra ninguém.

Dado que as manifestações de rua são marcadas com antecedência e amplamente divulgadas, todos sabem se o desfile é a favor deste ou contra aquele. Por que as cores, então? Fosse eu, daria aos apoiadores instruções para que cada um viesse vestido da cor que mais lhe agrada. Não está escrito em lugar nenhum que esquerdista tem de se vestir obrigatoriamente de vermelho, nem que um neofascista deve usar roupa amarela.

Está ficando ridículo para ambos os lados. Um desfile com um bando de vermelhinhos lembra mais um reclamo de outras eras, de um tempo em que crianças trabalhavam em fábricas e mulheres não tinham o direito de voto. Um desfile com um bando de verde-amarelinhos lembra mais um circo, em que alguns parecem proteger-se enrolados numa bandeira brasileira, como se tivessem medo de sermos invadidos pela Bolívia.

Vamos! Coragem, minha gente! O importante são as ideias e, principalmente, as palavras. A vestimenta não voga.

(*) De que cô qué?
Devo uma explicação sobre o título deste artigo. Este blogueiro, que teve avó mineira de Mariana, se lembra de piadas que deviam parecer muito engraçadas no século 19. Hoje, não tenho certeza de que fariam tanto sucesso. A bizarrice da cega preferência que os manifestantes de hoje demonstram por esta ou aquela cor me lembrou uma delas.

Na empoeirada cidadezinha do interior, um cliente entra na loja de armarinhos e pede um corte de tecido.

Balconista:
– De que cô qué?

Cliente:
– De caqué cô.

O Estado e a Igreja na Suíça

José Horta Manzano

Ontem postei o artigo Casamento para todos, em que exponho um problema que fatalmente vai surgir assim que for instituído na Suíça o casamento para pessoas do mesmo sexo.

Uma fiel leitora me pergunta como é possível essa interação com a religião, visto que a Suíça é oficialmente um Estado laico.

A resposta é que, na Suíça, as relações Igreja/Estado são complexas e obedecem a uma lógica particular, às vezes desconcertante. Para usar um termo da moda, trata-se de uma relação “não-binária”.

É uma particularidade nacional, talvez única no mundo. Para quem se interessar pelo assunto, encontrei no site Migraweb um bom texto, claro e conciso. Traduzi e adaptei. Está disponível aqui sob forma de arquivo pdf.

Casamento para todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, as Câmaras Federais da Suíça aprovaram uma lei que oficializa o chamado “casamento para todos”. Antes da lei, só parelhas heterossexuais podiam se casar de papel passado. Homossexuais só tinham direito a um simulacro de casamento, um ato simplificado feito em cartório, que não dava os mesmos direitos nem impunha os mesmos deveres que um casamento hétero. Era só pra inglês ver.

É bom explicar que, neste país, só vale o que está na lei. Não é como no Brasil, país onde juiz tem amplitude de movimentos para tomar decisões conforme suas convicções, às vezes no limite da legalidade. Aqui, toda decisão judicial tem de ter base legal bem firme. Invocar a jurisprudência é bastante incomum, justamente porque a lei costuma ser seguida à risca.

Em conformidade com a tendência de nosso tempo, os parlamentares entenderam que todos os casais homossexuais que decidirem juntar os trapos oficialmente terão direito a serem amparados pela lei: mesmos direitos que um casal tradicional. E deveres idênticos, naturalmente.

Para gente esclarecida, dizer isso parece uma evidência. Mas o diabo é que nem toda a gente é esclarecida. Há sempre aqueles que se mostram reticentes a toda mudança na sociedade, gente que tem muito medo, que acredita que uma lei como essa é porta aberta para a iminente dissolução da família, para o reconhecimento da poligamia, para a aceitação da pedofilia e sabe-se lá quantos horrores mais.

O sistema suíço de democracia direta permite que um partido ou um grupo de cidadãos conteste uma lei já votada. Para tanto, é preciso coletar um determinado número de assinaturas dentro de um determinado prazo. Os oponentes à lei do “casamento para todos” lançaram uma iniciativa nesse sentido e conseguiram preencher os requisitos.

Em casos assim, a palavra final será dada pelo povo – é o que se chama aqui democracia direta. Está marcado o plebiscito para 26 de setembro.  Os eleitores terão de dizer se aceitam ou se rejeitam a lei votada pelo Parlamento. Segundo as sondagens, os opositores vão ficar frustrados. A população tende a referendar, por ampla maioria, o que decidiram deputados e senadores. Só que tem um senão.

Conceituados juristas foram consultados sobre a questão religiosa. Se essa lei for confirmada pelo voto popular, como é que as Igrejas terão de encarar o casamento homossexual? Terão liberdade de recusar estender o sacramento aos gays, ou serão obrigadas a abençoar os casais não convencionais da mesma maneira (e como o mesmo rito) dos casais héteros?

Dizem os que entendem de lei que sim, sacerdotes, pastores e outros oficiantes terão de se dobrar ao que diz o artigo do código civil que dá a todos os cidadãos os mesmos direitos e os mesmos deveres. Se todos os cidadãos têm os mesmos direitos e se todos os casais têm direito a se casar, é natural que os oficiantes religiosos sejam obrigados a celebrar as uniões homossexuais, gostem ou não. Se se recusarem, poderão ser sancionados penalmente.

É possível que surjam situações interessantes. Aguardemos os próximos capítulos.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

No mesmo barco

Laboratório Labor Spiez, Suíça

José Horta Manzano

A pandemia desencadeada pelo atual coronavírus é um divisor de águas entre um passado em que cada um se virava sozinho e um futuro em que o combate a esse tipo de praga será obrigatoriamente coordenado em nível mundial.

O que vemos atualmente é um pandemônio dentro da pandemia. Em outras palavras, a ausência de gerenciamento global deu origem a um Deus nos acuda, em que todos saíram chamuscados – grandes e pequenos, ricos e pobres, previdentes e descuidados. O fruto da desorganização é amargo para todos.

Países que, ao surgir da pandemia, se encontravam sob governo populista acabaram sofrendo ainda mais que os outros – é o caso dos EUA e do Brasil, que pagaram preço altíssimo em vidas humanas. Mas até nações com tradição de disciplina tiveram problemas graves, como foi o caso da Bélgica e do Reino Unido.

O Uruguai, que é talvez o país mais civilizado da América do Sul, está, neste momento, na pior classificação entre os vizinhos. A atual onda epidêmica está comendo feio por lá. No mesmo balaio está o Japão, com ameaça cada dia mais presente de anulação dos Jogos Olímpicos.

Portanto, já se vê que governo democrático (não populista), disciplina e riqueza não são garantia suficiente de bons resultados no enfrentamento de pandemias. Quando cada um esperneia no próprio ritmo, sem se coordenar com os demais, joga-se esforço pelo ralo.

Nessa óptica, está na ordem do dia a criação de um tratado contra pandemias. A discussão está germinando na União Europeia e visa a que todos estejam mais bem preparados para a próxima praga. Que virá, isso é certeza.

A ideia é confiar a organização à OMS (Organização Mundial da Saúde), que, com seus 194 membros, congrega praticamente todos os países do planeta. Fabrico, atribuição e destino de doses excedentes de vacina, por exemplo, deveriam ser coordenadas por um organismo central em vez de ficar a cargo de cada nação individualmente.

A Suíça já se comprometeu solenemente a dar sua contribuição. Vai utilizar um laboratório ultrassofisticado e ultraprotegido já existente, instalado na cidade de Spiez (Cantão de Berna), especializado em manipular substâncias de alto risco. Nova ala será erguida para acolher um depósito mundial do coronavírus e de outros agentes patogênicos. E tudo pago com dinheiro dos contribuintes suíços, sem financiamento internacional. A OMS aplaudiu a iniciativa.

De qualquer maneira, enquanto a população do último país não estiver imunizada, o resto do planeta não estará protegido. Quanto mais tempo o vírus correr solto num determinado país, maior será o risco de surgirem variantes resistentes às vacinas. Pessoas circulam o tempo todo. Vírus não têm passaporte, zombam de fronteiras e não costumam abrir as malas na alfândega. Estamos todos no mesmo barco. É dar as mãos ou dar as mãos.

ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.

Paetê

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça carece de matérias-primas. O país não dispõe de petróleo, nem de carvão, nem de ouro, nem de ferro, nem de minerais preciosos. Não tem saída para o mar. As terras cultiváveis são escassas. Sem outra saída, os habitantes sempre tiveram de usar a cabeça – e as mãos – para sobreviver.

A indústria têxtil, que começou a se desenvolver na Idade Média, deu fama ao país. Durante muito tempo, produtos têxteis (sedas, bordados, fitas, rendas e tecidos) foram o primeiro produto de exportação. Até os anos 1920, os têxteis ainda apareciam à frente dos relógios na lista de produtos exportados.

Nos tempos de antigamente, a produção era essencialmente manual, o que pressupõe uma certa lentidão e pequenas quantidades produzidas. Com a Revolução Industrial, a fabricação deixou de ser obra de artesãos e foi se reagrupando em manufaturas organizadas. No século 19, a Suíça viveu a época de ouro de sua indústria têxtil. A máquina de bordar, inventada nos anos 1820 e aperfeiçoada nas décadas seguintes, deu impulso às artes do bordado suíço e fez sua fama.

Antes da automatização, tecidos bordados com lantejoulas, por exemplo, se destinavam a quem tinha muitíssimo dinheiro. A confecção era lenta, visto que cada pecinha de metal era costurada à mão. Essa mão de obra elevava o preço final às alturas; só quem podia encomendar eram rainhas, princesas & assemelhados. As máquinas de costurar e bordar baixaram os custos de produção e puseram tecidos bordados ao alcance da maioria.

O termo lantejoula é corruptela de lentejoula, palavra que vem do espanhol lentejuela (=lentezinha). Já na língua francesa, aquela pecinha de aspecto brilhante e metálico com um furo no meio, destinada a ser costurada ao tecido, chama-se paillette (palhazinha, da família de palha).

Um tecido recoberto de paillettes se diz pailleté, termo que se pronuncia paietê. O distinto leitor já deve ter reconhecido a origem de nossa palavra paetê. Trata-se de aproximação fonética, uma tentativa de reprodução do som original. Paetê combina com estes dias de Carnaval frustrado. E faz par com strass, que aparece no post de 12 fev° 2021.

O barquinho vai

José Horta Manzano

Em tempos normais, o Thurgau – barco comercial suíço de 47m de comprimento por 9,5m de largura – leva passageiros para passeios turísticos no Lago de Constança (em alemão: Bodensee), na fronteira entre a Suíça e a Alemanha.

Nestes tempos de pandemia, viagens turísticas estão complicadas, tanto por restrições impostas pelo governo como também por mera escassez de turistas. As autoridades propuseram, e a companhia de navegação aceitou, dar novo préstimo ao Thurgau: foi transformado em vacinódromo.

Bastou uma reforminha à toa pra dar ao barco ares de hospital de campanha. Esta semana, ele começou a receber os idosos (75 anos e mais) que se inscreveram para a vacinação. À diferença de outros locais fixos, que não saem do lugar e obrigam pacientes com dificuldade de locomoção a viajar quilômetros, este vacinódromo vai de encontro aos velhinhos. À noite, desliza sobre as águas mansas do lago e atraca num dos numerosos portos da margem suíça. De manhã, já está pronto pra receber nova leva de vacinandos. E assim por diante, de porto em porto, segundo o programa. Achei uma ideia muito prática. Simples e útil.

Não sei como nosso estratego da Saúde Pública (aquele mago da logística) está organizando a vacinação no país. Para alívio de todos, é provável que tudo esteja sendo planejado estado por estado. Melhor assim.

Assim mesmo, fica aqui a ideia, se é que alguém já não pensou nisso: a criação de vacinódromos ambulantes que vão ao encontro dos pacientes. Se não for viável fazer de barco, também vale utilizar ônibus, veículo mais adaptado às condições brasileiras. Há que ter em mente que há Brasil além dos grandes centros. Os habitantes dos rincões também têm direito a ser imunizados.

A nota de 200

José Horta Manzano

O lançamento da nova cédula de 200 reais, ocorrido estes dias, chega atrasado. Essa nota tinha de ter sido introduzida 20 anos atrás, logo na implantação do Plano Real. Naquela época, o normal era pagar em cheque ou em dinheiro. Hoje, que isso tudo acabou, não faz mais sentido emitir cédula nova.

O crescimento vertiginoso de utilizadores de internet e de telefone celular tem levado o mundo a uma economia cada dia menos monetizada. Transações tendem a ser feitas por meios eletrônicos. Nos países mais avançados, agências bancárias desaparecem uma atrás da outra, fenômeno que, se já não for o caso, vai acabar se alastrando pelo Brasil também. Na medida que pagamentos em espécies diminuem, agências bancárias perdem boa parte de sua serventia.

Na União Europeia, a fabricação da nota de 500 euros – aquela que muito pouca gente chegou a ter nas mãos – foi descontinuada em 2019. As cédulas continuam válidas, mas as que entram no circuito bancário são recolhidas para incineração. As que estão em circulação continuam válidas, e assim será por muito tempo. Não seria justo aniquilar pecúlios guardados em fundos de gaveta na Cochinchina ou na Mongólia.

Certos países, como Alemanha, Suíça e Áustria, são extremamente apegados à maneira antiga de pagar.(*) Nessas terras, muitos dão de ombros para cartão de crédito e transferência eletrônica. Preferem carregar as notas na carteira seja para pagar um café, seja para ir ao Correio fazer os pagamentos do mês. Assim mesmo, com o passar dos anos, o número de renitentes vai diminuindo. E assim vai seguir, até desaparecer o último.

No Brasil, a nota de 200 reais vai seguir o caminho de sua comadre europeia de 500 euros. Não tem utilidade para quem tem bom poder aquisitivo porque os que poderiam levar na carteira notas desse valor já estão há anos habituados a pagar com cartão ou por transferência eletrônica. Não tem utilidade para quem tem baixo poder aquisitivo porque os mais modestos perigam nunca ver passar uma delas entre seus dedos.

Essa nota de 200, então, é útil pra quem? Ora, pra bandido. Serve pra escoar fruto de corrupção & outras obscuras transações. Para quem carrega dinheiro em cueca, mochila ou mala, vai ser uma mão na roda. A nova cédula vai facilitar a vida de muita gente fina.

(*) Na Suíça, temos ainda, em circulação normal, a nota de 1000 francos (quase 6000 reais). É provavelmente a cédula de maior valor no mundo todo.

Não é nota que se tenha no bolso no dia a dia. Assim mesmo, se você der como pagamento no supermercado, o caixa não vai olhar feio nem chamar a polícia.

Mendes e o genocídio

José Horta Manzano

Que fique bem claro: não tenho especial simpatia por doutor Gilmar Mendes, juiz da Corte Suprema do Brasil. Aliás, me pergunto se muita gente tem especial simpatia por esse senhor. Isso posto, vamos aos fatos.

O magistrado declarou: “É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio; não é razoável”. A frase levantou uma poeirada, só que a reação indignada não veio do ofendido, mas da vítima colateral. Explico.

Todos os jornais e sites brasileiros que consultei anotaram que “Gilmar Mendes associa o Exército a genocídio”. Há aí um erro de interpretação. Não foi isso que o ministro disse.

Relendo a frase e refletindo com vagar, qualquer um há de convir que o significado não é o que os militares parecem ter entendido. Na verdade, Gilmar alertou o Exército contra o perigo de se associarem a um genocídio. Não está explícito que genocídio é esse, mas é permitido supor que se trate da epidemia de covid-19.

SWI – Portal suíço de mídia pública
Exército brasileiro cúmplice de genocídio

Portanto, o genocidário não é bem o Exército, mas uma entidade não mencionada na frase. É de crer que o sujeito oculto seja o Executivo. Assim, é o Executivo que está sendo acusado de genocídio, não o Exército. Os militares estão apenas sendo alertados para não meterem a mão em cumbuca.

O portal da mídia pública suíça entendeu perfeitamente. O título da notícia menciona «Exército cúmplice de genocídio». Mais adiante, explicitam: «Segundo juiz do Supremo brasileiro, o exército é cúmplice do genocídio provocado pela política adotada pelo governo de Jair Bolsonaro».

É curioso que a mídia estrangeira entenda as nuances da fala brasileira melhor que a mídia nacional.

Observação
A majestade do cargo e a dignidade do titular não permitem a ministro do STF dar opinião sobre o desempenho de outro dos poderes da República. Aí, sim, concordo que doutor Gilmar Mendes escorregou feio. Mas a crítica que ele fez equivale a: «Cuidado, militares, não se associem ao genocídio que o Executivo está cometendo!» Nas altas esferas da República, parece que ninguém entendeu.

Vou de táxi

José Horta Manzano

Na Suíça, assim que a quarentena começou a afrouxar, o tráfego de automóveis teve aumento brutal. Sumiu o canto dos pássaros e voltou a poluição por partículas finas. A volta à vida pré-pandemia foi recaída brutal.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, as atividades econômicas deste país não estão geograficamente concentradas. Para trabalhar, não são todos obrigados a convergir em direção a alguma metrópole. Os focos de atividade econômica – indústrias ou serviços – estão disseminados pelo país. No entanto, dado que nem todos residem ao lado do trabalho, grandes contingentes se deslocam diariamente em todas as direções. Boa parte desses “pendulares” viaja de trem.

Acontece que, mesmo as autoridades tendo informado que o risco de infecção é diminuto, o povo anda ressabiado; afinal, ninguém é besta. Muitos hesitam em botar de novo os pés num trem. Os citadinos, que tinham o hábito de ir ao trabalho em transporte público, também estão com medo de apanhar covid-19 no ônibus. O resultado é que muitos habitués da estrada de ferro e do trasporte público urbano renunciaram ao costume, desempoeiraram o automóvel, encheram os pneus, completaram o tanque e agora trafegam sobre quatro rodas.

Dá pra imaginar o congestionamento provocado pelo repentino afluxo de veículos. Logo nos primeiros dias de desconfinamento, pra evitar que a pandemia fosse substituída por um pandemônio, as autoridades das principais cidades do país decidiram delimitar, às pressas, novas faixas de rolamento de bicicletas, as conhecidas ciclovias.

Dois corpos não costumam ocupar o mesmo lugar no espaço – é lei da Física, cláusula pétrea da natureza. Pra criar faixa de bicicleta, tem de diminuir a largura da faixa de automóvel. Em ruas estreitas do centro de cidades antigas, não tem perdão: ou passa automóvel, ou passa bicicleta; se vierem os dois juntos, vai dar problema.

Ciclofaixa do futuro

A grita anda feia. Automobilistas reclamam por ter perdido parte da rota habitual; ciclistas reclamam porque a nova faixa ciclável é às vezes exígua. Em resumo: muita gente descontente. Mas não há jeito. É ilusão imaginar que, daqui a 50 anos, cada um vai continuar a sair por aí no seu carrinho particular. No futuro, congestionamento de tráfego será lembrança de um passado de selvageria. Já que é assim, por que não começar desde já?

Abrindo fronteiras?

José Horta Manzano

O decréscimo de virulência da covid-19 permite a países europeus programar a reabertura de fronteiras. Por definição, fronteira é uma linha arbitrária fixada para separar dois Estados. Para fechá-la, basta a decisão de um deles: se a estrada estiver barrada por vontade de um dos lados, ninguém passa. Já para abrir, precisa que ambos os países estejam de acordo. Dito assim, parece fácil de entender. Na prática, pode ser um pouco mais complicado.

No fim de semana que passou, um curioso desentendido se estabeleceu entre a Suíça e a Itália, vizinhos de parede. Há que saber que a linha que separa os dois países, com 740km de extensão, é a mais longa fronteira externa das 6 com que conta a Itália, e também a mais longa das 5 com que conta a Suíça. Ela é cortada por uma dezena de estradas de ferro e várias dezenas de estradas de rodagem – sem mencionar os incontáveis caminhos, trilhas e passagens a pé.

A fronteira está fechada há dois meses. É compreensível: cada país já estava sobrecarregado com a pandemia no próprio território e não desejava importar mais doença. Passado o pico do contágio, vai chegando a hora de reabrir as passagens. Faz alguns dias, a Suíça anunciou que, em 15 de junho, liberaria a fronteira com a Alemanha, a França e a Áustria; a Itália, país mais gravemente infectado, ficou pra mais tarde.

Fronteira entre Chiasso (Suíça) e Como (Itália)

No entanto, este fim de semana, o governo de Roma subitamente informou que todas as fronteiras da Itália serão reabertas dia 3 de junho. Desapercebidos de que toda fronteira tem necessariamente dois lados, não consultaram os vizinhos. Ofendido, o governo suíço já avisou que mantém o que havia decidido: nenhuma abertura antes de 15 de junho.

Armou-se uma situação curiosa. O governo suíço não se opõe ao desejo de quem quiser sair do país em direção à Itália, já que a fronteira está aberta do lado de lá. Logo, sair pode, o que não pode é voltar. Portanto, a partir de 3 de junho, quem quiser cruzar a fronteira no sentido Suíça-Itália pode fazê-lo livremente. No entanto, quem quiser voltar vai encontrar portão fechado até segunda ordem.

Taí o que se chama viagem sem volta. Atenção, turista incauto, quem avisa, amigo é!

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

O gargalo

José Horta Manzano

Acaba de sair portaria determinando o fechamento das fronteiras terrestres com 8 países, com o objetivo de frear a entrada de pessoas contaminadas pelo coronavírus. O Brasil tem fronteira comum com 10 países. A Venezuela já está há alguns dias ‘isolada’. Com os oito de hoje, são nove. Por inexplicadas razões, ficou de fora o Uruguai. Note-se que a portaria vale para fronteiras terrestres e fluviais; todos os que quiserem entrar em território nacional por via aérea têm catraca livre.

A primeira observação é que a expressão solene «fechamento de fronteira» impressiona, mas não funciona. Nossas porosas fronteiras não são susceptíveis de fechamento. Passa quem quer – e, principalmente, passa carregando o que quiser. O corolário de fronteira é contrabando. Não será um decreto do Planalto que vai impedir o ir e vir de gentes e mercadorias.

A segunda observação é temporal: a decisão chega tarde demais. Duas semanas atrás, quando a epidemia já castigava Ásia e Europa mas não tinha aportado nestas terras descobertas por Cabral, ainda dava tempo. O problema é que, naquela altura, a alta cúpula federal enxergava a doença como «histeria» e «fantasia da grande mídia». Estamos agora pagando o preço da leviandade e da ignorância dos que nos dirigem – principalmente do chefe deles todos.

Nesta altura, o vírus já está circulando em território nacional. Ainda vale fazer triagem dos que chegam do exterior, com aquele termômetro pistola que mede a temperatura sem contacto com o viajante. Afora isso, «fechar» fronteiras é perda de tempo e esforço.

Em vez de reagir com uma semana de atraso, as autoridades tinham mais é que antecipar o que está por vir. O Brasil vai precisar de milhares de respiradores (ou ventiladores), aqueles aparelhos que se sobrepõem a pulmões vacilantes e ventilam pacientes entubados. Pacientes de coronavírus em estado grave só terão alguma chance de sobrevida se forem conectados a uma dessas maquinetas. Não são leitos que faltam, são respiradores.

Já fizeram a contagem? Já sabem quantos deles estão disponíveis no país? Há fabricante nacional? Se não houver, há possibilidade de adaptar rapidamente alguma planta industrial para a produção de respiradores? Essas são as questões que deveriam estar preocupando nossos dirigentes.

A Suíça, pequeno país encarapitado nos Alpes, já fez o inventário: há cerca de 1100 respiradores no país, incluindo os do exército. Então, já se sabe: pacientes em estado grave não podem exceder o número de 1100. Se, por desgraça, forem 1200, 1300 ou mais, o corpo médico será compelido a fazer escolhas dolorosas; terá de decidir quem será entubado e quem será abandonado.

E o Brasil? Já conhece o diâmetro desse gargalo?

Coronavírus e precauções

José Horta Manzano

Não sei se será impressão minha, mas parece que, no Brasil, a perspectiva de crise econômica está preocupando mais do que a crise sanitária provocada pelo Covid-19. A julgar pelas manchetes e notícias da imprensa, minha impressão é correta. Considerando a área impressa, a recessão mundial que bate à porta ganha de goleada do vírus. Essa atitude é estranha, dado que a recessão é amanhã, enquanto o vírus é hoje.

É verdade que o Brasil não é o terreno de predileção do coronavírus. Não é porque «o vírus morre com o calor», como li outro dia – tolice. A rápida propagação da doença neste fim de inverno do hemisfério norte é simples de explicar. No inverno, faz frio. Com isso, as pessoas tendem a permanecer o tempo todo em locais fechados, abafados, confinados, com ar viciado. Bares, restaurantes e assemelhados são aquecidos e hermeticamente fechados. Transporte coletivo (ônibus e metrô) idem. Pronto, está dada a receita da propagação relâmpago.

No Brasil, dado que costuma fazer calor, há menos ajuntamento em local fechado. Bares e até restaurantes mantêm portas e janelas escancaradas. O vírus não derrete com o calor, mas pode até escapar pela janela.

Na Suíça, por enquanto, não há confinamento. Mas o jornal televisivo, que dura meia hora, gasta 15 minutos com notícias do vírus. Por seu lado, o governo federal lançou campanha de prevenção, com folhetos publicitários em 12 línguas.

Um dos ‘flyers’ editados pelo governo federal suíço. (O português é lusitano.)

Na Itália, saiu hoje ordem do governo: confinamento obrigatório em todo o território nacional. Sair de casa passa a ser permitido somente por razões de trabalho ou necessidade justificada. Estão fechadas, até o mês que vem, escolas, creches, faculdades. Casamentos e homenagens fúnebres estão proibidos. Até futebol, paixão nacional, se joga em estádios sem público.

Na França, o vírus já pegou um ministro e três parlamentares da Assembleia Nacional. O entorno do presidente está sendo cuidadosamente protegido. Banidas as coletivas de imprensa, as viagens, as entregas de condecoração. Confinamento obrigatório está em vigor somente nas regiões mais atingidas do território – por enquanto.

Espero que, no Brasil, as autoridades tomem consciência rapidamente. Não convém brincar com coisa séria. Deixado à solta, sem que se tomem precauções, o Covid-19 que saiu pela janela pode voltar pela porta e fazer estragos.

Davos e seu cantão

José Horta Manzano

Davos é uma cidadezinha do cantão dos Grisões, Suíça. Li hoje, nalgum lugar, que Davos ficava no «estado» de Graubünden. Não é bem assim. No Brasil, estamos de tal maneira habituados a um país formado por estados, que imaginamos ser isso regra universal. Temos dificuldade em entender que nem todo país é formado da mesma maneira. Não precisa ir muito longe; basta olhar nossos vizinhos e hermanos: Argentina e Peru têm províncias; Paraguai e Uruguai têm departamentos.

Grisões: estrada de ferro turística

A Suíça, que não tem províncias, nem departamentos, nem estados, é formada por 26 cantões. Não convém dizer que ela se divide em, mas realmente que é formada por cantões. O país não resulta de um território originário que, em seguida, foi dividido. Bem ao contrário, é fruto do agrupamento de pequenos territórios indepedentes que, ao longo dos séculos, foram aderindo à confederação. Foi nesse ‘unidos, venceremos’ que encontraram o modo de se proteger contra pretensões de potências maiores. Pequenos territórios foram se agregando até formar a Suíça atual. As fronteiras externas do país estão consolidadas desde o Congresso de Viena, 1815.

O nome do cantão dos Grisões varia conforme a língua. Em alemão, é Graubünden; em italiano, Grigioni; em francês: Grisons; em romanche (a língua local), é Grischun. Em todas as variantes, nota-se um resquício da cor cinza (grau, gris, grigio). É longínqua referência à cor dominante da roupa dos primitivos habitantes, lá pelos anos 1400, 1500.

Uma curiosidade
A língua caseira dos suíços de língua alemã é um dialeto germânico – uma coleção de dialetos, melhor dizendo. No falar deles, o nome dos Grisões é Graubünda. Isso mesmo.

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação nem sempre pode ser feita. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, é village, que se pode traduzir por vilarejo ou cidadezinha. (Em Portugal, dizem aldeia.)

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade. No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, em 2012. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, como no Brasil atual, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. Fica a cargo do bom senso. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de 50 mil viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França – ah! o país das regulamentações rigorosas – a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE francês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando a população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau(*) (= povoado, arraial).

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente. Volta e meia vem algum grupo de políticos pregar desmembramento de municípios. Em vez de um só, acham mais vantajoso que haja dois ou três. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, toda vez que se aproximam eleições, esse tipo de «bondade» volta ao noticiário. Às vezes, pega.

Na Europa, assiste-se a um movimento inverso. Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos, mais instruídos, fazem as contas e, deixando pra lá rivalidades locais, chegam à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensam amplamente a perda de autonomia.

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos mandachuvas brasileiros continua igualzinha à do Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas. Ou é?

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham e Tottenham (Reino Unido), Arnhem (Holanda), Mannheim (Alemanha), Trondheim (Noruega) são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

Publicado originalmente em 17 jun° 2013.

Trilha dos toblerones

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça ― cercada por Alemanha, Itália, Áustria (anexada pela Alemanha) e França (ocupada por tropas de Berlim) ― não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. A maioria do povo atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se imaginava poder vir nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, suas obras de arte, seus objetos de valor. Mais ainda: um lugar onde se podiam organizar eventuais encontros secretos e manter conversações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «depois do fato consumado, é fácil ser profeta». Difícil mesmo é adivinhar o que está por ocorrer. No final dos anos 30, um bafo de guerra soprava no continente, mas ninguém sabia de que lado nem com que força chegaria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones – hoje utilizada como trilha para caminhada a pé

A inteligência militar planejou um sistema de defesa. A referência mais próxima era a Primeira Guerra, durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era ― e ainda é ― uma linha de 10km de blocos de concreto para barrar a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 monstros de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Viraram atração turística. Trilhas próprias para caminhadas a pé serpenteiam por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É hoje o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose
Janela com cortina falsa

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada. Incluí algumas imagens dos bunkers disfarçados de chalé e dos toblerones.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

 

A multa

José Horta Manzano

La Chaux de Fonds é uma cidadezinha suíça situada num planalto a 1000m de altitude, nos Montes Jura. Desde o século 18, tem-se distinguido como centro relojoeiro. Naquele clima rude de altitude, a agricultura é problemática, daí a especialização em fabricação de relógios, atividade que se exerce em ambiente fechado e aquecido. Dois personagens de renome internacional fazem o orgulho da cidade.

Um deles é o arquiteto e urbanista Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), mais conhecido como Le Corbusier. Muitos de seus trabalhos estão na Suíça e na França, mas há realizações suas também em outros continentes. Sua obra está inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Um exemplo é a Maison du Brésil, residência destinada a acolher estudantes e pesquisadores brasileiros, situada na Cidade Universitária de Paris. É obra conjunta do brasileiro Lúcio Costa e do suíço Le Corbusier.

1km/h acima do permitido

A outra glória de La Chaux de Fonds é Louis-Joseph Chevrolet (1878-1941), mecânico, piloto de corrida e empresário. Ainda jovem, emigrou para os EUA. Tinha raro pendor para a mecânica. Depois de trabalhar para algumas fábricas de automóvel – naquele tempo, eram numerosas –, fundou sua própria marca. Em 1911 abriu pequena montadora à qual deu seu sobrenome. É justamente a marca Chevrolet, famosa até hoje.

Estou pra lhes contar esta historinha faz tempo. Ela andou esquecida, mas hoje lembrei. Vamos lá. Ocorreu já faz uns anos. Eu estava circulando de automóvel por uma avenida do centro de La Chaux de Fonds, num trecho em que a velocidade é limitada a 50km/h. Distraído, não me dei conta de que estava rodando ligeiramente mais rápido que o permitido. O radar, no entanto, não estava distraído e me pegou.

Dias depois, recebi a multa por correio. No documento, explicavam bem que, numa via onde a velocidade autorizada era de 50km/h, eu estava circulando a 56km/h. A regra manda deduzir 5km/h como ‘margem de segurança’ – que, na minha juventude, se chamava ‘de lambuja’.

Na avenida Chevrolet

Contas feitas, 56 menos 5 = 51. Portanto, o excesso de velocidade era de 1km/h. Unzinho só. Geralmente, quando a infração é tão pequena, a direção do tráfego deixa pra lá. Nesse caso não deixaram. Fiquei surpreso e me perguntei qual poderia ser a razão desse excesso de zelo, que mais parecia pirraça. Multar alguém em 40 francos (170 reais) por um excesso de 1km/h? Dói.

Eis senão quando, descobri o nó. Eu estava na cidade natal de Louis-Joseph Chevrolet, na avenida Louis-Joseph Chevrolet, dirigindo um… Ford! Era afronta imperdoável. Onde já se viu?