No mesmo barco

Laboratório Labor Spiez, Suíça

José Horta Manzano

A pandemia desencadeada pelo atual coronavírus é um divisor de águas entre um passado em que cada um se virava sozinho e um futuro em que o combate a esse tipo de praga será obrigatoriamente coordenado em nível mundial.

O que vemos atualmente é um pandemônio dentro da pandemia. Em outras palavras, a ausência de gerenciamento global deu origem a um Deus nos acuda, em que todos saíram chamuscados – grandes e pequenos, ricos e pobres, previdentes e descuidados. O fruto da desorganização é amargo para todos.

Países que, ao surgir da pandemia, se encontravam sob governo populista acabaram sofrendo ainda mais que os outros – é o caso dos EUA e do Brasil, que pagaram preço altíssimo em vidas humanas. Mas até nações com tradição de disciplina tiveram problemas graves, como foi o caso da Bélgica e do Reino Unido.

O Uruguai, que é talvez o país mais civilizado da América do Sul, está, neste momento, na pior classificação entre os vizinhos. A atual onda epidêmica está comendo feio por lá. No mesmo balaio está o Japão, com ameaça cada dia mais presente de anulação dos Jogos Olímpicos.

Portanto, já se vê que governo democrático (não populista), disciplina e riqueza não são garantia suficiente de bons resultados no enfrentamento de pandemias. Quando cada um esperneia no próprio ritmo, sem se coordenar com os demais, joga-se esforço pelo ralo.

Nessa óptica, está na ordem do dia a criação de um tratado contra pandemias. A discussão está germinando na União Europeia e visa a que todos estejam mais bem preparados para a próxima praga. Que virá, isso é certeza.

A ideia é confiar a organização à OMS (Organização Mundial da Saúde), que, com seus 194 membros, congrega praticamente todos os países do planeta. Fabrico, atribuição e destino de doses excedentes de vacina, por exemplo, deveriam ser coordenadas por um organismo central em vez de ficar a cargo de cada nação individualmente.

A Suíça já se comprometeu solenemente a dar sua contribuição. Vai utilizar um laboratório ultrassofisticado e ultraprotegido já existente, instalado na cidade de Spiez (Cantão de Berna), especializado em manipular substâncias de alto risco. Nova ala será erguida para acolher um depósito mundial do coronavírus e de outros agentes patogênicos. E tudo pago com dinheiro dos contribuintes suíços, sem financiamento internacional. A OMS aplaudiu a iniciativa.

De qualquer maneira, enquanto a população do último país não estiver imunizada, o resto do planeta não estará protegido. Quanto mais tempo o vírus correr solto num determinado país, maior será o risco de surgirem variantes resistentes às vacinas. Pessoas circulam o tempo todo. Vírus não têm passaporte, zombam de fronteiras e não costumam abrir as malas na alfândega. Estamos todos no mesmo barco. É dar as mãos ou dar as mãos.

ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.

Paetê

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça carece de matérias-primas. O país não dispõe de petróleo, nem de carvão, nem de ouro, nem de ferro, nem de minerais preciosos. Não tem saída para o mar. As terras cultiváveis são escassas. Sem outra saída, os habitantes sempre tiveram de usar a cabeça – e as mãos – para sobreviver.

A indústria têxtil, que começou a se desenvolver na Idade Média, deu fama ao país. Durante muito tempo, produtos têxteis (sedas, bordados, fitas, rendas e tecidos) foram o primeiro produto de exportação. Até os anos 1920, os têxteis ainda apareciam à frente dos relógios na lista de produtos exportados.

Nos tempos de antigamente, a produção era essencialmente manual, o que pressupõe uma certa lentidão e pequenas quantidades produzidas. Com a Revolução Industrial, a fabricação deixou de ser obra de artesãos e foi se reagrupando em manufaturas organizadas. No século 19, a Suíça viveu a época de ouro de sua indústria têxtil. A máquina de bordar, inventada nos anos 1820 e aperfeiçoada nas décadas seguintes, deu impulso às artes do bordado suíço e fez sua fama.

Antes da automatização, tecidos bordados com lantejoulas, por exemplo, se destinavam a quem tinha muitíssimo dinheiro. A confecção era lenta, visto que cada pecinha de metal era costurada à mão. Essa mão de obra elevava o preço final às alturas; só quem podia encomendar eram rainhas, princesas & assemelhados. As máquinas de costurar e bordar baixaram os custos de produção e puseram tecidos bordados ao alcance da maioria.

O termo lantejoula é corruptela de lentejoula, palavra que vem do espanhol lentejuela (=lentezinha). Já na língua francesa, aquela pecinha de aspecto brilhante e metálico com um furo no meio, destinada a ser costurada ao tecido, chama-se paillette (palhazinha, da família de palha).

Um tecido recoberto de paillettes se diz pailleté, termo que se pronuncia paietê. O distinto leitor já deve ter reconhecido a origem de nossa palavra paetê. Trata-se de aproximação fonética, uma tentativa de reprodução do som original. Paetê combina com estes dias de Carnaval frustrado. E faz par com strass, que aparece no post de 12 fev° 2021.

O barquinho vai

José Horta Manzano

Em tempos normais, o Thurgau – barco comercial suíço de 47m de comprimento por 9,5m de largura – leva passageiros para passeios turísticos no Lago de Constança (em alemão: Bodensee), na fronteira entre a Suíça e a Alemanha.

Nestes tempos de pandemia, viagens turísticas estão complicadas, tanto por restrições impostas pelo governo como também por mera escassez de turistas. As autoridades propuseram, e a companhia de navegação aceitou, dar novo préstimo ao Thurgau: foi transformado em vacinódromo.

Bastou uma reforminha à toa pra dar ao barco ares de hospital de campanha. Esta semana, ele começou a receber os idosos (75 anos e mais) que se inscreveram para a vacinação. À diferença de outros locais fixos, que não saem do lugar e obrigam pacientes com dificuldade de locomoção a viajar quilômetros, este vacinódromo vai de encontro aos velhinhos. À noite, desliza sobre as águas mansas do lago e atraca num dos numerosos portos da margem suíça. De manhã, já está pronto pra receber nova leva de vacinandos. E assim por diante, de porto em porto, segundo o programa. Achei uma ideia muito prática. Simples e útil.

Não sei como nosso estratego da Saúde Pública (aquele mago da logística) está organizando a vacinação no país. Para alívio de todos, é provável que tudo esteja sendo planejado estado por estado. Melhor assim.

Assim mesmo, fica aqui a ideia, se é que alguém já não pensou nisso: a criação de vacinódromos ambulantes que vão ao encontro dos pacientes. Se não for viável fazer de barco, também vale utilizar ônibus, veículo mais adaptado às condições brasileiras. Há que ter em mente que há Brasil além dos grandes centros. Os habitantes dos rincões também têm direito a ser imunizados.

A nota de 200

José Horta Manzano

O lançamento da nova cédula de 200 reais, ocorrido estes dias, chega atrasado. Essa nota tinha de ter sido introduzida 20 anos atrás, logo na implantação do Plano Real. Naquela época, o normal era pagar em cheque ou em dinheiro. Hoje, que isso tudo acabou, não faz mais sentido emitir cédula nova.

O crescimento vertiginoso de utilizadores de internet e de telefone celular tem levado o mundo a uma economia cada dia menos monetizada. Transações tendem a ser feitas por meios eletrônicos. Nos países mais avançados, agências bancárias desaparecem uma atrás da outra, fenômeno que, se já não for o caso, vai acabar se alastrando pelo Brasil também. Na medida que pagamentos em espécies diminuem, agências bancárias perdem boa parte de sua serventia.

Na União Europeia, a fabricação da nota de 500 euros – aquela que muito pouca gente chegou a ter nas mãos – foi descontinuada em 2019. As cédulas continuam válidas, mas as que entram no circuito bancário são recolhidas para incineração. As que estão em circulação continuam válidas, e assim será por muito tempo. Não seria justo aniquilar pecúlios guardados em fundos de gaveta na Cochinchina ou na Mongólia.

Certos países, como Alemanha, Suíça e Áustria, são extremamente apegados à maneira antiga de pagar.(*) Nessas terras, muitos dão de ombros para cartão de crédito e transferência eletrônica. Preferem carregar as notas na carteira seja para pagar um café, seja para ir ao Correio fazer os pagamentos do mês. Assim mesmo, com o passar dos anos, o número de renitentes vai diminuindo. E assim vai seguir, até desaparecer o último.

No Brasil, a nota de 200 reais vai seguir o caminho de sua comadre europeia de 500 euros. Não tem utilidade para quem tem bom poder aquisitivo porque os que poderiam levar na carteira notas desse valor já estão há anos habituados a pagar com cartão ou por transferência eletrônica. Não tem utilidade para quem tem baixo poder aquisitivo porque os mais modestos perigam nunca ver passar uma delas entre seus dedos.

Essa nota de 200, então, é útil pra quem? Ora, pra bandido. Serve pra escoar fruto de corrupção & outras obscuras transações. Para quem carrega dinheiro em cueca, mochila ou mala, vai ser uma mão na roda. A nova cédula vai facilitar a vida de muita gente fina.

(*) Na Suíça, temos ainda, em circulação normal, a nota de 1000 francos (quase 6000 reais). É provavelmente a cédula de maior valor no mundo todo.

Não é nota que se tenha no bolso no dia a dia. Assim mesmo, se você der como pagamento no supermercado, o caixa não vai olhar feio nem chamar a polícia.

Mendes e o genocídio

José Horta Manzano

Que fique bem claro: não tenho especial simpatia por doutor Gilmar Mendes, juiz da Corte Suprema do Brasil. Aliás, me pergunto se muita gente tem especial simpatia por esse senhor. Isso posto, vamos aos fatos.

O magistrado declarou: “É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio; não é razoável”. A frase levantou uma poeirada, só que a reação indignada não veio do ofendido, mas da vítima colateral. Explico.

Todos os jornais e sites brasileiros que consultei anotaram que “Gilmar Mendes associa o Exército a genocídio”. Há aí um erro de interpretação. Não foi isso que o ministro disse.

Relendo a frase e refletindo com vagar, qualquer um há de convir que o significado não é o que os militares parecem ter entendido. Na verdade, Gilmar alertou o Exército contra o perigo de se associarem a um genocídio. Não está explícito que genocídio é esse, mas é permitido supor que se trate da epidemia de covid-19.

SWI – Portal suíço de mídia pública
Exército brasileiro cúmplice de genocídio

Portanto, o genocidário não é bem o Exército, mas uma entidade não mencionada na frase. É de crer que o sujeito oculto seja o Executivo. Assim, é o Executivo que está sendo acusado de genocídio, não o Exército. Os militares estão apenas sendo alertados para não meterem a mão em cumbuca.

O portal da mídia pública suíça entendeu perfeitamente. O título da notícia menciona «Exército cúmplice de genocídio». Mais adiante, explicitam: «Segundo juiz do Supremo brasileiro, o exército é cúmplice do genocídio provocado pela política adotada pelo governo de Jair Bolsonaro».

É curioso que a mídia estrangeira entenda as nuances da fala brasileira melhor que a mídia nacional.

Observação
A majestade do cargo e a dignidade do titular não permitem a ministro do STF dar opinião sobre o desempenho de outro dos poderes da República. Aí, sim, concordo que doutor Gilmar Mendes escorregou feio. Mas a crítica que ele fez equivale a: «Cuidado, militares, não se associem ao genocídio que o Executivo está cometendo!» Nas altas esferas da República, parece que ninguém entendeu.

Vou de táxi

José Horta Manzano

Na Suíça, assim que a quarentena começou a afrouxar, o tráfego de automóveis teve aumento brutal. Sumiu o canto dos pássaros e voltou a poluição por partículas finas. A volta à vida pré-pandemia foi recaída brutal.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, as atividades econômicas deste país não estão geograficamente concentradas. Para trabalhar, não são todos obrigados a convergir em direção a alguma metrópole. Os focos de atividade econômica – indústrias ou serviços – estão disseminados pelo país. No entanto, dado que nem todos residem ao lado do trabalho, grandes contingentes se deslocam diariamente em todas as direções. Boa parte desses “pendulares” viaja de trem.

Acontece que, mesmo as autoridades tendo informado que o risco de infecção é diminuto, o povo anda ressabiado; afinal, ninguém é besta. Muitos hesitam em botar de novo os pés num trem. Os citadinos, que tinham o hábito de ir ao trabalho em transporte público, também estão com medo de apanhar covid-19 no ônibus. O resultado é que muitos habitués da estrada de ferro e do trasporte público urbano renunciaram ao costume, desempoeiraram o automóvel, encheram os pneus, completaram o tanque e agora trafegam sobre quatro rodas.

Dá pra imaginar o congestionamento provocado pelo repentino afluxo de veículos. Logo nos primeiros dias de desconfinamento, pra evitar que a pandemia fosse substituída por um pandemônio, as autoridades das principais cidades do país decidiram delimitar, às pressas, novas faixas de rolamento de bicicletas, as conhecidas ciclovias.

Dois corpos não costumam ocupar o mesmo lugar no espaço – é lei da Física, cláusula pétrea da natureza. Pra criar faixa de bicicleta, tem de diminuir a largura da faixa de automóvel. Em ruas estreitas do centro de cidades antigas, não tem perdão: ou passa automóvel, ou passa bicicleta; se vierem os dois juntos, vai dar problema.

Ciclofaixa do futuro

A grita anda feia. Automobilistas reclamam por ter perdido parte da rota habitual; ciclistas reclamam porque a nova faixa ciclável é às vezes exígua. Em resumo: muita gente descontente. Mas não há jeito. É ilusão imaginar que, daqui a 50 anos, cada um vai continuar a sair por aí no seu carrinho particular. No futuro, congestionamento de tráfego será lembrança de um passado de selvageria. Já que é assim, por que não começar desde já?

Abrindo fronteiras?

José Horta Manzano

O decréscimo de virulência da covid-19 permite a países europeus programar a reabertura de fronteiras. Por definição, fronteira é uma linha arbitrária fixada para separar dois Estados. Para fechá-la, basta a decisão de um deles: se a estrada estiver barrada por vontade de um dos lados, ninguém passa. Já para abrir, precisa que ambos os países estejam de acordo. Dito assim, parece fácil de entender. Na prática, pode ser um pouco mais complicado.

No fim de semana que passou, um curioso desentendido se estabeleceu entre a Suíça e a Itália, vizinhos de parede. Há que saber que a linha que separa os dois países, com 740km de extensão, é a mais longa fronteira externa das 6 com que conta a Itália, e também a mais longa das 5 com que conta a Suíça. Ela é cortada por uma dezena de estradas de ferro e várias dezenas de estradas de rodagem – sem mencionar os incontáveis caminhos, trilhas e passagens a pé.

A fronteira está fechada há dois meses. É compreensível: cada país já estava sobrecarregado com a pandemia no próprio território e não desejava importar mais doença. Passado o pico do contágio, vai chegando a hora de reabrir as passagens. Faz alguns dias, a Suíça anunciou que, em 15 de junho, liberaria a fronteira com a Alemanha, a França e a Áustria; a Itália, país mais gravemente infectado, ficou pra mais tarde.

Fronteira entre Chiasso (Suíça) e Como (Itália)

No entanto, este fim de semana, o governo de Roma subitamente informou que todas as fronteiras da Itália serão reabertas dia 3 de junho. Desapercebidos de que toda fronteira tem necessariamente dois lados, não consultaram os vizinhos. Ofendido, o governo suíço já avisou que mantém o que havia decidido: nenhuma abertura antes de 15 de junho.

Armou-se uma situação curiosa. O governo suíço não se opõe ao desejo de quem quiser sair do país em direção à Itália, já que a fronteira está aberta do lado de lá. Logo, sair pode, o que não pode é voltar. Portanto, a partir de 3 de junho, quem quiser cruzar a fronteira no sentido Suíça-Itália pode fazê-lo livremente. No entanto, quem quiser voltar vai encontrar portão fechado até segunda ordem.

Taí o que se chama viagem sem volta. Atenção, turista incauto, quem avisa, amigo é!

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

O gargalo

José Horta Manzano

Acaba de sair portaria determinando o fechamento das fronteiras terrestres com 8 países, com o objetivo de frear a entrada de pessoas contaminadas pelo coronavírus. O Brasil tem fronteira comum com 10 países. A Venezuela já está há alguns dias ‘isolada’. Com os oito de hoje, são nove. Por inexplicadas razões, ficou de fora o Uruguai. Note-se que a portaria vale para fronteiras terrestres e fluviais; todos os que quiserem entrar em território nacional por via aérea têm catraca livre.

A primeira observação é que a expressão solene «fechamento de fronteira» impressiona, mas não funciona. Nossas porosas fronteiras não são susceptíveis de fechamento. Passa quem quer – e, principalmente, passa carregando o que quiser. O corolário de fronteira é contrabando. Não será um decreto do Planalto que vai impedir o ir e vir de gentes e mercadorias.

A segunda observação é temporal: a decisão chega tarde demais. Duas semanas atrás, quando a epidemia já castigava Ásia e Europa mas não tinha aportado nestas terras descobertas por Cabral, ainda dava tempo. O problema é que, naquela altura, a alta cúpula federal enxergava a doença como «histeria» e «fantasia da grande mídia». Estamos agora pagando o preço da leviandade e da ignorância dos que nos dirigem – principalmente do chefe deles todos.

Nesta altura, o vírus já está circulando em território nacional. Ainda vale fazer triagem dos que chegam do exterior, com aquele termômetro pistola que mede a temperatura sem contacto com o viajante. Afora isso, «fechar» fronteiras é perda de tempo e esforço.

Em vez de reagir com uma semana de atraso, as autoridades tinham mais é que antecipar o que está por vir. O Brasil vai precisar de milhares de respiradores (ou ventiladores), aqueles aparelhos que se sobrepõem a pulmões vacilantes e ventilam pacientes entubados. Pacientes de coronavírus em estado grave só terão alguma chance de sobrevida se forem conectados a uma dessas maquinetas. Não são leitos que faltam, são respiradores.

Já fizeram a contagem? Já sabem quantos deles estão disponíveis no país? Há fabricante nacional? Se não houver, há possibilidade de adaptar rapidamente alguma planta industrial para a produção de respiradores? Essas são as questões que deveriam estar preocupando nossos dirigentes.

A Suíça, pequeno país encarapitado nos Alpes, já fez o inventário: há cerca de 1100 respiradores no país, incluindo os do exército. Então, já se sabe: pacientes em estado grave não podem exceder o número de 1100. Se, por desgraça, forem 1200, 1300 ou mais, o corpo médico será compelido a fazer escolhas dolorosas; terá de decidir quem será entubado e quem será abandonado.

E o Brasil? Já conhece o diâmetro desse gargalo?

Coronavírus e precauções

José Horta Manzano

Não sei se será impressão minha, mas parece que, no Brasil, a perspectiva de crise econômica está preocupando mais do que a crise sanitária provocada pelo Covid-19. A julgar pelas manchetes e notícias da imprensa, minha impressão é correta. Considerando a área impressa, a recessão mundial que bate à porta ganha de goleada do vírus. Essa atitude é estranha, dado que a recessão é amanhã, enquanto o vírus é hoje.

É verdade que o Brasil não é o terreno de predileção do coronavírus. Não é porque «o vírus morre com o calor», como li outro dia – tolice. A rápida propagação da doença neste fim de inverno do hemisfério norte é simples de explicar. No inverno, faz frio. Com isso, as pessoas tendem a permanecer o tempo todo em locais fechados, abafados, confinados, com ar viciado. Bares, restaurantes e assemelhados são aquecidos e hermeticamente fechados. Transporte coletivo (ônibus e metrô) idem. Pronto, está dada a receita da propagação relâmpago.

No Brasil, dado que costuma fazer calor, há menos ajuntamento em local fechado. Bares e até restaurantes mantêm portas e janelas escancaradas. O vírus não derrete com o calor, mas pode até escapar pela janela.

Na Suíça, por enquanto, não há confinamento. Mas o jornal televisivo, que dura meia hora, gasta 15 minutos com notícias do vírus. Por seu lado, o governo federal lançou campanha de prevenção, com folhetos publicitários em 12 línguas.

Um dos ‘flyers’ editados pelo governo federal suíço. (O português é lusitano.)

Na Itália, saiu hoje ordem do governo: confinamento obrigatório em todo o território nacional. Sair de casa passa a ser permitido somente por razões de trabalho ou necessidade justificada. Estão fechadas, até o mês que vem, escolas, creches, faculdades. Casamentos e homenagens fúnebres estão proibidos. Até futebol, paixão nacional, se joga em estádios sem público.

Na França, o vírus já pegou um ministro e três parlamentares da Assembleia Nacional. O entorno do presidente está sendo cuidadosamente protegido. Banidas as coletivas de imprensa, as viagens, as entregas de condecoração. Confinamento obrigatório está em vigor somente nas regiões mais atingidas do território – por enquanto.

Espero que, no Brasil, as autoridades tomem consciência rapidamente. Não convém brincar com coisa séria. Deixado à solta, sem que se tomem precauções, o Covid-19 que saiu pela janela pode voltar pela porta e fazer estragos.

Davos e seu cantão

José Horta Manzano

Davos é uma cidadezinha do cantão dos Grisões, Suíça. Li hoje, nalgum lugar, que Davos ficava no «estado» de Graubünden. Não é bem assim. No Brasil, estamos de tal maneira habituados a um país formado por estados, que imaginamos ser isso regra universal. Temos dificuldade em entender que nem todo país é formado da mesma maneira. Não precisa ir muito longe; basta olhar nossos vizinhos e hermanos: Argentina e Peru têm províncias; Paraguai e Uruguai têm departamentos.

Grisões: estrada de ferro turística

A Suíça, que não tem províncias, nem departamentos, nem estados, é formada por 26 cantões. Não convém dizer que ela se divide em, mas realmente que é formada por cantões. O país não resulta de um território originário que, em seguida, foi dividido. Bem ao contrário, é fruto do agrupamento de pequenos territórios indepedentes que, ao longo dos séculos, foram aderindo à confederação. Foi nesse ‘unidos, venceremos’ que encontraram o modo de se proteger contra pretensões de potências maiores. Pequenos territórios foram se agregando até formar a Suíça atual. As fronteiras externas do país estão consolidadas desde o Congresso de Viena, 1815.

O nome do cantão dos Grisões varia conforme a língua. Em alemão, é Graubünden; em italiano, Grigioni; em francês: Grisons; em romanche (a língua local), é Grischun. Em todas as variantes, nota-se um resquício da cor cinza (grau, gris, grigio). É longínqua referência à cor dominante da roupa dos primitivos habitantes, lá pelos anos 1400, 1500.

Uma curiosidade
A língua caseira dos suíços de língua alemã é um dialeto germânico – uma coleção de dialetos, melhor dizendo. No falar deles, o nome dos Grisões é Graubünda. Isso mesmo.

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação nem sempre pode ser feita. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, é village, que se pode traduzir por vilarejo ou cidadezinha. (Em Portugal, dizem aldeia.)

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade. No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, em 2012. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, como no Brasil atual, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. Fica a cargo do bom senso. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de 50 mil viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França – ah! o país das regulamentações rigorosas – a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE francês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando a população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau(*) (= povoado, arraial).

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente. Volta e meia vem algum grupo de políticos pregar desmembramento de municípios. Em vez de um só, acham mais vantajoso que haja dois ou três. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, toda vez que se aproximam eleições, esse tipo de «bondade» volta ao noticiário. Às vezes, pega.

Na Europa, assiste-se a um movimento inverso. Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos, mais instruídos, fazem as contas e, deixando pra lá rivalidades locais, chegam à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensam amplamente a perda de autonomia.

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos mandachuvas brasileiros continua igualzinha à do Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas. Ou é?

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham e Tottenham (Reino Unido), Arnhem (Holanda), Mannheim (Alemanha), Trondheim (Noruega) são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

Publicado originalmente em 17 jun° 2013.

Trilha dos toblerones

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça ― cercada por Alemanha, Itália, Áustria (anexada pela Alemanha) e França (ocupada por tropas de Berlim) ― não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. A maioria do povo atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se imaginava poder vir nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, suas obras de arte, seus objetos de valor. Mais ainda: um lugar onde se podiam organizar eventuais encontros secretos e manter conversações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «depois do fato consumado, é fácil ser profeta». Difícil mesmo é adivinhar o que está por ocorrer. No final dos anos 30, um bafo de guerra soprava no continente, mas ninguém sabia de que lado nem com que força chegaria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones – hoje utilizada como trilha para caminhada a pé

A inteligência militar planejou um sistema de defesa. A referência mais próxima era a Primeira Guerra, durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era ― e ainda é ― uma linha de 10km de blocos de concreto para barrar a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 monstros de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Viraram atração turística. Trilhas próprias para caminhadas a pé serpenteiam por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É hoje o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose
Janela com cortina falsa

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada. Incluí algumas imagens dos bunkers disfarçados de chalé e dos toblerones.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

 

A multa

José Horta Manzano

La Chaux de Fonds é uma cidadezinha suíça situada num planalto a 1000m de altitude, nos Montes Jura. Desde o século 18, tem-se distinguido como centro relojoeiro. Naquele clima rude de altitude, a agricultura é problemática, daí a especialização em fabricação de relógios, atividade que se exerce em ambiente fechado e aquecido. Dois personagens de renome internacional fazem o orgulho da cidade.

Um deles é o arquiteto e urbanista Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), mais conhecido como Le Corbusier. Muitos de seus trabalhos estão na Suíça e na França, mas há realizações suas também em outros continentes. Sua obra está inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Um exemplo é a Maison du Brésil, residência destinada a acolher estudantes e pesquisadores brasileiros, situada na Cidade Universitária de Paris. É obra conjunta do brasileiro Lúcio Costa e do suíço Le Corbusier.

1km/h acima do permitido

A outra glória de La Chaux de Fonds é Louis-Joseph Chevrolet (1878-1941), mecânico, piloto de corrida e empresário. Ainda jovem, emigrou para os EUA. Tinha raro pendor para a mecânica. Depois de trabalhar para algumas fábricas de automóvel – naquele tempo, eram numerosas –, fundou sua própria marca. Em 1911 abriu pequena montadora à qual deu seu sobrenome. É justamente a marca Chevrolet, famosa até hoje.

Estou pra lhes contar esta historinha faz tempo. Ela andou esquecida, mas hoje lembrei. Vamos lá. Ocorreu já faz uns anos. Eu estava circulando de automóvel por uma avenida do centro de La Chaux de Fonds, num trecho em que a velocidade é limitada a 50km/h. Distraído, não me dei conta de que estava rodando ligeiramente mais rápido que o permitido. O radar, no entanto, não estava distraído e me pegou.

Dias depois, recebi a multa por correio. No documento, explicavam bem que, numa via onde a velocidade autorizada era de 50km/h, eu estava circulando a 56km/h. A regra manda deduzir 5km/h como ‘margem de segurança’ – que, na minha juventude, se chamava ‘de lambuja’.

Na avenida Chevrolet

Contas feitas, 56 menos 5 = 51. Portanto, o excesso de velocidade era de 1km/h. Unzinho só. Geralmente, quando a infração é tão pequena, a direção do tráfego deixa pra lá. Nesse caso não deixaram. Fiquei surpreso e me perguntei qual poderia ser a razão desse excesso de zelo, que mais parecia pirraça. Multar alguém em 40 francos (170 reais) por um excesso de 1km/h? Dói.

Eis senão quando, descobri o nó. Eu estava na cidade natal de Louis-Joseph Chevrolet, na avenida Louis-Joseph Chevrolet, dirigindo um… Ford! Era afronta imperdoável. Onde já se viu?

O curioso caso do vereador suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 julho 2019.

Monsieur Patelli, cidadão suíço, é rapaz decidido. Seu caráter por vezes impulsivo costuma pregar-lhe peças. Arrebatado, perde rápido as estribeiras e se deixa subjugar pelo ardor que a juventude lhe concede. Anda pelos vinte e poucos anos, idade em que se acredita ter o poder e a missão de consertar o mundo – crença que leva a dar valor exagerado a causas menores.

Uma tarde de 2014, participou de manifestação de rua em protesto contra a violência policial. Tachar a polícia suíça de violenta é rematado exagero. Aos muito jovens, porém, há que relevar certos desacertos. Acontece que a marcha de protesto desandou e virou batalha campal. (Francamente, usar de violência numa marcha que se propõe a denunciar a violência é atropelo ao bom senso. Mas assim são as coisas, que não se pode exigir coerência de todo o mundo a todo instante.) Câmeras de segurança gravaram a arruaça e registraram imagens do jovem Patelli justamente quando mandava uma pedrada pra cima da polícia. Com tantos manifestantes, não foi possível identificar cada um de imediato. As investigações continuaram.

Quatro anos mais tarde, a identidade do jovem foi descoberta. A vida tinha corrido e ele já havia progredido. Tinha-se candidatado às eleições municipais da cidadezinha onde vive. Eleito, é agora vereador. Mas ‒ que fazer? ‒ o gesto de quatro anos antes tinha de ser sancionado. Monsieur Patelli foi condenado a passar três meses em prisão domiciliar. Para controlar seus passos, leva uma tornozeleira.

Monsieur Patelli fotografado de tornozeleira na entrada da república onde mora.
Imagem: V.Cardoso, 24 Heures, Lausanne

Menos comum do que no Brasil, o caso do vereador suíço enrolado com a justiça trouxe à pauta a questão da compatibilidade entre as duas condições ‒ a de eleito e a de condenado. Tivesse a infração sido cometida depois da eleição, o mandato seria cassado de ofício, sem recurso possível. Mas o delito tinha ocorrido antes da eleição, de modo que não houve quebra do juramento que todo parlamentar faz de jamais infringir a lei. Monsieur Patelli se encontra agora na bizarra condição de condenado que cumpre pena de cerceamento de liberdade sendo, ao mesmo tempo, vereador em pleno exercício. Se, em outras terras, casos assim não surpreendem, na Suíça deu manchete na imprensa.

A Justiça do país não dá moleza pra quem está em prisão domiciliar. Os controles são rigorosos. Para seguir seus estudos, o jovem tem direito a deixar somente três vezes por semana a república onde vive em comunidade, com destino à faculdade. Para ir ao supermercado, tem de pedir autorização prévia. A licença virá com hora pra sair e hora pra voltar, com tolerância zero para atrasos. Se quiser comparecer a uma das três sessões semanais da Câmara, terá de renunciar a uma ida à faculdade. O que mais o aborrece, no fundo, é a proibição rigorosa de participar de protestos e passeatas, sua paixão.

O caso do jovem suíço que, por um lado paga pena por ter transgredido às regras da sociedade e, por outro, é legítimo representante dessa mesma sociedade, convenhamos, é extravagante. Raras no passado, não há mais como esquivar tais ocorrências nestes tempos de internet planetária, redes sociais abelhudas, pirataria informática e câmeras de segurança onipresentes. Singularmente, a Justiça suíça entende que, tendo o malfeito sido cometido antes da eleição, o condenado conserva o mandato que o povo lhe confiou. Recentemente, a Justiça espanhola mostrou ser da mesma opinião ao conceder a dirigentes catalães, procurados pela polícia mas exilados no exterior, o direito de candidatar-se às eleições para o Parlamento europeu.

No Brasil temos tido casos parelhos. Aqui e ali, vozes se alevantam pra denunciar incompatibilidade entre o estatuto de condenado e o de eleito. Em minha opinião, no caso de o fato delituoso ter ocorrido antes da eleição, a cassação automática do mandato seria pena abusiva. Com o cerceamento do direito de ir e vir, o indivíduo já está ressarcindo a sociedade dos prejuízos causados. Se já está a pagar o débito, não é justo aplicar-lhe pena extra. Por seu lado, é importante, isso sim, reforçar a caça aos eleitos que, embora tenham cometido ‘malfeitos’ – quiçá durante o mandato corrente! – continuam livres, leves, soltos, sem processo, sem julgamento, sem embaraço e sem pudor.

Marcas duráveis

José Horta Manzano

As autoridades e o povo suíço acabam de levar um susto. A notícia cai mal, justamente num momento em que cresce a fatia do distinto público que se converteu à dieta orgânica(*), seita que se universaliza nestes admiráveis novos tempos.

Ninguém se importa em pagar mais caro por produtos chancelados com o selo bio/orgânico. Às vezes sai bem mais caro. Pra coroar, dado que ainda não há regulamentação rígida, não há definição clara do que seja esta nova classe de produtos. Que critérios devem ser respeitados para que um artigo tenha o direito de entrar na categoria? Ninguém sabe direito.

Saído estes dias, um estudo da Universidade de Neuchâtel (Suíça) revela que 90% das terras dedicadas à agricultura biológica no país estão contaminadas com pesticidas. Como é que é? O escândalo se alevanta. Como é possível? Estaremos todos sendo enganados então?

A explicação, no entanto, não é complicada. Antes de serem dedicadas à agricultura orgânica, essas terras eram cultivadas com o uso de pesticidas químicos. Os solos não se purificam da noite pro dia. Passados anos e anos, a contaminação permanece. Além disso, a poluição por produtos químicos é continuamente trazida pelos ventos, pelos animais, pelos insetos, pelos veículos e pelo próprio homem. Querer descontaminar toda a superfície agrícola do planeta é como enxugar gelo: quando a gente acha que o trabalho chegou ao fim, aparece mais água.

Não acredito que a notícia dê um golpe mortal na agricultura sem pesticida. Mas é bom que os cidadãos se armem de paciência. A total despoluição do campo não é pra amanhã.

(*) A agricultura isenta de insumos e pesticidas químicos, dita orgânica no Brasil, é conhecida como bio na Europa. (Bio de biológica.)

Voto por internet

José Horta Manzano

Alguns meses atrás, eu lhes contava o progresso que o voto por internet havia feito na Suíça. De fato, a moderna parafernália informática abriu caminho pra grande avanço na área. Até outro dia, o eleitor helvético contava com apenas duas possibilidades de exercer seu direito: o comparecimento pessoal no domingo de votação ou o voto antecipado, por correspondência.

Entre os dois, o voto antecipado é bem mais prático. No canto da mesa da cozinha, bem à vontade, o eleitor rabisca seu desejo na cédula. Em seguida, enfia no envelope que já veio junto com o material eleitoral, despacha pelo correio e esquece. Mas há sempre quem prefira dar um passeio até o local de votação no domingo eleitoral. É sempre boa ocasião pra encontrar algum conhecido e bater papo em torno de um aperitivo antes do almoço. (O voto é encerrado ao meio-dia.)

Um tanto timidamente, menos de meia dúzia de cantões já haviam introduzido o voto por internet em fase experimental. Na teoria, é ultraprático. Vota-se do teclado do computador ou mesmo a partir do smartphone, companheiro de todas as horas e (quase) todos os bolsos. Mais simples, impossível. Só que essa modalidade de transmissão do voto acaba de sofrer uma senhora pancada.

A empresa nacional de correios, que é também importante operadora do ramo de transmissão eletrônica de dados, fez uma experiência. Organizou um concurso ‒ mais acertado será dizer um desafio. Conclamou piratas informáticos (em bom português: hackers) do mundo inteiro a tentar quebrar os códigos e protocolos de transmissão da empresa. Mais de três mil profissionais e amadores se apresentaram. Tiveram um mês de prazo pra tentar introduzir-se no sistema.

O resultado foi decepcionante ‒ para a empresa de correios, naturalmente. Os piratas detectaram numerosas falhas no código-fonte, problemas que tornam o voto inseguro. No frigir dos ovos, o eleitor exprime sua escolha mas não tem garantia de que o voto será computado corretamente. Deu pânico geral.

Para as votações programadas para o mês que vem, quatro cantões que se preparavam a adotar o voto por internet não tiveram remédio senão desistir. Ficou o dito pelo não dito. Vota-se de novo à antiga. O sistema, afinal de contas, não era tão ruim assim. Mais lento? Pode ser. Mas… bem mais seguro.

Fica a pergunta de sempre:
Será que o sistema brasileiro de voto eletrônico está blindado contra toda tentativa de pirataria?

Fica também a sugestão:
Que o Tribunal Superior Eleitoral institua um desafio, como foi feito na Suíça. Vamos ver se especialistas em espionagem eletrônica não encontram alguma falha no sistema. Estão com medo de quê?

Tsunami de gelo

José Horta Manzano

Maciços montanhosos costumam abrigar lagos de altitude. Alguns são alimentados por curso d’água afluente. Outros, por derretimento de alguma geleira ou das neves invernais. Há ainda os que entram nas duas categorias – é o caso do Lago de Joux. Ele é alimentado pelas neves do inverno rigoroso e pelas águas do Orbe, rio que entra por um lado, atravessa a massa d’água e sai na outra ponta. Com 21m de profundidade, o Lago de Joux fica a uma altitude de 1000 metros. Mede 9km de comprimento por 1km de largura.

Lago de Joux no verão

Ao redor, está um rosário de cidadezinhas que, há séculos, se especializaram em fabricar relógios, escolha explicada pelo sistema de trabalho familiar. Tradicionalmente, cada família era especializada na fabricação de determinados componentes do relógio. Os longos invernos favorecem o trabalho em casa. A fábrica propriamente dita costumava ser mais montadora que fabricadora. Recolhidas as peças talhadas pelas famílias, faziam a montagem final dos relógios. Se a moderna automatização praticamente deu cabo do sistema, certo número de marcas importantes ainda produzem ao redor do lago.

Lago de Joux no inverno

Quando, no inverno rigoroso, a temperatura fica abaixo de zero durante alguns dias, uma camada de gelo se forma na superfície do Lago de Joux. Dependendo da espessura, dá pra passear em cima – calçando patins, que senão escorrega. Em algumas ocasiões, desde que determinados fatores estejam reunidos, esse gelo pode dar origem a um tsunami. Não é todo ano que acontece, mas foi o que se viu neste 2019.

Quando chega março, as travas do inverno começam a afrouxar. Na região, costumava ocorrer em abril, mas o aquecimento global tem encurtado o período frio. À medida que a temperatura se eleva, a camada de gelo vai afinando. Se, nessa altura, vier um dia de vento forte e contínuo, estarão reunidas as condições pra um tsunami gelado. A um dado momento, milhões de plaquinhas de gelo de poucos centímetros de espessura vão se desprender da superfície do lago, sair voando e encalhar na margem, formando montes de gelo.

O fenômeno dura poucos minutos. Nos tempos de antigamente, o espetáculo era reservado pra quem fosse da região. Hoje, que todo o mundo leva uma filmadora no bolso, ficou mais fácil. Faz dois dias, um passante, ao assistir ao tsunami de 2019, sacou rápido do celular e registrou essas impressionantes imagens. Não é perigoso como maremotos, mas é raro, curioso e original.

Tracambistas

José Horta Manzano

Na Suíça, país onde a mão de obra tem custo elevadíssimo, faz tempo que se tende a mecanizar o trabalho humano. A “moça do café” nunca existiu. Quem quiser adoçar a boca, enfia uma moedinha na máquina que fica no corredor, aperta o botão correspondende, e pronto. A profissão de cobrador de ônibus também é desconhecida. No tempo em que se comprava passagem dentro do veículo, quem vendia era o próprio motorista.

Já faz muitos anos, porém, que não se pode mais comprar bilhete dentro de ônibus. Para não viajar de “pendura”, arriscado a ser flagrado e levar multa, há duas opções. Para quem usa transporte coletivo frequente e regularmente, é conveniente comprar assinatura mensal ou anual – paga-se de uma vez e não se pensa mais nisso. Outra possibilidade, preferida pelos que viajam menos, é a compra a varejo. Cada vez mais gente compra pelo smartphone, mas boa parte dos bilhetes ainda é comprada nas máquinas instaladas em cada ponto de ônibus.

Antigamente, eram máquinas simples. Pelo menos, assim me pareciam. Hoje em dia são complicadíssimas, cheias de botões, com guia vocal, luzinhas aqui e ali. Mas o princípio é sempre o mesmo: toca-se aqui e ali pra indicar o trajeto e, em seguida, enfia-se a moeda na fenda. A máquina emite o bilhete e devolve o troco. Até aí, estamos todos de acordo. O complicador vem agora.

A moeda suíça de maior valor é a de 5 francos (= 19 reais). Acontece que a moeda russa de 1 rublo tem diâmetro e peso idênticos. A diferença é que não vale quase nada: 6 centavos de real. As máquinas de vender bilhete – um tanto antigas, é verdade – não conseguem distinguir entre as duas. Pronto, está aberta a porta pra tracambistas. (Tracambistas são fraudadores, só que a palavra me parece bem mais expressiva, especialmente neste caso.)

A boa-nova já se espalhou pelos lados da Rússia, Moldávia e cercanias. Os funcionários que esvaziam a máquina não passam um dia sem encontrar moedas de rublo. A astúcia consiste em comprar um bilhete de 2,40 francos e dar em pagamento moeda de 1 rublo. Entendendo que recebeu 5 francos, a máquina vai devolver 2,60 francos. Não é nenhuma fortuna mas, se o indivíduo repetir a operação vinte vezes por dia, vai amealhar cerca de 200 reais. No mole. É só tomar cuidado pra não dar demais na vista.

A prefeitura de Lausanne manda avisar que, visto que os usuários preferem, cada vez mais, comprar pelo celular, as máquinas atuais não serão substituídas. Vão ser gastas até a lona. Aviso aos amadores.