E 2021, como é que fica?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 dezembro 2020.

Cinco anos atrás, quando 2015 estava para terminar, escrevi um artigo aqui neste espaço. Falava das dificuldades que nos atormentavam. Eram tempos complicados. O Brasil atravessava período de turbulência braba, daqueles que, fosse avião, as asas estariam ondeando. Na economia, o ano tinha sido catastrófico, com inflação à solta e fuga de capitais. No Planalto, as coisas iam de mal a pior, com a doutora enfrentando processo de impeachment por gestão fraudulenta das finanças, subterfúgio contábil que ficaria conhecido como o das ‘pedaladas fiscais’ – uma quase ofensa aos amantes do ciclismo. Por seu lado, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, respondia por corrupção e lavagem de capitais. Para coroar o trágico buquê, a taxa de desemprego corria em direção aos 10%.

Colei no ano de 2015 o rótulo de annus horribilis – por sinal, o título do artigo. Lembrei que a expressão, com seus ares latinos, tinha sido repaginada pela rainha Elisabeth II, quando do Discurso do Trono de 1992. Com sua série de querelas e escândalos, aquele ano tinha marcado o reino e atormentado a real família. Até incêndio num dos castelos da rainha houve. A expressão, fisgada no latim, arremedava annus mirabilis – ano maravilhoso, título de conhecido poema escrito 300 anos antes por autor inglês. A rainha (ou o cavalheiro encarregado de redigir seus discursos) foi feliz na referência. Certos anos, mais que outros, marcam uma nação.

Para nós, o ano que se acaba foi um sufoco. Milhões de brasileiros estão se arrastando, língua de fora, pra ver se alcançam, vivos e ilesos, a soleira da porta de 2021. O Brasil que chega ao novo ano é um país sofrido, abalado pela perda de 200 mil cidadãos, atazanado pelas privações, martirizado pelo malquerer que o presidente da República dedica às mazelas da população. E, como se fosse pouco, o brasileiro está angustiado diante das perspectivas sombrias. O descaso cruel e repetido com que o Planalto nos hostiliza só faz aumentar nossa sensação de desamparo. Com quem contar? De quem esperar bom senso?

(Kleber Sales/CB/D.A Press)

Como 2015 parece longínquo! O desvario em que se atolam nossos dirigentes nos traz saudades daquele tempo. Desde que a pandemia se instalou entre nós, pulamos de incerteza em incerteza. A informação que valia ontem periga já ter perdido validade. Fronteiras, escolas, lojas são fechadas e reabertas. Ponha a máscara, tire a máscara, saia de casa, fique em casa, vacina vem, vacina vem não – o cidadão comum está dilacerado entre ordens e contraordens que se desdizem sem parar.

No meio desse pandemônio, uma voz clara e forte continua a nos dar o norte: é a voz presidencial, saída da garganta de um homem com histórico de atleta, segundo avaliação dele mesmo. Graças a essa voz, que nunca vacila nem retrocede, sabemos que a covid não passa de uma gripezinha. Temos a confirmação de que vamos todos morrer um dia. Fomos informados, já no longínquo 10 de abril, que o vírus estava indo embora – informe confirmado 8 meses depois, em dezembro, quando de novo o presidente preveniu estarmos no finalzinho da pandemia. Também por seu intermédio, estamos inteirados de que a Europa será bem mais atingida que nós. Fomos ainda avisados de que a hidroxicloroquina é remédio supimpa. E recebemos a informação suprema, o esclarecimento maior: de fonte oficial, sabemos que Sua Excelência não é coveiro.

Para infelicidade de todos os brasileiros, temos, na Presidência, um buraco negro que, além de não emitir luz, ainda engole o brilho e as luzes dos que se aproximam. Mas deixemos metáforas astronômicas e voltemos ao plano terrestre. O presidente é caso de escola sobre egoísmo exacerbado que, reforçado pela ignorância, resultou num indivíduo paralisado, que não faz nem deixa fazer.

Como será, para os brasileiros, o ano de 2021? Annus nefastus, annus mutandis, nefasto, cambiante? Não é fácil encontrar boa definição. Se bem que – vejam só – a resposta está às vezes bem à nossa frente, e basta abrir os olhos para enxergar. A realizar-se a escura profecia lançada por um presidente que tratou o próprio povo de maricas, 2021 será o annus crocodili, o ano em que todos nos transformaremos em jacaré. E daí?

Os símbolos de lá e os de cá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 novembro 2020.

Berlim, 29 de agosto de 2020
Era uma passeata autorizada. Milhares de manifestantes desfilaram pela cidade para exigir a suspensão da obrigação de usar máscara de proteção contra a covid-19. A manifestação decorreu pacífica, mesmo porque, fora a reivindicação dos participantes, não havia choque de ideias. Não se tratava de embate entre facções; os que se dispunham a acatar a ordem de usar máscara ficaram em casa.

Lá pelas tantas, um grupo de 200 a 300 simpatizantes de extrema-direita, mais exaltados que os demais, conseguiu saltar as grades de proteção que rodeiam o Reichstag, a sede do Parlamento Nacional. Alguns chegaram até a subir os degraus da escadaria antes de serem dispersados por policiais munidos de bombas de gás lacrimogêneo.

Numerosos invasores, saudosistas, agitavam a bandeira do Império Alemão (1871 a 1918) assim como a do início do III° Reich (1933 a 1935). É atitude temerária num país em que cicatrizes de um passado trágico ainda não se fecharam de todo. Ninguém ousou erguer a bandeira nazista, aquela com a suástica, que isso é pecado mortal na Alemanha, passível de encrenca pesada com a Justiça. Após o malogro, os invasores revelaram ter tido intenção de ‘ocupar’ o Parlamento.

Brasília, 13 de junho de 2020
Fazia tempo que apoiadores de Jair Bolsonaro tinham montado acampamento na Esplanada dos Ministérios. Era uma forma peculiar de protestar contra determinadas instituições da República cujo funcionamento não era do gosto deles. O assentamento era selvagem. A lógica elementar ensina que é vedado a um particular assenhorear-se do espaço público, mormente instalando lá sua residência, ainda que temporária. O governo do Distrito Federal ordenou a remoção das tendas. Naquele dia, a ordem foi cumprida. Os apoiadores do presidente, simpatizantes de extrema-direita como os berlinenses, não apreciaram o despejo.

Lá pelas tantas, um grupo mais exaltado de recém-expulsos teve a bizarra ideia de munir-se de fogos de artifício e utilizá-los como mísseis terra-terra. Atiraram os artefatos em direção à sede do STF, como se de bombardeio se tratasse. Jornalistas presentes à ocorrência gravaram ameaças acompanhadas de um caudal de impropérios, todos endereçados a ministros do Supremo.

Conclusão
Ambos os episódios têm pontos em comum. Por exemplo, as duas manifestações começaram dentro de relativa calma para, no final, desandarem por obra e graça de grupos radicais. Por seu lado, seguindo um figurino de romantismo adolescente, alemães e brasileiros se rebelavam contra a ordem estabelecida, fosse ela encarnada por insituições do Estado, fosse pela obrigatoriedade de portar a detestada máscara anticovid. Mais um ponto comum: os manifestantes, tanto os de lá quanto os de cá, estavam cientes de não ter a menor chance de atingir o objetivo esboçado. Nem o Reichstag seria tomado, nem o STF, incendiado. Os atos eram claramente simbólicos.

Ao observador atento, porém, não há de escapar a discrepância maior entre os manifestantes de Berlim e os de Brasília: a simbologia contida na violência de cada episódio. Os exaltados de Berlim mimaram uma tomada de assalto do Parlamento alemão. Por trás de toda purpurina, estava o desejo de tomar a si as rédeas de uma instituição do Estado. Foi como se dissessem: «Arredem daí! Nós, o povo, vamos cuidar do Parlamento melhor do que vocês. Fora!». Nada, na movimentação dos manifestantes alemães, deixou transparecer desejo de eliminar o Parlamento; só de corrigi-lo e de pô-lo no ‘bom caminho’.

Já em Brasília, foi diferente. Nossos exaltados não mostraram intenção de ‘corrigir’ nem de redirecionar a atuação do STF para o ‘bom caminho’. A simbologia contida na simulação de ataque balístico era de destruição pura, de eliminação da Justiça republicana, como quem dissesse: «Não queremos uma Justiça independente. Essa instituição podre tem de ser eliminada. Exigimos que esse Poder seja entregue a nosso líder».

A conclusão que se pode tirar é tenebrosa: nossos exaltados tupiniquins são mais perigosos do que os herdeiros do III° Reich.

Imagem invertida

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 novembro 2020.

Este é um país em que decisões oficiais costumam ter prazo de validade curto. Em outras terras, leis e resoluções que permanecem em cartaz por décadas são a regra; entre nós, são exceção. Não se sabe se seguirá na ribalta o comovente espetáculo com que doutor Bolsonaro nos brindou faz alguns dias, quando açoitou em público seu ministro da Saúde, no sombrio episódio da compra da vacina. Terá sido encenação orquestrada, de caso pensado? Ou passageira explosão de mau humor de um presidente insônico?

Seja como for, quer saia de cena na ponta dos pés, quer termine, barulhento, no palco iluminado do STF, o caso terá sido emblemático desta presidência. Daqui a um século, quando historiadores se debruçarem sobre o ano de 2020, a devastação da pandemia será acareada com o berro do doutor. Berro, sim, pois os códigos da internet estipulam que quem escreve em letras maiúsculas está gritando. Foi o que fez o presidente quando afirmou a seus devotos que não compraria a vacina do Instituto Butantã – que ele chama, com desdém, de «vacina chinesa», por ter sido desenvolvida por laboratório chinês.

Em novembro de 1904, está fazendo 116 anos estes dias, a população do Rio de Janeiro se amotinou contra as autoridades. Fazia tempo que a insatisfação inchava. A causa maior eram as obras gigantescas de modernização, que estavam perturbando a vida de muita gente. Na remodelagem da cidade, muitos tinham perdido a moradia. Os péssimos serviços públicos também alimentavam a zanga da população. Mas a gota d’água foi mesmo a imposição da obrigatoriedade da vacina antivariólica.

Naquela época, a situação sanitária calamitosa da capital dava imagem infeliz da jovem República. Até imigrantes europeus, assustados, zapeavam o Rio e preferiam recomeçar a vida em Montevidéu ou Buenos Aires – fato que contrariava o empenho do governo. Outras doenças castigavam o povo, só que, contra a varíola, já fazia um século que havia vacina. Eis por que, na impossibilidade de resolver todos os problemas de uma vez, decidiu-se atacar por esse lado.

Revolta contra a vacina obrigatória – Rio, 1904
by Leonidas Freire (1882-1943)

O pote, já então quase cheio, entornou. A revolta acabou por envolver militares e gente que nada tinha a ver com a vacina. Até tentativa (frustrada) de golpe de Estado houve. As desordens deixaram mortos e feridos. Tão violento foi o movimento, que obrigou o governo a voltar atrás na imposição da vacina. Não se sabe se há relação de causa e consequência, mas o fato é que, quatro anos mais tarde, uma epidemia de varíola deixaria mais de 6 mil mortos.

Agora, cem anos depois, não é o povo, mas o presidente que se insurge, até com violência verbal, contra um reclamo legítimo e urgente da população. A ordem natural das coisas está invertida. O cidadão comum não está montado em cima de uma ideologia, seja ela qual for. Para esse cidadão, convencido de que só a vacinação lhe dará proteção contra o coronavírus, o importante é vacinar-se logo, pouco importando a cor do passaporte dos cientistas por trás da descoberta. Que se pergunte aos 57 milhões que deram seu voto ao presidente atual o que lhes parece mais urgente: estender o braço pra receber a vacinação liberadora, venha ela de que laboratório vier, ou espichar uma tromba, bater o pé e recusar a «vacina chinesa do Dória». Não precisa nem gastar dinheiro com pesquisa.

É significativa a assimetria entre a desavença de um século atrás e a quizila atual. Em 1904, a população se insurgiu contra uma medida imposta de cima para baixo – o que entra na ordem natural das coisas. Motins, sublevações, revoltas e revoluções costumam ocorrer como reação de insatisfação popular diante de medidas vindas de cima e percebidas como opressivas.

Em 2020, o quadro está invertido. Embora importantes, não são o incentivo de governos estaduais, nem a autorização da Anvisa, nem a pontificação do STF que ficarão na história. O que será lembrado é o descaso para com a saúde dos brasileiros patenteado pelo presidente em pessoa. O governo do Brasil de 2020 é a delirante imagem invertida daquilo que um governo teria de fazer por seu povo. Como dizia minha avó, isto aqui está de pernas pro ar.

Memento mori

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que se aprendia latim na escola. Apesar de a língua dos romanos ter me provocado muita dor de cabeça e trazido muita nota baixa, guardei certa simpatia por ela. Volta e meia, quando dá, enxerto alguma citação, alguma máxima latina. Os romanos podiam ter seus defeitos, mas tinham notável bom senso.

Memento mori – é o título de um artigo que o Correio Braziliense publicou no caderno Opinião faz dois dias. O autor é Otávio do Rêgo Barros, general de divisão e doutor em ciências militares, aquele senhor sério e comedido que foi porta-voz de Bolsonaro do primeiro dia de governo até um mês atrás. Dizem as más línguas que ele foi expelido do cargo por ter caído em desgraça junto a um dos bolsonarinhos, aquele mais desequilibrado e intriguento.

O artigo do general já começa com citação latina, coisa fina. O texto é o reflexo do jeitão do autor: claro, pausado, bem explicado, ponderado, sóbrio. E erudito. Ele cita batalhas da segunda Guerra Púnica, travadas entre tropas romanas e cartaginesas 22 séculos atrás, embates em que entra em cena Aníbal Barca, aquele que atravessou os Alpes montado em elefantes. Me lembrou as aulas de dona Leocádia – quanto tempo!

Mas vamos deixar os elefantes e voltar ao general. Seu artigo, elegante, não cita nomes. Mas descreve claramente o comportamento do antigo chefe, Bolsonaro. O título, Memento mori (=Lembra-te que és mortal), refere-se a um costume romano. Quando voltavam de uma batalha, cobertos de glória, os generais faziam-se cercar de escravos que lhes sussurravam ao pé do ouvido essa frase o tempo todo. Era para não caírem na tentação de se deixarem embevecer por aplausos e adulações, que a glória é passageira.

Batalha de Zama
Segunda Guerra Púnica, 202 a.C.

No memorável artigo, o general Rêgo Barros faz um convite à reflexão. Depois de incentivar os outros Poderes da República e a imprensa a manterem firmeza e não recuarem diante de pressões, conclama a população a exercer seu papel de «árbitro supremo da atividade política».

O general não diz isto, mas, num país em que parlamentares são corruptos e organizações de classe – se é que existem – estão anestesiadas há duas décadas, o único canal aberto para o povo mostrar descontentamento é a rua. Manifestações como as de 2013, que acabaram por derrubar Dilma e o PT, são a única porta de saída deste pesadelo. Como conclamar o povo? Não sei. Vocês, que vivem no Brasil e são peritos em feicibúquis, tuítch e zap-zap, sabem melhor que eu. Minha parte, estou fazendo aqui.

Não sei como é que Bolsonaro foi escolher Rêgo Barros para o cargo de porta-voz. O general não combinava com a súcia que gravita em torno do Planalto. Sem condições: não podia dar certo.

Se o distinto leitor tiver 5 minutos, vale a pena ler o artigo do ex-porta-voz. Não é longo. Está disponível no site do Correio Braziliense. Aqui.

“No palm oil”

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 setembro 2020.

Em países avançados, vem crescendo rapidamente a sensibilidade ecológica, impulsionada por inúmeros movimentos verdes. A cada ano, com visibilidade crescente, eles mostram que vieram para ficar. Há evidente relação entre o grau de civilização de um país e a força de suas correntes ecológicas. Elas estão mais enraizadas em nações onde o sentimento de pertencimento é mais forte. Quanto mais elevado for o PIB, mais forte vibrará a corda ecológica.

Nesses países, político ajuizado não ousa desafiar, como faz nosso despreocupado presidente, a sensibilidade verde do eleitorado. Seria suicídio certeiro. Há que convir que a atitude de nosso dirigente-mor combina com o desinteresse de grande parte dos brasileiros, que se comportam como se a vida se resumisse ao hoje e não devesse haver amanhã. «Après nous, le déluge – depois de nós, [que venha] o dilúvio» é máxima egoísta (mas profética) atribuída a um membro da corte do rei Luís XV e posta em prática no Brasil de hoje. A Revolução Francesa, que sobreviria anos mais tarde, despejou de fato um dilúvio. Não de água, mas de sangue.

Não acredito que a incúria do Planalto se deva somente à ignorância. Debaixo desse angu, tem carne – há militância por detrás disso. O descaso ostensivo que o atual governo dedica ao tema faz desconfiar que, nos bastidores, lobbies poderosos estejam atuando. Tamanho é o desdém do Planalto pelo patrimônio de todos nós, que fica a impressão de que há, no final, perspectiva de suculentos ganhos pessoais. Não é nenhum despropósito pensar assim.

Fôssemos um povo consciente de estarmos todos embarcados no mesmo planeta, nosso atual presidente seria, desde já, carta fora do baralho em matéria de reeleição. Na Europa – tanto nos zelosos países do norte quanto no resto do continente – candidato hostil à preservação do meio ambiente não seria eleito, nem muito menos reeleito. Que sejam de direita, de esquerda ou de outro quadrante, eleitores se assustariam com a ideia de eleger um patrocinador de desastres.

Desde o dia em que teve a ideia funesta de compartilhar um tuíte desairoso zombando da primeira-dama francesa, Jair Bolsonaro atraiu para si a indignação da mídia e das gentes de Oropa, França e Bahia. Antes disso, não passava de líder folclórico, daqueles que costumam brotar na América Latina. Perpetrada a ousadia, mudou de patamar: suas palavras e atos passaram a ser analisados com aquela suspeição que, em princípio, se reserva para líderes que vicejam nos arrabaldes da civilização.

Países ricos, justamente os bons clientes de produtos brasileiros, contam com um universo de consumidores esclarecidos. Ao fim e ao cabo, são eles que estão na ponta das exportações brasileiras. Mesmo quando despachamos matéria prima para consumo animal, o boi europeu alimentado com nossa soja ou nosso milho termina no prato deles. São esses consumidores os aliados preciosos que o Brasil está gratuitamente mandando às favas. Consumidores ressabiados – e conscientes da própria força – são um perigo.

Se não, vejamos. A Indonésia é o grande produtor mundial de azeite de dendê, óleo apreciado por conferir textura especial a produtos da doçaria industrial. No entanto, dado que se alastrou a informação de que a floresta equatorial indonésia está sendo abatida para dar lugar a dendezais, tornou-se de bom-tom recusar todo artigo que contenha esse azeite. Para não perder clientes, número cada dia maior de marcas importantes imprimem na embalagem, bem visível para o consumidor europeu, o logo: «No palm oil – sem azeite de dendê».

Por mais que Bolsonaro proteste inocência, seu nome estará irremediavelmente ligado ao desmatamento. O presidente passará, como passam todos. Mas permanecerá o sentimento de o Brasil estar aniquilando seu patrimônio florestal e agravando a desertificação do planeta. Nosso país continuará, por décadas, a pagar a conta desse pecado original. Nesse baile, dançaremos todos.

Não está longe o dia em que, nos supermercados europeus, todo produto passível de ter-se beneficiado da pilhagem criminosa da natureza brasileira deixará de ser posto à venda. Para tranquilizar o público, uma etiqueta será colada na embalagem: «Brazilian Forest Preserved – Floresta Brasileira Preservada». Isso valerá para suco de laranja, proteína animal, ou ainda todo artigo que possa ter recebido insumos brasileiros. Virá em todas a línguas, para que fique bem claro. Estará assim estampilhada, numa logomarca padrão, a profundeza de nosso atraso.

Lula, Battisti e as desculpas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 agosto 2020.

Como se verá a seguir, certas atitudes expõem a incompetência e a falta de visão de governantes. O caso Battisti é emblemático. Terrorista condenado por atos cometidos nos anos 70 – dois homicídios e participação em outros dois –, o italiano Cesare Battisti fugiu da prisão, passou anos homiziado por França e México, para finalmente pousar em Copacabana, onde se escondeu por 3 anos.

Descoberto em 2007, passou a navegar pelos meandros da exótica prática judiciária do Brasil. Foi preso, foi solto, recebeu o estatuto de refugiado político, perdeu essa condição. As chicanas de nossa peculiar justiça – com sua dificuldade de dar decisão definitiva, como a deixar sempre brecha para uso futuro – conduziram o caso até a escrivaninha do presidente da República, então um certo Lula da Silva.

A ele coube dar o veredicto. Numa decisão estranha, Lula humilhou a justiça italiana e, passando por cima da decisão dos tribunais da Península, concedeu asilo político ao condenado por homicídio. Pegou muito mal, tanto aqui quanto na Itália.

O asilado passou a transcorrer dias despreocupados numa cidade de praia do estado de São Paulo. Distraído, não se deu conta de que o Brasil ainda guarda relentos absolutistas do “ancien régime”, sistema em que a lei se amolda à vontade pessoal do rei. Pois foi o que aconteceu. Recém-eleito, doutor Bolsonaro prometeu revogar, uma vez empossado, o asilo dado a Cesare Battisti. O asilado não esperou para ver – escapou à sorrelfa e tomou o rumo da Bolívia.

Ao passar a fronteira, deve ter acreditado que estava a salvo. Engano bobo. Agentes do serviço secreto italiano não tardaram a encontrar seu paradeiro. A partir daí, é permitido especular que tenha havido um acerto entre Roma e La Paz. (Esta parte não é oficial, mas é plausível.) O fato é que, apenas chegado a Santa Cruz de la Sierra, Cesare Battisti foi preso pela polícia boliviana e, em 24 horas, deportado em rito sumário. Nem processo de extradição houve.

Levado à Itália, foi trancado numa prisão de segurança máxima. Meses depois de ter voltado ao país natal, talvez para aliviar a consciência, confessou ser realmente autor dos crimes pelos quais tinha sido condenado. Consternada, a família lulopetista emparedou-se num silêncio obsequioso.

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Agora, ano e meio depois da confissão de Battisti, entra em cena nosso conhecido Lula da Silva. Numa entrevista concedida há 10 dias a um canal amigo, apareceu contrito e arrependido de ter concedido asilo ao italiano. No entanto, a fim de manter intacta a imagem do guia infalível, procurou um culpado para a enormidade cometida. Declarou ter sido “enganado” pelo homicida – o que traz à mente o estouro do mensalão, quando ele também se queixara de ter sido “traído”. Declarou ainda que não teria problema em pedir desculpa à família das vítimas. Usou o condicional: “não teria problema”. Como ninguém cobrou as desculpas, não as pediu. E o assunto morreu ali.

Com a velocidade do raio, a notícia chegou à Itália. Das vítimas de Battisti, Alberto Torreggiani é aquele que sofreu os “efeitos colaterais” mais severos. Tinha 15 anos de idade quando o pai, um joalheiro milanês foi assassinado a sangue-frio. Baleado na coluna vertebral, o jovem não morreu, mas ficou paraplégico. Está hoje com 56 anos, 41 dos quais passou aprisionado a uma cadeira de rodas.

Ao tomar conhecimento das “desculpas” do Lula, Torreggiani mostrou desânimo. Declarou-se indignado e perplexo. Intuiu que as lágrimas do ex-presidente são para uso eleitoreiro. Amargo e irônico, indagou se seria o caso de agradecer ao Lula. Depois de tantos anos de sofrimento e atribulações, não vê sentido em ouvir, de pessoa tão importante, a confirmação do que sempre foi evidente: que ele, a vítima, estava com a razão.

Battisti, decerto habituado às chicanas da justiça do Brasil, solicitou em maio prisão domiciliar em razão dos riscos de apanhar a covid-19. O Ministério da Justiça italiano negou provimento argumentando que todos corriam o mesmo risco e que ele não era melhor que ninguém.

Quanto às desculpas fora de hora do Lula, comenta-se na Itália que essa covid parece estar causando efeitos estranhos na cabeça de certas pessoas.

Pijânio

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 julho 2020.

Há pontos de contacto entre o governo de doutor Bolsonaro e a passagem meteórica do folclórico Jânio Quadros pela Presidência. Ainda que não se enquadrasse no figurino de pessoa de fino trato, Jânio não descia à profunda vulgaridade do presidente atual. Esse não é, por certo, ponto de afinidade entre os dois. O populismo de Quadros se resumia a subir ao palanque de comícios, cabelo desgrenhado, mordiscando um sanduíche de mortadela, a reclamar da carestia. Diferentemente de Bolsonaro, Jânio era o que hoje se costuma chamar de ‘workaholic’, termo inestético que define um viciado em trabalho. Era o primeiro a chegar ao Planalto e o último a sair. Portanto, o apego ao batente tampouco era ponto comum entre os dois.

Jânio teve a sabedoria de escolher os titulares de seu enxuto ministério (13 pastas) entre profissionais de alto nível. Ainda não era moda trapacear com currículo, o que facilitava a seleção. Cattete Pinheiro, ministro da Saúde, era médico sanitarista e senhor de longa experiência; Brígido Tinoco, da Educação, era membro da Academia Fluminense de Letras e autor de uma dezena de livros; Afonso Arinos de Mello Franco, das Relações Exteriores, era imortal pela Academia Brasileira de Letras e autor de mais de 30 obras. Não, a escolha de ministros tampouco foi o ponto comum entre Jânio e Bolsonaro.

O verdadeiro ponto de encontro entre os dois presidentes é este: o pendor para cuidar do particular em detrimento do global. Incipiente em Jânio, essa tendência de cuidar do detalhe e perder de vista o principal foi potencializada por Bolsonaro. Tivesse ficado mais que sete curtos meses no cargo, talvez o presidente-relâmpago de 1961 tivesse elevado a tendência ao pedestal de política de Estado. Não deu tempo.

As estrepolias de Bolsonaro, por serem recentes, estão na camada de cima da memória de todos. Se bem que, de tão numerosas, algumas pérolas acabam rolando para o esquecimento. Logo no início do mandato, o doutor propôs-se a transformar um santuário ecológico da costa fluminense num polo turístico; mostrou-se disposto a vedar o financiamento de filmes que não lhe agradassem; atracou-se pessoalmente com jornalistas e órgãos da imprensa. Enfim, cuidou de muita miudeza, mandando o principal para fora do tabuleiro.

Última Hora (RJ), 27 março 1961

Voluntarioso mas sem visão de conjunto, Jânio preferia seguir a própria intuição, caminho arriscado. Um belo dia, resolveu ditar moda. Não ficou claro de onde tirou a ideia. (Com JQ, nem tudo era claro.) Baixou um decreto criando uma espécie de farda, uma vestimenta uniformizada para uso dos funcionários federais, do presidente da República ao mais humilde. Dependendo do olhar de cada um, o ‘slack’ – esse era o nome da indumentária – deixava impressão diferente: podia lembrar o traje civil obrigatório na China, o uniforme do indiano Nehru, a roupa do egípcio Nasser, a ‘guayabera’ centro-americana.

A ordem presidencial determinava o uso, mas não previa financiamento. Cada um que se virasse. Os mais abastados torceram o nariz para o modelo, que lhes parecia vulgar. Os mais pobres se perguntaram de onde haviam de tirar dinheiro para comprar o uniforme. Um ou outro funcionário graduado – querendo agradar ao chefe – adotou logo a novidade. Jornalistas eram mais severos. Advertiam: «Esqueça-se o presidente de uniformes e de outras pequenas coisas e volte suas vistas para os grandes problemas do Brasil!» ou ainda «Acorde e medite, presidente, para que sua prometida ‘revolução’ não se reduza ao uso do ‘slack’!».

A permanência de Jânio na Presidência foi curta demais para apurar se a moda do ‘pijânio’ pegou. É de duvidar que pegasse. Ninguém gosta de novidades impostas de cima pra baixo. Essa rejeição se repete hoje quando Bolsonaro, que doutor não é, transpõe os limites de suas funções e se põe a fazer propaganda de remédio. Essa, nem um excêntrico Jânio ousou. Portar o uniforme janista era apenas questão de bom ou mau gosto. Já o tratamento preconizado por Bolsonaro é desaconselhado por autoridades médicas mundiais por representar risco para a saúde. Para JQ, é tarde; mas para Bolsonaro vale o conselho: cuide, presidente, que sua passagem pelo Planalto deixe rastro mais nobre que o do charlatanismo.

Para evitar impeachments

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 julho 2020.

Quem se lembra daquele presidente de Honduras, caricatura do típico caudilho latino-americano bigodudo, aquele señor que queria se tornar ditador? Zelaya era o nome dele. O moço fez travessuras. Percebendo que o país ia desandar, militares de alta patente não hesitaram. Mandaram tirá-lo da cama no meio de uma tépida madrugada tropical, sem direito a trocar de roupa: foi desterrado de pijama. Não se ouviu mais falar dele.

Evo Morales, da Bolívia, era outro que dava sinais cada dia mais inquietantes de que pretendia se instalar em definitivo no Palacio Quemado. Um belo dia, foi discretamente informado pelo Estado Maior do Exército de que não podia mais contar com apoio militar e que era melhor afastar-se. Renunciou na hora, embarcou num avião das Forças Aéreas Mexicanas e asilou-se na turística Acapulco. Com as acusações que lhe pesam nas costas, dificilmente pisará de novo os picos áridos e gelados do país natal.

No Brasil, também costumava ser assim. Washington Luís em 1930, Getúlio Vargas em 1945 e Jango Goulart em 1964 seguiram figurino de justiça expeditiva. Hoje o procedimento está mais civilizado. Assim mesmo, com duas destituições em 25 anos, a rotatividade continua acelerada.

Os constituintes de 1988 decerto não imaginaram que processos de destituição pudessem repetir-se com tal frequência. Prova disso é que, apesar de detalhista, a Carta Magna não regulamentou a matéria. Em pleno século 21, impeachments continuam arrimados numa lei sancionada de 70 anos atrás. Recorrer à destituição a cada vez que o chefe do Executivo escorrega é processo desgastante, que trava o andamento normal do país durante meses. A conduta errática da atual presidência – e o espectro de impeachment que a acompanha – devem despertar uma reflexão nacional sobre a oportunidade de instaurar-se o parlamentarismo.

Para quem receasse sentir-se órfão, consola saber que o regime parlamentar não prescinde necessariamente da figura presidencial. O presidente pode até continuar a ser eleito pelo voto popular. A diferença mais notável é a drástica diminuição de seus poderes. Em alguns poucos países, como França e Portugal, embora o governo seja exercido por um primeiro-ministro eleito pelo Congresso, o presidente conserva certas atribuições de Estado; pode, em certos casos, interferir na política externa. Na maioria dos países, nem isso. Presidente é figura representativa – quem governa, de fato, é o parlamento.

Mas, atenção! Para um regime desses funcionar, é essencial estreitar a relação entre eleitores e eleitos. No sistema atual, com parlamentares eleitos pelo voto proporcional, o divórcio é total: nem o eleitor sabe quem o representa, nem o eleito se sente compromissado com quem o elegeu. É a perfeita negação da democracia. É verdade que mexer nisso é como enfiar a mão num saco de caranguejos. Mas não há outro jeito: quando um sistema de governo começa a dar sinais de exaustão como nosso presidencialismo de coalizão (ou de cooptação ou de confrontação, como preferir), é chegada a hora de aperfeiçoá-lo.

O voto proporcional tem de ceder lugar ao voto distrital puro. É simples. Divide-se o país em 513 distritos de população equivalente, cada um correspondendo a um assento na Câmara. Cada distrito escolherá um representante – o SEU deputado – em eleição de dois turnos. Esse sistema tem numerosas vantagens. A campanha eleitoral sai muito mais barata, dado que os candidatos só apertam mãos e distribuem santinhos no interior do distrito no qual concorrem.

O eleitor saberá a qualquer momento quem é seu deputado, fato que lhe permitirá acompanhar o trabalho do eleito e cobrar-lhe as promessas. O sistema distrital tende a enxugar a dispersão de votos, deixando à míngua partidos de aluguel. Com o método distrital, sumirá também o candidato puxador de voto, aquela figura conhecida que, ao receber enorme votação, elege mais quatro ou cinco companheiros inexpressivos.

Com o presidente atual, sempre em equilíbrio precário entre lutas no interior do clã e problemas com a Justiça, toda mudança é improvável. No dia em que ele deixar a presidência, será chegado o momento. Não vai ser fácil vencer as resistências, mas vale a pena – o Brasil merece essa chance.

Ondas perdidas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 maio 2020.

Nestes tempos de epidemia, a história se precipita. Da noite para o dia, o ritmo acelerado dos acontecimentos envelhece as notícias. Casos da semana passada já estão no arquivo morto; coisas de três meses atrás já estão entrando no livro de história. Faz quatro meses, Paulo Guedes visitou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde recebeu, na ausência do presidente, as honras devidas ao Brasil. Sua fala passou quase despercebida. É verdade que ele não fez nenhuma revelação acachapante. Referindo-se a nosso país, filosofou: “Perdemos a grande onda da globalização e da inovação, então essa mudança vai levar um tempo, mas estamos a caminho”.

O ministro não foi o primeiro a passar recibo da lentidão de reação de nosso país. Cem anos atrás, o estadista francês Georges Clémenceau (1841-1929) já havia se dado conta disso. Quando lhe contaram que o Brasil era o país do futuro, replicou ferino: “e há de continuar assim por muito tempo”. Tinha razão. Um século depois, o futuro radioso ainda não se vê. Toda vez que a gente pensa que a hora boa chegou, a realidade se encarrega de nos desenganar. Perdemos não só a onda da globalização e da inovação, sublinhada pelo ministro, mas muitas outras. Chegassem todas juntas, formariam um tsunami. Nossa maré baixa já vem de longe.

Perdeu-se a memória do Brasil imperial, defunto há mais de 130 anos. Nenhum vivente sabe mais, de experiência própria, como era então a vida. Mas a história ensina que, em terras onde o chefe de Estado é permanente e desprovido de poder real, a estabilidade política é superior. Entra governo, sai governo, a figura do patriarca vitalício é garantia de segurança. Essa onda da estabilidade política, que a República não soube compensar, perdemos.

A grande onda de Kanagawa
by Katsushika Hokusai (1760-1849), artista japonês

O ensino foi sempre tratado com pouco caso. A primeira universidade das Américas foi fundada nos anos 1530; a abertura da Escola de Cirurgia da Bahia – primeiro curso superior do Brasil – só ocorreria 250 anos mais tarde. Já demos a largada com dois séculos e meio de atraso. O desdém para com o estudo se reflete até nossos dias. Na virada do século 19 para o 20, dois em cada três brasileiros maiores de 15 anos eram analfabetos. Em 1950, metade da população ainda não sabia ler nem escrever. Foi só nestes últimos 70 anos que os números começaram a sorrir – sorriso tímido, visto que o analfabetismo resiste e ainda condena 7% dos brasileiros à ignorância. Como pode a sociedade aceitar que 1 compatriota em cada 15 viva na escuridão? A onda da Instrução Pública, perdida, continua a nos desafiar.

O Brasil rateou também na hora de decidir sobre mobilidade. Sucumbindo a interesses poderosos, elegeu o transporte rodoviário como solução única, relegando a estrada de ferro ao ferro-velho. Na mesma fieira, não soube prever que a supremacia absoluta do transporte de superfície em detrimento do metrô geraria entupimento permanente nas grandes cidades.

Na Saúde Pública, perdura uma surpreendente jabuticaba – bizarrice que não parece comover ninguém. Longe da contenção de gastos recomendada a todo país pobre, boa parte dos assalariados brasileiros são compulsoriamente afiliados a dois sistemas de saúde redundantes. O sistema nacional (SUS) e uma rede de convênios privados correm em paralelo. Um dos dois sistemas será sempre supérfluo, dado que cada ato médico só poderá ser ministrado uma vez. O cliente passa a vida pagando dobrado. Quando se pensa na dificuldade que o Brasil tem para suprir necessidades básicas de seus filhos, esse contingente de cidadãos sobreassegurados é tremendo desperdício. A pandemia de covid-19 tem mostrado que, apesar do sistema duplo, o circuito hospitalar segue assoberbado, próximo do colapso. Está aí um problema que, visto o atual descaso com a Saúde, só deverá ser enfrentado por um próximo governo.

A fala do ministro em Davos mostra que, além de não resolver problemas passados, continuamos a adicionar ondas perdidas à contabilidade nacional. Enquanto não encararmos essa realidade pra valer, seguiremos dando razão ao velho Clémenceau: estamos condenados a ser eternamente o país do futuro.

O presidente e o golpe

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 maio 2020.

Uma bela tarde de 2010, Lula da Silva subiu ao palanque de Dilma Rousseff, então candidata à Presidência. Deitaram ambos copioso falatório. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Ridicularizaram os opositores e desclassificaram os que não pensavam como eles. A intenção não era expor propostas de governo – desse assunto pouco ou nada se falou. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles.

Lá pelas tantas, Lula ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento. Era a confirmação explícita dos eflúvios absolutistas embutidos na ideologia lulopetista. Àquela época, a repercussão da palavra presidencial era modesta. Internet não tinha o alcance nem o vigor de hoje. Além disso, dois mandatos tinham deixado claro que não se podia levar a sério as bravatas do chefe. Por causa disso, a história de ‘nós somos a opinião pública’ morreu ali, sem direito a debates nem análises. A frase teve o destino inglório que deveriam ter todas as falas inconsequentes: foi para a lata do lixo.

Ironicamente, o socorro do Brasil acabou vindo da absoluta inépcia da presidenta. A doutora tanto forçou, que a corda arrebentou. Com isso, seu mandato foi para o beleléu. Com o impeachment, conseguimos estancar a escalada do besteirol presidencial e da rapina orquestrada.

Nas eleições de 2018, o contragolpe tinha de vir. E veio violento. Já durante a campanha, Jair Bolsonaro lançou sinais anunciadores de como seria sua presidência, mas ninguém ligou. O cenário já se podia até entrever quando o candidato soltou um tuíte estranho: “Nosso partido é o povo!”. Estava anunciada a inclinação populista da gestão que estava por vir, espécie de lulopetismo de sinais trocados. Na época, ninguém calculou qual seria a extensão do drama.

Foto: Uol/Folha

O que tinha de acontecer, aconteceu. O candidato esquisito, incapaz de expor o próprio programa, foi eleito. Não há milagre: candidato esquisito tende a exercer governo esquisito. Seu programa, de tão vago, não se consegue até hoje decifrar; más línguas dizem que a única diretiva é manter o poder a todo custo. No intuito de preencher os vazios e desviar a atenção do que interessa, o Planalto nos inunda de ruídos periféricos, slogans, falatório e palavras de ordem. Essa colcha de retalhos traz mensagens desconexas e discordantes. O que hoje é, amanhã poderá deixar de ser. O que se diz agora pode acabar desmentido logo mais.

Embevecido com a atenção que prestam a seu palavrório, o presidente se sente livre e cria asas. Diz o que lhe passa pela cabeça. Lança palavras ao ventilador. A cada rodada, o tom sobe e as palavras ganham força e vigor. A plateia acompanha. Uns se sentem indignados; outros, nauseados; alguns ainda, encantados. Analistas tentam encontrar sentido onde não há lógica. Põem-se a refletir sobre o significado profundo; buscam entrever mensagem criptada; tentam ponderar o que não tem nexo. É inútil. Um único recado é claro e inequívoco: doutor Bolsonaro não enjeitaria iniciar, aos 65 anos, carreira de ditador; afora isso, não há que remexer mais fundo. O zigue-zague presidencial é uma não tática.

Sabemos todos que o desejo do doutor não se realizará. Primeiro, porque nossas instituições funcionam; em seguida, porque uma reforma súbita e radical do regime não interessa às elites que realmente detêm o poder. Não estamos mais em 1964. A ameaça vermelha, então real, hoje só sobrevive na imaginação de mentes anacrônicas. Golpe e refundação do regime é ruim para todos. Nos negócios, trava o bom andamento; nas Forças Armadas, embaralha promoções; nas exportações, gera boicote; na vida do cidadão comum, instala ambiente de desconfiança. Em resumo, atrapalha muito mais do que ajuda. Portanto, pra serenar ânimos e garantir sossego, o melhor favor que a mídia séria pode fazer ao país é baixar a bola e dar à fanfarronice presidencial a importância que ela merece, ou seja: nenhuma.

Bolsonaro: um nome predestinado

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 abril 2020.

Nos tempos de antigamente, epidemias eram frequentes. Em razão do saber científico rudimentar, os remédios disponíveis eram chá de alguma erva e reza braba. A propagação era lenta, visto que quase ninguém se deslocava – viagens são costume relativamente recente. A evolução da ciência trouxe conhecimentos importantes; ensinou o modo de transmissão de doenças infecciosas e, em muitos casos, o remédio que cura. O complicador é que o homem já não vive na imobilidade medieval; hoje, viajam todos. Viajam muito e longe. O resultado é que, quando de ataques virais como o Covid-19, a doença se propaga como a peste, e continuamos tão desarmados como os antigos. O remédio é o mesmo de mil anos atrás: afastamento, isolamento e confinamento.

Em meio à desgraça e à tristeza causadas pela epidemia, o Brasil levou um premiozinho de consolação. A viagem que doutor Bolsonaro faria à Europa por estes dias saiu da pauta; por motivos óbvios, foi adiada sine die. Ele não ia cumprir o roteiro das grandes capitais – Paris, Berlim, Londres, nossos aliados tradicionais e fortes parceiros comerciais. Tencionava visitar unicamente a Hungria e a Polônia, países que, juntos, recebem 0,4% de nossas exportações. Estava evidente que o objetivo da excursão não era «vender» o Brasil. Nosso presidente tinha intenção de papear com dirigentes populistas extremistas, que ele imagina possam ser úteis a seu projeto de poder. Toda essa farra à custa do contribuinte, note-se. Mas desta, o Brasil se livrou. Por enquanto.

Aproveitando a viagem custeada por nós, Bolsonaro, que descende de italianos, estava pensando em dar uma ‘esticadinha’ até a Itália para ver se encontra algum parente. Diz ele, referindo-se a eventuais primos por descobrir, que quer «conhecer os mafiosos da família», tipo de brincadeira estúpida que, na Itália, tem poder explosivo. Seus antepassados chegaram ao Brasil na grande leva do fim do século XIX. Como tantas famílias italianas, a sua também perdeu contacto com os que ficaram e a memória acabou se esgarçando.

Sabe-se que doutor Bolsonaro é homem de parcos conhecimentos. Aborrece ainda mais vê-lo cercado de gente sem muito expediente. Em vez de perder tempo a tuitar boçalidades, tinham mais é de ajudar o chefe a buscar as origens. O sobrenome está mal transcrito. No original, é Bolzonaro, com z. Cem anos atrás, tanto os imigrantes quanto o agente que os registrava eram de poucas letras. Pronunciado à moda vêneta, o nome foi transcrito foneticamente e o z virou s.

O presidente disse acreditar que o berço da família é a cidade de Lucca, na Toscana. É a indicação incrustada na memória familiar. A meu ver, ele está enganado. Rápida consulta à lista telefônica nacional italiana mostra que 70% dos Bolzonaro vivem na região do Vêneto – indicação certeira de que o nome é originário de lá. Na região, há uma cidadezinha chamada Lugo, na província de Vicenza. Dado que, na transmissão familiar oral, de Lugo a Lucca a confusão é plausível, eu começaria minhas buscas por Lugo e esqueceria Lucca. Fica a dica.

Para fechar, uma curiosidade. As palavras italianas terminadas em aro indicam nome de ofício ou profissão. O Dicionário do Dialeto Veneziano, obra caudalosa do século 19, informa que bolzòn é palavra ligada ao universo das armas. Dá nome a um tipo de flecha medieval e também a antigo instrumento bélico, espécie de aríete usado para derrubar muros de cidade fortificada. É bem possível que, lá pelos anos 1300, quando as pessoas começaram a ganhar sobrenome, um longínquo antepassado de nosso presidente tenha trabalhado na contrução desses artefatos.

Com o desaparecimento de flechas e aríetes, o campo semântico da palavra se alargou. Ela ressurge no verbo alemão bolzen, com o sentido de golpear com furor. Aparece também no verbo inglês to bolt, com o significado de mover-se de modo nervoso, sair fora de controle. Flecha, aríete, ataque, descontrole… Qualquer semelhança entre a profissão do patriarca da linhagem e o comportamento agressivo e belicoso de nosso presidente há de ser mera coincidência. Ou não.

Para conferir no site do Correio Braziliense.

Guerra de religiões

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 fevereiro 2020.

Fosse mineiro, doutor Bolsonaro teria aprendido, desde criança, que mingau quente se come pelas bordas. Está evidente que não aprendeu. Em repetidos ataques, o homem mira sempre o topo da hierarquia. Desde os tempos em que era candidato, já assestou golpes pesados à China (nosso maior parceiro comercial), à França (nosso único fornecedor de submarinos), à Argentina (nosso vizinho mais significativo), ao Congresso (que, na hora do aperto, será o garante da continuidade de seu mandato), à CNBB (congregação maior da Igreja no Brasil). O homem é desastrado. Esses ataques frontais têm alto potencial destrutivo. De ricochete, o próprio presidente sai um pouco chamuscado em cada episódio. E, por extensão, o Brasil e o povo perdem.

Em 2022, nem chineses, nem franceses, nem argentinos votarão em nossa eleição presidencial. Portanto, não há por que perder tempo a acariciá-los. Mas os brasileiros católicos, ainda majoritários no país, sim, votarão. Muitos deles estão se sentindo incomodados com a deferência que doutor Bolsonaro tem demonstrado para com as denominações neopentecostais. Essa tendência ficou ainda mais clara quando ele propôs alívio fiscal à conta de luz de templos; quando declarou desejar ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF; quando se deixou filmar de joelhos, em posição de submissão, diante de um pastor paramentado.

Não se espera que o presidente de todos os brasileiros abrace uma raça, uma origem ou uma religião em detrimento das demais. Ao passar por cima dessa regra de bom senso, doutor Bolsonaro aciona perigosa armadilha que pode fechar-se em volta dele mesmo. Decerto avisado por seu entourage, mandou que a ministra Damares entrasse em contacto com dignitários católicos pra apagar o incêndio. Talvez dê certo, mas desagravo emitido pessoalmente pelo presidente teria mais força.

Por seu lado, o esperto (e agora experto) Lula da Silva já pressentiu o trunfo que se lhe apresenta. Nas trevas que envolvem a atual presidência, descobriu um fiapo de luz que pode ajudá-lo a subir de volta ao palco iluminado. O raciocínio é simples: se Bolsonaro for para um lado, ele tem de ir para o outro; tem de captar a simpatia dos abandonados por Bolsonaro. Tendo em vista o bate-cabeça que corre solto pelos corredores do Planalto – e que desagrada a muita gente –, a estratégia do Lula não tem nada de adoidada. Paparicar o novo governo argentino pode dar manchete, mas não traz votos. Há caminho mais direto.

Na onda do aceno que, ainda na cadeia, tinha recebido do papa Francisco, Lula fez questão de visitar Sua Santidade. Obra do acaso ou não, a viagem caiu bem no dia em que o ex-presidente tinha de comparecer a uma audiência judicial. Conseguiu adiamento e embarcou. E a notícia saiu em todos os jornais, tevês e portais. Protestantes, judeus e maometanos terão ficado indiferentes. Evangélicos terão feito muxoxo. Já católicos terão visto com alívio um importante personagem que, embora caído, dá mostras de estar bem com a Igreja. Faz um ano que os fiéis da religião majoritária no país se encontram reféns do estranho estrabismo que afeta o presidente, distorção que o faz considerar que adeptos de denominações neopentecostais valem mais do que os demais brasileiros.

Se, um quarto de século atrás, um futurólogo profetizasse que o Brasil destes anos 20 estaria armando a bomba-relógio de um conflito religioso interno, seria tachado de embusteiro. Naquela época, ninguém se dava conta de que o país era percorrido por tão profundas linhas de fratura, só à espera de um estopim. De lá pra cá, a estratégia do nós x eles fez grande estrago. Agora cada cidadão se equilibra entre laços de pertencimento de ordem étnica, sexual e, agora se vê, religiosa. Conflitos religiosos são a marca de países atrasados. Na Europa, num passado distante, guerras de religião chegaram a durar séculos. Hoje, estão extintas. Só faltava agora este florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo, seguir por esse caminho de pedra e retroceder às trevas medievais.

Bolsonaro, um novo guia?

Na era atual, a nudez intelectual do presidente não é atenuada, mas reforçada pelos rebentos, sancionada pelos principais conselheiros e ratificada por um guru boca-suja. Um drama sem aplausos.

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 janeiro 2019.

Ah, a falta que um lustro de cultura faz! Não precisa ter lido Virgilio no original latino, nem declamar o libreto de Tannhäuser, tampouco ser íntimo de Shakespeare, Voltaire ou Machado de Assis. Não precisa carregar uma calota de saber – uma camada fininha já está de bom tamanho. Ponderação e bom senso já seriam bom começo. E que ninguém se engane: o próprio eleitor, mesmo o mais simples, sabe que não se deve entregar chave de palácio a gente ignorante. Ele não quer que os dirigentes lhe sejam semelhantes; perspicaz, exige que sejam eficientes.

Já vai pra 20 anos que os que nos dirigem – aqueles que, do andar de cima, manejam o leme e dão a direção à nave pátria – carecem desse lustrozinho de cultura. E parece que, conforme passa o tempo, o quadro piora. Na era lulopetista, as carências da alta cúpula eram, até certo ponto, compensadas pelas luzes de um punhadinho de assessores. Na era atual, a nudez intelectual do presidente não é atenuada, mas reforçada pelos rebentos, sancionada pelos principais conselheiros e ratificada por um guru boca-suja. Um drama sem aplausos.

Fica a desagradável impressão de que reina desconexão nos altos círculos. Os personagens tentam perseguir um objetivo comum, sem ter combinado o caminho. A ausência desse denominador comum abre a porta para fantasias individuais. Há quem aplique esforços a despejar tuítes venenosos sobre inimigos imaginários; há quem se faça entrevistar a fim de demolir adversários; há até quem se permita o soberano luxo de fabricar e difundir vídeo com pregação pseudonazista. Um despautério. É como se cada integrante do grupo que nos governa tivesse recebido as peças de imenso quebra-cabeça, sem receber o desenho da montagem. Juntam peças a esmo, sem saber direito o que vai dar. Uma aflição.

Faz uma semana, um cidadão de pomposo título – Secretário Especial da Cultura – deu clara mostra da desarticulação que confunde nossos poderosos. Encomendou e difundiu vídeo para dar ao povão um vislumbre de qual seja, no seu entender, o objetivo perseguido pelo atual governo. Explicou que, no campo da cultura a partir de agora, só serão admitidas obras que se coadunem com o pensamento do chefe. Um espanto.

A mise-en-scène foi bem cuidada. Bandeira nacional e retrato do presidente ao fundo atestam que o discursante é de alta patente e que suas palavras são a voz oficial do Planalto. (Só deixaram de sê-la quando uma grita planetária forçou o presidente a desautorizar o discurso.) O secretário da Cultura pirateou uma fala de 1933 de Joseph Goebbels e a amoldou para combinar com as palavras que desejava pronunciar. Um escândalo.

Além da bandeira e do retrato, uma Cruz de Lorena, bem visível, adornava a escrivaninha. Todos viram nela um símbolo cristão, mas poucos atinaram com o fato de a extrema-direita francesa ter-se apropriado desse emblema há décadas. Na França, nos dias atuais, a cruz com barra dupla é símbolo da direita extrema, e está presente em todas as manifestações de rua dos fanáticos. Há de ser nessa fonte que se inspirou o secretário caído.

As ideias andam descosturadas pelas bandas de um Planalto hoje cheio de gente de pouca visão. Nenhum deles – nem chefe, nem assessores – se dá conta de que a doutrina nazista e o Brasil não combinam. O pensamento nazista elegeu, como preceito maior e incontornável, a pureza racial. Num país como o nosso, em que a maioria tem sangue mestiço, a doutrina pode ser boa pra marchinha de Carnaval. Na vida real, não serve. Outro postulado do nazismo é a unção de um chefe supremo, semideus venerado por todos, ao qual se deve respeito e obediência cega. Esse rigor e essa disciplina de aço não combinam com o gênio nacional, folgazão e jovial.

Faz quase um século, Getúlio Vargas conseguiu amarrar o país à sua estaca. Mas o Brasil era outro, nação agrícola e atrasada com esparsas bolhas de desenvolvimento extraviadas num mar de ignorância. Hoje mudou. Internet, zapzap & congêneres sepultaram definitivamente a era dos caudilhos. Entramos na modernidade. Não é um Bolsonaro qualquer que vai conseguir virar a mesa.

A força do Congresso

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 dezembro 2019.

A névoa de destempero que envolve nosso bizarro presidente e seus áulicos é tão fora dos padrões que embaralha as cartas do jogo político. Notícias de velhos e obstinados ‘malfeitos’ atribuídos a membros do clã se embolam com a belicosa verbosidade presidencial para tecer o enredo do angustiante drama que continua em cartaz no Planalto. Faz um ano que analistas de alto estofo tentam – sem sucesso – decifrar o indecifrável. Nada de significativo ressalta das atividades presidenciais senão vingança, mesquinhez, paranoia. O prato feito que nos é servido todos os dias é sempre o mesmo. Fica a impressão de que, se alguma coisa ainda caminha no país, é por inércia ou por obra samaritana de funcionários dedicados.

A permanência, no mando, de mentes perturbadas monopoliza a atenção da nação. O espalhafato da cúpula manda pra escanteio tudo o mais. É pena porque dá recado distorcido. Embora não pareça, o clã do Planalto não segura sozinho as rédeas do país. Para o que der e vier, está aí o Congresso, sustentado por naco robusto do voto dos brasileiros.

No entanto, recente pesquisa do Instituto Datafolha atesta que só 14% dos que votaram nas últimas eleições avaliam positivamente o Congresso atual. E pensar que a legislatura deu partida há um ano justinho, com eleitos que sequer cumpriram o primeiro quarto do mandato. O motor ainda nem esquentou e Suas Excelências já rolaram para o vale dos enjeitados. Apenas 1 em cada 7 brasileiros vê Senado e Câmara com bons olhos. Como é possível? Os cidadãos nem bem elegeram seus representantes, e já se declaram arrependidos. É difícil de entender. Abstenção maciça ou número expressivo de votos nulos e brancos seria uma explicação. Mas os eleitores brasileiros votaram em massa. Exprimiram-se. Um ano depois, já foi tudo por água abaixo? Sozinha, a monopolização da cena política pelas estrepolias do Planalto não explica o desamor.

A mesma pesquisa informa que, às vésperas da inauguração da atual legislatura, 56% dos eleitores botavam fé nos parlamentares. A queda brutal, em um ano, de 56% para 14% só tem uma explicação plausível: os eleitores votaram às cegas, sem saber direito quem estavam elegendo. Sabe-se que, no geral, o eleitor brasileiro não se lembra do nome dos candidatos em que votou; mesmo que se lembrasse, não poderia ter certeza de que seu voto beneficiou realmente o candidato escolhido ou se foi sequestrado e desviado para a sacola de um desconhecido.

Voto distrital: representação artística

Nosso sistema eleitoral é viciado. O voto proporcional foi pensado para um cenário de partidos fortes. Não é nosso caso. O panorama partidário está esfarelado em uma torrente de agremiações, algumas minúsculas. Ideologia e propósitos tendem a ser pouco claros. Num quadro fragmentado a esse ponto, ‘dono’ de partido nanico sonha em conseguir a afiliação de um figurão de renome – futebolista, artista, pouco importa, desde que seja conhecido. Será o puxador de voto. A montanha de sufrágios que receber elegerá figuras desconhecidas, que perigam engrossar o baixo clero. E o eleitor, sem se dar conta, terá sido defraudado.

Fora do voto distrital puro, não há solução. Com ele, as vantagens serão múltiplas: proximidade entre eleitor e eleito, forte tendência ao desaparecimento de siglas de aluguel, enxugamento da fragmentação partidária. Cada um saberá sempre quem é SEU deputado, aquele que representa seu distrito de residência, o que facilita a cobrança. Outra consequência benéfica será o barateamento das campanhas, pois cada candidato se limitará a vender seu peixe dentro do próprio distrito. E mais: a falta de um deputado provocará eleição parcial somente naquele distrito, eliminando a figura esquisita do suplente.

Em períodos turbulentos como este que atravessamos, em que a Presidência derrama decretos desvairados a três por dois, sobressai a importância de um legislativo esclarecido e competente. Juntos, os parlamentares têm mais força que o presidente. Podem fazer a lei, desfazê-la e até derrubar vetos presidenciais. Oxalá a introdução do voto distrital puro intervenha rapidamente. É aprimoramento republicano bem-vindo. Feliz ano-novo a todos!

Pisa: nota vermelha

Dad Squarisi (*)

“Subdesenvolvimento não se improvisa. Cultiva-se.” A frase, repetida com fina ironia por Roberto Campos, se ajusta à educação brasileira. O desempenho no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostrou, mais uma vez, que o Brasil não conseguiu quitar a dívida referente à qualidade do ensino. No ranking com 79 países, continua na fila de trás.

Aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três anos, o Pisa avalia estudantes de 15 anos. O resultado divulgado na segunda-feira reprisou fotografia de corpo inteiro de adolescentes brasileiros cuja altura se mantém. Enquanto isso, os colegas de outros países não só crescem, mas também tomam hormônio para ultrapassar os demais.

É dramática a situação da leitura. Embora tenha havido pequena oscilação para cima, quatro em cada 10 jovens são analfabetos letrados. O paradoxo se explica: eles são aprovados nos testes das séries em que estão matriculados, mas mostram-se sem aptidão para identificar a ideia central de um texto e de estabelecer a relação entre as ideias.

Não só. Nesta edição, o Pisa entrou no terreno bastante contemporâneo das fake news. Testou a habilidade de distinguir fato de opinião e de avaliar a veracidade do que se afirma. Dos 17.500 brasileiros, só 2% se saíram bem contra 10% das demais nacionalidades. Em português claro: vítimas do sistema educacional são presas fáceis de falsas promessas e políticos inescrupulosos.

A deficiência na compreensão de texto contamina as demais disciplinas. Quase metade dos rapazes e moças que frequentam salas de aula não conseguem ler gráficos, resolver problemas simples (com números inteiros) e compreender experiências científicas elementares. A razão: sem dominar enunciados, como entender as questões propostas?

O 54º lugar no ranking da leitura tem parcela de responsabilidade no 66º lugar de ciência e no 70º lugar em matemática. Estar no andar de baixo não constitui novidade. O Brasil nunca deu um salto de qualidade. Entre 2000 e 2010, porém, chamou a atenção o avanço em matemática. Mas mudanças na política educacional sem critérios técnicos emperraram o processo.

O Ministério da Educação, atolado em questiúnculas que em nada contribuem para melhorar a qualidade do ensino, revela-se incapaz de dar resposta ao maior desafio do país — universalizar o acesso ao conhecimento. Há duas décadas, com atraso em relação às demais nações, o Brasil matriculou todas as crianças na escola.

Mas estacionou na caminhada. A inércia tem preço. Condena o país ao subdesenvolvimento e à pobreza. Sem capital humano apto a ombrear com os players internacionais, imobilizamos a inovação e perdemos competitividade. Em suma: caminhamos a passos largos para a irrelevância.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Direita e esquerda – uma salada?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 novembro 2019.

Na política brasileira tradicional, direita e esquerda têm sido noções difíceis de captar. A questão é simples: nunca foi habitual prestar atenção ao quadrante ocupado por políticos. Ser do norte ou do sul, mineiro ou baiano, rico ou remediado sempre contou mais do que ser de esquerda, de centro ou de direita. Basta voltar algumas décadas na história do país pra se dar conta da pouca importância dada ao bordo de cada figurão. Teria Juscelino Kubitschek sido de esquerda? De centro? De direita? E Jânio Quadros? E Getúlio Vargas, então, teria capitaneado uma ditadura esquerdista ou direitista? Tudo o que se puder dizer será baseado na visão que temos hoje. O recuo permite visão panorâmica. No calor das eleições de então, ninguém parou pra analisar esse aspecto.

Nos anos 1960 e 1970, num Brasil militar e rigoroso, o lugar ocupado pelo regime (esquerda ou direita) não era a preocupação maior. Importante mesmo (e todos sabiam disso) era não cutucar a onça com vara curta. Por certo levados pelo entusiasmo e pela incúria da juventude, alguns ousaram. Pela audácia, pagaram preço elevado; às vezes irreparável.

Nascida despretensiosa, a polaridade direita x esquerda descrevia a disposição dos membros da Assembleia da França revolucionária. À direita, sentavam-se os monarquistas, saudosos dos privilégios do ‘ancien régime’. À esquerda, ficavam os revolucionários, vidrados no guinchar da guilhotina e ansiosos por revolução radical. Dois séculos mais tarde, o quadro evoluiu. Direitistas já não lutam pelo rei nem temem a guilhotina. Esquerdistas já não anseiam por mudança radical da sociedade; ardem por ardis como espetáculos de pirotecnia, em que se começa por clímax tonitruante para, logo que se dissipam os brilhos, voltar tudo ao que era antes.

Nosso tabuleiro político sempre foi personalista, não partidarista. Houve carlistas, brizolistas, adhemaristas, mas nada de esquerda ou direita na visão popular. É difícil situar o momento que essa distinção entrou para a língua do povo. Em grandes linhas, coincide com a chegada do novo milênio. Dez anos antes, Collor de Mello inda prometia «caçar marajás» de todos os matizes, enquanto Lula se via um Robin Hood redivivo.

Faz uns quinze anos, com a subida do PT, ‘direita’ virou palavrão. Não se encontrou mais nenhum político brasileiro disposto a declarar-se ‘de direita’, peito aberto e olhar destemido. A meteórica subida de doutor Bolsonaro pôs à mesa uma versão tupiniquim do problema. A disposição gradual do arco político entre direita e esquerda se distorceu. Na nomenclatura oficial, a mesa virou. São hoje ‘esquerdistas’ todos os que ousarem discordar de algum ditame presidencial. No entanto, muito parlamentar não identificado com pensamento socialista ou de esquerda até que daria respaldo ao presidente, não fosse ele tão tosco e imprevisível. Para esse tipo de parlamentar, sobrou o ‘Centrão’, um caldeirão onde fumega uma sopa heterogênea de camarão e cabeça de bagre.

Grupos e associações que, não fosse a atual política tão distorcida, se declarariam direitistas, sem complexo, completando nosso arco multipartidarista, começam a renunciar à denominação tornada ofensiva por obra de nosso bizarro presidente. Não ousando o termo tradicional, declaram-se ‘liberais’.Traduza-se por direitistas não bolsonaristas.

Enquanto, lá no andar de cima, mentes sem luz se dilaceram em brigas familiares e intrigas palacianas, aqui no térreo, a coisa continua cada dia mais feia. Jornalistas econômicos preveem iminente apagão de mão de obra especializada no país. Apesar de sermos mais de 200 milhões, faltam jovens formados nas áreas estratégicas, as que deveriam estar delineando os contornos do Brasil futuro. Estudos indicam que, nos próximos dez anos, milhões de vagas deixarão de ser criadas devido à falta crônica de gente capacitada. Como consequência, haverá número exorbitante de gente sem especialização – e sem emprego –, perda de bilhões de dólares no faturamento de empresas de tecnologia e, o pior, a exclusão do Brasil do clube dos países que contam.

É problema real, cruel, evidente e premente que o país terá de enfrentar. Cuidar disso agora é bem mais importante do que fabricar réguas tortas pra medir a esquerdice ou a direitice de cada um. De toda maneira, a distorção está instalada de modo duradouro na mente do brasileiro: esquerda rima com corrupção; direita, com ignorância.

E agora, ministro Weintraub?

Dad Squarisi (*)

“Os últimos serão os primeiros”, diz um dito popular. Outro vai na mesma linha: “Devagar se vai ao longe”. Há também o que afirma que quem ri por último ri melhor. Esses provérbios nasceram na época do carro de boi. Na era da internet, a sabedoria por eles transmitida leva a outra conclusão.

Os últimos serão os últimos mesmo. Devagar se chega atrasado. Quem ri por último é retardado. A observação vem a propósito da declaração do ministro da Educação a respeito do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes — Pisa. Abraham Weintraub anunciou que o Brasil deve ocupar o último lugar da América do Sul.

Realizada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a prova avalia o desempenho de estudantes de até 15 anos em matemática, ciências e leitura. Na última edição, de 2016, 70 países participaram do certame. O Brasil ficou mal na foto. Em leitura, figurou na rabeira da lista. Em matemática e ciências, andou para trás.

Ao antecipar o resultado, cujo anúncio oficial virá nos próximos dias, Weintraub eximiu-se de responsabilidade. Atribuiu a culpa “aos 16 anos de governos petistas e de abordagens esquerdistas”. Decepcionou. Em nada ajuda falar em herança maldita diante de fatos que constrangem o país.

Impõe-se olhar para a frente e encontrar respostas contemporâneas para problemas antigos. Na década de 70, o Brasil universalizou o acesso à escola. A iniciativa veio tarde em relação ao resto do mundo. O passo seguinte — universalizar o acesso ao conhecimento — entrou em compasso de espera.

OCDE: Organização de Cooperação de Desenvolvimento Econômico

Três desafios exigem respostas efetivas e urgentes. Um deles: promover a aprendizagem. Brasileirinhos vão à escola. Mas as salas de aula se revelam incompetentes para cumprir a tarefa que lhes cabe. Metade das crianças chegam analfabetas ao terceiro ano. A maior parte das demais deixam a desejar no tocante às competências delas exigidas.

O segundo embate se refere à conclusão das etapas escolares na idade certa. Ficar para trás desestimula, baixa a autoestima e leva à sucessão de fracassos. O terceiro, não menos importante, aponta para a evasão. Sobretudo no ensino médio, o abandono dos bancos colegiais contribui para engrossar as fileiras do crime. O futuro dos jovens fora do sistema, como eles mesmos dizem, começa com c — caixão ou cadeia.

Vale frisar a importância do professor no salto qualitativo por que o país tanto anseia. Mestres precisam estar motivados para abraçar a causa. A política denuncista com certeza não é a mais acertada para a hercúlea tarefa de sintonizar o Brasil com o século 21.

Não há necessidade de inventar a roda. Estados como Ceará, Pernambuco e Espírito Santo têm experiências exitosas nos ensinos fundamental e médio. Podem compartilhar o caminho trilhado com as demais unidades da Federação. A sociedade tem pressa. Os hoje excluídos do acesso ao conhecimento farão falta ao país que envelhece no pior dos mundos — pobre e carente de educação.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad. Texto publicado como editorial do Correio Braziliense.

Lula, Bolsonaro e a revolução

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 outubro 2019.

Uma revolução, pra dar certo, pede dois ingredientes essenciais: um líder e um programa. Se for complicado estruturar programa, que haja ao menos reivindicações consistentes. Pra puxar o trem, alguém terá sempre de assumir o papel de locomotiva, aquela que apita estrondosa e leva adiante o reclamo do populacho. Tem sido assim desde o tempo em que os bichos falavam.

Neste Brasil – que também é de todos os santos – revoluções andam capengas. Ora falta uma perna, ora falta a outra. Se há líder, falta programa; quando há programa, o que falta é o líder. Pra não espichar, vamos examinar o que ocorreu no vigor da atual Constituição, essa que já foi descrita como ‘cidadã’ mas hoje muitos olham de esguelha. Collor de Mello, por exemplo, trouxe, sim, boas ideias. Embora possa hoje parecer inacreditável, telefone e carro importado estavam fora de alcance do brasileiro médio. Se o trem andou, tributo seja prestado ao autoqualificado «caçador de marajás». Tirando a falta de jeito no trato da economia, até que havia ideias. Mesmo não revolucionárias, eram novas no Brasil. O que faltou foi liderança. Bem que o presidente tentou, mas, para ser locomotiva, não basta querer. Faltou lenha. Deu no que deu.

Após um interregno em que o vice foi içado de supetão sem se dar conta do que ocorria, subiu FHC. Dizer que o Brasil foi mal administrado naqueles anos seria inexato. Dizer que o governo foi desastroso seria rematado exagero. Foram oito anos sem história. O país avançou, sem dúvida, em muitos pontos. Mas marcou passo em inúmeros outros. Nem chegamos ao Brasil potência, nem saímos do Brasil miséria. Com as armas e o prestígio de que dispunha, FHC podia ter feito melhor. Revolução, portanto, não houve. O governo foi assim assim. Não há que dizer: a prova de que o povo ansiava por agito maior foi a eleição de Lula da Silva.

E ele foi eleito com louvor, como antigamente se dizia de aluno que mostrasse desempenho acima da média. Sua liderança era incontestável, talvez a mais sólida que este país já conheceu. Lula tinha, na mão, a faca, o queijo, o prato e a embalagem. Ideias, até que havia, que o PT tinha sido, até àquela época, partido programático. O que aconteceu a partir da subida da (até então) virtuosa agremiação corresponde a conhecido dito popular: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Lambuzaram-se todos. Em poucos meses, estavam todos besuntados, engordurados, obesos e emporcalhados. A liderança se manteve, mas as ideias se perderam. Pra que ideias, quando se está no bem-bom? Revolução, que é bom, não houve.

Com a chegada de uma turbulência de nome Dilma e de um susto de nome Temer, enfrentamos aventurosa travessia de um Mar dos Sargaços nacional, com armadilhas e enroscos. Melhor até nem lembrar desse intervalo que a história, sábia, vai acabar esquecendo. Passado o sobressalto, chegou a vez de Jair Bolsonaro, candidato eleito par défaut, como dizem os franceses – por falta de opção. Nas primeiras semanas da nova gestão, as decisões pareceram esquisitas. Mudança da embaixada do Brasil em Israel e exclusão da Argentina de visita presidencial pareceram apenas pontos fora da curva. Não eram. Estavam perfeitamente alinhados com a curva. O futuro viria rapidinho confirmar que esquisitice, no novo governo, não era exceção, mas regra. Doutor Bolsonaro deixou passar todas as oportunidades de mostrar liderança. Ainda recentemente, afrontando os fiéis da religião mais arraigada e (ainda) majoritária, ajoelhou-se à frente de bispo neopentecostal. Dias depois, fez questão de esnobar a caravana que reverenciou Irmã Dulce, a santa dos pobres. O presidente tem mostrado que prefere continuar a ser o «mito» apenas de um grupo que, se já não era grande, definha.

O Brasil hoje sabe que o atual governo é um descampado de ideias. Intrigas palacianas entravam o surgimento de um líder. Sem ideário e sem liderança, o governo enerva o eleitor esclarecido, mas não lhe mete medo. Se é verdade que o país vai continuar empacado, é também garantido que não haverá revolução.

Dom Bolsonaro Primeiro

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 setembro 2019.

Doutor Bolsonaro emergiu das catacumbas de um «baixo clero» tão populoso quanto inexpressivo. Assim que tomou posse do cargo, cercou-se de equipe heterogênea. Ministros de primeira grandeza foram nomeados ao lado de integrantes um tanto folclóricos. O conjunto dos designados até que parecia sólido, feito pra durar. Àquela altura, muita gente fina acreditou na coesão e na longevidade do grupo. Os novos chegados traziam ideias e, até certo ponto, supriam faltas e falhas. Enriqueciam os desnutridos dotes presidenciais. O tempo que passa, no entanto, lesa ilusões.

O presidente não era um habituado dos costumes palacianos. Não contava entre os assíduos dos salões seletos da República. Não tendo antes exercido cargo executivo, não sabia dos beija-mãos e dos rapapés que cercam um chefe de Estado. Há de ser realmente um choque ser alçado, de repente, a tão excelso posto. Da noite para o dia, brotam assessores, serviçais, secretários, auxiliares – um mundaréu de gente. O chefe acaba desaprendendo a simples arte de abrir portas, visto que haverá sempre um solícito assistente pra fazê-lo. Entronizado no novo cargo, doutor Bolsonaro há de ter viajado de surpresa em surpresa. O poder, vitaminado por tantas delícias, é inebriante.

Atualmente, ninguém é capaz de traduzir, à clara, o que ocorre no entorno presidencial. O povo tem a impressão de que, ao votar num presidente, acabou elegendo uma família. Não estava escrito nos santinhos da campanha, mas a realidade é essa. Diferentemente de famílias discretas que reinam em outras terras, a nossa é barulhenta. Num ritual diário, pai e filhos falam pelos cotovelos. Dão entrevista, tuítam, postam, gesticulam, vociferam, ameaçam, humilham, ralham, espinafram, esculhambam, ironizam, atacam.

O eleitor, que tinha esperança de entrar num período mais sereno depois de 15 anos conturbados, sente frustração diante de tamanha violência vinda daqueles que deviam zelar pela pacificação nacional. Do estrangeiro, ecoam protestos contra nosso país. Grandes firmas começam a boicotar produtos brasileiros em razão da apatia do governo federal em matéria de respeito ao meio ambiente. Nossa terra, vítima de embargo! O que era inimaginável está se tornando realidade. Passamos dois séculos a construir imagem de país sorridente, acolhedor e pacífico… pra uma família destruir tudo com um par de tuítes? É insuportável.

The Little King, criação de Otto Soglow (1900-1975)

Por capricho ou erro de cálculo, doutor Bolsonaro tem criado um cordão de vácuo em torno de si. Dos assessores graduados da primeira hora, diversas cabeças já rolaram. Dos que (ainda) não se foram, os mais importantes estão mergulhados em ‘fritura’ a fogo lento. São alvo constante de humilhações e flechadas. Não vão demorar a sair. Com a partida de assessores antes apresentados como excelentes, doutor Bolsonaro está se isolando. Decifrada a charada, aparece a desavergonhada propensão de nosso presidente a tornar-se Dom Bolsonaro Primeiro. É aposta temerária. Ao desligar todas as luzes que lhe estão em torno, o presidente tende a aparecer como farol e guia único da nação. Quer pôr seu nome no topo do edifício, descurando o tremendo risco de ser atingido por um raio.

Daqui a três anos, se ele segurar o cargo até lá, virá a hora do veredicto. Caso a maior parte da população tenha a sensação de que o governo deu certo, Bolsonaro terá ganhado a aposta; será reeleito com um pé nas costas. Se, no entanto, a impressão reinante for de que o governo deu errado – hipótese mais provável –, doutor Bolsonaro terá dado com os burros n’água. A manutenção de nomes de primeira grandeza a seu redor, ainda que ofuscasse sua glória, seria biombo providencial nessa hora. «Não foi culpa minha. Eu dei a ordem certa, foi o ministro X que não cumpriu!» – seria a justificativa. Do jeito que o presidente está fazendo, beberá sozinho o cálice amargo da derrota. Agora, vamos ser francos: doutor Bolsonaro dá mostra mesmo é de sonhar com um golpe militar. No entanto, se esse desastre devesse ocorrer, seria ele a primeira vítima.

A floresta e os netinhos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 agosto 2019.

Quando o Congresso de Viena se reuniu, duzentos anos atrás, o mundo era bem diferente. No Extremo Oriente, China e Japão ainda viviam sua Idade Média. A Índia, pobre e desunida, estava prestes a sucumbir à mão de ferro do Império Britânico. Na África, fora raras exceções, os povos ainda não estavam organizados; Estados, na acepção atual, não haviam se formado. Nas Américas em pleno processo de emancipação, os países independentes eram frágeis demais para atuar na cena mundial. Restava a Europa.

Reinos e impérios europeus constituíam as potências da época. Foram eles que se reuniram em congresso para redistribuir as cartas que Napoleão havia embaralhado. Naquele tempo, um encontro desse tipo fazia sentido. As decisões tomadas no clube dos donos do mundo não eram passíveis de contestação. Entravam em vigor, ponto e basta. E olhe que não eram resoluções de pouca importância: com as fronteiras europeias sendo redesenhadas, cada pedaço de terra era cobiçado. Doze eram as potências reunidas. Tivesse ocorrido hoje, o Congresso de Viena ganharia o apelido familiar de G12.

Dois séculos – e muitas guerras – se passaram. Foi-se o tempo em que um fosso separava as regiões periféricas das potências dominantes. Acabou-se a era em que só um punhado de gigantes comandava. O mundo hoje é matizado. O dégradé começa da potência maior e vai deslizando, em declive suave e contínuo, até o mais deserdado dos países. Já não vigora a divisão rigorosa entre países ricos e países pobres. Há nações de «classe média» ascendente.

Reuniões do G7, como a organizada no passado fim de semana, têm ares anacrônicos e cheiram a naftalina. Desse tipo de encontro, raramente brotam soluções para os problemas da humanidade. Numa mostra explícita de hipocrisia, o clube exclui a China, hoje segunda potência do planeta – um disparate! A Rússia, dona de importante economia e terrível potencial bélico, tampouco faz parte do convescote. Foi posta de castigo, como se isso fosse benéfico para a convivência entre nações. Não há que se diga: essas reuniões de gente fina que arremedam o venerável Congresso de Viena já não impõem. Pálidas imitações do original, só servem para gastar dinheiro público.

Se Monsieur Macron incluiu as queimadas da Amazônia brasileira na pauta de discussões, não terá sido exatamente por ser ecologista de carteirinha. De olho em 2022, ele está mesmo é preparando a reeleição. Pra chegar lá, tem de passar aos eleitores imagem de líder forte, combativo e, acima de tudo, empenhado na defesa do planeta, como manda o figurino atual. A luta pela preservação dos recursos naturais é legítima e louvável, mas a súbita profissão de fé do líder francês cheira a oportunismo.

Semana passada, doutor Bolsonaro se encrespou com o colega francês. Foi quando Macron, ao se referir à selva equatorial sul-americana, chamou-a de «nossa Amazônia». Bolsonaro inferiu que a França está interessada «em ter um dia um espaço aqui, na região amazônica». Enfurecido e sem se aconselhar, soltou a insinuação. Quanta tolice, capitão!

A França já tem «um espaço aqui». Fosse menos precipitado, doutor Bolsonaro teria evitado essa gafe. A Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, é território francês e tem 97% da superfície coberta pela floresta amazônica. Isso dá a Macron o direito de dizer o que disse. Um exame de conhecimentos gerais deveria ser exigido dos pré-candidatos ao Planalto. Só quem passasse poderia registrar candidatura. No dia em que um filtro desse tipo for instalado, passaremos menos vergonha. A marca deste peculiar começo de século é a subida ao trono de indivíduos de poucas luzes. Eles tocam desafinado, e quem troca os pés somos nós.

Enquanto isso, senhores, a mata está queimando. Árvores e bichos vão desaparecendo. Se alguém pode tomar atitude eficiente, não será o G7. Muito menos Monsieur Macron. A salvação da lavoura repousa nas mãos firmes de nosso presidente. Cabe a ele decidir se, um dia, diremos a nossos netos: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, esta floresta era bem mais extensa». Ou se seremos obrigados a confessar: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, aqui havia uma floresta».