Vias de fato

Sempre alerta, a mídia europeia não deixou passar a refrega

José Horta Manzano

“Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” – foram as palavras amáveis dirigidas ao capitão por um “youtuber de direita”, seja lá o que isso queira dizer. Na atualidade, todo cidadão faz obrigatoriamente jus a uma etiqueta a especificar se ele é do bem ou do mal, de Jesus ou de Belzebu.

Em tempos mais gentis que o atual, os epítetos lançados ao presidente seriam inadmissíveis, inconcebíveis. No entanto, desde que Bolsonaro vestiu a faixa, a civilidade foi pro espaço. Hoje em dia, nem aqueles palavrões cabeludos que a gente tinha vergonha de pronunciar chocam mais. Que saiam da boca de um cidadão qualquer ou até do presidente da República(!), o efeito é nulo. Nenhum frisson. Expressões de calão entraram para a conversa corriqueira.

Assim mesmo, é menos comum assistir-se à cena de um presidente se atracar fisicamente com um cidadão pelo motivo de ter escutado qualificativos que não lhe agradaram. Já fiquei sabendo de coronéis e deputados que se comportaram assim. De um presidente, principalmente quando está em campanha de reeleição, é mais raro.

Pensando bem, as palavras utilizadas pelo rapaz refletem a pura verdade. Nua, crua e sem retoques. “Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” é excelente resumo da personalidade presidencial. Ou não?

Mas dá pra entender a razão pela qual o capitão se sentiu tão à vontade pra rodar a baiana no meio da rua. Em primeiro lugar, o interlocutor era baixo e franzino. Em seguida, Bolsonaro estava rodeado daqueles agentes tamanho leão de chácara. Nessas condições, até eu me aventuraria a abordar fisicamente o “ofensor”.

Queria ver se a macheza seria a mesma caso os seguranças não estivessem ali e o “youtuber de direita” fosse do tamanho daquele deputado anabolizado, aquele que foi condenado à masmorra e salvo pela graça presidencial. Não tenho certeza de que Sua Excelência encararia, peito aberto.

Se eu fosse o youtuber agredido, não hesitaria em dar parte na polícia por ter sido vítima de vias de fato – em reação desproporcionada a mera interpelação verbal.

O paladar

José Horta Manzano

Pequim está fortemente empenhado em demonstrar sua tese de que Taiwan, a “província rebelde”, é parte histórica da grande nação chinesa e que um dia há de ser reintegrada à pátria-mãe. Para reforçar a posição de seu governo, a senhora Hua Chunying, porta-voz do Ministério Chinês de Relações Exteriores, tuitou:

“Em Taipé (capital de Taiwan), há 38 restaurantes que vendem ravioli de Xantum (província chinesa) e 68 que vendem talharim de Xanxi (outra província chinesa). O paladar não mente! O filho desgarrado há tantos anos voltará à pátria.”

Por mais que o governo de Pequim gostasse, não é possível controlar integralmente a internet. O Tweeter, por exemplo, escapa à censura. Os internautas aproveitaram e comentaram com ironia:

“Quer dizer então que o monte de McDonald’s que temos em Pequim informam que somos todos historicamente americanos?”

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

Brienfing

José Horta Manzano

A propósito do encontro do capitão com o corpo diplomático, todos apontaram o dedo para o imperdoável erro de grafia da palavra inglesa “Briefing”, que apareceu na tela grafada “Brienfing”. Só essa mancada já teria bastado pra desmerecer o discurso, não precisava nem soltar aquele caudal de asneiras.

A língua inglesa tomou o termo briefing do latim breve (brevis), que chegou à Grã-Bretanha através do francês medieval bref. No original, a palavra corresponde a nosso breve (= curto, pequeno, que dura pouco tempo).

Em inglês, com o passar dos séculos, o sentido de briefing foi se alterando. Na língua atual, designa o ato de dar instruções preparatórias a alguém. Por exemplo, antes de uma missão, o piloto de guerra passará por um briefing, ocasião em que receberá instruções precisas sobre o que deve fazer.

Portanto, o “Brienfing” presidencial há de ter posto os diplomatas na incômoda situação de quem volta aos bancos da escola para receber instruções de um desvairado dirigente estrangeiro. Uma ousadia com forte potencial ofensivo.

Sorte tem a douta equipe presidencial de ter caído com diplomatas do século 21, que costumam ser gente letrada, que não liga para gesticulação de ignorantes. Em outros tempos, poderia até ser considerado casus belli – ato suficientemente grave para justificar uma declaração de guerra.

Pobre Brasil! Em apenas duas décadas, como te rebaixaram!

Proteção pelo avesso

José Horta Manzano

Saiu hoje a notícia de que os ministros do STF vão se reunir com Bolsonaro em previsão dos festejos do 7 de Setembro. O objetivo é pôr em pratos limpos a questão da atitude que o presidente pretende tomar na ocasião.

Antes disso, os dois ministros apadrinhados do capitão – Nunes Marques e Mendonça – devem preparar o terreno. Em seguida, virão os menos alinhados. Pretendem todos convencer o presidente a não participar de nenhum evento além do desfile tradicional.

Vão pedir a Bolsonaro que se abstenha de marcar presença em manifestações a seu favor, sobretudo as que forem organizadas por grupos que costumam insultar o Supremo e exigir sua dissolução.

Os ministros estão conscientes de que esvaziar a Baía da Guanabara com colherinha é tarefa mais fácil do que convencer o capitão a não aparecer em palanque para louvar a si mesmo. De toda maneira, vão tentar.

O policiamento em torno do STF será importante, muito mais reforçado que no ano passado. A intenção é evitar que a turba mais agressiva se aproxime e tente saquear o prédio.

Não é corriqueiro ter de proteger a Corte Suprema de Justiça contra o próprio presidente da República. Normalmente, é ao contrário.

A fome no mundo

José Horta Manzano

A agência de notícias EFE informa que o Brasil está exercendo a presidência rotativa do Conselho de Segurança da ONU durante o mês de julho.

Ao assumir o encargo, Senhor Ronaldo Costa F°, nosso representante permanente junto à ONU, assegurou que “o Brasil vai promover a segurança alimentar que está em fase crítica em razão da guerra na Ucrânia”.

Nós todos aplaudimos de pé – quem não aplaudiria? Dá tristeza pensar nos milhões e milhões de humanos que logo logo vão começar a passar fome. São populações pobres da África e do Oriente Médio, cujo alimento básico é o pão, feito com trigo ucraniano.

Ao ler a notícia, pensei também nos 33 milhões de brasileiros que passam fome habitualmente, com guerra ou sem ela. O governo, que orienta seu representante a fazer declarações humanitárias na ONU, é o mesmo que despreza os famintos nacionais, porque são pretos, índios, pobres.

O Brasil vai “promover” a segurança alimentar no planeta. Eu me pergunto qual é o significado do verbo promover nessa frase. Vai despachar navios carregados de mandioca e milho para os famintos do mundo? Vai mandar uns trocados para assistir a esses infelizes? Ou vai ficar no discurso  estéril, só pra inglês ver?

A hipocrisia não tem limites.

O preço da gasolina

José Horta Manzano

O Washington Post desta sexta-feira traz um infográfico que compara o preço da gasolina nas 15 maiores economias do globo. Os países estão divididos em três categorias de renda: alta, média superior e média inferior. O Brasil está classificado no grupo do meio.

O cálculo foi feito com base num modelo Toyota Camry de 2010. Os desenhinhos mostram a distância que o veículo percorreria com US$ 40 de gasolina.

O automobilista leva vida apertada na Europa. Na Inglaterra, França, Itália e Espanha, não vai muito longe com os quarenta dólares no tanque. Nos EUA e no Japão, roda bem mais folgado.

As distorções são mais significativas nos países de renda média. Chineses e brasileiros pagam um preço bem próximo do americano, enquanto mexicanos e especialmente russos rodam mais quilômetros com menor gasto.

Já guiar automóvel na Índia não é pra qualquer um. A gasolina lá é vendida ao preço brasileiro, mas o cidadão comum não tem condições financeiras de encarar. Carro é privilégio de gente abastada.

O automobilista brasileiro reclama com razão do preço da gasolina. O infográfico compara preço com preço, sem levar em conta a renda média dos cidadãos de cada país. O fato é que os salários brasileiros são bastante inferiores aos americanos. Portanto, embora a gasolina no Brasil custe aproximadamente o mesmo que nos Estados Unidos, pesa muito mais no bolso do automobilista brasileiro.

Pra finalizar, constata-se que o país mais atraente para o automobilista é a Rússia. Com os mesmos quarenta dólares, os russos podem dar a volta no rodoanel de Moscou zilhentas vezes e ainda vai sobrar combustível. Só que… lá eles têm Putin, o que quebra o encanto na hora.

No fundo, é melhor ir aguentando o capitão. Falta pouco.

Saltando do barco

José Horta Manzano

As pesquisas, a persistirem no ritmo atual, apontam para inevitável derrota do capitão em outubro.

Os parlamentares mais firmes, aqueles dotados de estofo ideológico, não arredam pé de suas convicções.

Já os que nadam na geleia geral – e que constituem o abundante ventre flácido da República – estão se preparando para saltar do barco. Efetivamente, diz-se que os ratos são os primeiros a saltar. (Peço desculpas aos ratinhos, que entraram neste parágrafo como Pilatos no Credo.)

Na foto vemos o presidente da Câmara, bolsonarista desde criancinha, que de bobo não tem nada. Sua Excelência entendeu de que lado sopram os ventos e já prepara sua reconversão.

Dois dias atrás, foi comer brigadeiro na festinha de aniversário de Zeca Dirceu. O homenageado é deputado federal pelo PT do Paraná. Além disso, é filho do José Dirceu, companheiro que tem sido, há décadas, fiel aio do Lula.

Este blogue dá os parabéns ao aniversariante. Em troca espero ser nomeado para uma sinecura. Afinal, é dando que se recebe.

Disclaimer:
Este artigo contém ironia.

Türkiye

O presidente da Turquia em convescote com seus ministros

José Horta Manzano

Governante esperto sabe tomar a temperatura do país e adotar medidas que reconfortem o povo. Nosso país, atualmente presidido por um senhor estranho que se esforça em solapar os interesses nacionais, está desacostumado de ver no trono um governante normal.

Em 2021, a inflação turca atingiu o patamar de 36%, o mais alto dos últimos 20 anos. Como se sabe, inflação nesses níveis desorganiza a economia, e quem mais sofre com isso são as classes populares. A carestia não perdoa e deixa um rastro de descontentamento.

Recep Erdoğan, que se mantém no topo do poder turco há duas décadas, botou o termômetro e constatou que sua popularidade está baixando. Agora não perde ocasião de se mostrar antenado com os anseios do povo turco. Suas decisões podem até nem ser de grande utilidade para o dia a dia da população, mas são espetaculosas.

Em inglês, o nome da Turquia é Turkey. Acontece que, como contei em post de alguns dias atrás, essa palavra, em inglês, tem função dupla. Tanto serve para dar nome ao país quanto para designar o o peru (a ave). Que se saiba, essa particularidade nunca incomodou nenhum turco.

Aliás, observe-se que os turcos usam a palavra portakal (derivada de Portugal) para dizer laranja, fato que jamais comoveu nenhum português. Esses mesmos turcos chamam o mês de abril de Nisan (pronuncie Nissan), sem que nunca se tenha ouvido reclamação por parte da montadora japonesa.

Com intenção de melhorar sua popularidade, o presidente turco teve uma ideia. Mandou carta ao secretário-geral da ONU solicitando que seu país não mais fosse chamado de Turkey, mas sim de Türkiye, que é a forma original turca. A ONU, que deixa a cada país-membro a liberdade de ser chamado como preferir, aceitou imediatamente o pedido.

A partir de agora, em todos os documentos oficiais da organização, a Turquia passou a ser identificada como Türkiye. Com isso, o presidente do país espera ser reconhecido por seus súditos como o protetor da nação, aquele que cuida dos interesses do país e do povo.

Só tem uma coisa: a mudança de nome é só pró-forma. Na pronúncia, vai ficar tudo como antes. Ao deparar-se com a inabitual forma Türkiye, os de língua inglesa continuarão a pronunciar… Turkey.

Vamos ver se a popularidade interna do presidente turco melhora. Tenho cá minhas dúvidas. Quando a carestia aperta, esse tipo de mudança cosmética costuma ser inócua.

Em todo caso, ele pelo menos terá tentado. O nosso, nem tentar tenta.

Vox populi – 3

José Horta Manzano

Semana passada, uma pesquisa encomendada ao Ipespe deu que falar. Entre outros pontos, media a percepção que o eleitor tem da honestidade de cada candidato.

Nesse quesito, 35% dos eleitores julgam que, entre todos os candidatos à Presidência, Lula é o que melhor se enquadra no conceito de honestidade. Quanto a Bolsonaro, são 30% os eleitores que o veem honestidade nele – 5 pontos percentuais abaixo do placar do Lula.

Não deixa de causar certa surpresa que o Lula, depois de gramar ano e meio de masmorra úmida por ter sido reconhecido como corrupto – por três instâncias –, ainda seja visto como campeão de honestidade.

Outra curiosidade vem do fato de Bolsonaro, que insiste em garantir que não há corrupção em seu governo, receber pontuação mais baixa que o Lula.

A pesquisa causou um choque nas hostes bolsonaristas. Choveram pedidos de bloqueio dos resultados. Pelo que entendi, os sondadores se encolheram e suspenderam a publicação, mas o estrago já estava feito. Todos os veículos da mídia nacional já tinham publicado a notícia.

Derramado o leite, só nos resta avaliar o que esses números dizem do Brasil que se oculta atrás de uma persistente cegueira coletiva e contagiosa.

Se for bem agitada a bateia, o ouro da pesquisa vai aparecer, bem escondido, lá no fundo. Pra se dar conta da realidade, basta examinar esses números ao contrário.

Se 35% dos eleitores acreditam que o Lula é honesto, isso significa que 65% o consideram desonesto. É verdade estatística. E o capitão? A pesquisa atesta que 70% dos pesquisados o veem como desonesto.

Fica a certeza de que, seja qual for o vencedor, o Brasil será presidido por um desonesto. Ou, pelo menos, por um indivíduo que é pressentido como desonesto por 2 em cada 3 brasileiros.

Brasil, país do futuro? Brasil, país sem futuro.

O padrão dos loucos varridos

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Mesmo para os padrões que costumam ser usados para avaliar loucos varridos, Bolsonaro exagera na paranoia. Vamos aos antecedentes.

Em 1988, o capitão se candidatou pela primeira vez a um cargo eletivo. Naquele tempo, a urna eletrônica ainda era um sonho com ares de ficção científica. Foi eleito vereador do município do Rio de Janeiro.

Com dois anos de vereança, decidiu alçar voo mais ambicioso. Abandonou o mandato e candidatou-se a deputado federal. Saiu eleito. Deve ter gostado do novo emprego. Profissionalizou-se. De lá pra cá, cumpriu oito mandatos seguidos, sempre representando o Rio na Câmara Federal.

Desde a virada do século, as eleições vêm sendo realizadas com urna eletrônica. Que se saiba, Bolsonaro jamais reclamou nem lançou dúvida sobre a lisura dos pleitos. É sabido que os insatisfeitos costumam chiar; portanto o silêncio do capitão indica que ele estava feliz e satisfeito.

Um dia, decidiu tentar a Presidência da República. A história, todos conhecemos. Foi o candidato mais votado no 1° turno, mas não atingiu os 50% necessários para a vitória. Foi preciso organizar mais um turno. No segundo, os 55% de votos recebidos foram amplamente suficientes pra lhe dar direito a subir a rampa.

Pouco tempo depois da eleição, Bolsonaro botou em circulação um rebuliço estranho e fora de esquadro. Deu início a uma bizarra campanha de descrédito do sistema que o tinha levado ao Planalto.

Choramingou que a eleição tinha sido “fraudada”. Com toda probabilidade, a atitude do capitão é caso único no mundo. Um candidato enxergar fraude na eleição em que saiu vencedor é realmente de dar vertigem.

O mais curioso vem agora. Nas oito vezes em que se elegeu deputado, o capitão nunca se insurgiu contra a lisura do sistema. Já nas eleições presidenciais, denuncia fraude no primeiro turno, mas não no segundo. Como é que pode?

Se o sistema tivesse sido fraudado para impedi-lo de ganhar no primeiro turno, os autores da fraude, vendo que tinha funcionado tão bem, teriam insistido na falsificação. Ou seja, Bolsonaro também teria sido impedido de ganhar no segundo turno.

Esse mistério da desconfiança seletiva, o capitão nunca esclareceu. Nem esclarecerá, visto que o delírio, que decorre da triste patologia que o acomete, só existe na cabeça dele.

Bolsonaro e o jornalista desaparecido

José Horta Manzano

Rapidez de raciocínio não é a qualidade mais notável do capitão. Sua capacidade de percepção global de uma situação também não é lá essas coisas. Assim mesmo, ele ainda consegue nos surpreender.

Ontem, foi questionado sobre o desaparecimento na selva de um jornalista estrangeiro e de um sertanista brasileiro. Soltou a seguinte frase: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma aventura que não é recomendada que se faça (sic)”.

E o principal veio em seguida:


“Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados”.


Não é comum ouvir um presidente confessar com candura que, no país por ele governado, há regiões sem lei, onde cidadãos perigam “ser executados” assim, sem mais nem menos. Repare que ele não disse “assassinados”, mas “executados”.

Tirando o fato (já conhecido) de ele se exprimir em linguagem de miliciano, é surpreendente o capitão não se dar conta de que sua fala é confissão de fracasso.

De fato, tirando regiões em estado de guerra como a Síria ou o Iêmen, nenhum dirigente diria coisa desse tipo. Nem que fosse verdade.

Fica a desagradável impressão de que o governo não controla parte do território nacional.

Ou, pior ainda: que, tendo recebido informações confidenciais sobre o acontecido, o presidente as está sonegando ao distinto público.

Há ainda uma última (e terrível) hipótese: a de que a ordem de “execução” tenha emanado das mais altas esferas do poder. Mas seria tão absurdo, que prefiro nem falar nisso.

Observação
Não se espera de um presidente da República que emita comentários pessoais sobre o maior ou menor perigo que indivíduos tenham decidido enfrentar.

Neste momento de preocupação nacional, cabe a ele tranquilizar a população e assegurar que está “pessoalmente empenhado” em descobrir rapidamente o paradeiro dos desaparecidos.

Pode até ser blá-blá-blá, mas é o que se espera de um dirigente.

Agressão classuda

José Horta Manzano

O manifestante ousado que decide agredir um figurão lança mão de meios diferentes dependendo das circunstâncias e da parte do mundo em que se encontrar.

Em casos extremos, pode sacar arma de fogo e atirar. Quando o contexto (e o manifestante) são menos violentos, o gesto pode servir apenas para demonstrar descontentamento com o figurão.

Temos visto figuras políticas agredidas com gesto obsceno, tapa na cara, balde de tinta, punhado de farinha, pastelão. Manifestantes de Paris inventaram arma com especial toque francês.

O ex-ministro da Educação, atualmente em campanha para deputado, foi abordado por dois professores quando se encontrava numa feira livre. Os docentes agrediram o ex-ministro com jatos de… creme chantilly.

Ao final do episódio, os agressores esclareceram, com ar ingênuo, que é época de morango e que, por acaso, traziam na sacola uma garrafa sifão de chantilly – acompanhante inseparável da deliciosa frutinha.

A notícia não informa se o creme já veio adoçado.

O bicho de muitos nomes

José Horta Manzano

A história do peru é interessante. (Estou falando do peru de Natal, não do país vizinho.) O pássaro é endêmico na América do Norte. Aliás, foi o único bicho voador a ser domesticado na América pré-colombiana.

Os primeiros espanhóis levaram consigo, no regresso, casais dessa ave. Era uma época em que os navegantes não tinham certeza sobre a real localização das novas terras. Os primeiros exploradores acreditavam haver chegado às Índias – daí os nativos terem sido chamados de índios.

Chegando à Europa, a ave, que ainda não tinha nome, foi batizada conforme a lógica de cada país; só que nem todos seguiam a mesma lógica.

França
Os franceses foram provavelmente os mais rápidos a lhe dar nome. Certos de que as novas terras correspondiam à Índia, chamaram a ave de “poule d’Inde” (=galinha da Índia). O nome ficou até hoje. A primeira parte da expressão caiu (poule), mas a segunda ficou. O nome do peru hoje se escreve sem apóstrofo: “dinde”.

Espanha
Os espanhóis hão de ter nomeado o peru mais tardiamente, pois parece que já sabiam que as terras descobertas não eram a Índia. Deram ao bicho voador o nome de “pavo”, em contraposição a “pavo real”, que é o pavão, ave já conhecida.

Inglaterra
Quanto aos ingleses, a história é diferente. Décadas antes da descoberta da América, os portugueses haviam trazido da África um galináceo desconhecido na Europa: a galinha d’Angola. Seu comércio se alastrou pelo norte da África até chegar à Turquia.

Quando o peru apareceu, já fazia tempo que os ingleses conheciam as angolinhas “da Turquia”. Ao ver a nova ave, pensaram que fosse uma variedade de galinha turca. Deram-lhe o nome de “Turkey hen” (galinha da Turquia), posteriormente abreviado para o atual “Turkey”.

Alemanha
Os alemães, provavelmente fascinados pela novidade, não se preocuparam tanto com a origem do animal. Encantaram-se com o som que ela emitia, especialmente quando queria chamar os pintinhos. Aos ouvidos germânicos, o som soou como “put, put”.

Até hoje, usam a forma onomatopaica “Pute” – forma que, para nós, soa francamente bizarra. O animal também é conhecido pelo nome “Truthenne” (=galinha “trut”), sendo que “trut” também é onomatopeia do grito do peru.

Os fãs da Índia
Diversos povos europeus se deixaram levar pela influência francesa. Deram ao peru um nome lembrando a suposta origem. Assim, temos: polonês “indyk”, russo “indeika”, turco “hindi”. Todos eles apostaram numa espécie de galinha proveniente da Índia.

Os mais rigorosos
Alguns procuraram ser ainda mais precisos. Não se contentaram em dar como origem a imensa Índia, mas especificaram a suposta região de origem do bicho.

Com variantes gráficas que refletem as convenções de cada língua, o termo “kalkun” vigora na Holanda e na Escandinávia. Atrás dessa estranha palavra, esconde-se uma região imprecisa, que tanto pode ser Calicute como Calcutá.

Para o europeu da época, tratava-se de uma única cidade. Hoje sabemos que são duas, bem diferentes, situadas a 1.500 km uma da outra, ambas na Índia.

Portugal
Quando os primeiros exemplares da ave foram levados a Portugal, as parcas informações de que se dispunha à época não permitiam identificar exatamente a origem. (No fundo, acredito que ninguém, exceto os importadores, estava muito interessado em saber o caminho e o trajeto da mercadoria.)

O galináceo acabou recebendo o nome do lugar de sua suposta origem: o Peru. Há que lembrar que, naqueles tempos recuados, “Peru” era um nome mágico, designando uma imensa e riquíssima região situada nalgum impreciso lugar da América do Sul.

É curioso notar que a imagem de um lugar fabuloso e abarrotado de ouro e prata persiste numa expressão francesa utilizada até hoje. No francês  coloquial, a exclamação “Ce n’est pas le Pérou!” (= Não é o Peru!) é utilizada quando se quer dizer que algo não é extremamente caro ou valioso.

Pra você ver que o nome daquele riquíssimo país marcou a memória coletiva. Pra nós, é nome de ave. Mas, pelo preço que andam cobrando, faz jus à imagem de riqueza que os antigos lhe atribuíam.

As férias do presidente

Jornal online Fórum, de tendência lulopetista

José Horta Manzano

O autor da manchete tropeçou na concordância(*), mas acertou na petulância.

Estou me referindo à petulância de um presidente que faz questão de mostrar que trabalha pouco. Deve achar bonito.

Em outras terras, presidentes e figurões de alto coturno costumam ser bastante discretos na hora de sair de férias. Não querem jornalistas nem fotógrafos por perto. Nem dão informações, nem publicam foto em rede social.

Nosso presidente, petulante, não vê problema nenhum em divulgar seu pouco apego ao batente. Numa terra em que tem gente batalhando duro, de sol a sol, pra poder sobreviver!

(*) As regras de nossa língua pedem que, quando o sujeito estiver no plural, o verbo acompanhe. O sujeito da frase é viagens. Portanto, a forma verbal deveria ser fizeram e não fez.

O dia seguinte

José Horta Manzano

24 maio 2022
Uvalde (Texas), EUA
Um adolescente que carregava pouco bestunto e muita raiva no coração resolveu se vingar a esmo de uma sociedade que lhe parecia opressora. Armou-se como verdadeiro Rambo e atirou na própria avó. Em seguida, dirigiu-se à escola que havia frequentado até outro dia e atirou às cegas. Adicionando crianças e adultos, matou mais de vinte. Foi abatido pela polícia.

Rio de Janeiro, Brasil
Operação policial de extrema violência levada a cabo na Vila Cruzeiro (Complexo da Penha, Rio de Janeiro) deixou um rastro sangrento de 25 mortos. Segundo relatos, bom número dentre os metralhados são “vítimas colaterais”, gente cujo único crime era estar no lugar errado, na hora errada. Ressalte-se que nosso ordenamento jurídico proíbe justiça expeditiva, execuções sumárias e atos de tipo miliciano-mafiosos como esse.

25 maio 2022
Washington (DC), EUA
Joe Biden, presidente da República, fez declaração emocionada sobre o massacre da véspera. Declarou-se “sick and tired” (= enojado e cansado) com a multiplicação desse gênero de ocorrência. A bandeira nacional que ondula sobre a Casa Branca foi baixada a meio-pau. O presidente acrescentou que, nos próximos dias, viajará ao Texas para uma visita pessoal às famílias das vítimas da tragédia.

Brasília, Brasil
Jair Messias Bolsonaro, presidente da República, utilizou o Tweeter para dar parabéns aos “guerreiros”(sic) do batalhão policial que “neutralizaram”(sic) marginais. O presidente não declarou ter intenção de fazer visita de consolo às famílias das vítimas – pessoas que ele deve considerar sub-humanas. Em Brasília, a bandeira nacional não foi baixada a meio-pau.

Os espanhóis dizem: “Más vale vergüenza en cara que mancha en el corazón” (= Mais vale vergonha na cara que mancha no coração). Há os que preferem a mancha. Por não sentirem vergonha. Ou talvez porque lhes falte o coração.

Peruada

Correio Paulistano, 29 março 1935

José Horta Manzano

Até os anos 1930, peruada estava para os perus como galinhada estava para as galinhas: designava um bando de perus, nada mais. É um tanto controversa a razão pela qual os estudantes da Faculdade de Direito da USP dão esse nome aos desfiles e às brincadeiras que organizam uma vez por ano.

Há quem diga que, certa feita, os rapazes furtaram perus de um parque da cidade e os transformaram em alimento digno de saciar a fome de muitas bocas. Outros dizem que não é bem assim e que a tradição já vem dos tempos do imperador.

As primeiras menções de peruada como nome dos festejos estudantis aparecem na imprensa dos anos 1930. No Correio Paulistano de 29 de março de 1935, o comitê organizador publica um comunicado com as regras do trote – chamado ‘peruada’. Avisam que o couro cabeludo de todo calouro será rapado. Acrescentam que ainda será cobrada de todos uma “modesta” quantia de 20$000 (vinte milréis, valor considerável para a época, equivalente ao preço de venda de 100 jornais).

Numa demonstração de que não é de hoje que as classes abastadas gozam de privilégios inalcançáveis para os mais modestos, o comitê informa que, mediante pagamento de 200$000 (duzentos milréis, soma astronômica, correspondente ao preço de 1.000 jornais), o calouro será poupado e poderá conservar as melenas.

É muito triste constatar que, passados noventa anos, o país continua empacado. Continuamos vivendo numa sociedade dividida entre os que têm e os que não têm.

Não é chocante que haja desnível financeiro entre cidadãos. O que choca é o exagero. A enorme riqueza não assusta; o que horroriza é a extrema pobreza. Não me parece escandaloso que um indivíduo possua bilhões; já a existência de cidadãos que passam fome é a demonstração de que a sociedade é disfuncional.

Em nosso país, há os que não têm teto, há os que passam fome, há os que têm de trabalhar para sustentar os próprios estudos, há os que são obrigados a ter mais de um emprego para sobreviver, há famílias vivendo debaixo de viadutos, há iletrados e analfabetos.

Enquanto isso, um presidente anda de jet ski e um ex-presidente dá festa de casamento para 200 convidados. Ambos são candidatos nas próximas eleições. São muito bons na hora de insultar-se mutuamente, mas quando vem a hora de apresentar um plano consistente para fazer o país avançar, o que se vê é o nada e o que se ouve é o silêncio ensurdecedor.

Algo enguiçou no país, e ninguém parece muito preocupado em desenguiçar.

Aborto x armas

José Horta Manzano

A polêmica atualmente em cartaz nos EUA entre os que aprovam e os que desaprovam a proibição do aborto voluntário levanta uma interrogação sobre uma flagrante contradição.

Os favoráveis à proibição do aborto, que organizam passeatas, levantam bandeiras, acusam profissionais da área da saúde e protestam porque vidas estão sendo ceifadas por um ato criminoso, são os mesmos que se declaram favoráveis à liberação, venda livre e disseminação de armas, cuja finalidade é exatamente ceifar vidas.

Um dia, eles terão de se decidir. Não podem ser a favor da vida num caso e contra ela no outro.

De volta para o futuro – 2

José Horta Manzano

O esfacelamento da União Soviética, no início dos anos 1990, abriu as portas da Rússia para as grandes empresas ocidentais. O país estava na lona. Precisava de recauchutagem completa Foi nessa leva que entraram as montadoras de automóveis.

Os russos deram adeus aos velhos Lada, aqueles carros tipo pé de boi de fabricação soviética que o Brasil chegou a importar nos anos 1980 e dos quais a gente costumava dizer que até a chave já vinha enferrujada.

Trinta anos se passaram, e a implantação das grandes construtoras automobilísticas se firmou e se reforçou. Até outro dia, estavam produzindo a todo vapor para um mercado de 145 milhões de consumidores.

Nisso, Vladímir Putin teve a estúpida ideia de invadir a Ucrânia. E veio a guerra. E vieram as sanções econômicas. E tudo parou. Nesse embalo, as montadoras europeias puxaram o carro (expressão caseira que cai bem neste caso). Entre as que se foram, está também a francesa Renault, atual proprietária da antiga Avtovaz, que fabricava o Lada.

No entanto, com ou sem guerra, o mercado russo continua exigindo carros. Mas, sem os estrangeiros, como fazer? A importação está fechada. Insumos, peças e componentes eletrônicos importados não entram mais no país.

As autoridades de Moscou decidiram engatar o modo desespero. Tomaram uma decisão que representa um retrocesso de três décadas na produção de automóveis no país.

Foram-se embora as montadoras? Sem problema. Ressuscita-se a velha Avtovaz e vamos em frente.

Faltam câmeras de ré? Sem problema. Põem-se à venda veículos sem câmera.

Faltam sistemas de freio ABS? Sem problema. Os carros novos vêm sem freio ABS.

Faltam airbags? Sem problema. Carro novo não precisa de airbags. Nem frontais, nem laterais.

Um decreto emitido pelo Executivo russo acaba autorizar que carros novos sejam comercializados sem uma série de equipamentos de segurança que eram exigidos até agora. Na Rússia, mudam-se leis com a mesma facilidade com que se mudam no Brasil.

Num país onde o número de acidentes de carro já está acima da média mundial (e se aproxima do assustador morticínio brasileiro), analistas acreditam que haverá 2000 ou 3000 mortos a mais por ano.

O decreto governamental afrouxa também as normas de emissão de gases poluentes. Volta-se ao que vigorava em 1988.

Este artigo devia ser lido por aqueles que acreditam que sanções econômicas não atrapalham. Este blogueiro repete o que já disse em outras ocasiões: há muitas maneiras de fazer pressão sobre um governo. Não é preciso ameaçar bombardeio.

Se, por desgraça, o capitão viesse a ser reeleito ou – pior ainda – se ousasse tentar um golpe institucional para permanecer na Presidência ilegitimamente, não é só freio ABS que vai faltar. O Brasil vai parar.