Quem manda aqui sou eu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Um jornalista italiano do Corriere della Sera entrevistou estes dias Serguêi Márkof. O entrevistado, que foi conselheiro pessoal de Putin de 2011 a 2019, dirige hoje o Instituto de Estudos Políticos de Moscou. Conhece muito bem o ditador.

Quando o entrevistador, curioso, lhe perguntou que critérios Putin adota para escolher ministros, assessores e auxiliares, respondeu: “É simples. Ele põe sempre a pessoa errada no lugar certo. Assim, no final, quem decide tudo é ele mesmo.”

Pode parecer engraçado, mas temos no Brasil um presidente que faz igualzinho. Em cargos importantes, bota sempre gente que não entende do riscado, assim quem acaba decidindo é ele mesmo. Já repararam?

Lembre-se do Pazuello, o “especialista em logística” que, em plena emergência sanitária nacional, cometeu o irreparável: despachou respiradores para o estado errado.

Não se esqueça do Salles, o ministro do Meio Ambiente que se mancomunou com uma máfia de madeireiros marginais.

Tenha em mente o Milton Ribeiro, ministro da Educação até outro dia, que andou metido com venda de verbas oficiais contra barras de ouro.

A lista de incapazes que cercaram (e ainda cercam) o presidente é longa como prontuário de delinquente recidivista.

Ah! O Bolsonaro tem outra característica putiniana. Além de tomar a si todas as decisões, decide mal, exatamente como o russo. Ainda agora acaba de vetar verba para a Cultura, mostrando que continua firme no propósito de perenizar o atraso da nação. Sua decisão foi tão mal tomada quanto a do colega Putin, com sua desastrada invasão do país vizinho, seguida de feroz mordaça na mídia do país.

Tanto o capitão quanto o ditador russo tentam seguir métodos soviéticos em pleno século 21. Não se dão conta de que o mundo mudou. Num universo mergulhado na internet, em que a informação circula, é evidente que métodos stalinianos não funcionam mais.

Quase-verdades

José Horta Manzano

No Brasil, todos se lembram das irritantes “quase-verdades” do Lula. Na época, pensávamos que, com esse discurso, ele tinha descido ao ponto mais baixo que um presidente pode atingir. Era engano.

Com Bolsonaro, já não temos meias verdades: o capitão mente descarada e compulsivamente. Despudoradamente. E ninguém parece se importar mais com isso. Uns chegam até a aplaudir. Essa indiferença mostra uma complacência perigosa para o futuro das relações sociais entre cidadãos deste país.

Lula e Bolsonaro passarão, mas o tecido social que eles esburacaram permanecerá. Se a mentira já não choca, é sinal de que a confiança desapareceu. Como viver numa sociedade em que todos desconfiam de todos?

Desconfiança dá muito trabalho e consome muita energia. Se esse fator um dia entrar no cálculo do PIB nacional, o resultado será desastroso. Devemos estar abaixo do Afeganistão.

Incoerência

José Horta Manzano

Coerência, em princípio, é artigo raro na sacola do homo politicus. Ainda assim, há casos leves e casos cabeludos. Nosso atual governo federal é especialmente pródigo em incoerências. O que diz o presidente não se escreve, porque amanhã ele pode perfeitamente ter mudado de ideia. E o pior é que, se for questionado, vai negar a mudança de posição, vai se mostrar ofendido e dar de costas, não sem antes agredir o repórter e mandá-lo calar a boca. Ou pior.


Pintinho costuma acompanhar a galinha


Ministros, assessores, aspones e apaniguados procuram mostrar serviço. Há os que se destacam nesse particular. Um deles é o atual ministro da Saúde, senhor Queiroga, discípulo exemplar.

Folha de São Paulo, 18 abr 2022

Ele deu ao mesmo tempo duas mensagens contraditórias. Por um lado, anunciou o fim da emergência sanitária de covid no país; por outro, pontificou que o novo calendário de vacinação só virá após “evidência científica”.

Ora, digo eu, algo está fora dos eixos. Se o novo calendário de vacinação segue a ciência – o que é compreensível e louvável – e só será implantado após confirmação científica, como é possível que a emergência sanitária de covid esteja sendo decretada sem evidência científica? Quem decidiu o dia e a hora? A participação da ciência nessa decisão não está clara.

Pau que dá em Chico costuma dar também em Francisco.


Se a decisão da vacinação passa pela anuência do corpo científico, a confirmação do fim da emergência também tem de passar


Ou será que essa história de “evidência científica” só vale pra protelar a vacinação e assim agradar ao chefe?

O verdadeiro rosto de Putin

José Horta Manzano

Nem todo o mundo sabe, mas Vladímir Putin completa 70 aninhos em 2022. Dizem que, como todo ditador, ele é paranoico. Sente-se atacado, agredido, acuado, ameaçado por todos os lados. Desconfia de tudo e de todos. Morre de medo de ser envenenado. Não come nenhum alimento que não tenha sido antes experimentado por um dos provadores que o acompanham por toda parte. Os reveses que tem sofrido nessa estúpida guerra que declarou à vizinha Ucrânia hão de ter exacerbado esses pavores.

Mas tem uma coisa que não lhe dá medo – ou, se dá, sua imensa vaidade o ajuda a superar: operação plástica. Convenhamos que a aparência de seu rosto não bate com o que se espera de um vovozinho da sua idade. Quantas e quais operações ele já sofreu, é segredo de Estado.

Mas hoje em dia, com um Photoshop e certo treino, dá pra simular o aspecto que ele teria se não tivesse mandado esticar aqui, espichar ali, encher de botox acolá. Ele caiu na espiral e passou a ser mais uma vítima do mal que acomete muitos dos que entram por esse caminho: não sabem onde parar.

O resultado é que seu rosto está com aparência artificial, congelado, sem expressão, mais ou menos como o de Silvio Berlusconi, antigo primeiro-ministro da Itália, que hoje parece uma múmia.

Encontrei no youtube um videozinho que suprime, em minuto e meio, as artificialidades que lhe foram estampadas no rosto e mostra, no final, o aspecto que ele teria se não tivesse tentado se transformar numa Barbie. Quem tiver curiosidade, que clique aqui.

Não se fazem mais Sextas-Feiras Santas como antigamente

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, Sexta-Feira Santa era um dia especial. Ainda me lembro do vendedor de pão, aquele que passava todos os dias na porta de casa, com sua carrocinha puxada a burro, e que vendia um pão doce com sabor de infância. Pois ele dizia que trabalhava todos os dias do ano, com exceção de dois: o Dia de Natal e a Sexta-Feira “Maió”, que era o nome que ele dava à Sexta-Feira Santa.

Os tempos antigos eram cheios de “não-podes”. Na sexta-feira antes da Páscoa, o comércio baixava as portas. Nem entregador de pão trabalhava. Não se podia comer carne. Estações de rádio tocavam música clássica e cinemas passavam a Vida de Cristo. Baile, festa, dança? Nem pensar. Qualquer festinha, nem que fosse de aniversário de criança, ficava pro dia seguinte.

Hoje mudou, e muito. Fomos de um extremo a outro. Se antes quase nada podia, agora tudo pode. Palavrão, modo de expressão antes reservado para bate-papo entre bandidos, entrou para o dia a dia de todos – a começar pelo capitão e pelas excelências que o acolitam. Alguns acham isso natural, marca de espontaneidade. Eu continuo achando que é falta de educação e de respeito.

Bom, mas não vamos ser mais católicos que o papa. Rádio não toca mais música clássica. Cinemas (os poucos que restam) já não dão mais A Vida de Cristo. Aniversariante não precisa mais mudar o dia da festinha. Presidente fala palavrão – e como fala!

Então, com o perdão dos que ainda conservam um trisquinho de recato, aqui vão dois comentários bem-humorados sobre a bizarra compra de medicamentos pra atenuar os problemas de disfunção erétil de nossa (antes) vigorosa tropa.

 

 

 

 

 

Festejar o 31 de Março?

José Horta Manzano

A história dos países é marcada por uma sucessão de deslealdades, golpes e revoluções. Não há outro meio de empurrar (ou emperrar…) a história de um povo. Se nunca tivessem ocorrido desvios da ordem estabelecida, ainda estaríamos nos cobrindo de peles e desenhando bichos na parede de acolhedoras cavernas úmidas. Talvez até estivéssemos engolindo comida crua, por não termos domado o fogo.

Todos os Estados carregam um histórico de cambalhotas. A meu conhecimento, nenhum escapou, nem menos nosso Brasil, apesar de ser visto como nação pacífica. Grandes passos da humanidade foram resultado de grandes golpes contra a ordem então vigente.

A Revolução Francesa, golpe pesado e magistral no sistema em vigor, foi um marco no processo civilizatório da humanidade. A Revolução de Outubro de 1917, que instaurou o regime comunista na Rússia, pautou a vida do planeta durante 70 anos.

Vamos agora ser cínicos (mas realistas). A partir de que momento um golpe contra a lei vigente se torna legal? Ou, em outra abordagem: Qual é o nome da lavanderia que aceita roupas manchadas de ilegalidade e, depois de lavar e passar, devolve as peças imaculadas, com virgindade refeita, prontas pra serem cultuadas?

A resposta é realista (mas cínica). Legal é a revolução que deu certo. Revolução que deu certo é o ponto inicial de nova etapa de uma civilização. Golpe que teve sucesso é marco de novo ordenamento de uma sociedade. Grandes fases de nossa história tiveram início como um ataque contra a ordem então vigente.

O 14 de Julho da Revolução Francesa é comemorado até hoje, enquanto que todas as datas da Revolução Russa desapareceram do calendário oficial daquele país. É a prova evidente do sucesso da primeira e do fracasso da segunda.

O Brasil-colônia tornou-se independente da metrópole em virtude de um golpe familiar, uma obscura deslealdade de filho pra pai, um golpe palaciano que reafirmou nosso sistema clânico de governança, já então em vigor. Tendo dado certo, o Dia da Independência é lembrado e festejado até hoje.

O Império do Brasil virou República em virtude de um golpe militar, uma desleal revolução de palácio. Tendo dado certo, também o Dia da República é lembrado e festejado até hoje.

A Revolução de 3 de Outubro de 1930 marcou o fim da República Velha e instaurou a ditadura de Getúlio Vargas. O novo regime durou 15 anos. Com a redemocratização do país, o movimento que levou Vargas ao poder perdeu o qualificativo de “revolução” e passou a ser chamado de “golpe”. É natural, visto que não se eternizou. Com o fim do regime, o 3 de Outubro deixou de ser comemorado e caiu no esquecimento.

A Revolução de 31 de Março de 1964 marcou o fim do período democrático que tinha tido início com a queda de Vargas, e instaurou nova ditadura – militar, desta feita. Durou 21 anos. Com a queda da ordem militar e a redemocratização do país, o 31 de Março deixou de ser comemorado. Pela ordem natural das coisas, seu destino deveria ser o esquecimento, que é o fim de todas as mudanças que não perduram. O que se costumava chamar de “revolução” passou a ser conhecido como “golpe”.

Curiosamente, no entanto, o finado regime continua sendo cultuado por uma franja estreita de sebastianistas barulhentos que parecem ter fixação num passado que muitos deles nem vivenciaram. Esse culto tem sido potencializado desde que a Presidência foi assumida por Bolsonaro, ele mesmo saudosista doentio.

Ainda esta semana, o general Braga Netto, ministro da Defesa, declarou que a ditadura imposta pelo regime militar “fortaleceu a democracia”(sic) e foi um “marco histórico da evolução da política brasileira”(sic sic).

Soou tão fora de esquadro quanto a declaração de Putin de que a invasão da Ucrânia visa a “desnazificar” o país. Coisa de manicômio.

Um ou outro político de segunda grandeza resmungou. E a imprensa, distraída e ainda fascinada com o estapeio do Oscar, publicou o resmungo como nota de pé de página.

E assim vamos banalizando o absurdo.

Boicote – 2

José Horta Manzano

Em 1492, Cristóvão Colombo tomou posse, em nome da Coroa Espanhola, de terras recém-descobertas. Embora ninguém, naquela altura, se desse conta, ele acabava de desembarcar num imenso e desconhecido continente, que receberia mais tarde o nome de América.

Os Estados Unidos, apesar de serem herdeiros das colônias inglesas e não das espanholas, sempre aceitaram Colombo como descobridor oficial do continente. Columbus Day é o nome do 12 de outubro, data do descobrimento. Pelo menos vinte cidades americanas, grandes e pequenas, levam o nome de Columbus, em homenagem ao descobridor.

Em 1898, os EUA e a Espanha entraram em guerra. O conflito não foi longo mas devastador para a Espanha, que perdeu, para os EUA, as colônias que lhe restavam: Cuba, Porto Rico, Filipinas, Guam e pequenos arquipélagos no Oceano Pacífico.

Apesar de os dois países estarem em estado de beligerância, não consta que nenhuma localidade americana tenha cogitado “cancelar” o nome de Columbus, o descobridor que trabalhara a serviço da Espanha. O 12 de Outubro também não foi afetado: continuou sendo lembrado como Columbus Day, status que mantém até hoje.

Em 24 de fevereiro último, o exército russo invadiu a Ucrânia suscitando um clamor planetário de indignação. Reações têm sido fortes. Sanções financeiras e comerciais estão chovendo sobre a Rússia. Mas tem de haver limite para tudo.

Como já denunciei alguns dias atrás, a anulação de palestra sobre Dostoiévski, o maior escritor russo, como fez uma universidade italiana, é claro exagero. Não ajuda a Ucrânia. Não é símbolo de repulsa, mas de ignorância.

Yuri’s Night
O site Futurism dá notícia de uma nota (ora deletada) lançada por uma fundação sem fins lucrativos. Devia ser uma noitada dedicada a recoltar fundos. O tema era “Yuri’s Night” – em homenagem a Yuri Gagarin, primeiro humano a dar algumas voltas em torno da Terra, dentro de uma cápsula que orbitava além da atmosfera. O chato é que Gagarin, que faleceu 54 anos atrás, era de nacionalidade russa. Em curiosa forma de protestar contra a agressão da Rússia contra a Ucrânia, a homenagem ao astronauta foi cancelada, e a noitada passou a chamar-se “Uma celebração do Espaço: Descubra o que vem depois”.

Reptile Database
O site Reptile Database centraliza dados científicos sobre todas as espécies de répteis conhecidas na face da Terra. Esta semana, passou inacreditável informação ao conjunto de seus assinantes, que costumam ser cientistas, pesquisadores e estudantes. Fez saber que estava removendo da plataforma, com efeito imediato, mais de mil artigos assinados por cientistas russos, pouco importando que tivessem sido escritos muitos anos antes. Com a manobra, castigou não somente cientistas russos (que podem até ser oponentes a Putin). “Cancelou” cientistas de outras nacionalidades, cujo único pecado era ter coassinado um artigo com um colega russo. De tabela, vedou a cientistas do mundo inteiro acesso à conceituada base de dados.

Repito que, por mais simbólicas e humanitárias que possam parecer, essas medidas são um hino à ignorância, além de serem inócuas e inúteis. Putin não costuma acessar base de dados de herpetologia.

Farinha do mesmo saco?

José Horta Manzano

Os candidatos que neste momento ocupam os quatro primeiros lugares na corrida presidencial têm um currículo(*) interessante.

Lula da Silva
Foi presidente e também presidiário.

Jair Bolsonaro
É presidente com boa probabilidade de tornar-se presidiário assim que descer a rampa.

Ciro Gomes
Foi ministro do Lula, aquele que foi presidente e presidiário.

Sergio Moro
Foi ministro de Bolsonaro, aquele que é presidente e tem risco de se tornar presidiário.

Como se vê, a escolha parece ampla, mas não nos tira do círculo vicioso no qual rodopiamos há duas décadas. Nosso mundinho político exala mau cheiro.

(*) Tem casos em que, em vez de currículo, o termo mais adequado seria prontuário.

O que aconteceria

José Horta Manzano

Li hoje, de soslaio, um artigo em que o autor dava sua opinião sobre “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Era artigo longo, de mais de 4.000 toques (página e meia em escrita Arial corpo 12). Me pergunto se alguém terá lido.

Longe de mim pretender menosprezar o autor. Este escriba sabe, por experiência própria, quanto dói uma saudade. Meus textos para o blogue geralmente são feitos na hora, mas, quando escrevo para jornal, a conversa é outra. O Correio Braziliense, que costuma publicar meus artigos num sábado, pede que sejam enviados na quinta-feira o mais tardar.

Dado que não espero até o último minuto da última hora do último dia, escrevo antes. Lá pela segunda ou terça, já está pronto. Aí surge o dilema. Mando ou não mando? E se o assunto já tiver envelhecido quando chegar a hora da publicação? E se o problema já tiver desaparecido? E se o personagem malhado tiver sido hospitalizado com doença grave? Dizem que não é de bom-tom atirar em quem está caído.

Tem sorte quem, como eu, conta com autorização do jornal para abordar o assunto que bem entender. Jornalistas especializados não têm essa amplitude. Comentarista político tem de falar de política. Analista econômico só escreve sobre economia. E assim por diante.

Em situações em que o panorama pode mudar de um minuto a outro, a porca torce o rabo. O pobre comentarista que mencionei deve ter pulado miudinho para escolher bem suas palavras, pois foi dormir com um Putin vociferante e um exército de 100 mil homens amontoado junto à fronteira ucraniana. Era uma quase-guerra.

Só que, quando se levantou de manhã, ficou sabendo do começo de retirada das tropas russas e do arrego de um Putin que argumenta, num contorcionismo: “Mas eu nunca disse que invadiria país nenhum! Tudo não passa de intriga da oposição!”.

Nisso, o artigo já estava no prelo. E lá está ele hoje, com destaque: “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Mas a Rússia não invadiu a Ucrânia. E a invasão se torna menos provável a cada minuto que passa. Putin pode ser atirado, mas estúpido não é. Seria uma guerra em que todos perderiam, a Rússia mais que os outros.

Tecer considerações sobre o que aconteceria (ou, melhor dizendo, o que teria acontecido) se tivesse havido guerra corresponde a conjecturar como seria o mundo se Hitler tivesse ganhado a guerra. É assunto que pertence ao campo da ficção científica. Ou filme de horror.

The lottery

José Horta Manzano

Faz alguns anos, o prêmio acumulado da Loteria Nacional Britânica estava pelas alturas. O ganho máximo seria de quase 58 milhões de libras, o que equivale atualmente a mais de 400 milhões de reais. O país estava em frenesi, os cidadãos fazendo fila, cada um querendo fazer sua fezinha. Uma loucura.

Um jornal publicou então um artigo desmancha-prazeres. De modo sádico, calculou que as chances de um apostador acertar na cabeça era de 1 em 45 milhões. Já começa a dar desânimo, mas o artigo não parou por aí. Comparou a probabilidade de ganhar o grande prêmio com a chance de sobrevirem outros acontecimentos raríssimos. Por exemplo.

  • Um cidadão tem maior probabilidade de ser atingido por uma peça desprendida de um avião (1 em 10 milhões) do que de acertar todos os números.
  • O risco de um canhoto sofrer um acidente fatal por ter utilizado mal um aparelho concebido para destros é de 1 em 4,4 milhões.
  • Ser atingido por um meteoro é muitíssimo mais provável do que ganhar na loteria: 1 probabilidade em 700 mil.
  • Ser eletrocutado por um raio e morrer é quatro vezes mais provável que acertar o prêmio grande (1 em 10 milhões).
  • Esta é pior: qualquer um de nós tem mais risco de morrer de infecção bacteriana do que ganhar na loteria (1 em 1 milhão).
  • Dar à luz quadrigêmeos idênticos também é mais provável do que acertar todas as dezenas (1 em 13 milhões).

Parece que até a chance de ganhar o Oscar é maior do que tirar a sorte grande. Só que, para chegar lá, é aconselhado estrelar primeiro um filme.

In the subway

José Horta Manzano

Um estudo levado a cabo anos atrás por biólogos da Universidade do Colorado constatou que o ar que se respira nos labirintos subterrâneos do metrô nova-iorquino não é lá essas coisas. Imagino que a conclusão possa ser estendida a todos os sistemas de metrô do planeta.

Apesar da ventilação forçada e dos filtros, cerca de 15% das amostras de ar colhidas nas plataformas é constituída de… pele.

Os cientistas decidiram investigar mais a fundo para conhecer a proveniência exata dessa pelanca toda. Descobriram que a maior parte provinha da cabeça e da sola dos sapatos dos viajantes. Além disso, uns 12% da pele provinha de outras zonas do corpo: do umbigo, do ouvido, das axilas e do bum-bum.

Bon voyage! Have a nice trip!

A moda do “fake” se alastra até a China

José Horta Manzano

Parece que a moda que nos obriga a conviver com uma realidade paralela já chegou até a China. Alguém já imaginou organizar os Jogos Olímpicos de Inverno na região de Garanhuns (PE)? Parece coisa de maluco, não é? Pois deve haver no mundo muito mais malucos do que se imagina. E alguns ocupam cargos de importância planetária. Antes dos finalmentes, vamos aos considerandos.

No Brasil, Olimpíada de Inverno não tem repercussão, o que é compreensível. Pra quem não sabe, ela ocorre de quatro em quatro anos, intercalada com os Jogos de Verão, que já tiveram lugar no Rio de Janeiro e que ficaram na história do país pelo “legado” que deixaram.

A China foi designada para abrigar a edição invernal deste ano, que começa no fim de semana que vem. Até aí, nada de espantoso. O clima do país, em princípio, é compatível com os requisitos dos esportes de gelo e neve. Na região escolhida – Pequim e seus arredores – faz um frio congelante no inverno. Em janeiro, a temperatura oscila entre 7°C abaixo de zero de noite e 3° abaixo de zero no momento mais “quente” do dia. É pra pinguim nenhum botar defeito.

Só que tem um probleminha: não neva. Embora muito morador dos trópicos acredite que basta fazer um frio do cão pra cair neve, não é bem assim. Neve é precipitação, exatamente como chuva. Pra nevar, é preciso que haja nuvens e umidade. Com céu claro e sem nuvens dia e noite, não tem como nevar.

Assim, escolher organizar os Jogos de Inverno em Pequim equivale a escolher organizá-los em Garanhuns. Ambas as cidades têm morros por perto, onde pistas de esqui podem ser facilmente desenhadas. Estádio olímpico, é fácil construir, principalmente com dinheiro público. Propaganda, é fácil fazer. Povo entusiasta, é sempre fácil encontrar. Só que cada uma das sedes tem seu problema. Enquanto Garanhuns não tem frio suficiente pra aguentar a parada, Pequim não tem neve. Como contornar o problema?

Estamos entrando nos Jogos Olímpicos de Inverno mais antiecológicos da história. Primeiro, o leitor precisa saber que, na falta eventual de neve, as pistas de esqui podem ser atapetadas com neve artificial. Não, não se trata de neve de cinema, com floquinhos de plástico. A neve artificial é produzida por canhões de neve, enormes tubos que cospem no ar, geralmente à noite, quando todos dormem, água sob alta pressão. Ao entrar em contacto com o ar muito frio, as gotículas de água vaporizada se tranformam instantaneamente em flocos de neve.

Todas as pistas de esqui do mundo dispõem de dezenas desses dispositivos. Servem para completar o tapete de neve nas pistas, quando já está bastante achatado pela passagem dos esquiadores e quando o tempo anda claro, sem precipitações. Só servem para suprir uma certa porcentagem do cobertor branco.

O problema é que em Pequim, região semidesértica situada junto à poeirenta aridez que recobre a China central e ocidental, toda a neve das pistas será artificial. Todinha. Tudo 100% artificial. A paisagem das colinas onde estão as pistas está sui-generis: faixas brancas que serpenteiam em meio a montes escuros e totalmente desprovidos de neve. Bem pouco natural. (Confira a imagem na entrada do artigo.)

Evidentemente, os canhões espirram água e são movidos a combustível fóssil. Pra começar, precisa levar água até lá em cima, o que consome uma enormidade de energia. Em seguida, o funcionamento de centenas deles durante duas semanas, numa região já altamente poluída, só vai fazer aumentar o grau de poluição que os pequineses terão de respirar. Atenção: respirar sem reclamar, como costuma ser na China. Todos estão convidados a aplaudir. E ai de quem der um pio!

Fica agora uma dúvida ingrata. A escolha do Catar para a Copa do Mundo foi obra dos conchavos e da notória corrupção da Fifa. Onde já se viu jogar futebol no deserto, num país sem nenhuma tradição esportista, onde não se joga nem futebol de várzea (mesmo porque não há várzea)?

Será que o COI (Comitê Olímpico Internacional), que cuida das Olimpíadas, sofre do mesmo mal?

Aux armes, citoyens!

José Horta Manzano

A plataforma de notícias políticas Poder 360 informa que, nos três últimos anos, o valor das importações de armas de mão (pistolas e revólveres) mais que triplicou. É a Era Bolsonaro em todo esplendor.

Infelizmente, as estatísticas não informam qual é a porcentagem desse arsenal que foi parar em mãos de milicianos, do crime organizado e da pequena delinquência. Por furto, roubo ou até importação direta.

Também não temos estatísticas para confirmar se, com essa profusão de armas de fogo, o Brasil se tornou um país mais seguro e mais civilizado. Pessoalmente, aposto que não. Não sei o que acha o distinto leitor; quanto a mim, acredito que, se não ficou igual, piorou.

O clandestino do voo cargueiro

Comunicado da polícia holandesa
23 jan° 2022

José Horta Manzano

Para um indivíduo jovem e ágil, é bastante fácil penetrar no compartimento onde se aloja o trem de aterrissagem de um avião. Precisa subir na roda, escalar a haste metálica como quem trepa num coqueiro, e saltar no compartimento. Após a decolagem, com a roda recolhida, ainda há espaço de sobra para uma pessoa.

Dizem que jovem é inconsciente, mas alguns são mais inconscientes que a média. As estatísticas informam que, nos últimos 75 anos, 128 desajuizados decidiram se esgueirar pela pista do aeroporto, subir num compartimento de trem de aterrissagem e tentar assim escapar de uma vida de miséria para recomeçar em algum Eldorado europeu ou norte-americano. Desse contingente de aventureiros, 75% morreram de queda ou congelamento. A taxa de insucesso desse tipo de empreitada é tremendamente elevada.

De vez em quando, ocorre um milagre. Foi o que aconteceu, estes dias, com um homem do qual não se sabe, até o momento, nem nome nem origem. Num avião cargueiro proveniente da África da Sul, funcionários do aeroporto de Amsterdam (Holanda) descobriram um corpo inanimado no poço onde se aloja o trem de aterrissagem. É bom lembrar que Johannesburgo fica a mais de 10h de voo.

A polícia foi acionada. Num primeiro exame, tiveram a impressão de que o homem não estava morto. Acionaram os bombeiros. Confirmado o diagnóstico, o infeliz foi transportado para um hospital em estado de profunda hipotermia. A temperatura do corpo estava bem abaixo dos 37°C regulamentares, mas o indivíduo ainda respirava. Bem lentamente, quase imperceptivelmente, mas respirava. Neste domingo, continua internado, ainda inconsciente. Por incrível que possa parecer, é possível que se recupere. Vai levar tempo e ninguém sabe quais serão as sequelas.

Especialistas ensinam que, além de enfrentar atmosfera rarefeita em voo, os clandestinos têm de lidar com temperaturas de 50°C abaixo de zero. Quase nenhum deles chega ao destino com vida. Mas há (raros) casos em que a descida rápida de temperatura externa provoca perda de consciência e entrada num estado de hibernação. A temperatura corpórea cai e todo o metabolismo entra em letargia – incluindo a respiração. Deve ter sido o que ocorreu com o homem que chegou a Amsterdam.

O caso do clandestino do voo Johannesburgo-Amsterdam (parece nome de filme) há de atrair a atenção de certos milionários que chegam a pagar fortunas para serem congelados após o falecimento, não sem antes deixarem instruções para que os despertem assim que for encontrada cura para a doença que os matou.

Nosso clandestino, imagino, deve ser moço jovem, com uma vida inteira pela frente. Em casos assim, até que pode valer a pena arriscar. É mais difícil entender os que pagam para que o próprio cadáver seja congelado. Em geral, são pessoas idosas – milionárias, sim, mas entradas em anos. Ainda que a cura do mal que as matou fosse encontrada e que elas pudessem ser reanimadas e trazidas de volta à vida, não voltariam jovens. Teriam sempre os mesmos anos e estariam sujeitas às doenças de todos os velhos, exatamente como os demais mortais. Será que vale mesmo a pena?

Avaliação

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Em numerosos momentos da vida, a gente é obrigado a provar que está apto para ser admitido em determinado círculo ou confraria. Em meu caso pessoal, a lembrança mais antiga que me ocorre é a da primeira comunhão. Antes de subir ao altar para abrir a boca e receber a hóstia, era preciso seguir um cursinho preparatório, que a gente chamava de Catecismo. Sem isso, nada de festa, nada de mesa de doces, nada de foto de fotógrafo e, principalmente, nada de hóstia.

Depois dessa, em muitas outras ocasiões tive, como qualquer cidadão, de demonstrar que estava preparado para a empreitada. Quem quer entrar na faculdade tem de ser aprovado num exame, seja qual for o nome que lhe atribuírem: Enem, vestibular ou outro. No mundo todo é assim. Curso superior não recebe qualquer um. O postulante tem de ser aprovado, seja pelo currículo escolar, seja por um exame de entrada.

Para assumir um emprego, o ritual é o mesmo. Currículo, entrevista, avaliação. Quer o processo se desenrole à antiga, com currículo batido à máquina em papel almaço e entrevistador cara a cara, quer decorra em modo covid, com troca de emails e entrevista por skype, o negócio é o mesmo: todo candidato entra num funil que só vai deixar passar os melhores.

E assim por diante. Candidatos a uma imigração, a um visto consular, a uma naturalização, a uma bolsa de estudos, a uma promoção passam necessariamente por uma seleção em que serão avaliados. Na hora de tirar carteira de motorista, por exemplo, ninguém escapa de passar pelo exame.

Já disse isso em outras ocasiões, mas quero repetir aqui. Digamos que o distinto leitor queira se candidatar a um emprego, seja ele de doutor ou de operário. Nenhum empregador o acolherá assim, de mão beijada, sem verificar sua aptidão para o cargo. Esse ritual não espanta ninguém. Todos nós o encaramos com naturalidade.

A cada quatro anos, é hora de escolher o presidente da República. A lei especifica certas condições para se candidatar. Idade, nacionalidade, filiação partidária estão entre elas. Mas não há nada que lembre, nem de perto nem de longe, um exame básico de avaliação, nem que fosse pra verificar se o indivíduo bate bem da bola.

Assim, quem pretende dirigir um Renault Kwid tem de passar obrigatoriamente por um exame de avaliação que ateste sua aptidão pra não sair por aí dando trombada e ameaçando a vida dos outros. No entanto, aquele que pretende dirigir o Brasil pode se candidatar sem problema, sem exame, sem avaliação. Se eleito (por um povo que não teve como avaliar sua aptidão), estará livre pra sair por aí dando trombada em Deus e o mundo e ameaçando a vida da população.

Esses problemas, que parecem piada, ocorreram na era Bolsonaro. O capitão saiu dando trombada e entrou em colisão com a China, a França, a Alemanha, a Noruega, a Argentina, o Chile, os países árabes. Com seu negacionismo destrambelhado, ainda ameaçou a vida da população brasileira. Aliás, não só ameaçou: executou a ameaça.

Até ontem, a instauração de um exame de avaliação de candidatos à Presidência da República podia parecer ideia de maluco, um atentado contra os costumes da República, uma exigência estapafúrdia e inútil. Agora, depois do furacão bolsonárico, tornou-se necessidade tangível.

Suas Excelências têm a obrigação urgente de completar a legislação. O futuro da nação não pode continuar desprotegido, refém do próximo populista desequilibrado que aparecer na esquina.

Uma prova de aptidão tem de ser exigida de todos os que se candidatarem a dirigir os 212 milhões de brasileiros. Pelo menos uma avaliação de saúde mental levada a cabo por um colégio de doutores qualificados.

Se tivéssemos tido um dispositivo desse tipo, o país não estaria sendo destruído por um destrambelhado. O Brasil não aguenta outro Bolsonaro.

No meu governo, não tem corrupção! – 2

Estadão, 12 jan° 2022


Não tem corrupção? Peculato é corrupção ativa!


José Horta Manzano

Os dicionários informam que o crime de peculato consiste no desvio de dinheiro público para proveito próprio ou alheio, cometido pelo funcionário que os administra. Configura abuso de confiança pública.

Bolsonaro, que nunca mostrou compaixão pelo sofrimento do povo que o elegeu, não instituiu esse mimo a seus auxiliares diretos por sentir pena dos coitados que têm de sofrer horas e horas, perna encolhida, quiçá ao lado de uma empregada doméstica (que horror, Guedes!), a caminho da Disneylândia. Se instituiu essa regra, foi para garantir que os beneficiados lhe sigam fiéis, o que caracteriza desvio de fundos da nação em causa própria.

Tivéssemos instituições dignas, ele perigava perder o mandato. Corrupção não é só receber favores, é também usar o dinheiro do povo para cooptar personalidades em proveito próprio.

Peculato é crime comum. Apesar do nome bonito, é roubo. Não é crime de responsabilidade, que só dá perda de mandato. Peculato dá cadeia.

Entre os males que o lulopetismo legou ao país está um conceito distorcido de corrupção. A Lava a Jato destampou uma enorme caixa de Pandora. De lá saíram milhares, milhões, bilhões de notas verdinhas. Transportadas em valises, malas, baús – e até em cuecas – foram aterrissar em abrigos vários, uns mais seguros que outros.

Houve quem confiasse a banco suíço, ignorando que o segredo bancário no país alpino já havia sido abolido. Houve quem investisse em resort na espanhola Costa del Sol, sem saber que já existiam acordos de cooperação judiciária transnacional. Houve quem fugisse para a Itália, na ilusão de ser blindado pela dupla cidadania. Houve até quem usasse como cofre-forte um… apartamento em Salvador. Requintada falta de originalidade.

Depois de assistir a todos esses podres, o brasileiro passou a imaginar que a corrupção tinha necessariamente de envolver somas fabulosas, sempre em dinheiro vivo. Fora disso, corrupção não era.

Errado. Todo suborno – ou tentativa de suborno – entra na abrangência do crime de corrupção. Quem dá é o corruptor, o ativo; quem aceita é o corrompido, o passivo. Ambos incorrem no mesmo crime de corrupção. Apropriar-se ilegalmente de informações privilegiadas e usá-las em benefício próprio também se enquadra no mesmo conceito.

Isso visto, que não venha o capitão bater no peito e declarar que, em seu governo, não há corrupção. Um dos primeiros fatos tortos de sua gestão, do qual hoje pouco se fala, foi a vingança que ele exerceu contra um fiscal que o tinha multado por pescar em local proibido. Lembram-se?

Pois essa vingança se enquadra no quesito corrupção. Para concretizar sua vingança, o doutor teve de procurar saber quem era o fiscal, em que repartição trabalhava, quem era o chefe. São informações confidenciais, não disponíveis ao cidadão comum.

Bolsonaro valeu-se, portanto, de informações privilegiadas obtidas ilegalmente e as usou em benefício próprio. Um benefício mesquinho e maldoso, diga-se.

Se as autoridades que têm poder para tanto tivessem levantado o espectro do impeachment já naquele momento, talvez o capitão já estivesse atrás das grades e nós, o povo, não tivéssemos chegado às eleições de 2022 tendo de escolher entre a peste bubônica e o cólera-morbo.

Passaporte vacinal falso

José Horta Manzano

Em resposta ao questionamento de parlamentares, Monsieur Olivier Véran, ministro da Saúde da França, revelou hoje que 1 em cada 20 pacientes internados por covid era portador de passaporte vacinal falso.

Lembrou que os titulares de um passaporte vacinal falso se expõem ao risco de serem condenados a até 5 anos de cadeia, além de serem “premiados” com multa de 75 mil euros (480 mil reais).

Os hospitalizados, se escaparem da infecção, não escaparão da justiça. Assim que estiverem recuperados, terão de responder ao processo.

Moral da história
Declarações falsas não protegem contra a epidemia e ainda podem custar (muito) caro. Fazendo bem as contas, não vale a pena trapacear.

Partido Democrata x Partido Republicano

José Horta Manzano


“In our closely divided and highly polarized country, each party is likely to hold power at some point in coming years. But when the Republican Party does, it may change the rules to ensure that it remains in power, as Trump tried in 2020 and as Viktor Orban has done in Hungary.”

“Em nosso país extremamente dividido e polarizado, cada um dos partidos tem chance de assumir o poder nos próximos anos. Mas quando chegar a vez do Partido Republicano, ele pode mexer nas regras a fim de garantir sua permanência no poder, como Trump tentou em 2020 e Viktor Orbán conseguiu na Hungria.”

David Leonhardt, em artigo no The New York Times, 6 jan° 2022


No Brasil, a inacreditável pulverização partidária torna menos viável essa sombria possibilidade que pesa sobre os EUA.

Nosso sistema de coalizão por cooptação faz que a maioria parlamentar se desloque sistematicamente em direção ao centro do poder, pouco importando quem for o chefe do governo.

Entre nós, etiquetas partidárias importam menos que interesses pessoais e paroquiais. No Brasil, o voto ideológico não passa de figura de linguagem. Nunca vai além do palanque eleitoral.

De certo modo, é até bom que assim seja.