Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

Missionário no exterior

José Horta Manzano

Sem intenção de afrontar a notória abertura de espírito do culto ministro Ernesto Araújo, pergunto-me em que medida o passaporte diplomático que ele concedeu ao casal Edir Macedo Bezerra pode ajudar o eclesiástico a “desempenhar de maneira mais eficiente suas atividades em prol das comunidades brasileiras no exterior”.

Que tem o passaporte a ver com atividades episcopais do titular? Um doce pra quem puder informar. Cartas para a redação, por favor.

Nota da redação postada em 17 abr 2019
Um juiz federal do Rio de Janeiro confortou este blogueiro no entendimento de que não tem cabimento conceder passaporte diplomático a um eclesiástico sob pretexto de que costuma partir para viagens missionárias. Em sábio juridiquês, o magistrado deu despacho cassando o documento.

Aguardemos o próximo capítulo. Num país extremamente judiciarizado como o nosso, nunca se sabe. Batalhas judiciais são intermináveis, principalmente para quem tem (muito) dinheiro. É voz corrente que donos de igrejas neopentecostais vivem em abastança.

O saco e o xixi

José Horta Manzano

Vinte e oito anos é a duração de um ciclo bem conhecido dos astrólogos. É aproximadamente o tempo que Saturno leva pra dar uma volta ao Sol.

Dia 3 de abril de 1991, uma manifestação de protesto deixou Fernando Collor de Mello, então presidente da República, muito avexado. O doutor explodiu e berrou a quem o quis ouvir : «Eu tenho aquilo roxo!». Não ousou dar nome ao «aquilo», mas todos entenderam. A frase ficou na história da República como um dos (hoje frequentes) exemplos de mau gosto e de vulgaridade presidencial.

Ninguém imaginava, naquela altura, que uma cachoeira de baixezas estaria por se instalar na fala de presidentes. E de ‘presidentas’. Nenhum dos sucessores, no entanto, teve a ideia de se valer de expressões situadas abaixo da cintura.

Vinte e oito anos e dois dias se passaram, mas Saturno não costuma falhar. Doutor Bolsonaro acaba de nos brindar com um fabuloso «vale a pena ouvir de novo». Ainda que menos viril e mais pueril, a reprise de 1991 é boa. Tanto quanto a precedente, a metáfora de doutor Bolsonaro ronda o campo da escatologia, tema não necessariamente benfazejo para presidentes.

Um ano e pouco depois de clamar a própria virilidade, doutor Collor de Mello estava no chão, destituído nos conformes, metaforicamente emasculado. Doutor Bolsonaro que se cuide. Confissões públicas muito próximas do piupiu do declarante não são bom caminho.

De esquerda ou de direita?

José Horta Manzano

O Oriente Médio é prova de fogo pra qualquer aventureiro. É uma corda estendida à altura do tornozelo, pronta a jogar ao chão qualquer político forasteiro que ouse arriscar-se a tomar posição ou simplesmente emitir opinião sobre as desavenças locais. Não há como escapar: se se agrada a um lado, desagrada-se ao outro. O melhor mesmo é ser cortês com todos e evitar tomar partido. Em público, pelo menos.

Nesse particular, dois dos mais recentes presidentes de nossa República foram particularmente infelizes. Com jeitão presunçoso de quem diz «deixa, que o papai aqui resolve», Lula da Silva causou um estrago na imagem de relativa neutralidade que o Brasil mantinha até então em assuntos médio-orientais. Ao tentar resolver, à valentona, o conflito milenar, trocou os pés pelas mãos e foi expulso do ringue. Tendo forçado a porta da frente, acabou atirado pela janela dos fundos. E não resolveu nadinha.

Vai, agora, doutor Bolsonaro… e repete a dose. Sua intervenção foi menos presunçosa que a do antecessor, é verdade, mas deixou patente sua constrangedora ingenuidade e sua absoluta falta de traquejo em assuntos internacionais. Tendo em linha de mira o naco neopentecostal de seu eleitorado, houve por bem tomar abertamente partido por um dos contendores no conflito da região. Naturalmente, despertou a ira do outro litigante, que, por acaso, é um dos principais clientes do agronegócio brasileiro. Uma temeridade.

Uma desgraça não costuma vir sozinha. Doutor Araújo, aquele que usa barba de djihadista e exerce as funções de ministro das Relações Exteriores, declarou a repórteres que o nazismo era um movimento de esquerda. Dado que o moço já tem pronunciado babozeiras, os jornalistas correram pra doutor Bolsonaro pra perguntar-lhe o que achava da declaração. Decepcionou-se quem esperava ver o chefe dando um puxão de orelhas no pupilo desgarrado.

O presidente mostrou que seu raciocínio lógico continua estacionado ao nível da escola primária. Lembrou a todos que o partido nazista se chamava Partido Nacional Socialista, pois não? «Portanto, se era socialista, era de esquerda.» Elementar, meu caro Watson! Ai, ai, ai, que vergonha, minha gente! Se o Lula tinha escancarado ao mundo a ousadia dos ingênuos, doutor Bolsonaro acrescentou nova nuance: a firmeza de convicção que só aos ignorantes é permitida.

Não preciso dizer que, se a mídia internacional tinha deixado passar a declaração do ministro barbudo, deitou e rolou em cima da cândida confirmação do presidente. Deu em todos os jornais. Se estivesse faltando comprovação, ela aqui está: a ignorância não é de esquerda nem de direita ‒ é universal.

O tamanho e o formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares e de formato idêntico. Pois a realidade não é exatamente essa. O formato e as proporções das bandeiras são bastante variados. Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional, quanto a ela, segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão não de 1,5, mas de 1,429. Apenas duas nações seguem esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suíça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com a afiliação a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

ONU ‒ Sede europeia, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada. Lá está a bandeira vermelha de cruz branca. Quadradinha.

Artigo publicado originalmente em jan° 2017.

A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

Bando de cagão

José Horta Manzano

Tinha previsto algum escrito mais ameno pra este domingo. Mas certas notícias deixam de olho arregalado e pedem reação imediata. Não dá pra deixar esfriar.

É de conhecimento de todos que doutor Bolsonaro está de viagem pra Washington para visitar Mister Trump. Até aí, nada de extraordinário. Com as facilidades atuais de transporte, encontros entre chefes de Estado se multiplicam, o que só pode ajudar. O problema, desta vez, é que um dos primeiros-filhos viajou um dia antes pra participar de encontro com duas personalidades. Um deles é senhor Olavo de Carvalho, apresentado como seu guru. O outro é nada menos que Steve Bannon, sulfuroso personagem, um dos maiores desafetos de Donald Trump. Mister Bannon é figurinha carimbada da extrema-direita internacional, ligado a personagens racistas e supremacistas como a francesa Marine Le Pen e o holandês Geert Wilders.

Todos sabem que o clã Bolsonaro age e trabalha em uníssono. Na hora do vamos ver, o presidente tende sistematicamente a tomar o partido dos filhos contra todos os que se situarem ao exterior da família. Já aconteceu até com o superministro Moro, humilhado e obrigado a voltar atrás numa decisão que havia tomado, pra satisfazer ao capricho de um dos bolsonarinhos. Portanto, a presença do primeiro-filho na homenagem prestada a Mr. Bannon equivale à presença do próprio presidente.

Aproveitar da visita a Trump pra se encontrar com um de seus declarados inimigos é descortesia, pra dizer o mínimo. É atitude desajeitada, fruto da falta de traquejo social e político que caracteriza o clã que nos dirige. É um passo que nada agrega de bom. Pior que isso, lança uma sombra sobre a visita presidencial. Seria como se um chefe de Estado estrangeiro, em visita a doutor Bolsonaro, decidisse visitar antes Lula da Silva na cadeia. É tapa na cara que pega mal pra caramba.

Nos EUA com Steve Bannon.
A foto é sugestiva. Para o caso de o governo não vingar, a porta de saída já está preparada lá no fundo.

Nem Mr. Trump ‒ que ninguém acusaria de ser moderado ‒ guardou muito tempo Steve Bannon em seu entourage. Por que raios o clã Bolsonaro faz questão de adotar figura que o próprio ídolo deles já descartou? A pergunta complementar é: por que é que fazem isso em público e à luz do dia?

Agora vamos falar do estranho título deste artigo. Não é de mim, é citação naturalmente. Quem me conhece sabe que sou avesso a palavras de calão. Não fazem o estilo da casa. Citei, no título, uma frase elegante proferida pelo guru do clã Bolsonaro. Falo de senhor Olavo de Carvalho, descrito ora como professor, ora como filósofo, escritor ou pensador. Referindo-se à suposta inação de doutor Bolsonaro quando atingido por críticas, ele disse textualmente: «Ele não reage porque aquele bando de milico que o cerca é tudo um bando de cagão, que tem medo da mídia». Que distinção, não é mesmo?

Fico imaginando um linguajar desse jaez na boca de ilustres filósofos que antecederam senhor Carvalho. De Santo Agostinho a Leibniz, de Descartes a Schopenhauer, não dá pra cogitar algum deles tratando uma classe inteira de cidadãos de «bando de cagão». Em público! Isso está mais pra bêbado boca-suja em conversa de botequim depois das dez da noite.

Na entrevista concedida a jornalistas, o guru foi mais longe e deu diagnóstico taxativo. Disse que, a continuar do jeito que vai, esse governo não dura mais que seis meses. Se realmente o governo for pro espaço, senhor Olavo de Carvalho terá dado contribuição consistente para tal desfecho.

As pérolas de doutor Araújo

José Horta Manzano

Cronista que tem doutor Ernesto Araújo no Itamaraty nunca está desamparado. Nosso chanceler se encarrega de preencher a paisagem com pérolas diárias. Seu antecessor mais marcante foi doutor Celso Amorim, o chanceler do Lula, um dos principais responsáveis pela marginalização do Brasil que, sob sua batuta, se afastou do circuito dos países cuja voz é respeitada internacionalmente.

Confesso que, quando o chanceler do Lula saiu de cena, senti um misto de alívio e de apreensão. O alívio vinha do fato de não ser possível imaginar pior desempenho à frente do Itamaraty. A apreensão vinha do sentimento de que aquela folclórica criatura fosse insubstituível. Havia o receio de que, depois dele, não haveria mais do que falar.

O desempenho de doutor Araújo tem causado frustração e consolo. Frustração porque ele nos ensinou que, por mais que a atuação de alguém deixe a desejar, seu sucessor pode ser ainda pior. E consolo porque, pelo menos, temos matéria diária a comentar.

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Segunda-feira desta semana, doutor Araújo discursou para alunos do Instituto Rio Branco. Discorrendo sobre o comércio exterior brasileiro nas últimas décadas, seguiu raciocínio primário e linear. Disse que a opção de integração com a América Latina, a Europa e o Brics foi equivocada. O doutor se esquece de que, na hora de vender seu peixe, o produtor não escolhe cliente, mas vende àqueles que estiverem dispostos a comprar. Se o Brasil vende soja e minério de ferro à China é porque ela compra e paga o preço. Não há aí nem um suspiro de ideologia.

Continuando na mesma linha de comparar o incomparável, o chanceler lembrou que o Brasil foi o país de mais forte crescimento quando seu principal parceiro eram os EUA. E que, desde que passou a vender à China, estagnou. O argumento é falacioso. O comércio exterior é apenas um dos elementos da economia. Se atrelar a economia nacional à dos EUA levasse a progresso fulgurante, o México ‒ cuja economia está visceralmente ligada à do vizinho do norte, que lhe absorve majoritariamente as exportações ‒ seria a economia mais florescente do planeta. A realidade não é bem essa.

Os óculos de doutor Araújo o fazem enxergar ideologia até em transações comerciais. Dependesse dele, é possível que toda exportação para a China e para a Europa fosse barrada. Felizmente o mundo é bem mais vasto do que as lentes do chanceler permitem ver. Por sorte não compete ao ministro das Relações Exteriores determinar quem pode e quem não pode comprar produtos brasileiros. Assim, nossa pauta de exportação continuará a vender a quem estiver interessado em comprar. E a pagar.

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Warum einfach? ‒ 2

José Horta Manzano

Conhece a história daquele sujeito que, tendo encontrado a esposa no sofá da sala com o amante, quebrou o sofá? Pois é, coisas assim também ocorrem na vida real.

Em 2008, numa Venezuela que ainda funcionava, señor Hugo Chávez mandava e desmandava. Num Brasil pré-Lava a Jato, muita gente ainda aplaudia o Lula, então aboletado no Planalto. No intuito de tirar os EUA do dia a dia da América do Sul, os dois mandachuvas concretizaram um velho sonho do pessoal da ala situada mais à esquerda: implantaram a Unasul. A organização, irmã-gêmea da OEA (Organização dos Estados Americanos), congrega todos os países independentes da América do Sul continental. Com uma característica significativa: exclui os Estados Unidos.

Mas o mundo gira e, de lá pra cá, muita coisa mudou. Pra começar, não se tem notícia de que algum benefício gerado pela nova organização possa justificar os gastos de seu orçamento. No palco político, Chávez morreu, a Venezuela foi pro buraco, o Lula mudou-se para a cadeia, a argentina Cristina Kirchner está a um passo da penitenciária, o equatoriano Rafael Correia foi apeado do trono. A base ideológica de sustentação da Unasul entrou em colapso.

No Brasil, na sequência da eleição, um dos filhos do presidente ‒ aquele que é deputado federal ‒ deve presidir a Comissão de Relações Exteriores da Câmara. A ambição do jovem é brilhar no campo internacional. Vai fazer tabelinha com doutor Araújo, ministro da área.

Doutor Eduardo Bolsonaro é aquele que passeou nos EUA levando, enfiado na cabeça, um boné com os dizeres «Trump 2020» ‒ coisa fina. Doutor Araújo é aquele que sonha em transformar nosso país em trepadeira parasita, daquelas que grudam no tronco da árvore maior e sobrevivem sugando-lhe gotas de seiva. (A árvore, o distinto leitor entendeu, são os EUA.) Com os dois à frente de nossa diplomacia, estamos bem arranjados.

O primeiro-filho vai valer-se da força que lhe dá a Comissão de Relações Exteriores para bombardear a Unasul. Pelo que tem declarado, vai agir como o sujeito que quebrou o sofá. Está convencido de que a organização criada por Chávez e pelo Lula é um ninho de perigosos esquerdistas. Pra pôr remédio, não lhe passou pela cabeça recalibrar a contratação e redistribuir as tarefas do pessoal. Prefere desmontar a organização, mandar todos embora, fazer tábula rasa. Em seguida, será erguida nova organização, segundo moldes idênticos aos da atual. Só que, desta vez, sem esquerdistas.

Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?
Por que fazer simples, se complicado também funciona?
Máxima alemã

Aceita um passaporte?

José Horta Manzano

Se o distinto leitor faz parte dos ingênuos que acreditavam que passaporte diplomático é expedido unicamente para diplomatas em missão no exterior, perca as ilusões. Entre os detentores de passaporte diplomático ou oficial, diplomatas são pequena minoria. Na realidade, toda a casta do andar de cima tem direito garantido a receber um desses dois documentos. São milhares de pessoas, que não necessariamente viajam a serviço do país.

Entre outros cidadãos, podem solicitar passaporte diplomático ou oficial os que se enquadrem nas seguintes categorias:

  • Presidente, vice-presidente e governadores
  • Senadores e deputados federais
  • Ministros do STF, do TSJ e do TCU
  • Servidores da administração direta em missão oficial
  • Servidores de todas as autarquias federais e estaduais, ainda que não estejam em missão oficial

Se, aos servidores, adicionarmos mulher e filhos, são muitos milhares de privilegiados.

Um mortal comum tem de pagar mais de 250 reais pelo passaporte normal. Já o documento diplomático que, pela importância simbólica, deveria custar mais caro, sai de graça para o titular. Pagamos nós.

Em se tratando de funcionário não diplomático, o passaporte deveria ser válido pelo tempo que durará a missão. Se, por exemplo, um grupo de deputados viaja à China por dez dias, cada parlamentar deveria receber passaporte válido para a China e por dez dias. Na prática, no entanto, não funciona assim. Os documentos são expedidos com validade de 2 ou até 4 anos, independentemente da duração da missão. Ora vejam!

Tirando diplomatas de carreira, que deixam o país com a família e partem para longas missões, os demais não levam necessariamente familiares. Se decidem levar a família a tiracolo para um giro turístico, isso deveria ser problema deles. Mas nossa administração é generosa. Passaportes diplomáticos ou oficiais válidos por anos são concedidos a granel: ao titular, à esposa, aos filhos e a eventuais dependentes.

Ah, que perca as ilusões também quem tinha esperança de que a chegada de novos parlamentares estreantes fosse pôr freio a esses desequilíbios dignos de outras eras. O Globo informa que, só durante o mês de fevereiro, atendendo à solicitação de Suas Excelências, a Câmara Federal concedeu 78 passaportes diplomáticos a parlamentares mais 77 aos respectivos cônjuges e filhos.

Antes da eleição, é fácil pregar a moralização de práticas tortas. Na hora agá, a conversa muda. Nas trevas dos velhos vícios, ainda não se enxerga luz no fim do túnel.

PS
Passaporte oficial e diplomático não trazem grande vantagem ao titular. Em princípio, permitem furar fila, só que esse costume de dar carteirada é desconhecido em terras mais civilizadas. O que esses passaportes especiais fazem, no fundo, é afagar o ego do detentor. O bobão se sente importante como um potentado africano.

Intolerância religiosa

José Horta Manzano

Num rabicho de Carnaval, à falta de notícia mais importante, a imprensa dá conta da grita que se levantou na Câmara Federal contra os Gaviões da Fiel. Por meio de seus líderes, a bancada evangélica fez saber sua indignação com o tema escolhido por aquela escola para animar o desfile este ano. A letra, com alusões a Jesus e a Satanás, chocou. Não entendi bem o que foi que incomodou, se as referências feitas a Jesus ou as que foram feitas a Satanás. Quem sabe o que arranhou mesmo o pudor de suas excelências foi a convivência dos dois personagens no mesmo ritmo.

Talvez fosse importante recordar aos parlamentares ofendidos que a base da filosofia de toda igreja é exatamente a dualidade entre o bem o mal. Todas as religiões, seitas e outros movimentos espirituais se propõem a propagar a melhor receita para resolver o embate entre esses dois polos. Os Gaviões não inventaram a pólvora. O bem e o mal convivem na vida nossa de cada dia. Ver seus símbolos assim, confrontados, não deveria ser matéria pra chocar ninguém.

O episódio, que ainda pode dar pano pra mangas e gerar até processo, é comprovação eloquente de que vivemos uma época de diluição de valores. A Polícia de Costumes está nas ruas, tesoura em punho, censurando o que entende e principalmente o que não entende. Hoje em dia, dependendo da pinta do galã, um assobio pode ser enquadrado como assédio sexual. Sons de samba-enredo ecoam até no Congresso Nacional – e geram manifestação de iracundos deputados. É um mundo de ponta-cabeça. Não se conhece mais o valor de cada mercadoria. Banana está sendo comprada por preço de caviar.

Que saudades dos tempos em que Carnaval era apenas Carnaval. Que saudades dos tempos em que se dava a cada fato apenas a importância que tem. Ao acusar os foliões de “intolerância religiosa”, a bancada evangélica não se dá conta do papel ridículo. Estão a inverter conceitos. Os intolerantes são justamente os senhores deputados! Os carnavalescos podem ser tratados de levianos, de irreverentes, até de apóstatas, mas não de intolerantes. As acusações estão invertidas.

Saudades dos tempos em que se podia berrar Alá-la-ô sem que ninguém se sentisse incomodado. Saudades dos tempos em que uma marchinha podia explicar à moça casadoira que se havia enganado de endereço, e que seria melhor bater à porta de Santo Antônio. Saudades dos tempos em que irreverência carnavalesca ficava por isso mesmo, e tudo bem. Será que essa página despreocupada foi virada para sempre? Será que o Brasil ingênuo se transformou numa gigantesca seita?

Tsunami de gelo

José Horta Manzano

Maciços montanhosos costumam abrigar lagos de altitude. Alguns são alimentados por curso d’água afluente. Outros, por derretimento de alguma geleira ou das neves invernais. Há ainda os que entram nas duas categorias – é o caso do Lago de Joux. Ele é alimentado pelas neves do inverno rigoroso e pelas águas do Orbe, rio que entra por um lado, atravessa a massa d’água e sai na outra ponta. Com 21m de profundidade, o Lago de Joux fica a uma altitude de 1000 metros. Mede 9km de comprimento por 1km de largura.

Lago de Joux no verão

Ao redor, está um rosário de cidadezinhas que, há séculos, se especializaram em fabricar relógios, escolha explicada pelo sistema de trabalho familiar. Tradicionalmente, cada família era especializada na fabricação de determinados componentes do relógio. Os longos invernos favorecem o trabalho em casa. A fábrica propriamente dita costumava ser mais montadora que fabricadora. Recolhidas as peças talhadas pelas famílias, faziam a montagem final dos relógios. Se a moderna automatização praticamente deu cabo do sistema, certo número de marcas importantes ainda produzem ao redor do lago.

Lago de Joux no inverno

Quando, no inverno rigoroso, a temperatura fica abaixo de zero durante alguns dias, uma camada de gelo se forma na superfície do Lago de Joux. Dependendo da espessura, dá pra passear em cima – calçando patins, que senão escorrega. Em algumas ocasiões, desde que determinados fatores estejam reunidos, esse gelo pode dar origem a um tsunami. Não é todo ano que acontece, mas foi o que se viu neste 2019.

Quando chega março, as travas do inverno começam a afrouxar. Na região, costumava ocorrer em abril, mas o aquecimento global tem encurtado o período frio. À medida que a temperatura se eleva, a camada de gelo vai afinando. Se, nessa altura, vier um dia de vento forte e contínuo, estarão reunidas as condições pra um tsunami gelado. A um dado momento, milhões de plaquinhas de gelo de poucos centímetros de espessura vão se desprender da superfície do lago, sair voando e encalhar na margem, formando montes de gelo.

O fenômeno dura poucos minutos. Nos tempos de antigamente, o espetáculo era reservado pra quem fosse da região. Hoje, que todo o mundo leva uma filmadora no bolso, ficou mais fácil. Faz dois dias, um passante, ao assistir ao tsunami de 2019, sacou rápido do celular e registrou essas impressionantes imagens. Não é perigoso como maremotos, mas é raro, curioso e original.

Tracambistas

José Horta Manzano

Na Suíça, país onde a mão de obra tem custo elevadíssimo, faz tempo que se tende a mecanizar o trabalho humano. A “moça do café” nunca existiu. Quem quiser adoçar a boca, enfia uma moedinha na máquina que fica no corredor, aperta o botão correspondende, e pronto. A profissão de cobrador de ônibus também é desconhecida. No tempo em que se comprava passagem dentro do veículo, quem vendia era o próprio motorista.

Já faz muitos anos, porém, que não se pode mais comprar bilhete dentro de ônibus. Para não viajar de “pendura”, arriscado a ser flagrado e levar multa, há duas opções. Para quem usa transporte coletivo frequente e regularmente, é conveniente comprar assinatura mensal ou anual – paga-se de uma vez e não se pensa mais nisso. Outra possibilidade, preferida pelos que viajam menos, é a compra a varejo. Cada vez mais gente compra pelo smartphone, mas boa parte dos bilhetes ainda é comprada nas máquinas instaladas em cada ponto de ônibus.

Antigamente, eram máquinas simples. Pelo menos, assim me pareciam. Hoje em dia são complicadíssimas, cheias de botões, com guia vocal, luzinhas aqui e ali. Mas o princípio é sempre o mesmo: toca-se aqui e ali pra indicar o trajeto e, em seguida, enfia-se a moeda na fenda. A máquina emite o bilhete e devolve o troco. Até aí, estamos todos de acordo. O complicador vem agora.

A moeda suíça de maior valor é a de 5 francos (= 19 reais). Acontece que a moeda russa de 1 rublo tem diâmetro e peso idênticos. A diferença é que não vale quase nada: 6 centavos de real. As máquinas de vender bilhete – um tanto antigas, é verdade – não conseguem distinguir entre as duas. Pronto, está aberta a porta pra tracambistas. (Tracambistas são fraudadores, só que a palavra me parece bem mais expressiva, especialmente neste caso.)

A boa-nova já se espalhou pelos lados da Rússia, Moldávia e cercanias. Os funcionários que esvaziam a máquina não passam um dia sem encontrar moedas de rublo. A astúcia consiste em comprar um bilhete de 2,40 francos e dar em pagamento moeda de 1 rublo. Entendendo que recebeu 5 francos, a máquina vai devolver 2,60 francos. Não é nenhuma fortuna mas, se o indivíduo repetir a operação vinte vezes por dia, vai amealhar cerca de 200 reais. No mole. É só tomar cuidado pra não dar demais na vista.

A prefeitura de Lausanne manda avisar que, visto que os usuários preferem, cada vez mais, comprar pelo celular, as máquinas atuais não serão substituídas. Vão ser gastas até a lona. Aviso aos amadores.

Estatísticas de 1912 – corrigenda

José Horta Manzano

Faz dez dias, publiquei um artigo que detalhava a produção industrial do Estado de São Paulo cem anos atrás. Na ocasião, confessei minha ignorância quanto ao significado de «chapéu de chuva», oposto a «chapéu de cabeça» ‒ que apareciam entre os itens industriais.

Uma amiga minha, habituada ao falar luso, trouxe a boia salva-vidas. Ela me ensinou que em Portugal, ainda hoje, guarda-chuva se diz chapéu de chuva.

Mas é claro! As estatísticas paulistas de 1912 faziam a diferença entre os dois tipos de chapéu. De um lado, estavam os «chapéus de cabeça». De outro, os «chapéus de sol e de chuva», ou seja, sombrinhas e guarda-chuvas.

Agradeço a minha amiga pela argúcia e pela preciosa informação.

Jeitinho venezuelano

José Horta Manzano

Os tempos estão duros pra ditadores e tiranetes à moda antiga. Os únicos que, bem ou mal, ainda conseguem se segurar são os que reinam sobre povo sem acesso à informação. É o caso, por exemplo, da Coreia do Norte, país trancado, onde ninguém tem celular, nem parabólica, nem internet livre. Ignorando o que se passa fora das fronteiras, os habitantes se alimentam de cobras e lagartos, convencidos de estar comendo caviar. Há ainda o caso de países muito atrasados, onde nem é necessário trancar o país, pois a própria ignorância serve de freio. É o que ocorre com diversos países africanos.

Como se deduz do parágrafo anterior, o xis da questão é o acesso à informação. Na medida que desconhece o que está ocorrendo em casa e no mundo, o povo fica mansinho. A partir do momento em que tem acesso a informações escabrosas, ninguém mais segura a massa enfurecida. Foi, por exemplo, o que aconteceu no Brasil com a ampla difusão dos ‘malfeitos’ da classe dirigente: uma ‘presidenta’ caiu, um ex-presidente está na cadeia e partidos outrora dominantes foram dizimados.

Na Venezuela, país de povo antenado, o braço de ferro continua entre o ditador Maduro e o desafiante Guaidó. A população, como se sabe, está em situação desesperada, sem comida, sem remédios, sem itens básicos para uma vida digna. Toneladas de alimentos e remédios oferecidos como ajuda humanitária estão atualmente estocados às portas do país. A cada dia, aumenta o volume de bens doados. Concentram-se em Cúcuta, cidade colombiana na fronteira com a Venezuela. Começam a surgir também no Estado de Roraima, junto à fronteira. Há ainda gêneros estocados em Curaçao, país insular situado a duas braçadas da costa venezuelana.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Maduro mandou fechar as fronteiras e suspendeu o zarpamento em todos os portos do país. Ordenou ainda o bloqueio de voos privados e comerciais além da interrupção dos ferries que ligam o país às ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao.

Se deixar entrar essas toneladas de víveres, señor Maduro estará admitindo que uma crise humanitária está instalada no país ‒ fato que nenhum ditador quer reconhecer. Se não deixar entrar, ele mostrará ao mundo a face cruel e insensível do homem que prefere esfomear o povo a admitir que errou. Um dilema e tanto.

Saltando sobre a oportunidade, señor Guaidó ‒ o desafiante já reconhecido por 50 países como presidente legítimo ‒ está organizando marcha popular para ir apanhar os víveres do outro lado da fronteira. A caravana será animada com concertos ao ar livre. A estrutura do palco do show «Venezuela Aid Live» já está sendo montada ao lado da ponte internacional que liga o país à Colômbia. Artistas da Venezuela, da Colômbia, da Espanha, da República Dominicada e de Porto Rico participarão. Deve ter lugar no sábado.

Esta quinta-feira, señor Guaidó já está deixando Caracas em direção à fronteira colombiana. Viaja de automóvel, seguido pelos deputados da Assembleia Nacional, que vão de ônibus. Não se sabe ainda de que maneira a carga passará a fronteira. Mas esse é problema de menor importância. O povo há anos está habituado a dar jeitinho pra obter tudo aquilo de que precisa. Não será desta vez que vão fraquejar.

Diz que diz e cai não cai

José Horta Manzano

Está cada dia mais aflitivo o que se passa pelas bandas do Planalto. Se ainda viva fosse, a Candinha ‒ aquela dos mexericos ‒ ficaria roxa de inveja. O diz que diz é digno de cortiço. Nem durante as brigas de minha vizinha do apartamento de baixo se vê tanta roupa suja lavada em público. E olhe que minha vizinha, quando se enfeza, aborda o marido aos berros e nele atira pratos, cobras, lagartos e o que mais lhe passe por perto. No Planalto, lugar excelso da República, é pior.

Os Bolsonaros
Crédito: vespeiro.com

Fofocas, insultos, hesitações, ataques, retratações, acusações, desmentidos ‒ têm sido nosso prato do dia há duas semanas. Os grão-duques do lulopetismo assaltavam o erário, é verdade, mas pelo menos o faziam discretamente. A gente empobrecia mas conservava o sorriso dos ingênuos. Já atualmente, o clima conflagrado irrita o povo e emperra o bom andamento da nação. Não nos roubam dinheiro, mas surrupiam-nos a paciência e confiscam-nos o sorriso.

Uma simples troca de ministros, fato que ocorreu às dúzias em governos anteriores, transformou-se num circo midiático, espetáculo servido à prestação, com picantes capítulos diários. Um espanto. Agora que o ministro cai-não-cai já se foi, resta torcer pra que a turma do palácio endireite. Se não for pedir muito. Desconfio que é.

Nem azul, nem rosa

José Horta Manzano

Deu no Estadão. Doutora Damares, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos ‒ a quem devemos o sábio discurso sobre a cor apropriada da indumentária infantil ‒ mostrou, mais uma vez, ter excelente preparo para o cargo que exerce. Foi numa entrevista que concedeu a uma estação de rádio. Embora a data a gravação seja desconhecida, o programa foi ao ar sexta-feira passada na Jovem Pan de João Pessoa.

A doutora pontificou: “Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de menina: foge do Brasil! Você está no pior país da América do Sul para criar meninas”. Um susto, minha gente! Dada por pessoa situada tão alto na escala social do país, a advertência tem de ser levada a sério.

Ao estipular que meninos deviam vestir azul e meninas, rosa, a ministra Damares levantou um bafafá dos diabos. Saiu todo o mundo gritando. Foi quando a doutora esclareceu que o pronunciamiento não passava de metáfora. Ufa! Tranquilizado, o Brasil se acalmou.

Desta vez, a ministra está demorando pra botar a declaração na conta de mais uma metáfora. O bom senso exige que o faça rápido, senão o país vai assistir a uma debandada. Que portos e aeroportos se preparem! Vai ter gente fugindo até para a Venezuela ‒ país que, segundo a doutora, é mais adequado que o Brasil para criar meninas. É mole?

Esqueça o azul e o rosa. Fuja enquanto ainda é tempo!

Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Este artigo foi corrigido e completado em 21 fev° 2019. Veja aqui.