O Zé suave

José Horta Manzano

Às vezes aparecem na mídia notícias que não contam tudo, deixando em branco parte da história. Todos os jornais informaram que um cidadão conhecido pelo suave apelido de Zé Trovão “se entregou espontaneamente à PF de Joinville (SC)”.

Como o Brasil inteiro está sabendo, fazia semanas que o moço vivia sob ameaça de encarceramento, visto que pesava contra ele um mandado de prisão expedido diretamente pelo STF. Não é qualquer um que tem prisão decretada pela Corte Maior, deferência reservada para infratores da mais elevada categoria. Coisa fina!

Soube-se que o exaltado caminhoneiro, quando se viu acuado, não ousou enfrentar a Justiça para responder, peito aberto, de seus malfeitos. Decidiu dar um passeio no exterior. Chegou a pedir asilo político (sic!) no México. Não tendo sido atendido e não enxergando outra via de saída, achou melhor voltar pra casa.

É aqui que a história contada pela imprensa é vaga. Ninguém informa como é que o rapaz se virou pra voltar. Suponho que não tenha vindo do México a pé, nem de bicicleta através do que ainda resta de floresta amazônica. É quase certeza que veio de avião.

Esse avião terá pousado no Brasil, num aeroporto internacional, daqueles em que gente comum tem de fazer fila, passar pelo guichê e apresentar passaporte. Como é que ele fez? Como é possível que o suave Zé, procurado por todas as polícias do mundo e com o rosto estampado em toda a mídia do país, tenha passado em branco sem ser reconhecido por ninguém?

Tem mais. As notícias informam que ele se apresentou à PF de Joinville por ser morador daquela cidade catarinense. Sabe-se inclusive que deu as caras no posto de polícia às 14 horas. Aqui vai nova suposição minha: imagino que tenha passado a noite (ou pelo menos algumas horas) em casa.

Agora vem a pergunta: ninguém viu o homem chegar do exterior? Ninguém controlou nem verificou quando entrou em casa? De táxi, a pé, acompanhado de um cúmplice?

Como é possível que o domicílio de um afamado foragido da justiça não seja objeto de monitoramento 24h por dia? O domicílio é conhecido. O procurado é um indivíduo importante, visto ter prisão decretada pelo STF, o que não é pra qualquer capiau. E ninguém manda vigiar a casa do homem?

Se alguém tiver mais informações, peço encarecidamente que mande cartas para a Redação.

Telegrã

José Horta Manzano


Sinopse
Este artigo é um pouco mais longo que o habitual. Para o caso de o distinto leitor estar sem tempo, digo logo do que se trata. Falo da rede social Telegram e de sua (quase) ausência de controle. Contabilizo o potencial de delinquência contido em certos grupos que lá se aninham: nazistas, pedófilos, traficantes de droga & alia. Dou minha opinião sobre o perigo que isso representa – ou não.


Faz alguns dias, li n’O Globo um artigo inquietante, que ensinava como funciona a rede social Telegram. Ao ler aquilo, qualquer vivente dotado de bom senso fica de cabelo em pé. Quem, como este blogueiro, não tem nenhuma intimidade com as redes ditas “sociais” (que alguns consideram “associais”) se sente realmente desconcertado. Quem diria que eu ainda havia de viver pra ver isso.

O distinto leitor talvez ache estranho que eu não tenha disposição pra me inscrever num desses clubes. É que sempre fui avesso a tudo o que se assemelhasse a agrupamento, rede, associação, círculo, assembleia, sociedade, federação, partido, seita, corporação, religião – enfim a tudo o que juntasse gente compelida a pensar como os correligionários e a agir como eles. Prefiro continuar observando de longe.

Sociais ou não, essas redes ainda não conseguiram despertar meu interesse. Um dia, quem sabe. Por enquanto, o momento não chegou. Para mim, feicebúqui, instagrã, tique-toque ou telegrã são filhotes da mesma ninhada. E se parecem todos.

Foi o que sempre achei. Só que não. A leitura do mencionado artigo me ensinou que o Telegram é um caso à parte, um estranho nessa ninhada de iguais, um clube destinado àqueles que estão mais pra bandido que pra gente fina. Que me perdoe o leitor que se inscreveu nesse clube! Não tenho intenção de ofender ninguém. Mas, salvo erro ou omissão, o tal de Telegram é orientado para um público marginal – não necessariamente no sentido de meliante, mas daqueles que vivem à margem da sociedade.

A rede Telegram foi fundada por dois dois irmãos russos em 2013, faz menos de 10 anos. Como as coisas evoluem rápido neste século! Não funciona em Moscou, em endereço com rua e número conhecidos. Atualmente está abrigada “na nuvem”. Nos últimos anos, mudou frequentemente de jurisdição, o que não costuma ser bom sinal. Neste momento, tem endereço físico em Dubai. Não posso garantir, mas acredito que, naquela cidade artificial do desértico Oriente Médio, o máximo que se vai encontrar é uma caixa de cartas.

A particularidade do Telegram é a (quase) total ausência de controle do que dizem ou escrevem os usuários. O espaço está aberto a todas as liberdades. Só que tem um problema: apesar da liberdade de postagem praticamente total, há linhas de conduta que o bom senso não admite que sejam transpostas. Cabe a cada usuário fixar os próprios limites. O resultado é que, na quase ausência de moderação, os maus modos de alguns podem causar dano à maioria.

Além de abrigar gente fina e bem-intencionada, Telegram acolhe também gente ligada a submundos que nossa civilização condena. Há grupos de pedofilia, de incesto, de venda de drogas online, de tráfico de receitas médicas para remédios tarja preta; há círculos de entusiastas do nazismo e do fascismo (será que sabem o que é isso?); há panelinhas que exigem armas para todos e que pregam resistência à vacina contra a covid. Nesses grupos, encontra-se tudo o que não for recomendável. Todos postam e propagandeiam abertamente, sem restrições.

Quando se vê todo esse submundo se agitando, com a porta aberta para quem quiser participar, corre um frio na espinha. Só que…

Só que, deixando o frio da espinha pra lá, resolvi analisar um pouco mais profundamente. Em fulgurante ascensão, o Telegram já está instalado em 53% dos smartphones do país. Não conheço o número exato de smartphones instalados no Brasil. Um artigo da revista Época garante que, em 2019, havia 230 milhões em uso. Em termos práticos, tirando um ou outro indivíduo fora dos padrões, pode-se considerar que toda a população carrega no bolso (ou na bolsa) um desses aparelhos inteligentes.

Agora vamos ver quantos são os participantes desse “deep web” fomentado pelo Telegram, essa rede semiclandestina, de odor desagradável.

No quesito de sexualidade esquisita, que incluiu estupro de adolescentes, incesto, pedopornografia e outras extravagâncias que nossa civilização condena, há um total de 38.000 inscritos.

No tópico doutrinas fora de esquadro, que inclui antissemitismo, supremacia espiritual, nazismo, fascismo, veneração a Adolf Hitler e outros discursos de ódio de mesmo jaez, há um total de 26.000 inscritos.

O capítulo do porte (e uso) de armas, que compreende imagens de tortura e execuções mas também grupos que se interessam pelo comércio de armas de todo tipo com as respectivas munições, há um total de 45.000 inscritos.

No grupo dos bobões antivacina há pouca gente. Digo bobões porque todos eles já foram vacinados zilhões de vezes contra doenças variadas: tuberculose, varíola, hepatite, doenças infantis & outros bichos. Se tivessem condições de dar um pulinho no Quênia, para um foto-safári, espichariam o braço sem hesitar pra receber a vacina contra a febre amarela. No entanto, talvez por inspiração de um certo capitão boçal, dizem não à vacina anticovid. São poucos, evidentemente. Só 38.000, que ninguém é besta.

O grupo mais numeroso – como seria de adivinhar – é o dos adeptos do comércio clandestino. A imensa maioria corre atrás de filmes ainda não disponíveis em canais oficiais; procuram fazer como esses que instalam um “gato” pra furtar imagens da residência vizinha. Nesse universo, ainda há os traficantes de entorpecentes (e seus compradores), os que tentam obter dados pessoais de outras pessoas, os que se interessam por remédios tarja preta e, pasme!, os que compram e vendem cédulas falsas. Para mim, este é o grupo dos picaretas. Numerosos, seus adeptos chegam a 150 mil indivíduos – um total equivalente ao de todos os outros grupos reunidos.

Bom, agora vamos aos finalmentes. Somando os inscritos nas categorias que o Telegram permite (e que outras redes dificilmente tolerariam), não chegamos a 300 mil pessoas. Atenção: dado que um mesmo assinante pode aparecer em mais de uma categoria, o total periga ser menor.

Vamos agora calcular quanto representam esses 300 mil aprendizes infratores no universo dos 230 milhões de smartphones. Representam por volta de 0,1% (zero vírgula um porcento) dos brasileiros.

Um infrator é sempre um infrator, assim como um bandido é um bandido e um assassino é um assassino. Mas vamos “botar a bola no chão”, como diz o outro. Esses 0,1% de conterrâneos não estavam à espera da chegada de Telegram para se tornarem, da noite para o dia, pedófilos, falsários, traficantes ou adoradores de Hitler. Como faziam antes? Não sei, mas deviam ter seus canais. Usavam códigos. Botavam anúncio cifrado nos Classificados do Estadão, como se fazia antigamente. Se viravam.

A conclusão à que quero chegar é que Telegram não inventou a delinquência, assim como as redes sociais não inventaram o ódio, nem Bolsonaro inventou a corrupção. Todas essas pragas pré-existiam. O que mudou foi só o canal de expressão. Se Telegram desaparecer amanhã, no dia seguinte nova rede vai substituir. E assim caminha a humanidade.

Observação
Até que não é má ideia deixar que esses indivíduos que atuam à margem da lei se exprimam com liberdade. As autoridades que cuidam de reprimir certos excessos poderão, na pior das hipóteses, saber quantos são. E, na melhor das hipóteses, colher os delinquentes com a boca na botija.

Fonte: Artigo d’O Globo.

Apostasia

José Horta Manzano

É de conhecimento público que o capitão que nos governa não costuma se comover com os sentimentos alheios. Dependesse dele, nunca se meteria num culto religioso, fosse de que natureza fosse. Nem igreja, nem templo, nem mesquita, nem sinagoga, nem terreiro. Seu modo de funcionar é conhecido: “Quem quiser, que vá. Eu já disse que não sou coveiro. Estou acima dessa ralé. Não vou me vacinar, e pronto!”.

O homem dificilmente confessará, de viva voz, que não está nem aí para o sentimento dos outros. Mas os seus feitos e gestos são explícitos e o condenam.

Em 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, ele esteve em Aparecida. Por vontade própria, certamente não teria ido – não comparece nem a enterro de amigo, imagine só. Há de ter sido aconselhado.

Quando se mete nesses lugares, no entanto, sua falta de naturalidade salta aos olhos. Vê-se que o presidente está ali forçado, de cara amarrada, com medo de vaia (que, aliás, recebeu), receoso das palavras que o bispo vai dirigir aos fiéis. É a figura do peixe fora d’água, a imagem de quem está ali apenas pra cumprir tabela.

Diferentemente do camaleônico Lula, Bolsonaro é péssimo ator. Seus passos forçados produzem o efeito contrário ao que ele desejaria. A falta de naturalidade de quem não está habituado a frequentar esses lugares depõe contra ele. A visita a Aparecida chocou os evangélicos, assim como o batismo no Jordão chocou os católicos. Afinal, que pito toca esse homem? A tartufice do personagem fica evidente.

Para espanto de muita gente, o capitão ousou comungar. Terá sido (mal) aconselhado. Abalou cristãos e ateus. Quem se lembra das aulas de catecismo sabe que era impossível ele estar em condições de comungar. Vamos ver por quê.

Pra começar, que é a comunhão? No catolicismo, é o sinal público dado pelos irmãos de fé, aqueles que aceitam as imposições da religião. Ovelha desgarrada não tem direito a receber a comunhão, a não ser que se arrependa do desgarramento, confesse o pecado, renegue o descaminho e volte ao rebanho com a firme intenção de não voltar a se perder.

Todos sabem que o capitão, anos atrás, se fez batizar no âmbito de outra fé, num rito neopentecostal, com direito a mergulho nas águas do Rio Jordão, tudo testemunhado por fotografia. Não foi desvario de uma noite de verão. Faz pouco tempo, ele reafirmou seu pertencimento ao neopentecostalismo ao fazer-se abençoar, contrito e de joelhos, diante de um autossagrado bispo, dono de poder e muito dinheiro.

Para voltar à comunidade católica, ele teria de repudiar o (re)batismo do Jordão e renegar a fé que ostenta publicamente. Não o tendo feito, católico já não é. Não sendo católico, não tem direito a receber os sacramentos – entre eles, a comunhão. A excomunhão é o castigo reservado às ovelhas que se desgarram por decisão própria. Bolsonaro está excomungado. O que se viu em Aparecida, portanto, não passa de impostura. Esse indivíduo não pertence ao rebanho. Nos tempos de antigamente, não teria direito nem a uma sepultura na ala principal do cemitério; seria enterrado num puxadinho reservado aos suicidados e aos incréus.

A hipótese de ter se reconvertido às escondidas também não se sustenta. Ainda que o tivesse feito, teria de passar pela casa confessionário, que não há como escapar. Se tivesse contado ao sacerdote os horrores que vem cometendo desde que assumiu a Presidência, só teria recebido a absolvição depois de pagar a tarifa imposta pelo prelado.

Para gente normal, dois pai-nossos e três ave-marias resolvem o problema e põem o fiel de novo em estado de graça. Já com Bolsonaro, o caso é mais sério. Se ele contasse tudo o que tem feito, a penitência seria longa, mais longa que um dia sem comida. O capitão estaria até hoje dando volta a pé em torno dos palácios em que mora, terço na mão, a contar os passos e a recitar os milhares de pai-nossos que lhe teriam sido impostos como pedágio.

Tirando o dia em que foi filmado correndo atrás de uma ema com uma caixa de cloroquina na mão, ninguém jamais o viu dar voltas em torno do palácio. Tampouco consta que tenha enrolado um terço na mão direita a fim de contabilizar os pai-nossos. Portanto, não se confessou. Se se confessou, não contou todos os pecados. Se contou todos os pecados, não cumpriu a penitência. Em qualquer hipótese, não tinha o direito de comungar.

É caso de apostasia. Na Idade Média, seria mandado para a fogueira. Neste século 21, mais maneiro, vai espernear até o fim do mandato. No exato momento em que passar a faixa, perderá a imunidade e descerá a rampa para entrar direto no camburão que estará esperando por ele. Com destino à Papuda e sem o perdão da Padroeira. A danação terrestre e a celeste chegarão juntas.

Observação
Algo me diz que a visita do presidente a Aparecida mais botou pra correr que arrebanhou fiéis. O capitão perdeu mais do que ganhou. Melhor seria que não tivesse comparecido. Uma visita de cortesia ainda vá; mas… comungar? Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

Apagando o passado

José Horta Manzano

Até 6 de outubro, havia na cidade de São Paulo uma avenida quilométrica, cujo nome era compartilhado por dois ilustres membros da família Andrade. O primeiro trecho da via homenageava o escritor Mário de Andrade, enquanto o segundo lembrava o homem político Auro S. de Moura Andrade.

Mário, o Andrade escritor, não teve vida longa: foram somente 51 anos, de 1893 a 1945. Já Auro, o Andrade político, ficou uns anos a mais neste vale de lágrimas: viveu 66 anos, de 1915 a 1982. Mário tinha idade pra ser pai de Auro, pois nasceu 22 anos antes, o que significa que não conheceram o mesmo Brasil. É complicado comparar a vivência de cada um deles.

A cidade de São Paulo conta com mais de 50 mil logradouros, contando ruas, praças, avenidas, becos, ruelas & assemelhados. Todos os meses, são feitos novos arruamentos, e novos nomes têm de ser encontrados. Cabe aos senhores vereadores essa árdua incumbência. Só que eles nem sempre se restringem a nomear as vias que acabam de ser abertas. Seguindo o Zeitgeist (=espírito do tempo), preocupam-se também em corrigir tudo o que lhes aparece como “injustiça” ou como “erro histórico”. Apagam, assim, trechos inteiros de um passado que a maioria deles, aliás só conhece de ouvir falar. Fico pensando se conhecem mesmo…

Dia 7 de outubro, entrou em vigor uma lei que corrige um desses “erros”. O trecho da rua comprida que levava o nome de Auro (o político) perde o direito à antiga denominação. Passa a levar o nome de Mário (o escritor). Como resultado, Auro some do mapa e Mário fica com todos os quilômetros para ele. Isso implicará em repensar a numeração de cada imóvel (há muitíssimos prédios altos), um problema que vai aporrinhar os moradores. Mas a vereança não se comove com essas minúcias – afinal, estão ali para dar nome às ruas, não para resolver problemas dos eleitores, que diabo! De todo modo, não são eles que vão sentir o drama.

O motivo dessa mudança? Os edis ouviram dizer que doutor Auro de Moura Andrade teria “apoiado” o regime militar, enquanto doutor Mário de Andrade, não. É claro que Mário de Andrade não podia ter apoiado o regime. Há um anacronismo: ele já tinha falecido 19 anos antes do chacoalhão de 1964. Ninguém tem o direito de afirmar se o escritor teria “apoiado” ou não o movimento. Os vereadores parecem tomar como favas contadas que ele o teria reprovado. Não tenho tanta certeza.

Para quem não viveu aqueles dias, é bom dizer: o golpe de 1964 derrubou o presidente, mas não instaurou ditadura. Muita gente fina ficou do lado dos insurgentes – inclusive jornais sérios, como o Estadão. A verdadeira ditadura foi-se instalando aos poucos, com a supressão de eleições já marcadas, até que o golpe de misericórdia foi desferido com o AI-5, ao final de 1968. Nessas alturas, muitos dos que haviam apoiado o movimento já se haviam dessolidarizado. De qualquer maneira, não havia nada a fazer.

O senador Andrade não foi mais apoiador do regime militar do que grande parte dos políticos de sua época. Gente bem mais entusiasta que ele ainda continua tendo seu nome estampado em placa de rua de São Paulo. O exemplo maior é Paulo Maluf, atualmente em prisão domiciliar por ter usado suas offshores para esconder as centenas de milhões de dólares dos contribuintes que ele havia roubado.

Maluf, que foi notório lambe-botas dos militares, ainda conta com homenagem familiar. Seu pai, Salim Farah Maluf, ainda dá nome a três logradouros: uma rua, uma praça e uma avenida. E tem mais. Um complexo viário leva o nome de Maria Maluf, mãe de Paulo Maluf. A denominação do complexo foi oficializada por decreto de 1995, emitido na época em que – veja a coincidência! – o filho era prefeito da cidade.

Uma curiosidade picante: o Complexo Viário Maria Maluf termina no Viaduto Aliomar Baleeiro, figurão que se beneficiou como poucos do regime ditatorial. De fato, o baiano Baleeiro foi nomeado para o STF pelo presidente Castello Branco. Entrou numa vaga aberta pelo AI-2, quando meia dúzia de ministros em exercício foram demitidos e tiveram de ceder o lugar para outros mais dóceis. Não há previsão de que o viaduto que homenageia Baleeiro vá mudar de nome.

It’s the economy, stupid!

José Horta Manzano

A frase foi pronunciada 30 anos atrás, por James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton. Que, por sinal, venceria o páreo.

No original, era The economy, stupid! – A economia, imbecil!”. Com o tempo, cristalizou-se como “It’s the economy, stupid!”. O sentido original ficou levemente alterado, mas a frase ganhou uma dobradiça que lhe permite grande flexibilidade de aplicação.

Foi uma ordem dada aos integrantes da equipe de campanha sobre um ponto que eles não podiam esquecer nunca. Tinham absolutamente de ter sempre em mente as possíveis implicações econômicas ao fazer sugestões ou escrever discursos para o candidato.

De lá pra cá, a expressão virou clichê. Volta e meia, ressurge, mesmo em assuntos que nada têm a ver com economia. É o que me ocorre hoje.

Ontem, um planeta aturdido pererecou pela falta de Facebook, Instagram, Whatsapp & companhia, todos fora do ar. Durante as horas que o apagão durou, usuários atônitos se perguntavam o que teria acontecido.

Acanhada e atrasada, chegou a explicação dos donos do negócio. Cito um trecho do comunicado oficial:

“The six-hour outage across our platforms including Instagram, Messenger, Whatsapp, and OculusVR were caused by configuration changes to the routers which coordinate network traffic between the company’s data centers.”

O blá-blá-blá, torcido feito alambique, explica que a causa da pane são “mudanças na configuração dos roteadores que coordenam o tráfego entre os centros de dados da companhia”.

O mundo todo aceitou a justificativa tal como veio. A culpa cabe, portanto, às mudanças de configuração. Encontrado o culpado, estamos entendidos e não se fala mais nisso.

Acontece que essas “mudanças” não caíram do céu, nem foram introduzidas por um anjo mau. Elas foram feitas por mãos humanas, que trabalharam coadjuvadas por cabeças humanas. Portanto, a origem da pane é nada mais, nada menos, que erro humano.

Como é difícil admitir um erro, não é verdade? Aqui vale utilizar o clichê da campanha de Clinton: It’s human failure, stupid! – É erro humano, imbecil!”.

Não sei quem é mais imbecil nessa história, quem pronunciou a meia verdade ou quem a engoliu sem mastigar.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

Malandragens universais

José Horta Manzano

Pensa que malandragem é genuína especificidade tupiniquim? Não é. É artigo abundante em todas as prateleiras do planeta.

Por um conjunto de razões que não interessa aqui listar, o preço do gás e dos derivados de petróleo tem subido rapidamente. No mundo todo, não só no Brasil. Se isso é bom para alguns, é péssimo para grande parte da humanidade.

No Brasil, dia sim outro também, o capitão esbraveja contra esse estado de coisas que solapa as poucas chances que tem de ser reeleito. Esbraveja, mas não faz nada. Ou porque não sabe, ou porque não pode.

Na França, onde muita gente cozinha e se aquece com gás, a situação é semelhante. Lá também, a eleição presidencial será em 2022, exatamente dia 10 de abril.

A subida dos preços incomoda o presidente Macron, que gostaria de ser reeleito. Para evitar uma nova onda de contestação dos “coletes amarelos” e assim conservar todas as chances de reeleição, mandou bloquear os preços do gás até… abril de 2022 – exatamente o mês das eleições.

Depois, o povo que se prepare: o aumento será violento.

Bolsonaro e a Marselhesa

La Marseillaise cantada pelo autor, Rouget de l’Isle
by Isidore Pils (1815-1875), artista francês

José Horta Manzano

Em 1792, a Revolução Francesa preparava o túmulo do Ancien Régime. Ao mesmo tempo, o Romantismo sacudia as artes. Verdadeiro traço de união entre a revolução e o movimento romântico, Rouget de l’Isle – oficial do exército, poeta e autor dramático – compunha, naquele mesmo ano, o poema que viria mais tarde a ser conhecido como a Marselhesa, o hino nacional da França.

A letra é longuíssima, o que explica quase nunca ser cantada por inteiro. Em execução pública, cantam-se somente as duas primeiras estrofes do hino. Todo o espírito romântico e revolucionário está contido nelas. O povo é conclamado a levantar seus estandartes e se rebelar contra a tirania. Há um chamado às armas e um convite para que os cidadãos formem seus batalhões e marchem para encharcar de sangue impuro os campos da pátria.

É verdade que essa profusão de hemoglobina não combina com os tempos atuais, em que, aposentadas as baionetas, a morte vem do céu, a bordo de drones silenciosos e traiçoeiros. Como essas chacinas costumam acontecer em lugares distantes e miseráveis, ninguém vê, ninguém comenta, ninguém chora. Ao final, descontando os mortos (que, afinal, ninguém é coveiro), nos sentimos de consciência tranquila.

Estou me afastando do que queria dizer. Na Marselhesa, quando o autor chama os conterrâneos para os dias difíceis da luta, não manda que corram ao matadouro sozinhos. Inclui-se entre eles. As palavras Marchons, marchons! – Marchemos, marchemos!”, que aparecem nos versos finais, são um encorajamento que inclui o encorajador. Em outras palavras, aquele que inflama a multidão não manda “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. Parece detalhe, mas faz toda a diferença.

Nunca assisti a nenhuma laive do capitão. A desta semana não foi exceção. Mas li os pontos importantes (se é que os há) na imprensa. Fiquei sabendo que o presidente mandou o povo tomar banho frio e dispensar o elevador. Ah, e desligar o ar condicionado, como se fosse produto de consumo comum, daqueles que todo brasileiro tem em casa. Ele ensinou que esse pouco de exercício revigora, faz bem à saúde e, principalmente, visto que contribui pra atenuar a crise hídrica, é poderoso auxílio para a almejada reeleição.

Não li em lugar nenhum que Bolsonaro tenha dado o exemplo, nem que fosse de mentirinha. Não me parece que tenha dito que ele mesmo já abandonou a água quente no banho e o elevador no palácio. Não me parece ter revelado que, com seu histórico de atleta, está acostumado a tomar banho gelado, hábito que adquiriu nos tempos de recruta. Tampouco lembrou-se de contar ter subido de 20° para 24° a temperatura do ar condicionado de seu escritório.

Sei que o capitão está longe de ser revolucionário e mais distante ainda de ser romântico, mas perdeu excelente oportunidade para (tentar) identificar-se com o populacho. Não devia ter dito “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. O líder, afinal de contas, devia ser ele! Ou não? Não disse nada disso. Que é que se pode fazer? Para ele, povo deve ser uma entidade abstrata, distante, que só serve pra trazer-lhe votos, mais nada.

Quem nasceu pra tostão não chega a milréis, dizia minha avó. Ou se nasce pra liderar, ou se nasce pra ser liderado. O capitão não é líder de nascença. É certamente por isso que bate cabeça o tempo todo. O homem diz, se desdiz, se contradiz, se maldiz, se rediz. Ao fim e ao cabo, não conduz, é conduzido.

Lei? Ora, a lei!

José Horta Manzano

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“Lei? Ora, a lei!”

A frase, um tanto estranha, é atribuída a Getúlio Vargas

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A meu conhecimento, não há gravação do pronunciamento. Gravador era artigo escasso nos tempos do velho ditador. Mas historiadores explicam que, ao pronunciar essas palavras, ele não estava se referindo a sua própria pessoa. Naquele tempo, a petulância do homem político ainda não havia chegado a esse ponto. Dizer isso referindo-se a si mesmo seria um acinte acima dos padrões da época.

Na verdade, a frase refletia uma crítica de Getúlio aos empresários que passavam por cima da lei e descumpriam pontos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o arcabouço da legislação trabalhista brasileira, instituído justamente durante sua gestão.

No entanto, até hoje a frase é empregada com outra conotação. É posta, em sentido irônico, na boca de governantes que se creem acima do populacho vil. Estou falando daquele tipo de políticos que ignoram a lei quando ela lhes põe obstáculos para obter benefícios ilícitos. Em resumo, infringem todo regulamento que não lhes agrada. A frase aparece em diálogos assim:

O assessor:
“Senhor governador, não dá pra fazer assim! É a lei!”

O governador:
“A lei? Ora, a lei…”

Todos temos tendência, sejamos francos, a torcer o nariz para uma proibição que nos desagrada. Mas não gostar é uma coisa; reagir é outra. A reação de cada um está ligada à própria personalidade. 1) Há quem aceite embora não goste, e acabe cumprindo a obrigação. 2) Há quem fraude no escurinho, sem alarde, sem dar muito na vista, tipo “atirando a pedra e escondendo a mão”. 3) Há, enfim, os que transgridem abertamente, sob o sol do meio-dia, tipo “eu sou mais eu; vai encarar?”.

O Brasil atravessa um período conturbado, com um presidente que se enquadra na terceira categoria, a dos que delinquem sem vergonha, sem se esconder e sem sequer ruborizar. Para ele, deve ser divertido. Para o país, é uma desgraça, uma noite interminável, um dia que não amanhece.

Pelas notícias que me chegam, a mais recente afronta feita à lei pelo capitão foi ainda em Nova York. Horas depois de ter sido informado de que seu ministro da Saúde, o improvável doutor Queiroga, estava infectado pelo coronavírus, descumpriu a regulamentação aplicável ao que chamamos aqui “caso-contacto” (qualquer um que tenha estado em contacto com um indivíduo comprovadamente positivo).

Bolsonaro havia estado em contacto com o ministro. Portanto, era um “caso-contacto” e tinha de seguir o protocolo de isolamento. Pois nosso capitão não só não se isolou, como desceu à calçada em frente ao hotel e misturou-se ao grupo apoiadores que por ele esperavam. Se eu fosse o prefeito de NY, mandava deter o homem. Para averiguações. Nem que fosse por algumas horas. Já imaginaram o susto? O quê? Incidente diplomático? Não temam. Com o Itamaraty que temos hoje, está tudo dominado. Durmam tranquilos.

Ah, me ocorreu! – 1
Francamente, como esse homem gosta de calçada, já repararam? Primeiro, a pizza. Agora, a aglomeração.

Ah, me ocorreu! – 2
Tenho dificuldade em entender como é possível que cidadãos brasileiros que vivem numa das cidades mais cosmopolitas do planeta e que, aparentemente, não ganharam carona de ônibus com direito a hambúrguer+coca grátis só pra aplaudir o presidente – como é que essa gente consegue apoiar aquele estropício.

Ah, me ocorreu! – 3
A melhor sugestão que o general Mourão, presidente substituto, recebeu durante sua interinidade no cargo foi a de editar um decreto proibindo a entrada no país de todo cidadão não-vacinado. Ele ficou de pensar. Mas não deu tempo, que o outro voltou. Fica pr’a próxima. Um dia, ele vai, pede asilo nalgum paraíso fiscal e não volta mais.

“Estados oposicionistas”

José Horta Manzano

Ô sujeito estranho, esse nosso ministro dos Dinheiros Públicos! É Guedes, um falastrão de marca maior. Preconceituoso até a raiz dos cabelos, já falou mal de empregada doméstica em avião, de filho de porteiro em curso superior. Já insultou a primeira-dama da França. Já prometeu muito, mas entregou pouco.

Faz quase três anos que é desmentido, contradito, menosprezado pelo capitão. Não conseguiu emplacar nenhuma das reformas a que se propunha – quando não é o Congresso, é o próprio presidente que lhe puxa o tapete. E ele aceita bovinamente.

Com um histórico desses – e principalmente tendo a conta bancária abastada, como diz ter – fica difícil entender por que é que ainda insiste em continuar ao lado do capitão. Talvez sofra algum distúrbio de personalidade, um evidente prazer de sofrer humilhação pública, dia sim, outro também. Será que isso existe em psicologia ou ele é um caso sui generis?

A Folha de SP lembra que, 4 meses atrás, Guedes mostrou-se animado com a perspectiva da campanha de reeleição do chefe.

Ontem, doutor Guedes virou a casaca. Sem corar, declarou que a reeleição foi “o maior erro político que já aconteceu no país”. Ah, se o capitão souber da declaração…

E não ficou por aí, que ontem foi um dia premiado. Pela enésima vez, nosso doutor ministro se queixou em público, como é costume seu. Com certa dose de ironia, disse achar curioso que, no governo Bolsonaro, caem precatórios que vão para dois ou três “estados oposicionistas”.

O Globo, 16 set° 2021

As aspas são minhas. Não sei o que significa um “estado oposicionista”. Na história do Brasil e do mundo, tenho visto províncias rebeldes, territórios conquistados, regiões conflagradas. “Estado oposicionista” é noção que me escapa.

No Brasil, estado é uma unidade da Federação. Não é de sua natureza ser ou deixar de ser “oposicionista”. Num mesmo estado, o governador pode apoiar Bolsonaro, enquanto a maioria dos prefeitos se opõem a ele. Ao mesmo tempo, as pesquisas podem indicar que o povo daquele estado está indeciso, dividido ao meio. Como é que fica, então, essa história? Esse será um “estado oposicionista” ou não? Melhor perguntar a doutor Guedes.

Romário, antigo jogador da Seleção, disse um dia que Pelé, de boca fechada, era um poeta. O mesmo se pode dizer de nosso ministro falastrão. Se ele se aposentasse, entregasse o chapéu, viajasse pra bem longe e se instalasse, por exemplo, nas cercanias de Mar-a-Lago (perto de Trump), pouca gente tiraria o lenço pra enxugar uma lágrima.

Amigo da cloroquina

Prof. Didier Raoult, médico francês defensor da cloroquina contra a covid

José Horta Manzano

Já escrevi um artigo, tempos atrás, sobre o doutor Didier Raoult, lombrosiano médico francês adepto da cloroquina e de outras poções mágicas contra a covid-19.

Contam que, na adolescência, ele teria sido testado com um Q.I. de 180. Desde então, o homem se considera um gênio e, como todo gênio, infalível. Já às portas da setentena, continua a se achar digno de figurar na mesma galeria que Albert Einstein, Luis Pasteur e Marie Curie.

Assim que a covid-19 começou a fazer estragos, o doutor fez saber que tinha descoberto o remédio miraculoso que acabaria com a epidemia em três tempos: era a cloroquina. Como prova, afirmou que, no departamento hospitalar do qual era responsável, dos 23 internados com a doença, nenhum tinha morrido. Naturalmente, atribuiu a cura à cloroquina, administrada aos pacientes por sua genial inspiração.

O passar do tempo e a experiência de centenas de milhares de médicos ao redor do globo se encarregaram de contradizê-lo. Uma amostragem de 23 pacientes estava longe de ser estatisticamente significativa para tal conclusão. Não, a cloroquina não previne nem cura a covid.

No entanto, convencido da própria genialidade, Raoult insistiu. Além de bater pé firme na cloroquina, ainda acrescentou ao seu arsenal terapêutico a ivermectina e a ciclosporina. Já perto da aposentadoria, que se deu por compulsória no fim do mês passado, veio com sua última pérola.

Afirmou, com a empáfia que só a cegueira da vaidade lhe permite, que uma leve camada de Vick Vaporub espalhada com o dedo no interior das narinas protege contra o coronavírus. Na falta desse medicamento, parafina ou vaselina substituem. Explicitou que, como não era lobista da firma Vicks, dava seu conselho como contribuição pessoal à saúde pública.

Muita gente recebeu com alívio o anúncio de que doutor Raoult, uma personalidade um tanto ‘espaçosa’, deixava de fazer parte do Hospital Universitário de Marselha a partir de 1° de setembro.

Não sei a quantas anda a fixação de Bolsonaro em cloroquina e outros tratamentos milagrosos contra a covid. Ele parece aceitar qualquer coisa, desde que não seja a vacina. Cá entre nós: é comportamento de quem tem medo pânico de injeção.

Se ele ainda estiver interessado em cercar-se de defensores do “remédio das emas”, que alguém o avise de que o professor francês está disponível. Um cabidezinho sempre há de se encontrar, que as tetas da nação são generosas.

Lógica tortuosa

José Horta Manzano

Essa chamada estava na primeira página do Estadão digital de hoje. Confesso que não li o artigo, visto que o assunto só me interessa vagamente. Mas duas esquisitices me chamaram a atenção.

Primeira esquisitice
O estagiário escreve que “Bolsonaro cria nova estatal”. Ora, tudo o que acaba de ser criado é necessariamente novo. Ou alguém imagina algo do tipo “Bolsonaro cria velha estatal”? Portanto a palavra nova sobra.

Segunda esquisitice
O distinto leitor há de concordar que, à primeira vista, parece ilógico criar uma estatal para privatizar outra. Pode até ser que, lendo o texto, a enormidade diminua de tamanho. No entanto, assim como está parece coisa de louco ou, quem sabe, esperteza grossa. Estariam criando uma empresa para oferecer cabide novo aos funcionários da que foi privatizada? Desse governo que aí está, pode-se esperar tudo.

Deu chabu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira 8 de setembro, acordei ansioso. Estava curioso pra ver com que olhos a imprensa europeia tinha observado as passeatas que Bolsonaro convocou em louvor de si mesmo. Logo de manhã, ao ligar o rádio, um calafrio me fez imaginar que pudessem estar em edição especial anunciando com voz grave um golpe de Estado no Brasil.

Não estavam em edição especial. Sintonizei as rádios suíça e francesa. Fui para a internet. Dei uma olhada nos títulos da BBC. Perpassei as manchetes do Corriere della Sera e as chamadas do Figaro. Olhei ainda duas ou três mídias menos importantes. Nada. Na respectiva primeira página, cada um estava preocupado com as próprias mazelas.

A BBC, sempre atenta ao que ocorre no exterior, dá prioridade a notícias do novo governo do Afeganistão. O Corriere della Sera está preocupado com intrigas da política interna italiana e com o passaporte sanitário – que lá se chama “green pass”. Na França, discute-se também o “pass sanitário”, mas o grande assunto do dia é a abertura do alentado processo que julga 20 acusados de participar do ataque terrorista desferido na boate Bataclan em 2015, assalto que deixou 130 mortos, centenas de feridos e um país traumatizado. O suíço Le Temps comenta a nova regra que limita a velocidade da circulação a 30 km/h, que vai vigorar em todo o perímetro urbano da cidade de Lausanne, de 22h a 7h da manhã. Uma lei aprovada no México, para destravar o aborto voluntário, era outro tema.

Enfim, cada um com suas preocupações. De Brasil, muito pouco, quase nada. Alguma coisinha aparecia lá no fundo, bem abaixo dos títulos, em clara sinalização do pouco interesse que o assunto desperta nos leitores daqui. Por que será? Acredito que se deva atribuir ao cansaço de ouvir sempre os mesmos acontecimentos, que, de tão repetidos e previsíveis, já não encantam nem surpreendem.

Este é um blogue de respeito. Portanto, não tem cabimento ficar repetindo palavrório pesado que a gente usava na adolescência. (É verdade que presidente da República hoje fala pior que adolescente, mas essa já é outra história.) O que eu queria dizer é que, com seu chove e não molha, Bolsonaro me lembra a frase que a gente soltava quando alguém ameaçava, ameaçava, sem nunca se decidir a partir para a ação. Em termos próprios “para senhôras”, era algo como: “ou resolve logo ou sai de cima”. Se é que me entendem.

A jornada com que o presidente nos brindou ontem deixou um gostinho de chabu. Tudo era pra ser grandioso e definitivo, mas não passou do nível habitual de discurso de bêbado de botequim: rasteiro, com ameaças, insultos e palavrões, mas vazio de efeito. Nem a PM, que parecia amaciada e pronta pra pegar carona na carroça do chefe fazendo “arminha” com as mãos, deu as caras. Como o presidente deve ter se sentido desamparado…

Dos salvados do incêndio, sobram dois restos – ambos desagradáveis. O primeiro, desagradável para o presidente, é que ele queimou todos os cartuchos. Sua “revolução”, anunciada com antecedência e data marcada, munida de ordem de marcha e financiada com dinheiro (público) às pencas, simplesmente não deu certo. O dia terminou exatamente como tinha começado, com a única diferença que o capitão, ainda mais fraco que antes, arrumou mais algumas dúzias de inimigos e atiçou o Congresso para apressar o lançamento desse processo de impeachment antes que seja tarde. Bolsonaro está desarmado e desacreditado como um leão sem dentes. Tudo o que vier pela frente não passará de mais do mesmo. Seus truques, conhecidos de todos, já não assustam ninguém.

O outro salvado do incêndio é desagradável para a população brasileira, que ficou privada do 7 de Setembro, seu feriado maior. Isso não se faz. Em vez de visita de convidado de honra estrangeiro na tribuna de honra, damas de longo e cavalheiros empertigados, desfile de gente fina nos saguões do Planalto, o que tivemos? Uma tribuna mequetrefe, com crianças fantasiadas de bandeira do Brasil. Após passagem rápida e protocolar pela cerimônia brasiliense, o capitão correu pra participar de uma festa mambembe, que não deixou nada a dever ao animado estilo dos trios elétricos lulopetistas. Participantes havia às pencas, só que, desta vez, os ônibus estacionaram longe; o sanduíche de mortadela e a cloroquina(*) foram distribuídos dentro dos veículos, longe das câmeras, que é pra não dar na vista.

Tem nada não. No próximo 7 de Setembro, teremos nossa festa tranquila, risonha e descontraída. E, oxalá, sem Bolsonaro.

(*) Foi o próprio capitão a afirmar que o povo “de esquerda” toma tubaína, enquanto o “de direita” engole cloroquina.

Faria Limer

José Horta Manzano

Até o começo dos anos 60, a Iguatemi, em São Paulo, era uma ruazinha de bairro, com uma fileira de bem-comportados sobradinhos de cada lado. Aquela região era um pouco afastada do centro.

Chegava-se lá depois de uma boa viagem desde o centro. Numa reminiscência do tempo em que o grosso da população vivia na zona rural, afastada do centro do povoado, o centro de São Paulo era chamado de “cidade”. “Hoje fui à cidade”, “Meu pai trabalha na cidade”, “Ah, pra comprar isso, só na cidade” – eram frases que se ouviam com frequência. Basta substituir “cidade” por “centro”, e o significado atual aparece.

A Rua Iguatemi era um pouco longe da “cidade”. Na euforia dos anos 60, decidiu-se que a expansão da capital seria direcionada para o oeste e para o sudoeste. Meio às pressas, sem grande planejamento, a (então) estreita rua Iguatemi foi escolhida como futuro eixo de circulação.

Mais de uma centena de propriedades foram desapropriadas para permitir o alargamento da rua. Ao final da década, apesar dos buracos que ainda obstruíam o leito carrossável, a nova avenida foi aberta. Em homenagem ao prefeito falecido pouco antes, ela recebeu o nome de Faria Lima.

Cinquenta anos mais tarde, os sobradinhos são apenas uma lembrança distante. A avenida está hoje coalhada de prédios altos que concentram empresas do setor terciário, como bancos, startups, empresas de informática, serviços especializados.

Já faz algum tempo que, num espírito oscilando entre admiração e galhofa, profissionais ligados a essas empresas de alto padrão são chamados de “Farialimers”. Alguns dias atrás, a imagem de doutor Guedes, nosso ministro da Economia, foi afixada em cartazes gigantescos, acompanhada da frase “Faria loser”, num evidente espírito de deboche que faz jogo de palavras mesclando o nome da rua e o termo inglês “loser” (=perdedor).

Passaram-se poucos dias. Refeitos do susto, autoridades (não sei quais, mas certamente com nosso dinheiro) mandaram cobrir as vergonhas da nação. Afinal, não se pode expor assim, de qualquer maneira, a inabilidade de um ministro.

A imagem que agora esconde o rosto sofrido do ministro é a de uma estranha bandeira brasileira. Digo estranha porque está fora das proporções oficiais. Não precisa ser doutor pra ver que o verde está espichado de um lado e do outro.

Os jornais dão hoje a notícia. Falam do cartaz jocoso que zombava do ministro. Falam da bandeira que substituiu a afronta. Ninguém, no entanto, se preocupou com o fato de a bandeira estar distorcida. A bandeira, minha gente, é símbolo nacional oficial. Seu desenho, suas cores e suas proporções são rigorosamente definidas em lei. A regulamentação vem do tempo dos militares, mas vigora, visto não ter sido abolida. Bandeira nacional não é pano decorativo. Como todo símbolo oficial tem de ser usada conforme manda o figurino. Em princípio, todo mau uso afronta a lei e está sujeito a punição. Mormente quando tiver sido orquestrado por autoridades, como parece ser o caso.

No entanto, no entanto, o pior passou em branco. A Folha de São Paulo, que publicou a foto da esquina com a bandeira e narrou a situação com abundância de detalhes, não deu muita importância ao que ninguém gosta de ver. Na foto da bandeira, bem no centro, aparece uma pobre criatura, um trapo humano, deitado na calçada da avenida. É visivelmente um morador de rua – perdão! um indivíduo “em situação de rua”, como a falsa pudicícia obriga a dizer hoje.

A brincadeira do “Faria loser” não passa de estudantada. A cobertura das vergonhas, apesar de ser mais truculenta e menos sorrisonha, também não mata ninguém. A verdadeira vergonha, que passou em branco, transparente como tudo aquilo que a gente não gosta de ver, é o cidadão estirado no chão, bem no centro da foto, como um traço horizontal a sublinhar o lema “Ordem e Progresso”. Certamente a criatura não está lá pelo prazer de dormir numa cama dura pra aliviar as dores de coluna.

Enquanto dramas como esse continuarem a passar despercebidos, quase como atrapalhando a foto, de pouco vão adiantar a crítica leve feita contra o ministro incapaz e a repressão peremptória da autoridade que prefere ver a parede limpa, mas se desinteressa da sorte da ralé.

Governantes – e povo – que dão mais importância à ilusão de muro impecável do que à feia realidade de um povo desgraçado não merecem dormir em colchão quentinho e macio.

O Estado e a Igreja na Suíça

José Horta Manzano

Ontem postei o artigo Casamento para todos, em que exponho um problema que fatalmente vai surgir assim que for instituído na Suíça o casamento para pessoas do mesmo sexo.

Uma fiel leitora me pergunta como é possível essa interação com a religião, visto que a Suíça é oficialmente um Estado laico.

A resposta é que, na Suíça, as relações Igreja/Estado são complexas e obedecem a uma lógica particular, às vezes desconcertante. Para usar um termo da moda, trata-se de uma relação “não-binária”.

É uma particularidade nacional, talvez única no mundo. Para quem se interessar pelo assunto, encontrei no site Migraweb um bom texto, claro e conciso. Traduzi e adaptei. Está disponível aqui sob forma de arquivo pdf.

Rio Tinto

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a gente acha que já viu de tudo, é aí que aparece coisa assombrosa. Olhe, pode parecer, mas hoje não estou falando do Bolsonaro e do espantoso desfile de desajustados que lhe fazem companhia. O capitão é sobressalto diário garantido, mas há coisas que, embora menos nocivas, também surpreendem.

Você já viu um rio de água vermelha? Não estou me referindo a um curso d’água que um dia tenha ficado vermelho por algumas horas em consequência de um acidente de caminhão-tanque(1). Não. Falo de um rio de águas permenentemente vermelhas. Que não mudam de cor há séculos.

Não existe? Não acredita? Pois sim, esse rio existe. Tem 100km de comprimento e fica no sul da Espanha, na província de Huelva. Nasce nas encostas da Sierra Morena e desemboca no Golfo de Cádiz. Não por acaso se chama Rio Tinto. Tinto, em espanhol, quer dizer vermelho. Essa, por sinal, é a razão de chamarmos o vinho vermelho de vinho tinto.

A cor de suas águas provém de uma mina polivalente, conhecida e explorada faz milênios. É rica em cobre e prata. Tem até um pouco de ouro. Essa profusão de metais confere à água um teor muito ácido (pH 2). A cor avermelhada se deve principalmente ao ferro dissolvido.

Não se tem certeza se o tom vermelho escuro foi sempre o mesmo, ou se foi agravado nos últimos séculos, pela exploração mineira. Seja como for, é uma curiosidade imperdível. Se um dia, passada a epidemia, o distinto leitor fizer uma viagem pela região, não deixe de tirar uma selfie(2).

(1) Em Portugal, usa-se mais “caminhão-pipa” ou “caminhão-cisterna”.

(2) O Volp tanto admite “um selfie” quanto “uma selfie”. Escolha. É acertar ou acertar.

Roubo de areia

Praia Rosa, Sardenha

José Horta Manzano

Me lembro que, de criança, a gente gostava de procurar conchinha na areia da praia. Naquela época, encontrava-se muita concha quebrada. Havia também daqueles caramujos grandes que a gente encostava no ouvido pra ouvir o ruído do mar. Faz tempo que não vou à praia, mas imagino que as crianças de hoje continuem praticando o mesmo esporte.

Conchinha, a gente levava pra casa. Quanto à areia, não me lembro de ter visto alguém levar nem um punhadinho de lembrança pra casa. Dizendo assim, até parece coisa de maluco: com tanta concha pra catar e tanto artesanato pra comprar, quem é que vai ter o mau gosto de botar areia na bagagem de volta?

Pois há lugares do mundo em que isso se faz. As praias cinematográficas da ilha da Sardenha (Itália) são vítimas dos aficionados desse estranho esporte. E não é de hoje. Já faz décadas que forasteiros enchem garrafas, baldes e sacos de plástico com areia e carregam pra casa. Nem sempre se conhece a finalidade do roubo. Há quem faça comércio. Parece até que há anúncios na internet de gente oferecendo 1kg de areia da Sardenha contra 1kg de areia das Bahamas, coisas desse tipo. Não posso garantir, porque nunca comprei.

Tanto fizeram, que o governo provincial resolveu legislar pra dar um basta. Já nos anos 1990, a pequena Praia Rosa (na região de Budelli, Sardenha) foi declarada zona de proteção ambiental, e as visitas, proibidas. É que, se bobeassem, a areia sumiria em pouco tempo. Essa praia tem uma particularidade: a cor rosada de sua areia. Ela é conferida por um microorganismo cor-de-rosa que vive dentro das conchinhas. Com o passar do tempo, os moluscos morrem, as conchas se partem em mil fragmentos que acabam chegando à areia da praia dando-lhe a cor característica. Que se saiba, esse fenômeno não ocorre em outros lugares.

Atualmente, só se pode ver a Praia Rosa de longe, em excursões a bordo de pequenas embarcações controladas e vigiadas. Elas têm permissão de se aproximar a, no máximo, 70m do litoral, mas ninguém pode desembarcar, nem a nado. Na pequena ilha, ninguém entra; lá só mora o vigia do parque natural.

Assim mesmo, turistas desavisados (ou que se fazem de bobos) continuam levando areia de outras praias sardas. É impossível saber a quantidade exata, mas se calcula que toneladas e toneladas são roubadas todos os anos e transportadas para toda a Europa. As bagagens que passam pelo aeroporto são fiscalizadas, mas a maior parte dos turistas vêm de veículos tipo motorhome, trailer ou camping car. Esses escapam quase sempre, dada a impossibilidade de inspecionar cada recanto de cada veículo.

Assim mesmo, não é aconselhável arriscar. Para quem for apanhado em flagrante, o castigo é pesado: multa que varia entre 500 e 3.000 euros (R$ 30 mil a R$ 190.000), dependendo da gravidade e do volume do roubo. A penalidade tem de ser paga imediatamente, por cartão de crédito. Se não houver fundos, veículos e passageiros serão retidos até resolução do problema.

Vinho de enchente

José Horta Manzano

Você sabia?

As inundações que castigaram o noroeste da Alemanha no mês passado destruíram boa parte do vinhedo de Ahr, grande região produtora de vinho tinto. Não só as vinhas foram destruídas, mas a enchente, ao engolfar vilas e vilarejos, levou gente, casas e deixou porões debaixo d’água.

Com a baixa das águas, os sobreviventes descobriram um espetáculo de desolação. Móveis, utensílios e objetos pessoais estão perdidos. Mas os porões conservavam boa reserva de garrafas de vinho intactas, ainda estocadas nas prateleiras onde sempre estiveram. Com um detalhe: estão todas sujas de lodo e de barro seco.

Chamados para examinar, laboratórios deram o veredicto: o barro não é tóxico. Portanto o conteúdo das garrafas não está contaminado. O conteúdo está perfeitamente consumível, já que a sujeira se limita à parte externa.

O primeiro impulso foi de limpar as garrafas. Mas alguém teve a ideia de guardá-las tal como estão e fazer uma venda especial em favor dos vinhateiros da região. É bom exemplo do ditado “fazer das tripas coração”. Os vinhos dessa “safra” levam todos o nome de Flutwein – vinho de enchente”(*).

Organizou-se uma espécie de “ação de crowdfunding”, em que cada comprador contribui para ajudar financeiramente os pequenos produtores a se levantarem do baque que os derrubou. Quem contribuir leva de brinde uma garrafa – ou mais de uma, conforme o valor da doação. O preço das garrafas varia de 10 a 500 euros, dependendo da qualidade e da raridade do conteúdo.

Quem se habilitar, que entre em contacto com a União dos Pequenos Vinhateiros da Região de Ahr. Dado que a catástrofe despertou forte sentimento de solidariedade no país inteiro, não garanto que ainda sobrem garrafas. De todo modo, o estoque era limitado.

(*) Flutwein é termo composto de Flut (enchente) + Wein (vinho). Reparem que Flut é cognato do inglês flood, de mesmo significado.

Ensaio geral?

arquivo pessoal deste blogueiro

José Horta Manzano

Este blogueiro, embora fosse bem jovem, já estava em idade de ouvir o zum-zum que correu a cidade na manhã de 1° de abril de 1964. Ouvir e escutar é uma coisa; entender é outra. Acho que, tirando os galardoados que tinham dado as ordens, ninguém entendia direito o que estava acontecendo. Nem mesmo – e principalmente – os que conduziam os brucutus.

Foi no fim da manhã que a voz correu e chegou até nós, povinho ignaro e sem importância. Falava-se em golpe de Estado. Como é que é? De novo? Mais um? Quem foi desta vez? (Sem ser corriqueiro, golpe de Estado não era algo que espantasse naqueles tempos.)

Numa época sem internet, sem redes sociais, com rádio transmitindo em cadeia única e com as raras tevês tocando música, as notícias se arrastavam a passo de tartaruga. Para nós, adolescentes, a novidade não fedia nem cheirava. A vida continuou, a escola pra quem estudava, o trabalho pra quem trabalhava.

Para os mais velhos, especialmente para os que se lembravam dos bombardeios sofridos pela cidade na Revolução de 1924, restou o temor de ver de novo gente sendo esmagada por bombas largadas por aeroplanos. Fora isso, como todos tinham na memória recente os movimentos de 1924, 1930, 1932, 1935, 1945 e 1955, esse não passava de um a mais.

Não foi senão algum tempo depois que nos ensinaram que aquilo não tinha sido um golpe de Estado, mas uma Revolução. Sei que, hoje em dia, pôr na mesma frase as expressões “31 de março” e “Revolução” causa frisson. Mas, na época, ninguém se abalou. Assim foi.

É claro que, “golpe” ou “revolução”, os acontecimentos da madrugada de 1° de abril de 1964 não surgiram do nada, resultado do mau humor de dois ou três generais que houvessem comido salada de pepino à meia-noite. O movimento estava fermentando fazia semanas, meses talvez. Naquela noite, amadureceu e estourou. Só que, como todo levante que se preze, germinou em silêncio, no escurinho dos quartéis, em conciliábulos para meia dúzia de iniciados. Para os demais, boca de siri.

Neste 2021, o capitão que imagina nos governar, sentindo que perde rapidamente o pouco apoio que tinha, determinou que manobras militares ostensivas se realizassem em Brasília, ao vivo e em cores, bem no dia em que o Congresso deve votar uma matéria ultrassensível. Todos interpretaram a exigência presidencial como expediente intimidatório sobre os parlamentares – e sobre a população. Uma espécie de “Quem manda no meu exército sou eu”.

Jair Bolsonaro ainda usava calça curta em 1964. Há de ser por isso que não se dá conta de uma verdade elementar: golpe de Estado não se anuncia de véspera, especialmente pondo brucutus no asfalto. Ele está assumindo um tremendo risco. Sem necessidade, está apostando no tudo ou nada antes da hora. Há dois caminhos possíveis. Só dois, não vejo mais nenhum.

Se os parlamentares se intimidarem com os canhões e votarem como deseja o capitão, ele vai conseguir alguns pontos. Não será o vencedor da guerra, mas terá ganhado uma batalha, o que lhe permitirá continuar no páreo.

Já se os parlamentares não ligarem a mínima para os canhões e derrubarem a medida tão desejada pelo capitão, este último terá perdido o pouco que lhe resta de moral. Todos vão ficar sabendo que o desprezo pelo presidente é tamanho, que nem brucutus no asfalto assustam mais ninguém.

Em matéria de golpe de Estado, não há ensaio nem ameaça – só a ação definitiva conta. E ela tem de ser única, imprevista, radical e certeira. Não há segunda chance.

Credulidade

José Horta Manzano

Com o passar dos anos, a gente vai amadurecendo e perdendo certas ilusões. Perder ilusões é chato. O mundo fica mais terra a terra, pão pão queijo queijo. O lado bom disso tudo é que a gente acaba ficando mais blindado contra algumas armadilhas.

Fico impressionado com a credulidade de tanta gente fina. A historinha que li hoje é divertida. Antes de mais nada, precisa saber que Itu, situada a 100km de São Paulo, é conhecida como a cidade dos exageros. Não sei bem quem foi o iniciador dessa legenda urbana, o fato é que funciona como apelo turístico. Todos sabem que Itu é o lugar onde tudo é grande.

Estes dias, um jovem resolveu fazer uma brincadeira. Postou nas redes uma foto com seu cartão de vacinação. Disse que tinha ido a Itu tomar vacina e que lhe tinham dado um cartão enorme. Na montagem, realmente o documento cobre metade do corpo do rapaz. E não é que muita gente acreditou?

A postagem ‘viralizou’, como se diz. Pelo que conta o jovem, “algumas pessoas disseram até que dava pra ter comprado mais vacina com o valor gasto na impressão da carteira de vacinação”.

Pode um negócio desses? Dá até medo de ver a que ponto o povo acredita em tudo o que contam. É comovente, mas também inquietante. A gente começa a entender a razão pela qual tanta gente bota fé nas lorotas do capitão.

Como é que se faz pra ensinar à juventude que não convém acreditar em tudo o que se vê, nem em tudo o que se ouve ou lê? É urgente encontrar solução.

Do jeito que está, vamos direto pro buraco. Com fábricas de notícias falsas brotando por toda parte (inclusive e principalmente no Planalto), a juventude vai estar cada vez mais desorientada.