É fome?

José Horta Manzano

Quando um competidor está louco, vidrado, desesperado pra ganhar, se diz que está com “fome de vitória”. Mas é metáfora, força de expressão. Na hora de comer, há quem goste de feijão, há quem prefira pizza, outros não abrem mão de um hambúrguer. Já engolir metal é mais raro. Por que será então que tantos esportistas medalhados fazem pose mordendo a medalha diante das câmeras? Será fome?

É um costume bizarro, de origem obscura, talvez comparável ao (mau) hábito que quase todo futebolista tem de cuspir no gramado, comportamento nunca visto em esportista de nenhuma outra modalidade. (Exceção feita, talvez, dos ases da natação que, ao terminar a prova, encostam na parede da piscina, olham firme em direção ao painel eletrônico e aproveitam pra soltar pela boca um líquido que uns juram ser água clorada, enquanto outros asseguram que não é.)

Voltando às medalhas mordidas, por que fazem isso? A CNN se interessou pelo assunto e resolveu explorar. Constataram que não é somente em provas olímpicas que isso acontece. Um grande tenista como Rafael Nadal, por exemplo, é habitué de uma dentada no troféu. Morde cada prêmio com gosto, como se pretendesse tirar um pedaço.

Um tanto alarmados com o que têm visto, os dirigentes do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Tokyo resolveram lançar um alerta. Veio a bordo de um tuíte bem-humorado:

“Gostaríamos de confirmar oficialmente que as medalhas de #Tokyo2020 não são comestíveis!

Nossas medalhas são feitas de material reciclado a partir de aparelhos eletrônicos doados pelo público japonês.

Portanto, convém não morder… mas sabemos que vocês vão continuar mordendo.”

A melhor explicação para o estranho hábito de morder medalha ao posar para foto foi dada por um perito da Sociedade dos Historiadores Olímpicos. Diz ele que os atletas fazem isso numa tentativa de contentar a mídia. No início, foi uma solicitação de fotógrafos correndo atrás de uma foto sensacionalista. Com o tempo e com a insistência de mais e mais fotógrafos, acabou por se tornar tradição, uma passagem obrigatória.

Sabemos que a imensa maioria dos atletas olímpicos são estrangeiros. Todos eles conhecem o sushi, mas não estão familiarizados com a exótica culinária japonesa. Mas daí a comer medalha… precisa ter bons dentes.

Quadro de medalhas fraudado?

José Horta Manzano

O colunista Renato Terra dá título sugestivo a seu artigo de hoje na Folha de São Paulo: “Bolsonaro afirma ter provas de que Quadro de Medalhas foi fraudado”.

O humorista, que só queria fazer graça, não deve ter se dado conta de que, ao mesmo tempo que ele redigia a crônica, um dos três grandes quotidianos do país se esforçava pra tornar realidade a imaginária fraude.

Estas duas capturas de tela foram feitas no mesmo momento, quando o Brasil havia conquistado suas primeiras 3 medalhas. Veja só.

Jornal A

 

 

Jornal B

 

No quadro do jornal A, com 3 medalhas, o Brasil aparece na 15ª. posição entre as nações. Na imagem do jornal B, com as mesmas 3 medalhas, o país é degradado ao 23° lugar. Como é possível?

“É fraude!” – exclamaria o capitão, “estão fazendo isso de propósito pra eu perder a eleição!”. (Ele provavelmente diria “pra mim perder”, mas não vamos nos perder nessas minúcias.)

Fraude, não é. Sobram duas possibilidades: ignorância ou desleixo. Opto pelas duas, um pouco de cada.

O jornal B, que nos mostra em 23° lugar, fez a conta certa. Estar no 23° lugar significa que, independentemente de quantos empates houver entre os demais, somos precedidos por 22 países no quadro final.

O jornal A, que nos põe em 15ª. posição, bobeou. Confundiu-se com o fato de vários países estarem empatados.

As regras olímpicas determinam que, quando dois atletas terminam empatados, o que é muito raro, a medalha seguinte não seja atribuída. Aconteceu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi (2014). Numa das provas de esqui feminino, duas competidoras fizeram o percurso num tempo rigorosamente idêntico: 1 minuto e 41,57 segundos. Foi o melhor tempo. No pódio, ambas receberam a medalha de ouro. A concorrente seguinte ficou com a medalha de bronze. Naquele ano, a medalha de prata não foi atribuída.

Por analogia, a regra olímpica se estende também à classificação dos países no quadro de medalhas.

Depol

José Horta Manzano

Estava lendo hoje a sequência do relato daquele estranho incidente que vitimou doutora Hasselmann, deputada federal. Foi impressionante ver suas imagens com o rosto intumescido. Não se conhece ainda o fim da história, se é que se conhecerá um dia. Mas já deu pra aprender um detalhe que pelo menos este blogueiro, até ontem, ignorava.

Eu sabia da existência de um corpo de polícia especialmente dedicado à Câmara Federal. Imaginei que as atribuições dele se limitassem a cuidar da ordem no recinto parlamentar, como uma espécie de segurança reforçada. Pensava que servisse para expulsar visitantes inoportunos, para conter deputado surtado, para apartar briga entre excelências. Pois acabo de aprender que seu raio de ação é bem mais amplo.

Além de cuidar de incidentes menores, o Departamento de Polícia Legislativa (Depol) cuida também da segurança dos parlamentares, servidores “e quaisquer pessoas que eventualmente estiverem a serviço da Câmara”.

Essa disposição deve criar situações curiosas. Suponhamos que o distinto leitor se encontre no recinto da Câmara e, por um motivo qualquer, tem uma discussão com um parlamentar ou com um servidor. Os ânimos se exaltam e estoura uma briga. A polícia legislativa intervirá para garantir a segurança do parlamentar (ou do servidor). Quanto a você, cidadão rasteiro, terá de chamar a polícia comum e esperar que venha. Pode parecer brincadeira, mas, se forem respeitadas as atribuições, o Depol não está lá pra defender gente de fora. Só os do clube.

O Depol dá também segurança ao presidente da Câmara em qualquer ponto do Brasil e no exterior. Isso significa que quando doutor Lira, presidente da Câmara, viaja de passeio a Paris, tem direito a um par de seguranças postados à entrada do bistrot enquanto degusta uma bandeja de ostras regadas por um vinho branco da Alsácia. E você sabe quem paga a conta do festim.

Pra fechar o capítulo das incumbências, cabe ainda ao Depol apurar infrações penais cometidas no recinto legislativo, em suas dependências ou contra qualquer das excelências. Eis por que a deposição de doutora Hasselmann foi tomada pelo Depol, que, investigando sob sigilo, cuidará de apurar a denúncia de agressão.

Confesso que não sabia da existência dessa polícia paralela. E muito menos sabia que agisse na legalidade, abrigada na Casa do Povo. Sabia apenas da existência de milícias privadas estabelecidas geograficamente longe da Câmara. Cada dia dá pra entender melhor por que razão tanta gente sem eira nem beira procura se eleger. É pra fazer como um certo capitão que passou 28 anos no bem-bom, com polpuda remuneração, apartamento funcional, auxílio-gravata e outros balangandãs (alguns bem rachadinhos). E, ainda por cima, contando com uma polícia privada pra chamar de sua.

Eu me pergunto se a Câmara precisava realmente investir nosso dinheiro numa polícia especial, só dela, pra fazer um trabalho que a polícia comum já faz. Que tivessem um corpo de seguranças, vá lá. Mas… uma polícia que se encarrega de apurar infrações penais? Será que dispõem de um corpo técnico, com investigadores, frota de veículos, helicópteros, dactiloscopistas, psicólogos, que se comportam como nos filmes americanos, quando entra em cena a polícia técnica?

Nossa República é cheia de surpresas. Todo dia a gente fica sabendo de uma nova. Essa que acabo de descobrir é um resultado perverso do sistema em que legisladores legislam em causa própria. Em países normais, onde os eleitos são indivíduos de razoável bom senso, o autocontrole evita excessos, que, de qualquer maneira, não seriam aceitos pelo eleitorado. Nunca ouvi falar de nenhum país normal que disponha de corpo de polícia especial, agindo unicamente a serviço de parlamentares, seus servidores e seus familiares, a duplicar o trabalho da polícia comum. Mas nosso país, francamente, não é normal.

Contraste fascinante

No DNI (Documento Nacional de Identificação), Argentina inclui opção para pessoas não-binárias.
La Nación (Buenos Aires), 21 julho 2021

 

 

O Globo (Rio de Janeiro), 22 julho 2021

 

Observação
Quem escreve “Bolsonaristas” assim, com letra maiúscula, deve também escrever Malufistas, Flamenguistas, Garantistas, Aposentados – tudo com maiúscula. Questão de isonomia.

Em casa

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

A Eurocopa – o equivalente europeu da Copa América – está chegando ao fim. A final, programada para domingo no Estádio de Wembley (Londres), será entre Itália e Inglaterra.

Os ingleses, que não chegam à partida final de um torneio importante desde 1966, estão animadíssimos, com sede de vencer. Desde que se classificaram para o último jogo, a palavra de ordem em Londres é: “Football is coming home”. Na lata, os italianos replicam: “Football is coming Rome”.

Hipocrisia da grossa

José Horta Manzano

No jogo do bicho, o veado leva o número 24. Na primeira metade do século 20, quando não havia as numerosas modalidades de loteria que há hoje, o jogo do bicho era parte integrante da rotina de todos os cidadãos. Homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres, todos faziam sua ‘fezinha’ (de , não de fezes). Mesmo proibido – ou talvez exatamente por isso –, o jogo sempre foi apreciado.

Com o passar do tempo, a rotina da “fezinha” perdeu um pouco de força, mas a síndrome do número 24 continua firme e forte. Na linguagem popular do Brasil, não sei por que razão, o homem homossexual é chamado de veado. A partir daí, surgiu uma amálgama: homossexual = veado = 24. Essa tríade está ancorada na cabeça de todos.

Para um adolescente, faixa etária em que a personalidade ainda não está suficientemente firme pra resistir a certas pressões, ser designado pelo número 24 – na lista de chamada na escola, por exemplo – pode ser um peso difícil de carregar. Chacotas, zombarias, brincadeiras de mau gosto são um tormento quotidiano.

Pra evitar aborrecimentos, o brasileiro costuma fugir desse número. Não sei se, nas escolas do Brasil, a lista de chamada ainda atribui um número a cada aluno. Também não sei se o 24 é pulado. O que sei é que, certamente na preocupação de evitar constrangimento para os selecionados, a CBF não dá a camisa 24 a nenhum jogador.

Outro dia, um grupo LGBT que se sentiu ofendido com a ausência do 24 nas camisas da Seleção, entrou com ação judicial requerendo que a CBF informasse a razão do sumiço. Quando li a notícia, me pareceu zombaria. Como é que é? Não sabem por que razão nenhum jogador de futebol quer saber de camisa com esse número? Só pode ser brincadeira.

Não, não era brincadeira. E a demanda subiu até o Supremo que, parece inacreditável, acolheu o pedido. E deu 48 horas à CBF para explicar a razão de o número ser sistematicamente pulado. A explicação veio, num exercício de malabarismo em corda bamba, complicado de escrever, de ler e de entender.

Continuo sem atinar com os motivos que levaram o tal grupo de defesa dos interesses LGBT a proceder como o fizeram. Não percebi direito onde está a ofensa à causa da diversidade sexual. Me parece mesmo é falta do que fazer, com pinceladas de hipocrisia pesada. Da próxima vez, devem aproveitar o embalo e questionar a mais alta corte americana sobre a inexistência de 13° andar em numerosos edifícios americanos. Se defendem o direito à existência de todos os números aqui, deveriam fazê-lo ali também. Ou não?

Pra quem perdeu um capítulo, está aqui:

A demanda do grupo LGBT que acusou a CBF de homofobia (!)

O contorcionismo verbal da CBF para explicar sem dizer a verdade.

Como é que é?

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que lei obrigava. O que estava na lei era pra ser cumprido sem discussão.

Fico feliz em saber que, nestes admiráveis tempos modernos, leis apenas sugerem. Deve ser sinal de que nosso povo evoluiu e chegou ao ponto de dispensar imposições. Sugestões bastam.

Ninguém segura o progresso.

Chué

José Horta Manzano

Quero crer que a foto foi batida no interior de um dos palácios oficiais que a República destina ao presidente: Alvorada, Planalto ou Granja do Torto. Dá pra imaginar o momento que antecedeu a imagem congelada.

De repente, o capitão se levanta e ordena a um serviçal que, de pé, assistia ao jogo, pronto pra atender a um chamado.

“Ô amizade! Pega teu telefone aí e tira uma foto de mim aí! Péra, não, você fica ali, péra um pouco, é pra mim sair na frente da tela. Deixa eu espichar o dedo. Pronto, agora, pode tirar!”

O resultado é o que se vê acima. É raro ver tanto mau gosto reunido numa só imagem. É verdade que bom gosto não é exatamente o que se espera do personagem. Assim mesmo, a gente tem sempre um fiozinho de esperança – que se esfiapa a cada vez.

A tela
Sua Excelência, aproveitando-se da exposição que o cargo lhe dá, aponta para o logo de uma emissora de televisão amiga. Ao fazê-lo, faz propaganda da empresa. Pega muito, mas muito mal. Presidente da República, justamente pela visibilidade de que dispõe, não pode exercer o papel de garoto-propaganda de empresa nenhuma. É indigno do cargo, e injusto para com as emissoras concorrentes.

Se eu fosse responsável por uma dessas emissoras que não tiveram direito a receber a bênção presidencial, entrava com pedido de ressarcimento pelo fato de minha empresa não ter sido contemplada com tratamento igual. É questão de isonomia. Ou Sua Excelência faz propaganda de meu canal também, ou exijo compensação financeira. A Justiça não ia ter como negar. E serviria de lição ao presidente descarado.

Eu poderia fazer propaganda de quem bem entendesse, que o alcance de minhas palavras não iria muito longe. Quando são figuras públicas que se pronunciam, como o presidente da República, é diferente. Uma palavra dessa gente causa forte impacto. Vale como exemplo o gesto do jogador Ronaldo, que outro dia, numa entrevista coletiva, empurrou para o lado uma garrafa de Coca-Cola: 30 minutos depois, a marca havia perdido 4 bilhões de dólares de valor de mercado.

Qualquer dia destes, o capitão devia fazer-se fotografar em frente à tela na hora da novela. Queria ver qual é o logo que aparece no canto.

A camiseta
Pelo que entendi, a camiseta (ou camisola, como preferem nossos amigos lusos) que o presidente veste é o uniforme de um time de futebol de Santa Catarina. Uma cadeia de lojas patrocina o time, o que explica as letras de 20cm de altura. Neste caso, fica complicado falar em propaganda indevida, como no caso da emissora de tevê.

Mas não fica complicado falar do requinte de mau gosto do capitão. De fato, quem ostenta um barrigão daqueles deve abster-se de vestir camiseta justinha. Pior ainda se for de cor amarela. O homem engordou muitíssimo de um ano e meio pra cá. A boia do palácio deve ser superior ao que serviam na cantina da Câmara.

Os fios
Esta não tem muito a ver com o capitão, mas ele não deixa de ser cúmplice. Você reparou naqueles fios que saem do decodificador de tevê? Minha casa não é o Palácio da Alvorada, mas aqui os fios são mais comportadinhos. Aquela fiação pendurada que aparece na foto presidencial está mais pra gato montado pra sugar o sinal do vizinho otário que paga a assinatura.

Os objetos
Repare na coleção de objetos disparates captados pela câmera. Temos:

  • o decodificador (que ficava melhor se estivesse disfarçado dentro de um compartimento, com os fios camuflados dentro de uma canaleta ou de um conduíte);
  • um calendário (que lembra brinde de fim de ano da farmácia da esquina);
  • um objeto (que parece ser um agrupamento de cristal de rocha desses que a gente traz de lembrança de viagem);
  • um livrinho azul (que não deve ser a Constituição, pois o presidente guarda a dele religiosamente na mesinha de cabeceira, para consulta diária, como todos sabem);
  • um vaso azul.

Ah, vou contar um segredo, que talvez nem o capitão saiba. Vamos falar baixinho, que é pra ele não ouvir. Sabe o vaso de porcelana que aparece justamente entre a tela e o capitão? Vão me desculpar pela ousadia, mas é a peça de maior valor nessa imagem; vale mais que a tela e o dono da casa adicionados. Pelo alto valor, até destoa dos demais objetos expostos. Só que tem um senão: o vaso é… chinês!

Não deixem que o capitão fique sabendo, senão ele vai ter pesadelos à noite.

Chué
Faz tempo que não ouço o termo chué, que pus no título. Me pergunto se seu prazo de validade já não estaria vencido. É adjetivo e significa ordinário, à toa, reles, pífio, cafona.

É palavra de origem árabe, língua em que significa pouco, pequena quantidade. Entrou na nossa língua no tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros. É interessante que tenha sobrevivido em português, mas não em espanhol nem em catalão.

Por outro caminho, o termo também chegou ao francês atual. A importação foi feita na época em que a Argélia, região onde se fala um dialeto árabe, era colônia francesa. Em francês, a palavra é usada ora como substantivo, ora como advérbio. Tem a forma chouya (pron: chuiá) e mantém o significado original de quantidade pequena, pouco.

Passaporte vacinal

José Horta Manzano

Pôôôxa! O homem não perde ocasião de mostrar que é empacado mesmo! Olhe, não é pra fazer inveja a ninguém, mas tenho de informar que já recebi meu passaporte vacinal. Sem discussão, sem blablablá, sem veto, sem polêmica. É tão natural.

Um exemplo simples. Dono de restaurante não é obrigado a deixar entrar todo o mundo; tem o direito de recusar a entrada daqueles que não preencherem determinadas condições. Pode barrar o acesso a quem estiver não estiver convenientemente vestido, por exemplo. E tem também o direito de só permitir entrada a quem tiver sido vacinado. O mesmo vale para uma companhia aérea e até para um país. Em certos países tropicais, só entra quem puder provar ter sido vacinado contra malária.

Para agradar aos devotos, o capitão tem de tomar essas atitudes que vão contra o bom senso. Ele tornou-se refém dos radicais.

O general e a gravata

José Horta Manzano

Curioso para conhecer Pazuello, o ex-ministro que eu nunca tinha tido oportunidade de ver nem de ouvir, fui dar uma espiada em seu depoimento de ontem na CPI. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Depois de tudo o que já li sobre ele, imaginava dar de cara com um General Trovão, um Figueiredo dos tempos atuais, um líder do tipo “deixa comigo, que eu mato e arrebento”. Em vez disso, o homem está mais pra Zangado, um dos anões que rodeavam a Branca de Neve, aquele que nunca sorria. Parece um Zangado falante, mas sempre de maus bofes.

Na foto tirada durante o depoimento, o general aparece de olhos fortemente avermelhados. Fica a nítida impressão de ele não ter dormido na noite anterior – o que poderia explicar o quase-desmaio que sofreu à tarde. É difícil imaginar que ele tenha passado a noite se agitando num baile funk, mas é concebível que tenha ficado acordado até altas horas recapitulando as respostas que lhe tinham sido aconselhadas pelos media trainers contratados pelo Planalto. Pode ser também que, nervoso, tenha simplesmente perdido o sono.

Fiquei surpreso com a inabilidade dos senadores para conduzir o interrogatório. O próprio interrogado parecia mais bem preparado que eles, quando deveria ser exatamente o contrário. Os inquiridores é que tinham de surpreender o convocado com perguntas inesperadas, incisivas e inescapáveis. Em vez disso, notei certa displicência entre os parlamentares, como se estivessem surpresos pelo fato de o general dar respostas firmes sem tropeçar. É verdade que senador não está necessariamente formado para a função de promotor público, mas a CPI tem como se fazer assessorar por especialistas trabalhando em tempo real. Se não o fez, foi porque não quis.

Fiquei encantado com a gravata do general. Não me esqueço de quando esse modelo foi apresentado ao mundo. Foi em Copenhague (Dinamarca), em outubro de 2009, no dia em que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que atribuía ao Rio de Janeiro a organização das Olimpíadas 2016. Representando o Brasil, um grupo eufórico estava presente. Quando souberam do resultado, soltaram gritos e deram pulos de contentamento. Na época, a gente imaginou que fosse por patriotismo. Usavam todos esse modelo de gravata.

Como modelo, até que ela não é feia, com as cores da bandeira. Só que os primeiros usuários, além de não serem modelos de desfile de moda, tampouco eram o que se pode chamar de modelo de virtude. Os figurões mais proeminentes estão na foto acima, todos devidamente engravatados com o mesmo modelito do general. Vamos ver quem são. Da esquerda para a direita.

Eduardo Paes
Atual prefeito do Rio, é o único em atividade neste momento. Não chegou a ser preso, mas a lista das acusações de corrupção que o perseguem é longa como um dia sem comer.

Sergio Cabral
Foi governador do Rio. Condenado por corrupção e outros crimes, não só passou pela casa prisão, como ainda está lá. Condenado a mais de 200 anos de privação de liberdade, ainda deve permanecer encarcerado por algum tempo.

Carlos Arthur Nuzman
Era o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro à época. Acusado de corrupção, passou pela casa prisão em 2017.

Lula da Silva
Foi presidente do Brasil. Condenado por corrupção e outros crimes, passou pela casa prisão, onde purgou mais de ano e meio.

Orlando Silva
Dos retratados, este parece ser o mais maneiro. Foi ministro do Esporte. Teve problemas com a justiça por ter comido uma tapioca de R$ 8,30 e posto na conta da Viúva. Visto que é arraia miúda demais, não passou pela casa prisão.

Não conheço o sexto cavalheiro.

Tendo em vista a folha corrida dos primeiros portadores da gravata verde-amarela, vale indagar que motivo levou o general a enrolar essa gravata de corruptos em torno do pescoço ontem. Algumas suposições:

• Ele não assistiu à cerimônia de 2009, portanto não sabe que os que lançaram a moda são personagens pouco recomendáveis, pra dizer o mínimo.

• Imaginando que ia acabar preso, já veio paramentado para seguir os passos dos que o precederam.

• A coisa é o que parece: sabe-se lá por que, vestiu a gravata em homenagem à bandidagem.

• Distraído, saiu de casa de camisa aberta, como quem se prepara para um passeio num shopping de Manaus. Foi Bolsonaro que, ao vê-lo descamisado, emprestou sua gravata de estimação.

Pode ser alguma dessas razões. Ou nenhuma das anteriores. O distinto leitor o que acha?

Os velhinhos da ponte

José Horta Manzano

Pontus e Ola Berglund são gêmeos idênticos, tão parecidos que a gente tem dificuldade em saber quem é quem. Têm 73 anos. Nasceram e foram criados em Gotemburgo, a segunda cidade mais populosa da Suécia. Moram a pouca distância um do outro, questão de meia hora de carro, com uma peculiaridade: um mora na Suécia e o outro na Noruega – separados por uma fronteira.

Esse detalhe nunca os impediu de se ver, visto que fronteira, naquela região do mundo, não é empecilho. Os gêmeos sempre foram muito ligados. Faz tempo que mantêm o hábito de se encontrar uma vez por semana, ora na casa de um, ora na do outro. Desde que se divorciou, Ola se sente muito sozinho e aprecia particularmente esses encontros com o irmão.

No entanto, quando surgiu a pandemia, as regras de passagem da fronteira endureceram e os dois não puderam mais se visitar. Foi quando tiveram a ideia de continuar os encontros semanais com uma pequena diferença: não se encontrariam mais na casa de um ou de outro, mas na fronteira.

Faz mais de um ano que os irmãos se encontram assim. Todas as sextas-feiras às 11h da manhã, chova ou faça sol, os dois se dirigem à velha ponte que liga a Suécia à Noruega e que passa por cima de um dos inúmeros fiordes daquela costa acidentada. Caminham até o meio da ponte e cada um se posiciona a um metro de distância da linha traçada no asfalto marcando a fronteira entre os dois países.

Dessa forma, matam dois coelhos com uma só cajadada: respeitam a proibição de atravessar a fronteira e obedecem à regra de manter dois metros de distância um do outro. Cada um desdobra sua cadeira portátil, sentam-se ambos e passam um bom tempo batendo papo e refazendo o mundo. Lá pelas tantas, cada um tira da mochila sua garrafa térmica, seu sanduíche, e… é hora do lanche.

Os raros carros que passam são conduzidos por motoristas munidos de autorização especial. Às vezes, nossos gêmeos são confundidos com guardas de fronteira, o que os diverte muito. Depois de um ano desse ritual, os dois já estão conhecidos na região. Tem gente que vem só pra conhecer de perto os dois velhinhos da ponte.

Depois do divórcio, Ola vive sozinho na sua cidadezinha norueguesa. Indagado se não lhe fazia falta um contacto físico, um abraço no irmão, respondeu que sim, falta fazia. Mas, quando a vontade aperta, dá um abraço em si mesmo. “Afinal, somos idênticos!”

Lição de distributivismo

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

José Horta Manzano

Vamos imaginar uma situação. É um bocado irreal, mas serve para ilustrar o que quero dizer. Digamos que o distinto leitor, ao caminhar no centro da cidade, topa com um grupo de pessoas maltrapilhas, adultos e crianças. Dois homens, que parecem liderar o grupo, estendem a mão. Faz sol, o dia está bonito, você se levantou feliz e de bem com o mundo. Por isso, se dispõe a ajudar. Vasculha a carteira e tira de lá uma nota de 5 reais (ou 10, ou 20, ou 50 – dependendo do nível de generosidade do leitor).

Você estende a nota em direção aos dois, movimenta levemente o braço de um lado para o outro e diz: “Isto é para os dois; não tenho trocado, mas fica metade pra cada um”. Neste ponto, em vez de agradecer, um dos homens retruca: “Ei, moço (ou moça, se for o caso), metade pra cada um não está certo! O companheiro aqui tem dois filhos e eu tenho três. Mereço mais.”

Quem achou que a situação é absurda acertou. Ela é. Pra início de conversa, nos dias atuais, seria imprudente parar na rua diante de um grupo de cidadãos desconhecidos e, ainda por cima, remexer na carteira (ou na bolsa). Porém, há mais importante que isso: as regras básicas da civilidade ensinam que não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio.

Pois esse princípio elementar acaba de ser violado por um ministro de Bolsonaro. Foi na semana passada. Durante coletiva de imprensa organizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), doutor Queiroga, ministro da Saúde do Brasil, lançou um apelo. Falando de vacina anticovid, implorou a todos os países que tivessem doses sobrando que compartilhassem lotes com o Brasil.

Até aí, tudo bem. Pedir, todo o mundo pode. O enrosco vem agora. Petulante, o doutor aproveitou os holofotes para dar instruções aos hipotéticos doadores. Em verdadeira lição sobre distributivismo, acrescentou que “o acesso ao imunizante deve ser proporcional à gravidade da emergência sanitária”. Com isso, quis dizer que o Brasil merece receber mais que os demais, visto que nossa situação é mais embolada.

Tenho dois reparos. Primeiro, como já disse antes, não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio. Esse tipo de arrogância pega mal pra caramba.

Segundo, não se pode esquecer que o governo Bolsonaro – ao qual o ministro serve – não tem perdido ocasião, desde que a pandemia se instalou, para desancar a OMS, difundir notícias falsas sobre ela, acusá-la de ser partidária e de estar a serviço da China. O capitão imitou o comportamento de Donald Trump, seu ídolo, nesse desvario. Só que, agora que Trump se foi, Bolsonaro ficou no mato sem cachorro tendo de implorar à pérfida OMS umas sobras de vacina. Um vexame.

Não tivessem nossos dirigentes sido tão estúpidos e pretensiosos, o planeta inteiro estaria socorrendo o Brasil espontaneamente, como um punhado de países mais civilizados estão fazendo com a Índia. Não precisaria nem pedir, e muito menos ensinar aos socorristas como distribuir as doações.

Estratagemas

Rei Balduíno

José Horta Manzano

No dia 3 de abril de 1990, pouco antes da meia-noite, os ministros do governo belga se encontraram para uma reunião de crise. Após uns minutos de deliberação, constataram que o rei estava “impossibilitado de reinar”.

No dia seguinte, a decisão foi publicada em edição especial do jornal oficial do país, o que permitiu ao primeiro-ministro e aos demais ministros tomar as rédeas do governo e assumir as funções do monarca.

O rei Balduíno estava em perfeito gozo de sua saúde física e mental. Como é possível, então, que tenha sido julgado “impossibilitado de reinar”? Para entender, é preciso voltar no tempo. Uma semana antes, depois de anos e anos de hesitação, o parlamento tinha aprovado uma lei de descriminalização do aborto voluntário. Para a entrada em vigor, só faltava a sanção do monarca.

O problema é que o rei Balduíno, católico fervoroso, se recusava a promulgar a lei. Afirmou que não assinaria o documento nem se o papa lhe pedisse. Não queria que seu nome ficasse para sempre ligado a uma lei cujo teor colidia frontalmente com suas convicções. Diante do impasse, constitucionalistas encontraram uma saída – um tanto ousada e fora de esquadro, é verdade, mas servia pra contornar o problema.

Assim que a real interdição foi publicada no órgão oficial, os ministros, agora únicos responsáveis, assinaram e promulgaram a lei. No dia seguinte, o ministério se reuniu novamente. A ordem do dia era uma só: discussão sobre a interdição do rei. Após rápida deliberação, a interdição foi anulada e Balduíno foi de novo julgado “apto a reinar”. No dia seguinte, a boa notícia foi sacramentada pelo diário oficial e o monarca recuperou o trono.

No Brasil, faz uns dias, situação análoga estava se desenhando. Os deputados federais haviam votado um orçamento que desrespeitava as leis vigentes. Suas Excelências, cujo único interesse parece ser permanecer no poder para todo o sempre, sabiam o que faziam ao votar a peça. Mas deixaram o abacaxi para o presidente descascar.

Bolsonaro sabia que, se sancionasse o orçamento como foi votado na Câmara, estaria cometendo crime de responsabilidade, o que poderia levar à abertura de processo de impeachment. Se não o sancionasse, entraria em choque frontal com Suas Excelências que, em represália, poderiam até abrir… um processo de impeachment – há dúzias cochilando na gaveta da Mesa Diretora.

Foi quando surgiu a ideia de uma malandragem salvadora. (Afinal, nesta altura do campeonato, não é um trambique a mais que vai arruinar de vez o currículo do presidente.) Bolsonaro embarcaria num avião com destino ao exterior, para uma viagem de um ou dois dias. Por seu lado, Mourão, o vice-presidente, também deixaria o país. Assim, a via estaria livre para o presidente da Câmara, que é o nome seguinte na linha de sucessão, assumir a Presidência. Ele sancionaria a lei do orçamento, e pronto: Bolsonaro escaparia ao risco de destituição.

O cenário parecia bem desenhado. Quando chegou a hora dos finalmentes, veio a pergunta: “Muito bem, e Bolsonaro viaja para onde?”. Foi aí que caiu a ficha.

Os estrategos do Planalto foram obrigados a encarar a realidade: nenhum país está disposto a receber Bolsonaro. Nem vizinhos próximos, nem os mais distantes, nem Europa, nem Estados Unidos. À África, ele tem medo de ir. Viajar à Polônia, país que talvez o recebesse, fica complicado, porque a distância é muito grande.

Não, minha gente, não deu. E a ideia foi abandonada.

Chapéu na mão

José Horta Manzano

Em 2019, assim que assumiu a Presidência, Bolsonaro se indispôs com meio mundo. Nas relações exteriores, brigou com vizinhos e com todos os países amigos – com exceção dos EUA de Trump.

Aconselhado pelos luminares que o cercam, o capitão cuspiu em cima das doações milionárias da Alemanha e da Noruega, destinadas à preservação da Amazônia brasileira. Ofendido, deu a entender que o Brasil tinha como ponto de honra a manutenção da própria soberania. O recado passado ao mundo foi o de que não precisávamos nem desejávamos dinheiro de ninguém. Éramos crescidinhos e suficientemente fortes para cuidar de nosso território nós mesmos, sem interferência nem participação externa.

Para esta semana, Joe Biden convocou uma cúpula sobre o clima, com a participação de 40 líderes planetários. Bolsonaro está sendo esperado. Em contradição total com a arrogância de dois anos atrás, nosso “mito” fará uma apresentação humilde e indigente. Anunciou que pretende entrar de chapéu na mão, pedindo esmola. Deverá apresentar a chantagem que o Planalto preparou para confrontar o resto do mundo: ou me dão 10 bilhões de dólares por ano, ou a Amazônia brasileira vai continuar minguando até desaparecer. Se assim procederem, nossas autoridades vão transmitir a imagem de um Brasil empobrecido mas sempre vigarista. Como todas as iniciativas do governo atual, esta também é fruto de burrice entranhada. É impressionante como falta inteligência àquele pessoal.

Por certo não estão se dando conta de que a proposta é confissão pública e definitiva de impotência. A chantagem tupiniquim vai escancarar a realidade e dar razão aos que sugerem a internacionalização da floresta tropical. De ora em diante, todos saberão que, sem ajuda externa, o Brasil não tem condições de cuidar do próprio território.

Fica mais uma vez comprovado que os repentes de patriotismo bolsonárico não passam de patriotadas para a galeria. Na hora do vamos ver, é rabo entre as pernas e pires na mão.

Tratamento precoce

“Kit covid”

José Horta Manzano

Não posso saber qual era a intenção das autoridades que conceberam o “kit covid”. Não está claro, pelo menos para mim, se a intenção era curar ou prevenir a doença – se os remédios são curativos ou preventivos.

Não foi boa ideia dar ao coquetel de remédios o nome de “tratamento precoce”. Pra começar, precoce é palavra um tanto ambígua, visto que seu significado pode variar dependendo do contexto. Além disso, o termo não pertence à língua de todos os dias, ou seja, muita gente simplesmente não sabe o que significa.

No meu entendimento, para que a expressão “tratamento precoce” faça sentido, é preciso que o paciente já esteja doente, isto é, que já tenha contraído o vírus. Não se trata alguém que ainda não está doente.

Admitindo que a intenção dos criadores fosse tratar os doentes em estágio precoce, é preciso constatar que muitos estão entendendo que o famigerado “kit covid” é um preventivo, isto é, uma espécie de imunizante que se toma para não ficar doente.

Agora dá pra entender por que há tantos infelizes sofrendo as consequências de ter tomado os medicamentos do “kit”. Elas podem ser violentas. Há quem passe a sofrer insuficiência hepática, renal ou cardíaca. Há quem entre para a fila dos transplantes. Há muitos que infelizmente não resistem e acabam falecendo.

Entre os que sofrem essas consequências, deve haver muitos que, sem haver contraído covid, ingeriram os medicamentos do “kit” como preventivo. É trágico imaginar que, pensando escapar de um mal, recebam o terrível abraço de outra doença que os acompanhará até o túmulo.

Ontem, dia 18, o jornal O Globo publicou artigo esclarecedor que conta a pressão que autoridades vêm exercendo sobre o corpo médico lotado em hospitais por todo o país. O texto em pdf está aqui à disposição do distinto leitor.

Vamos de cloroquina?

Prof. Didier Raoult, médico francês defensor da cloroquina contra a covid

 

José Horta Manzano

Esta semana, a Nature, conceituada revista científica britânica, publicou o resultado de uma análise sobre a administração de cloroquina e de hidroxicloroquina a pacientes que sofrem de covid-19. Nada menos que 94 cientistas endossam o estudo, que se baseou em quase três dezenas de ensaios clínicos efetuados com mais de dez mil pacientes.

Chegaram à conclusão de que o uso de hidroxicloroquina eleva a taxa de mortalidade. Já a cloroquina, molécula da mesma família, demonstrou ser simplesmente inócua. A fim de desestimular toda ideia de automedicação, os cientistas recomendam que pacientes de covid sejam alertados para esse perigo. Acrescentam que a administração de hidroxicloroquina potencializa o risco de hospitalização mais prolongada com frequente necessidade de intubação.

O estudo só vem reafirmar o que faz algum tempo que todos já sabemos: em caso de covid-19, cloroquina e hidroxicloroquina são medicamentos a banir. Na melhor das hipóteses, não fazem efeito nenhum; na pior, levam à morte. Tirando algum iluminado, como o professor Raoult – lombrosiano médico francês adepto ferrenho da cloroquina e da hidroxicloroquina –, todo profissional consciencioso devia passar ao largo desses medicamentos.

Não deixa de causar espanto que, no Brasil, muitos médicos (centenas? milhares?) continuem receitando e administrando essas moléculas a título de “tratamento precoce” de pacientes de covid. Será que esse pessoal não costuma se inteirar dos avanços da pesquisa científica? Não leem inglês ou, quem sabe, simplesmente não leem? Ou serão devotos fanáticos do capitão, daqueles que fazem tudo o que seu mestre mandar, sem parar pra refletir?

Talvez nenhuma das hipóteses mencionadas. Talvez a realidade seja mais tenebrosa ainda. É possível que, tendo estudado em escola de medicina de segunda categoria, estejam mal formados e despreparados para exercer a profissão. O que explica que não leiam pesquisa, visto que não entenderiam. O que também explica que sigam as orientações do capitão, visto que Bolsonaro lhes parece mais entendido no assunto do que os fracos professores que tiveram na escola.

Que São Benedito nos ajude!

Só rico lê

Chamada Estadão, 7 abril 2021

José Horta Manzano

Advertência da Receita Federal: livro pode perder isenção fiscal porque, segundo eles, «só rico lê».

Todo caminho é de mão dupla, dona Receita! Todo argumento tem de sofrer a prova da mão dupla, não parece lógico? Então, vamos lá.

Pelo raciocínio de algum luminar, rico pode pagar mais imposto. Mas não há que esquecer o corolário: que se cobre menos imposto do pobre.

Então, vamos fazer o seguinte. Aumenta-se o imposto do livro, já que é produto para o rico. E baixa-se o imposto do arroz e do feijão, produtos essenciais para o pobre. Estamos combinados?

Cada uma! Num país de iletrados, a ideia é aberrante. Quando é que será instituído imposto sobre a estupidez?

Eles lá e nós aqui

José Horta Manzano

As variantes britânica, sul-africana e brasileira do coronavírus estão fazendo estrago feio na Europa. A Itália é bom exemplo do fenômeno. Em março-abril de 2020, sofreram a primeira investida da epidemia. Foi aquele caos que assustou o mundo, período em que caixões eram transportados em caminhões do Exército, de madrugada, que era pra não aterrorizar a população. (Ficou ainda mais sinistro.)

O confinamento (que também responde pelo charmoso nome estrangeiro de lockdown) durou mais de dois meses durante os quais todos tiveram de ficar trancados em casa. Lá pelo fim de maio, a doença deu uma trégua, veio o desconfinamento e todos pensaram que o pior tinha passado. Ilusão.

Com o verão, vieram as férias e, com elas, os ajuntamentos, os beijos e os abraços. Não deu outra: no mês de outubro, o bichinho mostrou que não morre tão fácil assim. Voltou com força. As autoridades hesitaram em reconfinar a população. O vírus aplaudiu de pé. A partir daí, a curva de contaminações oscilou, numa gangorra angustiante, hoje sobe, amanhã desce, depois sobe de novo.

As medidas de proteção – desinfecção das mãos, distanciação social, máscara de proteção – ajudaram. E assim foi indo, até que passou o Natal e o novo ano trouxe a vacina. Todos imaginaram que estava aparecendo a luz no fim do túnel. O que ninguém previu foi que a vacinação seria tão lenta e que surgiriam variantes bem mais contagiosas da doença.

Nestas últimas semanas, a contaminação tem se alastrado em alta velocidade. As UTIs estão de novo lotadas. Pacientes em estado grave estão sendo transferidos para outras regiões do país. Que fazer?

Depois de hesitar, não houve jeito. Aconselhado pelas autoridades sanitárias, o governo italiano decretou novo confinamento, válido para o país inteiro com exceção da Sardenha (que é uma ilha). As regras são as mesmas que no ano passado: liberdade de ir e vir fortemente entravada, comércio fechado, proibição de todo deslocamento que não seja por motivo de trabalho ou de saúde.

O período de penitência começa nesta segunda-feira 15 de março e vai até a Páscoa. É como se a população inteira tivesse de usar tornozeleira eletrônica – sem direito a habeas corpus.

Enquanto isso, numa terra chamada Brasil, continuamos a brincar com fogo. Atiçados por um presidente que é vítima de manifesta perturbação mental, cidadãos se apinham em praça pública para exigir abertura do comércio. Agem como se fosse possível espantar o vírus no grito. Vestem verde-amarelo como se isso lhes conferisse legitimidade. “Brasileiros somos nós; o resto são comunistas!”, parecem querer dizer.

Sinto tristeza ao assistir a esse tipo de espetáculo. Me dá muita pena ver que, em pleno século 21, ainda se encontra gente que acredita num salvador da pátria. Tanto esses que agora se esgoelam por Bolsonaro quanto aqueles que antes se engalfinhavam por Lula ou por Dilma são apóstolos de seitas que não combinam com nosso tempo. Essa gente devota, que engole tudo o que seu mestre mandar, mostra falta de discernimento, incapacidade de pensar com a própria cabeça e de captar a realidade.

Uma lástima. Graças a eles, continuamos firmes em nossa trilha para transformar o país no foco mundial de irradiação da covid. O distinto aceita um comprimido de cloroquina?