O estrago é maior

José Horta Manzano

Desde que a Operação Lava a Jato levantou a ponta do tapete que enfeita a sala do andar de cima, uma sujeirada começou a sair. Foi como se tivessem erguido a lápide da tumba dos horrores. O que escapou de fantasma não está escrito! As barbaridades que apareceram estes últimos anos deixaram o País de queixo caído. E quando a gente pensa que acabou, lá vem mais.

Dos bilhões surrupiados, nem precisa falar. Dá muita raiva. Poucos meses de cadeia para quem levou a saúde e os sonhos dos compatriotas é muito pouco. Muito pouco. Esses calhordas tinham de apodrecer na masmorra, pra nunca mais sair. A começar pelo chefe de todos eles.

O mal-afortunado incêndio do Museu Nacional foi edificante. Ficamos sabendo que a manutenção do venerando estabelecimento tinha sido confiada a uma universidade federal cuja cúpula dirigente estava dominada por lulopetistas de carteirinha. Os holofotes giraram para outras universidades federais. Veio à luz que estão praticamente todas infestadas por elementos de mesmo jaez.

Em artigo publicado pelo Estadão deste domingo, a jornalista Eliana Cantanhêde focaliza outra secular instituição do Brasil ‒ o Itamaraty ‒ e aponta o profundo entranhamento que a máquina lulopetista pôs em prática ali. A jornalista relata que os embaixadores Celso Amorim e José Viegas, cardeais de alta batina, se encarregaram de impor doutrinamento a uma geração de diplomatas. O resultado foi a vergonhosa diplomacia «ativa e proativa» que se aproximou de ditaduras sanguinárias e dançou quadrilha com elas. Com resultado nulo para os interesses nacionais, frise-se.

O próximo presidente do Brasil ‒ desde que não seja o candidato petista, te esconjuro! ‒ vai ter muito trabalho, mas muito trabalho mesmo, pra repor a casa em ordem. Desde que as credenciais de mérito foram abandonadas em favor da carteirinha do partido, a contaminação ideológica infestou centenas de empresas estatais, agências reguladoras, embaixadas, consulados, até a representação brasileira junto à Organização dos Estados Americanos. A contar de primeiro de janeiro do ano que vem, vai aparecer muito desempregado na praça.

Zap-zap estimula a inteligência?

José Horta Manzano

Quem já passou dos 35-40 anos há de se lembrar dos primeiros tempos da internet, lá pela virada do século, quando a rede mundial começou a se popularizar. Computador em casa ainda era artigo de luxo, inaccessível objeto de desejo de muita gente. Larga parcela de internautas frequentava cibercafés ‒ gênero de estabelecimento atualmente em acelerada via de extinção.

Inconscientes e inexperientes, os neonavegantes se enroscavam nos sargaços que infestavam as águas da internet. Naquela época, vírus se multiplicavam pela rede. Não se passavam duas semanas sem que surgisse notícia alarmante prevendo o estouro em cadeia da rede mundial. Havia perigo de que o próximo virus bloqueasse computadores, apagasse arquivos, inutilizasse o trabalho de muita gente. Às vezes, acontecia mesmo. Algum programinha malicioso se infiltrava sorrateiro e atazanava a vida de muito usuário incauto.

Naqueles tempos ‒ que já nos parecem antigos ‒ internautas eram ingênuos. Não sabendo lidar com critério, clicavam em botões onde não deviam. E assim, abriam as portas para vírus, bactérias e infecções. Era o começo, que fazer?, o povo ainda estava em fase de aprendizado.

De lá pra cá, os internautas ficaram mais espertos. Hoje em dia, todos aprenderam a lição de base. Sabem que não se deve clicar a torto e a direito só porque uma atraente luzinha insiste em piscar. Sabem distinguir o que pode do que não pode. Pra melhorar o panorama, fornecedores de serviços (Microsoft, Google & assemelhados) trazem antivírus incorporados e fornecem maior proteção. Faz anos que não se ouve mais falar naquelas ameaças de ataque viral que perigava bloquear computadores e aporrinhar a existência.

O WhatsApp anda dando que falar. Ataque maciço, robôs, boatos, fake news, compartilhamentos maliciosos ‒ são expressões que invadiram o quotidiano de todos. Utilizadores não sabem a que santo apelar. Sentem-se como num barco sem leme. Será que a notícia é verdadeira? Será que a fonte é confiável? Devo compartilhar?

O quadro de incerteza lembra nitidamente o perigo viral que ameaçava a rede no começo do século. Como naquele tempo, internautas voltam a sentir desconforto. Mas pode deixar. A oportunidade é supimpa pra desenvolver o espírito crítico. Assim como ninguém mais clica em botões à tonta, não vai demorar muito pra todos aprenderem a distinguir mensagem verdadeira de boato malicioso.

O atual problema tende a enfraquecer o espírito de maria vai com as outras e a reforçar o julgamento próprio. Nada como um momento de dificuldade pra despertar mecanismos de superação. O povo vai sair desta tempestade mais esclarecido e mais esperto, pode acreditar. Há males que vêm pra bem.

Jornalismo militante

José Horta Manzano

Às seis e meia da manhã, pela hora de Brasília, abro a edição online da Folha de São Paulo. Desfilando pela primeira página, encontro as seguintes chamadas:

  • Presidente da Gazint disse que Bolsonaro tem que ganhar para ‘não ter que gastar mais dinheiro’.
  • Grupos de WhatsApp pró-Haddad proliferam, e PT desconfia de armadilha bolsonarista
  • TSE abre investigação sobre Bolsonaro e compra de mensagens anti-PT
  • WhatsApp bloqueia contas; TSE e PTF apuram atuação eleitoral de empresas
  • Apoiadores de Bolsonaro começam a migrar grupos do WhatsApp para o Telegram
  • Empresários recuam em onda de apoio a Bolsonaro para não se expor
  • Repórter que descobriu envio de mensagens anti-PT participa do Eleição na Chapa
  • Bolinha de papel na cabeça de José Serra antecipa fake news
  • Roger Waters agradece vaias e chama Bolsonaro de insano. Músico diz que boicotaria o Brasil pela democracia caso candidato seja eleito
  • Comida na ditadura causava horror. Tem político querendo transformar o Brasil no país de 40 ou 50 anos atrás
  • O mercado ignora os riscos de um governo Bolsonaro
  • As reformas da extrema direita bolsonarista para destruir o Brasil

Não temos café
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Juro que é verdade, sem tirar nem pôr. Tudo na primeira página. Não estou tentando criar fake news ‒ pra entrar na moda. É consternante reconhecer que o autoqualificado ‘maior jornal do Brasil’ mais parece um panfleto partidário. O ativismo desse veículo, como diriam os franceses, é cousu de fil blanc ‒ costurado com linha branca. É patente, salta aos olhos. Só não enxerga quem não quer. Para conferir, basta dar uma olhada na sobriedade da primeira página dos outros dois jornais mais vendidos no país, o Estadão e O Globo. A diferença é comovente.

Vale notar que ter a maior circulação entre os jornais do país não significa ser ‘o maior’. São conceitos diferentes. Na Alemanha, o Bild tem, de longe, a maior circulação. Bate, com folga, qualquer concorrente. No entanto, com seu estilo de tabloide sensacionalista, está longe de ser ‘o maior’. Aliás, nem reivindica essa posição. É apenas o mais vendido, basta. A mesma coisa acontece com a Folha, que costumava ser jornal sério, mas está se perdendo.

A mídia tradicional tem visto seus leitores sugados pela internet. Cada veículo tenta solução própria para compensar a diminuição das vendas. “O maior jornal do país” parece ter escolhido caminho original. Mas é sempre perigoso vender a alma ao diabo. Como ensina o Conselheiro Acácio, as consequências vêm depois.

Neonazismo & neofascismo

José Horta Manzano

Pergunta:
Como avalia o crescimento de Jair Bolsonaro, um candidato da extrema direita, no Brasil?

Resposta:
A crise estourou em 2008 e o que vemos agora são seus efeitos. O Brexit tem que ver com esta situação, como Trump e o fenômeno de Bolsonaro. Só que lá é neonazismo e aqui é neofascismo.

A pergunta foi formulada pelo entrevistador do jornal espanhol El País. E a resposta, com aspecto e gosto de salada mista, foi dada por doutor Fernando Haddad, em longa entrevista concedida ao jornal. Saiu na edição deste domingo, 14 de outubro.

Não acredito que doutor Haddad, professor universitário e dono de boa formação humanística, ignore o real significado dos termos neonazismo e neofascismo. Fosse um Lula qualquer a invocar em vão esses conceitos tenebrosos, a gente poria na conta da ignorância. Mas doutor Haddad, não. Se pronuncia inverdades, é por refinada má-fé. Mostra seu lado finório.

É obrigatório constatar que o candidato assimilou perfeitamente o irritante costume petista de atirar poeira nos olhos do interlocutor a fim de baralhar a mensagem. A resposta que ele deu ao jornalista é acabado exemplo dessa tática. Como numa salada russa, o doutor misturou conceitos díspares.

Chamar Donald Trump de neonazista é ir longe demais. O homem é atabalhoado, elefante em loja de porcelana, autoritário, voluntarista, ignorantão, mas, de nazista, não tem grande coisa. Não se sabe de nenhuma manobra sua que empurrasse seu país na direção de uma Alemanha dos anos 1930.

Fascio littorio ‒ símbolo do fascismo

Dizer que o Brexit é fruto de ressurgência do nazismo é outro rematado exagero. O voto dos britânicos é fruto de um balaio de motivos ‒ saudades dos tempos gloriosos do Império Britânico, receio de perder o emprego para um polonês mal remunerado, sentimento difuso de que Bruxelas está legislando contra os interesses nacionais. O conjunto de razões não poderá, nem de longe, ser etiquetado de nazismo.

Quanto ao Brasil, sabemos todos qual é a razão pela qual doutor Bolsonaro está a um passo de ser eleito por aclamação. É antipetismo puro, a não confundir com neofascismo. De fato, a maior parte dos votos que serão dados ao capitão, no espremer do suco, não lhe pertencem. Poucos serão os eleitores que compactuam com hipotético viés fascista do candidato. Vota-se simplesmente contra o Partido dos Trabalhadores.

Não contente em atazanar a vida dos que aqui vivem, o PT exporta perversidade. Contribui, assim, para degradar a imagem do Brasil lá fora e ainda alimenta o desolador cenário de desinformação que domina a mídia internacional. É revoltante.

PT paz e amor?

José Horta Manzano

Numa tática inútil, o Partido dos Trabalhadores tem-se aplicado, entre os dois turnos, a eliminar de sua propaganda eleitoral e de seu portal internet toda referência extremista. Posições de marcado viés ideológico, como o apoio ao regime bolivariano de Maduro, desapareceram. A figura de Lula da Silva foi ocultada. O vermelho foi removido. O candidato à Presidência e sua vice (filiada ao Partido Comunista!) se apresentaram, contritos, em Aparecida neste feriado religioso. Até comungaram. Uma graça.

by Elvis Braga Ferreira, desenhista amazonense

Essa estratégia, além de não atingir o objetivo de arrecadar mais votos no segundo turno, escancara a desorientação de um agrupamento em via de decomposição. De fato, quando um partido se põe a renegar pontos essenciais de sua doutrina, é sinal de que os alicerces apodreceram. Prédio a esse ponto deteriorado requer demolição urgente, antes que desabe na cabeça dos moradores.

Essa manobra de ocultação de princípios, além de não agregar nenhum voto, é tática suicida. Senão, vejamos. Por um lado, os antipetistas não vão passar a votar nos candidatos do partido só porque os louvores ao regime bolivariano desapareceram do programa. Por outro, os petistas não vão deixar de apoiar o partido só por causa desse detalhe. Portanto, o jogo é de soma zero. Noves fora, sobra o desespero explícito de um agrupamento em perdição.

Os equilibristas

José Horta Manzano

A cada vez que uma disputa eleitoral vai para o segundo turno, reaparecem os políticos indecisos. Este blogueiro é do tempo em que os que se recusavam a se decidir por um lado ou por outro eram ‘afinados’. Hoje, é costume dizer que ‘ficam em cima do muro’.

A meu ver, homem político que assim se posiciona é fortemente suspeito. Duas razões, ambas negativas, podem estar na origem dessa tomada de posição. Pode ser que o figurão, vacilante, não consiga realmente se decidir, o que é péssimo sinal para um eleito do povo. Ou então pode ser que ele esteja se resguardando e esperando baixar a poeira para pular do lado certo do muro. Esta última possibilidade é ainda pior que a primeira, por mostrar venalidade e oportunismo.

Político honrado tem de se molhar. Ou pende para um lado, ou pende para o outro. Não é aceitável fincar os pés em canoas diferentes. É até perigoso, que os barcos podem se afastar, e o incauto acabar dando um mergulho.

Se político dissimulado já é ruim, partido indeciso é pior ainda. O próprio de um partido é justamente… tomar partido, cáspite! Estes dias, à espera do segundo turno, vários partidos «liberaram» seus aderentes pra votarem como quiserem. É o fim da picada. Até parece que os simpatizantes estavam esperando a orientação do partido. Qual nada! Cada eleitor já tinha tomado decisão por sua conta.

Se, em tempos normais, pega mal quando um político ou um partido fica em cima do muro, neste momento será pecado capital. O momento é crítico e a equação, simples. Quem quer a volta do PT ao comando da nação, que vote para doutor Haddad. Quem não quer, que vote para doutor Bolsonaro. Só a neutralidade não vale. Os que se abstiverem estarão deixando a decisão nas mãos de outros. Bobeiam. Quem se equilibra na corda bamba é andorinha.

Brasil de perto

José Horta Manzano

Hoje o BrasilDeLonge foi ver o Brasil de perto: fui votar. Volto com impressões contrastadas.

A organização
Só em Genebra são perto de 9 mil eleitores inscritos. Para acolher todo esse povaréu, o consulado alugou um espaço num centro de convenções e lá instalou numerosas secções eleitorais. Não sei por que razão, algumas tinham grande quantidade de gente esperando pra entrar enquanto outras não tinham ninguém. O contraste entre as secções concorridas e as demais era muito forte. Não atino a razão.

A espera
Com o voto no exterior, o Brasil exporta uma especialidade genuinamente nacional: a fila. Há muitos anos eu não fazia fila, coisa desconhecida por aqui. Pra começar, havia uma fila de uns 15 minutos na calçada só pra poder entrar no centro de convenções. Em seguida, outra fila mais rápida pra saber o número da secção, dado que o que está escrito no título não vale mais. Pra terminar, mais uma fila interminável, de hora e meia, pra entrar na secção. Deu um total de duas horas, tempo suficiente pra voltar com dor nas pernas.

Calor humano
Cáspite! Não imaginava que houvesse tantos compatriotas por aqui! Fila é sinônimo de proximidade. (Dependendo do espaço disponível, pode tornar-se sinônimo de contacto íntimo.) Proximidade + longo tempo de espera = conversa animada com o vizinho de fila.

Diferença de costumes
Por aqui, ninguém costuma se dirigir a estranhos. Hoje deu pra lembrar que no Brasil não é bem assim. Logo de cara, minha vizinha de fila me olhou no fundo dos olhos e tascou «‒ Desculpe perguntar, mas o senhor vai votar em quem?» Pausa pra um momento de estupor. É nessas horas que a gente se dá conta de que as diferenças culturais são ainda mais fortes que diferenças de nível econômico ou social. Por aqui, ninguém ousaria fazer uma pergunta dessas. Nunca, jamais, em tempo algum. Assim mesmo, respondi.

Razão do afluxo
Dirigi-me a um senhor de crachá, que fiscalizava o movimento. Perguntei a ele por que razão havia tanta gente a ponto de ser preciso fazer fila. Lembrei que, nas eleições anteriores, nunca houve espera. Responde ele que, desta vez, dada a polaridade da eleição, todos fazem questão de votar. Ninguém quer deixar a decisão na mão de outrem. O nível de abstenção baixou muito. Faz sentido.

O novo e o velho
Fiquei encantado com o tal de aplicativo que substitui o título de eleitor. Em vez de levar aquele papelzinho verde que a gente nunca sabe onde guardou, os que baixaram o programinha exibem o celular e lá está, na tela, o título com foto e todos os dados. E o número da secção se atualiza automaticamente. Coisa do outro mundo! No entanto, como nada é perfeito, todo esse automatismo cessa no momento em que o eleitor se aproxima da mesa. A partir daí, três figuras sorridentes começam a procurar seu nome em listas impressas. Igualzinho a como se fazia no século passado. Nem sempre encontram na primeira tentativa. Daí, o mesário passa para o colega. Se o colega falhar ‒ aconteceu, acreditem ‒ o presidente entra na dança. Encontrado finalmente o nome do cidadão, ele é autorizado a votar. Terminado o exercício, dão-lhe um papelzinho minúsculo. É o «comprovante», documento importantíssimo, que deverá ser guardado preciosamente. Um trapinho! É coisa do século 19!

Consideração final
Se estas eleições ‒ com segundo turno ou sem ele ‒ nos livrarem definitivamente da praga do lulopetismo, toda essa aventura terá valido a pena. Valha-nos, São Benedito!

O vaivém da hora

José Horta Manzano

Num raro exemplo de constância e rigor legal, a Casa Civil editou decreto em 2008 fixando regras para a hora de verão. Ficou combinado que o início seria no terceiro domingo de outubro enquanto a volta à hora normal se daria no terceiro domingo de fevereiro. Uma exceção foi aberta para o caso de o Carnaval cair justamente no dia da mudança de hora. Quando isso ocorre, a volta à hora normal fica adiada para o domingo seguinte. Pronto: simples e claro.

O sistema funcionou direitinho por nove anos ‒ longevidade excepcional para um dispositivo legal no país! Mas… ai de nós, o que é bom dura pouco! Já no fim do ano passado, a Justiça Eleitoral pediu que a Casa Civil desse um jeitinho de alterar a data de início da hora de verão 2018-2019. É que a mudança no relógio estava estorvando o calendário das eleições.

Pra começo de conversa, a coisa parece surreal: por que diabos o TSE não adaptou o calendário eleitoral à hora de verão? Por que será que é a tradicional e pré-fixada hora de verão que tem de ser mexida? Pra fim de conversa, a coisa parece mais surreal ainda: o presidente da República acatou o pedido e ousou mexer na hora de verão!

Desgraça pouca é bobagem. Eis que ‒ desta vez sob pressão dos organizadores do Enem ‒ a Presidência acaba de deslocar de novo a data de entrada em vigor da hora de verão. Foi retardada mais uma vez porque «estava atrapalhando os exames». Volta a pergunta: dado que o calendário da hora de verão já está fixado há 10 anos, por que diabos não marcaram o Enem para outra data?

A mudança anual de hora não é um berloque inventado pra animar a monotonia do calendário. Tem finalidade específica e influencia todas as atividades humanas. Sistemas informáticos têm de ser ajustados, coisa que se costuma fazer com antecedência. Horários de aviação são afetados pela mudança ‒ um deslocamento da data de início mexe com os horários de todas as companhias que servem o Brasil. Milhares de passageiros vão ser prejudicados. O horário de trabalho de todos os que vão ao batente à noite é afetado. Esses vaivéns perturbam a vida de muita gente.

Essas mudanças atabalhoadas ‒ e, pra piorar, feitas na última hora ‒ não fazem senão botar lenha na fogueira da insegurança institucional do país. Em matéria de hora de verão, a melhor iniciativa seria aboli-la. Mais atrapalha do que ajuda.

Alô, mãe!

José Horta Manzano

Tenho um conhecido, pessoa inteligente e agradável, que gosta muito de falar. Tem, contudo, um defeito: adora falar de si. Enquanto está falando dele mesmo, não se cansa, e a conversa pode varar a noite. No entanto, a partir do instante em que o bate-papo passa a tratar de outra pessoa, meu amigo começa a bocejar e a olhar pro relógio. Faz décadas que nos conhecemos, mas ele não muda.

Lembrei desse conhecido quando li o incrível relato de que a defesa de Lula da Silva havia pedido às autoridades que deixassem o detento conceder entrevista a jornalistas. Como é que é? Presidiário dando entrevista? Estivéssemos em abril, eu acreditaria que era mentira ‒ perdão! ‒ fake news. Sabemos todos que o presidiário fala pelos cotovelos, mas… dar entrevista? Como ator de novela? Aí já estamos exagerando.

Inacreditavelmente, o pedido foi acolhido por um dos ministros do STF. Ato contínuo, um segundo ministro cassou a licença e voltou a proibir o preso de dar declarações a repórteres.

Simpatizantes de Lula da Silva se alevantam: «Como é possível que neguem ao ex-presidente o que já foi concedido a Fernandinho Beira-Mar?» Senhor do céu! E eu, ignorante, que não sabia que o traficante tinha dado entrevista. Vasto mundo.

A meu ver, a coisa está sendo analisada pelo avesso. O problema não está em negar a Lula da Silva o que já foi autorizado ao Fernandinho da coca. O que está errado é conceder esse tipo de regalia a preso. A qualquer preso. Não faz sentido.

Quando um indivíduo é condenado à cadeia, o objetivo é múltiplo. Além de aplicar-lhe castigo e buscar ressocializá-lo, a temporada na prisão protege a sociedade contra um elemento nocivo, que transgrediu regras de convivência. Se ele tem direito a se exprimir, a sociedade inteira tem direito a não ter de suportá-lo. O direito do apenado não pode primar sobre o dos demais cidadãos.

Preso não deve ser autorizado a dar entrevista, nem a fazer pronunciamento ou comício. A sociedade tem direito a viver em paz, sem esse ruído na linha. O fato de autorizações terem sido concedidas no passado não deveria ser razão para perserverar. Quando uma prática se revela perniciosa, há que mudá-la.

Repito. Se condenados têm seus direitos, a sociedade, com mais razão, terá os seus. Os direitos de quem está atrás das grades, condenado a passar uma temporada afastado do grupo, não podem atropelar os direitos dos concidadãos. Os cidadãos têm, sobretudo, direito a viver sem serem incomodados pelo condenado. Cada qual com seu cada qual, ué.

Gauche caviar

José Horta Manzano

Você sabia?

No mundo inteiro, até a virada dos anos 1980, meios universitários botavam fé no sucesso da revolução socialista. Eram movidos por desejo sincero de promover igualdade social por meio da implantação ‒ pelas boas ou pelas más ‒ de regime autoritário que impusesse redistribuição da renda.

Stalin, o paizinho dos povos, já tinha morrido fazia décadas. Mesmo assim, intelectuais do mundo inteiro, integrantes do que os franceses chamam gauche caviar (=esquerda caviar), continuavam filosofando e refazendo o mundo entre dois goles de pastis ou de bourgogne.

A queda do Muro de Berlim, o fracasso da Cuba dos Castros, a derrota dos sandinistas e dos guerrilheiros das Farc, o inferno norte-coreano e o descalabro bolivariano teriam despertado qualquer cristão para a realidade. Qualquer indivíduo de bom senso se teria convencido de que o caminho não é esse. Nossa gauche caviar, no entanto, bate pé firme.

O curioso fenômeno não se limita a nosso país. Longe disso: é mundial. Essa peculiar casta de reformadores do mundo briga com os fatos e está de mal com a realidade. Vivem eles encastelados num universo de fantasia rodeado de filtros que só deixam passar o que estão dispostos a ouvir.

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Em cerimonia realizada ontem, a argentina Universidad Nacional del Comahue concedeu a Lula da Silva o doutorado honoris causa. Comahue é universidade pública, baseada principalmente em Neuquén, mas com satélites em uma dezena de outras localidades. Aparece entre as dez maiores universidades do país.

Em sua fala, o reitor acusou textualmente o “poder judicial corrupto” do Brasil de manter o demiurgo injustamente na prisão. Acusações voaram para todos os lados. Doutor Temer, o presidente da Argentina e a diretora do FMI tiveram direito a sua dose de insultos. “‒ Um dia voltaremos a recuperar as forças na América Latina!”, encerrou o magno reitor. O artigo não confirma, mas imagino que, nessa hora, o moço tenha levantado o punho esquerdo cerrado.

O coro da universidade e um conjunto de batucada alegraram a jornada de “Homenagem ao Brasil camponês, operário, negro e popular” (sic), conforme a descrição oficial. Nos discursos, nenhuma menção foi feita ao mensalão, ao petrolão nem aos 13 milhões de desempregados. É compreensível.

Leitores irados inseriram comentários à notícia no site do jornal La Mañana Neuquén:

  • Que vergonha!
  • Presente de folgados para corruptos e ladrões. Da próxima vez para Maduro e Ortega!
  • No Equador, com bom senso, derrubaram a estátua de um corrupto. Aqui damos distinção a um outro?
  • Gastam verba homenageando um delinquente, corrupto e encarcerado?

Dezenas seguem no mesmo tom.

Insensatez aparente

José Horta Manzano

Cuspir no prato em que se comeu é ingratidão. Cuspir no prato em que se vai comer é idiotice. Razoável mesmo é não cuspir no prato, convenhamos. Além de incivilizada, a prática é repulsiva.

Isso dito, manifestações políticas de certos artistas me deixam perplexo. Por definição, todo artista depende do apoio que recebe do público. Seu ganho vem dos que leem seus livros, assistem a seus filmes, compram seus discos, prestigiam seus espetáculos. Sem o público, o artista não sobrevive. Em tese.

Seguindo esse raciocínio, conclui-se que todo artista ajuizado deveria evitar tornar públicas suas preferências políticas. É fácil entender por quê. Se o artista deixa claras suas afinidades com o partido A ou o candidato Fulano, desagradará todos os que detestam esse partido ou essa personalidade. O perigo é que os desgostosos deixem de prestigiar o artista.

Tenho visto, estes últimos tempos, artistas conhecidíssimos dando prova explícita de aderir a determinados partidos e de apoiar determinados políticos. É de pasmar. Será que não se dão conta de que, se reforçam a admiração de certos fãs, acabam perdendo a simpatia de outros?

Diante do absurdo aparente, fica a desconfiança de que só se age assim por interesse. A debandada dos fãs há de estar sendo compensada por outros ganhos. Quais serão?

Dupla carreira política

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é todo dia que a gente vê homem político fazendo carreira em dois países, evento pra anotar em livro de história. É o que está pra acontecer com Monsieur Manuel Valls, o poliglota que está inscrevendo peculiar percurso político.

O pai dele, espanhol de Barcelona, emigrou para a França quando moço. Lá conheceu a moça com quem viria a se casar, uma suíça italiana. Trocadas as alianças, continuaram vivendo na França. Quando estava pra chegar o primeiro filho, o pai fez questão de que a criança, como ele, viesse ao mundo em Barcelona. Dito e feito, foram de férias à Espanha e lá nasceu o menino Manuel.

Manuel Valls, antigo primeiro-ministro da França

Logo de cara, o moço já tinha duas nacionalidades: a espanhola por parte de pai, e a suíça por parte de mãe. Cresceu na França, país do qual requereu a cidadania assim que completou 20 anos. Esse colecionador de nacionalidades teve ainda a chance de aprender quatro línguas na infância, idiomas que consegue manejar à perfeição: o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. Bagagem e tanto!

Jovem ainda, filiou-se ao Partido Socialista Francês e ingressou na política. Foi prefeito, deputado e até primeiro-ministro do país de adoção. Chegou a ser pré-candidato à presidência da república, mas não conseguiu vencer as primárias. Com a débâcle de seu partido estes últimos anos, o homem ficou à deriva, com um mandato de deputado mas sem perspectiva de ocupar postos importantes. É muito pouco pra político ambicioso.

Que não seja por isso. Já faz uns seis meses que ele está em campanha para a prefeitura de Barcelona, sua cidade natal. Na França, poucos acreditavam que desse o passo. Mas parece que Monsieur Valls ‒ agora Señor Valls ‒ está mesmo decidido. Se conseguir, será um dos raros espécimes políticos a ter feito carreira em dois países.

Para a Catalunha em geral e para Barcelona em particular, seria muito bom se o antigo primeiro-ministro francês vencesse a corrida para a prefeitura. Numa província em que o ódio corrói as relações entre independentistas e unionistas, é bem-vinda a presença de um prefeito aberto ao mundo e desprovido de visão sectária.

Incidente em Paris

José Horta Manzano

Alertada para o mau estado de uma ruela no bairro do Marais (Paris), a autoridade que cuida da conservação do patrimônio ordenou que os responsáveis por aquele beco particular tratassem de fazer os reparos necessários. O Centro Cultural Suíço em Paris está situado justamente naquela ruela. A autoridade de conservação confiou-lhe a responsabilidade pela reforma.

O Impasse des Arbalétriers existe há 900 anos. Seu calçamento, de paralelepípedos já brilhantes pelo gasto, foi assentado há mais de um século. O leito da ruela, afundado em vários pontos, estava precisando ser refeito. O Centro Cultural Suíço se comprometeu a eliminar os pontos de afundamento e a refazer o calçamento com os paralelepípedos originais.

Terminada a obra, a surpresa foi grande. Os afundamentos haviam desaparecido, sim. Os paralelepípedos originais estavam lá, sim. Só que… algo estava diferente.

Como se sabe, os suíços têm mania de perfeição. A linha reta é obsessão nacional. Nesse espírito, decidiram que a reforma era ocasião ideal para dar uma melhorada naquele calçamento cuja irregularidade enfeiava o beco. Retiradas a pedras, aproveitaram pra mandar serrar cada bloco ao meio. Na hora de recolocar, elas foram assentadas de ponta-cabeça, de modo que a superfície lisa ficasse aparecendo.

O aspecto final ficou lindo, não há dúvida. Limpinho, regular, todos os blocos alinhadinhos, uma beleza! Só que o romantismo da velha ruela foi pro espaço. Moradores da vizinhança dizem que está mais pra Disneylândia do que pra Paris.

Os parisienses, já de costume resmungões, não perderam a ocasião pra botar a boca no trombone. A controvérsia ainda não terminou. De toda maneira, o que está perdido, perdido está. Não dá pra colar paralelepípedos serrados. Desculpe qualquer coisa.

Anestesiados

José Horta Manzano

Nunca vi guerra. Imagino (e espero) seja também o caso do distinto leitor. Dizem que os que viram guerra por dentro se assustam no começo, mas acabam por habituar-se com bombardeios e atrocidades de arrepiar o cabelo.

Isso também vale para outras situações. Por exemplo, quem tem a janela da sala dando pra uma avenida barulhenta já nem se dá conta, depois de algum tempo, do ruído contínuo.

O Insper publicou recentemente uma pesquisa intitulada Vitimização em São Paulo ‒ 2018. O estudo traz um dado estarrecedor. Atesta que 48% dos paulistanos já foram alvo de roubo ou furto pelo menos uma vez na vida. Metade dos habitantes da maior cidade do país! Um em cada dois!

E olhe que, nas outras metrópoles brasileiras, não deve ser muito diferente. Até cidades menores estão entrando nas estatísticas fúnebres. Para quem vive fora do país, como eu, é situação impressionante, difícil de conceber.

Nas muitas décadas em que tenho visto o Brasil de longe, não assisti a nenhum assalto nem me lembro de ter conhecido alguém que tenha sido assaltado. Que fique claro: não vivi num convento, mas em cidades comuns. Por aqui, assalto a mão armada sai no jornal televisivo da noite e deixa a população traumatizada.

Percebo que a população brasileira está habituada com essa barbaridade. Anestesiados, os honestos cidadãos acabam aceitando a situação, consolando-se com a (falsa) ideia de que «nas grandes cidades do mundo inteiro também é assim». Não é.

O problema no Brasil é complexo. Infelizmente, na atual temporada de eleições, não vejo nenhum candidato tratando a raiz da questão. Trancar-se em casa, levantar muros eletrificados e chamar o Exército é paliativo que não enfrenta nem resolve o problema. O buraco é bem mais embaixo.

Gostaria que candidatos mostrassem disposição pra integrar esse estrato da população que vive nas fímbrias da sociedade. Falo dessa juventude que, sem formação, sem trabalho, excluída e sem perspectiva, descamba para o crime. Infelizmente, parece que os do andar de cima ainda não se sensibilizaram com a situação. É pena.

Eu farei

José Horta Manzano

Com a aproximação das eleições, entramos em plena temporada de sedução. Candidatos solícitos oferecem santinhos, elogiam buxada de bode, beijam criancinhas, comem coxinha da véspera e acham uma maravilha, apreciam café requentado, propõem resolução para todos os problemas do país. Têm sorriso pra dar e vender.

De candidato a cargo no Parlamento, pode-se admitir qualquer promessa. O único compromisso dele é apresentar projeto de lei. Propor não custa muito. Se a Assembleia aprovar, melhor. Se rejeitar, não fica feio para o parlamentar. Terá cumprido a promessa.

Quanto ao presidente, a história é outra. Ele não tem poder absoluto. Tem de passar pelo crivo do Legislativo. Tem candidato prometendo mundos e fundos por aí. Tem um garantindo que vai criar 10 milhões de emprego ‒ como se emprego se criasse por força do pensamento. Um outro asseverou que ‘mandaria prender’ general mal-comportado ‒ como se o poder discricionário do presidente se sobrepusesse ao da Justiça.

Em resumo, as promessas dos candidatos à Presidência não passam de carta de intenções. Se quisessem ser absolutamente honestos, evitariam dizer que farão isto ou aquilo, para dizer que proporão tais coisas.

Seria mais honesto. Mas, sacumé, conversa de candidato se espalha por 50 tons de honestidade.

Banalização da indecência

José Horta Manzano

Na política e na sociedade, a decência tem-se tornado artigo de luxo, raro, cada dia mais difícil de alcançar. Nem sempre foi assim, acreditem. Não digo que, décadas atrás, políticos e autoridades agissem com decoro e comedimento em todas as situações. Não vamos nos enganar. Escândalos havia, sim, mas eram exceções. Hoje tornaram-se norma.

Sempre houve alguma figurinha carimbada da qual se podiam esperar barbaridades. Lembro de Tenório Cavalcanti, alagoano de nascimento, que evoluiu na política do Rio de Janeiro nos anos 1950 e 1960. Conhecido como o homem da capa preta, andava armado o tempo todo, às vezes com uma metralhadora que levava o nome inocente de Lurdinha. O homem protagonizou um episódio tragicômico no dia em que, em plena sessão da Câmara, sacou dum revólver pra ameaçar um outro deputado. Não chegou a atirar, mas provocou momentânea incontinência urinária no colega ameaçado. O caso entrou para os anais da Casa.

A quebra da decência, que antes era folclórica e espetaculosa, hoje em dia é silenciosa, bem mais sutil do que no tempo dos deputados cangaceiros. Por desgraça, porém, está mais generalizada. Os pecadores são tantos, que o pecado acaba assumindo ar de normalidade. É uma lástima que isso aconteça. Pelas conclusões da filósofa Hannah Arendt, a banalização do mal pode ter consequências devastadoras. Pode significar a autodestruição de uma sociedade.

A Folha levantou o prontuário dos candidatos às eleições do mês que vem. Limitou-se a investigar a situação dos envolvidos na Operação Lava a Jato. Constatou que pelo menos 19 réus e 12 acusados(!) na operação disputam o voto do eleitor descuidado. E tudo bem. A lei, é verdade, não impede que esses elementos se candidatem. É que, até não faz muito tempo, o sentimento de decência bastava para mantê-los afastados. Já não basta.

É inevitável concluir que, entre nós, a noção de decência anda frouxa. Diluída, está escorrendo pelo ralo. Chegou a hora de cercear pela força da lei o que bambeou por afrouxamento do decoro. A Lei da Ficha Limpa acaba de provar sua enorme utilidade: livrou-nos da figura nefasta e impertinente de um ex-presidente hoje encarcerado.

Por melhor que seja, no entanto, está evidente que essa lei não é suficiente. A próxima legislatura terá de debruçar-se sobre o problema e encontrar jeito de apertar o cinto. Não é possível que gente em débito com a Justiça se candidate para representar o povo. Não dá mais.

Inconfidência

José Horta Manzano

Tirando diplomados na matéria, o povão e eu não somos especialistas em processo penal. Tampouco somos conhecedores íntimos de todos os ritos da Justiça. É por essa razão que nos surpreendemos com frequência. De fato, dado o grau de judiciarização da sociedade brasileira atual, não se passa um dia sem que a grande imprensa publique atos jurídicos. Estonteante!

Está disponível nas redes o depoimento do agressor de doutor Bolsonaro. Em cores, com som e imagem. É de embasbacar que se divulguem informações desse calibre. Eu imaginava que instrução de processo criminal fosse rigorosamente confidencial. Entendo que toda publicidade antecipada pode ser prejudicial à causa em geral e ao acusado em particular. Pelo jeito, delegados e juízes não pensam assim.

Ouvi ontem trechos do mais recente depoimento de doutor Antonio Palocci. Parece que passou até no Jornal Nacional. Com que então o preso depõe, conta o que tem de contar, e os juízes, em vez de se recolherem para estudar o caso e decidir o caminho a tomar, entregam o material à mídia para difusão nacional! Os delatados ‒ que tanto podem ser culpados como inocentes ‒ tomam conhecimento da grave acusação pela imprensa. Pode? Estupefaciente!

Nesta terça-feira, a Lava a Jato lançou enésima operação. Foi preso doutor Richa, ex-governador do Paraná. A notícia correu a mídia. Podia ter parado aí. Não parou. A PF informou também que a operação visava a prender um empresário que não foi localizado. Assim mesmo, seu nome foi anunciado. Por quê? Agora o Brasil e o mundo estão a par. Sabedor de que está sendo procurado, o indivíduo poderá agora destruir provas, cooptar testemunhas, até fugir do país. Assombrosa imprudência!

Visto que situações como as que descrevi se repetem diariamente, calculo que tudo esteja dentro da lei e das regras. Só pra comparar, conto o que aconteceu esta semana na França. Coméço do comêço.

Faz um ano, uma menininha foi sequestrada e assassinada, num crime que causou comoção nacional. Um mês mais tarde, as investigações da polícia científica levaram à identificação e à prisão de um indivíduo. Semanas depois, confrontado com o óbvio, o homem não teve como escapar: confessou ser o autor do crime. Mas ressalvou que a criança tinha sido morta ‘por acidente’. Não deu maiores explicações.

Faz uns dias, a mídia anunciou que uma reconstituição do crime estava marcada para tal dia, tal hora, em tal lugar. O juiz que instrui o caso ficou enfurecido que a informação tivesse vazado. Imediatamente cancelou a reconstituição e instaurou inquérito administrativo para encontrar o autor do vazamento.

Contei essa historinha só pra dar uma ideia da confidencialidade com que a instrução de um processo criminal é tratada em outras terras. A discrição é favorável a todos: tanto à Justiça, quanto ao acusado. O Brasil, francamente, não é para principiantes. Desconcertante!

Inconfidência
Na escola, estudamos a Inconfidência Mineira. Foi episódio importante que prenunciava o divórcio entre a colônia e a metrópole ‒ a independência, que viria 30 anos depois. Só que, curiosamente, não nos ensinam o significado da palavra inconfidência.

Uma consulta ao dicionário informa que inconfidência significa abuso de confiança, revelação de segredo, deslealdade para com o Estado, vazamento de informação sigilosa. É surpreendente que um ato fundador da pátria leve um nome tão negativo.

País das maravilhas

José Horta Manzano

Crescer 50 pontos em 8 anos no Pisa ‒ exame internacional de avaliação do Ensino Médio.

Usar inteligência e tecnologia para combater o crime organizado.

Aprimorar o Bolsa Família, com adoção de medidas que garantam uma “porta de saída” efetiva, por meio de qualificação profissional e empreendedorismo.

Fazer o país crescer 4% ao ano.

Criar pelo menos 10 milhões de empregos.

Ampliar o espaço do Brasil nas negociações políticas e comerciais globais.

Os objetivos citados foram extraídos ipsis litteris do programa de alguns dos candidatos à Presidência. Dei uma olhada na carta de intenções de cada um deles. Tirando alguma proposta folclórica (vinda de concorrente nanico) ou de viés marcadamente ideológico (emanada de algum postulante situado na extremidade do espectro político), os programas são excelentes. Todos prometem dar o melhor de si para o bem do Brasil.

Há até pontos em que todos estão de acordo. Por exemplo, nenhum propõe incentivar a criminalidade, nem aumentar a pobreza, nem declarar guerra à Mongólia. Com maior ou menor ênfase, todos pregam o combate ao crime e o aprimoramento da Instrução Pública. Todos exaltam a inserção do Brasil no mercado mundial ‒ o detalhe curioso é que a extrema esquerda gostaria de restringir a abertura à América Latina, enquanto os demais concordam com expandi-la para todo o planeta, algo que parece lógico.

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

Pouco importa, são detalhes. O principal é que, em teoria, todas as listas de intenções são excelentes. Nenhuma ‒ digo bem: nenhuma ‒ enaltece o apoio à corrupção nem o assalto ao erário. Embora não mencionem apoio à Operação Lava a Jato, transparece acordo implícito.

Aqui e ali, topa-se com um detalhe picante. Esquecido de que o mandato é de 4 anos, um dos candidatos promete fazer o Brasil crescer no Pisa nos próximos 8 anos. Sem cerimônia, está invadindo o mandato do sucessor. Mal-educado.

Não temei, brava gente! Votai em quem quiserdes, que todos os candidatos à Presidência são supimpas! Todos prometem conduzir-nos ao país das maravilhas ‒ no papel, pelo menos. Inxalá!

O salário do prefeito

José Horta Manzano

Levantamento do Estadão informa que um terço dos municípios brasileiros não gera receita suficiente para pagar o salário do prefeito e dos vereadores. E como sobrevive a administração dessas unidades? Ora, de repasses vindos da União.

Essa incapacidade de gerar receita atinge cidades pequenas, de menos de 20 mil habitantes. Muitas delas foram criadas nos últimos 30 anos, por desmembramento de municípios maiores.

A criação de municípios por fragmentação raramente responde a demanda social ou econômica. Os interesses em jogo costumam ser políticos. Novo município corresponde a novos cargos: prefeito, vereadores, secretários, pessoal administrativo. É o trenzinho da alegria que se põe em marcha. Se faltar dinheiro, não faz mal: Brasília manda. E nós todos pagamos a conta.

E assim segue a vida em nossa República de bananas e trenzinhos. Agora mesmo, está em tramitação no Congresso um projeto para criação de 400 municípios(!). O assunto tinha sido enterrado no governo Rousseff, mas voltou agora. E periga ser transformado em lei.

Câmara Municipal de Ouro Preto, vista por Carl Hermann Conrad Burmeister (1807-1892), multifacetado naturalista, viajante e desenhista alemão, que visitou o Brasil nos anos 1850.

Quanto à gestão dos municípios, seria boa ideia adotar, no Brasil, um preceito que vigora em outras terras. Parte-se do conceito de que as funções de prefeito e de vereador ‒ em municípios pequenos, naturalmente ‒ não são cargos de tempo integral. São tarefas de que se pode dar conta a tempo parcial. E sem remuneração.

Essas funções administrativas são exercidas por cidadãos de boa vontade, que desejam sinceramente doar parte de seu tempo à coletividade. Falo de voluntários dispostos a pôr-se a serviço dos comunícipes pelo prazer de servir.

Por um lado, tal sistema afasta cidadãos que buscassem somente um cabide de emprego; por outro, atrai gente bem-intencionada. O prefeito dá expediente durante um par de horas, duas ou três vezes por semana. A Câmara Municipal só se reúne à noite, depois que todos já terminaram a jornada de trabalho, com frequência de uma ou duas sessões por mês. Para gerir um pequeno município, esse ritmo é suficiente.

A adoção dessa prática permite que os repasses de Brasília, se ainda necessários, sejam dirigidos a cobrir as reais necessidades do município. É finalidade mais nobre do que engordar o bolso de suas excelências.

Eleitorado conservador?

José Horta Manzano

É frequente ouvir dizer que, em política, o brasileiro está cansado de tudo o que está aí e quer mudança, novos ares, novos personagens. De tanto ouvir falar nisso, a gente quase acaba acreditando. E se a realidade não fosse exatamente essa?

Recentemente, o Grupo Record encomendou uma pesquisa a um certo Instituto Real Time Big Data(*), do qual nunca ouvi falar e sobre o qual não encontrei nenhuma referência. A pesquisa, que procura descobrir que tipo de presidente o brasileiro gostaria de ter, deve ser portanto encarada com um pé atrás. Assim mesmo, vale a pena olhar de esguelha.

A sondagem indica que dois terços do eleitorado preferem que a presidência seja ocupada por um homem. Após um desastre chamado Dilma Rousseff, o ressabiamento é compreensível.

Num rasgo de conservadorismo explícito, a sondagem informa que, de cada 4 brasileiros, 3 gostariam que o ocupante do cargo maior fosse branco. Sabendo que mais da metade da população do país é mestiça, dá pra medir o tamanho do preconceito: metade da população mestiça optaria por um branco no trono mais alto.

Nove entre dez compatriotas exigem que o chefe do Executivo acredite em Deus. A pesquisa não indagou se exigem também que pratique uma religião ou se basta dizerem que acreditam.

Uma estranha pergunta foi incluída: se preferem que o presidente venha de família rica ou pobre. Estranheza por estranheza, o povo se dividiu. Pouco mais da metade prefere que o homem tenha tido infância pobre, o que pressupõe que a outra metade prefira o contrário.

Confirmando a ancoragem na tradição, os eleitores ‒ numa proporção de 4 contra 1 ‒ fazem questão de que o eleito tenha experiência política, sinalizando preferir um político tradicional, à exclusão de todo novato.

Escaldados pela pobreza de ideias da era lulopetista, mais de três quartos dos eleitores exigem que o novo mandatário tenha formação universitária. Nunca se sabe ‒ formação mais sólida evita gafes internacionais e patacoadas internas.

Com lógica evidente, esmagadora maioria de 85% dos entrevistados não querem saber de ter de novo um presidente investigado por corrupção. Interessante é analisar a resposta pelo avesso. Por exclusão, 15% não se importam que o homem seja investigado. Ora, ora.

Aí está. Quem buscar lógica integral vai se sentir decepcionado. Repito que a sondagem deve ser olhada com certo distanciamento. Assim mesmo, não há de estar muito longe da verdade.

(*) Se o distinto leitor puder lançar alguma luz sobre o perfil desse instituto, convido-o a deixar comentário. Agradeço antecipadamente.