Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

Se eu morrer, saibam quem me matou

Ignacio de Loyola Brandão (*)

Esta é a crônica mais delirante e real que escrevi nestes meus 27 anos neste jornal. Se eu morrer de covid-19, saibam que fui assassinado. Sei que posso ser morto apesar dos cuidados que tomo. Estou há 50 dias encerrado em casa. Não desço sequer para atender motoboys que trazem medicamentos, compras de supermercados ou refeições. Gastei hectolitros de álcool gel, cheguei ao máximo de, após receber uma ligação, dar um banho no telefone com medo de ser contaminado pelo som. Quando vejo noticiário, desligo se o presidente começa a falar, enraivecido, espalhando perdigotos, tossindo, espirrando, dando a mão, insensível, abusado.

Tenho medo de ser infectado. Aqueles olhos claros que poderiam ser amorosos e cordiais nos fuzilam com chispas de ódio. Como deve sofrer quem vive assim na defensiva. Porque ele é pura defensiva o tempo todo. Segundo os sábios, não podemos olhar nos olhos de uma pessoa que odeia tudo, o mundo, a vida, porque podemos trazer para dentro de nós o que ela tem de maligno. Há o perigo de nos tornarmos como ela, malvada, perversa. Dona Ursulina, senhora sábia, que cozinhava como poucos, avó de um primo querido, diante de gente ruim costumava dizer: “Isso não é gente, isso é o demônio”. E esse presidente se diz religioso, vai a cultos, agrada a fiéis, bispos, pastores, o que for. Quem ele quer enganar?

(*) Ignacio de Loyola Brandão é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O texto é fragmento de artigo publicado em 22 maio 2020.

Cloroquina – 3

José Horta Manzano

Acaba de sair a notícia. The Lancet, uma das três revistas médicas mais respeitadas do mundo, publicou hoje o resultado de pesquisa sobre ganhos & perdas ligados ao uso da cloroquina em pacientes atingidos pela covid-19.

O estudo, levado a cabo entre dezembro 2019 e abril 2020 em 671 hospitais ao redor do globo, esmiuçou o prontuário de 96 mil doentes internados. Chegou à conclusão de que o uso desse remédio não trouxe nenhum benefício, enquanto os malefícios foram notáveis. Mesmo nos casos em que foi associada a antibióticos, a cloroquina aumentou em 45% os casos de morte por arritmia cardíaca ventricular. Com ou sem tratamento coadjuvante, a esperança de vida dos doentes encurtou.

É imprecionante como esse pessoal age. Vejam só: 96 mil doentes e 671 hospitais unidos em perfeita cumplicidade – e ao redor do mundo! – de propósito só para contradizer as orientações de doutor Bolsonaro. É imprecionante a desonestidade intelectual desse pessoal. Fazer isso logo com nosso presidente, sempre tão ponderado, refletido e preocupado em acertar. É injusto! É um complô comunista! Assim não dá.

Tuíte – 13

José Horta Manzano

Volta e meia se vê algum analista repetir que, lá fora, o Brasil de Bolsonaro virou piada. Dá impressão de que basta mencionar o nome de nosso país para fazer estourarem gargalhadas em Londres, Paris e Berlim. Não é bem assim. Aliás, não é nada disso.

‘Lá fora’, não se costuma brincar com coisa séria. O Brasil – como os EUA, a China, a Rússia – é grande demais pra ser alvo de riso. Ninguém acha engraçado o drama que se desenrola sob a batuta do maestro Bolsonaro. O Brasil não virou piada, virou objeto de perplexidade. Se nós, que temos familiaridade com o assunto, não entendemos o que acontece, imagine o que se passa na cabeça de um estrangeiro. O espanto é maior do que a vontade de rir.

Projeto para o país

José Horta Manzano

Assim que doutor Bolsonaro foi eleito, achou que estava com a bola toda e pretendeu reinar sozinho, sem apoio de ninguém. Com a bola toda, até que estava – afinal, acabava de receber votação majoritária. Só que o ingênuo não se deu conta de que presidente, sozinho, não faz a lei. Quem faz lei é o Congresso. Os parlamentares podem legislar e até derrubar veto presidencial; já presidente não pode se opor ao voto majoritário da Câmara.

É surpreendente que um homem que vegetou por 28 anos no baixo clero não tenha aprendido como funciona o sistema de contrapesos da República. É compreensível: ocupado em delinquir, há de ter negligenciado todo aprendizado.

Neste quase ano e meio de mandato, o doutor apanhou um bocado. No atacado, levou cascudos da Câmara e do STF; no varejo, ouviu pito da imprensa, de dirigentes internacionais, até do embaixador da China. Assim mesmo, preferiu desviar os olhos da realidade – não achou importante construir base de apoio parlamentar.

Só agora, com a água batendo no pescoço, com seus podres (e os da excelentíssima família) revelados ao distinto público, decidiu que era urgente lotear os altos escalões do serviço público e entregar, de mão beijada e porteira fechada, fatias inteiras da República a mensaleiros ex-presidiários. Em troca de apoio, uma espécie de seguro anti-impeachment.

Mais uma fez, fica exposto o déficit de inteligência do presidente. Incapaz de prever o alcance dos próprios atos, ataca o problema de cada dia, sem se inquietar com o amanhã.

Mais grave, ficou mais uma vez confirmada sua absoluta falta de projeto para o país. Enquanto era o futuro do Brasil que estava em jogo, pouco importava que projetos enviados ao Congresso fossem aprovados ou não. Um Parlamento «amigo» só passou a ser vital quando o perigo passou a rondar a família, hoje suspeita de variados crimes. Blindar a família, sim; blindar o país, tanto faz.

Théâtre de l’absurde

José Horta Manzano

O mui sério e prestigioso Le Monde, de Paris, dedicou o editorial de ontem a um retrato das barbaridades que se cometem no Planalto nestes tempos de pandemia, coisas do arco-da-velha, de deixar qualquer europeu de cabelo em pé. Aqui vai um fragmento.

«Les heures sombres que traverse le Brésil rappellent celles de la dictature militaire, quand le pays était soumis à la peur et à l’arbitraire. Avec une différence de taille: alors que les généraux revendiquaient la défense d’une démocratie attaquée, selon eux, par le communisme, le Brésil de Bolsonaro habite un monde parallèle, un théâtre de l’absurde où les faits et la réalité n’existent plus. Dans cet univers sous tension, nourri de calomnies, d’incohérences et de provocations mortifères, l’opinion se polarise sur une nuée d’idées simples mais fausses.

A force de tricher avec les faits, les gouvernants populistes finissent par croire à leurs propres mensonges. On le voit ailleurs dans le monde. Mais ici, dans ce pays sorti voici à peine vingt-cinq ans de la dictature, où la démocratie reste fragile, voire dysfonctionnelle, le fait de politiser ainsi une crise sanitaire à outrance est totalement irresponsable.»

Le Monde, 18 maio 2020 – Editorial

«As horas sombrias que o Brasil atravessa lembram as da ditadura militar, quando o país estava subjugado pelo medo e pelo arbítrio. Com uma notável diferença: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita num mundo paralelo, num teatro do absurdo onde os fatos e a realidade deixam de existir. Nesse universo tenso, alimentado por calúnias, incoerências e provocações funestas, a opinião se polariza sobre um amontoado de ideias simples mas falsas.

De tanto trapacear com os fatos, governos populistas acabam acreditando nas próprias mentiras. Vê-se isso no mundo todo. Mas aqui, num país que se livrou da ditadura há apenas vinte e cinco anos, onde a democracia continua frágil – se não disfuncional –, o fato de politizar em exagero uma crise sanitária é totalmente irresponsável.»

Cloroquina – 2

José Horta Manzano

Primeiro
A cloroquina (vendida sob o nome comercial Plaquinol) estava, até outro dia, em venda livre nas farmácias do país, sem obrigação de apresentar receita médica. Continua disponível, embora seja obrigatório apresentar receita.

Segundo
Todo médico está livre de escolher o melhor tratamento para o paciente, desde que aja debaixo do Juramento de Hipócrates e nos limites das leis do país.

Considerando que as duas premissas estejam corretas, tenho dificuldade em entender o objeto do decreto que doutor Bolsonaro queria (ainda quer?) assinar «liberando o uso da cloroquina» para tratamento da covid-19. (Assinou?)

Vendida para tratamento da malária, a cloroquina já está liberada há séculos. Já faz tempo que todos os médicos estão livres de utilizá-la. De todo modo, não cabe ao presidente dar orientação terapêutica à profissão; seria aberrante. Portanto, a grita do medalhão é metafórica e inócua. Não passa de esperneio.

Comunicar Bolsonaro?

José Horta Manzano

Manchete do Estadão, 16 maio 2020

Com muita frequência, vê-se o verbo comunicar empregado como transitivo direto. Na acepção de ‘dar informação a alguém’, não funciona assim. Quem escreveu a chamada estava pensando no verbo informar – e copiou-lhe a regência. Enganou-se.

Quem comunica, comunica algo a alguém. Esse alguém é objeto indireto, introduzido pela preposição a. Portanto: «… comunica a Bolsonaro … ».

Pra substituir o cerimonioso comunicar, por que não usar simplesmente informar ou avisar? São verbos de todos os dias, fáceis de usar e de entender, e dão o recado certinho. Ficaria assim: «Celso de Mello manda oficial de justiça avisar Bolsonaro…» ou «Celso de Mello manda oficial de justiça informar Bolsonaro…». Pronto: simples e sem erro.

Generosa, a língua põe ainda outros verbos à disposição: notificar, cientificar, prevenir. Dado que todos eles pedem objeto direto, a frase ficaria como aparece no jornal. Há ainda o verbo participar, só que ele, como comunicar, pede objeto indireto.

Por que confinar?

José Horta Manzano

Se o confinamento foi imposto na maioria dos países da Europa, não foi pra castigar ninguém, mas pra preservar o sistema nacional de saúde. E funcionou. Quanto mais cedo foi instaurado, menor foi a taxa de mortalidade. Na maioria dos países, visto que a curva de contágio entortou pra baixo, o desconfinamento gradual já começou.

No início da pandemia, o governo do Reino Unido foi reticente, o que significou um baita escorregão para o país, que virou um caso à parte. Boris Johnson chegou a debochar do perigo ao dizer que continuava, sim, apertando a mão de muita gente. Deu no que deu. O figurão apanhou a covid-19, deu entrada no hospital, foi tratado na UTI, quase empacotou – parece até que foi castigo. Quando, finalmente, instauraram o confinamento, o contágio já corria solto. Como resultado, a epidemia foi lá mais grave do que na maioria dos vizinhos.

O Brasil vive uma situação peculiar. O sistema nacional integrado de saúde (SUS) convive com um sistema paralelo de asseguradoras privadas (convênios), que asseguram, grosso modo, os mesmos riscos. O resultado é sui-generis: boa parte dos brasileiros são sobreassegurados (=overassured, surassurés). Sustentam, do próprio bolso, dois sistemas concorrentes. Pra quem olha do exterior, parece um despropósito, um desperdício. Afinal, apesar de pagar dois sistemas, o cidadão só recorre a um deles de cada vez. Desse modo, terá pago o outro por nada. A meu conhecimento, nenhum país rico procede assim. No entanto, pensando bem, se ninguém reclama, é porque devem estar satisfeitos.

Seja como for, que se considere o SUS ou as seguradoras privadas, no frigir dos ovos, a capacidade de atendimento hospitalar será sempre o resultado da soma dos dois sistemas. Portanto, o princípio que compeliu outros países a decretarem confinamento da população vale também para o Brasil. O objetivo é preservar o(s) sistema(s) de saúde. É afligente que doutor Bolsonaro não tenha entendido isso.

Os exames do presidente

José Horta Manzano

A divulgação dos exames que o presidente fez para detectar coronavírus desconforta os brasileiros aflitos. Responde a dúvidas, mas leva a reflexões.

Era verdade
Já em março, este blogueiro tinha levantado a hipótese de que doutor Bolsonaro pudesse ter sido infectado pelo vírus e que, após ingerir comprimidos de Plaquinol (=cloroquina), estivesse atribuindo sua cura a essa molécula. O esperneio destas últimas semanas confirma amplamente a hipótese, se não da cloroquina, pelo menos da contaminação. Tivessem os testes de março dado resultado negativo, teriam sido publicados imediatamente. E com orgulho de “atleta” invulnerável. Não vieram a público então, o que nos permite duvidar da veracidade dos que acabam de sair. Quem é que já não viu atestado falso assinado por médico de verdade? Quando é para o presidente, então, deve ter fila pra assinar.

Numeração
Uma semana atrás, escrevi um artigo sobre a estranha propensão presidencial de numerar as pessoas de seu entorno. Considerando que seus quatro filhos homens já ocupam as primeiras posições (01, 02, 03 e 04), eu estava curioso de saber que número o doutor teria reservado para si. Seria talvez 00? Não era. O teste do coronavírus (que ele jura ter dado negativo) revela que o capitão, como bom chefe de clã, põe os filhos à frente. Um dos laudos foi feito sob o “codinome” 05. Brasil acima de tudo e a famiglia acima de todos! –, que ninguém é trouxa.

O Estadão não hesitou: mandou brasa.

Sinônimos?
Palavras parecidas nem sempre são perfeitamente sinônimas. Há várias maneiras de designar um nome inventado. Pode ser pseudônimo, apelido, alcunha, apodo, nick – sem contar variedades eruditas como heterônimo, epíteto, cognome, alônimo, criptônimo ou o assustador onomatópose. Há ainda o curioso codinome, cunhado a partir do inglês code + name = nome de código. Cada falante escolhe as palavras que prefere, mas é bom tomar cuidado com codinome. Nos anos 1970, esse termo estava muito em voga pra designar terroristas. De doutora Dilma, afirma-se ter usado diferentes codinomes, entre eles Wanda e Iolanda. Se puder evitar, evite. A menos que esteja se referindo a organização criminosa. (Há quem jure haver uma, instalada no Planalto.)

As muletas de cada um

José Horta Manzano

Tem muita gente que, pra falar, precisa de muleta. Isso não é exclusividade nossa; em outras terras ocorre fenômeno idêntico. Não sei se já foi feita alguma estatística sobre o assunto, mas acredito que “né?” seja a mais usada. Um “né?” aqui, outro ali, todos costumamos usar. Mas tem gente que não consegue terminar uma frase sem acrescentar a muletinha. Fica a impressão de que o sujeito não tem certeza de ter sido entendido, daí o “né?”.

Outros dizem “entendeu?”, muleta tamanho família, de três sílabas. Muito comum em certas regiões do país é terminar frases com “uai”, muletinha graciosa que sempre me fez lembrar um porquê inglês “why?”.

Os dois presidentes mais marcantes deste século no Brasil também pontuam suas frases, cada um a seu modo. Lula da Silva não soltava duas frases sem terminar com um “sabe?”. Já doutor Bolsonaro mostra nítida preferência pelo “talquei?”. Embora a expressão preferida de cada um deles varie (sabe x talquei), a informação é a mesma: tanto o antigo quanto o atual chefe do Executivo deixam transparecer insegurança.

Quem solta um “sabe?” está pedindo confirmação do interlocutor. O mesmo vale para quem diz “talquei?”. Ambas as muletinhas são perguntas. Quem pergunta, implicitamente espera resposta, de preferência simpática. Quem tem certeza do que está afirmando, simplesmente afirma, sem acrescentar perguntinha no final.

É interessante como a gente acaba descobrindo traços da personalidade alheia. No fundo, somos todos como o gato que se esconde mas deixa o rabo de fora.

Não nos representa

José Horta Manzano

Não gosto nem desgosto de Regina Duarte. Pra mim, como dizia minha avó, a moça não fede nem cheira. Lembro vagamente de alguma cena de tevê em que ela aparecia, trinta anos atrás. Mais nada.

Fiquei surpreso quando soube que ela tinha aceitado o cargo de Secretária da Cultura. Me pareceu decisão arriscada visto o contexto. Por um lado, concordava em ser sucessora daquele destrambelhado aprendiz de nazista; por outro, ia trabalhar sob as ordens de doutor Bolsonaro, que é outro perturbado. Imaginei que daí não saísse nada de bom. Parece que não está saindo mesmo.

É de hoje a notícia de um coletivo de mais de 500 artistas que acaba de lançar manifesto contra a secretária da Cultura. Em 150 palavras veementes, o grupo repudia o comportamento da moça quando de recente entrevista a uma emissora de televisão. Parece que ela andou pondo as manguinhas de fora. O manifesto termina com a frase choque: «Ela não nos representa».

Faço coro com os artistas que se declaram contrários a todas as mazelas do governo atual. No entanto, o protesto deles sofre de um mal de nascença: a secretária da Cultura, assim como todos os seus colegas ministros e secretários, não estão lá para representar ninguém.

Em nosso sistema político, os representantes do povo são os parlamentares, que são eleitos exatamente para essa função. Ministros e secretários são auxiliares pessoais e diretos do presidente da República, que tem o direito de os escolher e de os demitir ad nutum(*).

Portanto, não faz sentido apontar o dedo para a secretária e dizer que ela «não nos representa». A moça não está lá pra representar ninguém. A função dela é pôr em prática a política de seu chefe, o presidente. É a este senhor que toda reclamação tem de ser dirigida.

(*) Ad nutum é expressão latina. A tradução literal é ‘com aceno de cabeça’. Vem daí nosso verbo anuir (=consentir, autorizar). Usa-se essa locução adverbial para indicar uma decisão instantânea, fruto de poder absoluto e discricionário.

No caso presente, ad nutum informa que o mandato de ministros e secretários é revogável a qualquer momento, bastando para isso um simbólico “aceno de cabeça” do presidente.

Teu nome não nega

José Horta Manzano

Faz um mês, o Correio Braziliense publicou artigo meu intitulado Bolsonaro: um nome predestinado. Nele eu conto que, do ponto de vista etimológico, o sobrenome de nosso presidente pertence ao universo das armas e da guerra. A palavra ‘bolzón’ dá nome a dois artefatos bélicos medievais: indica tanto um aríete (peça usada pra arrombar portal de cidade fortificada), quanto uma atiradeira de flechas (que chamamos arbaleta ou bestilha).

Um dos editoriais do Estadão deste sábado traz outra informação interessante. Revela que um grupelho de brucutus apoiadores de doutor Bolsonaro, que age sob a etiqueta de ‘300 do Brasil’, está acampado nos arredores da Praça dos Três Poderes com a ideia de invadir Congresso e STF. Um dos chefes da ameaça de assalto às instituições da República chama-se Marcelo Stachin, expoente da campanha de formação do futuro partido do presidente – Aliança pelo Brasil.

O moço também tem sobrenome de origem italiana que combina bem com o entorno em que navega. Stachin (pronuncie Staquín) é palavra do dialeto piemontês (Turim). Em italiano padrão diz-se birro ou sbirro – termos usados quase sempre com valor depreciativo. Stachin designa o agente policial cruel ou também o capanga de um governo despótico. Em nossa língua, a forma esbirro, de mesmo significado, está aportuguezada e dicionarizada há muito tempo.

O rapaz carrega sobrenome feito sob medida.

O guia

José Horta Manzano

Neste 8 de maio, a Europa celebra o 75° aniversário da rendição da Alemanha, que marcou o fim da Segunda Guerra em terras europeias. Para ver o término definitivo do conflito, seria preciso esperar a capitulação(*) do Japão, que só ocorreria quatro meses mais tarde.

Estes dias, visto que a epidemia de covid-19 arrefece, rádios e tevês voltam a transmitir programação habitual. Entre outras emissões, mostram filmes, relatos e debates sobre as semanas que antecederam o fim da guerra.

Ainda que hoje seja difícil acreditar, o regime nazista fanatizou toda a população da Alemanha. O mais fanático de todos era o Führer (=Guia) Adolf Hitler. Convencido de ser Deus na Terra, estava certo de que, sem ele, o povo alemão não sobreviveria. Para manter-se no comando supremo, estava disposto a sacrificar o povo – como de fato fez. A destruição do país só foi suspensa quando não havia praticamente mais nada a destruir.

Apesar de sentir um calafrio, não pude me impedir de comparar a situação da Alemanha de 1945 com a do Brasil de 2020 – resguardadas as devidas proporções, naturalmente. São momentos em que o povo se encontra sob o jugo de um tirano de poucas letras, fanático, autoritário e surdo a todo chamamento da razão. Ambos os ‘guias’, tanto o alemão quanto o brasileiro, sacrificariam o próprio povo em defesa de seus interesses pessoais.

Para sorte nossa, a comparação pára por aqui. A Alemanha, descuidada, havia conferido todos os poderes a seu guia; quando se deu conta de que caminhavam para o desastre, era tarde demais. O Brasil, para nosso alívio, tem instituições que condividem o poder com o ‘guia’; em outras palavras : temos rédeas pra domar os ardores do potro chucro.

(*) Costuma-se usar as palavras capitulação e rendição como sinônimas. No duro, não são sinônimas perfeitas.

Capitulação é rendição condicional. O exército que perdeu entrega as armas amparado por um acerto feito previamente com o vencedor. Esses acordos costumam ter cláusulas – capítulos –, daí o verbo capitular. Foi o que aconteceu entre os EUA e o Japão em 1945.

Rendição incondicional é a expressão que se usa quando não há acordo. O perdedor simplesmente entrega as armas porque já não tem força suficiente para impor condições. Foi o que aconteceu em 1945 entre a Alemanha e as potências vencedoras.

O presidente e o golpe

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 maio 2020.

Uma bela tarde de 2010, Lula da Silva subiu ao palanque de Dilma Rousseff, então candidata à Presidência. Deitaram ambos copioso falatório. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Ridicularizaram os opositores e desclassificaram os que não pensavam como eles. A intenção não era expor propostas de governo – desse assunto pouco ou nada se falou. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles.

Lá pelas tantas, Lula ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento. Era a confirmação explícita dos eflúvios absolutistas embutidos na ideologia lulopetista. Àquela época, a repercussão da palavra presidencial era modesta. Internet não tinha o alcance nem o vigor de hoje. Além disso, dois mandatos tinham deixado claro que não se podia levar a sério as bravatas do chefe. Por causa disso, a história de ‘nós somos a opinião pública’ morreu ali, sem direito a debates nem análises. A frase teve o destino inglório que deveriam ter todas as falas inconsequentes: foi para a lata do lixo.

Ironicamente, o socorro do Brasil acabou vindo da absoluta inépcia da presidenta. A doutora tanto forçou, que a corda arrebentou. Com isso, seu mandato foi para o beleléu. Com o impeachment, conseguimos estancar a escalada do besteirol presidencial e da rapina orquestrada.

Nas eleições de 2018, o contragolpe tinha de vir. E veio violento. Já durante a campanha, Jair Bolsonaro lançou sinais anunciadores de como seria sua presidência, mas ninguém ligou. O cenário já se podia até entrever quando o candidato soltou um tuíte estranho: “Nosso partido é o povo!”. Estava anunciada a inclinação populista da gestão que estava por vir, espécie de lulopetismo de sinais trocados. Na época, ninguém calculou qual seria a extensão do drama.

Foto: Uol/Folha

O que tinha de acontecer, aconteceu. O candidato esquisito, incapaz de expor o próprio programa, foi eleito. Não há milagre: candidato esquisito tende a exercer governo esquisito. Seu programa, de tão vago, não se consegue até hoje decifrar; más línguas dizem que a única diretiva é manter o poder a todo custo. No intuito de preencher os vazios e desviar a atenção do que interessa, o Planalto nos inunda de ruídos periféricos, slogans, falatório e palavras de ordem. Essa colcha de retalhos traz mensagens desconexas e discordantes. O que hoje é, amanhã poderá deixar de ser. O que se diz agora pode acabar desmentido logo mais.

Embevecido com a atenção que prestam a seu palavrório, o presidente se sente livre e cria asas. Diz o que lhe passa pela cabeça. Lança palavras ao ventilador. A cada rodada, o tom sobe e as palavras ganham força e vigor. A plateia acompanha. Uns se sentem indignados; outros, nauseados; alguns ainda, encantados. Analistas tentam encontrar sentido onde não há lógica. Põem-se a refletir sobre o significado profundo; buscam entrever mensagem criptada; tentam ponderar o que não tem nexo. É inútil. Um único recado é claro e inequívoco: doutor Bolsonaro não enjeitaria iniciar, aos 65 anos, carreira de ditador; afora isso, não há que remexer mais fundo. O zigue-zague presidencial é uma não tática.

Sabemos todos que o desejo do doutor não se realizará. Primeiro, porque nossas instituições funcionam; em seguida, porque uma reforma súbita e radical do regime não interessa às elites que realmente detêm o poder. Não estamos mais em 1964. A ameaça vermelha, então real, hoje só sobrevive na imaginação de mentes anacrônicas. Golpe e refundação do regime é ruim para todos. Nos negócios, trava o bom andamento; nas Forças Armadas, embaralha promoções; nas exportações, gera boicote; na vida do cidadão comum, instala ambiente de desconfiança. Em resumo, atrapalha muito mais do que ajuda. Portanto, pra serenar ânimos e garantir sossego, o melhor favor que a mídia séria pode fazer ao país é baixar a bola e dar à fanfarronice presidencial a importância que ela merece, ou seja: nenhuma.

Memento homo

José Horta Manzano

Diante do que faz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade dos mais recentes presidentes do Brasil. Exceção feita a dona Dilma, parecem todos grandes presidentes. Até o Lula está anos-luz à frente do pedregoso Bolsonaro. Pena que tenha se servido com tanta sem-cerimônia das benesses que o cargo lhe oferecia e – principalmente – que tenha permitido à malta despojar o Estado.

Diante do que diz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade de todos os antigos presidentes do Brasil. Todos, de verdade, incluindo até aquele General Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que de gente e que costumava dar coices verbais quando estava de mau humor. Em matéria de estilingadas verbais, Bolsonaro ganha estourado de todos eles.

Saiu um bom artigo de FHC no Estadão deste domingo. O antigo mandatário assume a confortável posição de observador distante e, com a autoridade de quem já viveu 9 décadas quase inteiras, distribui conselhos a quem interessar possa. Lá pelas tantas, ele cita um aforismo do Antigo Testamento. Coisa fina. Só que ele comete uma imprecisão. “Pulvis est et in pulvis reverteris” é o que ele diz, quando o correto é “Pulvis es et in pulverem reverteris”. Melhor ainda é citar o axioma na íntegra: Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. – Recorda, homem, que és pó e ao pó retornarás”.

Não tem importância. Só a lembrança de que já tivemos um presidente que fazia citações em latim já é um bálsamo. Acende a esperança de que doutor Bolsonaro não será uma verruga encravada na alma nacional por muito tempo. Um dia, que esperamos seja o mais logo possível, seremos brindados com inquilino do Planalto menos agreste.

Observação
A locução latina aparece na Vulgata da Bíblia (Gênese). São as palavras que Adão ouviu de Deus quando foi expulso do paraíso depois de incorrer no pecado original.

A palavra memento, pronunciada com voz solene e indicador apontado para o alto, tem valor de interjeição. Foi usada por séculos como advertência a alguém que estivesse a ponto de cometer um erro. Em italiano, as duas primeiras palavras da locução se juntaram pra formar «mementomo!», repreensão dicionarizada, mas hoje caída em desuso.