Vaquinha

José Horta Manzano

Até o momento em que escrevo, os pedidos de impeachment contra o presidente já passam de 60. É um recorde; nem a Dilma conseguiu atingir essa marca.

O processo de destituição de um presidente da República é longo e doído. E deixa sequelas. Quando possível, é melhor evitar. Mas no caso de doutor Bolsonaro, não dá pra esperar. Tem de ser já, agora, antes que a destruição das instituições chegue a um ponto irrecuperável.

A interferência do lulopetismo no andamento da República também foi perniciosa. Mas o problema maior, além da roubalheira, era o aparelhamento – a instalação de capangas em órgãos oficiais. A estrutura em si não foi abalada. Quando o petismo foi derrotado, bastou dar uma ‘limpa’ nos postos-chave.

Com o doutor é diferente. Não são somente os postos de chefia que estão sendo aparelhados (com militares e outros cupinchas ineptos). O mal é mais profundo.

A estrutura pacientemente construída durante décadas está sendo destruída. Os órgãos responsáveis pelas questões agrárias e indígenas estão entre as vítimas. A cobertura vegetal do país, que a natureza levou milhares de anos para consolidar, foi entregue a madeireiros e a agrotrogloditas para demolição.

A imagem do Brasil no estrangeiro, que já não estava lá essas coisas nos últimos anos do lulopetismo, foi pr’as cucuias de vez.

Fiquei sabendo da existência de um site chamado Vakinha, talvez o distinto leitor já conheça. Ele abriga as mais variadas propostas de financiamento colaborativo (em bom português: crowdfunding). Estão lá centenas de vaquinhas para ajudar quem precisa.

Entre as propostas, uma me pareceu original. Era a «Vaquinha para comprar o Centrão e aprovar o impeachment do Bozo», título que dispensa explicação. A ideia era simples: se cada um dos 60% de brasileiros que desaprovam o governo doasse 1 real, estariam reunidos os milhões necessários.

Não prosperou. Conseguiram só cinco mil e poucos reais, doados por 150 apoiadores. Acho que faltou divulgação.

Pode parecer folclórico ou até pretensioso. Como é que alguém imagina que os parlamentares aceitariam pagamento assim, às claras, para derrubar Bolsonaro? Olhe, é melhor não duvidar! Tenho certeza de que haveria muitas mãos estendidas.

Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

É curioso que certas notícias envolvendo interesses brasileiros circulem somente na mídia estrangeira. Pela rádio pública francesa, fiquei sabendo de uma denúncia criminal contra Jair Bolsonaro, oferecida estes dias ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Os autores são indígenas brasileiros de etnias amazônicas. Entre eles, está o conhecido cacique Raoni.

A base da acusação são alegados crimes ambientais e genocídio dos autóctones. O único veículo brasileiro que deu a informação foi o portal Pública. A denúncia tem 69 páginas e está muito bem documentada. Uma cópia confidencial do texto completo, traduzido para o português, está aqui.

Não se sabe ainda se a demanda será aceita pelo TPI. Se for, doutor Bolsonaro tem de começar a se preocupar. Não imagino que venham colhê-lo dentro do Palácio do Planalto para confiná-lo nas masmorras de Haia (Holanda). Enquanto for presidente, corre outros perigos, mas não este.

No entanto, assim que deixar o cargo, que tome cuidado. Livre de viajar dentro do país mas não lá fora, estará na esdrúxula situação dos que têm muito dinheiro mas só podem se locomover dentro do próprio país, como é o caso de Paulo Maluf. É que, se for dançar um tango em Buenos Aires ou andar de xícara na Disneylândia, periga ser detido e despachado para o TPI. Vai acabar provando do mesmo prato que já foi servido a outros antigos presidentes – Lula e Temer.

Reparem que, no Brasil, uma temporada (longa ou curta) na prisão está se tornando passagem obrigatória no ritual pós-presidencial. Dilma escapou por pouco. Bolsonaro só vai escapar por milagre.

Pensando bem – 18

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Na sua aproximação com o Oriente
Bolsonaro mexe com a alma da gente

Desdenhou, desprezou, receitou aspirina
E acabou engolindo a vacina da China

Numa prova de que é mesmo bom de astúcia
Fez o marketing do Telegram da Rússia

O próximo passo vai nos trazer muita sorte:
Bananinha embaixador na Coreia do Norte!

Agenda do cercadinho

Antônio Britto (*)

Em um governo ao menos sensato, a existência de qualquer crise levaria à busca imediata de soluções. No padrão Bolsonaro, comportamento reiterado ao longo desses 2 anos, a crise leva a um modelo fixo de reação: transferência imediata de responsabilidades, busca de culpados e insinuações autoritárias tentando colocar as Forças Armadas a serviço dos interesses do presidente, o que não deveria ser novidade para o Exército.

Na prática, tornou-se uma forma de saber como Bolsonaro avalia a própria popularidade ou as dificuldades que enfrenta. Se são realmente grandes e prejudicam seus índices de aceitação, no próximo cercadinho as Forças Armadas serão usadas por ele. Esta semana não foi diferente: pressionado pelo crime de Manaus, o fracasso na vacinação e as dificuldades para a retomada econômica, Bolsonaro deu uma inesquecível contribuição à ciência política determinando que são as Forças Armadas que definem a existência da democracia entre nós.

(*) Antônio Britto Filho, jornalista, foi ministro da Previdência Social do governo Itamar Franco; foi também governador do RS. O texto é excerto de artigo publicado no Poder360.

O general e a selva

José Horta Manzano

Cada macaco no seu galho. Para a guerra, vão os militares. Para a mesa de discussões, vão os diplomatas. Não convém misturar os profissionais, se não é capaz de dar choque.

Nosso presidente, como o Brasil e o mundo já se deram conta, sofre de séria disfunção cognitiva; em termos familiares: é imbecil. Essa dificuldade de apreensão da realidade é agravada por seu caráter agressivo e por suas reações paranoicas.

De um personagem com essas características, não se poderia esperar que acertasse na hora de escolher assessores. Recheou ministérios e autarquias com militares. Não se sabe se fez isso para confortar sua paranoia ou por outra absconsa razão. O resultado é um desastre. O inefável general Pazuello, ‘gerentão’ da Saúde Pública, é brilhante exemplo.

A subida ao trono de Joe Biden ratifica a perda do único apoio externo com que Bolsonaro podia contar. Agora que o presidente se sente vulnerável, a paranoia aumentou e seus efeitos se espalham pelos altos círculos da República. Doutor Bolsonaro perde o sono ao imaginar que, qualquer dia destes, a Amazônia será invadida por sabe-se lá quais inimigos. Sem dificuldade, tem conseguido contaminar generais. Militares são treinados a enxergar o mundo em preto e branco, sem nuances intermediárias. Em princípio, interlocutores têm de se encaixar obrigatoriamente em um de dois grupos: ou são amigos, ou são inimigos.

Quando dirigentes estrangeiros criticam a política ambiental do Brasil, não é hora de ‘mandar pólvora’, como insinuou Bolsonaro. É hora de mandar a diplomacia para a linha de frente. É hora de conversar, de ouvir, de explicar, de entender, de refletir, de apaziguar, de maneirar. É hora de escutar, de se abrir, de argumentar, de convencer. É hora de perceber que a riqueza das florestas brasileiras não se resume ao estrondo do abate de árvores, ao lucro da extração de madeira, à tristeza da extinção da vida animal.

Diferentemente do que pensam Bolsonaro e seus amigos militares, ninguém no mundo tem séria intenção de tomar a Amazônia brasileira. Nem mesmo a China, capitão! O que assusta o mundo é a ameaça de perder a mais importante floresta equatorial do planeta. Se ela desaparecesse, o clima mundial – e, naturalmente, do Brasil também – sofreria consequências desastrosas para a vida de todos nós. Mas Bolsonaro e seus amigos não entendem isso. Ou se recusam a entender, o que dá no mesmo.

Fiquei sabendo hoje que o Exército está cuidando de ocupar a Amazônia antes que algum aventureiro lance mão. A derrocada de Trump e o sentimento de impotência estão por trás. Este escriba tem uma sugestão – gratuita e sem compromisso. Sugiro que o comando da organização de resistência ao invasor seja confiado ao general Pazuello. Com essa cajadada, mata-se um coelhão: o general será curto-cirtuitado, fazendo desaparecer o principal entrave(*) à Saúde Pública. O país vai respirar aliviado. Os cidadãos estão precisando respirar – no sentido próprio.

(*) ‘Principal entrave’ é modo de dizer. O principal entrave à Saúde Pública não é o general trapalhão, mas seu chefe.

Esqueceram de aprender com os erros

José Horta Manzano

Em abril do ano passado, a epidemia de covid começava a assustar o mundo. No entanto, no Brasil, muita gente fina jurava que a doença nunca chegaria ao país, visto que o clima tropical não convinha ao vírus. Era a primeira de uma longa série de patacoadas pronunciadas desde então. A fala da ‘gripezinha’, obra de nosso capitão, veio logo engrossar a série. Aliás, em qualquer série de patacoadas, a participação do presidente é garantia de boas pérolas.

Naquele momento, pouco ou nada se sabia sobre o novo vírus. Na Europa, por uma razão ignorada, a Itália foi atingida mais cedo e mais duramente que os vizinhos. Embora o país conte com estrutura sanitária de alto nível, o súbito aumento no volume de doentes apanhou a todos de surpresa. Hospitais lotados, pacientes em macas nos corredores, cortejos de carros fúnebres circulando na escuridão da noite – foram cenas chocantes que marcaram aquelas semanas.

Primeiro país a sofrer um assalto maior da epidemia, a Itália se defendeu como pôde. A maciça investida do vírus desequilibrou a ação do governo e transtornou a vida dos cidadãos. Toda essa confusão estava ligada à emergência da situação e à inexistência de precedentes. Foi compreensível.

Quando se alastrou com força para os outros países, que já tinham assistido aos dissabores italianos e já tinham tido tempo pra se preparar, o ataque viral encontrou terreno mais organizado. O horror visto na Itália nas primeiras semanas não se repetiu nos vizinhos.

O princípio de que o ser humano aprende com as desgraças não parece aplicar-se, infelizmente, a nosso país. Os erros se repetem e, como é sabido, acarretam as mesmas consequências.

by Kleber Sales

Neste segundo ano em que o planeta vive em função da pandemia e mergulhado nela, o que está acontecendo estes dias em Manaus é um rematado absurdo. É situação surreal, inconcebível, insuportável. Estivéssemos num país africano miserável, ainda passava. Mas no Brasil? Como é que conseguimos chegar a esse ponto de descaso?

Há certamente uma cadeia de responsabilidades, que incluem a direção de hospitais, autoridades municipais, estaduais e federais. No nível operacional, como é possível que os encarregados esperem que pacientes morram asfixiados para só então botar a boca no trombone pra denunciar a falta de oxigênio? Por outra, se denunciaram e não foram escutados, aí o enguiço é feio. Até que nível chegou o grito de alarme? Até o topo? Doutor Pazuello, o mago da logística, é a autoridade máxima. Acima dele, somente o doutor maior, Jair Bolsonaro. Estavam a par da catástrofe anunciada?

Tivemos quase um ano para nos preparar. Somos 200 milhões de almas, com um sistema nacional de saúde que funciona há décadas, com um corpo médico e paramédico de excelência, com indústria que produz os insumos básicos para assistir os doentes de covid. Numa federação como a nossa, não se podem tolerar horrores como os de Manaus. São a negação da solidariedade e da coesão nacional.

Pergunta
A simbólica visita de reconforto a um hospital manauara, que nosso chefe de Estado está programando, foi marcada para quando mesmo?

Quiproquó

José Horta Manzano

Quiproquó(*), substantivo dicionarizado, é a expressão latina quid pro quo nacionalizada. Em português, assim como nas demais línguas latinas, o sentido original foi mantido. O significado é ‘isto por aquilo’ ou ‘uma coisa pela outra’. A expressão é geralmente utilizada quando há troca acidental e involuntária.

Um quiproquó pode gerar situação cômica ou até uma baita encrenca. Se, na hora da troca de presentes de Natal, você se enganar e entregar ao sobrinho de 8 anos a bolsa de água quente que era destinada à vovó, o quiproquó vai terminar em gargalhadas. Já se você tiver a infelicidade de chamar a namorada pelo nome errado, pode ter certeza de que o quiproquó não vai sair barato.

Aqui do meu posto de observação, estou vendo nascer um quiproquó originado pelas (pobres) palavras presidenciais. Já faz tempo que doutor Bolsonaro clama pelo voto impresso. Embora venha sendo eleito e reeleito por três décadas pelo sitema eletrônico, mostra-se cético quanto à confiabilidade da urna eletrônica. E não perde ocasião para exigir o tal do ‘voto impresso’.

Nas análises que tenho lido, os autores parecem ter entendido que o presidente, movido talvez por impulso saudosista digno de um Itamar Franco, gostaria que tornássemos a votar por meio de cédula de papel, como se fazia nos tempos de antigamente. Os analistas comentam, então, que isso seria um retrocesso, uma tentativa de ressuscitar um passado morto e enterrado.

A mim, não parece ser esse o desejo do presidente. Pela minha decriptagem, ele não está pedindo que a urna eletrônica seja abolida; gostaria que lhe fosse acoplada uma mini-impressora. O eleitor votaria apertando botões, como está habituado. Só que, em vez de ir embora de mãos abanando, receberia, ainda dentro da ‘cabine’, um papelzinho impresso com o nome do(s) candidato(s) escolhido(s). Com isso, imagina o doutor, o eleitor teria certeza de que seu voto foi para o candidato certo.

Cartaz de meados dos anos 1920 que denunciava o ‘voto de cabresto’.

Quando se trata de acompanhar o raciocínio de Bolsonaro, todo cuidado é pouco. Em decorrência de sua mente pedregosa, seu raciocínio tortuoso e seu vocabulário indigente, a tarefa é árdua. Sua fala exige interpretação, como se ele se exprimisse numa daquelas línguas mortas que os linguistas tentam reconstruir. Se o que o presidente deseja é realmente o que entendi, o remédio é complexo e arriscado.

Em primeiro lugar, seria preciso investir uma nota para comprar uma impressora para conectar em cada uma das 400 mil urnas em uso. Se cada dispositivo custar 100 reais, o gasto será de 40 milhões. Sem contar a quantidade industrial de tinta e de minirrolos de papel. E o agravamento do problema de urnas enguiçadas.

Em segundo lugar, a novidade seria porta aberta para a volta do voto de cabresto, enterrado há décadas. Voto de cabresto ocorre quando o poderoso do lugar (prefeito, homem político influente, patrão de usina, fazendeiro ou o que for) intima a seus comandados que votem em tal candidato. Com a urna eletrônica, não há meio de controlar se a ordem foi cumprida. Já quando o infeliz volta com o papelzinho na mão, não tem como escapar: é obrigado a mostrar ao patrão. Caso não tiver votado conforme a ordem, sofrerá as sanções reservadas aos desobedientes.

Talvez, na mente delirante do doutor, seja exatamente essa a ideia – poder controlar o voto dos humildes, seja por via do patronato fiel à ‘causa’, seja pelos bons cuidados da seita evangélica à qual o eleitor está afiliado. Que São Judas Tadeu nos acuda!

(*) Desde que o malfadado Acordo Ortográfico (AO90) entrou em vigor, a palavra quiproquó perdeu o trema (era qüiproquó). Com isso, a lista de armadilhas e de inseguranças de nossa língua engordou. Meus cultos leitores sabem que não se pronuncia kiproquó, mas sim kuiproquó.

Vista a baixa frequência de uso desse termo, os mais jovens, que nunca viram um trema pela frente, não vão ter como memorizar. É permitido crer que, dentro de alguns anos, a pronúncia padrão terá virado kiproquó. A boa notícia é que, até lá, o doutor terá pendurado as chuteiras – uff! Estaremos lidando com problemas novos. Novos?

Incompreensível

José Horta Manzano

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid?

Ele mesmo tem repetido, desde que a pandemia se instalou no país, que o bom desempenho da economia é essencial para ele conquistar um segundo mandato. Com a doença se alastrando, é inevitável que medidas de contenção continuem em vigor: confinamento, distanciação social, teletrabalho, entre outras. São medidas que, somadas aos hospitais transbordantes, freiam o bom andamento econômico do país. E o presidente sabe disso.

Nesta altura do campeonato, a única providência radical para acabar com a epidemia é a imunização coletiva. Para chegar lá, o caminho mais direto é a vacinação rápida e generalizada. Não é possível que doutor Bolsonaro não entenda isso; o moço é empacado, mas (supõe-se que não chegue) a esse ponto.

O raciocínio é simples e cristalino. Sem vacina, a doença vai continuar por meses e anos a perturbar todas as atividades – transportes, serviços, turismo, produção industrial, exportação. Em resumo, a economia vai continuar semiparalisada. Com vacinação generalizada e levada a toque de caixa, a recuperação poderá até ocorrer antes do fim de 2022. Um trunfo para o candidato à reeleição!

Por que é que Bolsonaro é contra a vacinação anticovid? Não é incongruente? Só vejo uma explicação, embora ela seja tão fora de esquadro que é difícil acreditar: se Sua Excelência age assim, será para contentar sua milícia de devotos.

De fato, entre os fanáticos, há quem acredite que a Terra é plana, há os que juram que o homem nunca pisou na Lua, há ainda os que estão certos de que o clã Bolsonaro é virtuoso e Trump venceu a eleição. Há, naturalmente, ruidosa parcela que tem medo que a vacina os transforme em jacarés. Por essa alucinante hipótese, doutor Bolsonaro estaria se mostrando hostil à vacinação unicamente para contentar seus seguidores e alimentar-lhes a ignorância.

Parece enorme demais pra ser verdade, não? Se minha hipótese for verdadeira, nosso doutor é ainda mais parado do que eu imaginava. Seu comportamento contenta os devotos, é verdade, mas leva ao desespero os demais, que formam a imensa maioria dos eleitores. As eleições estão logo ali na esquina, que não falta tanto assim pra 2022. Na hora de votar, todos se lembrarão do sufoco que passaram quando Bolsonaro bloqueava a vacinação no Brasil enquanto o mundo inteiro se imunizava. Brasileiro tem memória curta, mas nem tanto.

Falando em jacaré, vale lembrar o ditado que se usava antigamente e que cabe aqui como augúrio de ano novo para doutor presidente: «Deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar».

Esquerdalha

Elio Gaspari (*)

Em agosto de 2019, quando Alberto Fernández venceu as primárias para a Presidência da Argentina, Jair Bolsonaro resolveu atravessar a fronteira para escorregar numa casca de banana em terras alheias:

“Não esqueçam que, mais ao sul, na Argentina, o que aconteceu nas eleições de ontem. A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma de Dilma Rousseff, que é a mesma de Hugo Chávez, de Fidel Castro. (…) Se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima”.

Era o tempo em que venezuelanos atravessavam a fronteira e vinham para o Brasil. Hoje os brasileiros gostariam de dar um pulinho na Argentina. Lá, desde a semana passada, a população está sendo vacinada contra a Covid.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 3 jan° 2021.

Pepino torto

José Horta Manzano

É de menino que se torce o pepino. Antigo, mas de validade permanente, o adágio informa que os bons hábitos vêm da infância. Quem aprendeu de criança, sorte dele, quem não aprendeu, babau. Não dá pra lapidar uma pedra depois de engastada no anel.

Nossas altas esferas são compostas de uma coleção de pepinos tortos. Fica a impressão de que nenhum deles teve berço. Ou pior: se tiveram, o próprio berço já veio torto. É permitido supor que tenham nascido e crescido no meio de gente primitiva e de nariz empinado, desses que têm o rei na barriga e imaginam pairar acima dos demais. Tivemos, às vésperas do Natal, três exemplos edificantes, um atrás do outro, feito rajada de arma automática. Todos eles são manifestações de um mesmo mal.

Primeiro, foi doutor Bolsonaro. (Como não podia deixar de ser, diria o outro.) No auge da pior catástrofe sanitária que o Brasil já conheceu, com quase 200 mil mortos espetados na conta, o homem decidiu tirar férias. Foi descansar num forte catarinense, utilizado como resort pelas Forças Armadas. Francamente, pra quem não trabalhou senão para sabotar o esforço nacional de combate à pandemia, falar em «descansar» é indecente. Bolsonaro não é inteligente, isso já se sabe. Se fosse, teria descansado uma semana na Granja do Torto, residência oficial da Presidência, lugar tranquilo e protegido. Ninguém teria ficado nem sabendo. Mas o pepino torto o faz imaginar pertencer a uma classe de eleitos dos deuses. (Faltou combinar com os deuses, mas essa já é uma outra história.)

Em seguida, foi a vez de João Dória, governador de São Paulo – aquele a quem o presidente da República atribui, com desdém, a paternidade da Coronavac. O governador não poderia ter tido pior ideia. Em meio à pandemia que castiga a população, bem na hora da chegada das primeiras ampolas de vacina, que fez ele? Mandou-se pra Miami para alguns dias de férias. Tirando o mau gosto de escolher a Florida, destino obrigatório de todo novo-rico brasileiro, não era hora de tirar férias. Se tivesse escolhido passar uns dias a olhar a paisagem no litoral do estado que governa, ninguém teria reclamado. Mas Miami? Francamente. Aqui também, o problema é o pepino torto que o faz crer que pertence a uma classe à qual tudo é permitido.

Pra coroar, o STF e o STJ não deixaram passar a ocasião de tentar uma carteirada. Ambas as cortes pediram à FioCruz a reserva prioritária de milhares de vacinas para Suas Excelências, colaboradores & respectivas famílias. Assim, deixariam o populacho para trás e passariam à frente de todos nós. Receberam uma negativa, aliás muito merecida. Doutor Fux ainda reclamou alegando que, se tinha feito esse pedido, era pra preservar o bom andamento da instituição que preside. Passou por cima do fato de estarem teletrabalhando. Deixou transparecer sua convicção de que o STF é a única instituição nacional que merece ser imunizada. Tanto o pedido quanto a explicação são obras-primas de contorcionismo verbal, que combinam com o status de legítimo pepino torto.

De Bolsonaro, pode-se esperar tudo, dado que não é inteligente nem perspicaz. Mas de gente como João Dória, essa atitude é mais intrigante. Imbecil, o moço não é. Ignorante, tampouco. Como é que foi tomar decisão assim tão fora de esquadro, tão impopular, tão demolidora da própria imagem de sobriedade? A resposta está no ditado do pepino. Tão convencidos estão – ele e os outros aqui mencionados – de estar acima do populacho, que não se dão conta de que é esse mesmo povão que os pôs onde estão e que lhes paga o salário.

A solução? É elevar o nível de alfabetização, de estudo e de formação do populacho. Povo instruído adquire nível de politização elevado. Povo politizado rejeita homem público prepotente. Talvez seja por isso que, entre nossos dirigentes, tão poucos dão prioridade ao aprimoramento da Instrução Pública. Será pra garantir a sobrevivência da casta dos pepinos tortos.

E 2021, como é que fica?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 dezembro 2020.

Cinco anos atrás, quando 2015 estava para terminar, escrevi um artigo aqui neste espaço. Falava das dificuldades que nos atormentavam. Eram tempos complicados. O Brasil atravessava período de turbulência braba, daqueles que, fosse avião, as asas estariam ondeando. Na economia, o ano tinha sido catastrófico, com inflação à solta e fuga de capitais. No Planalto, as coisas iam de mal a pior, com a doutora enfrentando processo de impeachment por gestão fraudulenta das finanças, subterfúgio contábil que ficaria conhecido como o das ‘pedaladas fiscais’ – uma quase ofensa aos amantes do ciclismo. Por seu lado, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, respondia por corrupção e lavagem de capitais. Para coroar o trágico buquê, a taxa de desemprego corria em direção aos 10%.

Colei no ano de 2015 o rótulo de annus horribilis – por sinal, o título do artigo. Lembrei que a expressão, com seus ares latinos, tinha sido repaginada pela rainha Elisabeth II, quando do Discurso do Trono de 1992. Com sua série de querelas e escândalos, aquele ano tinha marcado o reino e atormentado a real família. Até incêndio num dos castelos da rainha houve. A expressão, fisgada no latim, arremedava annus mirabilis – ano maravilhoso, título de conhecido poema escrito 300 anos antes por autor inglês. A rainha (ou o cavalheiro encarregado de redigir seus discursos) foi feliz na referência. Certos anos, mais que outros, marcam uma nação.

Para nós, o ano que se acaba foi um sufoco. Milhões de brasileiros estão se arrastando, língua de fora, pra ver se alcançam, vivos e ilesos, a soleira da porta de 2021. O Brasil que chega ao novo ano é um país sofrido, abalado pela perda de 200 mil cidadãos, atazanado pelas privações, martirizado pelo malquerer que o presidente da República dedica às mazelas da população. E, como se fosse pouco, o brasileiro está angustiado diante das perspectivas sombrias. O descaso cruel e repetido com que o Planalto nos hostiliza só faz aumentar nossa sensação de desamparo. Com quem contar? De quem esperar bom senso?

(Kleber Sales/CB/D.A Press)

Como 2015 parece longínquo! O desvario em que se atolam nossos dirigentes nos traz saudades daquele tempo. Desde que a pandemia se instalou entre nós, pulamos de incerteza em incerteza. A informação que valia ontem periga já ter perdido validade. Fronteiras, escolas, lojas são fechadas e reabertas. Ponha a máscara, tire a máscara, saia de casa, fique em casa, vacina vem, vacina vem não – o cidadão comum está dilacerado entre ordens e contraordens que se desdizem sem parar.

No meio desse pandemônio, uma voz clara e forte continua a nos dar o norte: é a voz presidencial, saída da garganta de um homem com histórico de atleta, segundo avaliação dele mesmo. Graças a essa voz, que nunca vacila nem retrocede, sabemos que a covid não passa de uma gripezinha. Temos a confirmação de que vamos todos morrer um dia. Fomos informados, já no longínquo 10 de abril, que o vírus estava indo embora – informe confirmado 8 meses depois, em dezembro, quando de novo o presidente preveniu estarmos no finalzinho da pandemia. Também por seu intermédio, estamos inteirados de que a Europa será bem mais atingida que nós. Fomos ainda avisados de que a hidroxicloroquina é remédio supimpa. E recebemos a informação suprema, o esclarecimento maior: de fonte oficial, sabemos que Sua Excelência não é coveiro.

Para infelicidade de todos os brasileiros, temos, na Presidência, um buraco negro que, além de não emitir luz, ainda engole o brilho e as luzes dos que se aproximam. Mas deixemos metáforas astronômicas e voltemos ao plano terrestre. O presidente é caso de escola sobre egoísmo exacerbado que, reforçado pela ignorância, resultou num indivíduo paralisado, que não faz nem deixa fazer.

Como será, para os brasileiros, o ano de 2021? Annus nefastus, annus mutandis, nefasto, cambiante? Não é fácil encontrar boa definição. Se bem que – vejam só – a resposta está às vezes bem à nossa frente, e basta abrir os olhos para enxergar. A realizar-se a escura profecia lançada por um presidente que tratou o próprio povo de maricas, 2021 será o annus crocodili, o ano em que todos nos transformaremos em jacaré. E daí?

A simbologia da foto

José Horta Manzano

Desde que o primeiro vírus chegou ao Brasil, viajando de avião, Bolsonaro fez o que pôde para minimizar a gravidade da pandemia de covid. Negou, desdenhou, zombou, escarneceu, debochou.

O vírus, que é estrangeiro e não entende a língua do presidente (quem entende?), se fez de desentendido. E continuou seu trabalho paciente, ceifando um aqui, estropiando outro ali, desgraçando mais um acolá. Como convém a todo bom micróbio comunista, não discrimina ninguém: pobre ou rico, preto ou branco, importante ou zé-ninguém, tanto faz. Diante do infortúnio, todos são iguais.

Logo no início da pandemia, o pessoal do Planalto, incluindo o presidente, impacientes de estrear o novo coronavírus, deram carteirada pra furar a fila. Foram à Florida e fizeram importação direta do bichinho. Na volta daquela malfadada viagem em que se hospedaram no resort privado de Trump, duas dúzias de medalhões estavam infectados. O alto escalão de nossa República tornou-se importante foco de infecção.

Faz alguns dias, um assessor mais atirado do presidente tomou coragem e, com muito jeito, alertou o chefe para o desgaste que ele se está autoinfligindo. O homem está prestes a cortar o último fio que o liga à população. A reação do chefe mostra que ele entendeu a mensagem e se apavorou.

Na contramão da pregação negacionista em vigor há 9 meses, um plano de vacinação foi rascunhado às pressas e apresentado ao distinto público em cerimônia solene. É tentativa de recuperar o tempo e o esforço desperdiçados desde que o presidente soltou seu primeiro sarcasmo, em março passado.

A ocasião rendeu uma foto oficial que merece ser analisada com vagar.

Cadeiras
Surpreende a qualidade e o tamanho das cadeiras. Elas podem até servir para decorar restaurante chinfrim mas, para reunião ministerial solene, não caem bem. Aquele tipo de cadeira fica bem para decorar corredores; pra dar assento a ministro e aparecer na tevê, não. Considerando a dinheirama que engorda a contabilidade do Planalto, é curioso que não invistam em cadeiras decentes e apresentáveis. Além disso, visto o tamanho ‘king size’ de alguns personagens, cujas nádegas extravasam, o mobiliário não vão durar muito – o barato sai caro.

Mesa
Falta uma mesa instalada à frente dos participantes. Ainda que não tenha outra utilidade, uma mesa (coberta com toalha roçando o chão) ajuda a disfarçar posturas inadequadas.

Fundo roxo
Este blogueiro é do tempo em que, na Quaresma, era costume da Igreja cobrir crucifixos e estátuas com um pano roxo. Imagino que ainda seja assim. A intenção é ressaltar que se está atravessando um período de recolhimento e reflexão. No imaginário popular, no entanto, a cor ficou estreitamente ligada à tristeza e à morte. Por sinal, caixão de defunto de segunda linha (o caixão de segunda linha, não o defunto) costuma ter detalhes dessa cor.

Quando se está anunciando ao povo que a redenção dos males está chegando, usar o roxo como cor dominante não é boa ideia.

Paridade chacoalhada
A paridade entre sexos é meta perseguida em todas as instâncias. Em escolas e repartições públicas, por exemplo. A lei eleitoral chega a impor quotas para os sexos. Pois bem, a foto escancara o profundo desprezo que doutor Bolsonaro tem por essa paridade.

Dos 17 personagens visíveis, apenas 2 são mulheres. Há ainda 2 ou 3 escondidos, que parecem ser homens. Uma das mulheres (aquela da bananeira) está quase oculta na fila de trás; a outra foi relegada a uma extremidade, quase caindo da foto, como se estivesse sentada num banco rebatível (daqueles que há nos teatros e que são utilizados em dias de forte afluência).

Em matéria de paridade entre sexos, a composição da assessoria presidencial é desbalanceada e machista, à imagem e semelhança do chefe.

Tênis
Um dos figurantes, de terno escuro e gravata, veio de tênis. É composição vestimentária moderninha, que cai bem numa festinha descontraída ou num convescote com amigos. De ministros que comparecem engravatados a uma solenidade, espera-se mais recato. (Taí um dos horrores que mesa e toalha teriam escondido.)

Naquela mesa…
Na ponta esquerda, aparece uma cadeira vazia. A legenda não informa quem é o ocupante. Terá ido fazer pipi? Ou não compareceu?
… tá faltando ele
Se não havia ninguém para ocupá-la, por que é que a cadeira foi deixada lá? É desleixo? Quem souber ganha uma passagem de ida simples para Caracas. De ônibus.

Time unido
Até time de futebol, que é composto de jogadores cuja juventude lhes permite certa dose de indisciplina, costuma ser mais organizado que o grupo da foto.

Dos 17 personagens, 9 estão mascarados e 8 temerários aparecem sem máscara. Numa reunião que trata da pandemia! É constrangedor ver um grupo partido ao meio, deixando a impressão de que, na falta de uma orientação vinda do chefe, cada um faz o que lhe dá na telha. Há os que obedecem ao instinto de sobrevivência – esses vestem máscara. E há os que preferem arriscar a vida para agradar ao chefe – esses estão de rosto nu. É flagrante a impressão de um time de bate-cabeças.

É verdade que fica esquisito, justo no momento de apresentar a vacina à nação, ver que metade dos figurantes abandonaram a principal medida adotada no mundo para conter a epidemia e proteger a população. Dada sem máscara, a recomendação de que todos devem tomar a vacina soa falsa, feita pra inglês ver.

Bolsonaro & assessores estão sempre de olho em gente comendo banana na rua. Assim que enxergam uma casca no chão, atravessam a rua e correm para pisar nela e escorregar. Ainda outro dia, o doutor chamou de maricas aqueles que se protegem contra a epidemia. Depois de ter dado essa mostra de coragem e desprendimento, realmente cai mal pra caramba aparecer de máscara. Que vergonha! O que é que a turma lá de casa vai pensar? E os do boteco então?

Conclusão
Essa simples foto é um símbolo do microcosmo que nos governa: um agrupamento heterogêneo e desarticulado cuja última preocupação é o bem do povo que paga seus salários. Valei-nos, São Benedito!

Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Aquele abraço

Fernando Gabeira (*)

Quando William Shakespeare tomou sua vacina no histórico 8 de dezembro, confesso que o invejei. A primeira coisa que me veio à cabeça foi abraçar, depois de tantos meses, minha filha que vive longe daqui. Imaginei imediatamente quantos abraços e beijos estão congelados a 70 graus negativos, esperando o momento da vacina.

Mas aqui, caro Shakespeare, a vacina ainda é sonho de uma noite de verão. Gostaria também de voltar à estrada, passar longos dias no mato, voltar ao escurecer, com os curiangos voando diante do para-brisa, as primeiras luzes se acendendo na periferia da pequena cidade.

Aqui, William, somos reféns de um governo obscurantista, que não só negou a Covid-19, como o governo britânico no início, mas, ao contrário dele, nunca mudou de posição.

Não vou te cansar com detalhes biográficos. Para quem conheceu Hamlet, o nome Bolsonaro e seus dramas acabariam aborrecendo pela vulgaridade.

O fato é que ele acredita mais num remédio do que na vacina contra o coronavírus. Primeiro, importou da Índia insumos para hidroxicloroquina, e ela encalhou nos laboratórios do Exército. Depois, ao lado de um astronauta, investiu milhões em pesquisa sobre um vermífugo chamado Anitta. Fracasso.

Ele escolheu um general para comandar essa guerra. É um especialista em logística que deixa milhões de testes contra Covid-19 adormecidos num galpão de São Paulo.

Esse general talvez fosse um personagem. Ele acha que o inverno brasileiro do Nordeste coincide com o europeu. E promete comprar vacinas se houver demanda, como se nenhum de nós sonhasse com o seu 8 de dezembro, William.

A única preocupação do homem que preside o país é que a vacina não seja obrigatória. Mas como poderia ser, se levaremos mais de um ano para vacinar todo mundo? Como tornar obrigatório algo que não está disponível? A liberdade será preservada.

Vejo nas redes sociais que seus seguidores temem que a vacina, sobretudo as que trabalham com RNA, possam mudar o código genético. Temem a vacina que você tomou, a da Pfizer, como se depois dela William Shakespeare deixasse de escrever e se tornasse lenhador na cidade de Warwick.

O Brasil talvez seja o único país onde as vacinas têm um peso ideológico. As chinesas são preteridas pelo governo porque são chinesas, têm o olho apertado e podem nos transformar numa multidão de fanáticos do comunismo invadindo as ruas com o livrinho vermelho na mão.

O general que confunde invernos e entraria em mais frias do que Napoleão não se lembrou ainda de comprar as seringas e agulhas, dessas que foram usadas aí, William, nessa terça-feira histórica.

Para não dizer que tudo aqui é cinzento e sem esperança, registro que podemos ver o terno e o vestido que o presidente e sua mulher usaram na posse, em 2019. Eles estão expostos, a entrada é grátis, e foram inaugurados com pompa, discursos sobre estilo e Jesus Cristo, ou como definir as medidas de um enviado dos céus.

Indiferente a tudo, o vírus avança. Nada mais fácil do que enlouquecer um país antes de destruí-lo.

O governo vai amarrar ao máximo o processo de vacinação, simplesmente porque não acredita nele. Em 1904 houve uma revolta contra a vacina. Será preciso uma outra revolta, desta vez para que as vacinas sejam usadas o mais rápido possível.

Será preciso lutar não só para a retomada econômica, mas para que nossas vidas sentimentais sejam reatadas como antes. Isso é até secundário, se considerarmos o número de doentes e mortos que o atraso produz.

Contamos com alguns governadores, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Não se pode dizer que sejam rápidos ou solícitos para entrar nessa luta. Mas é o que temos. Se for necessário, que se faça uma pressão sobre todos. Pode chegar o momento em que fique claro que não só o vírus, mas a elite burocrática e política brasileira, é um obstáculo de vida ou morte.

Se no combate contra um vírus há tanta hesitação, imagino em casos mais graves como numa guerra. O Exército, que na origem era aliado da ciência, produz um general obscurantista como Pazuello, o presidente que foi escolhido por milhões dedica-se a expor numa vitrine iluminada um terno escuro e o vestido que a mulher usou na posse.

Nem todos os que se sentem mumificados podem entrar num museu. Há critérios: é preciso tempo e história, até para um lugar no museu de horrores.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O artigo reproduzido foi publicado no jornal O Globo de 14 dez° 2020.

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

O conselho

José Horta Manzano

O aprendizado
O caso se passou no tempo em que eu era funcionário de uma firma. Meu chefe um dia me encomendou um trabalho qualquer. Não me lembro exatamente o que fosse, mas era coisa pouca, um relatório ou algo assim. Eu não estava lá muito disposto a fazer o que ele pedia, então reclamei, disse que tinha muito pra fazer, que o serviço andava acumulado, que aquela semana não ia dar, enfim, enchi de dificuldade.

A essas alturas, benevolente mas sério, ele me fez um sermão: «Olhe aqui, se você não tem vontade de cumprir essa tarefa, está se comportando exatamente como não devia. Com essa insistência em pôr dificuldade, você acaba chamando a atenção para o fato. O resultado é que, amanhã, eu vou me lembrar desta nossa conversa de hoje, e vou cobrar o serviço. E depois de amanhã também. E assim por diante, até que esteja feito. De outra vez que você não quiser fazer algum trabalho, seja esperto: não diga nada, não chame a atenção para o caso. Diga simplesmente que sim, e pronto. Em seguida, se você não executar a tarefa, não tem importância, que eu vou acabar esquecendo.»

O sábio conselho me foi muito útil. Serve tanto para relacionamento entre chefe e subordinado quanto para situações do dia a dia.

Covid na Europa
Tenho acompanhado a evolução da pandemia nos países da Europa. Na maioria deles, o governo tem agido com bom senso. Espertos e bem assessorados, os dirigentes perceberam que o covid era uma excelente ocasião para promover a união nacional. Não deixaram escapar porque, na vida de uma nação, raros são os momentos em que essa união é possível. Acontece quando há ameaça de guerra. Para enfrentar o inimigo externo, o dirigente perspicaz convoca o povo – que passa por cima de diferenças internas e se une no combate ao perigo.

Pois assim foi feito: uma retórica inteligente apresentou a pandemia como poderoso inimigo externo a ser vencido. Os dirigentes que agiram assim cresceram politicamente. Neste momento em que o Reino Unido começa a campanha de vacinação, os habitantes dos demais países europeus, embora ansiosos para estender o braço e receber a picada que salva, não estão em pânico. São gratos a um governo que soube enfrentar a pandemia com transparência e honestidade, e sabem que a vacina virá quando tiver de vir. Têm confiança no governo.

“É tudo histeria e complô!!!”
Charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeitung

Covid no Brasil
Já em nosso maltratado Brasil, tivemos a desgraça de ter covid e Bolsonaro ao mesmo tempo. É dose cavalar. Desde o início da pandemia, o dirigente-mor não escondeu seus sentimentos: negou a doença, desdenhou dos cuidados básicos de prevenção, tratou o povo de maricas, disse que não era coveiro, incitou os brasileiros à desobediência civil. Para coroar, fez propaganda contra a vacina, pôs medo na cabeça das pessoas, instilou a dúvida.

O resultado é que se vai firmando a impressão de termos na Presidência um homem que não gosta do próprio povo. As pessoas se sentem desamparadas. A estúpida guerrinha da vacina, patrocinada por ele e por seu ministro da Saúde, só faz reforçar o sentimento difuso de abandono. Só o clamor popular é que tem feito o presidente retroceder. Ele vai de recuo em recuo, gerando uma situação constrangedora para ele e angustiante para nós outros. Todos nos demos conta de que, caso esperemos sentados, essa vacina só virá no dia de São Nunca.

De estardalhaço em estardalhaço, nosso dirigente-mor deixou o povo convencido de que não se pode contar com ele. Essa situação criou pânico geral. Governadores, prefeitos, autoridades sanitárias e até o STF se metem no assunto da vacina. Se Bolsonaro tivesse sabido congregar a população num esforço coletivo de combate ao vírus, estaria hoje com aprovação nas alturas. E o povo estaria esperando confiante, certo de que a vacina virá quando tiver de vir. Mas – ai de nós! – ele não quis ou não soube fazer isso.

Vê-se que nosso doutor nunca teve um chefe como o que eu tive, nem recebeu conselho que valha. Ou talvez tenha recebido, mas não entendeu. Dá no mesmo.

Cada um procura sua turma

José Horta Manzano

Monsieur Nicolas Dupont-Aignan, deputado francês, já se candidatou duas vezes à Presidência de seu país. É candidato nanico, mas continua insistindo. Segue a linha política dita «soberanista», doutrina que pleiteia a saída da França da União Europeia, o abandono do euro e o retorno ao franco, o controle rigoroso das fronteiras nacionais, o isolacionismo. Em resumo, o receituário completo da extrema-direita, um belo programa.

As regras eleitorais francesas impõem que cada candidato à Presidência financie os próprios gastos de campanha. Em seguida, somente os que obtiverem pelo menos 5% dos votos válidos serão reembolsados com dinheiro público. Quanto aos outros, ficam chupando dedo. Monsieur Dupont-Aignan nunca atingiu a marca mínima; portanto, nunca foi ressarcido. Parece-me uma boa regra, na medida que inibe a multiplicação de candidaturas nanicas – aquele pessoal que só se candidata de olho no financiamento.

No primeiro turno das eleições de 2017, o deputado ficou em 6° lugar entre 11 concorrentes. No segundo turno, apoiou Madame Le Pen, candidata que também adota o ideário nacionalista e isolacionista característico da extrema-direita. No confronto final, de cada 3 eleitores, 2 votaram em Macron enquanto só 1 preferiu Madame.

A próxima presidencial francesa será, como a nossa, em 2022. Com bastante adiantamento, Dupont-Aignan se prepara para a terceira tentativa. Com esse propósito, esteve ontem de visita a Brasília, onde teve uma audiência de 15 minutos com doutor Bolsonaro. Aproveitou a ocasião para se encontrar com um dos bolsonarinhos, aquele mais deslumbrado, que um dia chegou a imaginar-se embaixador em Washington.

Já se sabe que, com covid ou sem ela, nenhum estrangeiro importante quer ser visto ao lado de Bolsonaro. Nenhuma personalidade de destaque visita mais Brasília. Nosso presidente, por seu lado, não recebe mais convite para visitar país nenhum. O encontro com o deputado francês deixa no ar um gosto meio amargo de reunião de segunda classe, do tipo «quem não tem cão caça com gato».

Realidade paralela

José Horta Manzano

Ao subir à Presidência, doutor Bolsonaro carregou consigo um apanhado de indivíduos. À medida que se passaram os primeiros meses de mandato, como é natural, os elementos que não afinavam com o grupo foram sendo expurgados. Inversamente, como ímã poderoso, o núcleo atraiu adeptos de última hora.

O curioso é que – não, curioso não é adjetivo que caiba aqui; vamos recomeçar. O afligente é que os indivíduos expelidos eram justamente os que, por seu histórico profissional, garantiam seriedade e profissionalismo ao conjunto. Dizem que foi o próprio chefe a expulsá-los, por se sentir ofuscado por eles.

Dessa acomodação, sobrou um conjunto com características surpreendentes. Por um lado, cresceu como se tivesse tomado fermento. Entre assessores de primeiro, segundo e terceiro escalão, são milhares de apadrinhados instalados em sinecuras, a sugar o dinheiro suado da população. Por outro, o grupo é heterogêneo, com gente de variadas origens, unidos por uma característica comum: o descolamento da realidade nacional e a subserviência ao padrinho.

Mais e mais, se tem qualificado o descolamento em que esse pessoal vive de realidade paralela.

Será?
Realidade paralela, expressão traduzida diretamente do inglês, tem sido geralmente aplicada à física quântica, onde convive com noções distantes do homem comum: antimatéria, violação de simetria, universo espelho.

Não me parece expressão adequada para descrever o comportamento dos apadrinhados do doutor. Duas linhas (ou dois pensamentos, ou duas ideias, ou duas vidas) paralelas são aquelas que caminham lado a lado, equidistantes, regulares. Não são esses os modos de nosso presidente nem do cardume que lhe faz escolta. Realidade paralela é conceito elevado demais, inalcançável para aquela gente terra a terra.

A irregularidade ziguezagueante do percurso de todos eles faz mais lembrar um bate-cabeça ou um barata-voa. Se se fizer questão de usar a palavra realidade, que se diga que vivem numa realidade divergente. É bom lembrar que divergir é o oposto de convergir.

O propósito de um grupo coeso, coerente e bem intencionado é sempre a convergência em direção a um objetivo comum. No entanto, a característica marcante de nossos dirigentes é a divergência escancarada, em que interesses pessoais passarão sempre à frente dos interesses do Estado.

Cada um vive a própria realidade, que, de paralela, não tem nada. Essa multiplicidade de interesses pessoais dissonantes, cada um apontando numa direção diferente, resulta em realidades divergentes.

Cada um tem a sua, e vamos em frente, que Deus ajuda. E a pandemia que se lixe.

A roupa velha do rei

Marcelo de Moraes (*)

Faz sentido Jair Bolsonaro demonstrar tanta alegria ao participar de um evento que coloca em exposição os trajes usados por ele e pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, no dia da posse. Certamente, ao rever as roupas, o presidente viaja de volta a um tempo em que, recém-consagrado pelas urnas, tinha muito menos preocupações.

Aparentemente, o governo não dimensiona a ansiedade desesperada das pessoas que esperam pela vacinação, depois de nove meses de pandemia e quase 180 mil mortes. Talvez o presidente também não tenha escutado o recado das urnas, que lhe contaram que seu apoio não serviu para impedir a derrota da maioria dos seus aliados. O desgaste sofrido nos dois primeiros anos de administração e o negacionismo em relação ao coronavírus já estão cobrando uma alta conta política.

(*) Marcelo Moraes é jornalista. O texto é excerto de artigo de 8 dez° 2020.