Melhor que um ‘derby’

José Horta Manzano

Hoje não era dia de escrever, mas tem horas em que é difícil ficar de boca fechada. Ou de dedos parados, depende. A decisão que o STF tomou ontem valeu mais que um Fla-Flu – um derby, como se dizia antigamente. Que hoje convém escrever dérbi, coisa mais sem graça. A decisão foi daquelas que revelam o humor do momento sem dar indicações de como será o momento seguinte. (Falo do STF, não do ‘dérbi’, que isso é doutra freguesia.)

Sabemos hoje que o cidadão que delínque – e que tem dinheiro, isso é importante! – corre baixíssimo risco de ter de cumprir prisão. Se for condenado por um juiz de primeira instância, nada acontece: fica em casa. Se apelar e for recondenado por tribunal colegiado, nada acontece: fica em casa. Se reapelar e a culpabilidade for reconhecida pela terceira vez (pelo STJ), nada acontece: fica em casa. Se provocar o STF, tem 9 chances em 10 de o crime prescrever por decurso de prazo antes da decisão definitiva. Se – para um sujeito hiperazarado – o crime não estiver prescrito e a sentença for confirmada, basta aparecer em público com ar aparvalhado, babando ligeiramente, empurrado numa cadeira de rodas, munido de atestado médico. Nada acontecerá: voltará pra casa em «prisão domiciliar».

Não é uma maravilha? Que venham todos os bandidos do mundo pedir para serem julgados pela Justiça brasileira! Atenção: falo dos que têm dinheiro, naturalmente. São bandidos? Pouco importa. A isso, estamos acostumados. Uns a mais, uns a menos, não faz diferença. São ricos? Que transfiram a fortuna para o Brasil e que a apliquem em investimento produtivo, não especulativo. Será excelente injeção em nossa minguante economia. (De qualquer modo, há que convir: todas as montanhas de dinheiro que voam ao redor do planeta sofrem de alguma irregularidade passada, presente ou em preparação.)

E pare com essa cara de espanto! Na nossa terra querida, nada mudou. Aliás, as coisas estavam querendo mudar, mas estão voltando aos eixos. Estes últimos cinco ou seis anos, dominados por essa tal de Lava a Jato que ninguém sabe donde veio, tinham sido assaz incômodos pra muita gente fina. Agora as antigas certezas voltaram. Cadeia é só para os tres pês: preto, pobre e prostituta. Faz 500 anos que é assim! E não se fala mais nisso.

Nota de pé de página
Más línguas garantem que doutor Bolsonaro estourou champanhe ontem à noite. Lula solto é tudo o que ele queria. É a garantia de que, ainda que muita gente não aprecie, o segundo turno das próximas eleições presidenciais terá dois candidatos definidos desde já: a dupla inoxidável Lula x Bolsonaro.

A escolha vai ser pra lá de difícil. Fosse a eleição hoje, o Lula teria grandes chances. Daqui a três anos, tudo pode mudar. Daqui até lá, muito esgoto ainda há de passar por debaixo da Ponte da Freguesia do Ó.

Fingir que preside

José Horta Manzano

Que doutor Bolsonaro é ignorante e inculto, já ficou claro desde o discurso de posse;

que ele é grosseiro e malcriado, faz tempo que todos já sabem;

que ele é rancoroso, a maioria já descobriu;

de que ele é teleguiado pelo guru boca-suja, já é notícia antiga;

de que ele cobre os ‘malfeitos’ dos filhos destrambelhados, restam poucas dúvidas;

de que ele é vingativo, muitos já se deram conta;

que ele gostaria mesmo é de virar ditador, alguns já estão começando a perceber;

de que ele, mesmo tendo sido eleito pra representar o Estado Brasileiro, se nega obstinadamente a fingir que é um presidente à altura do cargo, está sendo dada a prova definitiva. Pra quem ainda tivesse dúvida, agora ficou claro.

Doutor Bolsonaro anunciou pela enésima vez que não comparecerá à cerimônia de tomada de posse do novo presidente da Argentina. Faz sentido. Mauricio Macri tampouco compareceu à posse de Bolsonaro. Mas não é por isso que nosso presidente faltará à festa. É porque está fazendo birra para o novo presidente. Doutor Bolsonaro considera señor Fernández um perigoso comunista e até já o chamou de bandido.

Assim vão os dois grandes vizinhos do Cone Sul. Sempre aos trancos, tentando evitar os barrancos. Um presidente fazendo beicinho para o outro. E os milhões de cidadãos sempre governados por aprendizes. Fossem só aprendizes, seria trágico mas consertável. O caso é que, além de aprendizes, são todos mal-intencionados e ignorantes. Aí fica mais complicado.

Lula, Bolsonaro e a revolução

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 outubro 2019.

Uma revolução, pra dar certo, pede dois ingredientes essenciais: um líder e um programa. Se for complicado estruturar programa, que haja ao menos reivindicações consistentes. Pra puxar o trem, alguém terá sempre de assumir o papel de locomotiva, aquela que apita estrondosa e leva adiante o reclamo do populacho. Tem sido assim desde o tempo em que os bichos falavam.

Neste Brasil – que também é de todos os santos – revoluções andam capengas. Ora falta uma perna, ora falta a outra. Se há líder, falta programa; quando há programa, o que falta é o líder. Pra não espichar, vamos examinar o que ocorreu no vigor da atual Constituição, essa que já foi descrita como ‘cidadã’ mas hoje muitos olham de esguelha. Collor de Mello, por exemplo, trouxe, sim, boas ideias. Embora possa hoje parecer inacreditável, telefone e carro importado estavam fora de alcance do brasileiro médio. Se o trem andou, tributo seja prestado ao autoqualificado «caçador de marajás». Tirando a falta de jeito no trato da economia, até que havia ideias. Mesmo não revolucionárias, eram novas no Brasil. O que faltou foi liderança. Bem que o presidente tentou, mas, para ser locomotiva, não basta querer. Faltou lenha. Deu no que deu.

Após um interregno em que o vice foi içado de supetão sem se dar conta do que ocorria, subiu FHC. Dizer que o Brasil foi mal administrado naqueles anos seria inexato. Dizer que o governo foi desastroso seria rematado exagero. Foram oito anos sem história. O país avançou, sem dúvida, em muitos pontos. Mas marcou passo em inúmeros outros. Nem chegamos ao Brasil potência, nem saímos do Brasil miséria. Com as armas e o prestígio de que dispunha, FHC podia ter feito melhor. Revolução, portanto, não houve. O governo foi assim assim. Não há que dizer: a prova de que o povo ansiava por agito maior foi a eleição de Lula da Silva.

E ele foi eleito com louvor, como antigamente se dizia de aluno que mostrasse desempenho acima da média. Sua liderança era incontestável, talvez a mais sólida que este país já conheceu. Lula tinha, na mão, a faca, o queijo, o prato e a embalagem. Ideias, até que havia, que o PT tinha sido, até àquela época, partido programático. O que aconteceu a partir da subida da (até então) virtuosa agremiação corresponde a conhecido dito popular: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Lambuzaram-se todos. Em poucos meses, estavam todos besuntados, engordurados, obesos e emporcalhados. A liderança se manteve, mas as ideias se perderam. Pra que ideias, quando se está no bem-bom? Revolução, que é bom, não houve.

Com a chegada de uma turbulência de nome Dilma e de um susto de nome Temer, enfrentamos aventurosa travessia de um Mar dos Sargaços nacional, com armadilhas e enroscos. Melhor até nem lembrar desse intervalo que a história, sábia, vai acabar esquecendo. Passado o sobressalto, chegou a vez de Jair Bolsonaro, candidato eleito par défaut, como dizem os franceses – por falta de opção. Nas primeiras semanas da nova gestão, as decisões pareceram esquisitas. Mudança da embaixada do Brasil em Israel e exclusão da Argentina de visita presidencial pareceram apenas pontos fora da curva. Não eram. Estavam perfeitamente alinhados com a curva. O futuro viria rapidinho confirmar que esquisitice, no novo governo, não era exceção, mas regra. Doutor Bolsonaro deixou passar todas as oportunidades de mostrar liderança. Ainda recentemente, afrontando os fiéis da religião mais arraigada e (ainda) majoritária, ajoelhou-se à frente de bispo neopentecostal. Dias depois, fez questão de esnobar a caravana que reverenciou Irmã Dulce, a santa dos pobres. O presidente tem mostrado que prefere continuar a ser o «mito» apenas de um grupo que, se já não era grande, definha.

O Brasil hoje sabe que o atual governo é um descampado de ideias. Intrigas palacianas entravam o surgimento de um líder. Sem ideário e sem liderança, o governo enerva o eleitor esclarecido, mas não lhe mete medo. Se é verdade que o país vai continuar empacado, é também garantido que não haverá revolução.

Golfo Pérsico

José Horta Manzano

Nosso inconsequente aprendiz de presidente teve de se dobrar.

•Apesar de ter jurado que mudaria de endereço a embaixada brasileira em Israel;

• apesar de ter asseverado que bastava estar bem com Israel para nosso comércio exterior com o Oriente Médio estar garantido(!!!);

• apesar de ter menosprezado o poderoso conjunto dos países árabes, dizendo que «não precisamos dessa gente»,

foi obrigado a se humilhar.

Desagravo indispensável

O que não deveria passar de uma rotineira visita de Estado transformou-se num ritual expiatório. Passando por cima das imposições de seu guru boca-suja, vergou-se a uma verdadeira visita de desagravo ao Oriente Médio. Não conseguiu suportar o peso econômico dos países do Golfo Pérsico. Depois de levar um choque de realidade, foi forçado a penitenciar-se.

Um dia, quem sabe, doutor Bolsonaro aprenderá que política externa não se faz insultando parceiros, nem menosprezando clientes. Ou, quem sabe, não dará tempo de aprender. Cada um que escolha a opção que lhe parecer mais realista.

Nota geográfico-linguística
Faz meio século, desde o surgimento do pan-arabismo e do sentimento nacionalista – impulsionado pelo petróleo, que lhes trouxe riqueza – os países árabes, majoritários na região, sentem-se incomodados com a tradicional denominação daquele mar interior: Golfo Pérsico.

«Por que só pérsico» – perguntam –, «se banha também uma pancada de países árabes como o Iraque, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Sultanato de Omã, os Emirados?» Alternativas criativas têm sido propostas, como «Golfo Islâmico» ou até «Golfo Muçulmano», expressões que soam estranhas, como se aquele braço de mar fosse a entrada de um templo.

O formato atualmente aceito sem muita cara feia é Golfo Árabo-Pérsico. Pra não ofender ninguém, a mídia francesa costuma utilizar essa forma. Quanto a nós, um nome que não desagradaria e certamente pegaria bem seria «Golfo das Mil e Uma Noites». Já pensou? Dá quase pra ouvir Xerazade contando histórias.

Presidente sem partido

José Horta Manzano

Até quem tem bons olhos, às vezes atira no que vê e acerta o que não tinha visto. Quem vive na escuridão, então, é useiro e vezeiro desse tropeço. Que nenhum cego nem nenhum militante pacifista se ofenda, nem me entenda mal: estou falando por metáforas. Nesta fábula, todos veem, ninguém atira e (quase) ninguém tropeça.

Doutor Bolsonaro – personagem central da historinha – está entre os que vivem na escuridão. E olhe que minha fala não está carregada de preconceito de classe. Nosso presidente, apesar de ter origens humildes, está há 30 (trinta) anos na política. É uma existência! Imagine o que uma pessoa esforçada teria aprendido em trinta anos de boa-vida, bom salário, trabalho sem patrão, horário praticamente livre, apartamento funcional, mordomias e todo o resto. Em vez disso, nada: o homem continua encruado como se tivesse saído mês passado de uma (péssima) escola primária.

É por isso que ele, embora fale pelos cotovelos, parece não dizer coisa com coisa. Só tem a casca: terno, gravata, cabelo (mal) cortado, ar sério e carrancudo. Mas falta o miolo. De aparência, convenhamos, é melhor que um Lula da Silva. Mas é só. Ambos falam sem conteúdo. O presidente anterior, hoje cumprindo pena em Curitiba, tinha seguido caminho semelhante. De origem humilde, conciliou a vida boa de líder sindicalista com a boa-vida de deputado federal. Apesar disso, trinta anos mais tarde, continuava acreditando que a terra era plana.

Estou me perdendo. Comecei falando de Bolsonaro e, lá pelas tantas, me dei conta de que ele e o Lula têm percurso comparável. Origem humilde, trinta anos de bem-bom, verborragia descontrolada. Placar final: pouca instrução, muito palpite, muita opinião pessoal, mas pouco miolo. Mas o Lula não tem nada que entrar nesta fábula. Xô!

Minha intenção é comentar uma frase que doutor Bolsonaro pronunciou ontem, frase que, apesar da aparência desconexa, encobre uma verdade. «Eu posso ser um presidente sem partido» – foi o que o homem disse, entre uma xícara de chá verde e um confeito de gengibre. A frase, todos perceberam, tem a ver com a operação de desmanche do PSL, partido pelo qual ele se elegeu. Sem ousar admitir, ele já deixou subentendido que perderá o apoio desse partido e que provavelmente jamais será acolhido com reverência em nenhum outro.

Lá no começo, eu disse que Bolsonaro costuma atirar no que vê e acertar o que não tinha visto. Neste caso, atirou no que estava vendo: o derretimento do partido que lhe dava sustento. Mas acertou ao dizer que um presidente pode sobreviver «sem partido». Eu diria até que, mais que poder, tem o dever de se afastar da politicagem partidária. Pelo menos, em aparência e em público. No paralelo, cada um é livre de trocar dólar como quiser.

O cargo de presidente do Brasil é função dupla. Ao mesmo tempo, o sujeito é chefe do Estado brasileiro e chefe do governo da República. São funções distintas que, fora das Américas, costumam ser atribuídas a pessoas distintas. Se acrescentarmos a essa carga a liderança de um partido, teremos um homem sobrecarregado. Ninguém é super-homem. Quem tenta exercer três funções pesadas ao mesmo tempo vai acabar executando mal o trabalho, ainda que seja bom de bola – o que não é necessariamente o caso de doutor Bolsonaro.

No momento em que veste o terno e sobe a rampa, o entronizado se torna presidente de todos os brasileiros. Nada o impede de continuar filiado a um partido, mas o bom senso o aconselha a fazer política partidária o mais discretamente possível. Justamente para não melindrar os que não aderem a esse partido, mas que são súditos do mesmo Estado, à cabeça do qual está o mesmo presidente.

No fundo, um presidente «sem partido» não é ideia absurda. Há outras maneiras de conseguir apoio no Congresso; e doutor Bolsonaro, que já foi congressista por 7 (sete!) legislaturas consecutivas, sabe muito bem disso.

Fim do Mercosul?

José Horta Manzano

Uma maldição pesa sobre chefes de Estado quando fazem visita ao estrangeiro. Não acontece só com o Brasil, mas com o planeta inteiro. Faz alguns anos, o papa fez declarações de arrepiar os cabelos quando de um voo transatlântico. Jacques Chirac e François Hollande, que foram presidentes da França, fizeram o mesmo: abriram-se em confidências que nunca deveriam ter saído dos salões aveludados do governo francês. Até nosso Lula da Silva andou confessando o que não devia, faz muitos anos, quando de viagem à Inglaterra.

Doutor Bolsonaro não escapa à maldição. No caso dele, o problema é duplo. De ordinário, seu quotidiano já costuma ser recheado das barbaridades que profere – e que convivem com as cobras e os lagartos criados no gabinete do ódio, vizinho ao seu. Quando viaja, então, nosso presidente se torna perigo maior. Ao ver-se rodeado de jornalistas nacionais e estrangeiros, empolga-se, solta o verbo e profere desatinos pesados.

O mais recente exemplo de disparate acaba de ser proferido no Japão. Doutor Bolsonaro confessou ter mandado avaliar os comos, os porquês e as consequências de uma saída do Brasil do Mercosul. Consistente, valeu-se da ocasião para criticar de novo o mais que provável próximo governo argentino.

A queda do Brasil derrubaria todos os vizinhos

Não passaria pela cabeça de nenhum empresário, ainda que fosse medíocre, ofender seu terceiro maior cliente. Muito menos assim, gratuitamente, sem ter sido provocado. Só a cabeça de um incapaz pode parir esse tipo de coisa. Pois é justamente o que Jair Messias faz, em nosso nome, contra o terceiro parceiro comercial do Brasil. O drama é que esse incapaz ainda vai segurar, por algum tempo, as rédeas de nosso destino coletivo.

«Sair do Mercosul», como planeja Sua Excelência, significa acabar com o bloco, enterrá-lo e rezar missa de réquiem. O Brasil representa mais de 70% do peso demográfico e econômico do Mercosul. Os parcos 30% que restariam não dão camisa a ninguém. Sem o Brasil, o mercado comum não se sustenta.

Espero que o sistema de pesos e contrapesos da República não permita que esse presidente sem eira nem beira destrua um edifício que vem sendo construído, com muita dificuldade, há quase 30 anos. Seria o tipo de coisa em que não haveria vencedor: Brasil e demais sócios sairiam perdendo. Decisão dessa magnitude não pode ser tomada por um só, ainda que fosse indivíduo extremamente capaz. E nosso presidente, infelizmente, não é.

Dos males, o pior

José Horta Manzano

Pra saber o que vai acontecer neste ziguezagueante governo que nos cabe tolerar, só tendo bola de cristal guardada no armarinho da farmácia do banheiro. Bem à mão, como escova de dente e cortador de unha.

No momento em que escrevo, a mídia séria (ainda) afirma que um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado estadual – desistiu de postular posto de embaixador da República do Brasil junto aos Estados Unidos da América do Norte. Nada garante que, quando este post tiver sido mandado ao éter, a notícia já não se tenha modificado. You never know – nunca se sabe.

No país, os que têm ouvidos de ouvir ouvem. Os que ainda têm um olho aberto observam. Os que guardam capacidade de cogitar cogitam. E todos eles se perguntam: «Que será pior? Guardar o filho deslumbrado junto ao regaço do pai ou despachá-lo pra além-mar?».

Se ficar por aqui, periga reforçar o time da maldade, aquele grupelho já conhecido como ‘gabinete do ódio’. Bom para o país é que não há de ser. Pode-se ter certeza de que as intrigas palacianas só tenderão a aumentar.

Se for mandado pra longe, sua exposição internacional será necessariamente maior. Sabe Deus a vergonha que nos fará, então, passar! E tudo junto à corte do país mais vigiado do planeta, aquele de que todos escrutam o menor suspiro. Vai ser um sufoco.

Confesso que, as duas opções traduzem o real significado da palavra dilema, qual seja, uma escolha obrigatória entre duas possibilidades más. Seja o que acontecer, será ruim para o Brasil. Valha-nos, São Benedito!

Chamada Esdatão, 22 out° 2019

Ao dar a notícia, o repórter do Estadão escorregou. Disse que o bolsonarinho desistiu da embaixada em meio à resistência de seu nome no Senado.

Enganou-se. Devia ter dito que o rapaz desistiu em meio à resistência a seu nome no Senado. Quem resiste, resiste a algo, não de algo. Existe resistência a alguma coisa, não de alguma coisa. Exemplos:

Resistiu à ideia de ir ao cinema.

Resiste a aceitar a oferta.

Não ofereceu resistência à prisão.

Conselho de Direitos Humanos

José Horta Manzano

Nesta quinta-feira, houve renovação parcial dos integrantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Essa instância é composta de participantes de 47 países, todos devidamente eleitos. O Brasil, candidato à reeleição pela enésima vez, conseguiu o intento. Por dois anos, seu representante terá assento no Conselho.

De resto, Cuba perdeu a cadeira mas foi substituída pela Venezuela. A China e a Arábia Saudita foram mandadas embora pra casa, mas o Afeganistão continua firme e forte no Conselho, assim como o Paquistão, o Catar, o Bahrain, o Sudão – todos eles regidos por exemplar democracia, ciosa dos direitos humanos, como se sabe.

Doutor Bolsonaro, quando candidato, havia bravateado que, se eleito, retiraria o Brasil da ONU. Diante de reação indignada, deu-se conta da enormidade que havia pronunciado e suavizou: «Sacumé, eu só queria dizer sair do Conselho de Direitos Humanos, não da ONU inteira, talquei?».

Talquei. Não só o Brasil não «saiu» do Conselho, como ainda se candidatou à reeleição, fez campanha oficial e foi reeleito. Algum guru menos tapado há de ter aconselhado nosso presidente a ficar quietinho desta vez.

Agora, falemos nós. Francamente. Conselho de Direitos Humanos que teve, até ontem, China, Arábia Saudita e Cuba, e que hoje conta com Venezuela e Paquistão é hilariante. Está mais pra piada que pra coisa séria. A Arábia Saudita é aquele país onde mulher não tem direito de sair à rua sem a companhia de um homem. Não tem direito nem de dirigir automóvel. Na China e no Paquistão, todo o mundo sabe como funciona: lugar de direitos humanos é na lata do lixo. E a Venezuela, que acaba de chegar? Não é aquele país que manda os brucutus atropelarem manifestantes nas avenidas? Não é aquele país de onde só não escapou quem é ligado ao regime ou quem não tem dinheiro pra comprar a passagem?

Com um Conselho de Direitos Humanos assim, mais teria valido cair fora. Como de costume, os gurus do presidente andam defasados. No presente caso, doutor Bolsonaro devia mesmo é ter batido pé firme na primeira bravata em vez de dar ouvido a gurus. Devíamos ter caído fora desse Conselho. Que o Brasil não empreste (o que resta de) seu prestígio a essa farsa.

Prêmio Camões

José Horta Manzano

Já devo ter falado no assunto, mas certas coisas não posso deixar passar em branco. Não bebo da mesma fonte que Chico Buarque de Hollanda, tampouco comemos no mesmo prato. Regulamos na idade, é verdade (embora a vaidade me permita contar que ele é um pouco mais velho). Crescemos num mesmo Brasil, mas tivemos vivências diferentes – o que é, no fundo, natural. Afinal, cada um vive a própria vida, não a do outro.

O posicionamento político do Chico me deixa arrepiado. Mais que assustado, pensativo. Como é possível – cogito eu – que um rapaz tão inteligente, tão culto, tão estudado e tão sensível suba ao palanque de uma Dilma e se derreta por um Lula, a ponto de viajar a Curitiba pra visitá-lo na cadeia? Enfim, são coisas dele. Concluo que, embora tudo isso me pareça aberrante, não é, afinal, nenhum crime. Não seria justo tratá-lo de Geni e alvejá-lo com esterco, se é que me entendem.

Isso posto, vamos ao que interessa. Chico Buarque de Hollanda forma, junto com Tom Jobim e Ary Barroso, o trio maior da MPB no século XX. Cada um seguiu linha pessoal e tem mérito próprio: Tom Jobim, pela criação músical refinada; Chico, pelo sofisticado burilamento das palavras; Ary, pelo espírito incrivelmente avançado para a época. Para mim, estão os três num pedestal, todos no mesmo patamar. Até o momento, insuperados.

No entanto, há que considerar os comos e os porquês. Uma coisa é o posicionamento político do Chico, fora de meu limitado alcance intelectual. Outra coisa, bem diferente, são suas qualidades excelsas de ourives das palavras, de mestre da língua, daquele que tem o poder de concentrar, em meia dúzia de versinhos, o suco do modo de ser brasileiro. Para esse Chico, tiro meu chapéu e me inclino, reverente.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Aos 75 anos, o artista acaba de ser agraciado com o Prêmio Camões, a marca maior da excelência dos escritores de língua portuguesa. É distinção rara, distribuída a conta-gotas – um agraciado por ano –, atribuída a Raquel de Queirós, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago. Como se vê, não é pra qualquer um.

O Prêmio Camões foi instituído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil. É, portanto, financiado pelos dois Estados. Tradicionalmente, o diploma que o oficializa vai assinado pelo presidente da República. É nada mais que formalidade, pois o prêmio, com ou sem assinatura, já foi atribuído. Doutor Bolsonaro, movido pela habitual arrogância que só a monumental ignorância lhe permite, negou-se a assinar o diploma. Decidiu esnobar. Prometeu assinar no dia de São Nunca.

Sua atitude tem várias consequências. Em primeiro lugar, ofende o artista que já encantava o Brasil quando doutor Bolsonaro não passava de moleque de calças curtas. Em segundo lugar, ofende os brasileiros que, inteligentes, conseguem enxergar o excepcional criador por detrás da cortina de inesperadas preferências políticas. Em terceiro lugar, doutor Bolsonaro reforça a própria imagem de homem tosco, primitivo e – agora se vê – mesquinho.

Eleições: as novas regras

José Horta Manzano

Nas eleições de 2018, quase nenhum dos políticos tinha se dado conta de que o mundo estava mudando. A maioria apostou na permanência dos costumes dos bons velhos tempos, quando a propaganda eleitoral pela tevê reinava poderosa. Perderam o bonde. Não se deram conta de que nova mídia tinha surgido e estava sendo potencializada pelas redes sociais. O único que acreditou nessa força foi doutor Bolsonaro.

Talvez ele tivesse vencido mesmo sem a ebulição de fêices e zaps. Ou, quem sabe, o generalizado sentimento de ojeriza ao lulopetismo, sozinho, não tivesse sido suficiente para garantir-lhe a vitória. O fato é que exasperação contra a corrupção aliada à agitação das redes constituiu combustível suficiente para o sucesso nas urnas.

Será interessante observar a evolução da estratégia dos candidatos na próxima campanha. Agora, que todos já se entenderam que a antiga propaganda eleitoral televisiva morreu, substituída pelo fervilhar das redes, teremos, em princípio, jogo plano. Todos entrarão no páreo sabendo. Todos lutarão com armas idênticas. A nova realidade tende a aplainar, a igualar candidatos. Por detrás de um tuíte, todos se parecem.

Antigamente, construção de uma ponte ou de uma estrada tinha peso capaz de arrecadar votos – e só quem estava na presidência podia cortar a fita da inauguração. Hoje mudou. Tuitar, todos podem. Pra ter legião de seguidores, é só pagar, que robôs e hackers de aluguel estão aí pra isso. Foi-se o tempo em que marqueteiros espertos, com um único slogan maroto, recrutavam milhões de eleitores. A eleição está se democratizando. Não é impossível que tenhamos, daqui a três anos, a disputa de maior suspense desde 1988, quando entrou em vigor a atual Constituição.

Aviso aos futuros candidatos
A eleição começa agora. Não convém esperar a abertura da temporada oficial de campanha pra começar a agir. Quem tiver pretensões a subir ao Planalto tem de começar a agitar já. Uma simples consulta ao google ensina o que é e como se fabrica um ‘bot’ – um robô informático. Pra principiantes, não sai caro. Dá pra faer em casa. Pra atigir escala industrial, custa um bocadinho mais. Mas não muito.

Robô
É termo que se difundiu em todas as línguas europeias a partir dos anos 1920, através de uma peça de ficção científica de Karel Čapek (1890-1938), escritor de língua tcheca, nascido no então Império Austro-Húngaro. O autor povoou sua peça R.U.R. de autômatos dedicados ao trabalho. Chamou-lhes roboty, plural de robot.

Robot é raiz presente em todas as línguas eslavas para designar o trabalho e derivados (trabalhador, trabalhoso). Chegou a nossa língua através do francês.

Canoa furada

José Horta Manzano

Donald Trump acaba de renegar os aliados curdos. Esqueceu-se de que a vitória sobre a Organização Estado Islâmico não teria sido possível sem a preciosa ajuda dos curdos sírios e iraquianos, que reconquistaram corajosamente, metro a metro, casa a casa, o território perdido.

Dois dias atrás, ao levantar-se com pé torto, o presidente americano informou, por um tuíte, que tinha resolvido chamar de volta pra casa os militares americanos estacionados na região. Sem a proteção americana, os curdos estarão expostos ao poderio terrestre e aéreo do temível exército turco. Vão levar muita bomba.

Artigo do Washington Post resume bem a situação:

“President Trump’s erratic foreign policy gives allies good reason to doubt America will follow through on its security commitments or protect friends in their hour of need.”

“A política externa errática do presidente Trump dá aos aliados boas razões pra desconfiar que os EUA não honrarão a promessa de proteger os amigos na hora da precisão.”

Doutor Bolsonaro – nosso arremedo tropical de Trump – tem apostado todas as fichas na pessoa do presidente americano. Sua adoração é pessoalmente dirigida a Donald Trump; não é necessariamente extensiva aos demais 330 milhões de americanos. Com insultos, desfeitas e demonstrações explícitas de desprezo, doutor Bolsonaro tem dado de ombros ao resto do planeta. Está fascinado pela figura de Trump.

Seria importante que algum assessor lhe contasse como os aliados curdos foram tratados. Seria importante que algum assessor o alertasse para a instabilidade emocional de seu ídolo. Em conhecimento de causa, talvez doutor Bolsonaro reflita e modere o comportamento antes que seja tarde. Ou não.

Nesta surpreendente República

José Horta Manzano

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, o Lula deve logo estar de volta à cobertura de São Bernardo. Se alguém está torcendo pra encontrá-lo no aeroporto e viajar no mesmo avião, esqueça: Lula não é homem de pôr os pés em aparelho comum e se misturar ao populacho. Desde que, em 2007, foi vaiado no Maracanã, quis ver o povo longe. Só se apresenta a plateias amestradas. Ao despedir-se de Curitiba, voará com as próprias asas – ou com asas amigas, o que dá no mesmo.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, além de ser solto, o Lula deve logo ganhar direito a novo processo. O atual será anulado. Volta tudo à estaca zero. Com uma ajudazinha de nossa lenta Justiça, o homem pode dormir tranquilo: não viverá suficientes anos pra ver o fim do processo. Pode até receber de volta o sítio e o triplex confiscados, com direito a desculpas oficiais e indenização. Não duvide.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, uma vez solto e “desjulgado”, o Lula se agarrará à primeira ocasião de se candidatar à presidência. Será em 2022. Sergio Moro tem dado mostra de que, até lá, deverá ter derretido por completo. Outros eventuais candidatos não são páreo. A disputa se travará entre o Lula e doutor Bolsonaro.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, teremos uma situação do tipo “feitiço contra o feiticeiro”. Me explico. Em 2018, um desprestigiado Lula, no comando de um desgastado PT, foi o grande responsável pela eleição de doutor Bolsonaro. Se o demiurgo de São Bernardo tivesse sido menos arrogante e dado apoio a um candidato da mesma família política mas não afiliado ao PT, o resultado da eleição poderia ter sido outro.

Em 2022, caso os finalistas sejam doutor Bolsonaro e o Lula, a vitória periga mudar de campo. Fortemente desprestigiado com menos de um ano de mandato, o atual presidente deve estar na lona daqui a três anos. Apesar dos revezes, continua arrogante como só ignorantões conseguem ser. Sua antipatia fará dele o grande cabo eleitoral do Lula. Será o feitiço engolindo o feiticeiro.

Dom Bolsonaro Primeiro

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 setembro 2019.

Doutor Bolsonaro emergiu das catacumbas de um «baixo clero» tão populoso quanto inexpressivo. Assim que tomou posse do cargo, cercou-se de equipe heterogênea. Ministros de primeira grandeza foram nomeados ao lado de integrantes um tanto folclóricos. O conjunto dos designados até que parecia sólido, feito pra durar. Àquela altura, muita gente fina acreditou na coesão e na longevidade do grupo. Os novos chegados traziam ideias e, até certo ponto, supriam faltas e falhas. Enriqueciam os desnutridos dotes presidenciais. O tempo que passa, no entanto, lesa ilusões.

O presidente não era um habituado dos costumes palacianos. Não contava entre os assíduos dos salões seletos da República. Não tendo antes exercido cargo executivo, não sabia dos beija-mãos e dos rapapés que cercam um chefe de Estado. Há de ser realmente um choque ser alçado, de repente, a tão excelso posto. Da noite para o dia, brotam assessores, serviçais, secretários, auxiliares – um mundaréu de gente. O chefe acaba desaprendendo a simples arte de abrir portas, visto que haverá sempre um solícito assistente pra fazê-lo. Entronizado no novo cargo, doutor Bolsonaro há de ter viajado de surpresa em surpresa. O poder, vitaminado por tantas delícias, é inebriante.

Atualmente, ninguém é capaz de traduzir, à clara, o que ocorre no entorno presidencial. O povo tem a impressão de que, ao votar num presidente, acabou elegendo uma família. Não estava escrito nos santinhos da campanha, mas a realidade é essa. Diferentemente de famílias discretas que reinam em outras terras, a nossa é barulhenta. Num ritual diário, pai e filhos falam pelos cotovelos. Dão entrevista, tuítam, postam, gesticulam, vociferam, ameaçam, humilham, ralham, espinafram, esculhambam, ironizam, atacam.

O eleitor, que tinha esperança de entrar num período mais sereno depois de 15 anos conturbados, sente frustração diante de tamanha violência vinda daqueles que deviam zelar pela pacificação nacional. Do estrangeiro, ecoam protestos contra nosso país. Grandes firmas começam a boicotar produtos brasileiros em razão da apatia do governo federal em matéria de respeito ao meio ambiente. Nossa terra, vítima de embargo! O que era inimaginável está se tornando realidade. Passamos dois séculos a construir imagem de país sorridente, acolhedor e pacífico… pra uma família destruir tudo com um par de tuítes? É insuportável.

The Little King, criação de Otto Soglow (1900-1975)

Por capricho ou erro de cálculo, doutor Bolsonaro tem criado um cordão de vácuo em torno de si. Dos assessores graduados da primeira hora, diversas cabeças já rolaram. Dos que (ainda) não se foram, os mais importantes estão mergulhados em ‘fritura’ a fogo lento. São alvo constante de humilhações e flechadas. Não vão demorar a sair. Com a partida de assessores antes apresentados como excelentes, doutor Bolsonaro está se isolando. Decifrada a charada, aparece a desavergonhada propensão de nosso presidente a tornar-se Dom Bolsonaro Primeiro. É aposta temerária. Ao desligar todas as luzes que lhe estão em torno, o presidente tende a aparecer como farol e guia único da nação. Quer pôr seu nome no topo do edifício, descurando o tremendo risco de ser atingido por um raio.

Daqui a três anos, se ele segurar o cargo até lá, virá a hora do veredicto. Caso a maior parte da população tenha a sensação de que o governo deu certo, Bolsonaro terá ganhado a aposta; será reeleito com um pé nas costas. Se, no entanto, a impressão reinante for de que o governo deu errado – hipótese mais provável –, doutor Bolsonaro terá dado com os burros n’água. A manutenção de nomes de primeira grandeza a seu redor, ainda que ofuscasse sua glória, seria biombo providencial nessa hora. «Não foi culpa minha. Eu dei a ordem certa, foi o ministro X que não cumpriu!» – seria a justificativa. Do jeito que o presidente está fazendo, beberá sozinho o cálice amargo da derrota. Agora, vamos ser francos: doutor Bolsonaro dá mostra mesmo é de sonhar com um golpe militar. No entanto, se esse desastre devesse ocorrer, seria ele a primeira vítima.

Meteu a mão

José Horta Manzano

«O cara meteu a mão» – foi o aveludado diagnóstico proferido por doutor Bolsonaro sobre a situação de Lula da Silva. Como de costume, Jair Messias usou palavras que combinam com seu esmerado discurso. Foi numa entrevista dada segunda-feira ao Estadão.

Na mesma ocasião, Bolsonaro deu sua opinião sobre a concessão de liberdade condicional ao Lula, soltura que o encarcerado recusa. Disse: «É direito de Lula ficar preso lá; quer ficar, fica». O linguajar é pedregoso, mas basta completar as palavras faltantes pra tudo ficar claro.

Discordo da opinião do presidente. Não acho que “ficar preso lá” seja um “direito” do Lula. Acho menos ainda que “se quer ficar, fica”. Levar a vida em liberdade, sim, é um direito de todo cidadão que nada deve à justiça. Já o condenado está com esse direito suspenso. Enquanto não tiver pagado a dívida, terá de “ficar preso lá”. Não por direito, mas por imposição. Não tem escolha. A sentença impôs-lhe cerceamento da liberdade de ir e vir.

Seguindo o mesmo raciocínio, o presidente se engana quando diz “se quer ficar, fica”. Prisão não é a casa da mãe joana. Não entra quem quer quando quer. Não sai quem quer quando quer. Se a Justiça determinar que ele deve ficar, ele fica. Se ela determinar que ele tem de sair, ele tem de sair. Não cabe ao condenado decidir se quer passar um tempinho a mais na cadeia, seja por qual motivo for. Cadeia não é hotel custeado pelo contribuinte.

Nessa história estão todos errados.

Doutor Bolsonaro. Não tem de se meter em assuntos que nâo lhe dizem respeito. Por mais que ele seja estabanado, as regras da liturgia presidencial não se amoldaram a ele; continuam as mesmas de sempre: do presidente, espera-se comedimento.

A Justiça. Não deveria determinar o livramento condicional do Lula justo agora, quando o STF está prestes a tomar decisões cruciais. Fica parecendo politicagem.

Lula da Silva. Deveria mais é meditar sobre a passagem do tempo. Sua idade lhe permite. Cada um tem seu momento. O ápice de sua carreira já passou faz um bocado; não volta mais. Daqui para a frente, é tempo de colher. Seus «deslizes» foram desastrosos e mancharam a biografia. Eventual anulação do processo não o inocenta. Atrasa o processamento da justiça, mas não o torna inocente, nem o isenta de enfrentar de novo os tribunais. A tentativa de ressurgir das cinzas é estéril, que o Lula está na ladeira descendente. O povo está cansado de salvadores da pátria. Os grandes triunfos dele ficaram no passado.

Mañana

José Horta Manzano

O Brasil enxergado pelos estrangeiros se encaixa num clichê imutável. Na composição do quadro, entram: praias, fio dental, caipirinha (ou caipiriña, como se vê em botecos da Europa), clima quente, carnaval, uma certa lentidão nos gestos e na fala, simpatia, bela música, baixa afeição pelo batente e uma grande simpatia por mañana – a arte de postergar. Que nos agrade ou não, é assim que somos vistos.

Entra presidente, sai presidente, o clichê não muda; é inabalável. Por mais que o lulopetismo tenha alçado a corrupção ao patamar de filosofia de governo, o brasileiro não passou a ser visto como indivíduo especialmente corrupto ou corrompível. Não mais do que já era no século passado, antes do Lula. Quanto a doutor Bolsonaro, por mais que arreganhe os dentes e insulte chefes de Estado a mancheias, como fez na ONU, os brasileiros não são passaram a ser vistos como especialmente agressivos ou provocadores.

No duro mesmo, o que o mundo sente é dó do povo brasileiro – assim como nós sentimos pena dos infelizes norte-coreanos, obrigados a sobreviver sob a bota de ditadura cruel. Todo o mundo faz a distinção entre o povo e os dirigentes de turno. Um exemplo? Aqui adiante.

Não deixes para mañana o que puderes fazer hoje. Deixa pra depois de amanhã e assim terás hoje e mañana livres.

Faz poucas semanas, caiu Matteo Salvini, uma das duas cabeças do então bicéfalo governo da Itália. Salvini era aquele que insistia num discurso de ódio e de intolerância, com relentos mussolinianos, num estilo aparentado ao de Bolsonaro. Agora que ele saiu, será que alguém mudou seu conceito com relação aos italianos? Certamente não. Com Salvini no governo ou sem ele, o povo peninsular seguirá sendo visto como sempre foi.

Outro exemplo são os EUA de Trump. Depois que ele tiver pendurado as chuteiras, o povo americano continuará sendo visto como sempre foi. Um governo de turno não tem o poder de distorcer o modo como o mundo enxerga a população do país.

Portanto, fique frio. O Lula e Dilma nos envergonhavam. Na mesma linha, doutor Bolsonaro continua a nos açoitar com um vexame atrás do outro. No entanto, felizmente, o mundo sabe fazer a distinção entre o mandatário-mor e a população. Continuam e vão continuar a nos ver na praia, de fio dental, caipiriña na mão, sempre deixando as coisas sérias para mañana.

Para o bem o para o mal, as coisas são desse jeito. E, pelo momento, a situação continua sem conserto. Mañana, quem sabe?

É irritante constatar a que ponto, no exterior, nossa língua é ignorada em favor do espanhol. Um exemplo está na ordem do dia. Desde que o futuro acordo Mercosul-União Europeia foi anunciado, o nome de nosso claudicante mercado comum tem sido frequentemente citado. Curiosamente, não aparece nunca como Mercosul, mas sempre Mercosur, à espanhola. Vai ver que é pra fazer companhia à caipiriña.

Chirac – o funeral

José Horta Manzano

Quinta-feira passada morreu Jacques Chirac, que foi presidente da França por doze anos, na virada do século (1995 – 2007). Como todo político, teve um lado bom e outro mais escuro. Foi sem dúvida o presidente mais popular destes últimos 50 anos, desde que De Gaulle deixou o poder.

Assim que a notícia chegou, chefes de Estado do mundo todo emitiram nota expessando pesar e deixando algumas palavras de elogio. Quando alguém acaba de falecer, convém lembrar do lado bom. Só se pode começar a falar dos podres depois de alguns dias.

Nesta segunda-feira, teve lugar o funeral, com as honras devidas a todo ex-chefe de Estado. Os franceses são bons nisso. São capazes de organizar cerimônias que, de tão solenes, dão arrepio. Tambores rufando, militares em uniforme de gala, sino de Notre Dame badalando, o Requiem de Gabriel Fauré como fundo musical, a Marselhesa na hora certa – tudo milimetricamente organizado.

Dirigentes de praticamente todos os países se manifestaram. Ou mandaram mensagem, ou compareceram. Na cerimônia, estavam todos os ex-presidentes da França, além de Vladimir Putin, Bill Clinton, o presidente da Itália, o príncipe de Mônaco, chefes de Estado europeus e mais uma centena de personalidades estangeiras. O Lula, sentadinho na palha úmida da masmorra onde vive, não pôde estar presente em Paris; mas reagiu com um tuíte simpático.

Só faltou… quem poderia ser? Faltou Donald Trump! Malcriado e mal-assessorado, o tuiteiro-mor não se dignou de soltar duas linhas em homenagem a um francês que, por sinal, era muito próximo dos EUA, país onde chegou morar durante um ano, na juventude.

E quem é que acompanhou o presidente americano no desdém? Qual é o importante personagem nacional que passa o tempo tuitando e não julgou importante escrever três palavras em nome do Brasil? Quem adivinhar ganha uma passagem de ida simples pra Caracas – de ônibus. Resposta no próximo parágrafo.

Claro! Foi doutor Bolsonaro. Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

Um bom homem

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa das mais simples. Quando o tradutor tem tempo pra refletir, o trabalho é mais maneiro. Mas se o trabalho tiver de ser feito às pressas, então, a coisa se complica. É o que acontece na mídia. Nem sempre há tempo pra lapidar o escrito.

Chamada do Estadão

Um bom homem?
No original Donald Trump qualificou doutor Bolsonaro de good man. “He’s a good man” – foi exatamente o que ele disse. De fato, a good man é um bom homem. To the foot of the letter.(*)

Em geral, o tradutor tem duas opções. Pode ater-se rigorosamente à língua de partida e manter fidelidade a cada palavra. Nesse caso, seu texto poderá às vezes soar estranho, como se falasse com sotaque. Pode também optar por palavra ou expressão que, embora se afaste do original, leva ao leitor a imagem que o autor do texto original quis dar. Esse trabalho visa a «eliminar sotaque», mas toma tempo.

Chamada da Folha de São Paulo

Tanto o Estadão quanto a Folha de SP optaram pela via mais rápida. O good man de Trump virou bom homem. Errado, não está. Mas ficou esquisito, com sotaque. Viria à cabeça de alguém dizer que Collor, FHC, Lula ou qualquer político é um bom homem?

Pra dizer que alguém é bom de coração, o mais comum é defini-lo como um homem bom, expressão raramente usada pra políticos de alto coturno. Corações bondosos são artigo raro nas prateleiras no andar de cima.

Afora isso, sem descambar para o lado sentimental, diremos simplesmente que alguém é boa gente ou boa pessoa. Se tivesse tido tempo o tradutor teria caprichado no trabalho e, certamente, teria chegado a essa conclusão. Faltou tempo.

(*) ‘To the foot of the letter’ é tradução literal de nossa expressão ‘ao pé da letra’. Mas é só pra brincar, que nenhum falante de inglês compreenderia o sentido.