Bochecha com bochecha

José Horta Manzano

Todos os brasileiros não-robotizados têm uma sensação de desconforto quando doutor Bolsonaro solta suas barbaridades. Elas são costumeiras, mas – que remédio? – a gente não se acostuma. Para nós que vivemos longe da pátria, então, o desconforto é maior; chega a ser vergonha. Quando alguém começa a falar do presidente do Brasil, a gente se mexe na cadeira e quer mais é que a conversa se desvie logo pra outro assunto. É muito chato ter de explicar o tempo como é que esse estropício chegou lá.

Quanto aos ministros, enquanto seus insultos não atingem personalidades do exterior, ninguém fala deles. Felizmente. Só entram para o noticiário quando algum, mais ousado ou com mais pressa de agradar ao chefe, agride um país estrangeiro ou um figurão internacional. Aí, de novo, a gente pode ir se preparando para uma sessão desculpa.

Estes dias foi a vez de senhor Guedes, ministro que gere os dinheiros da nação. Em videoconferência patrocinada por The Aspen Institute – uma célula de reflexão frequentada por investidores estrangeiros –, o auxiliar de Bolsonaro rodou a baiana. Ele falou em inglês. Procurei o vídeo em versão original, infelizmente só circula a versão semidublada, aquela em que a voz do locutor cobre a fala original. Portanto, tenho de botar fé na (má) tradução.

O ministro foi instado a dar explicações sobre a política ambiental do governo do qual participa. Em vez de responder, decidiu, malandro, imitar a manjada linha de defesa lulopetista: arreganhou os dentes e partiu para a agressão pra cima dos mensageiros – no caso, os jornalistas. Disse horrores. Esbravejou lembrando que os EUA já tinham matado seus índios e destruído suas florestas, portanto, que nos deixassem e paz pra matar os nossos e destruir as nossas. Classudo, não?

Cheek to cheek
by Romero Britto (1963-), artista pernambucano radicado nos EUA

Acusou os EUA de serem Estado escravagista e racista. Denunciou a política econômica daquele país por estar dançando «de rosto colado» com a China (a tradução, digna de um aplicativo de tradução automática, diz ‘bochecha com bochecha’, mas desconfio que o original fosse mesmo ‘cheek to cheek’). Num insuperável rasgo de elegância, disse que nem um brasileiro bêbado ousaria conduzir o sistema bancário como fizeram os EUA quando da crise bancária de 2008 – repare na classe! Numa passagem um tanto obscura, mencionou o Lula e disse que estaria dando «apertos de mão» a Obama porque havia corrupção e compra de pessoas no Brasil. Esse pedaço, confesso, não entendi.

Entender o que dizem auxiliares de Bolsonaro é tarefa árdua. Esse senhor Guedes não foge à regra. Petulante, rosna e atira insultos assim que um microfone lhe aparece. Se o objetivo era afastar investidores, o sucesso está garantido. Se era resgatar a confiança do empresariado internacional num governo aprumado, o tiro saiu pela culatra. Se era desviar a atenção da criminosa destruição da Amazônia, em cartaz atualmente, conseguiu o efeito contrário: todos se deram conta de que Guedes tentou fugir às respostas. Fugiu às respostas, mas seu chefe não fugirá às consequências.

Aqui na Europa, a conferência não foi divulgada. Melhor para nós, que não teremos de dar explicação. Tenho pena de nossos conterrâneos que vivem nos EUA – e são muitos. Desta vez, a canseira e a vergonha são para eles. Ânimo, patrícios!

100.000 mortos

José Horta Manzano

“Construiu-se essa tragédia porque desde a eclosão da pandemia no País o presidente Jair Bolsonaro adotou um comportamento aviltante diante da maior dor sofrida pelos brasileiros em mais de um século. Por tudo o que se viu e ouviu, infortúnio maior não houve para a Nação do que ter na Presidência um líder tão incapaz e indiferente em momento tão grave da história nacional.

Capa do Estadão, 8 agosto 2020.

Não se sabe se Jair Bolsonaro um dia sofrerá sanções políticas ou jurídicas por seu descaso. Mas ele deveria temer pelo que pode vir a sofrer se acaso experimentar um despertar de consciência adiante.”

Trecho de editorial do Estadão, 8 agosto 2020.

Visita ao Piauí

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro visitou o interior do Piauí. Visita de médico, rapidinha. E pensar que médicos fazem falta por aquelas lonjuras. Talvez a população gostasse mais de receber um doutor de verdade, daqueles que examinam e dão remédio. Mas remédio que cura, não desses fajutos que a gente vê por aí, pô!

by Antônio Carlos Nicolielo (1948-), artista paulista

Visita de doutor de araque é como chuva no sertão. Vem de repente, faz um barulhão e deixa todo o mundo alegre. Mas vai-se embora logo, deixa a terra mais seca que antes, não tem serventia. É mera ilusão, que hoje responde pelo nome mais sofisticado de marketing eleitoral.

Curiosidade
Você sabia que a palavra piauiense reúne 5 vogais grudadas umas nas outras? Em nossa língua, está aí a mais extensa coleção de vogais, em sequência, numa só palavra.

Outras línguas ostentam impressionantes sequências de consoantes. O alemão, por exemplo, tem o sobrenome Schürch, um cacho de 6 consoantes para uma vogalzinha. Enquanto isso, o gênio do português é conviver com fileiras de vogais. E ninguém se assusta com isso. Uai, é? Ô, é e é, uai!

A pandemia e as próximas décadas

José Horta Manzano

Que seja ou não do agrado de Mr. Trump, a Organização Mundial da Saúde, agência da ONU criada em 1948, é referência planetária em matéria de saúde, o bem mais precioso de que o homem dispõe. No mundo moderno, onde longas viagens são corriqueiras, micróbios viajam também. Os bichinhos não respeitam fronteiras: entram de contrabando sem pedir licença.

Todo dirigente dotado de um mínimo de bom senso entende que é importante apoiar uma organização que cuida da saúde do planeta. Quanto menos doentes houver, menor será o risco de vírus, bactérias e outros micróbios circularem. Quanto mais sadia forem as populações, melhores serão, especialmente para os países industrializados, as perspectivas de vender seu peixe em escala planetária.

Não serão os arroubos arrogantes e ignorantes do inquilino atual da Casa Branca que vão mudar alguma coisa. A OMS está no comando de programas de vacinação, de luta contra a pobreza, de campanhas de erradicação de doenças endêmicas. Os países mais pobres são os maiores beneficiários de suas ações.

Seu orçamento é financiado pelos quase 200 países-membros. As contribuições são fixadas levando em conta o PIB e população de cada um. Além disso, está em aumento o apoio financeiro proveniente de entidades privadas. O maior contribuidor são ainda os Estados Unidos, mas o segundo – é interessante notar – não é um país, mas uma entidade privada: a Fundação Bill & Melinda Gates, que participa com mais de meio bilhão de dólares por ano.

Numa época em que nosso país ainda estava longe de ser representado no exterior por indivíduos do estilo Weintraub, a organização foi dirigida por um ilustre conterrâneo. O médico carioca Marcolino Candau presidiu a OMS durante 20 anos (1953-1973), eleito e reeleito por quatro mandatos consecutivos – uma longevidade inigualada até hoje.

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

Atualmente, 7.000 funcionários, baseados em 149 países, tocam uma centena de programas. Cuidados com a saúde de recém-nascidos, erradicação da poliomielite, prevenção da cegueira, pesquisa de doenças tropicais, resistência antimicrobiana, estudos sobre ebola – são alguns desses programas.

Estes dias, a OMS anunciou que a crise sanitária decorrente do coronavírus vai produzir efeitos «durante as próximas décadas». O quadro não é nada encorajador, antes, é bastante assustador. Mas não adianta tentar se esquivar: a realidade é como é, nem sempre como gostaríamos que fosse.

A contragosto, dirigentes ao redor do mundo começam a se dar conta de que teremos de conviver com esse fato novo por muitos anos. Uma doença nova, contagiosa, mortal e (por enquanto) sem vacina e sem cura anda solta e pode pegar qualquer um. Doutor Bolsonaro não é o único dirigente a torcer o nariz para essa situação desagradável, que atrapalha os planos de qualquer poderoso. É hora de parar, pensar e planejar. Hora de espremer as meninges e tentar organizar o amanhã.

Portanto, em vez de agitar embalagem de remédio duvidoso para emas, nosso presidente devia deixar de se comportar como avestruz – por sinal, parente das moradoras do gramado do palácio. Não adianta enfiar a cabeça na areia pra fingir que não viu as nuvens escuras. Melhor deixar de molho a cura miraculosa, arregaçar as mangas e abrir passagem para cientistas, pensadores e técnicos encarregados de esboçar o Brasil dos anos pós-covid. Não o fazendo, o doutor pode até escapar da cadeia, mas será irremediavelmente degredado para o limbo dos governantes amaldiçoados. Para todo o sempre.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

A conta chega

José Horta Manzano

O povo diz que ‘aqui se faz, aqui se paga’. Em linguagem mais elevada, o axioma newtoniano diz a mesma coisa: ‘A toda ação corresponde uma reação oposta e de igual intensidade’. No frigir dos ovos, todos sabem que nada sai de graça, tudo tem seu custo. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega.

Um dia, logo no início do mandato, com aquela incúria de adolescente mal-educado cuja mãe nunca botou fé em simancol, doutor Bolsonaro achou uma graça comentar uma tuitada que ofendia Brigitte Macron, esposa do presidente da França. Acumpliciou-se ao autor da patacoada e ainda completou com um MDR (morto de rir).

A ofensa, em si, estava mais pra deboche que pra insulto. Fazia alusão ao fato de madame já ter perdido o frescor e o encanto da juventude. Piada de sarjeta. Só que doutor Bolsonaro ainda não tinha se dado conta – não se deu até hoje – de que não era dono do botequim da esquina, mas chefe do Estado brasileiro.

Na ocasião, vi pela televisão o semblante de Monsieur Macron, colhido assim que lhe deram a notícia, em plena reunião do G7. Fez, por breve instante, aquela cara de quem não estava acreditando no que ouvia. A pedrada era suficiente para derrubar qualquer Golias.

Inteligente e bom orador, engoliu em seco, pronunciou meia dúzia de palavras e fechou: «Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements – Acho que os brasileiros, que são um grande povo, sentem vergonha de ver esse tipo de comportamento». Uma saída elegante, diferente do nível rasteiro que vigora no Planalto. No final, ficou tudo por isso mesmo.

Ficou tudo por isso mesmo? Não acredite, distinto leitor. Nada fica por isso mesmo. Aqui se faz, aqui se paga. Vindo da boca de um chefe de Estado, a ofensa passou de desacato: na França, foi interpretada como agressão. Um obtuso Bolsonaro instilou ressentimento no espírito do colega francês. Todo agredido costuma ter desejo de vingança.

Hoje o episódio anda esquecido. Para azar nosso, Monsieur Macron, que ainda tem dois anos de mandato, não se esqueceu. São coisas que marcam para a vida toda. Como resultado da brincadeira de um irresponsável Bolsonaro, o Brasil pode dizer adeus – e por muitos anos – à ratificação do acordo de comércio entre a UE e o Mercosul, aquele que levou 20 anos pra ser costurado. Enquanto Macron estiver na presidência, não será assinado porque a França vai bloquear.

A conta chega. Não adianta correr.

Tem mais. A covid-19 revelou fragilidades que ninguém imaginava. A Europa descobriu que a desindustrialização das últimas décadas privou o continente de rapidez de reação. Não há mais fábrica de máscaras, por exemplo. Tudo vem da China. Por seu lado, as estrepolias de nosso ministro Salles estão puxando os holofotes para a Amazônia brasileira e o desmatamento que a destroça. Em Paris, as autoridades encarregadas de pensar o futuro do país se deram conta da total dependência, em matéria de alimentação animal, da soja estrangeira, importada principalmente do Brasil.

Macron, com o tuíte de Bolsonaro ainda zunindo no ouvido, está embarcando em nova cruzada. Tem dito, a quem quer ouvir, que seu país – grande importador de soja – tem de diversificar, procurando novos fornecedores. Países interessados em tomar o lugar do Brasil é o que não falta. É só uma questão de tempo, que essas coisas não se fazem do dia para a noite.

Sozinho, o presidente francês não tem o poder de determinar de onde seu país vai importar soja. Mas seu prestígio tem peso, e ele está se valendo disso. Tem mexido os pauzinhos no sentido de alargar o leque de fornecedores e deixar o Brasil à míngua. Para isso, conta com o apoio entusiasta de Greenpeace e de outras centenas de ongs. Agindo assim, dá satisfação à ala ecologista de seu eleitorado, colhe pencas de votos e, de quebra, dá o troco a Seu Jair.

Pois é, a conta do jantar acaba chegando um dia, embora nem sempre seja cobrada de quem encheu a pança. No caso da imbecilidade cometida por nosso presidente, quem vai pagar a dolorosa é você, sou eu, somos todos nós. Ao fim do mandato – quer siga como previsto, quer seja encurtado – o verdadeiro ofensor estará livre e solto, com pensão vitalícia, carro, motoristas, secretários e seguranças pagos com nosso dinheiro. Nós, sem ter pedido a conta, vamos ter de enfiar a mão no bolso.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Lafontaine sempre atual

José Horta Manzano

Nestes tempos desagradáveis, em que o cordão dos puxa-sacos presidenciais é tão atuante – e o estrago que causam, tão profundo –, a sabedoria dos antigos mostra que os defeitos da alma humana são velhos como o mundo. De lá pra cá, muito tempo passou, mas parece que o homem continua a cair nas mesmas ciladas e a cometer os mesmo erros.

A fábula do rei que estava nu, conhecida por todos, é representativa desse fenômeno. Na intenção de comprazer a vaidade do poderoso, toda a corte repete diante do rei tudo o que ele quer ouvir. O resultado é um desastre: crédulo, o monarca acaba desfilando nu pelas ruas da capital do reino, convencido de estar vestido com o traje mais fino jamais costurado.

Jean de Lafontaine (1621-1695), poeta francês que transpunha para metafóricos animais os defeitos e qualidades que distinguia nos humanos, ficou conhecido por suas quase 250 fábulas. Retrato agudo e cru da sociedade, todas elas permanecem atuais.

Várias abordam a vaidade, perigoso defeito que, quando apimentado pela ingenuidade, fortalecido pela ignorância e atiçado por uma tropa de lambe-botas, é receita infalível para o desastre.

Não tenho muito esperança de ver minha sugestão atendida, mas digo assim mesmo: doutor Bolsonaro devia reler (ou pedir a alguém que lesse em voz alta) a fábula do corvo e da raposa. O ensinamento é de grande utilidade para quem está na situação dele.

Le corbeau et le renard

Maître Corbeau, sur un arbre perché,
tenait en son bec un fromage.
Maître Renard, par l’odeur alléché,
Lui tint à peu près ce langage:

«Hé! Bonjour, Monsieur du Corbeau.
Que vous êtes joli! Que vous me semblez beau!
Sans mentir, si votre ramage
Se rapporte à votre plumage,
Vous êtes le Phénix des hôtes de ces bois!»

A ces mots le corbeau ne se sent pas de joie;
Et, pour montrer sa belle voix,
Il ouvre un large bec, laisse tomber sa proie.

Le Renard s’en saisit, et dit: «Mon bon Monsieur,
Apprenez que tout flatteur
Vit aux dépens de celui qui l’écoute:
Cette leçon vaut bien un fromage, sans doute.»

Le Corbeau, honteux et confus,
Jura, mais un peu tard, qu’on ne l’y prendrait plus.

Lafontaine 2O corvo e a raposa

Senhor Corvo, numa árvore empoleirado,
Segurava no bico um queijo.
Dona Raposa, pelo odor atraída,
Dirigiu-lhe mais ou menos estas palavras:

«Olá! Bom-dia, senhor Corvo.
Como sois bonito! Como pareceis belo!
Sem brincadeira, se vosso gorjeio
For semelhante à vossa plumagem,
Sois a fênix dos habitantes deste bosque!»

Ao ouvir isso, o corvo não cabe em si de contente;
E, para mostrar sua bela voz,
Abre o grande bico e deixa cair a presa.

A raposa se apodera dela e diz: «Meu caro senhor,
Aprendei que todo bajulador
Vive à custa daquele que o escuta:
Essa lição vale bem um queijo, sem dúvida.»

O corvo, envergonhado e confuso,
Jurou, já meio tarde, que não o apanhariam mais.

Interligne 18hJean de Lafontaine (1621-1695), poeta francês.
Para ouvir a leitura do original francês, clique aqui.

Boicote à vista

José Horta Manzano

Se sobrar aos adormecidos miolos de Jair Bolsonaro um trisquinho de capacidade de enxergar além da ponta do nariz, é bom que esses miolos acordem rapidinho e que o doutor aguce a visão.

Assim que assumiu o mandato, ele instaurou uma política de pouco caso para com a proteção ambiental. A política é cretina. Por um lado, vem causando estrago na economia brasileira de exportação; por outro, não acrescenta um voto sequer a seu punhado de adoradores.

O compromisso, assumido recentemente pelo governo brasileiro, de “reduzir o desmatamento” vem sendo noticiado na Europa assim mesmo, entre aspas, indicação de que é de mentirinha, declaração oca pra enganar trouxa.

Artigo publicado na edição online da revista semanal francesa L’Express faz denúncia preocupante. As antenas de nosso doutor presidente – se ele as tiver – devem estar de pé, espichadas. A revista francesa cita um estudo publicado no último número da americana Science. Segundo o trabalho, 20% das exportações brasileiras de soja e de carne bovina destinadas à União Europeia provêm de zonas desmatadas ilegalmente.

Nos tempos atuais, essa informação é venenosa. Por mais contorções que faça o governo brasileiro para sustentar a afirmação de que está “reduzindo o desmatamento”, um estudo desses põe tudo por terra.

O governo brasileiro se compromete a “reduzir o desmatamento” na Amazônia.

Fechados em seu palácio, a disparar tuítes da manhã à noite, Bolsonaro & companhia sequer assomam à janela pra ver a vida passar. Ignorantes, não se dão conta de que, nos países civilizados, considerações ecológicas assumem protagonismo cada dia maior. Países civilizados são – vejam que coincidência! – os grandes clientes do Brasil.

Aqui e ali já pipocam boicotes a produtos brasileiros. Por enquanto, o grande volume exportado pelo Brasil não permite substituição imediata. Mas pode deixar. Os concorrentes – Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá & outros – já estão salivando. E se organizando.

A perseverar nessa tresloucada política, doutor Bolsonaro não chega ao fim do mandato. Será apeado do poder por uma conspiração instigada, fomentada e financiada pelos grandes exportadores brasileiros que, descontentes, querem mais é vê-lo pelas costas.

Como se sabe, lá como cá, quem move o mundo é o dinheiro. Nessa lógica, é fácil entender: quem tem pouco, manda pouco; quem tem mais, manda mais. Os grandes conglomerados exportadores têm dinheiro às pencas. Logo…

A vida continua

Vera Magalhães (*)

by Eduardo dos Santos ‘Duke’ Reis Evangelista
desenhista mineiro

Acrescentando mais uma frase à sua galeria de declarações de pouco caso, Bolsonaro disse que “a vida continua”, embora isso não seja verdade para mais de 78 mil pessoas num intervalo de 4 meses – pessoas que não estavam doentes antes e que não morreriam se não houvesse uma pandemia que está no auge há semanas, sem dar sinais de retroceder no país.

(*) É jornalista com atuação em numerosos veículos.

Presidente bossa-nova

José Horta Manzano

Na virada dos anos 50 para os 60, surgiu novo nome na paisagem musical brasileira. Era Juca Chaves, jovem cantor e compositor, dono de estilo diferente do que então se fazia. Sua música era intimista, ainda que não se enquadrasse nos cânones da nascente bossa nova. Tinha o som e a melodia de velhas modinhas – sem o vozeirão.

Para a época, as letras de Juca Chaves eram ousadas e irreverentes. Assim que foi lançado, o sambinha Presidente Bossa-Nova tropeçou na censura: sua execução foi simplesmente proibida. A letra, que hoje não choca ninguém, fazia troça com Juscelino Kubitschek, então presidente da República. Foi preciso que o próprio presidente, magnânimo, mandasse liberar – numa atitude cavalheiresca que hoje faz muita falta.

Os primeiros versos estão aqui:

Presidente bossa-nova

Bossa nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil,
Voar da Velhacap pra Brasília,
Ver a alvorada e voar de volta ao Rio.

Voar, voar, voar, voar,
Voar, voar pra bem distante, a
Té Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas
Dançam como debutante, interessante!

Há ainda duas estrofes. Que clique aqui quem tiver curiosidade de conhecer (ou de recordar).

Juscelino Kubitschek
by Pedro Bottino, desenhista

Sessenta anos se passaram. Desapareceram gestos de magnanimidade e atitudes cavalheiras. Onde antes se batia com luva de pelica, hoje se dá com soco inglês. Neste ano e meio de governo Bolsonaro, o palavreado endureceu. Recolhi os adjetivos que já foram atribuídos ao atual presidente – estão todos na mídia impressa e na internet pra quem quiser conferir. Aqui estão:

estúpido,
mesquinho,
chefete,
cretino,
burro,
preguiçoso,
ignorante,
irresponsável,
perturbado,
incapaz,
indecoroso,
grosseiro,
primitivo,
reacionário,
desequilibrado.

A lista não é exaustiva. Mudou o Brasil ou mudei eu, como diria o outro.

Glossário
À atenção dos mais novos, vai aqui um pequeno glossário para compreender a letra da musiquinha.

Bossa nova
Era a nova maneira de tocar samba, novidade que acabava de aparecer naqueles anos. Repare que o nome do ritmo não leva hífen, enquanto o adjetivo (presidente bossa-nova) exige o tracinho. Cada uma, não?

Simpático e risonho
Juscelino era conhecido pela simpatia e pelo sorriso eternamente estampado no rosto.

Velhacap
Com a construção de Brasília, que se chamou Novacap (nova capital), foram encontrados dois prêmios de consolação. São Paulo passou a ser conhecida como Supercap; e o Rio de Janeiro tornou-se a Velhacap. Nenhum dos três apelidos resistiu à passagem dos anos.

Voar, voar
Diferentemente de seus predecessores, Kubitschek viajava frequentemente de avião. Dizia-se dele que era o presidente voador.

Versalhes
As duas mineirinhas, que o autor situa em Versalhes, eram Márcia e Maria Estela, as duas filhas do presidente.

Corona-Infektion

José Horta Manzano

Como pode o distinto leitor imaginar, a mídia planetária deu destaque à notícia do resultado positivo do teste de doutor Bolsonaro para covid-19. Cada um temperou a informação com molho à sua moda, uns mais ácidos, outros menos.

Para Bolsonaro, é um combate contra a humilhação
Die Welt, Alemanha

Achei interessante a reflexão do alemão Die Welt. O longo artigo diz que, para Bolsonaro, começa agora um combate contra a humilhação. E argumenta: “A infecção é, portanto, também uma pequena humilhação para o presidente e sua tribo. Mesmo para seus devotos mais fanáticos, fica cada vez mais difícil defender a abordagem que ele tem feito do coronavírus, visto que os conselhos presidenciais nem parecem beneficiá-lo”.

É pra refletir em casa.

A sinceridade do doutor

José Horta Manzano

A contaminação de Bolsonaro demonstra que sua atitude diante da pandemia era – e continua sendo – sincera. No trato da pandemia, nunca houve marketing nem caso pensado. Ele realmente acreditava que a doença não passasse de “gripezinha”.

Todos ressaltam o desmazelo com que, nos últimos meses, continuou a acercar-se de assessores, visitantes e jornalistas, em atitude considerada por muitos como criminosa por expor toda essa gente a eventual contágio.

Mas há que ter em mente o outro lado da medalha, que mostra que doutor Bolsonaro não acreditava na periculosidade do vírus: ele deixou que assessores, visitantes e jornalistas se aproximasse dele como se vivêssemos tempos normais. Nunca demonstrou ter medo de ser contaminado.

Ao deixar-se achegar, o presidente tanto arriscou transmitir a doença a terceiros (que era o risco que todos apontavam) quanto se abriu ao contágio. Acreditava, de verdade, que a doença não passasse de “gripezinha” inventada por comunistas malvados que queriam destroná-lo. Estava convencido de que, com seu “passado de atleta”, tinha corpo fechado.

O ser humano é dotado de instintos; um deles, talvez o mais básico, é o de sobrevivência. Se o doutor – estressado e idoso – tivesse pressentido o perigo que corria, teria se resguardado desde a chegada da epidemia, que ninguém é besta. Não o fez.

Está aí, salvo melhor juízo, a prova da absoluta sinceridade do presidente. É que sua mente funciona em circuito fechado, impermeável a todo ensinamento. Sua maneira de ver o mundo está cristalizada; toda esperança de mudança é vã. Quem estiver esperando que ele se regenere assim que escapar dessa, que tire o cavalo da chuva. Desse mato, não sai coelho.

De volta ao amadorismo

Ruy Castro (*)

A história é conhecida. Em 1956, no Rio, o jornalista Lucio Rangel apresentou o jovem Tom Jobim a Vinicius de Moraes no bar Villarino, como sendo o homem que Vinicius procurava para musicar sua peça “Orfeu da Conceição”. Para Vinicius, se Lucio Rangel o indicava, é porque Tom devia ser bom mesmo. E fez com a cabeça algo como “Ótimo!” ou “Vamos nessa!”. E, então, Tom perguntou: ”Tem um dinheirinho nisso?”.

Lucio quase caiu de seu copo de uísque. Recuperou-se e esbravejou: “Tom, este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes! Como é que você me fala em dinheirinho?” ‒ como se o simples fato de trabalhar com Vinicius fosse remuneração suficiente. E Tom, já quase querendo se matar, balbuciou: “É que… eu preciso pagar o aluguel”.

Bem, Tom e Vinicius saíram dali parceiros e o que fizeram juntos, pelos seis anos seguintes, entrou para a história. E teve, sim, um dinheirinho para Tom. Mas o que interessa aqui é a ideia de que, em 1956, o teatro e a música popular ainda eram uma operação romântica, em que falar de dinheiro era quase uma ofensa. Dava-se de barato que os artistas trabalhassem pela glória e só almoçassem de vez em quando.

Mas, a partir dos anos 70, o Brasil se profissionalizou. A arte brasileira ingressou no capitalismo e todos lucraram: os artistas, os produtores, o público, o país. O mundo se encantou com o que fazíamos, e isso só foi possível porque nossos artistas já podiam viver de sua arte.

Mas o mundo gira e, de repente, regredimos a 1956. Desde 2015, quando Dilma Rousseff quebrou o país, o dinheiro sumiu. Incontáveis projetos na área da arte e da cultura foram cancelados; outros tantos nem saíram do papel. E, sob a ignorância ou má-fé dos beleguins de Jair Bolsonaro, a Lei Rouanet virou palavrão. Na área cultural, o Brasil dispara de volta rumo ao amadorismo. Perguntar pelo dinheirinho pode ser, de novo, uma ofensa.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Olhar da mídia

José Horta Manzano

Houve uma época, e não foi ao tempo dos Sumérios, em que não havia internet. A informação vinha pela imprensa. No exterior, o Brasil costumava aparecer nas páginas turísticas. Sol, praia, futebol, Carnaval era o que se lia. Copacabana, Iguazú (sic), Ipanema – eram esses nomes exóticos que emolduravam as imagens de coqueiros, de sol, de sal, de sul.

Com a virada do século, veio a grande (e bem-sucedida) jogada de marketing do lulopetismo. Um Lula paz e amor, todo sorridente, percorria o mundo. Dizia e fazia besteiras, mas tudo lhe era perdoado por transmitir a imagem de paizinho dos pobres. Lentamente, o Brasil saiu do caderno Turismo para entrar nas páginas políticas.

A derrocada do regime abalou muita gente. Ao redor do mundo, alguns não entenderam até hoje o que aconteceu e preferem se agarrar à imagem do demiurgo injustiçado. Cada um é livre de venerar os santos de sua preferência.

Um belo dia, na esperança de enterrar o governo marqueteiro, o povo brasileiro elegeu doutor Bolsonaro, um desconhecido que prometia fazer melhor do que tudo aquilo que havia sido feito antes.

Bolsonaro é bem-sucedido em recurso contra a obrigação de usar máscara
Artigo do Deutschlandfunk

A magia não durou muito. O rojão estava molhado e deu chabu. Depois do caderno Turismo e das páginas políticas, o Brasil escorregou para a rubrica policial, aquela que os franceses chamam «faits divers – fatos diversos», e que engloba crimes e acidentes.

A ilustração é do Deutschlandfunk, um dos braços do conglomerado de mídia pública alemã. Explica a história sombria de uma briga judicial de doutor Bolsonaro contra a obrigação de usar máscara de proteção contra covid-19.

Este blogueiro teria vergonha de ser ameaçado de multa por se negar a proteger o próximo contra a epidemia que assola o país. Mas vergonha é palavra que não consta do indigente vocabulário presidencial.

Ministros da Educação

José Horta Manzano

À moda de lá
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio – sua tese de doutorado havia sido fortemente ‘inspirada’ de textos anteriores, com largos trechos idênticos.

Em países sérios, não se brinca com essas coisas. Quando é um cidadão comum que escorrega, a mentira já pega mal; quando a mutreta vem de um ministro de Estado, o mundo desaba. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira.

A espertona nem tentou dar desculpa. De cara no chão, foi chorar sua vergonha longe dos holofotes. Nunca mais se ouvir falar dela.

À moda daqui
Com o pranteado Weintraub fugido do país, o terreno estava aplainado para entrada triunfal do substituto. Afinal, ser melhor do que o anterior é barbada: qualquer um consegue.

Besteiras, todos cometemos. Só que, para os mortais comuns, que vivemos longe do palco, os deslizes podem passar a vida toda esquecidos. Para quem aceita cargo importante, a coisa é diferente: saem todos os jornalistas à cata de falhas do passado. Quem procura, acha. No caso do novo ministro da Justiça, não demorou muito.

Alguns dias atrás, o reitor da Universidade de Rosario (Argentina) veio a público em pessoa para uma ‘retificação’. Doctor Decotelli, nosso novo ministro, havia afirmado, no currículo inserido por ele mesmo na plataforma Lattes, ter obtido o título de doctor em Administração naquela universidade. Negativo – o reitor desautorizou o ministro mentiroso. Ai, que coisa feia!

Dois ou três dias depois, lá vem bomba de novo. Desta vez, o novo ministro é acusado de plágio na dissertação de mestrado que apresentou à FGV em 2008. Como a ministra alemã, doctor Decotelli também é suspeito de haver copiado passagens inteiras, palavra por palavra, de trabalhos anteriores.

Só que aqui não estamos na Alemanha. Brasília não é Berlim. Diferentemente de Frau Merkel, que despachou rapidinho sua ministra de volta a casa, doutor Bolsonaro continua quietinho no seu canto. Nem um pio. Quanto ao ministro, seguiu o padrão dos políticos brasileiros que enfrentam acusações. Longe de se dobrar às evidências, ousou contestar. Nega tudo.

Em lugar de agarrar o touro pelos chifres, mandou o ministério soltar nota. Saiu um daqueles contorcionismos do tipo ”caso” haja alguma ilicitude, terá sido mera distração, “que corrigiremos imediatamente”. O problema será contornado, 12 anos após a entrega da dissertação, com o acréscimo do crédito aos verdadeiros autores dos trechos plagiados. E pronto.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Pós-crise

José Horta Manzano

A pesada crise provocada pela epidemia de covid-19 surge como inesperado revelador de realidades dormentes ou encobertas. Quando o tempo é bom, todo o mundo é capitão, todos sabem navegar. Quando o céu vem abaixo e o temporal desaba, aí é que são elas.

Nas bandas da oficialidade, o mundo está assistindo, entre surpreso e inquieto, à cena bizarra de holofotes iluminando líderes que não lideram. Se o distinto leitor voltou o olhar para os lados do Planalto, acertou. Nas altas esferas da República, o pandemônio faz companhia à pandemia. Leigos dão receita médica; médicos aconselham beijos e abraços em momento de contágio. Um mundo de ponta-cabeça.

Outras verdades, normalmente encobertas por véu pudico, vêm à luz. A solidariedade nacional corre pra ajudar os que têm menos. Mas primeiro precisa saber quem e quantos são. Constrangido, o governo reconheceu, a contragosto, que 70 milhões de compatriotas estão no grupo de trabalhadores informais. Setenta milhões! Esse imenso contingente representa quase metade da população ativa – um despropósito que, não fosse a crise sanitária, continuaria invisível aos olhos da outra metade dos ativos.

Não é um punhadinho de gente, é uma multidão. É gente que pode até ter família, mas não tem carteira assinada; que pode existir para o pastor, mas não existe para a Receita. Não é aceitável que metade da força de trabalho nacional opere nas sombras, como se abstração fosse.

Quando essa epidemia se acalmar, algo vai mudar. Tenho certeza de que doutor Bolsonaro, que, a estas alturas, já tomou ciência dessa desordem, vai agir. Preocupado que está com o bem-estar da população, vai dar início a um processo de reconhecimento do contingente oculto. Ficará na história como aquele que descobriu o outro Brasil. Ou não.

O presidente e os sem-voto

José Horta Manzano

Quando se dispõe a atacar o Judiciário – uma atitude que adota com frequência –, doutor Bolsonaro costuma encher a boca para proclamar a própria legitimidade. Argumenta que recebeu 57,8 milhões de votos, enquanto os magistrados não receberam nenhum.

À primeira vista, o raciocínio parece cristalino. No entanto, quando se tenta seguir essa lógica até o fundo, a imagem se turva. Se o número de votos fosse determinante da legitimidade do homem político, um bocado de gente passaria à frente dos sem-voto.

Logo após Bolsonaro, viria – adivinhem quem? – Fernando Haddad, ora pois. Seus 47 milhões de votos lhe conferem legitimidade comparável à do presidente, muito acima do magma dos que não passaram pelas urnas. Está correto o que estou dizendo? De onde sai essa salada?

O distinto leitor há de ter se dado conta de que, esticado até o limite da ruptura, o raciocínio do presidente acaba por romper-se. É que, ainda que tenha recebido um caminhão de votos, ele não será nem mais nem menos legítimo do que o vereador de pequeno município, escolhido por poucas dezenas de eleitores. A legalidade do presidente tampouco será menor que a de um ministro do STF ou de um parlamentar. Todos eles, escolhidos segundo as normas da lei, estão no mesmo nível de legitimidade.

Portanto, será falácia o presidente pretender-se mais ‘legítimo’ do que parlamentares ou ministros do Judiciário. Desde que o caminho que os levou lá tenha seguido rigorosamente os preceitos legais, gozam todos de idêntica legitimidade.

Só pra chatear 1
Pela lógica de doutor Bolsonaro, que confunde os conceitos de legitimidade e de proporção de eleitores, tanto o Lula quanto a doutora eram mais ‘legítimos’ que ele. Vejamos o resultado de cada um (em proporção do total de votos válidos):

2018  Jair Bolsonaro  55,1%
ooooooooooooooooooooooooooo
2010  Dilma Rousseff  56,1%
2006  Lula da Silva   60,8%
2002  Lula da Silva   61,3%

Só pra chatear 2
Há questão de 3 meses, doutor Bolsonaro afirmou que as eleições de 2018 haviam sido fraudadas. Garantiu ainda que tinha provas disso. Ora, desde que o mundo é mundo, a fraude em votações serve pra garantir a eleição de um dos candidatos. Quem ganhou foi ele; portanto, conclui-se que, se fraude houve, foi a seu favor. Será por isso que, até hoje, não mostrou as provas de que dispõe. Se o fizer, a fraude ficará comprovada e sua eleição será impugnada.

A contabilidade da epidemia

José Horta Manzano

Até a presente data, os três países que contabilizam maior número de mortos por covid-19 são, na ordem: os EUA, o Brasil e o Reino Unido. Não há como escapar à evidência de serem exatamente aqueles cujos dirigentes ousaram fazer pouco-caso da epidemia. E fizeram isso publicamente.

No começo da onda de contágio, escorregaram os mandatários dos três países. Jair Messias rotulou a doença de ‘gripezinha’ e mandou que todos saíssem às ruas. O inglês Boris Johnson declarou que não via problema em “continuar a apertar muitas mãos” como sempre tinha feito. Por seu lado, Donald Trump deu de ombros e afirmou que os melhores cientistas do mundo eram americanos, e que logo encontrariam um remédio.

Deu tudo errado. O inglês apanhou a doença, foi pra UTI e faltou pouco pra bater de dez e sair de pé junto. O americano anda contrariado por ver que seu país é campeão de mortos por covid-19, fato que hipoteca sua reeleição. Jair Messias, embora não confesse, parece que também apanhou a doença. Ele se safou, mas 40 mil compatriotas seus não tiveram a mesma sorte; são eles que deixam o Brasil na lista incômoda dos países onde a curva de contágio não quer achatar de jeito nenhum.

Países que tiveram a bênção de contar com dirigentes esclarecidos já estão saindo da fase aguda da epidemia. Ao verem desempinar a curva, estão desconfinando e voltando à rotina. Já os que tiveram o azar de serem comandados por mandatário obtuso ainda estão contando mortos aos milhares. Nada acontece por acaso.

Números

Eduardo Affonso (*)

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos. O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando como no reencontro o abraço que não tinha podido dar de despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis. Moacir mais imóvel que os outros. Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.