Qualquer semelhança…

José Horta Manzano

“As promessas mirabolantes tiveram êxito e deram nisso que aí está: na chefia do governo, um demagogo incompetente e atrabiliário, que só vive de aparências, pois, na realidade, nada de útil e de bom fez para o povo.

Ao contrário, tem se notabilizado pela maldade, pela prepotência e pela intolerância com que governa um povo pacífico e bom. Só é notado pelos atos de perseguição e de vaidosa exibição de um cabotismo doentio.

Sem os amigos, que traiu com a maior sem-cerimônia deste mundo, só lhe restam a inveja e a ambição que alimentam seu personalismo soberbo e delirante.”

Se você leu a citação acima, sabe quem é o alvo do discurso. Não precisa nem dizer o nome. Certo?

Errado, distinto leitor, errado. Não se trata do doutor que nos preside. Neste caso, qualquer semelhança será mera coincidência.

O texto foi escrito há 63 anos, numa época em que Bolsonaro ainda usava fralda. O autor, Martinho di Ciero, era deputado estadual paulista na legislatura 1955-1959. O artigo foi publicado no jornal O Dia (do Rio de Janeiro) e repicado na Folha da Manhã (de São Paulo).

O objeto da fúria do parlamentar era Jânio Quadros, então governador do estado. E pensar que, apesar de toda a incompetência já flagrante, o homem se tornaria presidente da República menos de quatro anos mais tarde. Iludir o bom povo sempre foi fácil.

Como se vê, doutor Bolsonaro não é o primeiro dirigente a carregar um «personalismo soberbo e delirante». Nem será o último, infelizmente.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Pijânio

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 julho 2020.

Há pontos de contacto entre o governo de doutor Bolsonaro e a passagem meteórica do folclórico Jânio Quadros pela Presidência. Ainda que não se enquadrasse no figurino de pessoa de fino trato, Jânio não descia à profunda vulgaridade do presidente atual. Esse não é, por certo, ponto de afinidade entre os dois. O populismo de Quadros se resumia a subir ao palanque de comícios, cabelo desgrenhado, mordiscando um sanduíche de mortadela, a reclamar da carestia. Diferentemente de Bolsonaro, Jânio era o que hoje se costuma chamar de ‘workaholic’, termo inestético que define um viciado em trabalho. Era o primeiro a chegar ao Planalto e o último a sair. Portanto, o apego ao batente tampouco era ponto comum entre os dois.

Jânio teve a sabedoria de escolher os titulares de seu enxuto ministério (13 pastas) entre profissionais de alto nível. Ainda não era moda trapacear com currículo, o que facilitava a seleção. Cattete Pinheiro, ministro da Saúde, era médico sanitarista e senhor de longa experiência; Brígido Tinoco, da Educação, era membro da Academia Fluminense de Letras e autor de uma dezena de livros; Afonso Arinos de Mello Franco, das Relações Exteriores, era imortal pela Academia Brasileira de Letras e autor de mais de 30 obras. Não, a escolha de ministros tampouco foi o ponto comum entre Jânio e Bolsonaro.

O verdadeiro ponto de encontro entre os dois presidentes é este: o pendor para cuidar do particular em detrimento do global. Incipiente em Jânio, essa tendência de cuidar do detalhe e perder de vista o principal foi potencializada por Bolsonaro. Tivesse ficado mais que sete curtos meses no cargo, talvez o presidente-relâmpago de 1961 tivesse elevado a tendência ao pedestal de política de Estado. Não deu tempo.

As estrepolias de Bolsonaro, por serem recentes, estão na camada de cima da memória de todos. Se bem que, de tão numerosas, algumas pérolas acabam rolando para o esquecimento. Logo no início do mandato, o doutor propôs-se a transformar um santuário ecológico da costa fluminense num polo turístico; mostrou-se disposto a vedar o financiamento de filmes que não lhe agradassem; atracou-se pessoalmente com jornalistas e órgãos da imprensa. Enfim, cuidou de muita miudeza, mandando o principal para fora do tabuleiro.

Última Hora (RJ), 27 março 1961

Voluntarioso mas sem visão de conjunto, Jânio preferia seguir a própria intuição, caminho arriscado. Um belo dia, resolveu ditar moda. Não ficou claro de onde tirou a ideia. (Com JQ, nem tudo era claro.) Baixou um decreto criando uma espécie de farda, uma vestimenta uniformizada para uso dos funcionários federais, do presidente da República ao mais humilde. Dependendo do olhar de cada um, o ‘slack’ – esse era o nome da indumentária – deixava impressão diferente: podia lembrar o traje civil obrigatório na China, o uniforme do indiano Nehru, a roupa do egípcio Nasser, a ‘guayabera’ centro-americana.

A ordem presidencial determinava o uso, mas não previa financiamento. Cada um que se virasse. Os mais abastados torceram o nariz para o modelo, que lhes parecia vulgar. Os mais pobres se perguntaram de onde haviam de tirar dinheiro para comprar o uniforme. Um ou outro funcionário graduado – querendo agradar ao chefe – adotou logo a novidade. Jornalistas eram mais severos. Advertiam: «Esqueça-se o presidente de uniformes e de outras pequenas coisas e volte suas vistas para os grandes problemas do Brasil!» ou ainda «Acorde e medite, presidente, para que sua prometida ‘revolução’ não se reduza ao uso do ‘slack’!».

A permanência de Jânio na Presidência foi curta demais para apurar se a moda do ‘pijânio’ pegou. É de duvidar que pegasse. Ninguém gosta de novidades impostas de cima pra baixo. Essa rejeição se repete hoje quando Bolsonaro, que doutor não é, transpõe os limites de suas funções e se põe a fazer propaganda de remédio. Essa, nem um excêntrico Jânio ousou. Portar o uniforme janista era apenas questão de bom ou mau gosto. Já o tratamento preconizado por Bolsonaro é desaconselhado por autoridades médicas mundiais por representar risco para a saúde. Para JQ, é tarde; mas para Bolsonaro vale o conselho: cuide, presidente, que sua passagem pelo Planalto deixe rastro mais nobre que o do charlatanismo.

O golpe que não ousa dizer seu nome

José Horta Manzano

Quando a figura folclórica de Abraham Weintraub(*) começou a funcionar como ministro da Educação, todos ficaram de pé atrás. Quando o homem apareceu num filminho feito em casa, dançando de guarda-chuva aberto, quem ficou boquiaberto fomos nós. Quando ele – que é ministro encarregado da Instrução Pública! – escreveu «insitar» em lugar de «incitar», misturou Kafka com cafta e confundiu 500 mil com 500 milhões, o descrédito com a solidez de sua cultura aumentou.

A partir daí, seu percurso universitário foi esmiuçado e alguns passaram a cercar de ‘urubus’ seu diploma. Para alguns, tornou-se «economista», entre aspas, tão baixo é o nível de conhecimentos que demonstrou. Ganhou direito a epítetos vários – mentecapto, por exemplo. Em resumo, o homem deu mais uma vez a prova de que, quanto mais profunda for a ignorância, maior será a arrogância. São qualidades que andam de mãos dadas. Ignorante de verdade é aquele que não sabe que é ignorante, o que explica sua desenvoltura.

Ontem, 15 de novembro, foi dia em que os brasileiros, todos os anos, comemoram um fato histórico. Chama-se Proclamação da República. No fundo, ninguém está muito preocupado com o significado dessa expressão; o que interessa mesmo é que é dia feriado. Melhor ainda quando cai grudado num fim de semana.

Embora a independência do Brasil tenha sido proclamada às margens do riacho Ipiranga, dizemos sempre Dia da Independência, nunca ‘Proclamação da Independência’. Por que é que não diríamos simplesmente Dia da República – como Dia do Índio, dia disto ou dia daquilo? Meu palpite é que a história oficial procura, com essa pomposa «proclamação», escamotear o fato verdadeiro acontecido em 15 de novembro de 1889: um golpe militar, revolução de palácio sem consulta ao povo nem participação dele.

Não tivesse ocorrido o golpe de 1889, não teríamos tido presidentes. As figuras de destaque teriam sido parlamentares, deputados, senadores, primeiros-ministros. Nunca teríamos tido um Lula, nem uma Dilma, muito menos um Bolsonaro. Alguém imagina um Congresso consagrando doutor Bolsonaro como primeiro-ministro? Um regime parlamentar exige – como seu nome indica – integrantes que parlamentem, que discutam, que demonstrem, que convençam, que provem a que vieram. Tudo isso foi jogado no lixo com o golpe que não ousa dizer seu nome e que nos condenou ao mesmo atraso dos demais vizinhos latino-americanos.

Se falei do bizarro ministro da Educação, foi porque, num raríssimo momento de lucidez histórica, soltou, em seu pedregoso palavreado, um tuíte que condena o golpe que derrubou o monarca hereditário e o substituiu por mandantes eleitos, pondo-lhes nas mãos poder exagerado e abrindo caminho para descalabros como um presidente chamado Jair Bolsonaro. Numa monarquia parlamentar, um indivíduo de poucas letras jamais seria guindado ao posto de ministro da Educação. Senhor Weintraub não atinou com a incongruência.

Como se vê, até mentes primitivas têm seus momentos de discernimento. É pena que sejam raros como morte de papa.

(*) Weintraube é como os alemães chamam um cacho de uvas.

Bolsonaro e a alta-comissária

José Horta Manzano

Nosso presidente fez mais uma das suas. Mais uma vez, lançou mão de expediente que, embora pra lá de batido, nunca falha. Não sei se foi ideia dele mesmo – afinal, o homem não é exatamente uma fonte de ideias luminosas. É possível que ele esteja sendo teleguiado. Seja como for, tem sempre atingido o objetivo.

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos denunciou «estreitamento democrático» que, a seus olhos, estaria ocorrendo no Brasil. A acusação é grave, principalmente vindo de quem vem. Não chega ao cargo de alto-comissário quem quer. Michelle Bachelet é médica pediatra com estudos na Alemanha e no Chile. Tem também especialização em saúde pública. Foi ministra da Saúde do Chile e, não bastasse, foi eleita para a Presidência do país. Exerceu dois mandatos de quatro anos.

Doutor Bolsonaro sentiu-se diretamente visado pela fala da alta-comissária. A partir daí, tinha duas opções. A primeira era calar-se e fazer cara de paisagem – as palavras da alta-comissária não teriam ido além de nota de rodapé. A segunda era contra-argumentar defendendo seu estilo de governar e demonstrando que, diferentemente do que imagina a ex-presidente, nossa democracia não padece de estreitamento algum. Desprezando esses dois caminhos, o presidente escolheu uma terceira via. É aí que eu me pergunto se a ideia é dele mesmo ou se lhe foi soprada por algum assessor.

ONU ‒ sede de Genebra

Partiu para o ataque pessoal. Como já tinha feito no episódio Macron e no caso envolvendo o presidente da OAB, comportou-se de modo descortês, baixo, repulsivo, indigno de presidente de país civilizado. Como resultado, um caso que nem potencial tinha pra sair no jornal acabou sendo comentado pela mídia de todo o planeta.

Áulicos aplaudem. Os demais ficam de queixo caído com a insensatez presidencial. E, no estrangeiro, a imagem de nosso país vai sofrendo seu enésimo arranhão. Nossa imagem, sim. Afinal, doutor Bolsonaro não tomou a cadeira presidencial à força – foi eleito pelo povo brasileiro. Se há culpados nessa história, somos nós. Coletivamente.

Agora vem o principal: entre aplausos e vaias, o objeto em discussão sumiu. Ninguém analisa as palavras da alta-comissária. Afinal, a democracia estaria realmente encolhendo no Brasil? Ou é boato? O que é que leva Michelle Bachelet a essa conclusão? Não saberemos jamais. O assunto ficou enterrado pela repercussão da violenta reação de Jair Messias. A reação foi manchete, a denúncia ficou ocultada.

Se ele age assim, não é porque seja um malcriado de raiz. Ele é malcriado, sim, mas esses ataques abaixo da cintura não são feitos por acaso, por ímpeto. Têm o propósito de «afogar o peixe», como dizem os franceses. O objetivo de doutor Bolsonaro é fugir à questão. E funciona. Assim como ele fugiu aos debates quando da campanha presidencial, continua fugindo sempre que o assunto o incomoda. É sua maneira de varrer problemas para debaixo do tapete.

Todos os que ousarem criticar ações dele serão tratados da mesma maneira: bombardeados com artilharia pesada. No entanto, se ele imagina que esse tipo de comportamento impede críticas futuras, está enganado. A meu ver, não as evita. Atiça-as.

Acordo UE-Mercosul: por que agora?

José Horta Manzano

Por inesperado, o destravamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia surpreendeu. Com altos e baixos, estava em banho-maria havia 20 anos. Até uma semana antes da cúpula do G20, não se imaginava que seria assinado tão já. Até mesmo na véspera da assinatura, ainda se punha o verbo no condicional.

Frise-se que o documento sacramenta apenas um acordo de princípio, que poderá (ou não) entrar em vigor um dia. Na hipótese optimista, passará a valer daqui a alguns meses; na pessimista, será daqui a muitos anos. É que tem de ser ratificado individualmente pelo parlamento dos 28 membros da UE e dos 4 integrantes do Mercosul. São 32 congressos nacionais (31, caso o Reino Unido deixe a UE). Não é brincadeira.

Já no dia seguinte ao da assinatura, mais de 300 ONGs ligadas à preservação da natureza se alevantaram, indignadas. Valendo-se da forte ação lobística de que são capazes, têm intenção de pressionar os governos europeus para que suspendam a ratificação enquanto o Brasil não der provas de ter tomado medidas concretas para impedir o avanço da destruição da floresta úmida. Alô, madeireiras!

Na França, sindicatos e associações de classe que representam os interesses dos agricultores estão de cabelo em pé e armas na mão. Enxergam a produção agrícola brasileira como ameaça. Temem que o mercado deles, antes cativo, seja inundado com produtos brasileiros, o que geraria crise na produção, com perda de renda e de empregos. Também eles sabem fazer pressão sobre os parlamentares. Alô, exportadores agrícolas!

Mas o que é que terá precipitado a conclusão de um acordo guardado na geladeira por tantos anos? Por que justamente agora, sob os holofotes da cúpula do G20, vitrina midiática de importância capital para os figurões que participam? É bem possível que o súbito desenlace tenha ocorrido por razões que pouco têm a ver com floresta tropical, defensivos agrícolas ou concorrência desleal. A razão pode ser bem mais banal.

Monsieur Macron, fragilizado pela crise dos Coletes Amarelos, precisa mostrar serviço. A finalização do acordo durante a vitrine do G20 há de ter-lhe parecido excelente ocasião. Decidiu embarcar nesse trem mesmo tendo de se expor à fúria de ecologistas e agricultores. Feitas as contas, deve ter concluído que os ganhos superam as perdas.

Frau Merkel está em fim de carreira. Já anunciou que não será candidata à reeleição. Viu no acordo um valioso item a acrescentar ao currículo. É permitido especular que tenha combinado antes com Monsieur Macron; afinal, França e Alemanha, juntas, são o motor da Europa.

Monsieur Jean-Claude Juncker é o presidente da Comissão Europeia, com mandato terminando estes dias. Pelas mesmas razões que Frau Merkel, tinha todo interesse em ver o sucesso das tratativas. Será lembrado como aquele que assinou o acordo mais importante da história da União Europeia. Ninguém resiste à força desses três personagens.

Resta falar de señor Macri e de doutor Bolsonaro, que colhem frutos que não plantaram. O presidente do país hermano, que está em campanha de reeleição, anda mal das pernas, castigado por pesquisas desfavoráveis. Para ele, a assinatura do acordo cai como luva. É trunfo não desprezível na corrida eleitoral.

Como seu colega argentino, doutor Bolsonaro está em queda de popularidade junto ao povo, em conflito com o Congresso, embrenhado no cipoal que lhe tecem os filhos. Por essas e outras, deve ter soltado um sorriso de orelha a orelha, tamanha a satisfação de ter podido assinar o acordo. Não resolve todos os problemas, mas dá-lhe oxigênio e uma trégua bem-vinda.

Eis como a convergência de interesses pessoais, alheios ao que estava sendo discutido, teve o condão de agilizar a conclusão de um acordo no qual, de tão emperrado, ninguém mais botava fé.

Bolsonaro & Bannon no mesmo saco

José Horta Manzano

Nascido no início dos anos 1970, o Front National (Frente Nacional), partido francês de extrema-direita, foi presidido durante décadas por Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores. Polemista e provocador por natureza, o patriarca imprimiu ao partido a marca da pópria personalidade. O dirigente nunca se preocupou em disfarçar o caráter extremista da agremiação. No fundo, não acalentava ambições presidenciais. Contentava-se com ser um partido destoante e livre de amarras que lhe tolhessem a liberdade de permanecer ad æternum na oposição.

Com a velhice batendo à porta, o velho dirigente concordou que era hora de passar o bastão. Em 2011, fez o que se costuma fazer em organizações de vocação autoritária e dinástica: passou a coroa à própria filha. Exatamente como costuma ocorrer em Cuba ou na Coreia do Norte. Madame Le Pen, a filha, tinha outras ambições para o partido. Não se conformava em continuar à margem do tabuleiro político. Queria tornar sua legenda respeitável e capaz de guindá-la um dia à Presidência da República.

Quando o pai se tornou incômodo, com suas declarações insolentes e provocadoras, madame não teve dúvida: expulsou-o do partido. No ano passado, dando continuação ao saneamento da imagem, mudou o nome da agremiação. Em manobra bastante utilizada no Brasil – e bastante eficaz, diga-se – o Front National tornou-se Rassemblement National (Agrupamento Nacional).

Marine Le Pen e Steve Bannon
Em 2018, ao tempo em que andavam aos beijos e abraços

No ano passado, quando doutor Bolsonaro ainda fazia campanha para a Presidência, madame foi entrevistada na televisão francesa. O assunto eram as relações entre seu partido e signor Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália. A entrevistadora quis saber o que madame Le Pen achava do então candidato a presidente do Brasil. Sabedora de que Bolsonaro, já à época, dizia muita besteira e ofendia muita gente, ela tirou o corpo fora. «A cada vez que alguém diz coisas desagradáveis, é logo etiquetado como de extrema direita» – foi o que disse. E continuou, sutil, a insinuar que maus modos são coisa de gente subdesenvolvida. E que não compactuava com esse tipo de indivído. E tome!

Marine Le Pen deu surpreendente demonstração de coerência e de lucidez estes dias. Ela está envolvida até o pescoço na atual campanha de eleição de deputados ao Parlamento europeu. Steve Bannon – aquele teórico de extrema-direita que foi homenageado com um jantar por doutor Bolsonaro quando de sua primeira visita aos EUA – andou metendo o bedelho na campanha. Insinuou estar envolvido na luta para eleger deputados do partido de madame. Como já tinha feito com doutor Bolsonaro, madame Le Pen afastou esse cálice. Declarou, a quem quis ouvir, que Steve Bannon «não é seu conselheiro político». E tome de novo!

Como se vê, a dirigente de um dos principais partidos de extrema-direita da Europa (e do mundo) rejeita, com gesto decidido, tanto Bolsonaro quanto Bannon. Mostra que não os considera dignos de sentar-se à mesa com ela. Enquanto isso, os dois rejeitados se encontram, confraternizam e elevam o cálice à saúde. Saúde de quem mesmo?

A camiseta e o marketing

José Horta Manzano

Na França, um detalhe da Páscoa de doutor Bolsonaro chamou a atenção do distinto público. Foi quando o presidente, que parecia tomado pelo espírito de Dilma Rousseff, saiu por aí dando voltinhas de motocicleta.

by Jean Galvão (1972-), desenhista paulista

Fosse só isso, não teria sido notícia na França, país cujos jornais ainda estão preocupados com o incêndio de Notre-Dame, com os atentados do Ceilão (Sri Lanka), com as depredações dos «Coletes Amarelos». O que chamou a atenção foi o fato de doutor Bolsonaro estar vestido com uma camiseta do PSG (Paris Saint-Germain), o mais importante time de futebol do país.

Nas encenações de marketing moderno, todo detalhe tem importância. Atônitos, os analistas ainda estão tentando decifrar a mensagem que se esconde atrás da camiseta. Seria o número 10 alusão a Neymar? Por que o número está gravado na frente, no estilo do futebol americano? Por que ele não vestiu uma camiseta da Seleção? Se parou para a foto, é porque queria ser visto. Por que razão?

Podem discutir dias e dias, mas acho que não vão encontrar nenhuma explicação lógica. O marketing caseiro dos Bolsonaros costuma ser atabalhoado, sem pé nem cabeça. O que parece nem sempre é. Melhor deixar pra lá. Talvez não haja marketing nenhum e a resposta seja prosaica: o quarto estava escuro e o doutor só apanhou aquela camiseta porque ela estava no topo da pilha.

Observação futebolística
Na França, a força do PSG – Paris St-Germain é tamanha que os bolões esportivos nem perguntam mais quem será o campeão. A resposta é conhecida antes do começo do campeonato. As apostas começam do segundo colocado pra baixo.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

O saco e o xixi

José Horta Manzano

Vinte e oito anos é a duração de um ciclo bem conhecido dos astrólogos. É aproximadamente o tempo que Saturno leva pra dar uma volta ao Sol.

Dia 3 de abril de 1991, uma manifestação de protesto deixou Fernando Collor de Mello, então presidente da República, muito avexado. O doutor explodiu e berrou a quem o quis ouvir : «Eu tenho aquilo roxo!». Não ousou dar nome ao «aquilo», mas todos entenderam. A frase ficou na história da República como um dos (hoje frequentes) exemplos de mau gosto e de vulgaridade presidencial.

Ninguém imaginava, naquela altura, que uma cachoeira de baixezas estaria por se instalar na fala de presidentes. E de ‘presidentas’. Nenhum dos sucessores, no entanto, teve a ideia de se valer de expressões situadas abaixo da cintura.

Vinte e oito anos e dois dias se passaram, mas Saturno não costuma falhar. Doutor Bolsonaro acaba de nos brindar com um fabuloso «vale a pena ouvir de novo». Ainda que menos viril e mais pueril, a reprise de 1991 é boa. Tanto quanto a precedente, a metáfora de doutor Bolsonaro ronda o campo da escatologia, tema não necessariamente benfazejo para presidentes.

Um ano e pouco depois de clamar a própria virilidade, doutor Collor de Mello estava no chão, destituído nos conformes, metaforicamente emasculado. Doutor Bolsonaro que se cuide. Confissões públicas muito próximas do piupiu do declarante não são bom caminho.

A falta que um preceptor faz ‒ 1

José Horta Manzano

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Caso n° 1
Dia 29 de novembro passado, doutor Bolsonaro recebeu em casa um visitante de passagem. Era John Bolton, conselheiro de Mr. Trump. Foi o homem apontar no jardim, e nosso Jair nacional levantou-se e imediatamente bateu continência, homenagem que militares de patente inferior prestam aos de patente superior. Sabidamente, doutor Bolsonaro é fã dos Estados Unidos. Ele não é o único, vistos os voos lotados que deixam o Brasil diariamente em direção à Disneylândia. Ainda assim, pega mal o presidente eleito do Brasil prosternar-se diante de mero conselheiro de presidente estrangeiro.

Caso n° 2
Esta semana, doutor Bolsonaro aprontou mais uma. Apareceu num vídeo lançado nas redes sociais vestindo um agasalho de marca, com imenso logotipo Nike estampado, no melhor estilo Fidel Castro. (Todos se lembrarão de que o bondoso ditador fez, nos últimos anos de vida, propaganda para a firma Adidas, cujo logo era bem visível nos agasalhos que o cobriam.) Pega mal o presidente eleito do Brasil fazer propaganda pra marca comercial.

Italiano macarrônico: muito erro pra pouco texto

Caso n° 3
Ontem, animado pela ordem de prisão emitida contra o condenado Cesare Battisti, signor Matteo Salvini, dirigente político italiano, soltou um tweet de desabafo em que confessava enfurecer ao ver «um condenado à cadeia perpétua gozando a vida nas praias brasileiras, fazendo pouco caso das vítimas». Dizia ainda que ficaria muito reconhecido ao presidente Bolsonaro «se pudesse ajudar a fazer justiça à Itália ‘presenteando’ Battisti com um futuro nas masmorras da pátria (dele)».

Uma hora depois, doutor Bolsonaro tuitou em resposta a Salvini. Respondeu em italiano. Considerando que Bolsonaro foi eleito chefe de Estado, enquanto signor Salvini não é nem chefe de Estado nem mesmo chefe de governo ou primeiro-ministro, responder na língua do estrangeiro não chega a ser sinal de submissão, mas é deferência rara, inusitada, pra lá de especial. Ainda assim, tal resposta teria de ser redigida em italiano correto. Infelizmente, não foi o caso.

Doutor Bolsonaro ‒ ou os assessores que lhe dão respaldo ‒ estropiaram o belo idioma de Dante. Há erros de grafia (diffeso se escreve com dois ff). Há incongruência nos pronomes de tratamento (quem começa a tratar o correspondente por voi, ao dizer vostra considerazione, tem de continuar com esse tratamento formal, coisa que nosso nacional Jair não fez, ao passar a utilizar o tu, marca de inadequada familiaridade). Com o perdão de tupis, goitacazes e tumucumaques, ficou parecendo escrita de índio. Deu a imagem de que, além de submisso, o novo presidente é inculto. Lamentável.

Socorro! Um preceptor, urgente!

Casa onde muitos falam

José Horta Manzano

Casa em que todo o mundo fala
Qualquer palavra apunhala

Nestes tempos de internet e de redes sociais, se já é complicado garantir a integridade da própria imagem, que dirá proteger a da família toda?

Doutor Bolsonaro deixou-se inebriar pelo bom desempenho eleitoral dos rebentos. Também, pudera! Milhares de votos para um, milhões para outro ‒ é pra deixar qualquer pai inchado. Só que o doutor não se deu conta de detalhe importante: se os filhotes estouraram no hit parade eleitoral de modo tão fora de série, devem mais ao sucesso do pai do que ao próprio mérito.

Passando por cima da evidente transferência de votos que garantiu aos filhos, doutor Bolsonaro há de ter sentido muito, mas muito, orgulho. A partir daí, amoleceu. Deixou a porteira aberta para os bolsonarinhos. Pode tudo! E cada um saiu, desembestado, aprontando o diabo.

Hoje é um que, em visita aos EUA, enfia na cabeça um boné marcado «Trump 2020». Amanhã é outro que se faz tratar de pit bull pelo pai embevecido. Em seguida, é mais um que reitera que nossa embaixada vai mesmo pra Jerusalém. Um festival de asneiras infantis, desnecessárias, constrangedoras.

Com essa promiscuidade entre o público e o privado, o que vai ficando no ar é que a palavra dos filhos vale tanto quanto a do pai. Na plateia, o sentimento é de que não elegemos um presidente, mas um clã. Isso pode funcionar em outras partes do mundo, aqui fica esquisito. E pode ser perigoso. Compartilha-se entre os membros tudo o que é bom ‒ e isso é ótimo. Já o mal que atinge qualquer um do clã acaba fatalmente atingindo a imagem do capo.

Foi o que aconteceu estes dias. Veio à tona uma obscura história, ainda mal esclarecida, de dinheiro pra cá e pra lá, girando em círculo restrito, passando por mãos diversas entre as quais as de um dos bolsonarinhos. Não se sabe ainda quem é quem na história, quem fez que papel, se o dinheiro é lícito, se, se, se…

Pouco importa. O que se sabe desde já é que a imagem do doutor foi atingida em cheio. O petardo teria sido menos violento se cada um dos familiares se tivesse contentado com o próprio sucesso. O fato de ter jogado os votos da família numa bacia comum atou o destino de todos num único feixe. Vamos ver como é que desatam esse nó. Não vai ser fácil.

Em casa de muita fala
A discórdia se instala.

Apocalipse vende mais

José Horta Manzano

Puxa! Nunca imaginei que o Brasil se tivesse tornado tão importante! Visto do exterior, parece que o país subiu de nível. Passou a eleição, o novo presidente está definido há dez dias, mas o assunto continua a ser comentado na imprensa. Em volume de citações, este período supera com folga a época de ouro do lulopetismo, quando se imaginava que um salvador da pátria tinha surgido da secura da caatinga para redimir definitivamente a nação tupiniquim. Quá!

A abundância de artigos, entrevistas e análises atuais se deve, com certeza, à rede mundial de telefones e computadores, que faz que a informação circule fluente e dê volta ao planeta num segundo. No entanto, apesar das facilidades modernas, constato que a informação que chega ao exterior pende para um lado que não é o que os brasileiros escolheram. Com folgada maioria, os eleitores elegeram doutor Bolsonaro. Passando por cima dessa realidade, a mídia europeia continua de queixo caído, incapaz de reconhecer que o eleito encarna a mudança pela qual todos anseiam, tanto os que votaram nele, quanto os demais.

Por aqui, o discurso que se ouve é aflitivamente semelhante ao do lulopetismo. Analistas continuam a mostrar-se escandalizados com a «deriva conservadora» do eleitorado do maior país da América Latina. Acusam os brasileiros de ‘fascistas’, ‘adeptos da extrema-direita’, ‘homofóbicos’, ‘machistas’, ‘adeptos do autoritarismo’ e outros apodos graciosos.

Também, brasileiros com projeção internacional não ajudam. Outro dia, ouvi nosso ultraconhecido fotógrafo Sebastião Salgado, convidado matinal da rádio pública francesa, declarar que ‘os brasileiros ficaram loucos’ e martelar o relato do golpe sofrido por doutora Rousseff. Entre dezenas de outros, essa mesma ex-presidente, mais Chico Buarque e até FHC ‒ quem diria! ‒ botam lenha na fogueira. Correspondentes da mídia internacional baseados no Brasil também contribuem para difundir a versão lulopetista. É que anunciar o apocalipse vende mais do que falar em esperança de enfiar corruptos na cadeia e pôr ordem no país.

O festival de desinformação continua. Por minha parte, preferia que se falasse do país por outros motivos. Mas as coisas são como são. The (poor) show must go on. O show (mambembe) tem de continuar.

Adendo 1
Signor Paolo Mieli é colunista do italiano Corriere della Sera há 25 anos. Passando por cima do fato de que foi o próprio povo brasileiro a fazer sua escolha, ele assina um artigo publicado domingo passado que dá a impressão de que o novo presidente nos tenha sido imposto por algum poder extraterrestre. Aqui vai a primeira frase:

“Il trionfo elettorale di un personaggio discutibile e discusso come Jair Bolsonaro è stata una pessima notizia non soltanto per il Brasile, ma anche per l’America Latina tutta e, probabilmente, per il mondo intero ‒ O triunfo eleitoral de um personagem discutível e discutido como Jair Bolsonaro foi péssima notícia não só para o Brasil, mas também para toda a América Latina e, provavelmente, para o mundo inteiro.”

Precisa ler o resto?

Adendo 2
Ouvi outro dia no rádio, no dia seguinte ao da eleição do novo presidente, o comentário de um jornalista, que soava como trovão:

«Les minorités entendent déjà le bruit des bottes sur le sable de Copacabana ‒ As minorias já podem ouvir o ruído de botas nas areias de Copacabana.»

Que talento dramático! De todo modo, pouco importa o conteúdo, o que conta é a embalagem. Não é pra assustar qualquer cristão?

Jerusalém x Tel-Aviv

José Horta Manzano

Em matéria de política externa (mas não só), o lulopetismo é contrarreferência. Para acertar, basta fazer o contrário do que fizeram eles. Se foram, convém não ir. Se ficaram, é bom afivelar malas e partir rápido. Agir assim é a melhor receita pra atingir o alvo.

Uma das gafes mais sonoras de Lula da Silva ‒ memorável vexame ‒ foi a desastrada tentativa de interferência no nó do Oriente Médio. Ao forçar a entrada de um lugar onde não tinha sido chamada, a trôpega diplomacia petista acabou se pondo mal com todos os envolvidos. Não resolveu problema nenhum e, humilhada, teve de recolher-se à própria insignificância.

A embrulhada médio-oriental é angu de caroço. Interesses conflitantes, irreconciliáveis e às vezes incompreensíveis se embolam num balaio de gatos. Pra quem é de fora, mais vale dar um sorrisinho, cumprimentar a todos educadamente, mas permanecer longe, equidistante de cada um.

Itamaraty, Brasília

Doutor Bolsonaro anunciou que tenciona transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Não sei o que é que o terá levado a essa ideia inoportuna. Num vespeiro daqueles, a melhor atitude a tomar é deixar como está. Toda ação, ainda que simpática a uns, será tomada como agressão por outros. Não vale a pena forçar a barra.

Desde que Mr. Trump anunciou a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, seu gesto foi seguido por um único país: a Guatemala ‒ por mistérios insondáveis, diga-se. Por que raios o Brasil tem de seguir por esse caminho pedregoso? Doutor Bolsonaro pode até sentir vontade de deslocar a embaixada, mas o Estado brasileiro não tem interesse nisso.

Ainda há tempo de minorar o efeito negativo do anúncio. Doutor Bolsonaro pode, por exemplo, ir adiando a transferência da embaixada até o dia de São Nunca. Não dá pra reparar o mal causado pelo anúncio, mas o tempo atenua o impacto.

Quanto a futuras decisões em negócios internacionais, o novo presidente deveria guardar sempre em mente, como um mantra: se o PT fez, não farei; se o PT não fez, faço rápido.

Aprendendo a ser presidente

José Horta Manzano

Em 2003, assim que foi empossado, o novíssimo presidente Lula da Silva fez aparições públicas em eventos variados. Como recém-chegado, foi paparicado à bessa, o que é muito natural. Fotógrafos logo imortalizaram o distintivo que ele insistia em fincar na lapela: um pin com a estrela vermelha do PT, seu partido.

Jornalistas publicaram textos escandalizados com o gesto do novo mandatário. Afinal, ele tinha sido eleito para presidir a República, não para chefiar um partido. Portada ostensivamente, aquela insígnia era sinal hostil lançado aos que não fossem simpatizantes de seu partido. Cargo de presidente exige que o titular se coloque acima de querelas politiqueiras.

Lula da Silva não costumava ler jornais. Mas seus prestimosos assessores se deram conta do reclamo, informaram o chefe, e o pin vermelho cedeu lugar a um mais decente, com as cores da bandeira.

Essa historinha ‒ que é bem real ‒ serve pra ilustrar os tropeços de todo principiante. Todo debutante dá seus foras, seja qual for a profissão ou o cargo, é compreensível. Importantíssimo, no entanto, é que aprenda de seus escorregões e se encaixe na liturgia que a posição exige.

Doutor Bolsonaro deu outro dia um bruta fora. Ressentido com o tratamento que lhe dispensou um jornal de São Paulo durante a campanha, tratamento que ele julga ter sido persecutório e injusto, prometeu fazer desabar raios e relâmpagos sobre o veículo. Errou feio.

Se sentimentos de rancor de vingança já caem mal em mortais comuns, que dirá em figurões da República. Uma bordoada. E pensar que a solução é tão evidente: para casos como esse, a lei prevê caminhos mais civilizados. Se o doutor se sentiu caluniado, que demande reparação por via judicial. Assim, sai tudo nos conformes. Agora, prometer benesses aos amigos e castigo aos adversários ‒ tudo isso com nosso dinheiro ‒ é expediente que não combina com democracia.

Por esta vez, passa, doutor. Da próxima, pense duas vezes antes de abrir a boca. A acumulação de pequenos incidentes como esse pode embaçar sua imagem antes do fim do período de graça.