Indolência & malandragem

José Horta Manzano

Doutor Mourão, candidato a vice-presidente do país na chapa de doutor Bolsonaro, fez uma declaração que anda fazendo fuá. O militar reformado afirmou, com todas as letras, que o brasileiro herdou “a indolência dos índios e a malandragem dos africanos”.

Além de ousada, a alegação é trapalhona. Ofende, sem necessidade, parcela da população no seio da qual poderia até existir algum futuro eleitor da chapa. Eleitor este que, depois de ouvir isso, vai desistir definitivamente de dar seu voto à dupla.

Pra lá de considerações de erro estratégico, quero fazer uma observação semântica. Quando expôs a indolência e a malandragem como atributos distintos, o doutour general não se deu conta ‒ talvez por desconhecer ‒ que as duas palavras têm praticamente o mesmo significado.

Dê-se de barato que o significado do termo malandro se tem expandido nos últimos 50 anos. Até os anos 1940(*), no entanto, malandro somente designava aquele que não trabalha, o vadio, o preguiçoso, aquele que se orgulha em não ter de prestar conta a patrão. Caía como luva pra descrever o personagem clichê do morro carioca da época.

Indolente, pela etimologia, indica aquele que não sente dor no corpo. Mas já faz séculos que o sentido evoluiu para preguiçoso, aquele que não tem vontade de fazer nada, aquele que não trabalha.

Como pode o distinto leitor constatar, além de destemperado nas declarações, o candidato a ‘vice’ é trapalhão no uso das palavras. De outra vez, vale a pena ensaiar em casa antes de fazer discurso. E, na dúvida, se informar.

(*) Em 1928, Francisco Alves, o rei da voz, gravou uma canção de Freire Júnior intitulada Malandrinha. Na letra, o cantor se dirige à bem-amada e lhe diz, com toda a ternura: «És malandrinha, não precisas trabalhar». Como não pega bem tratar a namorada de espertalhona, provado está que, na origem, a palavra designa simplesmente aquele que não trabalha.

Monoglotismo

José Horta Manzano

Ah, a falta que faz o aprendizado de línguas na escola! Os jovens podem até achar que é exagero, mas eu garanto que era assim: antigamente ‒ e não falo do tempo dos sumérios ‒ o currículo do ensino médio incluía Inglês, Francês, Latim e Grego. Sim, senhores. Os brasileiros perderam muito com o empobrecimento do ensino de línguas.

Doutor Bolsonaro é mais uma vítima da estranha política que empurra os brasileiros para o monoglotismo. Quando lhe apresentaram um artigo de jornal, escrito em francês, que falava dele, só conseguiu decifrar o título, porque era evidente. Dizia lá: «Machiste, homophobe et raciste, le ‘Trump brésilien’ cartonne» ‒ Machista, homofóbico e racista, o ‘Trump brasileiro’ faz grande sucesso.

Tribune de Genève – Genebra, Suíça

O homem reagiu com um tuíte enfurecido. Só que se enganou de alvo. Pouco familiarizado com a língua de Molière, trocou as bolas. Acreditando que o nome da editoria «Monde» (Mundo) fosse o nome do jornal, mandou bala. Ao se queixar ao jornal errado, escorregou na maionese. O artigo não tinha sido publicado no ‘Le Monde’, mas na Tribune de Genève, jornal suíço.

Gafe dupla. Por um lado, apresentou reclamação na paróquia errada. Por outro, tivesse lido o artigo, teria visto que, apesar do título severo, o texto é isento. O autor se atém aos fatos e dá nome aos bois, evitando considerações subjetivas. Menciona o caso Maria do Rosário, quando o doutor disse que “não a estupraria porque ela não merecia”. Lembra também que o deputado assegurou que seus filhos nunca sairiam com mulheres negras “porque foram bem educados”. Fala ainda da especial simpatia que o doutor tem por militares e por intervenções policiais musculosas. Enfim, nada que se desvie da realidade. O artigo pinta um retrato autêntico do personagem.

Se eleito, doutor Bolsonaro bem que podia mandar vitaminar o aprendizado de línguas na escola média. Para ele, é tarde demais, mas será de grande utilidade para as gerações futuras. Numa civilização globalizada como a atual, quem não conhece língua, dança.

Antes que seja tarde

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 julho 2018.

A história é antiguinha, mas vale a pena recordar. É possível até que os mais jovens nunca tenham ouvido. Corria o ano de 1987. Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, concedia entrevista coletiva. A certa altura, uma jovem repórter dirige-se, atabalhoada, ao prefeito e faz-lhe uma pergunta. Mas comete o imperdoável: trata o septuagenário por você. Com tarimba de raposa política, Jânio lança, fulminante: «Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora, não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite.» Eram tempos em que toda palavra tinha peso e valor. Em política, não se arremessava verbo pela janela.

Menos susceptíveis que o velho Jânio, governantes, parlamentares e magistrados falam hoje pelos cotovelos. Sem se preocupar com o peso das próprias palavras, proferem barbaridades. Dão entrevistas ad nauseam. Quem fala muito, sabe-se, dá bom-dia a cavalo. No cenário político brasileiro, é o que se vê dia sim, outro também. Em setembro de 2010, no auge da campanha eleitoral, Lula da Silva e Dilma Rousseff martelavam o nós x eles. Estavam inquietos com as sondagens. A roubalheira comia solta na Petrobrás, embora o escândalo ainda não tivesse estourado. O mensalão, por seu lado, já estava na praça e lançava uma sombra sobre a continuidade do projeto de poder. Era preciso a todo custo garantir a perenidade do esquema lulopetista.

Em Campinas, na tarde de 18 de setembro, Lula da Silva subiu ao palanque da pupila, então candidata. Deitaram ambos falatório violento. Com palavras agressivas, criticaram a imprensa, a oposição, os jornalistas. Vociferaram, ameaçaram, ridicularizaram os opositores, desclassificaram os que não pensavam como eles. Pouco ‒ quase nada ‒ foi dito sobre propostas de governo. O propósito maior era demolir tudo e todos que estivessem do outro lado da imaginária linha do nós x eles. Lá pelas tantas, Lula da Silva ousou: «Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública!». Um atrevimento! Era a confirmação explícita do totalitarismo embutido na ideologia lulopetista, ancorada na verdade revelada e única. Deu no que deu. A República quase foi pro espaço. Felizmente, socorridos pela absoluta incapacidade da presidente, conseguimos estancar a obstinada rapina e a bolivarização do Estado brasileiro.

Oito anos se passaram desde a irada agitação de Campinas. Comícios como os do tempo de Jânio Quadros, com palanque, faixa, banda de música e alto-falante, estão rareando. Plugado e antenado, o mundo de hoje não se anima a permanecer horas de pé na praça a ouvir falatório seja de quem for. É muito mais cômodo ficar no sofá da sala. A informação chega do mesmo jeito e ainda pode ser sopesada, comentada e compartilhada. Como os demais candidatos às presidenciais deste ano, Jair Bolsonaro aderiu à modernidade: manifesta-se por tuítes. Na busca por alianças, tem encontrado certa resistência. São poucas as legendas dispostas a apoiá-lo, o que periga reduzir-lhe o tempo de exposição na tevê. Agastado com a reticência partidária, doutor Bolsonaro atreveu-se outro dia num tuíte: «Nosso partido é o povo!» Frisson garantido.

Ao repreender a jornalista atrevida, Jânio Quadros mostrou-se autoritário. Mas o pito se restringia a preservar sua esfera privada contra irrupções, nada mais. Já a amostra de autoritarismo revelada tanto pela arenga de Lula da Silva quanto pelo tuíte de Bolsonaro dá arrepio. Os dois pronunciamentos são irmãos gêmeos. O vão que separa o «nós somos a opinião pública» do «nosso partido é o povo» é tão apertado que não deixa passar nem uma folha de papel de seda. Ambas as falas testemunham pura e perigosa prepotência, que transborda da esfera privada para derramar-se sobre o entorno. Desvario será confiar as chaves da República a personagem imbuído de visão absolutista.

Nesse particular, esquerda e direita se confundem. Guinada autoritária, venha ela de que bordo político vier, está fadada a terminar em desastre. O Brasil e o mundo já assistiram a esse filme. Não convém dizer que Lula da Silva e Jair Bolsonaro sejam farinha do mesmo saco. No entanto, ainda que sejam farinhas diferentes, desaguam no mesmo pão. Populismo autoritário nunca dá certo. E costuma acabar mal.

O STF de novo

José Horta Manzano

Diga-se o que se quiser dizer, não há como abafar a verdade: o STF desviou da órbita. Feito sputnik desgovernado, já não cumpre a missão para a qual foi concebido e, ainda por cima, ameaça espatifar em cima de nossa cabeça.

Nosso castigado país vive um clima de salve-nos Deus misericordioso. Lula da Silva rosnando de um lado, Jair Bolsonaro grunhindo de outro, candidatos à Presidência fazendo cara de vestais, o Congresso letárgico, a Presidência paralisada, o exército à espreita. E o STF, que deveria ser a sedes sapientiæ ‒ a morada da sabedoria, desajuizado.

É uma atrás da outra. Nem o torpor que trava o país durante a Copa fecha a fábrica de insanidades em que a Corte Maior se transformou. A mais recente proeza foi obra de doutor Toffoli. Mandou arrancar a tornozeleira de doutor José Dirceu, notório ‘guerreiro do povo brasileiro’.

Longe de ser superficial, a crise do STF é mal de raiz. Imunes a todo ataque, Suas Excelências pintam e bordam. Sabedores de que nenhum mal lhes acontecerá e de que ninguém os tira do emprego, se esparramam, se assoberbam, torcem a verdade e manipulam a lei para que se adapte ao desideratum de cada um.

O caso da tornozeleira do guerreiro do povo é edificante. Antes de ser nomeado para o STF, doutor Toffoli, que era advogado do PT, trabalhou justamente como subordinado de doutor José Dirceu, quando este era Ministro-chefe da Casa Civil. O bom senso exige que, com essa passagem no currículo, o magistrado seja considerado impedido de atuar em processos em que o antigo chefe estiver envolvido.

Pois Sua Excelência, atropelando o bom senso, dá uma banana para o povo que paga seu salário e continua votando numa boa, como se a conversa não fosse com ele. Os brasileiros de bons princípios se veem impotentes e sentem muita raiva. Ninguém gosta de ser vítima de zombaria nem de ver sua dignidade usurpada. O pior é que doutor Toffoli não está sozinho: há colegas dele que debocham do povo com o mesmo despudor.

Essa safadeza atrevida, vinda justo daqueles que deveriam garantir a decência nacional, pode acabar mal, muito mal. Ri melhor quem ri por último, é verdade. Mas não é impossível que, ao final, choremos todos.

Os primeiros candidatos

José Horta Manzano

Uma estação de rádio de São Paulo que costumo escutar dispôs-se a sabatinar os (pré-)candidatos à presidência da República. Esta semana, começou com dois deles. Concedeu uma hora a cada um, para responder à perguntas que lhe faziam três ou quatro entrevistadores no estúdio.

Pelo desempenho dos candidatos, podemos tocar a sirene, que temos aí desastre anunciado. E com data marcada para começar: primeiro de janeiro do ano que vem.

Os dois primeiros entrevistados, doutores Bolsonaro e Boulos, deixaram uma triste impressão de despreparo. Pior, não demonstraram capacidade nem abertura de espírito propensa ao aprendizado.

Jair Bolsonaro
by João Bosco Jacó de Azevedo (1961-), desenhista paraense

Doutor Bolsonaro parece boa gente, mas isso não basta pra ser bom presidente. O homem não tem a menor noção das grandes linhas mestras que alicerçam o país, a começar pela economia. Falta-lhe jogo de cintura. Qualquer entrevistador, por mais primitivo que seja, consegue encurralá-lo e deixá-lo embaraçado e sem palavras.

Embora tenha abandonado a carreira há mais de 30 anos, a cada dez palavras ele repete que é militar, o que deve lhe parecer de capital importância. Acredita que os complexos problemas do país hão de se resolver num estalar de dedos ‒ por pura magia ou pela força do pensamento ‒ assim que ele assumir a presidência. Está mais pra iluminado do que pra dirigente sensato. Com ele na presidência, daríamos um pulo no escuro.

Guilherme Boulos

Doutor Boulos é muito diferente. Tem um lustro de cultura que lhe confere certa fluência de linguagem. Articula e exprime corretamente as ideias. Infelizmente, essa faculdade não é de grande valia. O homem tem monomania. Embora jovem, tem os pés fincados nos anos 1960.

Com ele na presidência, o caminho do país seria convulso: enfrentamentos, luta de classes, restrições à propriedade privada, presença invadente do Estado na vida das gentes. Uma cartilha ultrapassada, que se mostrou inadequada e que faleceu com o desmoronamento da União Soviética, trinta anos atrás. A concretizar as ideias do moço, não se vislumbra um Brasil melhor.

Não conheço ainda o programa dos demais (pré-)candidatos. É bom que seja melhor do que o desses dois, senão, o Brasil está bem-arrumado.

Bolsonaro
O sobrenome Bolsonaro é provavelmente transcrição errônea do original Bolzonaro. Na Itália, menos de cem famílias têm esse raro nome. A hipótese mais provável é que derive de Bolzano Vicentino, um vilarejo situado a poucos quilômetros de Vicenza, região do Vêneto, Itália. O patriarca que deu nome à estirpe devia ser originário desse burgo.

Boulos
Boulos é a forma árabe do nome Paulo, usado aqui como sobrenome. A transliteração varia conforme a língua de destino: Bulus, Bulos, Boolos, Boulus, Boulos são algumas das variantes. Dado que a língua árabe não conta com o som P, ele vem sempre transcrito como B. Boulos é a transcrição francesa. Deve ser pronunciado «Bulos». Esse nome de família, usado no Oriente Médio, denota origem cristã.

Loteria

José Horta Manzano

Eta eleiçãozinha complicada, essa que vem pela frente! Faltando cinco meses, o horizonte está pra lá de turvo.

Para o lado dos ‘habitués’, o «hômi», confirmadamente preso, é carta fora do baralho. Destituída, a doutora tampouco teria a menor chance ‒ aliás, parece que nem vai ousar se candidatar. Quanto a doutor Aecinho, aquele que chegou a arrecadar mais de 50 milhões de votos(!), está com um pé na cadeia, execrado por todos.

Dos novos, nenhum arrebata corações. Estão todos num pântano aflitivo, envisgados numa geleia de dar dó. Candidatos sem brilho, sem programa, sem ideias, sem estofo, sem fibra. Uma pasmaceira.

Pouco importa a filiação partidária de cada um ‒ os partidos brasileiros carecem tristemente de ideologia. Cada pretendente teria de se manifestar e dizer a que veio. Tevês, rádios e portais estão aí esperando, com o microfone ligado e tendido. Se não falam, há de ser porque não têm grande coisa a dizer.

Uma certeza, no entanto, parece delinear-se: pelo chacoalhar da carroça, há grande chance de o próximo presidente ser um paulista. De fato, cinco dos candidatos viram a luz no Estado de São Paulo, ainda que a vida tenha levado alguns deles a se estabelecer alhures. Os paulistas de nascimento são os seguinte doutores: Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Guilherme Boulos e Álvaro Dias.

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

Nos dias atuais, em que a mobilidade é bem maior que no passado, o lugar de nascimento não tem o mesmo significado de antes. Antigamente, o indivíduo nascia, vivia e morria na mesma região. Hoje é diferente.

Se o próximo presidente for um paulista, será o primeiro presidente eleito originário do Estado desde 1906, quando Rodrigues Alves deixou o Palácio do Catete. Doutor Temer é paulista, concedo, mas não foi eleito presidente: chegou lá de paraquedas. Por isso, não conta.

Dos demais candidatos pressentidos para a eleição de 2018, temos dois cariocas (João Amoêdo e Fernando Collor), uma acriana (Marina Silva), uma gaúcha (Manuela d’Ávila), um alagoano (Aldo Rebelo), um pernambucano (Flávio Rocha), um goiano (Henrique Meirelles) e um nascido no Chile (Rodrigo Maia).

And the winner is…

Falem bem, falem mal

José Horta Manzano

Falem bem, falem mal, mas falem de mim. Esse é o moto de todo político que se preze. Faz muito tempo que os mais espertos captaram a mensagem. Desde que a chegada do rádio e da televisão tornou o fluxo de informação mais caudaloso, a proximidade de um microfone ou de uma câmera passou a atiçar o marqueteiro que cochila dentro de cada figurão. Principiantes ou tarimbados, homens públicos logo se deram conta do potencial da voz e da imagem difundidas em escala nacional.

Um ex-presidente do Brasil tornou-se mestre na arte de fazer falar de si. Durante o período em que ocupou o trono do Executivo, não deixou escapar uma ocasião de autoincensar-se com o célebre «nunca antes nessepaiz». Mesmo apeado do pedestal e acossado pela justiça criminal, persiste em falar sem dizer, afirmar sem estar convencido, insistir sem ter razão. Continua vociferando, com ar sério, frases que, imagina ele, o «povo» quer ouvir. Embarcou até na canhestra ameaça feita por Mr. Trump à Venezuela para lançar palavras aos microfones. Qualquer pretexto é bom.

Num belo dia de 2014, dois deputados de nossa desengonçada Câmara Federal foram protagonistas de um grosseiro bate-boca. Doutor Bolsonaro dirigiu palavras ‒ desarticuladas mas aviltantes e vigorosamente ofensivas ‒ a uma colega, a doutora Maria do Rosário Nunes, aquela que começou a carreira no PCdoB e milita atualmente no PT. A inflamada troca de gentilezas foi parar nos tribunais.

Faz três anos que se fala nisso. Volta e meia, algum comentarista dá sua opinião sobre o fato de a deputada merecer ser estuprada ou não. Uma escaramuça de botequim transformada em verdadeira causa nacional. Gente de toda a paleta política já meteu o bedelho. Feministas, machistas, comunistas, liberais, lulopetistas, governistas, antigovernistas, todos continuam se pronunciando.

Acaba de sair a decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre a demanda de reparação formulada pela deputada. A corte dá razão à doutora e mantém a condenação do ofensor a desembolsar dez mil reais pelos danos morais que causou.

Minha primeira consideração concerne à sobrecarga que estes três anos de processo trouxeram à Justiça. Quando se sabe que o Judiciário já anda entupido por dezenas de milhares de casos, soa indecente que dois representantes do povo, figurões que recebem polpudos salários e gozam de mordomias de marajá, contribuam para atravancar o andamento de outros casos quiçá mais prementes. Tudo isso por dez mil reais!

Fica a dúvida. Serão os nobres deputados tão carentes de bom senso? Por que terão dado preferência a uma estúpida queda de braço pública em vez de um acerto particular? A resposta está na própria pergunta. A Justiça, financiada com o dinheiro de todos nós, não traz ônus aos querelantes. Valendo-se disso, eles aproveitaram a ocasião para permanecer sob os holofotes durante três anos sem desembolsar um centavo. Marketing esperto pra ex-presidente nenhum botar defeito. Falem bem, falem mal…

Pega pra cassar

José Horta Manzano

Discussão 1Já discorri, no artigo Voando baixo, sobre o constrangedor episódio protagonizado por dois eleitos do povo, um deputado e uma deputada, integrantes da Câmara Federal.

Os dois têm o que se costuma dizer ‘gênio forte’, próprio daqueles que não costumam levar desaforo pra casa. Ela provocou. Ele devolveu. Foi uma baixaria. Espetáculo deprimente.

Numa roda de amigos, numa conversa de boteco, na sala de visitas de sua própria casa, cada um tem o direito de se exceder, de dizer palavrão, de se exprimir como lhe apraz. As consequências – se houver – ficarão restritas ao círculo íntimo. Quando se é figura pública, o feitio tem de ser diferente.

A partir do momento em que a dama e o cavalheiro se candidataram e foram eleitos, seus menores fatos e gestos passaram a extravasar do âmbito pessoal para adentrar o domínio público. A dama e o cavalheiro não estão no Congresso – em princípio – defendendo seu mesquinho interesse pessoal. Funcionam ali como representantes do naco da população que os elegeu. Aureolados pela glória, nem sempre se dão conta. Mas assim é.

Deputado não é diarista nem recebe por hora. Está investido de sua função 24 horas por dia, esteja em plenário ou não. Se o distinto leitor e eu podemos cometer pequenas faltas, que ninguém é de ferro, a coisa se complica quando o autor do deslize é um eleito do povo.

Discussão 2Voltando ao caso de suas excelências Maria do Rosário e Jair Bolsonaro, devo dizer que o comportamento escrachado de ambos mostrou que nenhum dos dois está apto a exercer as funções para as quais foi eleito. Degradam ambos, ainda mais, a imagem que o povo tem do parlamento. Além da ladroagem, da desonestidade e da incapacidade, suas excelências adicionam outra característica ao arsenal dos parlamentares: a descompostura.

Quando um funcionário não funciona, o que é que se faz? Manda-se para o olho da rua. Que se casse o mandato dos dois! E que se aproveite agora, que o voto deixou de ser secreto. Já que o povo nem sempre mostra discernimento ao eleger seus representantes, que o Congresso se encarregue de autoexpurgar-se.