Abelhas de bicicleta

José Horta Manzano

Uma cena pouco comum se passou na tarde de sábado passado no centro da cidade de Paris. Um senhor chegou montado em sua bicicleta, que ele diz ser “quase centenária”, estacionou ao longo da mureta que cerca a escadaria que conduz a uma estação de Metro, na proximidade do Museu do Louvre. E afastou-se por alguns minutos.

Quando voltou, meia hora havia passado. Ficou surpreso quando viu, ainda de longe, um pequeno ajuntamento ao redor da bicicleta. “O que é que esse povo está fazendo em volta da minha centenária?” Ao aproximar-se entendeu o que era.

Naquele curto espaço de tempo, um enxame de abelhas, depois estimado entre 10 mil e 15 mil insetos, tinha se instalado debaixo do banco do veículo. Os bichinhos formavam um cacho escuro compacto, preso ao selim. Passado o primeiro momento de susto, o dono da bicicleta se perguntou “Como é que eu faço pra ir embora pra casa?”

Antes que ele tirasse o telefone do bolso, os encarregados da segurança do Metrô de Paris já tinham tomado providências. Faixas foram espichadas em volta do veículo para evitar que curiosos se aproximasse demais e levasse alguma picada. A melhor dica nessas circunstâncias é mandar vir um apicultor, dado que esses profissionais sabem como lidar com abelhas e estão sempre interessados em receber um novo enxame.

Pelas seis e meia da tarde, Monsieur Tanaci, apicultor urbano de provável origem romena, veio atender à ocorrência. Paramentado para enfrentar a colônia de abelhas, recolheu-as todas com o carinho peculiar a todo apicultor – ploft, pluft.

O enxame será instalado no teto de um dos prédios das redondezas, na proximidade de árvores que florescem nesta época do ano. Indagado, o apicultor explicou que daqui a um mês já será possível provar o mel que quase nasceu num selim de bicicleta.

Veja um enxame que se muda de casa.

Um estrangeiro na Presidência?

José Horta Manzano

O Poder Executivo da Suíça é colegial. O governo é exercito por um colégio de sete membros, chamados conselheiros federais. Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento para um mandato de quatro anos. As eleições para o Conselho Federal têm lugar a cada quatro anos, sempre após a eleição dos novos deputados e senadores. Cada conselheiro tem o direito de se recandidatar tantas vezes quanto desejar. Pode também renunciar ao mandato quando lhe aprouver.

Ignazio Cassis nasceu na Suíça, filho de imigrantes provenientes da Itália. Dado que a lei suíça de nacionalidade não reconhece o “jus soli” (direito de solo), o pequeno Ignazio herdou a cidadania italiana dos pais. Foi assim até a idade de 15 anos quando se tornou suíço “por derivação” – quando da naturalização dos pais, os filhos menores têm direito “por derivação” à nova nacionalidade. A partir daí, Cassis tornou-se binacional, italiano e suíço.

Em seguida, estudou medicina, fez mestrado e doutorado, exerceu por alguns anos e entrou para a vida política. Foi deputado durante dez anos até o dia em que o Parlamento o elegeu para o seleto clube de sete membros do Conselho Federal. Nesse momento, Ignazio Cassis entendeu que não era admissível integrar o Executivo e, ao mesmo tempo, guardar no bolso um passaporte estrangeiro. Ato contínuo, seguiu o rito de renúncia à nacionalidade italiana. Isso foi em 2017. Hoje está em seu terceiro mandato como conselheiro federal.

No Brasil, em 2005, Lula era presidente da República quando uma celeuma correu solta por Brasília e Roma. É que a primeira-dama de então, dona Marisa Letícia, fez saber que tinha conseguido reconhecimento de sua nacionalidade italiana por direito de sangue (jus sanguinis). Tanto ela, quanto os filhos passaram a ser oficialmente binacionais, brasileiros e italianos. Indagada, explicou que não fazia isso por si, mas para “garantir uma oportunidade para os meninos no futuro”. Nem todo o mundo apreciou a explicação. A celeuma também atingiu Roma, mas por outros motivos. Massimo d’Alema, deputado italiano e ex-primeiro-ministro, reclamou que dona Marisa sequer falava italiano, tinha origens peninsulares longínquas e podia votar nas eleições italianas, enquanto a babá de seus filhos, imigrante estabelecida na Itália havia muitos anos, que falava italiano e pagava seus impostos na Itália, não podia.

Passado algum tempo, o assunto morreu e ninguém mais falou disso.

Já faz alguns anos que os quatro filhos homens de Jair Bolsonaro são detentores da nacionalidade italiana, com direito a passaporte no bolso e cédula para votar por correio nas eleições. Pelas informaçôes de que disponho, o pai não requereu o reconhecimento da cidadania. Portanto, continua mononacional.

Preste atenção ao que vem agora. Um dos filhos homens do homem é candidato a ocupar o trono que já foi do pai. Ele recobrou sua cidadania italiana – é, portanto, binacional: meio brasileiro, meio estrangeiro. É impossível asseverar desde já se esse rapaz será eleito ou se vai amargar derrota e comer poeira da estrada. Suponhamos, como exercício de futurismo, que vença a corrida e se torne presidente do Brasil.

Das duas, uma. Ou renuncia, nos conformes, à cidadania italiana, ou teremos um presidente que é, certamente, brasileiro nato, mas que é também… estrangeiro. Uma situação conflituosa, que a Constituição não previu.

Está na hora de promover uma alteração da Lei Maior no sentido de proibir estrangeiros assim como binacionais de se candidatarem à Presidência. O candidato terá de renunciar a sua(s) cidadania(s) estrangeira(s) antes de ser eleito. Caso contrário, a eleição periga ser anulada, por motivo de o candidato ser estrangeiro.

Cartinha ao presidente

José Horta Manzano

Prezado presidente Lula,

Escrevo como quem escreve a Papai Noel. Longe de mim estar querendo cavar um favor especial ou uma graça particular, não é isso. A comparação com o bom velhinho vem do fato de eu escrever sem certeza de que a carta vá chegar ao bom destino, exatamente como quando a gente manda cartinha ao Polo Norte. A única semelhança entre o senhor e aquele idoso do “Ho, ho, ho” é a enorme quantidade de pedidos que cada um recebe. Além da barba branca, naturalmente. Só que aquele consegue atender aos pedidos de quase todos – digo bem: quase – ao passo que o senhor não dispõe de poder igual. No seu saco, faltam presentes para muita gente.

Agora chega de divagações, se não, esta cartinha vai se alongar demais e tomar-lhe um tempo precioso. Quero falar das eleições deste ano e aproveitar para lhe dar um conselho. Não se avexe com a ousadia: este que lhe escreve sente-se à vontade para cochichar-lhe ao ouvido, dado que, com diferença de poucos meses, somos coetâneos.

O senhor não tem feito segredo de sua disposição de se candidatar a um quarto mandato. Presidente, lembre-se que tudo o que sobe acaba caindo um dia. E o que subiu muito alto faz um barulhão ao desabar. Sua ascensão, vamos lembrar, foi fulgurante. No fim do século passado, o senhor fez bem em insistir. Na época, poucos apostariam naquele barbudo baixinho, de língua meio presa, de cara sempre amarrada, com ares de quem quer implantar no país uma república sindical. Mas valeu a insistência. Um belo dia, deu certo, e o senhor se tornou o primeiro retirante e primeiro operário a conquistar o cargo máximo do país. Uma façanha!

Seguiram-se anos de deslumbre, encontros com reis, rainhas e os grandes deste mundo, implantação da Bolsa Família, respeito às instituições, ‘companheiros’ se lambuzando de mensalões e petrolões, reeleição assim mesmo, carisma inabalável, popularidade nas alturas. Mandato terminado, alijado do poder, uma Justiça estrábica o despachou para o cárcere, situação que o senhor enfrentou com galhardia, não há como negar. Mas esses quarenta anos de política lhe ensinaram muito. O Lula de hoje tem pouco a ver com o da Vila Euclides.

Na penúltima eleição, o senhor não pôde tomar parte. O Brasil elegeu uma figura estranha, que depois se descobriria ter emergido do mundo das trevas. Esse singular personagem, aliado à mortal pandemia de covid-19, resultaram num quadriênio calamitoso em que um Brasil quase pária teve de se contentar em sentar-se num banco rebatível no teatro internacional.

O senhor foi eleito em 2022. Foi por um triz, é verdade, com margem diminuta de votos. Neste seu terceiro mandato, que finda este ano, sua quota de popularidade nunca mais atingiu os picos de antigamente. Nem o julgamento, a condenação e o encarceramento de seu predecessor e da malta golpista que o cercava foram suficientes para inflar a popularidade do senhor. Só esse fato deveria fazer piscar um farolão vermelho no Planalto. Atenção, os ventos giraram!

Com as semanas que passam, outras luzes se põem a piscar. Até o governo de Washington já se deu conta. As sondagens (nada discretas) de Donald Trump mostram que ele já não põe fé na vitória de Lula em novembro, apesar da “química” que teria rolado entre os dois naquele encontro na ONU. Designou até um representante especial para vir ao Brasil visitar Bolsonaro na cadeia. A visita só não ocorreu porque o STF e vosmecê bloquearam a tempo a bizarria. Onde já se viu encarcerado recebendo enviado oficial de governo estrangeiro?

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Registro civil

José Horta Manzano


“Não se deve considerar um natimorto como sendo um nada. Ele pertence à família. Não se pode castigar, com o esquecimento, uma tragédia que já é por si insuportável”foi o argumento contundente utilizado pelo ministro da Justiça da França ao defender, no Parlamento, a modificação da lei nacional de registro civil.


Até a Idade Média, o registro das pessoas naturais (nascimento, casamento e óbito) não era sistematizado. Foi só a partir do Concílio de Trento, encerrado em 1563, que a Igreja chamou a si essa responsabilidade. Determinou que as paróquias passassem a registrar os atos da vida civil dos fiéis.

Essa situação perdurou até a Revolução Francesa. Em 1792, constituindo um passo a mais no caminho da laicização da sociedade francesa, foi instituído o Registro Civil oficial – obrigatório e, muito importante: separado da Igreja.

Diferentemente do que conhecemos no Brasil, nos países europeus o Registro Civil é instituição do Estado. Sua gestão não é entregue a amigos do rei, mas a funcionários públicos. Não existe, portanto, a figura do “dono do cartório”. Dado que não “pertencem” a ninguém, não se herdam nem se vendem cartórios de registro de pessoas naturais.

Na França, portanto, faz mais de 200 anos que todos os nascimentos, casamentos, divórcios e falecimentos são obrigatoriamente declarados ao ofício de Registro Civil do lugar onde ocorreram. A obrigação de declaração se estende a crianças natimortas e àquelas que, embora nascidas vivas, não tenham sobrevivido.

O problema é que, até bem pouco tempo atrás, os natimortos não tinham direito a receber nome. É que a lei considerava que a personalidade jurídica de um indivíduo resulta do fato de ter nascido “vivo e viável”, ou seja, ter sobrevivido ao parto. Portanto, os natimortos não tinham personalidade jurídica; não a tendo, não podiam receber nome.

No Brasil, esse nó já foi desfeito. A lei 6.015 de 1973 autoriza a atribuição de nome ao natimorto. Com atraso de meio século, a França seguiu o mesmo caminho. A modificação da lei francesa foi aprovada por unanimidade no Senado e na Assemblée Nationale (Câmara dos deputados). Foi reconhecido o intenso sofrimento das famílias que enfrentam esse drama. A partir de agora, os natimortos e os que não sobreviveram ao parto têm direito a receber oficialmente um nome.

E a lei tem uma característica especial e pouco comum: é retroativa. Os oficiais do Registro Civil estão assistindo a um afluxo de pedidos de correção de registros, alguns de 30 anos atrás.

Politicamente correto
Até ontem, ainda se falava em “enfant mort-né” (criança nascida morta). A expressão foi suavizada. Hoje se diz “enfant né sans vie” (criança nascida sem vida). Mas a supressão da referência à morte não diminui o drama familiar. Como tantos outros corretismos políticos, é emplastro em perna de pau. Encobre a tragédia sem a suprimir.

Placa com bandeirinha

José Horta Manzano

Décadas atrás, uma resolução comum dos Estados do Mercosul estabeleceu a implantação das placas de automóvel ditas “Placas Mercosul”, uniformizadas para todos os países participantes, com formato idêntico e a menção da nação em caracteres pequenos.

De fato, os meios eletrônicos atuais dispensam a presença do guarda escondido à beira da estrada anotando num caderninho o número da placa dos infratores. Os radares, sozinhos, dão conta do recado. E já enviam os dados para uma central de processamento, mais rápido do que o guarda levaria pra chegar lá, mesmo viajando a 200 km/h montado em sua moto BMW.

No começo, houve muita reclamação, principalmente dos cidadãos simpatizantes da direita na política. É que sentiam arrepios só de pensar que estariam se dobrando a exigências do venezuelano Chávez, do argentino Kirchner e de outros detestáveis ‘comunistas’. Os cães ladraram, mas a caravana passou. A placa modelo Mercosul foi adotada nos países membros do agrupamento.

O senhor Esperidião Amin, senador por Santa Catarina, completará 79 anos este ano. De espírito bastante conservador, está na política desde bem jovem. Começou a carreira na Arena, partido oficial de apoio aos militares da ditadura. Dessa agremiação, por assim dizer, ele nunca saiu. Quem mudou de nome foi o partido, que se tornou PDS, depois PPR e por fim PP. Curiosidade: é o partido de Paulo Maluf, senador cassado.

O senador Amin elaborou um projeto de lei que pede que se dê marcha à ré nas normas das placas de automóveis, embora estejam já em uso há anos e tenham entrado na rotina de todos. O projeto de lei prevê que se reintroduza o que foi banido há anos, ou seja, a menção do município e do estado, assim como a bandeirinha do estado.

O senador e o relator do projeto de lei argumentam que essa informação nas placas ajuda a polícia e as autoridades a “identificar com facilidade a origem de um veículo infrator”. Ora, não se tem notícia de que os modernos radares e aparelhos de identificação de placas tenham tido algum tipo de dificuldade em “identificar veículos infratores”.

Argumentam também que “a iniciativa resgatará o significado cultural e identitário das placas, reforçando o senso de pertencimento à região e o orgulho local e facilitando a percepção pelos locais quando se tratar de veículos ‘de fora’.”

Ora, essa ideia está de ponta-cabeça. A supressão de toda menção à origem do carro (e do motorista) foi pensada justamente para apagar essa impressão de que o veículo é “de fora”.

O desconhecimento da origem do carro evita discriminações no tráfego. Previne agressões suscitadas pela antipatia que alguém possa sentir por esta ou aquela origem. Evita furtos e roubos perpetrados por maus elementos sempre atentos a turistas desavisados. No grau elevado de polarização que atualmente vivemos, a não menção da origem do carro é um salvo conduto; sabendo-se que determinados estados têm simpatia pela esquerda (ou pela direita), os turistas poderão viajar tranquilos fora de sua região.

No ar, fica a questão: Por que razão o senador anseia por uma volta ao passado no sistema de emplacamento de veículos? Quando se pensa que o trabalho de um senador há de ser muito mais elevado que a mera preocupação com bandeirinhas nas placas, uma dúvida logo surge: seria o nobre parlamentar sócio de uma firma fabricante de placas veiculares?

Não, não acredito. Não se deve enxergar o diabo por toda parte. Cá pra mim, a razão é bem mais prosaica. Extremamente conservador, se é que me entendem, o senador, que é catarinense, apoia o antigo presidente Bolsonaro, hoje preso.

Fazendo coro à doutrina de seus companheiros, que separam a população entre “cidadãos de bem” (como ele, naturalmente) e “cidadãos de baixo” (os demais), gostaria de identificar forasteiros intrusos que, sob o anonimato de uma Placa Mercosul, ousam adentrar seu estado natal.

Se pudesse, talvez instalasse uma aduana nas divisas de seu estado a fim de impedir a entrada desses indesejados que vêm macular o que ele supõe ser a pureza de sua civilização.

Nossos sonolentos senadores já aprovaram o projeto de lei. Ele continua seguindo seu caminho. Qualquer dia, virá a notícia nas manchetes. Aí, será tarde demais.

Micsoda megkönnyebbülés!

Péter Magyar

José Horta Manzano

O título em húngaro, uma língua de insondáveis mistérios, impressiona. Traduzido, fica menos assustador: “Que alívio!”.

Vistos do Brasil, acontecimentos europeus parecem distantes, sem relação com nosso universo. No entanto, num mundo em que tudo está cada vez mais engatado, tudo está de certa maneira relacionado.

Os húngaros votaram domingo. Dado que vivem num regime parlamentar, quem governa é o primeiro-ministro, que costuma ser o chefe do partido vencedor das eleições – como na Inglaterra e na Alemanha. Durante quatro legislaturas (16 anos), o populista Viktor Orbán, chefe do partido Fidesz, esteve à frente do governo.

Como costumam fazer os populistas de extrema direita, foi aos poucos impondo leis que estigmatizam minorias como os LGBTs, modificando a Constituição conforme suas conveniências, redesenhando os distritos eleitorais a fim de garantir sua permanência indefinida no poder. Aproximou a Hungria da Rússia, bloqueou toda ajuda à Ucrânia, e ainda, na reta final, recebeu uma ajudazinha de Trump, que, estes dias, despachou seu vice-presidente para levar apoio ao protoditador.

De repente, surgiu um certo Péter Magyar, jovem político de 45 anos, que criou um partido e decidiu desafiar Orbán. No começo, não pareceu encantar, mas em pouco tempo sua popularidade foi crescendo. Muitos húngaros viram nele o “homem da mudança”, aquele que poria o país de volta aos trilhos e acabaria com o já longo reino do Partido Fidesz. Como se sabe, o poder desgasta e os eleitores acabam se cansando de ver sempre a(s) mesma(s) cara(s). (É, de certa forma, o que está ocorrendo neste momento no Brasil.)

Num resultado que poucos ousavam esperar, o desafiante ganhou de lavada. Seu partido deve conquistar 138 dos 199 assentos do Parlamento contra 55 para o Fidesz. “Isso vai lhe garantir uma supermaioria constitucional”, escreve o Le Monde de Paris, “de cerca de 70% dos deputados”.

“A democracia triufou na Hungria”, resume o semanário alemão Die Zeit. “O conservador pró-europeu Péter Magyar destronou o nacionalista Viktor Orbán”, escreveu Le Figaro. Já Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, “esperou não mais que 17 minutos para comemorar a pesada derrota de Orbán”, nota a publicação Politico. Von de Leyen continuou: “A Hungria escolheu a Europa. A Europa sempre escolheu a Hungria. A União sai fortalecida”.

A participação ao voto, num país onde ele não é obrigatório, chegou a 80% dos eleitores, o que nunca havia acontecido desde a queda do comunismo. Budapeste, fiel à sua fama de cidade festeira, dançou e comemorou até o fim da noite. Le Figaro ainda anotou que a eleição “havia se transformado num grande referendo sobre Orbán e sua diplomacia pró-Rússia. Terá de se despedir após 16 anos de poder.”

O líder, que buscava um quinto mandato consecutivo, não demorou a “ligar para Magyar para dar-lhe os parabéns pela vitória. Logo em seguida, discursou para seus apoiadores para reconhecer sua derrota dolorosa”, destaca o espanhol El País. E prossegue: “Um resultado decisivo não apenas para a Hungria, mas também para toda a União Europeia”.

Os grandes desapontados vivem em Moscou e Washington. Chamam-se Vladimir Putin e Donald Trump. É que faz tempo que ambos estão empenhados em chacoalhar o coqueiro da União Europeia pra ver se conseguem desprender alguns cocos. A Hungria estava no bom caminho, próxima de Moscou e, surpreendentemente, apoiada por Washington. Não deu. O coco continua agarrado ao pé.

Quanto ao futuro da Hungria, é bom não soltar fogos antes da hora. Uma coisa são promessas eleitorais, outra coisa é a vida prática, na hora agá. O que a Europa e o mundo civilizado esperam do novo dirigente é:

  • que ponha freio à subida do autoritarismo no país,
  • que suspenda a política anti-imigração e anti-LGBT,
  • que não insista mais na aproximação com Moscou.

Por enquanto, nâo há certeza de que Péter Magyar corresponderá a essas esperanças. Vamos ver.

PS
Já imaginou se a Hungria tivesse acolhido o capitão quando ele tentou pedir asilo na embaixada húngara de Brasília? Era bem capaz de ser extraditado agora. Ficou no passado o tempo em que a gente fugia, desaparecia e ninguém mais encontrava.

Com informações de touteleurope.eu

Ganhadores, perdedores

José Horta Manzano

Donald Trump deve estar tiririca com Benjamin Netanyahou, o sanguinário primeiro-ministro de Israel. Tendo já visitado Trump seis vezes só neste segundo mandato, o israelense teve tempo suficiente para convencer o vaidoso americano de que tinha bolado um plano infalível para erradicar os aiatolás do Irã e lá instalar um regime pró-americano.

O projeto consistia em esperar que a alta cúpula estivesse toda reunida – aiatolá supremo e as mais altas autoridades. Nesse instante, de surpresa, o palácio onde se reuniam seria reduzido a pó, não deixando a mínima chance a nenhum dos participantes. Eliminados os chefes, acreditava o israelense, o regime ruiria, permitindo que o povo se sublevasse e exigisse a instalação de novo regime. Desta vez, pró-ocidental e filoamericano.

Já salivando de antegozo, Trump comprou a quimera. Parecia, de fato, jogada garantida. Só que nem sempre os planos seguem o roteiro. Às vezes, descarrilam. O palácio em que deliberavam os donos da ditadura foi, de fato, bombardeado e transformado em pó. O regime ficou acéfalo. Só que… não caiu. Qual imortal Hidra de Lerna, duas cabeças novas crescem imediatamente no lugar de cada cabeça decepada.

Além disso, o Irã tinha guardado no bolso uma capacidade de reação agressiva que não tinha sido usada até hoje. Seus mísseis mostraram pontaria bem superior à daqueles que tinham sido lançados sobre Israel quando da guerra de Gaza. Apareceram ainda seus temíveis drones de ataque, feitos de lata barata, mas terrivelmente eficazes. Americanos e israelenses levaram um susto grande. Apesar da vanglória de Trump, todo o poderio do maior exército do mundo foi incapaz de deter a ousadia iraniana.

O objetivo maior da guerra, que era, para os EUA, de pôr a mão sobre as reservas de gás e petróleo do Irã por intermédio de um novo regime amigo, ao estilo venezuelano, foi por água abaixo. Apoderar-se do estoque iraniano de urânio enriquecido foi outro objetivo que gorou – o material nuclear continua bem guardado nas montanhas persas. Para os agressores, o EUA e Israel, pode-se dizer que o esforço de guerra deu chabu. Os fogos não eram Caramuru.

Agora vamos conhecer os ganhadores e os perdedores.

Estados Unidos – Perderam tudo sem ganhar nada.
Perderam bilhões de dólares em dois ou três meses de deslocamento de porta-aviões, submarinos, navios de guerra, milhares de soldados, mísseis lançados, aviões de caça, drones, bombas. Sabe quanto custa um dia de deslocamento da armada americana? Eu também não sei, mas a conta deve passar dos bilhões por dia, se não for por hora.

Além disso, visto que todos os eleitores americanos não têm necessariamente o cérebro entupido ou fanatizado, o capital eleitoral de Trump deve estar hoje mais baixo do que estava antes da guerra. A infeliz aventura iraniana pode vir a custar-lhe as eleições de meio de mandato.

Quem sabe até a ducha fria acaba tirando da cabeça de Trump essa ideia de jogar bomba em país alheio. Pelo menos por enquanto.

Israel – Perdeu tudo sem ganhar nada
Para Israel o Irã representa um perigo existencial, visto que os aiatolás nunca esconderam seu desejo de eliminar o estado judeu. Logo, era Israel o maior interessado em derrubar o regime hostil da antiga Pérsia. Conforme vimos acima, não conseguiram. De quebra, Trump vai, durante algum tempo, guardar ressentimento contra seu colega Netanyahu por seu convite para uma guerra sem pé nem cabeça, sem plano e sem objetivo.

Irâ – Perdeu bastante, mas também ganhou
O Irã apanhou muito, perdeu a cúpula do regime, perdeu praticamente toda a sua aviação militar e sua marinha de guerra – é sempre mais fácil esconder urânio que aviões ou navios. Perderam pontes, edifícios, milhares de cidadãos incluindo crianças.

Por seu lado, o Irã ganhou respeito. Objeto de chacota até outro dia, o país deixou de ser olhado com desdém. Não fosse a opressão e a crueldade com que o regime trata seus cidadãos, o Irã passaria para o lado dos países de bem, simpáticos mas maltratados pelo Ocidente, como Cuba e Venezuela.

No frigir dos ovos, o próximo que tiver ideia de se meter com o Irã vai pensar duas vezes.

Das impropriedades linguísticas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Todo mundo vem comentando nos jornais e nas redes sociais a redação empolada e intencionalmente rococó de um jovem que prestava vestibular para a área de Direito e que levou zero na avaliação. Não quero jogar mais gasolina nessa fogueira e constranger ainda mais o infeliz moçoilo – que, a esta altura do campeonato, deve estar trancado no quarto, com a luz apagada e com a cabeça escondida debaixo das cobertas. Quero apenas mostrar como até a boa intenção de impressionar ouvintes/leitores com a própria suposta erudição pode conduzir o incauto direto para o inferno do vexame e da humilhação pública.

Os exemplos são tantos e os contextos tão diversos que só posso aconselhar aos que sonham impressionar os circunstantes com um discurso intencionalmente hermético que meditem sobre a seguinte frase de Nietzsche: “Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro. Aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro, uma vez que a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo”.

Ou que se inspire na encantadora sabedoria do linguajar caipira: “Sapo não pula por boniteza, pula por precisão…”

Alguns exemplos de impropriedades linguísticas que me ocorrem:

Situação real que vivi no início da minha carreira, quando trabalhava no setor de Recrutamento e Seleção de Pessoal. Durante uma entrevista com um candidato especialmente pernóstico, pedi que ele se apresentasse e falasse sobre sua experiência anterior. Sem qualquer sinal de constrangimento, ele lançou de súbito a seguinte bomba linguística: “Permita-me fazer um prêmbulo…”.

Contendo o riso, só pude responder ironicamente: “Faça quantos prêmbulos achar necessários”.

Ao que ele acrescentou: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

Dessa vez, não pude conter a risada. Apesar do susto com a inusitada confusão de palavras, começou a me parecer que o verbo substituto empregado estava, num determinado sentido, correto. Não pude deixar de considerar que, para burilar algo – seja um objeto ou uma ideia – é preciso mesmo manipular de forma libidinosa a coisa em questão, mudar sua posição no contexto repetidas vezes, examiná-la de diversos ângulos racionais e emocionais, atribuir a ela novos significados – até que se obtenha total satisfação. Prazer orgástico, sem dúvida.

Durante o governo Bolsonaro, o então Ministro da Educação, Abraham Weintraub, nos presenteou com um verdadeiro festival de gafes, erros gramaticais e ortográficos. Além da infortunada troca do nome do escritor Kafka por kafta, tivemos a chance de nos divertir com a substituição do conceito de “asseclas” pelo de “acepipes” e com dezenas de incorreções ortográficas como redigir “insitar” em vez de “incitar”, “antessessores” em vez de “antecessores”, e por aí vai. O então presidente do Inep não ficou atrás em termos de besteirol. Deu-se ao luxo de nos brindar com uma inusitada saudação aos “cidadões” brasileiros. Isso tudo, pasmem, como lídimos representantes da área da Educação.

Encontrar a palavra mais precisa para definir um estado emocional é um desafio quase insuperável, mas que tem grande importância. Uma das piadas de que mais gosto nesse sentido conta a história de um linguista que se apaixona por uma mulher casada. Contada originalmente na língua inglesa, ela faz sentido também em português: A mulher convida o amante linguista para sua casa numa tarde em que o marido estava fora, em viagem. Quando estão profundamente entretidos fazendo amor na cama do casal, a porta se abre abruptamente e o marido chocado entra e diz com voz trêmula: “Estou verdadeiramente surpreso…

O linguista interrompe o que estava fazendo, senta-se na cama, coloca os óculos e alerta: “Desculpe-me, senhor, mas surpresos estamos nós. O senhor deve estar atônito, estupefato, perplexo…”

O jornalismo televisivo é outra fonte de incontáveis impropriedades linguísticas. Todos os dias somos expostos a frases como “fulano entrou dentro do carro” ou “saiu pra fora de casa”, “as informações de que dispomos é…”. Nesse quesito, o campeão disparado foi, sem dúvida, o apresentador Luiz Bacci que, com uma cara compungida, anunciou ao final de uma reportagem: “Infelizmente, a vítima do assassinato morreu”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Uso de jatinhos

Elio Gaspari (*)

A recente crise do Supremo Tribunal Federal (STF) não se originou por opiniões de seus ministros, mas por suas ações, especialmente o uso de jatinhos de empresários.

Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques são citados por buscar conforto em aeronaves privadas, evitando a convivência com cidadãos comuns.

Esse comportamento revela um distanciamento da realidade e expõe a elite como aproveitadora de privilégios.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

O poder do cartão de visita

José Horta Manzano

Cartão de visita costumava ser adereço obrigatório na carteira de todo profissional. Logo depois das apresentações, vinha logo o pedido: “Pode me dar seu cartão?” Todos tinham cartão, até os que não tinham profissão. Estava ali anotado o nome do indivíduo assim como seu ofício, eventualmente o endereço e o número de telefone. Adolescente, cheguei a fabricar cartão em casa, à moda artesanal, batido à máquina e recortado com tesoura.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Não sei se o costume de mandar imprimir cartão de visita persiste ou se foi levado pela enxurrada da modernidade. Talvez uma troca de zap hoje baste. Sou incapaz de dizer, visto que meu último lote de cartões foi impresso mais de 30 anos atrás.

Uma notícia que li hoje – e que reproduzo na cabeceira deste texto – me lembrou o velho hábito da apresentação do cartão pessoal. Neste artigo, aquele retangulozinho de papel tem o significado de etiqueta. A etiqueta que se leva grudada na testa e que nos define com relação aos demais.

“Aquele senhor é médico”, cochichava-se discretamente à passagem do homem grisalho de ar sério.

“Olha o vendedor de aspirador! Ele bate perna de porta em porta, um trabalho estafante”, é o que se comentava sobre o rapaz de paletó surrado e calças idem.

“Puxa, repare na elegância do distinto. É deputado”. Bom, falava-se assim num tempo antigo. Hoje em dia, elegância não é exatamente o que salta aos olhos quando se fala de um parlamentar.

Mas não vamos escapar do assunto. Quero falar de segurança, aquela que o cidadão sente (ou deixa de sentir) no dia a dia, na estrada, na cidade, na praia, no tráfego e até dentro de casa de portas trancadas. O sentimento de insegurança que submerge o brasileiro não é produto de sua fértil imaginação. É a realidade inescapável, esmagante, oprimente, sufocante.

Dentro do bagageiro do inocente entregador de pizza, pode se enconder uma arma pronta a mandar para o paraíso qualquer um que ouse resistir a um assalto. Formicida pode se esconder dentro do pedaço de bolo que a vizinha gentilmente ofereceu ao pequerrucho. A vida da família inteira pode ser ceifada pela violenta colisão provocada pelo cidadão que usa seu veículo de luxo como arma abalada a 180km/h numa avenida urbana.

Há exemplos a cada minuto e em cada esquina. A violência verbal tornou-se marca típica de muita conversa antes pacífica. Há perigo em casa, na escola, no trabalho, no carro, no ônibus, no parque, no restaurante, no bar, até na igreja. O sentimento de insegurança não é produto de uma paranoia coletiva, antes, é real.

Ano sim, outro também, aumenta a percepção que o brasileiro tem do clima de violência em que vive. Os maiores espantalhos do país, em outros tempos, já foram o comunismo, a inflação, a corrupção. Hoje, sem sombra de dúvida, a assombração maior é a insegurança.

Acho curioso ver “ex-gestores da área de Segurança”, qual salvadores da pátria, se candidatarem a postos eletivos com base na experiência adquirida nesse ramo. Ora, num país em que a insegurança se tornou a preocupaçao número 1, esses “ex-gestores da área de Segurança” deviam mais é fugir dos holofotes, bater sua mea culpa, se envergonhar de não terem sido capazes de pôr fim ao problema, e desaparecer do picadeiro.

Pedir voto de confiança ao eleitor me parece petulância. Quem não resolveu o problema enquanto tinha poder para tal deveria reconhecer a própria incapacidade, dar adeus e ir-se embora.

O cartão de visita tem, sim, o poder de exaltar a personalidade de quem o apresenta. Mas não têm o condão de dourar o currículo de gestores fracassados.

Sapatos de abril

José Horta Manzano

Já devo ter contado esta história mais de uma vez. Aproveitando os ecos do primeiro de abril que acaba de passar, conto mais uma vez.

No fim de fevereiro de 1986, uma revolução popular não violenta derrubou o ditador filipino Marcos, que estava no poder havia duas décadas. Os EUA então deram uma mão ao poderoso caído e mandaram um helicóptero buscá-lo, assim como a digníssima esposa. O casal Ferdinand e Imelda Marcos foi então levado a uma base americana para posterior transferência ao exílio no Havaí.

Nessa corrida, deixaram tudo para trás. Com exceção dos fundos extorquidos do povo filipino (e devidamente depositados na Suíça e em outros lugares), todos os pertences dos dois ficaram em Manila. Entre outros bens, a fabulosa coleção de 3.000 pares de calçados de Madame e seu baú de joias. O exorbitante salão onde os sapatos eram armazenados causou muita surpresa aos que penetraram no palácio logo após a apressada fuga dos ocupantes. É compreensível. Nem grandes lojas de calçados costumam contar com estoque de tantos milhares de pares calçados de primeiríssima qualidade.

Logo chegou a Páscoa daquele ano. A Quinta-feira Santa caiu dia 1° de abril de 1986. Naqueles tempos pré-internet, a notícia incomum e curiosa foi trazida pelo jornal 24 Horas, da cidade de Lausanne – leitura quase obrigatória para a população. Um anúncio informava que no dia seguinte, feriado, das 14h às 18h, a coleção de sapatos da senhora Imelda Marcos seria vendida em leilão num dos salões do Lausanne Palace, um dos hotéis mais chiques da cidade.

No dia e hora anunciados, juntou gente no saguão do hotel. Meio tontos, recepcionistas passaram horas explicando aos desenxabidos visitantes que tudo não passava de… brincadeira de primeiro de abril.

Fosse hoje em dia, o diretor do hotel, assim como a parentela até o terceiro grau, seriam todos ‘cancelados’ e excluídos do maravilhoso mundo das redes sociais. Mas os tempos eram outros. Os cidadãos ainda sabiam fazer a diferença entre uma agressão e uma brincadeira.

Estes últimos anos, não tenho mais visto jornais pregando peças no dia 1° de abril. Acredito que esse sumiço do humor se deve à difusão universal da internet e das redes. De fato, o que se constata é o desaparecimento de toda verdade absoluta. Me explico.

Nos tempos de antigamente, para difundir sua opinião, o indivíduo tinha de mandar imprimir suas ideias num livro. Se não pudesse ou não desejasse, tinha de ir à tipografia e mandar tirar em centenas de exemplares um edital de não mais que uma página. Em seguida, tinha de bater perna pela cidade e enfiar um exemplar na caixa de cartas de cada casa. Que mão de obra, hein! Nem fale.

Hoje, como todos sabem, basta datilografar sua mensagem (pode até escrever com um dedo só, que ninguém vai ficar sabendo) e apertar a tecla “Envio”.

Pronto, agora todos podem dar a própria opinião sobre qualquer assunto e, se for o caso, contestar a verdade ouvida 10 minutos antes. Dado que cada um quer dar a própria opinião, a proposição verdadeira vai levando pancada, vai se deformando, vai se distanciando do original. Em pouco tempo, estará desvirtuada e já terá deixado de refletir a proposição inicial.

Só como exemplo, ainda outro dia parlamentares estavam querendo proibir, por lei, toda modificação ao que eles consideram a Bíblia padrão, imutável por definição. Erros de tradução cometidos nos dois últimos milênios ficariam, assim, congelados. Pela lógica, nenhuma nova tradução seria aceita. Parece que não passou. Até no Congresso, tem gente que se tocou que deputados e senadores não estão lá pra introduzir verdades religiosas na legislação nacional.

Portanto, visto que toda afirmação está sujeira a narrativas e modificações, já não faz sentido fazer brincadeiras de 1° de abril. Temos de nos contentar com as que já foram feitas no passado, que não haverá novas.

Daqui a alguns anos, volto a contar a história dos sapatos da mulher do ditador. Para as futuras gerações.