Lição de distributivismo

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

José Horta Manzano

Vamos imaginar uma situação. É um bocado irreal, mas serve para ilustrar o que quero dizer. Digamos que o distinto leitor, ao caminhar no centro da cidade, topa com um grupo de pessoas maltrapilhas, adultos e crianças. Dois homens, que parecem liderar o grupo, estendem a mão. Faz sol, o dia está bonito, você se levantou feliz e de bem com o mundo. Por isso, se dispõe a ajudar. Vasculha a carteira e tira de lá uma nota de 5 reais (ou 10, ou 20, ou 50 – dependendo do nível de generosidade do leitor).

Você estende a nota em direção aos dois, movimenta levemente o braço de um lado para o outro e diz: “Isto é para os dois; não tenho trocado, mas fica metade pra cada um”. Neste ponto, em vez de agradecer, um dos homens retruca: “Ei, moço (ou moça, se for o caso), metade pra cada um não está certo! O companheiro aqui tem dois filhos e eu tenho três. Mereço mais.”

Quem achou que a situação é absurda acertou. Ela é. Pra início de conversa, nos dias atuais, seria imprudente parar na rua diante de um grupo de cidadãos desconhecidos e, ainda por cima, remexer na carteira (ou na bolsa). Porém, há mais importante que isso: as regras básicas da civilidade ensinam que não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio.

Pois esse princípio elementar acaba de ser violado por um ministro de Bolsonaro. Foi na semana passada. Durante coletiva de imprensa organizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), doutor Queiroga, ministro da Saúde do Brasil, lançou um apelo. Falando de vacina anticovid, implorou a todos os países que tivessem doses sobrando que compartilhassem lotes com o Brasil.

Até aí, tudo bem. Pedir, todo o mundo pode. O enrosco vem agora. Petulante, o doutor aproveitou os holofotes para dar instruções aos hipotéticos doadores. Em verdadeira lição sobre distributivismo, acrescentou que “o acesso ao imunizante deve ser proporcional à gravidade da emergência sanitária”. Com isso, quis dizer que o Brasil merece receber mais que os demais, visto que nossa situação é mais embolada.

Tenho dois reparos. Primeiro, como já disse antes, não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio. Esse tipo de arrogância pega mal pra caramba.

Segundo, não se pode esquecer que o governo Bolsonaro – ao qual o ministro serve – não tem perdido ocasião, desde que a pandemia se instalou, para desancar a OMS, difundir notícias falsas sobre ela, acusá-la de ser partidária e de estar a serviço da China. O capitão imitou o comportamento de Donald Trump, seu ídolo, nesse desvario. Só que, agora que Trump se foi, Bolsonaro ficou no mato sem cachorro tendo de implorar à pérfida OMS umas sobras de vacina. Um vexame.

Não tivessem nossos dirigentes sido tão estúpidos e pretensiosos, o planeta inteiro estaria socorrendo o Brasil espontaneamente, como um punhado de países mais civilizados estão fazendo com a Índia. Não precisaria nem pedir, e muito menos ensinar aos socorristas como distribuir as doações.

Pátria voluntária

José Horta Manzano

Em excelente reportagem publicada estes dias, o Estadão esclarece que, desde que foi criado dois anos atrás, o programa “Pátria Voluntária” – coordenado pela senhora Michelle Bolsonaro – já distribuiu 27 mil cestas básicas e 38,5 mil kg de alimentos. Tendo em vista as profundas carências de nossa população, o balanço é meritório.

Só que… o quadro não é tão cor-de-rosa como parece. O programa de assistência da primeira-dama gasta muito mais com propaganda do que com doações. De fato, R$ 9,3 milhões foram utilizados para divulgar o programa, enquanto os assistidos tiveram de se contentar com R$ 5,9 milhões. Note-se que a propaganda não é feita com dinheiro de doações, mas com verba pública – dinheiro saído do bolso do distinto leitor. E do meu.

Para efeito de comparação, é interessante notar que, no mesmo período, uma única ONG, a Ação da Cidadania, doou um volume 50 vezes maior. Só de março de 2020 até agora, foram 14 milhões de quilos de alimentos, que beneficiaram 1,5 milhão de famílias.

Fica a desagradável impressão que o objetivo principal do programa da primeira-dama é a promoção do clã presidencial. O esquema é simples: o dinheiro arrecadado com doações vai para a compra de alimentos, enquanto a portentosa verba de propaganda é garantida com nosso dinheiro. No final, fica assim: nós pagamos, o clã aparece bem na foto e os pobres recebem umas migalhas.

Lembra-se daquele ministro esquisito que, aboletado no Itamaraty, aporrinhou nossas relações exteriores durante dois anos? Ele declarava orgulhar-se de o Brasil (dele) ser um pária internacional, lembra? Ao ver a notícia do programa assistencial de Madame Bolsonaro, li o título com mais rapidez do que meus velhos olhos conseguem acompanhar. Na pressa, tive a nítida impressão de que estava escrito “Pária Voluntária”.

Acho que foi ilusão de óptica. Ou não.

Soropango da vingança

José Horta Manzano

Para reavivar memórias de infância.

Se meu jovem leitor está ainda na casa dos vinte ou trinta anos, o que vou dizer agora parece vindo direto do planeta Marte: nos anos 1950, as crianças do Brasil brincavam na rua. Yes! Na rua, pé no chão, em cima dos paralelepípedos! Nas pequenas e até nas grandes cidades! Era um tempo em que ninguém era obrigado a fugir de bandido nem de bala perdida. Para os brasileirinhos de hoje, deve até parecer invenção da mídia intriguenta.

Naquele tempo sem televisão e sem videogame, os maiorzinhos jogavam pelada, enquanto os pequeninos brincavam de roda. Meninos e meninas misturados, que a sexualização da pequena infância ainda não estava em voga.

No hit parade, figurava o Soropango da vingança, uma cantiga importante. Como em todos esses cantos populares tradicionais, todo o mundo conhecia a mesma melodia, mas havia inúmeras versões da letra – cada família tinha a sua. As palavras eram misteriosas, desconexas, sem pé nem cabeça, mas ninguém ligava muito pra isso. O importante era que letra e música se encaixassem. Com a repetição, a cantiga acabava se fixando na memória. A prova de que repetir é bom pra decorar está aqui: passadas tantas décadas, a gente se lembra de tudo, de cabo a rabo.

A letra que aprendi com minha turminha era assim:

Soropango da vingança
Toda a gente passa lá

A costureira faz assim,
Faz assim também assim;

A passadeira faz assim,
Faz assim também assim;

A lavadeira faz assim,
Faz assim também assim.

E aí desfilavam todos os ofícios que a criançada conhecia – e que pudessem ser mimados.

Há quem diga que Soropango da vingança era calcada sobre a antiquíssima cantiga francesa Sur le pont d’Avignon (Na Ponte de Avignon). É verdade que, depois de passar pelo filtro da língua popular, “sur le pont” pode bem ter virado “soropango”, assim como “d’Avignon” é bem capaz de ter  se tornado “da vingança”. É verdade também que o espírito da cançoneta é o mesmo. Tanto a francesa medieval quanto a nossa colonial mimam os gestos de pessoas ou de artesãos.

No entanto, em desagravo à musicalidade de nossa alma cabocla, frise-se que a melodia de nosso “Soropango” é bem diferente da francesa. Faz até parecer que o criador da cantiga brasileira pescou a ideia no original e criou melodia própria. Em todo caso, nossa versão é bem mais melodiosa que a original.

Sur le pont d’Avignon
Encontrei a versão francesa no youtube. Está aqui

Soropango
No youtube, não achei nosso Soropango. Que não seja por isso: fiz uma gravação caseira da melodia que me ficou na memória. Está aqui.

Curiosidade
Um vilarejo da Costa do Marfim leva o nome de Sorobango. Imagino tratar-se de pura coincidência fonética.

O que se leva desta vida

Dr. Oswaldo Cruz e a vacina
charge de Arthur ‘Bambino’ Lucas (?-1929), desenhista carioca

 

José Horta Manzano

No começo do século 20, surtos frequentes de varíola assolavam o Rio de Janeiro. Embora a vacina antivariólica tivesse sido criada cem anos antes, o governo nunca havia organizado nenhuma campanha de imunização em massa. Em 1904, a Saúde Pública instituiu a vacinação obrigatória contra a varíola, fato que acendeu o estopim de uma rebelião popular que ficou conhecida como Revolta da Vacina.

É interessante notar que não foram as estatísticas de doentes que ficaram na história, mas a Revolta da Vacina. A varíola causou certamente mais sofrimento e perdas humanas do que a revolta, mas a história guardou o fato mais espetaculoso, aquele que botou mais medo que a doença.

Neste começo de século 21, os humanos estão tendo de encarar assalto de doença nova: a covid-19. Dado que o mal é recente demais, no ano passado ainda não havia nem vacina pronta pra ser usada.  Dezenas de laboratórios trabalharam com afinco e, para surpresa de todos, vários deles conseguiram oferecer imunizantes, menos de um ano depois da notificação do primeiro caso. Uma façanha!

O mundo se jogou em cima dessas novas vacinas. Israel, por exemplo, foi ainda mais rápido que os outros; contratou, recebeu, aplicou antes dos demais. Hoje está com quase todos os habitantes vacinados.

O Brasil de Bolsonaro desviou da rota do bom senso e seguiu em direção oposta. O presidente fez (e continua fazendo) campanha contra a vacinação. Sem se dar conta do mal que já causou e que continua a causar, não perde ocasião pra mostrar animosidade contra tudo o que possa limitar o alastramento da epidemia: máscaras, confinamento, distanciação social e, naturalmente, vacinas. Esta não presta porque é chinesa; aquela não compro porque não me ofereceram; aqueloutra nem pensar porque te transforma em jacaré. No fundo, a gente fica desconfiado que, na verdade, ele deve ter medo de injeção.

É difícil prever, especialmente o futuro – como diz o outro. Mas fazer previsões a longuíssimo prazo é moleza e não compromete; de qualquer maneira, quando chegar o tempo previsto, nenhum de nós vai mais estar aqui pra conferir. Então, vamos lá.

Daqui a cem anos, quando tivermos virado pó, os livros de história vão mencionar o turbulento período 2020-2021. Creio que o comportamento de Bolsonaro vai ser mais comentado do que a epidemia em si. A passagem do tempo vai escancarar cada vez mais a responsabilidade do doutor.

Assim como falamos hoje da Revolta da Vacina de 1904 mas esquecemos de contar as vítimas da varíola, nossos descendentes crucificarão Bolsonaro como o responsável pela ausência da vacina que teria estancado o morticínio.

Ele será um Joaquim Silvério dos Reis do século 21, o homem que traiu a confiança que nele haviam depositado os cidadãos. A história das nações está recheada de mitos que simbolizam tanto episódios gloriosos, quanto momentos execráveis. Bolsonaro vai entrar para a galeria de “mitos” brasileiros, a representar o papel de traidor dos ideais da nação. Será o símbolo de tudo o que o Brasil não quer.

Sina

José Horta Manzano

Internet e redes sociais têm seu lado bom. Se assim não fosse, não teriam conquistado tantos adeptos. A informação instantânea (que hoje convém dizer “em tempo real”) é bom exemplo dos benefícios.

Nos tempos de antigamente, um meio muito utilizado de transmitir informação era o “telefone sem fio” ou “boca a boca”. Não era sofisticado, mas tinha sua graça. Logo após ter se inteirado de uma notícia, a gente corria pra informar algum conhecido.

– Você soube da novidade?

– Não. O que é que foi?

Neste ponto, o bom da coisa era contar o que tinha ocorrido e parar pra observar a cara de espanto do interlocutor. Era uma sensação impagável.

– Noooossa! Não diga!

– Digo, sim. E digo mais.

E aqui se acrescentava algum comentário pessoal. Como se sabe, quem conta um conto aumenta um ponto.

E assim seguia. Terminada a conversa, cada um seguia seu caminho pra continuar a espalhar a notícia.

Diálogos assim, hoje, são mais raros. Com o celular sempre no bolso, (quase) todos ficam sabendo de (quase) tudo ao mesmo momento. Não tem mais graça perguntar “– Soube da novidade?”. Normalmente, a resposta será “– Soube, sim.”

Nem tudo, porém, é cor-de-rosa. Há gente que exagera na dose e tem nas redes sociais seu único canal de informação. Não é o caso do distinto leitor, naturalmente, visto que chegou a este blogue caminhando com as próprias pernas. Está ficando cada vez mais raro ver gente que usa as próprias pernas para andar; muitos por aí andam caminhando com as pernas alheias. Parece cômodo, mas pode ser nocivo a longo prazo. Massa cinzenta pouco utilizada acaba se atrofiando.

Essa dedicação exclusiva e em tempo integral às redes pode causar distorções em certos momentos. Em política, na hora de escolher candidato para eleição majoritária (presidente, governador, prefeito), esse hábito trabalha contra o eleitor, visto que limita sua liberdade de escolha.

A frequentação permanente das redes acaba por fagocitar outros canais de comunicação que costumavam ser usados entre candidatos e eleitores. Debates, por exemplo, em que cada pretendente tem ocasião de expor as próprias ideias, estão em processo de rápida perda de importância.

Esse estreitamento dos canais de informação dificulta o aparecimento e a ascensão de novos candidatos, enquanto favorece a reeleição dos nomes mais conhecidos. Para as presidenciais de 2022, o quadro se delineia cada dia com maior nitidez.

Um terceiro candidato, fora do binômio Lula x Bolsonaro, tem pouca chance de se fortalecer eleitoralmente. Esses dois personagens são tão conhecidos, que um terceiro será naturalmente menos popular do que eles. E terá menos espaço nas redes, o que limitará suas chances de sucesso.

Salvo acontecimento extraordinário, os dois nomes que o país inteiro conhece – o do ex-presidente (e ex-presidiário), e o do atual presidente (e futuro presidiário?) – têm todas as chances de aparecer na cédula do segundo turno.

Eta carma pesado, o nosso!

A ignorância faz estragos

José Horta Manzano

“É preciso justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas.”

Jair Bolsonaro, em discurso na Cúpula do Clima 2021

É verdade que ninguém presta muita atenção ao que se diz em reuniões espetaculosas como a Cúpula do Clima destes dias. Convidar líderes de 40 países é muita coisa. As palavras que cada um possa ter pronunciado se perdem na algaravia. Quando o 23° termina de falar, todos já esqueceram o que o 14° tinha dito. Cada um analisa o que o dirigente do próprio país declarou, sem se ater ao que possam ter declarado os demais.

O interesse geral está no pronunciamento daquela meia dúzia de líderes que realmente contam: EUA, China, Rússia, França, Alemanha – pouco mais ou menos. O resto é o resto. Assim mesmo, as palavras ali pronunciadas vão permanecer nos anais para todo o sempre. Sempre há quem vá se referir a elas em negociações futuras. Por isso, convém ser comedido e pensar muito antes de discursar. Antes de abrir a boca, é bom ter certeza da exatidão do que se vai afirmar. Infelizmente, a afligente ignorância que atinge nossos dirigentes costuma pregar peças no presidente de turno.

Soprada por sabe-se lá qual ministro iluminado, uma frase enigmática sobressaía do discurso de Bolsonaro. É a que cito no cabeçalho deste artigo. Trocando a ideia em miúdos e utilizando o fino vocabulário do clã que nos governa, fica assim: “Não me encham o saco, senão ainda vou acabar apresentando a conta; vocês, que são ricos, têm de me pagar por lhes fornecer o ar que respiram”. Uma finura que só.

Passando por cima da demonstração pública de mesquinhez e da evidente demonstração de que o Brasil está na defensiva, a ideia comporta grave erro de raiz. Certamente não haverá consequências, visto que ninguém leva Bolsonaro a sério, mas o engano está lá, registrado para sempre nos arquivos implacáveis da internet.

A turma palaciana deve ter achado o máximo entrar com mais essa ameaça. Devem ter-se sentido superinteligentes. Não sabem que são de uma pobreza intelectual deplorável. Se não estivessem brigados com a ciência, bem que podiam ter perguntado a alguém que entende do riscado, mas acredito que não deva ter sobrado nenhum cientista sério nas cercanias desse governo.

O problema é que a ameaça de Bolsonaro não tem base na realidade. Diferentemente do que creem os áulicos do Planalto, “pulmão da Terra” não são as florestas, mas os oceanos. Se o planeta dependesse unicamente da vegetação para regenerar o ar que respiramos, faz tempo que a vida estaria extinta. Não estaríamos aqui sorrindo das bobagens que o presidente pronuncia.

O oceano abriga bilhões de toneladas de pequeninos seres invisíveis a olho nu: é o plâncton, formado por organismos microscópicos. Eles representam mais de 95% da biomassa marinha e são compostos por vírus, larvas de peixe, bactérias, microalgas, minúsculos crustáceos. A porção vegetal desse batalhão invisível – o fitoplâncton – responde pela maior parte da regeneração da atmosfera. No ciclo do oxigênio, não seria correto dizer que o papel das florestas não conta, mas o dos oceanos é infinitamente mais importante.

Se tivessem sabido disso antes de bolar o discurso do presidente, os sábios do Planalto talvez tivessem tido o cuidado de verificar quem são os donos dos maiores nacos de oceano, ou seja, aqueles que mais contribuem para a regeneração da atmosfera. Os sábios talvez não estejam a par, mas os almirantes da Marinha certamente sabem que os países com saída para o mar dispõem de uma ZEE (Zona Econômica Exclusiva) de 200 milhas de extensão. Trata-se da zona marítima sobre a qual esses países têm direito exclusivo de exploração mineral e comercial – o que inclui a pesca e a exploração petrolífera. É a porção de mar que, de certo modo, pertence a cada país.

Por razões históricas que não vêm ao caso agora, certos países dispõem, além do território principal, de ilhas e arquipélagos ao redor do planeta. Acontece que a regra das 200 milhas também se aplica a cada uma dessas ilhas, o que resulta num quadro inesperado. O país que possui a maior área marítima é a França, dona de 11,6 milhões de km2 de Zona Econômica Exclusiva. Coladinhos, vêm os EUA, com 11,4 milhões de km2. Seguem-se a Austrália, a Rússia e o Reino Unido. O Brasil, que tem poucos arquipélagos de alto-mar, aparece na 10ª posição, com 3,8 milhões de km2 – um terço da área de cada um dos dois campeões.

Assim sendo, pela régua de um ingênuo Bolsonaro, que ousou falar em “remuneração pelos serviços ambientais prestados”, quem estaria no direito de apresentar a conta ao mundo não é o Brasil, mas a França e os EUA, países que aparecem quase empatados na primeira colocação.

Mas não o farão, porque têm bom senso. Bolsonaro tampouco o fará porque dinheiro a ele, assim, de mão beijada, ninguém vai dar.

Estratagemas

Rei Balduíno

José Horta Manzano

No dia 3 de abril de 1990, pouco antes da meia-noite, os ministros do governo belga se encontraram para uma reunião de crise. Após uns minutos de deliberação, constataram que o rei estava “impossibilitado de reinar”.

No dia seguinte, a decisão foi publicada em edição especial do jornal oficial do país, o que permitiu ao primeiro-ministro e aos demais ministros tomar as rédeas do governo e assumir as funções do monarca.

O rei Balduíno estava em perfeito gozo de sua saúde física e mental. Como é possível, então, que tenha sido julgado “impossibilitado de reinar”? Para entender, é preciso voltar no tempo. Uma semana antes, depois de anos e anos de hesitação, o parlamento tinha aprovado uma lei de descriminalização do aborto voluntário. Para a entrada em vigor, só faltava a sanção do monarca.

O problema é que o rei Balduíno, católico fervoroso, se recusava a promulgar a lei. Afirmou que não assinaria o documento nem se o papa lhe pedisse. Não queria que seu nome ficasse para sempre ligado a uma lei cujo teor colidia frontalmente com suas convicções. Diante do impasse, constitucionalistas encontraram uma saída – um tanto ousada e fora de esquadro, é verdade, mas servia pra contornar o problema.

Assim que a real interdição foi publicada no órgão oficial, os ministros, agora únicos responsáveis, assinaram e promulgaram a lei. No dia seguinte, o ministério se reuniu novamente. A ordem do dia era uma só: discussão sobre a interdição do rei. Após rápida deliberação, a interdição foi anulada e Balduíno foi de novo julgado “apto a reinar”. No dia seguinte, a boa notícia foi sacramentada pelo diário oficial e o monarca recuperou o trono.

No Brasil, faz uns dias, situação análoga estava se desenhando. Os deputados federais haviam votado um orçamento que desrespeitava as leis vigentes. Suas Excelências, cujo único interesse parece ser permanecer no poder para todo o sempre, sabiam o que faziam ao votar a peça. Mas deixaram o abacaxi para o presidente descascar.

Bolsonaro sabia que, se sancionasse o orçamento como foi votado na Câmara, estaria cometendo crime de responsabilidade, o que poderia levar à abertura de processo de impeachment. Se não o sancionasse, entraria em choque frontal com Suas Excelências que, em represália, poderiam até abrir… um processo de impeachment – há dúzias cochilando na gaveta da Mesa Diretora.

Foi quando surgiu a ideia de uma malandragem salvadora. (Afinal, nesta altura do campeonato, não é um trambique a mais que vai arruinar de vez o currículo do presidente.) Bolsonaro embarcaria num avião com destino ao exterior, para uma viagem de um ou dois dias. Por seu lado, Mourão, o vice-presidente, também deixaria o país. Assim, a via estaria livre para o presidente da Câmara, que é o nome seguinte na linha de sucessão, assumir a Presidência. Ele sancionaria a lei do orçamento, e pronto: Bolsonaro escaparia ao risco de destituição.

O cenário parecia bem desenhado. Quando chegou a hora dos finalmentes, veio a pergunta: “Muito bem, e Bolsonaro viaja para onde?”. Foi aí que caiu a ficha.

Os estrategos do Planalto foram obrigados a encarar a realidade: nenhum país está disposto a receber Bolsonaro. Nem vizinhos próximos, nem os mais distantes, nem Europa, nem Estados Unidos. À África, ele tem medo de ir. Viajar à Polônia, país que talvez o recebesse, fica complicado, porque a distância é muito grande.

Não, minha gente, não deu. E a ideia foi abandonada.

Chapéu na mão

José Horta Manzano

Em 2019, assim que assumiu a Presidência, Bolsonaro se indispôs com meio mundo. Nas relações exteriores, brigou com vizinhos e com todos os países amigos – com exceção dos EUA de Trump.

Aconselhado pelos luminares que o cercam, o capitão cuspiu em cima das doações milionárias da Alemanha e da Noruega, destinadas à preservação da Amazônia brasileira. Ofendido, deu a entender que o Brasil tinha como ponto de honra a manutenção da própria soberania. O recado passado ao mundo foi o de que não precisávamos nem desejávamos dinheiro de ninguém. Éramos crescidinhos e suficientemente fortes para cuidar de nosso território nós mesmos, sem interferência nem participação externa.

Para esta semana, Joe Biden convocou uma cúpula sobre o clima, com a participação de 40 líderes planetários. Bolsonaro está sendo esperado. Em contradição total com a arrogância de dois anos atrás, nosso “mito” fará uma apresentação humilde e indigente. Anunciou que pretende entrar de chapéu na mão, pedindo esmola. Deverá apresentar a chantagem que o Planalto preparou para confrontar o resto do mundo: ou me dão 10 bilhões de dólares por ano, ou a Amazônia brasileira vai continuar minguando até desaparecer. Se assim procederem, nossas autoridades vão transmitir a imagem de um Brasil empobrecido mas sempre vigarista. Como todas as iniciativas do governo atual, esta também é fruto de burrice entranhada. É impressionante como falta inteligência àquele pessoal.

Por certo não estão se dando conta de que a proposta é confissão pública e definitiva de impotência. A chantagem tupiniquim vai escancarar a realidade e dar razão aos que sugerem a internacionalização da floresta tropical. De ora em diante, todos saberão que, sem ajuda externa, o Brasil não tem condições de cuidar do próprio território.

Fica mais uma vez comprovado que os repentes de patriotismo bolsonárico não passam de patriotadas para a galeria. Na hora do vamos ver, é rabo entre as pernas e pires na mão.

Tratamento precoce

“Kit covid”

José Horta Manzano

Não posso saber qual era a intenção das autoridades que conceberam o “kit covid”. Não está claro, pelo menos para mim, se a intenção era curar ou prevenir a doença – se os remédios são curativos ou preventivos.

Não foi boa ideia dar ao coquetel de remédios o nome de “tratamento precoce”. Pra começar, precoce é palavra um tanto ambígua, visto que seu significado pode variar dependendo do contexto. Além disso, o termo não pertence à língua de todos os dias, ou seja, muita gente simplesmente não sabe o que significa.

No meu entendimento, para que a expressão “tratamento precoce” faça sentido, é preciso que o paciente já esteja doente, isto é, que já tenha contraído o vírus. Não se trata alguém que ainda não está doente.

Admitindo que a intenção dos criadores fosse tratar os doentes em estágio precoce, é preciso constatar que muitos estão entendendo que o famigerado “kit covid” é um preventivo, isto é, uma espécie de imunizante que se toma para não ficar doente.

Agora dá pra entender por que há tantos infelizes sofrendo as consequências de ter tomado os medicamentos do “kit”. Elas podem ser violentas. Há quem passe a sofrer insuficiência hepática, renal ou cardíaca. Há quem entre para a fila dos transplantes. Há muitos que infelizmente não resistem e acabam falecendo.

Entre os que sofrem essas consequências, deve haver muitos que, sem haver contraído covid, ingeriram os medicamentos do “kit” como preventivo. É trágico imaginar que, pensando escapar de um mal, recebam o terrível abraço de outra doença que os acompanhará até o túmulo.

Ontem, dia 18, o jornal O Globo publicou artigo esclarecedor que conta a pressão que autoridades vêm exercendo sobre o corpo médico lotado em hospitais por todo o país. O texto em pdf está aqui à disposição do distinto leitor.

Lula livre

José Horta Manzano

De médico e de louco, todos temos um pouco. De estridente e de rouco, todo STF tem um pouco. Nosso tribunal maior é uma caixinha de surpresas. No caso do Lula, depois de uns dez anos de processo e um ano e meio de cadeia, resolvem que não valeu. Tudo volta à estaca zero. Um vício processual insanável acaba de ser descoberto. Tchau e desculpe qualquer coisa aí.

Para o Lula, até que a conta saiu barata. Se analisarmos o conjunto da obra, se somarmos todo o prejuízo que ele e sua turma deram ao Brasil, se pusermos na balança os bilhões roubados e a falta que esse dinheiro fez para o povo, chegaremos à conclusão de que, com um ano e meio de xilindró, a travessura saiu em conta. Eu disse xilindró? Engano! Aposentos de luxo com sala de visitas e suite, isso sim.

Falando nisso, quem deve estar cada dia mais apavorado de terminar seus dias encarcerado é o Bolsonaro. Ele já deve ter percebido que, assim que sair da Presidência, um camburão o espera. Ok, vamos tirar o exagero. Não vai direto dar um passeio de viatura, mas enfrentará uma enxurrada de processos, isso é certeza. Ele sabe que o dia da prestação de contas está chegando. Eis por que sonha com um golpe militar que o mantenha no trono. Quanta ilusão…

Lula e Bolsonaro são irmãos xifópagos. Um não existiria sem o outro. Sem Lula, não teria havido Bolsonaro. E agora, do jeito que vão as coisas, o ex-militar vai ceder o lugar ao ex-sindicalista. Cada um deles só sobrevive politicamente em função do outro. Em teoria, se Bolsonaro saísse de cena agora – digamos que renunciasse, se aposentasse e se mudasse para as Bahamas –, as chances presidenciais do Lula cairiam vertiginosamente. Sobraria aquele núcleo duro de devotos que não passam de um terço do eleitorado.

Vai ser dramático apertar os botões da urna na próxima eleição. No primeiro turno, ainda há opção, porque sempre aparece uma renca de candidatos. Já no segundo, se a dupla for Lula e Bolsonaro, ai Jesus! Vamos ter de escolher entre a peste e a cólera. Será um dilema no verdadeiro significado da palavra: uma escolha entre duas opções ruins.

Mas algo me diz que o cenário vai se desanuviar antes do fim do mandato do capitão. Em vez de camburão, uma ambulância é que vai entrar qualquer dia destes pela porta dos fundos do Planalto. Dela vão descer quatro enfermeiros carregando sedativos e uma camisa de força pra embarcar o psicopata.

Farol

José Horta Manzano

Certas imagens que nos vêm à cabeça são irreprimíveis, impossível afastá-las. Ultimamente, tenho enxergado Bolsonaro como um farol de ponta-cabeça.

Como todos sabem, farol é um instrumento de sinalização luminosa, implantado em lugar alto e próximo à costa, que atua como ponto fixo de referência para orientar a navegação.

Pois eu vejo nosso presidente como farol virado de cabeça para baixo. Em vez de orientar as naves que buscam a luz, serve de guia e de polo de atração para criaturas das profundezas, aquelas que se movem nas trevas e lá pretendem continuar.

De fato, parece que esse homem só atrai coisa ruim. Nosso presidente justifica o dito “dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és”. Os que andam com ele boa coisa não são.

E vice-versa: aqueles que Bolsonaro rejeita já contam com um ponto a favor. Não conheço esse senador a quem ele ontem, com sua proverbial elegância, chamou de ‘bosta’; mas deve tratar-se de um bom rapaz. Pode até ter seus defeitos, mas não cometeu o pecado maior: não se vendeu ao capitão.

Lula não tem emenda

Lula pede desculpas aos italianos: “Sobre Battista, errei”  –   La Repubblica, Turim

José Horta Manzano

Todos devem se lembrar do maior vexame internacional que Lula da Silva impôs ao Brasil. Foi quando, no último dia de seu mandato (31 de dez° de 2010), se recusou a entregar o terrorista Cesare Battisti à Itália. A surpreendente decisão contrariava o STF, atropelava o bom senso e envenenava as relações entre os dois países. A insinuação de que a Itália não tinha sabido julgar o homicida foi recebida, por lá, como afronta, um tapa na cara.

Mas ninguém perde por esperar. O dia do acerto de contas sempre acaba chegando. E chegou para ambos. Por ironia do destino, acabaram os dois atrás das grades. Lula, por ano e meio; Battisti, para o resto de seus dias.

Em março de 2019, já preso na Itália, o terrorista respondeu a um interrogatório. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

A confissão pôs nosso guia em posição desconfortável. Como sustentar agora a tese de que o terrorista era inocente, nada mais que um perseguido político? Lula, na época, estava numa masmorra de Curitiba. Posteriormente, apesar de seu costume de proferir ‘quase verdades’, não houve jeito. Teve de reconhecer que estava errado, mas fez durar o suspense: disse que, se fosse necessário, pediria desculpas.

O momento chegou. Faz uns dias, foi entrevistado pelo segundo canal da RAI (Radiotelevisão italiana). Realmente pediu desculpas aos italianos. Só que a maneira como apresentou o assunto anulou o que tinha acabado de dizer. Deu com uma mão e tirou com a outra.

Para justificar o asilo concedido, Lula confessou que estava enganado sobre Battisti. Acreditava que fosse inocente. Até aí, está no limite do aceitável. Em seguida, admitiu só ter se convencido quando o homem, já preso na Itália, assinou a confissão diante de um juiz.

Ficou claro que, se esperou até ouvir a confissão da boca do próprio Battisti, é porque acredita mais na palavra do encarcerado do que no veredicto da justiça italiana. Portanto, apesar do pedido de desculpas, segue ofendendo a justiça daquele país, ao considerar que o que vale mesmo é a palavra do terrorista.

Dos relatos que li na imprensa italiana, nenhum se ateve a esse ponto. Acho que, tão embevecidos estão com as sempre sábias palavras de nosso ‘pai dos pobres’, que se esquecem de analisar o que ele diz. Este blogueiro, que nunca esteve embevecido pelo personagem, não deixou escapar.

Promete mas não entrega

José Horta Manzano

Bolsonaro declarou ontem que ”resolve o problema do vírus em poucos minutos”. Falou assim, mas não deu a receita tim-tim por tim-tim, o que deixa uma leve suspeita de que não passe de (mais uma) bravata.

O presidente limitou-se a declarar que o que falta é dinheiro. Como de costume, aproveitou para ser grosseiro e acusar a imprensa de misteriosas malversações, ao revelar que o dinheiro que ‘governos anteriores’ pagavam aos grandes jornais do país não era para a imprensa, mas para ‘outras coisas’. Não explicitou que ‘outras coisas’ seriam.

Se o problema de combate ao vírus fosse simplesmente questão de dinheiro, países ricos já estariam livres da praga. É verdade que, sem dinheiro, um país está condenado a conviver com a desgraça por muitos anos. Não é o caso de nosso país. Nos altos círculos da República, dinheiro parece brotar em árvores. Aos bilhões.

Dinheiro, há. Acontece que ele, por espantosa incompetência, está sendo mal utilizado. Com gastos em cloroquina, com material esquecido em armazéns do exército, com investimento em desinformação, não há dinheiro que chegue. Quantas vacinas, seringas, agulhas, respiradores poderiam ter sido comprados com os bilhões – de nosso dinheiro! – que Bolsonaro usou pra cooptar o Centrão?

Como se vê, nosso presidente continua discursando para seus devotos. Ele e os que o aplaudem não sobreviviriam em outro ambiente que não fosse de ódio e revolta o tempo todo. É assim que essa gente funciona. Já faz tempo que Bolsonaro percebeu isso. Daí a insistência em insuflar os maus instintos de quem os tiver.

Bolsonaro e a fome

José Horta Manzano

Parece que faz uma eternidade, mas foi em julho do ano passado, não mais que nove meses atrás. A história se passou durante um café da manhã que doutor Bolsonaro ofereceu a jornalistas da imprensa internacional. Naquele tempo, o presidente ainda convidava jornalistas para encontro face a face e ainda se dignava de responder às perguntas.

Quando um dos profissionais levantou o problema da pobreza e da fome no país, o doutor respondeu de bate-pronto: «Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira!» E ensinou que não precisa nem de dados estatísticos; basta prestar atenção no fato de não se ver «gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo».

Duzentos e sessenta dias e uma pandemia depois, muita coisa mudou. Já faz tempo que o doutor deixou de receber jornalistas sérios. Se já não lhe agradava ter de responder a perguntas, hoje agrada ainda menos. De lá pra cá, a pandemia pegou forte, ministros caíram, Trump se foi, o Exército está se esquivando das locuras federais, a aposta no Centrão está se revelando um furo n’água.

Faz alguns dias, o Instituto PoderData publicou pesquisa feita em mais de 500 municípios de todas as unidades federativas. O que se buscava saber era como a pandemia tinha afetado a alimentação dos brasileiros. O resultado é triste de fazer dó.

Adicionando os que têm comido menos que de costume e os que têm passado fome, chega-se a assustadores 36%. Isso significa que 1 em cada 3 brasileiros estão em situação crônica de insegurança alimentar. Com ou sem pandemia. Um em cada três cidadãos!

Pra se dar conta do mundaréu de gente que isso significa, o distinto leitor está convidado a passear a pé pelo centro de sua cidade. Vá andando e observando os que vêm em sentido contrário. E vá contando: ‘este não, este não, este sim. (O sim corresponde aos que estão na corda bamba, sem dinheiro suficiente pra matar a fome hoje.) Pode continuar: ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim. Não é angustiante?

Isso significa que nosso doutor chegou ao mais alto encargo da República sem ter noção do mal maior que aflige o povo que o elegeu. Como ele é meio duro de cabeça, é bem capaz de não ter aprendido até hoje, passados dois anos. Pra dizer a verdade, a vidinha do brasileiro comum não parece fazer parte das preocupações maiores do doutor. Se ele tivesse disposição de cuidar dos que o puseram lá, sua atitude com relação à pandemia teria sido diferente.

Dificilmente quem está lendo este artigo tem ideia do que seja ir pr’a cama com fome. Tirando aquele dia em que o jantar queimou e a pizzaria estava em reforma, nenhum de nós sabe o que significa ter fome crônica, não ter comida suficiente para alimentar a família, ter de pôr as crianças pra dormir com a barriga roncando.

O Lula, sim, sabia o que é passar fome. Quando no governo, criou um arremedo de solução que lhe foi assaz benéfica em termos eleitorais. No entanto, não pôs fim à insegurança alimentar no país. Mitigou o problema, reelegeu-se, fez a sucessora, ficaram 14 anos no poder, mas o problema da fome continua inteiro, exatamente como era antes.

Já Bolsonaro, com o negacionismo que é característica incrustada de sua personalidade, nega tudo o que não lhe convém. Assim como nega hoje a pandemia, negou e continuará negando a fome crônica do brasileiro pobre. Se o problema, para ele, não existe, não há razão para se preocupar com essas miudezas.

Pode ser que, quando Bolsonaro tiver sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional e estiver encarcerado na Holanda, esqueçam um dia de levar-lhe a quentinha. Talvez lhe acuda então à memória o que afirmou aos jornalistas naquele longínquo café da manhã. Ou talvez não queira se lembrar.

ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.

O triste destino dos intubados

José Horta Manzano

O Instituto de Pesquisa Poder360 expôs estes dias a elevada taxa de mortalidade dos brasileiros que têm de sofrer intubação em decorrência da covid-19. A letalidade entre os intubados no Brasil foi comparada com a de outros quatro países populosos: Itália, Alemanha, Reino Unido e México.

Constata-se que a mortalidade dos intubados brasileiros é superior à de britânicos e mexicanos, e muito superior à de alemães e italianos. Segundo o comunicado do instituto, as razões pelas quais o quadro é mais grave no Brasil são as seguintes:

1. UTIs lotadas;
2. profissionais sem experiência de intubação;
3. burnout das equipes;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
4. falta de equipamentos;
5. centros médicos sem condições de atendimento;
6. quebra de protocolos de boas práticas.

Todas essas razões parecem válidas. Mas uma coisa não pode ser esquecida: a pandemia não é exclusividade brasileira. O coronavírus pegou o mundo todo de surpresa. Nenhum país estava preparado para lidar com ela. Em nenhum lugar do mundo, hospitais têm pessoal de reserva, treinado para intubação, nem equipamentos sobrando. O esgotamento nervoso (que hoje convém chamar burnout) atingiu todas as equipes, no mundo todo. As UTIs lotaram na Itália, no Reino Unido, no México. Na Europa, pacientes hospitalizados chegaram a ser exportados de um país a outro.

Portanto, as três primeiras razões invocadas atingem o mundo todo. Não sendo especificidade brasileira, não explicam a disparidade no número de intubados mortos.

As três últimas justificativas, sim, aplicam-se particularmente a nosso país. Aqui está a descrição de cada uma delas.

Centros médicos sem condições
Esse problema não começou com a explosão da covid. E, infelizmente, vai durar mais que a epidemia. É vício antigo e recorrente, que vem de muito antes do atual governo. Resulta de uma extravagância brasileira: a de contar com dois circuitos paralelos de saúde, um público e um privado. Trocando em miúdos, a rede pública, financiada por todos mas utilizada apenas pelo povão, é descurada pelo poder público, cujos membros contam com outros canais de atendimento hospitalar.

Quebra de protocolos
Protocolos são feitos para serem respeitados. Só devem ser quebrados em raríssimos casos de força maior. Acontece que a proverbial indisciplina que rege nosso comportamento transforma casos corriqueiros em casos de força maior. Assim, a quebra de protocolos passa a ser corriqueira. O resultado é a desordem.

Falta de equipamentos
Quando estourou a epidemia, nenhum país contava com suficiente quantidade de equipamentos. Em outras terras, o poder público se apressou em encomendar respiradores, máscaras, vacinas, seringas e equipamentos para UTI. O governo brasileiro optou por negar a gravidade da pandemia. Não agiu e preferiu pagar pra ver. Viu.

O exemplo vem de cima
Uma última razão ajuda a explicar o assustador quadro de mortandade dos intubados brasileiros. É talvez o fator que mais pesou. Desde o começo da epidemia, dia sim, outro também, doutor Bolsonaro fez pouco caso da doença, incentivou aglomerações, zombou de máscaras, trovejou contra a distanciação social, combateu a vacinação.

Nem todos os brasileiros são dotados de bom senso. Muitos acreditaram em nosso Napoleão de hospício e acreditaram poder fazer como ele. Em vez de procurar atendimento hospitalar desde o começo da doença, correram atrás de cloroquina e outras drogas milagrosas que compõem o “tratamento precoce” do doutor presidente. Quando, finalmente, foram hospitalizados, já era tarde.

Resumindo, constata-se que a diferença na taxa de mortandade entre o Brasil e os demais países não se explica por fatores como UTIs lotadas, esgotamento nervoso do pessoal, falta de experiência de intubação – que são problemas comuns a todos. A elevada mortandade dos infelizes que tiveram de ser intubados no Brasil prende-se a duas causas principais: a falta de equipamentos e a ingenuidade dos que, tendo acreditado na jactância do presidente, só procuraram o hospital quando a doença já se havia instalado firme e forte.

A tristeza maior é entender que, tivesse o governo federal agido com bom senso e boas intenções, esse morticínio poderia ter sido mitigado. Ora sabemos que, no Brasil, intubação é praticamente sentença de morte.

Sítio

José Horta Manzano

Situm é o particípio perfeito do verbo latino sínere, que tem o significado de pôr, colocar, deixar. Alguns descendentes aparecem em nossa língua. Situar, sitiar, situação e sítio estão entre eles.

O sítio aparece entre os sonhos crônicos do brasileiro. Um sitiozinho tranquilo, jeitoso, suficientemente longe de casa pra dar a impressão de ter viajado, mas suficientemente perto para a viagem não parecer uma chatice. Milhões gostariam de ter esse privilégio.

Em nosso mundo político atual, sítio também é palavra pra lá de especial. Por razões diferentes, o termo é particularmente caro a dois de nossos personagens mais estridentes: Lula e Bolsonaro.

Lula se enroscou por causa de um sítio em Atibaia. O irônico da coisa é que, depois de fechar o olho para a roubalheira desenfreada que marcou sua gestão, foi cair justamente por causa de uma propriedade que sequer em seu nome estava registrada. Um sitiozinho à toa, cujo luxo maior era um laguinho com pedalinhos. Coisa de principiante.

Bolsonaro, escolado, não periga aceitar o usufruto de chácara de terceiros. Sua relação com sítio é outra. O atual presidente é vidrado em estado de sítio. O nome é o mesmo, mas o panorama é mais sombrio. Ninguém se exclama: «O lago é uma delícia!», mas «Cuidado com a milícia!» – o que, convenhamos, é menos acolhedor.

Lula vai pensar duas vezes antes de se enfiar de novo em sítio alheio. Quanto ao capitão, está dando mostra de pouca familiaridade com o país em que vive. Seu sonho de estado de sítio não se realizará. Os que repudiam a ideia têm mais peso do que os que apoiam. Se ele continuar insistindo, vai dar-se mal.

Escalada verbal

José Horta Manzano

Nunca jamais esta República (que alguns começam a chamar ‘República de bananas’) tinha assistido a tamanha escalada de epítetos pespegados ao presidente. É uma chuvarada que aperta a cada dia que passa.

O interessante é que, como a pandemia, a espiral começou de mansinho, como uma gripezinha que incomoda mas não mata – (sem alusões, hein!). De repente, um jornalista aqui, outro ali, ousou realçar alguma característica desairosa do capitão. Os começos foram tímidos, mas a progressão logo se mostrou geométrica.

Como em tudo na vida, a coisa vai e a coisa vem. Quem começou, na verdade, foi o presidente, ao desancar jornalistas com qualificativos agressivos. Os profissionais revidaram em seus artigos. E assim o pingue-pongue foi crescendo até atingir picos nunca vistos. Ninguém gosta de apanhar calado. Assistimos hoje a um leilão em que cada um dobra o lance do concorrente.

Em julho do ano passado, escrevi um artigo comentando a escalada verbal introduzida por doutor Bolsonaro nos costumes desta maltratada República. Relembrei como era a coisa nos tempos de Juscelino, ao final dos anos 1950, num tempo em que o Brasil ainda era civilizado.

Meio receoso, eu listei 15 qualificativos colhidos na internet, todos aplicados ao presidente. Já me pareceu uma enormidade. Frisei bem que não eram de minha autoria, mas escritos por outras plumas – eu só fazia citar. Na época, ninguém imaginava que o pior ainda estava por vir. Se o distinto leitor quiser rememorar aquele passado tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante, deixo o link mais abaixo.

Meses mais tarde, outros escribas também tiveram a ideia de compilar adjetivos, substantivos e expressões aplicáveis ao presidente. Selecionei três artigos, que estão aqui para quem quiser dar uma olhada. Os links estão logo mais abaixo.

Apesar dessa inflação de epítetos, a língua não se esgotou. Ainda há expressões a garimpar. Dizem que não adianta, porque Bolsonaro é blindado contra expressões ofensivas. Ah, é? Por que então pede instauração de inquérito contra qualquer um que o chame de genocida, pequi roído ou outro nome cheiroso ou espinhudo? Essa história de blindagem está mal contada.

Links

13 jul° 2020
José Horta Manzano
15 qualificativos

26 jan° 2021
Ruy Castro
24 qualificativos

28 jan° 2021
Ruy Castro
146 qualificativos

19 março 2021
Mariliz P. Jorge
191 qualificativos

Os galegos

José Horta Manzano

A contagem dos imigrantes que se estabeleceram no Brasil indica que os originários da Espanha formaram o terceiro contingente mais numeroso, atrás de italianos e portugueses. No entanto, sobrenomes de outras comunidades parecem ser muito mais difundidos que os espanhóis.

Há de ser só uma impressão decorrente da grande semelhança entre nomes portugueses e espanhóis e de imprecisões de grafia. De fato, muitos Fernandes, Gomes e Rodrigues – que a gente toma por lusitanos – são, na origem, Fernández, Gómez e Rodríguez, espanhóis da gema mal transcritos.

Na esfera pública, é ainda menos comum ver um descendente de espanhóis suceder a outro. Aconteceu estes dias um caso que está dando que falar.

É do conhecimento de todos que Bolsonaro trocou o antigo e folclórico ministro da Saúde por um novo, que ninguém sabe ainda que pito vai tocar, nem como vai se equilibrar para continuar merecendo o respeito que se deve a um médico e ao mesmo tempo escapar do desprezo que a gente sente pelo negacionismo. Dizem que o recém-chegado é admirador do presidente, o que não é propriamente o que se possa considerar excelente cartão de visitas.

Mas vamos aos nomes, aparentemente ambos galegos.

Pazuello (o que sai)
Já me detive sobre o sobrenome do ministro que se vai. Mas não custa contar de novo.

Pazuello é sobrenome de evidente origem ibérica. A raiz latina palatium (=palácio) deu, em castelhano, palacio. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego (pazo), o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, diminutivos se constroem com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefardis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Rio Quiroga, província de Lugo (Galiza, Espanha)

Queiroga (o que chega)
O sobrenome Queiroga é variante do tronco principal Quiroga. É um topônimo, ou seja, um nome geográfico. Na realidade, é o nome de um riacho afluente de um riozinho chamado Sil que, por sua vez, deságua no caudaloso Rio Minho – que marca a fronteira entre Espanha e Portugal. O Vale do Quiroga fica na região da Galícia, situada no nordeste da Espanha. Quiroga é também o nome de um vilarejo à beira do rio.

É bem provável que, cerca de 700 anos atrás, longínquos antepassados de nosso ministro tenham um dia deixado a aldeia de Quiroga para se estabelecer noutro vilarejo nas cercanias. Era um tempo em que ninguém tinha ainda sobrenome. A família acabou ficando conhecida como «os [que vêm] de Quiroga», denominação que, com o tempo, foi abreviada.

Quirogas, na Espanha de hoje, há numerosos. No entanto, na lista telefônica, só encontrei uma pessoa que tem por sobrenome a variante Queiroga. É sinal de que não são multidão.

Quem não gosta de samba

José Horta Manzano

No quesito harmonia, o Bando da Lua foi pioneiro entre os conjuntos vocais brasileiros. Constituído já na primeira metade dos anos 1930, foi na virada para a década seguinte que, na trilha do triunfo internacional de Carmen Miranda, subiu à notoriedade. É que, convidados a acompanhar a ‘Pequena Notável’ na nova carreira, os rapazes permaneceram anos nos EUA, onde trabalharam em espetáculos e em quase dez filmes ao lado da estrela.

Entre outros sucessos, gravaram em 1940 Samba da minha terra, composição de um então pouco conhecido Dorival Caymmi, jovem de 26 anos. Nem Caymmi nem o Bando da Lua poderiam imaginar que, 80 anos mais tarde, gravado e regravado por uma coleção de artistas, o samba ainda estaria no ouvido de todos.

Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé

Quem é que não conhece?

O estribilho vale como metáfora permanente. Me lembrei dele hoje de manhã. É que, ao abrir o jornal, me dou conta de que, nas altas esferas da República, o desfile de insanidades continua.

O doutor que nos governa acaba de contratar seu quarto ministro da Saúde. É o homem que, no papel, deve cuidar da saúde dos brasileiros e conduzir o país a bom porto nesta pandemia. No papel, disse eu. Vamos ver se, na prática, a teoria é a mesma. É permitido ficar com um pé atrás.

A esta altura do campeonato, em que a forte perturbação que acomete a mente do presidente é conhecida de todos, o que é que levaria essa gente fina a aceitar um posto no governo do capitão?

  • A atração do vil metal
    tipo ‘agora vou abrir conta na Suíça’?
  • A vaidade irresistível
    tipo ‘vejam até onde cheguei’?
  • Um irrefreável masoquismo
    tipo ‘adoro ser humilhado em público’?
  • A necessidade de fugir da justiça
    tipo ‘devo, não nego, mas se me cobrarem, tenho foro privilegiado’?
  • Convicção sincera de que o presidente está com a razão
    tipo ‘ele é meu ídolo, portanto está sempre certo’?
  • A ingenuidade absoluta
    tipo ‘dãããã’?

Alguma razão haverá. O mistério parece insondável. No entanto, a solução é às vezes tão evidente, que ninguém vê. A resposta, de tão simples, parece estar na cara. Não precisa buscar nos escritos de Freud. Basta reler a metáfora de Caymmi e adaptá-la ao nosso tempo. Assim.

Quem aceita convite de Bolsonaro
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé.