Embaixada

Embaixador da Pérsia apresenta suas credenciais ao rei Luís XIV, da França, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

José Horta Manzano

Na Antiguidade, já havia embaixadas, embora não fossem permanentes. Um rei nomeava e enviava um embaixador com a missão de negociar os detalhes de uma paz, por exemplo. Em princípio, terminada a tarefa, o embaixador voltava a seu país de origem.

Ao fim da Idade Média, entre os anos 1400 e 1700, surgiram os primeiros embaixadores permanentes, cada um representando seu rei junto a um governo estrangeiro. No início, somente os países importantes enviavam e recebiam embaixadores. A primeira embaixada da Espanha foi estabelecida no ano 1480 junto ao Vaticano – importante sede de poder à época.

Foi preciso esperar até 1961, quando a Convenção de Viena especificou e oficializou as funções diplomáticas, a inviolabilidade da correspondência e das representações, assim como a imunidade dos diplomatas. Desde então, os estatutos de embaixadas, consulados, missões permanentes e legações estão fixados e vêm sendo respeitados, salvo em situações excepcionais, como aconteceu em 1979, durante a revolução dos aiatolás do Irã, quando a embaixada americana em Teerã foi invadida e ocupada por meses.

Entre os chacoalhões que Donald Trump tem dado no funcionamento do planeta, a diplomacia parecia ter escapado. Só que isso foi até alguns dias atrás. Hoje, não mais. Faz uns dias, seu governo suspendeu o visto permanente da embaixadora do Brasil em Washington. Foi assim, sem mais nem menos, com efeito imediato. É sabido que Washington e Brasília não atravessam atualmente um período de lua de mel. Assim mesmo, um ataque aos sacrossantos usos e costumes da diplomacia ultrapassa o que se permite a uma explosão de cólera.

O Itamaraty, que é velho de guerra e já se safou de outras saias justas, vai encontrar meio de contornar o obstáculo.

O coice de Trump, no entanto, dá ensejo a um debate interessante. Será que ainda faz sentido, nos tempos atuais, manter uma rede de embaixadores espalhados pelo mundo? Numa era anterior ao avião, ao telégrafo e ao telefone, era importante – o representante acreditado de um Estado levava consigo a palavra oficial de seu governo e ganhava tempo sobre troca de correspondência. Já hoje, num tempo em que as comunicações são instantâneas, a informação periga chegar ao destinatário antes da visita do embaixador.

Os custos de manutenção de uma embaixada são elevados. Por seu lado, nas capitais mais importantes, o embaixador passa boa parte de seu tempo frequentando festas e recepções. De fato, cada um dos 150 países do mundo tem sua festa nacional, o que já representa um coquetel a cada dois ou três dias.

Se Brasília despachar um representante especial cada vez que tiver algo importante a comunicar a determinado governo estrangeiro, a conta final sairá muito mais baixa do que o custo de uma representação diplomática. Mesmo que o enviado vá de classe business.

Se o douto leitor e a arguta leitora tiver uma observação, não se acanhe. Mande um comentário. Trump só cutucou minha curiosidade, não tive tempo de estudar o tema a fundo.

Internet, a regulação necessária

José Horta Manzano

O primeiro automóvel que chegou à cidade de São Paulo foi um Peugeot trazido de Paris por navio em 1891. Era propriedade da família de Alberto Santos-Dumont, o aviador. Há registro de o carro ter sido visto em 1893 dando uma volta pela Rua Direita, hoje via pedestre, mas então logradouro muito concorrido da capital.

Outros “vehiculos automoveis” (hoje diríamos veículos automotores) foram importados nos anos seguintes e engrossaram a circulação da cidade. Nos primeiros anos, um carro que se movia sozinho era novidade absoluta, daí a total ausência de infraestrutura pronta a receber a raridade. Os carros não eram emplacados, não havia sinais de tráfego, o pavimento das ruas não estava preparado para o molejos delicados, não havia CNH.

Com o tempo, foi aparecendo a regulação: placas de identificação do veículo, autorização de conduzir a geringonça, indicação da mão de direção em ruas apertadas, placas que davam prioridade. Não veio tudo duma vez. Foram necessários anos até que a circulação automotora entrasse na paisagem urbana.

A cada vez que uma novidade entra em nossas vidas, o caminho é o mesmo. Primeiro, a surpresa, quando a novidade se agita feito potro assustado que nâo sabe aonde vai. Em seguida, as coisas vão se assentando e a regulação, aos poucos vem chegando.

A internet e suas aplicações, como as redes sociais, não fogem a essa regra. Essas redes, surgidas há anos, foram sendo deixadas soltas e à vontade, sem regras claras que não fossem reclamações e clamores sem amanhã. Alastraram-se e criaram tanta raíz, que muitos Estados têm hesitado em intervir no sentido de impedir que crianças e adolescentes sejam arrebanhados por grupos mal intencionados ou por suas ideias.

Com a lei que obriga plataformas a verificar a idade e a ligar obrigatoriamente os contas dos menores de 16 anos à de seus pais, o Brasil entrou para o seleto grupo de países que já legislaram na matéria. Faz companhia à Austrália, à Malásia, à Indonésia e à China. Outros países têm projetos, uns mais adiantados, outros menos, que visam ao mesmo objetivo.

Esta semana foi a vez da França, o primeiro europeu a legislar sobre a matéria. Esta semana, o parlamento aprovou a lei que visa “a proteger os menores dos riscos representados pelas redes sociais”. O artigo principal proíbe acesso às redes sociais aos menores de 15 anos. Era um projeto para cuja aprovação o presidente Macron tinha se empenhado pessoalmente. A França espera e acredita que foi dado um empurrão à aprovação, por outros países da UE, de legislação semelhante.

O banimento não inclui o acesso a enciclopédias online do tipo Wikipédia ou outras plataformas educativas. O texto de lei não impõe nenhum método de verificação da idade, deixando às plataformas como Facebook ou TikTok a tarefa de definir o método. A lei deve entrar em vigor a partir de setembro próximo, que é o mês da volta às aulas na França.

Na minha opinião a lei francesa era necessária. Efebos ainda não têm a maturidade necessária para mergulhar na insociabilidade das redes “sociais”.

Umas e outras

José Horta Manzano

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Considerar PCC e CV terroristas pode ajudar a combater lavagem de dinheiro, diz diretor de banco

Não discordo desse senhor. No combate da lavagem de dinheiro, toda ajuda é sempre bem-vinda. Mas continuo achando que o problema não é colar ou deixar de colar, nas organizações criminosas brasileiras, a etiqueta de “terroristas”. Na vida real, a nova etiqueta não muda grande coisa. As organizações criminosas continuam sendo o que sempre foram: um bando de criminosos que se dedicam a lucrar bilhões, por meio de ilegalidades e ilícitos, sempre à custa do honesto cidadão.

Quanto aos castigos e punições que possam vir de Washington, elas têm vindo de qualquer maneira. Nosso país foi punido com taxas de importação exorbitantes. Um magistrado do STF, mesmo sem ter sido acusado de “terrorismo”, foi castigado com os rigores da Lei Magnitsky. Portanto, entende-se que a arbitrariedade e a brutalidade da administração americana cai como raio da morte (ou da vingança) sobre a cabeça que quem lhes aprouver, sem necessidade de a vítima ser terrorista.

Cuidar dos próprios bandidos é função de cada país civilizado. Não vamos nos enganar: um Brasil civilizado ainda é esperança, não realidade. Assim mesmo, cabe ao Estado brasileiro combater suas próprias mazelas. Em caso de necessidade, autoridades estrangeiras podem sem solicitadas por Brasília para dar uma mão. O que não está correto é que estrangeiros tomem a iniciativa de combater nossos criminosos, deixando autoridades brasileiras em curto-circuito. Mal comparando, seria como se a polícia italiana tivesse vindo ao Brasil raptar Cesare Battisti, fugitivo do sistema judiciário peninsular. Não tem cabimento.

Nosso grande problema é que há forte intimidade entre os que detêm o poder e os que detêm as Kalashnikov. Os dois campos se esfregam na calada, o que dificulta ou impede ações policiais.

 

O Globo, 2 jul°
Messi cai na gargalhada ao passar por revista de segurança em aeroporto

A toda a hora surge um exemplo de que não somos todos iguais, mas que uns são bem mais iguais que outros.

Agora experimente vosmecê fazer como Messi da próxima vez que passar pela alfândega americana. Solte uma gargalhada na cara do guarda. Vai passar algumas semanas nas masmorras americanas. Dependendo do caso e do humor dos que mandam, ainda será julgado e condenado.

 

O Globo, 2 jul°
Como escolher a escola do seu filho sem cair em armadilhas

Como é que é? Cair em armadilhas? No meu tempo, não se imaginava que escola pudesse ter “armadilhas”. Isso era pra apanhar rato.

 

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Único ex-presidente da Assembleia do RJ que não foi preso neste século costura retorno em 2027

Este último cabeçalho serve para alimentar aquela lenda de “Brasil civilizado”.

Água lava tudo

José Horta Manzano

Era um tempo em que a música brasileira era diferente de hoje. O carnaval, que ainda não era festa tão comercial como hoje, dava ocasião ao lançamento de marchinhas especialmente compostas para a ocasião, destinadas a “pegar” durante a festa e a sair de cena logo em seguida. Algumas, no entanto, caíram tanto no gosto do povo que sobrevivem até hoje. Mamãe eu quero é uma delas.

Para o carnaval de 1955, Paquito, Romeu e Jorge Gonçalves juntaram seus talentos e criaram a marchinha “A água lava tudo”, que Emilinha Borba gravou. Atrás da letra de ar cândido, insinua-se que o personagem de quem se fala andou por aí “num lugar tão diferente”. Após reflexão, compreende-se que o lugar diferente é um bordel. Mesmo tão escrachada, a marchinha não há de escandalizar se cantada diante de senhôras.

Em 1955, não havia redes sociais. Assim mesmo, piadinhas e memes se espalhavam rápido. (Memes não se chamavam assim, mas viajavam a 120, como se dizia.) A letra original da primeira parte da marchinha era esta:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente

Não demorou muito pra circular uma versão alternativa que zombava de Carlos Lacerda, então deputado federal pelo DF. Lacerda era orador inflamado, dotado de língua ferina. O povo não perdoou:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua do Lacerda

Pra eu lembrar 70 anos depois, é que a versão bis deve ter sido bastante repetida. A história não conta se o político apreciou.

Vamos pular todas essas décadas e trazer a história para o presente. Agora vêm alguns “se”:

  • Se o carnaval ainda fosse espontâneo como o antigo e menos fabricado;
  • Se os memes ainda tivessem a leveza de espírito das brincadeiras de ontem;
  • Se ainda fossem compostos sambas e marchas especiais para o carnaval;
  • Se a marchinha da Emilinha Borba ressuscitasse e o povo se pusesse a cantá-la.

Qual seria um final engraçado, coerente e atual para a estrofe “A água só não lava a língua …………….” ?

  • Da sogra?
  • Do Lula?
  • Do Eduardo Bolsonaro?
  • Do Trump?

Alguma boa ideia ocorre a vosmecê? Mande cartinha para a Redação!

As festas de junho

Igreja de Sto Antonio
São Paulo, século 18
by J. Washt Rodrigues

José Horta Manzano


“A noite de São João é a mais fria do ano.”

“Santo Antônio encontra tudo, é só pedir.”

“São Pedro é humilde e corajoso, é por isso que foi o primeiro papa. Santo forte.”


São coisas em que todo o mundo acreditava antigamente. A moça solteira costumava pôr a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, avisando ao santo que só voltaria à posição natural quando lhe encontrasse um bom marido. Dizem que Antônio não apreciava nada esse castigo, vai daí que não encontrava marido nenhum.

Não sei se a tradição perdura, mas até os anos 1950 e 1960, o 13 de junho era um dia especial. Os padeiros do centro de São Paulo, que eram quase todos de origem portuguesa, mandavam braçadas de pães para a igreja de Santo Antônio, praça do Patriarca. O povo então fazia fila. Cada um recebia, então, um pedaço de pão que havia sido previamente benzido. Devia-se guardar esse pão em casa, pra garantir fartura o ano inteiro. Se foi isso, não sei, mas em casa nunca faltou comida.

Assim como o metrônomo marca o tempo musical, os dias de cada santo do mês – Antônio, João e Pedro – marcavam o ritmo dos festejos juninos. Rifas e quermesses engalanavam aqueles dias sem internet e, muitas vezes, sem televisão.

Vejo hoje muito anúncio de “arraiá”(sic). Mas os personagens que deram origem a esses agapes não são mais mencionados. É como o Natal, que perdeu suas origens para tornar-se a época em que se come peru e panetone. E em que se dá presente a toda a família. Os “arraiás” sobrevivem soltos no organograma, sem ligação a nenhuma tradição nacional.

  • Aqui entre nós: o arraial, tradição interiorana, deveria ser pronunciado “arraiaR”, com um erre retroflexo no final, bem enrolado, bem acaipirado.

O jogo inaugural do Brasil na Copa 26 caiu bem no dia de Santo Antônio. Não me lembro de ter visto nenhuma referência à data em todas as reportagens e análises que li.

Nossos bem pagos jogadores, por mais milionários que estejam, não deveriam julgar-se acima do bem e do mal. Um pouco de respeito às tradições  e de confiança nelas não lhes faria mal nenhum. Se o Brasil ainda terminar em primeiro lugar em seu grupo, o que não é impossível, vai jogar no 29 de junho, dia de São Pedro.

Pra ganhar, não vale botar o santo de ponta-cabeça, que ele não gosta. Dê-lhe um sorrisinho, ele há de apreciar.

Enrolação de Vorcaro

by Claudio de Oliveira (1963-),
cartunista potiguar, via Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.

Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.

Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.

Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.


No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.


Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:

“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”

Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.

O mundo segundo os aiatolás

 

Piadinha publicada no site da embaixada do Irã na Tunísia

José Horta Manzano

É comum ouvir dizer que o Brasil não deu certo. Não há como discordar. De fato, ainda falta muito para nosso país tornar-se normal, justo e harmônico. É curioso que assim seja, visto que, diferentemente de muitos outros países, não temos linhas de fratura que oponham contingentes de população uns aos outros. O que temos atualmente, e que chamamos “polarização”, é fenômeno passageiro. Antes da coexistência de Lula e Bolsonaro, não havia; e depois que esses personagens tiverem descido do palco, deve desvanecer.

Por sorte, temos duas características de suma importância que deveriam nos unir – e, de fato, nos unem: a língua e a religião. O fato de falarmos a mesma língua, o que faz que qualquer cidadão possa entender e ser entendido em todo o território nacional, é uma qualidade rara para um país gigantesco e populoso como o nosso. Por seu lado, a imensa maioria da população é cristã – entre católicos, protestantes e neo-pentecostais. Portanto, os principais fatores de crispação simplesmente não estão presentes.

Nosso atraso e nossa inarmonia devem, assim, ter outra origem.

Ninguém aprecia que brinquem com sua religião ou com seus símbolos religiosos. Esse tipo de acontecimento, além de incomodar, é de extremo mau gosto. No Brasil, não estamos acostumados a vilipêndios ou ultrajes religiosos.

Os fiéis de certas religiões são mais susceptíveis a brincadeiras com seus símbolos, ainda que a intenção não tenha sido de ofender. Maometanos têm prevenção especial contra quem se atreva a usar seus símbolos em vão.

O atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, cometido em janeiro de 2015, foi exemplo dessa intolerância. Doze profissionais foram assassinados e onze outras pessoas foram feridas pelos dois atiradores armados de fuzis. A chacina ocorreu como castigo aos profissionais que tinham ousado publicar desenhos cômicos com personagens ligados ao Islã.

A incentivar (e às vezes financiar) esse tipo de ataque, em geral estão os aiatolás do Irã. Pois são justamente esses aiatolás que estão por trás de uma brincadeira – um meme talvez? – publicado no site da embaixada do Irã na Tunísia. Apareceu na sequência dos desaforos que o Brasil vem sofrendo do presidente Trump e seus acólitos. Representa o Cristo Redentor que destrói a Estátua da Liberdade.

Como sabemos, a estátua do Corcovado é um símbolo duplo: de nosso país e de nossa religiosidade. Já a Estátua da Liberdade simboliza os Estados Unidos. O regime iraniano pôs em cena os dois símbolos, que se comportam da única maneira que o regime iraniano conhece: a força bruta que leva à destruição do adversário.

Entendo que a intenção era mostrar solidariedade para com o Brasil, um abraço entre vítimas do mesmo verdugo. O problema é que, para ilustrar o teatrinho infantiloide que bolaram, usaram um símbolo religioso respeitado por todos os brasileiros, católicos ou não. E isso não se faz. Queria ver o que aconteceria se o governo brasileiro tivesse a ideia debiloide de usar a figura do profeta deles se engalfinhando com a turma do Trump. Acho que não haviam de deixar por isso mesmo.

Pra não complicar, é melhor deixar como está, e não levar a coisa adiante. Mas bem que valia a pena fazer chegar a Teerã uma mensagem discreta para que eles, da próxima vez, evitem usar um símbolo religioso. Que ponham o Pelé, por exemplo, dando um chute magistral na estátua americana, ninguém há de se ofender.

6 x 1

José Horta Manzano

Nestes tempos de pré-Copa, o título poderia indicar algum resultado esperado. Não é. Por enquanto, fica na esperança mesmo. A realidade começa a pingar daqui a alguns dias.

Falando em realidade, li em algum lugar que um “guru”, alemão se não me engano, vem acertando resultado das últimas três Copas. Acertou o campeão antes de cada campeonato começar. Para esta edição, diz que é a Holanda que vai ganhar. Quanto ao Brasil, diz vai sair em primeiro lugar no grupo, mas em seguida naufraga diante do Japão, é eliminado e volta pra casa.

Se fosse possível saber dos resultados antes de jogar, até que era interessante. Saia mais barato, evitava concentração, gastos com avião, hotel, transportes. Mas também perdia a graça. Melhor que fique como está.

É curioso como a expressão “taça do mundo”, que se usou nos primeiros campeonatos mundiais, cedeu lugar a “copa do mundo”. Imagino que a razão seja a seguinte. Taça, todos nós entendemos como um recipiente em que se bebe, como em “taça de vinho”. Já Copa não faz necessariamente pensar em vasilhame para bebida.

Pois bem, o troféu dos primeiros campeonatos de futebol tinha realmente o formato de uma taça, com asinhas dos dois lados, escavada no interior, apta a receber líquido. Já o troféu atual não tem nada de taça. Provavelmente vem daí a mudança de nome de “taça” para “copa”.

Ao dar título a este escrito, me referi ao horário de trabalho (hoje chamado “escala”). Faz meses que se debate a proibição do sistema 6 x 1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho). Em primeiro lugar, acho esquisito que seja o Parlamento a proibir ou liberar escalas de trabalho. Achava que essa discussão se restringisse ao nível de contrato de categoria, negociado por sindicatos.

Na juventude, muitas décadas atrás, trabalhei na hotelaria aqui na Suíça. Naqueles anos, trabalhava-se duro. A escala era essa que acabam de proscrever no Brasil: 6 dias de trabalho x 1 dia de repouso. E olhe que o dia de descanso nunca era num sábado ou num domingo, que isso era privilégio do chefe. O repouso caía sempre num dia útil e podia variar de uma semana a outra. O mais das vezes, eu trabalhava 54 horas por semana. Num emprego, cheguei a trabalhar 78 horas por semana, um despropósito.

Hoje, na Suíça, nenhum empregado de hotel e restaurante trabalha mais nessa escala 6 x 1. No entanto, a lei estipula um total semanal máximo de 45 horas para funcionários de escritório (técnicos, vendas, etc), e um total máximo de 50 horas para os demais (construção, artesanato, agricultura, micro e pequenas empresas).

No Brasil, entendi que o total máximo está limitado a 40 horas por semana. Vê-se que os brasileiros já vivem num país rico e adiantado, que não exige mais nenhum sacrifício de seus filhos.

Prisão perpétua

by Nando Motta, ator e chargista
via BR 247

José Horta Manzano

O plano de captura violenta do Estado brasileiro, preparado para estourar no 8 de janeiro de 22, foi abatido em pleno voo. Como um caça atingido por míssil, esbagaçou-se no ar e derramou fragmentos ao redor. O incentivador-mor da pretensiosa aventura cuidou de pôr-se a salvo no estrangeiro. Imaginando que a distância física lhe garantiria álibi perfeito, deixou o país antes do estalo da insurreição. A providência de nada lhe serviu nem impediu que fosse, mais tarde, colhido pela polícia, julgado pelos tribunais e condenado a quase 30 anos de prisão.

Bolsonaro não foi o único a enfrentar julgamento. Dezenas de cidadãos, que tinham tido, de perto ou de longe, participação no plano, tiveram de acertar contas com a lei. Antes e depois da passagem diante dos juízes, alguns decidiram escapulir. Deixar crescer barba e cabelo e passar o resto da existência vivendo com índios na Amazônia saiu de moda. Assim, ninguém adotou a opção nacional. Todos os que fugiram foram para o exterior.

Houve quem tenha ido para os EUA, destino sonhado por todos mas somente accessível a privilegiados. Um grupo de menos abastados dirigiu-se à Argentina por via terrestre, longa viagem pra quem parte do Brasil Central ou mesmo do Sudeste. De lá, alguns seguiram em sua jornada ao Eldorado americano, com ideia de cruzar o Rio Grande com ajuda de coiotes. Esforço jogado fora. Brigadas móveis da polícia americana de fronteiras os apanharam, encarceraram por algum tempo e os devolveram ao país de origem.

Há quem tenha ido para a Espanha, país que não extradita assim tão facilmente. Houve uma deputada, midiática e conhecida, apoiadora do capitão mas por ele renegada, que, tendo decidido fugir do país, cometeu a imprudência de se vangloriar nas redes sociais. Essa soberba custou-lhe bem caro.

Falo de dona Carla Zambelli Salgado de Oliveira. Ela tem passaporte italiano, ao qual a ascendência peninsular por via materna lhe deu direito. Com uma condenação a 10 anos de prisão, decidiu escapar para a Itália. Antes de chegar ao destino, deu uma passada pelos EUA – escala irresistível para brasileiros que fogem da lei. Foi de lá que postou em suas redes um videozinho em que mostrava o passaporte italiano e debochava de seus seguidores: “Na Itália, sou intocável”, dizia, apontando para o documento.

Tivesse engolido a altivez e mantido a boca fechada, é possível que a estivessem procurando até hoje, dentro das fronteiras do Brasil. Sua tagarelice lhe foi desfavorável. Rapidamente, foi posta na lista vermelha da Interpol. Refugiou-se em casa de amigos, mas acabou sendo colhida e levada presa. À espera do julgamento de seu processo de extradição, foi colocada em Rebibbia, imenso complexo carcerário nos arredores de Roma.

Compartilhou cela com mais 5 presas. Apresentou um rol de doenças que supostamente a tornariam inapta a suportar a prisão. Esse tipo de coisa costuma funcionar no Brasil, mas na Itália não pegou. Reclamou, bateu pé, requereu soltura – tudo em vão. As condições de encarceramento italianas são mais rigorosas que as nossas. Madame permaneceu em sua cela durante 10 meses. Mais dois, e teria ficado um ano inteiro. Sem saidinha e sem regalias.

Faz uns dias, a Corte Constitucional italiana, invalidando a decisão das cortes inferiores, negou a extradição. A ex-deputada foi solta imediatamente. Ainda meio atônita com a inesperada notícia, ela declarou-se muito contente.

Na euforia da liberdade reencontrada após quase um ano de cárcere, nem ela, nem seu advogado mencionou um detalhe pra lá de importante. É que a decisão da Corte italiana, de negar-lhe a extradição, não anula o julgamento do STF, que a condenou a 10 anos de prisão. A sentença continua em aberto, e, no Brasil, a ex-deputada continua sendo considerada foragida da justiça.

Assim, em princípio, ela não poderá mais pisar o solo nacional, sob risco de ser presa imediatamente para descontar sua pena. Está, pois, numa situação de “prisão perpétua”. Se, em vez de ter fugido, a senhora Zambelli tivesse se entregado, teria tido certas regalias:

  • Dificilmente teria sido posta em cela comum, com mais 5 detentas;
  • Com um bom advogado, já estaria em prisão domiciliar por razões de saúde;
  • Depois de cumprir quase um ano, como fez na Itália, estaria chegando a hora de requerer progressão de regime;
  • Depois disso, estaria livre de cadeia, vivendo no conforto de seu apartamento; de tornozeleira, é verdade, mas em companhia do marido, da família e dos amigos.

A menos que venha a ser indultada por medida do próximo presidente (se este for bolsonarista), não lhe será possível retornar ao país. Imagino que Madame esteja maldizendo a hora em que tomou a decisão de fugir.

Os neoimigrantes

José Horta Manzano

Dizem que as redes sociais (que às vezes dá vontade de chamar de “associais”) estão coalhadas de gente falando besteira. Não conheço essas redes, mas acredito no que dizem: devem estar cheias de falsos profetas. Para o bem e para o mal, se bem que, quando se propagam ideias falsas, é geralmente para o mal.

Acho que essa algaravia, em que muitos gritam e ninguém tem razão, não se restringe às redes. Desde que internet deu um megafone a cada utilizador, todos se acham no direito de usá-lo, ainda que não tenham nada a dizer. Consulto frequentemente youtube e constato que lá também está lotado de gente falando de assuntos que não domina. Quem faz isso incorre no delito de fazer propaganda enganosa e merecia levar multa. Mas como coibir? Quem teria capacidade de controlar a veracidade dos bilhões de vídeos postados da plataforma?

Quando me aparece algum vídeo sobre a Suíça, país que conheço bem, tenho curiosidade de ver o que dizem. Não dá pra visionar todos, porque o dia só tem 24 horas e não tenho tenho só isso pra fazer. Ontem dei uma espiada numa postagem de um casal brasileiro que está morando na Suíça, numa pequena localidade da montanha. Dado que o vilarejo não tem atividades além do turismo, estou até agora me perguntando o que fazem por lá. Não procurei saber.

Passaram uns 20 minutos a descrever os cinco pontos que não lhes agradam no dia a dia no país. De saída, acho no mínimo indelicado apontar assim, publicamente, os pontos negativos do país que nos acolhe. Em seguida, fiquei surpreso com os “defeitos” que o casal encontrou. Reclamaram do sistema de saúde suíço, sistema que este blogueiro acha excelente, superior ao que se vê pelo mundo em geral. Se não apreciam o sistema daqui, há de ser porque não lhe entenderam o funcionamento. De outro modo, não é possível.

Reclamaram também da inflexibilidade dos funcionários, especialmente os que tratam as demandas de imigrantes, como eles. Não estou de acordo. Acho a Suíça um país liberal, verdadeira “mãezona”, onde funcionários estão sempre prontos a dialogar, explicar, tolerar, deixar passar. Bom, para se entender, é bom falar a língua do lugar. Não sei há quanto tempo se encontram no vilarejo em que vivem, o que sei é que não falam nem a língua do lugar (alemão), nem o dialeto (alemão suíço). Assim, também, fica difícil.

Desembarquei na Suíça, pela primeira vez, está fazendo 60 anos mês que vem. De lá pra cá, vivi 47 aninhos aqui. Posso dizer que conheço um bocado os usos e costumes da terra. Pra receber, tem de saber dar. Se eu estivesse arranhando línguas e catando palavras até hoje, estaria mostrando que não soube dar, ou seja, que não soube me esforçar para me aproximar deles. Isso pega mal. O que esse casal precisa fazer urgentemente é aprender a língua local, pelo menos, o alemão. Na hora em que conseguirem se comunicar com a sociedade em que vivem, vão ver que o clima se desanuvia e a “rigidez” vai lhes parecer bem mais elástica.

Nota
Emigrar aos quarenta ou cinquenta anos de idade é complicado. Quem estiver acostumado ao sistema do INSS vai estranhar o sistema de qualquer outro país. Quem estiver acostumado a frequentar o Poupatempo idem. Emigração é aventura para os muito jovens, que estão em começo de vida.

Ainda não…

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-)
desenhista gaúcho, via GZH

José Horta Manzano

Dei uma vista d’olhos nos jornais e nos principais, como diria…, antigamente se chamavam “jornais falados”, hoje não sei. São aqueles noticiários que passam de manhã ao vivo no youtube, em que se leem e comentam as notícias do dia. Entre os analistas, nove em cada dez gastaram tinta e saliva esquadrinhando o caso da dinheirama que o filho mais velho do Bolsonaro pediu a Vorcaro, o estelionatário-mor da nação.

Uma fala que surge a todo instante é a de que o presidenciável ainda – sublinhe-se o ainda – não deu explicação convincente para a obscura transação. É verdade que, no princípio, o Bolsonarinho negou conhecer o ex-banqueiro e jurou não ter recebido nenhum dinheiro dele. Em seguida, pouco a pouco, como se acordasse de um sono profundo, esfregou os olhos e foi lembrando dos detalhes do negócio. Bem aos pouquinhos, em doses homeopáticas, foi distilando sua narrativa, até ser aventada a possibilidade de ter havido financiamento de um filme como justificativa para a generosa “doação”.

As alegações do pré-candidato foram evoluindo com a passagem dos dias. Parece que os ajustes finais não foram dados. Me parece curioso ouvir analistas dizerem que as explicações de “Flávio” (como é íntima e carinhosamente chamado) ainda não são convincentes. Ao deixar a porta assim escancarada, estão convidando o suspeito a ir afinando sua narrativa, a ir modelando e aparando as beiradas até chegar a um relato convincente. A meu ver, estão dando moleza demais a quem não merece tanta confiança.

A verdade tem de aparecer de golpe, logo de cara, no primeiro jato. E tem de ser inteira e irretocável. Se assim não for (e, no caso, não foi), o que ele possa vir a dizer não terá valor. Terá sempre o gosto requentado de uma história ajambrada em conselho de família com a participação de advogados mais espertos que o indigitado.

De toda maneira, pouco interessa o relato desse Bolsonarinho – nem o balbucio inicial, nem a versão retocada. Vejamos por quê:

  • Os evangélicos tendem a seguir o conselho do pastor na hora do voto.
  • Os menos letrados, que representam a maioria do eleitorado, não leem jornal nem acompanham análises sócio-políticas.
  • Lulistas roxos estão de qualquer modo com Lula e nâo desgrudam
  • Bolsonaristas roxos estão de qualquer modo com o Bolsonarinho
  • “Farialimers” e assemelhados abraçam qualquer candidato que não seja de esquerda, de medo de ver escassearem as oportunidades de enriquecer.

Portanto, maior importância mesmo terão os debates xingatórios na televisão. O que acabo de dizer pode parecer cínico e desabusado, mas é a realidade. Não?

Três espantos

José Horta Manzano

Racismo
Um cavalheiro de nacionalidade chilena causou um bate-boca num voo da Latam de São Paulo a Frankfurt. Talvez imaginando que sobrevoava terra de ninguém, ofendeu um comissário chamando-o de “mono” (macaco) e emitindo ruídos que ele julga ser simiescos. Declarou ainda que se sente incomodado com o “odor de negros” ou “odor de brasileños”. Uma alma caridosa filmou a discussão surreal entre o cavalheiro e membros da tripulação – que não aparecem na imagem.

Acontece que o avião não é terra sem dono. Acontece também que o comissário, apesar da pele mais bronzeada, não é “mono” e encontra-se protegido por nossa legislação. Convenções aéreas estabelecem que o aparelho em voo é considerado extensão do país de origem da companhia, no caso, o Brasil. Assim, dentro do avião, vigoram as leis brasileiras. Sem se dar conta, o passageiro arrogante infringiu leis nossas que reprimem ofensas baseadas em cor da pele, raça, religião, orientação sexual.

Uma semana depois, o cavalheiro ofensor fez a viagem de volta de Frankfurt para Santiago, com escala em São Paulo. Devidamente informada, a polícia já estava no aguardo dele. Foi colhido em Guarulhos e enviado à detenção provisória. Vamos ver se aprende que conosco não tem podosco.

Nota 1
A discussão, mostrada em vídeo postado no Tweeter (hoje X), é prova incontestável da atitude do cavalheiro. Mostra também um despreparo do pessoal de bordo da Latam. Embora não apareçam na imagem, ouve-se gritarem todos ao mesmo tempo cortando a palavra ao passageiro, num comportamento de quebra-pau de boteco. A companhia aérea deveria treinar aeromoços e aeromoças a enfrentar casos como esse, com sangue-frio e disciplina.

Nota 2
A mídia deu a notícia dizendo que o chileno foi preso por racismo. Não está correto. Racismo é um “defeito”, se assim podemos nos exprimir, que algumas pessoas têm. É um sentimento de soberba de quem se considera pertencente a uma raça superior. Acontece que ninguém será preso por experimentar esse tipo de sentimento. Melhor dizer que o cavalheiro foi preso por agressão racista ou por ofensa racial.

Capanga
O mundo anda ficando cada dia menor. Já vão longe os dias em que, para desaparecer do mapa, bastava se mudar para o interior e, com uma gorjetinha, tirar nova carteira de identidade. Hoje vão te buscar onde você estiver, ainda que seja pra lá de onde o Judas perdeu as botas.

Um dos capangas do clã Vorcaro, sabendo que a PF estava em seu encalço, embarcou num voo para Dubai, que fica pertinho do País das 1001 noites. A história não diz se viajou de primeira classe. Acontece que a PF tomou conhecimento da fuga e entrou em contacto com a polícia de Dubai. Resultado: o capanga foi colhido no aeroporto de lá, nem precisou passar pela alfândega. Expulso sumariamente do país, foi devolvido à origem.

Espanto boquiaberto
Diálogo pra lá de comprometedor ocorreu entre o filho de Bolsonaro, aquele que gostaria de presidir o Brasil, e o estelionatário Vorcaro, ora preso. Na conversa, o Bolsonarinho faz juras de fraternidade eterna ao espertalhão, ao mesmo tempo que pede uma soma extravagante e multimilionária. Trata o trapaceiro por “irmão”, demonstrando proximidade realmente íntima e intrigante, que denota serem velhos parceiros de ‘negócios’. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, ou seja, seis meses atrás.

Considerando que, quando o Bolsonarinho fez essas juras ao telefone, alguns grandes da República já haviam sido pegos – e encarcerados ou processados – justamente por causa do vazamento de conversas telefônicas, é absolutamente espantosa a maneira displicente com que ele deixou seu juramento gravado no éter, numa nuvem talvez, mas certamente na memória de dois aparelhos: o seu e o do interlocutor. É impossível imaginar que o filho do Bolsonaro ignorasse a perícia da PF em reaver dados escondidos ou apagados de telefone celular.

Dito e feito. O pretendente à Presidência caiu como um patinho. Agora todos esperam explicações. Na verdade, não precisa nem explicar, que todo o mundo já entendeu o que era pra entender.

Cuidado com este!

José Horta Manzano

Estamos em plena pré-campanha eleitoral.

  • Não surpreende ninguém que Lula se comprometa a amparar os pobres e a taxar fortemente os ricos.
  • Não surpreende ninguém que o filho do Bolsonaro se deixe (re)batizar nas águas do Rio Jordão, seguindo o ensinamento paterno.
  • Não surpreende ninguém que Caiado compareça a rodeios e outros eventos ligados à agropecuária.

Agora, quando um candidato como Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, marca território afirmando que pertence à linha dura e quase caricata da extrema direita, a atitude surpreende, sim.

Banana com casca
Num vídeo recente, o ex-governador agiu como se fosse um influenciador do ramo de frutas e legumes. Reclamou da carestia e aconselhou os mais pobres a comerem banana com a casca. O objetivo era de forrar bem o estômago com gasto menor. Para não ser acusado de somente dizer “Faça o que eu digo”, comeu ele próprio uma banana com casca (coisa que nem macaco faz). Pela cara de nojo que fez, o gosto não deve ser magnífico. Ele mesmo confessou, mais tarde, que prefere o fruto “puro”, sem a casca. Ao doutor Zema, não ocorreu que as bananeiras possam ter passado por um tratamento químico para livrá-las de fungos e outras pragas. E que essa película química depositada sobre a casca possa ser nociva à saúde humana.

Trabalho infantil
Em outra aparição pública, doutor Zema propôs que o trabalho infantil volte a ser autorizado, como era nos tempos de antigamente. Segundo ele, se os jovens americanos podem correr o bairro montados numa bicicleta a distribuir jornais, como a gente vê nos filmes, os brasileirinhos também podem. “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, foi o que ele não disse, mas pensou. A criança que trabalha ajuda no orçamento familiar, segundo o doutor, encantado com essa perspectiva.

Castração química
Numa entrevista também recente, o pré-candidato se pronunciou a favor do endurecimento da pena para condenados pelo homicídio da esposa, namorada, companheira ou ex, o conhecido feminicídio. Preconiza 30 anos de prisão sem direito a nenhuma medida de alívio. E acrescenta um castigo físico: a castração química. Em sua sanha punitiva, o pré-candidato mistura alhos com bugalhos. A castração química é preconizada – e, em certos países, aplicada – para pedófilos, maníacos sexuais, tarados irrefreáveis. Faz sentido: castram-se os criminosos que cometem crimes sexuais. Feminicídio é de outra natureza.

Comentários
O vídeo com a dentada que ele dá na banana com casca está mais pra desafio de tique-toque do que para coisa séria de um homem que se sente à altura de ocupar o maior cargo da República. É cômica a cara que ele faz, de criança que comeu e não gostou. Esse candidato dificilmente seria aprovado no teste de aptidão que este blogueiro propõe para pretendentes à Presidência.

Quanto ao trabalho infantil, percebe-se a tentativa de volta ao século 19, obsessão de adeptos da extrema direita. Senhor Zema, homem de posses cuja família se dedica há quatro gerações a diversos ramos da indústria e do comércio, parece sonhar com a possibilidade de empregar crianças em suas fábricas, economizando assim na folha de pagamento.

Já no que se refere aos 30 anos de cadeia para feminicídio, proponho pena igual para crimes de corrupção sob todas as suas formas (passiva, ativa, suborno, peculato, prevaricação e muitos etcéteras). O problema é que aqui já estamos pisando no calo do pessoal do andar de cima. Vai ser difícil que a ideia siga adiante.

Hipóteses
Duas hipóteses me parecem plausíveis para explicar o curioso comportamento do pré-candidato.

  • 1) Está agindo assim em consequência de acordo fechado com os Bolsonaros. Assumiu o comportamento de linha auxiliar do clã. Faz o papel de durão, intransigente, cruel, linha dura – tudo isso para fazer o filho “01” parecer moderado e palatável. O pagamento virá sob forma de um ministério ou outra benesse equivalente. Se assim for, recomenda-se não votar nesse candidato, belo exemplo de personalidade vil, sorrateira, com vocação para capacho. Um sujeito assim não merece o voto de ninguém.
  • 2) Seu comportamento escancara seu caráter tal como ele é. O personagem é de fato durão, intransigente, cruel e linha dura. Se assim for, recomenda-se não votar nele, belo exemplo de personalidade insensível, incapaz de empatia, indigno de governar um país tão desigual como o nosso. O Brasil não merece um presidente assim.

Luiz Inácio: a grande bobeada

José Horta Manzano

O doutor Jorge Messias, advogado-geral da União, não foi aprovado pelo Senado para vestir a toga e ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. A imprensa, que andava desconfiada de que isso pudesse acontecer, já tinha pesquisado e até elaborado uma listinha com o nome daqueles poucos que precederam Messias na desconfortável situação de ter levado bomba.

Desconfortável é o mínimo que se possa dizer, dado que a lista é curta e que o atual AGU é apenas o sexto pretendente rejeitado desde que a primeira Constituição republicana entrou em vigor. E olhe que as cinco ocorrências anteriores datam do século 19, no longínquo 1894, governo de Floriano Peixoto.

A soberba de Lula da Silva não tem emenda. Nosso presidente ainda vive nos eflúvios de seus dois primeiros mandatos, quando sua estrela brilhava forte e ele ganhava todas. Só que os tempos seguiram adiante, inexoráveis, mesmo Luiz Inácio fazendo força pra não aceitar. Na vida, quem fica pra trás dança – e Luiz Inácio tem levado um baile atrás do outro. Contradanças em grande parte evitáveis.

Embora a Constituição não obrigue, as escolhas das últimas décadas tinham sido feitas pelo presidente, sim, mas baseado numa lista tríplice elaborada por quem entende do recado (STJ, OAB). Assim, o presidente exercia sua prerrogativa de indicar um nome, mas evitava a suspeita de estar se baseando em proximidade ideológica ou amizade pessoal.

Traído pela soberba, Lula bobeou. Esnobou Rodrigo Pacheco, candidato de consenso que provavelmente teria sido aprovado sem tropeço. Dispensou lista tríplice e anunciou que seu candidato era o AGU. Esse tipo de decisão arrogante só funciona quando o chefe do Executivo está em posição de força, seja por ter excelentes níveis de aprovação, seja por estar longe de período eleitoral. Ora, Lula está amargando aprovação péssima, e estamos a cinco meses das eleições. Em momentos assim, é imprudente confiar apenas em ecos da popularidade passada. Ministro do STF é cargo cobiçadíssimo. Os não escolhidos se sentem frustrados, tem muita gente botando olho gordo e espetando bonecos de pano à moda vodu.

Além disso, depois que as pesquisas começaram a indicar a viabilidade da candidatura do filho de Bolsonaro, os braços ameboides do Congresso passaram a se estender para o dito “01”. A partir desse momento, o espírito do Parlamento se tornou hostil ao presidente. A tendência é negar todo pedido vindo de sua parte e escamotear todo favor que se lhe pudesse ser feito.

O presidente Lula está, pois, em posição delicada com relação aos parlamentares. Estes últimos têm a força da avidez que nunca sacia. Nesses termos, um Lula fragilizado perde toda atratividade. Suas Excelências preferem acariciar quem está na crista da onda.

O candidato Jorge Messias poderia talvez ter sido aprovado pelos senadores seis meses atrás. Em vez de titubear, Lula deveria tê-lo logo mandado à forja, enquanto o filho de Bolsonaro não passava de candidato folclórico em que ninguém botava fé. Aquele era o momento, mas Luiz Inácio deixou passar.

Do modo que as coisas estão, vai ser difícil uma nova indicação de Lula ser aprovada antes das eleições. Caso o presidente não seja reeleito e, em seu lugar vier um presidente bolsonarista, seja o filho de Jair ou um outro, em breve tempo o equilíbrio de forças terá vergado para outra vertente. Os ministros estarão, em maioria, sintonizados com ideias reacionárias ou, pior, de extrema direita.

Não se sabe se era o que Suas Excelências desejavam, mas é o caminho que hoje parece mais bem atapetado. Com pedrinhas de brilhante.

Um estrangeiro na Presidência?

José Horta Manzano

O Poder Executivo da Suíça é colegial. O governo é exercito por um colégio de sete membros, chamados conselheiros federais. Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento para um mandato de quatro anos. As eleições para o Conselho Federal têm lugar a cada quatro anos, sempre após a eleição dos novos deputados e senadores. Cada conselheiro tem o direito de se recandidatar tantas vezes quanto desejar. Pode também renunciar ao mandato quando lhe aprouver.

Ignazio Cassis nasceu na Suíça, filho de imigrantes provenientes da Itália. Dado que a lei suíça de nacionalidade não reconhece o “jus soli” (direito de solo), o pequeno Ignazio herdou a cidadania italiana dos pais. Foi assim até a idade de 15 anos quando se tornou suíço “por derivação” – quando da naturalização dos pais, os filhos menores têm direito “por derivação” à nova nacionalidade. A partir daí, Cassis tornou-se binacional, italiano e suíço.

Em seguida, estudou medicina, fez mestrado e doutorado, exerceu por alguns anos e entrou para a vida política. Foi deputado durante dez anos até o dia em que o Parlamento o elegeu para o seleto clube de sete membros do Conselho Federal. Nesse momento, Ignazio Cassis entendeu que não era admissível integrar o Executivo e, ao mesmo tempo, guardar no bolso um passaporte estrangeiro. Ato contínuo, seguiu o rito de renúncia à nacionalidade italiana. Isso foi em 2017. Hoje está em seu terceiro mandato como conselheiro federal.

No Brasil, em 2005, Lula era presidente da República quando uma celeuma correu solta por Brasília e Roma. É que a primeira-dama de então, dona Marisa Letícia, fez saber que tinha conseguido reconhecimento de sua nacionalidade italiana por direito de sangue (jus sanguinis). Tanto ela, quanto os filhos passaram a ser oficialmente binacionais, brasileiros e italianos. Indagada, explicou que não fazia isso por si, mas para “garantir uma oportunidade para os meninos no futuro”. Nem todo o mundo apreciou a explicação. A celeuma também atingiu Roma, mas por outros motivos. Massimo d’Alema, deputado italiano e ex-primeiro-ministro, reclamou que dona Marisa sequer falava italiano, tinha origens peninsulares longínquas e podia votar nas eleições italianas, enquanto a babá de seus filhos, imigrante estabelecida na Itália havia muitos anos, que falava italiano e pagava seus impostos na Itália, não podia.

Passado algum tempo, o assunto morreu e ninguém mais falou disso.

Já faz alguns anos que os quatro filhos homens de Jair Bolsonaro são detentores da nacionalidade italiana, com direito a passaporte no bolso e cédula para votar por correio nas eleições. Pelas informaçôes de que disponho, o pai não requereu o reconhecimento da cidadania. Portanto, continua mononacional.

Preste atenção ao que vem agora. Um dos filhos homens do homem é candidato a ocupar o trono que já foi do pai. Ele recobrou sua cidadania italiana – é, portanto, binacional: meio brasileiro, meio estrangeiro. É impossível asseverar desde já se esse rapaz será eleito ou se vai amargar derrota e comer poeira da estrada. Suponhamos, como exercício de futurismo, que vença a corrida e se torne presidente do Brasil.

Das duas, uma. Ou renuncia, nos conformes, à cidadania italiana, ou teremos um presidente que é, certamente, brasileiro nato, mas que é também… estrangeiro. Uma situação conflituosa, que a Constituição não previu.

Está na hora de promover uma alteração da Lei Maior no sentido de proibir estrangeiros assim como binacionais de se candidatarem à Presidência. O candidato terá de renunciar a sua(s) cidadania(s) estrangeira(s) antes de ser eleito. Caso contrário, a eleição periga ser anulada, por motivo de o candidato ser estrangeiro.

Cartinha ao presidente

José Horta Manzano

Prezado presidente Lula,

Escrevo como quem escreve a Papai Noel. Longe de mim estar querendo cavar um favor especial ou uma graça particular, não é isso. A comparação com o bom velhinho vem do fato de eu escrever sem certeza de que a carta vá chegar ao bom destino, exatamente como quando a gente manda cartinha ao Polo Norte. A única semelhança entre o senhor e aquele idoso do “Ho, ho, ho” é a enorme quantidade de pedidos que cada um recebe. Além da barba branca, naturalmente. Só que aquele consegue atender aos pedidos de quase todos – digo bem: quase – ao passo que o senhor não dispõe de poder igual. No seu saco, faltam presentes para muita gente.

Agora chega de divagações, se não, esta cartinha vai se alongar demais e tomar-lhe um tempo precioso. Quero falar das eleições deste ano e aproveitar para lhe dar um conselho. Não se avexe com a ousadia: este que lhe escreve sente-se à vontade para cochichar-lhe ao ouvido, dado que, com diferença de poucos meses, somos coetâneos.

O senhor não tem feito segredo de sua disposição de se candidatar a um quarto mandato. Presidente, lembre-se que tudo o que sobe acaba caindo um dia. E o que subiu muito alto faz um barulhão ao desabar. Sua ascensão, vamos lembrar, foi fulgurante. No fim do século passado, o senhor fez bem em insistir. Na época, poucos apostariam naquele barbudo baixinho, de língua meio presa, de cara sempre amarrada, com ares de quem quer implantar no país uma república sindical. Mas valeu a insistência. Um belo dia, deu certo, e o senhor se tornou o primeiro retirante e primeiro operário a conquistar o cargo máximo do país. Uma façanha!

Seguiram-se anos de deslumbre, encontros com reis, rainhas e os grandes deste mundo, implantação da Bolsa Família, respeito às instituições, ‘companheiros’ se lambuzando de mensalões e petrolões, reeleição assim mesmo, carisma inabalável, popularidade nas alturas. Mandato terminado, alijado do poder, uma Justiça estrábica o despachou para o cárcere, situação que o senhor enfrentou com galhardia, não há como negar. Mas esses quarenta anos de política lhe ensinaram muito. O Lula de hoje tem pouco a ver com o da Vila Euclides.

Na penúltima eleição, o senhor não pôde tomar parte. O Brasil elegeu uma figura estranha, que depois se descobriria ter emergido do mundo das trevas. Esse singular personagem, aliado à mortal pandemia de covid-19, resultaram num quadriênio calamitoso em que um Brasil quase pária teve de se contentar em sentar-se num banco rebatível no teatro internacional.

O senhor foi eleito em 2022. Foi por um triz, é verdade, com margem diminuta de votos. Neste seu terceiro mandato, que finda este ano, sua quota de popularidade nunca mais atingiu os picos de antigamente. Nem o julgamento, a condenação e o encarceramento de seu predecessor e da malta golpista que o cercava foram suficientes para inflar a popularidade do senhor. Só esse fato deveria fazer piscar um farolão vermelho no Planalto. Atenção, os ventos giraram!

Com as semanas que passam, outras luzes se põem a piscar. Até o governo de Washington já se deu conta. As sondagens (nada discretas) de Donald Trump mostram que ele já não põe fé na vitória de Lula em novembro, apesar da “química” que teria rolado entre os dois naquele encontro na ONU. Designou até um representante especial para vir ao Brasil visitar Bolsonaro na cadeia. A visita só não ocorreu porque o STF e vosmecê bloquearam a tempo a bizarria. Onde já se viu encarcerado recebendo enviado oficial de governo estrangeiro?

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Placa com bandeirinha

José Horta Manzano

Décadas atrás, uma resolução comum dos Estados do Mercosul estabeleceu a implantação das placas de automóvel ditas “Placas Mercosul”, uniformizadas para todos os países participantes, com formato idêntico e a menção da nação em caracteres pequenos.

De fato, os meios eletrônicos atuais dispensam a presença do guarda escondido à beira da estrada anotando num caderninho o número da placa dos infratores. Os radares, sozinhos, dão conta do recado. E já enviam os dados para uma central de processamento, mais rápido do que o guarda levaria pra chegar lá, mesmo viajando a 200 km/h montado em sua moto BMW.

No começo, houve muita reclamação, principalmente dos cidadãos simpatizantes da direita na política. É que sentiam arrepios só de pensar que estariam se dobrando a exigências do venezuelano Chávez, do argentino Kirchner e de outros detestáveis ‘comunistas’. Os cães ladraram, mas a caravana passou. A placa modelo Mercosul foi adotada nos países membros do agrupamento.

O senhor Esperidião Amin, senador por Santa Catarina, completará 79 anos este ano. De espírito bastante conservador, está na política desde bem jovem. Começou a carreira na Arena, partido oficial de apoio aos militares da ditadura. Dessa agremiação, por assim dizer, ele nunca saiu. Quem mudou de nome foi o partido, que se tornou PDS, depois PPR e por fim PP. Curiosidade: é o partido de Paulo Maluf, senador cassado.

O senador Amin elaborou um projeto de lei que pede que se dê marcha à ré nas normas das placas de automóveis, embora estejam já em uso há anos e tenham entrado na rotina de todos. O projeto de lei prevê que se reintroduza o que foi banido há anos, ou seja, a menção do município e do estado, assim como a bandeirinha do estado.

O senador e o relator do projeto de lei argumentam que essa informação nas placas ajuda a polícia e as autoridades a “identificar com facilidade a origem de um veículo infrator”. Ora, não se tem notícia de que os modernos radares e aparelhos de identificação de placas tenham tido algum tipo de dificuldade em “identificar veículos infratores”.

Argumentam também que “a iniciativa resgatará o significado cultural e identitário das placas, reforçando o senso de pertencimento à região e o orgulho local e facilitando a percepção pelos locais quando se tratar de veículos ‘de fora’.”

Ora, essa ideia está de ponta-cabeça. A supressão de toda menção à origem do carro (e do motorista) foi pensada justamente para apagar essa impressão de que o veículo é “de fora”.

O desconhecimento da origem do carro evita discriminações no tráfego. Previne agressões suscitadas pela antipatia que alguém possa sentir por esta ou aquela origem. Evita furtos e roubos perpetrados por maus elementos sempre atentos a turistas desavisados. No grau elevado de polarização que atualmente vivemos, a não menção da origem do carro é um salvo conduto; sabendo-se que determinados estados têm simpatia pela esquerda (ou pela direita), os turistas poderão viajar tranquilos fora de sua região.

No ar, fica a questão: Por que razão o senador anseia por uma volta ao passado no sistema de emplacamento de veículos? Quando se pensa que o trabalho de um senador há de ser muito mais elevado que a mera preocupação com bandeirinhas nas placas, uma dúvida logo surge: seria o nobre parlamentar sócio de uma firma fabricante de placas veiculares?

Não, não acredito. Não se deve enxergar o diabo por toda parte. Cá pra mim, a razão é bem mais prosaica. Extremamente conservador, se é que me entendem, o senador, que é catarinense, apoia o antigo presidente Bolsonaro, hoje preso.

Fazendo coro à doutrina de seus companheiros, que separam a população entre “cidadãos de bem” (como ele, naturalmente) e “cidadãos de baixo” (os demais), gostaria de identificar forasteiros intrusos que, sob o anonimato de uma Placa Mercosul, ousam adentrar seu estado natal.

Se pudesse, talvez instalasse uma aduana nas divisas de seu estado a fim de impedir a entrada desses indesejados que vêm macular o que ele supõe ser a pureza de sua civilização.

Nossos sonolentos senadores já aprovaram o projeto de lei. Ele continua seguindo seu caminho. Qualquer dia, virá a notícia nas manchetes. Aí, será tarde demais.

O poder do cartão de visita

José Horta Manzano

Cartão de visita costumava ser adereço obrigatório na carteira de todo profissional. Logo depois das apresentações, vinha logo o pedido: “Pode me dar seu cartão?” Todos tinham cartão, até os que não tinham profissão. Estava ali anotado o nome do indivíduo assim como seu ofício, eventualmente o endereço e o número de telefone. Adolescente, cheguei a fabricar cartão em casa, à moda artesanal, batido à máquina e recortado com tesoura.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Não sei se o costume de mandar imprimir cartão de visita persiste ou se foi levado pela enxurrada da modernidade. Talvez uma troca de zap hoje baste. Sou incapaz de dizer, visto que meu último lote de cartões foi impresso mais de 30 anos atrás.

Uma notícia que li hoje – e que reproduzo na cabeceira deste texto – me lembrou o velho hábito da apresentação do cartão pessoal. Neste artigo, aquele retangulozinho de papel tem o significado de etiqueta. A etiqueta que se leva grudada na testa e que nos define com relação aos demais.

“Aquele senhor é médico”, cochichava-se discretamente à passagem do homem grisalho de ar sério.

“Olha o vendedor de aspirador! Ele bate perna de porta em porta, um trabalho estafante”, é o que se comentava sobre o rapaz de paletó surrado e calças idem.

“Puxa, repare na elegância do distinto. É deputado”. Bom, falava-se assim num tempo antigo. Hoje em dia, elegância não é exatamente o que salta aos olhos quando se fala de um parlamentar.

Mas não vamos escapar do assunto. Quero falar de segurança, aquela que o cidadão sente (ou deixa de sentir) no dia a dia, na estrada, na cidade, na praia, no tráfego e até dentro de casa de portas trancadas. O sentimento de insegurança que submerge o brasileiro não é produto de sua fértil imaginação. É a realidade inescapável, esmagante, oprimente, sufocante.

Dentro do bagageiro do inocente entregador de pizza, pode se enconder uma arma pronta a mandar para o paraíso qualquer um que ouse resistir a um assalto. Formicida pode se esconder dentro do pedaço de bolo que a vizinha gentilmente ofereceu ao pequerrucho. A vida da família inteira pode ser ceifada pela violenta colisão provocada pelo cidadão que usa seu veículo de luxo como arma abalada a 180km/h numa avenida urbana.

Há exemplos a cada minuto e em cada esquina. A violência verbal tornou-se marca típica de muita conversa antes pacífica. Há perigo em casa, na escola, no trabalho, no carro, no ônibus, no parque, no restaurante, no bar, até na igreja. O sentimento de insegurança não é produto de uma paranoia coletiva, antes, é real.

Ano sim, outro também, aumenta a percepção que o brasileiro tem do clima de violência em que vive. Os maiores espantalhos do país, em outros tempos, já foram o comunismo, a inflação, a corrupção. Hoje, sem sombra de dúvida, a assombração maior é a insegurança.

Acho curioso ver “ex-gestores da área de Segurança”, qual salvadores da pátria, se candidatarem a postos eletivos com base na experiência adquirida nesse ramo. Ora, num país em que a insegurança se tornou a preocupaçao número 1, esses “ex-gestores da área de Segurança” deviam mais é fugir dos holofotes, bater sua mea culpa, se envergonhar de não terem sido capazes de pôr fim ao problema, e desaparecer do picadeiro.

Pedir voto de confiança ao eleitor me parece petulância. Quem não resolveu o problema enquanto tinha poder para tal deveria reconhecer a própria incapacidade, dar adeus e ir-se embora.

O cartão de visita tem, sim, o poder de exaltar a personalidade de quem o apresenta. Mas não têm o condão de dourar o currículo de gestores fracassados.

Afinal, o ser humano esteve na Lua ou não?

José Horta Manzano

Deusa grega da Lua, da caça e da natureza selvagem, Artemisa corresponde a Diana, deusa romana. É o nome de batismo que a Nasa decidiu dar a seu foguete que deve levantar chispando estes dias a levar quatro tripulantes dar umas voltinhas pras bandas de nosso astro noturno.

Voltinhas é o termo exato, não é figura de linguagem. Devem girar umas quantas vezes em volta da Lua sem lá pousar. É que, depois de mais de 50 anos sem missões de convescote espacial tão distante, a mecânica pode estar um quanto enferrujada. Ou também, e isso é fato, as atuais exigências de segurança são bem mais estritas que as de meio século atrás. Imagine se a sonda não devesse retornar e os quatro passageiros se perdessem no espaço?

Mês passado, o Datafolha aproveitou para fazer uma sondagenzinha. Perguntou a mais de 2.000 maiores de 16 anos, habitantes de 123 municípios situados em todas as regiões administrativas do país, se o indagado acreditava que seres humanos já tinham viajado um dia à Lua – fato que ocorreu em diversas ocasiões na virada dos anos 1960 para os 1970. Se eu tivesse de jogar um número no ar sem ter lido os resultados, teria respondido que, fora meia dúzia de excêntricos, todo o mundo acreditava. Que pergunta, ora!…

Pois veja só, surpreso fiquei eu ao conferir as respostas. Grosso modo, ao extrapolar as respostas dos entrevistados, um de cada três brasileiros maiores de 16 anos acha que é mentira, ou seja, que o homem jamais esteve na Lua. Como testemunha ocular da História, posso dizer que vi (pela televisão na vitrine de uma loja) os primeiros passos de um certo Neil Armstrong na superfície de nosso satélite. Como é possível que hoje, passados 57 anos, ainda tem gente que não ficou sabendo?

É verdade que, no dia seguinte aos primeiros passos, começaram a aparecer as primeiras teorias da conspiração. Até eu já recebi ecos de algumas. Seja como for, é surpreendente que, dos duzentos e tantos milhões de brasileiros, a grande maioria ainda não nascidos em 1969, se ponham a “não acreditar” em fatos do passado. Costuma-se dizer que, no Brasil, até o passado é duvidoso; só que a ida à Lua não foi façanha brasileira, portanto é passado universal. Sacudam-se, incréus!

Se vosmecê imagina que os que acham que o homem jamais foi à Lua são bolsonaristas, está enganado. Se acha que são lulopetistas, também está enganado. Os dois contingentes estão praticamente empatados, dentro da margem de erro. Se acha que os incrédulos estão no Nordeste, engana-se. Se imagina que estejam no Sul, engana-se também. Foram 37% de incrédulos no Sul e 34% no Nordeste: empate técnico.

Cristãos de rito romano x cristãos neo-pentecostais? De novo, empate técnico: 34% dos católicos afirmam ser mentira contra 37% dos evangélicos. No recorte por renda familiar, encontra-se um fator de distanciamento. Entre os que ganham até dois salários, 37% acreditam ser mentira. Já entre os que estão na faixa superior, acima de dez salários mínimos, somente 20% acreditam que é mentira. Assim mesmo, esses 20% me parecem um número elevado.

Como esperado, o fator que mais distancia os que acreditam na realidade dos que não acreditam, é o nível de instrução. Entre os indagados que não foram além do ensino fundamental, 42% juram que é mentira. Entre os que avançaram até o ensino médio, 33% pensam que é mentira. E entre os que completaram o ensino superior, somente 19% engoliram alguma teoria da conspiração – o resto entendeu que a ida à Lua era coisa séria.

Agora, o que mais me impressionou: o recorte por idade. Entre os mais jovens (16 a 24 anos), que se supõem mais abertos, mais embebidos de informação, 27% persistem em negar as evidências e não acreditam que o homem tenha ido à Lua. Na outra ponta, dos maiores de 60 anos, mais próximos dos fatos do começo dos anos 1970, 37% afirmam que é mentira o homem ter ido à Lua.

À vista desses números, a gente fica meio sem saber que pensar. Tirando o nível de instrução, os outros recortes mostram uma população praticamente igualada na negação da História.

No entanto, há outras verdades meio duvidosas que dariam lugar a questionamentos que, estranhamente, ninguém se faz. Por exemplo, como é possível que o Tiradentes, um bugre analfabeto que só sabia manejar alicates enferrujados, pôde ser o cabeça de uma revolta contra uma cobrança de impostos – que, aliás, não lhe dizia respeito? E como é possível que só ele tenha recebido a pena máxima, sendo os outros todos poupados? Está aí, sim, uma questão que me interpela, mas que, aparentemente, não incomoda mais ninguém.

Ganha um passeio de pedalinho no Estreito de Ormuz, quem der pistas para resolver esse mistério. Não o do Tiradentes, o da descrença na pisada do homem na Lua.

Negócios fraudulentos

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, é difícil abrir uma página de notícias sem encontrar lá o sobrenome Vorcaro. Está por toda parte, é invadente. O dono do sobrenome é um senhor do qual, até seis meses atrás, só iniciados tinham ouvido falar. Algo ele há de ter feito para ser elevado a celebridade nacional, equiparável a um BBB, só que mais fotogênico.

Não tive a ocasião de conhecê-lo pessoalmente, portanto devo fiar no que encontro na mídia e na internet. Seu passado, do qual não se fala com frequência, me parece um tanto esfumaçado. Uma breve biografia publicada na revista Piauí informa que seu avô, o imigrante Serafim, era pastor italiano. Que fosse italiano, não duvido. Mas… pastor? Há de ter sido um dos raríssimos italianos a professar o cristianismo reformado. E a abandonar suas ovelhas na Itália para emigrar. Raro mesmo. De onde terá saído essa informação?

Costuma-se dizer que só há duas maneiras honestas de ficar rico da noite para o dia. Uma delas, todos sabem, é ganhar na loteria. A outra, casar-se em comunhão universal de bens com uma mulher muito rica (ou com um noivo milionário). Há algumas outras maneiras, mas todas rodam fora dos trilhos da honestidade pura.

Vorcaro não cresceu na miséria, longe disso, mas também não chegou à maioridade em condições de comprar um banco. Pois ainda em seus anos de jovem adulto não só comprou um banco, como também aumentou o balanço do estabelecimento para atingir a casa das centenas de bilhões de reais. Foi nesses anos que, coincidentemente, entrelaçou seus negócios aos dos que mandam e decidem em Brasília. Mas não só lá.

Seu joguinho particular de pirâmide inchou, inchou, até que não havia mais ninguém para entrar na roda e alimentar os que estavam no topo a esperar seus ganhos. Foi aí que um pé d’água reduziu o belo castelo de areia a uma poça rasa. Vorcaro é hoje um turista nas malhas do sistema prisional, frenético como um foragido, viajando de prisão em prisão, à espera de ser chamado para o exame oral, a delação premiada.

Na minha lógica caipira, os papéis estão invertidos. Supõe-se que Vorcaro seja o corruptor, aquele que ofereceu dinheiro e vantagens em troca de depósito de dinheiro público em seu banco. Corruptos são os outros, aqueles que receberam dinheiro e vantagens e depois assinaram ordens de depósito de dinheiro público no banco de Vorcaro. Vamos ver se, depois da tal “delação”, todas as partes entram na dança.

Pode parecer inacreditável, mas Vorcaro não é o único self-made man a enveredar pelo caminho perigoso dos negócios fraudulentos. De memória, me vêm dois casos emblemáticos.

O primeiro é o empresário francês Bernard Tapie (1943-2021). Saindo do nada, passou pelos palcos e pela televisão (foi cantor e apresentador), pela política (foi deputado e ministro), pelas artes (foi colecionador de quadros), pela recuperação de empresas (chegou a comprar uma dezena de empresas praticamente falidas por 1 franco simbólico, que revendeu por centenas de milhões – entre elas, a alemã Adidas). Comprou o time de futebol OM (Olympique de Marseille), que andava mal das pernas, e tirou-o do buraco. Só que exagerou na gestão do clube e andou subornando clubes adversários para entregarem o jogo. A mutreta acabou se tornando pública, e Tapie passou uma temporada na cadeia. Morreu de câncer em 2021.

O outro de quem me lembro era o homem de negócios americano Madoff (1938-2021), esse também de nome Bernard. Seu caso foi mais sórdido do que o do francês Tapie, visto que traiu a confiança de amigos pessoais que lhe confiaram dinheiro grosso para investir. Madoff prometia rendimento muito acima do mercado, recebia somas importantes, mas nunca investiu um centavo. Depositava tudo em sua conta bancária pessoal Quando alguém vinha retirar dinheiro, ele retirava de sua conta e entregava ao cliente. Era a típica pirâmide. Foi até o dia em que estourou. Ele pegou 115 anos de cadeia. Morreu na prisão.

Quanto a nosso Vorcaro, ninguém o quer numa prisão, onde ele seria um arquivo vivo. Seria até perigoso para ele, que poderia “acordar morto” a qualquer momento. Ele vai sair livre mais dia, menos dia. Sua clientela é transversal e atravessa o que há de mais “respeitável” na Brasília dos mandos e desmandos. Todos de rabo preso e bem preso. Todos puxando a corda no mesmo sentido, fazendo o que podem para que a delação do ousado banqueiro seja fraquinha, orientada para alvos menores, passando ao largo dos maiorais.

E assim segue a barca que leva políticos e magistrados, todos bem-intencionados, imaculados, sorridentes, altruístas e puros.