Voto desparelhado

Golden Gate Bridge, San Francisco (California)

José Horta Manzano


De quatro em quatro anos volto ao assunto na época das presidenciais. Mas vamos começar pelo começo.


No Brasil, a colonização europeia chegou pela costa marítima. No primeiro século, com a notável exceção do vilarejo de São Paulo, os numerosos estabelecimentos portugueses estavam à beira-mar, de norte a sul do território.

Diferentemente dos EUA e do México, países com duas faces costeiras, o Brasil só pode contar com a costa atlântica. Sem a atratividade de uma outra face marítima, nosso povoamento demorou a penetrar fundo no território. A construção da nova capital federal, Brasília, e os incentivos dados nos anos 1970 à internalização do “progresso” não provocaram caudalosa marcha para o Oeste. O grosso da população e das atividades do país continuaram concentradas numa faixa de poucas centenas de quilômetros ao longo da faixa costeira.

Assim é até hoje. Veja um exemplo flagrante. Nosso país, com seus 4.400 km de extensão leste-oeste, cobre 4 fusos horários. No entanto, quando o locutor de alguma estação de rádio de projeção nacional ouvida em todo o território proclama, com voz empolada, que são 10 horas, está dando somente a hora da costa atlântica.

É verdade que cerca de 90% dos brasileiros se encontram dentro desse fuso, mas não deixa de ser injusto para com os demais. O relógio de mato-grossenses, amazonenses e vizinhos ainda está marcando 9 horas. Devem sentir-se cidadãos de segunda zona. Pior ainda são os acrianos, para os quais são ainda 8 horas. Ah, e tem o caso dos habitantes de Fernando de Noronha. São poucos, mas merecem atenção como os demais. Os relógios do arquipélago estão marcando 11 horas.

Até aqui, tratei de uma indelicadeza para com parte da população. Fica feio, mas não é ilegal. Já o que vem a seguir resvala para terreno pantanoso.

Faz uns vinte anos que os brasileiros do exterior temos direito de votar nas presidenciais. Vota-se somente para presidente, visto que, no Congresso, ainda não foram criadas vagas de deputados e senadores para defender especificamente os interesses dos expatriados.

Brasileiros da Nova Zelândia são os primeiros a apertar teclas na urna eletrônica. Em seguida, vêm os conterrâneos estabelecidos na Austrália, no Japão, na China, e assim por diante, até a Terra girar e o dia clarear em território nacional. Começam primeiro a votar os fernando-noronhenses, em seguida votam os da grande faixa que segue a hora de Brasília. Uma hora depois, abrem-se as urnas de amazonenses e mato-grossenses. Por último, vêm os acrianos.

Enquanto isso, continua o voto no exterior. A Terra vai girando – Ásia, África, Europa – e as urnas vão se abrindo. E chega a vez dos Estados Unidos. Consulados da costa atlântica são seguidos pelos do interior do país até chegar à costa do Pacífico.

No Brasil, cada estado encerra a votação às 17 horas locais. Os últimos a bloquear as maquinetas são os do Acre, que só terminam de votar duas horas depois do grosso da população do país. Fechadas as urnas do Acre, todos os veículos de informação anunciam a esperada estimativa geral colhida na boca de urna. Em seguida, vão pingando, um atrás do outro, resultados parciais daqui e dali. Em meia hora ou coisa assim, conhece-se o nome do(s) vencedor(es).

Até aí, beleza pura. Só que… nos EUA, na costa do Pacífico, as urnas ainda estão abertas e há gente esperando pra votar. Temos aí um grave problema. Em princípio, o horário de votação de todos os brasileiros tem de estar encerrado pra que se saiba dos resultados. Como é possível terem esquecido os que votam em Los Angeles ou em San Francisco? E não são poucos.

Chegamos assim à bizarra situação de ver eleitores que votam sabendo já do resultado, como se o voto deles não fizesse a menor diferença. Ou, pior ainda, podendo, sim, fazer diferença no caso de resultado apertadíssimo.

É uma anomalia que tem de ser sanada. Quem sabe para as próximas eleições, quando estará menos absorvido em se esquivar de ataques da extrema-direita belicosa, o TSE vai poder se debruçar sobre esse problema.

Como fazer então?
A França, que tem ilhas e pequenos territórios ao redor do planeta, já resolveu o problema faz tempo. Os eleitores do exterior não votam no domingo, mas um dia antes, no sábado. Assim, sem afobação, as seções eleitorais transmitem o resultado a Paris. Os votos do estrangeiro ficam armazenados no computador central à espera do fim do voto nacional.

Pra tudo tem remédio, basta querer.

Café frio

José Horta Manzano

Em dezembro de 2018, um mês antes de passar a faixa a Bolsonaro, o presidente Temer foi enfático ao confirmar a historinha do café frio que costuma ser servido aos presidentes em fim de mandato. “A história do café frio é uma verdade absoluta” – disse ele. Em seguida, emendou-se e garantiu que o café dele “ainda estava sendo servido quente”. Decerto um eufemismo.

A pitoresca imagem foi criada há décadas. É bastante explícita. Passadas as eleições, já se conhece o nome de quem ocupará o trono pelos quatro anos seguintes. O presidente sainte (=que está de saída) já não manda muito, fato que diminui a motivação de garçons, serviçais, faxineiros, atendentes e aspones em geral para atender a seus chamados.

Dado que, tirando os devotos, todos preferimos dar mais crédito ao Datafolha que ao Datapovo, já entendemos que, a não ser que aconteça um milagre, o mandato do capitão não será renovado. Nesse “nós” há muita gente incluída: você, eu e até bolsonaristas de carteirinha que estão deixando de pagar as mensalidades do clube.

Um deles deu na vista estes últimos dias. É o togado André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” nomeado por Bolsonaro para ocupar uma cadeira no STF. Nos primeiros tempos, o feliz ministro vitalício votou em concordância com os interesses do governo e fez o que pôde para agradar ao padrinho. Mas o tempo passa, a Terra gira e… chega um dia em que o café começa a esfriar.

Todo o mundo ficou sabendo da compra de uma baciada de imóveis pelo clã Bolsonaro com dinheiro vivo. Como se deve, esse relato ficou em exposição no Portal UOL, à disposição do distinto público. Um dos bolsonarinhos, aquele que é senador, requereu à Justiça que a informação fosse retirada do ar. Um desembargador obsequioso determinou que os vídeos fossem retirados.

Foi aí que entrou em cena nosso ministro “terrivelmente evangélico”. Com uma argumentação cristalina e bem estruturada, cassou a decisão do desembargador e permitiu que a informação que cutuca o clã presidencial continue disponível, com todo o detalhe da negociata.

Pode-se imaginar o baque que terá levado o clã. A explicação é que André Mendonça, o pastor ministro, parece já ter virado a página do bolsonarismo. Numa era pós-bolsonárica, não pretende continuar como um elétron solto, um zumbi esquecido de um pesadelo que já acabou. Quer pisar em 2023 como ministro normal, no mesmo nível de prestígio dos demais.

Seja como for, Sua Excelência está ajudando a soprar o café do presidente. Que, a estas alturas, já deve estar gelando.

Bolsonaro e os cristãos perseguidos

Perseguição aos cristãos

José Horta Manzano


“Quero aqui anunciar que o Brasil abre suas portas para acolher os padres e freiras católicos que tem sofrido cruel perseguição do regime ditatorial da Nicarágua. O Brasil repudia a perseguição religiosa em qualquer lugar do mundo.”

Trecho do discurso proferido por Bolsonaro na ONU em 20 set° 2022


Até quando tenta mostrar uma faceta pseudo-humanitária, o capitão é desonesto e distorce a realidade. Até quando quer parecer bonzinho, ele expõe seu lado clivante e discriminatório.

À primeira vista, quem acompanhou o trecho do discurso que citei acima fica com a impressão de que finalmente o presidente conseguiu exprimir um sentimento de empatia, ainda que tardio. A farsa, no entanto, desaba quando se toma conhecimento da impiedosa perseguição que sofrem os cristão mundo afora.

A ong Open Doors (Portas Abertas), fundada em 1955 por um fervoroso holandês, milita em favor dos 360 milhões de cristãos perseguidos no planeta simplesmente pelo motivo de serem cristãos.

Essa ong protestante publica todos os anos um “índice mundial” da repressão aos cristãos, esmiuçando todos os tipos de maus tratos. Em seguida, classifica os países numa escala que vai de “opressão diária discreta” até “violências extremas”. Frise-se que a imensa maioria das vítimas são de religião católica.

Em 2021, mais de 360 milhões de cristãos foram vítimas de perseguição, com variados graus de violência. Eles são católicos, ortodoxos, protestantes, batistas, evangélicos, pentecostais e outras denominações – distribuídos por 76 países. O número de cristãos assassinados em 2021 foi de 5.898. O número de igrejas e templos fechados, atacados ou destruídos foi de 5.110.

A China é a campeã de fechamento de igrejas. Aproveitando-se da crise da covid, quando tudo foi fechado, deixaram de autorizar a reabertura de templos cristãos. A Nigéria é a que mais assassina cristãos. O Afeganistão, desde que os talibãs assumiram o poder, é o pior país para um cristão viver sua fé.

A ilustração mostra os 50 países em que a perseguição dos cristãos é mais intensa. Observando bem, vê-se que a Nicarágua, citada no discurso de Bolsonaro, não aparece. Por que, então, esse país aparece na fala presidencial? Por que o Brasil só abre as portas para nicaraguenses, abandonando os demais à própria sorte?

Há duas hipóteses.

A primeira é que a equipe presidencial simplesmente não sabia da existência dessa ong – que, por sinal, está implantada também no Brasil. Sabe como é, falou em “ong”, Bolsonaro se arrepia todo, imaginando que são todos vagabundos de olho em nossas riquezas minerais. Logo, por esta primeira hipótese, a citação da Nicarágua no discurso fica por conta da ignorância presidencial.

A segunda hipótese é mais sutil. Sabedor de que Lula parece apreciar o ditador da Nicarágua a ponto de chamá-lo de “companheiro”, Bolsonaro quis matar dois coelhos de uma só cajadada. Deu uma alfinetada no Lula ao lembrar que o regime do “companheiro” nicaraguense persegue religiosos e mostrou-se magnânimo abrindo as portas do Brasil para acolher os perseguidos. Logo, esta segunda hipótese fica por conta da perfídia presidencial.

Pensando bem, o mais provável é que as duas hipóteses sejam verdadeiras, o que nos leva ao cruzamento da ignorância presidencial com a perfídia presidencial. Que Deus nos acuda!

Caminho traçado

José Horta Manzano

Em março último, faz exatamente 6 meses, o Estadão passou a publicar um agregador de pesquisas eleitorais. Com metodologia própria, colhe os dados levantados por 14 diferentes institutos e chega a um resultado depurado.

A ferramenta é interessante, visto que atenua imprecisões, distorções e até dados fora da curva que algum instituto individualmente possa ter publicado.

Consulto com frequência esse agregador. Com respeito às pesquisas da corrida presidencial, tenho notado uma surpreendente constância nos resultados.

 


Em 12 de abril deste ano, bem antes do início da campanha oficial, Lula era creditado com 44% das intenções de voto; naquela altura, Bolsonaro estava com 30%.


 

De lá pra cá, tivemos distribuição de dinheiro a rodo via orçamento secreto, milhões torrados na campanha oficial, propaganda gratuita em rádio e tevê, aumento substancial da mensalidade da Bolsa Família, exposição tímida do projeto de cada um, debates entre candidatos, exposição na mídia, posicionamento firme de figurões (cada um apoiando seu candidato). E qual foi o resultado?

 


Na última atualização, publicada ontem, o agregador mostra Lula com 45% e Bolsonaro com 33%.


 

Constata-se que, pouco mais ou menos, ambos oscilaram dentro da margem de erro. Seis meses se passaram e as intenções não arredaram pé. É notável essa estabilidade. Parece que todo esse frenesi e essa gastança de dinheiro público não serviram para nada.

O astral não deve estar muito alto na equipe de campanha do capitão. Ele continua garantindo que vence no primeiro turno, mas a gente se pergunta qual é a receita para mudar em 10 dias um cenário que está congelado há 6 meses.

A menos que uma catástrofe venha chacoalhar o picadeiro – tipo assassinato, morte súbita, terremoto ou bomba atômica – o caminho parece traçado.

O nome dos bois

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga.


A coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?


Em palavrório accessível, a questão é: mudando o símbolo muda-se a coisa?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» – se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, distinto leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi criada. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se puseram de acordo para acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Palavras estranhas – e nem sempre bem escolhidas – nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua a qualquer hora sem medo de enfrentar violência, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nome aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos que meio século atrás (ou menos pobres, se preferirem), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de segurança, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, desde que fomos assaltados pelo “politicamente correto”, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional por motivo de vocabulário inapropriado.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.

Publicado originalmente em 13 dez° 2012.

12 de setembro

Juscelino Kubitschek

José Horta Manzano

No meio de tantos horrores que fermentam no magma da classe política nacional e afloram à superfície durante campanhas presidenciais, é sempre refrescante relembrar coisas agradáveis. São coisas que estão obrigatoriamente no passado visto que, da política atual, não se pode esperar nada de bom.

Faz hoje exatamente 120 anos que nasceu em Diamantina, nas Minas Gerais, um menino que viria a ser um dos dois grandes presidentes que nossa República conheceu desde a redemocratização de 1945. Falo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). O outro grande foi Fernando Henrique Cardoso.

Fora esses dois, só estropícios subiram a rampa. E pelo que tudo indica, a desgraça não está perto de acabar. Considerando os dois principais pretendentes ao trono, seja qual deles for eleito, o Brasil vai continuar fazendo parte da periferia do mundo.

Continuaremos sendo um daqueles países folclóricos capazes de produzir soja para engordar gado, mas incapazes de contribuir para o processo civilizatório global.

Email de Buckingham

José Horta Manzano

O jornalista Lauro Jardim informa que os estrategistas da campanha do capitão estão seriamente cogitando enviá-lo a Londres para estar presente nos funerais da rainha Elizabeth II.

Acreditam que o fato de ele aparecer em meio a chefes de Estado de todo o planeta é altamente positivo para passar a imagem de um líder importante. Seria um golpe de mestre, uma cartada simbólica fora do alcance dos demais candidatos, especialmente de Lula.

Na ideia dos estrategistas, o ideal é que Bolsonaro compareça acompanhado da esposa. Só que, por enquanto, estão ainda no estágio da cogitação. Ainda não se tem nem a data do funeral. O Palácio de Buckingham também ainda não mandou convite.

Apelo urgente
Alguém teria o email de Buckingham? Se tiver, mande uma cartinha para a Redação. Vou aconselhar o cerimonial londrino a desistir do convite ao capitão. Pelo bem do Brasil.

Tempos estranhos

Bloqueio da Esplanada dos Ministérios, Brasília

José Horta Manzano

Quase duas décadas atrás, da primeira vez que utilizou a expressão “tempos estranhos” para designar um momento de tensão particular na vida nacional, Marco Aurélio Mello, então ministro do STF, decerto não imaginava que sua definição teria vida tão longa.

A expressão, cunhada nos tempos do Mensalão, entrou de fato para o vocabulário da política nacional e lá se deu tão bem que permanece até hoje. Desde que chegou, ela vem sendo repetida a cada nova barbaridade de nossas autoridades federais.

Nesta execrável era bolsonárica – que ainda há de ser amaldiçoada pelos historiadores do futuro –, a expressão continua válida. E como! Tempos tão estranhos, o país nunca tinha vivido. Nenhum afiado futurólogo do século 20 teria jamais vislumbrado na bola de cristal um período como o atual, mais destrutivo do que muita guerra.

Vejamos então. Faz meses que o capitão açula sua malta a manifestar-se com violência contra o voto livre e secreto e contra a mais alta magistratura do país. Seu DembishDepartamento de Manipulação dos Baixos Instintos do Ser Humano (também conhecido como Gabinete do Ódio) – concluiu que o Sete de Setembro, a data maior da nação, seria excelente momento para deixar explodir a violência que lampeja atrás dos olhos injetados de seus sequazes.

À vista de uma turbulência que imensa maioria da população não aprova e não deseja, autoridades de bom senso tiveram de agir. A inauguração do novo Museu do Ipiranga e as manobras navais previstas na baía de Guanabara viram seu calendário chacoalhado. Para não soprar sobre as brasas acesas pelo presidente, tiveram de afastar-se do dia sete.

Diferentemente da tradicional bonomia dos festejos da Independência, dia de parada e bandeirinha, autoridades de Brasília tomaram decisão drástica: o bloqueio ao tráfego da Esplanada dos Ministérios. Ninguém passa.

Quando a expressão “tempos estranhos” foi forjada, havia monumental roubalheira mas ninguém tinha medo. A situação hoje se agravou exponencialmente. O assalto – declarado ou suputado – aos cofres da nação deixou o estágio das “obscuras transações” de outrora e tornou-se oficial: orçamentos secretos, ao melhor estilo ditatorial, se encarregam de saquear as burras à luz do meio-dia. E em toda legalidade.

O problema maior é que, além de esbulhado pela “elite” política, o povo vive hoje com medo. Instalou-se uma situação de insegurança que o brasileiro não vivenciava desde os tempos sombrios da ditadura. A pobreza, a miséria, a ignorância, a desigualdade perduram, mas agora o temor do amanhã veio se adicionar aos conhecidos males da nação.

À espera do dia em que essa malta rasteira e estridente será desalojada pelo voto, o Brasil pensante se dá as mãos para neutralizar as consequências das decisões malévolas e maléficas do presidente.

E assim vamos, qual cegos em tiroteio, com jogo de cintura, desviando pra cá e pra lá, tratando hemorragia com esparadrapo, fugindo do capitão, de olho num outubro que nos tire do sufoco.

Como seria bom se a expressão “tempos estranhos” caísse logo em desuso.

A juíza e o juízo

José Horta Manzano

Na sexta-feira 2 de setembro, o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a exibir a nova regra relativa ao porte de telefone celular na cabine de votação.

O aparelhinho continua proibido, assim como todo dispositivo que permita fotografar, filmar ou registrar o voto. A novidade é que o telefone celular será retido pela mesa eleitoral enquanto o eleitor vota. O cidadão que se recusar a entregar seu aparelho perderá o direito de votar.

A resolução não prevê exceção para cidadãos STC (sem telefone celular), como este blogueiro. Fico a imaginar a cara de espanto dos jovens mesários quando eu lhes contar a exótica verdade. Estou até pensando em tomar um telefone emprestado, só pra não causar mal-estar.

O mui sério e mui oficial site do TSE estampa as novas disposições(1). O trecho mais impressionante é o seguinte:

“Havendo recusa em entregar os equipamentos descritos, a eleitora ou o eleitor não serão autorizados a votar e a presidência da mesa receptora constará em ata(2) os detalhes do ocorrido e acionará a força policial para adoção de providências necessárias, sem prejuízo de comunicação a juíza ou ao juízo eleitoral.(3)

Considero que o confisco temporário do telefone de bolso é medida de bom senso. Inibe tanto o voto comprado quanto o voto de cabresto. O que me incomoda é a redação do comunicado. Vejamos.

(2) Constará em ata
Quem redigiu a frase ignora o significado do verbo constar. Nessa acepção, significa aparecer, ser mencionado. Ora, não é a presidência da mesa que vai aparecer na ata. A obrigação da presidência da mesa será fazer constar na ata. Se preferirem um único verbo, podem dizer que a presidência lançará em ata os detalhes do ocorrido.

(3) A juíza e o juízo
Li, reli e tresli a frase tentando adivinhar a intenção de quem a redigiu. Ainda estou na dúvida. Quem será o juízo? Pensei que talvez estivessem fazendo referência ao juízo eleitoral, ou seja, a instituição judiciária eleitoral. Se assim fosse, que estaria fazendo a juíza na frase?

Reflexão feita, acabei entendendo que o “politicamente correto” passou por ali. O redator devia estar com intenção de se referir à juíza e ao juiz, mas – oh céus! – digitou mal. Saiu “à juíza e ao juízo”. Ninguém releu, e o texto virou lei.

“A juíza e o juízo” me lembra uma historinha infantil em que se perguntava qual era o marido da vaca, e a resposta vinha: “É o vaco”.

(1) Se alguém quiser conferir no site do TSE, é por aqui.

Em dinheiro vivo

José Horta Manzano

Levantamento feito pelo UOL dá conta das atividades do clã Bolsonaro no mercado imobiliário. A família é mais ativa do que muito escritório imobiliário por aí. Nos últimos trinta anos, Jair (deputado, depois presidente), irmãos e filhos transacionaram um total de 107 imóveis. Pra quem não é do ramo, é um currículo apreciável.

Só que tem um particular: entre os imóveis comprados, 51 foram pagos parcial ou inteiramente em dinheiro vivo. Fazendo as contas e atualizando os montantes pela inflação, dá o estonteante total de R$ 26,5 milhões. Em notas, talvez transportadas numa sacola e empilhadas no balcão. Sabe que espaço é necessário pra armazenar R$ 26,5 milhões? Um quarto cheio.

Nestes tempos de judicialização extrema, a imprensa trata o assunto com luvas de pelica. Os textos saem com expressões cautelosas, aspas e verbos no condicional: “suposta lavagem de dinheiro”, “teria sido gasto”, “poderia tratar-se de rachadinha”, e por aí vai.

Dado que Seu Lobo não chega aqui, tiro as aspas, dispenso o condicional e digo o que penso: está evidente que o dinheiro provinha de negócios subterrâneos, que não podem ser expostos à luz do meio-dia. Rachadinha? Pode ser, se bem que os montantes me parecem elevados demais. Cobrança de proteção garantida por milicianos? Vai saber. Extorsão, chantagem ou outros crimes graves? É permitido cogitar.

Bom, não vamos aqui entrar no mérito da questão. De toda maneira, qualquer denúncia será abatida em voo pelo aparato de segurança que (ainda) protege o capitão. Eu queria é comentar a naturalidade com que esse negócio de pagamento em dinheiro ocorre no Brasil, enquanto, em terras mais avançadas, não existe.

Nos países da Europa ocidental, é simplesmente proibido comprar imóvel com dinheiro vivo. O pagamento tem de transitar necessariamente por um banco. Essa regra, em si, já é um grande passo em direção à transparência. Um cheque ou uma transferência bancária deixam rastro indelével. A todo momento, pode-se saber quem pagou e de que conta saiu.

Ainda que o comprador tivesse – pode acontecer – o dinheiro do pagamento armazenado em malas ou em cuecas, não adianta: terá de depositar o montante numa conta bancária e só então mandar fazer a transferência. Só que, nesse caso, surge novo problema. Hoje em dia, é complicado depositar grandes quantias no banco. Tem de justificar, com prova documental, a origem do dinheiro. Se o depositante não conseguir provar a origem, o banco não aceitará o depósito.

Há mais porteiras para cercear o florescimento de uma economia subterrânea, como o caso dos Bolsonaros parece denunciar. No entanto, pra começar a drenar esse pântano em que se movimentam criminosos de toda espécie, as duas primeiras medidas já seriam bem-vindas:

1. Que se proíbam transações imobiliárias em dinheiro vivo.

2. Que se determine aos bancos investigar a origem de depósitos em dinheiro a partir de um determinado montante.

É verdade que estamos caminhando para um mundo desmonetizado, em que notas de dinheiro estão entrando em via de extinção. Daqui a duas décadas, rolos como esse dos Bolsonaros (e de tanta gente mais) não serão possíveis. Mas não custa dar um empurrãozinho no destino e começar desde já a apertar a porca.

Malas e cuecas vão assim voltar a ser destinadas à finalidade para a qual foram concebidas.

Aporofobia

José Horta Manzano


Doutora Adela Cortina (1947-) é uma filósofa espanhola. Na década de 1990, cunhou o conceito de aporofobia para referir-se ao ódio e repúdio à pobreza e aos pobres.


A aporofobia inclui ainda a animosidade, hostilidade e aversão a todos os indicadores de pobreza: bairros carentes, pessoas sem-teto, refugiados, migrantes.

Em sociedades em que diferenças socio-econômicas são quase imperceptíveis, a aporofobia não costuma vicejar. Por seu lado, sociedades como a nossa, com abissais desigualdades, são terreno fértil para a germinação desse ódio.

Nosso desequilíbrio social é tão fecundo que a aporofobia aqui se aclimata e se alastra. O conceito se amplia e se exprime através do ódio racial, religioso e até político.

Foi esse terreno fértil que permitiu o surgimento de um Bolsonaro – aporófobo de primeira – que soube desinibir parte da população e dar a seus devotos a oportunidade de exprimir publicamente suas aversões. Em linguagem clara, aporófobos que costumavam reprimir sua tendência soltaram a franga. Romperam as amarras.

O capitão, que hoje defende a ampliação de benefícios sociais, é o mesmo que, no ano 2000, declarou ter orgulho de se opor a programas de redistribuição de renda, argumentando que deveriam estar associados ao controle da natalidade. Uma visão eugenista da sociedade, com relentos de esterilização forçada. “Se a população pobre deixar de procriar, em breve desaparecerá” – é a lógica que sua mente simplória lhe permitiu conceber.

O empresário periquito
Aquele conhecido empresário amigo do presidente, um baixinho de coco rapado que sempre aparece fantasiado de Zé Carioca, acaba de perder um processo. No mês de maio passado, andou fazendo comentários públicos contra o padre Júlio Lancellotti, ao vê-lo distribuir alimento a moradores de rua que tinham de enfrentar as noites geladas de São Paulo.

“É da turma do Lula. Hipocrisia pura. Temos que ensinar a pescar, e não dar o peixe. Cada dia que passa é mais malandro vivendo nas costas de quem trabalha”, foi o que o periquito escreveu. E continuou: “Quem defende bandido, bandido é”.

Ferido em sua dignidade diante de tamanha petulância, o religioso moveu um processo pedindo reparação. Venceu a causa.

Esse é o tipo de personagem a quem o capitão abriu a porteira. Como esse periquito, há milhões de papagaios que se sentem alforriados para exprimir seus baixos sentimentos.

Ódio, repúdio, hostilidade, aversão, antipatia, enjeitamento, repelência, repulsão, ojeriza & sentimentos afins não precisam mais ser guardados na gaveta. Podem ser expressos por escrito e à luz do dia. Ninguém mais parece se escandalizar.

O mal que Bolsonaro tem feito ao país ainda está para ser contabilizado. Vai ser difícil fechar a porteira que ele escancarou.

Tudo o que é demais…

José Horta Manzano

Estava observando o número de seguidores de certas personalidades da internet. É pra lá de impressionante: chega a ser estonteante. Tem gente – artistas, influenciadores, políticos, esportistas – que exibe incontáveis seguidores. São 60 milhões para fulano, 95 milhões para sicrano, 130 milhões para beltrano.

De repente, a gente pára e faz as contas. Adicionando todas essas centenas de milhões de fãs, chega-se a um total que equivale a muitíssimas vezes a população do país, incluindo recém-nascidos e anciãos. Conclusão: cada seguidor está inscrito em mais de um, quiçá em dezenas de canais.

Agora vem a pergunta: será que cada um desses fãs lê, sem falta, todas as postagens de todos os canais em que está inscrito?

A meu ver, é praticamente impossível. Passar o dia (e a noite) olhos grudados na telinha não seria suficiente pra ler tudo de verdade, sem deixar escapar nada.

Ao fim e ao cabo, conclui-se que tomar como base o número de seguidores de cada personalidade é uma informação que deve ser estudada com grande precaução. Cada postagem daquele que tem 70 milhões de fãs não será necessariamente lida por 70 milhões de assinantes. O número de verdadeiros seguidores assíduos é infinitamente mais baixo.

E isso significa o quê? Significa que o alcance verdadeiro da influência deste ou daquele artista (ou esportista, ou político) é certamente bem mais modesto do que pode parecer à primeira vista.

Além disso, a influência de cada personalidade se dilui no caldeirão onde borbulham tantas influências vindas de tantas bocas. O balanço final das diversas influências periga se anular.

O bombardeio de opiniões é superior à capacidade de absorção dos seguidores. Tudo o que é demais enjoa.

Mudança de alvo

José Horta Manzano

Nós, os brasileiros menos fanáticos e mais esclarecidos, estamos torcendo para que as eleições de outubro devolvam o capitão de volta ao lar de onde nunca deveria ter saído. Isso é ponto pacífico.

Se dependesse de mim, o substituto na Presidência não seria Lula nem Ciro. Boto mais fé na Simone Tebet. Me parece a mais equilibrada e bem intencionada de todos. Mas o resultado não depende de mim, portanto o jeito é continuar torcendo.

Do jeito que as coisas vão, o páreo será decidido entre Lula e o capitão. Há que ser realista: os demais candidatos não parecem ter estofo nem fôlego para aguentar até a meta de chegada.

Nós, que frequentemente comentamos a vida nacional – com ênfase naqueles que nos governam –, temos um motivo a mais para torcer pela derrota do presidente atual. Estou farto de malhar o capitão! E acredito que muitos escribas também estejam.

Afinal, são quatro anos de observação desse horror. No começo, a gente imaginava que o homem fosse apenas um desequilibrado inofensivo, o que se dizia antigamente um “louco manso”. O tempo nos fez entender que, por detrás do desequilíbrio, havia um projeto pra valer. Não vejo a hora que a apuração indique a vitória de outro candidato – que, com grande possibilidade, será o Lula.

Estive fazendo um rápido levantamento dos 5.300 posts que já publiquei neste blogue. Contei o número de artigos em que o nome do Lula foi mencionado nestes últimos anos. No período de 4 anos que corre de 2018 a 2022, seu nome apareceu em 20 artigos, o que dá uma média de 5 vezes por ano.

Em seguida, contei quantas vezes o nome do mesmo Lula foi mencionado unicamente no ano de 2013 (quando já nem mais presidente era). Deu 72 vezes, num ano só, numa média de 6 artigos por mês. Uma festa!

Cansado de malhar o capitão, torço para que o Lula tome seu lugar. As críticas contra o novo presidente vão continuar fluindo, mas uma mudança de alvo é sempre bem-vinda.

Brincando de candidato

José Horta Manzano

Na hora de votar, paulistas e paulistanos são gente pouco preconceituosa. Não costumam ser mesquinhos. A capital já elegeu prefeitos cariocas (Faria Lima, Celso Pitta), uma prefeita vinda da Paraíba (Luíza Erundina), um mato-grossense (Jânio Quadros). Este último, aliás, antes de chegar à Presidência da República, foi governador dos paulistas durante quatro anos, eleito pelo voto direto. Lembremos que Fernando Henrique, o carioca que viria mais tarde a presidir o Brasil, também foi senador por São Paulo durante oito anos.

Paulistas não gostam é de ver gente que só conhece o estado de ouvir falar se apresentando como “profundo conhecedor” da terra dos bandeirantes. Vez por outra, aparece algum político que, não se sabe por que razão, se recusa a subir um degrau após o outro e prefere ser lançado de paraquedas pra pousar logo no topo da escala.

Não faz muito tempo, o paranaense Sergio Moro arrumou um endereço fantasma e, numa burla às regras, tentou inscrever-se como candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. Foi apanhado e caiu do cavalo. Conhecia pouco ou quase nada do estado.

Temos agora o caso do doutor Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo ao governo paulista. Nascido do Rio e tendo passado boa parte de sua vida em Brasília, ele tem tanta intimidade com o estado de SP quanto você, distinto leitor, tem com a Mongólia. Pra quem nunca ouviu falar desse senhor, foi diretor de autarquia nomeado no governo Dilma, em seguida ministro nomeado por Bolsonaro. Costumava aparecer na garupa do presidente em alguns passeios de moto à la Mussolini.

A jornalista Bela Megale relata, em artigo d’O Globo, que senhor Freitas caminhava outro dia pelas ruas de Osasco (grande SP), quando um popular lhe perguntou se conhecia o estado. “Conheço mais que paulista” – foi a resposta, petulante e grosseira, ao melhor estilo bolsonarista.

O artigo nos informa também que, antes de bater o martelo, senhor Freitas relutava em aceitar a candidatura à governança de São Paulo, como lhe exigia o capitão. Em vez de candidatar-se a governador por um estado que não conhece, teria preferido representar o estado de Goiás no Congresso, o que lhe permitiria levar vida tranquila e continuar residindo em Brasília. No final, a pressão presidencial foi tamanha que, bom devoto, cedeu.

Agora chegamos ao ponto. Como eu dizia na entrada, não é questão de mesquinharia nem de rejeição ao forasteiro. O que os paulistas teriam preferido era um candidato com raízes no estado, pouco importando seu lugar de nascimento. Afinal, os 46 milhões de habitantes de São Paulo equivalem à inteira população da Espanha ou da Argentina. Se o estado fosse uma nação independente, seu PIB a situaria entre as 20 maiores economias do planeta.

Diga-me agora se é normal que a governança de uma massa de gente e de bens de tal magnitude seja entregue nas mãos de um indivíduo que, além de mal conhecer o estado, carece totalmente de experiência política? E que, ainda por cima, se candidatou de má vontade, só porque Seu Mestre mandou.

Governar o estado mais importante da União não é função para indivíduos desmotivados, que lá estão só porque o chefe insistiu.

Essa clique que se aglutina em torno da Presidência está tratando cargos políticos como bibelôs, que a gente escolhe na prateleira pensando em combinar com a cor da cortina da sala, manda embrulhar e leva embora. Os brasileiros merecem maior consideração.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

Como é que é? Vosmicê ainda não assinou? Corra, que amanhã já é o dia da leitura oficial da carta. Não deixe passar a oportunidade de fazer parte oficial da História do Brasil.


Neste 10 de agosto,
o total de adesões está batendo nos

850.000  cidadãos!


 

Não sabe onde assinar? É por aqui:

https://estadodedireitosempre.com

Sabonete Lever e… democracia

José Horta Manzano

Quando eu era criança (faz muito tempo), muito anúncio de sabonete aparecia em rádio, jornal e revista. As marcas mais conhecidas – algumas hoje desaparecidas – eram: Palmolive, Eucalol, Gessy, Phebo, Lifebuoy. E também o conhecido Lever, o “sabonete das estrelas”, que um dia passou a chamar-se Lux.

Esse Lever se gabava de ser usado por 9 entre 10 estrelas do cinema. (Que se saiba, o fabricante nunca publicou pesquisa feita por instituto sério para embasar a afirmação.) Já este blogueiro, que nunca teve vocação pra acreditar em tudo o que se diz, ficava a matutar: “Mas qual será a marca usada pela estrela que, numa amostragem de 10, recusa o Lever?”.

Estes dias, tive notícia de uma pesquisa levada a cabo pela Fundação Tide Setúbal. Mais de 400 empresários brasileiros foram entrevistados e responderam a uma lista de questões. Note-se que eles provêm de empresas grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Representam toda a paleta: comércio, indústria e serviços. Segue um apanhado da sondagem.

Democracia
Forte maioria deles (82%) concorda que a democracia, ainda que imperfeita, é preferível a qualquer outro sistema de governo.

Tortura
Uma pergunta era concernente à tortura: 82,5% dos entrevistados repeliu o emprego de tal violência, independentemente das circunstâncias.

Autocracia
Indagados se achavam que, em situação de crise, seria justificável que o presidente da República fechasse o Congresso e governasse sozinho, 55% repudiaram vigorosamente essa solução.


Agora vamos voltar à brecha aberta pelo velho sabonete Lever. Como em toda sondagem, uns concordam com isto, outros discordam daquilo. Voltemos à pesquisa em pauta e analisemos o outro lado da medalha.


Democracia
Considerável fatia dos entrevistados (18%) prefere um sistema de governo diferente da democracia. A pesquisa não perguntou qual era esse regime, mas é lícito supor que 18% dos empresários dão preferência a um regime ditatorial. Não está longe de 1 em cada 5 empresários.

Tortura
De novo, quase 1 em cada 5 empresários (17,5% dos pesquisados) não vê nenhum inconveniente em empregar a tortura em determinadas situações. A pesquisa não perguntou quem teria o poder de utilizar esse método brutal. O carcereiro na cadeia pra corrigir um preso indisciplinado? O policial na delegacia pra extorquir uma confissão? O dirigente de empresa dentro da fábrica pra dar uma lição nos representantes sindicais? O pai de família no quartinho dos fundos pra corrigir o filho rebelde ou a empregada respondona?

Autocracia
Esta parece pior que as demais. Dos empresários entrevistados, 45% acham normal que, em situação de crise, o Congresso seja extinto e que plenos poderes sejam dados ao presidente da República. Não ficou claro o significado de “situação de crise” mas, seja como for, o Congresso abriga os representantes do povo. Fechar essa instituição equivale a curto-circuitar a população e dar plenos poderes à panelinha que constitui o Executivo. Quase metade dos empresários não vê nenhum mal nisso.


Se a pesquisa tiver sido bem conduzida – e tudo indica que foi – a paisagem do empresariado nacional é aterradora. Porção significativa de grandes e pequenos empresários encara a tortura, a autocracia e a ausência de democracia como situações aceitáveis, pra não dizer desejáveis.


A conclusão a que se chega é que o país vai mal mesmo. Pior do que se imaginava. A disposição do empresariado diante dessas três questões concretas é estonteante. Se a pesquisa tivesse sido feita num reduto de devotos do capitão, não se esperaria outro resultado. Agora, de uma amostragem variada de empresários, é de dar vertigem.

Com um empresariado assim, falta muito pouco pra batermos no fundo do poço.

Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

750.000 adesões!

José Horta Manzano

Me lembro de uma velha tia que costumava mostrar, com muito orgulho, seu certificado de doadora de 1932. O diploma era conferido àqueles que houvessem doado alguma joia de ouro para contribuir com o esforço comum em prol da Revolução Constitucionalista.

Passados noventa anos, chegou minha vez de receber meu certificado. Desta vez, não foi preciso doar ouro nem enfiar a mão no bolso. Bastou botar a mão na consciência e dar, com minha assinatura, modesta contribuição para deter o descalabro que tomou conta de nosso país. Convém agir enquanto é tempo.

No momento em que escrevo, madrugada de sexta-feira 5 de agosto, já somos mais de 750.000 aderentes à Carta aos Brasileiros. Ela será lida oficialmente dia 11 de agosto, quinta-feira que vem. Se você não assinou, ainda dá tempo. É simples como dar bom-dia.

Coragem, gente, que o bicho não vai comer! O leão ruge, mas é covarde e desdentado.

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O que a pesquisa revela

José Horta Manzano

A análise de uma pesquisa eleitoral traz muitos ensinamentos. É claro que seu objetivo maior é vislumbrar o(s) vencedor(es) da disputa, mas as informações vão além. A sondagem diz muito mais do que simplesmente quem deve ganhar ou quem deve perder. Vamos ver.

Faz uns dias, saiu a mais recente edição da pesquisa DataFolha, que afere a temperatura da campanha para as presidenciais de outubro. Faltando só dois meses, o Brasil começa a prender a respiração à espera do veredicto das urnas. Eletrônicas, of course.

Uma das técnicas dos sondadores é perguntar ao eleitor, de chofre, a quem ele pretende dar seu voto. Nenhum nome de candidato é sugerido. Eleitoralmente, o valor desse capítulo da pesquisa é relativo, visto que a campanha ainda não começou pra valer, e o nome dos candidatos ainda não foi martelado no ouvido de cada um.

Essa pesquisa, chamada espontânea, apreende o “voto de coração” do eleitor. Se a pergunta fosse, por exemplo, “Pra que time você torce?”, não haveria necessidade de apresentar lista de nomes de clube – cada torcedor traz na ponta da língua o nome de seu time favorito. Na pesquisa presidencial, funciona igualzinho. Os que têm um candidato de coração declaram sem hesitar.

Na espontânea da Datafolha de julho, quando não foi apresentada nenhuma lista, 41% dos pesquisados declararam voto em Lula, enquanto 17% disseram ter intenção de votar em Bolsonaro. A meu ver, esses números dão boa indicação do cerne do eleitorado de cada um – os eleitores fiéis até debaixo d’água.

Que leitura se pode fazer dessa constatação? Salta aos olhos que o candidato que conta com a fidelidade de 41% do eleitorado tem mais chances de vencer o jogo do que seu adversário, que só tem 17% de adeptos. Mas há uma outra verdade, ainda que menos charmosa.

O candidato mais apreciado pelo distinto público já presidiu o país por 8 anos. É aquele que detém o triste primado de ser o primeiro ex-presidente que amargou ano e meio de cadeia por crime de corrupção – julgado, confirmado e reconfirmado por 3 diferente tribunais.

O candidato que vem em segundo lugar já presidiu o país por quase 4 anos. Sob sua batuta, o coro desafinou e o Brasil está à beira do descarrilamento. Por culpa dele, milhares de infelizes foram largados ao deus-dará, sem cuidados médicos e sem respiradores, nas horas mais sombrias da pandemia. O personagem ainda não passou uma temporada de vilegiatura na prisão, mas, ao término do mandato, será difícil deixar de responder por seus crimes.

No final, percebe-se que 58% dos brasileiros (41 + 17) se derretem por dois personagens que já deveriam estar há muito tempo na lata de despejo, junto com os outros detritos da República. Essa constatação é aterradora. Ela significa que corrupção e ineficiência não são freios ao louvor popular. Que o postulante à Presidência roube o dinheiro do povo, minta, maltrate o povo, minta, suborne representantes do povo, minta, zombe do povo, minta – não desencoraja grande maioria dos eleitores.

Não sei qual é a origem dessa macabra recusa a enterrar cadáveres políticos. Em terras mais civilizadas, uma disputa entre um ex-presidiário e um provável futuro presidiário não teria razão de ser. Ainda que fossem autorizados a se candidatar, não teriam chance. Será ingenuidade do eleitor brasileiro? Ignorância? Alienamento? Falta de percepção das grandes questões nacionais? Ideologia? Salvacionismo?

Visto isso, sabe quando é que virá a “salvação” do Brasil? No dia de São Nunca.