Desleixo

José Horta Manzano

Para os saudosistas, volta e meia a tevê francesa passa algum trecho de programa dos primórdios da televisão, programas dos anos 1950 ou 1960. As imagens são em preto e branco e não têm a nitidez das atuais, mas são retrato saboroso de uma época.

A construção da identidade de uma nação se faz a partir desse tipo de memória. Sem a imagem, ficamos na conjectura. Aprender com o passado, quando não há desenho, nem estampa, nem figura, fica complicado – especialmente para as jovens gerações, que nasceram num mundo de imagens.

França, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Itália e os demais países da Europa ocidental têm todo o acervo de programas televisivos gravado e conservado desde que os primeiros aparelhos de videotape permitiram, lá pelo final dos anos 1950. O mesmo vale para todas a emissões de rádio, devidamente registradas e arquivadas desde que os meios técnicos permitiram a realização de gravações.

Quando a gente vê imagens com cenas de rua de Londres, Paris e Berlim de um século atrás, é de ficar babando. Há quantidade desses filmes que mostram a vida como ela era, não só nas cidades, mas também nos vilarejos. Das nossas principais cidades – que, no entanto, já eram grandinhas no começo do século XX – não há praticamente nada. A conservação da memória através da imagem nunca foi uma preocupação nacional.

E tudo indica que continua não sendo. A perda do Museu da Língua Portuguesa pelo fogo, faz sei anos, mostrou que o descaso para com um dos pilares da formação de nossa nação é mal de raiz. Três anos atrás, repeteco: a pavorosa destruição pelo fogo do Museu Nacional deixou evidente que nada havia mudado, e que continuávamos a desdenhar daquelas “velharia inúteis que não dão camisa a ninguém”.

A tristeza mais recente é a ruína de parte do acervo da Cinemateca Brasileira, de novo pelo fogo, perpetrada estes dias. Antes de tirar o lenço pra chorar a perda, é bom preparar a raiva. Fique-se sabendo que, nos últimos 60 anos, a Cinemateca já foi parcialmente destruída por 5 incêndios e uma enchente! Bota descaso nisso!

Os incêndios precedentes tinham ocorrido em 1957, 1969, 1982 e 2016. Em 2020, foi a vez da água da enchente, que inutilizou 113 mil DVDs.

A gestão(?) Bolsonaro não tem a culpa pelo que aconteceu no passado, sejamos justos. Mas tem responsabilidade – e como! – pelo que acontecerá daqui pra frente. As consequências do pouco caso da atual administração federal hão de se fazer sentir por décadas.

Se a destruição da memória nacional continuar no ritmo atual, os brasileirinhos dos anos 2100 vão se sentir como nós hoje, privados de memória visual do passado. Terão de contar com a transmissão oral, como nas civilizações que ainda não atingiram o estágio da escrita.

A visita da duquesa

José Horta Manzano

Beatrix Amelie Ehrengard Eilika von Storch, duquesa de Oldenburg, é uma mulher política alemã. Nascida em 1971, tem sólida formação jurídica adquirida nas Universidades de Heidelberg (Alemanha) e de Lausanne (Suíça). Foi eleita deputada junto ao Parlamento Europeu em 2014 num grupo conservador. Três anos mais tarde, tendo sido eleita para o parlamento alemão, renunciou ao mandato europeu. A essa altura, já estava afiliada a novo partido.

Fundado em 2013, o novo partido da duquesa se chama AfD (=Alternativa para a Alemanha). O agrupamento segue um ideário rigoroso, que inclui: descrença na União Europeia, ultranacionalismo alemão, populismo de direita, negacionismo climático, oposição à imigração, anti-islamismo, antifeminismo. Propagam a saída da Alemanha da UE, a expulsão dos estrangeiros, a perseguição aos muçulmanos, a abolição de políticas feministas. Como se vê, os afiliados são gente fina.

A duquesa, que segue linha mais dura que a do partido, vai mais longe. Costuma ser descrita como “reacionária descomplexada”, homofóbica, violentamente contrária a tudo o que não for alemão. É o protótipo da xenófoba caricatural. É vista como anti-islamista militante, desejosa de “empreender uma cruzada contra o Islã”.

Como se não bastasse, Frau von Storch é visceral e agressivamente contrária à contracepção, ao aborto voluntário e ao casamento homossexual. A distinta senhora não esconde o fato de ter “chorado de alegria” assim que foi anunciado o Brexit. No seu raciocínio, era o prenúncio do desmanche da Europa unida.

Como se pode imaginar, já se declarou contrária à presença de jogadores não-descendentes de pura estirpe alemã na seleção nacional de futebol. Traduzindo em miúdos, fica assim: pretos, árabes e descendentes de estrangeiros… fora!

Pelo lado materno, é neta do conde Schwerin von Krosigk (1887-1977), jurista e homem político, que foi ministro das Finanças da Alemanha durante todo o período nazista. Com a derrota da Alemanha, o conde foi acusado de crimes de guerra, julgado em 1949 e condenado a 10 anos de cadeia. Dois anos mais tarde, no bojo de uma anistia, foi liberado.

Resumi o percurso de vida do avô só pra constar. Acredito que ninguém deva pagar pelos crimes de um outro, ainda que seja seu avô. Além do mais, o homem foi julgado e pagou a pena.

Contei a historinha de Frau Storch só pra dar ao distinto leitor umas pinceladas sobre a personalidade da deputada alemã que um sorridente capitão recebeu outro dia em palácio – fora da agenda, registre-se. Nosso presidente, conhecemos. Agora que temos melhor ideia de quem é a convidada, o encontro dos dois me faz pensar num abraço de afogados.

Chacoalhada na Alemanha em razão de seu extremismo, a duquesa precisava aparecer numa foto com o presidente de um país grande. Pouco importa que fosse Bolsonaro; quem está na situação dela não escolhe.

Chacoalhado no Brasil pelo conjunto de sua obra e visto pelo mundo como um pestilento do qual ninguém quer passar perto, o capitão precisava aparecer numa foto com uma personalidade estrangeira. Pouco importa que fosse uma duquesa extremista; quem está na situação dele não escolhe.

Ambos se equivalem. O marketing está de bom tamanho. Como dizia minha avó, “Pra quem é, goiabada basta”.

Esguicho

José Horta Manzano

O brasileiro é um povo criativo. A toda hora, dá pra sentir a força da inventividade de uma gente que nem sempre conta com instrução formal, nem com meios adequados. Quando a gente não sabe, sacumé, tem de ser esperto. Esperteza é o que não falta em nossa terra.

No entanto, na hora de dar nome às coisas e fatos novos, parece que há um engasgo. Não costumava ser assim. Até meio século atrás, talvez pelo isolamento de um mundo sem tevê e sem viagens, o engenho de nossa gente era mais ativo.

As brincadeiras que conheci nos anos 1960, por exemplo, embora viessem dos EUA, tinham o nome imediatamente adaptado a nossa fonética. O hula hoop, aquele anel que a criançada balançava em torno da cintura, guardou seu nome original na maioria das línguas. Na nossa, não: chamou-se bambolê. Foi febre naquela época e, dizem, responsável por traumatismo renal nos aficionados mais ferrenhos.

Há baciadas de exemplos de nomes adaptados para uso nacional. Hoje, parece que o empenho desapareceu. Toma-se a expressão inglesa no original, nua e crua. Por exemplo, ninguém diz escola em casa, mas “homeschooling”. O mesmo vale para o importado “homeoffice”, usado em vez de um simples e eficaz teletrabalho. Parece que a criatividade entrou em letargia. Quem sabe, um dia acorda.

Nestes dias de Jogos Olímpicos, temos muita notícia do Japão. Li outro dia esta frase: “Em diversas instalações, como no centro principal de mídia, há esguichos de água, que parecem jogar uma garoa.

Pela volta que o repórter deu pra descrever os “esguichos de água”, fico imaginando que ele nunca tenha visto nada parecido. Logo logo essas engenhocas chegam ao Brasil, se é que já não estão no porto, à espera de desembaraço alfandegário.

Taí uma excelente oportunidade de dar nome a esse dispositivo novo. Esguichos assim existem na Europa há alguns anos. Quando o calor era raro, não havia necessidade. Estes últimos tempos, porém, com as temperaturas saarianas que temos tido, tornaram-se imprescindíveis. São ligados no verão, naturalmente. E servem para amenizar o sufoco dos dias tórridos.

Os franceses, que gostam de dar nome a tudo, já decidiram: entre eles, esse esguicho é conhecidos como brumisateur. É simples, a palavra deriva de bruma (névoa, nevoeiro) e designa o aparelho que produz bruma. Fica a dica.

Quem sabe a criatividade brasileira acorda, esquece “esguicho” ou “chuveirinho” e opta por brumizador. Ou talvez nebulizador. Ou até um sofisticado garoizador. Seja qual for, sempre vai ficar melhor que “esguicho de água que parece jogar uma garoa”.

Briga de bandido

José Horta Manzano

Não sou especialista em política africana, mas sei que, perto do que acontece em alguns daqueles países, nossos trambiques nacionais ficam parecendo troca de figurinhas entre garotos batendo bafo. Será que alguém ainda bate bafo? Será que ainda existem cromos e figurinhas? Será que alguém ainda coleciona estampas e preenche álbuns?

Estive lendo n’O Observador, jornal português, um artigo abracadabrante sobre os caminhos da corrupção nas altas esferas da política angolana. Angola é uma das antigas colônias de Lisboa na África, daí o interesse lusitano pelo que lá ocorre.

Pra dizer a verdade, não entendi (nem procurei entender) o enredo de cabo a rabo. Trata-se de um monstruoso escândalo de corrupção, com dezenas de pessoas envolvidas entre portugueses, espanhóis e angolanos. Os montantes que passaram de mão em mão não fazem feio diante do que vimos na Lava a Jato. (Alguém se lembra da operação enterrada por Bolsonaro?)

Dezenas de milhões pra cá, outras dezenas pra lá, umas migalhas de 200 mil dólares pra um certo Manuel, 150 mil para um tal de Mangueira, 100 mil para o Gomes. Ministros, ministros sem pasta mas exercendo ‘de facto’, assessores que “mandavam mais que ministro”, ex-ministros aparecendo na folha de pagamentos de empresa fornecedora de serviços ao Estado angolano.

As investigações, que já se arrastam por mais de 7 anos, ainda não chegaram ao fim. Os crimes incluídos no balaio são de corrupção, fraude,  falsificação de documentos, organização criminosa (=formação de quadrilha) e branqueamento de capitais (=lavagem de dinheiro). Como se vê, em matéria de trambique, não temos mais nada a ensinar a eles. Já sabem tudo.

Recentemente, Bolsonaro enviou o vice-presidente a Luanda para tentar aliviar a barra da Igreja Universal de Edir Macedo, que anda com a imagem manchada por lá. Aliás, foi reprovado ao capitão ter mandado um político oficial, em viagem oficial paga pelos cofres públicos, pra resolver o problema particular de uma seita amiga. Até agora, não houve consequências. É possível que tudo fique por isso mesmo.

A tal Igreja amiga de Bolsonaro anda bem enrolada em Angola. Seus dirigentes são acusados de traquinagens como roubo, extorsão de fundos, adultério, atentado contra menores de idade, sonegação. Não é coisa pouca. Uma centena de membros graduados da igreja (pastores), todos brasileiros, já foram expulsos do país.

Choque de ministros
É permitido crer que ministros corruptos do governo angolano possam ter entrado em choque frontal com ministros corruptos da seita brasileira.  Talvez o problema seja a invasão de território. Fiquei imaginando que a implantação da seita de Macedo em Angola deve ter sido como se uma tropa do Comando Vermelho (CV, do Rio de Janeiro) elegesse residência em território do Primeiro Comando da Capital (PCC, de São Paulo). Não ia ficar por isso mesmo.

Depol

José Horta Manzano

Estava lendo hoje a sequência do relato daquele estranho incidente que vitimou doutora Hasselmann, deputada federal. Foi impressionante ver suas imagens com o rosto intumescido. Não se conhece ainda o fim da história, se é que se conhecerá um dia. Mas já deu pra aprender um detalhe que pelo menos este blogueiro, até ontem, ignorava.

Eu sabia da existência de um corpo de polícia especialmente dedicado à Câmara Federal. Imaginei que as atribuições dele se limitassem a cuidar da ordem no recinto parlamentar, como uma espécie de segurança reforçada. Pensava que servisse para expulsar visitantes inoportunos, para conter deputado surtado, para apartar briga entre excelências. Pois acabo de aprender que seu raio de ação é bem mais amplo.

Além de cuidar de incidentes menores, o Departamento de Polícia Legislativa (Depol) cuida também da segurança dos parlamentares, servidores “e quaisquer pessoas que eventualmente estiverem a serviço da Câmara”.

Essa disposição deve criar situações curiosas. Suponhamos que o distinto leitor se encontre no recinto da Câmara e, por um motivo qualquer, tem uma discussão com um parlamentar ou com um servidor. Os ânimos se exaltam e estoura uma briga. A polícia legislativa intervirá para garantir a segurança do parlamentar (ou do servidor). Quanto a você, cidadão rasteiro, terá de chamar a polícia comum e esperar que venha. Pode parecer brincadeira, mas, se forem respeitadas as atribuições, o Depol não está lá pra defender gente de fora. Só os do clube.

O Depol dá também segurança ao presidente da Câmara em qualquer ponto do Brasil e no exterior. Isso significa que quando doutor Lira, presidente da Câmara, viaja de passeio a Paris, tem direito a um par de seguranças postados à entrada do bistrot enquanto degusta uma bandeja de ostras regadas por um vinho branco da Alsácia. E você sabe quem paga a conta do festim.

Pra fechar o capítulo das incumbências, cabe ainda ao Depol apurar infrações penais cometidas no recinto legislativo, em suas dependências ou contra qualquer das excelências. Eis por que a deposição de doutora Hasselmann foi tomada pelo Depol, que, investigando sob sigilo, cuidará de apurar a denúncia de agressão.

Confesso que não sabia da existência dessa polícia paralela. E muito menos sabia que agisse na legalidade, abrigada na Casa do Povo. Sabia apenas da existência de milícias privadas estabelecidas geograficamente longe da Câmara. Cada dia dá pra entender melhor por que razão tanta gente sem eira nem beira procura se eleger. É pra fazer como um certo capitão que passou 28 anos no bem-bom, com polpuda remuneração, apartamento funcional, auxílio-gravata e outros balangandãs (alguns bem rachadinhos). E, ainda por cima, contando com uma polícia privada pra chamar de sua.

Eu me pergunto se a Câmara precisava realmente investir nosso dinheiro numa polícia especial, só dela, pra fazer um trabalho que a polícia comum já faz. Que tivessem um corpo de seguranças, vá lá. Mas… uma polícia que se encarrega de apurar infrações penais? Será que dispõem de um corpo técnico, com investigadores, frota de veículos, helicópteros, dactiloscopistas, psicólogos, que se comportam como nos filmes americanos, quando entra em cena a polícia técnica?

Nossa República é cheia de surpresas. Todo dia a gente fica sabendo de uma nova. Essa que acabo de descobrir é um resultado perverso do sistema em que legisladores legislam em causa própria. Em países normais, onde os eleitos são indivíduos de razoável bom senso, o autocontrole evita excessos, que, de qualquer maneira, não seriam aceitos pelo eleitorado. Nunca ouvi falar de nenhum país normal que disponha de corpo de polícia especial, agindo unicamente a serviço de parlamentares, seus servidores e seus familiares, a duplicar o trabalho da polícia comum. Mas nosso país, francamente, não é normal.

Não gostam de mim

by Kleber Sales/Estadão

José Horta Manzano

É possível que o distinto leitor não tenha tido oportunidade de estar presente ontem no cercadinho do Alvorada quando o presidente se dirigiu a seus devotos. Por problemas de agenda, eu também não estive lá. Mas li o relato nos jornais.

Referindo-se à avalanche de críticas de que é alvo, o capitão saiu-se com esta:

“O cara não gostar de mim, tudo bem, mas ser apaixonado pelo Lula? Desvios, roubalheira em tudo quanto é lugar. O que muita gente quer é o poder, a volta da impunidade e da corrupção. Será que não conseguem enxergar isso?”

Ao ver que o auditório concordava sem objeções, abotoou:

“Querem me criticar, critiquem, até gente que se diz de direita, né? Tudo bem, se eu sair fora, você vai ficar com quem em 2022?”

Foram poucas palavras. Assim mesmo, nem precisa refletir muito pra extrair um par de conclusões.

Primeiramente, ao dizer “querem me criticar, critiquem”, o presidente deixou claro que, apesar de viver dentro de sua bolha, está a par da baciada de críticas que recebe o tempo todo. Ao tapar os olhos pra não enxergar a verdadeira razão da impopularidade, ele põe tudo na conta daqueles “caras” que “não gostam de mim”. Nós, que não costumamos tapar os olhos nem fugir da realidade, sabemos que não é bem assim. Não é uma questão de simpatia, nem de “gostar” do presidente. É que ele é um indivíduo desonesto, traidor, covarde, enrustido, não-confiável, primitivo, ignorante. Um péssimo presidente. É por isso que imensa maioria dos eleitores quer mais é vê-lo pelas costas. Não é questão de “gostar”.

Segundamente, quando diz que “até gente de direita” o critica, deixa implícito que acredita ser “de direita”. Não quer admitir (ou simplesmente não se dá conta) de que é nada mais que um reacionário desprovido de ideologia e de objetivo que não seja o de continuar a se fartar das tetas do Estado e do fruto da corrupção que grassa em seu entourage.

Terceiramente, ao soltar um tímido “se eu sair fora”, Sua Excelência confessou admitir a possibilidade de vir a ser rejeitado nas próximas eleições.  Em se tratando de um candidato, não é atitude corriqueira. É raro ver um postulante abrindo o flanco dessa maneira. É que para ele, aos poucos, vai caindo a ficha. Daí sua obsessiva insistência num hipotético voto impresso que lhe permitisse judicializar a eleição, eternizar a apuração e, com a preciosa colaboração das milícias que julga ter, melar o jogo.

Quartamente, além de malcriado, Sua Excelência é topetudo. Ao confessar que não admite que alguém possa gostar do Lula, mostra ser dono daquele tipo de insolência que só a ignorância permite. Quem é ele pra querer controlar o arbítrio do eleitor? Não cabe a ele escolher o(s) candidato(s) que vai(vão) vencê-lo nas urnas.

Falando em urnas, as pesquisas indicam, com clareza cada dia maior, que qualquer adversário vencerá o capitão no segundo turno. Qualquer um deles. Há até excelentes chances de ele nem mesmo passar do primeiro turno. Taí um bom motivo de alegrar nossa semana.

Podendo substabelecer

José Horta Manzano

Alguma vez, o distinto leitor já deve ter passado procuração a alguém. Quando um cidadão dá a outro o poder de representá-lo, é comum o documento exibir, lá no finalzinho, a expressão “podendo substabelecer”. Isso significa que o procurador tem poderes para confiar a terceiros o cumprimento de parte ou até da totalidade do mandato.

Em alguns casos, essa modalidade de procuração é incontornável. Quando a gente dá poderes ao dono de um escritório de advocacia, por exemplo, para nos representar e agir em nosso nome, é bom lembrar que ele pode não ter condições de cumprir física e pessoalmente todos os pontos do mandato. Em determinados casos, a atribuição será estendida a um funcionário do escritório para executar. É o que se chama substabelecer.

Uma informação da semana passada me impressionou. Como todos sabem, o senador Nogueira, chefão do Centrão, foi agraciado com a “vaga” de ministro da Casa Civil da Presidência da República – um posto pra lá de importante, que põe seu titular no coração do poder. Quando se leva em conta que a principal promessa de campanha de Bolsonaro era uma grande faxina para purificar o governo e livrá-lo de todo resquício de corrupção e de fisiologismo, a notícia é impactante.

Mas o que me abalou foi um detalhe que não chegou a ser comentado quanto devia. Diferentemente do que ocorre na França, no Brasil não é possível exercer dois cargos políticos ao mesmo tempo. A lei francesa permite, por exemplo, que um deputado junto à Assembleia Nacional continue sendo prefeito de sua cidade. Muitos e muitos políticos estão nessa situação. Mas no Brasil não pode. O senador Nogueira tem de escolher: ou continua senador e declina o convite para o ministério, ou vai ser ministro e deixa o cargo no Senado.

Até aí, tudo bem. O interessante vem agora. Ao deixar o Senado, senhor Nogueira não se despede definitivamente. Ele apenas “tranca a matrícula”, expressão antiga que não sei se ainda se usa. Faz que vai, mas não vai. E a cereja em cima do bolo vem agora. Para substituir o senador, assumirá a mãe dele! Dona Eliane Nogueira há de ser excelente pessoa; para comprovar, basta observar a criação que proporcionou ao filho – expoente do Centrão não é para qualquer um. O problema não está aí; o esquisito é essa peculiar figura do “suplente”. É curioso que, entra Constituição, sai Constituição, o suplente permanece no nosso ordenamento.

A mim não parece justo nem republicano entregar uma cadeira de senador a um indivíduo que não teve nem um voto. O titular, bem ou mal, recebeu os milhões de votos necessários e tem legitimidade para representar os interesses da população de seu estado. Já o suplente, fruto de mera dedada, representa unicamente os interesses de seu padrinho. O caso dos Nogueiras combina bem com o espírito clânico do atual governo: a troca de cadeiras se faz entre mãe e filho. Em família.

Senador da República é cargo importante demais pra ser exercido por procuração. Para evitar aberrações como essa, seria útil que, se um dia sobrar espaço entre um e outro conchavo, Suas Excelências se debruçassem sobre o problema e debatessem sobre um modo de modificar essa norma cujo efeito é criar senadores biônicos, igualzinho aos tempos da ditadura.

Seria útil se o fizessem, digo eu, mas tenho pouca esperança. Os únicos beneficiários do sistema atual são exatamente eles, os que fazem as leis. E ninguém gosta de serrar o galho onde está sentado.

Quando aperta o peito

José Horta Manzano

Todo estudante de inglês, vez ou outra, já deparou com a palavra “nightmare”. É como os ingleses chamam nosso conhecido pesadelo. Quando eu ainda não conhecia a origem do ‘pesadelo inglês’, a palavra me parecia pra lá de estranha. De onde viria um termo tão diferente?

A história vem do tempo em que os bichos falavam e as florestas europeias eram povoadas de elfos, fadas, sílfides, druidas e bruxas. Entre essas entidades mitológicas, (umas boazinhas, outras menos), havia uma figura maléfica – feminina em certas culturas, masculina em outras – que passava o tempo a perturbar a vida dos mortais.

A figurinha entrava nas casas pelo buraco da fechadura e seu prazer era sentar-se no peito de quem estivesse dormindo. Isso causava ao infeliz uma tremenda opressão acompanhada de horrível sensação de não poder gritar, nem se defender, nem escapar.

Essa entidade não aparece nas lendas dos países latinos, mas está presente na mitologia das regiões germânicas, escandinavas e eslavas. Em alemão moderno, seu nome é Mahr. As demais línguas utilizam o mesmo étimo: mara (sueco), mura (tcheco), mora (servo-croata), kikímora (russo). E assim chegamos ao nightmare dos ingleses. Literalmente, é o “mare” que vem à noite, o diabinho noturno.

A língua francesa, embora não seja germânica, adotou o mesmo étimo. Na forma atual cauchemar, o primeiro elemento é o verbo cochier, do francês medieval, que significa apertar. E o segundo é o mesmo monstrinho descrito nas línguas germânicas.

Em italiano, o “mare” não é mencionado. Utiliza-se a palavra de origem latina íncubo. A raiz é diferente das que são usadas na Europa do norte, no entanto a imagem de opressão é a mesma. Incubar (que existe em português, e é a forma culta de dizer “chocar”) significa sentar em cima ou deitar por cima, como a ave que choca os ovos. É sempre a imagem do diabinho sentado em cima do peito, a atormentar os que estão dormindo.

Em espanhol (pesadilla) e em português (pesadelo), não temos a imagem do espírito malévolo. Mas o efeito continua presente: o peso da criatura aparece em pesadelo e pesadilla.

Todo pesadelo é experiência desagradável – um sufoco, na verdadeira acepção da palavra. No entanto, assim que a gente abre o olho e vê que está vivo e em boa saúde, o perigo se desmancha no ar.

Como chamar, então, o momento de angústia que vivemos neste Brasil que parece ter sido abandonado pelas entidades boas? Como descrever estes tempos em que todas as notícias que vêm da Corte parecem obra de seres do mal? Como qualificar o sufoco que Jair Bolsonaro nos impõe? Terá ele aberto as porteiras do inferno?

A cada manhã, ao abrir o olho, a gente tenta imaginar que o pior já passou… mas não! O capitão continua lá, atormentando a existência de todos, como um imenso demo sentado em cima do bom povo.

Todo pesadelo costuma acabar de manhã, mas – ai de nós! – este túnel que estamos atravessando parece não ter fim. É pesadelo interminável, mais pesado que qualquer pesadelo. Que nome se deve dar?

Formação insuficiente

José Horta Manzano

Dia 14 de julho, o Painel (coluna de Folha de São Paulo) relatou que:

“Documentos enviados à CPI da Covid mostram que, em setembro de 2020, a consultoria jurídica do Ministério da Saúde foi solicitada a se manifestar sobre o consórcio Covax Facility e disse que o fato de a documentação estar em inglês dificultou a análise porque os servidores não tinham “conhecimento suficiente de tal língua estrangeira a ponto de emitir manifestação conclusiva.”

Para completar a cativante informação, é bom lembrar que o Brasil ainda esperou seis meses para aderir ao consórcio. Só o fez em março de 2021.

Há aí dois graves problemas. O primeiro, nós todos sabemos, é Bolsonaro na Presidência. Que os técnicos do Ministério da Saúde sejam ilustrados ou iletrados não faz diferença nenhuma quando quem dá a palavra final é um psicopata mal-intencionado. Ainda que o pessoal da Saúde fosse bamba em inglês e tivesse conseguido ler a papelada, a adesão ao Consórcio Covax teria sido de qualquer modo barrada pelo capitão.

O outro problema, que salta aos olhos neste caso, é o baixo nível de instrução da população. Como é possível que a equipe técnica da consultoria jurídica de um ministério da República seja formada por indivíduos monoglotas, deficientes em inglês, a lingua franca internacional? Admito que o nível da Instrução Pública nacional deixe a desejar, mas recuso-me a acreditar que não existam, disponíveis no mercado, candidatos de nível adequado. Se eles existem mas não foram contratados, o problema tem nome conhecido: chama-se nepotismo, aquela prática nefasta que leva a escolher funcionários, não pelo grau de conhecimento, mas pelo grau de parentesco. De sangue ou de bolso.

O caso desses documentos que ninguém conseguiu decifrar vai expondo as profundas falhas na Educação Nacional, falhas estas que resultam em distorções no topo da pirâmide. Lula e Bolsonaro são exemplos sintomáticos. Um eleitorado pouco instruído e ingênuo se enamorou pelo ex-metalúrgico, o que nos levou ao desastre de 13 anos de petismo no poder – uma tragédia. Depois disso, tão desgostoso estava o eleitorado, que acabou elegendo o capitão – outra tragédia.

A Instrução Pública, do jeito que tem sido maltratada pelo atormentado governo atual, não vai subir de nível tão cedo. Ainda vamos assistir a muitas rateadas no andar de cima. Episódios como esse da documentação que ninguém conseguia ler não são apenas cômicos. Custam vidas.

Impeachment – atualização

José Horta Manzano

Como se sabe, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente. Não precisa ser parlamentar nem doutor. Basta seguir direitinho o manual e dar entrada da papelada na Câmara Federal. Em seguida, o desfecho vai depender da boa vontade do presidente da Casa e – principalmente – do clamor das ruas, medido pelos passeatômetros e panelaçômetros do país.

Em fevereiro, publiquei um artigo sobre pedidos de impeachment. Eu comparava o número de requerimentos recebidos pela Câmara Federal durante o mandato de cada um dos presidentes, de Collor até Bolsonaro. Passados 5 meses, a situação evoluiu bastante.

Como diz o outro, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Pois o capitão continua descendo a ladeira. Veja só:

Itamar foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer foi alvo, em média, de
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro, que, em fevereiro, estava na marca de um pedido a cada 11 dias, melhorou bem o record. Acaba de atingir a média de um pedido de impeachment a cada 7 dias!

Ele segue firme no esforço pra chegar a um pedido por dia!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Tranquilos, cidadãos! Não falta muito. Qualquer hora, nos livramos do homem.

Elefantes, ursos e leões

by Sibylle Heusser (1974-), artista suíça

José Horta Manzano

Vestígio do Império Romano, a presença de animais no circo ainda perdura em muitos países ao redor do planeta. Dois milênios atrás, a graça do espetáculo era a entrega de cristãos às feras. Desde que a maioria da população adotou o cristianismo, a brincadeira perdeu a graça. O sofrimento hoje é infligido diretamente às feras, sem intermediários. E são os cristãos que se divertem.

No circo, os animais selvagens são obrigados a levar vida reclusa, a morar em cubículos enjaulados, a comer o que lhes dão (se lhes dão) e a desempenhar movimentos que vão contra sua natureza. É uma rotina de sofrimento que não condiz com os princípios deste terceiro milênio de civilização.

Na Europa, uma trintena de países já legislaram para acabar com esse anacronismo. Entre outros, Inglaterra, Holanda, Croácia, Bélgica, Itália, Sérvia e França proíbem ou restringem fortemente a presença de animais selvagens em circos. Nas Américas, diversos países pequenos já baniram esses espetáculos. Entre eles estão: Panamá, Peru, Honduras, Guatemala, Costa Rica, Bolívia e Paraguai.

No Brasil, a meu conhecimento, nada foi feito. Nosso processo civilizatório avança a passo lento. Estamos a meio caminho entre a Antiguidade Romana e a modernidade. Se ainda engatinhamos em matéria de direitos humanos, na questão de direitos dos animais estamos em plena Idade Média. Há de chegar também – quanto mais cedo melhor – o dia em que devolveremos essas feras à floresta, que é o ambiente de onde nunca deviam ter saído.

Mas antes disso temos urgência mais premente. Faz dois anos e meio, armou-se em Brasília um circo de horrores. No picadeiro, agita-se um bando de criaturas ferozes. São todas súditas voluntárias de um capitão-tratador. Exibem dentes pontiagudos, mas ideias truncadas. Vivem enjauladas dentro da própria mente apertada.

Temos de lutar pela liberação dessas pobres criaturas. A porta das jaulas tem de ser aberta para elas escaparem e retornarem à insignificância de onde nunca deviam ter saído. E que levem junto o capitão tratador. Visto o nível de selvageria de todos eles, encontrarão perfeito refúgio na floresta virgem. Se ainda tiver sobrado alguma depois que a boiada passou, naturalmente.

Reeleição?

José Horta Manzano

“Bolsonaro não irá para o segundo turno porque os bolsonaristas, ao verem que o eleitor circunstancial de 2018 nem sonha em repetir o seu voto em 2022, vão aplicar a teoria dos jogos e debandar para o candidato que se mostrar mais viável, do meio para o final do primeiro turno. Com isso, Bolsonaro vai minguar. Não se elege nem para síndico e terá a votação mais inexpressiva da história moderna para um candidato à reeleição na América Latina.”

A forte afirmação é de alguém que entende do riscado. As palavras são de Marcos Carvalho, principal marqueteiro da campanha de Bolsonaro em 2018, que, como tantos outros colaboradores de primeira hora, caiu em desgraça logo depois da eleição, escorraçado por um dos bolsonarinhos – aquele destrambelhado que é vereador.

Quem tiver curiosidade de ler o artigo da Revista Piauí na integralidade, aproveite, que hoje está em promoção. Em acesso livre aqui.

Mesmo expediente

José Horta Manzano

A Teoria da Ferradura é atribuída ao filósofo francês Jean-Pierre Faye (1925-). Essa interessante análise do tabuleiro político sustenta a hipótese de que a extrema-direita e a extrema-esquerda não são as duas extremidades de um espectro político linear e contínuo, mas se aproximam e se assemelham. É como se formassem as duas extremidades de uma ferradura – daí o nome da teoria.

Por essa tese, extrema-direita e extrema-esquerda estão mais próximas uma da outra do que ambas estão do centro. A ideia é atraente e parece ser a razão pela qual líderes extremistas têm, com frequência, atitudes paradoxalmente semelhantes. Não será sem razão que a sabedoria popular costuma dizer que “os extremos se encontram”.

No tempo em que ainda era um obscuro candidato à Presidência desconhecido do eleitorado, Bolsonaro já denunciava o resultado das urnas. Durante a campanha, persistiu. E mesmo depois de eleito, numa impressionante demonstração de fixação mental, contestou os resultados da própria eleição que ele havia vencido! Estonteante.

De olho nas próximas eleições, para as quais as sondagens não lhe são favoráveis, o capitão parece já estar preparando terreno para futuras reclamações. Não perde ocasião de denunciar a vulnerabilidade das urnas, segundo ele, à mercê do primeiro pirata que se dispuser a violá-las.

Em 27 de setembro de 1994, o Lula estava em sua segunda campanha presidencial. Já na reta final, as pesquisas eleitorais não lhe eram favoráveis e punham FHC à frente. Entrevistado pela CBN, Lula lançou seu ataque preventivo. Exatamente como o capitão faria 25 anos mais tarde, denunciou fraude futura. Desdenhou: “desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”. Em seguida, deu uma aula magna da arte de bem fraudar uma eleição. Utilizou uma tática que, anos depois, seria captada pelo capitão.

Analisamos aqui o comportamento de dois homens políticos situados nos extremos do espectro – um à direita, outro à esquerda. Apesar dessa distância, a reação dos dois, quando um fracasso eleitoral se aproxima, é idêntica. A explicação está no fato de todo líder extremista ser um autocrata no fundo da alma. Convencido de haver sido designado pelos deuses, ele não concebe perder uma eleição. Dado que é “imbatível” e “imorrível”, se perder, só pode ter sido por culpa alheia, nunca por falta de votos.

A crença no super-homem ungido pelo Altíssimo é comum aos extremos do espectro político. Na ponta da ferradura, esquerda e direita se encontram e mostram que não passam de duas faces de uma mesma moeda, embebidas de autoritarismo, de truculência, de arrogância. Tudo isso temperado com fortes doses de ignorância, ingrediente indispensável e amplamente utilizado na política nacional.

CPI e seus mistérios

José Horta Manzano

Nessa CPI, verdadeiro circo de absurdos montado em Brasília, saltaram ao picadeiro, na semana passada, dois misteriosos personagens. Há quem jure que formam uma dupla caipira. Mas é só impressão. Levam por sobrenome Miranda e Dominguetti.

O primeiro deles, Luís Miranda, tem um irmão que, de forma enigmática, também se chama Luís. São coisas da vida. O segundo personagem, Dominguetti, veja que coincidência, também se chama Luís. Um festival.

Miranda
É sobrenome de respeito. Tem origem no latim mirandus, que significa “que vale a pena ser admirado”. Começou a ser atribuído na Idade Média, na região das Astúrias (Espanha). De lá se espalhou pela Espanha e pelos territórios que, em algum momento, estiveram sob o domínio da coroa espanhola: Portugal, Nápoles e sul da Itália, América Latina (Brasil incluído), Filipinas.

Uma representante da grande família – Carmen Miranda – foi, durante décadas, a personagem brasileira mais popular no planeta.

Esperemos que os Luíses (Miranda) da CPI façam jus ao sobrenome e tenham comportamento admirável.

Dominguetti
Segundo a imprensa, a grafia flutua entre Dominguetti e Dominghetti. Às vezes, as duas formas se encontram dentro de um mesmo artigo.

Trata-se de sobrenome de consonância italiana. É bem possível que, depois de deixar a Itália natal, chegar ao Brasil e atravessar transcrições e adaptações conformes a nosso usos, a grafia (e o som) desse nome tenham sido alterados. O mesmo infortúnio acometeu centenas de outros nomes de imigrantes.

Não há registro da forma Dominghetti na extensa lista de sobrenomes italianos. Isso faz supor que o original possa ter sido Domenighetti, Domeneghetti, ou algum outro aparentado. São sobrenomes que derivam de formas dialetais do nome medieval Domínicus, como por exemplo Doménicus, Doménego, Domeneghini, Meneghetti. Todos se referem ao domingo, dia do Senhor. É permitido supor que o original italiano tenha sido “traduzido” para se aproximar de nosso domingo.

Resta esperar que as declarações de nosso Dominghetti sejam menos misteriosas que as origens de seu sobrenome. Essa CPI parece cada dia mais obscura, como se tivesse vindo, não pra esclarecer, mas pra confundir.

Os presentes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Outro dia, em cima de um palanque, Bolsonaro exibiu uma camiseta cuja estampa pedia ao povo que votasse de novo nele em 2022. A favor dele, diga-se que a peça de roupa foi um presente que ele acabava de receber. A seu desfavor, porém, frise-se que nada o obrigava a desdobrar o acessório e exibi-lo urbi et orbi – à cidade e ao mundo. O gesto foi visto como campanha eleitoral antecipada, sujeita a sanções.

O Estadão aproveitou a deixa para fazer a conta dos presentes que o capitão recebeu. Desde que vestiu a faixa, já lhe fizeram mais de 6 mil presentes, somando objetos simples e artigos mais sofisticados, o que dá uma média de 7 por dia, sábados e domingos incluídos. Pelo regulamento, tudo é arrolado em lista mantida pelo setor de documentação da Presidência.

Entre insignificâncias como ímãs de geladeira, canetas, panelas, cafeteiras e panos de prato, há também ítens assaz significativos. Vamos citar alguns.

Identificação
Numa mostra de identificação de valores com o mandatário, o comando da Polícia Militar do RJ deu-lhe, de presente de Natal, uma baioneta. A delicadeza do mimo dá prova da meiguice de espírito que une presenteante e presenteado.

Confidencialidade
Visivelmente preocupados com vazamento de informações (ou, quem sabe, com informações que custam a vazar), 353 cidadãos lhe deram pen drives.

Prático e útil
Gravata é presente que a gente compra quando não tem ideia do que oferecer. Não sai muito caro e é útil, visto que todo homem, um dia ou outro, acaba usando. A lista já contabiliza 56 cidadãos que ofereceram gravata ao capitão. Entre os ofertantes do másculo adereço, estão os ministros Heleno e Lorenzoni. Mendonça, o advogado-geral da União, que corre atrás de uma vaga no STF, também teve a original ideia de agradar o chefe com uma gravata.

Camiseta
Só de camisetas, o capitão já tinha recebido 954 até o fim de abril. De lá pra cá, a coleção há de ter inchado. Se o distinto leitor tinha pensado em dar-lhe camiseta de presente, esqueça. As que ele ganhou já não cabem nas gavetas.

Premonição
O assessor Fábio Waingarten, aquele que foi jogado ao mar recentemente, é um visionário. Seguindo uma premonição, tinha dado ao chefe, já em janeiro passado, um colete salva-vidas. Só que o prognóstico furou: o afogado acabou sendo ele mesmo. Devia ter guardado o presente para si, talvez não afundasse.

Sem rancor
O embaixador da China no Brasil demonstrou não ser rancoroso. Apesar de todos os insultos que a nebulosa bolsonárica tem feito a seu país, presenteou o presidente com um vaso chinês em março do ano passado. Deve ser o objeto que aparece entre o presidente e a tela, na foto abaixo,

em que o mandatário mostra estar assistindo ao jogo do Brasil num canal de tevê amigo – o único a transmitir o jogo, pelo que me disseram. Expus minhas considerações sobre a foto em post separado.

Vade retro!
Cidadãos católicos, alarmados com as infidelidades de um presidente que já foi católico e hoje flerta com neopentecostais, já lhe deram 56 terços, 15 imagens de Nossa Senhora Aparecida e mais de 30 de outros santos. Até um frasco de água benta já lhe foi ofertado, que é pra ver se o capitão se emenda.

Como tem gente atrevida!
Certos gestos ousados não têm cabimento, mas tem gente que continua ousando. Talvez com boa intenção, 1.630 cidadãos cometeram o irreparável: deram um livro de presente ao presidente! Um livro! Como se sabe, o capitão associa o livro à cultura, e a cultura ao comunismo. Assim que abre o embrulho e descobre que é livro, joga longe e corre pra desinfetar as mãos. Com a chegada dessas centenas de livros, hão há mão que aguente.

Resumo da ópera
Se o distinto leitor tem intenção de fazer um mimo ao presidente, sugiro um objeto que, acredito eu, ainda não veio à cabeça de ninguém: uma vassoura. Nos tempos que correm, pode ser útil pra varrer a sujeira pra debaixo do tapete.

Sacrifício no altar

José Horta Manzano

Seitas e religiões antigas tinham sacrifícios rituais. O Antigo Testamento lembra a hebreus e cristãos a alegoria do quase-sacrifício de Isaac, interrompido in extremis pela chegada do anjo. Muçulmanos têm metáfora equivalente, representada pelo sacrifício de Ismael, irmão mais velho de Isaac.

Mais perto (geograficamente) de nós, temos os incas que, até a chegada dos europeus, entregavam moças adolescentes aos oficiantes para serem assassinadas e oferecidas aos deuses para que não castigassem o império com catástrofes naturais e outras pragas. Depois de escolhidas, as jovens eram, durante meses, preparadas para o grande dia do sacrifício.

Ao observar a sequência de imagens que reproduzo acima, não pude deixar de associar a cena brasiliense com os relatos sacrificiais. A simbologia está presente.

  • O menino, que ainda está longe de ter chegado à idade da razão, é ingênuo e inocente. Não tem condições de entender que sua imagem há de ficar para a posteridade como símbolo triste e involuntário da desvairada passagem do capitão pelo Planalto.
  • A maneira como o pequenino está paramentado indica que passou por preparação específica antes de ser levado ao altar – exatamente como as donzelas andinas.
  • A criança chega ainda mascarada, numa imagem que sugere a virgindade e a proteção contra todo mal externo que possa atacar o corpinho.
  • No momento supremo, o capitão age com a brutalidade que lhe é característica e arranca a proteção. É o defloramento simbólico praticado pelo Grande Sacerdote.
  • As mãos erguidas do que se supõe serem os pais do ‘sacrificado’ aparecem ocupadas em clicar freneticamente, no intuito de eternizar o instante sublime. A criança assiste, ingênua, à movimentação. Daqui a algumas décadas, quando for adulto, o menino por certo se envergonhará de ter sido um dia entregue como troféu a um miserável bufão.

A foto termina aqui. Não sei dizer se, assim que a criança voltou para o colo dos orgulhosos pais, a máscara voltou a ser instalada na posição de onde nunca devia ter sido retirada.

Tanto faz. De qualquer maneira, o mal estava feito. Se o pobrezinho não se tiver contaminado com o bafo pestilento do Grande Sacerdote, é porque tem corpo fechado e assim continuará pelo resto da vida. Pode jogar fora a máscara.

Deixa que eu pago

José Horta Manzano

Em abril de 2019, com sua costumeira meiguice, o presidente Bolsonaro esbravejou: “O Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay. Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro.”

Em julho daquele ano, sempre calçando as mesmas luvas de ternura, reincidiu: “O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer. Desculpem aqui as mulheres aqui tá?”.

Referindo-se a uma jornalista, em fevereiro de 2020, soltou esta finura: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo!”.

Na mesma linha do presidente, seu ministro Guedes aproveitou a plateia que o acompanhava numa palestra de setembro de 2019. Entusiasmado, mandou: “Ah, o Macron falou que estão botando fogo na floresta brasileira. O presidente devolveu, falou que a mulher dele é feia’. Tudo bem, é divertido. Não tem problema nenhum, é tudo verdade, o presidente falou mesmo. E é verdade mesmo, a mulher é feia mesmo.”.

Em abril de 2019, a ministra Damares (que cuida da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos!) foi fiel ao exemplo do chefe. Numa audiência na Câmara Federal, ousou: “A mulher deve ser submissa. Dentro da doutrina cristã, sim. Dentro da doutrina cristã, lá dentro da igreja, nós entendemos que um casamento entre homem e mulher, o homem é o líder do casamento”.

São citações que aparecem, entre outras, numa ação civil em que o MPF (Ministério Público Federal) requereu que a sociedade brasileira seja ressarcida do prejuízo causado pelas falas discriminatórias e preconceituosas de membros da alta hierarquia do governo federal. A 6ª Vara Cível Federal de SP aquiesceu e condenou a União a pagar 5 milhões de reais em reparação dos danos morais coletivos contra a mulher brasileira.

Sem sombra de dúvida, o julgamento parece justo. De fato, não é normal deixar passar em branco um conjunto de insultos e deboches tão abastado que deixa a impressão de ser ataque coordenado – sabe-se lá com que intenções. No entanto, algo me parece fora do lugar. Explico.

A União Federal, em última análise, somos nós, o povo. Assim como o Exército Brasileiro (que o capitão insiste em chamar de “seu”) não pertence a nenhum indivíduo, a União também é instituição coletiva, uma extensão do povo brasileiro. A União é formada por todos nós, não somente pelo governo de passagem. Instituição permanente, ela precede os atuais governantes e lhes sucederá.

Dito isso, fica estranho obrigar a União a pagar a conta das impropriedades cometidas por membros do governo. Cobrar da União isenta os autores das infrações. Em última instância, significa cobrar de todos nós, que, com nossos impostos, sustentamos os cofres federais. O julgamento da ação deixa um quadro estranho, em que a parte lesada é condenada a ressarcir a si mesma.

Na minha opinião, o certo seria cobrar de cada agressor o preço de sua ousadia. Que se condenem os que proferiram impropérios: o capitão, dona Damares, doutor Guedes e quem mais for. Individualmente. Querer castigá-los repassando a conta para todos os contribuintes não está certo. Visto que a conta não vai pesar no bolso dos infratores, hão de sentir-se livres de continuar proferindo impropriedades.

Gente mole

José Horta Manzano

Pesquisa publicada ontem pelo Ipec revela que a polarização continua firme no cenário eleitoral. Para as presidenciais de 2022, só dois (presumíveis) candidatos têm chance: Bolsonaro e o Lula. O resto é o resto – um punhado de nomes que, juntos, perfazem 10% do eleitorado.

Me recuso a acreditar que o eleitorado brasileiro se divida entre o antigo presidente (e ex-presidiário) e o atual presidente (e talvez futuro presidiário). Não é possível que, de cada dez cidadãos, somente um recuse dar seu voto a um desses dois políticos de qualidade duvidosa, ambos situados a um passo da prisão (passada ou futura).

Continuo acreditando que nós, aqueles que rejeitamos tanto o demiurgo quanto o genocida, formamos uma maioria silenciosa. Civilizados e discretos, não nos agrada sair em passeata, gritar slogans, segurar faixas, protestar de motocicleta, soltar rojões, vestir como torcida organizada, caminhar enrolados em bandeira. Se isso não aparece nas pesquisas, é porque nenhum nome conseguiu se mostrar suficientemente forte até agora.

Os políticos não bolsonaristas e não lulistas estão dormindo no ponto. O país está num momento crítico. Se eles não se mexerem, nosso futuro periga ser cada vez mais tenebroso. Se o próximo presidente for Lula ou Bolsonaro, qualquer um dos dois, teremos a continuação do desastre atual.

Há pouca diferença entre os dois. São ambos autoritários, incultos, estatizantes, mentirosos, traiçoeiros, populistas, poltrões, corruptos, permissivos. O que os distingue é a psicopatia de Bolsonaro, fator agravante para o desempenho de qualquer mortal.

Se os verdadeiros políticos de oposição – aqueles que se opõem aos dois – não abandonarem vaidades e não se reunirem em torno de um nome comum para enfrentar a ambos, estarão dando a vitória ao Lula, de mão beijada. O barbudinho é sempre melhor que o capitão, mas será que é realmente isso que queremos?

Milagre?

José Horta Manzano

Num raro sincericídio cometido nas barbas de apoiadores entusiastas, Jair Bolsonaro confessou ontem que é milagre ter conseguido segurar-se no mandato até agora.

Apesar do apreço que tenho e da reverência que sinto para com o capitão, devo discordar. Peço vênia, Excelência!

Milagre, em nossa língua, é palavra reservada para acontecimentos benéficos, favoráveis e auspiciosos. É sempre usada em sentido positivo.

Tem sido assim desde os milagres bíblicos, em que paralíticos voltavam a caminhar, cegos recobravam a visão e multidões eram alimentadas com meia dúzia de peixes.

Milagre não é a faísca acidental que bota fogo na casa, mas a chuva que apaga o incêndio.

Como tem feito em frequentes ocasiões, Sua Excelência distorce a realidade a seu favor. O fato de ter-se mantido na Presidência até agora não é milagre. A língua oferece um balaio de termos que se adaptam melhor. À escolha:

maldição,
desgraça,
fatalidade,
desventura,
cataclismo,
desventura,
infortúnio,
sinistro,
catástrofe,
adversidade,
desdita,
calamidade,
desastre,
estrago.

A lista não é exaustiva, mas vou parar por aqui pra este post não ficar demais deprimente. Ai de nós!