Hacker

José Horta Manzano

No original, o verbo inglês to hack significa cortar grosseiramente. O nome hacker, portanto, designa o sujeito que passa o dia com a faca na mão a cortar, decepar, romper ou rachar. Dado que cortadores profissionais não são multidão, deduz-se que esse substantivo não há de ter sido muito usado nos séculos de antigamente.

A segunda metade do século 20 assistiu a lento movimento de popularização do computador. Alguém teve a ideia de pescar no vocabulário inglês o termo hacker pra designar o perito em segurança informática. No início, o termo indicava o profissional ‘do bem’, que exercia suas funções sem causar dano a ninguém.

Com o passar dos anos e a crescente democratização dos computadores, o número de especialistas mal-intencionados aumentou. Muito agressivo, este novo tipo de hacker age por curiosidade, por pura má-fé, por consciência política ou por interesse financeiro. Diante de um leque tão amplo de motivações, todos nós estamos ameaçados de hackeamento.

O cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder, não precisa temer que sua privacidade seja invadida por razões políticas. Assim mesmo, é aconselhável proteger-se contra ataques movidos por hackers de má-fé, que nunca se sabe – tem muita gente perturbada por aí.

Já os que navegam nas esferas mais elevadas – políticos, magistrados, milionários, grandes empresários – têm de ser espertos. Por óbvio, estão em permanência no olho do furacão, na mira de muitos interesses. Não há problema em usarem o telefone pra dar bom-dia ou pra marcar encontro. O embaraço começa quando têm de manter conversa confidencial, seja verbal ou escrita.

Pra garantir privacidade total, só há um meio: utilizar telefone criptografado(*), daqueles cuja inviolabilidade é garantida. Assim mesmo, o utilizador, seja ele magistrado, político ou empresário, deveria procurar assistência de um perito que o iniciasse nas artes de bloquear tentativas de invasão.

Pode parecer complicado, mas é indispensável. Mentir, mentimos todos. Bobagens, proferimos todos. Atalhos pouco republicanos, tomamos todos. Pra resumir: ninguém é santo. Portanto, mais vale prevenir antes que nossos podres sejam expostos em praça pública.

Antes de fechar, uma reflexão: todas essas revelações não fazem Lula da Silva inocente. Nem Eduardo Cunha. Nem Sergio Cabral Filho. Nem o resto da turma.

(*) Criptografado não me parece palavra adequada a esse caso. O segundo elemento (grafado) desorienta. Melhor seria dizer “telefone criptado”. Acontece que o verbo criptar ainda não está dicionarizado. Um dia, quem sabe.

Birra
Sei que não tem jeito – hacker, hackear e hackeamento vieram pra ficar. Ainda assim, continuo preferindo pirata, palavra muito mais flexível. Dá pra usar: piratagem, pirateamento, piratear, piratinha (já imaginaram “hackinho”?). E mais: piratesco, piratada, piratíssimo. O resto fica por conta da criatividade de cada um.

A bomba e o Bessias

José Horta Manzano

Outro dia, um jovem desequilibrado vestiu agasalho com capuz, saiu da periferia de Lyon (França), foi até o centro da cidade de bicicleta, depositou discretamente, numa rua frequentada, uma bomba fabricada na cozinha de casa e acionou o detonador a distância. A explosão feriu meia dúzia de pessoas. Dois dias depois, o rapaz estava atrás das grades.

Em 2016, ficou famosa uma misteriosa conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff e o já ex-presidente Lula da Silva. Era aquela em que a doutora prometia ao chefe mandar o ‘Bessias’ com o ‘papel assinado’ – o título de ministro da Casa Civil, que livraria o demiurgo das agruras da Justiça comum que, como todos sabem, foi feita para o populacho e não para criminosos de categoria. Bastou um curto espaço de tempo pra o Brasil inteiro tomar conhecimento do caso. Com todos os detalhes, hilariantes ou tenebrosos.

Estes dias, o Brasil ficou sabendo de alentada troca de mensagens entre integrantes da força-tarefa da Lava a Jato e doutor Moro, hoje ministro da República. Em praça pública, pra quem quiser ver, estão disponíveis as conversas, tim-tim por tim-tim. E por escrito, o que não deixa de ser melhor que o episódio do ‘Bessias’ da doutora.

Qual é o fio condutor que liga essas três historietas? É a abolição – lenta e gradual, mas inexorável – da privacidade. Golpes diários vêm ferindo de morte a vida particular de cada cidadão. Não dá mais pra escapar. Nem o terrorista de Lyon, nem a doutora, nem o Lula, nem o ministro Moro, nem a turma da Lava a Jato se deram conta de que o mundo mudou.

Telefonema e troca de mensagens são pirateados com facilidade desconcertante. Todo deslocamento físico de quem quer que seja é flagrado por câmeras instaladas por toda parte neste mundaréu que Deus fez. Está cada dia mais difícil refugiar-se na discrição. A devassa perpassa todas as atividades humanas.

Assim, de cabeça, só me ocorre um jeito de comunicar em total discrição: é a velha carta. Para nossos padrões, correspondência epistolar – ô palavra chique! – é um bocado lenta. Mas não dá pra ter tudo. Tivesse a doutora mandado uma carta ao Lula, era bem possível que ele tivesse escapado à Justiça do povão. Tivessem o MP e doutor Moro trocado epístolas, nenhum pirata teria ficado sabendo. Nem mesmo o Capitão Gancho.

Quanto ao perturbado que fabricou a bomba, ah, pra esse, carta não resolve. Ainda bem.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Falam de nós – 28

José Horta Manzano

Neymar, jogador de futebol, é figurinha conhecida no mundo todo. Mais que os demais países, o Brasil e a França o consideram como alguém de casa. O Brasil, naturalmente, porque o moço nasceu e cresceu aqui. E a França, porque ele está contratado pelo time de Paris – que, de parisiense, tem cada vez menos, dado que é propriedade pessoal de um príncipe do Catar; mas isso não vem ao caso.

No Brasil e na França, as vicissitudes do turbulento rapaz têm ocupado lugar de destaque na mídia. O esbanjamento típico de novo-rico, como o deslumbrante solar em que ele vive nos arredores de Paris, encantam alguns, mas deixam muita gente irritada. A agressividade que o jovem demonstrou outro dia contra um torcedor não ajudou a melhorar sua imagem perante a opinião pública.

Essa história um tanto indecorosa do desentendimento entre ele e a moça mandada vir do Brasil para fins de namoro rápido anda dando pano pra mangas. Na minha visão pessoal, esse assunto é do foro íntimo dos dois amantes e deveria ser resolvido entre eles. Mas cada um dá às próprias mazelas o tratamento que lhe parece mais adequado.

by Moisés de Macedo Coutinho (1972-), desenhista paulista

Meio boquiaberta, a imprensa francesa tomou conhecimento de que, no caso do pretenso estupro, o presidente do Brasil apoia Neymar. Pátria dos direitos humanos, a França faz questão de repetir, a quem interessar possa, que respeita a presunção de inocência. Ninguém será considerado culpado antes de ser julgado e condenado. Daí o espanto geral ao ver que nosso mandatário-mor não só respalda o acusado, como também vai de visita ao hospital onde ele está internado e ainda tira selfie. O presidente escolheu seu campo antes mesmo de qualquer decisão da Justiça. No entender dele, seja o que tiver acontecido entre os pombinhos, a culpada é a moça. É uma aposta arriscada.

Pra quem não sabe direito o que caracteriza um político populista, aí está mais um elemento de informação. Repetindo o que Lula da Silva fez durante sua longa gestão, doutor Bolsonaro fatura em cima do futebolista brasileiro mais em voga. Até aí nada demais. O que ele não devia fazer é dar apoio ao acusado de um crime que ainda está em fase de investigação. Suponhamos que Neymar seja considerado culpado e acabe sendo condenado – como é que fica? Doutor Bolsonaro vai continuar apadrinhando um criminoso? A imprudência periga custar-lhe caro.

Eco na mídia francesa:
BFM – Canal de televisão
La Croix – Jornal impresso e online
Orange – Portal esportivo

Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Ministro evangélico

José Horta Manzano

O comportamento de doutor Bolsonaro e dos bolsonarinhos tem marcas peculiares. Uma delas é a intempestividade – qualidade daquilo que ocorre fora do momento ideal. Timing errado é como se deve dizer em portinglês(1). Outra característica dos atuais gestores do país é o costume de dirigir a fala ao auditório presente, esquecendo-se de que tudo o que dizem em público é gravado, filmado e reproduzido para plateia nacional. O Lula costumava fazer isso, só que, naquela época, internet e redes sociais estavam engatinhando. Hoje mudou. O que se diz a um público alegre e receptivo acaba extravasando e chegando aos ouvidos de uma multidão mal-humorada que rechaça aquela ideia. Aí, danou.

Na sexta-feira 31 de maio, o presidente esteve de visita a um templo da associação religiosa Assembleia de Deus, um dos numerosos grupos neopentecostais surgidos nos últimos vinte anos. Sentindo boa receptividade na fervorosa audiência, fincou pé e soltou o verbo. Disse estar convencido de que «está na hora de termos um ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal». Abafou. Foi standing ovacionadover (1) durante quase um minuto, duração que o aplausômetro do envelhecido plantel atual de artistas brasileiros já não costuma registrar.

É, mas uma coisa é falar para plateia homogênea e outra é falar para o conjunto do eleitorado. Tudo o que o presidente diz em público, ainda que falando para círculo restrito, acaba ecoando no país inteiro. E a fala se alastra em questão de minutos. Levando em conta esse parâmetro, deduz-se que doutor Bolsonaro não foi muito esperto.

De fato, apesar do crescimento exponencial que vêm conhecendo estes últimos anos, as denominações neopentecostais (ditas ‘evangélicas’) englobam, grosso modo, um terço dos brasileiros. Por exclusão, conclui-se que dois em cada três conterrâneos não são adeptos de nenhum desses movimentos. É um contingente enorme.

Ao preconizar que o próximo ministro a ser nomeado para o STF seja ‘evangélico’, doutor Bolsonaro agrada um terço dos eleitores enquanto irrita os outros dois terços. Não me parece um bom cálculo. O marketing presidencial dá prova de continuar enguiçado.

E tem mais. A Constituição dá ao presidente total liberdade na hora de escolher ministro para o STF. Trocado em miúdos: quem decide é ele mesmo, sem precisar dar satisfações a ninguém. Portanto, além de imprudente, a fala presidencial é intempestiva – ocorre na hora errada. Irrita quem não devia, na hora em que não devia, sem necessidade real. É ruído desnecessário.

(1) Portinglês (ou portuglês, ou portenglish, ou portunglês) é uma língua mista – um crioulo, como dizem os linguistas – formado do encontro de uma língua estrangeira (inglês) com a língua nativa (português). A sintaxe segue o modelo da língua nativa, enquanto o léxico é fortemente alterado pela língua importada. O crioulo fica impregnado de termos ingleses tratados conforme a sintaxe portuguesa.

A parte importada é frequentemente truncada e sistematicamente pronunciada com sonoridade distante do original. Por exemplo, a palavra importada “doping” é pronunciada “dópinh”, quando o original é “dôuping”. Para o falante do crioulo, bem pronunciada ou não, a importada soa mais chique que a reles dopagem nacional – palavra, aliás, dicionarizada.

Recolha

José Horta Manzano

Uma das lembranças que guardo da infância é a dos ônibus que circulavam com o letreiro «Recolhe». Nem iam ao destino habitual, nem voltavam ao ponto de partida. Aquela palavrinha informal, pura expressão de português caseiro, ia direto ao que interessava. Sem floreios. Quem recolhia? Recolhia o quê? Não tinha importância. A informação era despretensiosa mas eficaz. De um relance, a gente entendia que aquele veículo não estava de brincadeira. Não ia parar. Acontecia, de raro em raro, que o motorista – que a gente chamava então de ‘chofer’ –, condoído da sorte de quem esperava no ponto, desse uma paradinha camarada e embarcasse algum passageiro. O homem atropelava o regulamento mas fazia a alegria de quem se dispusesse a compartilhar aquela viagem ao repousante destino. «Recolhe»…

Não sei se ainda se veem ônibus com convite tão explícito ao descanso e ao adeus às armas como aqueles da minha infância. Espero que sim. Afinal, ônibus também são seres humanos, como diria o outro, e têm direito a um descansozinho.

Li estes dias que a ideia de uma versão moderna de recolhimento perpassa o Congresso. Não visa a mandar veículos para o descanso. Bem mais ambicioso, o objetivo é aposentar o próprio presidente da República. Recolhida ou recolha há de ter soado jeca para os ouvidos de nossos sofisticados parlamentares. Vamos banir esse jeito primitivo de falar, que diabos! O projeto fala em «recall». A realidade é a mesma, mas a palavra estrangeira soa tão melhor. Fica muito chique.

O objetivo é deixar cair um grão de areia na engrenagem da Presidência. Dessacralizá-la. Fazer que o ocupante não se sinta onipotente e blindado contra vento de boreste ou tempestade de bombordo. Em princípio, tudo o que possa levar o presidente a refletir é bem-vindo. O projeto em tramitação, no entanto, parece-me de difícil aplicação. Para lançar um plebiscito revocatório, será preciso colher um número de assinaturas equivalente a 10% dos votantes na eleição precedente. Parece pouco, mas estamos falando de mais de dez milhões de peticionários, uma enormidade! Fica no ar um problema complementar: quem é que vai atestar a veracidade de cada assinatura? Com base em quê? Como evitar assinaturas repetidas?

Nosso país não tem tradição plebiscitária. Não há um órgão depositário da amostra da assinatura de cada cidadão. Não temos um registro de residência dos habitantes. Não vejo como um voto popular revocatório possa um dia ser implantado. O bom e velho impeachment – que já serviu um par de vezes – ainda me parece o único caminho viável. A recolha de presidente por iniciativa popular direta vai ficar pra uma próxima vez.

Cargos & encargos

José Horta Manzano

Ultimamente, os diagnósticos emitidos por gente que entende de política são convergentes quando apontam a causa da paralisia do governo Bolsonaro. Tirando as traquinagens dos bolsonarinhos, que atrapalham mas não paralisam, o motivo maior é o descontentamento de parlamentares. Suas Excelências não estariam sendo contemplados com os cargos que esperavam receber do governo.

Peço vênia para discordar. Suas Excelências não querem cargos. Vamos refletir um pouco.

A palavra cargo pentence a extensa família espalhada por todas as línguas latinas. Em italiano: carica, caricare, incarico, caricatura. Em francês: charge, charger, chargement, décharger. Em espanhol: carga, cargar, encargue, encargamiento. E em nossa língua: carga, carregar, encargo, encarregar, recarregar, descarregar, carregamento. Está também atestada a presença do termo medieval carcare.

Como pode o distinto leitor perceber, todas essas palavras, de perto ou de longe, têm a ver com peso, que lembra esforço, que lembra cansaço, que lembra deus me livre. Cargo é sinônimo de encargo, que é sinônimo de trabalho. Ora a distância que costuma separar nossos parlamentares da noção de esforço se mede em anos-luz. Quer um exemplo? No começo de maio, um dia feriado caiu numa quarta-feira. Foi a conta: a semana inteira foi praticamente enforcada no Congresso. Ninguém ficou em Brasília. Na caradura.

Agora diga-me com toda sinceridade: vosmicê acredita que Suas Excelências estejam buscando cargos? Nem aqui, nem na Lua! Os nobres parlamentares se contentam com as benesses que eventuais cargos lhes possam propiciar. Na verdade, dispensam os cargos. Bastam as benesses. Os governos petistas, especialistas no assunto, tinham entendido isso. Em vez de perder tempo com fachada, distribuíam diretamente as propinas.

Com o passar do tempo, talvez doutor Bolsonaro venha a ser obrigado a dobrar-se à realidade da mecânica parlamentar. Ou quem sabe encontrará a solução miraculosa na qual ninguém havia ainda pensado. Será?

Teoria dos conjuntos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 maio 2019.

Na Itália do pós-guerra, a vida era dura. O longo conflito deixou um país exangue e uma economia desarticulada. Todos se davam conta de que a reconstrução ia exigir muito trabalho. Só de pensar, dava desânimo – o que é compreensível. Escaldados pelas estrepolias de um guia iluminado que só lhes havia trazido sangue e lágrimas, os italianos descartavam a ideia de recorrer de novo a um salvador da pátria. O terreno tornou-se então fértil para o florescimento do comunismo, doutrina que prometia progresso e felicidade para todos sem muito esforço. De fato, fundado nos anos 1920, o Partido Comunista Italiano conheceu expansão fenomenal a partir do fim da Segunda Guerra. Chegou a ser o maior partido comunista do mundo ocidental – uma façanha.

Quando da ascensão da agremiação, lá pelo fim dos anos 1950, corria uma anedota reveladora do estado de espírito dos afiliados. Numa cidadezinha recuada, discorria um comício. A certa altura, o orador dirigiu-se a um rapaz de jeitão humilde que assistia atento. Inflamado, perguntou-lhe em voz bem alta pra ser ouvido por todos:

– Se o camarada tivesse duas casas, o que é que faria?

– Ficaria com uma e daria a outra ao partido.

– Muito bem. E se tivesse duas vacas, o que é que faria?

– Ficaria com uma e daria a outra ao partido.

– É assim que se faz. E se tivesse duas bicicletas, o que é que faria?

– Ei! Mas… Duas bicicletas, eu tenho!

À época, não havia gravador de bolso, de modo que ninguém pode confirmar a veracidade do diálogo. Assim mesmo, ele é espelho de como o cidadão comum encara doutrinas e ideologias. Todo ideário é bom até o ponto em que me é favorável. A partir do momento em que começa a exigir de mim um esforço que não estou disposto a fornecer, já não presta. «It’s human nature – é a natureza humana.» O bom camponês de nossa historinha disse amém à cartilha comunista enquanto ela lhe prometia as delícias de viver, sem contrapartida, no mundo do ‘venha a nós’. Quando se deu conta de que o ‘dá cá’ implicava um ‘toma lá’, a coisa azedou.

É que, ao mencionar a partilha das bicicletas, o predicador mostrou como pode ser desestabilizante, na prática, a Teoria dos Conjuntos. De repente, o camponês percebeu que o conjunto de generosos doadores que abriam mão de metade do patrimônio em prol da sociedade incluía também o conjunto dos possuidores de bicicleta – ou seja, ele entrava na dança. Meio cismado, voltou pra casa pensativo. No dia seguinte, rasgou a carteirinha do partido. E nunca mais assistiu aos comícios dos camaradas.

Universal, a Teoria dos Conjuntos se aplica também ao Brasil. O lulopetismo em geral – e doutora Dilma Rousseff em particular – aprenderam essa verdade na marra. A dicotomia nós x eles valeu enquanto se manteve no campo abstrato. A partir do momento em que inteiros grupos sociais se deram conta de que se situavam numa intersecção de conjuntos que lhes era desfavorável, passaram a engrossar o time dos batedores de panela. E deu no que deu.

É de crer que doutor Bolsonaro nunca ouviu falar na fábula das bicicletas do camponês italiano. Devia, pelo menos, ter analisado a débâcle do lulopetismo, mormente por ter sido ela a alavanca maior do sucesso eleitoral que o levou à Presidência. De certeza, não analisou. Embora acredite estar longe do modelo anterior, está a repetir os erros dos predecessores. As falas e os atos cortantes e excludentes são a exata reprodução do famigerado nós x eles.

O trágico é que a política ao molho bolsonaresco acicata a Teoria dos Conjuntos. O governo tem lançado muito anátema estes últimos tempos. Sua metralhadora giratória está agredindo até apoiadores da primeira hora, gente que, por infelicidade, se encontra numa intersecção desfavorável. As recentes manifestações estudantis são produto de intersecções que incomodam muita gente fina. Cidadãos situados no ponto de encontro entre os que aplaudiam a atuação do governo e os que contam com uma escola pública rica de verbas estão como o italiano da bicicleta. Não apreciaram que a navalha venha ferir-lhes a carne. Vão acabar batendo panela.

Quem diz o que quer

José Horta Manzano

Tem gente que não aprende. Lula da Silva, considerado por alguns como dotado de superior inteligência e de fino faro político, não me parece tão esperto assim. Entra nessa categoria daqueles que têm certeza de que já nasceram sabendo tudo e que, portanto, não precisam aprender mais nada. Nem os quase quatorze meses passados na cadeia foram suficientes pra livrá-lo do torpor e pra afinar-lhe a astúcia.

A prudência é qualidade supimpa. Quanto mais um indivíduo se encontra em situação delicada, mais deve medir o alcance dos próprios atos e gestos. Não convém destratar aqueles de quem se pode vir a precisar no futuro. Atropelar essa regra é tolice pura.

Chico Buarque – que é amigo do peito de Lula da Silva, batalhou contra a destituição de Dilma e defendeu a fracassada candidatura de Haddad à Presidência – foi agraciado com o Prêmio Camões. Nada mais justo, que o moço é verdadeiro ourives da língua pátria. Concorde-se ou não com suas posições políticas, há que reconhecer sua excelência no trato das palavras.

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Lula da Silva resolveu escrever uma cartinha ao amigo Chico. Não satisfeito em apenas dar-lhe os parabéns, aproveitou a carta aberta pra alfinetar a rede Globo de rádio e televisão. Contou ter ficado muito feliz porque «a Globo teve que colocar você no ar em horário nobre, pela primeira vez vi sua cara na Globo (sic)».

Magnânimo, o conglomerado carioca de mídia teve a clemência de responder. Retrucou que, nos últimos nove anos, Chico Buarque já apareceu 28 vezes no horário nobre da televisão. O Lula, que, em matéria de tevê, já confessou interessar-se unicamente por novela, certamente perdeu as aparições do amigo. Quem diz o que quer acaba ouvindo o que não quer.

Não é inteligente alfinetar a maior empresa de televisão do país. Quem tem esperança de um dia voltar à política não deveria fazer isso. Não digo que o demiurgo devesse ter-se prostrado diante da emissora – bastava ter mantido recato. O silêncio, que não pede esforço nenhum, nessas horas vale ouro.

Desde que o velho Tancredo saiu de cena, a política brasileira tem sentido muita falta de um presidente sagaz. Perspicácia é artigo que há décadas anda em falta no Planalto.

Dirceu e Cunha juntos

José Horta Manzano

Saiu estes dias a inacreditável notícia de que os arquiconhecidos grão-criminosos José Dirceu e Eduardo Cunha compartilham a mesma cela no Complexo Médico-Penal de Curitiba. E não é tudo. Instalados mesmo espaço, estão ainda João Vaccari (ex-tesoureiro do PT) e o ex-senador Gim Argello. Três outros presos menos midiáticos completam o septeto. A turma é do barulho, como se dizia antigamente.

Com esse povo, todo cuidado é pouco. São daqueles que, quando vêm vindo na calçada, a gente atravessa a rua rapidinho. Vale também segurar firme a carteira. Coisa do outro mundo! É absolutamente inconcebível trancafiar uma turminha dessas no mesmo espaço. Aquilo é uma verdadeira universidade do crime de colarinho branco! Imaginem as informações que se podem trocar, as dicas que se podem fornecer, o planejamento de golpes futuros, as maldades que se podem tramar.

Eu só entenderia que essa quadrilha fosse encarcerada na mesma cela se câmeras e microfones fossem instalados para ajudar a PF a recolher informações preciosas que pudessem levar ao esclarecimento de crimes que ninguém desconfia tenham sido cometidos. Fora isso, deixá-los juntos é inconsciência. Equivale a deixar conviver no mesmo cômodo o Marcola, o Fernandinho Beira-Mar, o Compensa e o ‘G’ Carnaúba.

Tanto estes últimos quanto os que citei anteriormente são chefes de organizações criminosas. Por que é que uns têm de ser apartados enquanto os outros podem seguir em convivência íntima? Manter bandidos desse jaez juntos é a melhor maneira de deixá-los recompor uma organização criminal pra ninguém botar defeito.

Manicômio geral

José Horta Manzano

Primeiro, foi o bolsonarinho senador. Começaram a aparecer uns podres sobre o rapaz, uma história meio sórdida de exploração do homem pelo homem. Circulou a notícia de que ele confiscava, em benefício próprio, parte do salário de cada colaborador. Aproveitar-se da fragilidade alheia, tsk, tsk, que coisa mais feia! Daí veio o pai e disse algo como: «Se ele errou, tem de pagar e consertar o que fez». E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era malandro, pelo menos o pai era equilibrado.

Em seguida, veio o bolsonarinho vereador. Começou aboletando-se no coche presidencial na hora do desfile inicial – coisa esquisita. Em seguida, sempre atendendo pelo doce apelido de ‘pit bull’, desembestou a metralhar conhecidos e desconhecidos pelas redes sociais – redes essas que, sob seus dedos ágeis, estão mais pra associais. A primeira façanha foi derrubar um ministro. De lá pra cá, não parou mais. Daí veio o pai e explicou que ‘pit bull’ era só um apelido, que o moço era mais manso que gatinho miúdo. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era perturbado, pelo menos o pai era equilibrado.

Bolsonaro & bolsonarinhos
Crédito: vespeiro.com

Na continuação, veio o bolsonarinho deputado. Começou forte: apareceu logo nos EUA, de boné «Trump 2020» enfiado no cocuruto. E continuou na mesma linha. Organizou jantar para homenagear Steve Bannon (um desafeto de Trump) e, dia seguinte, sentou-se no salão oval com Trump. Sua façanha mais recente foi preconizar um Brasil membro do clube atômico. Daí veio o pai e explicou que não havia por que se preocupar porque, no fim das contas, é sempre ele – o presidente – a dar a última palavra. E todo o mundo se tranquilizou ao imaginar que, se o filho era destrambelhado, pelo menos o pai era equilibrado.

Esgotados os bolsonarinhos, chegou a vez do pai. Já faz algumas semanas que o presidente vinha emitindo sinais confusos, mordendo e assoprando, espalhando o calor e o frio. Faz dois dias, desandou de vez. Doutor Bolsonaro deu mostras de que não é fiel nem mesmo ao guru que o ajudou a eleger-se (segundo seu próprio diagnóstico). Abandonando o astrólogo boca-suja, jogou-se para o lado de outro iluminado, um residente francês de pai congolês e mãe angolana. O esclarecido personagem, que se considera milagreiro, declarou que doutor Bolsonaro é ungido pelos deuses e foi por eles designado para conduzir o povo brasileiro. E nosso presidente, babando de satisfação, repicou a mensagem!

Conclusão
O primeiro filho é malandro. O segundo é perturbado e o terceiro, destrambelhado. Quem achava que a sensatez do pai fosse salvar o cenário, pode perder a esperança. Era de desconfiar. Fruto não costuma cair muito longe da árvore.

Rabicho
Acaba de sair a notícia de que, pela segunda vez desde que assumiu o trono, doutor Bolsonaro atribuiu uma medalha nacional de mérito aos filhos. Desta vez, foi a medalha do Mérito Naval, concedida a dois bolsonarinhos. Como? Eles não têm mérito? Ora, que bobagem! Quem está ligando pra esses detalhes? Distribuição de medalha em família sempre reforça o sentimento de clã. Um dos dois bolsonarinhos medalhados é justamente o senador, aquele que está enrolado até o pescoço com a Justiça.

Formar

José Horta Manzano

Forma é voz amplamente difundida nas línguas latinas. Com pequenas diferenças de grafia, aparece em todas elas. Em nossa língua, é responsável por centenas de palavras derivadas. Entre muitas outras, temos: formal, formoso, formulário, formação, formalidade, formatura, reforma, informe, transformação, uniforme, deformação, conformidade. E muitas mais.

Essa raiz nos legou boa coleção de verbos: enformar (botar na fôrma), informar, reformar, uniformizar, conformar, pré-formar, deformar, transformar, disformar. Sem contar, naturalmente, com o mais simples deles, que é formar.

O verbo formar é sempre transitivo ou pronominal. Há um único caso, bastante raro, em que é usado com valor intransitivo. É quando indica alinhar, enfileirar, dispor em certa ordem: o batalhão formou para homenagear o visitante ilustre. O uso intransitivo raramente estravasa da área militar.

Chamada d’O Globo, 17 maio 2019

A esse propósito, um cartaz revelador foi levantado por um manifestante quando dos protestos estudantis de alguns dias atrás. Está reproduzido acima destas letras. Diz lá: «Eu formei, tu formaste, mas eles não formarão se a universidade parar». O rapaz que segura o papel mostra semblante bastante convicto da justeza do próprio protesto. Pelo uso da primeira pessoa (‘eu formei’), deduz-se que ele ostenta na parede de casa um diploma universitário.

Pois é, pode até ser que nosso protestatário tenha obtido o diploma, mas fica claro que faltou a algumas aulas de Português. É de crer que o cartaz não se esteja referindo a formação de fila, mas a formação universitária. Nesse caso, o verbo formar não pode ser usado intransitivamente. No sentido de terminar o curso e diplomar-se, o verbo é reflexivo: eu me formei, tu te formaste, eles se formarão.

Parece simples pra quem sabe. Pra quem não sabe, é mistério insondável. Quando foi mesmo que a obtenção de diploma se divorciou da vontade de aprender pra se tornar um fim em si? Quando foi mesmo que formação deixou de significar construção intelectual para ser só sinônimo de diploma pendurado na parede? Algumas peças da engrenagem se perderam pelo caminho, e a máquina parou de funcionar.

Pra estrangeiro ver

José Horta Manzano

Quem está no estrangeiro sabe a importância que o passaporte tem. Com maior razão, aqueles que vivem fora do país, como este blogueiro, conhecem o valor dessa cadernetinha agora azul (era verde). É o único documento brasileiro reconhecido em qualquer parte do planeta.

Para o expatriado, pouco interessa se a validade da carteira de motorista será prolongada. Ou se o número do documento de identidade ganhou um dígito no final. O que interessa, de verdade, é estar com o passaporte em dia. Esse é que conta.

Modelo antigo

Em artigo que escrevi sete anos atrás para o Correio Braziliense, registrei minha reclamação contra o layout da capa do novo documento. Acabava de renovar meu passaporte. Contei o susto que tinha levado ao descobrir que a palavra Mercosul aparecia na capa, antes do nome do país e em letras maiores. Reclamei do fato de me sentir brasileiro, não mercossulino. E pedi meu país de volta. Argumentei que o acordo entre vizinhos do Cone Sul era meramente alfandegário, não político.

Portanto, não fazia sentido estender a validade do bloco ao campo político. Não sei se, pelos lados do Itamaraty, alguém de bom senso escutou meu lamento. Fato é que, algum tempo depois, o layout mudou. As letras do nome ‘BRASIL’ cresceram. Apareceram até algumas estrelinhas. Mas… a menção ao bendito bloco econômico continua lá.

Modelo novo

Nos tempos do lulopetismo, com a ilusão de integração do Brasil com a vizinhança bolivariana, não valia a pena pedir que mudassem. A chance de ser atendido era nula. Agora, porém, que doutora Dilma se foi, que a Venezuela derreteu e que uma Argentina de chapéu na mão se prepara a atirar-se em braços kirchnerianos, talvez seja chegada a hora.

Repito, então, aos doutores que têm a caneta na mão. Mercosul (que, para se conformar com nossa ortografia, deveria estar escrito Mersossul, com dois esses) é agrupamento com fins comerciais. Em outra praia está a União Europeia que, como verdadeira união política, é mencionada no passaporte de todos os Estados-membros.

Não é nosso caso. Portanto, está passando da hora de modificar a capa de nosso passaporte. Que se elimine Mercosul. Não reclamarei se aproveitarem a ocasião pra tirar também ‘república’ e ‘federativa’. O nome do país é Brasil, como é conhecido no mundo todo. Passaporte é pra ser visto no estrangeiro, detalhe que, curiosamente, parece não vir à mente dos que concebem a capa do documento brasileiro.

Chicanas de lá e de cá

José Horta Manzano

Cesare Battisti – lembra dele? É aquele italiano que, escapando à Justiça de seu país, tinha conseguido abrigo e asilo no Brasil de Lula, apesar de condenado à prisão perpétua por envolvimento em quatro homicídios. É aquele cidadão que, ao ver que o lulopetismo estava prestes a cair, sentiu que a coisa estava ficando complicada e tratou de correr do Brasil pra refugiar-se na Bolívia.

Pouco adiantou o expediente. O homem foi descoberto em Santa Cruz de la Sierra por policiais italianos que o denunciaram às autoridades locais. Em três tempos, a Justiça boliviana tomou decisão radical. Em vez de devolver Battisti ao Brasil, entregou-o diretamente aos italianos que, rapidinho, o carregaram para a Itália sem ao menos fazer escala no Brasil. A entrega do hóspede indesejado foi oficialmente registrada como expulsão.

Ficou claro que tanto Roma quanto La Paz tinham entendido que seria um risco enorme e desnecessário fazer Battisti transitar pelo Brasil. O perigo era de que a lei brasileira, permissiva e rica de sinuosas chicanas, se interpusesse. A novela da entrega do fugitivo às autoridades italianas podia, nesse caso, arrastar-se por anos. E no final, com o STF que temos, o risco de o terrorista ser de novo solto era real. Pra fugir desse perigo, os italianos convenceram a Bolívia a entregar-lhes o prisioneiro em mãos. E assim ocorreu. Se Roma ofereceu alguma contrapartida a La Paz, ninguém ficou sabendo.

Desde janeiro, Battisti está encarcerado numa prisão de segurança máxima na ilha da Sardenha. Seus advogados italianos apresentaram um pedido de recálculo da pena. Alegam que, para o cálculo, o que tem de valer é o acordo firmado entre a Itália e o Brasil pelo qual a pena do criminoso seria comutada de prisão perpétua para trinta anos de reclusão. Já fizeram até as contas. Adicionando o tempo em que signor Battisti esteve preso preventivamente – na Itália, na França e no Brasil – chegam a quase dez anos.

Abatendo esses dez anos dos trinta combinados entre a Justiça brasileira e a italiana, a pena residual é de meros vinte anos. Sexta-feira passada, 17 de maio, a defesa de Battisti foi convocada para uma audiência na Procuradoria-Geral de Milão. Expuseram sua tese de fazer valer o acordo de extradição firmado entre Brasil e Itália. O procurador-geral, no entanto, não acolheu a argumentação. Retrucou que, no momento da prisão, o condenado estava na Bolívia e não no Brasil. O acordo de extradição só poderia valer se o interessado estivesse no território do país signatário. Dado que não estava, o Brasil passou a ser, nesse episódio, apenas um «terzo osservatore estraneo – um observador externo estranho ao caso».

A decisão final ainda está pendente, mas tudo indica que a defesa de Battisti vai perder a causa. Se assim for, o condenado deverá cumprir a pena de prisão perpétua. Pensando bem, signor Battisti fez tudo errado. Tivesse ficado no Brasil, tranquilo em casa à espera da PF, sua defesa poderia ter acionado o cipoal de chicanas de que a lei brasileira dispõe. A batalha judicial podia se arrastar por algum tempo, com boas chances de o processo ser sorteado pra ser julgado por aquela turma do STF que gosta de soltar bandidos. Ainda que tudo desse errado e ele fosse despachado à Itália, seu tempo de encarceramento não poderia exceder 30 anos, em acatamento do acordo de extradição. Aí, sim, o pedido de recálculo de tempo teria boas chances de ser acolhido.

O desfecho do caso Battisti deixou um bocado de gente com gosto amargo na boca. Por um lado, o próprio terrorista, que pulou da panela direto para o fogo. Por outro, doutor Bolsonaro, que viu escapar-se-lhe das mãos a ocasião de aparecer como aquele que entregou o bandido à Itália. Até o STF recebeu uns respingos. Pra bom entendedor, ficou claro que a Itália organizou resgate do prisioneiro sem fazer escala no Brasil justamente pra evitar as chicanas brasileiras e a exagerada brandura com que nosso tribunal maior às vezes trata bandidos.

O patinete e o capacete

José Horta Manzano

Uma jovem carioca resolveu dar uma volta de patinete, desses de aluguel. Era a primeira vez que subia naquela geringonça. Meio insegura, bobeou, bambeou, bamboleou e se esborrachou no chão. Caiu feio. Quebrou dois dentes e ficou dias de beiço inchado. A aventura deixou-a com uma raiva danada. «– Como é que permitem não só chegar perto, mas subir num veículo tão perigoso?» Fosse a moça uma cidadã comum, a conversa teria morrido ali, assim que tivesse passado a raiva. Acontece que ela é deputada estadual, uma eleita do povo.

Assim sendo, deixou-se levar pela onda legislatória que assola o país e teve a ideia de regulamentar, por conta própria, o uso de patinete no seu estado. Pra bem legislar, nada melhor que criar gargalos e entraves. A parlamentar arquitetou as normas que lhe pareceram indispensáveis e apresentou projeto de lei tornando obrigatório o uso de capacete pra passear de patinete. No entanto, a lei imaginada pela moça contém um detalhe curioso: no caso de veículo de aluguel, caberá ao proprietário fornecer o equipamento. Assim, na prática, patinete de aluguel terá de ser alugado com capacete. Os dois juntos.

No Rio de Janeiro, os empresários do ramo estão inquietos. Se a proposição da deputada passar, o negócio de alugar patinete pode se tornar inviável. De fato, como fazer para acoplar um capacete a cada veículo sem risco de furto? Não parece, mas o investimento, desproporcional ao valor do negócio, periga inviabilizar a operação. Além disso, um perigo está embutido. Dado que o projeto de lei não detalha as características técnicas do equipamento, quem impede o dono do negócio de fornecer capacetes de baixa resistência ou até de papelão?

Acredito, sim, que patinete pode ser perigoso. Não só para o patinetista, mas principalmente para incautos pedestres que lhe possam surgir pelo caminho. Acredito, sim, que o capacete obrigatório é medida de bom senso. O que me incomoda no projeto da deputada é a obrigatoriedade feita ao dono do equipamento. Por que raios caberia a ele – e não ao usuário – tomar essa precaução?

Sabe-se que, em caso de acidente com esse tipo de veículo, muita fratura exposta poderia ser evitada com o simples uso de protetores de perna, tipo botas altas de cano duro. Caberia, porventura, ao fornecedor do patinete deixar botas à disposição do usuário?

Sabe-se também que tomar chuva fria com o corpo transpirado é perigoso e pode causar resfriado, gripe e pneumonia. Caberia, porventura, ao fornecedor do patinete deixar guarda-chuvas à disposição do usuário?

Convenhamos, minha gente: há limite pra tudo. Espero que os parlamentares do Rio se abstenham de aprovar a proposta. Em princípio, cada um tem de cuidar da própria segurança. Não é boa prática empurrar sistematicamente a terceiros a obrigação de nos proteger.

Boa posição

José Horta Manzano

Artigo do jornal sueco Nyheter 24 dá as mais recentes estatísticas da periculosidade do tráfego. O estudo se concentra nos dez países que apresentam o maior número absoluto de mortos na circulação. Nosso país ostenta um honroso terceiro lugar. Aqui está a lista dos dez países onde é mais perigoso dirigir:

Índia          150.000 mortos por ano
China           58.022 mortos por ano
Brasil          38.651 mortos por ano
USA             35.092 mortos por ano
Indonésia       31.282 mortos por ano
Tailândia       21.745 mortos por ano
Rússia          20.308 mortos por ano
México          16.039 mortos por ano
Irã             15.932 mortos por ano
África do Sul   14.071 mortos por ano

Para um estudo mais refinado, é preciso levar em conta o número de habitantes de cada país. Na análise final de mortes por 100 mil habitantes, nosso país perde uma colocação. Mas ainda aparece em quarto lugar, bem à frente de países mais adiantados. Veja:

Tailândia     31,4 mortos por 100 mil habitantes
África do S.  24,2 mortos por 100 mil habitantes
Irã           19,2 mortos por 100 mil habitantes
Brasil        18,2 mortos por 100 mil habitantes
Rússia        14,1 mortos por 100 mil habitantes
México        12,1 mortos por 100 mil habitantes
Indonésia     11,6 mortos por 100 mil habitantes
Índia         10,9 mortos por 100 mil habitantes
USA           10,7 mortos por 100 mil habitantes
China          4,1 mortos por 100 mil habitantes

Atenção: O estudo se limita aos dez campeões, ou seja, àqueles países que registram o número absoluto mais elevado de mortos em acidentes da circulação. Não computados neste estudo, certos países africanos ostentam taxas astronômicas quando se analisam os mortos por 100 mil habitantes. Alguns ultrapassam 50 mortos por 100 mil habitantes, o triplo da mortandade brasileira, uma verdadeira hecatombe.

Como curiosidade, note-se que os países que registram o menor número absoluto de mortos na estrada são a Islândia, a Jordânia e a Líbia. Por falta de habitantes e/ou de veículos.

Filme queimado

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro devia guardar a língua no bolso. Assim, toda hora que quisesse dizer alguma coisa, tinha de enfiar a mão no bolso, procurar lá no fundo, encontrar a língua, levar até uma torneira pra desempoeirar, encaixar na boca, e só então falaria. Dado que essa operação levaria alguns minutos, daria tempo de refletir, nem que fosse um pouco, nas consequências do que pretendia dizer. Isso evitaria os desastres diários criados por declarações irrefletidas.

Outra solução pra evitar acidentes seria o presidente fazer-se rodear por meia dúzia de assessores tecnicamente qualificados que pudessem apontar-lhe os riscos de cada afirmação. Mas essa possibilidade é remota. Doutor Bolsonaro, sabe-se lá por que, tem grande dificuldade em nomear gente competente. Sua turminha é um estropício.

A fala desastrosa mais recente foi a afirmação de que vai nomear doutor Moro para o STF. Ninguém entendeu por que absconsa razão o presidente deu de enfiar aquele assunto no meio da conversa. Talvez tenha achado bonito. Não se deu conta de que a simples menção do nome do antigo juiz provoca calafrios em muita gente. Dizer que vai transformá-lo em ministro do Tribunal Supremo, então, desata pânico geral!

Doutor Moro foi plantado no olho do furacão. Vai levar pancada, flechada, rasteira e cascudo. Muita gente vai tentar puxar-lhe o tapete debaixo dos pés. Se as regras de nomeação não mudarem daqui até lá – digo bem: se não mudarem, o que não é garantido –, o futuro ministro do STF dificilmente aguentará a pressão durante ano e meio. O mais provável é que nunca venha a integrar a Corte, o que deixará muita gente com sensação de alívio.

Depois de jogar a toalha, o antigo juiz vai ganhar a vida dando palestras aqui e ali. O governo Bolsonaro perderá um dos raros trunfos de que dispunha. Peixe morre pela boca. Presidente linguarudo também.

Artigos em falta

José Horta Manzano

Nos tempos do lulopetismo, ficou evidente a falta de simancol de Lula da Silva e de quase todos os que lhe gravitavam em torno. A sem-cerimônia daquela gente era constrangedora. Apesar disso, dada a gravidade do que fizeram no terreno criminal, passaram à história como promotores do maior assalto ao Estado. Os louros obtidos com esse crime ofuscam o primitivismo do desajeitado comportamento social. Ninguém mais se recorda do lado pesadão de todos eles. Serão para sempre lembrados pela desenvoltura ao meter a mão na marmelada.

O advento de doutor Bolsonaro trouxe variação aos padrões. Roubalheiras não foram, até o momento, descobertas. (Esperamos que assim continue.) Já do lado do comportamento no dia a dia, ai, ai, ai! A falta de simancol dos lulopetistas é fichinha. O prato do dia agora é a gritante falta de vergonha na cara. Quando, lá fora, o mundo fica sabendo, nós é que passamos a nos sentir constrangidos. E como!

A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos tomou a peculiar decisão de conceder o prêmio de personalidade do ano a doutor Bolsonaro. Digo peculiar porque me lembra o prêmio Nobel da Paz oferecido a Barack Obama logo no início do mandato. O mundo, naquela época, ficou um tanto embasbacado: «–Mas… se o homem ainda não teve tempo de mostrar serviço, por que é que lhe estão dando esse prêmio adiantado?»

Agora volta a mesma pergunta. Por que é que dão prêmio de personalidade do ano a um presidente em início de mandato, que ainda não fez praticamente nada além de tuitar indecências e banalidades? Pouco importa – o prêmio foi concedido. Agora é tratar de ir buscá-lo. É aí que começa a constrangedora via crucis, que termina com inacreditável falta de vergonha na cara.

Em lugar de guardar discrição na escolha do salão onde promover a festa, os organizadores deixaram vazar cada passo da busca. Como resultado, o mundo ficou sabendo que a presença de doutor Bolsonaro não era bem-vinda em nada menos que três salões nova-iorquinos. De quebra, o prefeito daquela metrópole tascou em nosso presidente o epíteto de «dangerous human being – ser humano perigoso». Um desplante. Perigoso ou não, qualquer ser humano medianamente dotado de brios teria virado a página e enterrado o projeto. Perdeu, mano!

Quá! É não conhecer o presidente do Brasil. Tinhoso, é daqueles que, expulsos pela porta, retornam pela janela. Mostrou que não é somente simancol que lhe falta, mas vergonha na cara. Acionou o Itamaraty para encontrar lugar que se dignasse de o acolher. Descobriram um local em Dallas. Doutor Bolsonaro deve fazer a viagem estes dias. O prefeito da cidade já avisou que não comparecerá à cerimônia, numa mostra de que o sentimento antibolsonarista é difuso e não se restringe a um excitado prefeito de Nova York.

Não sei o que o distinto leitor pensa disso tudo. Fosse comigo, eu não iria. Quando um homem chega ao ponto de ter de mendigar acolhida, não faz jus ao título de personalidade do ano. Ou não? Faltou vergonha na cara.

O verdadeiro problema

José Horta Manzano

Os brasileiros antenados andam inquietos. Pra onde vai o barco nacional – nau sem timoneiro, em tempestade grossa, em noite sem lua? A água entra às cataratas e só temos xícaras pra esvaziar o porão. O naufrágio passa a ser possibilidade concreta. Pelo chacoalhar da diligência, já não se deve perguntar se, mas quando vai acontecer.

Uns acusam os filhos dementes do presidente. Outros preferem situar a origem do desastre na interferência malfazeja de um astrólogo boca-suja. Há quem constate que, com uma oposição política em frangalhos, o governo se esteja consumindo num macabro ritual de autofagia. O dedo da CIA, da China ou até de Putin é visto por alguns como culpado pela crise – ainda que eu não entenda bem que vantagem uma débâcle nacional traria a essa gente.

Pra mim, estão todos longe da verdade. Nem os filhos dementes, nem o astrólogo boca-suja, nem a oposição desmilinguida, nem a CIA, nem a China, nem Putin. Nenhum desses seria capaz de empurrar o país para o abismo. O verdadeiro problema, a desgraça que nos desabou sobre a cabeça – e que ninguém havia previsto – é uma só: temos um presidente fraco.

Que se pode esperar de um homem que nem ao menos tem mão forte pra enquadrar os próprios filhos? Quem não consegue fazer reinar a harmonia no círculo familiar não está em condições de conduzir o barco.

O pior de tudo é que essa desgraça não tem remédio. É ilusão esperar que um biotônico qualquer venha dar força a um presidente fraco. O homem é assim e assim continuará. As futricas palacianas tendem a se estender por todo o mandato. E é bom que o petismo não se fortaleça muito nos próximos quatro anos. Se um candidato do lulopetismo estiver em condições de disputar as próximas eleições com chance de vitória, o mesmo fenômeno de voto útil de 2018 tende a repetir-se. Assim, a reeleição de doutor Bolsonaro está garantida.