Quanto dura uma paixão?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 23 fevereiro 2019.

Até o fim do século 20, a extrema-direita francesa se confinava às beiradas do eleitorado. Nas asas da crise econômica e sob a batuta do impagável Le Pen, deixou de ser movimento folclórico. Saiu da margem para inserir-se no tabuleiro político. Como adolescente que desabrocha, o partido espichou. Nas presidenciais de 2002, o timoneiro deu um susto ao guindar-se ao segundo turno. Não foi mais longe, que ainda não era hora. Na reta final, foi esmagado por Chirac. Aliviada, a nação sossegou.

Passados quinze anos, veio nova presidencial. Um Le Pen aposentado confiou as rédeas do partido à filha ‒ numa mostra de que o fantasma da monarquia hereditária de direito divino ainda assombra os palácios de Paris. (Não só de Paris, diga-se.) De novo, cidadãos descontentes viram no discurso extremista o remédio contra todos os males e alçaram Madame Le Pen ao segundo turno. A maioria dos eleitores, porém, não digeria a ideia de ver candidata extremista na Presidência. Assim, o turno final foi acachapante: 66% para Macron x 34% para Le Pen.

Recém-eleito, Monsieur Macron deixou-se embalar pela brisa leve da vitória confortável. Esquecido de ter-se beneficiado do voto antiextremista, acreditou que dois terços dos franceses fossem realmente seus eleitores de raiz. A arrogância custou-lhe caro. O namoro que costuma unir o povo ao presidente recém-chegado tem prazo de validade restrito. No caso Macron, durou pouco. Desabusados, os eleitores que lhe haviam dado voto unicamente para afastar a ameaça extremista constataram que as reformas não estavam saindo como desejavam. Era hora de levantar protesto. Nasceu assim o Movimento dos Coletes Amarelos, que aporrinha o governo há meses. Passou o encanto. Por contaminação, até os próprios apoiadores do presidente ‒ aqueles que votaram nele por convicção ‒ começam a duvidar. Fosse hoje a eleição, é provável que aquele que venceu com 66% dos votos fosse reprovado e despachado à vidinha de cidadão comum.

Fenômeno semelhante ocorreu no Brasil na última presidencial. Beneficiado pela repulsa a um partido identificado com rapina desembestada ao erário, doutor Bolsonaro foi eleito por confortável maioria. Releve-se o fato de ter atravessado período conturbado em decorrência do atentado de que foi vítima durante a campanha. O povo, um tanto esquizofrênico, ao mesmo tempo que se condói do sofrimento do presidente, impõe que ele deixe o leito e acuda o país. Já vamos pra dois meses da diplomação e a realidade é cruel. Apesar de o maestro ter estado de recesso, atos e fatos do andar de cima têm sido, para o bem ou para o mal, a ele tributados. E o que tem ocorrido não é belezura.

Atropelos, quiproquós, indecisões, fofocas, injúrias, traições, cotoveladas ‒ uma constrangedora vitrine da miséria humana vem sendo exposta. Mais exigentes e menos pacientes, os que votaram em Bolsonaro de nariz tapado, no objetivo único de barrar caminho à corrupção, se exasperam: «Então era essa a alternativa ao descalabro petista?» ‒ impacientam-se. A pública lavagem de roupa suja tem sido tão enervante que até mesmo os que votaram no presidente por convicção já se perguntam se fizeram bem em confiar as chaves do Planalto a amadores deslumbrados.

Nestes tempos em que tuitadas preenchem o espaço político e ameaçam encolher prazo de validade de homens de poder, que se cuide o presidente. A paixão do povo, se é que um dia existiu, caminha rápido para o vencimento. Maiorias parlamentares, flutuantes e infiéis, deixaram de ser garantia absoluta. Pra provar, está aí a recente defenestração do inoxidável presidente do Senado, homem cuja reeleição perpétua era tida como garantida até a véspera. Na França, os Coletes Amarelos não vão conseguir derrubar o presidente, que isso não está nos costumes do país. No Brasil, no entanto, presidente corre sempre perigo. É bom que ele trate logo de botar ordem na casa, ou o povo depressa lhe mostrará quanto dura uma paixão.

Porta-voz

José Horta Manzano

Num governo que se tem revelado afligentemente cacofônico, em que a todos é permitido falar sem que se saiba quem tem razão, surgiu uma pérola. O presidente designou doutor Rêgo Barros como porta-voz. Agora sabemos que, fofocas à parte, vale o que diz aquele senhor. Leva a voz oficial do governo.

O porta-voz tem-se mostrado à altura do encargo. Paciente e de fala mansa, já enfrentou coletivas de imprensa. Provou que é capaz de ouvir, imóvel e impávido, a pergunta que cada repórter lhe faz, por mais longa e confusa que seja. Responde, em seguida, imperturbado e imperturbável. Não deixa questão sem resposta.

A nomeação do porta-voz foi excelente passo na boa direção. Preenche uma lacuna. No entanto, nada impede que primeiros-filhos continuem dando com a língua nos dentes por aí. Uma frase infeliz de um deles pode jogar por terra semanas de trabalho paciente de construção pacífica. Esperamos todos que doutor Bolsonaro dê um puxão de orelha em cada um dos rebentos.

Nota etimológica
Nossa língua designa como porta-voz a pessoa que exerce o ofício de falar em nome de outro ou de um grupo. A imagem é a do profissional que está carregando a voz do representado. O italiano (portavoce) e o espanhol (portavoz) nos acompanham.

Já os franceses, quando dizem porte-parole, entendem que o representante carrega não a voz, mas a palavra do representado. A nuance é sutil. Nessa imagem, são acompanhados pelos holandeses (woordvoerder) e pelos romenos (purtător de cuvânt).

Em seguida, vem o grupo das línguas germânicas. Preferem dizer que o representante é o homem que fala, o falador. Fazem isso os alemães (Sprecher), os ingleses (spokesman) e os suecos (talesman).

Por último, uma curiosidade. Os poloneses designam o porta-voz por encantador vocábulo: rzeczniczka. O distinto leitor está desafiado a pronunciar corretamente. (O desafio, naturalmente, não se aplica aos que conhecem a língua polonesa.)

Post scriptum
Já faz uns dias que os bolsonarinhos andam encorujados. Será que papai já lhes deu um cala a boca?

Estatísticas de 1912 – corrigenda

José Horta Manzano

Faz dez dias, publiquei um artigo que detalhava a produção industrial do Estado de São Paulo cem anos atrás. Na ocasião, confessei minha ignorância quanto ao significado de «chapéu de chuva», oposto a «chapéu de cabeça» ‒ que apareciam entre os itens industriais.

Uma amiga minha, habituada ao falar luso, trouxe a boia salva-vidas. Ela me ensinou que em Portugal, ainda hoje, guarda-chuva se diz chapéu de chuva.

Mas é claro! As estatísticas paulistas de 1912 faziam a diferença entre os dois tipos de chapéu. De um lado, estavam os «chapéus de cabeça». De outro, os «chapéus de sol e de chuva», ou seja, sombrinhas e guarda-chuvas.

Agradeço a minha amiga pela argúcia e pela preciosa informação.

Ponto eletrônico

José Horta Manzano

Acompanhei a longa entrevista que doutor Bebianno (Bibbiano?) concedeu, dia 19 de fevereiro, a uma emissora de rádio. O (então já ex-) ministro deu sua versão dos contactos que manteve, nos últimos dias, com doutor Bolsonaro e primeiro-filho. Essa parte não é de despertar paixões. Para mim, tanto faz saber quem disse ou quem não disse, quem mentiu ou quem deixou de mentir, quem devia ou não devia ter dito o que disse ou deixou de dizer. O que me inquieta é o quadro inquietante revelado por esse quiproquó.

Cada governo tem sua personalidade, sua marca de fábrica, seu jeito próprio de ser e de agir. Por razões que escapam a todo controle, a instalação da atual presidência não pôde se fazer nos dias seguintes à tomada de posse, como é costume. A preparação da cirurgia do presidente e o período de hospitalização criaram um vácuo que somente agora começa a ser preenchido. Finalmente, o piloto volta à cabine. O avião, desgovernado, vai entrar no prumo e no rumo.

No prumo e no rumo? Nada é tão incerto. Vamos primeiro esquecer essas futricas de adolescente que, embora não cheguem a derrubar governo, tampouco constroem governança. Vamos agora espremer a entrevista de doutor Bebianno (Bibbiano?) pra ver o que sai. O suco não é nada apetitoso. Ao fim e ao cabo, as conversas entre esses membros do alto escalão revelam que nosso presidente dá preocupantes sinais de fraqueza.

Tweet ‒ Nuclear
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Desde que sofreu o atentado, doutor Bolsonaro praticamente só se comunicou através de redes sociais, com tuitadas curtas, frases lacônicas, slogans mambembes. Quando dá declaração oficial ‒ ocasião em que é obrigado a fazê-lo de pé, diante de um microfone, ao vivo ‒ usa e abusa do ponto eletrônico. Fica sempre a impressão de que ele está apenas servindo de canal para a voz de algum escritor fantasma que ninguém sabe direito quem é.

O presidente nunca escondeu sua admiração por Donald Trump. Dado que os dotes oratórios de nosso chefe de Estado são precários, compreende-se que ele dê preferência a comunicar-se pelas redes. Por um lado, imita o presidente americano; por outro, elude sua carência oratória. Doutor Bolsonaro se esquece de que quem imita tem de ir até o fim. Mr. Trump leva a brutalidade até o fim. Tuíta com violência, discursa com veemência e, no final, age com estrondo. Doutor Bolsonaro, por seu lado, limita-se a tuitar, esquivando-se na hora de agir, vergado ao peso das múltiplas influências de que é vítima, incapaz de decidir por si.

Fica a desconfortável impressão de um dirigente bem-intencionado mas fraco, por demais permeável a influências. Posso estar enganado. Aliás, torço pra isso, mas algo me diz que meu diagnóstico não está tão longe da realidade. Assim sendo, resta esperar que doutor Bolsonaro escolha dar ouvidos às influências mais benéficas para o país. O futuro dirá. Por enquanto, é bom ir preparando novena pra São Benedito.

Diz que diz e cai não cai

José Horta Manzano

Está cada dia mais aflitivo o que se passa pelas bandas do Planalto. Se ainda viva fosse, a Candinha ‒ aquela dos mexericos ‒ ficaria roxa de inveja. O diz que diz é digno de cortiço. Nem durante as brigas de minha vizinha do apartamento de baixo se vê tanta roupa suja lavada em público. E olhe que minha vizinha, quando se enfeza, aborda o marido aos berros e nele atira pratos, cobras, lagartos e o que mais lhe passe por perto. No Planalto, lugar excelso da República, é pior.

Os Bolsonaros
Crédito: vespeiro.com

Fofocas, insultos, hesitações, ataques, retratações, acusações, desmentidos ‒ têm sido nosso prato do dia há duas semanas. Os grão-duques do lulopetismo assaltavam o erário, é verdade, mas pelo menos o faziam discretamente. A gente empobrecia mas conservava o sorriso dos ingênuos. Já atualmente, o clima conflagrado irrita o povo e emperra o bom andamento da nação. Não nos roubam dinheiro, mas surrupiam-nos a paciência e confiscam-nos o sorriso.

Uma simples troca de ministros, fato que ocorreu às dúzias em governos anteriores, transformou-se num circo midiático, espetáculo servido à prestação, com picantes capítulos diários. Um espanto. Agora que o ministro cai-não-cai já se foi, resta torcer pra que a turma do palácio endireite. Se não for pedir muito. Desconfio que é.

Nem azul, nem rosa

José Horta Manzano

Deu no Estadão. Doutora Damares, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos ‒ a quem devemos o sábio discurso sobre a cor apropriada da indumentária infantil ‒ mostrou, mais uma vez, ter excelente preparo para o cargo que exerce. Foi numa entrevista que concedeu a uma estação de rádio. Embora a data a gravação seja desconhecida, o programa foi ao ar sexta-feira passada na Jovem Pan de João Pessoa.

A doutora pontificou: “Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de menina: foge do Brasil! Você está no pior país da América do Sul para criar meninas”. Um susto, minha gente! Dada por pessoa situada tão alto na escala social do país, a advertência tem de ser levada a sério.

Ao estipular que meninos deviam vestir azul e meninas, rosa, a ministra Damares levantou um bafafá dos diabos. Saiu todo o mundo gritando. Foi quando a doutora esclareceu que o pronunciamiento não passava de metáfora. Ufa! Tranquilizado, o Brasil se acalmou.

Desta vez, a ministra está demorando pra botar a declaração na conta de mais uma metáfora. O bom senso exige que o faça rápido, senão o país vai assistir a uma debandada. Que portos e aeroportos se preparem! Vai ter gente fugindo até para a Venezuela ‒ país que, segundo a doutora, é mais adequado que o Brasil para criar meninas. É mole?

Esqueça o azul e o rosa. Fuja enquanto ainda é tempo!

Antepassados analfabetos

José Horta Manzano

Primeiro, uma afirmação peremptória: todos nós temos antepassados que nunca aprenderam a ler nem a escrever. Basta lembrar que, como ninguém foi trazido no bico da cegonha, descendemos todos de seres selvagens. Que tenham vindo das savanas africanas, das cavernas europeias, das grutas extremo-orientais ou das florestas tropicais, todos temos antepassados analfabetos. Podem ser mais distantes ou mais próximos, mas, lá na origem, a realidade é sempre a mesma.

Cento e cinquenta anos atrás, só ínfima porção da população do país era letrada. Também dos estrangeiros que aportavam, boa parte era constituída de analfabetos. Não há que se envergonhar disso, que era assim no mundo todo. Do encontro desses dois contingentes de semiletrados, algumas consequências nos afetam ainda hoje. Uma delas é a deturpação na grafia do nome de família de imigrados.

Vários fatores se conjugaram para generalizar erros na transcrição:

  • A dificuldade de compreensão mútua entre o que chegava e o encarregado de registrar a entrada
  • A imprecisão de documentos de viagem
  • O iletrismo que grassava à época
  • A necessidade de transcrição de nomes que, na origem, não eram grafados em alfabeto latino
  • O stress do momento

Ainda está para ser feito estudo para quantificar a frequência de erros de grafia de sobrenomes importados. Eu arriscaria dizer que um em cada quatro ou, quem sabe, até um em cada três nomes está mal escrito e não bate com o original.

Estes dias, duas figuras de primeiro plano estão em todas as bocas. São os doutores Bolsonaro e Bebianno, respectivamente presidente da República e (quase ex-) ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Além do título imponente, têm ambos um ponto em comum: a grafia estropiada do sobrenome.

Bolsonaro
Tudo indica que Bolsonaro é transcrição errônea do original Bolzonaro. Etimologistas e genealogistas não estão totalmente de acordo, mas deveria tratar-se de topônimo, isto é, nome de lugar geográfico. O patriarca da família ‒ aquele que, lá pelo século 13, legou sobrenome à descendência ‒ há de ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza (Vêneto), Itália. Outra corrente propõe o vocábulo dialetal vêneto ‘bolzon’ como origem. É palavra-ônibus de múltiplos significados. Na Itália, Bolzon sobrevive como nome de família.

Bebianno
O original italiano se escreve Bibbiano, com dois bb e um só n. Esse sobrenome é um patronímico, ou seja, deriva do prenome do patriarca que deu nome à estirpe. Esse antepassado longínquo há de ter recebido o prenome de Bibiano, que lhe terá sido dado em devoção a São Bibiano (São Viviano). Na Itália, restam pouquíssimas famílias com esse sobrenome, concentradas no sul do país.

Pessoalmente, não gostaria de carregar um nome mal grafado. Parece que emperra a vida. Faria o possível e o impossível pra consertá-lo. Seja como for, com nome certo ou errado, é importante ser sempre claro em gestos e palavras. Os dois protagonistas citados neste post caíram na cilada da comunicação truncada e obscura. As intrigas palacianas, que saltam sobre qualquer ocasião, deram conta da cordialidade que terá um dia existido entre os dois. Nesse episódio, só houve perdedores. Por falta de clareza, saíram ambos chamuscados e diminuídos.

O anjo negro e o pitbull

José Horta Manzano

Como todo homem de mão forte, Getúlio Vargas contava com um círculo fechado de devotos abnegados e dispostos a tudo a fim de proteger o capo. Seus irmãos Lutero e Benjamim encaixaram-se no papel de fiéis escudeiros mas o fiel entre os fiéis, o devoto entre os devotos, o leal entre os leais, era Gregório Fortunato.

Chamado de Anjo Negro, Fortunato era de origem humilde. Seus pais tinham sido escravos. Desde muito jovem serviu à família Vargas, ainda no Rio Grande. À medida que Getúlio assumiu posições importantes na vida política, a presença discreta do ‘anjo da guarda’ se afirmou. Misto de guarda-costas e faz-tudo, Fortunato chefiava a guarda pessoal de Getúlio.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, o Anjo Negro

Em 1954, quando Vargas já estava no quarto ano de mandato presidencial, os ventos sopravam de quadrante adverso. Intensa campanha política, capitaneada pelo tribuno Carlos Lacerda, não dava trégua. Dono do jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda não passava um dia sem lançar mais um ataque feroz ao presidente ‒ um ‘tirano corrupto’, em sua opinião.

Na noite de 5 de agosto daquele ano, Lacerda caminhava em companhia de um amigo pela rua Tonelero, em Copacabana, quando foi vítima de um atentado. Ambos foram alvo de tiroteio. O tribuno se safou com um ferimento no pé, mas o major Vaz, o amigo que o acompanhava, foi atingido mortalmente. Dado que o major não tinha inimigos, ficou claro que o destinatário das balas era Lacerda.

A emboscada provocou terremoto no país. Foi a gota d’água pra acelerar o desenlace da tensa situação. Menos de três semanas depois, pressionado pelos próprios ministros a renunciar ao mandato, Getúlio resmungou que ‘só deixaria o Catete morto’(*). Naquela mesma madrugada de 24 de agosto, suicidou-se.

Acusado de ser o mandante do crime, o Anjo Negro foi julgado e condenado a 25 anos de cadeia. Sucessivamente, os presidentes Juscelino e Jango lhe concederiam graça parcial, reduzindo a pena a 15 anos. Não deu tempo. Quando já levava seis anos encarcerado, Fortunato foi assassinado na prisão. Pareceu queima de arquivo, mas as investigações deram em nada. Ninguém estava interessado em revolver a poeira. Acabou ficando por isso mesmo.

Tribuna da Imprensa, 5 ago 1954
Relato da emboscada de que Lacerda foi vítima

Doutor Bolsonaro, subido recentemente a posto de relevo, ainda não formou círculo íntimo consistente. Em volta dele, agitam-se pretendentes. Desde já, tudo indica que o filho Carlos se esteja impondo como anjo da guarda maior. Apesar de ter recebido do povo carioca um mandato para representá-lo na Câmara Municipal, o moço não sai do pé do pai. Dizem que assiste, com o beneplácito paterno, às conversas reservadas do presidente com todos os visitantes. Há de ser constrangedor pra quem chega desprevenido.

Num século 21 menos aveludado que o anterior, desprezam-se as formalidades. Em vez de ‘anjo’ (negro ou branco), doutor Bolsonaro prefere descrever o filhote como ‘meu pitbull’. Está longe de ser engraçado. Essa atmosfera de família real, em que o chefe precisa da presença constante de um cão de guarda feroz, é inquietante. Aparentemente, ainda estamos longe de desembocar numa tragédia como a de agosto de 1954, mas doutor Bolsonaro deveria dar uns retoques no desenho da guarda presidencial. Nunca é bom facilitar.

(*) O Catete funcionava como palácio presidencial antes da transferência da capital para Brasília. Hoje está instalado ali o Museu da República.

Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Este artigo foi corrigido e completado em 21 fev° 2019. Veja aqui.

Da Vice-Presidência

José Horta Manzano

Uma de minhas birras recorrentes liga-se à figura bizarra do vice-presidente da República. O Artigo 79 da Constituição, o único que explica para que serve o vice, diz o seguinte: «Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente». É só, mais nada. Outras atribuições do vice ficaram pra ser especificadas em lei complementar, lei esta que nunca foi votada.

Assim sendo, além de aparecer nas fotos e consumir dinheiro público com salário, mordomias, transporte, segurança e manutenção do Palácio do Jaburu e da respectiva criadagem, o vice só serve pra substituir o titular em caso de impedimento deste. A palavra impedimento, para o pessoal do andar de cima, parece ter significado diferente do que lhe atribuímos nós outros, do andar térreo. É curioso.

Quando o presidente viaja para o exterior, servem-nos o requentado prato da despedida ao pé do avião, aformoseada com a cerimônia da transmissão de poder do titular ao vice. A transferência de poder é perfeitamente dispensável na era da comunicação planetária instantânea. Onde quer que esteja o presidente, as informações de Brasília lhe chegarão na hora, permitindo tomada de decisão imediata. Um vice imbuído de poderes presidenciais só traz confusão: durante esse período, o país conta com dois presidentes, ambos válidos e legítimos.

Quando Sua Excelência é internado para operação severa que o deixará fora do ar por semanas, aí sim, seria hora de o vice assumir as rédeas. No entanto, que vemos? Um presidente acamado, entubado, febril, doente, mas oficialmente em função. E um vice-presidente serelepe, pimpante, falante, sorridente, livre, desimpedido, mas… sem função de mando nem autoridade para tanto.

Se esta não é a hora de passar por cima de resistências do clã presidencial e transmitir logo os poderes ao vice, quando será?

Birras

José Horta Manzano

by Tiff, desenhista francês

Prisão sem bloqueador
Nem todos os estabelecimentos penitenciários brasileiros são equipados com bloqueador de celular. Numa época como a nossa, em que o barateamento de dispositivos de vigilância envolveu o mundo numa teia de controles, fica difícil justificar essa ausência de monitoramento justamente onde ele é mais necessário. Se alguém souber o motivo dessa lacuna, por favor mande carta para a redação.

Sem seguro
Em agosto de 2017, um balão caiu no velódromo do Parque Olímpico do Rio de Janeiro e provocou incêndio. Era de noite, ninguém se feriu, mas o prejuízo ficou em 10 milhões de reais. Por mais incrível que possa parecer, a instalação esportiva não tinha seguro contra estragos causados pelo fogo. Como o assunto saiu de foco, nunca mais se falou nisso. A conta foi paga, naturalmente, com dinheiro do contribuinte.

De um prédio público, nem se fala: é inadmissível que não tenha seguro. Mas também de um prédio particular, é estranho que proprietários não se preocupem em proteger o que lhes pertence. Em terras mais civilizadas, seguro residencial contra incêndio é obrigatório. Em geral, a seguradora oferece planos que cobrem também queda de raio, chuva de granizo, inundação, vidraça estilhaçada, roubo por arrombamento. Pagar seguro e nunca ter de utilizá-lo é sempre melhor que perder a casa e descobrir que não tinha seguro.

Nome feio
Crodowaldo, Ketymarani, Frankstein, Izuperiu, Leidi Dai são alguns dos prenomes estranhos carregados por milhões de infelizes conterrâneos nossos. A meu ver, a liberdade de imaginação dos pais termina onde esbarra no direito que o filho tem de portar nome digno. O pobrezinho vai ter de arrastar o nome pelo resto da vida. Não se pode admitir que pais ignorantes ou irresponsáveis deem ao filho prenome estigmatizante.

Por que é que nomes que saem do ordinário não são obrigatoriamente submetidos, antes de serem sacramentados, à apreciação do dono do cartório ‒ que se supõe ser pessoa letrada? Em caso de dúvida, que um juiz seja consultado.

Não prejudicar a vida alheia, por meio de atribuição de nome ridículo, é item importante na lista dos direitos humanos. Nessa matéria, um dique de contenção tem de ser erguido pra proteger inocentes. Portar nome digno é mais importante do que vestir azul ou rosa. Alô, dona Damares!

Árabes e judeus

José Horta Manzano

Apesar da energia despendida pelos governos petistas para promover e alargar linhas de fratura no seio da sociedade brasileira, o estrago não ultrapassou os clichês ligados à aparência física. As famigeradas quotas raciais foram estabelecidas grosseiramente. Na base, guiaram-se apenas pela cor da pele e restringiram-se a distinguir duas categorias: de um lado, pretos e mulatos; de outro, brancos e orientais. A medida tosca se limitou à aparência externa de cada indivíduo. Não tendo descido a minúcias, a estigmatização poupou a diversidade de nossa herança étnica e cultural. Melhor assim.

Nosso país faz parte do clube seleto dos que não ressentem o eco das rusgas entre judeus e árabes. Passando ao largo das desavenças no Oriente Médio, o brasileiro não demonstra preconceito contra nenhum dos dois povos beligerantes. Seria falso dizer que isso ocorre porque não os conhecemos. A sociedade brasileira integra milhões de descendentes de imigrantes árabes e judeus, que são considerados cidadãos exatamente como os outros, nem melhores, nem piores.

O fato de representantes das duas colônias sobressaírem em altos cargos da política nacional não abala ninguém. A mídia nem costuma sublinhar a origem desses personagens. Os árabes Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab, Rosinha Garotinho e Fernando Haddad são conhecidos e apreciados (ou detestados) por motivos que nada têm a ver com a origem de seus antepassados. O mesmo se aplica aos judeus Jaime Lerner, Jacques Wagner, Alberto Goldman e Ilan Goldfajn.

Rainha Silvia da Suécia

No estrangeiro, as paixões são mais vivas. Quando doutor Temer subiu à Presidência, a notícia chegou correndo ao Líbano, terra de seus antepassados. A mídia se empolgou e homenagens foram prestadas ao político brasileiro. No vilarejo de onde vem a família, doutor Temer é nome de rua.

Agora, que doutor Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, foi a vez de a mídia israelense se entusiasmar. Todos salientaram o fato de ser a primeira vez que um judeu chega à Presidência de nossa Câmara Alta.

Note-se que o Brasil é menos efusivo quando algum de seus filhos chega a posição importante no exterior. Temos uma brasileira sentada no trono da Suécia e, no entanto, raramente se tem notícias da rainha Sílvia que, filha de Herr Walther Sommerlath e de dona Alice Soares de Toledo, cresceu no Brasil e fala nossa língua como qualquer conterrâneo. Além da coroa, ela dispõe hoje de tripla nacionalidade: brasileira, alemã e sueca.

Confirmando a convivência pacífica entre comunidades, temos agora o judeu Davi Alcolumbre e a árabe Simone Tebet no Senado, ambos em posição de destaque. A mídia estrangeira pode continuar se entusiasmando. Quanto a nós, vamos torcer pra que as linhas de fratura criadas à força acabem por cicatrizar sem deixar marcas.

Alinhamento automático

José Horta Manzano

Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.

De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.

Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?

Banquete medieval

Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.

Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.

Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.

Samba de um homem só

José Horta Manzano

Somos duzentos e tantos milhões. Pra enquadrar a marcha da nação e marcar o compasso dos cidadãos, há dezenas de ministros, centenas de parlamentares federais e estaduais, milhares de magistrados, prefeitos, vereadores, altos funcionários. Esse povo todo está lá, numeroso, justamente pra dar equilíbrio ao andamento da máquina. A multiplicidade de atores é garante dessa harmonia. Quando exercido por milhares de autoridades ao mesmo tempo, o poder se dilui, assegurando a despersonalização das diretivas. É importante para o bom funcionamento da democracia representativa.

Entre estarrecido e deprimido, o Brasil assistiu a espetáculo desagradável no fim de semana que passou. O drama representado no palco do Senado Federal foi grotesco, indigno de um país que se quer ‘emergente’. (Bem longe de emergir, ficou claro que ainda falta muito pra botar a cabeça fora d’água.) Só faltaram sopapos, porque o resto se viu: gente falando errado, discursos trôpegos, traições, gritos, atropelos, tentativa primária de fraude, casuísmos, decisões conforme a cabeça do cliente, indisciplina generalizada. Uma barafunda.

E tudo isso por quê? Que é que há de tão importante no cargo de presidente do Senado pra provocar tamanho apetite entre 81 marmanjos? Aí é que reside a negação do poder difuso e equilibrado. O presidente da Câmara Alta detém nas mãos imenso poderio. Cabe a ele ‒ e a ele só ‒ determinar a pauta das deliberações. Um projeto de lei que não lhe agrade? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment de ministro do Supremo, que não lhe pareça oportuno? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment do presidente da República, que não lhe convenha? Vai pra gaveta. Um pedido de suspensão da imunidade de um colega simpático? Vai pra gaveta e lá fica.

by R. Paschoal, ilustrador

Esse poder desmedido dado a um só homem abre as portas pra obscuras transações. Não é à toa que um despeitado Renan, ao jogar a toalha, lamentou ter sido traído por um dos Bolsonaros juniores ‒ aquele que é senador e que anda enrolado com a Justiça. Ficou subentendido que o enrolado dava seu voto em troca do apoio de Renan em caso de pedido de suspensão de imunidade parlamentar. É o toma lá dá cá florido e vigoroso.

O presidente da República tem o direito de governar por decretos, se assim o desejar. Isso lhe confere poder discricionário. Um solitário ministro do STF tem o direito de expedir decisões que balançam as estruturas da República. Isso lhe confere poder discricionário. Agora sabemos que também o presidente do Senado detém o controle do que será ou não votado. Isso lhe confere poder discricionário.

Conclui-se que, no frigir dos ovos, passando por cima dos milhares de pequenas autoridades que exercem um nacozinho do poder global, o grosso mesmo está concentrado nas mãos de um punhado de indivíduos, que se podem contar nos dedos das mãos. Cada um deles, quando age solitário, nos faz dançar o samba de um homem só.

Observação
Davi Samuel Alcolumbre (1977-) é o novo presidente do Senado. O intrigante e raro sobrenome é judeu sefardi(*). Os antepassados de doutor Alcolumbre hão de ter deixado um dia a Espanha, muito provavelmente quando da expulsão de 1492, para se estabelecerem nalgum país do leste do Mediterrâneo, de onde, séculos depois, emigraram para o Brasil. A grafia do nome flutua conforme a transcrição: Alcolumbre, Alculumbre, Alkulumbre são algumas das variantes.

O «Al» inicial denota arabização. De fato, ‘al’ é o artigo em árabe. Essa característica do nome Alcolumbre reforça a tese de a família estar estabelecida na Espanha à época do domínio mouro, que durou sete séculos.

(*) Diz-se sefardi (plural: sefardim) dos judeus originários da Península Ibérica. Em hebreu moderno, Sefarad é o nome dado à Espanha.

Anemia global

José Horta Manzano

Este é um momento em que as altas esferas de países importantes (mas não só) estão atravessando um período de dúvidas, de retraimento. A vida é feita de altos e baixos: quando uns estão na subida, é comum e normal que outros estejam descendo. O que é menos comum é que tantos dirigentes estejam em fase de retraimento. Uma verdadeira anemia.

Donald Trump, o cacique-mor, fecha o segundo ano de mandato com uma espinha atravessada na garganta. Prometeu que ergueria, de qualquer modo, uma muralha pra afastar miserentos. De repente, dá-se conta de estar órfão de pai e mãe: o Congresso fechou a torneira e não lhe dá o crédito necessário. E agora?

Theresa May, primeira-ministra britânica, é outra que anda mais cabisbaixa que de costume. Por um lado, está compromissada por ter garantido ao povo tirar seu país da União Europeia. Por outro, a própria Europa lhe impõe um cardápio de pesadas condições, caso insista em deixar o bloco. Um dilema.

A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, está mal das pernas. Desgastada pelos longos anos de poder e enfraquecida por recentes derrotas em eleições parciais, já declarou que está encerrando a carreira e que não vai se recandidatar para a próxima legislatura.

Na França, depois de três meses de manifestações de protesto dos «gilets jaunes ‒ coletes amarelos», o presidente Macron anda sumido, encolhidinho. Com medo de povo, só dá entrevista para plateias amestradas. Se as eleições fossem hoje, aquele que venceu com o voto de dois em cada três franceses sairia derrotado.

Pedro Sánchez, primeiro-ministro socialista da Espanha, além de ter curta maioria no Congresso, está enfrentando outros inimigos. A revolta surda dos catalães que clamam por independência é pedregulho no sapato. Pra coroar, na importante região da Andaluzia, que governavam havia mais de 40 anos, os socialistas perderam para a direita.

Maurício Macri, da Argentina, está diante de galopante inflação acompanhada de degradação da economia do país. É a receita do Deus me livre, caminho certo pra acabar com qualquer dirigente.

Na Venezuela, não precisa nem dizer. O país, exaurido, titubeia. Como limão espremido, não dá mais caldo. E o ditador está de costas pro precipício, à espera de quem lhe diga: «Um passinho atrás, Excelência».

E no Brasil? Nem bem começou, o governo de doutor Bolsonaro já parece vacilante. O presidente tem problemas com os filhos, com o vice. Relações com o Congresso se anunciam agitadas. Ainda é cedo pra chegar a uma conclusão, mas, do jeito que vai, o que se vê é um governo menos forte do que se imaginava. Nesse particular, o dirigente maior de nosso país está emparelhado com os que mencionei: todos anêmicos. Deve ser isso a globalização.

Vale retro, Satanas

José Horta Manzano

O mesmo sapato vai funcionar de modo diferente, conforme o pé que o calce. Alguns indivíduos hão de se sentir à vontade com ele. Outros vão reclamar que aperta o dedinho. Haverá quem o ache estreito, preferindo mais alto no peito do pé. Alguém pode até sentir que o couro roça o calcanhar, o que pode formar bolha. No fundo, cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato ‒ expressão que, em matéria de deboche, vale esta outra: «pimenta nos olhos dos outros não arde». Assim é a vida. Há vários ângulos a partir dos quais a mesma realidade pode ser encarada.

Sede da Vale International
Chemin de la Vergognausaz

No Brasil, a tragédia provocada pela ruptura do dique de contenção de um depósito de rejeitos mineiros chocou, em primeiro lugar, pela dimensão humana. Centenas de compatriotas mortos é número maior que o das vítimas do avião da TAM que se espatifou anos atrás. A opinião pública se alarmou ao saber que existem milhares de reservatórios espalhados pelo país, todos sem garantia de solidez. A sensibilidade da população foi também abalada pelo fato de um acidente semelhante já ter ocorrido nas Minas Gerais três anos atrás. Pior: a gloriosa Companhia Vale do Rio Doce ‒ hoje simplesmente Vale ‒ está implicada em ambos.

A Suíça não tem exploração mineira. Dos montes helvéticos, não se extrai ferro, nem carvão, nem petróleo, nem metal nenhum. Não há reservas minerais conhecidas. No entanto, o país abriga, há quase dez anos, a sede de operações da Vale na Europa, na América do Norte e no Oriente Médio. O luxuoso prédio, de aparência futurista, foi construído sob encomenda, num bairro de altíssimo padrão, a dois passos da beira do lago.

Quando da instalação, a direção da companhia solicitou à municipalidade que mudasse o nome daquele trecho de rua. É que o nome antigo, «Chemin de la Vergognausaz», soava muito próximo a «Caminho da Vergonhosa». Solícitas, as autoridades aquiesceram. Perda de tempo. O futuro viria confirmar que a mudança de nome não passava de emplastro em perna de pau, ou seja, ação cosmética, sem efeito prático. A companhia continuaria a envergonhar o Brasil e o mundo com seu desleixo assassino.

Vale retro, Satanas
Manifestação contra a Vale

Enquanto o Brasil chora seus mortos, um grupo de bem-comportados cidadãos suíços decidiu protestar contra a empresa, brandindo cartazes e usando máscaras. Foi dia 30 de janeiro. Deu até no jornal nacional do país. A grita dos manifestantes não é de ordem humanitária, mas econômica. Alertam para o fato de a Vale poder vir a abater do lucro as multas milionárias que terá de pagar. Se fizer isso, a lucratividade vai baixar e, consequentemente, os impostos cobrados em território suíço. Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato.

A Vale soltou comunicado informando que as atividades no Brasil não afetam a lucratividade da unidade suíça. Bem, se eles dizem, há de ser verdade.

Vale retro, Satanás!
Jogo de palavras anotado num dos cartazes levantados pelos manifestantes.

A 40km/h

José Horta Manzano

Nós, os que temos mais de 30-40 anos, somos os últimos a ter vivido a era pré-informática. Somos, portanto, os últimos a nos deslumbrar com as facilidades do mundo conectado. Aos que virão depois de nós, tudo isso parecerá natural. Crianças e jovens de hoje hão de ter dificuldade em imaginar como era antes do computador e do smartphone.

De tempos em tempos, invenções revolucionárias vêm sacudir o coqueiro e abrir novos caminhos para a humanidade. As décadas em torno na virada do século 19 para o 20 foram férteis em novidades importantes. Nossos bisavós devem ter sentido o mesmo encantamento quando a luz elétrica veio iluminar o serão e eliminar a noite. Nossos avós viram surgir o avião e o rádio, novidades que provocaram uma guinada no caminho do homem.

Outro momento fascinante tinha ocorrido bem antes, em meados do século 19. Foi quando o transporte ferroviário entrou em concorrência com o cavalo. Assustados cidadãos hão de ter-se sentido inebriados com a experiência de viajar à vertiginosa velocidade de 40km/h. Um assombro!

Nós, os dinossauros pré-informáticos, passamos boa parte da vida sem dispor de facilidades que hoje parecem evidentes. Nos tempos de escola, quando o mestre encomendava um trabalho de pesquisa, não havia jeito senão passar horas na biblioteca pública atrás de livros e enciclopédias. Quando a gente tinha uma dúvida, pouco importa o assunto, o único remédio era perguntar a quem sabia.

Falando nisso, eu me lembro que, nos anos 1950, o jornal Folha da Manhã (hoje Folha de São Paulo) punha à disposição do distinto público um serviço fabuloso para esclarecer dúvidas. Chamava-se Folha Informações. Respondia pelo telefone 52-6161. A gente ligava, a mocinha atendia solícita. Fazia-se a pergunta ‒ que podia ser de qualquer natureza ‒ e deixava-se um número para o retorno.

Horas mais tarde (ou dias depois), vinha a resposta por telefone. Tudo grátis! A pergunta podia ser «Qual é a capital da Austrália?» ou «Qual é a fórmula pra converter graus Fahrenheit em Celsius?». Ou ainda «Quem descobriu a vacina contra a varíola?». Em matéria de google, era o que tínhamos. E já era um avanço, uma Enciclopédia Britânica ao alcance de quem não tinha meios de comprar uma.

Eu me pergunto se os jovens de hoje, que têm tudo à distância de dois cliques ‒ desde o preço do sushi no boteco da esquina até a biografia de Gengis Khan ‒ chegam a se dar conta do tesouro de que dispõem. Talvez não. Tanto faz, que a vida é assim mesmo. Por acaso nós nos sentimos deslumbrados quando viajamos a 40km/h?

Os cabelos de Nossa Senhora

José Horta Manzano

Lembro-me de um tempo em que ‒ diziam ‒ especialistas do exterior vinham admirar as proezas da engenharia brasileira. Contam que, à época da Guerra Fria, invejosos e incrédulos engenheiros soviéticos atravessaram meio mundo exclusivamente pra medir o espaço entre as colunas de sustentação do Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista. À época, era o vão livre mais amplo já erguido no planeta, não sei se a estatística ainda vale.

De lá pra cá, parece que um pedregulho penetrou nas engrenagens e travou o suave funcionamento do mecanismo. Viadutos cedem, pontes desabam, barragens estouram. Por quê? Estaria o software de engenheiros nacionais fora de validade? Estaria o solo tropical mais instável que de costume, a ponto de tragar construções sem aviso prévio?

O distinto leitor sabe que não são essas as razões. O fato é que o desleixo, doença crônica nossa, cobriu estas terras tropicais com sua teia de miséria. O desmazelo ‒ e sua irmã gêmea, a impunidade ‒ estão na raiz desses problemas. A ruptura da barragem de Brumadinho é a mais recente dessas catástrofes. A série macabra já vem de longe e todos tememos que não termine aqui.

Acidentes acontecem, é verdade, e são às vezes imprevisíveis. Ninguém pode prever que um meteorito vá um dia riscar o céu e se espatifar dentro duma represa, provocando ruptura do muro de contenção. É difícil antecipar uma chuva de 40 dias e 40 noites sem parar, como nos tempos bíblicos, provocando o transbordo da represa. É tremenda má sorte um tornado se formar bem em cima do reservatório, provocando um remoinho cuja força acabe arrombando a parede de concreto. São ocorrências pra lá de extraordinárias. Suas consequências vão além do que o engenho humano pode prevenir.

Masp – Museu de Arte de São Paulo

O que tem acontecido com nossas obras de engenharia civil, no entanto, está dispensando meteoritos, tornados e dilúvios bíblicos. Construções desmoronam assim, sem mais nem menos, como fruta madura cai da árvore. Em seguida, quando se analisa com cuidado, a constatação é sempre a mesma: faltou manutenção. A entidade responsável, confiante na bondade divina, descuidou-se de vigiar e de fazer os reparos necessários enquanto ainda era tempo. Lembraram-se do adágio «Faz a tua parte, que Eu te ajudarei», mas ficaram só com o ‘Eu te ajudarei’, esquecendo-se do ‘faz a tua parte’.

Semana passada, doutor Bolsonaro fez saber, através de seu ministro de Minas e Energia, que pretende retomar a construção de usinas nucleares. Entre quatro e oito novas enormes silhuetas fumegantes deverão surgir no território.

Usina nuclear serve pra gerar energia elétrica. O Brasil tem duas delas em funcionamento, que respondem por 1,1% da eletricidade do país. Oito novas usinas, na hipótese mais ousada, representarão 4% da energia nacional. Se considerarmos os bilhões de dólares que serão investidos, o resultado é magrinho. Muito dinheiro pra pouco efeito.

Mas o pior não é o dinheiro. Com a cultura do desmazelo que nos invade, plantar usinas nucleares é decisão temerária. Se uma represa que se rompe causa centenas de vítimas, uma central nuclear que explode pode deixar milhões de mortos, sem contar a contaminação de grande parte do território nacional por centenas de anos.

Em países como Alemanha, Suíça e outros ajuizados, já está sendo aplicado o plano de abandono da energia nuclear. Não é coisa que se possa fazer do dia pra noite. Na Europa, os próximos 30 anos verão o desaparecimento paulatino desse tipo de geração de energia, que será substituída por matrizes renováveis.

Projetar usinas nucleares no Brasil em pleno século 21 é andar de marcha a ré. «Quem anda de costas», dizem no Catecismo, «pisa os cabelos de Nossa Senhora». Convém evitar.

Urgência urgentíssima

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 janeiro 2019.

Muitos anos de maus governos maltrataram o país. Apesar de sacolejado por golpes e revoluções, o brasileiro não se lembra de ter assistido antes a tanto descaminho por tão longo tempo. O horizonte trancado durante quase duas décadas gerou sensação de impotência. A bateção de panela de 2013 foi bonita, empolgou, mas não resolveu. A destituição da doutora foi um começo de solução, mas não passou disso: um começo. Serviu pra desanuviar, mas não afastou o espectro do retorno vigoroso da rapina institucionalizada. Como náufragos, os brasileiros procuravam uma tábua à qual se abraçar.

Eis senão quando, na última campanha eleitoral, um candidato obscuro e desconhecido emergiu das profundezas do baixo clero do Congresso. No princípio, ninguém teria apostado um real furado no sucesso do homem. Estava mais pra figura folclórica, um daqueles candidatos que parecem estar lá só pra dar um tchauzinho na televisão e pra receber uns caraminguás do fundo eleitoral. À medida que o tempo foi passando, como quem não quer nada, a candidatura engrossou, ganhou peso e tomou lastro. Sem ser radical, do tipo ‘todos al paredón’ ou ‘à guilhotina os burgueses’, a fala do postulante denunciava o descalabro instalado nas altas esferas. O discurso não vinha tricotado com fios de oratória arrebatadora, mas dizia o que os brasileiros, cansados de guerra, queriam ouvir. Aquele em quem, seis meses antes, nenhum apostador teria botado fé venceu a corrida e ganhou direito ao trono do Planalto. Terminada a corrida e conquistada a taça, é hora de sentar e cogitar sobre o rumo a tomar.

Em princípio, preocupação com filhos termina assim que eles atingem a maioridade, deixam o lar e vão viver a própria vida. No clã dos Bolsonaros, no entanto, filhos já grandinhos continuam grudados ao pai. A mostra explícita de família unida sai bem na foto, mas os rebentos têm dado sérias dores de cabeça ao patriarca. Nas semanas escoadas desde a tomada de posse, francamente, mais atrapalharam que ajudaram. Já antes da entronização, era perceptível que os juniores se comportavam como crianças mimadas, daquelas que, na hora do recreio, desdenham dos coleguinhas: «Meu pai é mais forte que o seu!». Agora, que o chefe virou presidente, a dor de cabeça virou enxaqueca.

Os herdeiros não são a única fonte de problemas de doutor Bolsonaro. Um vozerio descontrolado percorre o mundinho que lhe está em torno ‒ secretários, conselheiros, assessores, ministros. Talvez em virtude daquele natural deslumbre que subjuga todo noviço, as declarações do entourage do presidente andam abrindo remoinhos e levantando ondas que lambem o país inteiro. São falas desencontradas, cada um se sentindo livre de afirmar o que lhe passa pelo bestunto, numa cascata de tagarelice bizarra que vai desde política externa até vestuário infantil.

Unanimidade de opiniões, concedo, é característica de regime totalitário. Como exemplo máximo, temos a bem-comportada torrente de aplausos que coroa todo anúncio de decisões tomadas pelo comitê central do partidão, na China ou em Cuba. Não é sadio, nem é o que gostaríamos de ter em nossa incipiente democracia. Nem por isso, o inverso é aceitável. As estrepolias dos filhos do presidente adicionadas à inabilidade dos que lhe orbitam em torno está gerando algaravia. Botar remédio nesse estado de coisas é caso de urgência urgentíssima.

Um outro ponto que vem gerando atrito é a radicalização religiosa de alguns dos novos componentes do andar de cima. É importante ter presente que Estado laico é invenção relativamente recente. Desde sempre, o Estado foi ligado à religião, o que não é um mal em si. Mais importante do que a crença pessoal de membros do governo é o ambiente de tolerância que deve reinar. Há países civilizados com religião oficial ‒ Inglaterra, Dinamarca, Noruega, Grécia ‒ onde, nem por isso, os habitantes se sentem aprisionados por uma teocracia em que nada existe fora da fé. A tolerância e a benevolência, se bem aplicadas, são precioso anteparo contra excessos.

O que pode e o que não pode

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro fez seu début internacional num palco de prestígio. Entrou pela porta grande. Ser o convidado de honra logo na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, não é pra qualquer capiau. Durante o discurso, o presidente dava a impressão de funcionar como ventilador, com a cabeça abanando pra um lado e pro outro. Isso ocorre em virtude do posicionamento do ponto.

O ponto (no original, presidential teleprompter) é uma placa de plexiglas fixada no topo de uma haste metálica que se assenta num tripé. À medida que o discurso avança, o texto vai desfilando, como num karaokê, mas visível só do lado de quem faz o pronunciamento. O objetivo é dar a impressão de que a oração é feita de improviso.

Em geral, são colocados dois pontos, à esquerda e à direita do orador. Para dar a impressão de estar falando espontaneamente, ora ele lê no ponto da direita, ora no da esquerda. A ilusão é quase perfeita. O encanto só se quebra quando o discursante engasga na leitura de uma palavra. Não deu outra: aconteceu com o doutor. São acidentes de percurso.

No fundo, que o discurso seja lido no papel, decifrado no ponto ou declamado de cor, o que importa mesmo é o conteúdo. Comentaristas brasileiros consideraram que a fala foi muito curta e superficial. Não compartilho essa impressão. A concisão é qualidade rara. É mais difícil resumir o assunto em poucas palavras do que espichar a alocução durante horas. Ficaram na história os discursos do bondoso Fidel Castro, que chegavam a durar seis ou sete horas, pronunciados sob o sol impiedoso de Havana, com chavões repetidos ad nauseam. Faltava, ao líder máximo, o precioso dom da concisão.

É verdade que a fala de doutor Bolsonaro não foi ao fundo de cada tópico. Não esmiuçou os pontos da reforma da Previdência. Não deu previsão de quantos hectares serão poupados do desflorestamento. Não disse quantos corruptos serão processados. Mas, convenhamos, não era hora nem lugar pra descer a minúcias. As linhas mestras foram traçadas, e isso era o que interessava.

Tirando a mímica do ventilador, o discurso inaugural não me chocou. No dia seguinte, no entanto, a gafe que tinha de acontecer aconteceu. Com pré-aviso de quinze minutos, o presidente cancelou coletiva de imprensa agendada havia semanas. Num universo como aquele, almofadado, azeitado e feito de regras fixas, essas piruetas não estão previstas. Os pretextos foram desencontrados. Certas fontes alegaram cansaço do presidente. Outras disseram que a culpada era a imprensa, que não estava se comportando exatamente como doutor Bolsonaro gostaria.

Blá-blá-blá! É ridículo alegar que a culpa é da imprensa. Mídia com cabresto é atributo de regimes autoritários. No Brasil (por enquanto) o regime é liberal. O cansaço, vá lá, é compreensível. Ainda assim, se fosse verdade, os outros componentes da mesa deveriam ter honrado o compromisso. Não é porque o chefe está de repouso que os companheiros devem acompanhá-lo na greve. Por que não vieram participantes importantes, como Moro e Guedes, cujo comparecimento era esperado?

O fato de o presidente ainda estar em fase de aprendizado não explica desfeitas como essa. Se não sabem como se comportar, que contratem um assessor com experiência internacional. Faltar a um compromisso sem motivo justo, em terras civilizadas, é ressentido como afronta. Quem está tentando «vender» um novo Brasil e atrair investidores não pode cometer afronta justamente aos donos do dinheiro. É mais que tolice: é um disparate.