Gordura e formosura

José Horta Manzano

Quando é que a gordura deixou de ser formosura? Quem ainda não chegou aos 50 anos é capaz de não ter entendido bem o sentido de minha pergunta. Hão de estar pensando que este blogueiro endoidou de vez: “Desde quando gordura rima com formosura? Magreza é que rima com beleza, isso sim!”. É que faz décadas que um corpo humano de volume generoso perdeu todo significado positivo e passou a ser visto como fora dos padrões, não desejável, a ser banido.

Os mais antigos, aqueles que já viveram mais de meio século, talvez tenham ouvido na infância, num dia de pouca fome, uma ralhação do tipo “– Menino, precisa comer pra ficar gordo, forte, corado!”. Menino ou menina, tanto faz, o incentivo servia para todas as crianças. Reparem que, na fala da avó, a gordura vinha antes da força porque era a primeira das qualidades que se esperavam de um pequenino. Pequerrucho gordinho dava a prova de estar sendo bem alimentado e sadio.

Alguns autores situam a mudança de paradigma já na virada do século 19 para o século 20. Se chegaram a essa conclusão, será por terem estudado o problema. Embora já entrado em anos, este blogueiro não viveu aquela época. Portanto, não posso dar testemunho do momento exato em que a gordura corporal passou a ser apontada como inestética e, com o passar dos anos, a ser pressentida como causa de doenças e outros perigosos males.

O que sei é que, de pequeno, muitas vezes ouvi crianças sem apetite serem encorajadas a comer mais para ficarem “gordas, fortes e coradas”. Assim era.

A magreza, especialmente feminina, transformada em padrão de beleza a ser alcançado a todo custo chegou ao exagero faz poucas décadas. Chegou-se ao ponto de moças magrinhas serem às vezes reprovadas em agência de manequim – por serem consideradas gordas demais! Um despropósito.

Como resultado, casos de anorexia de origem psíquica proliferaram. Hoje em dia, grandes maisons de haute couture já se deram conta do problema e decidiram afrouxar os parâmetros. E as cinturas. Assim é a vida, um vai e vem cíclico. O que hoje está na crista da onda pode bem amanhã perder todo prestígio. E vice-versa.

Por que é que falei disso? Quem me inspirou foi a imagem que pus logo no topo do artigo. Era uma gravura que antigamente pequenos estabelecimentos comerciais costumavam exibir, emoldurada e pendurada, bem à vista do freguês. Ao explicar (aos que soubessem ler) que o dono não aceitava vender fiado, o quadro estabelecia sutil correlação entre a riqueza e a gordura corporal. Aliás, toda estampa antiga que mostrasse ricos e pobres fazia igual: o rico era sempre gordo de papada e o pobre, esquelético. A razão era simples: um tinha comida à vontade, enquanto o outro vivia apertado e nem sempre tinha alimento suficiente.

Se a coisa mudou hoje, não é que a fome tenha desaparecido do panorama nacional. Infelizmente, o espectro da insegurança alimentar ainda assombra o cotidiano de milhões. O que mudou foi a qualidade da alimentação. Aquela porcariada industrial, apetitosa e barata, mas cheia de tudo o que não se deve comer acaba engordando e deixando a (falsa) impressão de que a vítima está “gorda, forte e corada”. Na realidade, está só gorda. Os antigos estavam enganados: gordura nem sempre é sinal de boa saúde.

Li um estudo que afirma que o valor do “orçamento secreto” distribuído pelo capitão a Suas Excelências sob forma de emendas parlamentares seria suficiente pra bancar os 400 reais da nova Bolsa Família. Sem teto furado.

Vinte anos atrás, FHC disse que “o Brasil não é pobre, mas injusto”. Apesar de 13 anos de lulopetismo mais 3 de bolsonarismo, nada mudou. Acho até que piorou. Ou não?

Bolsa combustível

José Horta Manzano

Por razões que não cabe aqui analisar, o preço dos derivados de petróleo tem aumentado sensivelmente estes últimos meses. O fenômeno é mundial. No final das contas, a população toda sente os efeitos desagradáveis, visto que o preço de todos os bens aumenta.

Os profissionais do volante – taxistas, caminhoneiros, motoboys – estão na linha de frente: sentem o impacto diáriamente no posto de gasolina. São os primeiros a reclamar, e seu grito pode ecoar num país inteiro.

Anos atrás, quando ainda não detinha as rédeas do poder, Bolsonaro, por razões eleitorais ou por propensão inata à rebeldia, pôs-se ao lado dos caminhoneiros e apoiou uma greve que durou dias e paralisou o país.

Agora a grita dos estradeiros se alevanta de novo, só que, desta vez, o capitão está do outro lado do balcão. Tudo o que ele não quer é um país parado, estradas bloqueadas, fome e inflação piorando. Receia ser acusado de mais uma marretada.

Ofereceu 400 reais aos caminhoneiros, que cuspiram em cima da oferta e a qualificaram de “esmola”. O preaviso de greve continua de pé. A não ser que caia do céu uma solução, o movimento será no começo de novembro.

Na França, o governo está enfrentando problema parecido. Não se pode dizer que seja idêntico, porque o povo de lá não vive nas mesmas condições do povo de cá. Assim mesmo, aumento constante no preço do combustível dói no bolso de quem precisa usar o carro diariamente.

Nem todos os franceses vivem em Paris, com metrô na esquina de casa; grande parte da população mora em vilarejos espalhados pelo país, onde ônibus não passa e trem não chega. Para essa gente, o carro é essencial; sem ele, não teriam como se dirigir ao trabalho.

Antes que os coletes amarelos despertem do torpor em que se encontram e decidam retomar passeatas e manifestações, o governo francês acaba de anunciar que, daqui para o fim do ano, um bônus de 100 euros (660 reais) será distribuído aos cidadãos de menor poder aquisitivo.

Quem são? São aqueles cujos rendimentos se situam abaixo de determinado valor, e que são as maiores vítimas da subida de preço dos combustíveis. Mas atenção: não é uma bolsa mensal; trata-se de um valor único, igual para todos, dado uma vez só.

Para chegar a esse montante, tomaram o aumento de preço dos combustíveis este ano e multiplicaram pela média anual de quilômetros percorridos pelos automobilistas franceses.

Estima-se que 38 milhões de pessoas terão direito ao vale combustível. Quase € 4 bi serão assim distribuídos (R$ 26 bi), uma bela quantia. É bom ter em mente que 2022 é ano eleitoral tanto na França quanto no Brasil, o que explica essa generosidade nos dois países.

É permitido acreditar que os motoristas franceses não se contentarão com o “bônus combustível”. É igualmente provável que os caminhoneiros brasileiros não se satisfarão com a “esmola” bolsonárica. Vamos ver o que acontece.

Muito estranho

José Horta Manzano

Andei fazendo as contas e percebi que faz hoje 43 dias que Bolsonaro parou de conclamar seus devotos a “fecharem” o STF e o Congresso. Lembra da época em que ele fazia isso dia sim, outro também? Pois é, nunca mais tratou nenhum ministro do Supremo de bandido, nem de canalha. A última vez foi naquela palhaçada que cometeu no 7 de Setembro. De lá pra cá, enfiou a viola no saco e se calou.

A carta que Michel Temer escreveu (e que ele assinou) não chega a ser um pedido de desculpa. Mas é evidente ato de contrição, uma promessa de se emendar. Na época, todos imaginaram que ela valia tanto quanto valem as promessas do capitão. Acreditou-se que ele estava agindo como o garoto malvado que, uma vez repreendido, promete se emendar, mas no dia seguinte torna a fazer malvadeza.

Quem conhece o capitão – e todos os brasileiros já o conhecem – sabe que ele não é homem de cumprir promessa. Se recua num dia, é para reincidir no dia seguinte. Não costuma aguentar mais que 24 horas sem cometer os mesmos desatinos.

Mas, ainda que soe esquisito, parece que ele se emendou de vez. Considerando que quarenta e tantos dias sem atiçar a milícia contra as instituições é muito tempo, a pergunta inevitável é: “Que tipo de ‘repreensão’ terá sido essa, que, de tão eficaz, fez calar o capitão?”

Logo depois do fatídico 7 de Setembro, a imprensa se referiu à carta de contrição e esclareceu que o presidente tinha tido “uma conversa telefônica com o ministro Alexandre de Moraes, do STF”. O teor do diálogo, que era o que realmente importava, não foi divulgado.

Dias depois, o deputado Paulo Pimenta (PT) soltou um tuíte intrigante, que, não sei por que razão, não teve direito a ampla divulgação. Eis o que revelou o parlamentar:

“Bolsonaro foi avisado por Temer q Carluxo seria preso depois do 7 de setembro. O Machão aos prantos ligou para Alexandre de Moraes, implorando, pedindo perdão, e prometendo ‘nunca mais’ ofender o STF ou seus Ministros. Quem assistiu relata a patética e vergonhosa cena. Quem acompanhou o desenrolar das tratativas afirma que foi pior do que meu relato. O desespero de Bolsonaro pedindo que Temer viesse às pressas para Brasília foi ‘comovente’ e ainda será lembrado por muito tempo nos escaninhos do Palácio Alvorada. Carluxo nunca mais foi visto.”

Este blogueiro, que não costuma frequentar palácios, não assistiu à cena. Portanto, não posso jurar que a narração corresponde à verdade verdadeira. Mas o comportamento do capitão tende a confirmar o relato do deputado.

Todos sabem que o maior medo do presidente é que ele ou algum dos filhos seja preso. Portanto, é permitido acreditar que só o risco real de prisão iminente do filho destrambelhado seria capaz de fazê-lo recuar.

Na falta de outra, é a melhor explicação para a radical mudança de rota de Bolsonaro. Uma vez amansado, vê-se que o tigre era de papel. Ainda outro dia, num ataque de sincericídio perpetrado diante de devotos, andou confessando que costuma chorar no banheiro, e que não é o “machão” que gostaria de parecer.

Agora sabemos que o homem se verga fácil. Quando apavorado, mia fino e pula no colo igualzinho ao gatinho lá de casa.

Telegrã

José Horta Manzano


Sinopse
Este artigo é um pouco mais longo que o habitual. Para o caso de o distinto leitor estar sem tempo, digo logo do que se trata. Falo da rede social Telegram e de sua (quase) ausência de controle. Contabilizo o potencial de delinquência contido em certos grupos que lá se aninham: nazistas, pedófilos, traficantes de droga & alia. Dou minha opinião sobre o perigo que isso representa – ou não.


Faz alguns dias, li n’O Globo um artigo inquietante, que ensinava como funciona a rede social Telegram. Ao ler aquilo, qualquer vivente dotado de bom senso fica de cabelo em pé. Quem, como este blogueiro, não tem nenhuma intimidade com as redes ditas “sociais” (que alguns consideram “associais”) se sente realmente desconcertado. Quem diria que eu ainda havia de viver pra ver isso.

O distinto leitor talvez ache estranho que eu não tenha disposição pra me inscrever num desses clubes. É que sempre fui avesso a tudo o que se assemelhasse a agrupamento, rede, associação, círculo, assembleia, sociedade, federação, partido, seita, corporação, religião – enfim a tudo o que juntasse gente compelida a pensar como os correligionários e a agir como eles. Prefiro continuar observando de longe.

Sociais ou não, essas redes ainda não conseguiram despertar meu interesse. Um dia, quem sabe. Por enquanto, o momento não chegou. Para mim, feicebúqui, instagrã, tique-toque ou telegrã são filhotes da mesma ninhada. E se parecem todos.

Foi o que sempre achei. Só que não. A leitura do mencionado artigo me ensinou que o Telegram é um caso à parte, um estranho nessa ninhada de iguais, um clube destinado àqueles que estão mais pra bandido que pra gente fina. Que me perdoe o leitor que se inscreveu nesse clube! Não tenho intenção de ofender ninguém. Mas, salvo erro ou omissão, o tal de Telegram é orientado para um público marginal – não necessariamente no sentido de meliante, mas daqueles que vivem à margem da sociedade.

A rede Telegram foi fundada por dois dois irmãos russos em 2013, faz menos de 10 anos. Como as coisas evoluem rápido neste século! Não funciona em Moscou, em endereço com rua e número conhecidos. Atualmente está abrigada “na nuvem”. Nos últimos anos, mudou frequentemente de jurisdição, o que não costuma ser bom sinal. Neste momento, tem endereço físico em Dubai. Não posso garantir, mas acredito que, naquela cidade artificial do desértico Oriente Médio, o máximo que se vai encontrar é uma caixa de cartas.

A particularidade do Telegram é a (quase) total ausência de controle do que dizem ou escrevem os usuários. O espaço está aberto a todas as liberdades. Só que tem um problema: apesar da liberdade de postagem praticamente total, há linhas de conduta que o bom senso não admite que sejam transpostas. Cabe a cada usuário fixar os próprios limites. O resultado é que, na quase ausência de moderação, os maus modos de alguns podem causar dano à maioria.

Além de abrigar gente fina e bem-intencionada, Telegram acolhe também gente ligada a submundos que nossa civilização condena. Há grupos de pedofilia, de incesto, de venda de drogas online, de tráfico de receitas médicas para remédios tarja preta; há círculos de entusiastas do nazismo e do fascismo (será que sabem o que é isso?); há panelinhas que exigem armas para todos e que pregam resistência à vacina contra a covid. Nesses grupos, encontra-se tudo o que não for recomendável. Todos postam e propagandeiam abertamente, sem restrições.

Quando se vê todo esse submundo se agitando, com a porta aberta para quem quiser participar, corre um frio na espinha. Só que…

Só que, deixando o frio da espinha pra lá, resolvi analisar um pouco mais profundamente. Em fulgurante ascensão, o Telegram já está instalado em 53% dos smartphones do país. Não conheço o número exato de smartphones instalados no Brasil. Um artigo da revista Época garante que, em 2019, havia 230 milhões em uso. Em termos práticos, tirando um ou outro indivíduo fora dos padrões, pode-se considerar que toda a população carrega no bolso (ou na bolsa) um desses aparelhos inteligentes.

Agora vamos ver quantos são os participantes desse “deep web” fomentado pelo Telegram, essa rede semiclandestina, de odor desagradável.

No quesito de sexualidade esquisita, que incluiu estupro de adolescentes, incesto, pedopornografia e outras extravagâncias que nossa civilização condena, há um total de 38.000 inscritos.

No tópico doutrinas fora de esquadro, que inclui antissemitismo, supremacia espiritual, nazismo, fascismo, veneração a Adolf Hitler e outros discursos de ódio de mesmo jaez, há um total de 26.000 inscritos.

O capítulo do porte (e uso) de armas, que compreende imagens de tortura e execuções mas também grupos que se interessam pelo comércio de armas de todo tipo com as respectivas munições, há um total de 45.000 inscritos.

No grupo dos bobões antivacina há pouca gente. Digo bobões porque todos eles já foram vacinados zilhões de vezes contra doenças variadas: tuberculose, varíola, hepatite, doenças infantis & outros bichos. Se tivessem condições de dar um pulinho no Quênia, para um foto-safári, espichariam o braço sem hesitar pra receber a vacina contra a febre amarela. No entanto, talvez por inspiração de um certo capitão boçal, dizem não à vacina anticovid. São poucos, evidentemente. Só 38.000, que ninguém é besta.

O grupo mais numeroso – como seria de adivinhar – é o dos adeptos do comércio clandestino. A imensa maioria corre atrás de filmes ainda não disponíveis em canais oficiais; procuram fazer como esses que instalam um “gato” pra furtar imagens da residência vizinha. Nesse universo, ainda há os traficantes de entorpecentes (e seus compradores), os que tentam obter dados pessoais de outras pessoas, os que se interessam por remédios tarja preta e, pasme!, os que compram e vendem cédulas falsas. Para mim, este é o grupo dos picaretas. Numerosos, seus adeptos chegam a 150 mil indivíduos – um total equivalente ao de todos os outros grupos reunidos.

Bom, agora vamos aos finalmentes. Somando os inscritos nas categorias que o Telegram permite (e que outras redes dificilmente tolerariam), não chegamos a 300 mil pessoas. Atenção: dado que um mesmo assinante pode aparecer em mais de uma categoria, o total periga ser menor.

Vamos agora calcular quanto representam esses 300 mil aprendizes infratores no universo dos 230 milhões de smartphones. Representam por volta de 0,1% (zero vírgula um porcento) dos brasileiros.

Um infrator é sempre um infrator, assim como um bandido é um bandido e um assassino é um assassino. Mas vamos “botar a bola no chão”, como diz o outro. Esses 0,1% de conterrâneos não estavam à espera da chegada de Telegram para se tornarem, da noite para o dia, pedófilos, falsários, traficantes ou adoradores de Hitler. Como faziam antes? Não sei, mas deviam ter seus canais. Usavam códigos. Botavam anúncio cifrado nos Classificados do Estadão, como se fazia antigamente. Se viravam.

A conclusão à que quero chegar é que Telegram não inventou a delinquência, assim como as redes sociais não inventaram o ódio, nem Bolsonaro inventou a corrupção. Todas essas pragas pré-existiam. O que mudou foi só o canal de expressão. Se Telegram desaparecer amanhã, no dia seguinte nova rede vai substituir. E assim caminha a humanidade.

Observação
Até que não é má ideia deixar que esses indivíduos que atuam à margem da lei se exprimam com liberdade. As autoridades que cuidam de reprimir certos excessos poderão, na pior das hipóteses, saber quantos são. E, na melhor das hipóteses, colher os delinquentes com a boca na botija.

Fonte: Artigo d’O Globo.

O nome das estradas

A velha “Rota Azul”, de Paris à Costa Azul.

José Horta Manzano

Na Europa, as estradas de rodagem são conhecidas por um número ou por uma sigla. A6, BAB 84, A1, E4 – são alguns exemplos. As mais importantes, por serem mais longas ou por ligarem centros importantes, recebem às vezes um “apelido”, que coabita com a sigla oficial.

Assim, a A6 francesa tem o apelido de Autoroute du Soleil (Autoestrada do Sol), por correr dos grandes centros em direção às praias do Mediterrâneo. Na Alemanha, há a Schwarzwaldautobahn (Autoestrada da Floresta Negra), que serpenteia por colinas cobertas por densos bosques, no sudoeste do país. A Espanha, além da sigla, dá apelido a todas as vias expressas: Autovía del Mediterráneo, Autopista del Sur, Autovía del Duero, etc. Na Itália, diversas rodovias têm nomes atraentes: Autostrada dei Laghi (dos lagos), dei Fiori (das flores), dei Vini (dos vinhos), e por aí vai.

Nunca vi, no entanto, estrada com nome de gente. Dos países que conheço, o Brasil é o único onde rodovias tem prenome, sobrenome e, se for o caso, título ou profissão do homenageado, o que às vezes dá nomes quilométricos. O pior é que, além de levar nome de gente, rodovias mudam de nome! Perdem o nome antigo para ganhar um novo, ao sabor da conveniência do momento. E olhe que esse troca-troca não tem a ver com o politicamente correto, que manda desaparafusar certas estátuas pra pôr outras no lugar. As mudanças são resultado da simpatia pessoal de algum parlamentar combinada com a apatia dos demais.

No Brasil dos tempos de antigamente, quando se viajava de trem, havia poucas estradas de rodagem. Estradas de ferro, que eu me lembre, não levavam nome de gente. Eram chamadas com o nome da companhia a que pertenciam ou indicavam a região ou as cidades servidas: Mogiana, Central do Brasil, Vitória a Minas, Sorocabana, Noroeste do Brasil, Santos-Jundiaí.

A partir dos anos 1950, quando lobistas automotivos e petroleiros atacaram firme, não se investiu mais em ferrovias. Como resultado, o número de rodovias cresceu. Esse crescimento foi acompanhado pelo estranho costume de dar nome e sobrenome a estradas. Algumas ganharam nome de personalidades conhecidas; outras, menos sortudas, não homenageiam figuras nacionais, mas indivíduos perfeitamente desconhecidos do grande público.

Uma ou outra estrada escapou. Uma delas era a Belém-Brasília, marco de uma era em que derrubar árvores e dizimar florestas era símbolo de civilização. Além da sigla oficial, conservou seu apelido por mais de meio século. Já no início, tentaram empurrar-lhe o nome de um dos engenheiros que participaram da criação do traçado, mas a iniciativa nunca pegou. Foi sempre conhecida como BR-153 ou Belém-Brasília ou ainda Rodovia Transbrasiliana – belo nome, por sinal.

Esta autoestrada espanhola de 500km de extensão ganhou o poético nome de ‘Rota da Prata’.

Isso foi até que, em 2011, num rasgo visionário, o então senador Aloysio Nunes Ferreira teve a curiosa ideia de dar nome de gente à mais longa estrada do Brasil. “Como é possível que uma estrada não faça homenagem a alguém?” – deve ter pensado o nobre parlamentar. Escolheu dar-lhe o nome de João Goulart, elaborou o projeto de lei e mandou brasa. Eu me pergunto se um senador da República, regiamente sustentado com nosso dinheiro, não tem nada mais importante que fazer além de trocar nome de estrada.

Collor de Mello e Dilma Rousseff foram destituídos. Goulart também, só que manu militari – pela força das armas. Tirando os fanáticos, todos concordarão que nenhum dos três figura entre os grandes presidentes que este país já teve. É possível que o fato de o senador Nunes ter sido militante comunista perseguido pelo regime militar tenha influído na proposta de aposentar a Transbrasiliana e transformá-la em João Goulart.

Depois de longos dez anos de tramitação, o projeto foi aprovado outro dia pelo senado. Transformado em lei, o documento foi levado ao capitão, que vetou integralmente. Sejamos claros: aprecio muito mais o senador Nunes do que o capitão Bolsonaro. Mas não sou devoto de nenhum deles. Não engulo tudo o que diz o primeiro, nem rejeito sistematicamente o que vocifera o segundo.

Fico aliviado com a decisão do capitão. Ele vetou a mudança por razões ideológicas. Eu também teria vetado, ainda que não pelas mesmas razões. Se desaprovo a mudança, é porque me desagrada profundamente ver estrada “batizada” com nome de gente. É batismo que pode cair bem em país atrasado. Num Brasil que tenta, há décadas, se safar de crônicos padrões africanos, parece-me fora de esquadro.

Apostasia

José Horta Manzano

É de conhecimento público que o capitão que nos governa não costuma se comover com os sentimentos alheios. Dependesse dele, nunca se meteria num culto religioso, fosse de que natureza fosse. Nem igreja, nem templo, nem mesquita, nem sinagoga, nem terreiro. Seu modo de funcionar é conhecido: “Quem quiser, que vá. Eu já disse que não sou coveiro. Estou acima dessa ralé. Não vou me vacinar, e pronto!”.

O homem dificilmente confessará, de viva voz, que não está nem aí para o sentimento dos outros. Mas os seus feitos e gestos são explícitos e o condenam.

Em 12 de outubro, dia da Padroeira do Brasil, ele esteve em Aparecida. Por vontade própria, certamente não teria ido – não comparece nem a enterro de amigo, imagine só. Há de ter sido aconselhado.

Quando se mete nesses lugares, no entanto, sua falta de naturalidade salta aos olhos. Vê-se que o presidente está ali forçado, de cara amarrada, com medo de vaia (que, aliás, recebeu), receoso das palavras que o bispo vai dirigir aos fiéis. É a figura do peixe fora d’água, a imagem de quem está ali apenas pra cumprir tabela.

Diferentemente do camaleônico Lula, Bolsonaro é péssimo ator. Seus passos forçados produzem o efeito contrário ao que ele desejaria. A falta de naturalidade de quem não está habituado a frequentar esses lugares depõe contra ele. A visita a Aparecida chocou os evangélicos, assim como o batismo no Jordão chocou os católicos. Afinal, que pito toca esse homem? A tartufice do personagem fica evidente.

Para espanto de muita gente, o capitão ousou comungar. Terá sido (mal) aconselhado. Abalou cristãos e ateus. Quem se lembra das aulas de catecismo sabe que era impossível ele estar em condições de comungar. Vamos ver por quê.

Pra começar, que é a comunhão? No catolicismo, é o sinal público dado pelos irmãos de fé, aqueles que aceitam as imposições da religião. Ovelha desgarrada não tem direito a receber a comunhão, a não ser que se arrependa do desgarramento, confesse o pecado, renegue o descaminho e volte ao rebanho com a firme intenção de não voltar a se perder.

Todos sabem que o capitão, anos atrás, se fez batizar no âmbito de outra fé, num rito neopentecostal, com direito a mergulho nas águas do Rio Jordão, tudo testemunhado por fotografia. Não foi desvario de uma noite de verão. Faz pouco tempo, ele reafirmou seu pertencimento ao neopentecostalismo ao fazer-se abençoar, contrito e de joelhos, diante de um autossagrado bispo, dono de poder e muito dinheiro.

Para voltar à comunidade católica, ele teria de repudiar o (re)batismo do Jordão e renegar a fé que ostenta publicamente. Não o tendo feito, católico já não é. Não sendo católico, não tem direito a receber os sacramentos – entre eles, a comunhão. A excomunhão é o castigo reservado às ovelhas que se desgarram por decisão própria. Bolsonaro está excomungado. O que se viu em Aparecida, portanto, não passa de impostura. Esse indivíduo não pertence ao rebanho. Nos tempos de antigamente, não teria direito nem a uma sepultura na ala principal do cemitério; seria enterrado num puxadinho reservado aos suicidados e aos incréus.

A hipótese de ter se reconvertido às escondidas também não se sustenta. Ainda que o tivesse feito, teria de passar pela casa confessionário, que não há como escapar. Se tivesse contado ao sacerdote os horrores que vem cometendo desde que assumiu a Presidência, só teria recebido a absolvição depois de pagar a tarifa imposta pelo prelado.

Para gente normal, dois pai-nossos e três ave-marias resolvem o problema e põem o fiel de novo em estado de graça. Já com Bolsonaro, o caso é mais sério. Se ele contasse tudo o que tem feito, a penitência seria longa, mais longa que um dia sem comida. O capitão estaria até hoje dando volta a pé em torno dos palácios em que mora, terço na mão, a contar os passos e a recitar os milhares de pai-nossos que lhe teriam sido impostos como pedágio.

Tirando o dia em que foi filmado correndo atrás de uma ema com uma caixa de cloroquina na mão, ninguém jamais o viu dar voltas em torno do palácio. Tampouco consta que tenha enrolado um terço na mão direita a fim de contabilizar os pai-nossos. Portanto, não se confessou. Se se confessou, não contou todos os pecados. Se contou todos os pecados, não cumpriu a penitência. Em qualquer hipótese, não tinha o direito de comungar.

É caso de apostasia. Na Idade Média, seria mandado para a fogueira. Neste século 21, mais maneiro, vai espernear até o fim do mandato. No exato momento em que passar a faixa, perderá a imunidade e descerá a rampa para entrar direto no camburão que estará esperando por ele. Com destino à Papuda e sem o perdão da Padroeira. A danação terrestre e a celeste chegarão juntas.

Observação
Algo me diz que a visita do presidente a Aparecida mais botou pra correr que arrebanhou fiéis. O capitão perdeu mais do que ganhou. Melhor seria que não tivesse comparecido. Uma visita de cortesia ainda vá; mas… comungar? Não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo.

Romaria

A basílica de Santiago de Compostela

José Horta Manzano

Na tradição cristã, São Tiago Maior foi um dos doze apóstolos de Jesus, um dos mais chegados ao Mestre. Nasceu nas terras áridas da Palestina, região onde viria a ser martirizado com pouco mais de quarenta anos de idade. Conta a lenda que teria vivido alguns anos espalhando a nova fé na Hispania – a atual Espanha, então província romana. Morto o apóstolo, seguidores dedicados teriam carregado seus despojos para enterrá-los na região onde ele havia passado grande parte da vida e onde posteriormente se formou uma cidade que leva seu nome: Santiago de Compostela (Galiza, Espanha).

No centro da cidade, ergue-se monumental catedral onde estão custodiadas relíquias do santo. Faz mais de um milênio que a devoção por São Tiago é forte entre os cristãos europeus. Já na época de Carlos Magno, no século 9°, havia gente que se abalava de muito longe numa peregrinação que podia levar meses, para chegar à Galiza e recolher-se junto às relíquias do santo. Dirigentes europeus incentivavam essa devoção, principalmente numa época em que a expansão islâmica ameaçava o continente. Um povo coeso e aglutinado em torno da fé é poderosa arma para enfrentar invasões – já conjecturavam os antigos.

A tradição da visita ritual a Santiago de Compostela nunca esmoreceu. Até hoje, no século materialista em que vivemos, muitos e muitos romeiros(*) fazem a peregrinação. Há quem faça uma vez na vida, há quem aprecie refazer o percurso várias vezes. As estatísticas indicam a chegada de mais de 300 mil peregrinos todos os anos, metade deles vindos do estrangeiro. São espanhóis, portugueses, franceses, alemães, suíços, belgas. Pode-se cruzar até com algum inglês ou irlandês ou até com um polonês ou lituano.

Nem todos fazem o percurso inteirinho a pé, como manda a tradição medieval. Esse exercício de milhares de quilômetros na força das pernas não é pra qualquer um. Muitos, seja por falta de tempo, seja por impossibilidade física, percorrem a maior parte do caminho de carro. Em seguida, deixam o veículo e terminam o percurso com uma caminhada de 5km ou 10km, dependendo da disposição, do tempo e dos calos de cada um. Há também quem faça o percurso inteiro de bicicleta. Os romeiros são, na maioria, jovens – gente que está pelos vinte e poucos ou trinta e poucos anos.

Caminhos, há muitos, todos balizados. Há rotas que partem de longe – Alemanha, Áustria, Suíça, Inglaterra – mas todas atravessam necessariamente a França e, naturalmente, boa parte da Espanha. As estradinhas são caminhos vicinais, estreitos, por onde se consegue circular a pé ou de bicicleta. Pode-se ver, aqui e ali, algum veículo agrícola em seu trabalho habitual. Nada de automóveis, muito menos caminhões. As rotas são sinalizadas por placas que portam o símbolo dos Caminhos de Santiago.

Ao longo do percurso, há albergues simples, especializados no atendimento de peregrinos. Dotados de beliches, oferecem pousada em amplos dormitórios concebidos para várias pessoas. A refeição da noite é servida em mesas comunitárias. Tudo isso é proposto a preços módicos. As romarias se espalham pelo ano todo, com especial concentração de abril a outubro, os meses em que a temperatura não é tão baixa.

Para os que têm a intenção de caminhar somente os 5km ou 10km finais, há grandes áreas em que o automóvel pode ser estacionado durante vários dias gratuitamente. É a maneira que as autoridades encontraram para desafogar o tráfego na cidade de Santiago, que, não fosse isso, seria infernal.

Com espanto e tristeza, leio a notícia do atropelamento mortal de quase meia dúzia de romeiros que se dirigiam a Aparecida na semana que precedeu o 12 de outubro. Tirando os jornais regionais, o assunto mereceu duas linhas na imprensa. Tenho dificuldade em entender o descaso. Eram gente! Estavam viajando do jeito que podiam, uns a pé, outros de bicicleta, uns pra pagar promessa, outros por pura devoção. Nenhum deles estava ali pra exigir fechamento do Congresso nem do STF. Eram brasileiros – pobres, como a grande maioria.

Por que foram atropelados? Porque circulavam por uma via expressa, em dia de chuva e pouca visibilidade. E por que faziam essa loucura? Porque não tinham outra opção. Ou iam por ali, ou desistiam de pagar a promessa.

Desde que uma imagem de N. Sra. da Conceição, enegrecida por longo período de imersão, foi pescada no Rio Paraíba do Sul, 300 anos atrás, a devoção popular foi crescendo, ao ponto de a Igreja fazer dela a Padroeira do país. Formado nas cercanias, o arraial cresceu e hoje se chama Aparecida. Abriga atualmente a maior basílica do Brasil, uma das mais amplas do mundo, que há de ter custado verdadeira fortuna.

Só que os peregrinos que preferem (ou que são obrigados a) se locomover à antiga foram esquecidos. Talvez eu esteja desatualizado, mas nunca ouvi falar dos Caminhos de Aparecida, assim como todo católico europeu conhece os Caminhos de Santiago. Pela complexidade – concepção, obtenção de autorizações, revestimento de caminhos – somente o poder público é capaz de encampar essa obra. Devia haver não um, mas vários caminhos que levassem romeiros a Aparecida. Tinham de partir do Rio, de São Paulo, do sul de Minas, de Campinas.

Somos um país de poucas tradições. A Igreja e os governos estaduais da região deveriam se unir para fomentar e dar corpo a esse costume popular. Se essas peregrinações não se tornam mais concorridas é justamente porque não é qualquer um que está disposto a arriscar a vida de bicicleta na Via Dutra.

Viajar de ônibus e fazer o caminho a pé não são a mesma coisa. Uma via pedregosa leva mais rápido ao céu.

(*) Romeiro, em princípio, é palavra que designa o peregrino que vai a Roma. Mas é costume estender seu sentido para todos os que vêm de longe para uma visita ritual a um lugar santificado.

Eletricidade

Independência energética – 1
Faz uma semana, foi inaugurado o mais longo cabo submarino de transmissão de eletricidade. Com seus 720km de comprimento, liga a Grã-Bretanha à Noruega, e custou uma fortuna. Segundo o anúncio oficial, “os dois reinos podem, a partir de agora, compartilhar suas energias renováveis”.

Num momento em que o preço mundial do gás está nas alturas, a novidade é bem-vinda. A troca de eletricidade funciona de modo singular. Quando venta forte na Inglaterra (país onde o que não falta é vento), as turbinas eólicas giram a todo vapor. Nessas horas, a produção de eletricidade é superior ao consumo. Como ensinou doutora Dilma, não é possível estocar vento. Nessas horas de superprodução, o cabo serve para exportar eletricidade para a Noruega a preços de liquidação. Na Noruega não venta tanto.

Enquanto consome a eletricidade inglesa, a Noruega deixa que a chuva e o derretimento da neve encham suas barragens. Assim que estão cheias e de novo prontas para produzir energia, é hora de fazer o caminho inverso. O excesso vai, pelo mesmo cabo, para a Grã-Bretanha, levando força e luz a precinho camarada. Na Grã-Bretanha, a topografia não permite a construção de barragens importantes.

O sistema é um achado. É daquele tipo de ideia que a gente se pergunta por que não pensaram antes.

 

 

Independência energética – 2
Na semana que passou, foi inaugurado o maior parque solar do estado de São Paulo. Construído por uma empresa de origem portuguesa, é o quinto entre os maiores parques brasileiros. Situado às margens do Rio Tietê, no oeste do estado, necessitou investimento de 750 milhões de reais e gera energia suficiente para suprir as necessidades de 750 mil pessoas.

Fazendo as contas, dá 1000 reais por habitante. É uma quantia que, no final, não me parece elevada, tendo em vista os benefícios. Se, por hipótese, se decidisse produzir energia solar suficiente para os 200 milhões de brasileiros, seria necessário investir 200 bilhões de reais – o que não me parece exagerado. (Com os bilhões constantemente surrupiados do Tesouro Nacional, daria pra cobrir o território nacional de parques solares. Rapidinho.)

É claro que meu devaneio é teórico, pois há que pensar ainda na transmissão da energia gerada. Há que lembrar ainda que, na hora de consumir energia, certas indústrias são bem mais gulosas. Por seu lado, não se pode esquecer que já existe uma rede instalada de produção de eletricidade.

Tendo em mente que gás e petróleo são fontes de energia fadadas a sumir do cardápio dentro em breve, está mais que na hora de decidir o caminho a seguir quando a energia fóssil estiver aposentada.

Em teoria, o Brasil é um país que não precisava usar nem uma gota de petróleo nem de gás. Para extrair energia solar, temos sol o ano inteiro – o que nem sempre ocorre em outros lugares.

Quanto à água, se sobrar alguma depois que Bolsonaro passar, poderemos continuar explorando a energia hidroelétrica.

Embora não possa ser estocado (Doutora Dilma dixit), temos muito vento. Não dá pra guardar vento no bolso, mas dá pra conservar energia em baterias, por exemplo.

Nosso país tem tudo o que precisa pra abandonar toda fonte de energia fóssil. Tenho certeza de que o caminho é esse. Por enquanto, está um pouco complicado, mas assim que o capitão desaparecer e deixar de atrapalhar, vamos dar passos largos na boa direção.

Apagando o passado

José Horta Manzano

Até 6 de outubro, havia na cidade de São Paulo uma avenida quilométrica, cujo nome era compartilhado por dois ilustres membros da família Andrade. O primeiro trecho da via homenageava o escritor Mário de Andrade, enquanto o segundo lembrava o homem político Auro S. de Moura Andrade.

Mário, o Andrade escritor, não teve vida longa: foram somente 51 anos, de 1893 a 1945. Já Auro, o Andrade político, ficou uns anos a mais neste vale de lágrimas: viveu 66 anos, de 1915 a 1982. Mário tinha idade pra ser pai de Auro, pois nasceu 22 anos antes, o que significa que não conheceram o mesmo Brasil. É complicado comparar a vivência de cada um deles.

A cidade de São Paulo conta com mais de 50 mil logradouros, contando ruas, praças, avenidas, becos, ruelas & assemelhados. Todos os meses, são feitos novos arruamentos, e novos nomes têm de ser encontrados. Cabe aos senhores vereadores essa árdua incumbência. Só que eles nem sempre se restringem a nomear as vias que acabam de ser abertas. Seguindo o Zeitgeist (=espírito do tempo), preocupam-se também em corrigir tudo o que lhes aparece como “injustiça” ou como “erro histórico”. Apagam, assim, trechos inteiros de um passado que a maioria deles, aliás só conhece de ouvir falar. Fico pensando se conhecem mesmo…

Dia 7 de outubro, entrou em vigor uma lei que corrige um desses “erros”. O trecho da rua comprida que levava o nome de Auro (o político) perde o direito à antiga denominação. Passa a levar o nome de Mário (o escritor). Como resultado, Auro some do mapa e Mário fica com todos os quilômetros para ele. Isso implicará em repensar a numeração de cada imóvel (há muitíssimos prédios altos), um problema que vai aporrinhar os moradores. Mas a vereança não se comove com essas minúcias – afinal, estão ali para dar nome às ruas, não para resolver problemas dos eleitores, que diabo! De todo modo, não são eles que vão sentir o drama.

O motivo dessa mudança? Os edis ouviram dizer que doutor Auro de Moura Andrade teria “apoiado” o regime militar, enquanto doutor Mário de Andrade, não. É claro que Mário de Andrade não podia ter apoiado o regime. Há um anacronismo: ele já tinha falecido 19 anos antes do chacoalhão de 1964. Ninguém tem o direito de afirmar se o escritor teria “apoiado” ou não o movimento. Os vereadores parecem tomar como favas contadas que ele o teria reprovado. Não tenho tanta certeza.

Para quem não viveu aqueles dias, é bom dizer: o golpe de 1964 derrubou o presidente, mas não instaurou ditadura. Muita gente fina ficou do lado dos insurgentes – inclusive jornais sérios, como o Estadão. A verdadeira ditadura foi-se instalando aos poucos, com a supressão de eleições já marcadas, até que o golpe de misericórdia foi desferido com o AI-5, ao final de 1968. Nessas alturas, muitos dos que haviam apoiado o movimento já se haviam dessolidarizado. De qualquer maneira, não havia nada a fazer.

O senador Andrade não foi mais apoiador do regime militar do que grande parte dos políticos de sua época. Gente bem mais entusiasta que ele ainda continua tendo seu nome estampado em placa de rua de São Paulo. O exemplo maior é Paulo Maluf, atualmente em prisão domiciliar por ter usado suas offshores para esconder as centenas de milhões de dólares dos contribuintes que ele havia roubado.

Maluf, que foi notório lambe-botas dos militares, ainda conta com homenagem familiar. Seu pai, Salim Farah Maluf, ainda dá nome a três logradouros: uma rua, uma praça e uma avenida. E tem mais. Um complexo viário leva o nome de Maria Maluf, mãe de Paulo Maluf. A denominação do complexo foi oficializada por decreto de 1995, emitido na época em que – veja a coincidência! – o filho era prefeito da cidade.

Uma curiosidade picante: o Complexo Viário Maria Maluf termina no Viaduto Aliomar Baleeiro, figurão que se beneficiou como poucos do regime ditatorial. De fato, o baiano Baleeiro foi nomeado para o STF pelo presidente Castello Branco. Entrou numa vaga aberta pelo AI-2, quando meia dúzia de ministros em exercício foram demitidos e tiveram de ceder o lugar para outros mais dóceis. Não há previsão de que o viaduto que homenageia Baleeiro vá mudar de nome.

Pandora Papers

José Horta Manzano

Este blogueiro nunca foi dono nem associado de nenhuma empresa fantasma, dessas situadas em paraísos fiscais, que levam o simpático e sugestivo nome de “companhias offshore”. O motivo não é político, nem legal, nem moral; é simplesmente de ordem financeira: nunca possuí quantidade de dinheiro suficiente para justificar essa manobra.

O que acabo de dizer não tem nada de original. Sem precisar consultar nenhum levantamento estatístico, eu diria que 99,9999999% da humanidade está no mesmo caso. Se não abrem esse tipo de empresa, é porque não têm dinheiro pra fazê-lo. Simples, não?

Por seu lado, um bocado de gente tem as burras(*) abarrotadas e está em condições de abrir uma offshorezinha, nem que seja uma pequenina pra começar. Desde que a origem dos haveres seja lícita e os preceitos legais tenham sido cumpridos – impostos em dia, declaração à receita federal em ordem e transferência ao exterior dentro dos conformes – não vejo onde está o problema.

Na China, que alguns ainda acreditam ser um “perigoso país comunista”, é permitido guardar dinheiro em moeda estrangeira; os cidadãos são também autorizados a manter conta no exterior. Se o perigoso comunista chinês pode, por que não poderíamos nós?

Nestes dias em que se tornou público o “escândalo” dos ditos Pandora Papers, o assunto está em todas as bocas. No regime capitalista em que vivemos, a posse de bens, em si, não é condenável. A corrupção e a fraude fiscal, sim. Nenhum cidadão será perseguido por ser mais abastado que outro, desde que não haja infringido a legislação.

Ao esmiuçar a lista de figurões que possuem uma companhia offshore, o jornal argentino Página 12 encontrou uma concentração de titulares originários das Américas. Só da América Latina, aparecem três presidentes em exercício, 11 ex-presidentes, ministros e altos funcionários entre os felizes proprietários dessas empresas de fachada.

A meu ver, são bem mais numerosos. Acredito que todos os ex-presidentes e seus ministros poderiam ser incluídos na lista. Assim como (praticamente todos os) parlamentares atuais e passados. Só que aí já estamos falando de outro departamento: o da fortuna obtida através de peculato & outros trambiques com nosso dinheiro. Estamos falando de roubo, crime que tem de ser tratado conforme as leis penais.

Se a lista contém uma penca de nomes latino-americanos, a razão é a desconfiança para com os rumos que a economia nacional pode tomar. Nossos países são instáveis, e qualquer mudança de governo pode causar uma catástrofe econômica como a que vemos atualmente no Brasil. Em outras partes do mundo, a economia é mais estável e previsível. Para o rico latino-americano, manter dinheiro fora do país aumenta a segurança do investimento.

Dois figurões nacionais integram os Pandora Papers: o ministro da Economia e o presidente do Banco Central. Juram ambos que a fortuna tinha sido obtida antes de assumirem o cargo e que estava declarada à Receita Federal. Se for verdade, o caso é menos grave, mas ainda assim não totalmente límpido. Resta a questão do conflito de interesses.

Dado que ambos têm o poder, deixando escapar um simples vazamento, por exemplo, de balançar a relação dólar x real, há sempre o risco de, em algum momento, terem agido (ou virem a agir) em causa própria. Pra evitar isso, tinham de ter extinto a(s) respectiva(s) offshore(s) ao assumir o cargo. Não o fizeram. Eis por que estão agora no olho do furacão.

Que o distinto leitor não se deixe impressionar. Há crimes de colarinho branco bem mais escabrosos na República. Nosso dinheiro é diariamente roubado, escamoteado, desviado, surrupiado, encurtado, até enfiado nalgum lugar inominável. Desaparece sob denominações inocentes do tipo “jabuti”, “emenda individual”, “verba de contingência”, “orçamento secreto”. O pessoal do andar de cima é muito criativo na hora de encontrar nomes que soam inocentes.

Sorria, você está sendo permanentemente roubado. E não reclame, se não vai ser pior.

(*) Burra, aqui, não é a fêmea do burro. É termo antigo, pouco utilizado atualmente, que indica uma caixa onde se guardavam preciosidades tais como ouro e pedras preciosas. Parece ter sido usado por analogia ao burro (animal), obrigado a transportar aquele peso no lombo.

Desmatamento

com Informações do jornalista Lauro Jardim, O Globo

O Brasil entrou na edição de 2022 do livro de recordes do Guiness como o país com a maior perda de floresta primária tropical da série histórica do Global Forest Watch, instituto especializado na observação da cobertura vegetal do planeta.

Entre 2002 e 2019, a perda foi de 24,5 milhões de hectares, ou seja, 7,1% da floresta primária(*) total que restava no país em 2001.

(*)Floresta primária é a cobertura originária, aquela que nunca foi tocada por atividades humanas. Apresenta alto grau de diversidade biológica, tanto na fauna quanto na flora.

Floresta secundária é aquela que, tendo sido usada durante algum tempo para agricultura ou pastoreio, foi abandonada, permitindo que o mato voltasse a crescer. É sempre melhor que um deserto, mas jamais voltará a contar com a mesma diversidade de vida animal e vegetal da cobertura originária.

Devo ter perdido um capítulo

José Horta Manzano

Faz tempo que cogito sobre as razões que levam nosso impagável capitão ao negacionismo. Louco, a gente sabe que ele é; mas ninguém ainda o viu babando. Portanto, uma réstia de razão deve ter sobrado naquela cachola.

Posso entender a atitude dos que o seguem – comportam-se tipicamente como maria vai com as outras; quem age assim, simplesmente executa o que seu mestre mandar e pronto. Mas tenho dificuldade em captar o real objetivo de Bolsonaro. Afinal, seu mestre é ele mesmo! Ou não seria?

No começo da pandemia, muita gente (que hoje faz de conta que estava cochilando) também imaginou que a covid ia desaparecer tão rápido como chegou. Alguns, famosos, chegaram a dar entrevista afirmando que o Brasil chegaria a 2 mil mortos, não mais. Até aí, dá pra entender.

Acontece que tempo passou, mais tempo passou, muito tempo passou. Chegamos a 600 mil mortos, que não tem como esconder. Milhares e milhares de empresas fecharam. Milhões perderam o emprego. E o capitão continua negando a realidade!

Ainda outro dia, em “discurso” pronunciado na ONU, voltou a bater o pé ao receitar remédios perigosos para a saúde de quem já estiver doente de covid. Como se não bastasse, proclamou aos quatro ventos que ele, pessoalmente, não estava vacinado e que não tinha intenção de espichar o braço.

Portanto, além do medo da agulha, alguma razão há de haver. Só que essa razão me escapa. Se alguém tiver alguma ideia, mande cartas para a redação. Agradeço desde já.

Observação
Na mesma cartinha, se puder, me dê sua versão das razões que levaram (ainda levam?) a empresa de “saúde” Prevent Senior a tomar pacientes de covid como cobaias sem consentimento (nem do doente, nem da família). Por que razão administraram (ainda administram?) medicamentos nocivos à saúde? A intenção era acelerar a agonia dos infelizes que já estavam dando mais despesa que lucro, liberando assim o leito para o próximo coitado? E por que razão omitiram (ainda omitem?) o nome da covid ao estabelecer atestado de óbito?

Não mandem cartas demais, porque, neste país, a jurisprudência ensina que réus podem até ser inocentados por excesso de provas. Já aconteceu.

A história se repete

José Horta Manzano

O general João Baptista de Oliveira Figueiredo presidiu o Brasil durante exatos 6 anos, de 1979 a 1985. Foi o último presidente do período militar. Conhecido por seu falar franco, era um tipo sem papas na língua.

Apesar disso, que fique bem claro, não chegava nem perto da vulgaridade nem do linguajar chulo do capitão que ocupa hoje o mesmo cargo. Comparado a Bolsonaro, Figueiredo era um fidalgo. Não privei da intimidade do presidente, mas tenho certeza de que, na presença de dona Dulce, sua mulher, ele não soltava os palavrões que Bolsonaro solta diante de qualquer um, para um Brasil enojado ouvir.

Naquele começo da década de 1980, o regime já começava a amansar. A censura estava afrouxada. Os exilados retornavam. Não havia mais presos políticos. O sol começava a despontar no horizonte. Pois foi justamente nesse período cheio de promessas que o general sofreu um infarto.

Os brasileiros, habituados a tramas e golpes urdidos nos círculos do poder, ficaram ressabiados. Com um Figueiredo impossibilitado de presidir, como é que ficaria? Quem tomaria seu lugar? E a abertura democrática – continuaria ou não?

Bem ou mal, o presidente se recuperou do ataque. Mas não completamente. Naquela época, a medicina no Brasil estava defasada com relação a países mais adiantados. Ricos e poderosos, quando gravemente enfermos, procuravam ajuda médica no exterior.

Em 1983, dado que os problemas cardíacos do general continuavam incomodando, ele decidiu tratar-se nos EUA. Foi internado numa clínica de Cleveland, onde lhe implantaram duas pontes (nome que muitos aportuguesam para “bypass”, bem mais chique), uma de safena e outra de mamária. Depois da intervenção, com seu linguajar pouco aveludado, Figueiredo chegou a comentar que se sentia “como um peru de Natal, todo costurado”.

De lá pra cá, o Brasil avançou muito nas ciências médicas. Hoje em dia, é raro alguém procurar tratamento no exterior, seja para uma simples vacina, seja para cirurgias complexas. Em geral, os bons hospitais nacionais estão capacitados para atender a todos os casos.

Bem, nem todos os cidadãos seguem as mesmas regras. Há os que estão (ou imaginam estar) por cima da carne seca, como se diz. Quarenta anos depois dos problemas coronários de Figueiredo, a atual primeira-dama deu o ar de sua graça nesse palco iluminado.

Como todos ficaram sabendo, Madame Bolsonaro decidiu estender o braço para ser vacinada contra a covid justamente durante uma breve estada em Nova York. Por que razão fez isso? Por que repudiou a vacina daqui? É difícil saber.

Podia até ter guardado silêncio, que ninguém teria jamais descoberto. Mas o marido, linguarudo, dedurou numa entrevista. O que ele pretendia reafirmar é que ele, pessoalmente, não tinha tomado vacina, não estava tomando e não tinha a menor intenção de tomar. O nome da primeira-dama entrou na conversa assim como Pilatos entrou no Padre-Nosso: era pra ser uma citação dita “en passant”, mas foi o que marcou a fala.

O resumo da novela ficou feio, até para os padrões bolsonáricos. O presidente confessou, sem se dar conta, que não manda nem em casa. Não tem voz ativa. Embora continue remando contra a corrente e batendo o pé na sua estúpida convicção antivax, a mulher se vacinou. Os filhos também estenderam o braço para a picada anticovid. Isso prova que seus conselhos não são seguidos nem pela família, que dirá pelo resto da nação.

Ucranização do Brasil

José Horta Manzano


Bem depois do triste 7 de setembro, fanáticos de extrema-direita continuaram acampados por bom tempo em Brasília. A ideia fixa deles é a de sempre: preparar uma “faxina geral para pôr fim à corja maldita da República”. Na visão dessa gente, a “corja maldita” está integrada pelos magistrados do STF e pelos parlamentares eleitos pelo povo. Em resumo, “malditos” são todos os que não dizem amém aos caprichos do capitão.

Quando acampados, usaram várias vezes a expressão “vamos ucranizar o Brasil!”. Essa gente feroz gosta de utilizar esse mote. Como diria minha avó, ouviram cantar o galo, mas não sabem onde é a missa. Típicos representantes de uma geração que não lê nem aprende, contentam-se com as duas primeiras linhas de um tuíte qualquer, sem buscar saber os comos e os porquês das coisas. Deve ter sido assim que aprenderam a repetir essa bobagem. Ou então, pior ainda, sabem o que aconteceu por lá, mas omitem o fim da novela, pra ficar mais bonito. Isso já é pesada desonestidade intelectual – o que não é espantoso vindo de quem vem.

“Ucranizar o Brasil” é expressão pra lá de inapropriada. Sofrer o mesmo destino da Ucrânia é desgraça que ninguém – repito, ninguém, nem os mais incendiários – desejam para o próprio país. Sem ter a pretensão de escrever um tratado sobre os problemas da Ucrânia, dou abaixo algumas pinceladas, para o caso de alguém estar interessado em conhecer ou recordar.


Após a queda do Muro de Berlim (1989) e a desintegração da União Soviética, que veio pouco depois, a vontade maior dos povos que orbitavam em volta do império russo era livrar-se definitivamente do perigo de, um dia, ser de novo aspirados e tragados pelo temível vizinho.

As repúblicas ex-soviéticas situadas na Ásia não tiveram escolha. Afastar-se da Rússia significava jogar-se nos braços da China ou da Índia, os grandes vizinhos mais próximos. Não era bom negócio. Sem escolha, continuam até hoje na órbita do Grande Irmão.

Já as repúblicas situadas em solo europeu – tanto as que integravam a União Soviética (Ucrânia, Bielorrússia), quanto as que giravam em torno como satélites (Polônia, Hungria e as demais) – tinham um sonho comum: aderir à União Europeia. Naquele momento em que o equilíbio mundial estava se rompendo, a Guerra Fria ainda estava presente em todas as mentes. O objetivo dos povos que haviam vivido sob a pesada influência da Rússia soviética era ser acolhido e amparado por um braço forte que os protegesse do antigo papão.

Um a um, sob o olhar desacorçoado de uma Rússia impotente, os antigos satélites da União Soviética solicitaram o bilhete de entrada na União Europeia. Em 2004, de uma tacada só, 8 antigos afilhados de Moscou foram oficialmente aceitos na UE. Mas Putin já tinha tomado as rédeas do país, com a firme intenção de reerguer o império. Graças a ele, mesmo sem recobrar o status da antiga URSS, o país voltou a figurar entre os grandes. Manteve seu posto de segunda potência nuclear do planeta, atrás dos EUA e muitíssimo à frente da China, com diversas bases militares no estrangeiro.

Com uma Rússia fortalecida, a ilusão de aderir à UE foi ficando distante para a Ucrânia. É enorme a dependência de Kiev com relação a Moscou. Para os russos, a Ucrânia é o berço da civilização deles, uma joia que não se pode entregar a estrangeiros de jeito nenhum. A língua ucraniana é uma variante do russo, o que reforça os laços. Para Putin, seria inadmissível ter às portas de seu país uma Ucrânia integrada na UE, quiçá com tropas da Otan(*) estacionadas na fronteira.

Durante o inverno gelado 2013-2014, o povo ucraniano se rebelou contra a decisão tomada por seu governo, que desistiu de assinar um acordo com a UE e preferiu reforçar os laços com o Grande Irmão russo. As manifestações de protesto se estenderam por 3 meses, ao final dos quais o presidente ucraniano, grande amigo de Moscou, foi destituído.

Mas o povo obteve uma vitória de Pirro – vistosa mas de consequências contrárias ao que desejavam. A partir da destituição do presidente ucraniano, a Rússia apertou o torniquete. Cortou o gás, mercadoria vital em pleno inverno, sem a qual a população perigava morrer de frio. Suspendeu trocas comerciais. O resultado é que a Ucrânia teve de entregar os pontos. Acabou deixando pra lá o objetivo anterior, que era de candidatar-se a uma vaga na União Europeia.

E agora vem a parte que os devotos bolsonaristas não contam. Desconhecem por ignorância? Escondem por malandragem? É difícil saber. O fato é que a consequência principal do levante popular de 2014, que os fanáticos do capitão chamam de “ucranização”, é a guerra civil que se instalou no país e que não acabou até hoje.

As províncias do leste da Ucrânia são culturalmente muito próximas da Rússia, a ponto de a maioria de seus habitantes se considerar mais russa do que ucraniana. Com as províncias do oeste, acontece o inverso. E daí? Daí, o país se dividiu em dois. O governo de Kiev controla a parte oeste do país. Quanto às províncias orientais, é tudo mais ou menos. Ninguém sabe direito quem manda. Na região do Donbass (capital: Donetsk), é pior ainda. Ali grassa uma guerra civil. Tanques passeiam pelas ruas. As estradas têm bloqueios, e não passa quem quer. Virou terra de ninguém: teoricamente ucraniana, mas russa de facto. Com os espíritos exaltados pelo nacionalismo exacerbado, ninguém está disposto a ouvir as razões do adversário, muito menos abandonar a língua materna. Embora se pareçam muito, o russo e o ucraniano são línguas diferentes. Para nós, podem ser muito parecidas, mas para eles a língua materna é o marcador da nacionalidade. Ninguém está disposto a abandonar seu falar em favor da outra variante. Portanto, não há solução à vista.

O único remédio – que é provavelmente o que vai acabar ocorrendo – é a partição oficial do país, com entrega à Rússia da parte onde a população se sente mais russa que ucraniana. Em resumo, o país está para sempre fraturado – com fratura exposta. É realmente isso que os fanáticos do capitão gostariam que ocorresse entre nós? A “ucranização do Brasil”?

(*) A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um pacto militar capitaneado pelos EUA, do qual fazem parte quase todos os países europeus.

Casamento para todos – 2

José Horta Manzano

Contei ontem a saga suíça do Casamento para Todos, uma maratona que levou décadas pra ver a linha de chegada. Em reação, uma antiga e fiel leitora fez um comentário e uma pergunta. Eis o que ela escreveu:


Coincidentemente, tenho pensado muito no como a proposta de conservadorismo de costumes de Bolsonaro pôde ser absorvida por boa parte da população, sendo que a liberalidade no comportamento público e na esfera sexual sempre nos caracterizou. Claro que a orientação religiosa pesou muito na aderência ao conceito de defesa da família para criticar os movimentos LGBT, mas acho que isso não explica tudo. Intuo que o ressentimento dos estratos populacionais mais carentes contra a elite endinheirada que se permite todo tipo de prazer desempenhe um papel importante para o nascimento desse fenômeno. O que você acha?


Pensei que o assunto há de interessar a muita gente. Nos tempos de antigamente, homossexual(*) era artigo raro. Pelo menos, era o que nos parecia, pois quase não se via nenhum. A lógica ensina que não surgiram todos com a virada do milênio, como se estivessem escondidos atrás do último mês da folhinha de 1999. Ao terminar o ano, despencaram todos.

Se temos a impressão de que hoje são muito mais numerosos, a responsável é a internet. É ela que tem trazido ao grande público conceitos que antes só eram discutidos em círculos pra lá de restritos. E o resultado tem sido surpreendente – uma boa surpresa, quero dizer. Como um novelo do qual se vai puxando o fio, uma realidade consistente e desconhecida vai surgindo. Desconhecida ou abafada, tanto faz.

De repente, cada um se dá conta de que tem um amigo homossexual, uma vizinha, um irmão, uma colega, um parente, um professor, e por aí vai. O bicho vai se tornando menos feio do que parecia. Quando se observa bem, são gente normal como o resto da humanidade. A imensa maioria não dá escândalo em público. Não conheço nenhum que tenha o costume de devorar criancinhas. Votam no Lula ou no Bolsonaro. Ou se abstêm. Ou gostariam de ver surgir um candidato de terceira via. Uns são ricos; outros, pobres. Uns são letrados; outros, de pouco estudo. Uns são cirurgiães; outros, operários. Há de tudo. No fundo, são gente normal, com as qualidades e os defeitos do resto da população.

Hoje em dia, dizer o que acabo de dizer não leva à cadeia nem ao fogo da Inquisição. Nem causa escândalo. Mas, que os mais novos acreditem: faz ainda pouco tempo, não era assim. Falar em homossexualidade era tabu. Há gente estacionada nos anos 1970, como nosso capitão, que não consegue captar essa mudança na sociedade. Ninguém me fará acreditar que, entre os adeptos de seitas evangélicas, não há nenhum homossexual. Estatisticamente, não é possível.

Os afagos que o presidente dirige aos evangélicos são mal dirigidos. A meu ver, não pode haver oposição entre orientação sexual (que ninguém escolhe) e adesão a uma religião (que cada um é livre de escolher). Não pode haver incompatibilidade entre uma coisa e outra.

Quanto à pergunta da leitora, respondo que não, não me parece que as propostas de um suposto “conservadorismo” bolsonariano tenham sido absorvidas por parte da população. O capitão é homofóbico. (Se é recalque ou desejo reprimido, deixo a conclusão para quem entende da alma humana.) Orientação sexual escapa às normas de toda convenção, justamente por não ser uma.

Ser conservador é ser contrário às modernidades convencionadas pela sociedade: divórcio (o presidente já se casou pelo menos três vezes), adesão a uma religião (nosso capitão já se fez batizar em diferentes “denominações”, além da Igreja). Enfim, ser conservador é levantar-se contra toda mudança em estatutos entre os quais se pode escolher. Orientação sexual não se escolhe, portanto não entra nos moldes apertados de um hipotético “conservadorismo” presidencial.

Será difícil provar, mas acredito que nenhum devoto aderiu ao desbaratino bolsonariano, a menos que o próprio devoto já não fosse desbaratinado antes. Se são agora mais visíveis, a razão é a câmara de eco da internet.

Tampouco acredito que classes menos favorecidas olhem para os abastados como quem aponta um dedo reprovador a “essa gente que escapou de Sodoma ou Gomorra”. Orientação sexual independe de classe social – perpassa toda a sociedade. Com exceção de algum desatinado, como o presidente, ninguém costuma atirar pedras no próprio telhado.

Para fechar, gostaria de dizer duas palavras sobre os desfiles do tipo Gay Pride, nome que foi estranhamente traduzido para “Orgulho Gay”. Orgulho de quê? Na minha opinião, essas manifestações, justamente por reforçar a caricatura que se quer eliminar (ou pelo menos suavizar), são contraproducentes. Levam ao resultado contrário do que se queria obter. Os menos informados acabam acreditando que todo homossexual anda seminu pela rua, com maquiagem pesada no rosto e plumas na cabeça. Rebolando e desmunhecando como vedete de teatro de revista (será que ainda existe teatro de revista?).

Gente com a mente estreita de Bolsonaro só vê isso. Por mim, usaria tempo e esforço pra vulgarizar essa realidade de maneira mais eficiente. Essas ações que sublinham diferenças (como política de cotas, linguagem politicamente correta, desfiles de “orgulho gay”) dão resultado oposto ao que se buscava, pois acabam enfatizando diferenças que se gostaria de aplainar. Por mim, eliminaria todos esses paetês e implementaria uma política de esclarecimento da população. Dá mais futuro.

(*) Meus leitores habituais sabem que não me enrosco nesse falar “politicamente correto”. Escapar da vulgaridade e da escrita rasteira é uma coisa; referir-se a “brasileiros e brasileiras” ou a “os e as homossexuais” é outra, bem diferente, que frisa o ridículo.

Meus leitores, que são todos gente fina, sabem que palavras não têm sexo: têm gênero gramatical. Gente e bicho têm sexo; palavras, não. É sempre bom evitar associar regras gramaticais à sexualidade humana. Não dá certo.

Neste texto – como em todos os outros – a expressão “os homossexuais” inclui eles e elas. Evidentemente.

Aerolula x Aerobolso

José Horta Manzano

Acho que ninguém esqueceu de quando, no longínquo março de 2020, Bolsonaro foi visitar o amigo Trump, que o recebeu em seu resort particular de Mar-a-Lago.

Na volta, 22 integrantes da comitiva, que tinham viajado no Aerolula (que agora deveríamos chamar de Aerobolso ou talvez Aeronaro) receberam resultado positivo no teste anticovid. Vinte e dois!

Passou-se exatamente um ano e meio durante o qual Bolsonaro praticamente não viajou para o exterior. Por um lado, foi por causa da covid. Por outro, é porque ninguém quer ser visto ao lado do capitão. Dado que fogem dele como da peste, ninguém o convida.

Ele então aproveitou a ocasião da abertura dos trabalhos anuais da ONU para dar um pulinho a Nova York. Aproveitou pra vacinar a esposa e pra levar a turma pra espairecer, gastar nosso dinheiro em hotéis estrelados e fazer umas comprinhas com o cartão corporativo. A ONU de Nova York é o único lugar aonde ele pode ir sem ser convidado, ainda que o preço a pagar seja comer pizza na calçada.

Na volta, os infetados por covid já começaram a aparecer. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde (da Saúde!), aquele que cometeu o delicado gesto de apontar o dedo maior em riste aos que demonstravam não gostar do chefe dele. Em seguida, começa a cair gente graúda. Saiu hoje a notícia que o presidente da Caixa é a 4a vítima. Se não apareceu mais gente contaminada, é porque muitos – provavelmente todos, com exceção de Bolsonaro – estão vacinados.

Esse avião presidencial está mais pra navio fantasma, embarcação mal-assombrada, carroça com urubu trepado. Será praga do presidente barbudinho que preferiu comprar essa aeronave, deixando pra trás a nacional Embraer?

Não sei, mas, se fosse eu, mandava benzer esse avião. Eu é que não punha os pés lá dentro, nem que me pagassem.

Bolsonaro e a Marselhesa

La Marseillaise cantada pelo autor, Rouget de l’Isle
by Isidore Pils (1815-1875), artista francês

José Horta Manzano

Em 1792, a Revolução Francesa preparava o túmulo do Ancien Régime. Ao mesmo tempo, o Romantismo sacudia as artes. Verdadeiro traço de união entre a revolução e o movimento romântico, Rouget de l’Isle – oficial do exército, poeta e autor dramático – compunha, naquele mesmo ano, o poema que viria mais tarde a ser conhecido como a Marselhesa, o hino nacional da França.

A letra é longuíssima, o que explica quase nunca ser cantada por inteiro. Em execução pública, cantam-se somente as duas primeiras estrofes do hino. Todo o espírito romântico e revolucionário está contido nelas. O povo é conclamado a levantar seus estandartes e se rebelar contra a tirania. Há um chamado às armas e um convite para que os cidadãos formem seus batalhões e marchem para encharcar de sangue impuro os campos da pátria.

É verdade que essa profusão de hemoglobina não combina com os tempos atuais, em que, aposentadas as baionetas, a morte vem do céu, a bordo de drones silenciosos e traiçoeiros. Como essas chacinas costumam acontecer em lugares distantes e miseráveis, ninguém vê, ninguém comenta, ninguém chora. Ao final, descontando os mortos (que, afinal, ninguém é coveiro), nos sentimos de consciência tranquila.

Estou me afastando do que queria dizer. Na Marselhesa, quando o autor chama os conterrâneos para os dias difíceis da luta, não manda que corram ao matadouro sozinhos. Inclui-se entre eles. As palavras Marchons, marchons! – Marchemos, marchemos!”, que aparecem nos versos finais, são um encorajamento que inclui o encorajador. Em outras palavras, aquele que inflama a multidão não manda “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. Parece detalhe, mas faz toda a diferença.

Nunca assisti a nenhuma laive do capitão. A desta semana não foi exceção. Mas li os pontos importantes (se é que os há) na imprensa. Fiquei sabendo que o presidente mandou o povo tomar banho frio e dispensar o elevador. Ah, e desligar o ar condicionado, como se fosse produto de consumo comum, daqueles que todo brasileiro tem em casa. Ele ensinou que esse pouco de exercício revigora, faz bem à saúde e, principalmente, visto que contribui pra atenuar a crise hídrica, é poderoso auxílio para a almejada reeleição.

Não li em lugar nenhum que Bolsonaro tenha dado o exemplo, nem que fosse de mentirinha. Não me parece que tenha dito que ele mesmo já abandonou a água quente no banho e o elevador no palácio. Não me parece ter revelado que, com seu histórico de atleta, está acostumado a tomar banho gelado, hábito que adquiriu nos tempos de recruta. Tampouco lembrou-se de contar ter subido de 20° para 24° a temperatura do ar condicionado de seu escritório.

Sei que o capitão está longe de ser revolucionário e mais distante ainda de ser romântico, mas perdeu excelente oportunidade para (tentar) identificar-se com o populacho. Não devia ter dito “vão vocês!”, mas “vamos juntos!”. O líder, afinal de contas, devia ser ele! Ou não? Não disse nada disso. Que é que se pode fazer? Para ele, povo deve ser uma entidade abstrata, distante, que só serve pra trazer-lhe votos, mais nada.

Quem nasceu pra tostão não chega a milréis, dizia minha avó. Ou se nasce pra liderar, ou se nasce pra ser liderado. O capitão não é líder de nascença. É certamente por isso que bate cabeça o tempo todo. O homem diz, se desdiz, se contradiz, se maldiz, se rediz. Ao fim e ao cabo, não conduz, é conduzido.

Lei? Ora, a lei!

José Horta Manzano

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“Lei? Ora, a lei!”

A frase, um tanto estranha, é atribuída a Getúlio Vargas

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A meu conhecimento, não há gravação do pronunciamento. Gravador era artigo escasso nos tempos do velho ditador. Mas historiadores explicam que, ao pronunciar essas palavras, ele não estava se referindo a sua própria pessoa. Naquele tempo, a petulância do homem político ainda não havia chegado a esse ponto. Dizer isso referindo-se a si mesmo seria um acinte acima dos padrões da época.

Na verdade, a frase refletia uma crítica de Getúlio aos empresários que passavam por cima da lei e descumpriam pontos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o arcabouço da legislação trabalhista brasileira, instituído justamente durante sua gestão.

No entanto, até hoje a frase é empregada com outra conotação. É posta, em sentido irônico, na boca de governantes que se creem acima do populacho vil. Estou falando daquele tipo de políticos que ignoram a lei quando ela lhes põe obstáculos para obter benefícios ilícitos. Em resumo, infringem todo regulamento que não lhes agrada. A frase aparece em diálogos assim:

O assessor:
“Senhor governador, não dá pra fazer assim! É a lei!”

O governador:
“A lei? Ora, a lei…”

Todos temos tendência, sejamos francos, a torcer o nariz para uma proibição que nos desagrada. Mas não gostar é uma coisa; reagir é outra. A reação de cada um está ligada à própria personalidade. 1) Há quem aceite embora não goste, e acabe cumprindo a obrigação. 2) Há quem fraude no escurinho, sem alarde, sem dar muito na vista, tipo “atirando a pedra e escondendo a mão”. 3) Há, enfim, os que transgridem abertamente, sob o sol do meio-dia, tipo “eu sou mais eu; vai encarar?”.

O Brasil atravessa um período conturbado, com um presidente que se enquadra na terceira categoria, a dos que delinquem sem vergonha, sem se esconder e sem sequer ruborizar. Para ele, deve ser divertido. Para o país, é uma desgraça, uma noite interminável, um dia que não amanhece.

Pelas notícias que me chegam, a mais recente afronta feita à lei pelo capitão foi ainda em Nova York. Horas depois de ter sido informado de que seu ministro da Saúde, o improvável doutor Queiroga, estava infectado pelo coronavírus, descumpriu a regulamentação aplicável ao que chamamos aqui “caso-contacto” (qualquer um que tenha estado em contacto com um indivíduo comprovadamente positivo).

Bolsonaro havia estado em contacto com o ministro. Portanto, era um “caso-contacto” e tinha de seguir o protocolo de isolamento. Pois nosso capitão não só não se isolou, como desceu à calçada em frente ao hotel e misturou-se ao grupo apoiadores que por ele esperavam. Se eu fosse o prefeito de NY, mandava deter o homem. Para averiguações. Nem que fosse por algumas horas. Já imaginaram o susto? O quê? Incidente diplomático? Não temam. Com o Itamaraty que temos hoje, está tudo dominado. Durmam tranquilos.

Ah, me ocorreu! – 1
Francamente, como esse homem gosta de calçada, já repararam? Primeiro, a pizza. Agora, a aglomeração.

Ah, me ocorreu! – 2
Tenho dificuldade em entender como é possível que cidadãos brasileiros que vivem numa das cidades mais cosmopolitas do planeta e que, aparentemente, não ganharam carona de ônibus com direito a hambúrguer+coca grátis só pra aplaudir o presidente – como é que essa gente consegue apoiar aquele estropício.

Ah, me ocorreu! – 3
A melhor sugestão que o general Mourão, presidente substituto, recebeu durante sua interinidade no cargo foi a de editar um decreto proibindo a entrada no país de todo cidadão não-vacinado. Ele ficou de pensar. Mas não deu tempo, que o outro voltou. Fica pr’a próxima. Um dia, ele vai, pede asilo nalgum paraíso fiscal e não volta mais.

Bolsonaro na ONU

José Horta Manzano

Assim como eu, o distinto leitor certamente se dá conta da importância da imagem que um país dá ao mundo externo. Os estrangeiros não estão necessariamente a par de tudo o que acontece no Brasil. É capaz de não saberem da crise hídrica, da suspensão da vacina para adolescentes, da situação de miséria crônica em que se debate grande parte do povo, da violência – verbal e física – que se tornou a forma preferencial de expressão do brasileiro.

Também não imaginam que o Lula não era exatamente o “pai dos pobres”, o sujeito bonzinho e injustiçado, que só trabalhou em favor dos desvalidos, e que acabou sendo castigado por ter sido bom. Não sei se já se deram conta de que o governo Bolsonaro é tão recheado de corruptos quanto todos os que antecederam – talvez até pior. Se ainda não acordaram, logo toca o despertador.

Seja como for, a melhor política é não deteriorar a imagem que nosso país projeta. Se nada se pode fazer para melhorar, que pelo menos não se trabalhe para piorar. A começar pelo primeiro escalão da República.

Embora não tenha a visibilidade de uma Copa do Mundo de Futebol, a abertura anual dos trabalhos da ONU é acompanhada ao redor do globo. Bolsonaro não era obrigado a comparecer. Em várias ocasiões, o Brasil já chegou a ser representado por um um ministro, não pelo presidente. Podia também ter optado por mandar um vídeo gravado. Preferiu ir pessoalmente. Nada contra. Só que…

Só que, sacumé, Bolsonaro é Bolsonaro. Ele é sempre igual a si mesmo, nunca muda. De espírito arruaceiro, adora transgredir. Se não pode pescar, ele pesca. Se não pode andar sem máscara, ele vai de cara nua. Se tem de se vacinar, ele não se vacina. E faz isso com muito orgulho. Sua egolatria lhe ocupa todo o espaço mental, sem deixar lugar para outro pensamento.

É por isso que não se dá conta de que não foi a Nova York a turismo, mas como representante de mais de 200 milhões de conterrâneos seus, todos seres humanos como ele. Seus atos e gestos transbordarão da esfera pessoal para serem interpretados como a expressão da vontade dos brasileiros. É o Brasil inteiro que, tendo recusado a vacina, foi barrado no restaurante e obrigado a comer pizza na rua, de pé, sem prato, plantado numa calçada sinistra, com a mão nua segurando o petisco gorduroso.

Agora já é terça-feira, e Bolsonaro acaba de discursar. Assisti ao vivo. Foi uma fala sem importância, saudada por aplausos protocolares vindos de uma plateia mais interessada no discurso seguinte – o de Joe Biden. O pronunciamento do capitão foi o que se esperava: pra inglês ver. Segundo ele, nossa cobertura vegetal está intacta desde o descobrimento. Todos os habitantes do território vivem num país de conto de fadas, felizes, dinheiro no bolso e feijão no prato. E, com a graça de Deus, protegidos contra o perigoso comunismo que bate às portas. De que anda reclamando esse povo venturoso?

Todos sabem que o que o capitão diz não se escreve. Sua palavra vale tanto quanto uma nota falsa. Portanto, o que ele disse, tanto faz como tanto fez. Não vai mudar a visão que o mundo tem de nosso país e de nosso governante. Infelizmente.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”