Brasileiro não sabe votar?

José Horta Manzano

Para doutor Bolsonaro, a derrota de Trump já tinha sido uma senhora bordoada. Agora, nas municipais, conheceu uma derrota… que adjetivo usar? Vamos lá: estrepitosa. Ou fragorosa. Ou estrondosa. São todos termos que têm a ver com barulho forte de alguma coisa que se espatifa no chão.

O barulho foi tão forte que atravessou o Atlântico. Pela primeira vez, vejo a mídia europeia dar notícias das eleições municipais brasileiras – um assunto, em princípio, sem importância internacional. Pois imagine o distinto leitor que os principais órgãos soltaram uma breve nota sobre o assunto. A ênfase foi posta no fracasso de nosso doutor presidente no teste de meados do mandato.

Para todos os que, como este blogueiro e muita gente fina no planeta, andavam preocupados com a perspectiva de um Trump reeleito e de um Bolsonaro revalidado, foi um alívio. Um grande uff!

No tempo em que os militares mandavam, corria a voz de que ‘brasileiro não sabe votar’. Aliás, a frase foi repetida pelo Pelé, numa declaração imprudente que marcou o personagem e que o persegue até hoje. Olhe que, na época, podia até ser verdade, visto que os eleitores dos anos 70 eram menos esclarecidos que os atuais. Mas a situação mudou, e a prova está no resultado destas eleições.

Em mostra de amadurecimento cívico, o eleitor está reparando erros cometidos ao longo dos últimos vinte anos. Fosse hoje, é de duvidar que figuras simplórias como Lula, Dilma e Bolsonaro fossem eleitas.

by Angel Boligán Corbo (1965-), desenhista cubano

Ninguém está totalmente blindado contra aventureiros que prometem o que jamais poderão entregar. No entanto, o resultado destas municipais mostra um brasileiro menos ingênuo, mais objetivo, mais preparado para filtrar promessas e descartar potenciais estelionatários da política.

O resumo da ópera é que, se conseguir se segurar até o fim do mandato – o que não está garantido –, doutor Bolsonaro chegará ao fim da carreira em 2022. Não será reeleito. Nem ele, nem seu eventual indicado. Aliás, apadrinhamento de Bolsonaro é tóxico: é receber sua bênção e despencar nas pesquisas.

Outro que está queimado é o Lula. E seu partido junto. Não terão chance nenhuma de vencer em 2022. O Brasil acaba de mostrar que se enganou ao crer que Bolsonaro era o antídoto de Lula. Depois de experimentar ambos, optou por uma terceira via.

Assim, Lula e Bolsonaro podem saudar o público e sair de cena. Tanto eles como os respectivos afilhados. Assim que cair o pano sobre o atual governo, poderemos começar a reconstruir o país. Vai ser demorado e trabalhoso, mas não há outro jeito.

Coronavoucher

José Horta Manzano

O Instituto PoderData publica sua mais recente pesquisa sobre a percepção do eleitor quanto ao trabalho de doutor Bolsonaro. A opinião de 2500 cidadãos representativos da população brasileira, distribuídos nas 27 unidades da Federação, é incontestável: a popularidade do doutor cai. As curvas se cruzaram, mostrando que a desaprovação (48%) supera a aprovação (42%).

Analistas atribuem a queda de aprovação a diversos fatores. Entre eles, está a chegada da vacina, fato que contraria a postura de um Bolsonaro descaradamente hostil, sobretudo em se tratando da vacina chinesa. O crime do Carrefour é outro acontecimento que, tendo em vista o silêncio do presidente, convence o eleitor de que o governante é racista, ensimesmado e distante do país real. Por último, o mais importante: o fim anunciado do coronavoucher.

O fracasso de quase todos os candidatos a prefeito apoiados pelo presidente já era sintoma do declínio de sua influência – se é que um dia ela foi benéfica. Ao fim e ao cabo, vai ficando claro que a subida do nível de aprovação é que foi o ponto fora da curva. Bolsonaro está retornando ao fundo das estatísticas. A Lei da Gravitação, cláusula pétrea da Constituição do planeta, ensina que tudo aquilo que sobe acaba descendo um dia.

Coronavoucher
Quando a situação aperta e o fim do mês está longe, o funcionário pede um vale por conta do salário. O passado recente da nação está salpicado de outros vales: vale-transporte, vale-gás, vale-brinde, vale-refeição.

Curiosamente, na hora de dar nome ao auxílio especial ligado à epidemia, poucos disseram vale-corona. A expressão que se firmou foi coronavoucher. Minha hipótese é de que o termo coronavírus, já no ouvido de todos, terá contaminado.

Voucher era um verbo do francês medieval, usado em textos administrativos. Significava chamar, dar nome a e tinha as formas vochier/vogier. Nos anos 1300, atravessou o Canal da Mancha e foi enriquecer o inglês.

É interessante que o termo desapareceu da língua francesa, enquanto permanece vivíssimo em inglês. O pai de família é o verbo latino vocare. Em nossa língua, temos numerosos descendentes: vogal, vocábulo, vocação, advogado, convocar, evocar, invocar, provocar, revogar, equívoco, provocação. Há inúmeros outros.

Vox populi

José Horta Manzano

Acontece com todos os personagens importantes. Quando chegam lá, atraem inevitavelmente uma tropa de aduladores, cuja ocupação principal é achar graça em qualquer bobagem que o chefe disser, achar genial qualquer ideia que ele tiver, aprovar toda medida que ele decidir tomar. Isso cria uma realidade paralela, tão forte, que o chefe acaba acreditando ser onipotente e estar acima do bem e do mal.

Já tinha ocorrido com Lula da Silva. Agora, não foi diferente com Bolsonaro. Bobinho, acreditou num carisma e num poder que não tinha, e se expôs durante a campanha eleitoral para as municipais. Não precisava, que era melhor ter-se preservado. Mas como ninguém teve a coragem de avisar, fez.

Deu no que deu. O que antes estava no terreno das suposições, agora tem o peso da vox populi – a voz do povo. As urnas falaram, como diria o outro. E não tem como fingir que não viu. O resultado está aí pra quem quiser ver.

Assim como o veredicto deixa um presidente diminuído, o lulopetismo também sai das urnas achatado, desmilinguido e sem gás. A situação é pra lá de péssima para ambos, Bolsonaro e Lula.

Lula se dá conta – se é que ainda não tinha caído a ficha – de que seu tempo passou. O que está feito, está feito. Mais não haverá. Quanto a Bolsonaro, assiste ao desmanche do (falso) enredo de ser ele o bastião que vai purificar o Brasil, livrando-nos do petismo.

Por um lado, o PT já não é ameaça para ninguém. Por outro, a extrema esquerda representada pelo PSOL desponta como força ascendente. E os temidos psolistas surgem nos braços do povo, situação espinhosa para Bolsonaro.

O ‘centrão’, que de bobo não tem nada, já se deu conta da nova paisagem. Num estalar de dedos, podem todos saltar fora do bonde e deixar o presidente falando sozinho. Se isso ocorrer, a cotação do doutor no mercado vai cair. Será caminho espinhoso que pode levar ao encurtamento de seu mandato.

Vox populi
É expressão latina que se traduz por voz do povo. Aparece já na Bíblia mas, como toda citação das Escrituras, tem de ser tomada com precaução. Termos bíblicos atravessaram muitos séculos e foram objeto de muitas traduções, às vezes malfeitas. De todo modo, o original não teria o significado que lhe atribuímos hoje.

A expressão completa utilizada atualmente é: Vox populi, vox DeiA voz do povo é a voz de Deus. É o enunciado sobre o qual repousa a noção de democracia.

As qualidades do capitão

José Horta Manzano

A (longínqua) infância deste blogueiro foi povoada de capitães. Cada um, a seu modo, era herói.

O Capitão Nemo, que conduzia o submarino das 20.000 Léguas Submarinas, era sério, pouco dado a sorrisos, mas rigoroso e certeiro nas decisões.

Tinha também o Capitão Haddock, que aparecia nas aventuras do garoto Tintim e do cãozinho Milu. Com sua paixão pela bebida, estava mais pra anti-herói. Quando sóbrio, era rabujento mas não fazia mal a ninguém; bêbado, tornava-se irresponsável.

Popeye, embora não fosse capitão, tinha as qualidades que se esperam de um chefe: a retidão, a lealdade e o destemor. Nestas alturas, já deve ter subido de patente: terá sido nomeado capitão de longo curso.

O Capitão América, criado para encarnar os ideais americanos na Segunda Guerra, era portador das melhores qualidades do herói sem defeito. Faz tempo que a guerra acabou, mas o personagem continua por aí, ora eliminado, ora ressuscitado. Há sempre alguma guerra nalgum ponto do globo.

Tintim, Milu e o Capitão Haddock

Havia ainda o temido Capitão Gancho. Era capitão de verdade, comandante de galeão. Tirando a feiura e o jeitão assustador, não tinha grandes qualidades. Aquele gancho que lhe servia de mão era de tirar o sono dos pequeninos.

Nunca imaginei que um dia veria um capitão na Presidência do Brasil. Generais, vi desfilar vários. Civis puros e sem mistura, também. Mas nunca tinha visto, no trono maior, um senhor que se reclama de ambos os lados – militar e civil. E que, ainda por cima, não combina com nenhum deles. Como militar, é esquisito um simples capitão deter as atribuições (constitucionais) de comandante supremo das Forças Armadas. Como civil, é esquisito ver esse qualificativo aplicado a personagem tão incivil.

Pra dizer a verdade, não precisava nem o Capitão Nemo, nem o Capitão América no Planalto – seria pedir muito. Eu me contentaria até com um desajeitado Capitão Gancho, que só assustava criancinhas. Mas, que falta de sorte, fomos cair logo com o Capitão Cloroquina. Mon Dieu!

Cloud Oracle

José Horta Manzano

Quem viver, verá. Mas quem viveu, já viu. Quem conheceu as eleições brasileiras pré-urna eletrônica sabe o que é bom pra tosse.

Pra voltar àquela época, precisa fazer um esforço de imaginação. Pense num Brasil com 50% da população vivendo na zona rural, em localidades remotas e de difícil acesso. Imagine urnas sendo transportadas por estrada de terra (ou de lama), num país sem computador, sem internet, (quase) sem telefone, com rede elétrica periclitante.

Pesquisas prévias não estavam na moda. Só a apuração valia – e como era lenta! Os primeiros resultados, bem parciais, só começavam a surgir lá pelo quarto ou quinto dia. Pra contar todos os votos, levava uns quinze dias. Mas era assim mesmo, e a gente já estava feliz de ter eleições, num mundo bipolar em que a maior parte da humanidade não dispunha desse luxo.

Estes dias, o TSE – órgão que dá as cartas em matéria de eleições – está apanhando de todos os lados. Governo, parlamentares e povo se uniram pra apedrejar o Tribunal. E tudo isso por quê? Porque estamos todos mal acostumados. Esperávamos o resultado em duas horas, mas ele levou uma noite inteira. O pior é que não é difícil imaginar quem encomendou e pagou os piratas internéticos.

Quanto à demora, não vejo razão pra tanto assanhamento. Veja o que se passa nos EUA. Entendo que o voto lá é mais complexo, o eleitor tendo de se pronunciar em numerosos assuntos. Assim mesmo, demoram muito pra contar. Hoje, exatamente 15 dias depois do dia do voto, a apuração ainda não terminou.

Até que nossa demora é rápida…

Eleição para prefeito

José Horta Manzano

A cada quatro anos, quando chega a hora de escolher prefeito, volto ao assunto. O modo de eleger o chefe do Executivo municipal revela o descompasso entre o Brasil das grandes metrópoles e o dos municípios menores.

Nossa legislação eleitoral prevê que somente municípios com mais de 200 mil eleitores têm direito a organizar um segundo turno para afinar a escolha do prefeito. Isso dá 95 municípios num total de 5570.

Olhando por outro prisma, constata-se que somente 40% dos brasileiros têm direito a essa segunda votação: são aqueles que residem em municípios populosos. Os demais – que excedem 60% dos habitantes do país – têm de se contentar com o resultado do primeiro turno.

No tempo em que se votava em cédula de papel, essa restrição era compreensível. De fato, além de sair caro, a apuração demandava tempo e mão de obra. Hoje, com a generalização da urna eletrônica, a dificuldade desapareceu.

A Constituição reza que todos os brasileiros são iguais. A gente sabe que, na prática, não é bem assim, mas não vamos exagerar; já há muita desigualdade por aí, não convém criar mais uma. Não é justo que, na hora de escolher prefeito, somente os habitantes de grandes centros tenham direito a afinar o voto, enquanto, para o resto, vai com casca e tudo.

Pra ser eleito, presidente tem de receber mais de 50% dos votos. Governador idem. Prefeito de grande metrópole ibidem. Por que, então, essa discriminação contra moradores de centros menores? Será que são menos brasileiros que os outros?

Nos anos 80, quando não havia ainda segundo turno para eleição nenhuma, uma candidata à Prefeitura de São Paulo foi eleita com apenas 33% dos votos, porcentagem que abala a legitimidade do eleito. Desde que o segundo turno foi instituído, esses sustos deixaram de ocorrer na maior parte dos casos; mas ainda resta o problema dos municípios menores.

A meu ver, estão sendo vítimas de injustiça. No entanto, pensando bem, se eles que são os interessados não reclamam, por que é que eu vou me preocupar? Vamos deixar pra lá.

Volto ao assunto daqui a quatro anos. Se o destino permitir, naturalmente.

GPS ideológico

José Horta Manzano

No Brasil de Bolsonaro, será que alguém ainda sabe o que é direita e o que é esquerda? Tenho cá minhas dúvidas. Numa sociedade onde ‘direita’ é saudosismo inconfessável,  ‘centrão’ virou insulto e ‘esquerda’ é sinônimo de comunismo, a coisa ficou complicada. De todo modo, entre nós, a posição exata da sensibilidade de cada um no espectro político nunca esteve na ordem do dia.

Na política tradicional brasileira, esse posicionamento sempre foi irrelevante. A personalidade do político costuma contar mais do que sua posição no tabuleiro. Juscelino era de direita ou de esquerda? E Jânio? E Adhemar? E Getúlio? Ninguém se preocupava com isso, nem apoiadores, nem detratores.

Foi nestas últimas décadas, desde que o PT tomou fermento e cresceu até o cargo mais alto, que o grosso da população se inteirou de que aqueles barbudinhos eram de esquerda. (Diferentemente de hoje, deixar crescer a barba não estava na moda, daí a pilosidade dos barbudos chamar a atenção.) No início, eram bem-intencionados, mas o poder é veneno que corrói. Todos sabem no que deu. Como resultado, na cabeça do eleitor médio, cristalizou-se a equação: esquerda = corrupção.

Na última eleição, as portas estavam abertas para a alternância. Em princípio, era vez da direita. Numa sociedade mais organizada que a nossa, é o que ocorreria. Mas nossa falta de traquejo em matéria de posicionamento político falou mais alto. Da equação esquerda = corrupção, o que sobressaiu não foi a esquerda, mas a corrupção. Assim, quem ganhou a eleição de 2018 foi o candidato que encarnou a luta contra a corrupção.

Hoje sabemos que não pode ser arauto da anticorrupção um personagem envolto por uma nuvem de obscuras transações. Para complicar o problema, o homem se diz ‘de direita’. Todo brasileiro pensante há de estar embasbacado. Então, direita é isso? O nó nos miolos é garantido. Estamos chegando a um ponto em que, de tão usadas, certas palavras vão perdendo a força. Direita e esquerda estão entre elas.

Folha de São Paulo: GPS ideológico

Num esforço notável, que deve ter custado um bocado de trabalho, a Folha de São Paulo publicou um estudo sobre a dose de esquerdismo e de direitismo que habita cada um dos 1.800 influenciadores no Twitter em 2020. O trabalho baseou-se num emaranhado de interações tuiteiras do tipo quem segue quem e quem retuíta quem. Como resultado, ficamos sabendo que Moro está à direita, quase colado a doutor Bolsonaro. Verificamos também que Lula está à esquerda mas nem tanto. E outras coisas do gênero.

Fico um pouco desconcertado. Vamos admitir que um jornal importante não perderia tempo caprichando numa matéria se soubesse que seus leitores não estão interessados. Vai daí, me espanta o fato de o brasileiro que lê jornal precisar de um estudo pra ficar sabendo qual é o posicionamento ideológico do tuiteiro que o influencia. Será?

Quer dizer que o eleitor acompanha o pensamento deste ou daquele sem se dar conta de que é um perigoso esquerdista? Ou vai levar um susto quando descobrir que é um execrável direitista? E o que dizer então se o guru escolhido for um centrista – céus, do Centrão?

O distinto leitor não acha esquisito seguir alguém sem saber quem é?

Rachadinha

José Horta Manzano

Em texto publicado no pré-histórico ano de 2006, o jornalista Fernando Rodrigues já tratava do assunto; discorria sobre o nome que se havia de dar ao que hoje conhecemos como rachadinha. No artigo, Rodrigues explica, em detalhe, como funciona a engenhosa variante de peculato criado pela mente gananciosa de suas excelências para fraudar os próprios eleitores e enfiar no bolso nosso dinheiro. Na hora de dar nome ao crime, o jornalista hesita entre rachadinha e rachadão, sem bater o martelo.

É a menção mais antiga que encontrei ao nome dessa prática criminosa. Visto que a surrupiança é antiga, a expressão decerto havia de circular entre os praticantes do assalto. Mas ainda não era de conhecimento do distinto público, que os tempos eram mais pudibundos.

Na época, já frequentava as manchetes a expressão mensalão, criada por Roberto Jefferson, aquele que já foi deputado e mensaleiro, cassado e condenado, preso e liberado, e que hoje voltou ao convívio dos seus e tornou-se bolsonarista. Desde criancinha.

Faz alguns dias, o Ministério Público denunciou um dos bolsonarinhos, aquele que é senador (senador!). Ele é acusado de comandar uma organização criminosa – em outras palavras: chefe de quadrilha. É acusado de lavagem de dinheiro, apropriação indébita, peculato e formação de quadrilha. Coisa da pesada. Mas não está sozinho; no mesmo balaio, o MP põe 17 indivíduos: o bolsonarinho, um certo Queiroz, a esposa de um certo Queiroz e mais 14 elementos.

Quando a acusação atinge tal magnitude, não se pode mais falar em rachadinha, nome que soa inocente, quase infantil. Crime cometido por quadrilha exige nome no grau aumentativo. Recentemente, tivemos o mensalão e o petrolão. Desta vez, não pode sair por menos do que rachadão. Surrupião praticado por quadrilhão não pode ter nome em inha. É rachadão, e estamos conversados. Isso dito, ficamos no aguardo do cadeião para todos.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Defendendo nossa Amazônia

José Horta Manzano

Ontem veio mais um sinal do delírio que domina a todos os que cercam Bolsonaro. Num tuíte assinado por ele (mas cujo estilo denuncia que o autor é outro), o presidente bate na tecla da teoria da conspiração. De novo levanta a suspeita de que potências estrangeiras estão de olho na Amazônia a fim de garantirem a segurança alimentar de seu povo. É o planeta contra o Brasil, a França em primeiro lugar!

Eu gostaria muito que esse medo pânico que Bolsonaro e seu entourage têm, de ver a Amazônia invadida e subtraída à soberania brasileira, fosse apenas jogada de marketing. Mas não é. Infelizmente, o pavor é a tal ponto real que ele e seus áulicos hão de ter pesadelos e desarranjos intestinais.

Têm medo porque são ignorantes e estão mal informados. Vamos dar uma olhada em alguns pontos.

  • Diferentemente do que pensa o doutor, o Brasil não é o único dono da floresta amazônica. Ela se espalha por 9 países, todos condôminos do mesmo bioma: Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa). Se alguma potência tivesse a má ideia de ocupar aquela imensidão, arrumaria encrenca com os 9 condôminos. Entre eles, está a França, com seu poderio bélico e experiência de combate. Vai encarar?
  • Como eu disse acima, a França é dona de um pedaço da “nossa” floresta. E o que é que eles fazem com a parte que lhes cabe? Nada. Absolutamente nada. Instalaram centro espacial em Kourou (Curú), do qual grande parte de população é dependente. Afora isso, não produzem grande coisa. Não desmatam, nem criam gado. Se a França – o bicho-papão de Bolsonaro – quisesse transformar a Amazônia num grande pasto a fim de garantir sua segurança alimentar, começaria pela Guiana, pois não? Se não fizeram isso em casa, por que razão invadiriam a casa do vizinho? É puro desvario bolsonárico.
  • Se Bolsonaro & sua malta saíssem da bolha em que estão encapsulados e dessem ouvidos aos cientistas, ficariam sabendo que a destruição da floresta conduz fatalmente à desertificação de toda a região, com perturbações no clima da América do Sul inteira e reflexos até do outro lado do planeta. A umidade está intimamente ligada à permanência da vegetação. Sem vegetação, aquilo vai se transformar numa caatinga. Tanto a agricultura quanto a pecuária precisam de chuva. Sem chuva, pode dizer adeus. Amazônia vai virar caatinga. E não se fala mais nisso.
  • É impressionante ver que Bolsonaro & companheiros não conseguem entender que nenhuma potência, por maior que seja, tem capacidade de ocupar um território do tamanho da Amazônia e, na empreitada, arrumar encrenca com 9 países. Nem China, nem Rússia, nem EUA, nem Índia. Das potências menos populosas, então, nem se fala. Precisa muita gente para ocupar um território tão vasto. A Amazônia tem superfície de 5,5 milhões de km2, superior à da União Europeia. Portanto, é inocupável.

Se o distinto leitor cruzar com o presidente dia destes, dê-lhe um toque.

Memento mori

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que se aprendia latim na escola. Apesar de a língua dos romanos ter me provocado muita dor de cabeça e trazido muita nota baixa, guardei certa simpatia por ela. Volta e meia, quando dá, enxerto alguma citação, alguma máxima latina. Os romanos podiam ter seus defeitos, mas tinham notável bom senso.

Memento mori – é o título de um artigo que o Correio Braziliense publicou no caderno Opinião faz dois dias. O autor é Otávio do Rêgo Barros, general de divisão e doutor em ciências militares, aquele senhor sério e comedido que foi porta-voz de Bolsonaro do primeiro dia de governo até um mês atrás. Dizem as más línguas que ele foi expelido do cargo por ter caído em desgraça junto a um dos bolsonarinhos, aquele mais desequilibrado e intriguento.

O artigo do general já começa com citação latina, coisa fina. O texto é o reflexo do jeitão do autor: claro, pausado, bem explicado, ponderado, sóbrio. E erudito. Ele cita batalhas da segunda Guerra Púnica, travadas entre tropas romanas e cartaginesas 22 séculos atrás, embates em que entra em cena Aníbal Barca, aquele que atravessou os Alpes montado em elefantes. Me lembrou as aulas de dona Leocádia – quanto tempo!

Mas vamos deixar os elefantes e voltar ao general. Seu artigo, elegante, não cita nomes. Mas descreve claramente o comportamento do antigo chefe, Bolsonaro. O título, Memento mori (=Lembra-te que és mortal), refere-se a um costume romano. Quando voltavam de uma batalha, cobertos de glória, os generais faziam-se cercar de escravos que lhes sussurravam ao pé do ouvido essa frase o tempo todo. Era para não caírem na tentação de se deixarem embevecer por aplausos e adulações, que a glória é passageira.

Batalha de Zama
Segunda Guerra Púnica, 202 a.C.

No memorável artigo, o general Rêgo Barros faz um convite à reflexão. Depois de incentivar os outros Poderes da República e a imprensa a manterem firmeza e não recuarem diante de pressões, conclama a população a exercer seu papel de «árbitro supremo da atividade política».

O general não diz isto, mas, num país em que parlamentares são corruptos e organizações de classe – se é que existem – estão anestesiadas há duas décadas, o único canal aberto para o povo mostrar descontentamento é a rua. Manifestações como as de 2013, que acabaram por derrubar Dilma e o PT, são a única porta de saída deste pesadelo. Como conclamar o povo? Não sei. Vocês, que vivem no Brasil e são peritos em feicibúquis, tuítch e zap-zap, sabem melhor que eu. Minha parte, estou fazendo aqui.

Não sei como é que Bolsonaro foi escolher Rêgo Barros para o cargo de porta-voz. O general não combinava com a súcia que gravita em torno do Planalto. Sem condições: não podia dar certo.

Se o distinto leitor tiver 5 minutos, vale a pena ler o artigo do ex-porta-voz. Não é longo. Está disponível no site do Correio Braziliense. Aqui.

Quando foi que morreram os algarismos?

José Horta Manzano

Tudo aquilo que nasceu há de morrer um dia. Isso vale não só para seres que respiram, mas também para criações do intelecto.

Palavras, por exemplo, são criadas para designar fatos humanos. Na medida que esses fatos continuam a existir, elas permanecem vivas; assim que o fato sai de cena, elas tendem a desaparecer. Se não desaparecem, ficam guardadas numa gaveta tão funda que ninguém mais lembra de espichar a mão pra encontrá-las.

Uma palavra que sempre me pareceu simpática é algarismo. Talvez os mais jovens nem saibam o que significa. Algarismos são a base da representação aritmética. São dez sinaizinhos que se combinam para formar todos os números. O número 12, por exemplo, é formado por dois algarismos: o 1 e o 2. O número 79 é composto pelos algarismos 7 e 9. O jovem distinto leitor já deve ter entendido: estou falando do que hoje se conhece por dígito.

Quando frequentei a escola, faz muito tempo, algarismo se chamava algarismo. A palavra dígito não passeava pela linguagem do dia a dia. Fiquei curioso em saber quando e por que uma substituiu a outra. Andei pesquisando os jornais dos anos 1950, 1960 e 1970 e encontrei.

Até fins da década de 1960, dígito praticamente não aparece, a não ser como palavra técnica ou como substituto chique para dedo. No finzinho da década de 60 e, sobretudo, na década seguinte, há uma ‘explosão digital’, se assim me posso exprimir. Menções do termo dígito se decuplicam, marcando o ponto em que a curva da história da língua virou a seu favor e mandou algarismo para escanteio.

A partir de 1970, os algarismos praticamente desapareceram. Chego a me perguntar se um jovem medianamente instruído conhece hoje o significado dessa palavra. Me pergunto também como é que se chamam hoje os algarismos romanos. Serão dígitos romanos?(Cartas para a redação, por favor.)

Anúncio de calculadora publicado em set° 1978

Como nada acontece por acaso, tentei descobrir qual foi o responsável pela substituição das palavras. Acho que descobri. No finzinho da década de 1960, como resultado da miniaturização, começaram a aparecer no mercado brasileiro as primeiras calculadoras de bolso. Substituíam as antigas, de mesa, mecânicas e pesadonas. Na época, o preço era bastante elevado; nesse sentido, embora fossem ‘de bolso’, essas calculadoras pesavam no bolso.

Nos jornais, principalmente aos domingos, aparecia anúncio. Entre as qualidades da nova maravilha, estava o número de algarismos que a tela comportava – apresentados como dígitos, num possível decalque do original inglês.

Essa é a irônica história de como a maquineta que enfiou a matemática no bolso de todos conseguiu aposentar os algarismos e substitui-los por dígitos. Sabendo que dígito vem do latim digitus, que significa dedo, é permitido dizer que a ultramoderna maquininha reintroduziu o velho cálculo ‘com os dedos’.

Tudo passa
O tempo corre
Passa o tempo
E tudo morre

Vacina obrigatória?

José Horta Manzano

Em matéria de saúde, cabe ao poder público informar, orientar e aconselhar a população; em seguida, com a informação no bolso, é a vez de cada um decidir por conta própria.

Tirando menores de idade, impotentes e pacientes com problemas mentais, nenhum cidadão deveria ser submetido a nenhum procedimento médico contra sua vontade. Em tese, é assim que funciona em país civilizado.

Por esse princípio, ninguém deveria ser obrigado a tomar vacina. Acontece que, na prática, a teoria é outra. No Brasil, a colossal desigualdade social faz que a informação não atinja com a mesma precisão todas as camadas da população.

O cidadão esclarecido entende facilmente que a vacina – “chinesa” ou não – é a única tábua de salvação disponível contra a epidemia. Já no cidadão humilde, o pavor da injeção pode superar o medo da covid; fugirá da picada e continuará exposto a ser contagiado e contagiante.

Assim, soluções que funcionam em sociedades homogêneas podem não dar certo entre nós. Em alguns países altamente civilizados, vacinação não costuma ser obrigatória. É o caso da Suíça, por exemplo, onde cada um decide por si. No Brasil, deixar total liberdade a todos os cidadãos é caso complicado.

O problema já existia antes da internet, mas o advento das redes sociais e de toda a cacofonia que ela difunde agravou a situação. Hoje, basta um indivíduo – mal informado ou mal intencionado – soltar um boato sobre supostos perigos da vacina, e pronto: logo uma multidão de “fólouers” sai por aí repetindo a mesma asneira. Quando esse indivíduo mal informado (ou mal intencionado) é o presidente da República, a difusão do pânico é mais abrangente.

Agora vem a parte irônica da situação. Quanto mais o presidente esperneia, mais seus devotos repicam o boato e mais gente foge da vacina. Nesse ritmo, o resultado será o alastramento da doença, o que concorre para a superlotação de UTIs e a falência do sistema hospitalar – situação que não interessa a ninguém.

Portanto, o esperneio do presidente surte efeito contrário ao que ele deseja: acaba reforçando a necessidade de impor a vacinação obrigatória, a fim de evitar o colapso da rede nacional de saúde.

É irônico. Mais ainda, é afligente que ele não se dê conta disso.

Ardido

José Horta Manzano

Em setembro de 2018, o mais significativo repositório da memória nacional virou tragédia e deixou de existir. Quando queimou o Paço de São Cristóvão, que abrigava o Museu Nacional, uma onda de comoção bateu nos costados do mundo civilizado. Uma catástrofe.

Na ocasião, escrevi um artigo contando curiosidades do passado de um edifício que foi residência de quatro gerações de monarcas. As eleições presidenciais estavam próximas e, naturalmente, não se sabia ainda quem havia de vencer. Eram tempos de suave esperança para os que não suportavam mais o descalabro dos governos lulopetistas.

Formulei então votos de que o próximo presidente, fosse ele quem fosse, fizesse uma visita à Biblioteca Nacional logo no início do mandato. Em matéria de memória nacional, é certamente a joia que nos restou depois da perda do museu arso(*).

Ai de nós, quem é que podia imaginar! Acho que ninguém se tinha dado conta de que estava subindo ao trono o indivíduo mais ignorante jamais eleito no Brasil. Pra piorar, apesar de não ter aprendido nem o básico, doutor Bolsonaro despreza a Educação, pisoteia as Relações Exteriores e tem feito o que está em seu poder para a destruição de nossa cobertura vegetal e para a desertificação do país.

É muita desgraça junta. Acho que o presidente aplaudiria se a Biblioteca Nacional ardesse e se, no terreno, fosse instalada uma filial da Disneylândia. É lastimável que, desde que virou o século, o Brasil tenha sido presidido por ignorantes. Para a cultura nacional, o golpe tem sido duro.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Com o Lula, a intenção era boa, mas o resultado foi pífio. Numa projeção que a psicologia talvez explique, pensou em dar ao país a possibilidade de fazer os estudos que ele não tinha feito. No entanto, passando por cima da instrução elementar, fomentou a abertura de dúzias de faculdades de beira de estrada. (É fato que uma faculdade é mais visível que um grupo escolar, mas ninguém chega lá sem ter passado por aqui.) Botou Gilberto Gil no Ministério da Cultura; o moço é excelente músico, mas… ministro da Cultura? No espremer dos limões, o Lula relegou a formação elementar à ventura.

Da Dilma, esperava-se uma ‘gerentona’ firme e forte. Ao fim e ao cabo, tivemos uma ‘presidenta’ autoritária, falsificadora do próprio currículo, de mente confusa, que não deu a mínima atenção à formação dos brasileirinhos. Sua ‘Pátria educadora’ não passou de slogan.

Do presidente atual, dá tristeza falar. É esse estropício tosco que está aí. Deu vexame na escolha de titulares para a Educação e para a Cultura. Não visitou (nem visitará) a Biblioteca Nacional. Talvez nem saiba que ela existe. Livro não é seu terreno de predileção. Só nos resta torcer pra que ele vá se embora logo. E que o próximo seja um bocadinho melhor. Será difícil ser pior, mas, no Brasil, nada é impossível – principalmente a piora.

(*)Nota etimológica
Arder corresponde diretamente ao verbo latino ardeo/ardere, que significa estar em chamas, queimar. O particípio perfeito latino é arso, palavra que, segundo o Volp, existe em português. Tanto pode ser adjetivo como substantivo.

É curioso que nenhum dicionário online traga esse verbete. Consultei Houaiss, Priberam, Aulete, Michaelis, Porto Editora, Cândido de Figueiredo e 7 Graus – sem sucesso. O Volp é um vocabulário que se limita a atestar a existência da palavra, dar a grafia e o gênero gramatical; porém, não dá o significado. Assim, resta supor que arso tenha o sentido que tinha na língua latina.

Em português, os descendentes de arder não são multidão: ardido, ardor, ardência, ardente, aguardente. E, naturalmente, arso(=queimado, que ardeu, ardido).

Quem tem medo?

José Horta Manzano

Dois dias atrás, o Estadão publicou em editorial:

«O senador Renan Calheiros, alvo de 17 inquéritos em curso no Supremo, resolveu dar seu apoio explícito a Bolsonaro, dizendo que o presidente “pode deixar um grande legado para o Brasil que é o desmonte desse Estado policialesco que tomou conta de nosso país” – em referência à Operação Lava Jato.

Segundo Renan Calheiros, a nomeação de Kassio Marques para o Supremo, bem como a de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República e a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, faz parte desse “desmonte”.»

Renan Calheiros
by Lucas ilustrador

O distinto leitor tem medo da Lava a Jato? Receia ser apanhado e terminar na Papuda, em Bangu 8 ou noutro estabelecimento penitenciário? Tenho certeza de que não. Corruptos não frequentam este espaço, que isto aqui é lugar de gente séria. Eu também não receio a Lava a Jato nem nenhuma outra operação contra ladrões do dinheiro do Estado.

Pois então, como é que fica? Quem é que tem medo da Lava a Jato? Quem e por que – a começar pelo presidente da República – sonha com seu “desmonte”?

Não precisa nem perguntar, pois não? Quando alguém, seja quem for, se mostrar favorável ao fim de operações de caça aos corruptos, desconfie. É bem provável que esteja com o rabo preso.

Pro santo

José Horta Manzano

Estamos em época de preenchimento de vaga no STF. Brasília ferve. Candidatos não faltam. Dado que cabe ao presidente da República indicar um nome, postulante que se preza tem o dever de ofício de bajular doutor Bolsonaro. Muitos foram os candidatos, mas só um foi escolhido. E o indicado é… doutor Kassio Marques! Naturalmente, desde que o Senado da República dê aval, fato que, nos tempos que correm (e nas benesses que correm por trás), é dado como favas contadas.

Doutor Kassio vem reforçar o time dos que têm K, W ou Y no nome. Este blogueiro é do tempo em que essas letras eram, por assim dizer, proibidas. A professora ensinava que eram estrangeiras. É como se, para entrar em nossos livros, tivessem de apresentar passaporte visado.

A gente tinha inveja de quem tinha uma dessas letrinhas no sobrenome. Os pais de doutor Kassio hão de ter sofrido desse complexo de não-estrangeiridade. Como sentiam falta das letrinhas no sobrenome e não havia jeito de inseri-las, tascaram um K no nome do filho, logo no começo, que é pra todo o mundo ver. O novo integrante fará companhia a doutora Weber e a doutor Lewandowski. No quesito passaporte visado, no entanto, este último é campeão até agora imbatido: tem dois W no sobrenome.

Ilibada
Como manda a Constituição, o Senado avaliará se o indicado é ou não é senhor de notável saber jurídico. Confirmará também se sua reputação é ilibada. Interessante, esta última palavra. Anda sempre com a reputação a tiracolo. Nunca a vi em companhia de outro substantivo. De onde vem ela?

Vem de libar – verbo raramente utilizado, embora corresponda a um gesto que se vê frequentemente. Libar significa entornar no chão a bebida que estava num copo. Era costume dos romanos de dois mil anos atrás. Em determinados cultos aos deuses, o oficiante apanhava um cálice de bebida, aflorava com os lábios e versava o conteúdo ao solo em oferenda.

O verbo saiu de uso no português atual, mas o gesto perdura, embora um pouco mais egoísta. O legítimo bebedor de cachaça entra no boteco e pede uma caninha. Em seguida, inverte a ordem da oferenda. Primeiro, joga um trisquinho no chão, um presente ao santo – pouco, mas suficiente pra não deixar ninguém aguado. Em seguida, engole o resto (ou seja, praticamente tudo).

Mas fiquem frios: no governo atual, não há mais cachaceiros. São todos devotos da tubaína. E de um delicioso pãozinho encharcado com leite condensado. Nada de dar pro santo, porém! E quem deixar pingar na toalha paga o almoço!

Ilibado entrou no uso comum com o significado de inteiro, não tocado, não corrompido, imaculado, puro. É a isso que a Constituição se refere ao exigir reputação ilibada.

Falando de STF
Achei interessante esta chamada do Estadão deste 12 de outubro. É verdade que a Constituição não proíbe que membros do STF conversem com as paredes. Assim mesmo, o bom senso faz supor que nem doutor Fux, nem os demais ministros, têm o hábito de falar sozinhos. Tudo o que dizem é dito a alguém. Esse alguém é designado como interlocutor. Interlocutores podem ser colegas, a esposa, um contínuo, um motorista ou jornalistas. Em resumo, é evidente que, quando se diz algo, diz-se a interlocutores.

A chamada não perderia nada se eliminasse “a interlocutores”. Ficaria mais enxuta, mais elegante, e daria o mesmo recado. Em tempos de penúria, cortar excessos é dever de todos.

Atrasado porque jovem

José Horta Manzano

Desde criancinha (olhe que já faz tempo!), ouço dizer que o Brasil é atrasado porque é país jovem. Outros países – na Europa, por exemplo – seriam mais adiantados porque já tinham milênios de história quando as primeiras caravelas aportaram na Bahia. Em resumo, os europeus já tinham tido tempo de civilizar-se.

Acredito que os que pensam assim aceitam a teoria de um Brasil construído sobre tábula rasa, tudo começando do zero, como se nada existisse antes. Para muitos, essa explicação deve parecer razoável, razão pela qual saem repetindo por aí. Quanto a mim, acho que é pura balela. Conversa mole pra boi dormir (ou colóquio flácido para acalentar bovinos, como dizíamos).

Há que ter em mente como era a Europa na época da instalação das primeiras colônias europeias no Brasil. No século 16, Espanha e Portugal eram potências planetárias. Eram tão importantes que conseguiram do papa – a maior autoridade da época – a bênção para dividirem o globo entre eles dois, sem dar fatia a mais ninguém.

Atualmente, só nações que estão na ponta do progresso tecnológico conseguem enviar um foguete à Lua, pois não? Pois naquela época, só os países ibéricos dispunham do saber necessário para dedicar-se à navegação de longo curso. Só os dois, nenhuma outra nação. Não era pra qualquer um.

Manobrando caravelas que hoje nos parecem ultrafrágeis, portugueses contornaram a África e chegaram ao Extremo Oriente, uma façanha. Castelhanos atravessaram o Atlântico e aportaram na América. Ambos mostraram agilidade no manejo da tecnologia mais avançada. Os estabelecimentos coloniais mais numerosos na América, aliás, foram justamente fundados por ibéricos.

Vista de Mauritsstad, capital do Brasil Holandês
by Frans Post (1612-1680)

Espanhóis e portugueses não foram os únicos a povoar o território onde está o Brasil atual. Holandeses, entre outros, também por aqui estiveram, na Bahia e, sobretudo, em Pernambuco. Na época em que eles se estabeleceram em Olinda, os Países Baixos enriqueciam com o comércio. Por lá, floresciam as artes do mais elevado nível – Rubens e Rembrandt, note-se, foram contemporâneos de Maurício de Nassau, o governador-geral das colônias holandesas do Brasil.

O povoamento de nosso território não foi obra de extraterrestres. Os que para cá vieram não tinham brotado do nada. Eram europeus e traziam na bagagem, prontas para o plantio, as sementes daquele avanço tecnológico e daquela cultura milenar. Quanto a nós, somos herdeiros diretos desses milênios de civilização. Se a coisa encruou, não foi por pecado de origem, mas por erro de manipulação.

Se tivesse conseguido aliar o melhor da experiência europeia à vastidão e às promessas da nova terra, o Brasil seria um país fantástico. Não deu certo. Em algum ponto, desandou. Excetuando bolsões de excelência aqui e ali, estamos mergulhados num oceano de atraso. A causa certamente não é a juventude do país.

De salários

José Horta Manzano

Passeando pela internet, caí por acaso num site que divulga os salários do funcionalismo público. São fortes as diferenças entre uma categoria e outra. Para quem está acostumado, esses contrastes devem parecer corriqueiros; para quem vive, como eu, longe do país há muito tempo, assustam. São inacreditáveis, de deixar de queixo caído.

A gente sabe que o Brasil está na lista dos campeões mundiais de desigualdade, informação que não parece comover ninguém em nosso país. Greves e manifestações por aumento de salário, frequentes algumas décadas atrás, são hoje raras. Os tempos do lulopetismo no poder deixaram um rastro de sindicalistas anestesiados, deve ser isso. Parece que agitadores de massas desaprenderam a razão pela qual estão lá.

Os números que tive ocasião de observar são fornecidos pelo Portal da Transparência do Estado de São Paulo, fonte que suponho confiável. Informam que, no mês de agosto passado, o salário médio do funcionalismo público paulista foi de 4.900 reais, em números arredondados. Até aí, morreu o Neves. O que atordoa qualquer um é o valor do salário mais elevado: 395.000 reais. Yes, my dear friend! Faltou pouco para meio milhão. Em um mês.

Observe-se que o governador, que se suporia fazer jus ao salário mais elevado, recebeu 23 mil reais. Portanto, há funcionários infinitamente mais bem pagos que ele, o que não deixa de ser um assombro.

Anos 40: preparando o pagamento do ordenado

O salário mais elevado equivale a 80 vezes o ordenado médio. Depreende-se que, só no mês de agosto, o contemplado com o maior salário recebeu o que o funcionário médio receberá em 6 anos e 8 meses (=80 meses). Examinando de outro jeito, é de crer que o dono do supersalário produza tanto quanto 80 colegas reunidos. É de crer.

Seja como se examine, fica evidente que algo está muito errado com os quase 500 mil funcionários do estado. Das duas uma. Ou a imensa maioria deles é de gente mal paga, o que é uma aberração. Ou é a elite funcional que está recebendo remuneração muito acima do que merece e do que é razoável, o que é tremenda distorção.

Eu me pergunto para que servem esses portais de transparência facilitados pelo Estado magnânimo. Fica-se sabendo que o cidadão X recebe 80, 100, 130 vezes mais que o cidadão Y e… fica tudo por isso mesmo? Não há nenhuma reação, nenhum movimento de revolta? Parece que esse tipo de informação só serve pra satisfazer a curiosidade malsã dos que querem saber quanto ganha o colega que se senta ao lado.

A novela dos apartamentos

José Horta Manzano

A novela dos apartamentos comprados a dinheiro pelos Bolsonarinhos tem causado espanto – se é que algo ainda causa espanto na política brasileira.

Acho engraçado a gente dizer «dinheiro vivo», expressão que faz pressupor a existência de hipotético ‘dinheiro morto’. Bem, era só uma observação. Não vamos mexer em vespeiro, que vespa pode picar.

O clã Bolsonaro tem mostrado forte preferência por investir em imóveis, pagando sempre com ‘dinheiro vivo’. É curioso. Se o Brasil fosse um país nos conformes, uma denúncia desse tipo seria objeto de investigação imediata, profunda e minuciosa. Caso se descobrisse que a origem do ‘dinheiro vivo’ era ilícita, o caso terminaria num tribunal criminal. Com condenação garantida.

Sabe-se que o Brasil não é muito dado a investigações minuciosas; sabe-se também que ver gente graúda responder pelos crimes cometidos é raridade. A cada dia, tem-se a impressão de que a Operação Lava a Jato foi uma excrescência, um ponto fora da curva. Portanto, é melhor tirar o cavalo da chuva.

Há um aspecto nessa história que me deixa perplexo. É justamente o fato de os membros do clã darem preferência a investir em imóveis o fruto de sabe-se lá que ilícitos. Um conhecido meu, de profissão contador, costuma dizer que é sempre mais fácil esconder um maço de notas do que um imóvel. Decerto, os Bolsonarinhos nunca pensaram nisso.

Paulo Maluf, um dos mais obstinados ladrões de dinheiro público que o país conheceu, já tinha aprendido, desde mocinho, que dinheiro roubado se guarda lá fora. Se foi apanhado, é porque exagerou, foi além dos limites. (Até para assalto ao erário, há que ser razoável.)

Os membros da quadrilha lulopetista, que também meteram a mão nas burras do Estado e enriqueceram com nosso dinheiro, tinham mais imaginação. Tirando uns poucos que preferiram receber o fruto do assalto em ‘dinheiro vivo’ e guardá-lo em malas, o grosso dos malandros despachou o tutu para portos seguros no exterior. Em seguida, terão investido em ações, ouro, platina, minas de cobre na Sibéria, garrafas de Bordeaux, obras de arte, coisas assim. Mas nada de apartamento no Rio de Janeiro, que ninguém é besta.

Os lulopetistas sabiam disso. Os Bolsonaros, ao que se vê, não sabiam. Devem fazer parte do que a gente costuma chamar de ‘ladrão pé de chinelo’.

A acreditar nas revelações da imprensa, é permitido deduzir que o clã se dedicou a práticas criminosas. Tivessem procurado a expertise de peritos no assunto, não estariam agora em apuros. Vai ficando cada dia mais claro que a família sofre, de fato, de pesado déficit de inteligência.

Gosto muito de histórias de ladrões como Arsène Lupin e outros ladrões de casaca. Não devo ser o único a apreciar as aventuras desse tipo de personagem, visto o número de filmes e livros em circulação. Quando se mergulha numa história dessas, a cada sequência, a gente vibra pelo ladrão. Sem se dar conta, a gente sucumbe ao magnetismo e à simpatia do elegante personagem.

Apesar de ser ilegal apropriar-se do que pertence ao alheio, quando a elegância convence e o charme opera, fica impossível resistir: nossa torcida vai inteira para o personagem. A cada vez que a polícia ameaça descobrir o herói e mandá-lo para detrás das grades, sentimos um frio na barriga.

No caso dos assaltantes do erário via sistema de rachadinhas – prática na qual a família Bolsonaro parece ter-se especializado – a gente torce mesmo é para a polícia.