Conselho de Direitos Humanos

José Horta Manzano

Nesta quinta-feira, houve renovação parcial dos integrantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Essa instância é composta de participantes de 47 países, todos devidamente eleitos. O Brasil, candidato à reeleição pela enésima vez, conseguiu o intento. Por dois anos, seu representante terá assento no Conselho.

De resto, Cuba perdeu a cadeira mas foi substituída pela Venezuela. A China e a Arábia Saudita foram mandadas embora pra casa, mas o Afeganistão continua firme e forte no Conselho, assim como o Paquistão, o Catar, o Bahrain, o Sudão – todos eles regidos por exemplar democracia, ciosa dos direitos humanos, como se sabe.

Doutor Bolsonaro, quando candidato, havia bravateado que, se eleito, retiraria o Brasil da ONU. Diante de reação indignada, deu-se conta da enormidade que havia pronunciado e suavizou: «Sacumé, eu só queria dizer sair do Conselho de Direitos Humanos, não da ONU inteira, talquei?».

Talquei. Não só o Brasil não «saiu» do Conselho, como ainda se candidatou à reeleição, fez campanha oficial e foi reeleito. Algum guru menos tapado há de ter aconselhado nosso presidente a ficar quietinho desta vez.

Agora, falemos nós. Francamente. Conselho de Direitos Humanos que teve, até ontem, China, Arábia Saudita e Cuba, e que hoje conta com Venezuela e Paquistão é hilariante. Está mais pra piada que pra coisa séria. A Arábia Saudita é aquele país onde mulher não tem direito de sair à rua sem a companhia de um homem. Não tem direito nem de dirigir automóvel. Na China e no Paquistão, todo o mundo sabe como funciona: lugar de direitos humanos é na lata do lixo. E a Venezuela, que acaba de chegar? Não é aquele país que manda os brucutus atropelarem manifestantes nas avenidas? Não é aquele país de onde só não escapou quem é ligado ao regime ou quem não tem dinheiro pra comprar a passagem?

Com um Conselho de Direitos Humanos assim, mais teria valido cair fora. Como de costume, os gurus do presidente andam defasados. No presente caso, doutor Bolsonaro devia mesmo é ter batido pé firme na primeira bravata em vez de dar ouvido a gurus. Devíamos ter caído fora desse Conselho. Que o Brasil não empreste (o que resta de) seu prestígio a essa farsa.

Prêmio Camões

José Horta Manzano

Já devo ter falado no assunto, mas certas coisas não posso deixar passar em branco. Não bebo da mesma fonte que Chico Buarque de Hollanda, tampouco comemos no mesmo prato. Regulamos na idade, é verdade (embora a vaidade me permita contar que ele é um pouco mais velho). Crescemos num mesmo Brasil, mas tivemos vivências diferentes – o que é, no fundo, natural. Afinal, cada um vive a própria vida, não a do outro.

O posicionamento político do Chico me deixa arrepiado. Mais que assustado, pensativo. Como é possível – cogito eu – que um rapaz tão inteligente, tão culto, tão estudado e tão sensível suba ao palanque de uma Dilma e se derreta por um Lula, a ponto de viajar a Curitiba pra visitá-lo na cadeia? Enfim, são coisas dele. Concluo que, embora tudo isso me pareça aberrante, não é, afinal, nenhum crime. Não seria justo tratá-lo de Geni e alvejá-lo com esterco, se é que me entendem.

Isso posto, vamos ao que interessa. Chico Buarque de Hollanda forma, junto com Tom Jobim e Ary Barroso, o trio maior da MPB no século XX. Cada um seguiu linha pessoal e tem mérito próprio: Tom Jobim, pela criação músical refinada; Chico, pelo sofisticado burilamento das palavras; Ary, pelo espírito incrivelmente avançado para a época. Para mim, estão os três num pedestal, todos no mesmo patamar. Até o momento, insuperados.

No entanto, há que considerar os comos e os porquês. Uma coisa é o posicionamento político do Chico, fora de meu limitado alcance intelectual. Outra coisa, bem diferente, são suas qualidades excelsas de ourives das palavras, de mestre da língua, daquele que tem o poder de concentrar, em meia dúzia de versinhos, o suco do modo de ser brasileiro. Para esse Chico, tiro meu chapéu e me inclino, reverente.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Aos 75 anos, o artista acaba de ser agraciado com o Prêmio Camões, a marca maior da excelência dos escritores de língua portuguesa. É distinção rara, distribuída a conta-gotas – um agraciado por ano –, atribuída a Raquel de Queirós, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago. Como se vê, não é pra qualquer um.

O Prêmio Camões foi instituído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil. É, portanto, financiado pelos dois Estados. Tradicionalmente, o diploma que o oficializa vai assinado pelo presidente da República. É nada mais que formalidade, pois o prêmio, com ou sem assinatura, já foi atribuído. Doutor Bolsonaro, movido pela habitual arrogância que só a monumental ignorância lhe permite, negou-se a assinar o diploma. Decidiu esnobar. Prometeu assinar no dia de São Nunca.

Sua atitude tem várias consequências. Em primeiro lugar, ofende o artista que já encantava o Brasil quando doutor Bolsonaro não passava de moleque de calças curtas. Em segundo lugar, ofende os brasileiros que, inteligentes, conseguem enxergar o excepcional criador por detrás da cortina de inesperadas preferências políticas. Em terceiro lugar, doutor Bolsonaro reforça a própria imagem de homem tosco, primitivo e – agora se vê – mesquinho.

Menina esquálida

José Horta Manzano

Doutor Araújo, ministro das Relações Exteriores de nossa República, abrilhantou, com sua presença, a mais recente edição da CPAC – Conferência de Ação Política Conservadora, que teve lugar em São Paulo estes dias. Não assisti ao convescote mas, pelo que pude ler, entendi que é um clube de simpatizantes da extrema-direita teleguiados por Steve Bannon e por aquele guru boca-suja venerado pelos Bolsonaros. Fico a imaginar que sorriso e bom-humor devem ser artigos raros naquelas reuniões.

Tomando a palavra, o ministro referiu-se a sueca Greta Thunberg, aquela adolescente de 16 anos que luta por um futuro menos envenenado que esse que está despontando no horizonte. Com intenção de impressionar, Araújo traçou um paralelo entre a ativista sueca e uma menina da Venezuela, de 14 anos, emagrecida pela fome gerada pelo “regime horroroso” do país.

by Mokrane Rahim, desenhista argelino

“Greta, de 16 anos, bem alimentada, bem nutrida, acolhida pelas Organização das Nações Unidas (ONU), a mesma que não faz nada por essa menina de 14 anos na Venezuela” – disse ele, aplaudido pela plateia amestrada.

Doutor Araújo se esquece de que o Brasil é bem mais rico e poderoso que todos os demais na América do Sul. Pra completar o quadro, não estamos falando de fome na longínqua África, mas na Venezuela, um vizinho de parede. Na qualidade de ministro – e homem sensível, pelo que seu discurso demonstra – Araújo tem maior obrigação e melhores condições do que Greta Thunberg, ONU ou qualquer outro organismo de fazer algo por essa “menina malnutrida” que serve de argumento a todos mas que ninguém mexe um dedinho pra ajudar. Que é mesmo que doutor Araújo fez?

Quá! O ministro vê o cisco no olho alheio mas não enxerga a tora de madeira que está no seu.

Dia zero dois

José Horta Manzano

Faz muito tempo, dinheiro grosso não se carregava em cueca nem se estocava em mala dentro de apartamento. Para quantias importantes, havia documentos escritos. Os mais comuns eram a nota promissória e o cheque. O devedor preenchia o título à mão e entregava ao credor. Era menos volumoso que maços de notas ‒ e bem mais prático.

Como o Brasil sempre foi um país onde todo cuidado é pouco, o devedor costumava se precaver contra falsificações que, caso ocorressem, poderiam custar-lhe caro. Quando o valor era de mil e pouco, não grafava «mil», mas «hum mil». Procurava assim evitar que algum mal-intencionado pudesse transformar o «mil» em «dez mil», por exemplo. A mesma técnica era aplicada para grafar a data. Caso o dia fosse anterior ao 10 do mês, punha-se um zero à esquerda. Dia 8 virava dia 08.

Esse tempo passou. As transações eletrônicas aposentaram os antigos títulos de pagamento. No entanto, por uma força inercial difícil de explicar, muita gente continua a tascar um zero ao grafar o dia do mês: dia 02, dia 05 e por aí vai. Não é só o dia que ganha a curiosa companhia desse simpático zero. Tenho visto crianças de 03 anos, pintos de 01 dia e provas de 07 questões.

E olhe que o modismo tende a perpetuar-se, visto que é ensinado aos pequerruchos desde que se aplicam a desenhar os primeiros garranchos na escola. Estranho costume.

Eleições: as novas regras

José Horta Manzano

Nas eleições de 2018, quase nenhum dos políticos tinha se dado conta de que o mundo estava mudando. A maioria apostou na permanência dos costumes dos bons velhos tempos, quando a propaganda eleitoral pela tevê reinava poderosa. Perderam o bonde. Não se deram conta de que nova mídia tinha surgido e estava sendo potencializada pelas redes sociais. O único que acreditou nessa força foi doutor Bolsonaro.

Talvez ele tivesse vencido mesmo sem a ebulição de fêices e zaps. Ou, quem sabe, o generalizado sentimento de ojeriza ao lulopetismo, sozinho, não tivesse sido suficiente para garantir-lhe a vitória. O fato é que exasperação contra a corrupção aliada à agitação das redes constituiu combustível suficiente para o sucesso nas urnas.

Será interessante observar a evolução da estratégia dos candidatos na próxima campanha. Agora, que todos já se entenderam que a antiga propaganda eleitoral televisiva morreu, substituída pelo fervilhar das redes, teremos, em princípio, jogo plano. Todos entrarão no páreo sabendo. Todos lutarão com armas idênticas. A nova realidade tende a aplainar, a igualar candidatos. Por detrás de um tuíte, todos se parecem.

Antigamente, construção de uma ponte ou de uma estrada tinha peso capaz de arrecadar votos – e só quem estava na presidência podia cortar a fita da inauguração. Hoje mudou. Tuitar, todos podem. Pra ter legião de seguidores, é só pagar, que robôs e hackers de aluguel estão aí pra isso. Foi-se o tempo em que marqueteiros espertos, com um único slogan maroto, recrutavam milhões de eleitores. A eleição está se democratizando. Não é impossível que tenhamos, daqui a três anos, a disputa de maior suspense desde 1988, quando entrou em vigor a atual Constituição.

Aviso aos futuros candidatos
A eleição começa agora. Não convém esperar a abertura da temporada oficial de campanha pra começar a agir. Quem tiver pretensões a subir ao Planalto tem de começar a agitar já. Uma simples consulta ao google ensina o que é e como se fabrica um ‘bot’ – um robô informático. Pra principiantes, não sai caro. Dá pra faer em casa. Pra atigir escala industrial, custa um bocadinho mais. Mas não muito.

Robô
É termo que se difundiu em todas as línguas europeias a partir dos anos 1920, através de uma peça de ficção científica de Karel Čapek (1890-1938), escritor de língua tcheca, nascido no então Império Austro-Húngaro. O autor povoou sua peça R.U.R. de autômatos dedicados ao trabalho. Chamou-lhes roboty, plural de robot.

Robot é raiz presente em todas as línguas eslavas para designar o trabalho e derivados (trabalhador, trabalhoso). Chegou a nossa língua através do francês.

Nesta surpreendente República

José Horta Manzano

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, o Lula deve logo estar de volta à cobertura de São Bernardo. Se alguém está torcendo pra encontrá-lo no aeroporto e viajar no mesmo avião, esqueça: Lula não é homem de pôr os pés em aparelho comum e se misturar ao populacho. Desde que, em 2007, foi vaiado no Maracanã, quis ver o povo longe. Só se apresenta a plateias amestradas. Ao despedir-se de Curitiba, voará com as próprias asas – ou com asas amigas, o que dá no mesmo.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, além de ser solto, o Lula deve logo ganhar direito a novo processo. O atual será anulado. Volta tudo à estaca zero. Com uma ajudazinha de nossa lenta Justiça, o homem pode dormir tranquilo: não viverá suficientes anos pra ver o fim do processo. Pode até receber de volta o sítio e o triplex confiscados, com direito a desculpas oficiais e indenização. Não duvide.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, uma vez solto e “desjulgado”, o Lula se agarrará à primeira ocasião de se candidatar à presidência. Será em 2022. Sergio Moro tem dado mostra de que, até lá, deverá ter derretido por completo. Outros eventuais candidatos não são páreo. A disputa se travará entre o Lula e doutor Bolsonaro.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, teremos uma situação do tipo “feitiço contra o feiticeiro”. Me explico. Em 2018, um desprestigiado Lula, no comando de um desgastado PT, foi o grande responsável pela eleição de doutor Bolsonaro. Se o demiurgo de São Bernardo tivesse sido menos arrogante e dado apoio a um candidato da mesma família política mas não afiliado ao PT, o resultado da eleição poderia ter sido outro.

Em 2022, caso os finalistas sejam doutor Bolsonaro e o Lula, a vitória periga mudar de campo. Fortemente desprestigiado com menos de um ano de mandato, o atual presidente deve estar na lona daqui a três anos. Apesar dos revezes, continua arrogante como só ignorantões conseguem ser. Sua antipatia fará dele o grande cabo eleitoral do Lula. Será o feitiço engolindo o feiticeiro.

Ignorantes e ignorantes

José Horta Manzano

A palavra ignorante pertence a família numerosa. Seus membros estão presentes não só entre nós, mas também em quase todas as línguas europeias. Mas esse é assunto que desenvolveremos numa outra oportunidade.

Hoje gostaria de lembrar ao distinto leitor que, na variante brasileira da língua portuguesa, o termo ignorante tem dois significados principais.

Ignorante 1
É aquele que ignora, que desconhece, que não sabe. Exemplos:

Joãozinho é realmente um ignorante; imagine que tirou zero em três provas!

Está escrito ali na parede! Não sabe ler, ignorante?

Ignorante 2
É o indivíduo abrutalhado, malcriado, tosco, pesado, grosseiro, não necessariamente ignaro. Exemplos:

Você viu? Uma velhinha de pé e aquele ignorante sentado!

Marido que maltrata a mulher é ignorante.

Tivemos, na época em que a patota lulopetista estava aboletada nas poltronas macias do andar de cima, bom exemplo de ignorantes no poder. Eram do tipo 1, aqueles que não sabem. A tônica era dada pelo próprio presidente, avesso a todo tipo de alimento que lhe pudesse enriquecer o intelecto. Obedientes, os demais acompanhavam o chefe. Com deleite.

Varridos os ignorantes do tipo 1, convivemos agora com um bando de ignorantes do tipo 2. Ai, Jesus! Em matéria de conhecimento, embora não sejam luminares, até que sabem o básico. Não se imagina, por exemplo, que acreditem na terra plana. Já no quesito civilidade, são todos espinhudos. De novo, quem dá o tom é o presidente, o mais ignorantão, aquele que carrega sempre um insulto no bolsinho, pronto a ser disparado. Obsequiosos, os demais seguem o chefe. Com facilidade, desdenham e ofendem. São pesadões, vulgares, rasteiros.

Este blogueiro, já entrado em anos, tem pouca esperança de vir a conhecer um governo cuja característica maior não seja a ignorância. Por enquanto, estamos condenados a assistir a um desfile de ignorantes, com direito a alternância entre ignorantes 1 e ignorantes 2. Até quando vai durar? Cabe à próxima geração decidir se rompe esse círculo vicioso ou se deixa tudo como está.

Psicotécnico

José Horta Manzano

Como eu, o distinto leitor deve, estes últimos tempos, ter a sensação de estarmos sendo dirigidos por dementes. As insanidades proferidas e cometidas por ocupantes de altos cargos da administração demonstram a absoluta necessidade de esses funcionários enfrentarem um exame de sanidade mental antes de tomar de posse do cargo.

Não é brincadeira. De loucos, o mundo está cheio; só que ninguém quer desequilibrados no comando de postos importantes. Alguém entraria num avião cujo piloto fosse destrambelhado? Não, evidentemente! E por que é que nós nos deixaríamos conduzir por um presidente perturbado? E por que entregaríamos a chefia da PGR ou do MPF a gente desregulada? Por que ceder uma poltrona no STF a um ministro maluco? Uma decisão descontrolada de um deles pode trazer consequências dramáticas ao país inteiro.

Acredito que uma aferição de equilíbrio emocional deveria ser exigida de cada um desses personagens antes de assumirem o posto. No caso de cargo eletivo, é complicado pedir o exame depois da eleição. Pra remediar, só resta um caminho: o exame de sanidade mental tem de figurar entre os quesitos exigidos para registro de candidatura.

Essa providência não nos garantirá governantes excelentes. Mas, pelo menos, deverá nos proteger contra a subida de tantãs a cargos de responsabilidade.

Dom Bolsonaro Primeiro

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 setembro 2019.

Doutor Bolsonaro emergiu das catacumbas de um «baixo clero» tão populoso quanto inexpressivo. Assim que tomou posse do cargo, cercou-se de equipe heterogênea. Ministros de primeira grandeza foram nomeados ao lado de integrantes um tanto folclóricos. O conjunto dos designados até que parecia sólido, feito pra durar. Àquela altura, muita gente fina acreditou na coesão e na longevidade do grupo. Os novos chegados traziam ideias e, até certo ponto, supriam faltas e falhas. Enriqueciam os desnutridos dotes presidenciais. O tempo que passa, no entanto, lesa ilusões.

O presidente não era um habituado dos costumes palacianos. Não contava entre os assíduos dos salões seletos da República. Não tendo antes exercido cargo executivo, não sabia dos beija-mãos e dos rapapés que cercam um chefe de Estado. Há de ser realmente um choque ser alçado, de repente, a tão excelso posto. Da noite para o dia, brotam assessores, serviçais, secretários, auxiliares – um mundaréu de gente. O chefe acaba desaprendendo a simples arte de abrir portas, visto que haverá sempre um solícito assistente pra fazê-lo. Entronizado no novo cargo, doutor Bolsonaro há de ter viajado de surpresa em surpresa. O poder, vitaminado por tantas delícias, é inebriante.

Atualmente, ninguém é capaz de traduzir, à clara, o que ocorre no entorno presidencial. O povo tem a impressão de que, ao votar num presidente, acabou elegendo uma família. Não estava escrito nos santinhos da campanha, mas a realidade é essa. Diferentemente de famílias discretas que reinam em outras terras, a nossa é barulhenta. Num ritual diário, pai e filhos falam pelos cotovelos. Dão entrevista, tuítam, postam, gesticulam, vociferam, ameaçam, humilham, ralham, espinafram, esculhambam, ironizam, atacam.

O eleitor, que tinha esperança de entrar num período mais sereno depois de 15 anos conturbados, sente frustração diante de tamanha violência vinda daqueles que deviam zelar pela pacificação nacional. Do estrangeiro, ecoam protestos contra nosso país. Grandes firmas começam a boicotar produtos brasileiros em razão da apatia do governo federal em matéria de respeito ao meio ambiente. Nossa terra, vítima de embargo! O que era inimaginável está se tornando realidade. Passamos dois séculos a construir imagem de país sorridente, acolhedor e pacífico… pra uma família destruir tudo com um par de tuítes? É insuportável.

The Little King, criação de Otto Soglow (1900-1975)

Por capricho ou erro de cálculo, doutor Bolsonaro tem criado um cordão de vácuo em torno de si. Dos assessores graduados da primeira hora, diversas cabeças já rolaram. Dos que (ainda) não se foram, os mais importantes estão mergulhados em ‘fritura’ a fogo lento. São alvo constante de humilhações e flechadas. Não vão demorar a sair. Com a partida de assessores antes apresentados como excelentes, doutor Bolsonaro está se isolando. Decifrada a charada, aparece a desavergonhada propensão de nosso presidente a tornar-se Dom Bolsonaro Primeiro. É aposta temerária. Ao desligar todas as luzes que lhe estão em torno, o presidente tende a aparecer como farol e guia único da nação. Quer pôr seu nome no topo do edifício, descurando o tremendo risco de ser atingido por um raio.

Daqui a três anos, se ele segurar o cargo até lá, virá a hora do veredicto. Caso a maior parte da população tenha a sensação de que o governo deu certo, Bolsonaro terá ganhado a aposta; será reeleito com um pé nas costas. Se, no entanto, a impressão reinante for de que o governo deu errado – hipótese mais provável –, doutor Bolsonaro terá dado com os burros n’água. A manutenção de nomes de primeira grandeza a seu redor, ainda que ofuscasse sua glória, seria biombo providencial nessa hora. «Não foi culpa minha. Eu dei a ordem certa, foi o ministro X que não cumpriu!» – seria a justificativa. Do jeito que o presidente está fazendo, beberá sozinho o cálice amargo da derrota. Agora, vamos ser francos: doutor Bolsonaro dá mostra mesmo é de sonhar com um golpe militar. No entanto, se esse desastre devesse ocorrer, seria ele a primeira vítima.

Meteu a mão

José Horta Manzano

«O cara meteu a mão» – foi o aveludado diagnóstico proferido por doutor Bolsonaro sobre a situação de Lula da Silva. Como de costume, Jair Messias usou palavras que combinam com seu esmerado discurso. Foi numa entrevista dada segunda-feira ao Estadão.

Na mesma ocasião, Bolsonaro deu sua opinião sobre a concessão de liberdade condicional ao Lula, soltura que o encarcerado recusa. Disse: «É direito de Lula ficar preso lá; quer ficar, fica». O linguajar é pedregoso, mas basta completar as palavras faltantes pra tudo ficar claro.

Discordo da opinião do presidente. Não acho que “ficar preso lá” seja um “direito” do Lula. Acho menos ainda que “se quer ficar, fica”. Levar a vida em liberdade, sim, é um direito de todo cidadão que nada deve à justiça. Já o condenado está com esse direito suspenso. Enquanto não tiver pagado a dívida, terá de “ficar preso lá”. Não por direito, mas por imposição. Não tem escolha. A sentença impôs-lhe cerceamento da liberdade de ir e vir.

Seguindo o mesmo raciocínio, o presidente se engana quando diz “se quer ficar, fica”. Prisão não é a casa da mãe joana. Não entra quem quer quando quer. Não sai quem quer quando quer. Se a Justiça determinar que ele deve ficar, ele fica. Se ela determinar que ele tem de sair, ele tem de sair. Não cabe ao condenado decidir se quer passar um tempinho a mais na cadeia, seja por qual motivo for. Cadeia não é hotel custeado pelo contribuinte.

Nessa história estão todos errados.

Doutor Bolsonaro. Não tem de se meter em assuntos que nâo lhe dizem respeito. Por mais que ele seja estabanado, as regras da liturgia presidencial não se amoldaram a ele; continuam as mesmas de sempre: do presidente, espera-se comedimento.

A Justiça. Não deveria determinar o livramento condicional do Lula justo agora, quando o STF está prestes a tomar decisões cruciais. Fica parecendo politicagem.

Lula da Silva. Deveria mais é meditar sobre a passagem do tempo. Sua idade lhe permite. Cada um tem seu momento. O ápice de sua carreira já passou faz um bocado; não volta mais. Daqui para a frente, é tempo de colher. Seus «deslizes» foram desastrosos e mancharam a biografia. Eventual anulação do processo não o inocenta. Atrasa o processamento da justiça, mas não o torna inocente, nem o isenta de enfrentar de novo os tribunais. A tentativa de ressurgir das cinzas é estéril, que o Lula está na ladeira descendente. O povo está cansado de salvadores da pátria. Os grandes triunfos dele ficaram no passado.

Vanzolini e a floresta

José Horta Manzano

Paulo Vanzolini (1924-2013) foi um zoólogo brasileiro que, secundariamente, fazia música. Nunca viveu de sua arte, mesmo porque não precisava. A atividade científica garantia ganho suficiente. Assim mesmo, emplacou sucessos como a música Ronda (vista por alguns como o hino de São Paulo), Volta por cima (aquela que dizia: ‘levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima), Praça Clóvis (que Chico Buarque gravou). Deixou centenas de composições, muitas inéditas.

Vanzo, apelido que lhe davam os mais íntimos, era genioso, como se dizia antigamente. Não era de trato fácil. Ranzinza, tinha a língua afiada e costumava dizer o que pensava, o que nem sempre agradava a todos.

Paulo Vanzolini, aos 88 anos, em 2012.

Sem formação musical, não conhecia solfejo, não tocava nenhum instrumento, não distinguia modo maior de modo menor. Já na ciência, eram outros quinhentos. Desde jovem, seu ofício o levou a ter contacto intenso com a mata virgem. Descobriu e descreveu dezenas de espécies desconhecidas. Como ninguém, conheceu a Amazônia, sua fauna e seus habitantes.

Já lá vão mais de dez anos, instado por um jornalista a dar sua opinião sobre a floresta brasileira, não guardou a língua no bolso. O homem, que não se ajoelhava diante do ‘politicamente correto’, disse o que pensava.

Desenvolvimento insustentável
«Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. (…) A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa.

Enquanto a população crescer, você não vai negar comida. Enquanto tiver gente, e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá? A única solução é: ‘Tranca a porta e perde a chave.’»

Sabe Deus qual seria a reação de Vanzo, se ainda estivesse entre nós, diante do festival de desmatamento incentivado pelo Planalto.

Janot e o pagode

José Horta Manzano

Neste país, ultimamente, a gente navega de espanto em espanto. Quando parece que estamos no auge, que nada mais pode espantar, eis que aparece assombro maior.

O de hoje nos foi brindado por doutor Janot Monteiro de Barros. O moço, que já ocupou o posto preeminente de Procurador-Geral da República, confessou que sua aparente bonomia esconde impulsos assassinos. Revelou que «quase matou» Gilmar Mendes, ministro do STF. Numa boa. Curtiu o ódio, premeditou o crime, carregou o revólver, encaminhou-se para o local da execução mas, na última hora, murchou.

Essa história acrescenta covardia à vilania. Além de ser o vilão da quase tragédia, doutor Janot se acovardou na hora agá. E ainda tem a caradura de vir contar? Francamente, o homem tem um grave problema de equilíbrio. É destrambelhado. Até que combina com o estilo do governo atual – alô, gerente de RH do Planalto!

De loucos, o mundo está cheio. O espantoso não é que esse cidadão também faça parte da categoria, mas que tenha um dia chefiado a PGR. E, mais que tudo, fico muito preocupado com o fato de ele ter podido penetrar armado no prédio do STF.

Nunca estive lá, mas imaginava que, pra entrar, precisasse enfrentar um dispositivo desses que a gente vê no aeroporto, com pórtico detector de metais e esteira para objetos, pastas e pacotes. Ou será que doutor Janot entrou pela janela? Até que ficou bonito: Janot pela janela. Dá letra de pagode, mermão.

Nossa língua

José Horta Manzano

Surpreso (quem diria!) com a avalanche de críticas ao discurso que pronunciou no púlpito da ONU, doutor Bolsonaro reage e persevera: “Não fui agressivo”. Insiste na tese de que foi um discurso ‘patriótico’, seja lá o que isso quer dizer. Tentou ser espirituoso perguntando se queriam que ele ‘falasse abobrinhas’. Ficou, de fato, gracioso.

Para emendar, voltou a questionar a liderança do velho cacique Raoni, exatamente como já tinha feito na ONU. Não parece ter-se dado conta de que não cai bem um presidente se queixar, perante plateia planetária, do comportamento de um de seus 200 milhões de governados. É como se Monsieur Macron fosse à ONU queixar-se do chefe do movimento dos Coletes Amarelos. Coisa sem pé nem cabeça.

Doutor Bolsonaro desqualificou o cacique ao dizer que «ele não fala nossa língua». Agora ficou urgente. Alguém precisa dizer imediatamente ao presidente que a frase está expressa ao contrário.

Na verdade, somos nós que não falamos a língua dele. Afinal, os povos nativos – como o nome indica – já eram donos destas terras milênios antes da chegada do europeu e do africano. Assim, nós todos é que devíamos ter aprendido a língua deles, e não o contrário.

Contra-bravata

José Horta Manzano

Acabo de ler o relato de entrevista concedida por doutor Bolsonaro a um programa de televisão. A gravação teve lugar em Nova York, logo após o discurso pronunciado no púlpito da ONU. Tenho algumas considerações sobre a conversa entre o presidente e a jornalista.

Desfocados
O presidente asseverou que sua equipe e ele planejaram um pronunciamento “contundente, mas não agressivo”, necessário após “semanas de muito ataque ao Brasil”.

Entre contundente e agressivo, vai uma larga distância. Contundentes foram as palavras de Churchill ao prometer aos ingleses “sangue, labuta, lágrimas e suor”. Agressivo foi o pronunciamento de Trump quando chamou o dono da Coreia do Norte de “homem foguete (rocket man)“. É possível ser contundente sem necessariamente agredir. Pra isso, porém, é preciso arte, artigo em falta no Planalto há décadas.

A equipe de doutor Bolsonaro decidiu-se pelo tom ‘contundente’ após “semanas de muito ataque ao Brasil“. Falácia. Querer socializar os tais ‘ataques’ e compartilhá-los com o Brasil inteiro é malandragem. Os tais ‘ataques’ não foram dirigidos ao Brasil, mas ao presidente Bolsonaro pessoalmente. Não foi o povo brasileiro que insultou dirigentes europeus, foi doutor Bolsonaro. Em seu nome unicamente. O revide, naturalmente, foi dirigido a ele unicamente.

Exagerado
O presidente lembrou que o governo brasileiro não pode controlar focos de incêndio em todo o território da Amazônia. “O tamanho da nossa Amazônia é maior (sic) do que a Europa Ocidental; não tem como manter o controle“ – arrematou. Vamos passar por cima da frase mal construída. Se a gente for parar pra comentar cada pisão na lógica desferido por doutor Bolsonaro, amanhã ainda estaremos aqui.

Vamos ao que interessa: Europa Ocidental é conceito impreciso. É como coração de mãe, onde sempre cabe mais um país. Dado que não é conceito oficial, cada um põe os limites onde lhe agrada. Portanto, usar a Europa Ocidental como base de comparação de área seria proposição de má-fé. A União Europeia, sim, é entidade real, com superfície definida. Vamos supor que a esclarecida equipe de doutor Bolsonaro tenha se baseado nela.

Rápida consulta ao google esclarece a questão. A União Europeia tem superfície de 4.500.000 km2. A Amazônia brasileira (Bolsonaro falou em ‘nossa’ Amazônia) tem 3.000.000 km2. Portanto, a afirmação de que nossa floresta é maior que a Europa é mais que exagerada: é falsa.

Confissão
A entrevistadora puxou a conversa para o terreno pantanoso de eventual intervenção militar na Venezuela. Doutor Bolsonaro descartou toda ação nesse sentido. Disse esperar que as sanções econômicas americanas surtam efeito. (Esquece-se de que, ao que se saiba, sanções econômicas jamais levaram país nenhum a abrir o bico. Contorná-las é fácil como tirar chupeta de recém-nascido.)

E aí veio uma das afirmações mais surpreendentes que se poderiam esperar da boca de um presidente da República. A confissão de que nossas Forças Armadas são fracas, incapazes de enfrentar uma Venezuela. Disse ele: “No Brasil, você sabe que as nossas Forças Armadas, o seu potencial foi bastante diminuído ao longo das últimas décadas. E, pela topografia da Venezuela, qualquer intervenção militar ali, de qualquer país, seria um ‘Vietnã”.

Não é corriqueiro ouvir, do dirigente de um país, a confissão de que suas FFAA são fracas – portanto, incapazes de garantir a segurança do território. Mais comum é ouvir o contrário, afirmações do tipo: “Quem ousar mexer conosco vai conhecer o fogo do inferno”.

Aviso aos navegantes: Quem quiser vir tomar a Amazônia brasileira, esteja à vontade. Nosso exército é fraco. Não sou eu quem diz isso, foi o presidente quem afirmou com todas as letras.

Nem Dilma Rousseff, nos momentos mais delirantes, ousou soltar uma contra-bravata desse quilate.

Tudo errado

José Horta Manzano

Nem tudo o que é legal é moral. Há muita imoralidade transvestida em regra ou até em lei. A prática que envolve a atribuição de passaportes diplomáticos é bom exemplo. Como o próprio nome já informa, esse tipo de passaporte destina-se a diplomatas ou a pessoas encarregadas de missão assimilável à diplomacia.

Subentende-se também que o fim da missão implica devolução imediata de todos os atributos do cargo, passaporte incluído. Veja-se, por exemplo, o caso do parlamentar. Assim que termina o mandato, devolve carro, motorista, secretária, assessores, gabinete, apartamento funcional. O fato de ter exercido a função não o autoriza a conservar nenhum “souvenir”.

Reportagem publicada no Estadão informa que a emissão de passaportes diplomáticos volta a crescer este ano. A justificativa é que o documento é distribuído a granel, a parlamentares e líderes religiosos que o solicitem. Há milhares de passaportes diplomáticos em circulação no Brasil. A distribuição indiscriminada inflaciona, enfraquece e desvirtua a especificidade do documento.

Nada justifica a atribuição de passaporte diplomático a parlamentares, a não ser que viajem em missão assimilada à diplomacia. Neste caso, é concebível que se lhes atribua o documento – mas com validade unicamente para aquela viagem. Ao retorno, deverá ser devolvido. Não há razão para que deputados e senadores se apoiem em passaporte diplomático para levar a família passear na Disneylândia. Chega a ser imoral.

Mais problemático ainda será sustentar o direito de “líderes religiosos”(*) a obter esse documento. Não estão a serviço da pátria. O Brasil não é Estado religioso, como Irã ou Arábia Saudita. Portanto, que esses dirigentes espirituais façam fila no aeroporto de Miami ou de Paris como qualquer mortal, cáspite!

Se já era uma aberração ser titular de um documento dessa natureza, enormidade maior será retê-lo ao deixar o mandato. Segundo a reportagem do jornal, o Itamaraty tem grande dificuldade em recolher passaporte dos que deixam o parlamento. Todos guardam o livretinho como ‘souvenir’, exatamente como aqueles que levam ‘lembrancinha’ do hotel, do restaurante ou do último emprego.

Está tudo errado.

(*) A expressão ‘líderes religiosos’ inclui imames muçulmanos? E donos de terreiro de umbanda? Se eles apelarem para a Justiça e invocarem o princípio de isonomia, têm forte chance de obter o direito. Aviso aos navegantes!

Dilma continua a mesma

José Horta Manzano

Precedida por um dirigente sindical e sucedida por uma militante climática, doutora Dilma Rousseff deu o ar de sua graça, sábado 14 de setembro, na Fête de l’Humanité (Festa da Humanidade), o encontro anual de simpatizantes comunistas na França. O nome da festa faz alusão a “L’Humanité”, o jornal oficial do Partido Comunista Francês.

Organizada todos os anos nesta época, a festa é evento importante, com a colaboração de cantores, artistas populares, homens políticos e personagens conhecidos. Estende-se de sexta a domingo. Embora possa parecer surreal, o Partido Comunista ainda subsiste na França – um dos raros remanescentes na Europa. A cada eleição, propõem candidatos. Para a presidência, não têm a menor chance, mas numerosos prefeitos levam a etiqueta do partido.

Dilma Rousseff em Paris, 14 set° 2010

Doutora Dilma compareceu a uma noitada especial dedicada à liberação do Lula. Discursou. Após cada frase, uma intérprete traduzia para o francês. Madame cometeu as confusões de linguagem habituais. A certa altura, falando das últimas eleições presidenciais, disse: «Foi necessário criar um ambiente propício para que o ódio fosse gertado(?) e a mentira fosse a primeira vítima da luta contra a democracia liderada pelos golpistas». A mentira foi vítima da luta! Ai, ai, ai. Esperta, a tradutora deu a volta por cima, fez um esforço e traduziu do jeito que havia entendido. Ficou bonito, mas não se sabe se era isso que a ‘presidenta’ queria dizer. Como se sabe, discurso em dilmês tem de ser legendado.

A doutora disse ainda que a Lava a Jato foi «montagem golpista feita especialmente para destruir inimigos». Dado que a operação teve início durante seu governo, numa época em que todas as instituições aparelháveis se encontravam aparelhadas pelo PT, o blá-blá de «destruir inimigos» fica capenga.

No mais, a doutora repetiu a tese do ‘golpe parlamentar’ de que foi vítima. (Ela se refere ao impeachment.) E martelou firme o bordão único que paralisa seus correligionários: Lula livre. Queixou-se ainda da Lava a Jato com o argumento de que, se é possível prender uma pessoa com a liderança do Lula, então não há mais limites. Portanto, no entender da ex-presidente, ‘uma pessoa com forte liderança’ é inimputável e paira acima da lei.

Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei.

O adversário maior

José Horta Manzano

Ainda é muito cedo pra pensar na próxima eleição presidencial. Até lá, muita água ainda há de passar pelo Amazonas e, espera-se, também pelo canal de repartição do São Francisco. Ainda assim, se nenhuma catástrofe ocorrer no meio do caminho, o maior adversário de doutor Bolsonaro para a reeleição chama-se Sergio Moro.

Recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha constata que a popularidade do ex-juiz é inabalável. Nada parece capaz de derrubá-lo. As revelações sobre conversas inadequadas não degradaram sua imagem. A fritura intermitente a que é submetido pelo presidente tampouco arranhou o elevado conceito em que os brasileiros o têm. Imperial, Moro continua lá no topo. Em matéria de simpatia, deixa o presidente comendo poeira: sua popularidade estacionou 25 pontos à frente da do chefe.

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Bolsonaro está numa sinuca cabeluda. Se conservar Moro no cargo de ministro, estará garantindo fabulosa vitrine ao ex-juiz que, humilhado ou não, continuará no noticiário. Se o demitir, perderá apoiadores e será apupado pelos brasileiros, que enxergam no ex-magistrado caçador de corruptos o garante da lisura da Presidência. Manter Moro na fritura não adianta nada, que sua popularidade parece blindada.

Doutor Bolsonaro só tem uma maneira de afastar Moro do caminho. (Eu até nem deveria dizer estas coisas aqui. Não acredito que o presidente seja leitor do blogue, mas… nunca se sabe.) O único jeito de neutralizar a ameaça é nomear Moro para o STF. Em 2020, uma vaga vai surgir. Que Bolsonaro aproveite a ocasião e esqueça essa bobagem de indicar ministro «terrivelmente evangélico». Dê a cadeira ao ex-juiz.

Se fizer isso, auferirá vantagem múltipla. Contentará a todos os que simpatizam com Moro. Não ferirá a imagem de probidade do Executivo. Asfaltará o caminho que o pode levar à reeleição. E terá, no STF, um integrante que lhe deve favores – o que pode ser uma mão na roda para quando ele deixar a presidência e começarem a surgir os inevitáveis processos.

Viva a ignorância!

José Horta Manzano

Assim como o melhor dos governos tem seu lado sombrio, o pior deles tem também um lado luminoso. Se o período militar foi sinistro em inúmeros aspectos, teve também alguns lampejos. Uma herança das boas é a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Criada em 1973, em pleno governo do general Medici, ela pode hoje ser definida como uma multinacional da pesquisa.

A Embrapa é a estatal brasileira mais importante. Conta com 10 mil funcionários incluindo 2.500 pesquisadores. Entre estes últimos, 84% são titulares de doutorado ou mesmo pós-doutorado obtido em universidades nacionais e estrangeiras. A empresa, presente em todo o território nacional, tem antenas em numerosos países com os quais colabora e troca informações científicas.

Seus trabalhos permitiram introduzir a agricultura no cerrado, bioma que era antes considerado improdutivo e que hoje responde por metade de nossa fabulosa produção de grãos. A tecnologia gerada pela empresa tornou possível multiplicar por quatro a oferta de carne bovina e suína. A produção de frango pôde ser ampliada em 22 vezes.

De importador de alimentos básicos, o Brasil alcançou o patamar de potência exportadora. A Embrapa goza de respeito planetário por seu grau de excelência. Suas pesquisas cobrem todos os biomas brasileiros – Amazônia, Pantanal, cerrado, semiárido, regiões temperadas.

Se o distinto leitor leu o título deste escrito, deve estar se perguntando onde está a ignorância. Pois ela vem agora. Acaba de sair nota informando que o governo federal pretende cortar perto de 50% do orçamento da Embrapa para o ano de 2020. Metade do que é necessário pra permitir a continuidade da pesquisa agropecuária brasileira! A notícia é angustiante. O Brasil não é potência econômica. Está longe de ser gigante bélico. Na política mundial, é anão. O único ponto em que somos globalmente importantes e respeitados é na pesquisa e na produção agropecuária. Em total desvario, o governo não consegue enxergar a importância disso.

Há que constatar que, mesmo com doutor Bolsonaro acamado, a guerra contra o conhecimento continua. Fica claro que a equipe que rodeia o presidente está afinada com ele. A ausência do chefe não é sinônimo de trégua. A obra de demolição segue adiante. No Planalto, continuam todos fiéis ao propósito de impedir que o Brasil suba de patamar. Que seja na difusão da cultura, no ensino universitário ou na pesquisa científica, a ordem é cortar, impedir, barrar, cercear.

O lulopetismo não foi tão longe. O atual governo é uma ode à ignorância.

Capricho de filho

José Horta Manzano

A foto de um dos bolsonarinhos – aquele que é vereador – em que o moço aparece aboletado no coche presidencial desfilando na avenida ao lado do pai no Sete de Setembro me deixou meditabundo. Com o perdão da rima.

Já é a segunda vez que ele aparece em cerimônia solene, engravatado, no papel de coroinha. Fosse um meninote de 10 ou 12 anos, seria mais fácil entender. Mas o rapaz é crescido, barbado, já a caminho da calvície. Por que diabo anda grudado na barra da calça do pai? E por que é que aparece justamente nesses momentos solenes?

Na verdade, o problema tem de ser atacado por outro ângulo. Mais importante é saber por que é que o pai carrega o filhinho nessas ocasiões. Afinal, o dono da casa é o presidente. Em teoria, é ele quem manda.

Solenidade oficial não é hora nem lugar pra levar parente. Esposa, ainda vá lá. Filho pequeno, já estamos no limite da tolerância. Filho marmanjo? Sem a primeira-dama? Muito esquisito.

As aparições do filho vereador têm de ser analisadas em paralelo à iminente designação de outro filho – aquele que é deputado – para o cargo de embaixador em Washington. A explicação que corre por aí é que não passa de caso comum de pai satisfazendo ao capricho de filhos que não perceberam que a adolescência acabou. Há outra explicação possivel.

Especular não é pecado nem ofende. Fico aqui cogitando se a tensão que reina na família do presidente não seria mais séria do que se imagina. Que os rebentos queiram satisfazer seus caprichos, dá pra entender. Quem tem pai presidente pode mais que cidadão comum. O que não dá pra entender é que o pai presidente ceda a caprichos estrambóticos dos filhotes.

Por que isso acontece? Será que esses rapazes não estariam de posse de algum segredo familiar altamente incômodo para o pai, o que lhes permitiria chantageá-lo? Algo do tipo «se você não me deixar andar na boleia da carruagem, eu conto» ou ainda «se você não me der a embaixada nos EUA, eu conto». Será isso? É permitido cismar. Quando a presidência patrocina cenas a tal ponto fora de esquadro, toda especulação é autorizada.

Beijo gay

José Horta Manzano

Às vezes parece que nossas autoridades estão cada vez menos inteligentes. A gente fica com a impressão de que a ignorância é um mal contagioso. (Ou até hereditário, como se vê em determinadas famílias.)

Semana passada, teve lugar no Rio de Janeiro a Bienal do Livro. É evento importante, embora não se possa dizer que, num país que pouco lê, arrebate multidões. Em princípio, o que lá ocorresse não teria passado de nota de rodapé.

Eis senão quando, o prefeito da cidade toma decisão pouco inteligente: manda censurar um gibi que, a seus olhos, enaltecia a homossexualidade. É que a HQ mostrava a imagem de um beijo entre dois rapazes – que apareciam vestidos, frise-se.

Com a decisão, armou-se um fuzuê. A feira foi visitada por patrulhas ideológicas que caçavam livros a cassar. Acionada, a Justiça deu ordem e contraordem. Todos os jornais do país deram a notícia. Em sinal de protesto, a Folha de São Paulo estampou a imagem do beijo incriminado na primeira página, ocupando o espaço de alto a baixo, do cabeçalho ao rodapé. As redes sociais se assanharam comentando o assunto.

Como resultado, em vez de tirar de circulação o que lhe parecia impuro, o prefeito bobão provocou efeito contrário: o país inteiro ficou a par da querela e viu as imagens proibidas. As vendas do álbum incriminado hão de ter explodido.

Moral da história
Não se deve cutucar onça adormecida. Nem com vara curta, nem com vara longa.

Moral complementar
Não se deve votar em político ignorante. Isso vale pra todos, de vereador a presidente da República.