Perguntar não ofende ‒ 4

José Horta Manzano

No embalo da Copa, revejo alguns comportamentos recorrentes que sempre me deixam perplexo. Eis alguns deles.

        • by Kopelnitsky, desenhista americano

          Por que é que jogador de futebol cospe no gramado? Altos e baixos, escuros e claros, ocidentais e orientais, todos cospem. Cheguei a ver um outro dia que ‒ desculpem-me os estômagos mais sensíveis ‒ raspou a garganta e escarrou. Alguém já viu jogador de basquete cuspir? Ou jogador de vôlei? Ou tenista? Tentem imaginar Roger Federer acertando o gramado de Wimbledon com uma cusparada das boas.

        • Por que é que tantos jogadores de futebol comemoram gol tirando a camisa? Atualmente, como tirar a camisa dá cartão amarelo, veem-se muitos deles ameaçar tirar a camisa para, logo em seguida, sustar o striptease. Mas a intenção é visível. De novo, pergunto: dá pra imaginar jogador de basquete tirando a camiseta a cada encaçapada?
        • Por que é que jogador de futebol reclama contra decisão do árbitro? Reparem, que é sistemático: a cada decisão, a parte desfavorecida parte pra cima do pobre juiz, uns parlamentando, outros até ameaçando. Não me recordo ter jamais visto árbitro voltar atrás na decisão. Por que a reclamação, então?
        • Por que é que a CBF protocolou recurso junto à Fifa reclamando da arbitragem do jogo do Brasil contra a Suíça? Que pretendem? Que a partida seja rejogada? Se reclamações como essa começassem a ser acatadas, jogo não terminaria nunca. Todos os campeonatos acabariam no tapetão. Esse tipo de reclamação, feito pra satisfazer a galeria, é totalmente estéril na realidade. É risível.

 

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho tão pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto. Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso, foi substituído por co-lo-car.

Mais uma palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente final de semana. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

Nas malhas da Ficha Limpa

José Horta Manzano

A lei é clara. Determina que cidadão condenado por tribunal colegiado entra para o rol dos inelegíveis. Com um detalhe: o apenado estará inelegível não só durante a extensão da pena, mas ainda por oito anos a contar de seu término.

Como decorrência lógica, o indivíduo inelegível não está habilitado a registrar candidatura, assim como não podem fazê-lo o menor de idade, nem o cidadão estrangeiro, nem o enfermo acometido do mal de Alzheimer, nem todos os que, por uma razão qualquer, não puderem ser eleitos.

O cidadão Lula da Silva, condenado por tribunal colegiado, se encaixa nessa moldura: está proibido de ser eleito, donde a impossibilidade de eventual candidatura sua ser oficialmente aceita pelo tribunal eleitoral.

Apenado que tiver caído nas malhas da Ficha Limpa não tem escapatória: permanece na condição de ficha suja até oito anos depois do fim da pena. Não há embargo nem recurso que lhe possa vir em auxílio.

Agora vem a pergunta. Conhecedores dos efeitos da Lei da Ficha Limpa, cidadãos perplexos têm dificuldade em entender por que absconsa razão Lula da Silva, embora irremediavelmente proibido de ser eleito, continua a aparecer nas pesquisas de opinião.

Sabe-se que um grande instituto paulista tende a ser simpático para com o Partido dos Trabalhadores e os que lhe orbitam em redor. Dessa empresa de pesquisas, compreende-se que se empenhe em manter vivo o nome do antigo presidente, na esperança de ajudar a ressuscitá-lo. Mas… e as demais?

Todos os institutos continuam a apresentar cenários com o Lula e sem ele. A insistência chega a ser irritante. Se o homem não pode ser eleito, por que inclui-lo? Se o problema vem da necessidade de incluir um nome popular no meio desse magma de desconhecidos, sugiro que nomeiem José Sarney, Eduardo Cunha, Dilma Rousseff ou, quem sabe, Getúlio Vargas. Ainda que surreal, fica mais animado.

Judiciarização crescente

José Horta Manzano

De 1940 a 1980, o número de processos recebidos pelo STF nunca chegou à marca de dez mil num único ano. O ano com o maior volume foi 1980, com 9.555 entradas. A partir de 1981, sabe-se lá por que razão, a quantidade de processos levados ao tribunal maior começou a crescer.

No começo, a subida foi suave: em 1989 entraram menos de 15 mil dossiês. De lá pra cá, a coisa desembestou. O ano de 2017 registrou mais de 103 mil processos recebidos, ou seja, sete vezes mais que 28 anos antes. É uma enormidade. Só pra dar uma ideia, em um ano entra no STF um processo para cada 2000 habitantes do país. Não estamos falando de primeira instância, mas do Supremo!

O país está cada vez mais judiciarizado. Por um sim, por um não, o cidadão entra com uma ação na Justiça. Desavenças que se costumavam resolver com uma boa e franca conversa hoje terminam em tribunais. Mal-entendidos que se podiam desfazer com a boa vontade de um mediador hoje viram processo. É rematado exagero.

Em muitos países, o acesso à corte suprema é propositalmente dificultado. O intuito é forçar litígios a serem resolvidos nas instâncias inferiores, deixando para a corte maior unicamente os casos mais cabeludos e controversos. Na França e em outros países, não é qualquer advogado que pode atuar na corte suprema. Se quiser enfrentar aquele tribunal, o cliente deve estar preparado para contratar um especialista que lhe cobrará uma fortuna. A maioria desiste antes de se lançar.

Quanto mais sobrecarregado estiver o STF, mais baixa tende a ser a qualidade de seus julgamentos. É questão de bom senso. Se tenho uma única tarefa para hoje, posso dedicar-me inteiramente e entregar trabalho benfeito. Se tenho quatrocentas tarefas, a qualidade irá pro espaço. Ou não?

Acredito que as autoridades judiciárias brasileiras deveriam trabalhar no sentido de desencorajar a subida de processos ao STF. Quem é do ramo sabe, melhor que eu, que medidas tomar. Tribunal supremo sobrecarregado periga emitir julgamentos insatisfatórios(*). Contra os quais, não há outro remédio senão aceitar.

(*) Para muita gente, certos julgamentos recentes de nosso STF, referentes à corrupção que grassa nas altas esferas da República, são insatisfatórios, distorcidos e injustos. Pra sanar esse problema, a reforma terá de ser profunda e abrangente: todo o processo de funcionamento do tribunal e de escolha dos ministros terá de ser revisto. Isso não se faz da noite para o dia. Será assunto para a próxima Constituição.

Quase-verdades e traições

José Horta Manzano

Para quem achava que o máximo em matéria de personalidade desconcertante era o Lula com suas idas e vindas e suas «quase-verdades», o presidente dos EUA é muito mais perturbador e ganha disparado. Pra quem se sentiu chocado quando o Lula apertou a mão de doutor Maluf, está aí Donald Trump pra fazer mais e melhor: apertou a mão de um ditador sanguinário, inimigo declarado de seu país.

Em matéria de traição e de reviravolta, Mister Trump deixa Lula da Silva no chinelo. É imbatível. Em apenas um ano, fez o que nenhum mandatário jamais ousou fazer nem ‘nessepaiz’, muito menos ‘nesseplaneta’.

O homem renegou os Acordos de Paris sobre o clima. Renegou o Acordo Nuclear Iraniano. Traiu países aliados ao impor tributação à importação de aço e de alumínio. Faz alguns dias, quando do último encontro do G7, assinou o acordo final para, poucas horas mais tarde, renegá-lo. E fez tudo isso sem corar.

Semana passada, tratou o primeiro-ministro canadense de traidor. E pensar que o Canadá é o mais antigo e mais fiel aliado dos EUA. Acompanhou o irmão poderoso nas horas boas e nas más, na guerra como na paz. Desembarcou na França em 1944 e batalhou junto.

Poucos dias depois, Trump declarou depositar toda confiança no ditador norte-coreano. Disse acreditar que o homem cumprirá o prometido e honrará os acordos. Pergunto agora: como é possível chamar de traidor o homem que encarna a população do maior aliado e, ao mesmo tempo, acariciar um brutal ditador e declarar confiar naquele que era inimigo até a véspera?

É dose pra elefante, como diz o outro! Ninguém pode garantir que Mister Trump não vá renegar, semana que vem, o protocolo assinado hoje com Kim Jong-un. Dá pra viver numa insegurança desse calibre?

Mas a roda gira. De tanto maltratar amigos e aliados, Donald Trump vai acabar se indispondo com todos. Não é o melhor cenário para seu país.

Quem quer Olimpíadas?

José Horta Manzano

Brasileiros em geral e cariocas em particular ainda hão de passar anos a lamentar-se por ter hospedado os Jogos Olímpicos de 2016. Do «legado» prometido pelos medalhões, ninguém sabe. E ninguém viu. Não beneficiou nem esportistas, nem os demais habitantes. A chegada de turistas não aumentou. Ficou a desagradável sensação de enormes somas terem sido atiradas pela janela.

Eu disse pela janela? Pois alguns espertalhões deviam estar esperando do outro lado com as mãos abertas. Alguns desvios foram descobertos, mas sabemos que eles são apenas a ponta do iceberg. O grosso da roubalheira, por desgraça, não virá jamais a público. Restam-nos os olhos pra chorar.

Como sabe o distinto leitor, os JOs de verão alternam com os de inverno. Quanto a estes últimos, a edição de 2014 foi realizada na cidade russa de Sôtchi ‒ justamente onde está atualmente hospedada nossa seleção de futebol. A de 2018 teve lugar em Pyeongchang (Coreia do Sul) e a próxima já foi atribuída a Pequim.

By Enrique Casal (1957-), desenhista espanhol

Faz alguns anos que o cantão suíço do Valais está em efervescência com a ideia de apresentar candidatura para os Jogos de 2026. Muitos fatores são favoráveis ‒ afinal, faz quase oitenta anos que a Suíça recebeu os JOs de inverno pela última vez. A infraestrutura está praticamente pronta, só faltando ajeitar um detalhe aqui, outro ali.

A realização do evento foi orçada em cem milhões de dólares. O governo federal garantiu cobrir boa parte. Só faltava perguntar ao povo se estava de acordo ‒ um detalhe sem importância no Brasil, mas primordial na Suíça. O plebiscito ocorreu ontem, 10 de junho. Por maioria de 54%, o povo recusou acolher os JOs de 2026.

Para o comitê de organização foi um golpe. Mas que remédio? Na Suíça, quem manda é o povo. A razão mais invocada para a recusa foi o gasto previsto. Os cidadãos acreditam que esses cem milhões poderão ser empregados em alguma coisa mais útil. Não botam fé em «legado» dos Jogos, que isso é balela pra enganar povo e engordar corrupto.

Não há como não lhes dar razão.

O limite da informação

José Horta Manzano

Não acredito num direito absoluto à informação. Assim como a liberdade de cada um termina onde esbarra na do próximo, o direito à informação cessa quando ameaça causar dano à sociedade. Difícil ‒ mas não impossível ‒ é determinar o ponto exato em que isso acontece. Há casos em que o risco salta aos olhos, facilitando o reconhecimento do limite.

Na periferia das grandes cidades francesas, bandos de adolescentes vadios têm curioso costume. Em ocasiões especiais, como a noite de ano-novo ou a véspera do maior feriado nacional, divertem-se ateando fogo a veículos escolhidos a esmo. O balanço desses autos de fé surreais é de monta. Através do país, centenas de automóveis são sacrificados.

Até poucos anos atrás, o ministério encarregado da segurança pública costumava divulgar o número de veículos destruídos. E a mídia adorava difundir a informação, aliás muito bem-vinda por cair em dias feriados e um tanto faltos de notícias.

Ao notar que o total de carros queimados não parava de aumentar e que os criminosos se empenhavam em bater o recorde a cada ano, o ministério mudou de tática. Passou a não mais divulgar o número de carros queimados. Embora a mídia continue a noticiar um incêndio aqui, outro ali, o assunto se esvaziou e perdeu a graça. É como transmitir uma corrida e não contar o nome do vencedor ‒ coisa mais sensabor!

No Brasil, tem-se alastrado o medonho costume de atear fogo a ônibus. Por um sim, por um não, meliantes destroem um objeto que vai acabar fazendo falta a usuários que não têm nada com o peixe e que dependem de transporte público pra ir trabalhar. Estes dias, jornais se delectaram: «Sobe para 55 o número de ônibus queimados!», «Passa de 61 o total de veículos incendiados!». Uma verdadeira corrida atrás de novo recorde.

O distinto leitor há de convir que esse tipo de informação, além de não acrescentar nada à bagagem cultural de cada um, acaba incitando malfeitores a «fazer mais e melhor» do que o bando rival. Mais benéfico será a autoridade abster-se de publicar cifras. Não convém dar ideia a criminoso.

Badalação

José Horta Manzano

Surgida no fim dos anos 70, a palavra ‘tietagem’ é relativamente nova. Nos tempos em que ela não existia, usava-se bajulação ou ainda badalação, mais coloquial. Aluno que trouxesse presentinho para a professora era chamado de «badalo» ou, de forma mais crua, «puxa-saco».

Outro dia, a mídia se deliciou com a notícia de que um juiz do Rio de Janeiro tinha tietado Lula da Silva, por ocasião de um depoimento no âmbito da Lava a Jato. É que o magistrado fez confidência pública já no finzinho da audiência. Revelou já ter comparecido a comício, vestindo camiseta e boné com o nome do então candidato ‒ hoje encarcerado.

Dia seguinte, numerosos magistrados e criminalistas vieram a público manifestar indignação com a fala do juiz carioca. Qualificaram as declarações de inconvenientes. De fato, são.

Depois de viver décadas em sociedade carrancuda, estou em posição de observador privilegiado. Posso dizer que o brasileiro me surpreende pela cordialidade, me encanta pela prestatividade, mas me irrita pela exagerada sem-cerimônia.

Em sociedades mais reservadas, a fronteira entre formalidade e familiaridade é fosso intransponível. Um exemplo revelador: colegas de escritório, ainda que de idade equivalente, podem chegar a trabalhar anos e anos lado a lado sempre tratando-se por senhor. Parece lorota, mas ocorre com frequência. No Brasil, assistimos ao extremo oposto. Uma familiaridade ‒ que, às vezes, soa falsa ‒ invade terreno sério. Foi o que aconteceu na conversa entre o Lula e o juiz.

In medio stat virtus, a virtude está no meio-termo. Nenhum dos comportamentos é desejável: nem a formalidade castrante, nem a familiaridade invadente. Enfim, que fazer? Cada um é como é, difícil será mudar. Mas, convenhamos, não custa fazer um esforço pra refrear exageros. O juiz escorregou.

Bobo da corte

José Horta Manzano

«Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu.»

Tem dias em que a gente se sente como bobo da corte, isso sim! Cedinho nesta quinta-feira, as manchetes do Estadão eram edificantes. Vamos pela ordem, se é que há ordem nesta República.

Chamada Estadão, 7 jun 2018

Temer, Moreira e Padilha
A Polícia Federal acaba de pedir ao Supremo Tribunal que suspenda o sigilo das comunicações e autorize acesso à lista de chamadas feitas e recebidas por três figurões do andar de cima. São peixes graúdos: o presidente da República e dois de seus ministros. Não é correto prejulgar, mas, como dizem os espanhóis, «por algo será» ‒ alguma razão deve haver.

Gilmar
A força-tarefa da Operação Lava a Jato assegura que a Federação do Comércio de São Paulo pagou 50 mil reais a um instituto ligado a doutor Gilmar Mendes. Saudade do tempo em que Gilmar era o festejado goleiro da Seleção.

FHC
A Polícia Federal (olhaí, de novo ela!) informa que Fernando Henrique pediu socorro a Marcelo Odebrecht e enviou-lhe seus dados bancários. Por que razão os terá enviado? Ganha uma passagem de ida simples pra Pyongyang quem adivinhar.

Urnas
Supremo Tribunal decidiu suspender implantação do voto impresso. Sem contraordem até outubro, as eleições se farão no escurinho, como de costume. Este blogueiro já se manifestou sobre o assunto e persevera: o voto eletrônico devia ser abolido. Se piratas informáticos conseguem introduzir-se nos computadores da CIA, nada garante a inviolabilidade do sistema eleitoral eletrônico brasileiro. A melhor arma contra fraudes ainda é o voto em cédula de papel, como se faz na imensa maioria dos países civilizados.

Conclusão
As demolidoras notícias de hoje confirmam a desagradável intuição que nos devora: são todos podres, não se salva um. E essa história de proibir voto impresso não me cheira bem. O futuro dirá.

Candidatura avulsa

José Horta Manzano

Para candidatar-se à presidência da República brasileira, o cidadão tem de estar afiliado a um partido político legalmente registrado. Assim reza a lei. Em princípio, é determinação de bom senso. Partidos políticos representam as múltiplas correntes de pensamento que percorrem o país. Ao filiar-se a um deles, o candidato mostra estar afinado com ideias e objetivos do agrupamento.

Essa é a teoria. Só que, na prática, como se sabe, a teoria muda. No Brasil, o princípio geral de estar em comunhão com as ideias do partido é frase bonita pra inglês ler. Não funciona. Seja porque partidos têm ideologia vacilante, seja porque afiliados pensam e agem descolados da linha partidária.

A frouxidão que reina no cenário político brasileiro autoriza que se reveja a exigência de filiação partidária. Com partidos dotados de ideologia de geometria variável, é compreensível que cidadãos hesitem em se afiliar. Assim, é legítimo que se permitam candidaturas avulsas para o cargo de presidente da República.

Mas, atenção, é bom tomar cuidado pra evitar clima de liberou geral! Há que impor condições para candidatura avulsa. Imagino que um sistema de «apadrinhamento» pudesse ser interessante. Descrevo abaixo o funcionamento, tal como o imagino.

Antes de registrar candidatura, o postulante terá de recolher determinado número de assinaturas de eleitos. Digamos, quinhentas assinaturas. Poderão ser vereadores, prefeitos ou deputados. Espalhados por três unidades da Federação, com pelo menos 100 nomes por Estado.

Esse critério me parece ser bom filtro. Barra paraquedistas e engraçadinhos. Força o postulante a apresentar suas ideias a centenas de eleitos ‒ ato eficaz e que não sai caro. Ah! Nenhum eleito poderá ser «padrinho» de mais de um candidato. Essa providência evita o surgimento de profissionais do apadrinhamento.

Para esta eleição, já é tarde demais. Para a próxima, quem sabe?

Tá no bolso!

José Horta Manzano

A carreira do meia francês Emmanuel Petit como jogador de futebol profissional se estende de 1989 a 2004. Foi uma das revelações da Copa do Mundo de 1998, a única que seu país venceu.

Emmanuel Petit (1970-), antigo meia francês

Quando da final daquela Copa, Petit marcou o terceiro gol da vitória da França sobre o Brasil por 3 a 0. Foi um gol simbólico: a estatística assinala que era o milésimo do país em partidas internacionais.

Hoje longe do gramado, Monsieur Petit reconverteu-se em consultor e comentarista esportivo para a tevê. Também publicou, em 2008, um livro de memórias intitulado À fleur de peau ‒ À flor da pele. No texto incisivo, o jogador acerta contas antigas.

Emmanuel Petit não se furtou a dar a público seus prognósticos para a Copa da Rússia. Na final, ele vê o Brasil enfrentar… a Bélgica! Surpreendente, não? Enfim, quem batalhou como profissional em campo foi ele, não nós.

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Segundo as previsões, o Brasil bate o México nas oitavas para, em seguida, mandar a Inglaterra de volta pra casa nas quartas de final. Na semifinal, encontra Portugal e vence por 1 a 0. Na final, dá de cara com a Bélgica e, com vitória por 2 a 0, leva a taça.

São profecias de Monsieur Petit. O homem deve saber o que está dizendo.

Massagem no tribunal

José Horta Manzano

Desigualdade é marca distintiva do Brasil. Quando se fala nela, vem logo à mente a imagem da sociedade segmentada entre ricos e pobres. Mas a disparidade não se limita a isso. O mal é muito mais amplo. Diferenças de tratamento, de direitos, de oportunidades se infiltram pelos recônditos do corpo social e atigem a medula da nação. Não acompanham necessariamente a linha divisória entre ricos e pobres. O buraco é bem mais profundo.

Isonomia é palavra bonita. Mas permanece na esfera da teoria. Serve pra enfeitar um discurso aqui, uma lei ali. Não tem tradução na prática. Estamos tão habituados ‒ tão viciados, eu diria ‒ a conviver com privilégios, que nem mais nos damos conta deles. Sabe aquele infeliz dormindo na calçada coberto com pedaços de papelão, aquele que ninguém vê? Pois o que acontece com privilégios segue pelo mesmo caminho. Ninguém se impressiona com eles.

Surpreso, fiquei ontem sabendo que tribunais superiores de Brasília contam com instalações de fisioterapia postas à disposição de ministros e funcionários. A notícia que li não contestava o fato em si, mas o valor dos equipamentos, que pareceu elevado ao articulista. O princípio não pareceu escandaloso; o custo, sim.

É curioso. Fico aqui a imaginar se o tribunal de Currupira da Serra conta com essa facilidade. Se os magistrados currupirenses e os funcionários do fórum, quando amanhecem com dor nas costas, têm direito a massagem grátis num ginásio do subsolo.

Percebe o distinto leitor a quebra da isonomia? Se aqueles têm direito a cuidados gratuitos, por que não estes? Oferecer instalações para fisioterapia não me parece função de tribunal. Essa liberalidade só seria aceitável se pudesse ser proposta por todos os tribunais do país. Não é justo que juízes e funcionários de determinados tribunais gozem de privilégios negados a outros colegas.

Não é o pior exemplo de desigualdade no país. É apenas mais um.

Presidencialismo, pero no mucho

José Horta Manzano

Nós, brasileiros, acreditamos que nosso regime é presidencialista puro e duro, com o chefe do Executivo dotado de força suficiente pra passar por cima do Congresso. Pois isso, embora não chegue a ser fake news, é meia verdade. No frigir dos ovos, a coisa não é tão nítida assim.

Exame atento revela que o Congresso tem, sim, grande poder. Os exemplos mais patentes são a derrubada de doutor Collor de Mello e a de doutora Dilma Rousseff. Eram ambos presidentes que, inebriados pelos eflúvios do poder, enfiaram na cabeça a ingênua ideia de enfrentar o Congresso. Na queda de braço, danaram-se: foram ambos despachados de volta pra casa.

Em outubro, vamos à urna. A eleição presidencial já ocupa quase todo o espaço midiático. Bolsonaro, Ciro, Alckmin, Marina são as estrelas do momento. Não contesto que a escolha do presidente seja importante. No meu entender, porém, a composição do Senado e da Câmara é ainda mais crucial. De pouco valerá entregar a faixa a um bom presidente se ele não conseguir se entender com o Parlamento. Seu caminho será pedregoso.

O presidente, para aprovar leis de interesse do governo, precisa do Congresso, sem o qual não aprovará grande coisa. Caso decida forçar a barra e seguir pelo atalho do decreto, os parlamentares podem puxar-lhe o tapete, derrubando o texto. Em última instância, presidente não tem o poder de destituir congressistas, mas estes têm nas mãos a permanência do presidente. Têm o poder de votar o impeachment presidencial. Assim, presidente que não conseguir costurar uma rede de apoio parlamentar terá vida curta: acabará destituído.

Deveríamos dar maior atenção à escolha de deputados e senadores. São figuras tão ou mais importantes que o presidente. Volto a dizer o que já exprimi aqui: presidente e congressistas deveriam ser escolhidos em eleições separadas. Ao votar em todos ao mesmo tempo, estamos fazendo escolha às cegas.

O mais lógico será votar para presidente primeiro e, em seguida, para Senado e Câmara. Dessa maneira, só escolheremos parlamentares depois de conhecer o nome do presidente, já sabendo qual é sua orientação e quais são suas ideias. Aí, sim, terá chegado a vez de votar pra senador e pra deputado. Em conhecimento de causa, escolheremos os candidatos que estiverem mais afinados com o presidente ‒ o que diminuirá a necessidade de conchavos e acordos subterrâneos no Congresso pra conseguir apoio.

Esse sistema ainda não é realidade. Portanto, resta-nos escolher muito bem os nomes que vamos mandar a Brasília. Contam mais que o presidente. Sem eles, o mandatário maior estará de mãos amarradas, seja ele quem for.

Dez das onze

José Horta Manzano

O fato é raro e digno de entrar para o catálogo de recordes. Na noite de 1° de junho, das onze manchetes da primeira página do Estadão online, nada menos que dez falavam da Petrobrás, mais especificamente de doutor Parente, presidente demissionário da estatal.

Estadão online, 1° jun 2018

Num editorial deste 2 de junho, o jornal lamenta a demissão do dirigente. Constata que «a decisão foi celebrada por todos os que trabalham incansavelmente em favor do subdesenvolvimento travestido de “justiça social”».

Relatou os comentários da esquerda-caviar. “Já vai tarde”, disse Guilherme Boulos, candidato a presidente. “Era o que a sociedade esperava”, declarou o presidente do Senado, Eunício Oliveira. “Finalmente!”, tuitou o PT.

E arrematou considerando que, “enquanto o governo perde quadros de imenso valor como Pedro Parente, personagens notórios mais por escândalos que por capacidade administrativa continuam prestigiados no Palácio do Planalto. Nada disso augura um bom futuro nem para o governo nem para o País”.

Francamente, ninguém segura o progresso.

Brazil will play Germany

José Horta Manzano

O professor Achim Zeileis, do Departamento de Estatísticas da Universidade de Innsbruck (Áustria), é afirmativo: “As duas seleções que têm a maior probabilidade de disputar a final da Copa do Mundo da Rússia são a do Brasil e a da Alemanha”. Maliciosamente, o letrado acrescenta que será boa oportunidade para o Brasil tirar a revanche sobre o dramático Mineiraço de 2014.

A base de cálculo da ‘Universität’ tirolesa é bastante complexa. Entre os parâmetros, estão os resultados dos encontros mais recentes, o sorteio das chaves do Mundial, a evolução recente da composição das seleções, o histórico de jogadores machucados ou ainda as previsões das bolsas de apostas.

Embora os cientistas prefiram mostrar-se modestos adiantando que suas previsões estão longe de atingir a perfeição, o histórico de acertos é bastante sólido. Em 2010, quando poucos botavam fé, acertadamente previram a vitória da Espanha. Quatro anos mais tarde, na Copa do Brasil, anunciaram três dos quatro semifinalistas. Segundo eles, as seleções que, desta vez, têm maior probabilidade de levar a taça são, na ordem: Brasil, Alemanha, Espanha, França, Argentina e Bélgica.

Logo, Brazil will play Germany. Que venham os teutões! É impossível apagar o 7×1, mas uma vitória franca da ‘seleção canarinho’ poria bálsamo sobre a ferida. Desta vez, vai!

Não sobra um, mermão!

José Horta Manzano

Se você conhece alguém que nunca tenha se queixado dos vereadores, dos deputados, dos senadores, da Câmara ou do Senado, levante a mão! Aposto que ninguém ergueu a mão. Todos nós costumamos lamentar a baixa qualidade de nossos representantes. Em grande parte, eles são ignorantões, incapazes, homens e mulheres mais preocupados com interesses mesquinhos do que com os anseios dos que os elegeram.

Não bastassem esses defeitos, que já são pesados, os anos recentes ainda desvelaram falha bem mais contundente: a corrupção. A Operação Lava a Jato pôs a nu coisas do arco da velha. A gente imaginava que houvesse uma malandragem aqui, outra ali, afinal, ninguém é ingênuo. Mas a esse ponto? Nem a mente mais delirante podia ter desconfiado que o mal fosse de tal amplitude.

Vimos de tudo: dinheiro em cueca, dinheiro em mala, dinheiro em quitinete-cofre, dinheiro em apartamento-bunker, dinheiro na Suíça, dinheiro em Andorra, dinheiro no Panamá, dinheiro nas Ilhas Caimã. A corrupção assaltou e levou recursos do erário, da Saúde Pública, da Petrobrás, da Eletrobrás, dos portos, dos aeroportos, das estradas, das ferrovias, Até da merenda escolar, senhores! Ladrões assim merecem a guilhotina.

Bom, o que está feito, está feito. Não se refaz a história. Mas dá pra (tentar) consertar o futuro. Como fazer? Olhe, não tenho a receita milagrosa. Mas há uma pista que vale a pena seguir. Raciocine comigo. Os eleitos que estão aí são praticamente todos farinha do mesmo saco, não são? Pois então, que sejam eliminados. Todos.

Sem chegar ao extremo de condená-los à guilhotina, basta não os reeleger. Se os eleitores esclarecidos seguirem essa receita e votarem exclusivamente em candidatos que nunca tenham sido eleitos, teremos um Congresso inteiramente renovado. Em si, não é garantia de eficiência, honestidade e retidão. Mas, convenhamos, a chance de um novo eleito ser parlamentar íntegro é bem maior do que se se tratasse de velha raposa reeleita.

Então, ficamos combinados. Na ficha de cada candidato, vamos procurar o histórico. Só receberá nosso voto se for marinheiro de primeira viagem. Pra frente, Brasil!

O direito de ir e vir

José Horta Manzano

O distinto leitor certamente há de ter notado que o fio que liga passeatas e panelaços de junho de 2013 ao sobressalto deste maio 2018 é o transporte. Tanto as manifestações de cinco anos atrás quanto as greves deste momento partiram do mesmo estopim. Em 2013, o gatilho foi o aumento do preço do bilhete de ônibus. Em 2018, o responsável foi o preço do combustível.

Toda conclusão sobre a coincidência seria filosofia de botequim. Ainda assim, certas verdades são gritantes. O brasileiro, acostumado a passar aperto, sofre calado. Suporta muita míngua e, ingênuo, continua votando nos dirigentes que estão na raiz da penúria que o castiga. Aguenta violência, corrupção, salário baixo, poluição, sol saariano, fila no banco, fila na loja, fila no posto de saúde, fila no estádio, fila no ponto de ônibus, fila no restaurante. Mas que não entravem seu direito de ir e vir!

Se a livre circulação não for o direito mais importante na visão do brasileiro, parece estar entre os primeiros. Desde sempre, o transporte tem deixado a todos um gosto de quero mais. O insuportável inchaço das megalópoles brasileiras é obra da dificuldade de locomoção. Se fosse mais fácil e rápido deslocar-se, o crescimento urbano teria seguido outro modelo.

Opções históricas equivocadas fizeram que fosse dada absoluta preferência a ônibus e automóveis em detrimento de metrô. A circulação de superfície, entravada, tornou o deslocamento dentro das cidades um inferno. Alguns chegam a gastar quatro horas por dia para chegar ao trabalho e voltar ‒ um despropósito.

O transporte é ponto de tensão, esticado como corda de violino. Qualquer investida contra a precária estabilidade da estrutura de locomoção do brasileiro tende a transformar-se em estopim. No final, pode até derrubar governo, como já aconteceu.

Reflexões sobre a greve

José Horta Manzano

Toda decisão governamental, correta ou equivocada, acaba por acarretar efeito a longo prazo. Estamos sentindo hoje a repercussão de escolhas feitas semana passada. Mas estão aí também as consequências de decisões antigas. Alguns desastres atuais são resultado de bombas-relógio armadas meio século atrás.

Os anos em que a República foi presidida por Juscelino Kubitschek foram de grandes transformações. Com euforia, os brasileiros vislumbravam um Brasil novo, de progresso e bem-estar. Brasília foi construída em prazo curtíssimo ‒ um assombro. O futuro parecia estar chegando e se apresentava brilhante.

A indústria automobilística se instalou em território nacional. Nas cidades e nas toscas estradas, começaram a rodar dekavês que estalavam feito pipoca, fusquinhas esquisitos com motor atrás, simcas elegantes e cobiçados. E os caminhões fenemê, então! Um dos símbolos fortes da pujança da terra descoberta por Cabral!

Com orgulho, o Brasil se jogou de corpo e alma no transporte rodoviário, deixando pra trás os caminhos de ferro. Que coisa mais antiquada, gente! Trem de ferro, trenzinho do caipira, maria-fumaça ‒ a etiqueta de meio de transporte ultrapassado colou na ferrovia. Ninguém reclamou quando, em poucos anos, a rede ferroviária foi desmantelada. O mato cresceu entre os trilhos e as estações viraram ruína.

Essa visão maniqueísta, que opõe rodovia a ferrovia, foi muito nociva. Passados cinquenta anos, o Brasil sofre as consequências de uma decisão desastrada, tomada sob forte pressão do lobby das montadoras. É verdade que ninguém podia prever as crises petroleiras nem os reclamos da ecologia, que estavam por vir. São elementos que entraram em nossa vida sem pedir licença. Que fazer?

No fundo, o trem não era tão antiquado como pareceu aos governantes dos anos 1960. Países mais atinados continuaram a investir no aperfeiçoamento das estradas de ferro. Vieram trens de superior desempenho, com boa velocidade, climatização, vedação sonora. As linhas foram totalmente eletrificadas. Apareceu o trem-bala, que, em percursos de até 500-700km, faz concorrência ao avião.

Chamada Estadão, 28 maio 2018

Com o perdão da expressão, o Brasil perdeu o bonde. Dormiu no ponto. Mas nunca é tarde demais pra consertar. Quem sabe um governo mais alerta dê os incentivos necessários pra retomar a implantação de ferrovias. Embora não venham imediatamente, os resultados serão pra lá de benéficos. Nossos netos não verão um país paralisado por greve de caminhoneiros.

Os primeiros candidatos

José Horta Manzano

Uma estação de rádio de São Paulo que costumo escutar dispôs-se a sabatinar os (pré-)candidatos à presidência da República. Esta semana, começou com dois deles. Concedeu uma hora a cada um, para responder à perguntas que lhe faziam três ou quatro entrevistadores no estúdio.

Pelo desempenho dos candidatos, podemos tocar a sirene, que temos aí desastre anunciado. E com data marcada para começar: primeiro de janeiro do ano que vem.

Os dois primeiros entrevistados, doutores Bolsonaro e Boulos, deixaram uma triste impressão de despreparo. Pior, não demonstraram capacidade nem abertura de espírito propensa ao aprendizado.

Jair Bolsonaro
by João Bosco Jacó de Azevedo (1961-), desenhista paraense

Doutor Bolsonaro parece boa gente, mas isso não basta pra ser bom presidente. O homem não tem a menor noção das grandes linhas mestras que alicerçam o país, a começar pela economia. Falta-lhe jogo de cintura. Qualquer entrevistador, por mais primitivo que seja, consegue encurralá-lo e deixá-lo embaraçado e sem palavras.

Embora tenha abandonado a carreira há mais de 30 anos, a cada dez palavras ele repete que é militar, o que deve lhe parecer de capital importância. Acredita que os complexos problemas do país hão de se resolver num estalar de dedos ‒ por pura magia ou pela força do pensamento ‒ assim que ele assumir a presidência. Está mais pra iluminado do que pra dirigente sensato. Com ele na presidência, daríamos um pulo no escuro.

Guilherme Boulos

Doutor Boulos é muito diferente. Tem um lustro de cultura que lhe confere certa fluência de linguagem. Articula e exprime corretamente as ideias. Infelizmente, essa faculdade não é de grande valia. O homem tem monomania. Embora jovem, tem os pés fincados nos anos 1960.

Com ele na presidência, o caminho do país seria convulso: enfrentamentos, luta de classes, restrições à propriedade privada, presença invadente do Estado na vida das gentes. Uma cartilha ultrapassada, que se mostrou inadequada e que faleceu com o desmoronamento da União Soviética, trinta anos atrás. A concretizar as ideias do moço, não se vislumbra um Brasil melhor.

Não conheço ainda o programa dos demais (pré-)candidatos. É bom que seja melhor do que o desses dois, senão, o Brasil está bem-arrumado.

Bolsonaro
O sobrenome Bolsonaro é provavelmente transcrição errônea do original Bolzonaro. Na Itália, menos de cem famílias têm esse raro nome. A hipótese mais provável é que derive de Bolzano Vicentino, um vilarejo situado a poucos quilômetros de Vicenza, região do Vêneto, Itália. O patriarca que deu nome à estirpe devia ser originário desse burgo.

Boulos
Boulos é a forma árabe do nome Paulo, usado aqui como sobrenome. A transliteração varia conforme a língua de destino: Bulus, Bulos, Boolos, Boulus, Boulos são algumas das variantes. Dado que a língua árabe não conta com o som P, ele vem sempre transcrito como B. Boulos é a transcrição francesa. Deve ser pronunciado «Bulos». Esse nome de família, usado no Oriente Médio, denota origem cristã.

Mal-informados

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 maio 2018.

A percepção que se tem de um personagem pode variar dependendo do ponto a partir do qual se observa. O fenômeno é especialmente sensível na área política. Um figurão adorado e incensado no próprio país pode ser visto com muita reserva e até com prevenção por quem está fora. Inversamente, o medalhão mal-amado na própria pátria é às vezes festejado no estrangeiro.

Um bom exemplo é Mikhail Gorbatchov, o último czar soviético. As efusivas manifestações de que foi alvo, na virada da década de 80 para a de 90, de tão intensas, receberam até nome próprio: gorbymania. Visto como artífice da paz mundial, o homem era aclamado, por onde passasse, por multidões entusiasmadas. Enquanto isso, os cidadãos soviéticos lançavam ao personagem um olhar pra lá de crítico. Sua popularidade no exterior não se repetia no interior das fronteiras. Até hoje, passados trinta anos, enquanto o Ocidente guarda inabalável ternura por Gorbatchov, muito russo ainda pragueja contra aquele que pôs abaixo o ancien régime.

Mikhail Gorbatchov

Na polaridade inversa, bom exemplo é Donald Trump, o polêmico presidente dos EUA. No exterior, é perscrutado com desconfiança unânime. Nunca se sabe qual será a bravata seguinte. Ao redor do planeta, todos temem ser incomodados pela próxima tempestade provocada pela Casa Branca. Já para os que vivem dentro das fronteiras americanas, o diabo não é tão feio assim. Boa parte do eleitorado abomina, sem dúvida, o figurão. Mas seus fiéis, os que lhe garantiram a vitória, não se decepcionaram. Na hora agá, o homem se revela excelente tenista: rebate, um a um, os escândalos de que é acusado. Todas as denúncias resvalam e nenhuma consegue derrubá-lo. O homem tem ainda três anos de mandato pela frente, mas é de crer que, no final, se reeleja. E com folga.

Essa dualidade de apreciações está se manifestando em nossas plagas. Lula da Silva, como sabemos, já foi dono de popularidade imperial. A crer nas sondagens, ao deixar a presidência recebia aprovação de oito em dez brasileiros. Por infelicidade, de lá pra cá o Brasil virou país do assombro. Nos anos recentes, não tem passado uma semana sem revelação de novos escândalos de corrupção. O partido que Lula da Silva ajudou a fundar trinta anos atrás ‒ e que prometia purificar o cenário político ‒ foi decapitado. Sua cúpula está atrás das grades, condenada por fatos de corrupção.

Donald Trump

Os brasileiros acompanharam a derrocada, em colheradas diárias servidas ao molho do desgosto. Atônitos, nos demos conta de ter sido vítimas de assalto monstruoso, covarde e prolongado. O pão dos pobres ficou mais duro e o leite das criancinhas, mais ralo. Manifestamos nossa indignação, defenestramos uma presidente problemática e conseguimos que, ao fim de muito vaivém, o rigor da lei despencasse sobre o ex-presidente. Já vão longe os tempos em que ele surfava sobre oitenta por cento de admiradores. Pelo menos cinquenta já debandaram, deixando ao figurão magros trinta porcento de irredutíveis. O antigo líder é hoje rejeitado por dois em três brasileiros.

No entanto, no exterior ‒ com ênfase na Europa ‒ a percepção de Lula da Silva não parece ter-se deteriorado. Volta e meia, um reclamo se alevanta contra sua prisão. Vozes ousadas desacatam o Estado brasileiro e desdenham nosso ordenamento jurídico. Homens políticos simpáticos ao ex-presidente exigem que justiça seja desfeita, que Lula seja absolvido e que lhe seja permitido concorrer à presidência. Como explicar tamanha discrepância entre o juízo interno e o externo?

Lula da Silva

Via de regra, os protestos são exprimidos por líderes socialistas. Acossado pelo populismo, o movimento socialista europeu luta para não se extinguir. Lula da Silva, aquele que um dia foi chamado «o cara», evoca, na memória coletiva do Velho Mundo, um modo socialista de governar. A conclusão é fácil: ele serve de tábua de salvação para políticos que perderam a aura.

Um dos mais incisivos é señor Zapatero, aquele que foi um dia primeiro-ministro da Espanha. Intercede com ímpeto pela libertação de Lula da Silva. Pois é esse mesmo senhor que, atuando como observador das recentes eleições venezuelanas, afiançou a lisura do processo. Precisa dizer mais?