De carona para o Rio

José Horta Manzano

Uns trinta anos atrás, quando a internet ainda estava longe de se popularizar como atualmente, alguém me disse: “Se você for a pé daqui até o mercadinho da outra rua, quando chegar lá já terá sido filmado pelo menos umas dez vezes”. Fiquei impressionado. De lá pra cá, não digo que caminho pela rua sorrindo para as câmeras, mas me tornei consciente de que, nos dias que correm, somos mais (e mais bem) espionados que na Europa Oriental na época da Guerra Fria.

Ninguém escapa, grandes e pequenos, ricos e pobres, graúdos e povão. Todos deveriam se conscientizar da realidade deste começo de século XXI. Nos velhos filmes policiais, mensagens vinham pelo correio. O destinatário, depois de tomar conhecimento da missiva, simplesmente atirava o papel ao fogo da lareira (sempre convenientemente acesa nessas horas). E pronto. Nada sobrava.

Essa moleza acabou, como todos sabem. Os Correios estão bambos das pernas, faltos de correspondência, sem saber direito como reorientar.seus negócios. Recados e palavras de ordem hoje, mesmo as mais recônditas como quando se urde um golpe de Estado, vão por aplicativo de mensagens. E todos se sentem protegidos, tanto o remetente, quanto o destinatário.

Pois não deveriam ficar tão tranquilos. Diferentemente do passado, quando cartas queimadas na lareira se calavam para todo o sempre, as mensagens de hoje são a criação humana mais próxima da eternidade. Exagero, é verdade, mas é mais fácil derrubar um avião que fazer sumir mensagem mandada por uotisápi.

Muito bandido experiente e muito aprendiz de bandido tem feito a amarga experiência: remover as mensagens do telefone e acreditar ter apagado todas as digitais. Engano torto. A PF tem métodos complexos para fazer reviver textos que o proprietário do aparelho imaginava deletados para sempre.

Se não conseguirem, resta sempre a nuvem, à qual conseguem ter acesso em casos específicos. Se esta também falhar, há a outra ponta da linha. Não se deve esquecer que uma mensagem tem um remetente e um destinatário. Basta escarafunchar o telefone de quem recebeu o recado. Até hoje, na crônica policial brasileira, não se sabe de quem tenha escapado.

Assim mesmo, tem gente graúda e inteligente que ainda não assimilou a história da caminhada até o mercadinho e das dez câmeras a registrar tudo o que ocorre. Se você ou eu formos até a esquina, tanto faz que sejam 10 ou 50 câmeras a nos seguir, visto que não somos procurados pela polícia, nem figuras públicas de projeção. Nossa passagem não há de despertar rumor.

Dia 22 de agosto de 2025, uma câmera instalada no Aeroporto Santos Dumont (RJ) acompanhou o pouso de um jatinho executivo até parada dos motores. De dentro dele, saltaram o ministro Alexandre de Moraes e esposa. Um carrão encostou ao lado do aeroplano, à espera dos chegantes. A cena não teria nada de extraordinário, não fosse um detalhe: o jatinho Legacy 650 prefixo PP-NLR pertencia a uma empresa de Daniel Vorcaro.

Quem descobriu a história apimentada foi o jornalista Lauro Jardim, que a publicou no jornal O Globo deste domingo. Com um videozinho para confirmar.

Pelas investigaçôes da PF, o escritório da mulher de Moraes finha fechado contrato de dezenas de milhões de reais com uma empresa do banqueiro exatamente 3 meses antes.

Naquela altura o Ministério Público já havia recebido do Banco Central um comunicado apontando fortes indícios de crime de gestão fraudulenta nas operações envolvendo o Banco Regional de Brasília e o Banco Master, de Vorcaro.

Em nota oficial de abril deste ano, Alexandre de Moraes foi taxativo ao afirmar que “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Como se vê, não era exatamente isso.

É aqui que entra minha surpresa. Como é possível um homem matreiro e velho de guerra como Moraes se enrolar em mentiras desse calibre? Todo o mundo sabe que há câmeras nos aeroportos, dentro dos salões e na área das pistas. Ele imaginou talvez que, se nada tinha aparecido até então, não apareceria nunca. Pisou na bola.

Fazer coisa errada dá muito trabalho. O infrator tem de considerar todas as possibilidades, evitar afirmações “taxativas”, alegar memória fraca. Alexandre agiu como réu primário, se posso me exprimir assim.

E agora, seu Alexandre?

Bom, podem encontrar mais quinhentos videozinhos, isso não vai mudar nada. Já está combinado, até com os russos, que Alexandre e todos os colegas serão poupados e inocentados. Quem sabe até recebem um bônus dobrado no fim do ano.

Os podres de todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, a água estagnante que banha os altos círculos da República deixou aflorar os primeiros relentos do “dossier” Vorcaro. Naqueles mesmos dias, talvez pouco antes, doutor Fachin, presidente pro rata temporis do STF, havia proposto a seus colegas a introdução de um código de ética que regulasse o comportamento dos magistrados.

O código foi prontamente rejeitado por alguns dos ministros. À época, ninguém ligou coisa com coisa, o que é que o caso Vorcaro tinha a ver com a rejeição de um código de conduta. Pareceu apenas orgulho de certos membros que recusavam sofrer a humilhação de ver seus atos limitados por um cabresto virtual. Hoje, estourados os escabrosos escândalos dos últimos dias, compreende-se a razão da recusa do cabresto. Não era orgulho ferido, não, senhor.

O estudo do rastro das digitais deixadas no telefone de Vorcaro demonstra o envolvimento – de “irmão”, em alguns casos – entre certos integrantes do STF e o ex-banqueiro trambiqueiro. Pessoalmente ou por intermédio de parentes, estão implicados Gonet (PGR), Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques, Luís Fux. Não se sabe se a decodificação do celular já terminou, portanto, pode haver mais surpresas no fim da linha.

Em maior ou menor grau, todos os mencionados estão envolvidos, O mais encalacrado, até agora, é Alexandre de Moraes, que também é, por coincidência, o que recebeu (por intermédio da esposa) o montante mais elevado.

Por mais que Vorcaro fosse generoso (como todos os que esbanjam dinheiro alheio), não acredito que tenha distribuído essa grana toda encantado pelo brilho da careca de Moraes ou pelo aspecto sizudo e distante de Toffoli. Alguma transação havia. Até agora não vazou qual seja. Qualquer hora vem.

Não tive fígado para assistir aos insultos que Suas Excelências trocaram nos debates desta semana. Prefiro não descambar da perplexidade direto à depressão. Nem aos cortes e videozinhos assisti. Achei que não valia a pena.

Sou de outro tempo, de quando não se ouviam palavrões. Em família, não se discutia no almoço de domingo, ainda que houvesse ademaristas e janistas em volta da mesa. Sei que hoje não é mais desse jeito. Assim mesmo, tenho dificuldade em acompanhar debate entre homens togados que se atiram impropérios.

Os senhores ministros que fizeram o que nunca deveriam ter feito e foram apanhados com a calça nas mãos não têm escolha: têm de renunciar ao mandato, pendurar a toga no gabinete de despacho, esvaziar as gavetas e chamar um táxi para casa.

Quatro ou cinco demissões de uma vez? É surpreendente, mas seria o melhor caminho. Melhor do que se segurar na cadeira manca e conservar o mandato no grito. A vergonha, se é que a sentem, veio para ficar. Olhados com desconfiança, serão até o fim da existência.

Enriqueceram, mas perderam a honra. É pena.

Eleições vêm aí – 3

Cantar de galo

José Horta Manzano

Quintal do vizinho
Lula às vezes parece discursar para fãs que aplaudem sem ouvir e para jornalistas sonolentos que ouvem sem escutar. No 11 de set°, durante um ato de campanha em Porto Alegre, explicou que estará na sessão de abertura da ONU daqui a uma semana. Como de hábito, será o primeiro a discursar, e dirá a Trump: “Eu não me meto nas eleções americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano”. Acrescentou que “o filho da dona Lindu (ele, Lula) gosta de respeitar e de ser respeitado”.

Estamos habituados a tanta falsidade neste Brasilzão de Deus, que ninguém se preocupou em checar as palavras de Lula. Nestes tempos em que não precisa mais consultar arquivos de jornal para verificar, levei exatamente 45 segundos para encontrar o que procurava. Dia 1° de novembro de 2024, em entrevista ao vivo a LCI, canal televisivo francês, Lula se exprimiu sobre as eleições presidenciais americanas, confirmando sua preferência pela vitória da candidata democrata, Kamala Harris, diante de Donald Trump.

A plateia que aplaudiu a fala de Lula em Porto Alegre pode ter apreciado o que ouviu. Mas Trump, que às vezes costuma ser bem informado, há de ter achado estranho ver mais um mentiroso liderando país importante. Ele deve até ter comentado: “Welcome to the club!”

“Os que me seguem”
É curiosa a capacidade que um facho de holofotes tem de fazer o enfocado subir no salto, vestir a saia justa e cantar de galo. Até outro dia, o senhor Augusto Cury, hoje candidato à Presidência da República, era autor de livros de autoajuda, conhecido apenas entre os adeptos desse gênero de literatura. A candidatura a cargos eletivos está aberta a todo cidadão brasileiro, dentro de certas regras – por exemplo, fichas sujas não podem concorrer.

Com a candidatura aprovada por seu partido político, sr. Cury decidiu concorrer. Estes dias, numa entrevista, foi questionado sobre quem apoiaria no segundo turno, caso ele mesmo não passasse pelo “vestibular” do primeiro. O candidato não se fez de rogado, deu logo sua resposta. Declarou que apoia Flavio B., mas com uma condição: de que ele prove que não houve corrupção na ajuda de milhões de dólares recebidos para financiar o filme em louvor ao pai. E tem mais: para, enfim, apoiar plenamente o filho do capitão, Flavio B. vai ter de “pegar o meu plano de governo e, num cartório, assinar que vai executá-lo”.

É aqui que entram o salto, a saia justa e o galo a cantar. Cury acrescenta: “Se ele (Flavio B.) fizer isso, as pessoas que me seguem estão liberadas para votar nele”. Disse isso com a candura dos que acreditam piamente ser donos do eleitorado, que primeiro espera que seu Mestre mande, para em seguida repensar seu voto.

Dito isso, renego o artigo que escrevi algumas semanas atrás. Deixei-me levar pelo ar sério desse senhor. Vislumbrei ali uma fresta de luz para o Brasil sair das trevas atuais. Infelizmente, não é assim. Penitencio-me.

Com alguém que recomenda voto em Flavio B., seja por que motivo for, seja com as ressalvas que forem, o facho de luz se extingue. Cury não prometeu indultar Bolsonaro pai. Mas também não prometeu deixar que o Judiciário cuide dos problemas que lhe dizem respeito. Convém guardar distância desse iluminado.

A redenção

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Não é de hoje que os integrantes do STF fazem suas artes e nos pregam sustos. Oito anos atrás, num belo dia quase no fim de 2018, o inefável Marco Aurélio Melo, então ministro do Supremo, tomou uma decisão monocrática de deixar os brasileiros atentos de cabelo em pé. Provocado por um partido político, deu uma senhora canetada. Mandou soltar todos os cidadãos que estivessem na prisão, com sentença confirmada em segunda instância, mas não ainda transitada em julgado.

Alguém logo calculou quantos presos deveriam ser soltos: 160 mil em todo o país, uma enormidade. Dia seguinte, antes que o primeiro preso fosse liberado, Dias Toffoli, então presidente do STF, anulou a decisão monocrática de Marco Aurélio e tudo votou à estaca zero. Um ano mais tarde, decisão da Corte, tomada em reunião plenária, estabeleceu que o condenado só poderia ser preso depois do esgotamento de todos os recursos legais. O placar foi apertado: 6 x 5. A decisão está em vigor até hoje.

O susto que Marco Aurélio nos causou foi a facilidade com que uma caneta solitária tem o poder de tomar decisões de tanta importância. À época, escrevi um artigo, que o Correio Braziliense publicou. Teci considerações sobre o que me pareceu desvirtuamento do princípio de funcionamento do STF. Por ser um tribunal colegiado, decisões tomadas por um ministro solitário deveriam se restringir a casos de interesse restrito, ao passo que assuntos de alcance nacional deveriam passar sempre pelo crivo da colegialidade.

Dei a culpa pelo deslize do magistrado à vaidade. “É irmã gêmea do orgulho e mãe de muitos defeitos. Traço inerente ao ser humano, afeta-nos a todos, em maior ou menor grau. Na vida do mortal comum, ataques de vaidade explícita não fazem mais que azedar o entorno do vaidoso. Já quando o soberbo exerce função pública de destaque, é mais grave. Imodéstia descontrolada pode extravasar a banheira do poderoso e alagar o país inteiro. Isso ocorre a cada vez que um magistrado é acometido por xilique de prima-dona ferida.”

Para resolver o problema, pareceu-me que seria interessante fazer uma reflexão sobre a abolição da vitaliciedade do cargo de ministro do Supremo. Imaginei que, ao lembrar que seu cargo tem dia e hora para terminar, o togado tenderia a comportar-se com mais responsabilidade. É medida pra ser estudada.

Já a crise que sacode o Supremo atualmente é de outra natureza. Há sempre uma pitada (ou uma mão-cheia) da vaidade, mas o sacolejo atual envolve outra, digamos assim, “fraqueza”, do ser humano: a ganância. E, a meu ver, há um bocado de ingenuidade também.

Esqueça que os ministros do Supremo recebem um ordenado elevado, para os padrões do país. Esqueça que contam com apartamento grátis, automóvel com motorista gratuito, plano de saúde a custo zero, lanchinho, café e almoço por conta da casa. Esqueça que eles têm direito a requisitar jatinho da FAB quando se lhes faz necessário. Qualquer mortal estaria encantado e satisfeito com essa mamata toda.

De repente, aparece um salafrário, daqueles que vendem terreno na Lua. Propõe sabe-se lá que negociata, de graça é que não foi. Enche as Excelências de presentes, viagens, jatinhos, soirées em Londres com charutos e whisky do melhor – tudo por conta da casa. Deus sabe o que o trapaceiro prometeu, o fato é que começou a cumprir sua parte. Quem só ficou na promessa foram as Excelências. Ou não ficaram?

Os magistrados foram de uma ingenuidade magistral quando acreditaram que ninguém jamais ficaria sabendo das tramoias. Deixaram-se cegar também pela ganância desmedida, e de novo ingênuos, ao imaginar que os “negócios” ficariam para sempre atrás da moita.

Agora, pronto. aconteceu o que ninguém queria. Como é que fica?

Minha receita de limitar o mandato dos magistrados parece chá de camomila para paciente moribundo: não vai resolver. O que é que se faz, então?

Para salvar a honra dos magistrados envolvidos e para garantir o futuro de nossa Suprema Corte, não vislumbro melhor solução do que a renúncia pura e simples, com efeito imediato, dos ministros enrolados nesse triste episódio.

Mesmo aqueles que, embora culpados, ainda não tenham sido incomodados, é bom que renunciem já. Hoje em dia, nenhum segredo fica mais escondido para sempre.

Eleição vem aí – 2

José Horta Manzano

Os habitués deste espaço sabem, e os que por aqui passeiam vão perceber, que elogios a políticos, se faço, são parcos. O que se encontra em cada esquina são críticas. Em nosso país, surpresas boas andam escassas. A política do Brasil é como um livro aberto que a gente folheia de trás pra diante. Quando anunciam fato novo, a gente já sabe como é que vai terminar. (E o final nem sempre é feliz.)

Começaram as entrevistas, os debates e as sabatinas em que candidatos são “cozinhados”. Soube de que um deles, filho de um político que está atualmente recolhido ao conforto de sua mansão, a cumprir pena de prisão, que levou uma “cola” rabiscada na palma da mão esquerda. Como se vê, o afinco com que se lançam à conquista do Planalto é tão sincero que, sem a colinha, podia até esquecer seus argumentos.

Outro dia, teve um que mostrou duas fraldas às câmeras, cada uma levando escrito o nome de um dos candidatos majoritários. Não sorriu. Concluo que, dada a sisudez do rapaz, estivesse exibindo as duas últimas fraldinhas que usou. Talvez pra provar que já não é criança, sei lá.

À vista desses debates de nível rasteiro, não me interessei pelo que foi dito ou não foi dito nos debates. Isso durou até dois ou três dias atrás, quando li uma chamadazinha no jornal comentando o desempenho de um candidato desconhecido, um certo Augusto Cury. O texto era elogioso, o que aguçou minha curiosidade e me fez procurar saber mais.

Encontrei no youtube um vídeo oferecido pela rede Band contendo a participação completa desse candidato no debate do canal, uma tertúlia empobrecida pela ausência de três fujões: Lula, Flávio B. e Zema.

A falta dos tenores foi providencial: permitiu que a voz de candidatos menores fosse ouvida. O candidato Augusto Cury me impressionou. É um médico psiquiatra, com mestrado e doutorado, que nunca se envolveu com política. Deixou bem claro que, sendo multimilionário, não procura enriquecer agora, pois já não precisa.

A experiência prática que lhe falta é preenchida por ideias claras e firmes em matéria de educação, redistribuição de renda, política fiscal. Não quero dar aqui a impressão de estar fazendo propaganda eleitoral em favor desse senhor. O que me encantou na fala dele foi o discurso em tom civilizado, sem adjetivos desnecessários, sem um pingo de agressividade, sem um palavrão sequer.

Faz muito tempo que não ouvia uma fala desse naipe saindo da boca de um candidato à Presidência. Estava quase acostumado a ataques abaixo da cintura, que podem render cliques, mas não acrescentam nada ao embate de ideias.

Pensei que, entre os seis principais candidatos, esse senhor me parece, de longe, o mais bem intencionado. Nos dias que correm, sinceridade e boas intenções são pra lá de importantes. Se nenhuma catástrofe ocorrer daqui até o dia do primeiro turno, já sei pra quem vai meu voto

Eleições vêm aí

José Horta Manzano

A cada quatro anos, na única eleição em que os brasileiros estabelecidos em países estrangeiros têm licença para votar, descubro algum problema que nossas comunidades expatriadas enfrentam.

Este ano, o estrepe que dói no pé de conterrâneos no estrangeiro se chama Donald Trump, e atormenta os que um dia procuraram os EUA na crença de lá encontrar seu eldorado e de engatilhar seu ‘sonho americano’.

Estimativas dão conta de 2,1 milhões de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, enorme contingente que representa 40% de nossos compatriotas fora do país.

Para acolher o afluxo de eleitores esperados para o 4 de outubro, os serviços consulares do Brasil abriram nada menos de 12 postos de votação, situados nas regiões com maior concentração de brasileiros.

Reportagem da Folha relata o caso do Consulado-Geral de Nova York, que vale como exemplo. Por medo de ser apanhado por uma patrulha brutal do ICE, o serviço que caça imigrantes ilegais (ou não), nossos conterrâneos passam longe de multidão, ajuntamento, fila na calçada, enfim, todo lugar em que possa ser vítima de uma batida. Isso vale tanto para documentados quanto para indocumentados – as patrulhas se deixam guiar pela aparência ou pelo faro, que nem sempre é perfeito.

Ciente desse impedimento, nosso consulado procurou um lugar mais discreto, longe de bairros “manjados”. Encontrou um lugar onde os votantes possam entrar rápido, sem se aglomerar na calçada, pondo-se todos a salvo do ICE.

É louvável a preocupação do consulado, mas receio que não vai encorajar muita gente a sair de casa. O medo de ser preso e, sabe-se lá, expulso, é grande demais.

Contra a brutalidade de Trump e de seus serviços, não há nada que possamos fazer. Por seu lado, as competentes autoridades brasileiras podem, sim, aplainar a vida dos brasileiros que, enfrentando Trump ou não, ganham a vida e sustentam a família no exterior.

Para começar, há um ponto importante a ser mencionado. Os 5,3 milhões de brasileiros do estrangeiro remetem anualmente ao Brasil o montante de US$ 4 bilhões. São mais de R$ 20,7 bilhões, soma considerável. É dinheiro que entra em nossa economia limpinho, caído do céu. Corresponde a US$ 750 por pessoa (crianças incluídas), ou seja, quase R$ 3.900 por cabeça. Não é qualquer cidadão nacional que paga tudo isso de imposto direto.

Nos EUA, o problema é esgueirar-se nas esquinas para escapar à versão trumpiana do famigerado ICE. Em países onde não se perseguem estrangeiros, o problema muitas vezes é a distância entre o domicílio do eleitor e o posto de votação. Na França, por exemplo, há um só lugar para votar: Paris. Isso significa que o brasileiro residente em Marselha, segunda cidade do país, tem de percorrer os 777 km que separam as duas metrópoles (7h45 de automóvel). Esse é o caso de muitos outros países.

Está na hora de o Brasil implantar, nem que seja só para os eleitores do exterior, o voto por correspondência. Não estou falando de voto por internet, mas de voto por carta levada pelo correio. Dos grandes países da Europa, conheço bem três onde esse tipo de voto está em vigor há décadas: a França, a Suíça e a Itália.

Se o Brasil adotasse esse método, os eleitores registrados no consulado receberiam em casa o material de voto. Exprimiriam seu voto confortavelmente, em seguida bastaria seguir as instruções: botar no correio (não precisa nem selar) e despachar. Os votos seriam apurados no próprio consulado, em seguida enviados a Brasília.

Esse procedimento anula patrulhas do Trump, e apaga também a distância do domicílio até o posto consular.

Há ainda outros pontos a inserir em nossa legislação a fim de facilitar a vida dos que pagam, por meio de suas remessas mensais à pátria, o pedágio de terem ousado trilhar um caminho diferente. Ficam para uma próxima vez.

Exame oral

José Horta Manzano

Fui escolarizado nos tempos em que professor ensinava e aluno aprendia. Assim mesmo, na hora das provas de fim de ano, meu terror maior – e de muitos colegas – eram os exames orais.

Nas provas escritas, a gente ficava um pouco estressado (essa palavra é nova, na época se dizia nervoso). Mas sempre dava pra parar e passar uns minutinhos tentando lembrar um ponto esquecido. Dava pra dar uma espiadinha na prova do colega ao lado, desde que ele permitisse. Dava até pra tirar um papelzinho enrolado no fundo da caneta tinteiro ou previamente grudado debaixo do tampo da carteira, expediente que a gente chamava de cola.

Na hora das orais, aí é que eram elas. Lá íamos nós, juventude atemorizada, assim que nosso nome era chamado, pernas cambaleando, garganta seca, olhar implorando por misericórdia, a enfrentar a temida hora da verdade. O peso atribuído aos exames orais era alto, portanto todo cuidado era pouco. Face a face com o examinador – que não necessariamente era nosso professor habitual – não havia como colar, dar uma espiada na prova do colega, pedir um tempo para recordar um ponto importante. Era um pingue-pongue de perguntas e respostas. Ouvido o pingue, tinha-se de responder com um imediato pongue.

Era um sufoco (a gente dizia uma agonia). Tinha gente mais cool (a gente dizia folgada) que não se abalava com exame oral. Entrava na sala como quem entrasse no Cine República pra ver uma chanchada.

Em resumo, complicado ou não, era passagem obrigatória, exercício do qual não havia como escapar. E todos entendiam isso. Nunca vi ninguém faltar a exame oral de fim de ano. O castigo era ficar de segunda época e ter de estudar durante as férias e voltar em fevereiro para enfrentar… a mesma prova oral. Impensável.

Os bem-informados leitores e as argutas leitoras sabem que em outubro teremos eleições gerais, e que estamos em plena campanha eleitoral oficial. Estações de televisão, sites de notícias e outras plataformas de informação estão convidando os principais candidatos à Presidência para apresentarem seus respectivos programas de governo e para debaterem num rodízio de perguntas e respostas.

Não sei se por causa de traumas paralisantes ligados ao velho exame oral, alguns candidatos, justamente os mais bem colocados nas pesquisas, estão mostrando aversão pelo joguinho de “Candidato, seu tempo se esgotou” ou “Candidato, é sua vez de responder”. Pretextos, há vários. Diz um que não quer ser alvo de apedrejamento. Diz outro que “Se ele não for, eu também não vou”.

Um pouco de coragem, senhores, vamos! Só se esconde quem não está em condições de dar respostas civilizadas e convincentes. Não pega nada bem só fazer campanha cercado de seguranças e correligionários, sem adversários para exercerem o contraditório. Se, para o atual presidente, que quer ser reeleito, já fica feio pra caramba, para o desafiante fica pior ainda. Como é possível que um senador, que nunca exerceu a presidência, tenha medo de responder a perguntas sobre seus atos controversos?

O eleitor tem o direito de saber quem são os dois personagens que pedem seu voto, mas que fogem a toda pergunta embaraçante. Querem ser eleitos pelos belos olhos? Ou pela fama, Luiz Inácio? Ou pelo sobrenome, Flavio B.?

Nenhum dos dois é campeão de oratória (nem de enrolatória). Um não deve temer o outro. Ainda que o adversário fosse um Carlos Lacerda ressuscitado, o Brasil dispensa belas palavras e espera ouvir a verdade do passado e a promessa de futuro honesto. Futuro honesto?

É, talvez more aí o problema.

Lé com lé

Ilustração by Alcy Linares, desenhista paulista

José Horta Manzano

Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.

Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.

Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!

Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.

Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?

Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.

Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.

Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.

A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.

Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.

Tome cuidado, Flávio B.!

O eldorado de alguém

José Horta Manzano

Os primeiros aventureiros europeus levavam grande vantagem em relação aos viajantes atuais: na falta de imagens gravadas e de testemunhas, podiam contar o que quisessem. Na volta da viagem, El-Rei e toda a corte estavam ávidos por conhecer as novidades das novas terras. E os viajantes contavam exatamente o que lhes interessava e o que lhes aumentasse o prestígio.

Houve relatos fantásticos de mulheres amazonas cavaleiras que decepavam o próprio seio para facilitar o porte de um escudo de ferro que as protegia durante a batalha. Essa história é uma mentira particularmente mal costurada. Sabe-se que, na América, não havia cavalos. Sabe-se também que os indígenas amazônicos não conheciam o trabalho do ferro. Por fim, essa coisa de decepar o próprio seio é o cúmulo da história mal ajambrada. Mas os cortesãos acreditavam, aplaudiam e pediam mais.

Um mito persistente, de autoria desconhecida, foi o do El Dorado. A historinha original era do rei de uma região da atual Colômbia, que se cobria inteirinho de ouro em pó e se limpava mergulhando na Laguna Guatavita, uma caldeira vulcânica (boca de vulcão extinto) que o tempo preencheu d’agua, formando um lago. De “homem coberto de ouro em pó”, o mito aos poucos se transformou e virou uma cidade de ouro. Era esse o El Dorado que diversos exploradores procuraram.

A cidade de ouro nunca foi encontrada, mas a expressão ficou. É hoje usada em sentido metafórico, indicando um lugar onde se pode enriquecer depressa ou que oferece boas oportunidades a todos.

As autoridades migratórias brasileiras informam que, nos últimos dez anos, mais de meio milhão de estrangeiros vindos em busca de um país que os acolhesse, que lhes permitisse se instalar e recomeçar a vida com a família. Boa parte desses imigrantes chegou sem grandes posses além da roupa do corpo. Ainda que mal preparadas para chegada tão maciça, nossas autoridades têm lidado bem com o problema. Os novos chegantes vêm recebendo acolhida humana e amável. Os brasileiros, em parte descendentes de imigrantes pobres, não se esqueceram de como a família aqui aportou.

Por seu lado, 4.000 brasileiros que viviam indocumentados nos EUA já foram deportados desde que Donald Trump assumiu a Presidência. A esse contingente, é preciso acrescentar outro maior ainda: 17.000 permanecem agrupados e detidos em centros especializados, à espera de serem deportados.

O objetivo de nossos compatriotas que buscaram fincar pé nos EUA não era delinquir, mas recomeçar a vida do nada, dando duro, a fim de dar melhor futuro à famíla. Se um ou outro descambou, o xerifado americano já deve ter cuidado de tirá-lo do convívio com a sociedade.

O objetivo dos novos imigrantes que chegam no Brasil é exatamente o mesmo. Não vieram de terras distantes para descambar aqui. Muitos deles, em especial os que já viveram uma guerra, querem sossego e paz.

O governo Trump, além de causar pasmo e temor ao redor do planeta, causou pânico em estrangeiros indocumentados que vivem nos EUA. Eram gente que trabalhava tranquila e honestamente, e que hoje se esgueira pelas esquinas e não ousa mais participar da vida em sociedade. O povo americano, que em grande maioria descende de imigrantes pobres, se esqueceu desse detalhe do passado. Caçam e expulsam hoje os estrangeiros pobres cujo único crime era estar dando seu quinhão à contínua construção daquele gigantesco país.

Felizmente, nosso povo é de outra índole. Talvez porque continua a viver cercado de pobreza, o brasileiro não se esquece de que um dia também foi pobre.


Pode até ser que esta minha conclusão seja otimista demais, mas prefiro acreditar que seja assim.


Nossos recém-chegados refugiados podem até, um dia, descobrir que o eldorado que imaginavam não está bem aqui. Sairão, se quiserem. Mas não serão expulsos.

Zé da Pinga e a linhagem familiar

Como eram as apurações antes da urna eletrônica

José Horta Manzano

O Brasil está entre os raros países em que o nome próprio e a transmissão do sobrenome não são codificados, isto é, não seguem uma norma. Não é costume herdado dos lusos, visto que, em Portugal, a transmissão do sobrenome é codificada. Em terra lusitana, o recém-nascido recebe o sobrenome dos pais – primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Esse é o costume nacional e ninguém imagina fazer diferente.

Já no Brasil, veem-se irmãos que, mesmo sendo de mesmo pai e mesma mãe, não levam sobrenomes idênticos. Há quem leve só o sobrenome do pai. Há quem carregue sobrenome completamente diferente do dos pais, em “homenagem” a um avô, um tio ou um amigo da família. Há profusão de bebês que recebem nome completo do pai (ou do tio, ou do avô) seguido do epíteto “Júnior”, “Filho”, “Neto”, “Sobrinho”. Há ainda os que vergam sob o peso de três ou quatro sobrenomes, um desafio ao espaço que documentos atuais reservam para o nome do titular.

É curioso notar que, entre nossas centenas de parlamentares de direita e de extrema direita, nenhum se tenha debruçado sobre uma normatização da transmissão do(s) sobrenome(s) no Brasil. Digo que é curioso que não se preocupem com isso apesar de se proclamarem “defensores da família”. A continuidade do sobrenome familiar, geração após geração, é característica forte e evidente da família ao longo do tempo.

Agora que se aproximam as eleições, vai aparecendo um festival de nomes bizarros, como: Zé da Pinga, Val do Açaí, Capitão Almofadinha, Miguel Coronel, Iolanda da Quitanda, e por aí vai. Dizem os candidatos que o chamado “nome de urna” tem a função de bem individuá-los. Entendo o argumento, mas a Justiça Eleitoral já pensou nisso ao atribuir um número a cada um deles. O eleitor vota no número, que é mais fácil de memorizar.

Levantamento feito estes dias, antes do término do período de inscrições, já encontrou, em todo o Brasil, dois candidatos que, sem seram parentes do presidente da República, acrescentaram “Lula” ao próprio “nome de urna”. Com o ex-presidente Jair, é ainda pior. Nada menos de quinze candidatos que, sem serem parentes do ex-presidente, acrescentaram “Bolsonaro” a seu “nome de urna”.

A meu ver, são casos flagrantes de falsidade ideológica que, em outros contextos, pode dar até cadeia. Não entendo como o Tribunal Eleitoral deixa passar essas brincadeiras num momento tão solene como o das eleições.

É trágico perceber que nenhum dos quinze (até agora) que portam o nome “Bolsonaro” há de ter sido advertido ou bloqueado pelo partido em que se inscreveu.

Onde está, nessas horas, o clã Bolsonaro, que se jacta de ser o grande “defensor da família brasileira”? Ao permitir que outros usem seu santo sobrenome em vão, mostram ser defensores da família só da boca pra fora.

Embaixada

Embaixador da Pérsia apresenta suas credenciais ao rei Luís XIV, da França, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

José Horta Manzano

Na Antiguidade, já havia embaixadas, embora não fossem permanentes. Um rei nomeava e enviava um embaixador com a missão de negociar os detalhes de uma paz, por exemplo. Em princípio, terminada a tarefa, o embaixador voltava a seu país de origem.

Ao fim da Idade Média, entre os anos 1400 e 1700, surgiram os primeiros embaixadores permanentes, cada um representando seu rei junto a um governo estrangeiro. No início, somente os países importantes enviavam e recebiam embaixadores. A primeira embaixada da Espanha foi estabelecida no ano 1480 junto ao Vaticano – importante sede de poder à época.

Foi preciso esperar até 1961, quando a Convenção de Viena especificou e oficializou as funções diplomáticas, a inviolabilidade da correspondência e das representações, assim como a imunidade dos diplomatas. Desde então, os estatutos de embaixadas, consulados, missões permanentes e legações estão fixados e vêm sendo respeitados, salvo em situações excepcionais, como aconteceu em 1979, durante a revolução dos aiatolás do Irã, quando a embaixada americana em Teerã foi invadida e ocupada por meses.

Entre os chacoalhões que Donald Trump tem dado no funcionamento do planeta, a diplomacia parecia ter escapado. Só que isso foi até alguns dias atrás. Hoje, não mais. Faz uns dias, seu governo suspendeu o visto permanente da embaixadora do Brasil em Washington. Foi assim, sem mais nem menos, com efeito imediato. É sabido que Washington e Brasília não atravessam atualmente um período de lua de mel. Assim mesmo, um ataque aos sacrossantos usos e costumes da diplomacia ultrapassa o que se permite a uma explosão de cólera.

O Itamaraty, que é velho de guerra e já se safou de outras saias justas, vai encontrar meio de contornar o obstáculo.

O coice de Trump, no entanto, dá ensejo a um debate interessante. Será que ainda faz sentido, nos tempos atuais, manter uma rede de embaixadores espalhados pelo mundo? Numa era anterior ao avião, ao telégrafo e ao telefone, era importante – o representante acreditado de um Estado levava consigo a palavra oficial de seu governo e ganhava tempo sobre troca de correspondência. Já hoje, num tempo em que as comunicações são instantâneas, a informação periga chegar ao destinatário antes da visita do embaixador.

Os custos de manutenção de uma embaixada são elevados. Por seu lado, nas capitais mais importantes, o embaixador passa boa parte de seu tempo frequentando festas e recepções. De fato, cada um dos 150 países do mundo tem sua festa nacional, o que já representa um coquetel a cada dois ou três dias.

Se Brasília despachar um representante especial cada vez que tiver algo importante a comunicar a determinado governo estrangeiro, a conta final sairá muito mais baixa do que o custo de uma representação diplomática. Mesmo que o enviado vá de classe business.

Se o douto leitor e a arguta leitora tiver uma observação, não se acanhe. Mande um comentário. Trump só cutucou minha curiosidade, não tive tempo de estudar o tema a fundo.

Internet, a regulação necessária

José Horta Manzano

O primeiro automóvel que chegou à cidade de São Paulo foi um Peugeot trazido de Paris por navio em 1891. Era propriedade da família de Alberto Santos-Dumont, o aviador. Há registro de o carro ter sido visto em 1893 dando uma volta pela Rua Direita, hoje via pedestre, mas então logradouro muito concorrido da capital.

Outros “vehiculos automoveis” (hoje diríamos veículos automotores) foram importados nos anos seguintes e engrossaram a circulação da cidade. Nos primeiros anos, um carro que se movia sozinho era novidade absoluta, daí a total ausência de infraestrutura pronta a receber a raridade. Os carros não eram emplacados, não havia sinais de tráfego, o pavimento das ruas não estava preparado para o molejos delicados, não havia CNH.

Com o tempo, foi aparecendo a regulação: placas de identificação do veículo, autorização de conduzir a geringonça, indicação da mão de direção em ruas apertadas, placas que davam prioridade. Não veio tudo duma vez. Foram necessários anos até que a circulação automotora entrasse na paisagem urbana.

A cada vez que uma novidade entra em nossas vidas, o caminho é o mesmo. Primeiro, a surpresa, quando a novidade se agita feito potro assustado que nâo sabe aonde vai. Em seguida, as coisas vão se assentando e a regulação, aos poucos vem chegando.

A internet e suas aplicações, como as redes sociais, não fogem a essa regra. Essas redes, surgidas há anos, foram sendo deixadas soltas e à vontade, sem regras claras que não fossem reclamações e clamores sem amanhã. Alastraram-se e criaram tanta raíz, que muitos Estados têm hesitado em intervir no sentido de impedir que crianças e adolescentes sejam arrebanhados por grupos mal intencionados ou por suas ideias.

Com a lei que obriga plataformas a verificar a idade e a ligar obrigatoriamente os contas dos menores de 16 anos à de seus pais, o Brasil entrou para o seleto grupo de países que já legislaram na matéria. Faz companhia à Austrália, à Malásia, à Indonésia e à China. Outros países têm projetos, uns mais adiantados, outros menos, que visam ao mesmo objetivo.

Esta semana foi a vez da França, o primeiro europeu a legislar sobre a matéria. Esta semana, o parlamento aprovou a lei que visa “a proteger os menores dos riscos representados pelas redes sociais”. O artigo principal proíbe acesso às redes sociais aos menores de 15 anos. Era um projeto para cuja aprovação o presidente Macron tinha se empenhado pessoalmente. A França espera e acredita que foi dado um empurrão à aprovação, por outros países da UE, de legislação semelhante.

O banimento não inclui o acesso a enciclopédias online do tipo Wikipédia ou outras plataformas educativas. O texto de lei não impõe nenhum método de verificação da idade, deixando às plataformas como Facebook ou TikTok a tarefa de definir o método. A lei deve entrar em vigor a partir de setembro próximo, que é o mês da volta às aulas na França.

Na minha opinião a lei francesa era necessária. Efebos ainda não têm a maturidade necessária para mergulhar na insociabilidade das redes “sociais”.

Umas e outras

José Horta Manzano

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Considerar PCC e CV terroristas pode ajudar a combater lavagem de dinheiro, diz diretor de banco

Não discordo desse senhor. No combate da lavagem de dinheiro, toda ajuda é sempre bem-vinda. Mas continuo achando que o problema não é colar ou deixar de colar, nas organizações criminosas brasileiras, a etiqueta de “terroristas”. Na vida real, a nova etiqueta não muda grande coisa. As organizações criminosas continuam sendo o que sempre foram: um bando de criminosos que se dedicam a lucrar bilhões, por meio de ilegalidades e ilícitos, sempre à custa do honesto cidadão.

Quanto aos castigos e punições que possam vir de Washington, elas têm vindo de qualquer maneira. Nosso país foi punido com taxas de importação exorbitantes. Um magistrado do STF, mesmo sem ter sido acusado de “terrorismo”, foi castigado com os rigores da Lei Magnitsky. Portanto, entende-se que a arbitrariedade e a brutalidade da administração americana cai como raio da morte (ou da vingança) sobre a cabeça que quem lhes aprouver, sem necessidade de a vítima ser terrorista.

Cuidar dos próprios bandidos é função de cada país civilizado. Não vamos nos enganar: um Brasil civilizado ainda é esperança, não realidade. Assim mesmo, cabe ao Estado brasileiro combater suas próprias mazelas. Em caso de necessidade, autoridades estrangeiras podem sem solicitadas por Brasília para dar uma mão. O que não está correto é que estrangeiros tomem a iniciativa de combater nossos criminosos, deixando autoridades brasileiras em curto-circuito. Mal comparando, seria como se a polícia italiana tivesse vindo ao Brasil raptar Cesare Battisti, fugitivo do sistema judiciário peninsular. Não tem cabimento.

Nosso grande problema é que há forte intimidade entre os que detêm o poder e os que detêm as Kalashnikov. Os dois campos se esfregam na calada, o que dificulta ou impede ações policiais.

 

O Globo, 2 jul°
Messi cai na gargalhada ao passar por revista de segurança em aeroporto

A toda a hora surge um exemplo de que não somos todos iguais, mas que uns são bem mais iguais que outros.

Agora experimente vosmecê fazer como Messi da próxima vez que passar pela alfândega americana. Solte uma gargalhada na cara do guarda. Vai passar algumas semanas nas masmorras americanas. Dependendo do caso e do humor dos que mandam, ainda será julgado e condenado.

 

O Globo, 2 jul°
Como escolher a escola do seu filho sem cair em armadilhas

Como é que é? Cair em armadilhas? No meu tempo, não se imaginava que escola pudesse ter “armadilhas”. Isso era pra apanhar rato.

 

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Único ex-presidente da Assembleia do RJ que não foi preso neste século costura retorno em 2027

Este último cabeçalho serve para alimentar aquela lenda de “Brasil civilizado”.

Água lava tudo

José Horta Manzano

Era um tempo em que a música brasileira era diferente de hoje. O carnaval, que ainda não era festa tão comercial como hoje, dava ocasião ao lançamento de marchinhas especialmente compostas para a ocasião, destinadas a “pegar” durante a festa e a sair de cena logo em seguida. Algumas, no entanto, caíram tanto no gosto do povo que sobrevivem até hoje. Mamãe eu quero é uma delas.

Para o carnaval de 1955, Paquito, Romeu e Jorge Gonçalves juntaram seus talentos e criaram a marchinha “A água lava tudo”, que Emilinha Borba gravou. Atrás da letra de ar cândido, insinua-se que o personagem de quem se fala andou por aí “num lugar tão diferente”. Após reflexão, compreende-se que o lugar diferente é um bordel. Mesmo tão escrachada, a marchinha não há de escandalizar se cantada diante de senhôras.

Em 1955, não havia redes sociais. Assim mesmo, piadinhas e memes se espalhavam rápido. (Memes não se chamavam assim, mas viajavam a 120, como se dizia.) A letra original da primeira parte da marchinha era esta:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente

Não demorou muito pra circular uma versão alternativa que zombava de Carlos Lacerda, então deputado federal pelo DF. Lacerda era orador inflamado, dotado de língua ferina. O povo não perdoou:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua do Lacerda

Pra eu lembrar 70 anos depois, é que a versão bis deve ter sido bastante repetida. A história não conta se o político apreciou.

Vamos pular todas essas décadas e trazer a história para o presente. Agora vêm alguns “se”:

  • Se o carnaval ainda fosse espontâneo como o antigo e menos fabricado;
  • Se os memes ainda tivessem a leveza de espírito das brincadeiras de ontem;
  • Se ainda fossem compostos sambas e marchas especiais para o carnaval;
  • Se a marchinha da Emilinha Borba ressuscitasse e o povo se pusesse a cantá-la.

Qual seria um final engraçado, coerente e atual para a estrofe “A água só não lava a língua …………….” ?

  • Da sogra?
  • Do Lula?
  • Do Eduardo Bolsonaro?
  • Do Trump?

Alguma boa ideia ocorre a vosmecê? Mande cartinha para a Redação!

As festas de junho

Igreja de Sto Antonio
São Paulo, século 18
by J. Washt Rodrigues

José Horta Manzano


“A noite de São João é a mais fria do ano.”

“Santo Antônio encontra tudo, é só pedir.”

“São Pedro é humilde e corajoso, é por isso que foi o primeiro papa. Santo forte.”


São coisas em que todo o mundo acreditava antigamente. A moça solteira costumava pôr a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, avisando ao santo que só voltaria à posição natural quando lhe encontrasse um bom marido. Dizem que Antônio não apreciava nada esse castigo, vai daí que não encontrava marido nenhum.

Não sei se a tradição perdura, mas até os anos 1950 e 1960, o 13 de junho era um dia especial. Os padeiros do centro de São Paulo, que eram quase todos de origem portuguesa, mandavam braçadas de pães para a igreja de Santo Antônio, praça do Patriarca. O povo então fazia fila. Cada um recebia, então, um pedaço de pão que havia sido previamente benzido. Devia-se guardar esse pão em casa, pra garantir fartura o ano inteiro. Se foi isso, não sei, mas em casa nunca faltou comida.

Assim como o metrônomo marca o tempo musical, os dias de cada santo do mês – Antônio, João e Pedro – marcavam o ritmo dos festejos juninos. Rifas e quermesses engalanavam aqueles dias sem internet e, muitas vezes, sem televisão.

Vejo hoje muito anúncio de “arraiá”(sic). Mas os personagens que deram origem a esses agapes não são mais mencionados. É como o Natal, que perdeu suas origens para tornar-se a época em que se come peru e panetone. E em que se dá presente a toda a família. Os “arraiás” sobrevivem soltos no organograma, sem ligação a nenhuma tradição nacional.

  • Aqui entre nós: o arraial, tradição interiorana, deveria ser pronunciado “arraiaR”, com um erre retroflexo no final, bem enrolado, bem acaipirado.

O jogo inaugural do Brasil na Copa 26 caiu bem no dia de Santo Antônio. Não me lembro de ter visto nenhuma referência à data em todas as reportagens e análises que li.

Nossos bem pagos jogadores, por mais milionários que estejam, não deveriam julgar-se acima do bem e do mal. Um pouco de respeito às tradições  e de confiança nelas não lhes faria mal nenhum. Se o Brasil ainda terminar em primeiro lugar em seu grupo, o que não é impossível, vai jogar no 29 de junho, dia de São Pedro.

Pra ganhar, não vale botar o santo de ponta-cabeça, que ele não gosta. Dê-lhe um sorrisinho, ele há de apreciar.

Enrolação de Vorcaro

by Claudio de Oliveira (1963-),
cartunista potiguar, via Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.

Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.

Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.

Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.


No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.


Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:

“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”

Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.

O mundo segundo os aiatolás

 

Piadinha publicada no site da embaixada do Irã na Tunísia

José Horta Manzano

É comum ouvir dizer que o Brasil não deu certo. Não há como discordar. De fato, ainda falta muito para nosso país tornar-se normal, justo e harmônico. É curioso que assim seja, visto que, diferentemente de muitos outros países, não temos linhas de fratura que oponham contingentes de população uns aos outros. O que temos atualmente, e que chamamos “polarização”, é fenômeno passageiro. Antes da coexistência de Lula e Bolsonaro, não havia; e depois que esses personagens tiverem descido do palco, deve desvanecer.

Por sorte, temos duas características de suma importância que deveriam nos unir – e, de fato, nos unem: a língua e a religião. O fato de falarmos a mesma língua, o que faz que qualquer cidadão possa entender e ser entendido em todo o território nacional, é uma qualidade rara para um país gigantesco e populoso como o nosso. Por seu lado, a imensa maioria da população é cristã – entre católicos, protestantes e neo-pentecostais. Portanto, os principais fatores de crispação simplesmente não estão presentes.

Nosso atraso e nossa inarmonia devem, assim, ter outra origem.

Ninguém aprecia que brinquem com sua religião ou com seus símbolos religiosos. Esse tipo de acontecimento, além de incomodar, é de extremo mau gosto. No Brasil, não estamos acostumados a vilipêndios ou ultrajes religiosos.

Os fiéis de certas religiões são mais susceptíveis a brincadeiras com seus símbolos, ainda que a intenção não tenha sido de ofender. Maometanos têm prevenção especial contra quem se atreva a usar seus símbolos em vão.

O atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, cometido em janeiro de 2015, foi exemplo dessa intolerância. Doze profissionais foram assassinados e onze outras pessoas foram feridas pelos dois atiradores armados de fuzis. A chacina ocorreu como castigo aos profissionais que tinham ousado publicar desenhos cômicos com personagens ligados ao Islã.

A incentivar (e às vezes financiar) esse tipo de ataque, em geral estão os aiatolás do Irã. Pois são justamente esses aiatolás que estão por trás de uma brincadeira – um meme talvez? – publicado no site da embaixada do Irã na Tunísia. Apareceu na sequência dos desaforos que o Brasil vem sofrendo do presidente Trump e seus acólitos. Representa o Cristo Redentor que destrói a Estátua da Liberdade.

Como sabemos, a estátua do Corcovado é um símbolo duplo: de nosso país e de nossa religiosidade. Já a Estátua da Liberdade simboliza os Estados Unidos. O regime iraniano pôs em cena os dois símbolos, que se comportam da única maneira que o regime iraniano conhece: a força bruta que leva à destruição do adversário.

Entendo que a intenção era mostrar solidariedade para com o Brasil, um abraço entre vítimas do mesmo verdugo. O problema é que, para ilustrar o teatrinho infantiloide que bolaram, usaram um símbolo religioso respeitado por todos os brasileiros, católicos ou não. E isso não se faz. Queria ver o que aconteceria se o governo brasileiro tivesse a ideia debiloide de usar a figura do profeta deles se engalfinhando com a turma do Trump. Acho que não haviam de deixar por isso mesmo.

Pra não complicar, é melhor deixar como está, e não levar a coisa adiante. Mas bem que valia a pena fazer chegar a Teerã uma mensagem discreta para que eles, da próxima vez, evitem usar um símbolo religioso. Que ponham o Pelé, por exemplo, dando um chute magistral na estátua americana, ninguém há de se ofender.

6 x 1

José Horta Manzano

Nestes tempos de pré-Copa, o título poderia indicar algum resultado esperado. Não é. Por enquanto, fica na esperança mesmo. A realidade começa a pingar daqui a alguns dias.

Falando em realidade, li em algum lugar que um “guru”, alemão se não me engano, vem acertando resultado das últimas três Copas. Acertou o campeão antes de cada campeonato começar. Para esta edição, diz que é a Holanda que vai ganhar. Quanto ao Brasil, diz vai sair em primeiro lugar no grupo, mas em seguida naufraga diante do Japão, é eliminado e volta pra casa.

Se fosse possível saber dos resultados antes de jogar, até que era interessante. Saia mais barato, evitava concentração, gastos com avião, hotel, transportes. Mas também perdia a graça. Melhor que fique como está.

É curioso como a expressão “taça do mundo”, que se usou nos primeiros campeonatos mundiais, cedeu lugar a “copa do mundo”. Imagino que a razão seja a seguinte. Taça, todos nós entendemos como um recipiente em que se bebe, como em “taça de vinho”. Já Copa não faz necessariamente pensar em vasilhame para bebida.

Pois bem, o troféu dos primeiros campeonatos de futebol tinha realmente o formato de uma taça, com asinhas dos dois lados, escavada no interior, apta a receber líquido. Já o troféu atual não tem nada de taça. Provavelmente vem daí a mudança de nome de “taça” para “copa”.

Ao dar título a este escrito, me referi ao horário de trabalho (hoje chamado “escala”). Faz meses que se debate a proibição do sistema 6 x 1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho). Em primeiro lugar, acho esquisito que seja o Parlamento a proibir ou liberar escalas de trabalho. Achava que essa discussão se restringisse ao nível de contrato de categoria, negociado por sindicatos.

Na juventude, muitas décadas atrás, trabalhei na hotelaria aqui na Suíça. Naqueles anos, trabalhava-se duro. A escala era essa que acabam de proscrever no Brasil: 6 dias de trabalho x 1 dia de repouso. E olhe que o dia de descanso nunca era num sábado ou num domingo, que isso era privilégio do chefe. O repouso caía sempre num dia útil e podia variar de uma semana a outra. O mais das vezes, eu trabalhava 54 horas por semana. Num emprego, cheguei a trabalhar 78 horas por semana, um despropósito.

Hoje, na Suíça, nenhum empregado de hotel e restaurante trabalha mais nessa escala 6 x 1. No entanto, a lei estipula um total semanal máximo de 45 horas para funcionários de escritório (técnicos, vendas, etc), e um total máximo de 50 horas para os demais (construção, artesanato, agricultura, micro e pequenas empresas).

No Brasil, entendi que o total máximo está limitado a 40 horas por semana. Vê-se que os brasileiros já vivem num país rico e adiantado, que não exige mais nenhum sacrifício de seus filhos.

Prisão perpétua

by Nando Motta, ator e chargista
via BR 247

José Horta Manzano

O plano de captura violenta do Estado brasileiro, preparado para estourar no 8 de janeiro de 22, foi abatido em pleno voo. Como um caça atingido por míssil, esbagaçou-se no ar e derramou fragmentos ao redor. O incentivador-mor da pretensiosa aventura cuidou de pôr-se a salvo no estrangeiro. Imaginando que a distância física lhe garantiria álibi perfeito, deixou o país antes do estalo da insurreição. A providência de nada lhe serviu nem impediu que fosse, mais tarde, colhido pela polícia, julgado pelos tribunais e condenado a quase 30 anos de prisão.

Bolsonaro não foi o único a enfrentar julgamento. Dezenas de cidadãos, que tinham tido, de perto ou de longe, participação no plano, tiveram de acertar contas com a lei. Antes e depois da passagem diante dos juízes, alguns decidiram escapulir. Deixar crescer barba e cabelo e passar o resto da existência vivendo com índios na Amazônia saiu de moda. Assim, ninguém adotou a opção nacional. Todos os que fugiram foram para o exterior.

Houve quem tenha ido para os EUA, destino sonhado por todos mas somente accessível a privilegiados. Um grupo de menos abastados dirigiu-se à Argentina por via terrestre, longa viagem pra quem parte do Brasil Central ou mesmo do Sudeste. De lá, alguns seguiram em sua jornada ao Eldorado americano, com ideia de cruzar o Rio Grande com ajuda de coiotes. Esforço jogado fora. Brigadas móveis da polícia americana de fronteiras os apanharam, encarceraram por algum tempo e os devolveram ao país de origem.

Há quem tenha ido para a Espanha, país que não extradita assim tão facilmente. Houve uma deputada, midiática e conhecida, apoiadora do capitão mas por ele renegada, que, tendo decidido fugir do país, cometeu a imprudência de se vangloriar nas redes sociais. Essa soberba custou-lhe bem caro.

Falo de dona Carla Zambelli Salgado de Oliveira. Ela tem passaporte italiano, ao qual a ascendência peninsular por via materna lhe deu direito. Com uma condenação a 10 anos de prisão, decidiu escapar para a Itália. Antes de chegar ao destino, deu uma passada pelos EUA – escala irresistível para brasileiros que fogem da lei. Foi de lá que postou em suas redes um videozinho em que mostrava o passaporte italiano e debochava de seus seguidores: “Na Itália, sou intocável”, dizia, apontando para o documento.

Tivesse engolido a altivez e mantido a boca fechada, é possível que a estivessem procurando até hoje, dentro das fronteiras do Brasil. Sua tagarelice lhe foi desfavorável. Rapidamente, foi posta na lista vermelha da Interpol. Refugiou-se em casa de amigos, mas acabou sendo colhida e levada presa. À espera do julgamento de seu processo de extradição, foi colocada em Rebibbia, imenso complexo carcerário nos arredores de Roma.

Compartilhou cela com mais 5 presas. Apresentou um rol de doenças que supostamente a tornariam inapta a suportar a prisão. Esse tipo de coisa costuma funcionar no Brasil, mas na Itália não pegou. Reclamou, bateu pé, requereu soltura – tudo em vão. As condições de encarceramento italianas são mais rigorosas que as nossas. Madame permaneceu em sua cela durante 10 meses. Mais dois, e teria ficado um ano inteiro. Sem saidinha e sem regalias.

Faz uns dias, a Corte Constitucional italiana, invalidando a decisão das cortes inferiores, negou a extradição. A ex-deputada foi solta imediatamente. Ainda meio atônita com a inesperada notícia, ela declarou-se muito contente.

Na euforia da liberdade reencontrada após quase um ano de cárcere, nem ela, nem seu advogado mencionou um detalhe pra lá de importante. É que a decisão da Corte italiana, de negar-lhe a extradição, não anula o julgamento do STF, que a condenou a 10 anos de prisão. A sentença continua em aberto, e, no Brasil, a ex-deputada continua sendo considerada foragida da justiça.

Assim, em princípio, ela não poderá mais pisar o solo nacional, sob risco de ser presa imediatamente para descontar sua pena. Está, pois, numa situação de “prisão perpétua”. Se, em vez de ter fugido, a senhora Zambelli tivesse se entregado, teria tido certas regalias:

  • Dificilmente teria sido posta em cela comum, com mais 5 detentas;
  • Com um bom advogado, já estaria em prisão domiciliar por razões de saúde;
  • Depois de cumprir quase um ano, como fez na Itália, estaria chegando a hora de requerer progressão de regime;
  • Depois disso, estaria livre de cadeia, vivendo no conforto de seu apartamento; de tornozeleira, é verdade, mas em companhia do marido, da família e dos amigos.

A menos que venha a ser indultada por medida do próximo presidente (se este for bolsonarista), não lhe será possível retornar ao país. Imagino que Madame esteja maldizendo a hora em que tomou a decisão de fugir.

Os neoimigrantes

José Horta Manzano

Dizem que as redes sociais (que às vezes dá vontade de chamar de “associais”) estão coalhadas de gente falando besteira. Não conheço essas redes, mas acredito no que dizem: devem estar cheias de falsos profetas. Para o bem e para o mal, se bem que, quando se propagam ideias falsas, é geralmente para o mal.

Acho que essa algaravia, em que muitos gritam e ninguém tem razão, não se restringe às redes. Desde que internet deu um megafone a cada utilizador, todos se acham no direito de usá-lo, ainda que não tenham nada a dizer. Consulto frequentemente youtube e constato que lá também está lotado de gente falando de assuntos que não domina. Quem faz isso incorre no delito de fazer propaganda enganosa e merecia levar multa. Mas como coibir? Quem teria capacidade de controlar a veracidade dos bilhões de vídeos postados da plataforma?

Quando me aparece algum vídeo sobre a Suíça, país que conheço bem, tenho curiosidade de ver o que dizem. Não dá pra visionar todos, porque o dia só tem 24 horas e não tenho tenho só isso pra fazer. Ontem dei uma espiada numa postagem de um casal brasileiro que está morando na Suíça, numa pequena localidade da montanha. Dado que o vilarejo não tem atividades além do turismo, estou até agora me perguntando o que fazem por lá. Não procurei saber.

Passaram uns 20 minutos a descrever os cinco pontos que não lhes agradam no dia a dia no país. De saída, acho no mínimo indelicado apontar assim, publicamente, os pontos negativos do país que nos acolhe. Em seguida, fiquei surpreso com os “defeitos” que o casal encontrou. Reclamaram do sistema de saúde suíço, sistema que este blogueiro acha excelente, superior ao que se vê pelo mundo em geral. Se não apreciam o sistema daqui, há de ser porque não lhe entenderam o funcionamento. De outro modo, não é possível.

Reclamaram também da inflexibilidade dos funcionários, especialmente os que tratam as demandas de imigrantes, como eles. Não estou de acordo. Acho a Suíça um país liberal, verdadeira “mãezona”, onde funcionários estão sempre prontos a dialogar, explicar, tolerar, deixar passar. Bom, para se entender, é bom falar a língua do lugar. Não sei há quanto tempo se encontram no vilarejo em que vivem, o que sei é que não falam nem a língua do lugar (alemão), nem o dialeto (alemão suíço). Assim, também, fica difícil.

Desembarquei na Suíça, pela primeira vez, está fazendo 60 anos mês que vem. De lá pra cá, vivi 47 aninhos aqui. Posso dizer que conheço um bocado os usos e costumes da terra. Pra receber, tem de saber dar. Se eu estivesse arranhando línguas e catando palavras até hoje, estaria mostrando que não soube dar, ou seja, que não soube me esforçar para me aproximar deles. Isso pega mal. O que esse casal precisa fazer urgentemente é aprender a língua local, pelo menos, o alemão. Na hora em que conseguirem se comunicar com a sociedade em que vivem, vão ver que o clima se desanuvia e a “rigidez” vai lhes parecer bem mais elástica.

Nota
Emigrar aos quarenta ou cinquenta anos de idade é complicado. Quem estiver acostumado ao sistema do INSS vai estranhar o sistema de qualquer outro país. Quem estiver acostumado a frequentar o Poupatempo idem. Emigração é aventura para os muito jovens, que estão em começo de vida.