Senão ou se não? Depende

Dad Squarisi (*)

A questão surgiu no fechamento do jornal. A frase na qual apareceu a dúvida era esta: o ministro não teve alternativa… ops! senão ou se não pedir demissão? Palpites não faltaram. O que faltou foi certeza. A saída? Pesquisar. Eis o resultado:

Se não
Use separado quando:

a) puder substituí-lo por caso não: Se não chover (caso não), vamos viajar de carro. Levará falta se não (caso não) for à aula. A declaração deve dizer tudo. Se não (caso não), precisa ser revista.

b) equivaler a quando não: Pareciam amigos, se não (quando não) bons companheiros. O desafio é, se não (quando não) de solução impossível, pelo menos muito difícil. Se lhe convém, leva o trabalho a sério; se não (quando não), leva-o na brincadeira. A empresa vai demitir quatro empregados, se não (quando não) cinco.

c) for conjunção integrante. Aí, é moleza. Ninguém erra: O pai quer saber se não é melhor o filho estudar de manhã. O governador perguntou se não era possível adiar a votação do projeto. Ele se questionou se não era preferível viajar de carro.

Senão
Use coladinho nos demais casos:

Nada lhe restava senão (a não ser) a aposentadoria. O deputado não é senão (mais do que) um representante do povo. Não fazia nada senão (a não ser) chorar. Isto não compete à Câmara, senão (mas) ao governador. Não há beleza sem senão (defeito). Não lhe restava alternativa senão (a não ser) pedir demissão.

Resumo da ópera
O senão rouba pontos, promoções e prestígio. Olho vivo! Entenda as manhas do danadinho. Se não, você engordará as estatísticas de vítimas. Valha-nos, Deus!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Dilma continua a mesma

José Horta Manzano

Precedida por um dirigente sindical e sucedida por uma militante climática, doutora Dilma Rousseff deu o ar de sua graça, sábado 14 de setembro, na Fête de l’Humanité (Festa da Humanidade), o encontro anual de simpatizantes comunistas na França. O nome da festa faz alusão a “L’Humanité”, o jornal oficial do Partido Comunista Francês.

Organizada todos os anos nesta época, a festa é evento importante, com a colaboração de cantores, artistas populares, homens políticos e personagens conhecidos. Estende-se de sexta a domingo. Embora possa parecer surreal, o Partido Comunista ainda subsiste na França – um dos raros remanescentes na Europa. A cada eleição, propõem candidatos. Para a presidência, não têm a menor chance, mas numerosos prefeitos levam a etiqueta do partido.

Dilma Rousseff em Paris, 14 set° 2010

Doutora Dilma compareceu a uma noitada especial dedicada à liberação do Lula. Discursou. Após cada frase, uma intérprete traduzia para o francês. Madame cometeu as confusões de linguagem habituais. A certa altura, falando das últimas eleições presidenciais, disse: «Foi necessário criar um ambiente propício para que o ódio fosse gertado(?) e a mentira fosse a primeira vítima da luta contra a democracia liderada pelos golpistas». A mentira foi vítima da luta! Ai, ai, ai. Esperta, a tradutora deu a volta por cima, fez um esforço e traduziu do jeito que havia entendido. Ficou bonito, mas não se sabe se era isso que a ‘presidenta’ queria dizer. Como se sabe, discurso em dilmês tem de ser legendado.

A doutora disse ainda que a Lava a Jato foi «montagem golpista feita especialmente para destruir inimigos». Dado que a operação teve início durante seu governo, numa época em que todas as instituições aparelháveis se encontravam aparelhadas pelo PT, o blá-blá de «destruir inimigos» fica capenga.

No mais, a doutora repetiu a tese do ‘golpe parlamentar’ de que foi vítima. (Ela se refere ao impeachment.) E martelou firme o bordão único que paralisa seus correligionários: Lula livre. Queixou-se ainda da Lava a Jato com o argumento de que, se é possível prender uma pessoa com a liderança do Lula, então não há mais limites. Portanto, no entender da ex-presidente, ‘uma pessoa com forte liderança’ é inimputável e paira acima da lei.

Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei.

O adversário maior

José Horta Manzano

Ainda é muito cedo pra pensar na próxima eleição presidencial. Até lá, muita água ainda há de passar pelo Amazonas e, espera-se, também pelo canal de repartição do São Francisco. Ainda assim, se nenhuma catástrofe ocorrer no meio do caminho, o maior adversário de doutor Bolsonaro para a reeleição chama-se Sergio Moro.

Recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha constata que a popularidade do ex-juiz é inabalável. Nada parece capaz de derrubá-lo. As revelações sobre conversas inadequadas não degradaram sua imagem. A fritura intermitente a que é submetido pelo presidente tampouco arranhou o elevado conceito em que os brasileiros o têm. Imperial, Moro continua lá no topo. Em matéria de simpatia, deixa o presidente comendo poeira: sua popularidade estacionou 25 pontos à frente da do chefe.

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Bolsonaro está numa sinuca cabeluda. Se conservar Moro no cargo de ministro, estará garantindo fabulosa vitrine ao ex-juiz que, humilhado ou não, continuará no noticiário. Se o demitir, perderá apoiadores e será apupado pelos brasileiros, que enxergam no ex-magistrado caçador de corruptos o garante da lisura da Presidência. Manter Moro na fritura não adianta nada, que sua popularidade parece blindada.

Doutor Bolsonaro só tem uma maneira de afastar Moro do caminho. (Eu até nem deveria dizer estas coisas aqui. Não acredito que o presidente seja leitor do blogue, mas… nunca se sabe.) O único jeito de neutralizar a ameaça é nomear Moro para o STF. Em 2020, uma vaga vai surgir. Que Bolsonaro aproveite a ocasião e esqueça essa bobagem de indicar ministro «terrivelmente evangélico». Dê a cadeira ao ex-juiz.

Se fizer isso, auferirá vantagem múltipla. Contentará a todos os que simpatizam com Moro. Não ferirá a imagem de probidade do Executivo. Asfaltará o caminho que o pode levar à reeleição. E terá, no STF, um integrante que lhe deve favores – o que pode ser uma mão na roda para quando ele deixar a presidência e começarem a surgir os inevitáveis processos.

Os filhos da Igreja

José Horta Manzano

No tempo em que era rezada em latim, a missa era muito solene. Ninguém entendia nada do que dizia o padre, mas o rito impressionava. O único momento inteligível era a hora do sermão, quando o celebrante subia ao púlpito e fazia a pregação dominical.

Na Idade Média, época em que o falar popular não havia ainda adquirido status de língua de verdade, tanto a missa quanto o sermão eram ditos em latim. Em terras ibéricas, assim que chegava ao púlpito, o padre abria os braços e conclamava num vocativo cerimonioso: Filii Ecclesiæ! – Filhos da Igreja!. Era a forma habitual de dar boas-vindas aos presentes.

O tempo passou. Aquelas palavras, que soavam tão estranhas aos ouvidos do populacho, passaram a designar o conjunto dos que frequentavam a mesma igreja. Cada região reproduziu os sons conforme seu aparelho fonador lhe permitia. Depois de séculos de pronúncia flutuante, a formas dialetais acabaram desaparecendo, absorvidas pelo castelhano. Hoje, em espanhol e nas demais línguas faladas na Espanha, a saudação ritual ”Filii Ecclesiæ“ transformou-se em feligrés.

Já em Portugal, a pronúncia sofreu deformação maior. Como sabemos, a língua portuguesa tem um problema com a letra L. Volta e meia, ela acaba substituída por R. Como exemplo, o francês blanc e o espanhol blanco deram branco em português. Assim como: clou/clavo = cravo; plat/plato = prato; plage/playa = praia. E mais uma infinidade de palavras. A forma ibérica feligrés não foi exceção. Perdeu um L e ganhou um R. Virou freguês.

Além da deformação fonética, a antiga saudação eclesial conheceu também uma ampliação de sentido. Além de continuar designando o paroquiano, a palavra freguês passou a ser usada pra indicar os clientes de um estabelecimento qualquer. Ela tem ainda outro sentido, um tanto depreciativo. Dizemos freguês pra zombar do time de futebol que costuma perder para o nosso. Diz-se freguês também do indivíduo a quem o mesmo infortúnio acontece mais de uma vez, como aquele que é vítima de trombadinha pela enésima vez.

Com isso, os ”filhos da Igreja“ acabaram virando vítimas de assalto, quem diria! Sinal dos tempos.

Viva a ignorância!

José Horta Manzano

Assim como o melhor dos governos tem seu lado sombrio, o pior deles tem também um lado luminoso. Se o período militar foi sinistro em inúmeros aspectos, teve também alguns lampejos. Uma herança das boas é a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Criada em 1973, em pleno governo do general Medici, ela pode hoje ser definida como uma multinacional da pesquisa.

A Embrapa é a estatal brasileira mais importante. Conta com 10 mil funcionários incluindo 2.500 pesquisadores. Entre estes últimos, 84% são titulares de doutorado ou mesmo pós-doutorado obtido em universidades nacionais e estrangeiras. A empresa, presente em todo o território nacional, tem antenas em numerosos países com os quais colabora e troca informações científicas.

Seus trabalhos permitiram introduzir a agricultura no cerrado, bioma que era antes considerado improdutivo e que hoje responde por metade de nossa fabulosa produção de grãos. A tecnologia gerada pela empresa tornou possível multiplicar por quatro a oferta de carne bovina e suína. A produção de frango pôde ser ampliada em 22 vezes.

De importador de alimentos básicos, o Brasil alcançou o patamar de potência exportadora. A Embrapa goza de respeito planetário por seu grau de excelência. Suas pesquisas cobrem todos os biomas brasileiros – Amazônia, Pantanal, cerrado, semiárido, regiões temperadas.

Se o distinto leitor leu o título deste escrito, deve estar se perguntando onde está a ignorância. Pois ela vem agora. Acaba de sair nota informando que o governo federal pretende cortar perto de 50% do orçamento da Embrapa para o ano de 2020. Metade do que é necessário pra permitir a continuidade da pesquisa agropecuária brasileira! A notícia é angustiante. O Brasil não é potência econômica. Está longe de ser gigante bélico. Na política mundial, é anão. O único ponto em que somos globalmente importantes e respeitados é na pesquisa e na produção agropecuária. Em total desvario, o governo não consegue enxergar a importância disso.

Há que constatar que, mesmo com doutor Bolsonaro acamado, a guerra contra o conhecimento continua. Fica claro que a equipe que rodeia o presidente está afinada com ele. A ausência do chefe não é sinônimo de trégua. A obra de demolição segue adiante. No Planalto, continuam todos fiéis ao propósito de impedir que o Brasil suba de patamar. Que seja na difusão da cultura, no ensino universitário ou na pesquisa científica, a ordem é cortar, impedir, barrar, cercear.

O lulopetismo não foi tão longe. O atual governo é uma ode à ignorância.

Trilha dos toblerones

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça ― cercada por Alemanha, Itália, Áustria (anexada pela Alemanha) e França (ocupada por tropas de Berlim) ― não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. A maioria do povo atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se imaginava poder vir nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, suas obras de arte, seus objetos de valor. Mais ainda: um lugar onde se podiam organizar eventuais encontros secretos e manter conversações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «depois do fato consumado, é fácil ser profeta». Difícil mesmo é adivinhar o que está por ocorrer. No final dos anos 30, um bafo de guerra soprava no continente, mas ninguém sabia de que lado nem com que força chegaria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones – hoje utilizada como trilha para caminhada a pé

A inteligência militar planejou um sistema de defesa. A referência mais próxima era a Primeira Guerra, durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era ― e ainda é ― uma linha de 10km de blocos de concreto para barrar a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 monstros de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Viraram atração turística. Trilhas próprias para caminhadas a pé serpenteiam por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É hoje o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose
Janela com cortina falsa

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada. Incluí algumas imagens dos bunkers disfarçados de chalé e dos toblerones.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

 

Faça como a Odebrecht

José Horta Manzano

“Hoje, a Odebrecht está inteiramente transformada. Usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente”.

Essa é a frase padrão com que a construtora responde a todo questionamento relativo aos ‘malfeitos’ do passado. A sentença é pau pra toda obra. Já faz algum tempo que vem aparecendo nos comunicados oficiais da empresa. Recentemente, apareceu de novo por ocasião da enésima prisão do casal Garotinho, acusado de ‘ligações perigosas’ com a empreiteira. Assim que veio à tona o relacionamento entre o casal e a empresa, lá veio a frase estampada na mídia.

Se a construtora está de fato ‘inteiramente transformada’, não sei. O que sei é que, ao usar a palavra conformidade, dá importante passo em direção ao… não conformismo.

Faça como a Odebrecht. Dispense o pernóstico “compliance” e adote a simpática “conformidade”. É gente de casa. Diz exatamente a mesma coisa sem agitar bandeira de colonização cultural.

Pouco tempo atrás, ninguém imaginaria que a Odebrecht, com sábios ensinamentos, ainda havia de iluminar a nação. Quem havera de dizer…

Não dava

Vera Magalhães (*)

Mesmo não tendo em sua trajetória de deputado sindicalista, corporativista, pró-estatais e infiel a partidos nenhuma obra dedicada ao combate sistemático a privilégios, corrupção estrutural e desmandos de políticos, Bolsonaro conseguiu fazer prosperar na campanha o discurso de que era o mais indicado para empunhar essa bandeira. Como se apenas o contraponto ao PT lhe desse essas credenciais.

Não dava. O histórico político dos gabinetes da família Bolsonaro é o das mais velhas práticas da política: empregar cabos eleitorais, alguns deles fantasmas, muitos deles com ligações perigosas com milícias e outros grupos, com indícios fortes de prática de rachadinha de salários. Jair nunca atuou em nenhuma das grandes CPIs ou no Conselho de Ética da Câmara. Quem caiu na balela o fez porque quis.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto integral foi publicado no Estadão de 11 set° 2019.

Capricho de filho

José Horta Manzano

A foto de um dos bolsonarinhos – aquele que é vereador – em que o moço aparece aboletado no coche presidencial desfilando na avenida ao lado do pai no Sete de Setembro me deixou meditabundo. Com o perdão da rima.

Já é a segunda vez que ele aparece em cerimônia solene, engravatado, no papel de coroinha. Fosse um meninote de 10 ou 12 anos, seria mais fácil entender. Mas o rapaz é crescido, barbado, já a caminho da calvície. Por que diabo anda grudado na barra da calça do pai? E por que é que aparece justamente nesses momentos solenes?

Na verdade, o problema tem de ser atacado por outro ângulo. Mais importante é saber por que é que o pai carrega o filhinho nessas ocasiões. Afinal, o dono da casa é o presidente. Em teoria, é ele quem manda.

Solenidade oficial não é hora nem lugar pra levar parente. Esposa, ainda vá lá. Filho pequeno, já estamos no limite da tolerância. Filho marmanjo? Sem a primeira-dama? Muito esquisito.

As aparições do filho vereador têm de ser analisadas em paralelo à iminente designação de outro filho – aquele que é deputado – para o cargo de embaixador em Washington. A explicação que corre por aí é que não passa de caso comum de pai satisfazendo ao capricho de filhos que não perceberam que a adolescência acabou. Há outra explicação possivel.

Especular não é pecado nem ofende. Fico aqui cogitando se a tensão que reina na família do presidente não seria mais séria do que se imagina. Que os rebentos queiram satisfazer seus caprichos, dá pra entender. Quem tem pai presidente pode mais que cidadão comum. O que não dá pra entender é que o pai presidente ceda a caprichos estrambóticos dos filhotes.

Por que isso acontece? Será que esses rapazes não estariam de posse de algum segredo familiar altamente incômodo para o pai, o que lhes permitiria chantageá-lo? Algo do tipo «se você não me deixar andar na boleia da carruagem, eu conto» ou ainda «se você não me der a embaixada nos EUA, eu conto». Será isso? É permitido cismar. Quando a presidência patrocina cenas a tal ponto fora de esquadro, toda especulação é autorizada.

Beijo gay

José Horta Manzano

Às vezes parece que nossas autoridades estão cada vez menos inteligentes. A gente fica com a impressão de que a ignorância é um mal contagioso. (Ou até hereditário, como se vê em determinadas famílias.)

Semana passada, teve lugar no Rio de Janeiro a Bienal do Livro. É evento importante, embora não se possa dizer que, num país que pouco lê, arrebate multidões. Em princípio, o que lá ocorresse não teria passado de nota de rodapé.

Eis senão quando, o prefeito da cidade toma decisão pouco inteligente: manda censurar um gibi que, a seus olhos, enaltecia a homossexualidade. É que a HQ mostrava a imagem de um beijo entre dois rapazes – que apareciam vestidos, frise-se.

Com a decisão, armou-se um fuzuê. A feira foi visitada por patrulhas ideológicas que caçavam livros a cassar. Acionada, a Justiça deu ordem e contraordem. Todos os jornais do país deram a notícia. Em sinal de protesto, a Folha de São Paulo estampou a imagem do beijo incriminado na primeira página, ocupando o espaço de alto a baixo, do cabeçalho ao rodapé. As redes sociais se assanharam comentando o assunto.

Como resultado, em vez de tirar de circulação o que lhe parecia impuro, o prefeito bobão provocou efeito contrário: o país inteiro ficou a par da querela e viu as imagens proibidas. As vendas do álbum incriminado hão de ter explodido.

Moral da história
Não se deve cutucar onça adormecida. Nem com vara curta, nem com vara longa.

Moral complementar
Não se deve votar em político ignorante. Isso vale pra todos, de vereador a presidente da República.

Compromisso onusiano

José Horta Manzano

Em respeito a tradição não escrita, o Brasil tem o privilégio de fazer o discurso de abertura de cada sessão anual das Nações Unidas, em sua sede nova-iorquina. É uma deferência e tanto. Logo de manhã, quando têm início os trabalhos, os ouvidos estão ainda frescos e virgens. É o momento ideal pra fazer passar a mensagem do Brasil. Num resumo de dez minutos, o orador dirá a quantas anda o Estado brasileiro e o que propomos para aprimorar a convivência planetária.

Estes últimos anos, nosso país tem enviado o próprio presidente da República a esse honroso encontro de gente fina. Os discursos nem sempre têm estado à altura. A fala ‘menos pior’ que me vem à mente foi a de Michel Temer. Foi a mais comedida, com pouca autopromoção e pouca jactância. É importante lembrar que ninguém está interessado em saber de nossos problemas internos. A hora é propícia pra discorrer sobre as relações entre o Brasil e os demais países, sobre nossa inserção no tabuleiro global.

Este ano, a sessão inaugural do dia 24 de setembro porá o Brasil numa situação delicada. Depois de arrumar briga com uma penca de países, doutor Bolsonaro receia ser alvo de recepção glacial. Há até quem tema a deserção de determinadas delegações. Imagine o distinto leitor fileiras inteiras de participantes se levantando ostensivamente e abandonando o recinto bem na hora em que nosso presidente subir ao púlpito. Uma humilhação.

Também, pudera! O homem se fartou de desprezar, zombar, debochar, escarnecer, achincalhar. Os países árabes (que são mais de 20), a China, a União Europeia como um todo (com seus 27 países), a França individualmente, assim como a Irlanda, a Dinamarca, a Noruega, a Alemanha foram alvo de chacota. Pior ainda, a Argentina e o Chile – nossos vizinhos! – estiveram na mira dos disparos do ‘mito’. Agora vem o troco.

Quando se vê atacado, Doutor Bolsonaro tem mostrado uma reação peculiar: foge da raia. Fez isso já durante a campanha eleitoral, quando recusou participar de debates. Agora que foi eleito, a cada vez que um jornalista lhe faz pergunta embaraçosa, se irrita, solta impropérios e encerra a entrevista. Não seria espantoso se ele se esquivasse e faltasse ao compromisso onusiano. Ou será que ele tem fígado pra encarar uma afronta no palco planetário? O tempo dirá.

O jogo

José Horta Manzano

Você sabia?

Imagine o distinto leitor que a Seleção viaje a um país estrangeiro pra enfrentar a seleção local num jogo classificatório de uma copa qualquer. Chega o dia da partida. Estádio repleto, bandeiras desfraldadas, apitos, risos, gritos, torcidas organizadas, ambiente de festa. E de tensão.

Antes do apito inicial, é hora dos hinos. Pelo alto-falante, vem a voz do lucutor: “And now, ladies and gentlemen, please stand for the national anthem of Brazil – E agora, senhoras e senhores, queiram levantar-se para o hino nacional brasileiro”. Os jogadores perfilados, rosto sério, mão no coração, esperam os acordes da introdução. Eis senão quando… soa o hino argentino!

Estupefação geral. Os jogadores se entreolham sem entender. Ninguém sorri, ninguém faz cara feia, todos arregalam os olhos. Na arquibancada, os torcedores brasileiros que acompanharam a Seleção vaiam com estrondo. O hino continua irritantemente a tocar. Vai até o fim. Ninguém aplaude. Em seguida, soa o hino dos donos da casa. O estádio explode de contentamento.

by Kopelnitsky, desenhista ucraniano-americano

O árbitro faz menção de dar início à partida, mas a equipe visitante se nega a jogar. “Não vamos jogar enquanto não tocarem nosso hino!” Os minutos passam sem que os organizadores se deem conta do que está acontecendo. Por que não querem jogar? Demorou até entenderem que tinham tocado o hino errado. E demorou mais ainda até encontrarem o hino certo.

Chega mais uma vez a ordem pra ouvir os hinos. Os jogadores voltam a perfilar-se. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” – desta vez, foi. Quando a coisa estava pra entrar nos eixos, a diretoria do estádio decidiu jogar flores na equipe visitante. Ecoa de novo a voz tonitruante do locutor: “Damos as boas-vindas à seleção da Bolívia!”. No alarido do ambiente, poucos se deram conta do disparate. Mas os jornais deram no dia seguinte.

Tem cara de piada, não é? Pois fique sabendo que aconteceu de verdade. Foi ontem à noite, 8 de setembro. Na campanha de classificação para a Eurocopa 2020, a França recebeu a Albânia para um jogo no imponente Stade de France, nas cercanias de Paris. Os fatos se desenrolaram como contei. Em vez do hino albanês, ouviu-se o hino de Andorra – que, aliás, quase ninguém conhecia. E o locutor deu boas-vindas à seleção da… Armênia.

O time francês acabou vencendo a Albânia por 4 a 1. Não se sabe até que ponto os incidentes do início desestabilizaram os visitantes. Compungida, a federação francesa apresentou humilde pedido de desculpa.

Maragancalha

José Horta Manzano

Que presidente esquisito, gente! Acabo de ver a foto do desfile do 7 de setembro. Abrindo o cortejo, vem o Rolls Royce presidencial, aquele que o Brasil recebeu de presente do Reino Unido 65 anos atrás. (Em matéria de antiguidade, o veículo está em competição com a carruagem da rainha.)

Para acompanhá-lo, doutor Bolsonaro não levou o vice-presidente, como seria de se esperar. Tampouco levou a esposa, cuja presença seria simpática e aceitável. Levou um dos filhos, aquele que é vereador e que o pai chama de pit bull, apelido que dá uma pista sobre os bons modos do moço.

Bolsonaro e seu ‘pit bull’ no carro oficial da Presidência

Freud deve poder explicar essa fixação do presidente em fazer-se respaldar pelo filho, como se a Presidência fosse negócio familiar onde gente de fora não é bem-vinda. O filho no lugar da esposa mostra que o negócio, além de familiar, tem de ser tratado entre homens. É clube onde mulher não entra, no mais puro estilo das máfias de cinema e da vida real.

Se eu estivesse no Brasil e quisesse sair à rua hoje, não saberia como me vestir. As cores foram todas acaparadas. Quem sair de verde, amarelo ou azul, cores da bandeira, será visto como bolsonarista. Quem preferir o vermelho será tachado de petista. Se usar preto, todos o tomarão por antibolsonarista. Pra não dar bandeira nem levar pedrada, sobrou o branco. Com o perdão de Iemanjá.

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de ‘liforme’ branco, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou.

Versos do samba Maracangalha, que Dorival Caymmi lançou em 1956. A gravação original, na voz do autor, está aqui.

L’État c’est moi

José Horta Manzano

Monsieur Jean-Luc Mélenchon é um político francês. Candidato às últimas eleições presidenciais, seus 19,6% de votos não foram suficientes pra impedir que Emmanuel Macron (24%) e Marine Le Pen (21,3%) fossem alavancados ao segundo turno e o deixassem a comer poeira.

Suas origens espanholas vêm à tona no verbo inflamado. O homem tem cultura sólida, atestada por dois diplomas: Letras e Filosofia. Excelente orador, sua aparição em debates é garantia de animação. Ninguém cochila enquanto ele discursa. Desde a adolescência sua simpatia foi para a esquerda. Milita desde os tempos de estudante.

Faz alguns anos, fundou partido próprio: La France Insoumise – A França Insubmissa, situado à extrema-esquerda do espectro político. Entre os seguidores, muitos são jovens que cuidam de defender a classe trabalhadora. Na realidade, em virtude da acentuada desindustrialização, o operariado tradicional anda rarefeito, em via de extinção. Mas o dom de oratória de Monsieur Mélenchon é magnético. Seu discurso é tão persuasivo que a gente fica com a impressão de que tudo o que ele diz há de ser verdade.

Mélenchon em Curitiba – 5 set° 2019

A justiça francesa não é necessariamente da mesma opinião. Desconfiada de irregularidades cometidas pelo partido dele na prestação de contas da última campanha presidencial, mandou uma equipe em missão de busca e apreensão na sede do partido. Aos berros, um furioso Mélenchon resistiu à ação de procuradores e policiais. Gesticulou, insultou, tentou arrombar uma porta, empurrou gente e até derrubou dois agentes. A um dado momento, em meio a impropérios, lançou: «La République c’est moi! – A República sou eu!».

Pegou mal. Principalmente porque evocou a frase «L’État c’est moi! – O Estado sou eu!», que o rei Luís XIV teria pronunciado faz quase 400 anos. O monarca tinha direito a dizer o que dizem que disse. Afinal, reinava absoluto, e sua palavra era a lei. Quanto a Mélenchon, a tirada soou um tanto grotesca. É muita pretensão pretender encarnar a República.

Ontem, 5 de setembro, o político francês esteve de visita a Curitiba. Foi tomar a bênção de Lula da Silva, político brasileiro que muita gente fina acredita ser de esquerda. Ao sair da sede da PF, onde o ex-presidente está instalado, Mélenchon revelou ter vindo «tomar forças» com o encarcerado.

Embora remota, a possibilidade existe de o tribuno francês ir parar na cadeia, o que explica ter vindo aconselhar-se com o Lula, mestre na matéria.

O barraco armado por Mélenchon quando da chegada dos policiais em missão de busca e apreensão está aqui.

As declarações do francês à saída da PF de Curitiba estão aqui e também aqui.

Bolsonaro e a alta-comissária

José Horta Manzano

Nosso presidente fez mais uma das suas. Mais uma vez, lançou mão de expediente que, embora pra lá de batido, nunca falha. Não sei se foi ideia dele mesmo – afinal, o homem não é exatamente uma fonte de ideias luminosas. É possível que ele esteja sendo teleguiado. Seja como for, tem sempre atingido o objetivo.

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos denunciou «estreitamento democrático» que, a seus olhos, estaria ocorrendo no Brasil. A acusação é grave, principalmente vindo de quem vem. Não chega ao cargo de alto-comissário quem quer. Michelle Bachelet é médica pediatra com estudos na Alemanha e no Chile. Tem também especialização em saúde pública. Foi ministra da Saúde do Chile e, não bastasse, foi eleita para a Presidência do país. Exerceu dois mandatos de quatro anos.

Doutor Bolsonaro sentiu-se diretamente visado pela fala da alta-comissária. A partir daí, tinha duas opções. A primeira era calar-se e fazer cara de paisagem – as palavras da alta-comissária não teriam ido além de nota de rodapé. A segunda era contra-argumentar defendendo seu estilo de governar e demonstrando que, diferentemente do que imagina a ex-presidente, nossa democracia não padece de estreitamento algum. Desprezando esses dois caminhos, o presidente escolheu uma terceira via. É aí que eu me pergunto se a ideia é dele mesmo ou se lhe foi soprada por algum assessor.

ONU ‒ sede de Genebra

Partiu para o ataque pessoal. Como já tinha feito no episódio Macron e no caso envolvendo o presidente da OAB, comportou-se de modo descortês, baixo, repulsivo, indigno de presidente de país civilizado. Como resultado, um caso que nem potencial tinha pra sair no jornal acabou sendo comentado pela mídia de todo o planeta.

Áulicos aplaudem. Os demais ficam de queixo caído com a insensatez presidencial. E, no estrangeiro, a imagem de nosso país vai sofrendo seu enésimo arranhão. Nossa imagem, sim. Afinal, doutor Bolsonaro não tomou a cadeira presidencial à força – foi eleito pelo povo brasileiro. Se há culpados nessa história, somos nós. Coletivamente.

Agora vem o principal: entre aplausos e vaias, o objeto em discussão sumiu. Ninguém analisa as palavras da alta-comissária. Afinal, a democracia estaria realmente encolhendo no Brasil? Ou é boato? O que é que leva Michelle Bachelet a essa conclusão? Não saberemos jamais. O assunto ficou enterrado pela repercussão da violenta reação de Jair Messias. A reação foi manchete, a denúncia ficou ocultada.

Se ele age assim, não é porque seja um malcriado de raiz. Ele é malcriado, sim, mas esses ataques abaixo da cintura não são feitos por acaso, por ímpeto. Têm o propósito de «afogar o peixe», como dizem os franceses. O objetivo de doutor Bolsonaro é fugir à questão. E funciona. Assim como ele fugiu aos debates quando da campanha presidencial, continua fugindo sempre que o assunto o incomoda. É sua maneira de varrer problemas para debaixo do tapete.

Todos os que ousarem criticar ações dele serão tratados da mesma maneira: bombardeados com artilharia pesada. No entanto, se ele imagina que esse tipo de comportamento impede críticas futuras, está enganado. A meu ver, não as evita. Atiça-as.

Acôrdo ortographico

Eduardo Affonso (*)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z. Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial. Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana. Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal. Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

A multa

José Horta Manzano

La Chaux de Fonds é uma cidadezinha suíça situada num planalto a 1000m de altitude, nos Montes Jura. Desde o século 18, tem-se distinguido como centro relojoeiro. Naquele clima rude de altitude, a agricultura é problemática, daí a especialização em fabricação de relógios, atividade que se exerce em ambiente fechado e aquecido. Dois personagens de renome internacional fazem o orgulho da cidade.

Um deles é o arquiteto e urbanista Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), mais conhecido como Le Corbusier. Muitos de seus trabalhos estão na Suíça e na França, mas há realizações suas também em outros continentes. Sua obra está inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Um exemplo é a Maison du Brésil, residência destinada a acolher estudantes e pesquisadores brasileiros, situada na Cidade Universitária de Paris. É obra conjunta do brasileiro Lúcio Costa e do suíço Le Corbusier.

1km/h acima do permitido

A outra glória de La Chaux de Fonds é Louis-Joseph Chevrolet (1878-1941), mecânico, piloto de corrida e empresário. Ainda jovem, emigrou para os EUA. Tinha raro pendor para a mecânica. Depois de trabalhar para algumas fábricas de automóvel – naquele tempo, eram numerosas –, fundou sua própria marca. Em 1911 abriu pequena montadora à qual deu seu sobrenome. É justamente a marca Chevrolet, famosa até hoje.

Estou pra lhes contar esta historinha faz tempo. Ela andou esquecida, mas hoje lembrei. Vamos lá. Ocorreu já faz uns anos. Eu estava circulando de automóvel por uma avenida do centro de La Chaux de Fonds, num trecho em que a velocidade é limitada a 50km/h. Distraído, não me dei conta de que estava rodando ligeiramente mais rápido que o permitido. O radar, no entanto, não estava distraído e me pegou.

Dias depois, recebi a multa por correio. No documento, explicavam bem que, numa via onde a velocidade autorizada era de 50km/h, eu estava circulando a 56km/h. A regra manda deduzir 5km/h como ‘margem de segurança’ – que, na minha juventude, se chamava ‘de lambuja’.

Na avenida Chevrolet

Contas feitas, 56 menos 5 = 51. Portanto, o excesso de velocidade era de 1km/h. Unzinho só. Geralmente, quando a infração é tão pequena, a direção do tráfego deixa pra lá. Nesse caso não deixaram. Fiquei surpreso e me perguntei qual poderia ser a razão desse excesso de zelo, que mais parecia pirraça. Multar alguém em 40 francos (170 reais) por um excesso de 1km/h? Dói.

Eis senão quando, descobri o nó. Eu estava na cidade natal de Louis-Joseph Chevrolet, na avenida Louis-Joseph Chevrolet, dirigindo um… Ford! Era afronta imperdoável. Onde já se viu?

Outubro de 2021

José Horta Manzano

Pelo sacolejar da carroça, Lula da Silva estará logo livre. Pra determinar a soltura, o STF terá de agir em três tempos: cassar o julgamento do ex-presidente, anular a confirmação da segunda instância e invalidar a reconfirmação do STJ. Dito assim, parece muita anulação de processo, mas nosso tribunal maior tem mostrado desenvoltura no trato de esquisitices.

Se esse for o figurino, o(s) processo(s) volta(m) para a primeira instância e o Lula volta pra casa. Como qualquer cidadão, terá o direito de concorrer a eleições. Não o imagino candidatando-se a prefeito de Garanhuns, sua terra natal. Acredito que vá direto registrar candidatura para a Presidência. Na época da eleição, em outubro de 2021, nosso guia já estará com 76 anos. Seu bom aspecto, no entanto, parece indicar que está em boa saúde. Idade, em si, não é doença.

Supondo que o presidente atual aguente de pé até o fim do mandato, teremos uma situação curiosa. De um lado estará doutor Bolsonaro, que já declarou intenção de candidatar-se à própria sucessão. Do outro, Lula da Silva, concorrendo pela sexta vez.

Vamos agora fazer continha de chegar. Suponhamos que tanto o Lula quanto doutor Bolsonaro contem, cada um, com o apoio de um terço do eleitorado. São os ‘ultras’, os incondicionais, os devotos. Se meus números não estiverem muito longe da verdade, pode-se apostar que ambos têm lugar garantido no segundo turno. É aí que começa o dilema para o último terço do eleitorado, aquele que não reza pela cartilha de nenhum dos dois, mas cujo voto vai decidir a eleição. Que rolo, coronel!

Da última vez, ocorreu algo semelhante. Lula da Silva, retido por compromissos inadiáveis em Curitiba, nomeou procurador pra representá-lo. As pesquisas apresentaram doutor Bolsonaro como o único Quixote capaz de vencer o lulopetismo.

Do Lula, sabíamos que havia permitido o assalto aos cofres da nação. Desgostosa, a maioria do eleitorado não queria um repeteco. De doutor Bolsonaro, não se sabia grande coisa. Seus apoiadores ‘de raiz’, somados aos eleitores que não queriam o lulopetismo de volta, formaram maioria. Vai daí, venceu Bolsonaro.

Desta vez, o nó será bem mais apertado. O Lula continua o mesmo, não mudou nem um nadinha. Persiste em negar beatamente a feia realidade que todos conhecemos. Seus protestos de pureza soam falso. De doutor Bolsonaro – a incógnita da última eleição –,temos agora um balaio de informação. Se ainda estamos procurando suas qualidades, conhecemos bem seus abundantes defeitos.

O dilema, portanto, será pontudo. Todos os que não forem lulistas de carteirinha nem bolsonaristas de coração estarão numa sinuca complicada. Não queremos que nenhum deles seja presidente do país. Mas teremos de escolher ‘entre a peste e a cólera’, como dizem os franceses. Não vai ser fácil. Preparem-se.

Qui se ressemble – 4

José Horta Manzano

Doutor Weintraub, atual titular do Ministério da Educação, tem mostrado que, além de ser o mais mal-educado dos ministros, é também o que mais comete erros de grafia. Pra um homem pago justamente pra vigiar a educação dos brasileiros e pra cuidar dela, pega mal pra caramba.

Não faz quinze dias, atirou-se feito um rottweiler contra Monsieur Macron. Num piado lançado nas redes sociais, tratou o presidente da França de calhorda. Nada menos que isso. Não é espantoso, vindo de um ministro? Ministro da Educação, frise-se!

Passou. Na sexta-feira dia 30, nosso herói voltou suas baterias contra a ortografia. Espezinhou-a. Não satisfeito com ter escrito no tuíter, algum tempo atrás, incitar com s (insitar), reincidiu. Pra mostrar que sua falta de familiaridade com a língua é ampla e abrangente, mandou novas palavras para o cadafalso.

Desta feita, o megaescorregão foi perpetrado num texto de apenas 8 páginas. A primeira vítima foi paralisação, escrita duas vezes com z (paralização). Destemido, o ministro se esbaldou. Mais adiante, no mesmo documento, escreveu suspensão com ç (suspenção).

Este último erro é mais grave que os outros. Dado que suspensão é palavra corriqueira, dessas que se encontram a cada esquina, a grafia deveria estar fixada na cabeça de todos os alfabetizados. Escorregar aqui significa absoluta falta de intimidade com a escrita. Errar assim já é embaraçoso para o cidadão comum; para o ministro da Educação, é imperdoável. É verdadeiro crime de responsabilidade, a ser punido não com “suspenção”, mas com destituição do cargo.

Diferentemente do tuíter, onde Sua Excelência pia e comete deslizes com os próprios dedinhos, o documento de oito páginas há de ter sido datilografado(*) por um assessor. Das duas, uma: ou o ministro assina sem ler, ou é conivente com a fragilidade ortográfica do datilógrafo(*).

A meu ver, nem ele nem o assessor estão em condições de continuar no cargo. Ambos são caso de pessoa errada no lugar errado.

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

(*) Datilografar é verbo arcaico, hoje desaparecido e substituído por digitar.