Colégio bombardeado

José Horta Manzano

“Continuo convencida de que o que foi decidido não era o melhor para o Brasil“
Declaração que doutora Cármen Lúcia fez após ser voto vencido em sessão plenária do STF.

“A justiça haverá de triunfar!“
Declaração que doutor Ricardo Lewandowski dirigiu a manifestantes pró-Lula.

Pergunta:
O que há de comum entre essas duas declarações aparentemente desparelhadas?

Resposta:
A quebra da colegialidade, distinto leitor, o pecado mortal que desmoraliza nosso STF.

Para espanto e desalento do cidadão de bem, as excelências que compõem nosso tribunal maior se esmeram em destricotar o princípio básico da respeitável instituição que integram. Não conseguem compenetrar-se de que tribunal não é parlamento.

Parlamento ‒ o nome está indicando ‒ vem de parlare (=falar). É o lugar onde se fala, onde se discute, onde se debate. Discussão, argumentação, controvérsia, polêmica, querela são ‘o pão nosso de cada dia’ do parlamento. Naquela casa, cada um vota segundo a própria convicção. Os debates são franqueados ao público, e o resultado traz o nome e o voto de cada parlamentar. É assim que deve funcionar e é assim que funciona.

STF é outra coisa. É um tribunal colegiado. Colégio vem do latim collegium, de colligere (=colher junto). Nas decisões de um tribunal colegiado, não cabe especificar quem votou como. Como num júri, os debates se devem fazer a portas fechadas. Somente o resultado será publicado, sem menção do nome nem do voto de cada ministro. No meu entender, as sessões espetaculares de nosso STF, em que cada ministro dá seu voto, são uma aberração ‒ um constrangimento para o juiz e para o público.

Debates podem ser feitos às claras, mas o voto de cada ministro deveria ser pronunciado a portas fechadas. A apresentação do resultado será, de novo, um ato público. O resultado será apresentado como voto do colégio, despido de toda personalização.

Não tem cabimento impingir ao país esse reality show deprimente, em que participantes evoluem como num teatro, exprimindo-se num linguajar incompreensível e gesticulando numa forçada teatralidade visivelmente dirigida às câmeras.

Toda essa encenação é desnecessária. Os “debates” soam artificiais, mormente quando se sabe que cada juiz já traz o voto pronto. Ora, se o voto está pronto e escrito em longas laudas, pra que debater?

Apesar do funcionamento trôpego, decisão colegiada é decisão colegiada. Nenhum ministro deveria fugir ao colégio como quem dissesse: “Olha, gente, não fui eu, hein! Eu não estou de acordo, mas fui vencido.” Está aí o erro primário que assinalei no topo deste artigo.

Essa atitude é feia, deselegante e, sobretudo, inútil. Mostra apenas que o ministro que faz isso se desassocia do colégio. Trouxe hoje dois exemplos, mas todos os ministros costumam agir assim.

O bom senso preconiza que aquele que se dessolidariza do grupo ao qual pertence não merece nele permanecer. Parti, gentis damas! Parti, nobres cavalheiros!

Monoglotismo

José Horta Manzano

Ah, a falta que faz o aprendizado de línguas na escola! Os jovens podem até achar que é exagero, mas eu garanto que era assim: antigamente ‒ e não falo do tempo dos sumérios ‒ o currículo do ensino médio incluía Inglês, Francês, Latim e Grego. Sim, senhores. Os brasileiros perderam muito com o empobrecimento do ensino de línguas.

Doutor Bolsonaro é mais uma vítima da estranha política que empurra os brasileiros para o monoglotismo. Quando lhe apresentaram um artigo de jornal, escrito em francês, que falava dele, só conseguiu decifrar o título, porque era evidente. Dizia lá: «Machiste, homophobe et raciste, le ‘Trump brésilien’ cartonne» ‒ Machista, homofóbico e racista, o ‘Trump brasileiro’ faz grande sucesso.

Tribune de Genève – Genebra, Suíça

O homem reagiu com um tuíte enfurecido. Só que se enganou de alvo. Pouco familiarizado com a língua de Molière, trocou as bolas. Acreditando que o nome da editoria «Monde» (Mundo) fosse o nome do jornal, mandou bala. Ao se queixar ao jornal errado, escorregou na maionese. O artigo não tinha sido publicado no ‘Le Monde’, mas na Tribune de Genève, jornal suíço.

Gafe dupla. Por um lado, apresentou reclamação na paróquia errada. Por outro, tivesse lido o artigo, teria visto que, apesar do título severo, o texto é isento. O autor se atém aos fatos e dá nome aos bois, evitando considerações subjetivas. Menciona o caso Maria do Rosário, quando o doutor disse que “não a estupraria porque ela não merecia”. Lembra também que o deputado assegurou que seus filhos nunca sairiam com mulheres negras “porque foram bem educados”. Fala ainda da especial simpatia que o doutor tem por militares e por intervenções policiais musculosas. Enfim, nada que se desvie da realidade. O artigo pinta um retrato autêntico do personagem.

Se eleito, doutor Bolsonaro bem que podia mandar vitaminar o aprendizado de línguas na escola média. Para ele, é tarde demais, mas será de grande utilidade para as gerações futuras. Numa civilização globalizada como a atual, quem não conhece língua, dança.

Prevaricação grosseira

José Horta Manzano

O dicionário é claro ao indicar o campo semântico coberto pelo verbo prevaricar. Todas as accepções carregam valor negativo. As principais são:

  • deixar de cumprir o dever por interesse ou má-fé
  • cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado
  • trair a confiança

Etimologicamente, prevaricar ‒ que nos chegou direto do latim prævaricare ‒ é composto de præ = antes e de varicari de varus = o que sai da linha reta, ou seja, torto. Alguns estudiosos enxergam parentesco com o termo curvo.

O ato cometido pelo plantonista do TRF4, que deu origem a tremenda balbúrdia institucional domingo passado, se enquadra perfeitamente em todas as accepções do verbo. Imbuído de indisfarçável má-fé, o magistrado desviou-se da linha reta, cometeu abuso de poder, traiu a confiança de que era depositário e causou prejuízo ao Estado. Se isso não for prevaricação, o que será?

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

O estagiário que redigiu a manchete se impressionou com o termo. Talvez por desconhecer-lhe o significado, tascou aspas em volta. É maneira de isolar o desconhecido, pra evitar ser por ele engolido. Palavra estranha pode até morder! Melhor tomar cuidado.

Falando sério, a procuradora-geral pede que o plantonista seja investigado por ter prevaricado. Sem aspas. Aquele que comete abuso de poder e causa dano ao Estado não tem perdão.

No cabeça

José Horta Manzano

Monsieur Jules Ernest Séraphin Valentin Rimet (1873-1956), cartola de alto coturno, foi presidente da Fifa durante 33 anos. Começou em 1920 e permaneceu enquanto a saúde ajudou. Inspirado pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, teve a ideia de organizar um campeonato mundial unicamente para o futebol, separado dos demais esportes.

A ideia foi posta em prática pela primeira vez em 1930. O Uruguai foi designado como sede. Os europeus demonstraram flagrante desdém pela distante e atrasada América do Sul ‒ apenas quatro países se dignaram de mandar a seleção enfrentar a longa viagem: França, Romênia, Iugoslávia e Bélgica. Ressalte-se que o pequeno país sul-americano só foi escolhido porque seu governo se dispôs a custear todas as despesas das equipes participantes, transporte inclusive.

O troféu, que o presidente da Fifa carregou na bagagem pessoal, tinha sido confeccionado na Europa. Era uma peça de ourivesaria em puro estilo art-déco ‒ uma espécie de taça montada sobre um pedestal e sustentada por uma figura alada. Apropriadamente, foi chamada Coupe Jules Rimet, numa homenagem pouco modesta ao cartola.

Coupe Jules Rimet

Em francês, a palavra coupe traduz nossa taça. Em razão da forma do troféu, o campeonato foi aqui chamado, nos primeiros anos, de Taça do Mundo. A vitória brasileira de 1958 deu origem a várias marchas triunfais, a mais conhecida das quais dizia «A Taça do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa».

De lá pra cá, distraídos, deixamo-nos contaminar pelo estrangeirismo, decerto visto como mais chique. A taça virou copa, que, aliás, é como os espanhóis chamam o objeto. De qualquer maneira, o troféu já não tem mais forma de taça. Ficam elas por elas, que nem taça nem copa correspondem ao desenho do troféu atual.

O termo copa vem do latim cupa (também cuppa), que é como os romanos chamavam a taça. Descende de antigo radical kup/kap, que tem sentido de encurvar, arquear. A família conta com muitos parentes: copo, cubo, cúpula, cúbito e seus derivados. Desconfia-se que até o alemão Kopf (cabeça) seja parente desgarrado. De fato, a forma arredondada da cabeça bate com o sentido de encurvar.

Falando em Kopf, muitos especialistas predizem que a partida final da Copa será entre Brasil e Alemanha. Naturalmente, com Brrrasil no cabeça ‒ perdão ‒ Brasil na cabeça!

Os trancos e os barrancos

José Horta Manzano

A etimologia é ciência fascinante e curiosa. Fascinante porque acompanha a evolução de palavras ao longo de um percurso, às vezes tortuoso, que pode remontar a passado longínquo. Curiosa porque, quando falta comprovação escrita, dá margem a suposições por vezes ousadas.

Quando um termo encontra equivalente em latim, não há muito que discutir. Já quando a palavra escapa ao léxico latino e ao germânico, a falta de documentos dificulta o estudo. Volta e meia, aparece nova explicação assaz fantasiosa que, por falta de coisa melhor, acaba aceita como verdade bíblica.

Sem querer contradizer ninguém, relato o que li estes dias e que me deixou com um pé atrás. Um homem pra lá de erudito, doutor em Filologia Semítica, tornou-se membro, estes dias, da respeitável RAE ‒ Real Academia Espanhola.

O filólogo apresentou nova explicação para a origem de algumas expressões da língua espanhola. Nenhuma delas tem correspondente em português, com exceção de uma: a trancas y barrancas, a forma castelhana de nossa conhecida aos trancos e barrancos.

Qualquer dicionário informa que tanto tranco quanto barranco são consideradas pré-romanas, ou seja, vozes que já faziam parte da língua antes da chegada das tropas romanas à Península Ibérica. O acadêmico garante que a expressão nada tem a ver com trancos e muito menos com barrancos. Segundo ele, vem do árabe atrakkán barrámka que significa “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”.

Não falo árabe. Mas tiro o chapéu para o excepcional espírito sintético de uma língua que, com apenas duas palavras, consegue dizer “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”. Parabéns!

Umbral

José Horta Manzano

A raiz latina lumen (= luz) deixou descendentes. A luz e a iluminação estão entre eles. Deixou também luminar, liminar, lume, lumbrada (= raio luminoso) e umbral. Essa família vem a calhar nesta quarta-feira histórica.

O «habeas corpus», que o cidadão Lula da Silva requereu para livrar-se da cadeia, está previsto para ser julgado hoje. A decisão liminar será (ou não) transformada em resolução definitiva. A responsabilidade está nas mãos dos onze ministros do STF, tidos como luminares do saber e do bom senso.

O que está em jogo não é exatamente o destino da pequena pessoa chamada Lula da Silva. Sinceramente, todos estão se lixando para o fato de ele ir ou não para detrás das grades. Cada um de nós se aflige, isso sim, pelas consequências que tal prisão possa trazer para nossa pequena pessoa.

O resultado do julgamento será um marco. Manuais escolares do século 22 comemorarão o 4 de abril de 2018. Dependendo da decisão que os luminares tomarem, a data será lembrada como o dia em que uma lumbrada riscou os céus de Brasília e assestou golpe fatal na corrupção sistêmica. No entanto, caso vença a hipótese tenebrosa, a data será recordada como o dia em que o Brasil desprezou a luz para descambar nas sombras, o dia em que a corrupção foi oficialmente reconhecida como algo conveniente, desejável, apropriado, legítimo e legal.

Não tenho bola de cristal que me ilumine e mostre como ficará o país caso os luminares decidam abandonar a luz e precipitar o país nas trevas. A pista mais evidente e natural me parece ser a de intervenção militar. Por muito menos, isso já ocorreu meio século atrás. Quando todas as tentativas de impor o bom senso fracassam, só resta a imposição pela força.

Alguém tem de pôr ordem no país. «Se não for pelas boas, vai pelas más» ‒ como dizia meu pai. Se intervierem os fardados, não acredito que se mantenham no poder por muito tempo. Hão de tomar as medidas urgenciais e, em seguida, convocar assembleia constituinte. Promulgada a nova Constituição, hão de devolver o poder à sociedade civil.

Estamos no umbral, na porta de entrada de novo capítulo da história nacional. A decisão está nas mãos de nossos onze luminares ‒ que, aliás, talvez nem se estejam dando conta do alcance do julgamento de hoje. Vamos torcer pra que a luz desça sobre eles. Caso derrapem, cairemos todos.

Observação
Todas as palavras escritas com tinta azul são filhotes do lumen latino.

Inadequação vocabular ‒ 7

José Horta Manzano

Folheando um dos grandes quotidianos nacionais, topo com uma colorida foto que ilustra uma matéria sobre a retomada do ritmo de consumo.

Em primeiro plano, aparece uma vistosa banca ‒ ou gôndola, como se deve dizer ‒ carregada de frutas. Em cima, em letras brancas sobre fundo vermelho, está escrito com todas as letras «Frutas Exóticas».

Debaixo do cartaz, distingo goiabas e, se não me traem os olhos, mamões. Fica claro que quem determinou classificar goiabas e mamões como «frutas exóticas» ignora o significado da palavra.

O Sherlock aqui reconstruiu o caminho da esquisitice. O gerentão da empresa, pessoa viajada, há de ter visitado dúzias de supermercados de França, Oropa e Bahia. Em todos eles, sob a indicação «frutas exóticas», encontrou goiabas, papaias, mangas, abacates. Logo, deduziu que a denominação se referia a essa classe de frutos. Não hesitou em reproduzir, na própria loja, as palavras que soam tão chiques.

Bobeou. Exótico, do latim exoticus, carrega o prefixo grego exô (o ex latino), que indica fora de. A palavra se aplica àquilo que vem de fora, que não é daqui, que é forasteiro ou de origem estrangeira.

Na Europa, na América do Norte e em toda região de clima temperado, goiabas e mamões não crescem. Têm de ser importados. Como vêm de fora, são ditos «frutos exóticos».

No Brasil, não é assim. Em virtude do clima, as frutas tropicais são justamente as mais comuns. Para nós, exóticos são frutos como o abricô (damasco), a avelã, o mirtilo e outras raridades.

Trabalho: dureza, mas nem tanto

José Horta Manzano

Trabalho é coisa antiga. Segundo a Bíblia, tornou-se obrigatório desde o dia em que o homem foi expulso do paraíso. A partir de então, cada um teve de transpirar para conseguir o pão de cada dia. Há quem se alimente do trabalho alheio, assaltando o erário, por exemplo, possibilidade não prevista na Bíblia. Não é disso que vamos tratar hoje, mas da origem da palavra.

Com pequenas diferenças ligadas ao espírito de cada língua, a palavra aparece em português (=trabalho), em castelhano (=trabajo), em catalão (=treball), em galego (=traballo), em francês (=travail). Em todos esses idiomas, o termo é usado com o mesmo significado que lhe atribuímos.

É curioso a raiz não existir em latim. Conforme o caso, os antigos romanos podiam optar entre opus e labor. Aliás, ambas as vozes deram filhotes em português, todos ligados à noção de trabalho. Opus deu operação, operário, operador. Labor desembocou em lavoura, laboratório, lavra, elaboração.

Entre os estudiosos das línguas, há uma categoria que encaro com certa reserva: são os etimologistas, aqueles que buscam a origem das palavras e sua evolução. Não digo que se deva deles desdenhar. Operam com paciência e afinco beneditinos. No entanto, é compreensível que, decepcionados quando não encontram a origem de um termo, tentem forçar um pouco a barra. Certos étimos, apresentados como verdade absoluta, me parecem fruto de imaginação pra lá de fértil. É o caso de trabalho.

O fato de que o termo trabalho, embora difundido nas línguas neolatinas, não apareça no latim, deixa intrigados os etimologistas. Parte deles, obcecados pela busca de origem latina, opta por atribui-la a um certo tripalium, instrumento de tortura constituído de três paus ao quais se atava o indivíduo a ser chicoteado.

Ora, não me parece sustentável a hipótese de os habitantes das províncias romanas não disporem, antes da chegada dos romanos, de palavra para dizer trabalho. Mais intrigante ainda é o fato de não terem adotado opus nem labor, preferindo tripalium ‒ o nome do instrumento de punição. Acreditar é difícil. Por minha parte, reluto em aceitar a hipótese de o trabalho ter sido considerado análogo à tortura por todos os povos, desde as fronteiras germânicas até as falésias lusitanas.

Há etimologistas que, fugindo à corrente dominante, atribuem a origem da palavra à raiz trabs (trava ou trave), o que me parece pouco provável. Outros ligam o termo ao celta trafed (trabalho), hipótese bem mais plausível. Há, ainda, os que veem na forma trabalho uma evolução do gótico trawla (ficar cansado), ideia que tampouco deve ser descartada.

Seja como for, navegamos em densa neblina. Ninguém pode afirmar, com cem por cento de certeza, que nosso trabalho derive desta ou daquela raiz. Trabalho nem sempre é um prazer, é verdade, mas assimilá-lo a instrumento de tortura, convenhamos, já é exagero.

Quingentésimo septuagésimo nono

José Horta Manzano

Na Antiguidade, classificações em ordem numeral não iam muito longe. Não havia necessidade. O que é que tinha de ser contado? A quantidade de filhos, de horas, de dias ‒ não muito mais. Não se elaboravam listas com centenas de componentes. O mais longe que se costumava contar eram os marcos da liturgia, com trigésimas e quadragésimas. Fora isso, ninguém se preocupava em dar nome ao 248° de uma série. Tudo o que não é utilizado acaba enferrujando.

Foi o que ocorreu com os ordinais em nossa língua. Por falta de uso, o conhecimento das regras acabou se perdendo. Quem frequentou boa escola pode até ter aprendido que o 500° de uma relação se diz quingentésimo e que o 579° é o quingentésimo septuagésimo nono. Mas tudo isso não vai além do plano teórico. Ainda que o esforçado aluno puxasse, lá do fundo da memória, a forma correta do ordinal, dificilmente seria entendido.

O resultado? Estamos atolados em desorientação numérica. Até o 50, a conversa vai: vigésimo segundo, trigésimo quinto, quadragésimo terceiro. Daí pra frente, a coisa se complica. Quando a posição numa lista de classificação é maior que 50, até pessoas cuja profissão é falar ‒ locutores, palestrantes, professores ‒ hesitam, titubeiam e… acabam utilizando o cardinal. No rádio, ouve-se falar do setenta e seis distrito policial. Na conferência, o palestrante diz que o Brasil ficou na posição 137.

Podemos dar de ombros, nos conformar com a situação e passar pro capítulo seguinte. Joga-se a poeira pra debaixo do tapete, faz-se uma pirueta e pronto. Atrás, vem gente, e a vida segue. Podemos também procurar uma solução.

O “50” aniversário do rei

Nossos ordinais são descendentes diretos das formas latinas. Só que, ao tempo dos romanos, não andavam na boca do povo. Eram reservados para uso literário. Hoje em dia, dado que as enumerações são mais longas, a complexidade do sistema ficou pesada.

Cada povo resolveu o problema a seu modo. Ingleses, alemães, franceses e italianos encontraram uma saída genial. A partir dos números de dois algarismos, pronunciam a primeira parte do número em forma cardinal e só marcam o ordinal quando chegam à unidade. Transplantando o sistema para nossa língua, nosso 579° fica assim: «quinhentos e setenta e nono». Facilita a vida, não? Se tomássemos esse caminho, o locutor não tropeçaria mais: diria que o bandido foi levado preso ao «setenta e sexto» distrito. E o palestrante, aliviado, mencionaria a «cento e trinta e sétima» posição do Brasil na classificação.

Há também a solução de joão sem braço adotada pelos castelhanos. Exceto para os pequenos números, eles eliminaram os ordinais. Falam do «cinquenta» aniversário do rei, do «trinta e nove» festival de cinema. Fica esquisito, um pouco pobre. Por mim, adotaria a solução de ingleses, franceses e alemães. No começo, havia de parecer estranho, mas a gente logo se acostuma.

De toda maneira, a sugestão tem de vir de quem de direito: da Academia Brasileira de Letras. Em vez de se preocupar em nos infernizar a vida com a dança dos hifens, bem que podiam se debruçar sobre o assunto e mostrar o caminho. Mas não tenho esperança de que o façam tão cedo. Melhor puxar uma cadeira e esperar sentado, que de pé cansa.

Essas palavras que não conhecemos

José Horta Manzano

Você sabia?

Com grande frequência utilizamos palavras cujo significado não conhecemos. «Como assim?» ‒ perguntará, um tanto indignado, o distinto leitor. «Eu não uso palavras que não conheço!»

Pois eu não teria tanta certeza. Volta e meia me surpreendo fazendo isso. Como sou curioso e não gosto de deixar ponto sem nó, costumo tomar o tempo de ir ao dicionário conferir. Vez por outra, o resultado é um espanto. A gente se dá conta de que não tinha a mínima ideia do significado do termo utilizado.

Vou tratar hoje de duas expressões bastante comuns, daquelas que ouvimos com grande frequência. A primeira é «ledo engano» e a segunda, «reputação ilibada». Você, que já há de ter pronunciado essas palavras, talvez não conheça o exato significado dos adjetivos ledo e ilibado.

Ledo
Descende da forma latina lætus. Linguistas ainda não conseguiram se pôr de acordo quanto à origem da raiz. Em todo caso, chegou ao latim com o significado de alegre, exultante, vivaz. Um cognato sobrevive em italiano moderno: lieto, usado para significar alegre. A forma portuguesa ledo ‒ atualmente usada unicamente para qualificar engano ‒ é de mesma natureza que a latina e conserva o mesmo significado. Portanto, «ledo engano» é «engano alegre».

Curioso, não? Talvez provenha da ideia de que aquele que se engana sem se dar conta do erro continua alegre, não fica chateado. A gente costuma dizer «bobo alegre», pois não?

Ilibado
Em nove a cada dez aparições, o adjetivo ilibado qualifica a palavra reputação. Mas o que significa mesmo? Pois também essa raiz aparece no latim. Libatus é o particípio passado do verbo libare, que significa espargir, derramar uma parte do vinho (ou outra bebida alcoólica) depois de ter provado. É um ritual semelhante ao daquele bocadinho de pinga que, antes de beber, se derrama «pro santo». Em rituais expiatórios da Roma antiga, fazia-se o contrário: experimentava-se antes e derramava-se o resto.

Com o passar do tempo, o significado do verbo libare evoluiu. Em vez de designar o ato de derramar, passou a dar nome ao ato de experimentar, degustar, ter prazer em saborear. A palavra libido é parente próxima. Portanto, dizer que algo ou alguém é ilibado significa que não foi tocado, que é puro, limpo, inteiro, não contaminado.

Entre os integrantes de nosso andar de cima, está cada dia mais difícil apontar um representante que responda a esses critérios.

Outras máximas ― 37

José Horta Manzano

Publilius Syrus (85 aC – 43 aC), dramaturgo e poeta romano

Quem protege o malfeitor incrimina a si mesmo.

Duas vezes milenar, o aforismo não perdeu a atualidade. Serve como luva para o Brasil destes tempos estranhos.

 

Formação musical

José Horta Manzano

Esta semana, dois ministros do governo francês se juntaram para fazer uma comunicação importante. O ministro da Educação e a ministra da Cultura anunciaram que, a partir da próxima volta às aulas (setembro de 2018), os alunos dos «collèges» do país terão a oportunidade de cantar num coral. «Collège» é o ciclo do ensino fundamental que congrega estudantes entre 11-12 e 14-15 anos. São sete mil estabelecimentos na França.

A participação no canto coral será facultativa, assim como já ocorre com as aulas de Latim. A carga horária prevista é de duas horas por semana, sem avaliação final e sem atribuição de notas. Se a experiência for considerada bem sucedida, a prática deverá ser estendida daqui a dois anos às escolas elementares ‒ as que têm alunos de 6-7 a 10-11 anos.

Nos países do norte da Europa, é muito difundida a prática do canto coral. Todo vilarejo tem o seu grupo. Toda igreja também tem. O fenômeno ocorre da Suécia à Áustria, da Finlândia à Suíça. Os EUA herdaram o costume. Já na França e nos demais países latinos, grupos de canto são menos difundidos. A América Latina repercute a raridade desses conjuntos vocais.

Quando este escriba frequentou o ginásio, muitas décadas atrás, tínhamos aulas de Canto Orfeônico. Eram obrigatórias e rendiam nota ‒ o que talvez seja procedimento um tanto agressivo, verdadeiro espantalho para indivíduos desafinados ou arrítmicos. Deixar o aluno livre de participar ou recusar me parece boa medida.

«La musique adoucit les mœurs» ‒ a música suaviza comportamentos, dizem os franceses. Estudos demonstram que a educação musical tende a estimular regiões virgens do cérebro. Os que adentram esse novo universo só têm a ganhar.

Fica aqui a ideia para os responsáveis pela Educação Nacional no Brasil. Num país tão violento como o nosso, onde o nível de criminalidade supera o de zonas conflagradas, tudo o que puder contribuir para suavizar comportamentos deve ser tentado. Mal, não fará.

Pós-verdade

José Horta Manzano

Palavras são criadas a toda hora. Ao redor do planeta, torrentes de termos novos jorram continuamente. Como é natural, nem todos os idiomas têm a mesma importância. Cada época tem suas línguas de maior prestígio. As novidades baseadas na língua dominante têm mais chance de dar a volta ao globo.

Na Idade Média, os europeus iam buscar no latim, língua de cultura, os ingredientes para compor palavras. Do século XV até uns cem anos atrás, o francês passou a ocupar o lugar do latim declinante. Todas as novidades vinham de Paris inclusive palavras e expressões. Tudo «très chic».

by Kike Ibáñez (1980-), desenhista espanhol

Em nossos dias, quem esmaga a concorrência é o inglês. No Brasil, onde somos particularmente permeáveis a neologismos, palavras inglesas chegam a aposentar termos e expressões que, ainda ontem, costumávamos utilizar sem constrangimento. Algum comerciante ousaria botar mercadoria em liquidação? Ou dar desconto? Alguma pizzaria ofereceria serviço de entrega? Algum restaurante fino poria simples manobristas à disposição da clientela? Alguém pensaria em tecer considerações sobre comércio eletrônico? Qual nada! Sale, off, delivery, valet, e-commerce estão na crista da onda.

Os exemplos que acabo de dar são modismos. Hoje estão em todas as bocas, mas ninguém garante que resistam à passagem do tempo. Existe, no entanto, uma outra casta de palavras importadas. Trata-se daquelas que exprimem conceitos novos, objetos e fatos para os quais não tínhamos nome. Esses aportes, sim, são bem-vindos. Vêm para ficar. Hão de permanecer enquanto o objeto existir.

Nos últimos anos, as redes sociais se espalharam com rapidez impressionante. Como toda moeda, têm duas faces. O lado bom é permitir que notícias se alastrem com a rapidez de rastilho aceso. O lado escuro é que as notícias alastradas nem sempre correspondem à verdade. Mas há gente ‒ muita gente ‒ que engole, sem filtro, tudo o que ouve ou lê. O fenômeno é antigo. A gente costumava chamar de boataria, diz-que-diz, fofoca. O incremento exponencial que se verifica atualmente estava a exigir nome específico.

Atribuem a um blogueiro a criação da expressão «post-truth». A menção mais antiga aparece sete anos atrás. Em inglês, o termo se generalizou rapidamente. Talvez por dificuldade de pronúncia, cada língua tratou de adaptar o termo à sua fonética. Ou mesmo de traduzi-lo. Assim, temos «post-vérité» em francês, «post-verità» em italiano, «posverdad» em espanhol. Aliás, o diretor da RAE ‒ Real Academia Española, que corresponde a nossa Academia Brasileira de Letras, já anunciou que a palavra estará incluída na próxima edição do dicionário RAE, a bíblia da língua de Cervantes.

by Sébastien Thibault (1980-), desenhista canadense

Já nossa bíblia, o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), cuidado pela ABL, ainda não registra o termo em sua versão online. Que não seja por isso. O Dicionário Priberam já ousou. Incluiu o verbete pós-verdade, que vem assim descrito: «Informação que se divulga ou aceita como fato verdadeiro devido à forma como é apresentada e repetida, mas que não tem fundamento real.»

Mr. Trump tem feito amplo uso do estratagema. Em nossas plagas, tivemos um presidente da República que pautava seu discurso por um conceito aparentado: o da quase-lógica. De tão vago e ambíguo, alguns até hoje acreditam sinceramente nas palavras do demiurgo. A expressão não entrou nos dicionários. Dificilmente entrará.

Estado, nação e pátria

José Horta Manzano

Certos conceitos são difíceis de exprimir em poucas palavras. Para um ouvido desatento, dá no mesmo que se diga o Estado brasileiro, a nação brasileira ou a pátria brasileira. Essa coleção de termos semelhantes é muito útil num texto, para evitar repetir quinhentas vezes a mesma palavra. No entanto, uma reflexão mais aprofundada vai revelar que o significado de cada uma delas não é exatamente o mesmo.

Nação é comunidade homogênea, cujos membros, em quase totalidade, falam a mesma língua, têm a mesma origem étnica e tradições em comum. Uma nação não constitui necessariamente um Estado. Aliás, raríssimos são os Estados que reúnem todas essas características. Assim, de chofre, me ocorrem dois exemplos em que Estado e nação coincidem: Dinamarca e Portugal. São países com uniformidade linguística, religiosa e, até certo ponto, étnica. Os membros que escapam à homogeneidade são minoria estatisticamente diminuta.

Curdistão ‒ nação que se espalha pelo território de quatro Estados

Estado é conceito político, um território autônomo e independente, com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente. As fronteiras, em geral, não correspondem às de uma só nação. Ao redor do planeta, a imensa maioria dos Estados se enquadra nessa categoria. Os exemplos são numerosos. Espanha, Reino Unido, Itália, Canadá, China, Índia, praticamente todos os países africanos englobam diferentes etnias, línguas, religiões e tradições. O que caracteriza um Estado é a centralização da administração dos habitantes. Leis, regulamentos, política externa, instituições valem (em princípio) para todos.

Pátria é conceito mais poético do que político, linguístico, religioso ou étnico. Procede, antes, de livre escolha individual. Assim como Fernando Pessoa dizia que sua pátria era a língua portuguesa, é permitido a cada um orientar o próprio lirismo para onde bem entender. A pátria de um indivíduo pode coincidir com o país onde nasceu. Pode também ser o lugar onde cresceu. Pode ainda ser a região em que se sente em casa. Assim como é impossível fazer beber um burro que não tem sede, não se pode impor sentimento patriótico a ninguém.

Copenhague, Dinamarca

Pra ser muito sincero, minha intenção, ao iniciar este artigo, era falar sobre dupla cidadania. Vai ficar pra uma outra vez. Não gosto de cansar o distinto leitor com muito blá-blá-blá de uma tacada só. Assim como não aprecio ler textos muito longos, reluto em escrever artigos muito compridos. Menos é mais ‒ valioso adágio!(*)

Nota etimológica
Adagio ‒ que vale ditado, sentença, máxima ‒ é expressão latina que se mantém tal e qual no italiano atual. É interessante notar que filhotes da raiz agium estão presentes em numerosas línguas com significado ligeiramente diferente.

Em francês, aise traz noção de conforto, de descontração. Em italiano, agio pode carregar também a ideia de lentidão, vagareza. Ease, o correspondente em língua inglesa, permitiu a formação do adjetivo easy, com sentido de facilidade.

Poucos sabem que temos, em nossa língua, um descendente da família. É azo, termo pouco utilizado. Significa oportunidade, ensejo, motivo.
Ex: O atraso do voo deu azo a que ele desistisse de viajar.

Se fôssemos espertos

Ruy Castro (*)

Comecei a suspeitar de algo errado com a educação no Brasil quando uma de minhas filhas, matriculada num colégio “experimental” do Rio em fins dos anos 70, chegou aos oito anos sem ser alfabetizada. Em troca, subia e descia de árvores com uma destreza de Jane do Tarzan. Seu colégio dava grande importância a essa disciplina e, não por acaso, o pátio parecia uma miniatura da Mata Atlântica.

Desde então, nosso sistema de ensino vem procurando novas fórmulas com as quais preparar os garotos. Uma delas propôs – e conseguiu – extinguir do currículo o Latim, talvez por ele não figurar entre as línguas oficiais da Disney World. Outra postulou o desaparecimento da Geografia, sob a alegação de que era inútil saber, digamos, os afluentes do rio Amazonas – para que decorar a resposta a uma pergunta que jamais lhes seria feita?

Mas isso foi então. Nos últimos 15 anos, voltamos aos conteúdos, só que para tentar inverter o polo da história – diminuindo a presença do opressor europeu e enfatizando a dos nossos indígenas e africanos. Com isso, menos Estácio de Sá e D. Pedro I, por exemplo, e mais Zumbi dos Palmares e o cacique Arariboia. Muito justo – mas o que faremos com o Aleijadinho, Chiquinha Gonzaga, Machado de Assis, Lima Barreto, Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Elizeth Cardoso, Ademir da Guia, Taís Araújo e a torcida do Flamengo, todos com algum branco descascado na composição?

Enquanto no Brasil discutimos ideologia, Portugal há anos começou a privilegiar o ensino de Português e Matemática em suas escolas. Sem ler ou escrever direito, ninguém chegará à História e à Filosofia. E sem uma forte base Matemática, ninguém dará para a saída no mundo cibernético. Os portugueses começam a colher os frutos dessa política.

Se fôssemos espertos, já os estaríamos copiando.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Os que moram no céu

José Horta Manzano

Supremo é palavra derivada do latim supremus, superlativo de superus (super). Designa o que está acima de tudo. A forma latina equivale ao grego yper (é), de mesmo significado. Na mitologia grega, o termo designava os deuses que habitavam no céu, em contraponto aos que viviam no inferno. Os deuses supremos estavam no topo da hierarquia.

Dizemos que a mais alta corte de justiça do país, o STF, é suprema. Com isso, deixamos claro que nada nem ninguém lhe é superior. Errar é humano, mas uma escorregadela de integrante do STF é infinitamente mais grave que uma besteira cometida por mortal comum. O deslize de um ministro tem amplo alcance e pode até provocar comoção nacional.

Em matéria de justiça, um conflito de interesses contamina um processo e levanta suspeita quanto ao veredicto. Se uma colisão de interesses se dá no nível da Suprema Corte, o fato é mais que delicado: é perigosíssimo. No entanto, volta e meia, um magistrado do STF dá de ombros a essa evidência e envereda na contramão da imparcialidade do Direito.

Não ocorreu a doutor Dias Toffoli, que serviu a um dos figurões condenados no Mensalão e na Lava a Jato, declarar-se impedido de participar do julgamento do antigo chefe. Doutor Gilmar Mendes, cuja esposa é funcionária do escritório de advocacia ao qual foi confiada a defesa de outro figurão tampouco se embaraçou. Contrariando a ética mais elementar, permanece ativo no processo, altaneiro, como quem não deve explicações a ninguém.

Já doutor Luís Fuchs teve a hombridade de se declarar impedido de participar do julgamento de medalhão com o qual havia estado anteriormente em relação. A conclusão a que se chega é que, no STF ‒ como na sociedade em sentido mais amplo ‒ a ética é conceito de geometria variável. Pau que dá em Chico nem sempre dá em Francisco.

Pois não deveria ser assim. Se suas excelências não se estão mostrando capazes de se submeter às exigências do altíssimo posto que ocupam, é chegada a hora de estudar o assunto seriamente. Afinal, o STF, como todas as instituições da República, não tem existência autônoma, não está ali por geração espontânea. Seus ministros não são (nem devem agir como) elétrons livres. Embora não pareçam se dar conta, representam a sociedade brasileira. Um julgamento pronunciado por aquele tribunal equivale a um juízo proferido pela nação.

Depois de Mensalão e Lava a Jato, não convém esperar até estourar o próximo escândalo. Urge repensar as regras. Há várias saídas possíveis que podem trazer suas excelências de volta ao bom senso. Duas delas me ocorrem neste momento:

•  Abolir a vitaliciedade do cargo transformando-a num mandato de prazo pré-definido

•  Modificar o critério de escolha de novos ministros. Não mais seriam nomeados arbitrariamente pelo chefe do Executivo, mas por um comitê composto por integrantes dos três Poderes, da magistratura, da OAB, de juristas notórios

Há outras ideias evidentemente. O momento de transição que atravessamos parece-me adequado para nos debruçarmos sobre o problema.

De ventos e de auroras

José Horta Manzano

Antes de se interessar pelos pontos cardeais, os antigos se preocuparam com os ventos, as chuvas, o ritmo das estações. Dá pra entender. A vida era dura e não dava espaço pra divagações filosófico-astronômicas. Do tempo atmosférico dependiam os cuidados a dedicar à agricultura. Mais importante que saber onde estavam o norte ou o sul era conhecer os ventos que sopravam de um quadrante ou de outro.

vento-5Tanto na Grécia antiga quanto na Roma dos Césares, os ventos ganharam nome antes dos pontos cardeais. Por consequência, os adjetivos usados para indicar o que vem do norte (ou o que lá está) derivam dos ventos que sopram daquele quadrante. O mesmo vale para o lado oposto, o sul.

O termo latino «bórea», que corresponde ao grego «boréas», designa o vento frio que sopra do norte. Na outra ponta, o latino «áuster», relacionado com o grego «áuso», é o nome dado ao vento sul, um sopro quente e árido.

Em nossa língua, no dia a dia, dizemos “nortista”, “sulista”, “sulino” ‒ são vocábulos mais fáceis de reter e de entender. Em linguagem mais tensa, esses termos são substituídos por “boreal” e “austral”, o primeiro se referindo ao norte e o segundo, ao sul.

Nas regiões situadas em altas latitudes ‒ cerca dos polos ‒, ocorrem fenômenos elétricos episódicos na alta atmosfera, que se traduzem por clarões impressionantes, de cor variando entre verde intenso e solferino. O espetáculo leva o nome de aurora polar. Em três cliques, o distinto leitor encontrará na internet descrição detalhada dos comos e dos porquês desse fenômeno.

Folha de São Paulo, 3 março 2017 Clique para ampliar

Folha de São Paulo, 3 março 2017
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O Hemisfério Norte de nosso planeta é habitado, enquanto o Hemisfério Sul tem pouca terra e pouca gente. Logicamente, auroras polares são observadas com maior frequência nas regiões próximas do Polo Norte ‒ Rússia, Canadá, Groenlândia, Escandinávia, Islândia. Por ocorrer no Hemisfério Norte, esse fenômeno costuma ser chamado aurora boreal. No Hemisfério Sul, o mesmo acontecimento só pode ser observado a partir da Antártida, lugar pouco hospitaleiro.

Aurora polar observada nas cercanias do Polo Sul não será ‘boreal’, mas austral. O autor da legenda da belíssima foto publicada pela Folha de São Paulo trocou os pés pelas mãos. Desconhecendo o significado do termo «boreal», há de ter imaginado que se referia ao fenômeno. Errou. A palavra tem a ver com o norte.

Tivesse escrito «aurora austral», o autor da legenda teria merecido aplausos.

Terrível

José Horta Manzano

Apesar da existência de (raros) excelentes profissionais, o Brasil apresenta lacunas no campo da tradução. Os bambas na área não são regra, mas exceção. Entre nós, não é fácil encontrar gente traquejada em línguas estrangeiras. Entrevejo diversas razões possíveis.

● deficiência crônica no ensino de línguas;

● isolamento voluntário do país, acentuado nos últimos 15 anos;

● sentimento difuso de que aprender língua não serve pra nada;

● interrupção do fluxo imigratório a partir dos anos 70;

● diminuto afluxo de turistas forasteiros, fato que não incita ao aprendizado de línguas;

● alastramento da preguiça macunaímica, já detectada por Mário de Andrade faz um século.

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Chamada do Estadão, 28 fev° 2017

Provavelmente cada uma dessas razões contribui com um tijolinho para construir o muro que nos isola ‒ linguisticamente ‒ do resto do mundo. Aprende swahili, mongol ou tailandês quem tem especial interesse. São idiomas de difusão limitada. Já inglês, francês, alemão, espanhol são outra coisa.

Este blogueiro é do tempo em que, além da norma culta do Português, se aprendia latim, francês e inglês. Fosse um ou dois anos mais velho, teria tido grego também. Não sei como anda o currículo hoje, mas espero que o inglês continue a ser lecionado.

É interessante notar que, no auge da dominação da Inglaterra vitoriana, no século 19, a língua inglesa ainda não tinha alcançado a irradiação do francês, então dominante. Só depois do desfecho da Segunda Guerra, o mundo assistiu à vigorosa ascenção da língua de Shakespeare. E o fenômeno se amplia a cada dia. Quem pretender passear pela internet e beber no maior número de fontes tem de conhecer bem inglês. Do contrário, seu horizonte estará um bocado limitado.

O ensino de línguas estrangeiras ‒ com foco especial no inglês ‒ deveria ser preocupação constante das autoridades que cuidam da Educação básica no Brasil. Vale a pena refletir sobre melhora na formação de professores, intercâmbio internacional, reforço na carga horária. A pobreza da formação gera indigência na tradução, é uma evidência. Certas matérias jornalísticas parecem ter passado por tradução automática do google. Certas informações se deformam a ponto de não serem mais entendidas.

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

Chamada da Folha, 28 fev° 2017

É certo que, pelos lados de Brasília, a coisa anda feia. Os grandes males nacionais são tão agudos que deixam outras deficiências em segundo plano. Mas uma coisa não impede a outra. Que a Lava a Jato siga seu curso: há quem cuide dela. Não há desculpa para deixar a Educação nacional ao deus-dará.

Observação linguística
Terrível deriva de terror. O étimo latino terreo significava propriamente ‘fazer tremer’. Terrível é o que dá medo, o que apavora, o que assusta, o que aterroriza.

O desastrado rapaz que trocou os envelopes na cerimônia de entrega dos prêmios cinematográficos não quis dizer que apavorava nem que assustava nem que amendrontava ninguém. Se o tradutor tivesse posto seus miolos a funcionar, teria encontrado termo melhor. Temos uma coleção de expressões para exprimir o sentimento do moço: confuso, mal, envergonhado, arrasado, vexado, desconfortável, desbaratado, destroçado, abatido, deprimido, destruído, frustrado, em pandarecos, acabrunhado, acabado.

Terrível? Francamente não. Terrível foi o erro. Não cabe ao responsável se «sentir terrível».