De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

Proteção pelo avesso

José Horta Manzano

Saiu hoje a notícia de que os ministros do STF vão se reunir com Bolsonaro em previsão dos festejos do 7 de Setembro. O objetivo é pôr em pratos limpos a questão da atitude que o presidente pretende tomar na ocasião.

Antes disso, os dois ministros apadrinhados do capitão – Nunes Marques e Mendonça – devem preparar o terreno. Em seguida, virão os menos alinhados. Pretendem todos convencer o presidente a não participar de nenhum evento além do desfile tradicional.

Vão pedir a Bolsonaro que se abstenha de marcar presença em manifestações a seu favor, sobretudo as que forem organizadas por grupos que costumam insultar o Supremo e exigir sua dissolução.

Os ministros estão conscientes de que esvaziar a Baía da Guanabara com colherinha é tarefa mais fácil do que convencer o capitão a não aparecer em palanque para louvar a si mesmo. De toda maneira, vão tentar.

O policiamento em torno do STF será importante, muito mais reforçado que no ano passado. A intenção é evitar que a turba mais agressiva se aproxime e tente saquear o prédio.

Não é corriqueiro ter de proteger a Corte Suprema de Justiça contra o próprio presidente da República. Normalmente, é ao contrário.

A ladeira da baderna

José Horta Manzano


Como líder, Bolsonaro já não faz jus à consideração do mundo. E os brasileiros, seus liderados, descem a ladeira da baderna.


Hoje de manhã, escutei uma reportagem de 15 minutos na rádio pública suíça sobre a campanha de desconfiança no voto eletrônico que Bolsonaro vem promovendo há três anos. E que se intensifica à medida que se aproxima a hora da onça. Ou da degola – que cada um escolha a imagem que preferir.

Fora do Brasil, a reação a esse fenômeno é de perplexidade. Todos se perguntam como é possível essa cruzada de desorientação estar sendo comandada por um indivíduo que foi eleito repetidas vezes por esse mesmo sistema eletrônico.

Se ele tivesse perdido alguma eleição, seria até compreensível que guardasse ressentimento. Mas ele ganhou todas! Essa campanha de desinformação e medo que ele promove agora é extravagante. Uma coisa não combina com a outra.

A reportagem radiofônica, feita durante um comício do capitão, trazia algumas dessas rápidas entrevistas com transeuntes. É surpreendente constatar que os devotos incorporam todas as imbecilidades que o chefe solta. Um aqui grita: “Quero minha pátria livre!”. Outra ali replica: “Sou contra o comunismo!”. E mais outro: “Os ministros do STF são todos estelionatários!”. Coisa de desequilibrados.

A impressão que fica é a de estar diante de um bando de zumbis descerebrados, sem eira nem beira, que perderam a capacidade de pensar com os próprios miolos. O mais chato é que, pouco a pouco, o veneno destilado por esse ser ignóbil vai respingando sobre a população. E o encanto com que o mundo mirava nosso país vai desmilinguindo. Um país de ingênuos capazes de aceitar o que diz Bolsonaro não merece ser objeto de consideração.

Em matéria de mentira e engodo, o capitão é um verdadeiro Putin tropical. Sem as armas.

O crime e a punição

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 junho 2022

Corrupção existe no mundo todo. Em certas regiões do globo, está mais presente que em outras. Seja como for, pouca ou muita, corrupção sempre há. Em países em que a observância de leis e regras é pouco rigorosa, a corrupção acaba se instalando como fato corriqueiro, presente no dia a dia de todo cidadão.

A América Latina, com o Brasil em destaque, é conhecida como um dos polos mundiais no assunto. Que se chame gorjeta, propina, cervejinha, cafezinho, molhadela, suborno, jabaculê, lambidela, joia – tanto faz: são variações em torno de um mesmo tema.

Dado que a corrupção crônica é vista no exterior como realidade indissociável de nosso país, ninguém se comoverá com o fato de este cidadão roubar mais que aqueloutro. Está aí, por certo, o segredo da persistente popularidade de Lula da Silva além-fronteiras. Processo, condenação e encarceramento não foram suficientes para manchar-lhe o retrato. Verdadeira ou não, a imagem que o mundo reteve dele foi a de um dirigente que cuidou seus compatriotas humildes e desvalidos – atitude incomum em nossos trópicos. Isso marcou.

O atual presidente martela: “No meu governo, não tem corrupção!”. Pode ser que o mantra funcione entre devotos mais crédulos; no estrangeiro, tem efeito nulo. Quando já se dá por favas contadas que todo dirigente sul-americano é desonesto, não é uma figura farisaica a bater no peito e a repetir “Eu, não!” que vai comover alguém. Portanto, fica claro que o fator corrupção não é suficiente para abalar a reputação do Brasil.

Passemos a um exercício de futurologia política. Vamos trabalhar sobre uma hipótese cujo peso, neste momento, é difícil avaliar. Inventemos um roteiro fictício.

Apesar da algaravia armada em torno da urna eletrônica, o capitão sofre derrota estrepitosa nas eleições. Dia seguinte, num balé incubado de longa data, tropas evacuam Congresso, STF e TSE, e lhes impõem rendição. Em cadeia nacional de rádio e tevê, o presidente aparece cercado por uma penca de fardados estrelados – generais, almirantes, brigadeiros. Todos ostentam o cenho franzido e o ar grave que convém aos momentos cruciais da vida nacional. O capitão anuncia o golpe.

Na sequência, estado de sítio é decretado. Garantias e liberdades individuais são suspensas. O Congresso é fechado, assim como o STF e o TSE. As personalidades que possam causar estorvo ao regime que se instala são detidas e encarceradas – o primeiro da lista é naturalmente o vencedor da eleição. Senadores e deputados têm os mandatos suspensos.

Nos dias que se seguem, manifestações internacionais de protesto pipocam. Os EUA são os primeiros da lista, instando o novo regime a repor o Brasil nos trilhos. Seguem-se a União Europeia, o Japão, o Reino Unido. Logo atrás, vêm os países da América Latina, num coro uníssono. A OEA e a ONU reiteram a mesma injunção: o resultado das eleições tem de ser respeitado e o Congresso, reaberto. Indiferentes às súplicas internacionais, o capitão e seu generalato levam adiante o golpe. Dada a vacância do Legislativo, o presidente passa a governar por decreto. É a estreia de um regime autocrático.

Fosse o Brasil um país pequenino e desimportante, talvez o mundo não se comovesse com a situação. Mas não é assim. Nosso país tem o peso de 200 milhões de habitantes e uma economia significativa. Nessas condições, ao ver que o novo ditador e a junta que o apoia sonegam resposta à súplica internacional, as nações, capitaneadas pelos EUA, decidem engatar a segunda.

Assim como foi feito com a Rússia, sanções contra o Brasil são decretadas. No primeiro pacote, a mais vistosa delas é a decisão de proibir cidadãos envolvidos no golpe de entrarem nos EUA e nos países adiantados. Os haveres desses indivíduos no exterior ficam bloqueados.

A notícia dessa decisão cai como bomba no Planalto. “Como assim? Quer dizer que não tenho mais acesso a minha conta bancária na Suíça? E não vou mais poder passar férias no meu apartamento de Paris? E nunca mais vou poder andar de xícara na Disneylândia?”

O mundo não precisa editar um segundo pacote de sanções. Esse basta. Tendo dado com os burros n’água, os golpistas encerram a brincadeira. Rapidinho.

A régua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

 


“O homem é a medida de todas as coisas”

Protágoras


 

Bolsonaro ouviu o canto do galo do poder absolutista mas até hoje não descobriu de onde ele vem, nem que tipo de vocalização lhe seria necessária para reproduzi-lo com sucesso por aqui. Escutou o canto da sereia mas, acreditando que não passava de singela homenagem de seus seguidores fardados, desatou-se do mastro e jogou-se atabalhoadamente na água.

 

Freud e Paulo Freire
Tivesse algum dia se dado ao trabalho de esmiuçar o pensamento desse e de outros filósofos da antiguidade, saberia que tudo é relativo, inclusive e principalmente sua autoridade. Imediatista, megalomaníaco, voluntarista e incapaz de pensamento crítico, ele confunde alhos com bugalhos e costuma tomar a parte pelo todo – provavelmente entenderia a palavra homem como simples indicador de gênero. Acreditando ser ele próprio medida de tudo à sua volta, julga que o Brasil e o mundo deveriam se curvar à sua paralela noção de realidade, aos seus princípios morais (ou falta deles), às suas vontades e ambições.

Tivesse lido Freud alguma vez, saberia que seu psiquismo está fixado na fase de onipotência típica de Sua Majestade, o Bebê. Entenderia que nessa etapa primitiva do desenvolvimento psíquico não existe mundo fora dele e a mãe (pátria) é apenas um seio que jorra leite sempre que requisitado. Tudo leva a crer que, por circunstâncias familiares adversas (mãe omissa e pai castrador), Bolsonaro jamais superou a fase do narcisismo infantil e regride continuamente à ilusão de poder inquestionável sempre que se sente ameaçado por alguma autoridade externa.

Tivesse ido além do título do livro de Paulo Freire, compreenderia que “se a educação não é libertária, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. Se educar é frustrar, como postulam os especialistas, ele nunca se deixou educar para a cidadania. Sua formação militar o ajudou a radicalizar a noção de que toda obediência tem de ser necessariamente cega, acrítica: afinal, soldados não são feitos para pensar. No entanto, num arroubo juvenil e ainda apostando em sua superior autoridade moral, achou um dia que poderia subverter o dogma supremo da hierarquia militar. A humilhação máxima que sofreu ao ser expulso do exército por transgressão marcou sua personalidade para todo o sempre.

 

A ferida narcísica
A profunda ferida narcísica que se abriu em seu peito e o ressentimento acumulado desde então tornaram-se a marca registrada de sua atuação no mundo político e transformaram o caráter de virilidade tóxica – compensatória de sua impotência – em marco distintivo do bolsonarismo. Dando sequência ao seu complexo de Édipo embutido e jamais resolvido, Bolsonaro e bolsonaristas continuam tentando a todo custo matar o Pai Supremo, simbolicamente representado pelo Judiciário e encarnado na figura de Alexandre de Moraes, antes que sejam eles próprios castrados.

Desde que assumiu o poder em 2019, ele se comporta literalmente como se tivesse comprado a fazenda Brasil de porteira fechada. Dono de todas as consciências, ele não se cansa de instituir como regra que a ninguém é dado enxergar o mundo com outras cores ou rebelar-se contra seus éditos, uma vez que “autorizado” por seu povo e seu exército.

 

O STF e a Constituição
Professor de Deus, ele vem dando aulas diárias de constitucionalidade aos ministros do Supremo. Exibe em tom ameaçador seu douto saber jurídico, abordando temas de alta relevância para a democracia e o estado de direito, afetos principalmente ao conceito de liberdade de expressão, mas se aventurando também em questões secundárias, como a demarcação e exploração de terras indígenas, os limites de ação da Petrobrás na determinação de preços e as exigências legais imprescindíveis para a realização de eleições limpas e auditáveis.

Pontifica livremente sobre critérios de inocência e culpabilidade de parlamentares e membros do seu governo, sobre liberdade de imprensa, sobre equilíbrio e autonomia dos três Poderes da República, sobre o “interesse público” da não-adoção de medidas que beneficiariam minorias e sobre tudo o que causa “legítima comoção” na população brasileira, como se ela estivesse contida como um todo no seu grupinho de aliados e apoiadores.

 

Meu reino, meu gozo
Reinar sozinho, sem se sentir constrangido pelos tais pesos e contrapesos democráticos, seria sua única possibilidade de gozo orgástico – e ele sabe que nunca o poderá atingir graciosamente. Para chegar lá, seria preciso ter capacidade de entrega, abrir mão do desejo de ser o condutor e deixar-se ser conduzido no balé amoroso, o que lhe é impensável. Se não vai por bem, deve raciocinar, então é legítimo que se faça pelo estupro das instituições democráticas.

Mas não lhe basta o poder secular. Precisa também fazer seus apóstolos acreditarem que ele possui traços divinos de liderança carismática: a obsessão pela verdade que liberta, o pendor pastoral (“Eu sou, realmente, a Constituição”), acreditar-se ungido pelo próprio Deus para conduzir os destinos da nação.

 

Cloroquina e ivermectina
Como iluminado defensor das liberdades individuais, transgredir é com ele mesmo. Quanto mais normas legais forem quebradas em sua gestão, mais sente seu poder fortalecido e reforçada a crença de que ele é a única régua admissível para medir acertos e erros na condução dos negócios públicos – como transformar reserva natural em polo turístico, defender o trabalho infantil, defender a tortura, defender o excludente de ilicitude para policiais e militares, armar a população civil ou eliminar os radares de trânsito.

Na sua visão, é mera questão de tempo para que a OMS declare oficialmente que as vacinas são, de fato, experimentais e que foi um erro usá-las para substituir a cloroquina e a ivermectina, já que, além de custarem muito caro, podem ter efeitos colaterais inaceitáveis, como causar Aids em adolescentes ou miocardite em crianças, ou ainda conter chips para transformar pessoas em robôs. Ou para que o Supremo declare que, “dentro das quatro linhas da Constituição”, só ele teria o direito de decretar confinamento na pandemia, e interdite governadores e prefeitos que não seguissem a orientação federal. Sociólogos, filósofos e historiadores também se renderão um dia ao fato de que o nazismo foi um movimento de esquerda e que é possível perdoar o Holocausto mas não esquecê-lo, uma vez que “quem esquece seu passado não tem futuro”.

 

O psiquiatra aprendiz
Sua mais recente – e estupefaciente – incursão foi no universo da psiquiatria. Demonstrando sua expertise na área de psicopatologia aplicada à política, alertou para os eleitores ainda indecisos: só um “imbecil ou psicopata” defende a volta do AI-5.

Campeão mundial de atos falhos, resta saber se ele mais uma vez se autorrotulou sem querer (“O chefe do executivo mente”) ou se a crítica velada ao comportamento padrão de seus apoiadores mais exaltados foi só uma maneira de recriminá-los por vazarem antes da hora a intenção de golpe caso fracasse nas urnas. Ou talvez ainda ele tenha imaginado que, se vencedoras, as hostes de esquerda vão tentar instituir a ditadura do proletariado e, assim, roubar dele a bandeira do fechamento do Congresso e do STF.

Vale conferir com o psiquiatra-chefe de plantão após a abertura das urnas.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Falou pouco, mas bem

José Horta Manzano

O Estadão de hoje traz o relato de uma palestra dada por um antigo morubixaba do Google. O empresário americano ocupou o maior cargo da empresa de 2001 a 2011, o que não é coisa pouca.

Não conheço o grau de rotatividade de caciques no Vale do Silício. Permanecer por dez anos em função tão elevada me parece uma façanha. O homem deve ser bom mesmo.

Declarou:


O Brasil tem tudo, menos um governo estável. Vocês têm uma única língua, um país de 200 milhões de habitantes, uma cultura fantástica e são pessoas ótimas.”


Até aí, tudo tranquilo. Quem é que não gosta de receber flores?

E o figurão continuou:


Para mim, os problemas do Brasil são muito mais sobre as regras do governo. Conheci quase todos os presidentes brasileiros e acredito que vocês precisam de um jeito de ter um presidente e instituições experientes para evitar que mais presidentes acabem presos.”


O grifo das últimas palavras é meu. Não sei em que tom o palestrante as pronunciou, mas pouco importa: ele acertou o tiro. Em poucas linhas, mostrou ser bom conhecedor de nossos problemas.” Tudo está aí, resumido.

Vantagens e problemas
Na primeira frase, estão as vantagens. O país é habitado por um mundaréu de gente cuja língua de escola é a mesma, o que facilita enormemente as comunicações e as interações. É um privilégio observado com inveja por outros países.

Não temos conflitos étnicos. Essa história de “nós x eles” (inventada pelo lulopetismo e reforçada pelo bolsonarismo) é artificial. Existem fraturas sociais, como por toda parte, mas elas não podem ser resumidas a “nós de um lado, eles do outro”. A fórmula é vaga e redutora. Nós quem? Eles quem?

Na segunda frase do palestrante estão nossos problemas.

Presidente experiente
Que precisamos dar um jeito de eleger um presidente experiente é evidente verdade. Quem haverá de constestar? A Presidência não pode continuar sendo utilizada como pátio de recreação de aprendizes, como vem ocorrendo há duas décadas.

Que precisamos de instituições mais experientes é outra verdade. Eu diria até mais: que, além de experientes, sejam eficazes. Temos anomalias intoleráveis:

  • presidente com poder de anistiar correligionários,
  • ministro do STF que dá entrevista pra divulgar sua opinião pessoal,
  • deputados que fazem a festa com dinheiro extorquido do povo por meio de orçamento secreto,
  • presidente da Câmara com poder de bloquear centenas de pedidos de impeachment,
  • presidente da República que comete crimes de responsabilidade um atrás do outro.

Tumor invisível
Essas mazelas que acabo de citar – e que, de tão acostumados que estamos, nos parecem inofensivas e naturais – são o tumor que ninguém quer ver. Um estrangeiro, que não pode ser acusado de ser petista nem bolsonarista, vê com maior clareza o que o brasileiro comum não consegue enxergar.

Nossas leis e nossos costumes políticos estão distorcidos e corrompidos. O debate político desapareceu. Não há mais argumentação. O que interessa é insultar, caluniar, demolir, desmontar, cancelar adversários (verdadeiros ou imaginários), tratados sempre como inimigos.

Se os dois principais candidatos à Presidência tivessem de enfrentar um exame tipo vestibular para avaliar a aptidão para o cargo, dificilmente passariam. Teriam de cair fora da lista de candidatos, o que seria um alívio para a República.

Um “Enem presidencial” tem de ser instituído para candidatos ao cargo maior. É o único caminho para termos um dia “um presidente que não acabe preso”.

Agora chega!

José Horta Manzano

A graça concedida por Bolsonaro a Silveira, seu correligionário e deputado, condenado pelo STF a mais de 8 anos de cadeia, põe em pauta um problema cabeludo.

As leis que regem as instituições da República foram e continuam sendo elaboradas para situações normais. Partiram do pressuposto que postos de responsabilidade são ocupados por gente equilibrada e bem-intencionada. Não estava previsto que, um dia, um personagem desequilibrado e mal-intencionado ocupasse o cargo maior.

Faz três anos que as aspirações autocráticas do capitão vêm submetendo a nação a sobressaltos e a uma pressão cada dia mais insuportável. Anestesiados, seus devotos perderam a faculdade de pensar por si mesmos. Deles, não há nada a esperar.

Os demais brasileiros, moldados por séculos de regime autoritário, não se dão conta de que estamos resvalando para uma autocracia personalística, aberração que não se via por aqui desde os tempos de Getúlio Vargas, destituído 77 anos atrás.

Bolsonaro está conduzindo o Brasil em marcha forçada para um regime de tipo putiniano – autocrático e personalista, duzentos e tantos milhões de homens e mulheres tributários dos caprichos de um desatinado.

A inação das Forças Armadas já denota surpreendente cumplicidade. Exceto uma voz discordante aqui, outra acolá, o silêncio do generalato soa, se não como indiferença, como tácita anuência.

O Congresso – corroído por cooptação desabrida, onerosa e abjeta – perdeu a capacidade de exercer sua função de representar os interesses da população.

O Supremo Tribunal Federal é a última barreira, o derradeiro cinturão de segurança que ainda mantém, bem ou mal, a coesão das instituições da República do Brasil.


A hora é mais grave do que parece à primeira vista.


A Amazônia desaparece ao ritmo de um campo de futebol por minuto. A madeira extraída criminosamente é oferecida a amigos do clã para negócios escusos. Os manguezais são postos à disposição dos amigos do rei. A Instrução Pública, entregue a “pastores” que trocam bíblias por barras de ouro, vai sendo carcomida pelas bordas.

Observe-se que nem o Lula, que está longe de ser um santo, ousou graciar correligionários condenados no mensalão.

O capitão tem de ser parado antes que destrua tudo. Sua destituição tem de entrar na ordem do dia. Ou deixa o poder já, ou deixa o poder já. Não há outra opção.

Como fazer? Os do andar de cima, que perigam perder o que têm se não agirem imediatamente, sabem como fazer.

O impedimento do presidente me parece uma solução. Motivos, há de sobra. Para a argumentação, temos excelentes juristas.

Agora chega!

As mágoas do Lula

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

Muita gente, inclusive este escriba, considera que Bolsonaro tem uma visão distorcida do que sejam relações humanas. Confunde afinidades pessoais com relação entre nações. Acredita que o relacionamento do Brasil com países estrangeiros está irremediavelmente vinculado às relações pessoais que ele possa ter com os governantes desses países.

Enquanto Donald Trump era presidente dos EUA, chamava-o de amigo, nunca escondeu seu fascínio pelo personagem e mostrou claramente acreditar que as relações entre Brasil e EUA dependiam dessa “ligação carnal” entre supostos amigos. Enquanto o “amigo” esteve na Casa Branca, fez diversas visitas ao país de Tio Sam, pouco importando o pretexto para a viagem. Desde que Trump se foi, nunca mais quis saber de conversa. É verdade que não foi convidado, mas tampouco consta que tenha convidado Biden para tomar um café com pão e leite condensado no Planalto.

Foi à Rússia e disse que Putin e ele professam os mesmos valores(!). Foi à Hungria e chamou Orbán de irmão(!). Tem agido como se as relações exteriores do Brasil só funcionassem com nações comandadas por “amigos”. Essa visão redutora das relações internacionais pode servir para alimentar sua bolha de fanáticos, mas é nociva ao país.

Em artigo deste sábado, a jornalista Bela Megale conta algumas tristezas do Lula, antigo presidente do Brasil. Diz que o homem está ressentido com o comportamento de Dias Toffoli. Entre outras reclamações, está desagradado com a proximidade de Toffoli com Bolsonaro, fato que incomoda o demiurgo de Garanhuns. O Lula reclama ainda dos entraves postos por Toffoli no dia em que, ainda encarcerado, solicitou ser liberado por algumas horas para acompanhar o enterro de um irmão.

É bom lembrar que o atual ministro do STF foi advogado do PT e advogado-geral da União (AGU) durante o governo do Lula. Se hoje ocupa uma poltrona no STF, é por ter sido nomeado justamente pelo antigo presidente.

As mágoas do Lula são inquietantes. Ele demonstra estar sintonizado com Bolsonaro na mesma visão de um mundo dividido entre “os meus compadres” e os outros. Formam um par perfeito. Ao indicar Toffoli para o STF, o Lula tinha a certeza de ter “comprado” um juiz para defendê-lo fiel e incondicionalmente para o resto da vida. Essa esperança é idêntica à que Bolsonaro deposita nos pupilos alçados por ele ao STF: o “terrivelmente evangélico” e o “terrivelmente dócil”.

Ao dividir personagens políticos e magistrados entre “amigos” e “inimigos”, Lula dá mostra de agir exatamente como o capitão. A bem da verdade, ressalte-se não há que se espantar; essa faceta do ex-presidente já era conhecida. Nas diversas ocasiões em que foi a Havana louvar os bondosos irmãos Castro e à África incensar ditadores corruptos, Lula já tinha deixado evidente sua maneira de enxergar o mundo.

Entre os dois adeptos do compadrio desbragado – o Lula e o capitão –, está cada dia mais difícil separar o joio do trigo. Só se vê joio. Trigo mesmo, que é bom, anda em falta.

O Zé suave

José Horta Manzano

Às vezes aparecem na mídia notícias que não contam tudo, deixando em branco parte da história. Todos os jornais informaram que um cidadão conhecido pelo suave apelido de Zé Trovão “se entregou espontaneamente à PF de Joinville (SC)”.

Como o Brasil inteiro está sabendo, fazia semanas que o moço vivia sob ameaça de encarceramento, visto que pesava contra ele um mandado de prisão expedido diretamente pelo STF. Não é qualquer um que tem prisão decretada pela Corte Maior, deferência reservada para infratores da mais elevada categoria. Coisa fina!

Soube-se que o exaltado caminhoneiro, quando se viu acuado, não ousou enfrentar a Justiça para responder, peito aberto, de seus malfeitos. Decidiu dar um passeio no exterior. Chegou a pedir asilo político (sic!) no México. Não tendo sido atendido e não enxergando outra via de saída, achou melhor voltar pra casa.

É aqui que a história contada pela imprensa é vaga. Ninguém informa como é que o rapaz se virou pra voltar. Suponho que não tenha vindo do México a pé, nem de bicicleta através do que ainda resta de floresta amazônica. É quase certeza que veio de avião.

Esse avião terá pousado no Brasil, num aeroporto internacional, daqueles em que gente comum tem de fazer fila, passar pelo guichê e apresentar passaporte. Como é que ele fez? Como é possível que o suave Zé, procurado por todas as polícias do mundo e com o rosto estampado em toda a mídia do país, tenha passado em branco sem ser reconhecido por ninguém?

Tem mais. As notícias informam que ele se apresentou à PF de Joinville por ser morador daquela cidade catarinense. Sabe-se inclusive que deu as caras no posto de polícia às 14 horas. Aqui vai nova suposição minha: imagino que tenha passado a noite (ou pelo menos algumas horas) em casa.

Agora vem a pergunta: ninguém viu o homem chegar do exterior? Ninguém controlou nem verificou quando entrou em casa? De táxi, a pé, acompanhado de um cúmplice?

Como é possível que o domicílio de um afamado foragido da justiça não seja objeto de monitoramento 24h por dia? O domicílio é conhecido. O procurado é um indivíduo importante, visto ter prisão decretada pelo STF, o que não é pra qualquer capiau. E ninguém manda vigiar a casa do homem?

Se alguém tiver mais informações, peço encarecidamente que mande cartas para a Redação.

Muito estranho

José Horta Manzano

Andei fazendo as contas e percebi que faz hoje 43 dias que Bolsonaro parou de conclamar seus devotos a “fecharem” o STF e o Congresso. Lembra da época em que ele fazia isso dia sim, outro também? Pois é, nunca mais tratou nenhum ministro do Supremo de bandido, nem de canalha. A última vez foi naquela palhaçada que cometeu no 7 de Setembro. De lá pra cá, enfiou a viola no saco e se calou.

A carta que Michel Temer escreveu (e que ele assinou) não chega a ser um pedido de desculpa. Mas é evidente ato de contrição, uma promessa de se emendar. Na época, todos imaginaram que ela valia tanto quanto valem as promessas do capitão. Acreditou-se que ele estava agindo como o garoto malvado que, uma vez repreendido, promete se emendar, mas no dia seguinte torna a fazer malvadeza.

Quem conhece o capitão – e todos os brasileiros já o conhecem – sabe que ele não é homem de cumprir promessa. Se recua num dia, é para reincidir no dia seguinte. Não costuma aguentar mais que 24 horas sem cometer os mesmos desatinos.

Mas, ainda que soe esquisito, parece que ele se emendou de vez. Considerando que quarenta e tantos dias sem atiçar a milícia contra as instituições é muito tempo, a pergunta inevitável é: “Que tipo de ‘repreensão’ terá sido essa, que, de tão eficaz, fez calar o capitão?”

Logo depois do fatídico 7 de Setembro, a imprensa se referiu à carta de contrição e esclareceu que o presidente tinha tido “uma conversa telefônica com o ministro Alexandre de Moraes, do STF”. O teor do diálogo, que era o que realmente importava, não foi divulgado.

Dias depois, o deputado Paulo Pimenta (PT) soltou um tuíte intrigante, que, não sei por que razão, não teve direito a ampla divulgação. Eis o que revelou o parlamentar:

“Bolsonaro foi avisado por Temer q Carluxo seria preso depois do 7 de setembro. O Machão aos prantos ligou para Alexandre de Moraes, implorando, pedindo perdão, e prometendo ‘nunca mais’ ofender o STF ou seus Ministros. Quem assistiu relata a patética e vergonhosa cena. Quem acompanhou o desenrolar das tratativas afirma que foi pior do que meu relato. O desespero de Bolsonaro pedindo que Temer viesse às pressas para Brasília foi ‘comovente’ e ainda será lembrado por muito tempo nos escaninhos do Palácio Alvorada. Carluxo nunca mais foi visto.”

Este blogueiro, que não costuma frequentar palácios, não assistiu à cena. Portanto, não posso jurar que a narração corresponde à verdade verdadeira. Mas o comportamento do capitão tende a confirmar o relato do deputado.

Todos sabem que o maior medo do presidente é que ele ou algum dos filhos seja preso. Portanto, é permitido acreditar que só o risco real de prisão iminente do filho destrambelhado seria capaz de fazê-lo recuar.

Na falta de outra, é a melhor explicação para a radical mudança de rota de Bolsonaro. Uma vez amansado, vê-se que o tigre era de papel. Ainda outro dia, num ataque de sincericídio perpetrado diante de devotos, andou confessando que costuma chorar no banheiro, e que não é o “machão” que gostaria de parecer.

Agora sabemos que o homem se verga fácil. Quando apavorado, mia fino e pula no colo igualzinho ao gatinho lá de casa.

Apagando o passado

José Horta Manzano

Até 6 de outubro, havia na cidade de São Paulo uma avenida quilométrica, cujo nome era compartilhado por dois ilustres membros da família Andrade. O primeiro trecho da via homenageava o escritor Mário de Andrade, enquanto o segundo lembrava o homem político Auro S. de Moura Andrade.

Mário, o Andrade escritor, não teve vida longa: foram somente 51 anos, de 1893 a 1945. Já Auro, o Andrade político, ficou uns anos a mais neste vale de lágrimas: viveu 66 anos, de 1915 a 1982. Mário tinha idade pra ser pai de Auro, pois nasceu 22 anos antes, o que significa que não conheceram o mesmo Brasil. É complicado comparar a vivência de cada um deles.

A cidade de São Paulo conta com mais de 50 mil logradouros, contando ruas, praças, avenidas, becos, ruelas & assemelhados. Todos os meses, são feitos novos arruamentos, e novos nomes têm de ser encontrados. Cabe aos senhores vereadores essa árdua incumbência. Só que eles nem sempre se restringem a nomear as vias que acabam de ser abertas. Seguindo o Zeitgeist (=espírito do tempo), preocupam-se também em corrigir tudo o que lhes aparece como “injustiça” ou como “erro histórico”. Apagam, assim, trechos inteiros de um passado que a maioria deles, aliás só conhece de ouvir falar. Fico pensando se conhecem mesmo…

Dia 7 de outubro, entrou em vigor uma lei que corrige um desses “erros”. O trecho da rua comprida que levava o nome de Auro (o político) perde o direito à antiga denominação. Passa a levar o nome de Mário (o escritor). Como resultado, Auro some do mapa e Mário fica com todos os quilômetros para ele. Isso implicará em repensar a numeração de cada imóvel (há muitíssimos prédios altos), um problema que vai aporrinhar os moradores. Mas a vereança não se comove com essas minúcias – afinal, estão ali para dar nome às ruas, não para resolver problemas dos eleitores, que diabo! De todo modo, não são eles que vão sentir o drama.

O motivo dessa mudança? Os edis ouviram dizer que doutor Auro de Moura Andrade teria “apoiado” o regime militar, enquanto doutor Mário de Andrade, não. É claro que Mário de Andrade não podia ter apoiado o regime. Há um anacronismo: ele já tinha falecido 19 anos antes do chacoalhão de 1964. Ninguém tem o direito de afirmar se o escritor teria “apoiado” ou não o movimento. Os vereadores parecem tomar como favas contadas que ele o teria reprovado. Não tenho tanta certeza.

Para quem não viveu aqueles dias, é bom dizer: o golpe de 1964 derrubou o presidente, mas não instaurou ditadura. Muita gente fina ficou do lado dos insurgentes – inclusive jornais sérios, como o Estadão. A verdadeira ditadura foi-se instalando aos poucos, com a supressão de eleições já marcadas, até que o golpe de misericórdia foi desferido com o AI-5, ao final de 1968. Nessas alturas, muitos dos que haviam apoiado o movimento já se haviam dessolidarizado. De qualquer maneira, não havia nada a fazer.

O senador Andrade não foi mais apoiador do regime militar do que grande parte dos políticos de sua época. Gente bem mais entusiasta que ele ainda continua tendo seu nome estampado em placa de rua de São Paulo. O exemplo maior é Paulo Maluf, atualmente em prisão domiciliar por ter usado suas offshores para esconder as centenas de milhões de dólares dos contribuintes que ele havia roubado.

Maluf, que foi notório lambe-botas dos militares, ainda conta com homenagem familiar. Seu pai, Salim Farah Maluf, ainda dá nome a três logradouros: uma rua, uma praça e uma avenida. E tem mais. Um complexo viário leva o nome de Maria Maluf, mãe de Paulo Maluf. A denominação do complexo foi oficializada por decreto de 1995, emitido na época em que – veja a coincidência! – o filho era prefeito da cidade.

Uma curiosidade picante: o Complexo Viário Maria Maluf termina no Viaduto Aliomar Baleeiro, figurão que se beneficiou como poucos do regime ditatorial. De fato, o baiano Baleeiro foi nomeado para o STF pelo presidente Castello Branco. Entrou numa vaga aberta pelo AI-2, quando meia dúzia de ministros em exercício foram demitidos e tiveram de ceder o lugar para outros mais dóceis. Não há previsão de que o viaduto que homenageia Baleeiro vá mudar de nome.

Que há de novo?

José Horta Manzano

Bolsonaro está se comportando exatamente como aquele louco de hospício surtado, que, mesmo contido por camisa de força, continua berrando que é Napoleão. Agora, algemado por inquérito aberto pela superior magistratura, continua a espernear, afirmar que tem provas de fraude nas eleições, ameaçar botar “seu” exército nas ruas de brucutu e tudo, sublevar o povo, incendiar o país. Blá blá blá. É reprise de filme antigo.

Essa é a parte folclórica. Que o capitão não bate bem da bola, já é de conhecimento geral. Que ele não tem prova nenhuma de fraude em eleição, o Brasil já entendeu faz tempo. Que ele não vai botar exército algum em rua nenhuma, estamos carecas de saber. Então, que há de novo?

Nesse dramalhão, o que começa a alterar a disposição das peças no tabuleiro é a entrada em cena de novo personagem. Até agora, o presidente tinha estrebuchado sozinho, ator único de monólogo incoerente. Só que o palco era defeituoso e os únicos coadjuvantes eram acólitos tipo Pazuello. A alta magistratura do país, representada pelo STF e pelo TSE, decidiu mostrar a que veio, e botou pé no palco. Entrou firme. Mandou logo um “alto lá!” que foi ouvido ‘do Oiapoque ao Chuí’, como se dizia. Já não era sem tempo.

Não sei quais serão as consequências, no Brasil, do aparecimento de um protagonista de peso. Por aqui, o efeito foi imediato. E positivo. Logo de manhã, tanto a rádio suíça quanto a francesa abriram o jornal falado com a notícia do dia. Em meio ao relato de vitórias nos Jogos Olímpicos, todos aqui ficaram sabendo que Monsieur Bolsonaro está sendo investigado pelos persistentes ataques ao sistema eleitoral de seu país”.

À primeira vista, não parece um crime repugnante, como os que outros dirigentes autoritários cometem. Nada a ver com o russo Putin que envenenou um oponente, com o bielo-russo Lukachenko que sequestrou avião de linha pra apanhar um dissidente, com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita que assassinou um jornalista bisbilhoteiro no recinto de um consulado do país no estrangeiro.

Assim mesmo, repugnante ou não, crime sempre é crime. É reconfortante ver que o mundo está começando a entender que, apesar dos esforços de Bolsonaro e seus ministros para rebaixar nossa condição, nosso país não se tornou um pária entre as nações, nem uma republiqueta bananeira.  Nem há de se tornar.

Continuamos dando provas de que nossa democracia está viva, que é sólida e que funciona. Ainda temos instituições para contrapor a aprendizes de ditador. Alguém imaginaria Putin, Lukachenko ou o príncipe saudita “sob inquérito” aberto pela mais alta magistratura do país deles?

Ânimo, Brasil decente! Nem tudo está perdido!

Preparando o terreno

Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

Diante do recrudescimento da pandemia, alguns governadores decidiram instaurar toque de recolher e confinamento, medidas excepcionais destinadas a frear o alastramento do contágio.

Ato contínuo, Bolsonaro entrou com ação no Supremo Tribunal Federal contra os governadores. Alega o presidente que as medidas são inconstitucionais, visto terem sido decretadas pelo Executivo estadual, sem o voto e a aprovação da respectiva Assembleia. Segundo ele, os governadores, sozinhos, não têm poder para decretar esse tipo de medida. A ação presidencial está sendo apreciada no STF. O sorteio determinou que seja distribuída ao ministro Luís Roberto Barroso.

Nosso presidente está executando um passe de equilibrista. Ao dar entrada da ação no STF, arrisca degradar ainda mais sua imagem de patrocinador de genocídio. De fato, os brasileiros que ainda conseguem pensar com a própria cabeça veem a gesticulação do presidente com horror.

“Já não bastam os 460 mil mortos? Esse homem ainda quer mais?”

Estão todos ansiosos para que o ministro Barroso dê liminar autorizando os governadores a levar adiante as medidas. E para que o pleno do STF, se for o caso, confirme.

“Não é possível! Parece que esse estropício quer realmente terminar como réu por genocídio no Tribunal Penal Internacional!”

O que acabo de expor é a história tal com é vista no mercado oficial. Faz sentido, parece bonitinha e está bem embalada. Só que, no mercado paralelo, a ação presidencial é um ardil carregado de segundas intenções.

Bolsonaro está se lixando para a constitucionalidade ou não das decisões dos governadores. Não é esse o ponto. O que ele quer é outra coisa. Ao acionar o STF, ele está seguindo um plano bem mais cabeludo. A depender do teor e da fundamentação da decisão que o ministro Barroso vier a tomar, importante passo estará sendo dado na concretização do golpe que Bolsonaro tem em mente.

Suponhamos que o STF decida que o Executivo estadual tem o direito de decretar medidas de restrição das liberdades individuais sem consultar o Legislativo. O bom senso indica que, por extensão, o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao nível federal. Assim, o presidente se sentirá livre de dispensar aprovação da Câmara para decretar, ele também, o mesmo tipo de medidas.

A decretação do estado de sítio, fixação do capitão, entra nessa categoria. Também é medida restritiva, a ser tomada quando a situação o exija – exatamente como toque de recolher e confinamento.

Portanto, se governador pode sozinho, presidente também pode sozinho. Com jurisprudência firmada pelo Supremo. E agora, José?

Estão na mesma infração

José Horta Manzano

Conheço vagamente Danilo Gentili, mais de ouvir falar do que de ver. Escutei uma vez, faz alguns anos, uma entrevista dele no rádio. Na época, se me lembro bem, combatia veementemente o lulopetismo e a corrupção que o acompanha. Ponto pro rapaz!

Fiquei sabendo hoje que ele apresenta um programa no canal de televisão do Sílvio Santos, em que o entrevistador é ele mesmo. Deve ser interessante, dada a vivacidade de senhor Gentili. Felicito-o por ter passado de entrevistado a entrevistador.

Fiquei sabendo também que a Câmara Federal acaba de pedir ao STF que mande prender o rapaz. O motivo é ele ter tuitado um incentivo à população para entrar no Congresso e «socar todo deputado que estivesse discutindo a PEC de imunidade parlamentar».

Vai preso? Não vai preso? A meu ver, não tem muito que discutir. Pau que dá em Francisco tem de dar em Chico. Se o deputado que atiçou o povo contra o STF foi parar atrás das grades, não há como não reservar o mesmo destino ao apresentador de tevê que incitou o povo contra o Congresso. Por mais selvagem que seja Silveira, por mais gentil que seja Gentili, estão na mesma infração, como pontificou Ataúlfo Alves no samba Errei erramos de 1938.

Nossa sociedade está regredindo aos tempos do faroeste. O cidadãos deste país estão se comportando como se estivessem em terra sem lei, onde os conflitos se resolvem no tapa, no soco ou na bala.

Não digo que Bolsonaro, com seus modos de chefe mafioso, seja o inventor da violência brasileira. A tendência nacional para embates ferozes vem de longe, já dos primeiros tempos da colonização. O que o atual presidente fez foi abrir a porteira. Com sua boca suja e seu jeito de meliante, instaurou esse clima de ‘liberou geral’, de ‘agora pode tudo’.

Em raro momento de lucidez, dona Dilma disse um dia que, uma vez espremido fora, é impossível enfiar o dentifrício de volta no tubo. Talvez ela possa nos esclarecer agora. Será possível enfiar a violência oficial de volta no baú de onde nunca deveria ter saído?

As excelências e o quadrilhão

José Horta Manzano

Tantas são as barbaridades protagonizadas pelas excelências da República, que a vista do cidadão comum não consegue alcançar todas. De fato, algumas passam ao largo dos holofotes. E nem sempre são coisa pouca.

O escândalo provocado por um energúmeno – falo do deputado que insultou e ameaçou o STF – está servindo de cortina de fumaça para encobrir coisas muito feias.

Doutor Dias Toffoli, aquele mesmo que já foi doutor Toninho do PT e hoje se pavoneia togado no STF, interrompeu a sessão onde se decidia a sequência a ser dada ao processo contra o dito «Quadrilhão do MDB». Doutor Fachin, o relator, já havia dado seu voto favorável ao recebimento da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República.

Eis senão quando, doutor Toffoli ‘pediu destaque’, um eufemismo jurídico que significa interromper o voto sine die (=sem prazo). Agora, se ele decidir manter seu ‘destaque’ até o dia de São Nunca, pode fazê-lo em plena legalidade. Trata-se de flagrante anomalia de nosso sistema jurídico, por meio da qual um solitário indivíduo tem o poder de sustar e mandar para as calendas um processo crucial para a nação. Mas assim são as coisas.

O interessante vem agora. Os integrantes do tal ‘Quadrilhão do MDB’ que são acusados no processo são seis senadores ou ex-senadores: Renan Calheiros, Jader Barbalho, Edison Lobão, Romero Jucá e Valdir Raupp; José Sarney fazia parte do bando, mas já escapou do julgamento. Completa o quadrilhão um ex-presidente da Transpetro.

Estes sete indivíduos são acusados de roubar, sob forma de propinas recebidas, nada menos que 864 milhões de reais. A ladroagem se estendeu por 8 anos de rapina contínua, de 2004 a 2012. Não precisa nem fazer cálculo muito requintado pra perceber que, em valores atualizados, dá por volta de 2 bilhões. Dois bi!

São nada mais que 7 quadrilheiros, o que representa perto de 300 milhões por cabeça. Ao fim e ao cabo, é dinheiro saído do bolso do distinto leitor. Enquanto isso, dezenas de milhões de conterrâneos continuam em estado de angústia alimentar, abandonados pelo poder público, sem saber sequer se vão ter o que comer hoje. Só pode imaginar isso quem já passou por essa situação, o que não é o caso de suas excelências. Nem se, por golpe de má sorte, acabarem presos um dia, enfrentarão esse problema: na cadeia, se come; de quentinha, mas se come.

Com o magote de 2 bilhões, os nobres representantes do populacho estão blindados: têm reservas suficientes para pagar os melhores advogados e subornar, se for o caso, muitas autoridades por aí. Atenção, doutor Toninho! Não estou aqui a afirmar que tenha acontecido; conjecturo, no abstrato, que até poderia ter ocorrido ou que possa vir a ocorrer.

Sabe quanta vacina poderia ser comprada com esse valor? Ou quanto oxigênio? Ou quanta cloroquina – fica ao gosto do freguês.

Observação
Segundo doutor Bolsonaro, a Operação Lava a Jato foi encerrada porque, desde que ele assumiu a Presidência, a corrupção desapareceu. Não precisava nem dizer, mas é bom que ele tenha dito. Brasileiros, durmam tranquilos!

O palavreado do deputado

José Horta Manzano

Parece que o nobre deputado que insultou os ministros do STF não é novato na matéria. De tão cabeluda, a notícia me deixou um tanto incrédulo. Será que não estão exagerando? – pensei. Não podia acreditar que um deputado tivesse tido a ousadia de soltar essa enxurrada de palavrões ao vivo e em cores, e ainda publicar nas redes. Pra conferir, fui dar uma espiada no vídeo.

Jesus, Maria, Josef! – como se exclamam os vienenses. Era pior do que eu imaginava. De onde está saindo essa gente? E quem é que vota num sujeito desse naipe? A resposta me parece simples: são eleitores que sentem afinidade com ele. Será que todos os parlamentares se exprimem assim?

Esse rapaz é exemplo flagrante de pessoa errada no lugar errado. Ele é membro do parlamento, palavra que deriva do latim medieval parabolare e carrega o sentido de conversar, discutir, argumentar. Nosso nobre deputado não foi feito para a função que exerce. Além do palavreado de várzea, seu discurso injurioso transpira intolerância. Não é homem aberto ao diálogo. Exige que sua vontade prevaleça sobre a dos demais.

Faz muito tempo que não vou ao Brasil. Da última vez em que passei por aí, ainda no século 20, não tive a impressão de que o povo se exprimisse com palavreado tão descomposto. Será que o brasileiro do século 21 proseia assim? A julgar pela assombrosa reunião ministerial de 22 de abril do ano passado, aquela que ficou famosa pelo inacreditável vídeo tornado público, o modo de expressão passa obrigatoriamente pela linguagem chula.

A mim, choca. Venho de um tempo em que éramos ensinados a fazer distinção entre diferentes contextos. Na frente de senhoras não se falava da mesma maneira que à mesa de um bar; com uma criança pequena não se usavam as mesmas palavras que se usariam com um adulto; ninguém se dirigia ao diretor da firma do mesmo modo como conversava com um colega. As situações eram compartimentadas. Parece que éramos mais flexíveis, habituados a amoldar nossa fala ao ambiente em que estivéssemos.

Fico com a impressão de que o brasileiro está perdendo essa agilidade mental. Eu gostaria de acreditar que o nobre deputado é caso isolado de um infeliz que não recebeu educação. Quando vejo, no entanto, que o mesmo comportamento se espalha desde o presidente da República até o mais obscuro assessor, tenho minhas dúvidas: acho que o caso dele não é tão isolado assim.

A rigidez não é boa arma pra alimentar o processo civilizatório. Indivíduos monoglotas, de pensamento único, de visão obtusa e, agora constato, de linguajar angustiantemente rasteiro compõem um povo monolítico, incapaz de entender o mundo e de se abrir a ele. É realmente uma pena.

Pepino torto

José Horta Manzano

É de menino que se torce o pepino. Antigo, mas de validade permanente, o adágio informa que os bons hábitos vêm da infância. Quem aprendeu de criança, sorte dele, quem não aprendeu, babau. Não dá pra lapidar uma pedra depois de engastada no anel.

Nossas altas esferas são compostas de uma coleção de pepinos tortos. Fica a impressão de que nenhum deles teve berço. Ou pior: se tiveram, o próprio berço já veio torto. É permitido supor que tenham nascido e crescido no meio de gente primitiva e de nariz empinado, desses que têm o rei na barriga e imaginam pairar acima dos demais. Tivemos, às vésperas do Natal, três exemplos edificantes, um atrás do outro, feito rajada de arma automática. Todos eles são manifestações de um mesmo mal.

Primeiro, foi doutor Bolsonaro. (Como não podia deixar de ser, diria o outro.) No auge da pior catástrofe sanitária que o Brasil já conheceu, com quase 200 mil mortos espetados na conta, o homem decidiu tirar férias. Foi descansar num forte catarinense, utilizado como resort pelas Forças Armadas. Francamente, pra quem não trabalhou senão para sabotar o esforço nacional de combate à pandemia, falar em «descansar» é indecente. Bolsonaro não é inteligente, isso já se sabe. Se fosse, teria descansado uma semana na Granja do Torto, residência oficial da Presidência, lugar tranquilo e protegido. Ninguém teria ficado nem sabendo. Mas o pepino torto o faz imaginar pertencer a uma classe de eleitos dos deuses. (Faltou combinar com os deuses, mas essa já é uma outra história.)

Em seguida, foi a vez de João Dória, governador de São Paulo – aquele a quem o presidente da República atribui, com desdém, a paternidade da Coronavac. O governador não poderia ter tido pior ideia. Em meio à pandemia que castiga a população, bem na hora da chegada das primeiras ampolas de vacina, que fez ele? Mandou-se pra Miami para alguns dias de férias. Tirando o mau gosto de escolher a Florida, destino obrigatório de todo novo-rico brasileiro, não era hora de tirar férias. Se tivesse escolhido passar uns dias a olhar a paisagem no litoral do estado que governa, ninguém teria reclamado. Mas Miami? Francamente. Aqui também, o problema é o pepino torto que o faz crer que pertence a uma classe à qual tudo é permitido.

Pra coroar, o STF e o STJ não deixaram passar a ocasião de tentar uma carteirada. Ambas as cortes pediram à FioCruz a reserva prioritária de milhares de vacinas para Suas Excelências, colaboradores & respectivas famílias. Assim, deixariam o populacho para trás e passariam à frente de todos nós. Receberam uma negativa, aliás muito merecida. Doutor Fux ainda reclamou alegando que, se tinha feito esse pedido, era pra preservar o bom andamento da instituição que preside. Passou por cima do fato de estarem teletrabalhando. Deixou transparecer sua convicção de que o STF é a única instituição nacional que merece ser imunizada. Tanto o pedido quanto a explicação são obras-primas de contorcionismo verbal, que combinam com o status de legítimo pepino torto.

De Bolsonaro, pode-se esperar tudo, dado que não é inteligente nem perspicaz. Mas de gente como João Dória, essa atitude é mais intrigante. Imbecil, o moço não é. Ignorante, tampouco. Como é que foi tomar decisão assim tão fora de esquadro, tão impopular, tão demolidora da própria imagem de sobriedade? A resposta está no ditado do pepino. Tão convencidos estão – ele e os outros aqui mencionados – de estar acima do populacho, que não se dão conta de que é esse mesmo povão que os pôs onde estão e que lhes paga o salário.

A solução? É elevar o nível de alfabetização, de estudo e de formação do populacho. Povo instruído adquire nível de politização elevado. Povo politizado rejeita homem público prepotente. Talvez seja por isso que, entre nossos dirigentes, tão poucos dão prioridade ao aprimoramento da Instrução Pública. Será pra garantir a sobrevivência da casta dos pepinos tortos.

O ladrão e o larápio

José Horta Manzano

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Orgulhoso de estar dando um furo de reportagem, o autor da façanha não se deu conta da contradição e mandou para publicação. O estagiário não pensou duas vezes: paginou a manchete conforme as instruções recebidas. Ficou esquisito.

Primeiro, a notícia aponta dedo acusador a youtubeiros (=youtubers) que conseguem obter informações privilegiadas do Planalto. Em seguida, não mais que uma linha abaixo, conta que o Estadão teve acesso a mais de mil páginas de um inquérito sigiloso que corre no STF.

Ora, se a acusação é contra cidadãos que receberam informação privilegiada vinda do topo do Executivo, não fica bem ter-se inteirado do ilícito por meio de informação privilegiada vinda do topo do Judiciário.

Taí exemplo uivante do roto falando do rasgado. Ou do ladrão falando do larápio.

Os símbolos de lá e os de cá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 novembro 2020.

Berlim, 29 de agosto de 2020
Era uma passeata autorizada. Milhares de manifestantes desfilaram pela cidade para exigir a suspensão da obrigação de usar máscara de proteção contra a covid-19. A manifestação decorreu pacífica, mesmo porque, fora a reivindicação dos participantes, não havia choque de ideias. Não se tratava de embate entre facções; os que se dispunham a acatar a ordem de usar máscara ficaram em casa.

Lá pelas tantas, um grupo de 200 a 300 simpatizantes de extrema-direita, mais exaltados que os demais, conseguiu saltar as grades de proteção que rodeiam o Reichstag, a sede do Parlamento Nacional. Alguns chegaram até a subir os degraus da escadaria antes de serem dispersados por policiais munidos de bombas de gás lacrimogêneo.

Numerosos invasores, saudosistas, agitavam a bandeira do Império Alemão (1871 a 1918) assim como a do início do III° Reich (1933 a 1935). É atitude temerária num país em que cicatrizes de um passado trágico ainda não se fecharam de todo. Ninguém ousou erguer a bandeira nazista, aquela com a suástica, que isso é pecado mortal na Alemanha, passível de encrenca pesada com a Justiça. Após o malogro, os invasores revelaram ter tido intenção de ‘ocupar’ o Parlamento.

Brasília, 13 de junho de 2020
Fazia tempo que apoiadores de Jair Bolsonaro tinham montado acampamento na Esplanada dos Ministérios. Era uma forma peculiar de protestar contra determinadas instituições da República cujo funcionamento não era do gosto deles. O assentamento era selvagem. A lógica elementar ensina que é vedado a um particular assenhorear-se do espaço público, mormente instalando lá sua residência, ainda que temporária. O governo do Distrito Federal ordenou a remoção das tendas. Naquele dia, a ordem foi cumprida. Os apoiadores do presidente, simpatizantes de extrema-direita como os berlinenses, não apreciaram o despejo.

Lá pelas tantas, um grupo mais exaltado de recém-expulsos teve a bizarra ideia de munir-se de fogos de artifício e utilizá-los como mísseis terra-terra. Atiraram os artefatos em direção à sede do STF, como se de bombardeio se tratasse. Jornalistas presentes à ocorrência gravaram ameaças acompanhadas de um caudal de impropérios, todos endereçados a ministros do Supremo.

Conclusão
Ambos os episódios têm pontos em comum. Por exemplo, as duas manifestações começaram dentro de relativa calma para, no final, desandarem por obra e graça de grupos radicais. Por seu lado, seguindo um figurino de romantismo adolescente, alemães e brasileiros se rebelavam contra a ordem estabelecida, fosse ela encarnada por insituições do Estado, fosse pela obrigatoriedade de portar a detestada máscara anticovid. Mais um ponto comum: os manifestantes, tanto os de lá quanto os de cá, estavam cientes de não ter a menor chance de atingir o objetivo esboçado. Nem o Reichstag seria tomado, nem o STF, incendiado. Os atos eram claramente simbólicos.

Ao observador atento, porém, não há de escapar a discrepância maior entre os manifestantes de Berlim e os de Brasília: a simbologia contida na violência de cada episódio. Os exaltados de Berlim mimaram uma tomada de assalto do Parlamento alemão. Por trás de toda purpurina, estava o desejo de tomar a si as rédeas de uma instituição do Estado. Foi como se dissessem: «Arredem daí! Nós, o povo, vamos cuidar do Parlamento melhor do que vocês. Fora!». Nada, na movimentação dos manifestantes alemães, deixou transparecer desejo de eliminar o Parlamento; só de corrigi-lo e de pô-lo no ‘bom caminho’.

Já em Brasília, foi diferente. Nossos exaltados não mostraram intenção de ‘corrigir’ nem de redirecionar a atuação do STF para o ‘bom caminho’. A simbologia contida na simulação de ataque balístico era de destruição pura, de eliminação da Justiça republicana, como quem dissesse: «Não queremos uma Justiça independente. Essa instituição podre tem de ser eliminada. Exigimos que esse Poder seja entregue a nosso líder».

A conclusão que se pode tirar é tenebrosa: nossos exaltados tupiniquins são mais perigosos do que os herdeiros do III° Reich.

Pro santo

José Horta Manzano

Estamos em época de preenchimento de vaga no STF. Brasília ferve. Candidatos não faltam. Dado que cabe ao presidente da República indicar um nome, postulante que se preza tem o dever de ofício de bajular doutor Bolsonaro. Muitos foram os candidatos, mas só um foi escolhido. E o indicado é… doutor Kassio Marques! Naturalmente, desde que o Senado da República dê aval, fato que, nos tempos que correm (e nas benesses que correm por trás), é dado como favas contadas.

Doutor Kassio vem reforçar o time dos que têm K, W ou Y no nome. Este blogueiro é do tempo em que essas letras eram, por assim dizer, proibidas. A professora ensinava que eram estrangeiras. É como se, para entrar em nossos livros, tivessem de apresentar passaporte visado.

A gente tinha inveja de quem tinha uma dessas letrinhas no sobrenome. Os pais de doutor Kassio hão de ter sofrido desse complexo de não-estrangeiridade. Como sentiam falta das letrinhas no sobrenome e não havia jeito de inseri-las, tascaram um K no nome do filho, logo no começo, que é pra todo o mundo ver. O novo integrante fará companhia a doutora Weber e a doutor Lewandowski. No quesito passaporte visado, no entanto, este último é campeão até agora imbatido: tem dois W no sobrenome.

Ilibada
Como manda a Constituição, o Senado avaliará se o indicado é ou não é senhor de notável saber jurídico. Confirmará também se sua reputação é ilibada. Interessante, esta última palavra. Anda sempre com a reputação a tiracolo. Nunca a vi em companhia de outro substantivo. De onde vem ela?

Vem de libar – verbo raramente utilizado, embora corresponda a um gesto que se vê frequentemente. Libar significa entornar no chão a bebida que estava num copo. Era costume dos romanos de dois mil anos atrás. Em determinados cultos aos deuses, o oficiante apanhava um cálice de bebida, aflorava com os lábios e versava o conteúdo ao solo em oferenda.

O verbo saiu de uso no português atual, mas o gesto perdura, embora um pouco mais egoísta. O legítimo bebedor de cachaça entra no boteco e pede uma caninha. Em seguida, inverte a ordem da oferenda. Primeiro, joga um trisquinho no chão, um presente ao santo – pouco, mas suficiente pra não deixar ninguém aguado. Em seguida, engole o resto (ou seja, praticamente tudo).

Mas fiquem frios: no governo atual, não há mais cachaceiros. São todos devotos da tubaína. E de um delicioso pãozinho encharcado com leite condensado. Nada de dar pro santo, porém! E quem deixar pingar na toalha paga o almoço!

Ilibado entrou no uso comum com o significado de inteiro, não tocado, não corrompido, imaculado, puro. É a isso que a Constituição se refere ao exigir reputação ilibada.

Falando de STF
Achei interessante esta chamada do Estadão deste 12 de outubro. É verdade que a Constituição não proíbe que membros do STF conversem com as paredes. Assim mesmo, o bom senso faz supor que nem doutor Fux, nem os demais ministros, têm o hábito de falar sozinhos. Tudo o que dizem é dito a alguém. Esse alguém é designado como interlocutor. Interlocutores podem ser colegas, a esposa, um contínuo, um motorista ou jornalistas. Em resumo, é evidente que, quando se diz algo, diz-se a interlocutores.

A chamada não perderia nada se eliminasse “a interlocutores”. Ficaria mais enxuta, mais elegante, e daria o mesmo recado. Em tempos de penúria, cortar excessos é dever de todos.