A moeda e a soberania

José Horta Manzano

«Quem não tem competência não se estabelece» ‒ diz o adágio. Com razão. Pra fazer malfeito, melhor não fazer. Os governos lulopetistas criaram uma enxurrada de estatais. As novas empresas atingem o inacreditável número de 150. Novas companhias foram abertas ao ritmo de uma por mês. A cada trinta dias, nova empresa brotou do nada, não é impressionante? E pensar que, apesar desse vigoroso reforço no aparelho estatal, o país caminhou pra trás. Um aparente paradoxo que a incompetência, a desonestidade e o desprezo dos interesses da nação explicam.

Mergulhados na ignorância, na ingenuidade e na certeza da impunidade, os então recém-chegados ao poder agiram como novos-ricos. Como se tivessem ganhado inesperados milhões na loteria, seguiram a receita torta dos ideólogos do partido e gastaram, sem contar, o dinheiro fácil e abundante. Tentaram submeter o funcionamento da nação aos ditames dos desvairados líderes.

Não deu certo. As novas estatais se transformaram em cabides de emprego e em moeda de troca. Ao fim das contas, o país foi assaltado, a sociedade se desorganizou, o desemprego se instalou e a economia sentiu o baque. Vai demorar anos pra voltar ao statu quo ante bellum ‒ o estado em que as coisas estavam antes do rebuliço.

A instabilidade atual, fruto de um sistema que não foi pensado para enfrentar situações tão dramáticas e tão confusas, não ajuda. Mais de ano depois de o lulopetismo ter sido banido do Planalto, ainda estamos discutindo se o atual presidente fica ou não. A cada dia, surgem novidades escabrosas de assalto ao nosso suado dinheiro. Nada disso nos ajuda a sair do buraco.

Para mitigar a falta de fundos, o governo federal decidiu pôr à venda boa quantidade de ativos, numa lipoaspiração que ‒ espera-se ‒ deixará a máquina mais enxuta e funcional. Foi anunciada uma lista de 57 empresas a privatizar. Entre elas, está a Casa da Moeda do Brasil, responsável pela fabricação do dinheiro, dos selos e dos passaportes. A notícia deixou muita gente alvoroçada. Alguns se sentem como se estivéssemos vendendo a alma ao diabo e abrindo mão de parte da soberania.

Não enxergo as coisas assim. Embora os colonizadores holandeses já cunhassem moedas mais de três séculos atrás nas colônias que hoje constituem o Estado de Pernambuco, o Brasil foi sempre, em maior ou menor medida, dependente de importação de cédulas. Até os anos 1950-1960, todas as notas eram impressas no exterior. E isso jamais arranhou a soberania nacional.

Há que fazer a distinção entre a decisão de emitir moeda, atributo do Banco Central, e a fabricação propriamente dita. Assim como empresas gráficas não são autorizadas a imprimir talões de notas fiscais a seu bel prazer, a Casa da Moeda não é livre de produzir cédulas como bem entende. Age como fornecedor sob as ordens do banco emissor. É submetida a rígido controle.

Ainda hoje, em épocas de penúria, pode acontecer de o Brasil encomendar cédulas a empresas estrangeiras. A conceituadíssima empresa britânica Thomas de la Rue, especializada no setor, é responsável pela impressão do meio circulante de quase 150 países. Sem risco à soberania de nenhum deles.

Portanto, não vejo nenhum problema em privatizar a Casa da Moeda. Combina, aliás, com o conceito de terceirização, que anda tão na moda. Compete às autoridades monetárias controlar o meio circulante. Não lhe cabe necessariamente imprimir cédulas nem cunhar moedas.

A privatização de mais essa estatal traz um benefício extra: inibe a empresa de transformar-se em cabide de emprego. Desde que aja sob contrôle rígido das autoridades monetárias, há de continuar funcionando tão bem ou melhor que antes. Aliás, surge a esperança de que não haja mais ruptura de estoque de papel para confeccionar passaportes. Já será um avanço.

Trenzinho da alegria municipal

José Horta Manzano

A Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada (naturalmente) antes da era lulopetista, foi concebida com o objetivo de repor o país nos trilhos sadios da boa economia. O princípio é simples: não se gasta mais do que se tem. Para todo cidadão que gere o próprio orçamento, parece uma evidência. Para as excelências eleitas para conduzir o país, foi preciso fazer uma lei, preto no branco.

Essa lei determina que todos os municípios do país ‒ são quase 5600 ‒ devem prestar contas da arrecadação e dos gastos. No que diz respeito aos dinheiros, um município funciona como qualquer empresa. Assim, tem de apresentar balanço anual mostrando o que entrou e o que saiu para justificar o que sobrou (ou o que faltou). Prestar contas aos acionistas (= os munícipes) é obrigação básica.

A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil esmiuçou o assunto pra ver a quantas anda o cumprimento da lei. Descobriu que, de cada três municípios, um deixou de prestar contas do exercício de 2015 ou 2016. Quase dois mil municípios fora da lei! Se optaram por fazer cara de paisagem, alguma razão haverá. É lícito suspeitar que 1/3 dos municípios brasileiros tem algo a esconder. Primeira pergunta: que é que estão escondendo? Segunda pergunta: fica por isso mesmo?

Tem mais. Vinte por cento dos que cumpriram a obrigação de apresentar suas contas (um em cada cinco) tiveram «despesas legislativas» mais elevadas do que o total da arrecadação. O estudo não especifica o que sejam «despesas legislativas», mas o enunciado é autoexplicativo. Não inclui gastos com serviços à população.

A Constituição de 1988 é clara. O inciso VII do Art° 29 estipula que «o total da despesa com a remuneração dos vereadores não poderá ultrapassar o montante de 5% da receita do município». Ora, se milhares de municípios gastaram tudo o que tinham com «despesas legislativas», sem guardar dinheiro sequer pra trocar uma lâmpada, não é difícil concluir que a folha salarial da vereança superou amplamente a barra dos 5%.

A coisa vai mais longe. Algumas cidades fornecem mimos extras aos vereadores: automóvel, quota de combustível, auxílio-paletó(?!), adicionais por presença nas sessões. Adicional por presença? É rematada aberração. Esse pessoal é pago justamente para comparecer às sessões e participar dos debates. O que deveriam era sofrer desconto por faltar a alguma sessão. Funcionário que falta tem desconto no salário. Com maior razão será punido o edil, justamente por representar centenas ou milhares de ausentes.

Acertadamente, o estudo lembra que, em numerosas cidades do mundo civilizado, a função de conselheiro municipal é uma honra concedida a cidadãos de reconhecido bom senso. Há cidades importantes que simplesmente não remuneram seus vereadores. Há outras que lhes concedem nada mais que retribuição simbólica de poucas centenas de reais por mês.

Depois da atual Operação Lava-Jatão, ainda vamos precisar de muitas Lava-Jatinhos. Muita cadeia ainda vai ter de ser construída. Do jeito que a coisa vai, os sucessores dos sucessores dos sucessores dos atuais ministros do STF ainda estarão lidando com denúncias de rapinas. «Pede pœna claudo» ‒ o castigo chega mancando. Pode demorar, mas um dia acaba chegando. Mais rápido se pega um mentiroso que um coxo.

Juntos, venceremos!

José Horta Manzano

Com exceção de sunga, fio dental, vôlei de praia & afins, o Brasil não é lançador de moda. Ainda que chinelo de dedo pareça genuína invenção nacional, já era usado por chineses dois milênios antes da chegada de Cabral. (Falo de Pedro Álvares, não daquele que está na cadeia.)

O brasileiro é bastante permeável a modas importadas. Picolé mudou de nome, virou paleta, e o povo achou o máximo. Bife de carne moída, que minha avó aprendeu a fazer com a mãe dela cem anos atrás, virou hambúrguer, e o povo achou o máximo. Liquidação virou sale, desconto virou off, entrega virou delivery ‒ e o povo achou o máximo.

Tudo o que eu mencionei são leviandades. Pode-se sobreviver sem paleta, sem sale e sem delivery. Já quando se trata de assunto importante, o Brasil é bem mais renitente. Em matéria política e social, por exemplo. Aperfeiçoamentos como voto distrital, abolição de foro privilegiado e de cela especial, diminuição de empresas estatais são mudanças difíceis de introduzir. Li outro dia que os governos lulopetistas criaram 150 empresas estatais. Cento e cinquenta cabides de emprego! Pode?

Está chegando ao país nova moda, já adotada muito tempo atrás no estrangeiro. A selva de siglas partidárias, cujo significado poucos conhecem, está sendo substituída por nomes mais simpáticos, que evitam cuidadosamente a palavra ‘partido’, desgastada e malvista.

O exemplo vem de fora. Na França, temos legendas como «La France Insoumise» (A França Rebelde) e «En Marche!» (Vamos em frente!). Na Espanha, apareceram «Podemos» e «Ciudadanos» (Cidadãos). Na Itália, há «Movimento Cinque Stelle» (Movimento Cinco Estrelas) e «Forza Italia» (Força, Itália!). Até na vizinha Bolívia, já faz tempo que señor Morales chefia o «Movimiento al Socialismo».

É o Zeitgeist ‒ sinal dos tempos. Partidos, tanto os tradicionais quanto os de aluguel, andam pra lá de desgastados no Brasil. (Se é que, um dia, já significaram alguma coisa.) Por que não aderir à moda? Nomes têm surgido a cada dia : Patriotas, Avante, Democracia Cristã, Livres, Centro Democrático. Até o PMDB, pra lá de manjado, estuda retomar a denominação originária de MDB.

No final, por que não? Não há de fazer mal a ninguém. Duvido que alguém possa recitar, na ponta da língua, o nome por extenso dos quase quarenta partidos registrados atualmente no país. PRTB? PSL? PCO? PMB? PRB? O distinto leitor conhece todos? Nem eu.

Diferentemente de alguns analistas, não vejo nessa onda de mudança nenhuma jogada de marketing urdida pelos partidos para esconder espírito malévolo debaixo de pele de cordeiro. Exibir denominações em vez de siglas traz mais vantagem que prejuízo. E me parece facilitar a identificação de cada associação. Reconheçamos que um hipotético «Juntos, venceremos!» é mais sugestivo e bem mais atraente que um reles PXYZ ou coisa que o valha.

Viva a nova moda! Que mudem todos! Ah, e que aproveitem a oportunidade para despedir todos os eleitos atuais e substituí-los por sangue novo. Como já dizia o outro, pior do que está não fica. Que se aposentem. Política não é profissão.

Um resultado, duas análises

José Horta Manzano

Saíram esta semana os resultados de extensa pesquisa feita no Brasil pelo instituto Ipsos, de origem francesa. A sondagem avalia a percepção que o eleitorado brasileiro tem da política em geral e do momento atual em particular.

Perguntas referentes a doutor Temer, a doutora Dilma, a deputados e senadores são inevitáveis. As respostas mostram que o eleitor não vota nem avalia com o cérebro, mas com o fígado. Tem até os que julgam com o estômago. De fato, com o país atravessando momento difícil, com aumento de preços e queda na oferta de empregos, a população tende a culpar os dirigentes de turno. Ainda que não tenha responsabilidade direta sobre a situação atual do país, doutor Temer encarna o vilão da novela.

É interessante notar que cada analista enxerga nos resultados aqueles que vão de par com suas próprias convicções. Passando por cima das respostas que não lhe agradam, cada um dá ênfase aos resultados que vão ao encontro de suas teses. Senão vejamos.

O Estadão, jornal que nunca escondeu sua oposição à visão de mundo lulopetista, focalizou sua análise na ojeriza crescente inspirada pelos políticos. Destacou o fato da rejeição que atinge a totalidade dos políticos. Mencionou que, de cada quatro brasileiros, três são contra o voto obrigatório. Tece outras considerações sem se deter ao modo de governar de doutor Temer. Acrescenta que os brasileiros não se sentem representados por nenhum político.

Já o portal Gente de Opinião, que mostra simpatia para com o lulopetismo, analisa os resultados de outro jeito. Destaca que a democracia não é respeitada e explica que isso era previsível «desde que um impeachment afastou a presidente legítima e permitiu que o poder fosse usurpado (sic) pelo vice Michel Temer, que a traiu». Diz também que noventa e tantos porcento dos eleitores não se sentem representados por «Temer e sua turma».

Ao final, a gente fica pensativo. Pra que servem mesmo essas sondagens? Cada um vê o que quer ver, entende o que quer entender, analisa como lhe convém, chega à conclusão que lhe apraz. Eta, mundão grande… e hipócrita!

Rincão de Artigas

José Horta Manzano

A história oficial nos ensina que o Brasil não tem nenhum litígio com vizinhos por questões de fronteira. Aprendemos que, desde que o barão do Rio Branco resolveu a última pendência mais de cem anos atrás, os limites do país estão consolidados e não sofrem contestação.

Na época do barão, era verdade. Assim que a questão do Acre foi definida pelo Tratado de Petrópolis em 1903, os limites do território nacional se tornaram definitivos. E reconhecidos internacionalmente, o que é mais importante. No entanto, como na vida nada é definitivo, uma dúvida seria levantada trinta anos mais tarde. Não tinha que ver com o Acre, mas com o Uruguai, que, até 1828, tinha formado parte do Império do Brasil com o nome de Província Cisplatina.

Rincão de Artigas, fronteira Brasil-Uruguai
crédito: Google Maps – clique para ampliar

A fronteira entre Brasil e Uruguai foi sacramentada por um tratado de limites elaborado e firmado em 1851. Em seguida, nos anos 1860, foi levada a efeito a demarcação física da linha de fronteira. E o assunto foi dado por encerrado. Oitenta anos mais tarde, estudos levados a cabo por especialistas uruguaios concluíram que um erro havia sido cometido quando da fixação dos mourões ‒ os marcos fronteiriços.

Apresentaram reclamação formal ao Brasil reivindicando uma área de 237km2. O território contestado é relativamente pequeno. Sua superfície é igual à do município de Gramado (RS). Mas o pleito caiu num momento histórico desfavorável a nossos hermanos. O ano era 1934. Getúlio Vargas ‒ justamente um gaúcho ‒ estava aboletado no Palácio do Catete, e o mundo assistia a um recrudescimento de sentimentos nacionalistas. A reclamação uruguaia foi sumariamente rejeitada.

Rincão de Artigas, fronteira Brasil-Uruguai
crédito: Google Maps – clique para ampliar

Inconformados, nossos vizinhos voltaram à carga em diferentes ocasiões. Todas elas vieram quando o Brasil vivia momentos conturbados. Três pedidos de revisão da demarcação chegaram durante os anos Vargas e, mais tarde, outro pedido chegou em plena ditadura dos generais. Falta de sorte. O Catete ‒ e, mais tarde, o Planalto ‒ ignoraram o reclamo.

A última solicitação uruguaia foi feita em 1988, num momento em que os brasileiros, atazanados pela inflação galopante, não tinham disposição para cuidar desse assunto. De novo, a resposta de Brasília foi negativa. Os mourões estão lá e lá vão ficar.

Rincão de Artigas tal como é retratado em mapas oficiais uruguaios
clique para ampliar

No fundo, a região contestada não é estratégica para nenhum dos dois países. Pouco habitada, longe de tudo e com infraestrutura precária, desperta pouco interesse. Não tem petróleo, nem minérios, nem saída para o mar, nem atração turística. Até pra pegar sinal de celular, naqueles pagos, precisa levantar cedo e se armar de paciência. A briga é questão de orgulho nacional.

O Mercosul deu uma aliviada em alguma tensão que pudesse ter existido no passado, se é que existiu. O afrouxamento das fronteiras entre os membros foi benéfico para acalmar ânimos. Seja como for, o Rincão de Artigas, que pertence ao município de Santana do Livramento, é brasileiro de facto. E tudo indica que assim permanecerá.

Nota
Nossos hermanos perderam o momentum representado pela era lulopetista, o período mais entreguista que nosso país já conheceu. Assim como deu à Bolívia, de mão beijada, uma refinaria da Petrobrás, é quase certo que o Planalto teria dado o rincão aos uruguaios. Embrulhado pra presente e acompanhado de polpuda soma em ressarcimento de injustiça histórica. O destino não quis.

Menos médicos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Estava conversando com meu amigo Sigismeno. Pra variar, o bate-papo era sobre as últimas peripécias da movimentada política nacional. Perguntei eu:

‒ Você viu, Sigismeno, essa decisão que Cuba tomou no âmbito do programa de mais médicos?

‒ Não, essa me escapou. O que foi mesmo?

‒ Pois estavam para enviar uma leva de 700 médicos, dentro do acordo firmado nos governos lulopetistas, quando, de repente, a viagem do pessoal foi bloqueada. E não foi por falta de avião. Parece que não virão mais médicos cubanos. Por aqui, alguns aplaudem a medida, outros não.

‒ E qual a razão da suspensão de envio de profissionais? Informaram?

‒ Olhe, Sigismeno, se entendi bem, 88 dos médicos já enviados ao Brasil entraram na Justiça com pedido para permanecer em nosso território. Não querem saber de voltar para a ilha de origem. Miséria por miséria, preferem a nossa. Para estancar a hemorragia e minorar o vexame, Havana prefere não mandar mais médico nenhum.

‒ E você acredita que a razão seja realmente essa?

‒ É o que a mídia noticiou, Sigismeno. Que eu saiba, ninguém pôs a afirmação em dúvida.

‒ Pois então, me dá muito orgulho ser o primeiro.

‒ Ah, você não tem jeito, Sigismeno. Sempre em desacordo com a maioria. E qual seria, segundo você a razão da súbita suspensão do programa?

‒ Bom, vamos fazer um rápido ‘flashback’. Faz alguns anos, assim que esse envio de médicos foi anunciado, eu já desconfiei que aí tinha coisa meio obscura. Aliás, se não me engano, comentei com você.

‒ Tem razão. Você ficou encafifado com o fato de os médicos não receberem o salário integral na conta bancária como todo assalariado.

‒ Pois é. Na época, o trato era remunerar os profissionais com dez mil reais mensais, o que me parecia um salário correto. O chato é que o médico só recebia três mil, sendo o resto confiscado e enviado diretamente ao governo cubano.

‒ É, era isso. Mas onde é mesmo que você viu problema?

‒ Sabendo que o lulopetismo não é composto de gente «boazinha», cujo desejo profundo é ajudar o sofrido povo cubano, concluí que a dinheirama enviada a Cuba havia de ter outro destino. Desde o começo, me pareceu claro que, daquela bolada, uma parte engordava as caixas do partidão caribenho e outra parte… voltava em malas, malotes e até cuecas.

‒ Ah, é verdade, Sigismeno! Agora me lembro da sua reflexão. Mas o que tem de ver a sua desconfiança com o que está acontecendo agora?

‒ Ora, me parece a consequência lógica da mudança de governo no Brasil. Se o vaivém financeiro funcionou enquanto duraram os governos “amigos”, a engrenagem engripou assim que caíram em desgraça. Depois de impeachment, Lava a Jato, Moro, Lista de Fachin e que tais, o circuito se rompeu.

‒ E por quê?

‒ Ah, não me peça detalhes. Não tenho espiões nem microfones ocultos no Planalto. A verdade é que o círculo não circula mais, se assim me posso exprimir. Talvez a gente não esteja conseguindo enxergar a razão justamente por ela ser simples e evidente: os principais atores da tragicomédia estão presos ou na iminência de sê-lo. Preferem não agravar a própria situação.

Les jeux sont faits

José Horta Manzano

Pelos próximos quatro anos, se o destino não bancar o desmancha-prazeres e não der uma foiçada, Donald Trump exercerá a presidência dos EUA. Assim que a notícia se espalhou, metade dos americanos abriu o champanhe enquanto os demais abriram o armarinho do banheiro à cata de aspirina.

Muita gente foi apanhada de calça curta. Como em outras votações polêmicas, todos os institutos de pesquisa se enganaram. Até mesmo sondagens de boca de urna ainda mantinham Hillary Clinton na dianteira. O resultado final deixou muita gente atordoada.

eleicao-3Independentemente de ter torcido para este ou para aquele candidato, o distinto leitor há de estar surpreso. Não se sinta solitário, que uma multidão está no mesmo caso. No entanto, pensando bem… sabe quem levou o susto maior? Pois foi exatamente Mister Trump. Ele também sabe ler pesquisas. Já tinha até dado sinais de estar-se preparado para atacar a lisura do processo de apuração.

Para o moço, o importante era ganhar. Governar não estava exatamente nos seus planos. Nascido em berço confortável, deu continuidade ‒ com sucesso ‒ ao espírito empreendedor dos antepassados. Venceu sempre. Desta vez, sua intenção era de mostrar que era o maior, que podia chegar ao posto máximo mesmo sendo absolutamente carente de experiência política. Conseguiu. E agora?

Agora é que são elas. Ataques de palanque, frases de efeito, atitudes ensaiadas, ameaças, xingamentos, invectivas e ofensas ficaram pra trás. Mister Trump terá de usar sua esperteza para cercar-se de gente competente. O maior risco que ele corre nesse sentido é deixar-se levar pelo orgulho e agir como nossa mais recente presidente destituída: só nomear assessores que lhe digam amém. Se fizer isso, será desastroso.

cassino-1Seja como for, no fim das contas, pouco deve mudar para quem vive fora dos EUA. Com ou sem Mister Trump, o país continuará sendo, por muito tempo ainda, a maior potência econômica e militar do planeta. O Reino Unido seguirá firme o caminho do Brexit. A Rússia não abrirá mão da Crimeia. Palestinos e israelenses não farão as pazes. Alguns latino-americanos continuarão a tentar a atravessar o Rio Grande na calada, enquanto outros continuarão a frequentar a Disneylândia.

No Brasil, a mudança será pouca, quase nada. Desde que o lulopetismo cortou o cordão umbilical que nos unia ao mundo dito «ocidental» para fazer ligação direta com a China, decisões tomadas em Pequim têm maior influência sobre nós do que as que são tomadas em Washington.

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Les jeux sont faits, rien ne va plus!
A expressão que usei como título do artigo é difícil de traduzir ao pé da letra. É repetida pelos crupiês, nos cassinos franceses, a cada vez que a roleta é posta a girar. Significa que quem jogou, jogou; não se aceitam mais apostas para esta rodada.

Quem vai mudar «esse» país

José Horta Manzano

Vamos retocar o título. Melhor assim: «Quem vai mudar ‘essepaiz’». Agora ficou fácil descobrir de quem estou falando, não? De nosso guia, mas é claro! Falo daquele senhor que encarna à perfeição a conhecida advertência «façam o que eu digo, não o que eu faço».

Domingo passado, ainda atordoado pela deliquescência de seu partido ‒ tornada evidente pelos resultados do primeiro turno das eleições ‒ simplesmente deixou de cumprir seu dever cívico: não votou. Mandou dizer que, dado que já passou dos 70, não é mais obrigado. Portanto, devemos entender que, se ia votar antes dos 70, é porque era obrigado. Ou não? Certas más línguas dizem que era para evitar a multa de 3 reais. Será? Quem diria… E pensar que o homem se dizia patriota de carteirinha.

Véspera do Dia dos Zumbis
Em viagem a São Carlos (SP) em véspera de data simbólica, o Lula fez um pronunciamento a estudantes da Universidade Federal da cidade. Descarado como de costume, ousou lembrar que o momento atual é importante para o debate de política. Convenhamos que, para quem se recusou a votar, é um disparate. Mas não parou por aí. Asseverou ainda que «a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta: a elite». Ai, essa zelite, essa zelite… Sempre atrapalhando o caminho do bem e da virtude.

lula-gerontocraciaFrancamente… contando, ninguém acredita. Para completar a patacoada, o demiurgo disse mais. Atreveu-se a lançar aos jovens: «Quem vai mudar ‘essepaiz’ são vocês». A frase está quase correta. Só faltou dizer que, antes de ‘mudar’, as gerações vindouras terão antes de consertar os profundos estragos que o lulopetismo causou. Nosso guia preferiu omitir esse pedaço.

Considerações finais
Nosso genial ex-presidente ‒ em descida vertiginosa, irrefreável e irreversível ‒ dá sinais de cansaço. Finalmente, parece ter renunciado a fazer parte da gerontocracia nacional. Há de ter-se dado conta de que nada que possa fazer, daqui por diante, será benéfico para sua degradada biografia. Pelo contrário.

Que use seu tempo para preparar direitinho a defesa a apresentar aos juízes que por ele aguardam. E que se abstenha de bombardear nossos ouvidos com palavras surradas e ocas.

Frase do dia — 315

«O impeachment de Dilma e a desmoralização do PT funcionam como chance de ouro para o restabelecimento da racionalidade política e administrativa no País.

Mais importante ainda, o ocaso da era lulopetista restitui aos brasileiros a própria democracia ‒ imperfeita, incompleta e carente de reformas, mas certamente preferível aos sonhos autoritários de Lula, de Dilma e da tigrada.»

Editorial do Estadão, 4 set° 2016.

A dimensão humana da revolução

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Quando termina a revolução?”

É com essa pergunta que, no belíssimo filme “Danton – O Processo da Revolução” dirigido por Andrzej Wajda, em uma das cenas de maior tensão dramática da historiografia do cinema, Danton confronta Robespierre, na tentativa de induzi-lo a dar fim à perseguição dos dissidentes e interromper a grotesca sequência de decapitações ocorridas nos dias turbulentos da França pós-monarquia.

O questionamento, ainda que ingênuo na aparência, não tem caráter retórico. O que ele implicitamente conota é que, cedo ou tarde, toda revolução terá que se ver às voltas com um momento especialmente delicado de sua história: o de decidir pela manutenção ou flexibilização de sua pureza ideológica.

Revolution 2É curioso observar como, em suas etapas iniciais, toda revolução se assemelha ao florescimento de uma nova religião. A mobilização dos combatentes é embasada na promessa de surgimento de um mundo novo, onde as regras serão outras e onde a bem-aventurança será eterna. Um código doutrinário é estabelecido e dogmas são criados, em especial o da infalibilidade de seu líder máximo. Como caberá a ele zelar para que a revolução se perenize e não brotem dissidências internas, sua autoridade técnica e moral não pode jamais ser contestada. Qualquer tentativa de introduzir mudança para se adequar a novas demandas externas pode ser entendida como conspiração e, como tal, será imediatamente rechaçada.

Se, para a racionalidade fria e calculista de Robespierre, perseguição e morte de tantos potenciais revisionistas era preço aceitável, para o iluminista Danton era um contrassenso inaceitável continuar lutando pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade em meio a um banho de sangue permanente. Não há, portanto, como responder a seu questionamento fazendo uso de generalizações, argumentando teoricamente a respeito da dificuldade de fixação de prazos e limites ou alegando motivos nobres para dar continuidade às perseguições.

Nesse sentido, a pergunta não se limita a época específica, cultura, país ou liderança. Aplica-se igualmente a todo processo revolucionário, desde lutas tribais dos tempos da caverna, passando por conflitos medievais e guerras coloniais, até os mais significativos movimentos libertários do século 20, como a Revolução Russa, a guerra contra o nazifascismo, a Revolução Cubana, a Revolução Iraniana, as lutas para derrubada de ditaduras na África e na América Latina. Se pensarmos bem, concluiremos que, do ponto de vista lógico, a única resposta possível à questão de Danton é que uma revolução só termina quando outra, em franca oposição, eclode e a supera. Tese → antítese → síntese, como ensina a dialética.

Jean-Paul Marat e Charlotte Corday Crédito: Steve Breslow

Jean-Paul Marat e Charlotte Corday
Crédito: Steve Breslow

Assistindo ao julgamento final do impeachment à brasileira, a emoção que experimentei ao ouvir a pergunta pela primeira vez naquele filme voltou forte. Depois de longos meses de exasperação com o infindável embate que destemperou o ânimo dos brasileiros, eu sentia enfim estar preparada para encarar a ira verborrágica dos contendores sem qualquer forma de resistência intelectual ou emocional. Tornava-se claro para mim naquele instante que, travestida de suas implicações econômicas e financeiras, a pergunta estava sendo reeditada: Quando termina a revolução do lulopetismo?

Difícil responder neste momento em que os ânimos ainda estão acirrados e nem todas as emoções foram devidamente processadas. O espetáculo farsesco da decapitação de Dilma não parece poder ser equiparado ao término do sonho de uma sociedade de iguais. Não é só isso. O clima econômico caótico, a crise universal da democracia representativa e a sensação de estarmos mergulhados até o pescoço num oceano de dejetos éticos parecem indicar a necessidade de reformulação da pergunta. Talvez fosse mais sábio questionar: Quando termina a revolução dos costumes políticos?

Seja como for, o que emerge diante dos olhos de uma população desesperançada é um fato esmagadoramente óbvio: toda revolução tem uma face humana. Não são apenas as teses que são falhas ou incompletas. Não há como nenhum agrupamento ideológico proclamar a própria superioridade moral, nem defender que sua interpretação dos fatos históricos é a única legítima. Continuaremos a conviver ad æternum com todos os vícios inerentes à condição humana, como a hipocrisia, o apego ao poder, a desfaçatez, a miopia social, o partidarismo fundamentalista e o analfabetismo político de muitos dos comandados. Para cada Danton que se apresentar como salvador da pátria um Robespierre se erguerá tentando barrar seus avanços.

Hoje, em plena ressaca do ‘day after’, o delírio voltou a tomar conta de mim. Na tela de minha mente, as cenas do filme eram reencenadas num cenário tropical com os personagens da Revolução Francesa interpretados por atores políticos tupiniquins. Lá está o fanfarrão Danton/Lula, abraçado aos amigos numa mesa de bar, cabelo e roupas em desalinho, discursando como última esperança dos “sans-culotte” para recuperar a glória de seu ideário político-social. Na cena seguinte, a enlouquecida Charlotte Corday/Dilma tenta entregar a lista que preparou com o nome de todos aqueles a quem chama de conspiradores, golpistas e algozes. Seu comportamento errático não comove e não empresta credibilidade a suas palavras. Num último gesto desesperado, ela grita que é imprescindível extirpar o “pecado original” enquanto esfaqueia o corpo sarnento de Marat/Cunha ainda mergulhado na banheira.

Crédito: Art Puff Delphine

Crédito: Art Puff Delphine

Na sequência, num gabinete estreito do palácio, o impoluto e insensível Robespierre assume a chefia do governo afiançando que somente ele poderá capitanear com eficácia o processo de inclusão social e recuperação do prestígio nacional. Na cena final, o populacho em fúria invade praças e ruas exigindo a cabeça dos integrantes da elite “canaille”. Aqui e ali, pequenos grupos de desempregados entoam timidamente a cantiga-símbolo da resistência:

       “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…
        Ainda pago pra ver esse dia nascer qual você não queriiaaa…”

A praça se esvazia, a fumaça das fogueiras se extingue. A quarta-feira de cinzas termina melancólica e todos voltam cabisbaixos para suas casas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Erro de cálculo

José Horta Manzano

Faz um mês, o Partido dos Trabalhadores publicou longo arrazoado em defesa de nosso guia. A manobra tem explicação. Em 36 anos de existência, o partido ‒ que começou representando industriários e terminou no banco dos réus ‒ só conseguiu fabricar um líder. Unzinho só. Em união visceral, Lula da Silva é o PT e o PT é Lula da Silva. É composição com dois elementos. Na falta de um, o outro fenece.

Lula cartilha 4Dotado de ego gigantesco, o Lula cuidou que nenhum personagem lhe fizesse sombra. Botou pra correr os que representassem perigo e barrou a ascensão dos que sobraram. O ápice do culto à própria personalidade foi a designação do «poste» que lhe sucedeu na presidência do país. Acostumado a conviver com vaquinhas de presépio, o Lula foi incapaz de pressentir o desastre que estava por vir. Jamais imaginou que a criatura ousasse se desgarrar do criador. Não se lembrou de que todo passarinho acaba, um dia, abandonando o ninho para voar com as próprias asas.

Semana passada, no intuito de difundir ao redor do planeta a fábula do golpe que está por apeá-lo do poder, o partido houve por bem mandar traduzir o arrazoado em três línguas estrangeiras: inglês, francês e o infalível espanhol. Deu ao libelo o apelido de cartilha. São perto de três mil palavras para tentar convencer que o Brasil vive momento de arbítrio, como uma Venezuela qualquer.

Lula cartilha 2No estrangeiro, o texto não suscitou efeito visível além de convencer os que convencidos já estavam. Nenhum veículo, a meu conhecimento, mencionou o documento. Não se sabe se por coincidência ou para contrabalançar a «cartilha», a Justiça brasileira acaba de indiciar o casal da Silva por corrupção e outros crimes dos quais já estamos cansados de ouvir falar.

Não acredito em mera coincidência. Já fazia meses que se falava do apartamento sem dono e do sítio sem proprietário. Por que abrir o processo justamente agora? No meu entender, é a resposta do Brasil decente ao desespero lulopetista que, ao enviar seu libelo à mídia internacional, emporcalhou a imagem do país.

Lula cartilha 3A consequência veio a cavalo. Enquanto a «cartilha» tinha passado totalmente em branco na mídia europeia, a inculpação da famiglia Lula da Silva recebeu destaque na manhã deste sábado. Os europeus não tinham dado grande atenção ao fato de o Brasil, no entender do PT, ser republiqueta de bananas. Em compensação, milhões sabem agora que o demiurgo escorregou do pedestal e vai se haver com a Justiça. Bem haja!

Olimpíada e cheiro de cavalo

José Horta Manzano

João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999) foi o mais recente militar a ocupar a chefia do Executivo. Último presidente da série iniciada em 1964, não se pode dizer que tenha sido pessoa de fino trato. A ele, atribuem frases pra lá de politicamente incorretas. Eis algumas:

  • «Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.»
  • «Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.»
  • «Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.»

Essa é pequena parte da coleção. Há coisa bem mais apimentada. No entanto, ninguém é totalmente branco nem inteiramente preto. Entre os dois extremos, todos carregamos nuances de cinza. O general Figueiredo não era exceção. Entre as barbaridades que pronunciou, há pelo menos uma que fez muito bem ao Brasil.

Cavalo 1A Copa do Mundo de 1986 estava programada para ter lugar na Colômbia. Graves desordens naquele país obrigaram a Fifa a procurar, de última hora, novo país-sede. João Havelange, então chefão do futebol mundial, propôs a João Figueiredo que o Brasil acolhesse o Campeonato.

Desprezando a «honra» que a fabulosa proposta oferecia ao país, o mal-humorado presidente deu resposta curta e grossa a Havelange: «Você já viu uma favela no Rio de Janeiro ou uma seca no Nordeste? Acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?» A frase foi confirmada, anos depois, pelo neto do general.

A Copa foi para o México e a página foi virada. Os anos passaram. O Brasil, acreditando nas juras de honestidade de um grupo que parecia ter moralidade acima da média, foi ludibriado. Caiu na rede de um bando de criminosos que conseguiram assaltar o país por longuíssimos 13 anos.

Figueiredo pode ter sido ignorante, mas mostrou ter mais apreço por seu país do que o finado governo. E pensar que o lulopetismo se dizia «popular e voltado ao social». Quanta hipocrisia!

O general presidente, embora chucro, deu-se conta de que o Brasil tinha outras prioridades além do futebol. Recusou e bateu pé. Já o demiurgo populista, igualmente chucro, deu-se conta de que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos abriam excelente oportunidade para negócios. E para obscuras transações.

Sondagem DataFolha, jul° 2016

Sondagem DataFolha, jul° 2016

O resultado é um Brasil empobrecido que ainda espera, pires na mão, os benefícios que a Copa 2014 devia ter trazido. Que espere sentado.

Infelizmente, a coisa continua: ainda temos pela frente um evento mundial, os Jogos Olímpicos Rio 2016. A Folha de São Paulo ‒ jornal que não pode ser acusado de oposição sistemática ao lulopetismo ‒ revela que 63% dos brasileiros (dois em cada três) consideram que a Olimpíada vai trazer mais prejuízos que benefícios.

Só que agora é tarde, minha gente. A quem elegeu o Lula, sobram os olhos pra chorar. A quem não votou nele, sobra a esperança de que tudo vai passar. Um dia, ainda hemos de sair do buraco.

Pesquisa eleitoral

José Horta Manzano

O Instituto Datafolha publicou estes dias o resultado de recente sondagem das intenções de voto para as eleições presidenciais previstas para 2018. Foi proposto aos entrevistados que escolhessem um nome entre os diferentes candidatos que se haviam apresentado às eleições de 2014.

Apesar dos escândalos trazidos à tona pela Operação Lava a Jato, nosso guia ainda aparece entre os bem cotados. É resultado surpreendente. Quem vem acompanhando o descalabro revelado de um ano para cá tem direito a ficar boquiaberto, sem entender o que possa estar se passando na cabeça dos eleitores.

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

No entanto, um exame mais acurado pode explicar a incongruência. O distinto leitor, que está certamente indignado e enojado com a ladroagem e com a rapina, há de imaginar que todos os conterrâneos estejam a par dos acontecimentos. Pois não é assim. Nem todos os brasileiros estão antenados.

A prova é que 1/3 dos pesquisados (um em cada três!) sequer sabe quem é o presidente da República em exercício. A pergunta não foi feita, mas não é impossível que muitos cidadãos acreditem que o Lula ainda ocupa o posto máximo.

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Por mais que procuremos disfarçar e fazer de conta que não enxergamos, a realidade, teimosa, deixa clara a perniciosa estratificação ‒ econômica, social e cultural ‒ da população de nosso país. Um terço dos brasileiros não faz a menor ideia do que está ocorrendo. E por que é assim?

A resposta me parece evidente: porque sempre foi, ué! A preocupação com o social, declarada e louvada por nossos mandatários, embora prometesse mundos e fundos, não mostrou os efeitos apregoados.

Variados programas de inserção, bolsas diversas, estabelecimento de quotas para desvalidos, auxílio financeiro a famílias, acesso à casa própria, intercâmbio universitário, facilitação de crédito & companhia estão longe de ter sido eficientes. Se trouxeram geladeira e automóvel a numerosos cidadãos, não lhes incutiram o sentimento de pertencimento à nação. De cada três brasileiros, pelo menos um vive fora da realidade. Não estão nem aí ou, pior, não estão em condições de «estar aí».

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Pesquisa DataFolha, jul° 2016

Más línguas diriam que o objetivo dos que nos governaram por 13 anos era exatamente esse: manter o povo, de propósito, na ignorância. Recuso-me a acreditar que fosse essa a intenção do lulopetismo. O resultado, desgraçadamente, é esse. Está aí a pesquisa a escancarar o alheamento de parte importante da população.

Que caminho seguir para integrar todos no mundo pensante? Não tenho a resposta. Nem que a tivesse, não teria meios de agir sozinho. A pergunta vai continuar no ar à espera do dia em que mandatários bem-intencionados confiem a especialistas a missão de debruçar-se sobre o problema e encontrar solução.

Fiasco continental

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° maio 2016

Faz cinco séculos que as Américas portuguesa e espanhola se estranham. Na linha de fronteira que corria imprecisa por entre igarapés, pantanais e outros ermos, a ausência de contacto físico apartava lusos e castelhanos. Conviviam em paz relativa, embora sempre de costas uns para os outros, mais ou menos como irmãos brigados.

O ponto de encontro e de atrito maior sempre se situou na região Sul e nos entornos do Rio da Prata. Terra boa, gente pouca e clima ameno atraíram a cobiça dos colonizadores. A criação um tanto forçada da República do Uruguai foi concebida justamente para erigir estado-tampão entre os castelhanos e as antigas províncias lusas.

Assim mesmo, a desconfiança continuou. Não só persistiu mas acirrou-se à medida que Brasil e Argentina se fortaleciam, cada um por sua conta. No século XX, quando ditaduras assolaram ambos os países, a mútua suspeição atingiu o paroxismo. O cenário imaginado por dez entre dez generais de lá e de cá era um só: a iminência de guerra fratricida.

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Assinatura do Tratado de Tordesilhas, 1494

Redevolvido o poder aos civis, os dois países se deram conta de que o mundo havia mudado. Estava chegada a hora de acabar com o belicismo e de enterrar o machado de guerra. Afinal, governos passam, gente nasce e morre, mas Brasil e Argentina estão condenados a continuar vizinhos ad aeternum.

Empunhando uma cuia de chimarrão à guisa de cachimbo da paz, Sarney e Alfonsín plantaram a semente do futuro Mercosul. A fundação propriamente dita só viria anos mais tarde, com a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991. No começo, a ideia era aproximar Brasil e Argentina. A incorporação do Paraguai e do Uruguai foi acessória, acréscimo pouco oneroso ao plano originário. A ideia da aproximação era boa, sem dúvida. Contudo, não foi levada adiante com maestria. A aliança se encharcou, por cacoete, de toda a burocracia ibérica tradicional. Desde o início, a importância dos considerandos superou, em muito, a dos finalmentes.

Assim mesmo, a instituição funcionou mal e mal até o advento do kirchnerismo lá e do lulopetismo cá. A partir de então, a coisa desandou de vez. A ambiciosa «união alfandegária» transformou-se em foro caricato de verborreia populista. A entrada ‒ pela porta dos fundos ‒ da bolivariana Venezuela foi a gota d’água, a consumação da débâcle.

Alfandega 1Aos trancos, o Mercosul completou o primeiro quarto de século esta semana. Ficou combinada a comemoração em Montevidéu. Esperava-se a presença prestigiosa do chefe de Estado de cada país-membro. Pois tirando o anfitrião uruguaio, nenhum presidente compareceu ao encontro. Nenhum! Foi demonstração cabal da insignificância do bloco, um fiasco de dimensões continentais.

Só não vê quem não quer: em 25 anos, nenhum acordo comercial significativo foi concluído com parceiros externos. Num evidente desvirtuamento de funções, as cúpulas vêm sendo politizadas. Outros blocos comerciais, longe de ser vistos como parceiros potenciais, são tratados como adversários. O exemplo mais recente de picuinhas que tomaram o lugar de tratativas proveitosas ocorreu durante a comemoração desta semana. Além do desprestígio gerado pela ausência dos presidentes convidados, a cúpula foi palco de embate digno de tumultuosa reunião de condomínio.

Embora nossa presidente não tenha dado o ar da graça, uma delegação de 20 parlamentares brasileiros compareceu. Num comportamento primitivo, os organizadores quiseram deixar patente seu desagrado com o processo de destituição que corre contra Dilma Rousseff. Para tanto, designaram, para a alentada delegação brasileira, uma fila de cadeiras situada ao fundo da sala. Trataram, assim, sócios fundadores como se não passassem de meros observadores, quase estranhos no ninho.

Parlasur Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Parlasur
Salão de reuniões do Mercosul, Montevidéu

Irritados com a ofensa, 17 dos 20 deputados brasileiros viraram as costas e abandonaram a cerimônia. Só permaneceram três estoicos parlamentares, decerto mais comprometidos com o Planalto. Pelos tempos que correm, não é delírio supor que a manobra tenha sido soprada justamente por autoridades ligadas ao Executivo brasileiro. É conhecido o ressentimento nutrido por certos assessores presidenciais obstinadamente apegados a ideologias empoeiradas.

Como se costuma dizer em ocasiões assim, chegou a hora de «discutir a relação». O Mercosul, do jeito que está, se exauriu. O bloco econômico se politizou e se afastou das funções para as quais foi criado. Que se retomem os objetivos originários. Ou que se apague o letreiro, se desmonte o picadeiro e se desarme o circo.

Tenemos que salvar a Brasil

José Horta Manzano

Dilma e EvoA degringolada do regime instalado no Planalto enche de esperança oito em dez brasileiros. Se, para vencer, bastasse torcer, o jogo estaria jogado.

Naturalmente, o surgimento de vencedores pressupõe a existência de perdedores. De cabelo em pé, políticos, apadrinhados, apaniguados & congêneres têm perdido o sono com a perspectiva de orfandade iminente e inexorável.

Preocupados que estamos com os acontecimentos nacionais, nem sempre nos damos conta de que a onda de choque atravessa fronteiras. Do outro lado da cerca, nossos vizinhos nos observam com especial atenção. Exatamente como ocorre quando elefante visita loja de porcelana, uma mexida “del gigante de Latinoamérica” faz tremer todo o continente.

Nosso hermanos, surpresos com a evolução acelerada da crise brasileira, têm reações contrastadas. Enquanto Argentina e Chile mantêm atitude reservada, outros governos são mais explícitos.

Dilma e MaduroSeñor Mujica, antigo presidente do Uruguai, acredita «que Lula é inocente e que o querem castigar». Evo Morales, aquele que gostaria de se eternizar na presidência da Bolívia, requereu que a organização Unasur realize com urgência uma reunião de cúpula para «defender la democracia en Brasil, para defender a Dilma, para defender la paz, para defender al compañero Lula y a todos los trabajadores».

Señor Maduro, caudilho da Venezuela, é o mais preocupado de todos. Não bastasse estar sendo acossado por um povo cansado, empobrecido e desiludido, ainda tem de conviver com o irremediável afastamento de Cuba, a antiga ilha compañera, atraída irresistivelmente por Obama.

Lula e ChavezNa assembleia de Caracas, o (enfraquecido) bloco chavista denuncia o «golpe de Estado» que se prepara no Brasil e dá apoio a Dilma e a Lula. Como de costume, estão convencidos de que os imperialistas norte-americanos, inimigos de sempre, estão por detrás dessa trama.

A políticos bem-intencionados, como o uruguaio Mujica, pode-se conceder a escusa de não estar a par dos meandros do que acontece no Brasil. Por seu lado, figurões como Morales e Maduro têm outra motivação. Abalados por percalços e derrotas recentes, veem com desespero o desmoronamento do regime lulopetista. Sabem que serão atingidos pelas ondas de nosso tsunami nacional. E que dificilmente sobreviverão.

Legado desastroso

Estatísticas 2O PIB per capita em dólares deve cair de US$ 11.566 em 2014, para US$ 8.490 em 2015 e para US$ 7.900 em 2016.

A renda dos brasileiros estará cada vez mais distante do padrão de países desenvolvidos – mesmo aqueles que enfrentam brutais dificuldades, como a Grécia, cujo PIB per capita é de US$ 21.682.

Esse é, em resumo, um dos grandes legados do lulopetismo, a ser sentido por gerações, e que só poderá ser superado por meio de uma grande mobilização nacional em torno de um projeto de país radicalmente distinto das fantasias irresponsáveis criadas por Lula & companhia bela.

Trecho de editorial do Estadão, 4 nov° 2015.

Eu também vou nessa!

José Horta Manzano

Herança maldita

É o que se depreende dos mais recentes «vazamentos» da turma do lulopetismo. Dois dias atrás, a notícia veio tímida, velada, à boca pequena, envergonhada. Já ontem, desavergonhou-se.

Senhor Okamoto (amigão do Lula) e senhor Jacques Wagner (ministro de dona Dilma) deram as mãos para declarar em uníssono: “Queremos nos aconselhar com FHC!” Salientaram o fato de diálogo entre presidente em exercício e antecessores ser normal.

Não precisava. Estamos acostumados à prática. Confabulações entre dona Dilma e o Lula são constantes. Qualquer motivo tem servido pra um deles pular num jatinho amigo e correr se aconselhar com o outro. Tanto ela vai a São Bernardo como ele voa a Brasília, tanto faz. Acontece a toda hora.

Novidade mesmo é ver os companheiros, acuados e com água pela cintura, pedir ajuda a FHC. O «nós» que, derrotado, pede arreglo ao «eles»! Nunca se viu nada parecido na história dessepaiz.

Chamada da Folha de SP, 24 jul° 2015

Chamada da Folha de SP, 24 jul° 2015

Ao se dar conta do que acontecia, dona Dilma reservou seu bilhete na aventura. Eu também vou nessa!

Para conversar, não há necessidade de anunciar pela imprensa. De toda maneira, simpatia e prestígio não se costumam transferir. Se a turma do «nós» tem a intenção de surrupiar um pouco da credibilidade do «eles», estão perdendo tempo. O poço em que se meteram é tão profundo que todos os ex-presidentes reunidos – vivos e falecidos – não teriam força pra puxá-los de volta.

Frase do dia — 228

«Cabe, sim, que as forças sociais, econômicas e políticas se organizem e dialoguem sobre como corrigir os desmandos do lulopetismo que levaram o país à crise moral e a economia à recessão.»

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, em nota publicada em 7 mar 2015.