Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

Tratado de Tordesilhas 2.0

O mundo segundo Trump
by 1alex06Alex/

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que, no mês de junho de 1494, embaixadores dos reinos de Portugal e de Castela (Castilha) se encontraram na localidade castelhana de Tordesilhas para firmar um tratado que dividia as terras por descobrir entre Portugal e Espanha. Aquele documento de 532 anos atrás foi posteriormente avalizado pelo papado, beneplácito indispensável num tempo em que o poder espiritual pairava acima do temporal.

Com a queda dos grandes impérios, no início do século XX, e com o processo de descolonização, nos anos 1960, a lei do mais forte, que tinha vigorado desde que o mundo é mundo, perdeu vigor. O planeta até acreditou estar assistindo a um movimento irreversível em direção a uma era de relações pacificadas entre Estados, baseadas no direito internacional e numa coexistência civilizada.

A prova dessa repulsa a guerras de conquista foi dada em 2014, quando a Rússia, tendo anexado a Crimeia pelas armas, foi afastada do círculo de países “normais” e escanteada para uma posição de “nação pária”, privada até de G8 (que se tornou G7).

A história seguiu assim, incerta, até que, sob o olhar apreensivo e impotente do resto do mundo, os eleitores americanos escolheram Donald Trump para presidir o país pela segunda vez. A partir daí, o mundo entraria em progressivo desequilíbrio. Todos os dogmas que imaginávamos definitivos e gravados na pedra ruíram. Tradicionais políticas internacionais de diálogo e dissuasão deram lugar à lei do mais forte, um recuo acentuado na história da humanidade.

Hoje assistimos, esgotados e desarmados, a um Trump voluntarioso, que ataca a vizinha Venezuela com porta-aviões, encouraçados, centenas de aviões e helicópteros, mísseis, militares e forças especiais, tudo isso para abduzir o líder do país e levá-lo para longe. Notas de “forte condenação” foram a expressão mais incisiva dos países ao redor do planeta, espantados e intimidados perante o espetáculo de força dado pelo Estado mais poderoso do mundo.

A agressividade de Trump, aliada a sua mansidão para com Putin e à distância que ele mantém de Pequim sugere que os tempos chegaram para a ressurreição do velho Tratado de Tordesilhas, agora em versão 2.0 e dispensada de bênção papal.

De fato, a cada dia que passa, nos apercebemos que, na cabeça de Trump, a ideia é ver nosso planeta subdividido em 3 zonas de influência. A primeira, que os EUA reservam para si, inclui as Américas e a Groenlândia. A segunda, destinada a viver sob influência de Moscou, cobre a Rússia, a Europa, os países da finada URSS e o norte da África. A terceira e última deve ser a área de influência de Pequim; compreende as demais regiões do mundo (ver mapa).

Acredito que Putin se sinta honrado e contente de ver que futuras agressões à Europa e aos antigos países satélites estejam, desde já, implicitamente reconhecidas por Trump. Já quanto a Pequim, não tenho certeza de que sua visão globalista coincida com o esquema que Trump parece propor. Não é do feitio chinês renunciar a comerciar com todos os países.

O mundo está entrando de pé firme numa nova era. Pode incomodar (e certamente incomoda) muita gente, mas não deixa de ser fascinante.

Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.

2025: o ano da normalização do anormal

 

by Valdo Virgo, desenhista
via Correio Braziliense

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 dezembro 2025

José Horta Manzano

Já estamos no futuro? Pois ele me parece bem diferente de tudo o que costumavam nos prometer no passado. Nos diziam que, no século 21, tudo seria “atômico” (termo da época para designar a modernidade), que os carros deslizariam pelo ar, que a comida se resumiria a pílulas coloridas, que viajaríamos à Lua com a velocidade do pensamento. Tirando o russo Putin, que não se cansa de nos lembrar que ele a possui, a arma atômica saiu do noticiário. Carros continuam se arrastando no engarrafamento insano das metrópoles. A comida continua baseada em prosaicos arrozes e feijões. Apesar de uma ou outra nave enviada à Lua, o astro continua mais ao alcance dos namorados que dos turistas.

Mas que diferença há então entre hoje e algumas décadas atrás? Vivíamos na quase certeza de que uma guerra entre nações de Europa e América fosse fantasma do passado, devidamente exorcizado e enterrado. Trágico engano. Aliás, essa impressão de paz garantida está entre os fatores que contribuíram para o ressurgimento de robustas falanges de extrema direita. A assunção do presidente Trump, em janeiro 2025, assustou as gentes e ribombou como trovão em céu azul. Brutal e impiedoso, o novo inquilino da Casa Branca, verdadeiro viking emerso de tempos primitivos, passou a comportar-se como se senhor dos mundos fosse. Ameaçou anexar o Canal do Panamá, a Groelândia e até seu vizinho do norte, o imenso Canadá. Prometeu expulsar 11 milhões de estrangeiros. Fez olhos lânguidos para o déspota Vladimir Putin. Bombardeou o Irã. Afagou Netanyahu, enquanto este destruía, com canhões e mísseis, o formigueiro miserável em que Gaza se transformou. Para coroar, aumentou dramaticamente os impostos de importação americanos, perturbando os fluxos da economia mundial.

Após o fulgurante progresso que tem feito, a IA deixa de ser vaga promessa e vai-se instalando como infraestrutura silenciosa de poder. A política econômica global passou a viver aos sobressaltos, com juros elevados e crescimento baixo. Todos os países, sem exceção, vivem em permanente estado de alerta, sempre na aflitiva espera do próximo anúncio bomba de Mr. Trump. O anormal normalizou-se.

E o Brasil nessa ebulição? É curioso notar que, em nosso país, dispensamos influências d’além-mar para abalar o curso de nossa existência. Sabemos muito bem como nos aperrear nós mesmos. Na política brasileira, 2025 foi o ano em que o futuro perdeu o glamour. Tivemos, já para o final do ano, o julgamento dos réus da sedição de 22-23, que deixou um epitáfio nulo: nenhum dos condenados exprimiu arrependimento – numa confirmação tácita que dispensa confissão.

Para quem ainda contava com alguma renovação do discurso político, o que sobrou foi a sempiterna gestão de crises. Assistimos à ressurreição de debates antigos, como soberania, nacionalismo, protecionismo. Incansável, o discurso presidencial insiste na velha pregação lulopetista de um Estado forte. Apesar da renovação pela qual passou a Câmara, com a entrada de representantes mais jovens e, esperava-se, portadores de ideias novas, nossa política continua entravada, pouco criativa, distante dos anseios dos eleitores, sempre mais reativa que propositiva. O próprio governo e, em certa medida, também a oposição, jogam para “não perder”, com pouco empenho em se preparar para as transformações de 2026.

Assim, vamos nos preparando para as eleições do novo ano, com pouca imaginação e uma dose de temor. O ‘Centrão’ vai se ampliando como força dominante de nosso Congresso, um agrupamento de contornos indefinidos, com parlamentares sem grude que os ligue, unidos tão somente por uma ganância sem freios, indigna de representantes do povo. Esse centro, em que vicejam personalidades amorais e apolíticas, funciona como espaço de contenção, não de liderança.

Se 2025 nos ensinou algo, foi que a política não está à beira de uma ruptura, mas está se acomodando num estado crônico de tensão estéril. É possível que 2026 não traga grandes eventos. E talvez seja exatamente isso que devemos temer.

Feliz ano novo a todos.

Direto para o segundo turno

Pesquisa Genial/Quaest
Cinco cenários de segundo turno

José Horta Manzano

Parecia blefe. Dez dias atrás, quando o encarcerado Bolsonaro designou o filho mais velho para suceder-lhe, pouca gente levou a sério. Este escriba, aliás, publicou neste mesmo espaço um texto um tanto sarcástico. O anúncio da escolha do filho me pareceu anzol pra fisgar peixe distraído. Imaginei que um candidato de sobrenome Bolsonaro carregasse um carma pesado demais para transpor a barreira dos que querem ver essa família pelas costas.

Passadas quase duas semanas, o quadro não mudou. A família Bolsonaro parece acreditar que o lançamento do primogênito à corrida presidencial é uma boa ideia. Pode até ser. Mas é bom dar uma olhada crítica à última pesquisa da Genial/Quaest, cujo resultado saiu neste 17 de dez°.

O relativo gráfico está no cabeçalho deste post. Os pesquisadores focalizaram no segundo turno – o que já dá sinal de que não preveem vitória de ninguém logo no primeiro turno. Para o segundo, foram testados separadamente cinco cenários. Cada um mostra o presidente Lula contra um dos cinco que, bem ou mal, já demonstraram interesse em participar.

Como mostra o gráfico, todos os cenários pressupõem que Lula chegue ao segundo turno. Eles mostram a disputa de segundo turno entre Lula e os candidatos, um por vez. Para enfrentar o atual presidente, o provável adversário seria um dos seguintes:

    • Cenário 1 – Flavio Bolsonaro
    • Cenário 2 – Tarcísio de Freitas
    • Cenário 3 – Ratinho Jr
    • Cenário 4 – Ronaldo Caiado
    • Cenário 5 – Romeu Zema

Em todos os casos estudados, o desafiante recebe entre 33% e 36% dos votos declarados. Quanto ao Lula, sua pontuação oscila entre 44% e 46%. Portanto, Lula leva, com folga, contra qualquer um dos adversários.

O resultado da pesquisa é surpreendente. À primeira vista, Lula parece firme, ancorado em torno dos 45%, um ponto a mais, um ponto a menos. Quanto ao desafiante, parece que os entrevistados não dão muita importância a eles. Seja qual for o nome, o segundo colocado teria 34%, 35% dos votos, um ponto a mais, um ponto a menos.

Não é estranho que nomes conhecidos, como Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas, empatem com personalidades cuja fama não atinge o nível nacional? Fica a impressão de que, para o eleitor, tanto faz como tanto fez o nome do candidato. Há os que não querem saber de mudança e se preparam para votar Lula. E há os que não querem saber de Lula e se preparam para votar no candidato de oposição que ficar para segundo turno.

A um ano da eleição, Lula parece ter tirado o bilhete premiado. Se nenhum fato extraordinário acontecer daqui até lá, o Brasil se encaminha para um inédito 4° mandato do pernambucano. Mas muita coisa pode acontecer, como candidaturas surpresas, desistências, atentados, facadas, crimes, batidas da PF. Tanta, tanta coisa.

Se Flávio bater o pé e seguir firme no páreo, passaremos por um inconveniente. Vai ser muito chato ter de passar mais um ano ouvindo, à exaustão, o nome Bolsonaro.

Quem pensou que estava livre, errou. Mas o dia do ostracismo chegará. Um pouquinho de paciência, senhoras e cavalheiros.

Cleptocracia & Cia Ltda

José Horta Manzano

Aquelas listas, elaboradas por observatórios internacionais, que classificam os países segundo a “percepção de corrupção”, costumam reservar para o Brasil uma posição destacada. Entra ano, sai ano, uns países melhoram, outros pioram, mas o nosso guarda duas características imutáveis: belo por natureza e corrupto por vocação.

Aliás, o termo “corrupção”, de tão batido, anda desgastado, enfraquecido. Usado com tanta frequência, já não informa sobre a infâmia que pesa sobre os responsáveis. “Fulano é corrupto” é acusação fraca demais, daquelas que não costumam levar ao tribunal, muito menos à cadeia.

E tem mais. Por definição, corrupto é aquele que defrauda o patrimônio público. O termo não serve para qualificar o mesmo delito quando ocorre entre particulares. Não se pode chamar de corrupto o dono da venda que rouba no troco. Nem o taxista que, ao levar um estrangeiro, dá uma volta pela cidade para alongar a corrida e cobrar mais. Nem o profissional de saúde que cobra um “por fora” para escapar ao tabelamento.

A melhor expressão a usar, portanto, é a mais simples, a que todos entendem e que diz tudo, dispensando explicações: ladrão. Ladrão, ladroeira, ladroagem são os termos a aplicar quando nos referimos aos altos círculos de nossa república (e não só aos altos).

Roubar não é só levar na cueca dólares de origem duvidosa ou carregar malas abarrotadas de notas verdinhas tiradas não se sabe bem de onde. A ladroagem é mais vasta. O digno parlamentar que reserva, digamos, dez milhões de reais como emenda pessoal para, em seguida, gastar esse capital numa obra viária executada por uma empresa sua, registrada em nome de um laranja, também está afanando nosso dinheiro.

O banqueiro Vorcaro, hoje entornozelado, roubou e trapaceou em transações da ordem de bilhões. Organizou convescotes na Europa para os quais convidou ministros do STF. Sabendo-se que fundos de pensão dos pequeninos foram engolfados no turbilhão do banco, as excelências do STF se tornaram, sim, cúmplices do banqueiro espertalhão. Quem aceita uma vilegiatura em Londres custeada com dinheiro desviado dos que pouco têm está sendo desonesto. É cúmplice do ladrão.

Se o distinto leitor e a gentil leitora observarem em torno, é capaz de descobrirem que estamos rodeados de ladrões. Vivemos no meio de uma população em que uns sugam os outros, todos atrás de levar vantagem e puxar a brasa para a própria sardinha. Não me digam que ditadura é a solução. Não é. Tivemos uma braba durante 21 anos, cujo objetivo era “caçar comunistas”. Roubar, sempre pôde, antes da instalação do regime e depois de sua queda.

Isso posto, é permitido sentir um certo desalento. Nosso país nasceu torto e carrega até hoje esse pecado original. Mas o Natal vem aí. É tempo de se empanturrar e, por uns dias, imaginar que se está vivendo na Finlândia. Por lá, Papai Noel passa duas vezes: na ida e na volta.

PS – Corrigindo o título:
Cleptocracia & Cia Ilimitada

Coisa de louco

Câmara Federal
Mesa diretora

José Horta Manzano

Está em tramitação um projeto de lei que objetiva tornar obrigatório um exame de avaliação psicológica para obter e para renovar a CNH. Quanto à renovação, uma exceção será reservada para os bons condutores: os que não tiverem cometido infrações poderão renovar sem avaliação.

Se dependesse de mim, essa exceção cairia. Nem sempre um comportamento perigoso no tráfego é sancionado por infrações. Um motorista agressivo, daquele tipo que pode, a qualquer momento, se transformar em potencial assassino, não é necessariamente multado a cada vez que se exacerba.

Se essa lei já estivesse em vigor e se o exame fosse sempre bem aplicado, seriam menos numerosos os homicidas que usam carro como arma de abalroar, arrastar e esquartejar desafetos. Em teoria, os condutores mentalmente desequilibrados estariam condenados a pedir carona pelo resto da vida. Sem chance de arrastar ninguém.

Sem sombra de dúvida, o costume de exigir avaliação psicológica de todo condutor de veículo a motor é medida excelente. Se, com isso, já estamos entre os campeões mundiais de mortes no tráfego, imagine se não tivéssemos o exame. Talvez o nível de agressividade tolerado precise ser revisto.

Nestes últimos treze anos, desde que dei início ao blogue, já devo ter tocado um par de vezes no assunto que vou agora abordar. Vale a pena insistir.

Exigimos avaliação psicológica de todo candidato a condutor de veículos, o que é excelente medida. Não queremos desequilibrados trafegando. No entanto, até hoje não nos passou pela cabeça estender essa medida aos candidatos a cargos públicos, especialmente aos cargos eletivos.

Se o teste psicológico fosse já obrigatório para essa categoria de cidadãos em 1960, não teríamos eleito Jânio Quadros para a Presidência, eliminando assim um dos fatores que atiçaram o desastre do golpe militar.

Figuras de mente embaçada nunca teriam passado no teste. Teríamos evitado Tenório Cavalcânti, o deputado que jamais se separava de sua metralhadora apelidada “Lurdinha”. Naqueles tempos sem detector de metais, entrava na Câmara com ela, disfarçada debaixo de uma capa preta.

Não teríamos eleito Roberto Jefferson, aquele que atirou granadas quando da visita da PF.

Jair Bolsonaro é outro que jamais teria aparecido nas cédulas eleitorais de sua primeira candidatura à vereança do Rio, em 1989.

Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e outros desequilibrados também não teriam passado no exame. Reprovados direto, sem direito a segunda época.

Se a avaliação for aplicada nas eleições gerais de 2026, nosso Congresso estará higienizado, como se tivesse sido lavado com creolina(*).

Como é costume dizer, “Se a creolina falhar, só Deus pode salvar”.

(*) Não confie em aparências. Creolina não é palavra ofensiva nem politicamente incorreta. Não tem parentesco com crioulo. É antiga marca de desinfetante hoje praticamente em desuso. Exala cheiro forte e característico. O termo deriva de creosoto, variedade de alcatrão destilado.

Unção dinástica

José Horta Manzano

Quando o capitão Bolsonaro designou seu primogênito para suceder-lhe, muita gente se surpreendeu. Consideraram que o ungido talvez não dispusesse do estofo necessário para o sublime encargo de presidir nossa república. Outros acharam que, além de não estar à altura das expectativas do pai, o primogênito fosse ruim de voto – fato que, na outra ponta, teria deixado entusiasmada a oposição.

Em primeiro lugar, vamos nos pôr de acordo. Em monarquias tradicionais, não cabe ao monarca designar seu sucessor – antigas regras se encarregam de fazê-lo. Já num nascente arremedo de dinastia, como a dos Bolsonaros, tradições não há. Eis por que, com as regras ainda por escrever, coube ao patriarca apontar o próprio sucessor.

Mesmo agrilhoado pelos ferros que o entravam nos calabouços da república, teve lucidez suficiente para dar-se conta de que seu reino tinha chegado ao fim e que era chegada a hora de abrir mão de alguma ilusão de poder que ainda subsistisse. Está aí a grande prova de lucidez de um homem que, por fim, se deu conta de estar encarcerado.

Só se as circunstâncias forem realmente adversas, o filho primogênito deixará de ser candidato à sucessão do pai. Mas o caminho fica traçado: cabe ao rei posto designar o sucessor. Todo e qualquer pretendente que ouse apresentar-se como candidato legítimo a suceder ao monarca caído não passará de reles usurpador.

Até aqui, falamos de sonhos e fantasias. Na vida real, Bolsonaro acaba de se dar conta de que o futuro de seu sobrenome está comprometido. Um dos filhos, aquele que conspirou contra o Brasil, nâo deve voltar à pátria tão cedo. Outro rebento jogou a toalha e renunciou definitivamente à política. O filho mais jovem não parece ter envergadura suficiente para voos mais altos: elegeu-se vereador por uma estação balneária catarinense. A esposa é uma figura; dizem as más línguas que não passa de aventureira sem lastro e sem passado.

Eis por que o capitão entregou o bastão ao primogênito: por falta de opção.

Essa novela brasileira se encaixa no modelo latino-americano de tentativas pseudodinásticas. Já aconteceu no Peru, com Alberto Fujimoro, que designou a filha, sem sucesso. Já surgiu na Argentina, com Juan Domingo Perón, que transmitiu o encargo à esposa, que levou a aventura ao desastre. O caso do Haiti foi outro que terminou em tragédia, com Duvalier pai morto e Duvalier filho exilado.

O Brasil decente gostaria que a campanha eleitoral do ano que vem assinalasse o enterro dos populismos grosseiros que nos atormentam há décadas. “De direita” ou “de esquerda”, que acabem todos comendo poeira e abrindo alas para nova geração de políticos mais comprometidos com o eleitor do que consigo mesmos. Não custa sonhar.

O chanceler alemão e seus problemas

Friedrich Merz, chanceler da Alemanha
by Silvan ‘Swen’ Wegmann, desenhista suíço

 

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 dezembro 2025

José Horta Manzano

Quinze dias atrás, Herr Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, fez uma declaração de desdouro ao Brasil, em especial à cidade de Belém, que o tinha recebido dias antes. Discursando perante uma seleta plateia na Associação Alemã do Comércio, foi direto ao ponto: contou que se sentiu feliz de poder deixar “aquele lugar” e voltar a seu país após a visita de um dia que fez à COP30. De suas palavras, exalou profundo desprezo.

O mundo estranhou a declaração. No Brasil, então, ela causou forte rejeição ao personagem. Arguiu-se que era de mau gosto tratar assim o país que o havia acolhido. Ficou, principalmente, a desagradável sensação de um visitante arrogante, que houvesse explodido devido ao acúmulo de pressões profissionais ou pessoais. Talvez o calor equatorial tenha sido demasiado para seu fusível, que acabou queimando.

Que ninguém tome este escrito por tentativa de desculpar o chanceler alemão. Não é esse meu propósito. É que, quando o chefe do governo de um país importante age como esse senhor agiu, fico curioso para descobrir o que lhe pode ter passado pela cabeça naquele momento. Excetuando raros líderes como o atual presidente dos EUA, não é comum ouvir essa gente falando abobrinha.

Quando pisou o solo brasileiro em Belém, o senhor Merz estava a dois dias de seu aniversário de 70 anos. Talvez o aproximar da cifra arredondada lhe tenha perturbado a ideia. Nem todos enfrentamos de bom humor a entrada em nova década de vida. Excetuando essa desculpa anedótica, os caminhos atuais da política de seu país devem estar-lhe dando calafrios.

Para os mais jovens, a queda do Muro de Berlim faz parte da história. Já para os mais antigos, foi acontecimento espantoso, acompanhado no dia e na hora. Este escriba teve o privilégio de assistir pela televisão ao vivo.

Naquela noite de 9 para 10 de novembro de 1989, os principais canais da Europa suspenderam a programação para transmitir as inacreditáveis imagens que chegavam de Berlim, o povo aglomerado ao pé do Muro, centenas de jovens inebriados diante do inesperado momento de liberdade, os carrinhos Trabant estalando e petardeando ao transpor a passagem entre a Berlim-Este e Berlim-Oeste, gente a pé, gente de bicicleta, todos de sorriso deslumbrado, recebidos por uma turma também sorridente e solícita apesar da noite fria de novembro. Foram imagens que ficaram na retina para nunca serem esquecidas.

Menos de um ano depois, estavam reunificadas as duas Alemanhas, que eram relíquias da divisão do país decidida na Conferência de Potsdam, em 1945. Assim, em princípio, a Alemanha Oriental (comunista) e a Ocidental (capitalista) passaram a formar um único país. No entanto, passados 36 anos, as duas antigas Alemanhas ainda não formam um Estado uniforme.

O salário é um bom exemplo. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental (capitalista), o salário mensal médio é hoje de 4.810 euros. Já nos estados que formavam a antiga Alemanha socialista, o salário é de 3.973 euros. O número de desempregados é outro indicador da desigualdade. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental, a taxa é de 5,7% de desempregados, enquanto ela é de 7,5% nos estados orientais. A diferença dos PIBs per capita é ainda mais impressionante. No Oeste, 54.162 euros, e no Leste, 37.711 euros. O envelhecimento da população é outro indicador que denota a baixa atividade produtiva do Leste em contraste com o Oeste.

Essas disparidades entre estados alemães é perigosa. O permanente descontentamento da população da antiga Alemanha socialista é caldo de cultura propício à criação de partidos políticos saudosistas, que se aproveitam da insatisfação para se implantar e florescer. O AfD, partido da extrema direita xenófoba e neonazista, professa ideologia nacionalista, excludente, antieuropeia e anti-imigração. A cada nova eleição, tem plantado raízes cada vez mais profundas na antiga Alemanha comunista. Eis o exemplo de um movimento que, a continuar crescendo, periga balançar a democracia alemã.

Herr Merz é primeiro-ministro há somente 6 meses. Além das dores de cabeça causadas por uma Ucrânia invadida pela Rússia e das contrariedades do dia a dia, o chanceler tem esse problemão de conduzir duas Alemanhas que se entendem mas não se compreendem. Ele não quer passar para a história como aquele que facilitou a volta do nazismo a seu país.

A moléstia do general

José Horta Manzano


O caso peculiar do general que, depois de ter sido diagnosticado com Alzheimer, ainda ocupou, durante anos, um dos mais altos cargos da República.


O ônus da prova
Nos casos judiciais que viram notícia, tenho reparado a frequente ocorrência de uma prática um tanto curiosa. Não sei se é regra legal ou simples costume judicial. Tenho observado que, quando um réu (ou até um condenado) alega sofrer de uma patologia qualquer, cabe a ele mesmo, por meio de seu(s) advogado(s) trazer a prova da veracidade da informação. O caso se repete agora, com o mal de Alzheimer do general Heleno.

É verdade que é obrigação do acusado provar aquilo que alega. Se garante que estava em tal lugar (na hora do crime, por exemplo), tem de trazer testemunhas ou provas que possam ser aceitas pelo tribunal. Cada alegação sua tem de ser amparada por testemunhos ou provas, caso contrário, não será considerada.

No entanto, no caso de uma doença presente, seria mais razoável que o próprio tribunal se encarregasse de mandar o réu enfrentar uma junta médica, composta por profissionais escolhidos pela Justiça. A função da junta seria proceder aos exames necessários para confirmar ou invalidar as alegações do réu. Encarregar o doente de trazer atestados de seus médicos pessoais não me parece boa prática. Abre a porta para atestados de compadrio.

O STF deveria fixar um trato. Que o acusado se apresente diante da junta médica. Caso fique decidido que seu estado é compatível com o encarceramento, vai preso. Daqui a seis meses (ou um ano, conforme a Justiça determinar), o indivíduo passaria de novo diante da junta. E assim por diante, de ano em ano. Enquanto sua saúde fosse julgada compatível com a prisão, ele continuaria preso. Me parece solução equitativa.

A progressão do mal
Segundo artigo de Elio Gaspari de domingo 30 de novembro, o Alzheimer do general está detectado desde 2018, ou seja, sete anos atrás. De lá pra cá, Heleno já foi ministro no governo de Bolsonaro durante anos, e em seguida passou pela casa “conspiração de golpe”. Foi preciso chegar ao fim do processo e à condenação inapelável para o Brasil ficar sabendo que o militar sofre de uma patologia neurodegenerativa progressiva.

Essa moléstia progride com velocidade diferente, conforme o paciente. No caso do general, a progressão parece ser lenta. É possível que a afecção tenha sido detectada, mas que as funções cognitivas não estejam ainda comprometidas a ponto de fazer que a prisão perca o sentido. Mas esse diagnóstico, só uma junta médica independente poderá dar.

Passaporte italiano

Moggio Udinese, vila de 1.750 habitantes

José Horta Manzano

Vosmecê decerto conhece alguém que obteve, ou está tentando obter, o passaporte italiano. Até o começo deste ano, em matéria de transmissâo da cidadania, a Itália se comportava como verdadeira mãezona. Todo descendente de italiano, ainda que fosse de terceira, quarta, quinta geração (ou mais) tinha direito a recuperar a nacionalidade do antepassado – desde que conseguisse a prova documental da ascendência, o que nem sempre é fácil, quanto mais gerações separassem o aspirante do antepassado que emigrou.

Uma lei, votada no parlamento de Roma, veio dar um basta a essa prática que encantava mais e mais brasileiros. A possibilidade de transmissão da cidadania ficou restrita a filhos e netos do antepassado italiano. Mas por que razão foi esvaziado o antigo pacote de bondades?

Há várias razões. Entre as principais, estão as que cito abaixo.

A extrema direita
A Itália é atualmente governada por uma coalizão de direita, com forte componente de extrema-direita. A primeira-ministra, por exemplo, é Giorgia Meloni, afiliada a um partido com raízes no neofascismo do pós-guerra. Como se sabe, a direita extrema professa ideologia excludente, anti-imigração, antieuropeia, contra tudo o que não for legitimamente italiano.

Os descendentes de italianos emigrados, nascidos no exterior, têm poucas referências de italianidade. Em geral, o antepassado que chegou ao Brasil já faleceu, talvez seus filhos também. Com o tempo, a ligação com o pais de origem vai se esmaecendo. A língua e os costumes se perdem. Muitas vezes, o sobrenome é o único traço que distingue um italiano de terceira geração de um seu conterrâneo que não tenha antepassados italianos.

Além desse ponto, as autoridades italianas tinham chegado a um ponto de saturação com o comportamento de brasileiros aspirantes ao cobiçado passaporte.

Os candidatos
Para obtenção do reconhecimento da nacionalidade, a regra era (e continua sendo) entrar com a papelada no Brasil, por meio do consulado italiano, em seguida aguardar o andamento do processo. Estes últimos tempos, porém, a fila estava comprida e a espera era longa e angustiante.

O brasileiro, pouco afeito a se conformar a regras (que são sempre feitas para os outros, não para ele), procurou – e encontrou – atalhos para furar a fila e passar à frente dos outros.

Um caminho que os mais abonados utilizaram foi entrar com um processo administrativo na Itália exigindo a outorga dos documentos italianos aos quais tinham direito. Pouco acostumada a ver a Justiça sendo usada de atalho, a Itália não pôde deixar de dar seguimento às solicitações e fazer esses requerentes passarem à frente dos outros.

Não preparadas para enfrentar essa montanha de novos pedidos, as prefeituras dos vilarejos, lutando com falta de pessoal, tiveram de tirar funcionários de outras funções e deslocá-los para cuidar da inscrição dos “novos” cidadãos. A grita chegou aos ouvidos dos deputados em Roma.

Vosmecê pode argumentar que a imigração italiana não se dirigiu somente ao Brasil, mas também a outros países. Tem razão, mas os maiores contingentes se deslocaram para o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Os que foram para a América do Norte não parecem mui desejosos de recuperar a antiga nacionalidade. Os argentinos já descobriram o caminho das pedras há décadas e, hoje, já têm em mãos o precioso documento. Sobram os brasileiros, que só se aglomeraram à porta dos consulados nos últimos 20 ou 25 anos.

Bom, deu ruim, como convém dizer. Quem tem pai, mãe ou avós italianos, está salvo. Mas é bom não facilitar e correr já, porque leis podem piorar a todo momento. Quem só tem bisavô ou antepassado mais distante, pode dizer adeus.

Nossa característica nacional de achar normal passar a perna nos outros para obter vantagem pessoal, ainda que seja por vias ilegais, aprontou mais uma.

O MP da região da Venezia Giulia (norte da Itália) ficou encafifado com o fato de Moggio Udinese, um vilarejo das redondezas, de somente 1.750 habitantes, ter recebido nada menos que 84 solicitações de reconhecimento de cidadania italiana nos últimos 6 anos, todas provenientes de requerentes brasileiros. Todos eles declaravam residir na vila, sempre no mesmo imóvel, com atestado de residência em perfeita ordem, fornecido pela prefeitura. Muito estranho.

Feitas as investigações, descobriu-se que a clientela de brasileiros era presa fácil para qualquer quadrilha, ainda que mambembe. Com atestados falsos, documentação adulterada, cumplicidade de funcionários da prefeitura e, mui provavelmente, anuência do prefeito, estava formada a corrente da felicidade. Pela módica soma de 6.000 euros (37 mil reais), às vezes um pouco mais, o aspirante acabava conseguindo seu passaporte no prazo de um ano. Talvez precisasse apresentar-se uma ou duas vezes pessoalmente na Itália, para comprovar a presença. Se preferisse não ter de vir à Itália, bastava pagar um suplemento.

A notícia saiu hoje nos jornais da região da Venezia Giulia. Não se sabe ainda quais serão as consequências da falcatrua. Por mim, confiscava os documentos italianos dessa turma toda, e mandava cada um para o fim da fila, a esperar sua vez como todos os outros. Se quisessem obter restituição dos seis mil euros, que processassem o chefe do bando.

O lampião do capitão

José Horta Manzano

Circula pela mídia nesta terça-feira um vídeo mostrando uma revoada de repórteres, microfone na mão, todos correndo atrás de um comboio de automóveis de vidros fumês que se dirige à entrada da Polícia Federal de Brasília.

Quando vi a cena, imaginei que tivessem descolado um filmezinho do Bolsonaro sendo preso. Mas logo me lembrei que ele foi levado embora no lusco-fusco matinal de uma Brasília cochilenta, na maior discrição, sem algema e sem fotógrafo.

Atrás de quem estariam aqueles repórteres, então? Seria mais um figurão sendo conduzido para se explicar com o delegado? Olhei até o fim do vídeo. Surpresa: não era novo prisioneiro, era apenas uma visita. Tratava-se de um dos filhos de Bolsonaro, aquele que é senador e que era considerado moderado, até a semana passada, quando decidiu convocar uma prece coletiva para salvar o pai da cadeia. Vinha chegando para visitar o pai encarcerado.

Agora cogito: será que não estarão dando a essa gente uma importância que não têm? Bolsonaro foi eleito em 2017, por um desses golpes de má sorte que a natureza reserva a nosso país. Setenta anos atrás, o lema de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5” – anos de progresso e desenvolvimento, subentendia-se. O lema que se pode hoje atribuir ao governo de Bolsonaro é “40 anos em 4” – anos de destruição e marcha à ré, entende-se.

O capitão, como figura política, está morto e enterrado. Pode até ressuscitar um dia, que nada é impossível em nosso país, mas por enquanto está fora do jogo. A partir daí, não atino com a motivação de quem despacha a revoada de microfones atrás do filho que vem à cadeia visitar o pai condenado. Será a vontade de algumas redações de manter acesa a chama do lampião do capitão? Se não for isso, qual será o motivo de tanto auê?

Nunca serei preso!

José Horta Manzano

É imprudente fazer promessas que a gente está arriscado a ser incapaz de cumprir. Numa época como a nossa, então, em que tudo o que se diz ou faz fica gravado, registrado e arquivado com som e imagem, é duplamente imprudente.

Quem cospe para o alto periga receber a cusparada de volta na moleira. Recebi esse conselho de criança, mas parece que tem gente que não recebeu. Ou nâo quis seguir.

“Por Deus que está no céu, eu nunca serei preso”

Foi o que declarou um Bolsonaro triunfante em setembro de 2020 e em maio de 2021. Fez isso em plena pandemia, entre um e outro passeio de jet ski. Talvez já pressentisse, com anos de antecedência, o que o destino lhe reservava.

Êta família trapalhona! Só fazem besteira. Parece até que fazem de propósito, um trabalhando contra o outro, só para se atrapalharem mutuamente. Primeiro, teve aquele filho bobão que foi para os EUA, fez o que fez, deixou os juízes do STF mais enfezados do que estavam, prejudicou o pai, e agora, se voltar, vai direto para a Papuda. Estes dias, veio o mais velho, aquele que todos achavam fosse o menos abirutado, marcou uma aglomeração em frente à casa do pai, às vésperas do inevitável encarceramento. Pra coroar, no entrar da madrugada, o pai ainda tentou forçar a tornozeleira. (Não conseguiu, mas o mal estava feito.) Se quisessem forçar o encarceramento do pai, não teriam agido diferentemente. Gente estúpida.

O resultado da aventura é que Bolsonaro pai entrou na cadeia para uma boa temporada. Não faz mais sentido aliviar o regime para uma domiciliar – se isso fosse feito, voltaria o elevado risco de fuga. Não vejo como escapar dessa quadratura do círculo.

Uma sugestão, se me fosse permitido dar, seria bloquear uma pequena ala de um hospital de Brasília e arranjar aí uma cela para Jair Messias. O regime de cela especial da Papuda permaneceria: quarto individual, saleta, banheiro privado, cozinheta, armário individual. Ninguém poderia entrar nessa ala prisional, a não ser pessoas autorizadas.

Com isso, o prisioneiro teria seu direito a ser assistido em sua saúde 24 horas por dia. Se viesse a falecer, não teria sido por falta de hospital. Fora isso, o regime usual na Papuda seria aplicado: número de visitantes, horário das refeições. Nenhuma saída temporária da prisão seria necessária, dado que a assistência já estaria sendo fornecida in loco.

Bem, antes de nos despedir, vamos à moral da história:

Nunca se deve dizer nunca.

COP: o grande evento

José Horta Manzano

Em maio de 2023, quando o Brasil se ofereceu como sede da COP30, me senti um tanto inquieto. A COP é um evento muito importante, com delegações de mais de 150 países, conferências, colóquios, discursos, tradução simultânea. São milhares de delegados, sem contar turistas, jornalistas, repórteres, equipes de televisão. Requer organização perfeita, difícil de ser alcançada.

Em dezembro 2023, na sessão plenária da COP28 em Dubai, a candidatura de nosso país foi confirmada para sediar a COP30, a realizar-se dois anos mais tarde. Lula da Silva, eufórico e sorridente como se tivesse acertado o prêmio grande da Mega Senna, declarou à plateia que Belém, como grande cidade amazônica, estaria perfeita para acolher o evento.

Se o Lula se alegrou, eu fiquei arrasado de vez. (Em vez de arrasado, “devastado”, anglicismo da moda, também serve.) Vamos ter problemas graves, pensei. Não comentei com ninguém, que é pra não parecer ave agourenta. Não é da noite pro dia que se capacita uma cidade inexperiente a acolher tanta gente com tanto aparato. Para uma manifestação desse quilate, não temos no Brasil mais que uma ou duas capitais preparadas a receber.

De fato, Belém pode receber com esmero nossos turistas internos, sejam eles dezembristas ou julhistas. Já uma multidão de estrangeiros vem com outras expectativas. Não se lhes pode servir tacacá e tucupi todos os dias. A estrutura hoteleira de Belém não está armada para receber essa massa de visitantes de uma tacada só. O primeiro desfalque foi a decisão de certas delegações que, ou não vieram, ou diminuíram drasticamente o número de visitantes, o que é pena.

O Estadão publicou as impressões de uma fotógrafa da ONU acostumada a comparecer a eventos de magnitude importante para fazer seu registro de imagens. Em sua conta pessoal no Instagram, a moça, que se chama Kiara Worth, contou o que viu na COP30 de Belém:


“Chuvas torrenciais, inundações, uma invasão ao local, militares em cada esquina, calor sufocante, frio congelante, cortes de água e energia e, hoje, o local estava literalmente em chamas”, escreveu. “É inacreditável. Nunca aconteceu nada parecido.”


Kiara Worth descreveu a COP de Belém como a conferência mais difícil que já cobriu em sua longa carreira. Depois do incêndio, ainda teve ânimo para uma tirada filosófica: “Viemos aqui em busca de um acordo climático, mas talvez a verdadeira lição seja mais profunda. A verdade é que o mundo inteiro está em chamas e temos esta breve janela de oportunidade para escolher o que emergirá da fumaça.”

Quanto a nós, o vexame já foi dado. Vamos ver se, da próxima vez, a escolha leve em conta a capacidade da cidade sede em acolher dignamente os visitantes.

Lula III – 3 anos, 11 meses

José Horta Manzano

Em matéria de governo ruim, Lula 3 decaiu e está empatando com Dilma 2. Até que tinha começado bem, com aquela subida de rampa com direito a alegre convescote multicolorido, até com cachorro abanando o rabinho. Bom, precisa dizer que o alívio de não ver mais Bolsonaro nas paragens – e, principalmente, podê-lo chamar ex-presidente – era tão intenso, que qualquer espetáculo mambembe teria encantado o distinto público.

Mas o espetáculo não foi mambembe. O desfile no Rolls Royce da rainha foi como se deve, com presidente e primeira-dama, sem filho destrambelhado aboletado no banco de trás. Naquele dia, um Brasil aliviado até acreditou que tudo seria diferente dali pra frente. Tolinho…

Transformar água em vinho pode até ser possível, mas precisa de um tempo no caldeirão da feiticeira. Da noite pro dia, só na Bíblia. Portanto, todos deviam ter desconfiado que mudança tão brusca, de um governo tenebroso para um período de sonho, não podia acontecer de um dia pro outro. Como, de fato, não aconteceu.

Hoje, três anos passados e a um ano das próximas eleições presidenciais, a miragem que a alegre subida da rampa nos tinha trazido se dissipou. O sonho não passou de uma escapada passageira. Voltamos agora à realidade, do jeito que as coisas se apresentavam in statu quo ante.

O crime endêmico que gangrena nosso país dá mostras de estar mais organizado que o próprio Estado. Já era assim quatro e oito anos atrás, só que agora está mais forte, mais ancorado, mais diversificado. Enquanto o Estado cochilava (ou colaborava, vá saber…), o crime se profissionalizou.

Se até hoje não surgiu um Eliot Ness pra dar um jeito na criminalidade, a gente vai perdendo a esperança de que apareça um dia. O crime encontra muito respaldo país adentro, no Legislativo, no Judiciário, na indústria, no agropecuário, na banca e na finança. Desalojá-lo vai ficando cada dia mais complicado. Está em votação um projeto de lei dito “antifacção”, como se o crime organizado se desmantelasse por força de lei. Acredite quem quiser.

A um ano das eleições, Lula 3 entrou em modo Dilma. Como dizia Madame, “em tempo de eleição, faz-se o diabo”. Pois o diabo está de novo solto. Contenção de gastos? Teto de despesas? Suspensão na contratação de funcionários? Tudo balela! A gastança corre abalada, desenfreada, chispada. Como de costume, há quem aproveite para tirar uma casquinha. Mas, olhe lá, pequenininha.

Talvez bem aconselhado, Lula diminuiu a frequência de besteiras pronunciadas, especialmente em política internacional e em assuntos dos quais ele tem visão viciada por algum vírus contraído na mocidade. Isso nos ajuda a passar menos vergonha fora do país, mas não diminui nossa taxa de criminalidade nem colabora com nosso ajuste de contas.

No primeiro turno das presidenciais, não sei ainda a quem darei meu voto. Mas no segundo, caso se enfrentem Lula e um outro, vai depender. Se esse outro me parecer um pouco menos pior do que os que estão por aí, leva minha preferência. No entanto, se for um dos que se comprometeram a indultar um Bolsonaro hoje condenado e encarcerado, não há dúvidas: voto no Lula.

Que remédio?

Aporofobia 2: Guarujá

Grand Hôtel, Guarujá
Primeiras décadas do século XX

José Horta Manzano

Faz poucos dias, fiquei indignado com a iniciativa da Prefeitura de Florianópolis de obrigar, a todo depenado que chegasse, fazer meia-volta antes que tentasse fincar pé na cidade. Me pareceu expressão violenta de aporofobia – repulsa a pobre.

Infelizmente, as classes dominantes (não só no Brasil, mas em todo o mundo) nem sempre são compostas por almas altruístas. Não costumam enxergar os infelizes que precisam de ajuda. Talvez vosmecê se lembre do dia em que Bolsonaro negou a existência da fome no Brasil: “Mas no Brasil ninguém passa fome!”, disse ele. Fez como fazem os que acreditam que a solução do problema consiste em negar sua existência.

Estes dias, de novo, fiquei sabendo de ocorrência de aporofobia explícita – a crer que tais fatos estão se tornando mais frequentes, com a liberação de sentimentos antes represados, mas agora permitidos, pela ascensão da extrema direita.

Guarujá, estação balneária situada no litoral do estado de São Paulo, já foi chique e livre de pobres, mas hoje, com as atuais facilidades de transporte, é cada dia mais procurada. Um século atrás, a estação era realmente para um punhado de famílias endinheiradas, que se hospedavam no Grand Hôtel para uma temporada de dois, três ou quatro meses.

Esse tempo passou. A partir dos anos 1950, prédios começaram a enfeiar a bucólica paisagem. Hoje o Guarujá se despersonalizou. Tornou-se uma fileira de edifícios sem alma, encavalados uns nos outros, com diferentes perfis, cores e alturas, a mostrar que nas orlas mal construídas nem sempre é feriado nacional.

É essa paisagem modernosa que tem atraído visitantes domingueiros, com certeza vindos da aglomeração paulistana em ônibus pretado. São turistas de poder aquisitivo modesto, que trazem a própria refeição e pisam a praia só para pegar uma cor e poder fazer inveja à vizinhança na segunda-feira.

A governança do município não tem apreciado nem um pouquinho essa moda. Impôs, a peruas e ônibus, a obrigação de pagar o que chamam “taxa de turismo” entre R$ 926 e R$ 4.630. Os visitantes indesejados, considerando os montantes exagerados, apelaram para a justiça. O tribunal acaba de publicar seu julgamento dando razão aos visitantes: os valores cobrados são incompatíveis com o o objeto da cobrança.

Concedo que, num domingo de sol (ou sem sol, dá no mesmo) é desagradável espreguiçar-se na areia ao som de um potente alto-falante que toca músicas que você não teria escolhido. Só que o remédio contra isso é mais simples do que impor taxas tão escandalosamente dirigidas contra visitantes pobres. Basta o município proibir que se toque música com alto-falante na praia. Hoje em dia, todos têm um celular e um par de fones de ouvido, pois não?

Esses domingueiros gesticulam, riem, brincam e falam muito alto? Pois acredite que não estão alegres porque são pobres – há muito bacana que, embora sizudo e mal-humorado, solta palavrão o tempo todo. Em voz bem alta, o que incomoda do mesmo jeito.

Quem considerar essa convivência insuportável, tem outra opção. Aos domingos, em vez de ir à praia no Guarujá, dê uma esticada até São Sebastião e combine com um barqueiro que o leve até uma praiazinha deserta, do outro lado da ilha, lugar paradisíaco onde dá pra sonhar que se está em Tahiti.

Mas, se quiser voltar inteiro, não se esqueça de levar um bom repelente contra mosquitos, pernilongos e muriçocas.

COP30: os zigues e os zagues

José Horta Manzano

Vamos fazer de conta que a COP30 é um zigue-zague. Vamos combinar as regras do jogo? Digamos que o zigue é o positivo, o que vai pra frente, são passos que seguem as regras do jogo. Já o zague é o negativo, o que vai pra trás, são decisões que contrariam as regras e fazem o jogo fracassar.

Quinta e sexta, nos preliminares da COP de Belém, presenciamos muito oba oba. Dirigentes do mundo todo, reis e rainhas, Macron tietado na avenida, o Príncipe de Gales, mão no coração, declarando-se encantado com o Brasil. Mas o tapete vermelho durou só dois dias. As excelências se foram e entregaram a arena aos que aqui vieram para o trabalho de salvar a vida no planeta da autoextinção que se aproxima.

Zigue
Foi num arroubo, provavelmente irrefletido, que o presidente Lula propôs que a COP30, atribuída ao Brasil, se realizasse em Belém. Segundo ele, o propósito desse tipo de reunião combinava com um ambiente amazônico.

Zague
No entanto, ao propor Belém, Lula deu mostra de que, como muitos conterrâneos, não se dá plenamente conta da utilidade de um congresso desse tipo. Ele parece imaginar que ali se discute unicamente a preservação da floresta equatorial e mais nada. No entanto, o tema é bem mais amplo. O abandono da utilização de combustível de origem fóssil é tão premente quanto o fim do desmate.

Problema colateral não previsto por Lula ao designar Belém: a cidade não está capacitada a abrigar tantos hóspedes estrangeiros ao mesmo tempo. Falta infraestrutura decente, falta alojamento, faltam restaurantes, falta quem pelo menos balbucie inglês. Simpatia é bom, mas não basta.

Zigue
O Brasil tem mostrado aplicação no sentido de que o saldo desse congresso seja positivo e resulte em avanço real da causa. É sempre importante que o anfitrião abrace o tema que estará sendo debatido.

Zague
Continua um mistério o fato de os barões do agronegócio brasileiro não estarem implicados na luta contra as mudanças climáticas. Eles estão entre os maiores interessados. Tanto na agricultura quanto na pecuária, o regime de chuvas é essencial. Sem precipitações regulares, que caiam na temporada certa e em quantidade razoável, não é possível obter boa colheita nem criar gado saudável. Sabendo-se que o gradual desaparecimento da floresta amazônica já está modificando o clima brasileiro, com longas secas e enchentes catastróficas, cruzar os braços para o clima e divertir-se num rodeio é suicídio programado.

Zigue
Bom de bico que sempre foi, o presidente Lula tem feito belíssimos discursos, que incluem até ousados beliscões em Donald Trump.

Zague
A escutar nosso presidente, ninguém diria que ele não vê a hora de fazer os primeiros furos de prospecção de petróleo na margem equatorial. Ele me faz lembrar o bêbado e a equilibrista, sendo que, no caso, o bêbado e o equilibrista são o mesmo personagem. É difícil exercício de equilibrismo entre a proteção do clima e a candidatura do Brasil à OPEP.

Um Zigue para resumir
Está passando da hora de os brasileiros aprenderem, desde a escola elementar, que a proteção do meio ambiente começa em casa, nos pequenos gestos do quotidiano. Plantar uma mudinha no Dia da Árvore é bonito, mas não basta. A água que escorre sem necessidade da torneira, o pão de ontem que, em vez de ser jogado fora, pode ser guardado num saco plástico e esquentado no forno ou na chapa. Há mil e um conselhos que se devem dar a todos para se conscientizarem de que a natureza não está só na distante Amazônia, mas também aqui. Somos todos parte da mesma natureza.

A natureza somos nós!

Aporofobia explícita (e inconstitucional)

José Horta Manzano


“Chegou sem emprego e local para morar, a gente dá a passagem de volta”


A frase, clara como o sol do meio-dia, foi pronunciada pelo prefeito de Florianópolis (SC). Não há como não entender a mensagem: não queremos pobres importados, basta os que temos aqui. Ou há outra tradução?

O nobre alcaide informou que um posto de ‘Assistência Social’ está sendo montado na estação rodoviária. O objetivo não é exatamente prestar assistência aos que chegam atordoados com o burburinho da metrópole. A intenção é barrar ali, na raiz, a entrada de forasteiros indesejados. Os que chegarem sem emprego e sem ter onde ficar serão gentilmente convidados a dar meia volta. De brinde, a Prefeitura oferece a passagem de volta. Não está claro se o infeliz escorraçado terá direito a uns trocados para um pf no Sujinho.

Segundo reportagem do Estadão, o prefeito já negou acolhida a 500 indesejados e os devolveu ao lugar de onde tinham vindo. Seu diagnóstico é cortante: “Não podemos impedir ninguém de tentar uma vida melhor em Florianópolis, mas precisamos manter a ordem e as regras. Quem aqui desembarca deve respeitar as nossas regras e a nossa cultura. Simples assim”.

Aporofobia é termo cunhado por uma filósofa espanhola nos anos 1990. É o medo das pessoas pobres e a rejeição a elas. Em outras palavras, é a hostilidade e a aversão contra os desamparados e os que têm poucos recursos.

A decisão do prefeito de Florianópolis – que suponho tenha sido validada pela Câmara – é ao mesmo tempo aporófoba e xenófoba. Rejeita o pobre e o forasteiro. A desculpa que ele dá, de que os chegantes devem “respeitar nossa cultura” não faz sentido. Se o indivíduo nem bem desceu do ônibus em que viajou, como acusá-lo de “não respeitar nossa cultura”? É desculpa esfarrapada do prefeito.

Não precisa muita imaginação para adivinhar que o prefeito é simpatizante da extrema direita, inclinação política conhecida por pregar a exclusão dos que não se assemelham a um determinado ‘homem ideal’, que varia conforme o país e o período histórico. Na Alemanha dos anos 1930, eram os judeus que destoavam. Em certos pontos do Brasil atual, são os pobres que representam o papel de indesejados. A Florianópolis atual ousou inscrever nas regras a rejeição com que muitos sonham.

PS
O Artigo n° 5, por certo o mais importante de nossa Constituição, reza, em seu parágrafo LXVIII (68): “Conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”.

Um advogado esperto que instalasse sua banca ao lado do posto de ‘Assistência Social’ faria fortuna. De fato, a justiça teria de conceder habeas corpus a cada um dos escorraçados, visto que estão sofrendo coação em sua liberdade de locomoção.

“Faria fortuna” é modo de dizer. Infelizmente para o causídico, os rejeitados não têm condições de pagar.

É assim que todos perdemos

Sérgio Rodrigues (*)

O que aconteceu no Rio de Janeiro na última terça-feira (28) devia ficar em nossa história como um marco, “o 28 de outubro”. O dia em que chegou a um patamar inédito de clareza e dor – o Rio sempre na vanguarda – a tragédia da segurança pública no Brasil.

Esse promete ser um dos grandes temas da eleição presidencial do ano que vem, dizem, e parece justo que seja. O que não é necessariamente uma boa notícia. Se precisamos nomear bem as coisas antes de resolvê-las, “segurança pública” é um pântano semântico.

Com muita facilidade esquecemos ou fingimos não ver aquilo que, de tão óbvio, se torna elusivo – que o problema tem raízes na forma como nossas elites sempre delegaram a instituições violentas, das milícias do Império às atuais polícias militares, a tarefa de lidar com a massa de despossuídos fermentada em séculos de escravidão.

Educar, empregar, incluir? Nem pensar. Bater, confinar e matar, isso sim. A “segurança pública” no Brasil nasceu como a segurança de quem tinha posses – a dimensão “pública” era sua inimiga. Sendo desmedida nossa desigualdade social, descomunal tinha de ser a violência empregada na tentativa de domar seus efeitos.

Só que essas coisas não são domáveis. A brutalidade primordial antipreto e antipobre que foi uma das vigas mestras da nação brasileira começou a inflamar, a infeccionar, e evoluiu para uma sepse. Hoje as palavras soam como eufemismos covardes: açougueiros são chamados de governadores, e um massacre com 120 mortos em um só dia, de “operação policial”.

A rotina de violência para a qual desenvolvemos uma tolerância doentia, incompatível com qualquer projeto nacional decente, virou solo fértil para que prosperassem modelos amalgamados de bandidagem, negócios e poder político, a tal ponto que o mal se entranhou no tecido da sociedade – empresas, instituições, governos, parlamentos.

Eis por que uma eleição presidencial pode não ser o melhor foro para debater a questão. Fixada naquela injustiça social originária, a esquerda tem imensa dificuldade de sequer enunciar o problema, enquanto a direita, sempre dobrando a aposta na exclusão e no extermínio com fins eleitoreiros, está condenada a agravá-lo.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Texto integral
(para assinantes da Folha de S.Paulo).