Palestras do Lula

Cláudio Humberto (*)

O ex-presidente Lula se enrola para explicar como faturou R$ 52,3 milhões, inclusive com sua empresa de palestras – a Lils (suas iniciais) – entre 2011 e 2014.

Lula caricatura 2Lula jurou que sua receita vem de “palestras”, que, curiosamente, não são encontradas nas redes sociais. Tampouco no YouTube, onde palestrantes profissionais divulgam seu trabalho. O Instituto Lula se recusa a informar a lista de palestras do ex-presidente.

Se Lula tiver trabalhado os 1460 dias de 2011 a 2014, os R$ 52,3 milhões que ganhou com palestras representam R$ 35,8 mil por dia(!).

A movimentação financeira milionária nas contas de Lula foi detectada pelo Coaf, órgão de inteligência do Ministério da Fazenda.

A mídia segue Lula diariamente, mas só há registro de poucas palestras em grandes empresas, tipo LG, Santander, Itaipava e Caixa.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Quem nunca comeu melado

José Horta Manzano

Smoking 1Imagine o distinto leitor um senhor grisalho, elegantíssimo dentro de smoking impecável, cravo vermelho na lapela, calçado com… um par de chinelos de dedo. Chama tanto a atenção como se estivesse carregando uma melancia pendurada no pescoço. Não há de passar despercebido.

As coisas têm de se encaixar num conjunto. Se algum dos componentes do quadro destoa, acende-se luz vermelha. É assim que se desmascaram impostores, mentirosos, farsantes: quando um detalhe parece fora de esquadro.

Chinelo 2É natural que cliente de banco comercial – Bradesco, Itaú, Santander & similares – utilize caixa automático para movimentar pequenas quantias, tenha cartão de crédito e até talão de cheque, dê ordens de pagamento a torto e a direito. Combina com os usos e costumes de banco de varejo, que está aí justamente pra isso.

Já bancos privados e bancos de investimento fogem a esse figurino. Pra começar, nada de abrir agência em cada esquina. Não costumam ter mais que meia dúzia de representações, espalhadas por meia dúzia de países. Nada de guichês. Nada de portas abertas ao grande público. Nada de letreiro no frontispício. Não dão cartão de crédito nem emprestam dinheiro. A função deles é gerir a fortuna do cliente, cuidar bem dela e fazê-la frutificar.

Cidadão que sempre viveu na opulência sabe disso desde criancinha. Os que batalharam duro e, aos poucos, amealharam uns cobrinhos também acabam conhecendo e se familiarizando com esse ramo específico da banca. Já aqueles que enricaram de repente, por veredas nem sempre confessáveis, têm dificuldade em perceber a nuance.

Banco 6Estes dias, toda a mídia revelou que a mulher do presidente da Câmara é, como o marido, cliente de banco privado na Suíça. Más línguas dizem até que os milhões ali depositados têm origem ilícita. Cruz-credo! Fato é que a referida senhora utilizava a conta como se estivesse lidando com o Bradesco da esquina.

Dinheiro lavagemFez numerosas transferências para pagar escola, academia, curso particular, gastos de cartão de crédito. A moça deu bandeira. Ao persistir na insólita movimentação, acabou dando na vista. Controladores internos do banco hão de ter-se dado conta da falta de traquejo daqueles clientes. O comportamento anômalo revelou que se encaixavam no perfil dos que lidam com riqueza recente, presumivelmente oriunda de corrupção. Foram postos em observação. Tudo o que bancos suíços não querem, agora que o secular segredo ruiu, é agasalhar fortunas de origem duvidosa.

Dinheiro voadorNo caso da família do presidente da Câmara, a movimentação atípica foi considerada altamente suspeita e gerou denúncia ao Ministério Público helvético. Uma vez lançada, a bola de neve não parou mais de rolar. Foi-se avolumando e veio a público. Para senhor Cunha, a ameaça maior não é a perda do mandato, que isso é o de menos. O risco é ser presenteado com uma temporada na Papuda. A mão dos juízes anda um bocado pesada ultimamente.

Dinheiro fácil traz sensação de poder, segurança e solidez. É sensação falsa. Como diz o povo: dinheiro mal ganho, dinheiro mal gasto.

A estranha escolha de Lula

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa (*)

Lula, o sabe-tudo, deveria rezar em praça pública: “Eu pecador me confesso…”

Como é que ele teve coragem de nos enfiar goela abaixo essa senhora capaz de, em relação ao Pronatec, declarar num palanque: “Não vamos colocar uma meta e quando atingirmos ela, nós dobraremos a meta”.

Além do dilmês que arrebenta com nossa língua, dona Dilma não se acanha em dizer que quando atingirmos o nada, vamos multiplicá-lo por dois?

by Alberto Correia de Alpino F° Desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°
Desenhista capixaba

Ele a escolheu, dizem, por ter ficado fascinado pelo modo como ela pilotava um laptop. É o tal negócio, em terra de cego quem tem um olho é rei…

Dona Dilma, além de perita em manejar as novas tecnologias e no uso do Power Point, é uma feminista daquelas de não ter pejo em pedir – bem, tentou exigir, mas nessa não levou a melhor – que todos os seus auxiliares se dirijam ou se refiram a ela como “a presidenta”.

Fiquei à espera de um auxiliar mais atilado que lhe dissesse: «Isso eu só faço se a senhora chamar o Lula de “presidento”». Mas qual, esperei em vão.

Em julho do ano passado, uns três meses antes da reeleição, durante a campanha para a qual dona Dilma e seu marqueteiro fiaram histórias do arco da velha para enrolar o distinto eleitorado – com o maior sucesso, diga-se a bem da verdade – uma mulher, analista de um banco de grande porte, o Santander, cujo dono era um amigão do Lula, fez jus ao cargo que ocupava e ao salário que recebia e advertiu, por e-mail, seus clientes preferenciais sobre as previsões que fazia para um segundo governo Dilma Rousseff.

Sinara Polycarpo Figueiredo, a analista, em uma mensagem eletrônica, dizia que uma eventual reeleição da presidente pioraria o quadro econômico no país. Que a bolsa iria cair, os juros subir e o câmbio se desvalorizar. Ou seja, a economia iria se deteriorar.

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

by Rubens (Rubz), desenhista paulista

Lula, ao ser informado da análise, com a categoria que lhe é peculiar, em um discurso na 14ᵃ plenária da Central Única dos Trabalhadores, ressaltou que não há outro país em que o Santander lucre tanto como no Brasil e questionou ainda o fato da funcionária que escreveu o informe ter chegado a um cargo de chefia: “Essa moça que falou [isso] não entende porra nenhuma de Brasil e de governo Dilma Rousseff. Manter uma mulher dessas em cargo de chefia é sinceramente… Pode mandar embora e dar o bônus dela pra mim, que eu sei como é que eu falo”, completou.

Conselho que o Santander, com a rapidez dos que amam o poder, seguiu de imediato. Demitiu a analista! Não sei se deu o bônus ao Lula. Quero crer que não chegou a tanto.

Não sou, nem nunca fui, feminista. Minha teoria é a seguinte: somos diferentes, os homens das mulheres, em dezenas de coisas, todas da maior importância. Menos intelectualmente. Nesse caso, tendo as mesmas condições para desenvolver nosso intelecto, somos absolutamente iguais.

Mas se eu fosse uma ardente feminista, o que eu faria diante de uma mulher que, evidentemente, entendia do que falava, como agora está fartamente provado? Ia convidá-la para fazer parte de minha equipe, ora se ia…

by Nélson Nunes Martins, desenhista mineiro

by Nélson Nunes Martins,
desenhista mineiro

Não se trata de acreditar em bola de cristal ou em querer bancar a profetisa do passado, mas de um fato comprovado: o cliente do Santander que seguiu os conselhos de Sinara se deu bem. Os clientes do Lula quebraram a cara.

Segundo matéria no Estadão de 28/12/2014, Sinara Polycarpo Figueiredo entrou com ação na Justiça do Trabalho contra o Santander. Não sei no que deu esse processo. Mas de uma coisa eu sei: torço por Sinara.

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(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora, tradutora e escritora, é filha do grande Adoniran Barbosa. Escreve semanalmente para o Blog do Noblat, alojado no portal d’O Globo.

Gotejando

Eliane Cantanhêde (*)

Censura 2Depois de o Planalto enviar um funcionário a um seminário de internet em Cuba, tudo é possível. Cuba é o último lugar do mundo para fazer curso de internet… a não ser de guerrilha digital.

Por essas e outras, é irritante, mas não surpreendente, a informação da Folha e do Globo de que a rede do Planalto é usada para adocicar perfis de aliados, azedar dos adversários e plantar calúnias contra jornalistas críticos. A operação, além de indecente e possivelmente criminosa, é também de uma burrice gritante.

Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, afora serem queridos amigos, são dois dos mais premiados jornalistas do país. Logo, o ataque não foi só aos dois, mas a uma categoria inteira e a uma cidadania que exige liberdade de expressão e de crítica.

Censura 1Do ponto de vista político, é péssimo para Dilma Rousseff, mas é sobretudo um desastre para o PT, que já enfrenta alta rejeição, candidatos assustados e atritos de toda sorte.

Segundo o marqueteiro João Santana, eleições trabalham o imaginário popular. Pois o uso da sede da Presidência para golpes rasteiros só “vai gotejando” uma imagem ruim do PT, como diz Gilberto Carvalho.

Auto de fé

Auto de fé

A hora é de falar de Mais Médicos, Minha Casa, Pronatec, não de o Planalto fazer jogo sujo que remete a mensalão, aloprados e manipulação da CPI. E também à estrela vermelha de dona Marisa no Alvorada, ao passeio da cadelinha em carro oficial, ao emprego da nora para não fazer nada no Sesi e ao contrato milionário do filho ― o Ronaldinho ― por baixo do pano.

A confusão entre público e privado corresponde às boquinhas e ao aparelhamento de Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil. Em nome de “uma causa” ― a dos poderosos e da elite de plantão. Os outros? Os outros são “contra os pobres”.

Se cabeças rolaram no Santander por avaliações de mercado, o que ocorrerá no Planalto por ações que nada têm a ver com o interesse público, o Estado e a nação?

(*) Eliane Cantenhêde, jornalista, é colunista da Folha de São Paulo