Bandeiras apetitosas

 

José Horta Manzano

Japão

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Japão: arroz e atum

Japão: arroz e atum

Interligne 28aLíbano

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Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

Interligne 28aItália

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Itália: manjericão, spaghetti e tomate

Itália: manjericão, spaghetti e tomate

Interligne 28aIndonésia

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Indonésia: pimenta malagueta e arroz

Indonésia: pimenta malagueta e arroz

Interligne 28aÍndia

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Índia: curries, arroz e pão indiano

Índia: curries, arroz e pão indiano

Interligne 28aGrécia

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Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

Interligne 28aFrança

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França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

Interligne 28aEstados Unidos

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EUA: hot dog e mostarda

EUA: hot dog e mostarda

Interligne 28aEspanha

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Espanha: paella e chorizo

Espanha: paella e chorizo

Interligne 28aChina

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China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

Interligne 28aAustrália

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Austrália: torta de carne enfeitada

Austrália: torta de carne enfeitada

Interligne 28aVietnã

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Vietnã: rambutan, litchi e carambola

Vietnã: rambutan, litchi e carambola

Interligne 28aReino Unido

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Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

Interligne 28aTurquia

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Turquia: turkish delight (= locum)

Turquia: turkish delight (= locum)

Interligne 28aSuíça

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Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

Interligne 28aCoreia do Sul

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Coreia do Sul: gimbap e molhos

Coreia do Sul: gimbap e molhos

Interligne 28aBrasil

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Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

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Crédito das fotos: Diego González, editor do blogue Fronterasblog.com

O importante é competir

José Horta Manzano

Você sabia?

O barão Pierre de Coubertin (1863-1937) não foi esportista famoso ‒ era pegadogo, historiador e humanista. Apesar disso, devemos a ele a ressureição dos Jogos Olímpicos, que andavam recobertos pela poeira da História já fazia dois milênios.

Foi pela influência, pelo esforço e pelo empenho do barão que se organizou, em 1896, a primeira Olimpíada dos tempos modernos. Com frequência, atribui-se a Pierre de Coubertin a frase «O importante é participar». Não há consenso no entanto. Há quem jure que a frase original teria sido «O essencial não é ter ganhado, mas ter lutado pra vencer».

JO 2016 4Há ainda quem diga que não é bem assim. O barão jamais disse nada parecido. A frase famosa teria sido pronunciada por obscuro clérigo americano por ocasião dos Jogos de Londres de 1908.

Seja como for, não resta dúvida de que é importante participar, um orgulho para todo atleta. Se, ao final do esforço, cair uma medalha, melhor ainda. Pra coroar, nenhum esportista vai desprezar um prêmio em dinheiro. Comitês olímpicos nacionais já se deram conta de que uma recompensa financeira pode ser estímulo poderoso.

Nem todos os comitês publicam o valor com que presenteiam medalhistas. Há controvérsia nas informações. No entanto, garimpando aqui e ali, dá pra estabelecer uma lista interessante.

A palma vai, sem sombra de dúvida, para Singapura. Naquela cidade-estado, o atleta que conseguir medalha de ouro levará a astronômica soma de 805 mil dólares, mais de 2,5 milhões de reais. Pra ninguém botar defeito.

O Azerbaidjão, que adoraria aumentar o número de medalhistas de ouro, propõe 510 mil dólares ao atleta que trouxer uma de volta a Baku.

JO 2016Os demais países vêm bem atrás. Há os mais generosos, como a Itália (180 mil dólares), o México (160 mil dólares), a Rússia e a Ucrânia (pouco mais de 100 mil dólares). A Espanha dá 94 mil, enquanto a França vem um pouco atrás, com 65 mil dólares para cada campeão. Japão e China têm orçamento mais restrito: 36 mil e 31 mil dólares respectivamente.

Os EUA presenteiam seus campeões com 25 mil dólares. Mais moderada ainda, a Alemanha não vai além de 19,5 mil dólares.

Cada medalhista brasileiro receberá quantia modesta. Serão R$ 35 mil (11 mil dólares) para campeões individuais e R$ 17,5mil para cada participante de esporte coletivo. A quantia está longe de ser exorbitante. Fico imaginando que o prêmio pudesse até ser maior mas, sacumé, rato roeu a roupa da rainha no meio do caminho. Para os atletas brasileiros, resta uma consolação: tanto faz que a medalha seja de ouro, de prata ou de bronze, o prêmio será o mesmo.

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Nota pitoresca:
Na Suécia, onde se acredita que esportista é profissão como qualquer outra e que ganhar ou perder faz parte do jogo, o comitê nacional não dá prêmio a ninguém. Medalhistas recebem um boneco de pelúcia. De tamanho grande para quem trouxer o ouro, médio para os medalhistas de prata e pequeno para os bronzeados.

O importante é competir.

Brexit ‒ 3

Cabeçalho 11

José Horta Manzano

Britânicos expatriados
Por volta de 1,3 milhão de britânicos vivem longe da pátria mas dentro da União Europeia. Em matéria de acolhida a cidadãos do Reino Unido, a Espanha é campeã absoluta. Juntando ingleses, galeses, escoceses e norte-irlandeses, perto de 400 mil residem em terras do rei Felipe VI.

Não só na Espanha
Há britânicos espalhados por toda a Europa. Na França, são 172 mil. Na Alemanha, quase 100 mil. A Itália abriga mais de 70 mil originários do Reino Unido. Até Portugal, não obstante o território pouco extenso, conta com quase 20 mil súditos de Elizabeth II.

A especificidade belga
A Bélgica é um caso à parte. As estatísticas informam que 28 mil britânicos residem no país. Embora o número não seja impressionante, há que ter em mente que boa parte desse contingente é constituído por funcionários das instituições europeias.

Bandeira UE UKPorta fechada
O regulamento da UE estipula que, para ser admitido, o funcionário tem de ser cidadão de um dos países-membros. Assim que o Reino Unido deixar oficialmente a UE, todos os britânicos se tornarão estrangeiros da noite pro dia. E os funcionários, que será deles?

Não tenho nada com isso
Naturalmente, há funcionários cuja função está rigorosamente ligada ao fato de o Reino Unido ser membro da União. Para esses ‒ deputados e assessores ‒ não há esperança: vão perder o emprego. Mas há outros, a maioria. São tradutores, intérpretes, técnicos especializados em diferentes áreas. A partir do momento em que seu país deixar de ser membro, vão se tornar tão estrangeiros como um vietnamita ou um mongol. Que fazer?

Quero ficar
Coisas nunca antes vistas estão acontecendo. Grande número de cidadãos britânicos residentes na Bélgica estão apresentando pedido de naturalização. Felizmente, a legislação belga não é rigorosa na hora de conceder cidadania a estrangeiros. Exige que o candidato tenha morado ‒ legalmente ‒ e trabalhado no país por cinco anos. Pede ainda que fale uma das línguas oficiais: francês, holandês ou alemão.

Passaporte 4A língua fica
Com a saída do Reino Unido, sobram na União Europeia apenas dois países nos quais o inglês é língua oficial: Irlanda e Malta. Mas que ninguém se engane. Dado que o bloco tem 24 línguas oficiais, as falas e, principalmente, os documentos têm de ser traduzidos para todos esses idiomas. Funcionários capazes de traduzir diretamente do estoniano para o búlgaro ou do tcheco para o finlandês são raros. Para contornar o problema, costuma-se traduzir em duas etapas, passando pelo inglês. Daí a absoluta necessidade desta última língua, que continuará importante com ou sem o Reino Unido.

Degradação
Com a queda da libra esterlina, o Reino Unido deixou de ser a quinta economia do planeta. Desceu um degrau e cedeu o lugar à França.

Evolução do templo

José Horta Manzano

Você sabia?

Cordoba 3Desde tempos pré-históricos, o homem sentiu necessidade de designar local específico para cultuar deuses. O Oriente Médio guarda numerosos resquícios de templos de outras eras. Petra (na atual Jordânia) e Palmira (na atual Síria) são exemplo de antiquíssimas cidades que contavam com edifícios de culto.

Na Europa Ocidental, a Idade Média conheceu o apogeu do fervor espiritual. Entre os anos 1200 e 1500, dezenas de catedrais góticas foram levantadas. Eram obras monumentais cuja edificação, à força de braço, levava muitíssimos anos, um século às vezes.

Catedral de Córdoba

Catedral de Córdoba

Há o caso curioso de um templo cuja função flutuou ao sabor da religião dominante. Mais de dois mil anos atrás, o povoado ibérico situado onde hoje está Córdoba (Espanha) foi ocupado por tropas romanas, que aí estabeleceram a capital da província da Hispania Bætica.

Como toda capital que se preze, Córdoba merecia um templo. Ganhou um dedicado a Janus, o deus romano dos começos e dos fins, aquele que abre portas e passagens. É o mesmo deus que, mais tarde, emprestaria seu nome ao mês de janeiro, espelhando a abertura de novo ano.

Catedral de Córdoba

Catedral de Córdoba

Passaram os séculos. O esfacelamento do Império Romano abriu caminho à invasão de Vândalos e de Visigodos. Povos germânicos convertidos à fé cristã, os recém-chegados se valeram do que restava do antigo edifício para construir templo cristão.

Trezentos anos mais tarde, a região mudou novamente de dono. Muçulmanos, que haviam atravessado o Estreito de Gibraltar, estabeleceram em Córdoba um califado que duraria mais de 500 anos. O templo existente foi inteiramente reformado e ampliado para abrigar o culto maometano. Majestosa, a nova mesquita refletia o poder do califa.

Catedral de Córdoba, detalhe

Catedral de Córdoba, detalhe

Cinco séculos depois, no lento movimento que ficou conhecido como como La Reconquista, o muy católico Fernando III, rei de Castela, retomou Córdoba. Na sequência, reformou a mesquita, derrubou colunas, acrescentou uma nave, ergueu uma torre e transformou o edifício em templo cristão. Olhando do exterior, o visitante hesita em definir o conjunto como mesquita, convento ou catedral.

Pra dizer a verdade, o edifício ‒ hoje por muitos chamado Catedral-Mezquita ‒ é um verdadeiro bolo de noiva. Uma surpreendente e interessantíssima mistura que marca a passagem de diferentes culturas.

Extradição de nacionais

José Horta Manzano

Constituições são promulgadas na esteira de acontecimentos importantes. Mudança de regime e fim de guerra estão entre os fatos que dão origem à redação de nova Lei Maior. Assim aconteceu no Brasil. Saído de mais de vinte anos de regime repressivo, o país reclamava novo ordenamento. O anseio concretizou-se em 1988, quando entrou em vigor a atual carta magna, também conhecida como «Constituição Cidadã».

Constituição 4Na intenção de ser explícitos e na pretensão de colmatar toda fresta que pudesse ressuscitar o falecido regime, os constituintes acabaram pecando por excesso. Nossa Carta é extensa. Seus 245 artigos contrastam com os meros 129 que regem nossos hermanos argentinos, por exemplo.

Alguns dos dispositivos, por absurdos, nunca chegaram a ser aplicados. O Artigo 192 estipula que «as taxas de juros reais (…) não poderão ser superiores a doze por cento ao ano». A injunção faz sorrir quando se constata que o crédito rotativo anda cobrando taxas de quase 400%.

Constituição 3Outros artigos, mal estruturados, geraram problemas sérios. Foi o caso da transmissão da nacionalidade. Escrita numa época em que o número de brasileiros no exterior ainda era relativamente modesto, a Lei Maior descurou esse particular. Devia ter estipulado, clara e simplesmente, que filho de pai brasileiro ou de mãe brasileira é brasileiro. Ponto e basta. Em vez disso, estabeleceu condições. A nacionalidade só se transmitia ao rebento nascido no exterior se ele viesse um dia a residir no Brasil e optasse(?) pela cidadania brasileira.

Dado que a esmagadora maioria dos países não concede cidadania automática a filhos de estrangeiros, ainda que lá tenham nascido, o dispositivo gerou uma legião de pequenos apátridas. Não eram brasileiros nem tinham a nacionalidade do país em que haviam nascido. A situação colidia de frente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Levou anos, mas, felizmente, essa falha primária foi sanada.

JustiçaDurante o regime militar, estava prevista a pena de banimento de cidadãos brasileiros. Na intenção de extirpar todo risco de degredo de nacionais, a Constituição de 1988 estabelece que nenhum cidadão brasileiro poderá ser banido nem extraditado. Sobre esse assunto, nem todos os países têm a mesma visão.

Brasil e Portugal, entre outros, proíbem a extradição de nacionais. Espanha, Argentina, Bélgica silenciam sobre o assunto ‒ na prática, cada caso será estudado individualmente. A Itália consente, desde que o caso esteja previsto em convenções internacionais. A Suíça só extraditará um nacional se ele der seu consentimento expresso.

Justiça 6Não me parece escandaloso nem ilícito entregar um criminoso brasileiro à justiça de outro país. Nacionalidade brasileira não deveria ser garantia de abrigo seguro para criminosos procurados por outros países. Traficantes internacionais, corruptos de alto coturno, mafiosos de toda espécie que tenham cometido crimes fora do país deveriam poder ser entregues ‒ respeitadas certas condições ‒ à justiça estrangeira.

A pátria tem o dever de proteger cidadãos de bem. Malfeitores e criminosos internacionais não deveriam ser automaticamente acolhidos sob o mesmo manto.

Apagando incêndios

José Horta Manzano

Argentina 5Estas últimas semanas, a República Argentina vive uma febre de nomeação de embaixadores. Um mês antes de deixar o cargo, Cristina Fernández de Kirchner(*) disparou uma série de decretos designando nada menos que sete representantes no exterior.

Não ficou claro o motivo dessas nomeações às carreiras. É permitido imaginar que doña Cristina estivesse pagando dívidas de gratidão. Quando se deu conta de que seus dias na chefia do Estado estavam contados, tratou de resgatar compromissos assumidos de longa data.

É interessante notar que, menos de uma semana depois de assumir suas funções, o novo presidente parece ter sido contaminado pela febre de nomeações. Já designou seis novos representantes.

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Se Cristina, em fim de mandato, pagava dívidas, Macri tem outra motivação. As loucuras cometidas nos últimos vinte anos, desde a era Menem, corroeram a imagem da Argentina. O longo reinado dos Kirchner não contribuiu para aplainar arestas. Cabe ao novo presidente enviar, a postos-chave, portadores de mensagem de seriedade.

Compreensivelmente, señor Macri decidiu rapidinho quem serão os representantes nos Estados Unidos e na China – são potências mais que importantes. Os outros quatro enviados vão ao Uruguai, ao Brasil, à Espanha e… ao Vaticano. Por que terão sido escolhidos esses destinos?

Quanto ao Uruguai, é fácil entender: há interesses econômicos e enorme proximidade entre os dois países platinos, amigos de fé e irmãos camaradas.

O Brasil é parceiro incontornável, grande fornecedor, paciente interlocutor e generoso cliente. As boas intenções que o novo presidente tem com relação ao desencalhe do Mercosul dependem desesperadamente da anuência de Brasília.

Embaixada da República Argentina, Brasília

Embaixada da República Argentina, Brasília

Novo embaixador também foi designado para a Espanha. A encampação das atividades que a petroleira espanhola Repsol desenvolvia em solo argentino, decidida faz alguns anos, estremeceu as relações com Madrid e deixou marcas. A missão maior do novo embaixador será restabelecer a normalidade.

E o Vaticano? Sabe-se lá por que razão, a Santa Sé, fugindo à praxe diplomática, não enviou mensagem de felicitações ao novo presidente. E olhe que o papa é argentino! Algum problema há. O novo enviado há de estar incumbido de apagar focos de incêndio e de apaziguar relações.

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(*) Na tradição espanhola, a mulher casada conserva o sobrenome de solteira – prática cuja imparcialidade me agrada. Em princípio, as antigas colônias hispânicas seguem o mesmo costume.

Nesse particular, nossos hermanos do Sul inovaram. Ao casar-se, a mulher argentina costuma conservar o sobrenome de solteira, podendo agregar o do marido precedido da partícula “de”.

Assim, Cristina Elisabet Fernández, quando se casou, tornou-se Cristina Elisabet Fernández de Kirchner. Para nós, parece estranho. Soa como se a esposa se tivesse tornado propriedade do marido.

Enfim, cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Línguas do mundo

José Horta Manzano

Lingua 1Certos personagens seguem um percurso peculiar. O espanhol Alberto Lucas López é um deles. Cresceu na Espanha, onde fez curso de Jornalismo na Universidade de Navarra.

Desde cedo, sentiu especial atração pelo infografismo – aquele ramo da arte de informar que se vale de recursos gráficos para dar o recado. Um nicho bastante delicado, que requer sensibilidade, minúcia, equilíbrio artístico. A informação tem de chegar ao leitor sem necessidade de textos longos.

López se especializou no ramo. Poucos anos depois de exercer em seu país natal, foi contratado pelo South China Morning Post, diário de referência de Hong Kong, publicado em língual inglesa. O moço é hoje diretor gráfico do jornal.

Entre seus trabalhos, um me chega particularmente. Trata-se de um infográfico que cobre as 23 línguas mais faladas. Mais de 4 bilhões de terráqueos têm, como primeira língua, uma das 23 maiores – você sabia?

Lingua 2O trabalho do infografista mostra o número de falantes de cada uma delas. O quadro é bastante eloquente. Sem trocadilhos…

É interessante notar a predominância do chinês (dialetos incluídos). Causa surpresa notar que a lista inclui línguas das quais pouco ou nada se ouve falar: urdu, marathi, tâmil, lahnda, telegu, bengali. É igualmente curioso constatar a ausência de línguas que nos são mais familiares como o holandês, o romeno, o polonês, o catalão. É porque não estão entre as 23 mais.

A quem quiser admirar o infográfico original – que se abre com resolução melhor – recomendo clicar aqui.

Mal-entendido episcopal

José Horta Manzano

Hoje aponto mais uma curiosidade na série erros de compreensão. Já falamos do avental inglês, do surrender, do Corinthians, da cidade do Porto. Vamos entrar na igreja.

MitraEntre os antigos gregos, inspetores e superintendentes eram chamados de ἐπίσκοπος (epískopos). O nome não fazia distinção entre sacros e profanos. Todo controlador tinha direito à apelação. O termo é composto de epi (sobre) + skopeo (vigiar, tomar conta). Os romanos sugaram a palavra e a incorporaram a seu léxico sob a forma latinizada epĭscŏpus.

Com o advento do cristianismo, a palavra especializou-se. Passou a designar o chefe de uma comunidade de fiéis, aquele que ocupava posição mais elevada em relação aos demais. Na Igreja Católica, o termo qualifica hoje o prelado que, sucessor dos apóstolos primitivos, oficia sob a autoridade do papa e tem o encargo de zelar pelas paróquias de sua jurisdição.

Em domínios franceses, a erosão natural transformou o primitivo epĭscŏpus no moderno évêque. Em terras hispânicas, o termo evoluiu dentro das leis linguísticas: deu obispo.

Bartolomé Esteban Murillo (1617-1682) Artista espanhol

Bartolomé Esteban Murillo (1617-1682)
Artista espanhol

A última flor do Lácio dá, neste caso, prova de que realmente estava no fim da fila. Há de ter recebido a nova palavra por via castelhana. Em princípio, o obispo espanhol deveria ter permanecido tal e qual em português. Mas não foi assim. Por que será?

Mitra 3Aconteceu uma colisão. Na Europa medieval, com exceção dos eclesiásticos e de um ou outro nobre, o povão era iletrado. Aos lusos, a palavra castelhana obispo soou como se «o bispo» fosse. E assim ficou. O “o” inicial, entendido como artigo, foi eliminado.

A forma original sobrevive em cultismos introduzidos em português tardiamente: episcopal, episcopado. Entre os cristãos dos primeiros tempos, dizia-se episcopisa de mulheres que exerciam certas funções sacerdotais. Modernas seitas neopentecostais, por razões que lhes são próprias, preferem a curiosa variante «bispa».

E quem não gostar que vá reclamar com o bispo.

Vexame renovado

José Horta Manzano

Embaixador da Pérsia apresenta credenciais ao rei Luís XV

Embaixador da Pérsia apresenta credenciais ao rei Luís XV

Diplomatas que servem no exterior costumam ser substituídos periodicamente. O rodízio é benéfico para a carreira – acrescenta preciosas linhas ao currículo. Cônsules, adidos e funcionários de segundo escalão são escolhidos livremente pelo país emissor e, em princípio, automaticamente aceitos pelo governo do país de destino.

Com embaixadores, o procedimento é mais formal, que diplomacia é cheia de tiques e de códigos. Antiga e cristalizada regra exige que o enviado de um governo seja oficialmente aceito pelo país onde exercerá sua função.

Meus cultos e distintos leitores se lembrarão de que, faz poucas semanas, dona Dilma deu vexame internacional ao recusar as credenciais do novo embaixador indonésio.

Mãe natureza foi avarenta ao atribuir sutileza a nossa bondosa mandatária. A falta de tacto de dona Dilma fez que ela ousasse a crueza de convocar o diplomata em palácio para, só então, informá-lo de que não seria recebido. Fossem outros os tempos, o ato constituiria casus belli: estariam reunidas as condições para declaração de guerra.

Sempre atento às proezas das altas esferas, o Diário do Poder traz deliciosa notícia, daquelas que corroboram o amadorismo e a ignorância que, cada dia mais, se esparramam pelos escaninhos da República.

Embaixada do Brasil em Madri

Embaixada do Brasil em Madri

Sem aderir aos métodos brutais de nossa presidente, o governo espanhol tem sutilmente protelado a aceitação das credenciais do novo embaixador que o Brasil designou para Madri. Nesse campo, delongas costumam ser sinal de que algo está errado. E realmente está.

Antônio Simões, o novo embaixador, é conhecido admirador do finado Hugo Chávez, de seus métodos autocráticos e daquilo que se costuma amenizar sob a expressão «bolivarianismo».

Não precisa ser especialista em relações internacionais para entender que Espanha e Venezuela não andam de beijos e abraços estes últimos anos. Basta lembrar do episódio protagonizado pelos que, à época, eram os respectivos chefes de Estado: o rei Juan Carlos e o coronel Chávez. Estou-me referindo ao inesquecível «¿Por qué no te callas?», lançado por El Rey ao venezuelano tagarela.

Vaidoso e presumido, o tiranete de Caracas nunca perdoou ao rei a afronta. Desde então, fez o que pôde para tornar mais difícil a vida de empresas espanholas estabelecidas na república bolivariana. Os quase dez anos que se passaram desde que Chávez foi desancado em público não foram suficientes para estancar ressentimentos. As relações entre Caracas e Madri continuam execráveis.

Palácio do Itamaraty

Palácio do Itamaraty

Por ingenuidade ou por ignorância – talvez por um misto dos dois – Brasília houve por bem fazer-se representar em Madri por um chegado ao «bolivarianismo». Enviar correspondência oficial ao governo argentino tratando as Malvinas de Falkland Islands não teria causado constrangimento maior. O elefante dançou na loja de porcelana.

Resumo da história: o novo embaixador tem escassa chance de ser aceito pelo governo espanhol. A diplomacia brasileira bem que podia ter ido dormir sem essa. Mas não tem jeito: o pior bronco é aquele que não quer aprender.

Desastre de avião

José Horta Manzano

Avião 7Quando eu era criança ‒ faz muitos anos ‒ um tio meu gostava de contar velha piada. Falava de um sujeito que tinha medo de andar de avião; o homem não entrava em máquina voadora nem por decreto do papa.

Veio um outro e lhe disse:
«Mas que bobagem! Cada um tem seu dia de morrer. Se não for seu dia, nada vai acontecer.»

E o medroso:
«É, pode não ser o meu dia, mas… e se for o dia do piloto?»
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Acabo de me lembrar dessa historinha. Só que hoje não faz rir. Nesta quinta-feira de manhã, reforçou-se a suposição de que o pavoroso desastre de avião ocorrido há dois dias nos Alpes franceses pode ter sido fruto de ato deliberado de quem estava dirigindo o aparelho.

As primeiras análises da «caixa preta» (que, na realidade, é de cor laranja) sugerem que o piloto se tinha ausentado da cabine. Na volta, deu de nariz na porta. Bateu, mas o copiloto não abriu. Tentou arrombar, sem sucesso. Fico imaginando o sobressalto e a angústia por que hão de ter passado os que se tiverem dado conta da situação. Há de ter sido como num filme de horror, com o avião descendo inexoravelmente sem que ninguém pudesse fazer nada.

A confirmar-se a hipótese, fica reforçada a imagem de um mundo que, gradativamente, perde as estribeiras. Normas de convívio civilizado tradicionalmente aceitas estão-se dissolvendo rapidamente.

Foto AFP/Christophe Ena

Foto AFP/Christophe Ena

Até não muito tempo atrás, o mais longe que «pasionarios» ousavam ir, em busca de atenção para sua causa, era imolar-se pelo fogo em praça pública. Mais recatadamente, um que outro se suicidava no recôndito de um cômodo deixando uma carta-testamento ‒ foi o que fizeram Stefan Zweig e Getúlio Vargas.

Hoje, as porteiras se abriram e a boiada desembestou. Aviões transformados em bomba, homens-bomba, mulheres-bomba e até crianças-bomba arrastam para a morte gente inocente que nada tinha a ver com a história. Quanto mais gente, melhor.

Prefiro acreditar que o copiloto do avião que se espatifou nos Alpes tenha perdido consciência. É insuportável imaginar que, num gesto suicida, tenha levado consigo 150 existências cuja única culpa era ter embarcado naquele aparelho.

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O acidente ocorreu na França na segunda-feira, mas a maior parte dos viajantes desaparecidos provinha da Espanha e da Alemanha. Os mandatários-mores dos três países cancelaram sua agenda e se deslocaram até o lugar do desastre. No dia seguinte, estavam lá os três. Não foram levar nenhuma ajuda prática, é verdade, mas o gesto marcou solidariedade mútua. São atos que cabe a todo dirigente civilizado cumprir.

Crédito: Lydia Bultel

Crédito: Lydia Bultel

Lembrei-me do acidente que vitimou avião da TAM, em 17 jul° 2007, no Aeroporto de Congonhas. Os mortos foram 199. Fiquei, na época, muito impressionado com o silêncio do então presidente, o folclórico Lula.

Naquele momento de comoção nacional, nosso número um se escondeu atrás de um mutismo vil. Só se manifestou 73 horas depois ‒ isso dá três dias! Naquele momento, nem todos nos dávamos conta, mas hoje sabemos: quando o caldo engrossa, nosso guia sai de cena. Desaparece até que baixe a poeira.

Ainda bem que o mundo civilizado ainda não adotou o modo Lula de reagir a catástrofes.

Os problemas que não temos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 jan° 2015

Farofa 1Entrada de ano é hora de balanço. Todos nós, coração amolentado, olhamos pra trás, analisamos nossos próprios feitos e juramos de pés juntos fazer mais caprichado no ano que entra. Junto com o peru, a farofa e a troca de presentes, o exame de contrição faz parte do ritual da passagem de ano.

Canais de tevê, jornais, revistas e portais fazem questão de propor retrospectivas do ano que se foi. Pouca atenção se dá a acontecimentos positivos. Em compensação, é impressionante o que se vê de desastre e de desgraça. Compreende-se: coisa ruim vende melhor.

É verdade que, no Brasil, 2014 foi um ano e tanto. Eleições, seca saariana, vexame na Copa, violência endêmica, corrupção aos borbotões assustaram. Os problemas que temos são pesados. Às vezes nos fica a impressão de estarmos vivendo no pior país do planeta. Será mesmo?

Nestes dias flutuantes que separam passado e futuro, proponho darmos uma espiada no quintal do vizinho. Vamos, por um momento, esquecer nossas mazelas e imaginar a aflição de outros povos.

Manif 11Os Estados Unidos, símbolo de desenvolvimento e sucesso, estão sacudidos por distúrbios raciais. Ressurgem os espantalhos que imaginávamos falecidos com o último dos hippies.

Serra Leoa e outros territórios da África Ocidental choram seus mortos. Estão sendo dizimados por severa epidemia, mal terrível contra o qual pouco ou nada se pode fazer.

Desvario na condução da economia mergulhou nossa vizinha Venezuela no desabastecimento e na hiperinflação. O país resvala para a anomia.

Todos os Estados da orla do Pacífico vivem na permanente angústia de terremoto ou tsunami, catástrofes que podem irromper sem dizer água vai.

Imigração 4Empurradas pela miséria, populações inteiras arriscam a pele na temerária travessia do Mediterrâneo a bordo de embarcações precárias em busca de vida melhor na Europa. Esse fluxo continuado de infelizes aporta na Itália, onde acaba gerando fortes tensões que esgarçam o tecido social.

Os países produtores de petróleo do Oriente Médio, aqueles cuja única riqueza repousa na extração do ouro negro, sabem que a qualquer hora a fonte vai secar. Imagina-se a apreensão criada por essa perspectiva.

As duas Coreias vivem situação paradoxal. A do norte passa fome. A do sul vive há 60 anos na apreensão de um ataque do irmão desorientado.

Os iranianos pelejam contra o olhar reprovador do resto do mundo. Além de serem vistos com desconfiança, sofrem sanções que lhes sufocam a economia.

Já faz meio século que nossos vizinhos colombianos vêm tentando varrer do país o estigma da narcoguerrilha. Sem sucesso até agora.

Guerrilha 1Na França, imigração maciça oriunda das antigas colônias africanas tem semeado crescente discórdia entre franceses «de raiz» e recém-chegados. Essa cizânia é alimento para correntes políticas populistas e neonazistas, que ganham adeptos a cada dia.

Os países da África subsaariana, já castigados pela pobreza endêmica e pela natureza hostil, ganharam mais um inimigo. Grupos terroristas elegeram domicílio na região, que se tornou, de facto, território sem lei.

A queda vertiginosa do preço do petróleo, aliada às sanções aplicadas por países ocidentais, reduziu dramaticamente as rendas do Estado russo. Refletindo a desesperança, a moeda nacional perdeu boa parte de seu valor. Como de hábito, quem sente o baque é o povo.

Espanha, Turquia, Ucrânia, China são dilaceradas por crônicos movimentos separatistas – explícitos ou latentes. O estado insurreccional pode até, por momentos, se aquietar. Mas é calmaria que não ilude: por baixo da brasa, o fogo cochila. Um sopro basta para reavivá-lo e incendiar o país.

E o Brasil, bonito por natureza, como é que fica? Temos nossos problemas, sim. Seria hipocrisia negá-lo. No entanto, sopesando os males que corroem outros países, impõe-se o óbvio: nossos problemas têm solução.

Tsunami 1De fato, não dependemos da benevolência de governos estrangeiros, nem da descoberta de vacina milagrosa, nem da clemência da natureza. Não temos guerrilhas a combater, nem separatistas a derrotar, nem inimigos a temer. A faca, o queijo, a responsabilidade e a chave do futuro estão unicamente em nossas mãos – bênção de que outros povos não dispõem!

Quem quer mudar, muda. Quem não quer, reclama. Que tal incluir, nas intenções de fim de ano, a mudança de atitude? Que tal arregaçar as mangas e meter mãos à obra? A recuperação do País requer empenho de todos. Temos de salvar o que ainda pode ser salvo. E é bom acharmos logo solução contra a dissolução de nossa sociedade. Feliz ano-novo!

Tripla filiação

José Horta Manzano

No Brasil, a organização da família não mudou muito desde Tomé de Souza. Sempre existiu o oficial e o paralelo. Homens com famílias duplas, crianças cujo pai biológico não era exatamente aquele que estava inscrito na certidão de nascimento, bebês adotados em segredo e registrados com o sobrenome dos pais adotivos ― são casos relativamente comuns.

O que mudou, de meio século para cá, foi o olhar lançado pela sociedade a situações que, embora frequentes, fogem aos cânones. A evolução condenou antigos tabus à obsolescência. Para agravar, a popularização da internet tem contribuído para a disseminação da informação. Hoje em dia, não se trancam mais segredos de família em baú.

Certidão batismoA Folha de São Paulo de domingo 10 de agosto aponta efeito colateral da queda de antigos tabus sociais. Informa que os últimos dois anos trazem registro de pelo menos duas dezenas de processos judiciais visando a acrescentar ao registro de nascimento o nome de um terceiro genitor. Será o nome do padrasto, do pai biológico, da madrasta. Em princípio, as solicitações têm contado com o beneplácito da Justiça.

Na Espanha e, em geral, nas antigas colônias, a tradição manda que todo cidadão tenha dois sobrenomes: o do pai e o da mãe, nessa ordem. Para a descendência, o patronímico paterno prima sobre o materno. A regra costuma ser seguida.

Em países como Itália, França, Alemanha, Suíça, nunca houve dúvida: criança leva o sobrenome do pai. Até alguns anos atrás, o registro de nascimento indicava nada mais que o(s) prenome(s) do recém-nascido. O sobrenome nem precisava ser mencionado: era necessariamente o do pai. Os reclamos de igualdade dos sexos têm interferido nesses costumes. Hoje em dia, já é possível dar à criança, além do sobrenome do pai, o da mãe.

Na Rússia, até hoje, a criança recebe um prenome, seguido do prenome do pai, seguido do sobrenome paterno. Por exemplo, o nome completo de Putin é Vladímir Vladímirovitch Pútin, onde Vladímir é o prenome e Vladímirovitch indica que o pai se chamava Vladímir. Pútin é o sobrenome paterno.

Certidão nascimento russaDiferentemente do que ocorre em outros lugares do mundo, em Portugal ― e, por consequência, no Brasil e em antigas colônias lusas ― a atribuição do nome de família não é submetida a regras rigorosas. Há quem carregue o(s) sobrenome(s) do pai ou os da mãe ou uma mistura dos dois. Pode-se omitir parte dos nomes de família. Pode-se até atribuir sobrenome que não seja do pai nem da mãe ― é o caso de João da Silva Sobrinho. Isso faz que irmãos não tenham necessariamente o mesmo nome de família ― fato inconcebível alhures.

Está na hora de se regulamentarem os novos usos no Brasil ― falo da tripla menção de genitores. Novos costumes reclamam normatização. Vazios jurídicos criam insegurança desnecessária e sobrecarregam a Justiça com a avaliação caso por caso.

Não justifica

José Horta Manzano

Aporrinhado por uma hecatombe de acontecimentos ruins ― derrota doída no gramado, vaias e apupos recorrentes, inflação em alta e outros males crônicos ― o Planalto se vê na urgente e ingrata obrigação de encontrar notícias boas.

Já faz fários anos, o ministro Mercadante, fiel escudeiro da Casa Civil, disse uma vez que havia tomado a decisão irrevogável de retirar-se do governo. Não só não saiu, como até hoje está lá. A firmeza e a exatidão de suas palavras têm, desde então, o valor que cada um queira lhes atribuir.

Turismo 3Pois bem, o senhor Mercadante acaba de apresentar balanço turístico do período da «Copa das copas». Afirmou, com indisfarçado orgulho, que mais de um milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil.

Um número isolado, sem referencial, é pouco significativo. Para ser avaliado, falta saber quantos turistas costumam visitar o País a cada ano. Melhor ainda, é bom verificar como se situa nosso país-continente na escala internacional da movimentação turística.

Dados do Ministério do Turismo garantem que 5,7 milhões de turistas estrangeiros aportaram no Brasil em 2012. Grosso modo, ano sim, outro também, dá meio milhão de pessoas por mês. Portanto, do milhão de indivíduos assinalados pelo senhor Mercadante durante o mês do mundial, há que subtrair o meio milhão que viria de qualquer maneira. No frigir dos ovos, o campeonato atraiu apenas 500 mil visitantes extras.

Agora, convenhamos. Considerando que a Copa exigiu investimento de 25 bilhões, o resultado é pífio. Com muitíssimo menos, o Ministério do Turismo deveria poder atrair turistas ― afinal, é para isso que ele serve. Se não tem conseguido alçar o número de visitantes, é por incompetência.

Torneios de futebol, embora sejam eventos de repercussão planetária, têm duração muito curta. Efêmeros, seus efeitos não se prolongam no tempo. Senão, vejamos: alguém se sente impelido a visitar a África do Sul na esteira da Copa que ali se realizou quatro anos atrás?

Reproduzo aqui dados da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, relativos ao movimento turístico global:

Número de turistas estrangeiros recebidos
em cada país – Dados de 2012
———————————-———————————-——————————————-
 1. França         84,0 milhões
 2. EUA            63,3 milhões
 3. Espanha        58,7 milhões
 4. China          58,6 milhões
 5. Itália         46,1 milhões
 6. Turquia        36,7 milhões
 7. Reino Unido    29,2 milhões
 8. Alemanha       28,4 milhões
 9. Malásia        24,1 milhões
10. México         23,4 milhões
11. Áustria        23,0 milhões
12. Rússia         22,6 milhões
13. Hong Kong      22,3 milhões
14. Ucrânia        21,4 milhões
15. Tailândia      19,0 milhões
16. Canadá         18,2 milhões
17. Saudi-Arábia   17,6 milhões
18. Grécia         14,4 milhões
19. Polônia        13,3 milhões
20. Macau          12,9 milhões
21. Holanda        11,3 milhões
22. Singapura      10,3 milhões
23. Hungria        10,2 milhões
24. Croácia         9,9 milhões
25. Coreia do Sul   9,7 milhões
26. Egito           9,4 milhões
27. Marrocos        9,3 milhões
28. Dinamarca       8,7 milhões
29. Rep.Tcheca      8,7 milhões
30. Suiça           8,5 milhões
——————————-
… Brasil          5,7 milhões

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Receitas trazidas pelo turismo internacional
a cada país – Dados de 2012 (em dólares)
—————————————–—————————————–—————————-
 1. EUA          126,2 bilhões
 2. Espanha       55,9 bilhões
 3. França        53,7 bilhões
 4. China         50,0 bilhões
 5. Macau         43,7 bilhões
 6. Itália        41,2 bilhões
 7. Alemanha      38,1 bilhões
 8. Reino Unido   36,4 bilhões
 9. Hong Kong     32,1 bilhões
10. Austrália     31,5 bilhões
——————————–
… Brasil         6,6 bilhões

Interligne 18b

Verificamos que cada estrangeiro em visita ao Brasil gasta em média 1160 dólares. Portanto, os turistas suplementares que a “Copa das copas” nos trouxe hão de ter gasto menos de 600 milhões no total.

É muito pouco para justificar os bilhões investidos. É urgente procurar outro legado.

Patacoada

José Horta Manzano

Ninguém escapa. Na hora de encontrar desculpa, a imaginação humana não tem limites.

Um dos grandes jogadores da seleção italiana de futebol, Andrea Pirlo, declarou que o clima do Brasil cria duas copas diferentes, a dos que jogam na região equatorial e a dos que atuam na zona subtropical. Patacoada.

Quente frio1. Nenhuma das equipes jogou todas as partidas numa só zona climática. Todas têm se deslocado. Portanto, os incômodos são para todos.

2. Quando faz calor, o tempo quente é para os 22 jogadores ― estão sob as mesmas condições. Quando faz mais fresquinho, idem.

3. No Brasil, a amplitude térmica entre as regiões mais escaldantes e as menos ardentes não é larga. Em muitos países europeus, as diferenças são bem mais marcantes.

4. Na Europa do Sul (Espanha, Itália, Grécia), temperaturas acima de 40° não são raras no verão. Em certas regiões dos mesmos países, o termômetro pode descer bem abaixo de zero no inverno.

5. A campanha para chegar à Copa do Mundo (assim como à Eurocopa) é longa. Há jogos de ida e de volta em cada grupo. Estão aqui alguns exemplos de partidas que a Itália disputou para se classificar para a Eurocopa 2012:

Interligne vertical 133 set° 2011 em Tallinn (Estônia), em clima muito frio, a 60° de latitude;

7 set° 2011 em Florença (Itália), em clima quente e seco, em meio a vinhas e oliveiras;

8 out° 2011 em Belfast (Irlanda do Norte), em clima úmido e ventoso.

Sinto muito. Por mais que admire a elegância de Pirlo, não lhe posso dar razão neste caso.

Ciao, Italia. Ci rivedremo presto  a gente se vê qualquer dia.

Furou

José Horta Manzano

Ninguém pode contestar: futebol é o esporte mais popular sobre a face da Terra. Compreensivelmente, o campeonato mundial é o evento mais midiatizado do planeta. O fato de ser quadrienal ajuda a botar pimenta: quanto mais raro for o artigo, mais valioso será.

Ser focalizado, nem que seja por um instante, pelas câmeras que transmitem jogos da Copa faz efeito fulminante. Para gente desconhecida, gera um causo pra ser contado pelo resto da vida. Para medalhões, é a confirmação do status, a glória planetária autenticada com carimbo e firma reconhecida.

Astros, dirigentes, esportistas, políticos disputam um lugar no camarote VIP ― ou perto dele ― para ter, quem sabe?, a sorte de ser focalizado. A exposição garante notoriedade instantânea.

É verdade que há pessoas que, por alguma particular razão, preferem não ser filmadas nessas ocasiões. Para evitar vaias, apupos ou xingamentos, por exemplo. Ou, mais prosaicamente, para não serem flagradas num lugar onde não deveriam estar naquele momento.

Interligne 18b

Certos figurões chegam a programar, com antecedência de meses ou até de anos, sua presença nessas vitrines. Foi o caso de nosso guia, que presidia o País quando teve lugar a Copa da África do Sul.

O homem chegou a deslocar-se até o continente africano. Seus servis assessores haviam programado um percurso que incluía ― ora vejam a coincidência ― uma passagem pela República Sul-Africana justamente por ocasião da final da Copa. Seria uma ocasião de ouro para aparecer na tribuna oficial, no jogo final do campeonato, como convidado de honra do chefe do Estado. Exposição mundial garantida.

Acontece que o trajeto do Brasil na competição não foi glorioso. A Seleção curvou-se antes do que se esperava. E nosso guia, que não se contenta com coisa pouca, renunciou à aparição pública. Ficou para a Copa seguinte.

Tribuna VIP

Tribuna VIP

Chegou 2014. Não adianta ficar repetindo aqui o que todos já sabem: nem a atual presidente, nem o anterior, nem ninguém que lembre a existência de um deles consegue passar ileso num estádio. São vaias e apupos garantidos.

Grande deve ser a frustração de nosso guia. Justamente ele, que antevia, na exposição midiática que esta Copa lhe garantiria, o reconhecimento universal, carimbado e autenticado, de sua glória pessoal. Deu no que deu.

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Mas nosso messias não está só: há um outro frustrado. Não sou depositário de segredos de cabeças coroadas, dessarte não posso dar garantia sobre o que vou dizer. Mas pode bem ter-se passado assim.

Primeira consideração:
Entre Copa do Mundo e Eurocopa, a Espanha ganhou todas. Ia de vento em popa. Tudo indicava que chegaria, com facilidade, à final da «Copa das copas».

Felipe VI, da Espanha

Felipe VI, da Espanha

Segunda consideração:
A monarquia espanhola anda bambeando. Repetidos escândalos envolvendo membros da família real ― e o próprio rei ― achacaram os espanhóis. A abdicação do antigo e a assunção de novo rei poderia trazer aquela brisa que desanuvia a atmosfera.

Conclusão:
Por que não juntar o útil ao agradável? Por que não fazer coincidir a sagração do herdeiro com o triunfo da seleção espanhola na Copa? Imaginem que maravilhoso seria se o mundo inteiro visse a aparição do sorridente casal real na tribuna de honra do Maracanã a acenar para a plebe no momento da vitória esportiva de seu país?

Esse cenário não me parece fantasioso. Por mim, foi assim que aconteceu ― aposto minhas fichas. De toda maneira, não saberemos jamais. O que sabemos, isso sim, é que, asseguradamente, o casal real não estará presente à cerimônia de entrega da taça. Furou.

Falando em entrega de troféu, Vladimir Putin já anunciou que estará presente à final da Copa. Quem é que lhe vai fazer companhia? Algum mandarim da Fifa?

Ignorância e intolerância

José Horta Manzano

Brasileiro tem fama de tolerante e se orgulha disso. De fato, comportamentos olhados de esguelha em outras partes do mundo são, entre nós, aceitos como se naturais fossem.

Aos brasileiros, parece natural:

Interligne vertical 11c* que um casal decida quando é chegada a hora de dissolver a união;

* que gente idosa ou com dificuldade de locomoção tenha assentos reservados e prioridade em certos serviços;

* que qualquer um que declare ter uma gota de sangue subsaariano nas veias passe à frente em determinadas filas, mormente no campo da Educação Pública;

* que, a partir de certa idade, criminosos sejam tratados como se inocentes fossem, e que recebam indulto;

* que compatriotas busquem a sorte no exterior, que por lá se casem, que por lá formem família, que por lá refaçam sua vida;

* que se legalize a situação de duas pessoas de mesmo sexo decididas a juntar os trapos e compartilhar a existência;

* que cidadãos acusados de pesados crimes se apresentem a eleições para cargos elevados. E que sejam eleitos. E que cumpram o mandato;

* que figurões políticos deixem de cumprir o que prometeram, sem que isso acarrete consequência;

* que cada um escolha livremente sua religião, inclusive se isso implicar rompimento com a fé inculcada na infância;

* que qualquer um professe, ao mesmo tempo, duas (ou mais) religiões;

* que mal-intencionados e ignorantes segurem as rédeas do País.

Para os que vivem no exterior, é grande vantagem dispor da cidadania do país que os acolheu. Até uns 20 ou 30 anos atrás, a situação era pouco clara. Brasileiro que ousasse adquirir outra nacionalidade perdia ipso facto a brasileira. Era uma ou outra. Ponto e acabou.

Com o aumento exponencial do número de brasileiros expatriados, o problema se tornou agudo. Foi quando nossos distraídos legisladores se deram conta do absurdo da situação e decidiram que… era chegada a hora de decidir. Ficou então combinado que o brasileiro que adquire, por decisão pessoal, cidadania estrangeira ― visando a facilitar sua vida na nova terra ― será autorizado a conservar a nacionalidade brasileira originária.

Boa parte do público que assistia ontem a um jogo de futebol no estádio de Salvador foi protagonista de um comportamento primitivo e chocante. A cada vez que um certo Diego Costa, jogador do time espanhol, tocava a bola, levava uma vaia. E não é porque jogasse mal. É porque o sergipano ― transferido aos 18 anos para a Espanha, onde acabou se estabelecendo ― adquiriu a cidadania do país onde vive, conforme lhe faculta a norma brasileira.

Constrangido, o comentarista da tevê suíça viu-se na obrigação de explicar a seus ouvintes ― que certamente não compreendiam o que estava acontecendo ― que os frequentadores do estádio não perdoavam ao jovem jogador o fato de ter decidido adotar a nacionalidade do país que o acolheu. Foi vergonhoso.

É assustador constatar que boa parte de nosso povo, embora viva em grandes aglomerados que ousam chamar metrópoles, ainda guardam visão de mundo atrasada, primitiva, digna de grotões.

Diego CostaAqueles que se revoltaram contra a banana lançada contra um jogador algumas semanas atrás são os mesmos que ontem despejaram uma bananeira inteira contra o jovem Diego.

Ainda falta um bom pedaço de caminho para que os brasileiros se abram ao mundo e entendam que o universo não se limita aos confins de nossa maltratada República.

Nossa Seleção não conta com nenhum jogador de declarada origem ameríndia. São todos, por consequência, descendentes de imigrantes ou de gente que um dia, de uma maneira ou de outra, veio de fora.

Por coerência, proponho que se organize uma vaia coletiva a cada jogo da Seleção, extensiva a todos os jogadores. Afinal, todos deixaram a pátria um dia.

Cada cabeça, uma sentença

José Horta Manzano

No Brasil, a Gazeta Esportiva, publicação especializada, botou na manchete:
«Seleção espanhola desembarca em Curitiba longe da torcida».

Na Espanha, o diário La Verdad, de Murcia, preferiu um tom mais ufanista. E mandou o título:
«Brasil recibe con pasión a España».

Cada um enxerga o mundo com seus óculos.

A cartilha

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 jun° 2014

Pelos anos 60, o mundo não funcionava como hoje. O planeta vivia na base do «nós ou eles» – quem não era de um campo era necessariamente do outro. O adversário era mais temido que odiado.

O espaço capitalista, capitaneado pelos EUA, apreciava ser visto como «mundo livre». Já os dirigentes do universo comunista, liderados pela União Soviética, encarnavam as «forças do progresso». Era claro exagero: nem os capitalistas eram assim tão livres, nem os comunistas sobressaíam pelo progresso civilizatório.

Espanha, Portugal, Brasil, Filipinas e outros integrantes do «mundo livre» eram contidos com mão de ferro por ditaduras ferozes. Albânia, Bulgária, Coreia do Norte, Romênia – dirigidos por «forças do progresso» – contavam entre os países mais atrasados.

«Plebiscito Popular»

«Plebiscito Popular»

Impiedosos, os anos 70, 80, 90 mudaram a face do mundo. O papa polonês, a queda do Império Soviético, o fim das ditaduras ibéricas e latino-americanas, o fracasso de Cuba, o banimento de tiranetes asiáticos, o fortalecimento da União Europeia se encarregaram de redistribuir as cartas e reequilibrar as forças.

A redemocratização do Brasil e a subida do poder aquisitivo condenaram ao baú dos arcaismos expressões como: ligas campesinas, comunismo revolucionário, agricultura de subsistência, luta de classes, esquerda socialista, solidariedade entre os povos.

Numa época como a atual, em que o hedonismo foi elevado à categoria de ideal supremo, antigas expressões de desprendimento e de solidariedade perderam-se num passado ingênuo e deliciosamente démodé.

Os participantes

Os participantes

Démodé? Pois há quem tente realumiar o mundo com fogo extinto. No Brasil, articula-se uma campanha – cujos iniciadores permanecem discretos – que preconiza a convocação de um «plebiscito constituinte», seja lá o que isso queira dizer. Uma cartilha, termo escapulido do baú, está à disposição dos interessados.

O opúsculo, nomeado Cartilha Plebiscito Popular, agride a boa linguagem logo de entrada, na chamativa capa policrômica. Ao qualificar o plebiscito como «popular», demonstra ignorar que, por definição, todo plebiscito é popular. A redundante expressão reaparece, despudorada, 39 vezes ao longo das 40 páginas da «cartilha». E pensar que uma rápida consulta ao dicionário teria evitado o vexame…

Num saboroso anacronismo, o folhetim exuma expressões e conceitos empoeirados. Voltam à cena as classes dominantes, os setores oprimidos, a maioria explorada, a democracia burguesa, os setores reacionários. Ressurge a imperiosa necessidade de estatizar empresas. É um verdadeiro mergulho num mundo que já foi, um libelo romântico em total assintonia com a realidade atual. A cartilha não logra demonstrar a relação de causa e efeito entre o nebuloso «plebiscito popular» e o atingimento do almejado padrão de excelência.

O movimento é prestigiado por 214 instituições entre as quais se contam indefectíveis uniões campesinas, movimentos místicos, grupos revolucionários, frentes pró-cotas, centros de solidariedade aos povos. Sem surpresa, o MST e o Partido Comunista apuseram sua chancela.

Um aderente, no entanto, destoa. Entre os apoiadores do movimento, está… o Partido dos Trabalhadores. Impávido, com todas as letras, bem-comportado, na ordem alfabética. Não fosse este um adjetivo pouco adequado às atribulações da agremiação, eu diria que o partido assinou o manifesto meio envergonhado.

A adesão do PT atropela o bom senso. Senão, vejamos: o desenho da página 11 da cartilha deixa claro que chegou a hora de cuidar da saúde, da educação, da moradia, da reforma agrária, do salário. Sabemos todos que o partido que ocupa o poder federal há 12 anos controla todos os patamares do governo da República. Executivo, Legislativo, estatais, agências reguladoras, nenhum degrau lhe escapa.

As reclamações

As reclamações

Se não impuseram, em quase três lustros de poder, as reformas que ora pleiteiam, difícil será acreditar que o venham a fazer na rabeira de um «plebiscito popular». Apesar dos ventos favoráveis e da confortável e submissa maioria congressual, reformas importantes nunca foram feitas, donde a persistência do descalabro na Educação, na Saúde Pública, na infraestrutura.

A sugestiva capa da cartilha é ilustrada por uma horda de manifestantes, municiados com bandeiras vermelhas, pressionando um Congresso de onde parlamentares fogem intimidados. É a tradução gráfica da substituição de representantes eleitos por bandos raivosos.

Ninguém discorda do fato de que nossos eleitos deixam a desejar – e muito! Mas será que escorraçá-los e substituí-los por hostes revolucionárias será a melhor solução?

De menor

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 abril 2014

Atividades criminosas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em nosso país, infelizmente, sua frequência tende a ser mais elevada do que a média mundial. Refiro-me a todos os comportamentos que se enquadram no Código Penal, desde roubo de maçã até assassinato, passando por todo tipo de assalto ao erário. O volume exagerado de malfeitos tem poder anestesiante. A gente acaba nem prestando mais a atenção que deveria.

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

Crimes particularmente odiosos têm, ainda assim, o poder de sacudir a opinião pública. Quando algum feito escabroso é obra de um menor de idade, uma grita costuma se levantar para pedir que seja adiantada a idade da maioridade penal.

É o que acontece estes dias. Na sequência de crime excepcionalmente abjecto cometido por um menor de idade, o legislativo prevê desengavetar e levar a votação, ainda este mês, projeto de adiantamento da maioridade penal. A proposta é baixar o limite, em casos específicos, de 18 para 16 anos de idade.

A mim, me parece que o assunto é complexo demais para ser tratado a vassouradas. Comoção nacional não é boa conselheira. Decisão tomada na hora do abalo, sob o impacto de forte emoção, periga não ser a mais adequada. A problema complexo, solução ajuizada e bem arquitetada.

Para começar, há que encarar uma questão que roça a filosofia: que objetivo se persegue ao determinar que seja tolhida ou limitada a liberdade do criminoso condenado? Fazemos isso por simples castigo ou por vingança? Interessa à sociedade tentar a reeducação do delinquente? Ou será que procuramos simplesmente banir a ovelha negra para evitar que a contaminação se alastre aos demais cidadãos?

Basilar, essa reflexão extravasa amplamente dos limites do parlamento. Merece ser confiada a uma comissão de sábios, que inclua gente do ramo e gente de bom-senso. Antes de definir a razão pela qual mandamos o transgressor para trás das grades, não faz sentido discutir idade.

A fixação da idade a partir da qual as leis penais são aplicáveis é assunto espinhoso. Nem países europeus, que já uniformizaram longa fieira de procedimentos em variados campos, enxergam essa matéria de maneira homogênea. Na falta de acordo, cada qual procede a seu modo.

Nosso Código Penal talha a questão de modo exageradamente brusco, sem grande sutileza: a barreira que separa o adolescente do adulto cai, abrupta, no dia em que o cidadão completa seus dezoito anos. À meia-noite, mais precisamente.

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Ora, sabemos todos que o amadurecimento não acontece, como por milagre, de um dia para o outro. Ninguém vai dormir criança para, de manhã, acordar adulto. O processo de desenvolvimento do indivíduo é gradual. E como tal deveria ser encarado. Quando não se sabe que caminho tomar, não há que envergonhar-se. Tomar decisões no escuro será ainda pior. Melhor mesmo é baixar a crista e tomar o pulso em outros países. Quem sabe outros povos já não terão encontrado soluções que nos possam ser úteis?

A fixação da maioridade penal está longe de ser universal. É controversa e varia de país a país. Na Suíça, a idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado penalmente responsável é de 7 anos. Na Inglaterra, de 10 anos. Na Holanda, de 12 anos. Na França, de 13 anos. Na Alemanha e na Itália, de 14 anos. Na Bélgica e na Espanha, de 16 – sendo que, neste último país, está em estudo a redução para 13 anos. Em vista do volume crescente de crimes graves cometidos por adolescentes, a Alemanha e a Bélgica tencionam baixar o limite da responsabilidade penal para 12 anos.

A alteração que está sendo proposta no Brasil, de 18 para 16 anos, não vai, por si, conter a violência. Vai – isso sim – contribuir para a superlotação das prisões, que são por muitos consideradas verdadeiras escolas do crime.

Num país onde o ministro da Justiça – aquele que tem a faca, o queijo, o pão e a manteiga na mão – já chegou a declarar que «preferia morrer» caso tivesse de cumprir alguns anos em prisão brasileira, a idade em que o indivíduo atinge a maioridade penal é de importância secundária. Nenhuma reforma do sistema será eficaz se não incluir reformulação total do universo prisional. Do porão ao telhado. País rico é país sem miséria carcerária.