Chavismo para os EUA

José Horta Manzano

Não sei o que significa «chavismo para os EUA». Se o distinto leitor souber o que é, evite criticar esse tipo de chavismo. Sobretudo, cale-se quando visitar a Venezuela. Do contrário, está arriscado a enfrentar sérios problemas com as autoridades. Um conterrâneo cometeu a besteira justamente quando se encontrava na Venezuela. Não deu outra: foi expulso do país.

Chamada Estadão 6 jan° 2017

Vamos falar sério agora. Em duas distraídas linhas, o estagiário deu recado errado. Diferentemente de outras línguas mais rígidas, a nossa permite ‒ até certo ponto ‒ o deslocamento de termos no interior da frase. Mas a liberdade desse troca-troca termina onde a compreensão fica comprometida.

O autor da chamada escorregou. Só quem já estava a par da história, que já vinha de alguns dias, entendeu o recado. Para total clareza, bastava ter ordenado os termos numa ordem coerente. Assim:

«Venezuela expulsa, para os EUA, brasileiro acusado de criticar chavismo»

ou

«Brasileiro acusado de criticar chavismo é expulso da Venezuela para os EUA»

ou ainda

«Expulso da Venezuela para os EUA brasileiro acusado de criticar chavismo»

«Aquele que sabe que é profundo tende à clareza; aquele que quer parecer profundo tende à escuridão, pois o povo acredita ser profundo tudo aquilo cujo fundo não consegue enxergar.»

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.

Venezuela, a barata tonta

José Horta Manzano

«Embaixador brasileiro em Caracas considerado ‘persona non grata’ pelo governo venezuelano.»

«Itamaraty não tem previsão de enviar outro embaixador à Venezuela.»

Entre ontem e hoje, a mídia estampou essas duas manchetes. Uma sequência radicalmente fora de esquadro. Espero que a segunda manchete não passe de cochilo do estagiário de plantão nesta véspera de Natal. Mostra total desconhecimento dos sutis códigos que se utilizam na comunicação internacional.

A linguagem diplomática, de aparência aveludada, pode revelar-se contundente, violenta até. Declarar um embaixador persona non grata, é dar um tapa na cara do país que ele representa. Não é a pessoa física do diplomata que está sendo ofendida, mas o Brasil inteiro. É sinal claro de repulsa, de ‘chega pra lá’, de ‘põe-te daqui pra fora’, de ‘não queremos conversa com vocês’.

Previsão de enviar outro embaixador? O estagiário devia estar no primeiro dia de trabalho. Repito, para que fique claro: não é doutor Pereira, o embaixador, quem está sendo rejeitado. Caracas não quer conversa é com o Brasil. Portanto, enviar novo embaixador está fora de questão.

Unha e carne com señor Maduro, Delcy Rodríguez é presidente da Assembleia Constituinte. Coube a ela expulsar nosso embaixador.

Daqui pra frente, a questão subiu de patamar. Cogita-se sobre o rompimento de relações diplomáticas com o infeliz vizinho do norte. A ruptura é ato político que exige avaliação dos prós e dos contras. Embora, de supetão, a reação epidérmica seja cortar imediatamente todo contacto com aquele regime selvagem, o Itamaraty terá a sabedoria de tomar a decisão adequada. Pelo menos, assim espero.

A iniciativa de Caracas não se sustenta. Expulsaram o embaixador do Canadá sob a alegação de que aquele país se imiscui em assuntos internos da Venezuela. Ao mesmo tempo, expulsaram nosso embaixador argumentando que nosso governo é fruto de golpe de Estado, portanto, ilegítimo.

Não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Se, por um lado, repreendem o Canadá pela intromissão em assuntos internos venezuelanos, não faz sentido se intrometerem, por outro lado, em assuntos internos brasileiros. Se foi «gópi» ou não, o problema é nosso. A Venezuela não tem de meter o bedelho.

Feito barata tonta, os dirigentes de Caracas andam atirando em todas as direções e serrando o galho onde se assentam. Com o país em estado de indigência, melhor fariam se baixassem a crista e procurassem aproximação com quem ainda lhes pode dar uma mão. Por incompetência, estão construindo uma cintura de vácuo em torno de si próprios. Quando se derem conta de que já não conseguem sobreviver sozinhos, talvez seja tarde demais.

Petrolão venezuelano

José Horta Manzano

Você sabia?

Má gestão e corrupção corroeram a Petrobrás. Como hoje sabemos todos, faltou muito pouco pra ela desmoronar de vez. Foi salva na undécima hora. Por sorte, tivemos a Lava a Jato que, bem ou mal, tapou alguns buracos e, se não estancou, diminuiu a sangria. Quanto à incompetência na gestão, não há Lava a Jato que dê jeito. O único remédio seria a redução da participação do governo no capital da empresa. É só no dia em que particulares compuserem a maioria do acionariado que as coisas entrarão nos eixos.

As mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. A recíproca é verdadeira: os mesmos efeitos costumam ser resultado das mesmas causas. Nossa infeliz vizinha Venezuela, que tira a quase totalidade de seu sustento da exportação de petróleo, vive em rigorosa dependência do desempenho da estatal petroleira. Quando a empresa bambeia, o país inteiro ameaça desabar. É bem pior que no Brasil.

Até alguns dias atrás, o mundo sabia que a petroleira venezuelana vinha sendo mal gerida desde que o «bolivarianismo» ascendeu ao poder. Havia rumores de corrupção, mas nenhum fato concreto havia sido divulgado. Isso mudou. O diário espanhol El País teve acesso a informações estupefacientes. Segundo a polícia do Principado de Andorra, investigações junto à Banca Privada d’Andorra ‒ um banco privado do pequeno país ‒ estão revelando um esquema de deixar qualquer corrupto brasileiro babando de inveja.

Pelo que se descobriu até o momento, calcula-se que ministros venezuelanos e testas de ferro de homens políticos tenham recebido mais de 2 bilhões de euros (8 bilhões de reais!) em comissões ilegais cobradas de companhias estrangeiras para adjudicação de contratos com a petroleira estatal.

O pagamento das propinas se fazia através de um sistema sofisticado. Um emaranhado de empresas de fachada baseadas em paraísos fiscais ‒ especialmente no Panamá ‒ mantinha 37 conjuntos de contas-correntes no banco andorrano. As contas eram abertas em nome de laranjas. O nome do beneficiário dos fundos permanecia sempre protegido pelo segredo bancário e não aparecia nos extratos.

Exatamente como a Lava a Jato revelou sobre as artes de doutor Eduardo Cunha, os gastos dos beneficiários venezuelanos eram principescos. (Como é fácil esbanjar dinheiro alheio…) Aqui estão algumas contas pagas através do banco andorrano:

● Uma única compra de 694 garrafas de vinho de primeira linha numa loja especializada de Paris. Total: 494 mil euros (dois milhões de reais).

● Gastos com aluguel de helicópteros. Total: 516 mil euros (dois milhões de reais).

● Compra de ternos sob medida. Total: 953 mil euros (3,7 milhões de reais).

● Gastos em joalherias e relojoarias. Total: 6,1 milhões de euros (24 milhões de reais).

Enquanto isso, a população passa fome e morre por falta de remédio. A procuradoria-geral venezuelana estima que a expoliação da petroleira estatal ultrapasse 3,5 bilhões de euros (quase 14 bilhões de reais). É montante pra nenhum corrupto brasileiro botar defeito.

E pensar que, não fosse a Lava a Jato e a destituição da doutora, estávamos no mesmo caminho. Apesar dos pesares, há que admitir que temos um santo forte.

Nota
Se alguém quiser conhecer mais detalhes sobre os gastos dos bondosos socialistas do século XXI, pode clicar aqui e aqui (em espanhol) ou aqui (em inglês).

Boicote inútil

José Horta Manzano

Ontem os eleitores venezuelanos foram convocados para eleger prefeitos. A oposição tinha lançado uma palavra de ordem: abstenção. Segundo os opositores, todos os que discordam das políticas implantadas por Nicolás Maduro deveriam ficar em casa e fazer cara de paisagem. Por detrás dessa orientação, estava a ideia de demonstrar força… pela ausência.

Pareceu-me estratégia pra lá de arriscada. De fato, o resultado não foi exatamente o esperado. Por um lado, nem todos os que reprovam o regime atual deixaram de votar. Ainda que não fossem numerosos, deram ao pleito um lustro de legitimidade difícil de contestar. Por outro lado, señor Maduro, com a truculência que o caracteriza, valeu-se da ocasião para anunciar que os partidos que lançaram o boicote não terão direito a apresentar candidatos às próximas eleições presidenciais.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pronto. Além de perder a oportunidade este ano, ainda serão impedidos de se candidatar da próxima vez. E que ninguém se engane. Maduro controla o Judiciário, razão pela qual não adianta entrar com recurso. Naquele país, os magistrados agem como seu mestre mandar.

Homens políticos não costumam dar ponto sem nó. No entanto, essa costura ditada pela oposição venezuelana parece desalinhavada. Alguma razão há de os estar levando a pregar o boicote às eleições. Seja qual for essa razão, o resultado não está saindo conforme o figurino. Com esse tipo de atitude, perdem mais do que ganham.

Os adversários de Maduro, que conquistaram dois terços do parlamento nas legislativas, já demonstraram que têm a seu lado a maioria dos eleitores. Falta-lhes compenetrar-se de que a união faz a força. O melhor caminho será deixar vaidades pessoais de lado e unir esforços em torno de candidaturas unificadas. E nada de convocar boicotes, que simplesmente não funcionam. No dia em que aprenderem a se unir, estarão pavimentando o caminho da vitória. E da derrota do tiranete.

Se liberan a sí mismos

José Horta Manzano

Señor Antonio Ledezma é advogado e homem público venezuelano. Na política desde os tempos de estudante, já foi deputado, governador, senador e prefeito da capital do país ‒ um currículo sólido. Há muitos anos, faz parte da importante franja de políticos que se opõem ao desmonte da nação instaurado pelo regime «bolivariano» de Hugo Chávez e reconduzido por Nicolás Maduro.

Dado que a Justiça do país se encontra dominada pelo Executivo, prevalece sempre a vontade do príncipe. Em 2015, o príncipe agiu como de costume quando alguém lhe pisa os calos: ordenou que señor Ledezma fosse encarcerado. Desde então, o prefeito foi mantido em prisão domiciliar. A acusação? Um pretenso e nebuloso complô para derrubar Maduro ‒ alegação sem consistência e impossível de ser comprovada.

Caracas – Cúcuta: trajeto de 900km
imagem Google

Instalou-se, desde então, uma rotina. Todos os dias, a polícia bolivariana batia à porta de Antonio Ledezma às oito da manhã e às oito da noite. Vinha constatar a presença do prisioneiro. Como prova, os guardas levavam as impressões digitais do encarcerado para mostrá-las aos superiores. Rígido nos primeiros meses, o ritual foi-se afrouxando. Os policiais acabaram rareando a visita noturna. Davam expediente só pela manhã. Afinal, quase 1000 dias já se tinham passado sem nenhum incidente.

Durante várias semanas, o preso preparou um plano de fuga. Contou ‒ é certeza ‒ com uma rede subterrânea de cúmplices. Por razões de segurança, o nome dos colaboradores não foi nem será publicado. No dia acertado, logo após a passagem matinal dos agentes de Maduro, Ledezma embarcou num automóvel para uma longa viagem de 900km até a fronteira colombiana. O trajeto levou 15 horas. Vinte e nove postos de controle foram enfrentados sem o menor problema, num sinal de que cumplicidade havia.

Um rio marca a fronteira entre Venezuela e Colômbia. Do lado colombiano está a cidade de Cúcuta. A mídia não menciona, mas é plausível que o fugitivo já estivesse sendo ali aguardado para ser transportado a Bogotá, a capital do país. De lá, tomou um avião de carreira com destino a Madrid, onde desembarcou neste sábado de manhã. Ao chegar, foi acolhido pela esposa e pelas filhas, que já vivem na capital espanhola há tempos.

Tirando a rainha da Inglaterra, nenhum viajante intercontinental costuma embarcar sem passaporte. Dado que seu documento de viagem havia sido confiscado por Maduro, como é possível que Ledezma tenha podido viajar? Esse detalhe não foi (nem deverá ser) esclarecido.

No aeroporto de Madrid, uma multidão de repórteres, microfone em punho, aguardava pelo político. Perguntas choveram. De repente, o recém-chegado se surpreendeu ao ouvir que «estava fugindo» da Venezuela. Na lata, retrucou: «Los presos políticos no se fugan, se liberan a sí mismos» ‒ presos políticos não fogem, libertam-se.

Adicionando a massa de refugiados que escapam diariamente em direção à Colômbia e ao Brasil, os mais afortunados que já se foram para Miami e os políticos que se libertam, a Venezuela está chegando ao ponto em que vale a máxima: «Que o último a sair apague a luz».

Fim da boquinha

José Horta Manzano

AQUI
Mostrando poder sem limites, outro dia o STF interveio no calendário. Ao dar-se conta de que um feriado caía num sábado, sua presidente tomou a decisão de transferi-lo para a sexta-feira da semana seguinte. O Brasil deu de ombros e não viu nada de errado.

É sabido que parlamentares federais não costumam aparecer na segunda nem na sexta-feira. Quando um feriado cai numa quarta-feira, então, é comum enforcar a semana inteira. O Brasil dá de ombros e não vê nada de errado.

ALI
Em agosto de 2013, uma diplomata de carreira foi nomeada para o posto de embaixadora da Suíça na Venezuela. Acompanhada do marido, transferiu residência para Caracas. Sua missão durou pouco mais de dois anos, até o fim de 2015, quando foi chamada de volta a Berna.

Uma auditoria de rotina havia revelado que, nos anos de 2013 e 2014, a diplomata havia tirado 69 dias de férias a mais do que devia. Com salário pleno, evidentemente. Um inquérito administrativo foi aberto.

Além de confirmar o excesso de férias, a investigação revelou outros abusos. Descobriu-se que, quando de suas viagens entre a Suíça e a Venezuela, a diplomata aproveitava para fazer escalas prolongadas em outros países. Acompanhada do marido e sem motivos profissionais. E as despesas, pagas com cartão corporativo, eram cobertas pelos cofres públicos.

A embaixadora foi imediatamente suspensa de suas funções e tornou-se ré de processo por improbidade administrativa. Na Suíça, considera-se que seus atos não somente contrariaram a relação entre empregado e empregador, mas foram desrespeitosos para com o interesse público.

A sentença do Tribunal Administrativo Federal acaba de sair. A acusada foi condenada à perda do emprego por justa causa, efetiva desde o dia em que foi suspensa. Sua carreira diplomática está encerrada.

AQUI E ALI
No Brasil, a lei concede benefícios extraordinários a ex-presidentes. Dá-lhes direito a pensão vitalícia, automóvel, motorista, guarda-costas, secretários. Ao conceder a aposentadoria, o legislador levou em consideração a dificuldade que um ex-presidente teria em encontrar novo emprego, o que parece justo. Já os demais penduricalhos foram acrescentados com o passar do tempo.

Embora os benefícios pareçam exagerados, vamos admitir que sejam normais. O que não me parece normal é que nossa ex-presidente destituída saia pelo mundo acompanhada do séquito ‒ viajando à nossa custa ‒ para dar palestras nas quais diz, entre outros horrores, que foi apeada por «golpe de Estado».

Ciberpiratas

José Horta Manzano

AQUI
Parece milagre. Para nós todos, tão acostumados com a lentidão e o desleixo dos guardiães da língua na tarefa de aportuguesar palavras estrangeiras, é um espanto. Tomando a dianteira sobre o francês, o espanhol, o italiano e outras línguas próximas, o mui oficial Volp ‒ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa ‒ já abonou o termo «ciberpirata», perfeita adaptação do inglês «hacker». A transposição foi muito feliz. A palavra portuguesa evoca exatamente a figura do indivíduo que passeia pela rede recheado de más intenções. Estamos liberados para usar e abusar do termo sem aspas e sem sentimento de culpa. Aleluia!

Ciberpirata 1


O governo espanhol confirma ter constatado, estas últimas semanas, a invasão do espaço cibernético nacional. As redes sociais do país estão inundadas de milhares de perfis falsos que propagam «pós-verdades»(*). Todas elas seguem clara linha de incentivo à independência da Catalunha. Está comprovado que as investidas vêm da Rússia e… da Venezuela, veja só.

O fenômeno se assemelha ao que se viu nos EUA durante a campanha para as eleições presidenciais do ano passado. Naquela ocasião, a pirataria só foi descoberta tarde demais, quando Mr. Trump já estava eleito. Escaldados, os peritos que investigam esse tipo de ataque já acenderam o sinal vermelho no caso da Catalunha.

Ciberpirata 3

O assunto é delicado. Apesar da certeza sobre a origem dos ataques, o governo espanhol optou por manter certa discrição, pelo menos por enquanto. À boca pequena, corre a informação de que Madrid tem provas que incriminam a Rússia. Mas certas verdades são incômodas. Se acusados, os russos vão imediatamente negar. Será palavra contra palavra. Ao final, um incidente diplomático estará criado sem que a piratagem cesse. Não vale a pena.

Mas que interesse tem a Rússia numa hipotética independência catalã? ‒ deve estar-se perguntando o distinto leitor. À primeira vista, nenhum. Muito pelo contrário. Abrigando em seu vasto território dezenas de povos com línguas e religiões diferentes, a Federação Russa não deveria ver com bons olhos uma onda secessionista que partisse da Catalunha, varresse o continente e despertasse sentimentos nacionalistas no interior de seu imenso território.

Ciberpirata 2

No entanto, um exame mais atento desvela a razão da intervenção. À Rússia de Putin, não interessa uma Europa forte e unida. O enfraquecimento da União Europeia ‒ seu esfacelamento, se possível ‒ está entre as prioridades de Moscou. Farão tudo o que puderem para semear a discórdia no continente. O sonho do Estado russo é ver a Europa de novo subdividida em dezenas de pequenos países fracos e desunidos. É uma evidência: uma Europa despedaçada será um concorrente a menos.

E a Venezuela, o que faz nesse imbróglio? Abandonados por todos, nossos hermanos do norte precisam desesperadamente de aliados. Chineses, que são comerciantes na alma, não costumam se meter em política alheia. A Europa tem sérias restrições em apoiar a ditadura de Maduro. Resta a Rússia. Eis por que Caracas dá uma forcinha a Moscou na romântica tentativa de «quebrar» a Europa com a força de redes sociais.

Por mais exímios que sejam seus ciberpiratas, os russos não têm chance de conseguir, a médio prazo, o que desejam. A grande firmeza mostrada por Madrid deixa claro aos independentistas catalães que não conseguirão separar-se. E, ainda que isso desagrade a Moscou, a Europa segue firme e unida no apoio à Espanha.

(*) Faz mês e meio, escrevi sobre «pós-verdades». Clique aqui quem quiser recordar.

A Venezuela e a Revolução Bolchevique

José Horta Manzano

Este 7 de outubro marcou o centésimo aniversário da Revolução Bolchevique. Durante o período soviético e mesmo depois do esfacelamento da União Soviética, a data era comemorada com festa, impressionante desfile militar, multidão de espectadores, rojão e banda de música.

Depois da ascensão de Vladimir Putin, a celebração perdeu importância. Não foi por obra do acaso, mas por ordem do dirigente máximo. De fato, o mandachuva preferiu dar maior ênfase à grande festa nacional, aquela que comemora a vitória sobre a Alemanha nazista.

Na época comunista, a verdade sobre os milhões de vítimas do regime era escamoteada. Nada se divulgava sobre as multidões de fuzilados, de banidos nos gulags, dos encarcerados por delito de opinião ou por simples capricho de um comissário qualquer. Esses fatos são hoje de conhecimento público.

Putin, se pudesse, anularia tudo o que pudesse fazer lembrar a revolução de 1917. Prefere focar em acontecimentos que contribuam para a coesão nacional, daí o interesse pela vitória contra Hitler. Há que levar em conta também que cidadãos com menos de 35-40 anos não conheceram o período comunista. Para essa camada mais jovem da população, Stalin e Lenin fazem parte dos livros escolares, como Vargas ou o Marechal Deodoro para nós.

Na contramão da história, como é seu hábito, o ditador Nicolás Maduro convocou os sindicatos venezuelanos para um grande desfile de comemoração do centenário da Revolução Russa. A Assembleia ‒ inteiramente composta por parlamentares a serviço da ditadura ‒ juntou-se aos festejos. Maduro discursou em cadeia nacional de rádio e televisão. Expressões empoeiradas como «socialismo libertário», «dignidade dos povos sul-americanos», «união dos povos do sul», «revolução socialista, camponesa e proletária» fizeram parte do pronunciamento.

Como é possível que a Rússia, pátria do comunismo, tenha optado por tirar o foco da revolução, enquanto a Venezuela se esforça para dar peso a um acontecimento que não lhe diz respeito? Há uma explicação.

Vladimir Putin tenta banir do inconsciente coletivo russo a ideia de que toda mudança de regime tenha de vir pela força de uma revolução ou de um golpe de Estado. Assim, tenta convencer os russos de que ele ‒ Putin ‒ encarna o grande passo à frente. Sem lutas, sem manifestações, sem revolta popular.

Por seu lado, Nicolás Maduro procura incutir no imaginário de seu povo que só uma revolução ‒ a dele, naturalmente ‒ garantirá felicidade para todos. Incentiva passeatas, desfiles, discursos guerreiros, atos violentos. Desde que sejam em seu favor, diga-se.

Países que rechaçaram explicitamente a independência catalã

Nota
A esmagadora maioria dos países condenou explicitamente a declaração unilateral de independência catalã. Señor Nicolás Maduro, no entanto, não quis acompanhar o resto do planeta. Tem aproveitado, sempre que a ocasião aparece, para lançar flechas contra o governo espanhol. É difícil entender por que razão o ditador bolivariano se levanta justamente contra um dos países que mais investem na Venezuela.

O Lula não mudou

José Horta Manzano

Este domingo, o jornal espanhol El Mundo publicou entrevista concedida pelo Lula. A leitura do documento é aflitiva. Ao final, a gente fica sem saber se o ex-presidente acredita realmente no que afirmou ou se está apenas representando um papel. Talvez as duas opções sejam verdadeiras. As respostas oscilam conforme a pergunta do repórter. Em certos assuntos, ele diz o que acredita ser verdadeiro. Em outros, dá a resposta que imagina que os leitores estejam esperando. No cabeçalho da reportagem, o próprio jornal fez um elenco das respostas mais marcantes. Vale a pena dar uma vista d’olhos.

Candidato em 2018
«Vou-me apresentar, aos 72 anos, porque ninguém sabe, como eu, cuidar do povo mais necessitado»

Observação 1
Nosso guia continua passando por cima da evidência de que presidente não é eleito para cuidar apenas do povo mais necessitado. Recebe mandato para governar o país inteiro ‒ pobres, ricos e remediados.

Observação 2
O país foi dirigido pelo ex-sindicalista, direta ou indiretamente, durante 13 anos. Se soubesse cuidar dos pobres, estes já deveriam ter desaparecido. Em vez disso, o desastre foi tão grande que o povo ‒ incluídos os «mais necessitados» ‒ se rebelou e derrubou a turma toda. Querer voltar agora é demais ousado.

Observação 3
Na época das eleições de 2018, nosso guia já estará completando 73 aninhos, não 72.

Corrupção
«O processo que me movem é uma farsa. Ninguém achou provas.»

Observação
As acusações contra o demiurgo estão entre as mais embasadas. Há toneladas de provas documentais e testemunhais.

Venezuela
«Não entendo por que a Europa se preocupa tanto com Nicolás Maduro. Foi eleito democraticamente.»

Observação
No meu tempo, diríamos que o moço está dando uma de joão sem braço. Está-se fazendo de ingênuo. Todos sabem como funciona o processo eleitoral venezuelano, movido a fraude maciça e a brucutus.

Felipe VI
«Numa situação de tensão como a que se vive na Catalunha, o rei não deveria tomar partido mas mediar.»

Observação
O Lula mostra atroz ignorância. O rei não “tomou partido”, mas lembrou aos súditos que o país tem uma Constituição a respeitar. Nosso guia continua firme na visão conflituosa de mundo: ou se está de um lado, ou se está de outro. Sem nuances. É a mais pura expressão do “nós x eles”.

Catalunha
«Entendo que o nacionalismo catalão vem de longe, mas eu prefiro uma Espanha unida.»

Observação
O Lula não se dá conta de que ninguém está interessado em saber que Espanha ele prefere. Com esta última declaração, ele anulou o pito que havia passado no rei da Espanha na resposta anterior. Quem se considera “estadista” não deve opinar em assuntos internos de outro país.

Como pode o distinto leitor constatar, o ex-presidente não mudou nadinha. Continua exatamente como sempre foi: ego inflado, recalcado, mentiroso, intrometido, presunçoso, demagogo. O passar do tempo não lhe foi benéfico. Que Deus nos livre de ter de aguentá-lo de novo no Planalto.

De asilo & de embaixadas ‒ 2

Cláudio Humberto (*)

Com o agravamento da situação penal de Lula, que tem grande risco de cumprir pena de prisão em regime fechado, parlamentares voltaram a discutir a hipótese de fuga do País.

Fontes do PT confirmam que essa opção tem sido considerada pelo próprio Lula. O problema é que ele seria preso sem demora, mediante mandado internacional de captura.

Por isso, a opção seria asilar-se em embaixada “amiga”, tipo Equador, Bolívia ou Venezuela. Mas, pelas regras internacionais, um condenado em ação penal não recebe status de asilado político e sim de fugitivo de justiça.

Os defensores do asilo em embaixada lembram a Lula o caso de Julian Assange, do WikiLeaks, que fez isso em Londres para fugir da Justiça. Há cinco anos na embaixada do Equador, Assange não tem direito a salvo-conduto para deixar o país. Como Lula o seria, Assange é fugitivo da justiça.

As embaixadas da Bolívia de Evo Morales e da Venezuela do ditador Nicolás Maduro seriam os mais prováveis destinos de Lula. A diferença é que Lula foi condenado por corrupção. Assange é acusado de violência sexual, na Suécia, por não usar preservativo.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Mantém coluna no Diário do Poder.

Nota deste blogueiro
Seria decisão temerária o Lula pedir asilo na Bolívia ou na Venezuela. Instáveis, esses países não são propriedade do clã que os subjuga atualmente. Apenas «estão» bolivarianos. O governo desses países hermanos, assentado sobre bases frágeis e hostilizado por numerosos vizinhos, pode ruir a qualquer momento. Assim que desmoronar, como é que fica nosso líder?

O asilo pode muito bem ser revogado. O demiurgo de Garanhuns periga transformar-se então em nau sem rumo, a vogar ao sabor das ondas, sem ter mais onde atracar. Faz lembrar o finado xá da Pérsia, que, expulso do país pela revolução islâmica, ninguém queria acolher. Triste fim.

Mais vale ficar de tornozeleira em São Bernardo do Campo. Ainda que tenha de morar “de favor” em apartamento emprestado.

Coreia do Norte e Venezuela

José Horta Manzano

Duas maneiras de lidar com a paranoia

Coreia do Norte e Venezuela são países com vários pontos em comum. Têm população comparável: 25 milhões para o primeiro, 30 milhões para o segundo. Têm ambos a economia em frangalhos, com o povo passando fome enquanto a nomenklatura se farta de champanhe e caviar. Os dois países são atormentados por uma ditadura ‒ a da Coreia é hereditária e a da Venezuela segue adiante com sucessor designado.

Talvez a semelhança maior entre as duas nações seja a ignorância manifesta da classe dirigente, que parece viver num outro planeta, à margem da civilização. É certo que ambas as cliques vivem numa situação de paranoia permanente. Com ou sem razão, acreditam estar prestes a ser atacados por forças militares estrangeiras. Os tuítes estrambóticos do atual inquilino da Casa Branca não fazem senão reforçar esse sentimento. O folclórico personagem já ameaçou os coreanos com «fogo e furor» e não excluiu intervenção armada no nosso vizinho do norte.

Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte

Agora falemos das diferenças. A Coreia do Norte não foi agraciada pelos deuses na hora da distribuição das riquezas. O solo é pobre, as reservas minerais não são significativas. Como o país não fornece estatísticas oficiais, é difícil conhecer a economia no detalhe. Estima-se um baixíssimo PIB per capita, entre 1000 e 1500 dólares por ano. Para comparação, o do Brasil é dez vezes mais elevado.

Já a Venezuela passou três vezes na fila da distribuição de riquezas. Tem petróleo a dar com o pau ‒ a maior reserva do mundo. O solo é rico e o sol, generoso. Se tivesse lá aportado, Pero Vaz de Caminha não hesitaria em afirmar: «em se plantando, dar-se-á nela tudo». No entanto… o povo passa fome. Um paradoxo.

Ambos os países são governados por gente ignorante e paranoica, disso já sabemos. Mas há sensível diferença na maneira que cada qual encontrou pra lidar com essa sensação de iminente ataque externo.

A Coreia do Norte investiu (e continua investindo) o pouco que tem em armamento dissuasivo. E tem tido sucesso. Os testes balísticos destes últimos meses nem de longe têm intenção de atingir o Japão, nem Guam, nem quem quer que seja. Servem apenas de advertência: «Não brinquem conosco, que temos como nos defender». E olhe que tem funcionado. Alguém ousaria atacar o país?

Nicolás Maduro, ditador da Venezuela

Já a Venezuela, ai, santa ignorância! Como já fazia seu finado mentor, señor Maduro tem se contentado em subir o nível das bravatas. Incapaz de alimentar o povo, com o país expulso de facto do Mercosul, abandonado pelas companhias aéreas e impossibilitado de importar a não ser que pague adiantado, o bobão veio ontem com a enésima fanfarronice. Prometeu enviar «ajuda humanitária» de cinco milhões de dólares para as vítimas das enchentes de Houston.

O mandachuva de um país cujos cidadãos fogem aos milhares por falta do que comer não tem o direito de cometer tamanho escárnio. Os estragos causados pelas inundações no Texas são estimados, por alto, em 100 bilhões de dólares. Os cinco milhões doados por Caracas não vão além de 0,005% do total. Francamente, melhor faria señor Maduro se destinasse a bolada a comprar esparadrapo para seus hospitais.

Em resumo: a ditadura dinástica coreana está garantida por muitos anos. Quanto à Venezuela, ninguém apostaria um vintém furado na permanência do hermano bigodudo e paspalhão à frente da anacrônica ditadura.

Honoris causa

José Horta Manzano

Você sabia?

Em 2014, a Universidade de Notre Dame, fundada em 1842 no Estado de Indiana (EUA), outorgou doutorado honoris causa a señor José Antonio Abreu Anselmi, cidadão venezuelano. Misto de músico, educador e economista, señor Abreu já havia recebido diversos diplomas de mesmo teor assim como prêmios, láureas e homenagens ao redor do mundo.

Seu feito maior é ter dado início, ao final dos anos 1970, ao Sistema Nacional de Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela, conhecido simplesmente como «El Sistema». Bem antes do obscurantismo fomentado pela era chavista, o visionário se tinha dado conta de que a educação musical é uma das alavancas do processo civilizatório.

Nestes quarenta anos, «El Sistema» progrediu. Todo jovem venezuelano que sinta vontade de receber iniciação musical tem direito a ganhar o instrumento de sua preferência. Como resultado, o país tornou-se, nesse particular, exemplo para a América Latina. Proporcionalmente, conta com número de músicos mais elevado do que qualquer outro país da região. Muitos venezuelanos de origem humilde conseguiram mostrar talentos que, sem essa instituição, se teriam perdido.

Orquestra Nacional da Juventude com maestro Gustavo Dudamel ao centro
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De vez em quando, «El Sistema» descobre uma pérola. É o caso do maestro Gustavo Dudamel, que se formou apoiado pela instituição. O moço, hoje com 36 anos, é nada menos que diretor musical e artístico da Filarmônica de Los Angeles. Apesar da pouca idade, tem sido convidado a dirigir orquestras de primeira linha, tais como as Filarmônicas de Berlim e de Viena. Tem recebido prêmios e condecorações em numerosos países da Europa. Ele é igualmente diretor da venezuelana Orquestra Nacional da Juventude, que congrega a fina flor dos jovens músicos do país, conjunto que dá frequentemente concertos no exterior.

Para o mês de setembro, a orquestra de jovens tinha apresentações marcadas en quatro cidades americanas: Washington, Chicago, Los Angeles e São Francisco. Indignado com o descalabro que a incompetência e a ignorância de señor Maduro têm causado à Venezuela, maestro Dudamel publicou artigo no New York Times criticando o regime. Nem era tão virulento assim. Clamava por soluções imediatas “para abrir as portas a um jogo democrático mais sadio”.

Foi a conta. Señor Maduro, truculento e bronco, não admite opiniões divergentes. Mandou avisar que a Orquestra Nacional da Juventude estava proibida de viajar. Frustrou, assim, o sonho de alguns dos jovens que «El Sistema» tinha arrancado do mau caminho. Desapontou os que contavam assistir aos concertos. Mostrou mais uma vez ‒ como se necessário fosse ‒ que nossos infelizes hermanos estão vivendo sob a bota opressora de um regime injusto, incompetente e vingativo. O PT, que emprestou apoio incondicional ao regime de señor Maduro, não se manifestou sobre o episódio.

Falando em diploma
O Lula recebeu estes dias um doutorado honoris causa conferido pelos alunos da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Note-se que o diploma é inválido. Alunos não têm autoridade para outorgar título a quem quer que seja. Essa decisão é prerrogativa de escalão mais elevado.

Numa demonstração de que a formação dos alunos do estabelecimento “superior” deixa a desejar, o diploma carrega defeitos de raiz. Aqui estão alguns deles:

O falso diploma
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1) O nome do diplomado aparece escrito em duas linhas e com letras de mesmo tamanho que o resto do texto, grafismo inadmissível nesse tipo de documento.

2) O texto diz: «(…) senhor Luiz Inácio Lula da Silva, o torneiro mecânico, (…)». As vírgulas que envolvem ‘o torneiro mecânico’ indicam que haveria vários Lulas da Silva. Elas não deveriam estar aí. No cargo de presidente da República, só tivemos um. Por la gracia de Diós.

3) Estranhamente, o documento não é datado. Você já viu um diploma sem data?

4) A sentença comporta uma vírgula entre o sujeito e o verbo: «A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, concede (…)». Trata-se de inadmissível e imperdoável frasecídio. O sujeito não pode ser separado do verbo por vírgula. Jamais.

5) Por fim, os alunos da universidade sediada em Cruz das Almas assinam com uma sequência de garranchos e se proclamam «dicentes»(sic) da UFRB. Meus cultos leitores sabem que discente se escreve com ‘sc’, assim como discípulo, disciplina e toda a família.

Outorgantes e diplomado se equivalem. Tsk, tsk…

Da boca pra fora

José Horta Manzano

Dois séculos atrás, Napoleão Bonaparte já tinha aprendido a lição dos antigos. Excluída a opção militar, só resta uma medida para amolecer o governo de um país e obrigá-lo a entrar na linha: o bloqueio econômico. Sem recursos financeiros, ninguém aguenta.

O Brasil e mais onze países hermanos publicaram nota conjunta exortando a Venezuela a voltar aos trilhos. Pelos códigos diplomáticos, é de bom tom, mas… sabe qual será a consequência? Nenhuma. Ou alguém imagina que señor Maduro tem medo de papel assinado? Declarações «da boca pra fora» não botam medo em ninguém.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pensando bem, na sua agressiva ingenuidade, Mr. Trump estava mais próximo do bom caminho. Uma ameaça de intervenção militar no país vizinho ‒ se tivesse sido feita na surdina e com jeito ‒ teria sido mais eficaz. Pena que o presidente americano seja tão desastrado. Com seu gesto desengonçado, queimou o trunfo maior e pôs tudo a perder.

Grosso modo, a Venezuela só exporta petróleo enquanto importa todo o resto. Na medida que o mundo continuar comprando petróleo venezuelano e vendendo mercadorias a nosso vizinho de parede, a agonia vai-se prolongar. Se os doze signatários do dito Grupo de Lima ‒ entre os quais, naturalmente, o Brasil ‒ deixassem de comprar da Venezuela e se abstivessem de vender-lhe o que fosse, a ditadura estaria com os dias contados.

Francamente, nesta altura dos acontecimentos, a coisa por lá anda tão feia que vale a pena adotar atitude firme. Perseguida pelas milícias armadas, a procuradora-geral do país teve de se refugiar na Colômbia ontem. O distinto leitor se dá conta da gravidade do acontecimento? É como se doutor Janot, acossado por esbirros palacianos e com a vida em perigo, tivesse de pedir asilo ao Paraguai. O perfeito retrato do deus nos acuda.

As coisas estão de pernas pro ar. Quem devia estar pedindo refúgio é o caudilho e seu entourage truculento e ignorante. Que escapem todos rapidinho para Cuba (ou para a Coreia do Norte) e deixem o maltratado povo venezuelano respirar.

Falem bem, falem mal

José Horta Manzano

Falem bem, falem mal, mas falem de mim. Esse é o moto de todo político que se preze. Faz muito tempo que os mais espertos captaram a mensagem. Desde que a chegada do rádio e da televisão tornou o fluxo de informação mais caudaloso, a proximidade de um microfone ou de uma câmera passou a atiçar o marqueteiro que cochila dentro de cada figurão. Principiantes ou tarimbados, homens públicos logo se deram conta do potencial da voz e da imagem difundidas em escala nacional.

Um ex-presidente do Brasil tornou-se mestre na arte de fazer falar de si. Durante o período em que ocupou o trono do Executivo, não deixou escapar uma ocasião de autoincensar-se com o célebre «nunca antes nessepaiz». Mesmo apeado do pedestal e acossado pela justiça criminal, persiste em falar sem dizer, afirmar sem estar convencido, insistir sem ter razão. Continua vociferando, com ar sério, frases que, imagina ele, o «povo» quer ouvir. Embarcou até na canhestra ameaça feita por Mr. Trump à Venezuela para lançar palavras aos microfones. Qualquer pretexto é bom.

Num belo dia de 2014, dois deputados de nossa desengonçada Câmara Federal foram protagonistas de um grosseiro bate-boca. Doutor Bolsonaro dirigiu palavras ‒ desarticuladas mas aviltantes e vigorosamente ofensivas ‒ a uma colega, a doutora Maria do Rosário Nunes, aquela que começou a carreira no PCdoB e milita atualmente no PT. A inflamada troca de gentilezas foi parar nos tribunais.

Faz três anos que se fala nisso. Volta e meia, algum comentarista dá sua opinião sobre o fato de a deputada merecer ser estuprada ou não. Uma escaramuça de botequim transformada em verdadeira causa nacional. Gente de toda a paleta política já meteu o bedelho. Feministas, machistas, comunistas, liberais, lulopetistas, governistas, antigovernistas, todos continuam se pronunciando.

Acaba de sair a decisão do Superior Tribunal de Justiça sobre a demanda de reparação formulada pela deputada. A corte dá razão à doutora e mantém a condenação do ofensor a desembolsar dez mil reais pelos danos morais que causou.

Minha primeira consideração concerne à sobrecarga que estes três anos de processo trouxeram à Justiça. Quando se sabe que o Judiciário já anda entupido por dezenas de milhares de casos, soa indecente que dois representantes do povo, figurões que recebem polpudos salários e gozam de mordomias de marajá, contribuam para atravancar o andamento de outros casos quiçá mais prementes. Tudo isso por dez mil reais!

Fica a dúvida. Serão os nobres deputados tão carentes de bom senso? Por que terão dado preferência a uma estúpida queda de braço pública em vez de um acerto particular? A resposta está na própria pergunta. A Justiça, financiada com o dinheiro de todos nós, não traz ônus aos querelantes. Valendo-se disso, eles aproveitaram a ocasião para permanecer sob os holofotes durante três anos sem desembolsar um centavo. Marketing esperto pra ex-presidente nenhum botar defeito. Falem bem, falem mal…

Coisa de louco

José Horta Manzano

Por mais arguto e observador que a gente seja, certos gestos e falas de figurões são difíceis de interpretar por fugirem ao senso comum e por não se enquadrarem em lógica nenhuma.

Estes últimos dias, três medalhões passearam pelas manchetes. A fala de cada um deles, embora se restrinja a poucas palavras claras e fáceis de entender, resiste a toda análise. Um doce para quem decifrar o que está por detrás desse ‘jogo da esfinge’.

Kim Jong-Un
O reizinho da Coreia do Norte é o terceiro representante de uma linhagem que tem conseguido a proeza de manter 25 milhões de pessoas vivendo como se estivessem na Idade Média. O ditador declarou, a quem interessar pudesse, que pretende lançar ataque nuclear contra a maior potência bélica do planeta estas próximas semanas.

Se pretendia deixar o mundo embasbacado, conseguiu o intento: sua ousadia petrificou a humanidade. Por seu lado, conquistou o que poucos alcançam: a condenação unânime do Conselho de Segurança da ONU.

Sabendo que, se o regime da Coreia do Norte se mantém, é por obra e graça da China e da Rússia vizinhas, é difícil entender por que o líder máximo coreano estaria serrando o galho onde está sentado.

Donald Trump
Muitos já prometeram o impossível. Aliás, é vício recorrente em políticos. Promessas de campanha são, quando muito, cumpridas pela metade. Faz parte do jogo. Depois de eleitos, políticos e dirigentes costumam modificar o discurso, sair pela tangente, contemporizar, botar água no vinho.

Numa atitude incomum, o instável presidente americano ameaçou intervir militarmente na Venezuela. Segundo sua fala confusa, deixou a impressão de estar preocupado com a situação do povo hermano, vítima do tiranete de turno.

Mr. Trump preocupado com desrespeito a direitos humanos na Venezuela? “Conta outra!” ‒ replicaria algum sarcástico. A declaração do presidente dos EUA foi desastrosa. Ao reavivar velhos fantasmas, conseguiu o que parecia impossível: a unanimidade, ao menos temporária, dos demais países da América Latina em defesa do caudilho venezuelano. Um furo n’água.

Lula da Silva
Nosso antigo presidente, aquele que despencou dos píncaros da aprovação popular para uma rejeição nunca dantes vista nessepaiz, parece ter perdido a cabeça de vez. Acossado por meia dúzia de processos criminais ‒ o primeiro dos quais já lhe rendeu pena de quase dez anos de cadeia ‒, o homem parece que alucinou total.

Faz dois dias, em discurso numa Faculdade de Direito(!) do Rio, declarou que, caso volte à presidência, vai «fazer a regulação dos órgãos de imprensa». Não precisa ser diplomado em ciências ocultas para entender que a intenção de nosso guia caído é amordaçar a imprensa, filtrar e controlar o fluxo da informação. Como se isso fosse possível nestes tempos de internet.

Não se deve cutucar onça com vara curta. De cada três eleitores, um tem o jornal televisivo como única fonte de informação. E a base do eleitorado do Lula se encontra justamente nesse terço de população escassamente informada. Faltando mais de um ano para o voto, provocar a imprensa escrita e, mais grave ainda, a televisão é atitude mais que temerária. É verdadeiro suicídio. O homem pirou de vez.

Falam de nós – 23

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Chamada jornal AS (Madrid), 10 ago 2017

Elefante branco
O portal espanhol As, especializado em esportes, repercute anúncio feito por senhor del Nero, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. «Brasil no jugará en Maracaná porque está abandonado» ‒ é a declaração do cartola, referindo-se à partida Brasil x Chile prevista para outubro próximo.

Quando se leva em conta que, doze meses atrás, o estádio carioca fervilhava com numerosas competições dos Jogos Olímpicos, a notícia é de pasmar. Bastou um ano para o Maracanã se tornar um elefante branco, imprestável para acolher um simples jogo de futebol.

Quem são os culpados? Estão por aí, passeando, ricos, sorridentes, livres e soltos. A vergonha fica por nossa conta.

 

Chamada The Guardian (Londres), 10 ago 2017

Um problema esconde outro
O inglês The Guardian estampa a pergunta que está em todos os lábios: Por que, empacado nos distúrbios da Venezuela, o mundo ocidental ignora os problemas do Brasil?

E discorre longamente sobre as atribulações de doutor Temer, sem esquecer doutora Dilma, a corrupção, o Congresso, o Partido dos Trabalhadores, a taxa de desemprego difícil de explicar, o atraso do pagamento de salários de funcionários públicos. Um balaio de gatos.

É verdade que a desordem venezuelana, que é bem mais espetacular e que já coleciona quase 150 mortos, chama a atenção. Vista da Europa, ofusca o que possa estar acontecendo nos países vizinhos. Vista do Brasil, não é bem assim. Mas o Guardian não é obrigado a saber.

 

Chamada Ynetnews (Israel), 10 ago 2017

Terra de asilo
Cria fama e deita-te na cama, diz o provérbio. Muita gente, ao redor do mundo, continua acreditando no clichê: o Brasil é terra de asilo para bandidos. Às vezes, funciona. Para um certo senhor Elitzur, falhou.

O israelense, condenado a 20 anos de cadeia por um assassinato cometido em 2004 em seu país, conseguiu escapar para a Alemanha. É que, sendo duplo nacional, dispunha de passaporte germânico. De lá, embarcou para o Brasil, onde logrou viver anos tranquilos sob falsa identidade.

Em 2015, com ajuda da Interpol, a polícia brasileira acabou localizando o indivíduo em São Paulo. Levado à prisão, está há dois anos esperando a tramitação do processo de extradição.

Mostrando que não está lá unicamente para julgar políticos, o STF acaba de aceitar o pedido do Estado de Israel. O cidadão será extraditado dentro em breve para cumprir o resto da pena no país de origem. Parte da opinião pública israelense gostou.

 

Chamada South China Morning Post (Hong Kong), 11 ago 2017

Trump & Bolsonaro
A fama de doutor Bolsonaro já deu a volta ao mundo. O South China Morning Post, jornal publicado em Hong Kong, dá conta da ambição presidencial do deputado e o retrata como «Brazil’s Trump» ‒ o Trump brasileiro.

Dá, em seguida, um breve currículo do quase futuro candidato descrevendo-o como “versão brasileira” do nacionalismo e do conservadorismo que se espalham pelo mundo. Explica que é contrário ao aborto e aos direitos dos gays, mas favorável às armas e aos militares. Esclarece que os brasileiros, exaustos de conviver com a corrupção e com um Estado ausente, tendem a dar ouvidos à fala de doutor Bolsonaro.

Teremos um Trump tropical?

A fome ‒ fruto da imprevidência

José Horta Manzano

Dia 8 de agosto, os chanceleres do Brasil e de mais dezesseis países americanos ‒ do Canadá à Argentina ‒ reuniram-se em Lima (Peru) para avaliar a situação da Venezuela, país à beira da insurreição.

Diferentemente do que acontece nas festivas reuniões de G7, G20 & congêneres, a foto de família mostra caras sisudas, expressões fechadas. Não fosse a roupa vermelha de uma das participantes, daria até para imaginar que o orador estivesse pronunciando o elogio fúnebre de algum figurão. Infelizmente, não se chora o falecimento de um cidadão, mas a morte de um país inteiro. Dá muita pena.

Declaração de Lima, agosto 2017
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Diferentemente dos emirados do Golfo Pérsico, cuja única riqueza ‒ o petróleo ‒ jaz debaixo de solo arenoso e estéril, a Venezuela tem múltiplos trunfos. Debaixo dos pés, está a maior reserva de petróleo conhecida no planeta, mais importante que a da Arábia Saudita. Já no lugar da areia infértil dos desertos médio-orientais, está a exuberância da flora e da fauna equatoriais. Vegetação, terra boa, chuva, sol o ano todo, superfície equivalente a três Itálias, população razoável de 30 milhões de viventes deveriam ter produzido uma potência tropical.

No entanto, a abundância de petróleo, em vez de ajudar, atrapalhou. De um século para cá, sucessivos governos se apoiaram mais e mais na exploração e na exportação do mineral bruto, descurando as demais fontes de riqueza. O que tinha de acontecer aconteceu. O valor do petróleo caiu no mercado internacional. Ao mesmo tempo, o governo foi tomado por uma clique sem eira nem beira, sem âncora ideológica, sem tino comercial, interessada apenas no enriquecimento pessoal. O apeamento do lulopetismo do governo brasileiro e a aproximação entre Cuba e os EUA deram o golpe final. Deu no que deu: o país está isolado na cena internacional.

Doha, Catar

Enquanto isso, os estados da Península Arábica, mais previdentes, não dormiram no ponto. Cientes de que a riqueza mineral vai se extinguir mais dia menos dia, aproveitaram para investir a fortuna amealhada nos tempos de vacas gordas. Deram ao imenso capital destino diversificado. Além de aplicar haveres fora do país, fomentaram a implantação de capitais estrangeiros sobre as areias escaldantes. Têm hoje linhas aéreas poderosas, filiais de universidades de renome, centros de pesquisa avançados. Ainda que o petróleo deixasse de jorrar amanhã, o futuro dos pequenos emirados estará garantido.

Na infeliz Venezuela, nada disso aconteceu. Usaram o rendimento do petróleo para enriquecer figurões e para importar tudo aquilo de que necessitavam, de gêneros alimentícios a papel higiênico. O resultado da negligência e de crônicos erros de gestão estão aí: milhões de hermanos passam fome. Literalmente.

A reunião de chanceleres em Lima não podia ir além de declaração de princípios. Unanimemente, rechaçaram a ditadura iniciada por señor Chávez e consolidada por señor Maduro. Como ajudar os venezuelanos? Não vejo outra saída senão a derrubada do regime. Intervenção militar externa está fora de moda. Assim sendo, é triste constatar, mas não há outro jeito: eles terão de se livrar sozinhos da clique dirigente. Mas a coisa anda tão feia que não deve demorar.

Por que me ufano

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 julho 2017.

A época em que viveu o mineiro Afonso Celso, partilhada entre os séculos 19 e 20, permitia muitos sonhos. Problemas havia, como sempre os houve e sempre os haverá. Mas a solução das dificuldades nacionais parecia estar ali na esquina, ao alcance das gentes de boa vontade. Não é por acaso que o homem político e acadêmico lançou, há cem anos, seu livro mais conhecido: Porque me ufano do meu paiz. O título era esse mesmo, com o porque numa palavra só e o país com z, como se usava no tempo em que a escrita era menos engessada. O verbo ufanar é um preciosismo que nunca fez parte da linguagem do dia a dia. Benquisto então, é evitado hoje em dia. Excluídas as glosas do original, não conheço quem mais se tenha valido desse vocábulo. Não sei se o distinto leitor será da mesma opinião mas, quanto a mim, sinto que os baldes de surpresas que a cada dia nos despencam sobre a cabeça nos afastam do ufanismo. Não se passa uma semana sem que alguma novidade escabrosa venha alimentar nosso desencanto.

Faz uns dias, meia dúzia de senadoras ‒ senadoras da República, senhores! ‒ expulsaram os componentes da mesa diretora do Senado e se aboletaram naquele palco de vaidades apesar (ou talvez por causa) da presença de câmeras que transmitiam o constrangedor espetáculo para todo o país. Demonstrando que não se tratava de reação epidérmica e momentânea a algo que as tivesse desagradado, lá permaneceram horas seguidas, impedindo que a Casa seguisse debatendo. Despudoradamente, almoçaram sobre a mesa. Folhas de papel destinadas a dar rumo a 200 milhões de conterrâneos receberam, em vez de tinta, pingos de gordura. Francamente, não me ufano do meu país.

Um notório ex-presidente da República, antes incensado mas hoje acuado, acusado, inculpado e enrolado com a justiça, passa por cima da decência e da lógica. Na ânsia de afastar o cárcere que se lhe aprochega, aciona metralhadora giratória. São todos culpados, menos ele, que já se declarou a alma mais pura e honesta do Brasil. Sem ruborizar. Ataca políticos, procuradores, delegados, juízes, ministros. Engalfinha-se com a própria justiça. Mal aconselhado, faz exatamente o contrário do que deveria. É sabido que perfume de flores atrai mais que cheiro de vinagre. E pensar que o homem ocupou, por oito longos anos, o cargo público mais elevado da hierarquia política. Francamente, não me ufano do meu país.

Sem nenhuma espécie de processo judicial, a Procuradoria-Geral da República concedeu indulto total e definitivo a dois indivíduos que, durante anos, se haviam beneficiado de ilegalidades patrocinadas pelos altos escalões do Executivo. A absolvição, conferida em contrapartida à cínica confissão dos crimes e à pérfida entrega dos cúmplices, vem comprovar que o crime compensa. E muito. Herdeiros de um açougue, os mencionados indivíduos tornaram-se bilionários, favorecidos que foram com rios de dinheiro extorquidos, em última instância, do sofrido povo brasileiro. O acordo firmado com a Justiça garante aos delinquentes perdão antecipado de todos os crimes, incluindo os que não tiverem feito parte da confissão. Os irmãos, cujo sobrenome é ironicamente pio, gozam de liberdade absoluta e ‒ mimo soberano ‒ do direito de residir onde bem entenderem. Escolheram transitar entre a capital financeira dos EUA e o ensolarado sul daquele país. Nosso Supremo Tribunal Federal homologou o pacto. Francamente, não me ufano do meu país.

Semana passada, dois ou três partidos políticos brasileiros, num dos quais militam ainda hoje dois ex-presidentes da República, subscreveram documento em que externam apoio explícito e irrestrito a señor Maduro, tiranete de turno na vizinha Venezuela. Um ex-presidente de nossa maltratada República, justamente aquele que anda enrolado com a justiça, é presidente de honra de um desses partidos acumpliciados com o «bolivarianismo». Mais que isso, já se declarou candidato às próximas eleições presidenciais. A violência e as aberrações que o regime político de nosso vizinho do norte tem cometido contra o próprio povo são reprovadas por todos os países civilizados. Por obscuras (e talvez inconfessáveis) razões, o partido de nossos dois mais recentes ex-presidentes se posiciona na contramão da democracia e do processo civilizatório. O silêncio do dito presidente de honra confirma a anuência. Francamente, não me ufano do meu país.

Se a época de Afonso Celso permitia sonhos, a atual pressagia pesadelos.

Requiescat in pace

José Horta Manzano

Certos personagens não sobrevivem senão debaixo dos holofotes. É o caso de diversos figurões e homens políticos deste país. O exemplo maior é o Lula. «Falem bem, falem mal, mas falem de mim» parece ser o mote dessa gente. Caso se apagassem as luzes, desvaneceriam qual mariposas. Para não cair no ostracismo, têm necessidade permanente da ribalta, do incenso e dos aplausos. Em casos desesperados, até apupos servem para mantê-los em vida. Mais vale ser vaiado que esquecido.

Já alguns poucos atores do mundo político são personagens das sombras. Deles, embora pouco se fale e pouco se ouça, vêm diretivas que norteiam quadrantes inteiros da política nacional. Um deles fechou os olhos para sempre ontem. Foi Marco Aurélio Garcia, aquele que teve de carregar, ao longo dos dez últimos anos de vida, o incômodo apodo de «top-top», que lhe foi atribuído desde que o flagraram em gesto obsceno, na esteira de um acidente de avião que matou duzentas pessoas.

A decência recomenda não chutar cachorro morto, coisa mais feia. A honestidade, no entanto, me obriga a ressaltar que esse senhor foi ator de destaque na descida da diplomacia brasileira rumo à insignificância. Verdadeiro ministro de Relações Exteriores bis, doutor Garcia esteve entre os pouquíssimos que permaneceram no cargo do primeiro dia do governo do Lula até a derrocada da doutora Dilma. E olhe que não ocupava um desses cargos políticos que se barganham no balcão federal de negócios, como é o caso de ministros. Era dono de um posto de assessor especial ‒ que as más línguas chamam de aspone ‒, cargo de confiança que não tinha nada que ver com troca de favores.

Doutor Garcia, pouco imbuído dos sutis códigos diplomáticos, agia sem visão de mundo, movido apenas por empoeirada ideologia estacionada nos anos 60. Por razões que não cabe aqui analisar, esteve por detrás de bizarras tomadas de posição da política exterior brasileira. Ainda estão presentes na memória coletiva numerosos vexames internacionais aos quais nosso país foi submetido. Entre eles: aquele incompreensível mas explícito apoio a señor Zelaya na Nicarágua; o fiasco da pueril tentativa de intromissão brasileira no conflito entre Palestina e Israel; a benevolência para com terroristas das Farc; a aproximação tentada pelo Planalto com sanguinárias ditaduras africanas; a entrada (pela janela) da Venezuela no Mercosul.

O mundo não é bobo. Depois do momento de surpresa e simpatia que se seguiu à primeira eleição do Lula, caíram todos, pouco a pouco, na real. Deram-se conta de que, por detrás da bondosa fachada de distribuição de migalhas para combater a fome, havia o oco total. Como em cenário de cinema, as casas não tinham fundos. Atrás do frontispício, nada. Depois de repetidos desastres, o Brasil acabou descartado e regrediu décadas na visão do mundo civilizado. Em vez de destacar-se como locomotiva da América Latina, dissolveu-se no caldeirão comum e voltou a ser visto como país grande, não como grande país.

O Brasil se aferrou, durante os anos lulopetistas, a tentar dividir o planeta em blocos heteróclitos do tipo Brics. A assunção de Mr. Trump ao topo da hierarquia dos EUA mostrou que a formação de blocos político-comerciais é frágil e sujeita a chuvas e tempestades. De uma canetada, o homem retirou seu país do Tratado Transpacífico. Fez mais. Renegou o Acordo sobre o Clima assinado em Paris por quase 200 países depois de longas e ásperas negociações.

Culto, esperto, visionário ‒ e principalmente bem assessorado ‒, Monsieur Macron lançou, no começo de junho, convite a todos os cientistas americanos para que viessem trabalhar na França, onde as torneiras que Mr. Trump estava fechando seriam abertas para deixar jorrar fartos incentivos. Passou por cima de G8, G20, Otan e todas essas criações artificiais que atravancam mais do que ajudam. Em contraposição irônica ao slogan de campanha do colega americano, o presidente francês, que domina a língua inglesa, propagou «Make our planet great again» ‒ Vamos restituir a grandeza a nosso planeta.

O governo francês reservou orçamento de 60 milhões de euros à operação. E não é que está dando certo? Mês e meio depois do convite, centenas de cientistas de alto coturno já se candidataram. Vêm do mundo inteiro. Entre eles, 150 estão interessados em estabelecer-se na França por longo período. Metade desses 150 são americanos. Com uma pontinha de inveja, Frau Merkel se prepara para repetir, na Alemanha, a iniciativa de Monsieur Macron.

Está aí um pequeno exemplo de política exterior visionária, de longo prazo e voltada para o bem do povo em contraposição a política ideológica e capenga, meramente voltada para mesquinhos interesses presentes. Ao atrair cientistas, a França dá lastro ao futuro do próprio país, enquanto o nosso arrogante Planalto gastou bilhões surrupiados do sofrido povo para construir o porto de Mariel, em Cuba. Tristes trópicos.

Nota
Requiescat in pace, frequentemente abreviado em R.I.P., é fórmula latina usada em referência a pessoa falecida. Significa que repouse em paz.