O gato e o biscoito

José Horta Manzano

Não somos os únicos a achar que gato, só porque nasceu no forno, é biscoito. Outros também incorrem nesse erro primário.

A lei argentina de nacionalidade diz o seguinte:

“Son argentinos todos los individuos nacidos en el territorio de la República, sea cual fuere la nacionalidad de sus padres, con excepción de los hijos de ministros extranjeros y miembros de la legación residentes en la República.”

Portanto, a nacionalidade do pais hermano é garantida a todos os nascidos no território salvo a filhos de funcionários estrangeiros que estiverem no país a serviço. Nesse ponto, a lei argentina e a brasileira são idênticas.

A propósito da morte do jornalista Ricardo Boéchat, o jornal Clarín, de Buenos Aires, estampou a manchete abaixo.

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Na tentativa de se apoderar do ilustre falecido, escorregaram no biscoito do gato do forno. O jornalista realmente nasceu em Buenos Aires. No entanto, seu pai, diplomata, estava a serviço do governo brasileiro. Sua situação é claramente definida, tanto na lei de nacionalidade de lá quanto na de cá: não nasceu argentino, mas brasileiro. Se tivesse desejado adquirir a nacionalidade do país hermano, teria tido de enfrentar processo ordinário de naturalização, como qualquer estrangeiro.

Boéchat nasceu e morreu brasileiro. Portava um sobrenome suíço, da região das montanhas do Jura. Não estou a par dos segredos da família dele mas, se tiver sido realmente descendente de suíços, teria tido direito a reclamar o passaporte helvético. Não sei se chegou a fazê-lo.

Pente-fino

José Horta Manzano

Chamada O Globo, 8 jan° 2019

Este blogueiro é do tempo em que goiaba não nascia em pé de goiaba, mas em goiabeira.

Tudo era diferente naquela época. Quem fazia pente, por exemplo, era a fábrica. O utilizador passava o pente.

Ah, tem mais! Substantivo composto, pente-fino se escrevia assim, com hífen. (Aliás, continua-se a escrever do mesmo jeito.) Pente fino (sem hífen) é qualquer pente de pouca espessura. Pente-fino (com hífen) é objeto específico, que todos conhecemos, excelente pra tirar piolho. Aliás, o pente-fino nem é tão fino assim ‒ o espaço entre os dentes é que é reduzido.

Dicionários, que não costumam mentir, estão aí, loucos pra serem consultados.

Ordem inversa traiçoeira

José Horta Manzano

Quando estamos numa roda de amigos ou papeando na cozinha de casa, temos todos o direito de soltar o verbo sem dar atenção especial à colocação dos pronomes, ao tempo verbal, a repetições e pleonasmos. Podemos “comer” um s de plural aqui, outro ali. Entre gente de casa, o clima é de liberou geral.

Quando se fala ou escreve «pra fora», ou seja, quando o que dizemos ou escrevemos é para uso externo e periga ir além do círculo mais chegado, a coisa muda de figura. Na categoria dos que escrevem «pra fora», estão, lá no topo, jornalistas e homens de imprensa. Nesse nível, um deslize em qualquer setor da gramática pode pegar mal, muito mal.

Continuo surpreso de constatar que diretores de redação ainda não se deram conta do estrago que pode causar ao jornal um erro bem na primeira página. No mínimo, deixa a impressão de desleixo. No pior dos casos, transpira ignorância.

Chamada Estadão, 17 dez° 2018

Na manchete de hoje, a ordem inversa dos termos levou o estagiário a trocar os pés pelas mãos. Não tendo entendido que o sujeito de aparecer era melhores jogadores, deixou o verbo no singular. Ficou esquisito.

No entanto, é fácil não errar. Em casos como esse aí, quando há dúvida, basta botar a frase na ordem direta, que tudo fica mais claro. «Em 2019, se melhores jogadores não aparecerem, os técnicos serão astros.» Assim, fica evidente que o sujeito no plural (melhores jogadores) exige verbo no plural (aparecerem).

O problema é que estagiários se têm comportado com crescente displicência, como se vivessem numa permanente roda de amigos. Aí, o espírito crítico afrouxa. É desastre à certa.

A crase e a crise

José Horta Manzano

Doutor Schelb, indicado pelo presidente eleito para chefiar o Ministério da Educação, já estava encomendando o terno para a posse. A bancada evangélica acolhia a nomeação com bons olhos. Faltava um nadinha pra o martelo ser batido. A equipe de doutor Bolsonaro achou que era hora de permitir um vazamento maroto para a imprensa. O nome do futuro ministro passou a circular pela mídia.

Chamada Estadão, 22 nov° 2018

Ah, pra quê… Naquele dia, o estagiário de um grande jornal estava mais sonolento que de costume. Ao costurar a manchete, tropeçou feio: tascou uma crase onde não devia. Onde é que já se viu escrever um à descomplexado bem diante de palavra masculina? E, pior ainda, diante de palavra no plural?

A bancada evangélica não gostou do que viu. Ministro da Educação anunciado com erro gramatical? Nããão! Jogaram o bebê com a água do banho. Assustados, demitiram o figurão antes mesmo de ele ter sido oficializado. Doutor Bolsonaro foi obrigado a escolher outro auxiliar. Na manhã desta sexta-feira, é fato consumado ‒ novo nome já foi dado a público.

Projeto reprovado

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 nov° 2018

Não foram dois projetos que o nobre deputado «aprovou» ‒ foi nenhum. Nem que tivesse passado 20, 30 ou 40 anos na Câmara, doutor Lorenzoni teria conseguido «aprovar» algum projeto. E por quê?

Porque não cabe a ele aprovar projetos. Quem aprova é a Câmara, não o solitário deputado. O conjunto de deputados que compõem a Câmara se reúnem, votam e aprovam (ou reprovam) cada projeto. A frase que aparece na chamada do jornal tem de ser revista. Há várias possibilidades.

  • Onyx Lorenzoni: em 16 anos, a Câmara só aprovou dois projetos seus
  • Em 16 anos de Câmara, só dois projetos de Onyx Lorenzoni foram aprovados.

E assim por diante.

Já que estamos no assunto, é interessante lembrar também que quem reprova é o professor, não o aluno. Assim, não se deve dizer que «Pedrinho reprovou». Melhor será dizer que «Pedrinho foi reprovado». Paciência. Para a próxima, Pedrinho vai estudar mais.

Criar novo

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 nov 2018

Se não havia regime tributário para montadoras, o decreto presidencial cria um. O ‘novo’ sobra. De fato, vai um doce pra quem conseguir criar regime velho.

Se já havia um regime tributário para montadoras, não há por que criar outro. Se ele foi modificado, será melhor utilizar outro verbo que dê o recado.  Fica assim: «Temer assina decreto que modifica (altera, transforma, mexe com, remodela, muda) regime tributário.»

Pronto, o recado estará dado. Utilizar «criar novo» é uma tentação. Mas é baita redundância.

Inadequação vocabular ‒ 10

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 4 nov° 2018

As consequências nefastas das notícias falsas são tema da redação do Enem este ano. Na chamada do Estadão, o ‘sobre’ sobra.

O tema é a própria manipulação. Melhor será dizer: ‘O tema da redação do Enem é a manipulação de usuários na internet’.

Como é que é? ‒ 6

José Horta Manzano

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Convém ser prudente ao dar notícia ligada a crime. Todo cuidado é pouco. Quem usar mal as palavras periga ser processado por acusar inocente. Daí o uso sistemático de perífrases compostas com “suposto”, “hipotético”, “presumido”.

No caso relatado pelo Estadão e reproduzido acima, contudo, a expressão “suposta prática” é francamente exagerada. Se o indivíduo já passou pelo tribunal, foi julgado e condenado a 11 anos de cadeia, onde está a suposição? Seus crimes já foram reconhecidos. É certeza jurídica! O “suposta” sobra.

Falou e disse

José Horta Manzano

No discurso oral, o verbo dizer é sistematicamente substituído pelo colega falar. Passa batido e ninguém faz caso. Já na língua escrita, a coisa muda de figura. Mais exigente, a norma culta distingue perfeitamente entre dizer e falar.

Alguém pode:

falar uma língua
falar rápido
falar com alguém
falar ao telefone
falar difícil
falar de alguém
falar de algo
falar pelos cotovelos
falar linguagem elevada
falar por sinais

Reparem que, em nenhum dos exemplos que citei, está explicitado o que foi dito. Quando se quer contar o que foi dito, o verbo falar cai fora. É hora de usar o colega dizer.

Assim, alguém pode:

dizer uma poesia
dizer a verdade
dizer adeus
dizer patacoada
dizer a razão do acontecido

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

Uma regra de ouro: todas as vezes que o verbo for seguido de que, fuja do falar e use dizer. Falar não será nunca seguido de que.

Ele disse que viria.
Eu diria que deve medir uns dois metros.
Eles disseram que estava chovendo.
Ela disse que delação premiada funciona.
Ele disse que nunca 
mente.

E naturalmente: «Collor volta a dizer que é candidato ao Planalto».(*)

Que Deus nos livre e guarde!

(*) Este blogueiro, embora já um tanto desesperançado, continua acreditando que presidente destituído devia ser proibido de se candidatar pelo resto da vida. Se já mostrou não estar à altura da função, não faz sentido tentar de novo. Cargo eletivo não é banco de provas e eleitor não é cobaia. Visto que essa gente fina não tem vergonha na cara, que sejam banidos da vida pública pela mão pesada da lei.

Prevaricação grosseira

José Horta Manzano

O dicionário é claro ao indicar o campo semântico coberto pelo verbo prevaricar. Todas as accepções carregam valor negativo. As principais são:

  • deixar de cumprir o dever por interesse ou má-fé
  • cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado
  • trair a confiança

Etimologicamente, prevaricar ‒ que nos chegou direto do latim prævaricare ‒ é composto de præ = antes e de varicari de varus = o que sai da linha reta, ou seja, torto. Alguns estudiosos enxergam parentesco com o termo curvo.

O ato cometido pelo plantonista do TRF4, que deu origem a tremenda balbúrdia institucional domingo passado, se enquadra perfeitamente em todas as accepções do verbo. Imbuído de indisfarçável má-fé, o magistrado desviou-se da linha reta, cometeu abuso de poder, traiu a confiança de que era depositário e causou prejuízo ao Estado. Se isso não for prevaricação, o que será?

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

O estagiário que redigiu a manchete se impressionou com o termo. Talvez por desconhecer-lhe o significado, tascou aspas em volta. É maneira de isolar o desconhecido, pra evitar ser por ele engolido. Palavra estranha pode até morder! Melhor tomar cuidado.

Falando sério, a procuradora-geral pede que o plantonista seja investigado por ter prevaricado. Sem aspas. Aquele que comete abuso de poder e causa dano ao Estado não tem perdão.

Explicar a explicação

José Horta Manzano

Esta é do Estadão deste sábado:

Chamada Estadão, 9 jun 2018

Do jeito que está, entende-se que a Justiça determina que doutor Lindbergh entre em contacto com doutor Doria e lhe dê explicação sobre determinadas críticas.

Mas não é isso que se quis dizer. Doutor Doria é quem está a exigir explicação de críticas proferidas por doutor Lindbergh.

Portanto, a chamada devia ter dito: «Justiça intima Lindergh a explicar-se sobre críticas a Doria», onde explicar-se vale dar explicações.

Competir o Bocuse?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 14 abr 2018

O autor da chamada escorregou. Os verbos competir e disputar, embora tenham sentido similar, não são sinônimos perfeitos.

Competir não pode ser empregado como transitivo direto. Pra acertar, o moço devia ter escrito:

  • Brasil garante vaga para competir no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para disputar o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para concorrer no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para brigar pelo Bocuse…
  • Brasil garante vaga para pleitear o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para lutar pelo Bocuse…