Explicar a explicação

José Horta Manzano

Esta é do Estadão deste sábado:

Chamada Estadão, 9 jun 2018

Do jeito que está, entende-se que a Justiça determina que doutor Lindbergh entre em contacto com doutor Doria e lhe dê explicação sobre determinadas críticas.

Mas não é isso que se quis dizer. Doutor Doria é quem está a exigir explicação de críticas proferidas por doutor Lindbergh.

Portanto, a chamada devia ter dito: «Justiça intima Lindergh a explicar-se sobre críticas a Doria», onde explicar-se vale dar explicações.

Competir o Bocuse?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 14 abr 2018

O autor da chamada escorregou. Os verbos competir e disputar, embora tenham sentido similar, não são sinônimos perfeitos.

Competir não pode ser empregado como transitivo direto. Pra acertar, o moço devia ter escrito:

  • Brasil garante vaga para competir no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para disputar o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para concorrer no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para brigar pelo Bocuse…
  • Brasil garante vaga para pleitear o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para lutar pelo Bocuse…

Baixa popularidade

José Horta Manzano

Estadão digital – primeira página
4 abril 2018

O demiurgo anda bem caído, com a popularidade na sola do sapato, é verdade. Assim mesmo, não é de bom-tom escrever o nome dele com minúscula. É “politicamente incorreto”, como se deve dizer hoje em dia.

Pensão alimentícia

José Horta Manzano

Correio Braziliense, 6 fev° 2018
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Quem merece “mandato de prisão“, de verdade, são certos homens públicos. O ator em questão foi alvo de mandado de prisão. Não é a mesma coisa.

Ai, meu plural!

José Horta Manzano

Chamada d’O Globo, 25 jan° 2018

Se um milhão já é muito, dezessete “milhão” é muito mais. Convém mandar pro plural. Assim, ó: US$ 17,9 milhões. Fica melhor e os guatemaltecos agradecerão.

Nota encucada
A Odebrecht pagar pelos ilícitos que cometeu é digno de aplauso. Mas e os que receberam o suborno? Estão perdoados? Não devolvem os “milhão” não?

Açúcar e mosca

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 18 jan° 2018

O estagiário faltou à aula justo no dia em que ensinaram colocação pronominal. Não aprendeu que o pronome relativo atrai o pronome oblíquo átono. Assim como açúcar atrai mosca, os pronomes relativos (que, o qual, quanto, quem & alia) atraem o pronome oblíquo. O ímã é forte, não há como escapar.

Portanto, o título correto será:

«Juiz diz que Maluf se movimentava com destreza».

Chavismo para os EUA

José Horta Manzano

Não sei o que significa «chavismo para os EUA». Se o distinto leitor souber o que é, evite criticar esse tipo de chavismo. Sobretudo, cale-se quando visitar a Venezuela. Do contrário, está arriscado a enfrentar sérios problemas com as autoridades. Um conterrâneo cometeu a besteira justamente quando se encontrava na Venezuela. Não deu outra: foi expulso do país.

Chamada Estadão 6 jan° 2017

Vamos falar sério agora. Em duas distraídas linhas, o estagiário deu recado errado. Diferentemente de outras línguas mais rígidas, a nossa permite ‒ até certo ponto ‒ o deslocamento de termos no interior da frase. Mas a liberdade desse troca-troca termina onde a compreensão fica comprometida.

O autor da chamada escorregou. Só quem já estava a par da história, que já vinha de alguns dias, entendeu o recado. Para total clareza, bastava ter ordenado os termos numa ordem coerente. Assim:

«Venezuela expulsa, para os EUA, brasileiro acusado de criticar chavismo»

ou

«Brasileiro acusado de criticar chavismo é expulso da Venezuela para os EUA»

ou ainda

«Expulso da Venezuela para os EUA brasileiro acusado de criticar chavismo»

«Aquele que sabe que é profundo tende à clareza; aquele que quer parecer profundo tende à escuridão, pois o povo acredita ser profundo tudo aquilo cujo fundo não consegue enxergar.»

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.

Bolo ou bola?

José Horta Manzano

Títulos, legendas, chamadas e subtítulos dados por estagiários costumam ser desconcertantes. Tanto podem acertar como conseguem dizer o contrário do que tencionavam. Acontece às vezes de serem cômicos e de convidar a um sorriso condescendente. Foi o que me provocou a legenda fabricada para esta chamada do Estadão.

«Um tordo encara pedaço de bolo pendurado em árvore»
diz a legenda do Estadão, 2 jan° 2018

A foto é lindíssima, sem sombra de dúvida. Já a explicação, que pode passar por exótica para quem não está habituado, me fez sorrir. Sabe Deus em que língua estava escrito o texto originário ‒ inglês talvez. Seja como for, a versão portuguesa não descreve a realidade. Vamos esmiuçar.

Os turdídeos formam uma grande família de pássaros, com mais de 150 diferentes espécies. No Brasil, o tordo mais conhecido é o sabiá. Numerosas variedades vivem na Europa, outras na América do Norte. Na Europa, o representante mais comum é o pisco-de-peito-ruivo, que não se encontra no Brasil. É exatamente o que aparece na foto do jornal.

Chamado de pettirosso em italiano, de rouge-gorge em francês e de petirrojo em espanhol, sua característica mais visível é a cor do peito, que varia de alaranjado a vermelho vivo. É passarinho pequeno, gordinho e simpático. De aparência frágil, seu peso equivale à metade do de um pardal comum. As variedades originárias do norte da Europa migram no inverno em direção ao sul em busca de alimento. Outras variedades não são migratórias.

O peito-ruivo é omnívoro. De preferência, alimenta-se de minhoca, larvas e pequenos invertebrados, mas pode também comer frutinhas selvagens. É chamado o «companheiro do jardineiro». De fato, quando se dá conta de que alguém está revolvendo a terra, fica à espreita ‒ alguma minhoca pode até aparecer. Como o pardal e a pomba, é pouco arisco. No inverno, costuma rondar perto das casas à espera de alguma sobra de comida.

Bola de gordura

Para dar uma mãozinha aos graciosos voadores, muita gente compra no comércio especializado uns saquinhos com uma «bola de gordura», composta de matéria graxa misturada com pequenos grãos. Esse alimento, pendurado nalgum galho de árvore, faz a festa de pequenos pássaros como o peito-ruivo. Só se faz isso no inverno. No verão, os bichinhos encontram alimento abundante na natureza e se viram sozinhos.

Assim, retificando a legenda, «tordo» é denominação genérica demais. Seria como tratar um jacaré de «réptil». Melhor será chamá-lo pelo nome próprio: pisco-de-peito-ruivo ou simplesmente peito-ruivo. Quanto ao bolo, nada feito. Ainda que seja Natal, não se costuma oferecer bolo a passarinho. Nem panettone. É bola mesmo. Bola de gordura.

O réveillon ‒ 2

José Horta Manzano

O verbo latino vigilo/vigilare significa estar desperto ‒ por oposição a estar dormindo. Temos, em nossa língua, diversas palavras correlatas: vigiar, vigia, vigília, velório. Todas guardam senso de permanecer acordado.

Na Idade Média, quando não havia luz artificial, ia-se dormir com as galinhas e acordava-se com o galo, como dizia minha avó. Logo depois de escurecer, por falta do que fazer, todos iam pra cama. A véspera de Natal marcava uma exceção: era a única noite do ano em que todos ficavam acordados até mais tarde pra poder assistir à missa do galo.

by Jan Steen (1626-1679), artista flamengo

Na volta da igreja, o estômago já estava começando a roncar. Tomavam então uma refeição fora da hora habitual. Os franceses chamavam a esse costume «faire réveillon»fazer réveillon, ou seja, ficar acordado (veiller) além da hora normal.

Até o século 19, «réveillon» se referia unicamente à véspera do Natal. Em épocas mais recentes, a denominação tende a estender-se também à comemoração do ano-novo, outra ocasião em que se comemora de véspera, todos acordados e enchendo a pança.

Escreve-se réveillon, com acento no primeiro é. Pronuncia-se rêvêiôn. O estagiário que escreveu a chamada ouviu cantar o galo mas não sabia onde. Tinha certeza de que a palavra levava acento, mas hesitava entre as vogais. Com preguiça de consultar o dicionário, tascou o dito em cima do ó. Marcou bobeira. A palavra ficou com um ar assim meio espanhol ‒ estrangeiro, sem dúvida, mas longe do original.

Podia ser melhor ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 23 dez° 2017

Até ‒ ou principalmente ‒ quando se usa linguagem metafórica, há que ser lógico. Impasse, por definição, é uma situação em que é impossível seguir adiante. É conceito absoluto, dificilmente adjetivável.

«Ampliar impasse», em rigor, não significa nada. Um beco sem saída não é susceptível de ser «ampliado».

Se o escriba fizer questão de tascar um qualificativo, há que escolher termo coerente. Para acentuar a imagem do impasse, caberia a noção de reforço, por exemplo. Poderia ter dito «reforça impasse», ou «acentua impasse» ou ainda «intensifica impasse». Poderia também ter optado por «mantém impasse». Podia ainda ter olhado a situação pelo outro lado: «não afasta impasse».

«Ampliar impasse» soa estranho.