Extorsão por chantagem

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 set° 2017

Nem que o pedinte chegasse com uma sacola de escorpiões conseguiria extorquir motoristas. É impossível.

A linguagem popular acredita que os verbos roubar e extorquir sejam sinônimos perfeitos. Não são. Veja por quê.

Roubar é verbo elástico. Aceita múltiplas regências. No uso mais comum, o objeto tanto pode ser a pessoa de quem algo foi roubado quanto a coisa roubada.

Exemplos:

●  Ladrões roubaram a sacristia. (= assaltaram o local e levaram objetos)

●  Ladrões roubaram o cálice de ouro da sacristia.

Extorquir é bem menos flexível. Extorque-se algo de alguém. E só.

Exemplos:

●  Chantagista extorquiu mil reais da vítima.

●  Por métodos pouco ortodoxos, a polícia extorquiu a confissão do acusado.

●  Homem usa escorpiões vivos para extorquir dinheiro de motoristas.

Nota
Extorquir, torcer, torturar, entortar são primos-irmãos. Descendem todos da raiz latina torqueo, torquere. Extorquir carrega a ideia de extrair algo de alguém por uso de força ‒ torcendo-lhe o braço, por exemplo.

Mandato x mandado

José Horta Manzano

As tenebrosas revelações de corrupção se atropelam. Têm chegado às pencas. Diariamente. Hoje em dia, ter mandato eletivo já é passo importante em direção a receber mandado de prisão. No entanto, a língua (ainda) faz distinção entre os dois termos.

Mandato é missão, procuração, incumbência que se confia a alguém.

Exemplos:
O vereador cumpriu o mandato até o fim.
O procurador não aceitou o mandato que lhe queriam confiar.

Mandado é geralmente usado em linguagem jurídica. Designa ordem ou despacho expedido por uma autoridade.

Exemplos:
Sabendo que há mandado de prisão expedido contra ele, o vereador sumiu do mapa.
A residência do deputado foi objeto de mandado de busca e apreensão.

Chamada do Estadão, 26 ago 2017

Profissão e função

José Horta Manzano

Já falei sobre o assunto, mas hoje volto a ele. Trata-se da confusão que costumamos fazer entre profissão e função. Não são a mesma coisa. Profissão, em especial quando é reconhecida e obtida através de formação, tem caráter permanente. O indivíduo que tem acesso a um título profissional ao cabo de um período de instrução, de avaliação final e, eventualmente, de obtenção de diploma, ganha o que se costuma dizer “direito adquirido”. É para sempre, independentemente de exercer o ofício.

Chamada do Estadão

Para usar palavreado caseiro, é como a diferença entre ser e estar. O engenheiro que trabalha de pipoqueiro é engenheiro, mas «está» pipoqueiro. O sociólogo desempregado continua sendo sociólogo, embora esteja sem trabalho. O torneiro mecânico que se elege presidente da República será torneiro mecânico até o fim de seus dias ainda que possa ocupar temporariamente o cargo de presidente.

Músicos, psicólogos, eletricistas formados, contadores, farmacêuticos, enfermeiros são profissionais. Seguiram formação, cada um em seu ramo, e adquiriram o direito inalienável de ostentar o título. Ainda que se lhes retire ‒ por um tempo ou para sempre ‒ a licença de exercer, ninguém lhes pode cassar a formação.

Chamada da Folha de São Paulo

Função é outra coisa. O contador ganha a vida fazendo contabilidade ou vendendo pastéis. O químico exerce num laboratório ou entrega pizza. Profissão e função nem sempre empatam. (Político não é profissão, ainda que certas figurinhas carimbadas estejam há décadas fazendo política.) Diretor, porteiro de boate, gerente, office-boy tampouco são profissões. São funções transitórias.

Artigo do Correio Braziliense

Um médico formado e diplomado será médico até seu último suspiro, ainda que a licença de exercer lhe seja cassada. É impossível cassar-lhe a formação. No entanto, a mídia não é dessa opinião. Um certo senhor Abd El-Massih, ginecólogo condenado por múltiplos estupros a quase 200 anos de cadeia, era, continua sendo e será sempre médico. Como é compreensível, a Ordem dos Médicos retirou-lhe a autorização de exercer. Legalmente, não poderá mais cuidar de pacientes, mas nem por isso deixou de ser médico.

Artigo de O Globo

A totalidade da imprensa nacional o descreve como «ex-médico», perfil que me parece inadequado. Pode-se falar de um ex-pipoqueiro, de um ex-diretor, de um ex-presidente. Jamais de um ex-engenheiro ou de um ex-médico.

Comunicar x informar

José Horta Manzano

O Lula teve muito poder. A roda do destino girou e derrubou o homem. A vida é assim mesmo, crua, cruenta e cruel. Ai daquele que se deixar dominar pela soberba!

Doutor Moro tem muito poder. Muita gente tenta puxar o tapete pra fazê-lo escorregar. Até hoje, não conseguiram. Resta esperar que, antes que algum mal lhe aconteça, consiga levar a cabo o trabalho que começou.

Doutor Moro tem realmente muito poder. Pode convocar, interrogar, acusar, inculpar, mandar prender, julgar e sentenciar. Mas não pode mudar a língua.

Chamada Estadão, 22 jul 2017

O estagiário que dá título à matéria do Estadão não sabe disso. Ao ler de soslaio o conteúdo do artigo, mandou ver: «Moro manda comunicar Lula sobre bloqueio de bens». Como é que é? Comunicar Lula sobre?  Tsk,tsk, o rapaz andou gazeteando durante as aulas de Linguagem.

Comunica-se algo a alguém. Na acepção em que foi utilizado na chamada acima, o verbo comunicar é bitransitivo. Pede dois objetos: um direto e um indireto. Comunicar dá o mesmo recado que informar, mas não obedece à mesma regência.

Há opções melhores e menos desastradas do que a escolhida pelo redator. Eis algumas:

  •  Moro manda comunicar a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro comunica a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro manda informar Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro informa Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro cita e intima Lula para dar-lhe ciência do sequestro de seus bens.

Comunicar o Lula? Pode não, senhor.

Ai, minha cabeça!

José Horta Manzano

Há quem afirme que doutor Geddel Vieira Lima é delinquente inveterado(*). Dizem que começou já na adolescência e não parou até hoje. Deve haver uma parte de verdade na afirmação, tanto é que o doutor foi preso estes dias.

Os jornais dão em manchete a notícia de que o prisioneiro «tem cabeça raspada». Só de pensar, dá arrepio. Fico aqui imaginando qual terá sido o instrumento de tortura utilizado para raspar a cabeça do infeliz. Uma lixa grossa? Uma escova de piaçaba? Um ralador de queijo? Cruz-credo!

Chamada Estadão 6 jul 2017

Pois é, minha gente, em apenas três palavrinhas ‒ «tem cabeça raspada» ‒, duas impropriedades foram cometidas. Uma delas é o emprego da sintaxe inglesa. «Teve a carteira roubada», «tive o apêndice extirpado» & congêneres são frases construídas sobre base sintática estranha à nossa. Em inglês, é assim que a gente deve se exprimir. Em português, casos dessa natureza pedem a voz passiva. Melhor do que «teve a carteira roubada», será dizer que lhe roubaram a carteira. Ou que a carteira dele foi roubada, que lhe extirparam o apêndice, que seu apêndice foi extraído. E, naturalmente, que lhe cortaram o cabelo ou que seu cabelo foi cortado rentinho rentinho.

A outra impropriedade é o uso de «raspar» por «rapar». No Brasil, muitos utilizam raspar quando rapar seria mais adequado. No entanto, cada um dos verbos exprime ação diferente.

by Carl Thomas Anderson (1865-1948), desenhista americano.
Henry, o garotinho de cabeça rapada, conhecido no Brasil como Pinduca, foi criado quando o desenhista já tinha 68 anos de idade, em 1933.

Rapar é catar tudo, às vezes num único movimento. Rapa-se a cabeça (caso do doutor ora prisioneiro), rapa-se a mercadoria do camelô desprevenido, rapa-se o saldo da caderneta de poupança. O crupiê rapa as fichas dos perdedores no tapete verde. Rapa-se barba e bigode.

Raspar é outra coisa. Raspa-se um objeto ou uma superfície, ou por acidente, ou na intenção de limpar ou de eliminar alguma impureza ou excrescência. Raspa-se fundo de panela. Raspa-se a pintura da parede velha antes de aplicar nova camada. Raspa-se o carro no muro. Raspa-se casca de limão e de cenoura.

Sabemos que nossas prisões são sucursais do inferno. Mas ainda não chegamos ao ponto de raspar a cabeça de recém-chegados, esfregando até o sangue. Crueldade tem limites.

(*) Inveterado denota algo ou alguém que envelheceu. Por analogia, hábitos antigos e arraigados são ditos inveterados. A palavra descende do latim vétus, véteris (= velho).

Veterinário faz parte da mesma família. A gente se pergunta por quê. É simples. Dois milênios atrás, a medicina ainda engatinhava e o homem mal sabia cuidar de si, quanto mais dos bichos. Assim mesmo, animais domésticos ‒ principalmente o cavalo, usado como meio de transporte ‒ eram preciosos. Quando um cavalo adoecia ou sofria com uma pata quebrada, o dono mandava vir um especialista para ver se dava um jeito. A maioria das vezes, esses infortúnios acometiam animais velhos, razão pela qual o entendido era chamado veterinarius.

Vetusto, veterano, inveterar (= tornar antigo) derivam do mesmo tronco.

Gentílicos compostos

José Horta Manzano

Entre outras acepções, o termo GENTÍLICO é usado para indicar nacionalidade ou origem (de gente ou de coisa, conforme o caso). Brasileiro, argentino, francês, japonês, congolês, australiano são gentílicos que designam detentores de cada um desses passaportes. Ou ainda objetos e fatos originários desses países ou acontecidos neles.

Em casos especiais, seja por questão de fonética, seja por questão de tradição, alguns gentílicos são abundantes, quer dizer, têm duas formas: uma longa e outra curta. Esta última é especialmente usada em gentílicos compostos.

  • Alguns exemplos:
    Francês = franco
    Alemão = teuto
    Português = luso
    Chinês = sino
    Japonês = nipo
    Espanhol = hispano
    Inglês = anglo
    Italiano = ítalo
    Áustria = austro
    Albanês = albano
    Finlandês = fino
    Grego = greco

Chamada Folha de São Paulo, 6 jun 2017

Há outros. O vocabulário da Academia Brasileira de Letras aceita ‘brasilo’ como forma curta para brasileiro. Pessoalmente, acho esquisito e prefiro evitar. Não me soa bem «brasilo-argentino» ou «brasilo-peruano». Que cada um faça como quiser.

Quanto aos gentílicos curtos tradicionais, use à vontade.

  • Assim, teremos:
    Tratado teuto-brasileiro
    Acordo nipo-canadense
    Guerra franco-prussiana
    País hispano-americano
    Relações fino-suecas

E, diferentemente do que escreveu a Folha, terrorista ÍTALO-MARROQUINO.

Força do hábito

José Horta Manzano

O estagiário, que há de ter crescido com celular no bolso e computador diante dos olhos, escorregou na hora de dar título à chamada.

Configuram-se (e desconfiguram-se) celulares e computadores. PEC (proposta de emenda constitucional) não é telefone nem aplicativo.

Chamada Estadão, 25 maio 2017

Para descrever manobra parlamentar que, com boas ou más intenções, adultera uma PEC, usa-se o verbo DESFIGURAR.

Então, ficamos combinados. Quem elimina todos os aplicativos DESCONFIGURA o telefone. Quem elimina ou modifica artigos de uma PEC ou acrescenta “jabutis” a ela DESFIGURA a proposta.

De ventos e de auroras

José Horta Manzano

Antes de se interessar pelos pontos cardeais, os antigos se preocuparam com os ventos, as chuvas, o ritmo das estações. Dá pra entender. A vida era dura e não dava espaço pra divagações filosófico-astronômicas. Do tempo atmosférico dependiam os cuidados a dedicar à agricultura. Mais importante que saber onde estavam o norte ou o sul era conhecer os ventos que sopravam de um quadrante ou de outro.

vento-5Tanto na Grécia antiga quanto na Roma dos Césares, os ventos ganharam nome antes dos pontos cardeais. Por consequência, os adjetivos usados para indicar o que vem do norte (ou o que lá está) derivam dos ventos que sopram daquele quadrante. O mesmo vale para o lado oposto, o sul.

O termo latino «bórea», que corresponde ao grego «boréas», designa o vento frio que sopra do norte. Na outra ponta, o latino «áuster», relacionado com o grego «áuso», é o nome dado ao vento sul, um sopro quente e árido.

Em nossa língua, no dia a dia, dizemos “nortista”, “sulista”, “sulino” ‒ são vocábulos mais fáceis de reter e de entender. Em linguagem mais tensa, esses termos são substituídos por “boreal” e “austral”, o primeiro se referindo ao norte e o segundo, ao sul.

Nas regiões situadas em altas latitudes ‒ cerca dos polos ‒, ocorrem fenômenos elétricos episódicos na alta atmosfera, que se traduzem por clarões impressionantes, de cor variando entre verde intenso e solferino. O espetáculo leva o nome de aurora polar. Em três cliques, o distinto leitor encontrará na internet descrição detalhada dos comos e dos porquês desse fenômeno.

Folha de São Paulo, 3 março 2017 Clique para ampliar

Folha de São Paulo, 3 março 2017
Clique para ampliar

O Hemisfério Norte de nosso planeta é habitado, enquanto o Hemisfério Sul tem pouca terra e pouca gente. Logicamente, auroras polares são observadas com maior frequência nas regiões próximas do Polo Norte ‒ Rússia, Canadá, Groenlândia, Escandinávia, Islândia. Por ocorrer no Hemisfério Norte, esse fenômeno costuma ser chamado aurora boreal. No Hemisfério Sul, o mesmo acontecimento só pode ser observado a partir da Antártida, lugar pouco hospitaleiro.

Aurora polar observada nas cercanias do Polo Sul não será ‘boreal’, mas austral. O autor da legenda da belíssima foto publicada pela Folha de São Paulo trocou os pés pelas mãos. Desconhecendo o significado do termo «boreal», há de ter imaginado que se referia ao fenômeno. Errou. A palavra tem a ver com o norte.

Tivesse escrito «aurora austral», o autor da legenda teria merecido aplausos.

Destino que ir

José Horta Manzano

Este ainda passa como erro de datilografia ‒ ou digitação, que é a mesma coisa. Faltou releitura, mas ficou engraçado.

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Interligne 28a

Já este aqui dá engasgo. Não é confusão de teclado. É bem pior: falta de intimidade com a norma culta da língua, fato espantoso num encarregado de redigir manchete de jornal.

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Quem vai, não vai “algum lugar”, mas A algum lugar. Havia mais de uma opção para acertar.

Se fizessem questão de manter o verbo ir, simplesinho e eficaz, deveriam ter escrito:
●  Cinco destinos aos quais você pode ir sem passaporte.

Ficaria melhor ainda se tivessem usado outro verbo. Assim:
●  Cinco destinos que você pode visitar sem passaporte.
●  Cinco destinos que não exigem passaporte.
●  Cinco destinos que dispensam passaporte.
●  Cinco destinos para conhecer sem passaporte.
●  Cinco destinos para quem não tem passaporte.

E assim por diante. Bastava espremer um pouquinho os miolos. Mas, que fazer? Ninguém pode dar mais do que tem.

O comandado

José Horta Manzano

Por mais que a seleção brasileira de futebol conte com estrelas de renome planetário, quem seleciona e convoca jogadores é o técnico. Cabe a ele, pelo menos em princípio, orientar a equipe, formular a estratégia de cada partida, incentivar a turma.

O técnico, sobre o qual pesa enorme responsabilidade, se esforça para exercer comando sobre a Seleção.

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Chamada do Estadão, 11 nov° 2016

Como todos os demais jornais, o Estadão publicou artigo sobre o clássico Brasil x Argentina, disputado ontem no Mineirão. No entanto, o subtítulo desorienta o leitor. Dá recado trocado. Diz o contrário do que tencionava dizer.

De fato, informa que o festejado técnico está sendo comandado pela equipe. Estranha situação. Levada a sério, a frase conta que quem dá as ordens é a Seleção e que o orientador está sob seu comando. Trocaram os pés pelas mãos.

Deveria estar escrito que o «técnico emplaca cinco vitórias no comando». Pelo menos, é o que se imagina.

O calvário é nosso

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que, ao ligar o computador, você leva um susto logo de cara? Pois hoje aconteceu.

Veja a chamada estampada pelo venerando Estadão:

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016 clique para ampliar

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016
clique para ampliar

Este blogueiro é do tempo em que, para indicar o passado, se costumava usar o verbo haver: há dois dias, há quinze minutos, há um ano.

Ao ir-se, a doutora há de ter levado consigo a “Pátria Educadora”.

Desleixo

José Horta Manzano

Como todo o mundo, tenho meus princípios. O distinto leitor também terá os seus. Princípio, para mim, é aquela disposição da qual a gente não arreda pé. Se não for assim, não adianta insistir. Não faço.

Um de meus princípios é fazer benfeito o que tiver de ser feito. Pra fazer mais ou menos, de qualquer jeito, empurrando com a barriga, não conte comigo. Prefiro não fazer.

Quando me aparece uma palavra que desconheço, não passo por cima. Vou direto ao dicionário procurar saber o que quer dizer. E não descanso enquanto não encontrar. Falando nisso, hoje em dia, com google e internet, virou moleza. Só não acha quem não procura.

Fiquei sabendo que o procurador Dall’Agnol(*) deu um show hoje. Não assisti, mas li os ecos na mídia. Realmente, o quadro que o homem mandou projetar na tela é impressionante. Observando bem, algo me intrigou.

Chamada de TODOS os jornais, 14 set° 2016

Chamada de TODOS os jornais, 14 set° 2016

Bem em cima, uma bolha traz a inscrição Petrolão + Proinocracia. Petrolão, estamos cansados de saber o que é. Mas… proinicracia que seria? Doutor Houaiss não me respondeu. Procurei no etimológico. Nada. Tentei «proinocracie» no dicionário francês. Rien. Fui até buscar uma suposta «proinocrazia» no italiano. Niente.

Fez-se então a luz. Não é proinocracia, mas propinocracia, neologismo que, apesar de recente, é entendido por todos. Entendi, mas fiquei deveras preocupado. Faz quase dois anos que essa força-tarefa trabalha na elucidação do assunto. Depois de todo esse tempo, finalmente chamam a imprensa para apresentar quadro com erro? Ninguém viu? Ninguém revisou? Ninguém releu? Ninguém verificou? Mandaram ver, com casca e tudo?

Se esse quadro é amostra do trabalho que vêm fazendo, o Lula & companhia bela podem dormir descansados. Desleixado não tem jeito: constrói um tanque de guerra mas sempre deixa uma brecha para um bom advogado enfiar um coquetel Molotov e mandar tudo pelos ares.

Interligne 18h

(*) Nota etimológica
Na Idade Média, o nome próprio Agnello (= carneiro) era comum. A passagem de nome para sobrenome se explica. Assim como nomes portugueses se transformaram em sobrenomes (Fernando/Fernandes, Antônio/Antunes, Vasco/Vasques, Rodrigo/Rodrigues), o mesmo fenômeno ocorreu em italiano. Agnelli, Agnellutti, Agnelotti, Agnellini são nomes de família derivados do prenome Agnello. O sobrenome do doutor Dall’Agnol, entra para a lista. Agnol é forma dialetal vêneta. Dall indica proveniência. Ao pé da letra, Dall’Agnol é «do carneirinho».

Meu mascote? ‒ 2

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 12 ago 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 12 ago 2016

Nada feito. Como já disse em outras ocasiões, está errado. Por mais que o bichinho seja macho, será sempre SUA mascote. Mascote é substantivo do gênero feminino.

O mesmo vale, naturalmente, para seu gatinho, seu papagaio, seu hamster. Vale até para seu elefante, bichinho de estimação para quem dispõe de casa espaçosa. Igualdade de «gênero» não vigora neste caso.

Meu artigo Meu mascote? explica a origem da palavra.

Vaquinha virtual

José Horta Manzano

Proponho a organização de uma «vaquinha virtual» ‒ a expressão está na crista da onda! ‒ para financiar meia dúzia de dicionários. Destinam-se aos fazedores de manchetes e chamadas na grande mídia.

Investir em Instrução Pública dá mais futuro que chamar de volta presidentes de passado tenebroso.

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Chamada do Estadão, 3 jul° 2016

Não é «nonogenário». Aquele (ou aquilo) que já passou dos noventa anos é nonagenário. Qualquer dicionário confirma.

Quem é mesmo?

José Horta Manzano

Faz muito tempo que os vi pela última vez ‒ afinal, ambos faleceram há mais de cem anos e o tempo abranda a memória. Assim mesmo, a lembrança que guardei dos dois grandes escritores foi a seguinte:

Machado de Assis era este:

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

Interligne 28a

Castro Alves era este:

Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871)

Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871)

Interligne 28a

A Folha de São Paulo de ontem publicou uma chamada intrigante. Falando de um, pôs o retrato do outro. Salvo melhor juízo, naturalmente.

Chamada da Folha de São Paulo, 25 jun 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 25 jun 2016

Nota birrenta
His mother’s death fica bem em inglês. La mort de sa mère é irreprovável em francês. Já em português brasileiro, o possessivo é perfeitamente dispensável em casos como esse. Chora a morte da mãe” soa mais fluido e mais natural.

Capotamento

José Horta Manzano

Ah, esses estagiários… Continuo sem entender por que razão grandes jornais os incumbem de redigir manchetes, justamente a parte mais chamativa, aquela que todos veem ainda que não leiam a notícia.

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

O verbo capotar é intransitivo, não admite objeto. Não se deve dizer “capotou o carro”, mas simplesmente “capotou”. A infeliz vítima morreu ao capotar na avenida.

Em sentido figurado, pode-se usar com o sentido de ir por água abaixo. Por exemplo: “o projeto capotou”.

Segundo escalão em ação

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 3 maio 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 3 maio 2016

Se, com o 1° escalão, tanta coisa já ficou faltando no governo de Dilma, imagine só com o 2° escalão em ação! Já começou mal: está faltando um “n” no bunker.

Falando nisso, como é que fica o 1° escalão? Vai direto pra Curitiba?

Meu mascote?

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 27 mar 2016

Chamada do Estadão, 27 mar 2016

Negativo. Por mais que seu cãozinho seja macho, será sempre SUA mascote. Mascote é substantivo do gênero feminino. O mesmo vale, naturalmente, para seu gatinho, seu papagaio, seu hamster. Vale até para seu elefante, bichinho de estimação para quem dispõe de casa espaçosa. Igualdade de «gênero» não vigora neste caso.

Mascote vem do latim tardio masca, termo da mesma família que máscara. Na Idade Média, designava a feiticeira. Certos dialetos do Piemonte (Itália) e alguns falares da Provença (França) ainda usam masca no sentido de bruxa.

Uma ópera cômica foi responsável pela popularização da palavra. Foi La Mascotte, musicada pelo francês Edmond Audran, cuja primeira representação foi dada em 1880 em Paris. O sucesso imediato fez que o termo corresse mundo.

Na ópera, a personagem Bettina é a mascote, uma moça que espalha a sorte a seu redor e que, portanto, todos querem ter por perto. A jovem estava mais pra fada que pra bruxa. Daí vem o moderno sentido da palavra. Em princípio, usamos mascote para nos referir a um ser vivo, enquanto amuleto é reservado para um objeto.