Pensão alimentícia

José Horta Manzano

Correio Braziliense, 6 fev° 2018
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Quem merece “mandato de prisão“, de verdade, são certos homens públicos. O ator em questão foi alvo de mandado de prisão. Não é a mesma coisa.

Ai, meu plural!

José Horta Manzano

Chamada d’O Globo, 25 jan° 2018

Se um milhão já é muito, dezessete “milhão” é muito mais. Convém mandar pro plural. Assim, ó: US$ 17,9 milhões. Fica melhor e os guatemaltecos agradecerão.

Nota encucada
A Odebrecht pagar pelos ilícitos que cometeu é digno de aplauso. Mas e os que receberam o suborno? Estão perdoados? Não devolvem os “milhão” não?

Açúcar e mosca

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 18 jan° 2018

O estagiário faltou à aula justo no dia em que ensinaram colocação pronominal. Não aprendeu que o pronome relativo atrai o pronome oblíquo átono. Assim como açúcar atrai mosca, os pronomes relativos (que, o qual, quanto, quem & alia) atraem o pronome oblíquo. O ímã é forte, não há como escapar.

Portanto, o título correto será:

«Juiz diz que Maluf se movimentava com destreza».

Chavismo para os EUA

José Horta Manzano

Não sei o que significa «chavismo para os EUA». Se o distinto leitor souber o que é, evite criticar esse tipo de chavismo. Sobretudo, cale-se quando visitar a Venezuela. Do contrário, está arriscado a enfrentar sérios problemas com as autoridades. Um conterrâneo cometeu a besteira justamente quando se encontrava na Venezuela. Não deu outra: foi expulso do país.

Chamada Estadão 6 jan° 2017

Vamos falar sério agora. Em duas distraídas linhas, o estagiário deu recado errado. Diferentemente de outras línguas mais rígidas, a nossa permite ‒ até certo ponto ‒ o deslocamento de termos no interior da frase. Mas a liberdade desse troca-troca termina onde a compreensão fica comprometida.

O autor da chamada escorregou. Só quem já estava a par da história, que já vinha de alguns dias, entendeu o recado. Para total clareza, bastava ter ordenado os termos numa ordem coerente. Assim:

«Venezuela expulsa, para os EUA, brasileiro acusado de criticar chavismo»

ou

«Brasileiro acusado de criticar chavismo é expulso da Venezuela para os EUA»

ou ainda

«Expulso da Venezuela para os EUA brasileiro acusado de criticar chavismo»

«Aquele que sabe que é profundo tende à clareza; aquele que quer parecer profundo tende à escuridão, pois o povo acredita ser profundo tudo aquilo cujo fundo não consegue enxergar.»

Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão.

Bolo ou bola?

José Horta Manzano

Títulos, legendas, chamadas e subtítulos dados por estagiários costumam ser desconcertantes. Tanto podem acertar como conseguem dizer o contrário do que tencionavam. Acontece às vezes de serem cômicos e de convidar a um sorriso condescendente. Foi o que me provocou a legenda fabricada para esta chamada do Estadão.

«Um tordo encara pedaço de bolo pendurado em árvore»
diz a legenda do Estadão, 2 jan° 2018

A foto é lindíssima, sem sombra de dúvida. Já a explicação, que pode passar por exótica para quem não está habituado, me fez sorrir. Sabe Deus em que língua estava escrito o texto originário ‒ inglês talvez. Seja como for, a versão portuguesa não descreve a realidade. Vamos esmiuçar.

Os turdídeos formam uma grande família de pássaros, com mais de 150 diferentes espécies. No Brasil, o tordo mais conhecido é o sabiá. Numerosas variedades vivem na Europa, outras na América do Norte. Na Europa, o representante mais comum é o pisco-de-peito-ruivo, que não se encontra no Brasil. É exatamente o que aparece na foto do jornal.

Chamado de pettirosso em italiano, de rouge-gorge em francês e de petirrojo em espanhol, sua característica mais visível é a cor do peito, que varia de alaranjado a vermelho vivo. É passarinho pequeno, gordinho e simpático. De aparência frágil, seu peso equivale à metade do de um pardal comum. As variedades originárias do norte da Europa migram no inverno em direção ao sul em busca de alimento. Outras variedades não são migratórias.

O peito-ruivo é omnívoro. De preferência, alimenta-se de minhoca, larvas e pequenos invertebrados, mas pode também comer frutinhas selvagens. É chamado o «companheiro do jardineiro». De fato, quando se dá conta de que alguém está revolvendo a terra, fica à espreita ‒ alguma minhoca pode até aparecer. Como o pardal e a pomba, é pouco arisco. No inverno, costuma rondar perto das casas à espera de alguma sobra de comida.

Bola de gordura

Para dar uma mãozinha aos graciosos voadores, muita gente compra no comércio especializado uns saquinhos com uma «bola de gordura», composta de matéria graxa misturada com pequenos grãos. Esse alimento, pendurado nalgum galho de árvore, faz a festa de pequenos pássaros como o peito-ruivo. Só se faz isso no inverno. No verão, os bichinhos encontram alimento abundante na natureza e se viram sozinhos.

Assim, retificando a legenda, «tordo» é denominação genérica demais. Seria como tratar um jacaré de «réptil». Melhor será chamá-lo pelo nome próprio: pisco-de-peito-ruivo ou simplesmente peito-ruivo. Quanto ao bolo, nada feito. Ainda que seja Natal, não se costuma oferecer bolo a passarinho. Nem panettone. É bola mesmo. Bola de gordura.

O réveillon ‒ 2

José Horta Manzano

O verbo latino vigilo/vigilare significa estar desperto ‒ por oposição a estar dormindo. Temos, em nossa língua, diversas palavras correlatas: vigiar, vigia, vigília, velório. Todas guardam senso de permanecer acordado.

Na Idade Média, quando não havia luz artificial, ia-se dormir com as galinhas e acordava-se com o galo, como dizia minha avó. Logo depois de escurecer, por falta do que fazer, todos iam pra cama. A véspera de Natal marcava uma exceção: era a única noite do ano em que todos ficavam acordados até mais tarde pra poder assistir à missa do galo.

by Jan Steen (1626-1679), artista flamengo

Na volta da igreja, o estômago já estava começando a roncar. Tomavam então uma refeição fora da hora habitual. Os franceses chamavam a esse costume «faire réveillon»fazer réveillon, ou seja, ficar acordado (veiller) além da hora normal.

Até o século 19, «réveillon» se referia unicamente à véspera do Natal. Em épocas mais recentes, a denominação tende a estender-se também à comemoração do ano-novo, outra ocasião em que se comemora de véspera, todos acordados e enchendo a pança.

Escreve-se réveillon, com acento no primeiro é. Pronuncia-se rêvêiôn. O estagiário que escreveu a chamada ouviu cantar o galo mas não sabia onde. Tinha certeza de que a palavra levava acento, mas hesitava entre as vogais. Com preguiça de consultar o dicionário, tascou o dito em cima do ó. Marcou bobeira. A palavra ficou com um ar assim meio espanhol ‒ estrangeiro, sem dúvida, mas longe do original.

Podia ser melhor ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 23 dez° 2017

Até ‒ ou principalmente ‒ quando se usa linguagem metafórica, há que ser lógico. Impasse, por definição, é uma situação em que é impossível seguir adiante. É conceito absoluto, dificilmente adjetivável.

«Ampliar impasse», em rigor, não significa nada. Um beco sem saída não é susceptível de ser «ampliado».

Se o escriba fizer questão de tascar um qualificativo, há que escolher termo coerente. Para acentuar a imagem do impasse, caberia a noção de reforço, por exemplo. Poderia ter dito «reforça impasse», ou «acentua impasse» ou ainda «intensifica impasse». Poderia também ter optado por «mantém impasse». Podia ainda ter olhado a situação pelo outro lado: «não afasta impasse».

«Ampliar impasse» soa estranho.

Extorsão por chantagem

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 set° 2017

Nem que o pedinte chegasse com uma sacola de escorpiões conseguiria extorquir motoristas. É impossível.

A linguagem popular acredita que os verbos roubar e extorquir sejam sinônimos perfeitos. Não são. Veja por quê.

Roubar é verbo elástico. Aceita múltiplas regências. No uso mais comum, o objeto tanto pode ser a pessoa de quem algo foi roubado quanto a coisa roubada.

Exemplos:

●  Ladrões roubaram a sacristia. (= assaltaram o local e levaram objetos)

●  Ladrões roubaram o cálice de ouro da sacristia.

Extorquir é bem menos flexível. Extorque-se algo de alguém. E só.

Exemplos:

●  Chantagista extorquiu mil reais da vítima.

●  Por métodos pouco ortodoxos, a polícia extorquiu a confissão do acusado.

●  Homem usa escorpiões vivos para extorquir dinheiro de motoristas.

Nota
Extorquir, torcer, torturar, entortar são primos-irmãos. Descendem todos da raiz latina torqueo, torquere. Extorquir carrega a ideia de extrair algo de alguém por uso de força ‒ torcendo-lhe o braço, por exemplo.

Mandato x mandado

José Horta Manzano

As tenebrosas revelações de corrupção se atropelam. Têm chegado às pencas. Diariamente. Hoje em dia, ter mandato eletivo já é passo importante em direção a receber mandado de prisão. No entanto, a língua (ainda) faz distinção entre os dois termos.

Mandato é missão, procuração, incumbência que se confia a alguém.

Exemplos:
O vereador cumpriu o mandato até o fim.
O procurador não aceitou o mandato que lhe queriam confiar.

Mandado é geralmente usado em linguagem jurídica. Designa ordem ou despacho expedido por uma autoridade.

Exemplos:
Sabendo que há mandado de prisão expedido contra ele, o vereador sumiu do mapa.
A residência do deputado foi objeto de mandado de busca e apreensão.

Chamada do Estadão, 26 ago 2017

Profissão e função

José Horta Manzano

Já falei sobre o assunto, mas hoje volto a ele. Trata-se da confusão que costumamos fazer entre profissão e função. Não são a mesma coisa. Profissão, em especial quando é reconhecida e obtida através de formação, tem caráter permanente. O indivíduo que tem acesso a um título profissional ao cabo de um período de instrução, de avaliação final e, eventualmente, de obtenção de diploma, ganha o que se costuma dizer “direito adquirido”. É para sempre, independentemente de exercer o ofício.

Chamada do Estadão

Para usar palavreado caseiro, é como a diferença entre ser e estar. O engenheiro que trabalha de pipoqueiro é engenheiro, mas «está» pipoqueiro. O sociólogo desempregado continua sendo sociólogo, embora esteja sem trabalho. O torneiro mecânico que se elege presidente da República será torneiro mecânico até o fim de seus dias ainda que possa ocupar temporariamente o cargo de presidente.

Músicos, psicólogos, eletricistas formados, contadores, farmacêuticos, enfermeiros são profissionais. Seguiram formação, cada um em seu ramo, e adquiriram o direito inalienável de ostentar o título. Ainda que se lhes retire ‒ por um tempo ou para sempre ‒ a licença de exercer, ninguém lhes pode cassar a formação.

Chamada da Folha de São Paulo

Função é outra coisa. O contador ganha a vida fazendo contabilidade ou vendendo pastéis. O químico exerce num laboratório ou entrega pizza. Profissão e função nem sempre empatam. (Político não é profissão, ainda que certas figurinhas carimbadas estejam há décadas fazendo política.) Diretor, porteiro de boate, gerente, office-boy tampouco são profissões. São funções transitórias.

Artigo do Correio Braziliense

Um médico formado e diplomado será médico até seu último suspiro, ainda que a licença de exercer lhe seja cassada. É impossível cassar-lhe a formação. No entanto, a mídia não é dessa opinião. Um certo senhor Abd El-Massih, ginecólogo condenado por múltiplos estupros a quase 200 anos de cadeia, era, continua sendo e será sempre médico. Como é compreensível, a Ordem dos Médicos retirou-lhe a autorização de exercer. Legalmente, não poderá mais cuidar de pacientes, mas nem por isso deixou de ser médico.

Artigo de O Globo

A totalidade da imprensa nacional o descreve como «ex-médico», perfil que me parece inadequado. Pode-se falar de um ex-pipoqueiro, de um ex-diretor, de um ex-presidente. Jamais de um ex-engenheiro ou de um ex-médico.

Comunicar x informar

José Horta Manzano

O Lula teve muito poder. A roda do destino girou e derrubou o homem. A vida é assim mesmo, crua, cruenta e cruel. Ai daquele que se deixar dominar pela soberba!

Doutor Moro tem muito poder. Muita gente tenta puxar o tapete pra fazê-lo escorregar. Até hoje, não conseguiram. Resta esperar que, antes que algum mal lhe aconteça, consiga levar a cabo o trabalho que começou.

Doutor Moro tem realmente muito poder. Pode convocar, interrogar, acusar, inculpar, mandar prender, julgar e sentenciar. Mas não pode mudar a língua.

Chamada Estadão, 22 jul 2017

O estagiário que dá título à matéria do Estadão não sabe disso. Ao ler de soslaio o conteúdo do artigo, mandou ver: «Moro manda comunicar Lula sobre bloqueio de bens». Como é que é? Comunicar Lula sobre?  Tsk,tsk, o rapaz andou gazeteando durante as aulas de Linguagem.

Comunica-se algo a alguém. Na acepção em que foi utilizado na chamada acima, o verbo comunicar é bitransitivo. Pede dois objetos: um direto e um indireto. Comunicar dá o mesmo recado que informar, mas não obedece à mesma regência.

Há opções melhores e menos desastradas do que a escolhida pelo redator. Eis algumas:

  •  Moro manda comunicar a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro comunica a Lula bloqueio de bens.
  •  Moro manda informar Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro informa Lula sobre bloqueio de bens.
  •  Moro cita e intima Lula para dar-lhe ciência do sequestro de seus bens.

Comunicar o Lula? Pode não, senhor.

Ai, minha cabeça!

José Horta Manzano

Há quem afirme que doutor Geddel Vieira Lima é delinquente inveterado(*). Dizem que começou já na adolescência e não parou até hoje. Deve haver uma parte de verdade na afirmação, tanto é que o doutor foi preso estes dias.

Os jornais dão em manchete a notícia de que o prisioneiro «tem cabeça raspada». Só de pensar, dá arrepio. Fico aqui imaginando qual terá sido o instrumento de tortura utilizado para raspar a cabeça do infeliz. Uma lixa grossa? Uma escova de piaçaba? Um ralador de queijo? Cruz-credo!

Chamada Estadão 6 jul 2017

Pois é, minha gente, em apenas três palavrinhas ‒ «tem cabeça raspada» ‒, duas impropriedades foram cometidas. Uma delas é o emprego da sintaxe inglesa. «Teve a carteira roubada», «tive o apêndice extirpado» & congêneres são frases construídas sobre base sintática estranha à nossa. Em inglês, é assim que a gente deve se exprimir. Em português, casos dessa natureza pedem a voz passiva. Melhor do que «teve a carteira roubada», será dizer que lhe roubaram a carteira. Ou que a carteira dele foi roubada, que lhe extirparam o apêndice, que seu apêndice foi extraído. E, naturalmente, que lhe cortaram o cabelo ou que seu cabelo foi cortado rentinho rentinho.

A outra impropriedade é o uso de «raspar» por «rapar». No Brasil, muitos utilizam raspar quando rapar seria mais adequado. No entanto, cada um dos verbos exprime ação diferente.

by Carl Thomas Anderson (1865-1948), desenhista americano.
Henry, o garotinho de cabeça rapada, conhecido no Brasil como Pinduca, foi criado quando o desenhista já tinha 68 anos de idade, em 1933.

Rapar é catar tudo, às vezes num único movimento. Rapa-se a cabeça (caso do doutor ora prisioneiro), rapa-se a mercadoria do camelô desprevenido, rapa-se o saldo da caderneta de poupança. O crupiê rapa as fichas dos perdedores no tapete verde. Rapa-se barba e bigode.

Raspar é outra coisa. Raspa-se um objeto ou uma superfície, ou por acidente, ou na intenção de limpar ou de eliminar alguma impureza ou excrescência. Raspa-se fundo de panela. Raspa-se a pintura da parede velha antes de aplicar nova camada. Raspa-se o carro no muro. Raspa-se casca de limão e de cenoura.

Sabemos que nossas prisões são sucursais do inferno. Mas ainda não chegamos ao ponto de raspar a cabeça de recém-chegados, esfregando até o sangue. Crueldade tem limites.

(*) Inveterado denota algo ou alguém que envelheceu. Por analogia, hábitos antigos e arraigados são ditos inveterados. A palavra descende do latim vétus, véteris (= velho).

Veterinário faz parte da mesma família. A gente se pergunta por quê. É simples. Dois milênios atrás, a medicina ainda engatinhava e o homem mal sabia cuidar de si, quanto mais dos bichos. Assim mesmo, animais domésticos ‒ principalmente o cavalo, usado como meio de transporte ‒ eram preciosos. Quando um cavalo adoecia ou sofria com uma pata quebrada, o dono mandava vir um especialista para ver se dava um jeito. A maioria das vezes, esses infortúnios acometiam animais velhos, razão pela qual o entendido era chamado veterinarius.

Vetusto, veterano, inveterar (= tornar antigo) derivam do mesmo tronco.

Gentílicos compostos

José Horta Manzano

Entre outras acepções, o termo GENTÍLICO é usado para indicar nacionalidade ou origem (de gente ou de coisa, conforme o caso). Brasileiro, argentino, francês, japonês, congolês, australiano são gentílicos que designam detentores de cada um desses passaportes. Ou ainda objetos e fatos originários desses países ou acontecidos neles.

Em casos especiais, seja por questão de fonética, seja por questão de tradição, alguns gentílicos são abundantes, quer dizer, têm duas formas: uma longa e outra curta. Esta última é especialmente usada em gentílicos compostos.

  • Alguns exemplos:
    Francês = franco
    Alemão = teuto
    Português = luso
    Chinês = sino
    Japonês = nipo
    Espanhol = hispano
    Inglês = anglo
    Italiano = ítalo
    Áustria = austro
    Albanês = albano
    Finlandês = fino
    Grego = greco

Chamada Folha de São Paulo, 6 jun 2017

Há outros. O vocabulário da Academia Brasileira de Letras aceita ‘brasilo’ como forma curta para brasileiro. Pessoalmente, acho esquisito e prefiro evitar. Não me soa bem «brasilo-argentino» ou «brasilo-peruano». Que cada um faça como quiser.

Quanto aos gentílicos curtos tradicionais, use à vontade.

  • Assim, teremos:
    Tratado teuto-brasileiro
    Acordo nipo-canadense
    Guerra franco-prussiana
    País hispano-americano
    Relações fino-suecas

E, diferentemente do que escreveu a Folha, terrorista ÍTALO-MARROQUINO.

Força do hábito

José Horta Manzano

O estagiário, que há de ter crescido com celular no bolso e computador diante dos olhos, escorregou na hora de dar título à chamada.

Configuram-se (e desconfiguram-se) celulares e computadores. PEC (proposta de emenda constitucional) não é telefone nem aplicativo.

Chamada Estadão, 25 maio 2017

Para descrever manobra parlamentar que, com boas ou más intenções, adultera uma PEC, usa-se o verbo DESFIGURAR.

Então, ficamos combinados. Quem elimina todos os aplicativos DESCONFIGURA o telefone. Quem elimina ou modifica artigos de uma PEC ou acrescenta “jabutis” a ela DESFIGURA a proposta.

De ventos e de auroras

José Horta Manzano

Antes de se interessar pelos pontos cardeais, os antigos se preocuparam com os ventos, as chuvas, o ritmo das estações. Dá pra entender. A vida era dura e não dava espaço pra divagações filosófico-astronômicas. Do tempo atmosférico dependiam os cuidados a dedicar à agricultura. Mais importante que saber onde estavam o norte ou o sul era conhecer os ventos que sopravam de um quadrante ou de outro.

vento-5Tanto na Grécia antiga quanto na Roma dos Césares, os ventos ganharam nome antes dos pontos cardeais. Por consequência, os adjetivos usados para indicar o que vem do norte (ou o que lá está) derivam dos ventos que sopram daquele quadrante. O mesmo vale para o lado oposto, o sul.

O termo latino «bórea», que corresponde ao grego «boréas», designa o vento frio que sopra do norte. Na outra ponta, o latino «áuster», relacionado com o grego «áuso», é o nome dado ao vento sul, um sopro quente e árido.

Em nossa língua, no dia a dia, dizemos “nortista”, “sulista”, “sulino” ‒ são vocábulos mais fáceis de reter e de entender. Em linguagem mais tensa, esses termos são substituídos por “boreal” e “austral”, o primeiro se referindo ao norte e o segundo, ao sul.

Nas regiões situadas em altas latitudes ‒ cerca dos polos ‒, ocorrem fenômenos elétricos episódicos na alta atmosfera, que se traduzem por clarões impressionantes, de cor variando entre verde intenso e solferino. O espetáculo leva o nome de aurora polar. Em três cliques, o distinto leitor encontrará na internet descrição detalhada dos comos e dos porquês desse fenômeno.

Folha de São Paulo, 3 março 2017 Clique para ampliar

Folha de São Paulo, 3 março 2017
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O Hemisfério Norte de nosso planeta é habitado, enquanto o Hemisfério Sul tem pouca terra e pouca gente. Logicamente, auroras polares são observadas com maior frequência nas regiões próximas do Polo Norte ‒ Rússia, Canadá, Groenlândia, Escandinávia, Islândia. Por ocorrer no Hemisfério Norte, esse fenômeno costuma ser chamado aurora boreal. No Hemisfério Sul, o mesmo acontecimento só pode ser observado a partir da Antártida, lugar pouco hospitaleiro.

Aurora polar observada nas cercanias do Polo Sul não será ‘boreal’, mas austral. O autor da legenda da belíssima foto publicada pela Folha de São Paulo trocou os pés pelas mãos. Desconhecendo o significado do termo «boreal», há de ter imaginado que se referia ao fenômeno. Errou. A palavra tem a ver com o norte.

Tivesse escrito «aurora austral», o autor da legenda teria merecido aplausos.

Destino que ir

José Horta Manzano

Este ainda passa como erro de datilografia ‒ ou digitação, que é a mesma coisa. Faltou releitura, mas ficou engraçado.

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Interligne 28a

Já este aqui dá engasgo. Não é confusão de teclado. É bem pior: falta de intimidade com a norma culta da língua, fato espantoso num encarregado de redigir manchete de jornal.

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Quem vai, não vai “algum lugar”, mas A algum lugar. Havia mais de uma opção para acertar.

Se fizessem questão de manter o verbo ir, simplesinho e eficaz, deveriam ter escrito:
●  Cinco destinos aos quais você pode ir sem passaporte.

Ficaria melhor ainda se tivessem usado outro verbo. Assim:
●  Cinco destinos que você pode visitar sem passaporte.
●  Cinco destinos que não exigem passaporte.
●  Cinco destinos que dispensam passaporte.
●  Cinco destinos para conhecer sem passaporte.
●  Cinco destinos para quem não tem passaporte.

E assim por diante. Bastava espremer um pouquinho os miolos. Mas, que fazer? Ninguém pode dar mais do que tem.