No creo en brujas…

… pero que las hay, las hay.

José Horta Manzano

Bruja 2Não sou muito dado a assuntos esotéricos. Em matéria de vidência, premonição e artes conexas, costumo ficar com um pé atrás. Previsão boa mesmo é aquela que foi registrada em cartório. De preferência, antes de ocorrer o fato previsto. Isso é coisa rara.

Programa de tevê gravado e difundido no youtube antes do acontecimento tem, a meus olhos, o mesmo valor. Nestes tempos modernos, podemos dispensar carimbo, estampilha, autenticação e firma reconhecida.

Não sei se meus distintos leitores conhecem um certo senhor Carlinhos, de Apucarana (PR), para quem o futuro não envolve segredos. Vê e conta, a quem quiser ouvir, o que vai acontecer. Por vezes, erra – que ninguém é perfeito. Mas seus acertos são despudorados e desconcertantes. Fiquei sabendo hoje da existência do homem.

Se você não conhece o rapaz e dispõe de 7 minutos, recomendo seguir o caminho seguinte:

Bruja 1Primeiro, assista a um vídeo de 2 minutos, gravado pela TV Apucarana na primeira fase da «Copa das copas», ainda antes do encontro Brasil x México. O filminho foi publicado no youtube em 16 jun° 2014. Contrariando a esperança de milhões, o vidente afirma, com todas as letras, que o Brasil não ganhará a Copa. Diz também que os times que mais se aproximam do título são Alemanha, Holanda e Argentina. Diz mais ainda: se o Brasil pegar a Alemanha ou a Holanda, vai perder – vai levar um gol atrás do outro. E tem mais um detalhe: afirma que Neymar estará afastado do campo durante um ou dois jogos da segunda fase.

O vídeo, disponível no youtube, está aqui.

Em seguida, dê uma olhada no vídeo de 5 minutos gravado durante um programa do canal SBT e inserido no youtube em 12 jul° 2014. Indagado sobre as eleições que ocorreriam dali a 3 meses, o rapaz dá o nome dos três finalistas, na ordem de chegada. Põe Aécio em 1° lugar, Dilma em 2° e Marina em 3°. Repare bem que ele já menciona o nome de Marina Silva, esquivando Eduardo Campos, o candidato que viria a falecer dois meses mais tarde.

O vídeo, também disponível no youtube, está aqui. Se tiver pressa, pode pular o começo e assistir a partir do último minuto.

Urna 2Do jeito que vão as coisas, só resta aos atuais mandatários um último recurso: manipular os resultados das exóticas «urnas» eletrônicas.

Neste Brasil versão século XXI, uma desonestidade a mais ou a menos não há de fazer diferença.

Visão d’África

«Au Brésil, j’ai vu beaucoup de blancs et de métis, mais peu de noirs»

«No Brasil, vi muitos brancos e mestiços, mas poucos negros»

Jean-Pierre EssoFoi o comentário de Jean-Pierre Esso, jornalista camaronense que passou um mês no Brasil cobrindo a Copa do Mundo, ao demonstrar que, por olhos africanos, o mestiço não costuma ser visto como negro.

Comprovou que a tese da “gota de sangue”, copiada do modelo americano por nosso atual governo federal, não vigora em terras d’África. Por aquelas bandas, a “gota de sangue” funciona, antes, no sentido inverso. 

Arena matrimonial

José Horta Manzano

O portal de informação Focus, braço de um conglomerado alemão de mídia, publicou o resultado da conta de perdas e danos da Fifa, referente ao Campeonato do Mundo jogado no Brasil este ano.

O volume de negócios atingiu 3,3 bilhões de euros, superando em 10% o recorde anterior, da copa africana. O lucro foi de 1,6 bilhões de euros. Livres de imposto naturalmente.

Projeto Casa Futebol, Foto EFE

Projeto Casa Futebol, Foto EFE

A distribuição de prêmios aos diferentes beneficiários foi relativamente modesta: 425 milhões de euros, nada mais. A Confederação Alemã de Futebol, por ter terminado o campeonato em primeiro lugar, tirou a sorte grande ― vai levar 25,7 milhões.

Uma quantia de 125 milhões será paga, como compensação, aos clubes cujos jogadores tenham sido convocados para a Copa. Para finalizar, 148
milhões irão para os 209 países-membros. A cada um conforme sua classificação no torneio. O resto fica na conta de poupança da Fifa.

by Clayton Rabelo, desenhista paulista

by Clayton Rabelo, desenhista paulista

Quanto aos elefantes brancos plantados no Brasil ― falo dos estádios ― um escritório de arquitetura teve ideia bastante original: reaproveitá-los como moradia popular. Seria uma espécie de pombal. A imagem que reproduzi acima vale mais que mil palavras. Há outras aqui.

Foto Pedro Ladeira, Folhapress

Foto Pedro Ladeira, Folhapress

É pouco provável que nossos dirigentes aprovem a ideia do pombal. Parece que já encontraram uso bem mais relevante. Faz alguns dias, o estádio de Brasília já acolheu casamento coletivo, ideia importada diretamente da China. Coisa fina!

As aparências estão salvas. Como se vê, valeu a pena investir bilhões do dinheiro do povo. Ninguém mais tem desculpa pra ficar solteiro.

Não justifica

José Horta Manzano

Aporrinhado por uma hecatombe de acontecimentos ruins ― derrota doída no gramado, vaias e apupos recorrentes, inflação em alta e outros males crônicos ― o Planalto se vê na urgente e ingrata obrigação de encontrar notícias boas.

Já faz fários anos, o ministro Mercadante, fiel escudeiro da Casa Civil, disse uma vez que havia tomado a decisão irrevogável de retirar-se do governo. Não só não saiu, como até hoje está lá. A firmeza e a exatidão de suas palavras têm, desde então, o valor que cada um queira lhes atribuir.

Turismo 3Pois bem, o senhor Mercadante acaba de apresentar balanço turístico do período da «Copa das copas». Afirmou, com indisfarçado orgulho, que mais de um milhão de turistas estrangeiros visitaram o Brasil.

Um número isolado, sem referencial, é pouco significativo. Para ser avaliado, falta saber quantos turistas costumam visitar o País a cada ano. Melhor ainda, é bom verificar como se situa nosso país-continente na escala internacional da movimentação turística.

Dados do Ministério do Turismo garantem que 5,7 milhões de turistas estrangeiros aportaram no Brasil em 2012. Grosso modo, ano sim, outro também, dá meio milhão de pessoas por mês. Portanto, do milhão de indivíduos assinalados pelo senhor Mercadante durante o mês do mundial, há que subtrair o meio milhão que viria de qualquer maneira. No frigir dos ovos, o campeonato atraiu apenas 500 mil visitantes extras.

Agora, convenhamos. Considerando que a Copa exigiu investimento de 25 bilhões, o resultado é pífio. Com muitíssimo menos, o Ministério do Turismo deveria poder atrair turistas ― afinal, é para isso que ele serve. Se não tem conseguido alçar o número de visitantes, é por incompetência.

Torneios de futebol, embora sejam eventos de repercussão planetária, têm duração muito curta. Efêmeros, seus efeitos não se prolongam no tempo. Senão, vejamos: alguém se sente impelido a visitar a África do Sul na esteira da Copa que ali se realizou quatro anos atrás?

Reproduzo aqui dados da Organização Mundial do Turismo, órgão da ONU, relativos ao movimento turístico global:

Número de turistas estrangeiros recebidos
em cada país – Dados de 2012
———————————-———————————-——————————————-
 1. França         84,0 milhões
 2. EUA            63,3 milhões
 3. Espanha        58,7 milhões
 4. China          58,6 milhões
 5. Itália         46,1 milhões
 6. Turquia        36,7 milhões
 7. Reino Unido    29,2 milhões
 8. Alemanha       28,4 milhões
 9. Malásia        24,1 milhões
10. México         23,4 milhões
11. Áustria        23,0 milhões
12. Rússia         22,6 milhões
13. Hong Kong      22,3 milhões
14. Ucrânia        21,4 milhões
15. Tailândia      19,0 milhões
16. Canadá         18,2 milhões
17. Saudi-Arábia   17,6 milhões
18. Grécia         14,4 milhões
19. Polônia        13,3 milhões
20. Macau          12,9 milhões
21. Holanda        11,3 milhões
22. Singapura      10,3 milhões
23. Hungria        10,2 milhões
24. Croácia         9,9 milhões
25. Coreia do Sul   9,7 milhões
26. Egito           9,4 milhões
27. Marrocos        9,3 milhões
28. Dinamarca       8,7 milhões
29. Rep.Tcheca      8,7 milhões
30. Suiça           8,5 milhões
——————————-
… Brasil          5,7 milhões

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Receitas trazidas pelo turismo internacional
a cada país – Dados de 2012 (em dólares)
—————————————–—————————————–—————————-
 1. EUA          126,2 bilhões
 2. Espanha       55,9 bilhões
 3. França        53,7 bilhões
 4. China         50,0 bilhões
 5. Macau         43,7 bilhões
 6. Itália        41,2 bilhões
 7. Alemanha      38,1 bilhões
 8. Reino Unido   36,4 bilhões
 9. Hong Kong     32,1 bilhões
10. Austrália     31,5 bilhões
——————————–
… Brasil         6,6 bilhões

Interligne 18b

Verificamos que cada estrangeiro em visita ao Brasil gasta em média 1160 dólares. Portanto, os turistas suplementares que a “Copa das copas” nos trouxe hão de ter gasto menos de 600 milhões no total.

É muito pouco para justificar os bilhões investidos. É urgente procurar outro legado.

Coerência no futebol

José Horta Manzano

Panico 1Outro dia, ao perder para a Alemanha por 7 a 1, nossa equipe nacional de futebol deu susto em todo o mundo. Nem o mais ousado dos videntes, nem o mais pernudo dos polvos teria previsto placar tão elástico.

É difícil encontrar explicação. Quando sobrevém um acontecimento fora de toda previsão e de todo controle, costumamos falar em acidente. Foi a palavra mais utilizada para descrever a hecatombe.

Os ingleses se referiram ao fato como mishap. Os franceses tanto usaram mésaventure como accident de parcours. Quanto aos italianos, deram preferência a disavventura. E os espanhóis disseram percance.

Bom, isso valeu para o 7 a 1. Assim como raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar, a segunda derrota seguida da Seleção muda o cenário.

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

by João Bosco Jacó de Azevedo, desenhista paraense

O fato de o «scratch»(*) nacional perder de goleada dois jogos consecutivos ― em Copa do Mundo jogada em casa! ― já não se encaixa mais no departamento de acidentes. Os bilhões de telespectadores que assistimos aos lances principais desta Copa estamos a nos perguntar se os termos da explicação não estariam invertidos.

Sim, agora tudo parece indicar que, se acidente houve, foi o resultado dos primeiros jogos da Seleção. Agora dá pra entender o que estava por detrás daquelas vitórias sofridas, estreitinhas, acudidas por pênaltis inexistentes, resolvidas na loteria do tiro ao alvo e salvas por bolas na trave.

Passarinho 2Pensando bem, até que há lógica nisso tudo. Nosso país, por decisão de seus perspicazes e ilibados líderes, caminha em marcha forçada para se tornar uma Venezuela. Nessa perspectiva, dispor de equipe nacional de futebol de padrão Fifa não combina. A lógica elementar exige que nosso futebol se aproxime do padrão bolivariano.

É o que está acontecendo. É coerente e faz sentido.

Interligne 37l

(*) Scratchera um dos nomes que se dava ao grupo de jogadores selecionados para representar o futebol do País. Falo do tempo em que o Brasil era respeitado em campo. Falo daquela época em que a simples visão de uma camisa amarela fazia qualquer adversário engolir em seco.

Sem fronteiras

José Horta Manzano

Seja qual for o resultado da final de consolação deste 12 de julho, a Copa das copas já terminou. Chegou a hora do inventário. Quando o resultado é bom, distribuem-se os dividendos. Dado que o exercício foi catastrófico, é hora de apontar os culpados.

Certa de que o Brasil venceria o torneio, dona Dilma tinha-se atribuído, de antemão, a paternidade de glórias futuras. As glórias entraram em greve e não vieram. Todos agora lançam olhar interrogativo à presidente e perguntam: «Ué, a senhora não disse que ia dar tudo certo e que ia ser uma maravilha?». Presidenta que se preza não pode se esquivar alegando que foi traída, que não sabia de nada. Essa desculpa já está muito manjada.

Elefante 2Instruída por algum assessor, ela chegou à conclusão de que, para escapar, o melhor seria jogar a responsabilidade no colo de alguém. A CBF, responsável pela organização do futebol nacional, apareceu como culpada ideal pelo descalabro. Dona Dilma, sob a ameaça de ver suas «arenas» se transformarem em elefantes brancos, aceitou a sugestão. Já se pronunciou mais de uma vez declarando, em tom peremptório, que uma profunda reformulação do futebol brasileiro tem de ser empreendida.

Cabe a pergunta: por que, diabos, essa profunda reformulação não foi posta em prática faz sete anos, desde o momento em que o Brasil foi designado para abrigar a Copa das copas? Por que esperaram que a incúria desembocasse numa acachapante derrota?

Ainda que tardiamente, nossa presidente propõe que se criem escolas de futebol, como na Alemanha, para que nossos craquinhos possam desenvolver sua craquidão e tornar-se cracões sem ter de recorrer a escolas estrangeiras. Assim ― raciocina a mandatária ― jogadores brasileiros ficarão no Brasil, o nível do futebol nacional subirá e os estádios lotarão, afastando o espectro de elefantes albinos plantados em plena Amazônia Legal.

O raciocínio manca das duas pernas. Parte da falsa premissa de que nossos atletas vão jogar na Europa por causa da inexistência de escolas de futebol nacionais. Não é bem assim. Eles vão jogar onde o salário for mais vantajoso. Se os clubes brasileiros pagassem o que pagam os europeus, haveria fila de cracões mundiais à espera de uma chance.

Elefante 1A segunda leviandade é ignorar o custo da empreitada. Já imaginaram? Cria-se nova estatal, a Futebrax (ou SoccBras, de sabor mais americanizado). Em seguida, abrem-se 27 filiais da autarquia, uma em cada estado. Depois vêm as sedes, os campos de treinamento, os professores, os assessores, os olheiros, os fisioterapeutas, os médicos, os roupeiros, os treinadores, os psicólogos, os porteiros, os seguranças, a mulher do café. Sem esquecer os agregados, os nomeados, os apaniguados, os amigos do rei e a indispensável propaganda institucional ― um verdadeiro cabide de empregos. Para salvar elefantinhos (os estádios inúteis), cria-se um elefantão. Contrassenso.

Proponho a dona Dilma um caminho muito mais simples, rápido e barato. Que institua imediatamente a Bolsa-Futebol. Os craquinhos que demonstrarem talento serão contemplados. Passarão dois anos na Alemanha, estudando numa escola de futebol, com todas as despesas pagas. Depois disso, terão de honrar o compromisso de atuar no futebol brasileiro, obrigatoriamente, durante dois anos. A partir daí, estarão liberados para trabalharem onde bem entenderem.

A mim, parece-me uma solução de baixo custo e de fácil realização. Em vez de construir uma estrutura a partir do zero, cara e demorada, aproveita-se a estrutura já existente no estrangeiro. Não vejo desonra nisso.

Para disfarçar o estigma de assistencialismo embutido na palavra bolsa, melhor chamar o programa de Futebol sem fronteiras. Que tal?

2018

José Horta Manzano (*)

Futebol 3Um país cujo povo dá à seleção de futebol importância maior do que dá a outras prioridades gritantes não tem o direito de crescer.

Não foi investindo em futebol que a Alemanha se tornou país de Primeiro Mundo. Sua prioridade foi e continua sendo o investimento em educação básica. Isso é válido não só para a Alemanha, mas também para todos os países desenvolvidos. Sem exceção.

O povo brasileiro, que gasta seu tempo e seu esforço a lamentar-se por uma equipe esportiva, não merece prosperar. O que faz um país crescer é estudo, trabalho, honestidade e persistência.

Que pensar de um povo que que torce pra chegar a sexta e odeia as segundas? Que tenta levar vantagem em tudo? Que valoriza a improvisação em detrimento do planejamento? Que dá mais valor à embalagem que ao conteúdo?

Biblioteca 1Muitos dos que idolatram jogadores de futebol são cidadãos que nunca arregaçaram as mangas nem se esforçaram para melhorar de vida. Daí dependerem de ídolos pré-fabricados para compensar suas próprias frustrações.

Na medida que trabalharmos, estudarmos e lutarmos por dias melhores, teremos grandes alegrias já em 2018, independentemente da colocação da Seleção na Copa da Rússia. Uma eventual vitória não será mais que um complemento e não a razão de tudo ― única chance de o povo alcançar felicidade.

Viva o povo brasileiro e danem-se a Seleção e a Copa! Que sumam com a Fifa. Alegria do povo não é conquista de campeonatos. É vida digna e comida na mesa.

Interligne 18g

(*) Este texto, aqui reavaliado e reformatado, baseia-se num comentário assinado por Claudio de Castro, inserido no site Fenatracoop.

 

7 x 1

José Horta Manzano

O selecionado brasileiro de futebol foi derrotado pela equipe nacional alemã. O fato, em si, não tem nada de extraordinário. Espantosa é a amplidão do marcador. Que fazer? São coisas da vida.

Os fatos têm a importância que lhes atribuímos. Os atributos que tenho lido e ouvido ― ligados ao jogo deste 8 de julho ― são terríveis. Desonra, fracasso, desgraça, tragédia, debacle.

Não exageremos. Cabeça fria, minha gente. Daqui a alguns dias, acaba a «Copa das copas». Os jogadores voltarão para a Europa, autoabsolvidos, felizes com seus salários milionários. Para o povo brasileiro, ficarão os problemas e… as contas a pagar.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Aqui abaixo vai um elenco dos substantivos exacerbados com que o episódio foi descrito.

Interligne vertical 11cLástima? Lástima é conceder habeas corpus a cartola da Fifa, preso por ter-se locupletado. Lástima é não se dar conta de que, solto, o acusado pode destruir provas e forjar álibi.

Decadência? Decadência tem sofrido a indústria brasileira desde que nossos ingênuos dirigentes permitiram que a indústria chinesa estrangulasse, pouco a pouco, a nossa.

Desonra? Desonra é constatar que, em pleno século 21, nosso País ainda tem hordas de analfabetos.

Extermínio? Extermínio é o que continua sendo praticado contra nossas florestas em plena era de monitoramento em tempo real por satélite. Habeas corpus não vale em caso de queimadas.

Vergonha? Vergonha é figurar na lista mundial dos paraísos da prostituição barata ― característica de um povo indigente.

Destruição? Destruição é o que a disseminação das drogas causa na população ― jovens e velhos ― nas barbas de autoridades coniventes.

Fracasso? Fracasso é o de uma política de assentamentos que, decorridas décadas, ainda não logrou satisfazer às necessidades dos sem-terra.

Fiasco? Fiasco é o resultado pífio da Instrução Pública.

Desgraça? Desgraça é constatar que, cinco séculos após o descobrimento, ainda perdura o sistema de capitanias hereditárias no jogo político do País.

Baque? Baque é ver jogadores brasileiros milionários, «ídolos» de um país sem heróis, chorando feito criança que perdeu o brinquedo. Alguém já imaginou jogador alemão chorar porque perdeu um jogo?

Calamidade? Calamidade é o crônico abandono reservado à Saúde Pública, da qual depende a esmagadora maioria de brasileiros.

Horror? Horror é o que sentimos quando a Fifa ― uma multinacional de características mafiosas ― consegue, sem esforço, impor sua vontade sobre nossos representantes e mudar nossas leis.

Derrota? Derrotas sucessivas são as que tem sofrido a diplomacia brasileira, outrora respeitada. As más companhias têm influenciado nossos inexperientes (e inescrupulosos) medalhões.

Vexame? Vexame é constatar, ano após ano, que a classificação do Brasil no índice Pisa não dá sinais de melhora.

Estrago? Estrago sentimos nós quando temos notícia de que nenhuma universidade brasileira se classifica entre as duzentas melhores do mundo. Até a USP perdeu sua posição.

Prostração? Prostração é o que sentem os cidadãos bem-intencionados quando se dão conta de que o País vem sendo governado por marqueteiros baseados em slogans.

Abatimento? Abatimento sentimos nós, cidadãos de bem, obrigados a viver enjaulados enquanto bandidos passeiam livres, leves e soltos.

Falência? Falência econômica é o fim garantido, a continuarmos seguindo o receituário da contabilidade dita “criativa”, feita para mascarar realidade vergonhosa.

Flagelo? Flagelo é o tratamento que nossas autoridades maiores vêm impingindo a nossos irmãos nordestinos, ludibriados com a quimera da bifurcação do Rio São Francisco.

Desintegração? Desintegração é o retrato do Brasil atual ― desintegração avançada do tecido social.

Drama? Drama é a ingenuidade do bom povo brasileiro. Apoiados nessa candura, os figurões atuais têm ampla chance de se reeleger. A má gestão do país periga, assim, se eternizar.

Declínio? Declínio é o que se constata ao ouvir um estádio inteiro proferindo insultos de baixo calão. É ver o povo substituindo o voto pelo berro, numa demonstração de declínio civilizatório.

Bancarrota? Bancarrota é o fim do caminho. Segundo abalizados especialistas, a continuar insistindo no paradigma econômico perigoso em que nos metemos, perigamos virar uma Argentina ou, pior, uma Venezuela.

Desastre? Desastre é amestrar um povo e incentivá-lo a enxergar o futebol como valor máximo, como glória maior da nação. Esse vezo pode até funcionar em tempos de bem-aventurança, mas o risco de colapso repentino e brutal é imenso. Foi o que aconteceu.

Catástrofe? Catástrofe é o fato de um povo cordial mas anestesiado ter aprovado ― e aplaudido até ― a dilapidação do erário para garantir o sucesso efêmero do futebol nacional. Desperdício cometido em detrimento de gritantes prioridades nacionais relegadas ao fim da fila.

Ruína? Ruína é a situação do transporte urbano num país como o nosso, onde a maior parte da população vive ou trabalha em grandes cidades.

Malogro? Malogro é o resultado de políticas assistencialistas que não diminuíram o fosso entre os que têm mais e os que têm menos. Malogrados nos sentimos em saber que o Brasil permanece entre os países mais desiguais.

Desgosto? Desgosto é o que se sente ao constatar que futebol, em nosso país, passa à frente do trabalho e das responsabilidades individuais. A prova? Os feriados decretados nos dias de jogo.

Interligne 18c

Tragédia? Tragédia é ter certeza de que, passadas as eleições de outubro, teremos mais do mesmo. O risco é grande de que os que lá estão sejam reeleitos e se sintam livres para continuar sua obra de desconstrução do Brasil.

Cada cabeça, uma sentença ― 3

José Horta Manzano

Jornal peruano El Comercio
«Brasil fue campeón sin Pelé en 1962: ¿Podrá serlo sin Neymar?»
«O Brasil foi campeão sem Pelé em 1962. Poderá ser de novo sem Neymar?»

Interligne 28aJornal alemão Die Welt
«Brasilien muss vor uns zittern, nicht umgekehrt»
«O Brasil tem de tremer por causa de nós, não o contrário»

Interligne 28aJornal italiano Blasting News
«Brasile-Germania: i mostri del calcio mondiale»
«Brasil x Alemanha: os monstros do futebol mundial»

Interligne 28aJornal espanhol ABC
«Brasil-Colombia, el partido más visto desde la eliminación de España»
«Brasil x Colombia, o jogo mais visto desde a eliminação da Espanha»

Interligne 28aJornal alemão RP-Online
«Voodoo-Priester verflucht Deutschland»
«Feiticeiro vodu roga praga contra a Alemanha»

Interligne 28aJornal italiano La Repubblica
«Un Brasile che quasi ‘somiglia’ al… Brasile»
«Um Brasil que quase ‘parece’ com… o Brasil»

Interligne 28aJornal francês Sports
«Le Brésil a mal au coeur»
«O Brasil com dor no coração»

Interligne 28aJornal alemão T-Online
«Löws Plan geht auf – Nun gegen “ein gesamtes Land”»
«O plano de Löw funciona. Agora contra “um país inteiro”»

Interligne 28aDito popular francês
«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»
«Futebol é esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»

Zuniga

José Horta Manzano

Tempos houve, faz bem mais de 150 anos, em que os habitantes da acanhada vila de São Paulo de Piratininga mandavam seus escravos ou iam pessoalmente visitar o Zuniga. Faziam isso todos os dias. Eram outros tempos, era um mundo em que a luta diária pela existência não deixava margem para distrações. De resto, não havia estádios nem futebol.

Água encanada não existia nem em sonho. Para lavar roupa ou simplesmente para aprovisionar-se em água potável, os paulistanos se valiam de riachos, fontes, alagados ou tanques naturais. Era o caso do Tanque do Zuniga.

São Paulo, Tanque do Zuniga Mapa de 1847 do Eng° Civil Bresser

São Paulo, Tanque do Zuniga
Mapa de 1847 do Eng° Civil Bresser

Situado em terras de um certo Manuel Zuniga, era uma pequena lagoa natural. Escravas frequentavam o lugar onde enchiam seus cântaros e lavavam roupa. Ficava na região onde hoje está o Largo do Paiçandu, entre a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e o edifício do Correio Central.

São Paulo, Localização do Tanque do Zuniga Mapa atual do Google

São Paulo, Localização do Tanque do Zuniga
Mapa atual do Google

O tanque sumiu com a drenagem da região, entre 1850 e 1860. O nome Zuniga, que havia desaparecido da memória dos paulistanos, reaparece agora de repente, sob a forma de um desastrado jogador colombiano de futebol, autor de um verdadeiro atentado contra o astro maior da Seleção.

Zuniga é nome ibérico, originário do País Basco. No original, a pronúncia é proparoxítona ― Zúnhiga. Seja qual for a história do tanque, o nome há de ser lembrado como triste capítulo da história do futebol.

Exatamente como o nome do goleiro alemão Harald Schumacher, autor de uma violenta «voadora» que, na Copa de 1982 , demoliu o jogador francês Patrick Battiston, que teve de ser retirado desacordado. Ainda hoje, 32 anos depois do que ocorreu aquele dia em Sevilha, os franceses ainda lamentam o episódio que contribuiu para tirá-los da Copa.

Se você quiser saber ou relembrar como foi a “voadora” de 1982, clique aqui.

#Tevecopa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul° 2014

Teve Copa, sim, senhores. Contradizendo pessimistas, o megaevento fez sucesso estrondoso. Como escrevo antes das quartas de final, não sei se a Seleção terá avançado ou tropeçado. De todo modo, o que interessa mesmo são os efeitos colaterais e o legado. Nossas autoridades, quando aceitaram organizar o campeonato, tinham objetivo ambicioso e múltiplo.

No plano interno, o torneio congregaria duzentos milhões em ação num só brado: «pra frente, Brasil, salve a Seleção». Seria a prova maior da concórdia e do contentamento do povo brasileiro ― a consagração lógica e brilhante destes anos de obstinado marketing. A magnificência do espetáculo havia de satisfazer aos apetites mais exigentes. O crédito de simpatia do mandarinato só poderia crescer.

No plano externo, a fabulosa exposição midiática seria o vetor da afirmação do Brasil-potência. Alto e bom som, ecoaria no planeta a prova da inserção definitiva de nosso país no restrito clube do Primeiro Mundo. Membro de carimbo e carteirinha, faz favor!

Teve Copa, sim, senhores. E foi um sucesso! Por irrisórios 25 bilhões, temos agora uma dúzia de soberbos estádios de futebol, dois deles estrategicamente plantados na Amazônia Legal. É inacreditável relembrar que o País tinha chegado ao século 21 sem essas imprescindíveis «arenas». O espírito visionário de nossos dirigentes preencheu a lacuna.

Bandeira Brasil 1É verdade que a Copa poderia ter servido de incentivo ao aprendizado de línguas. Afinal, centenas de milhares de turistas forasteiros foram recebidos por um povo monoglota. É pena ninguém ter pensado em planejar esse detalhe. Tem nada, não. Fica pra próxima. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo.

É verdade que nosso padrão de Instrução Pública continua baixo. Nos grotões, o ensino é ministrado em condições africanas. Mas isso é ninharia. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo. Dispositivo impressionante foi preparado para cuidar da saúde de atletas. Equipes médicas paramentadas, macas padrão Fifa, helicópteros para emergências. Os esportistas socorridos encontraram atendimento de primeira linha, rápido, eficaz.

É verdade que nossos hospitais públicos ainda não atingiram tal grau de excelência. Mas isso é mixaria, problema antigo que pode esperar. Não dá pra resolver tudo ao mesmo tempo.

Até linhas aéreas se esforçaram. Não houve greve. Atrasos estiveram abaixo do habitual. Atletas boquiabertos cruzaram os céus sem um pio de reclamação.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

É verdade que o transporte urbano dos brasileiros comuns continua caótico, caro, raro, desconfortável, lento, inseguro. Diante da grandiosidade da organização da Copa, porém, isso é bagatela. Metrô? Pura babaquice.

Last but not least, a projeção do País no exterior. Nas muitas décadas que tenho vivido expatriado, posso garantir que jamais o Brasil tinha sido alvo de exposição midiática de tal magnitude.

Até nos rincões da Mongólia e da Birmânia, sabe-se hoje que nosso país tem estádios magníficos. Sabe-se também que nossa terra tem sol e calor. Muitos se arrependem de não ter planejado uma viagem ao Brasil durante a Copa. Agora é tarde.

Visitar o País depois? Visitar o quê? A novidade mostrada foram só os estádios. Fora isso, a exposição midiática serviu para reforçar conhecidos clichês. Repórteres repisaram os horrores de sempre: prisões superlotadas, violência urbana, desigualdade social, gente hospitalizada em corredores, prostituição, carestia. Coisa de frear os ímpetos do turista ajuizado.

Uma detalhe pouco divulgado: teve Copa, sim, mas não para todos os brasileiros. Cerca de um milhão de conterrâneos ainda não dispõem de energia elétrica. Como no século 19, vivem nas trevas ― no próprio e no figurado.

No exterior, muitos me perguntam por que a presidente do Brasil não assiste aos jogos nem mesmo quando chefes de Estado estrangeiros estão presentes. Nessas horas, desconverso.

Copa 14 logo 2Na conta de perdas e danos, o resultado da «Copa das Copas» terá sido neutro. O brasileiro agora tem estádios esplêndidos, mas as mazelas do dia a dia continuam como dantes. O resto do mundo encharcou-se de ouvir e ler sobre o Brasil, mas nossa imagem não mudou: Carnaval, malemolência, criminalidade, anarquia perduram no imaginário forasteiro. Nossa ineficiência ficou patente.

Perdemos excepcional ocasião de melhorar a vida dos habitantes e de soerguer a imagem do Brasil. Fica para quando der. E vamos torcer para que, na próxima Copa, a Fifa nos conceda os segundos que faltam para a execução decente do Hino Nacional. O povo brasileiro, desde já, agradece.

A hora da polícia

José Horta Manzano

Você sabia?

Copa Suiça 1Quem achou que, com esse título, o assunto de hoje é a violência policial enganou-se. Está frio. Está gelado.

A hora da polícia«l‘heure de police» ― é a expressão que se usa na Suíça para indicar a hora em que os estabelecimentos públicos têm de fechar suas portas. Falo especialmente de bares, restaurantes, boates.

Normas municipais regem o assunto. Que varia, portanto, de uma cidade a outra. Conforme o tipo de estabelecimento, a autorização não será necessariamente idêntica. A um bar noturno, por definição, será permitido fechar mais tarde que um restaurante.

Gooool! Trem suíço paramentado para a "Copa das copas"

Gooool!
Trem suíço paramentado para a “Copa das copas”

Neste país, não se brinca com horário. O que é de lei, é de lei. Os que têm autorização para funcionar até as 23 horas não podem dar uma folguinha e esticar até as 23h30. Onze da noite são onze da noite. E não se fala mais nisso. Em certos bares mais animados, é comum aparecerem na porta dois ou três policiais, na hora do fechamento, para assegurar que todos os clientes estão de saída. Daí a expressão «hora da polícia».

Em certas ocasiões especiais ― uma festa de aniversário comemorada num restaurante, por exemplo ― o dono e os convivas gostariam de esticar um pouco além. Nesses casos, é preciso telefonar à delegacia mais próxima e pedir autorização de funcionamento por mais uma hora. A licença terá de ser solicitada antes da hora de polícia. Não sai de graça, não. Uma taxa será cobrada pela autorização especial. A conta virá por correio.

Por questões de fuso horário, os jogos da «Copa das copas» estão caindo, na Europa, quando já é noite. A seleção suíça até que está se saindo bem desta vez. Pega a Argentina na terça-feira. Como a esperança é a última que morre, os suíços enxergam alguma possibilidade de vencer os hermanos. No futebol, tudo pode acontecer. Até mordida, dirão os mais maliciosos…

Copa Suiça 2As autoridades das cidades de Zurique e de Winterthur anunciaram hoje que, caso o milagre aconteça e a Suíça elimine a Argentina, haverá «noite livre», ou seja, a hora da polícia será cancelada. Por uma noite só, olhe lá. Quem quiser poderá festejar até o sol nascer.

Para decepção de seus habitantes, as cidades de Basileia, Lausanne, Berna e Genebra não previram nenhuma derrogação à regra. Hora é hora. Quem quiser esticar a festa terá de fazê-lo em casa mesmo.

As autoridades de Berna chegaram a argumentar que o jogo começa às 18 horas. Portanto, mesmo em caso de prorrogação e de decisão por pênaltis, haverá tempo suficiente para festejar antes da hora da polícia.

Tombo econômico

José Horta Manzano

Jogar futebol simplesmente como amador é uma graça. O esportista domingueiro faz o que lhe agrada, diverte-se, contribui para manter-se em boa forma física. No terceiro tempo, ainda reencontra os amigos para um bate-papo risonho. E a coisa termina ali. Tchau e até a semana que vem.

Ser jogador profissional são outros quinhentos. O prazer pode até continuar presente, mas não é mais o único motor. Salário, prêmios, patrocínios, disciplina, compromissos, contratos passam a fazer parte do universo do praticante.

Dizem as estatísticas que nunca tantas equipes sul-americanas tinham conseguido sobreviver às décimas-sextas de final. Deve ser verdade. Grandes países futebolísticos europeus já acolheram, de volta à pátria, sua cabisbaixa seleção nacional. Itália, Inglaterra e Espanha são os exemplos mais marcantes.

Camiseta da Seleção espanhola

Camiseta da Seleção espanhola

Muita gente depositava confiança na equipe da Espanha, país que ― ainda agora ― é o campeão mundial em vigor. Com efeito, a láurea vale por quatro anos, até que novo titular venha desbancar o antigo. A desclassificação temporã fez estragos.

O portal basco de informação El Correo relata que o fracasso da seleção espanhola no Brasil não foi somente desportivo. Os cachês exigidos pela Federação de Futebol daquele país terão de ser, doravante, bem mais modestos quando de partidas amistosas. Os patrocinadores estão considerando rever os contratos.

A empresa de artigos esportivos Adidas, que havia preparado uma batelada de camisetas rojas prevê encalhe de estoques. Fabricantes de acessórios ― bandeiras, bonés, bonequinhos, cornetas, buzinas, capinhas para retrovisores e que tais ― seguem o mesmo caminho.

Anunciantes que contavam rechear as transmissões com propaganda também engrossam o cortejo dos perdedores. O valor do minuto de publicidade televisiva caiu dramaticamente. Perdem também as emissoras de tevê.

Até o segmento de bares e restaurantes foram atingidos. Já disseram adeus aos milhões de euros que se esperava fossem gastos por hordas de festivos e paramentados torcedores reunidos em salões em frente a telões e telinhas.

A chamada Marca España, um símbolo de prestígio que inflacionava o valor de jogadores espanhóis e facilitava exportação de profissionais, constata agora a extensão da ruína.

Institutos especializados avaliam que a perda total atinja por volta de um bilhão de euros. Un batacazo, como dizem os castelhanos ― um baque e tanto!

Lista vermelha

José Horta Manzano

A Interpol é a maior organização policial do planeta. Conta com 190 países-membros. A rapidez com que as gentes se deslocam atualmente torna o papel da polícia internacional cada dia mais importante.

Mas para que um jogo seja bem jogado, é preciso que todos os participantes aceitem ― e cumpram ― as regras estabelecidas. Se ajoelhou, tem de rezar. Mas nem todos são devotos, como se verá a seguir.

O senhor Désiré Delano Bouterse, personagem de reputação sulfurosa mais conhecido como Desi Bouterse(*), é o atual mandachuva do Suriname (antiga Guiana Holandesa, país vizinho ao nosso). O mandarim aparece na lista vermelha de notificações da Interpol entre outros dez mil criminosos procurados.

Itaquera, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Itaquera, 12 jun° 2014 – Tribuna de honra
Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Seu crime? Tráfico de droga. Coisa da pesada: uma tonelada e meia de cocaína despachadas para a Holanda e para a Bélgica. Foi condenado à revelia pela Justiça holandesa faz alguns anos.

O homem não é nenhum principiante em caminhos tortuosos. Controla seu país com pulso firme, braço forte, dinheiro a rodo e o indispensável apoio das forças armadas. Frequenta as manchetes desde os anos 80. Já esteve à frente de dois golpes de Estado para tomar as rédeas do país. Presume-se que seja também assassino, embora ainda não tenha sido julgado por esse tipo de crime.

Para esse senhor, o tráfico internacional de droga parece ser negócio de família. Pelo mesmo crime, seu filho foi preso no ano passado no Panamá e extraditado para os EUA. Resultado disso tudo: o senhor Bouterse está obrigado a viver enclausurado em seu pequeno e pobre país, certo?

Não, distinto leitor, não é bem assim. Pessoas influentes que apareçam na lista vermelha da Interpol podem até viajar ao exterior, desde que as autoridades do país de destino garantam que não vão prendê-lo.

Quanto a outros países, não saberia dizer. Mas nosso Brasil, pisando as regras de convivência civilizada entre nações, passa por cima dessas ninharias e acolhe o medalhão procurado pela polícia. Não só acolhe, como lhe reserva um lugar na tribuna de honra ao lado da presidente da República.

Itaquerão, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Itaquerão, 12 jun° 2014
Na tribuna de honra, Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Na foto acima, tirada quando do jogo de abertura da «Copa das copas», podem-se identificar personalidades cuja presença se justifica: a presidente e o vice-presidente do Brasil, o presidente do Equador, a presidente do Chile, o presidente do Senado Federal, o presidente da Fifa e o da União Europeia de Futebol, o Secretário-Geral da ONU. Gente graúda, de quem se pode gostar ou não, mas que, ao que se saiba, não aparece em lista oficial de bandidos procurados.

No meio de toda essa gente boa, está o senhor Desi Bouterse. Se veio, é porque lhe garantiram que não seria incomodado durante sua estada em terra tupiniquim.

Já se sabe que nosso governo costuma lançar olhar benévolo a criminosos. Arriscar-se, contudo, a permitir que um procurado pela Interpol frequente a tribuna VIP, tome assento a dois metros da presidente da República e seja visto por bilhões de espectadores é temeridade.

Se entendi bem, a «Copa das copas» tinha sido organizada para mostrar ao mundo as grandezas do Brasil, não suas baixezas.

Interligne 18b(*) Pronunciado à holandesa, o nome fica assim: Báuterse.