Tirar a carne

José Horta Manzano

As crenças antigas, que hoje costumamos chamar de pagãs, eram bem menos restritivas que as nossas. Penso na multiplicidade de deuses e deusas reverenciados por gregos e romanos. Em meio a tanta divindade, havia os deuses bonzinhos, os severos, os camaradas, os bem-comportados, os excessivos. Cada fiel incensava aqueles que lhe parecessem mais chegados. E tudo bem.

Na Europa, a implantação do cristianismo marcou o fim dessa época de folguedos despreocupados. Uma avalanche de sisudez começou já nos tempos de Santo Agostinho, faz quase dois milênios, para atravessar a Idade Média e aterrissar na modernidade de Trump e doutora Damares. Chegamos a uma civilização na qual tudo o que é bom e agradável é proibido. De sexo a sorvete de chocolate, de álcool a provolone à milanesa. Hoje em dia, se não for proibido por lei, será condenado pela Igreja ou, em última instância, vetado pelo médico. Não há como escapar.

Os romanos festejavam sua Saturnália sem se preocupar com o que viria no dia seguinte. Depois que o cristianismo se tornou fé oficial, a coisa mudou. Carnaval, válvula de escape espremida entre Advento e Páscoa, é curto período de relaxamento consentido. Consentido, sim, mas de olho no dia seguinte. Essa sensação de que ‘a festa vai acabar’ está embutida no próprio nome destes dias de folia. Quer ver?

Se etimólogos não são unânimes em apontar a com segurança a origem do vocábulo Carnaval, grande maioria vê nele uma advertência lançada ao distinto público pra que ninguém se esqueça de que a festa é curta e a punição vem logo em seguida. O aviso é: comam carne agora, porque depois vai ser proibido. De fato, é forte a probabilidade de o moto carnem levare ou carnem levamen (= tirar a carne) estar na origem da palavra Carnaval. Como um desmancha-prazeres, a fórmula já vai avisando que a festa é curta e que depois vem ferro.

É que, depois do Carnaval, entra a Quaresma, quarenta dias coalhados de jejum e de abstinência de carne. A confirmar essa etimologia, está o nome que os alemães dão à festa: Fastnacht/Fasnacht, palavra cujo primeiro elemento vem do verbo fasten (= jejuar). Outra confirmação, incontestável, aparece no nome catalão do Carnaval: carnestoltes (= carnes removidas).

Bom Carnaval!

Sentar perto e sentar longe

José Horta Manzano

O presidente que, há duas semanas, assumiu o mandato confiado pelo povo brasileiro será, pelos próximos quatro anos, um residente do Palácio da Alvorada. A não ser que prefira viver na Granja do Torto. Ou, caso anseie por maior destacamento do bem público, opte por morar em casa própria ‒ ou em apartamento próprio, o que vem ao mesmo.

Sedente no trono e motivado pela obsidente catástrofe causada pelas gestões precedentes, torce pra conseguir apoio parlamentar para as reformas que pretende implementar. Faz votos pra que, nas próprias tropas governistas, não apareça nenhum dissidente.

Observação etimológica
As palavras grifadas em azul pertencem todas à mesma família. São todas aparentadas aos verbos latinos sĕdēre «estar sentado» e sīdĕre «pôr-se a sentar, fazer o movimento de sentar-se».

Sentido original das palavras grifadas

  • presidente: aquele que se senta antes dos outros ou à frente dos demais
  • residente: aquele que permanece sentado em algum lugar
  • sedente: aquele que está sentado
  • obsidente: aquele ou aquilo que causa obsessão
  • dissidente: aquele que, por discordar, se senta afastado dos demais

Extorsão ‒ bis

Texto publicado originalmente em 12 maio 2016

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo estão na mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016 A moça não foi extorquida. Informações foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência)do telefone dela. Em seguida, o pirata tentou chantageá-la.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016
Essa notícia fez furor cerca de três anos atrás. Erraram todos os jornais que consultei. A moça não foi extorquida. Informações é que foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência) do telefone dela.

O conceito envolve sempre a violência, explícita ou velada. Extorquir é obter alguma coisa de alguém por meio violento ou ameaçador. Portanto, não se extorque uma pessoa, extorque-se algo dessa pessoa.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa formação. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Em resumo, a coisa é que é extorquida, não a pessoa. Extorquir equivale a arrancar com violência. Portanto, arrancar algo de alguém.

Collegium

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 dezembro 2018.

A palavra colégio, relacionada ao latim collegium, é formada pela preposição cum (com) e pelo verbo leggere (colher). Vale dizer: colher junto. Na acepção original, os integrantes dum colégio se reúnem para colher juntos o que vieram plantar. O colégio eleitoral, por exemplo, colhe o sentimento de cada integrante e apresenta resultado unificado. Toda instituição colegiada é formada por membros com poderes iguais que, após deliberação, dão decisão única, unívoca e uniforme.

Excelente exemplo de colégio eficiente, em função há dois séculos, é a Presidência suíça. A chefia do Executivo não é confiada a um único indivíduo, mas a sete presidentes, todos com o mesmo poder. Reúnem-se a portas fechadas e dão despacho unificado. Jamais alguém saberá quais membros estiveram a favor ou contra cada decisão. Jamais será divulgado se o voto foi unânime ou disputado. Publica-se a decisão do colegiado. Ponto e basta.

Em dezembro de 1941, no dia seguinte ao do ataque desfechado pelo Japão contra a base militar do Havaí, o presidente Franklin D. Roosevelt pronunciou discurso no Congresso americano. Na fala, ele declarou que aquela seria «a date which will live in infamy» ‒ uma data marcada pela infâmia. A citação me passou pela cabeça outro dia, quando doutor Marco Aurélio, ministro do STF, de uma canetada, causou comoção nacional. Naquele dia, em ato solitário, ele mandou soltar os encarcerados que ainda não tivessem esgotado os recursos processuais ‒ um total estimado em 160 mil indivíduos. Um ucasse desajuizado!

Hoje, passada a exacerbação de sentimentos provocada pelo magistrado, não vale a pena lançar lenha à fogueira. É mais útil especular sobre a origem do mal e farejar o melhor caminho pra corrigir a distorção. Sim, porque distorção há. O STF é, por definição, tribunal colegiado. As normas da colegialidade ensinam que decisões serão sempre tomadas pelo conjunto dos membros, jamais por um só. Deliberações públicas e, pior ainda, transmitidas ao vivo são incompatíveis com a colegialidade. Propiciam a quebra de coesão e favorecem a eclosão da vaidade.

Ah, a vaidade!… É irmã gêmea do orgulho e mãe de muitos defeitos. Traço inerente ao ser humano, afeta-nos a todos, em maior ou menor grau. Na vida do mortal comum, ataques de vaidade explícita não fazem mais que azedar o entorno do vaidoso. Já quando o soberbo exerce função pública de destaque, é mais grave. Imodéstia descontrolada pode extravasar a banheira do poderoso e alagar o país inteiro. Isso ocorre a cada vez que um magistrado é acometido por xilique de prima-dona ferida.

Por que razão esses sentimentos se exacerbam no Judiciário, enquanto se mantêm sob controle nos outros Poderes? A resposta é clara: integrantes do Executivo e do Legislativo são eleitos por mandato limitado no tempo. Se se deixarem levar por paixões em desacordo com o comportamento que deles se espera, correm o risco de ser sancionados na próxima eleição. Se ministros do Tribunal Maior se permitem a impudência de atropelar jurisprudência e bom senso, é porque sabem que nada têm a temer. O caráter vitalício do cargo é perfeita blindagem contra retaliações. Inalvejáveis, Suas Excelências permanecem longe do alcance da turba, por mais enfurecida que esteja. Que se lhes manche a biografia, não parece ser a preocupação maior dos magistrados. Outros interesses, à evidência, passam adiante.

Que fazer pra refrear o ímpeto dos togados-mores e pra blindar o país contra sacolejos? O mal se extinguirá no momento em que o cargo de juiz supremo deixar de ser vitalício. Num próximo e bem-vindo reajuste do arcabouço institucional, essa questão deveria ser levantada. É de crer que o será. Como ocorre em outras repúblicas, mandato não vitalício (e renovável) deveria ser outorgado a ministros do STF. Será de quatro, cinco, seis anos ‒ melhor menos que mais.

A designação dos togados tampouco deveria ser atribuição solitária do presidente, ainda que sacramentada por sabatina parlamentar pro forma. Um colégio de grandes eleitores ‒ olhe o conceito aí de novo! ‒ deverá ser criado para o fim específico de escolher novos ministros. Será formado por parlamentares e por personalidades de reconhecida erudição. Vitaliciedade e decisões monocráticas caem bem em monarquias, regime que o golpe de 1889 aboliu.

Prevaricação grosseira

José Horta Manzano

O dicionário é claro ao indicar o campo semântico coberto pelo verbo prevaricar. Todas as accepções carregam valor negativo. As principais são:

  • deixar de cumprir o dever por interesse ou má-fé
  • cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado
  • trair a confiança

Etimologicamente, prevaricar ‒ que nos chegou direto do latim prævaricare ‒ é composto de præ = antes e de varicari de varus = o que sai da linha reta, ou seja, torto. Alguns estudiosos enxergam parentesco com o termo curvo.

O ato cometido pelo plantonista do TRF4, que deu origem a tremenda balbúrdia institucional domingo passado, se enquadra perfeitamente em todas as accepções do verbo. Imbuído de indisfarçável má-fé, o magistrado desviou-se da linha reta, cometeu abuso de poder, traiu a confiança de que era depositário e causou prejuízo ao Estado. Se isso não for prevaricação, o que será?

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

O estagiário que redigiu a manchete se impressionou com o termo. Talvez por desconhecer-lhe o significado, tascou aspas em volta. É maneira de isolar o desconhecido, pra evitar ser por ele engolido. Palavra estranha pode até morder! Melhor tomar cuidado.

Falando sério, a procuradora-geral pede que o plantonista seja investigado por ter prevaricado. Sem aspas. Aquele que comete abuso de poder e causa dano ao Estado não tem perdão.

Os primeiros candidatos

José Horta Manzano

Uma estação de rádio de São Paulo que costumo escutar dispôs-se a sabatinar os (pré-)candidatos à presidência da República. Esta semana, começou com dois deles. Concedeu uma hora a cada um, para responder à perguntas que lhe faziam três ou quatro entrevistadores no estúdio.

Pelo desempenho dos candidatos, podemos tocar a sirene, que temos aí desastre anunciado. E com data marcada para começar: primeiro de janeiro do ano que vem.

Os dois primeiros entrevistados, doutores Bolsonaro e Boulos, deixaram uma triste impressão de despreparo. Pior, não demonstraram capacidade nem abertura de espírito propensa ao aprendizado.

Jair Bolsonaro
by João Bosco Jacó de Azevedo (1961-), desenhista paraense

Doutor Bolsonaro parece boa gente, mas isso não basta pra ser bom presidente. O homem não tem a menor noção das grandes linhas mestras que alicerçam o país, a começar pela economia. Falta-lhe jogo de cintura. Qualquer entrevistador, por mais primitivo que seja, consegue encurralá-lo e deixá-lo embaraçado e sem palavras.

Embora tenha abandonado a carreira há mais de 30 anos, a cada dez palavras ele repete que é militar, o que deve lhe parecer de capital importância. Acredita que os complexos problemas do país hão de se resolver num estalar de dedos ‒ por pura magia ou pela força do pensamento ‒ assim que ele assumir a presidência. Está mais pra iluminado do que pra dirigente sensato. Com ele na presidência, daríamos um pulo no escuro.

Guilherme Boulos

Doutor Boulos é muito diferente. Tem um lustro de cultura que lhe confere certa fluência de linguagem. Articula e exprime corretamente as ideias. Infelizmente, essa faculdade não é de grande valia. O homem tem monomania. Embora jovem, tem os pés fincados nos anos 1960.

Com ele na presidência, o caminho do país seria convulso: enfrentamentos, luta de classes, restrições à propriedade privada, presença invadente do Estado na vida das gentes. Uma cartilha ultrapassada, que se mostrou inadequada e que faleceu com o desmoronamento da União Soviética, trinta anos atrás. A concretizar as ideias do moço, não se vislumbra um Brasil melhor.

Não conheço ainda o programa dos demais (pré-)candidatos. É bom que seja melhor do que o desses dois, senão, o Brasil está bem-arrumado.

Bolsonaro
O sobrenome Bolsonaro é provavelmente transcrição errônea do original Bolzonaro. Na Itália, menos de cem famílias têm esse raro nome. A hipótese mais provável é que derive de Bolzano Vicentino, um vilarejo situado a poucos quilômetros de Vicenza, região do Vêneto, Itália. O patriarca que deu nome à estirpe devia ser originário desse burgo.

Boulos
Boulos é a forma árabe do nome Paulo, usado aqui como sobrenome. A transliteração varia conforme a língua de destino: Bulus, Bulos, Boolos, Boulus, Boulos são algumas das variantes. Dado que a língua árabe não conta com o som P, ele vem sempre transcrito como B. Boulos é a transcrição francesa. Deve ser pronunciado «Bulos». Esse nome de família, usado no Oriente Médio, denota origem cristã.

Os trancos e os barrancos

José Horta Manzano

A etimologia é ciência fascinante e curiosa. Fascinante porque acompanha a evolução de palavras ao longo de um percurso, às vezes tortuoso, que pode remontar a passado longínquo. Curiosa porque, quando falta comprovação escrita, dá margem a suposições por vezes ousadas.

Quando um termo encontra equivalente em latim, não há muito que discutir. Já quando a palavra escapa ao léxico latino e ao germânico, a falta de documentos dificulta o estudo. Volta e meia, aparece nova explicação assaz fantasiosa que, por falta de coisa melhor, acaba aceita como verdade bíblica.

Sem querer contradizer ninguém, relato o que li estes dias e que me deixou com um pé atrás. Um homem pra lá de erudito, doutor em Filologia Semítica, tornou-se membro, estes dias, da respeitável RAE ‒ Real Academia Espanhola.

O filólogo apresentou nova explicação para a origem de algumas expressões da língua espanhola. Nenhuma delas tem correspondente em português, com exceção de uma: a trancas y barrancas, a forma castelhana de nossa conhecida aos trancos e barrancos.

Qualquer dicionário informa que tanto tranco quanto barranco são consideradas pré-romanas, ou seja, vozes que já faziam parte da língua antes da chegada das tropas romanas à Península Ibérica. O acadêmico garante que a expressão nada tem a ver com trancos e muito menos com barrancos. Segundo ele, vem do árabe atrakkán barrámka que significa “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”.

Não falo árabe. Mas tiro o chapéu para o excepcional espírito sintético de uma língua que, com apenas duas palavras, consegue dizer “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”. Parabéns!

Trabalho: dureza, mas nem tanto

José Horta Manzano

Trabalho é coisa antiga. Segundo a Bíblia, tornou-se obrigatório desde o dia em que o homem foi expulso do paraíso. A partir de então, cada um teve de transpirar para conseguir o pão de cada dia. Há quem se alimente do trabalho alheio, assaltando o erário, por exemplo, possibilidade não prevista na Bíblia. Não é disso que vamos tratar hoje, mas da origem da palavra.

Com pequenas diferenças ligadas ao espírito de cada língua, a palavra aparece em português (=trabalho), em castelhano (=trabajo), em catalão (=treball), em galego (=traballo), em francês (=travail). Em todos esses idiomas, o termo é usado com o mesmo significado que lhe atribuímos.

É curioso a raiz não existir em latim. Conforme o caso, os antigos romanos podiam optar entre opus e labor. Aliás, ambas as vozes deram filhotes em português, todos ligados à noção de trabalho. Opus deu operação, operário, operador. Labor desembocou em lavoura, laboratório, lavra, elaboração.

Entre os estudiosos das línguas, há uma categoria que encaro com certa reserva: são os etimologistas, aqueles que buscam a origem das palavras e sua evolução. Não digo que se deva deles desdenhar. Operam com paciência e afinco beneditinos. No entanto, é compreensível que, decepcionados quando não encontram a origem de um termo, tentem forçar um pouco a barra. Certos étimos, apresentados como verdade absoluta, me parecem fruto de imaginação pra lá de fértil. É o caso de trabalho.

O fato de que o termo trabalho, embora difundido nas línguas neolatinas, não apareça no latim, deixa intrigados os etimologistas. Parte deles, obcecados pela busca de origem latina, opta por atribui-la a um certo tripalium, instrumento de tortura constituído de três paus ao quais se atava o indivíduo a ser chicoteado.

Ora, não me parece sustentável a hipótese de os habitantes das províncias romanas não disporem, antes da chegada dos romanos, de palavra para dizer trabalho. Mais intrigante ainda é o fato de não terem adotado opus nem labor, preferindo tripalium ‒ o nome do instrumento de punição. Acreditar é difícil. Por minha parte, reluto em aceitar a hipótese de o trabalho ter sido considerado análogo à tortura por todos os povos, desde as fronteiras germânicas até as falésias lusitanas.

Há etimologistas que, fugindo à corrente dominante, atribuem a origem da palavra à raiz trabs (trava ou trave), o que me parece pouco provável. Outros ligam o termo ao celta trafed (trabalho), hipótese bem mais plausível. Há, ainda, os que veem na forma trabalho uma evolução do gótico trawla (ficar cansado), ideia que tampouco deve ser descartada.

Seja como for, navegamos em densa neblina. Ninguém pode afirmar, com cem por cento de certeza, que nosso trabalho derive desta ou daquela raiz. Trabalho nem sempre é um prazer, é verdade, mas assimilá-lo a instrumento de tortura, convenhamos, já é exagero.

Essas palavras que não conhecemos

José Horta Manzano

Você sabia?

Com grande frequência utilizamos palavras cujo significado não conhecemos. «Como assim?» ‒ perguntará, um tanto indignado, o distinto leitor. «Eu não uso palavras que não conheço!»

Pois eu não teria tanta certeza. Volta e meia me surpreendo fazendo isso. Como sou curioso e não gosto de deixar ponto sem nó, costumo tomar o tempo de ir ao dicionário conferir. Vez por outra, o resultado é um espanto. A gente se dá conta de que não tinha a mínima ideia do significado do termo utilizado.

Vou tratar hoje de duas expressões bastante comuns, daquelas que ouvimos com grande frequência. A primeira é «ledo engano» e a segunda, «reputação ilibada». Você, que já há de ter pronunciado essas palavras, talvez não conheça o exato significado dos adjetivos ledo e ilibado.

Ledo
Descende da forma latina lætus. Linguistas ainda não conseguiram se pôr de acordo quanto à origem da raiz. Em todo caso, chegou ao latim com o significado de alegre, exultante, vivaz. Um cognato sobrevive em italiano moderno: lieto, usado para significar alegre. A forma portuguesa ledo ‒ atualmente usada unicamente para qualificar engano ‒ é de mesma natureza que a latina e conserva o mesmo significado. Portanto, «ledo engano» é «engano alegre».

Curioso, não? Talvez provenha da ideia de que aquele que se engana sem se dar conta do erro continua alegre, não fica chateado. A gente costuma dizer «bobo alegre», pois não?

Ilibado
Em nove a cada dez aparições, o adjetivo ilibado qualifica a palavra reputação. Mas o que significa mesmo? Pois também essa raiz aparece no latim. Libatus é o particípio passado do verbo libare, que significa espargir, derramar uma parte do vinho (ou outra bebida alcoólica) depois de ter provado. É um ritual semelhante ao daquele bocadinho de pinga que, antes de beber, se derrama «pro santo». Em rituais expiatórios da Roma antiga, fazia-se o contrário: experimentava-se antes e derramava-se o resto.

Com o passar do tempo, o significado do verbo libare evoluiu. Em vez de designar o ato de derramar, passou a dar nome ao ato de experimentar, degustar, ter prazer em saborear. A palavra libido é parente próxima. Portanto, dizer que algo ou alguém é ilibado significa que não foi tocado, que é puro, limpo, inteiro, não contaminado.

Entre os integrantes de nosso andar de cima, está cada dia mais difícil apontar um representante que responda a esses critérios.

O réveillon ‒ 2

José Horta Manzano

O verbo latino vigilo/vigilare significa estar desperto ‒ por oposição a estar dormindo. Temos, em nossa língua, diversas palavras correlatas: vigiar, vigia, vigília, velório. Todas guardam senso de permanecer acordado.

Na Idade Média, quando não havia luz artificial, ia-se dormir com as galinhas e acordava-se com o galo, como dizia minha avó. Logo depois de escurecer, por falta do que fazer, todos iam pra cama. A véspera de Natal marcava uma exceção: era a única noite do ano em que todos ficavam acordados até mais tarde pra poder assistir à missa do galo.

by Jan Steen (1626-1679), artista flamengo

Na volta da igreja, o estômago já estava começando a roncar. Tomavam então uma refeição fora da hora habitual. Os franceses chamavam a esse costume «faire réveillon»fazer réveillon, ou seja, ficar acordado (veiller) além da hora normal.

Até o século 19, «réveillon» se referia unicamente à véspera do Natal. Em épocas mais recentes, a denominação tende a estender-se também à comemoração do ano-novo, outra ocasião em que se comemora de véspera, todos acordados e enchendo a pança.

Escreve-se réveillon, com acento no primeiro é. Pronuncia-se rêvêiôn. O estagiário que escreveu a chamada ouviu cantar o galo mas não sabia onde. Tinha certeza de que a palavra levava acento, mas hesitava entre as vogais. Com preguiça de consultar o dicionário, tascou o dito em cima do ó. Marcou bobeira. A palavra ficou com um ar assim meio espanhol ‒ estrangeiro, sem dúvida, mas longe do original.

Lapsus linguæ ‒ 2

José Horta Manzano

O jogo de dados fascina o homem desde tempos pré-históricos. Antes que a evolução técnica permitisse o fabrico de roletas e cartas de baralho, ossinhos de boi ou de carneiro serviam de dado primitivo. O osso mais utilizado era o tálus, situado no pé, entre a tíbia e o calcâneo. É dotado de seis faces irregulares.

Apesar de reprimido pela lei, o jogo de dados era popular em Roma. Ao ser lançado, o dado naturalmente caía. A esse movimento, deu-se o nome de «cadentia» ‒ a queda. Com o passar dos séculos, o termo evoluiu até assumir a forma «chance» em francês. Além de evoluir foneticamente, especializou-se em indicar um bom lance, aquele que trazia sorte. A palavra chance, que se espalhou tal e qual pelas línguas europeias, tem sempre sentido positivo.

Tálus (astrágalos) de animal, usados como dados primitivos

Os linguistas não estão de acordo quanto à origem da palavra que indica má sorte. Boa parte deles acredita que «risco» e «arriscar» sejam descendentes do verbo latino resecare (cortar). Esse verbo tem filhotes em nossa língua. Temos a palavra segar (=ceifar), raramente usada. Mais comuns são segmento e segregar, ambos com implícito sentido de cortar parte de um todo. Seja como for, a palavra «risco» carrega sentido negativo.

O brasileiro, otimista por natureza, nem sempre respeita essa oposição entre chance e risco. Dá nítida preferência à primeira palavra, ainda que a perspectiva seja tenebrosa. Não é incomum ouvir frases do tipo «Fulano tem nove chances em dez de ficar paraplégico» ou «Aumentam as chances de crise econômica no ano que vem». Fica esquisito, não? O uso de «risco» seria mais adequado.

O tribunal colegiado encarregado de julgar o recurso interposto pelo Lula contra a condenação a quase dez anos de cadeia anunciou que publicará o veredicto dia 24 de janeiro. Ao dar a notícia, a imprensa informou quase unanimemente que «tendo em vista o aumento das chances de condenação do Lula, o PT estuda um plano B para as eleições presidenciais».

Quero crer que os jornalistas estivessem de boa-fé. Ou não, quem sabe? Fato é que a confirmação da condenação do demiurgo ‒ fato que o tornaria inelegível ‒ pode ser um azar danado para o indigitado, mas é uma chance fabulosa para o país. Vale até assoprar os dados antes de os lançar.

Nota
Lapsus linguæ é erro cometido involuntariamente ao falar, especialmente ao usar uma palavra por outra.

Estado, nação e pátria

José Horta Manzano

Certos conceitos são difíceis de exprimir em poucas palavras. Para um ouvido desatento, dá no mesmo que se diga o Estado brasileiro, a nação brasileira ou a pátria brasileira. Essa coleção de termos semelhantes é muito útil num texto, para evitar repetir quinhentas vezes a mesma palavra. No entanto, uma reflexão mais aprofundada vai revelar que o significado de cada uma delas não é exatamente o mesmo.

Nação é comunidade homogênea, cujos membros, em quase totalidade, falam a mesma língua, têm a mesma origem étnica e tradições em comum. Uma nação não constitui necessariamente um Estado. Aliás, raríssimos são os Estados que reúnem todas essas características. Assim, de chofre, me ocorrem dois exemplos em que Estado e nação coincidem: Dinamarca e Portugal. São países com uniformidade linguística, religiosa e, até certo ponto, étnica. Os membros que escapam à homogeneidade são minoria estatisticamente diminuta.

Curdistão ‒ nação que se espalha pelo território de quatro Estados

Estado é conceito político, um território autônomo e independente, com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente. As fronteiras, em geral, não correspondem às de uma só nação. Ao redor do planeta, a imensa maioria dos Estados se enquadra nessa categoria. Os exemplos são numerosos. Espanha, Reino Unido, Itália, Canadá, China, Índia, praticamente todos os países africanos englobam diferentes etnias, línguas, religiões e tradições. O que caracteriza um Estado é a centralização da administração dos habitantes. Leis, regulamentos, política externa, instituições valem (em princípio) para todos.

Pátria é conceito mais poético do que político, linguístico, religioso ou étnico. Procede, antes, de livre escolha individual. Assim como Fernando Pessoa dizia que sua pátria era a língua portuguesa, é permitido a cada um orientar o próprio lirismo para onde bem entender. A pátria de um indivíduo pode coincidir com o país onde nasceu. Pode também ser o lugar onde cresceu. Pode ainda ser a região em que se sente em casa. Assim como é impossível fazer beber um burro que não tem sede, não se pode impor sentimento patriótico a ninguém.

Copenhague, Dinamarca

Pra ser muito sincero, minha intenção, ao iniciar este artigo, era falar sobre dupla cidadania. Vai ficar pra uma outra vez. Não gosto de cansar o distinto leitor com muito blá-blá-blá de uma tacada só. Assim como não aprecio ler textos muito longos, reluto em escrever artigos muito compridos. Menos é mais ‒ valioso adágio!(*)

Nota etimológica
Adagio ‒ que vale ditado, sentença, máxima ‒ é expressão latina que se mantém tal e qual no italiano atual. É interessante notar que filhotes da raiz agium estão presentes em numerosas línguas com significado ligeiramente diferente.

Em francês, aise traz noção de conforto, de descontração. Em italiano, agio pode carregar também a ideia de lentidão, vagareza. Ease, o correspondente em língua inglesa, permitiu a formação do adjetivo easy, com sentido de facilidade.

Poucos sabem que temos, em nossa língua, um descendente da família. É azo, termo pouco utilizado. Significa oportunidade, ensejo, motivo.
Ex: O atraso do voo deu azo a que ele desistisse de viajar.

Diabos e patetas

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, a função de tribunais superiores era diferente de hoje. Explico melhor. A função, na verdade, sempre foi a mesma. O que mudou foi a natureza das causas. Disputas por bens do falecido, processos por crime de sangue, pedidos de ressarcimento por ofensa continuam subindo até a última instância. A diferença é que causas novas e nunca antes vistas nessepaiz inundam os egrégios(1) tribunais e ofuscam as demais. Será sinal dos tempos estranhos que vivemos.

Para o cidadão normal, pouco enfronhado no dia a dia de tribunais maiores, fica hoje a impressão de que lá estão para julgar trambiqueiros, trapaceiros, ladrões de dinheiro público. A função dos juizes consiste em determinar quem trapaceou menos. Como se sabe, corruptos não costumam extrair nota fiscal de favores recebidos. Corruptores, por seu lado, fogem de documentos como o cidadão medieval fugia da peste.

Sobram delações, indícios, desconfianças, acusações, denúncias. Provas? Dificilmente. Cabe, então, a cada integrante do tribunal votar de acordo com sua íntima convicção ‒ ou seus legítimos interesses, que ninguém é de ferro.

Excetuadas (raríssimas) exceções, juízes não costumam se considerar impedidos. Há ministros que consideram normal participar do julgamento do antigo chefe. Outros há que dão apreciação sobre presumidos malfeitos do próprio governo do qual fizeram parte. Há ainda os que não se envergonham de julgar acusados cuja equipe de defesa inclui parentes ou amigos chegados dele (juiz).

Ao final, resta um sabor amargo na boca do cidadão impotente. Aquele teatro de vaidades, repleto de discursos grandiloquentes, gestos ensaiados e frases estudadas em casa se assemelha a uma ampla ação entre amigos. Os amigos são todos os que estão no palco, acusados, acusadores e julgadores. Ao distinto público, cabe o papel bovino de pateta(2).

Quarenta e tantos anos atrás, o então general presidente sofreu ataque cerebral e foi afastado do governo. Foi substituído por um trio de fardados que logo recebeu do povo o (pouco lisonjeiro) epíteto de «os três patetas». Na época, eram só três. Hoje, já passamos de duzentos milhões.

Nota etimológica
(1) Egrégio é aquele ou aquilo que se destaca da multidão, do rebanho, do conjunto de iguais. A palavra é formada pela partícula excludente e- e do radical grege (=grei).

(2) Pateta é termo que nos chegou através do castelhano. Deriva de pata (a pata de um animal). Naquela língua, diz-se pateta (ê) daquele que tem um defeito nos pés. Usam o termo também para designar o diabo. Já na nossa língua, o diabo são eles. Nós, os patetas, não passamos de parvos, palermas, ignorantes e paspalhos. Nos dialetos do Algarve, patego (ê) designa, até hoje, indivíduo tosco. É provável alusão ao fato de os rústicos de antigamente andarem descalços.

Gravata

José Horta Manzano

Não terá escapado a ninguém o fato de Luiz Inácio da Silva não se ter apresentado ao juiz Moro vestindo camisa vermelha. Diferentemente do figurino habitual com que se paramenta quando fala ao povão, o antigo presidente compareceu engravatado e trajando terno escuro. Coisa fina mas um tanto inútil, dado que o hábito não costuma fazer o monge. Roupa chique não consegue apagar o bem feito nem o mal cometido.

Curitiba, 10 maio 2017

Observei a gravata que ornava o colarinho de nosso guia. Pareceu-me familiar. Onde é mesmo que eu já tinha visto o adereço? Ah, matei! Foi em outubro de 2009, numa cerimônia em Copenhagen (Dinamarca). Naquele dia, diante de uma plateia entusiástica, o presidente do Comitê Olímpico Internacional tirava do chapéu o papelzinho com o nome do Rio de Janeiro. Estava designada a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. As porteiras estavam abertas para o programado estouro da boiada.

Copenhagen, out° 2009
Por que estarão todos tão eufóricos? Será a gravata?

A populosa delegação brasileira, encabeçada pelo Lula, incluía o notório Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman, João Havelange, Henrique Meirelles, o Pelé, esportistas, figurões, jornalistas. Uma particularidade: usavam todos gravata igual ‒ uma boniteza. Listrada de verde, amarelo e azul, ela fazia alusão às cores nacionais. Nosso guia há de ter-se encantado com ela, tanto que desde então, em ocasiões que lhe parecem solenes, costuma trazê-la em volta do colarinho. Eu imagino que, após oito anos de uso, já há de estar meio puída. Combina com o personagem.(*)

Copenhagen, out° 2009

Nota etimológica
Não se sabe quem terá sido o primeiro a ter a ideia. O fato é que, desde a Antiguidade, certas corporações costumam enrolar uma fita ou um pedaço de tecido no pescoço como sinal distintivo.

Copenhagen, out° 2009

Na sua forma moderna, a generalização da gravata como adereço masculino usual e até obrigatório é atribuída ao uniforme usado pelos soldados croatas contratados por Luís 13, rei da França, na década de 1630. O exército francês, considerando que a moda era elegante, acabou adotando o adereço. E deu-lhe o nome de cravate, adaptação da palavra «hrvat», que designa o cidadão croata.

A partir do francês, o termo passou a outras línguas europeias: Krawatte (alemão), corbata (espanhol), cravatta (italiano), kravat (turco). Entre nós, virou gravata. Nova ou puída, tanto faz.

(*) Em Curitiba, quem usa gravata vermelha é justamente… o juiz. Reparem.

Moustache

José Horta Manzano

La moustache réglementaire
Une grande faveur vient d’être accordée aux officiers britanniques: la moustache, depuis plus d’un demi-siècle, était réglementaire dans l’armée de Terre. Un arrêté du ministre de la guerre vient de rapporter l’ordonnance qui l’imposait. Cette ordonnance désespérait les jeunes officiers, surtout depuis que la mode est aux visages imberbes. Cela valait bien une réforme qui est accueillie avec joie.

O bigode regulamentar
Um grande favor acaba de ser feito aos oficiais britânicos. Uma portaria do Ministério da Guerra acaba de abolir a regra, que já durava mais de meio século, segundo a qual todos os oficiais do exército tinham de deixar crescer o bigode. Essa regra atormentava jovens oficiais, principalmente desde que a moda passou a valorizar rostos imberbes. A necessária reforma foi acolhida com alegria.

Artigo publicado no jornal francês Figaro em 15 julho 1913.
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O termo bigode é exclusivamente ibérico. A par do nosso, há o bigote castelhano e os bigotis catalães. Não se lhe conhece ao certo a origem. Alguém chutou um dia que poderia vir da expressão germânica «bi Gott!» (= por Deus!), blasfêmia que invasores bárbaros fartamente bigodudos pronunciavam a torto e a direito.

Data venia, tenho dificuldade em dar crédito a essa tese. Ela faria sentido se bigodes fossem usados apenas por germânicos e escandinavos. No entanto, o fato de praticamente todos os homens, naqueles tempos recuados, deixarem crescer barba e bigode enfraquece a tese. Pesa também o fato de a expressão não aparecer fora da Península Ibérica, nem mesmo em regiões que também sofreram invasões dos mesmos bárbaros. No meu entender, a palavra é anterior à chegada de godos, ostrogodos e vândalos.

O bigode é repartido ao meio no sentido horizontal. A palavra é frequentemente usada no plural: os bigodes. Não me surpreenderia uma relação com a duplicidade sugerida pelo prefixo bi (bis em latim), como em binário, bisanual, bipolar.

É mais fácil encontrar a origem da versão francesa e da italiana ‒ moustache e mostaccio respectivamente. Tudo indica que provenham de um grego mústax, mústakos, que substituiu mástax, cujo significado era boca. Nossa língua não reteve essa voz para nomear os pelos que crescem entre boca e nariz. Assim mesmo, guardamos um descendente da família de uso corrente: mastigar. E seus derivados masticatório, mastigação e outros.

Quando houver sopa à mesa, tome cuidado. Bigode sujo fica feio pra caramba.

Colégio e cacofonia

José Horta Manzano

A Constituição brasileira determina que os três poderes da República sejam harmônicos entre si. Estão no mesmo nível e gozam de idêntico grau de importância. Essa é a teoria.

Na prática, há distorções. O Executivo, encarnado por um solitário presidente (ou uma solidária presidenta), tem visibilidade maior que a dos outros poderes. É compreensível. O Legislativo se dilui entre 594 eleitos cuja identidade nem especialistas conseguiriam recitar de memória. O Congresso é, por princípio, lugar de debates e de embates públicos. Cada membro carrega a bandeira de seu partido e de seus eleitores.

Resta o Judiciário, coroado por um grupo de magistrados que formam o Supremo Tribunal Federal. Os onze magistrados-mores, aos quais se costuma dar o título de ministro, formam, em princípio, um colegiado(*). Diferentemente do Executivo, proferem decisões e sentenças colegiais, resultado de reflexão conjunta.

Supremo Tribunal Federal, Brasília

Em lugar de um presidente do Judiciário ‒ em contraponto ao presidente do Executivo ‒ o legislador optou por instituir um colégio de magistrados. Por detrás dessa decisão, está a ideia evidente de que onze cabeças pensam melhor que uma.

Na Suíça, talvez exemplo único no mundo, não só o Legislativo e o Judiciário, mas também o Executivo é exercido por um colegiado. São sete componentes eleitos. A ideia é sempre a mesma: sete cabeças pensam melhor que uma. A cada ano, um dos sete é escolhido como presidente proforma por um ano. Além de conservar suas funções habituais, representa o país no estrangeiro e aperta a mão de visitantes. Sua voz não se eleva acima da dos demais. Os debates entre os membros do colégio executivo se fazem a portas fechadas. Quando uma resolução vem a público, aparece sempre como decisão do colegiado. Ninguém fica sabendo da opinião de cada componente.

No Brasil, os debates do STF são travados em público. Por um lado, esse modo de operar tem a vantagem da transparência, eliminando a desconfiança de conluio, de reunião de compadres. Por outro, no entanto, a divulgação da opinião de cada magistrado tem efeito pernicioso: cria-se uma fogueira de vaidades em que ministros se criticam, dão entrevista para marcar território, procuram sutilmente desqualificar colegas que não pensam como ele. Não tenho certeza de que decisões colegiais devam ser tomadas dessa maneira.

Esse modo de proceder transforma nosso STF em miniatura do Congresso. Parte dos cidadãos é fã de determinado integrante, enquanto outros o detestam. Como num Fla-Flu, forma-se verdadeira torcida em torno de decisões de justiça. Os votos chegam a conta-gotas. Um ou outro pede vistas, enquanto outros já proferiram seu voto. Antes da finalização das discussões, até ministros que já votaram podem voltar atrás e modificar o voto. Uma cacofonia.

Reconheço que, se debates fossem feitos a portas fechadas e o resultado final só fosse revelado depois de sacramentado, ficaria no ar desagradável impressão de conjuração. Assim mesmo, no âmbito de uma futura reforma do sistema, a possibilidade de deliberações a portas fechadas deveria ser considerada.

Não há sistema perfeito. Mas o estrelismo deste ou daquele ministro do STF contrasta com a modéstia daquele outro. Decisões que chegam «à prestação» também são irritantes. Mudança de voto já proferido, então, é surpreendente. O modelo merece ser repensado.

(*) Colégio, do latim collegium, é composto de cum (=com, junto) e de legere (=colher, escolher). Transmite a ideia de colher (escolher) em conjunto.

Quando a mulata era a tal

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 25 fev° 2017

Cada sociedade tem os próprios tabus. Gestos ou palavras que, aqui e agora, passam batidos podem ser repreensíveis ou inaceitáveis em outros lugares. Com o passar do tempo, permissões e proibições evoluem. Tempos houve em que desquitada que ousasse juntar-se com outro homem não entrava em casa de respeito. Não que lhe fechassem as portas, mas se sentia malvista, se autocensurava. Até o qualificativo de «amigada» era depreciativo. O recato daquela época nos parece hoje excessivo, quase hipócrita. Recato… Taí palavra que anda em falta nas prateleiras do país.

Lembro-me de uma polêmica que espocou em 1961. Numa época em que o primeiro Aurélio ainda não havia sido editado, a estudantada se socorria do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, da equipe do filólogo Silveira Bueno. Em maio, alevantou-se uma grita exigindo que o dicionário fosse expurgado de termos considerados ofensivos. O governo levou o assunto a sério e incumbiu o ministro da Educação de ouvir os descontentes. Segundo eles, várias palavras tinham de ser sumariamente banidas. Entre elas: favela, negro, panamá, jesuíta e judas. Depois de debruçar-se sobre o caso, a comissão moderadora chegou à (óbvia) conclusão de que o dicionário não faz a língua, limitando-se a registrar-lhe os vocábulos. O assunto se desmilinguiu e acabou morrendo na praia. Poucos meses depois, a renúncia de Jânio enterraria de vez a questão.

Samba 3Hoje esse relato faz sorrir. Todos sabem que a língua é feita pelos que a utilizam. Proscritas ou não, palavras continuarão a existir e a ser utilizadas. Há montes de termos novos, de uso corrente, que ainda não aparecem em dicionário nenhum. O contrário também é verdadeiro: vocabulários estão repletos de palavras que, fora de circulação há tempos, não são mais compreendidas. Afinal, sem o judas, como ficaria a malhação do Sábado de Aleluia? Cada bobagem…

O carnaval está aí. Semanas atrás, alguns blocos, especialmente do Rio de Janeiro, anunciaram a decisão de banir certas músicas. São marchinhas que, embora tradicionais e conhecidas por todos os foliões, sofrem de um pecado original impossível de ser remido: mencionam a palavra «mulata». Suponho que alguém de poucas letras, daqueles que ouvem cantar o galo sem saber onde está o puleiro, tenha sido informado de que, etimologicamente, mulato deriva de mula.

Em rigor, faz meio milênio que isso é verdade, desde a criação do termo. Agora pergunto: o distinto e culto leitor já se tinha dado conta desse parentesco etimológico? Não? Nem eu. Erradicar do repertório músicas pela simples razão de conterem uma palavra que se decidiu banir é atitude excessiva. Acaba surtindo efeito contrário: ao invés de encoberto, o «pecado» se torna ainda mais visível. Sai da Praça Onze mas ganha a praça pública.

samba-4Num rápido sobrevoo das letras de um século de cancioneiro popular, encontrei uma centena de músicas que falam do mulato ou da mulata. Todas elas ‒ sem exceção ‒ exaltam o personagem. Ataúlfo Alves brindou à «mulata assanhada, que passa com graça, fazendo pirraça». Ary Barroso e Luís Peixoto babaram diante da mulata que «quando samba, é luxo só». Vicente Paiva gabou «os olhos verdes da mulata». Verdadeiro hino nacional bis, a própria Aquarela do Brasil, que figura entre as músicas mais executadas no mundo apesar de já ter atravessado oito décadas, sintetiza o Brasil num «mulato inzoneiro».

Tudo o que é excessivo é pernicioso. Levar o conceito do politicamente correto a tais extremos acaba com a alegria do carnaval. Estamos a dois passos de criar o Ministério dos Bons Costumes, encarregado de elaborar o índex das palavras proscritas. Francamente…

Talvez você não saiba que enfezado é atributo de quem está constipado. Dizer que «o chefe está enfezado hoje» equivale a insinuar que ele está cheio de fezes. Poucos já se deram conta de que cueca, culatra e recuar são etimologicamente derivados do nome que se dá à extremidade do tubo intestinal. Poucos têm noção de que a vagem (legume) e a bainha (da calça) são descendentes diretas da palavra latina que indica a genitália feminina. No fundo, é melhor não espalhar a informação. Alguém periga exigir banimento desses termos, nunca se sabe. No mundo, há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. Se bem que, quanto ao universo, tenho minhas dúvidas.

A canoa virou

José Horta Manzano

Dois mil anos atrás, os romanos já haviam pensado em conjugar duas tecnologias de navegação. As embarcações, ancestrais de nossos atuais carros «flex» ou «bi flex», podiam ser propulsadas de duas maneiras. Quando havia vento, desfraldavam-se as velas. Quando reinava a calmaria ‒ ou também em caso de vento desfavorável ‒ um batalhão de escravos punha-se a remar freneticamente. Para aumentar a velocidade, as duas modalidades de propulsão podiam ser postas a funcionar conjuntamente.

navio-3O número elevado de tripulantes tinha seu custo. Alojar e alimentar toda aquela tropa demandava recursos. Por seu lado, a multidão era útil em caso de a nave, por algum problema de vedação, fazer água. Cada um com seu balde, os marinheiros impediam o barco de ir ao fundo.

O problema maior não vinha, portanto, de defeito de fabricação. O perigo grande era a embarcação de madeira chocar-se contra escolhos. Aí, não havia balde que resolvesse. Quando a madeira batia com força em pedra, não havia como escapar: o barco se quebrava, se partia em dois e afundava.

Está aí a origem da palavra latina naufragium, que corresponde a nosso naufrágio. É evolução de navifragium, de navis (barco) e fragium (da raiz frangere). Frangere, que significa justamente partir ou quebrar, deu vários filhotes em nossa língua: fratura, fragmento, frágil, sufrágio. E, naturalmente, naufrágio.

No naufrágio romano, a nave ia necessariamente ao fundo. Quebrada, não tinha como escapar a seu triste destino. Dois mil anos mais tarde, embarcações continuam naufragando, ainda que nem sempre se partam ao meio.

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Um barco fretado pela Justiça Eleitoral sofreu um acidente no norte do país. A mídia publicou a impressionante imagem da embarcação sinistrada. Disseram que o barco afundou. Erraram. Como o nome indica, afundar é ir ao fundo. Não foi o que aconteceu.

Vamos ressuscitar palavras pouco usadas? Se são úteis e dão bom recado, por que não? Para descrever a cena do acidente, o jornalista teria sido mais feliz se tivesse dito que o barco virou ou que se deitou. Podia também valer-se do verbo tombar. Para ser mais explícito, o jornalista poderia até ter dito que o barco encalhou e tombou. Outra opção teria sido a palavra adernar.

Tem mais uma: soçobrar(*). Diga-se, a bem da verdade, que soçobrar significa virar de ponta-cabeça, que não foi exatamente o que aconteceu com nossa embarcação. Seja como for, não convém anunciar que afundou. Não afundou.

Interligne 18cNota etimológica
Soçobrar vem do catalão sotsobrar. Lá pelas bandas de Barcelona, para dizer que algo está de cabeça pra baixo, dizem sotsobre ‒ literalmente «sob-sobre». O italiano se vale da mesma imagem: sottosopra.

Ignorância

José Horta Manzano

Cabeçalho 14

Em nossa língua, a palavra ignorante tem dois sentidos e pode-se referir a duas situações bastantes distintas. No sentido próprio, ignorar é simplesmente ‘não conhecer’. O termo é membro de extensa família e está presente em numerosas línguas. Conhecer, ignorar, agnóstico, reconhecer, diagnóstico, desconhecer, prognóstico, cognitivo são palavras nossas, todas aparentadas.

O verbo inglês know, o francês connaître, o alemão kennen, o italiano conoscere, o sueco känna, o espanhol conocer são também filhotes do mesmo antepassado. Todos eles guardam o sentido de saber, conhecer.

Esporte 4Quanto a nós, pelo menos no Brasil, costumamos usar o termo ignorante numa segunda acepção, bem mais popular. Dependendo de como for pronunciado, pode servir de xingamento. Não tem muito que ver com conhecimento. Conforme a gravidade do caso, pode ser substituído por grosseiro, impolido, descortês, imbecil, selvagem, rude, chucro, bronco, impolido, boçal.

Leio hoje duas notícias em que o protagonista se encaixa nessa segunda acepção. A primeira relata uma inacreditável cena ocorrida ontem, em plena Olimpíada carioca, por ocasião de um combate entre dois judocas. Um dos atletas era israelense e o outro, egípcio. Como todo esporte, o judô tem suas regras. De sua origem nipônica, guarda rituais rígidos. Os contendores devem cumprimentar-se antes da luta e, de novo, ao final.

Numa atitude inaceitável, o egípcio recusou-se a cumprimentar o oponente. Voltou-lhe as costas e se retirou ‒ sob uma chuva de vaias. Personificou a imagem do igorantão.

Metro Rio 2A segunda notícia ‒ cuja veracidade posso supor mas não garantir ‒ conta o diálogo entre uma garota e um turista estrangeiro. Estavam no Rio de Janeiro, e o turista procurava a entrada do metrô. A moça, embora conhecesse algumas palavras básicas de inglês, recusou-se a usá-las. Insistiu em responder ao infeliz visitante usando um português rasteiro. O coitado não entendeu nada.

Mais tarde, pelas redes sociais, a autora vangloriou-se da façanha. Argumentou que todo estrangeiro de passagem tem obrigação de conhecer a língua local. Mostrou encaixar-se nas duas acepções de ignorância: além de não saber, foi boçal.

Interligne 18c

Os protagonistas dessas histórias, ambos de pouca idade, deram prova viva da influência que políticas de Estado podem ter sobre mentes jovens, frágeis e dúcteis. Cada um mostrou ter aprendido a lição que a sociedade lhe ensinou. O brutamontes egípcio deixa escorrer, pelo canto da boca, um filete verde do ódio que lhe incutiram. A brasileira selvagem espelha o desprezo à civilidade que a paisagem política deletéria dos últimos 13 anos vem inculcando à juventude brasileira.

Cada um mostrou, à sua maneira, a imbecilidade que se aninha em seus jovens miolos. Foram ambos ignorantões.

Carcereiro suíço

José Horta Manzano

A ocasião faz o ladrão ‒ segundo a sabedoria popular. Fico com um pé atrás. Acho que ladrão já vem feito independentemente de ocasião. E ocasião, minha gente, é que não falta, nem cá nem lá. Se a sabedoria popular estivesse mesmo correta, viveríamos num mundo de ladrões. Enfim, melhor não enveredar por esse assunto, que os tempos andam meio sensíveis.

Prisioneiro 3Cerca de um mês atrás, a polícia suíça prendeu preventivamente um carcereiro. Contra ele, pesa acusação de corrupção passiva por ter vendido celulares e maconha a dezenas de prisioneiros.

Como em filme americano, prisioneiro passa frequentemente por acareação com cúmplices e confrontação com testemunhas. É também instado a dar esclarecimentos complementares. Nosso carcereiro não escapou à rotina. E não é que apareceu algo mais?

Fato surpreendente surgiu. Descobriu-se que, além dos já confessados, o homem cometeu crime de lavagem de dinheiro, «malfeito» pouco habitual em prontuário de carcereiro. O homem teria deixado corromper-se por um dos inquilinos da prisão ‒ por acaso, um brasileiro.

Dinheiro lavagemLogo no começo da história, o guardião e o brasileiro preso tornaram-se amigos, o que facilitou as coisas. Na sequência, o guarda forneceu vários telefones celulares ao preso para permitir-lhe comunicar-se com família, amigos e comparsas. Mas o mais importante vem agora.

O prisioneiro estava na cadeia por ter assaltado boa quantidade de caixas eletrônicos na região de Genebra. Apesar da prisão do criminoso, o dinheiro nunca foi encontrado.

Dinheiro voadorA amizade com o guardião foi preciosa. O preso deu a dica completa ao carcereiro amigo. Enquanto o brasileiro continuava na cadeia ‒ ainda está lá ‒, o guarda se encarregou de recolher o fruto dos assaltos (30 mil francos suíços = 100 mil reais) e de remeter a dinheirama ao Brasil. Não foi divulgada a propina cobrada pelo guardião.

O advogado do carcereiro garante que o cliente desconhecia a origem dos fundos transferidos ao Brasil. Ah, bom.

Interligne 18c

Nota etimológica
Cárcere serve para guardar criminosos e delinquentes. Arca serve para guardar dinheiro e preciosidades. Não é espantoso que as duas palavras tenham parentesco longínquo.

Cárcere vem de raiz antiquíssima, já encontrada no sânscrito. No grego antigo, evoluiu para a voz arkeô, fruto da mesma árvore, com sentido de trancar, impedir a passagem, reter. Daí vem nossa moderna arca.

Em latim, a mesma raiz evoluiu para carcer, com o significado de recinto rechado, prisão. Alguns linguistas enxergam parentesco entre cárcere e coerção. Nesse ponto, não estão todos de acordo.