Chanceler

Itamaraty, Brasília

José Horta Manzano

Cancela é palavra de uso corrente nos campos, fora das cidades. Nos centros urbanos, é menos utilizada. É o nome que se dá ao portão baixo, geralmente feito de pranchas de madeira cruzadas, que barra a entrada de chácaras, sítios e fazendas. A palavra carrega a ideia de barrar, riscar. O verbo cancelar faz parte da família. O sentido básico é justamente de barrar o que foi escrito, fazendo riscos por cima.

Nos últimos tempos do Império Romano, o cancellarius era uma figura importante. O título designava o oficial encarregado de montar guarda em frente aos aposentos do imperador, que eram barrados com uma grade (cancellus).

O imperador foi-se, mas o nome da função exercida pelo guardião ficou. Cancellarius e seus descendentes diretos constituem caso pouco comum de nome de função cujo significado exato varia conforme o país ou a língua.

Chancelor
O chancelor inglês é palavra multiúso. Determinados funcionários de alto escalão levam esse título. O secretário-geral de uma embaixada também. Até o reitor de certas universidades americanas são chamados chancelor.

Cancelliere
O cancelliere italiano também tem numerosas funções. Tanto pode receber esse título um bancário quanto um alto funcionário da administração pública do país. A Cúria Romana chegou a atribuir esse título a um cardeal que executava certas funções. Academias (de letras ou de ciências) e embaixadas também têm encarregados aos quais se dá o nome de cancelliere.

Canciller
O canciller espanhol é o secretário de uma diocese católica. O termo também é usado para designer o chefe de expediente de uma representação diplomática, assim como um alto funcionário da administração.

Chancelier
O chancelier francês é título histórico. No ancien régime (antes da Revolução Francesa), era já atribuído a um altíssimo funcionário encarregado da custódia sigilo real (=sinete de selar, a marca que autenticava a assinatura do rei). Nos dias atuais, chancelier é o encarregado da administração de uma ordem militar. O termo serve também para designar um funcionário graduado lotado numa representação diplomática.

Kanzler
Na Alemanha e na Áustria, o Kanzler (pr: kántsler) tem função específica: designa o primeiro-ministro da República. Na Áustria, o Kanzler atual é Sebastian Kurz, um jovem de 34 anos. Na Alemanha, faz dez anos que o cargo é ocupado por uma mulher, Frau Angela Merkel. Neste caso, a palavra assume a forma feminina: Kanzlerin (pr: kántslerin).

Bundeskanzler
O chancelier fédéral suíço (Bundeskanzler em alemão) é o chefe do departamento que assegura o bom funcionamento do expediente do Poder Executivo colegiado do país – uma espécie de chefe de Estado-Maior do Executivo.

Chanceler
E chegamos a nosso chanceler. Embora de origem latina (cancellarius), a palavra nos veio através do francês (chancelier). Na Igreja Católica, é o encarregado da chancelaria de uma arquidiocese. Mas o termo é mesmo conhecido por designar o ministro das Relações Exteriores.

O trágico personagem que passou os últimos dois anos fantasiado de chanceler acaba de ser despachado de volta ao anonimato de onde nunca devia ter saído. Meio de pé atrás, o Brasil espera que o sucessor vá além da fantasia e funcione como chanceler de verdade. Visto o histórico de um governo que, entre acertar e errar, sempre escolhe a segunda opção, ninguém deve nutrir muita esperança.

Butantan

José Horta Manzano

Fundado no fim do século 19, o Instituto Butantan trabalhou em silêncio por mais de um século. Produtor de vacinas há 120 anos, já prestou valiosos serviços. Embora reconhecido por cientistas do mundo todo, nunca chegou a ter uma projeção comparável à do Instituto Pasteur (Paris) ou do Instituto Max Planck (Munique). A seu favor, diga-se que o orçamento que lhe tem sido dedicado é incomparavelmente mais modesto que o de seus congêneres europeus ou norte-americanos.

A pandemia de covid-19 e a desesperada busca por vacina subitamente giraram os holofotes para o Butantan. Nosso sabido presidente tentou menosprezá-lo, mas o tiro saiu pela culatra: apesar dos muxoxos do capitão, o instituto passou a ser nacionalmente conhecido e olhado com respeito.

Duas curiosidades linguísticas cercam o nome do instituto. A primeira é de ordem etimológica. De onde vem essa palavra? Pela sonoridade, dá pra adivinhar que vem da língua tupi, como grande parte de nossos topônimos – rios, morros, vilarejos, cidades e até alguns estados.

A versão mais difundida ensina que Butantan é composto por bu (=terra) + tata (muito dura). Há variantes para o adjetivo: tata, tatã, tãta, tãtã.

Outra versão pretende que seja corruptela de m’boy (=cobra) + tata (=fogo), ou seja, boitatá = cobra de fogo, personagem de antiga lenda indígena. Se assim for, compartilha o étimo com a cidade paulista de Batatais, cujo nome também poderia ser uma variante de boitatá.

Desde que, lá pelo fim dos anos 1700, o último bandeirante aprendeu o português e esqueceu o tupi, a antiga lingua franca definhou até praticamente desaparecer. Assim, será difícil estabelecer com segurança a origem do nome do local onde foi instalado o instituto.

A segunda curiosidade tem a ver com a grafia Butantan. A norma de 1943 diz que os topônimos conservarão a forma que lhes atribuiu a «tradição  histórica secular». E cita um único exemplo – Bahia –, deixando a questão em aberto. Tirando a região da cidade de São Paulo, em que excursões escolares costumam levar os pequerruchos a conhecer o serpentário do Butantan, é difícil encaixar o nome do instituto no conceito de «tradição histórica secular».

Assim sendo, a grafia da palavra deveria seguir a regra comum das palavras de origem tupi, ou seja, Butantã, com ã no final. No entanto, o que se lê por toda parte é Butantan, com um improvável an no final. Tenho minha ideia quanto à origem dessa anomalia.

Acredito que a palavra vem sendo escrita tal como foi entalhada, 100 anos atrás, no frontispício do instituto. A reforçar essa grafia, está o site oficial do instituto, que adota Butantan em detrimento de Butantã.

Sabem de uma coisa? Desde que o sedento mercado brasileiro seja logo inundado com as esperadas vacinas, que cada um use a grafia que lhe apetecer. Pra acompanhar a corrente, vamos de Butantan mesmo!

Extorquir

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Há outros parentes: torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo são membros da mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Manchete do jornal O Globo

A notícia diz que o chefe do tráfico da Vila Aliança foi extorquido. Nada feito. Não se extorque alguém; extorque-se algo de alguém. Para não errar, é só lembrar que extorquir é sinônimo de arrancar (por ardil ou com violência). Não se arranca uma pessoa; arrancam-se objetos dela.

A notícia informa ainda que os policiais teriam tentado extorquir dinheiro do tornozeleirado, se é que posso me exprimir assim. Se conseguiram, não sei. Se a história for verdadeira, a gente fica sem saber que é mais bandido nesse episódio. Parece que, em nossa terra, só não delinque quem não tem oportunidade.

O conceito de extorquir envolve sempre a violência, explícita ou velada. Num procedimento reprovável mas bastante comum no mundo todo, policiais costumam extorquir a confissão de um indivíduo detido. Reparem bem: extorque-se a confissão, não o indivíduo.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa construção. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Extorquir equivale sempre a obter alguma coisa de alguém por ardil (na conversa) ou por meio violento ou ameaçador.

Mesquinho

José Horta Manzano

«Cancelei, desde o ano passado, todas as assinaturas de jornais e revistas. Ministro que quiser ler jornal e revista vai ter que comprar.»

Essa frase, pronunciada esta semana por doutor Bolsonaro, evidencia mais um aspecto maligno do caráter dele: a mesquinharia. Em repetidas ocasiões, nosso mito tem reafirmado seu agarramento a picuinhas, a revides, a pequenas vinganças.

Se essas birras obstinadas são atributos comuns na adolescência, sua persistência num adulto denota um distúrbio de personalidade. É de crer que nosso presidente teve infância infeliz.

Sabe-se que o presidente tem medo da imprensa, razão pela qual foge de jornais e revistas.

A pequena vingança simbolizada pela suspensão de jornais e revistas no Planalto faz lembrar a história do Joãozinho. Era aquele garoto que ia à rua com a bola (no tempo em que se podia jogar bola na rua) para uma pelada com a garotada. Tudo ia bem até o momento em que Joãozinho, por uma razão qualquer, embirrava. Nessa hora, ele não perguntava se os amiguinhos queriam continuar a jogar ou não: confiscava a bola e ia embora. Para os mesquinhos, vale a norma: os outros que se lixem.

Jairzinho, nosso presidente, é como o Joãozinho da história. Visto que não gosta de ler, confisca jornais e revistas sem se preocupar se os demais gostariam de ler.

Nem o Lula, apesar de confessar seu horror à leitura, ousou confiscar jornais e revistas de seus assessores e privá-los de informação confiável. Nesse ponto, Jairzinho não é igual ao Lula; é pior.

Mesquinho
A palavra mesquinho vem do árabe miskin ou meskin. Nessa língua, significa pobre, desprovido de tudo. A raiz, presente também em hebreu, é atestada já na língua acádia, falada na Mesopotâmia 3.000 anos antes de Cristo. Ao passar para as línguas europeias, o termo sofreu alteração de sentido. Nas línguas latinas, designa aquele que se agarra a coisas pequenas, que não tem grandeza nem generosidade.

Orquídea

José Horta Manzano

Certas palavras têm origem surpreendente. Entre elas, está orquídea, nome da simpática flor cujas múltiplas variedades estão presentes em vastas regiões do globo, da zona tropical à temperada.

O nome vem do grego. Atribui-se o batismo da orquídea a Teofrasto, filósofo grego que viveu 300 anos antes de Cristo. Na língua dele, uma das acepções do termo órkhis designa uma variedade de azeitona. Mas não foi essa acepção que deu nome à flor.

É que órkhis também significa testículo. É daí que vem o nome da orquídea. A associação de ideias tem a ver com a forma da raiz da planta, uma espécie de bulbo que lembra o atributo da genitália masculina. O D que apareceu no meio da palavra – orquíDea – é tentativa tardia de latinização. Não consta no original grego.

Como prova da relação entre a flor e a anatomia, note-se que, em linguagem médica, o elemento de formação orqui- (orquid-) é utilizado para designar os testículos. Orquialgia é dor testicular, orquidectomia – ablação de um/dos testículo(s). E assim por diante.

Parece que, depois disso, o encanto da flor diminui, não? Mas o imenso charme das orquídeas logo faz esquecer a pouca poesia das origens.

Réveillon de Natal

José Horta Manzano

Chegou o Natal de um ano pra lá de especial. Natal, temos todos os anos; mas o deste ano parece mais um filme de Fellini, com festa de mascarados e um balé de convidados racionados dançando ao passo da distanciação social. Não é muito alegre, mas é o que temos.

No fundo, até que temos sorte de ainda estar aqui – milhares ficaram pelo caminho. Não deve haver nenhum brasileiro que não conheça alguém que morreu de covid, um parente, um amigo, um vizinho, um colega, um conhecido.

O Natal é a festa maior da cristandade, tanto na Europa ocidental quanto nas antigas colônias, Brasil incluído. Mas este ano, além do significado religioso, o que estamos festejando mesmo são duas coisas: nossa sobrevivência à pandemia e a chegada da tão esperada vacina.

E vamos em frente, de bacalhau com batatas, ou o que lhe apetecer. Com rabanada pra arrematar.

Uma curiosidade vale ser mencionada. Franceses, belgas, suíços e canadenses se preparam hoje para o réveillon de Natal. Para nós, parece esquisito misturar Natal com réveillon, que nos parecem coisas distintas.

Em francês, até o século 19, se usava a palavra réveillon para designar uma refeição tomada tarde da noite, fosse em que dia fosse. Hoje essa acepção saiu de moda. Réveillon se especializou em dar nome aos festejos da véspera de Natal e também da passagem de ano. Pra distinguir, basta especificar: réveillon de Noël (de Natal) ou réveillon de la Saint-Sylvestre (de fim de ano).

Réveillon descende do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua, a parentela é extensa: vigia, vigiar, vigilante, velar, vigília (véspera de certas festas religiosas). Vela e velório fazem parte do clã. Todas essas palavras carregam o sentido de estar desperto para cuidar.

Feliz Natal a todos!

Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Ardido

José Horta Manzano

Em setembro de 2018, o mais significativo repositório da memória nacional virou tragédia e deixou de existir. Quando queimou o Paço de São Cristóvão, que abrigava o Museu Nacional, uma onda de comoção bateu nos costados do mundo civilizado. Uma catástrofe.

Na ocasião, escrevi um artigo contando curiosidades do passado de um edifício que foi residência de quatro gerações de monarcas. As eleições presidenciais estavam próximas e, naturalmente, não se sabia ainda quem havia de vencer. Eram tempos de suave esperança para os que não suportavam mais o descalabro dos governos lulopetistas.

Formulei então votos de que o próximo presidente, fosse ele quem fosse, fizesse uma visita à Biblioteca Nacional logo no início do mandato. Em matéria de memória nacional, é certamente a joia que nos restou depois da perda do museu arso(*).

Ai de nós, quem é que podia imaginar! Acho que ninguém se tinha dado conta de que estava subindo ao trono o indivíduo mais ignorante jamais eleito no Brasil. Pra piorar, apesar de não ter aprendido nem o básico, doutor Bolsonaro despreza a Educação, pisoteia as Relações Exteriores e tem feito o que está em seu poder para a destruição de nossa cobertura vegetal e para a desertificação do país.

É muita desgraça junta. Acho que o presidente aplaudiria se a Biblioteca Nacional ardesse e se, no terreno, fosse instalada uma filial da Disneylândia. É lastimável que, desde que virou o século, o Brasil tenha sido presidido por ignorantes. Para a cultura nacional, o golpe tem sido duro.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Com o Lula, a intenção era boa, mas o resultado foi pífio. Numa projeção que a psicologia talvez explique, pensou em dar ao país a possibilidade de fazer os estudos que ele não tinha feito. No entanto, passando por cima da instrução elementar, fomentou a abertura de dúzias de faculdades de beira de estrada. (É fato que uma faculdade é mais visível que um grupo escolar, mas ninguém chega lá sem ter passado por aqui.) Botou Gilberto Gil no Ministério da Cultura; o moço é excelente músico, mas… ministro da Cultura? No espremer dos limões, o Lula relegou a formação elementar à ventura.

Da Dilma, esperava-se uma ‘gerentona’ firme e forte. Ao fim e ao cabo, tivemos uma ‘presidenta’ autoritária, falsificadora do próprio currículo, de mente confusa, que não deu a mínima atenção à formação dos brasileirinhos. Sua ‘Pátria educadora’ não passou de slogan.

Do presidente atual, dá tristeza falar. É esse estropício tosco que está aí. Deu vexame na escolha de titulares para a Educação e para a Cultura. Não visitou (nem visitará) a Biblioteca Nacional. Talvez nem saiba que ela existe. Livro não é seu terreno de predileção. Só nos resta torcer pra que ele vá se embora logo. E que o próximo seja um bocadinho melhor. Será difícil ser pior, mas, no Brasil, nada é impossível – principalmente a piora.

(*)Nota etimológica
Arder corresponde diretamente ao verbo latino ardeo/ardere, que significa estar em chamas, queimar. O particípio perfeito latino é arso, palavra que, segundo o Volp, existe em português. Tanto pode ser adjetivo como substantivo.

É curioso que nenhum dicionário online traga esse verbete. Consultei Houaiss, Priberam, Aulete, Michaelis, Porto Editora, Cândido de Figueiredo e 7 Graus – sem sucesso. O Volp é um vocabulário que se limita a atestar a existência da palavra, dar a grafia e o gênero gramatical; porém, não dá o significado. Assim, resta supor que arso tenha o sentido que tinha na língua latina.

Em português, os descendentes de arder não são multidão: ardido, ardor, ardência, ardente, aguardente. E, naturalmente, arso(=queimado, que ardeu, ardido).

Miosótis

José Horta Manzano

Você sabia?

Embora a flor não seja comum no Brasil, o nome miosótis é conhecido. A planta é pra lá de comum em regiões de clima temperado. Flores azuis desabrocham a cada primavera. Mais raramente, a cor pode ser rosa ou branca.

O miosótis (ou a miosótis, vai do gosto do freguês) é florzinha pequenina, delicada, perfeita pra entrar num buquezinho simples para a namorada.

Sabe-se lá por que razão, grande parte das línguas europeias, a começar pelo português, dão ao miosótis o sugestivo nome de não-te-esqueças-de-mim (ou não-te-esqueças).

Origem do nome
Velha lenda germânica relata que um dia, enquanto criava o mundo, Deus estava dando nome às flores: «Você será rosa! Você, gerânio! E você se chamará dália!»

E assim foi, uma por uma. Quando já estava quase terminando, uma flor pequenina e escondida num canto sentiu medo de ficar sem nome. Ousou dirigir-se ao Senhor:

«Não te esqueças de mim!».

E Deus, na lata:

«Pois esse será teu nome!».

Por excesso de fé ou por falta de criatividade, o português, o espanhol, o italiano, as línguas germânicas e até o russo seguiram a determinação divina:

Português: não-te-esqueças-de-mim
Inglês:    forget-me-not
Alemão:    Vergissmeinnicht
Espanhol:  nomeolvides
Russo:     незабудка
Sueco:     förgätmigei
Italiano:  nontiscordardimè
Holandês:  vergeet-mij-niet(1)

Por que será que todos procuram escapar do nome original? Talvez seja pela etimologia pouco poética. Miosótis vem do grego através do latim.

É composto de myós (rato) + otós (orelha). É isso mesmo: orelha de rato(2). Vai-se todo o romantismo, não?

(1) É interessante notar como algumas línguas preferem separar os termos com hífen, o que me parece complicação inútil. Outras escrevem tudo colado.

(2) Myós (rato) deu Maus em alemão e mouse em inglês, termo corriqueiro, devidamente fisgado por nossa novilíngua para uso em computador. Podiam, ao menos, ter aportuguesado (maus). Em vez disso, o termo foi adotado e engolido cru. Como resultado, uma sílaba foi acrescentada à pronúncia original. No Brasil, em vez de maus, ouve-se máuzi.

Otós (orelha). Em nossa língua, a raiz reaparece em termos ligados à saúde: otite, otalgia, otologia, otorrino.

Publicado originalmente em 12 ago 2015.

Tweet censurado

José Horta Manzano

Assim que foi anunciada a doença de Donald Trump, a empresa Twitter previu que alguns aproveitariam a ocasião para exprimir desejo de ver o presidente num caixão. Antes que acontecesse, foram logo avisando que bloqueariam a conta de quem tuitasse sua esperança de ver Trump morto pela covid.

Poucas horas mais tarde, ao se darem conta de que teriam de bloquear a conta de pelo menos metade dos usuários, explicaram que não era bem assim. Os tuítes macabros seriam apagados, mas a suspensão da conta só se faria “em alguns casos”.

Nos tempos de antigamente, isso não acontecia. Quando a comunicação ia por carta, telex ou fax, a gente escrevia o que bem entendia. Tirando algum caso (raro) de criminosa invasão de privacidade, ninguém lia as mensagens. A gente podia dizer o que quisesse sem receio de censura.

Ah, esse progresso! Como se vê, progredir é irmão gêmeo de regredir. Quando um aparece, o outro nunca está muito longe.

Tweet ‒ Nuclear
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Etimologia
Em latim, o verbo gradi significa andar, caminhar. Em português, temos alguns descendentes em linha direta: grau, degrau, graduar, gradual. Com adição de prefixos, formaram-se numerosos filhotes:

Progredir
Andar para a frente

Regredir
Andar para trás

Transgredir
Caminhar para além de um determinado ponto. Transpor determinada meta.

Agredir
Na origem, tinha o inocente significado de andar em direção a um ponto ou a alguém. Com o tempo, passou a significar atacar, investir.

Há outros cognatos: degradar, retrogradar, egresso, progresso, regresso, ingresso.

Interessante será notar que o Congresso, sempre pronto a dar um passinho à frente e outro pra trás, é membro legítimo da família.

O general ministro

José Horta Manzano

Posse?
Toda a mídia deu notícia de que o general Eduardo Pazuello é o novo ministro da Saúde. Todos, sem exceção, falaram da posse do novo ministro. Quando se olha de perto, falar em tomada de posse não é a melhor maneira de descrever o que ocorreu.

Embora o general carregasse o incômodo adjetivo ‘interino’ diante do título, já fazia quatro meses que era o ministro da Saúde de facto. A não ser que tenha passado quatro meses como figurante inativo – o que não seria surpreendente num governo em que nada mais espanta –, Pazuello já havia tomado posse do cargo há quatro meses, ainda que interinamente.

Portanto, não lhe foi dada a posse do cargo, que essa ele já tinha. A cerimônia solene marcou sua efetivação no cargo. Agora, efetivo, livrou-se do epíteto e mandou o ‘interino’ para a lata do lixo.

De toda maneira, tomar posse é força de expressão. Pode-se tomar posse de um livro, de uma casa, de um objeto, mas não de um cargo público. Cargos públicos são, por natureza, passageiros. É verdade que certos figurões se agarram ao cargo como se dele se tivessem apossado. Há deputados que chegaram a ficar três décadas no cargo. Mas essa é outra história.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Entre a cruz e a espada

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

Por seu lado, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio.

Expressão
É interessante como um assunto puxa outro. Falando em expulsão dos judeus ibéricos, me veio à mente a expressão «Entre a cruz e a caldeirinha». Refere-se justamente àqueles infelizes expulsos de repente da terra que lhes dava abrigo havia séculos e na qual se sentiam integrados.

Quando foi decidido o desterro da comunidade judaica, foi dada a seus membros uma única opção: se quisessem ficar, teriam de se converter ao cristianismo. Era condição obrigatória para a permanência. Quem se recusasse a se converter e teimasse em ficar seria entregue aos cuidados da terrível Inquisição, cujos métodos não eram lá de grande delicadeza.

Eis por que se diz que os judeus foram postos «Entre a cruz e a caldeirinha» ou também «Entre a cruz e a espada», expressões que hoje continuam significando estar diante de duas opções ruins.

É permitido crer que, naquela ocasião, os antepassados de nosso ministro (agora efetivo) tenham optado por deixar o país para sempre.

Presidente excepcional

José Horta Manzano

Temos, realmente, um presidente excepcional(*). Calma. Quando digo excepcional, não entendo necessariamente que o homem seja excelente, longe disso! Estou utilizando a palavra na sua acepção primeira: o que é fora dos padrões. De memória de gente, nunca um presidente do Brasil mandou tanta bola fora. Muitos dizem que ele é imprevisível. Não acho. Pelo contrário, o gajo é totalmente previsível.

Quando um repórter lhe faz uma pergunta sobre assunto que não lhe agrada, já se sabe: o repórter será insultado. Quando dirigentes mundiais estão trabalhando para proteger o povo contra uma epidemia, doutor Bolsonaro prefere se sair com um «Muito do que falam (sic) é fantasia, isso não é crise». Foi assim que ele deu as boas-vindas ao covid, cujo estrago em nossa terra já roça os 150 mil mortos.

Todos se lembram ainda de quando, em viagem aos EUA, ele soltou uma abobrinha retumbante. Afirmou ter provas de que as eleições que ele venceu foram fraudadas. Não é comum um candidato, após vencer por ampla margem, acusar o sistema de falcatrua. Trambique em favor de quem, capitão? Em matéria de paranoia, doutor Bolsonaro dá mostras de que seu caso não tem cura. Vê inimigo por toda parte, até no sistema que lhe deu a vitória. Vá entender!

Na Argélia, não faz muito tempo, um presidente senil, paralítico e visivelmente decrépito foi considerado inapto para o exercício do poder e, em seguida, afastado definitivamente. Não sou especialista em afastamento de presidentes; vai daí, não sei dizer se o presidente poderia ser declarado impedido, nem a quem caberia tomar essa decisão. Se for possível, está na hora de seguir esse caminho.

Nosso atual presidente é um engodo. Se fraude houve na última eleição, foi em favor dele… e em desfavor do povo brasileiro. Boa parte dos que o sufragaram, votaram enganados. Não sabiam de que estofo era feito o homem. Agora, todo o mundo sabe.

Bos sibi ipsi pulverem movet
O boi levanta poeira contra si mesmo

(*) Excepcional vem direto do latim. Só aparece na língua no século 16, chegado por via erudita. O verbo originário é excipere, onde cipere significa tomar/tirar e a partícula ex- tem o sentido de fora de. Portanto, o significado final é tirar para fora. Exceptus é o particípio passado. Em nossa língua, a família deu ainda exceto, exceção, excetuar.

Excepcional é o que foi tirado fora do conjunto, ou seja, o que está fora da norma fixada e geralmente aceita, acepção que cai como luva para doutor Bolsonaro.

Outra maneira de exprimir a ideia de fora da norma é anormal. Se preferir, pode aplicar esse termo quando se referir ao doutor. É forma ideológica e gramaticalmente correta.

Rodamoinho

José Horta Manzano

De criança, aprendi que se chamava rodamoinho. Era uma palavra misteriosa, cujo significado, para mim, não ia além da espiral que se formava acima do ralo da banheira quando a água escorria.

Com o tempo, entendi que havia outras formas de dar nome ao fenômeno: redemoinho, redomoinho, rodomoinho e o simples e poético remoinho.

Aprendi também que a palavra transborda do universo da banheira e pode dar nome, em sentido figurado, a fenômenos circulares que, a cada giro, descem um pouco mais, numa viagem inexorável em direção ao fundo.

Às vezes me ocorre que, desde que virou o século, nosso país entrou num rodamoinho, numa situação que, em vez de melhorar, piora a cada ano que passa, e nos puxa para baixo.

Junto com o hábito de comer arroz e feijão, que nos iguala a todos, está um outro fato nacional que nos põe em pé de igualdade: é a escolha do presidente da República. Dela participam todos – obrigatoriamente, aliás. O voto do abastado pesa tanto quanto o do desvalido. O do branco, do preto, do amarelo e do azul têm todos o mesmo valor unitário.

O distinto leitor há de convir que, em matéria de escolha de presidente – que é feita por todos, com um voto por cabeça –, a coisa vai de mal a pior. Dado que o voto representa um concentrado de Brasil e a soma dos anseios e expectativas de todos… ai ai ai. Parece que, em vez de visar para a frente e para o alto, estamos de olho na descida, loucos pra chegar ao fundo do poço.

Na virada do século, tínhamos FHC na Presidência. Goste-se dele ou não (pouco importa), há que reconhecer seus predicados: o homem, autor de uns 30 livros, era sociólogo e senhor de sólida cultura. Foi um dos raríssimos visitantes estrangeiros a serem convidados a visitar o Parlamento francês… e a proferir um discurso lá! Dava orgulho de um Brasil que parecia deslanchar.

De lá pra cá, desandou. Veio Lula da Silva, um malandro arrogante, sem-diploma e orgulhoso. Seguiu-se Dilma, falsa doutora, incompetente e de pensamento confuso. E agora temos doutor Bolsonaro. Este, só de encomenda. Potencializa os defeitos dos antecessores: é mais arrogante que o Lula, é mais agressivo e tem o pensamento mais confuso que o da falsa doutora. E ainda por cima, é de ignorância brutal, crônica e assumida.

Está aí. Já se vão duas décadas desde que entramos no rodamoinho. Deixar-se levar corrente abaixo é moleza; nadar corrente acima é que são elas. Depois que nos livrarmos desse estropício que está aí, o trabalho de reconstrução vai ser longo e pesado.

Remoinho
A palavra vem de moinho, numa alusão ao movimento rotatório das pás que giram, acionadas pelo vento ou, mais frequentemente, pela água corrente.

Remoinho combina com seu irmão castelhano remolino e com os primos-irmãos remous (francês) e mulinello (italiano) – todos de mesmo significado e derivados de moinho (molino, moulin, mulino).

Têm primos mais afastados em outras línguas europeias. Pra dizer moinho, o alemão usa Mühle e o inglês prefere mill. O sueco tem o verbo mala para moer e o substantivo mjölnare (miólnare) para moleiro, aquele que toca o moinho. Até o russo, ao chamar o moinho de мельница (mélnitsa), está se servindo de fruto da mesma árvore.

Meritocracia

José Horta Manzano

O Houaiss contém o verbete meritocracia e data seu aparecimento de 1958. Nestes tempos de fake news circulando rápido, não se verifica mais origem e autenticidade da informação. Este blogueiro, que guardou hábitos antigos, costuma verificar. Até o venerando Houaiss, que é considerado o nec plus ultra dos dicionários de nossa língua, tem de passar pelo filtro. Checar é prática útil: pode diminuir a velocidade do trabalho, mas é blindagem contra notícias falsas.

Fui procurar, na hemeroteca(*) da Biblioteca Nacional, se não havia mesmo registro da palavra meritocracia anterior a 1958. Havia. O substantivo é mencionado no Jornal do Brasil (RJ) em 1934, no Diário de Notícias (RJ) em 1931, n’O Jornal (RJ) em 1929 e no Jornal do Commercio (RJ) em 1928. O pesquisador do Houaiss havia de estar apressado.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

(*) Hemeroteca
É palavra que entrou na língua por via culta. É formada pelas raízes gregas heméra (=dia ) + teca (=lugar onde se guarda). Indica o lugar onde se conservam as coleções de jornais.

Hemer(o) entra na composição de numerosos termos técnicos e científicos como hemeropatia (doença que dura apenas um dia), hemerobatista (membro de uma seita cristã que reiterava o batismo todos os dias), hemeróbio (inseto cuja curta existência não ultrapassa um dia).

Teca é velho conhecido nosso. Aparece em termos que indicam o lugar onde se guarda uma coleção qualquer: biblioteca (livros), filmoteca (filmes), discoteca (discos), datilioteca (anéis), mapoteca (mapas), e por aí vai.

A Biblioteca Nacional mantém uma preciosa hemeroteca, com a versão digitalizada de praticamente todos os jornais publicados no Brasil, desde o primeirão, de 1808. Ainda não estão lá aqueles que seguem sendo publicados.

Pra finalizar
Embora o som de hemeroteca e de meritocracia guarde certa semelhança, as duas raízes não se conhecem nem de elevador. A primeira vem do grego, enquanto a segunda vem do latim.

A luva

José Horta Manzano

No ano de 1967, este escriba estava na Suécia para alguns meses de trabalho. Tendo deixado o ninho pouco tempo antes, o conhecimento das coisas da vida ainda era escasso. A experiência de usos e costumes europeus, então, não dava nem para o gasto.

Certa feita, eu caminhava por uma rua residencial. Algumas casas eram de madeira, outras de alvenaria, mas todas tinham um jardinzinho. A maioria das janelas não tinha veneziana nem cortina, a indicar que os moradores não se incomodavam de ser observados por quem passasse pela rua. Acho até que ninguém, além de mim, havia de prestar atenção ao que ocorria dentro das casas.

Alguns jardins eram delimitados por uma cerca viva baixinha, plantada junto à rua. De repente, enxergo uma luva dormindo no topo de uma cerca viva podada rentinho. Não era um par de luvas, era uma só. Conjecturando o que é que aquela peça de vestuário estava fazendo ali, mostrei a quem me acompanhava.

A explicação veio na hora. Tratava-se certamente de uma luva que algum passante tinha deixado cair sem se dar conta. Quem veio atrás, ao encontrar o objeto e sem saber a quem pertencia, apanhou-o do chão e pousou-o em cima da cerca. Quando se desse conta do ocorrido, o dono da luva provavelmente refaria o percurso; e acabaria encontrando o objeto perdido.

Foi uma de minhas primeiras surpresas na Europa. Muitas viriam mais tarde, mas essa marcou. Tanto é verdade, que, passado tanto tempo, me lembro ainda. Na hora, fiquei imaginando que, fosse na minha terra, não viria à cabeça do dono da luva refazer o caminho pra buscar o objeto perdido. Ainda que, esperançoso, refizesse o percurso, a luvinha teria desaparecido antes de ele chegar.

Luva – etimologia
Os dicionários informam que luva é palavra de origem gótica. (O gótico era um dialeto germânico, falado pelos godos.) Na origem, a palavra designava a palma da mão.

Na difusão desse nome entre as línguas da Europa ocidental, deu-se um fenômeno interessante e pouco comum. As línguas latinas – italiano, francês, catalão, espanhol – adotaram filhotes da mesma palavra para designar esse objeto: guanto / gant / guant / guante. O termo também é germânico, só que oriundo de outro dialeto, o frâncico, falado pelos francos. (É o povo que deu origem ao nome da França.) Todas as línguas irmãs foram por um lado, só o português é que foi por outro.

Note-se outra curiosidade: luva é da mesma família do inglês glove.

Engraçado mesmo é o termo que alemães e escandinavos usam para dar nome à luva. Em alemão, é Handschuh, literalmente: sapato de mão. Sueco, dinamarquês e norueguês usam a mesma imagem.

Pra finalizar, note-se mais um fato interessante. É verdade que, divergindo das línguas irmãs, demos preferência a luva. Mas a raiz guanto / gant / guant / guante não foi banida de nossa língua. Está presente na nossa fala de todos os dias, sim, senhor! O digno representante é o verbo aguentar, descendente da mesma fonte. De fato, traduz a ideia de ‘aferrar, tomar um objeto com violência e agarrar forte’.

Seita

José Horta Manzano

Não se assuste o distinto leitor com o palavrão que vem a seguir. É o nome de uma língua: o protoindo-europeu. Bem, não é exatamente uma língua no sentido que damos habitualmente a essa palavra – um falar homogêneo usado por um povo como meio de comunicação. É, antes, uma criação hipotética, uma reconstrução feita ‘de trás pra diante’. Num trabalho de paciência beneditina, a partir de palavras existentes em línguas modernas aparentadas, linguistas procuram encontrar o tronco, o ancestral comum. Palavra por palavra, vai-se recompondo a língua-mãe.

Pronto, não me estendo mais. Minha intenção não é ministrar curso de linguística. Só queria que ninguém ficasse assustado com o nome do antepassado longínquo. Quando se sabe o que é, o protoindo-europeu se torna manso feito coelhinho.

Supõe-se que a língua ancestral contasse com uma raiz *sekw-, responsável por extensa prole que aparece no latim e em boa parte das línguas europeias. Chegou ao latim como sequi – verbo que significa seguir, vir depois. Em nossa língua, uma baciada de termos provém do mesmo ancestral.

Uns mais, outros menos, todos conservam algum traço do sentido original: seguinte (o que vem depois), conseguir (ir atrás de), perseguir (ir atrás de), prosseguir (continuar seguindo), segundo (o que vem depois, o que se segue ao primeiro), sequência/consequência (o que vem em seguida), obséquio (ir atrás do que se supõe ser o desejo do outro), sequestrar (perseguir e apoderar-se do objeto da perseguição), executar (prosseguir até a realização), sócio (o que caminha junto, o que segue o outro).

Seita é fruto da mesma árvore. Nos tempos de antigamente, a palavra tinha significado neutro, isto é, não carregava julgamento de valor. Seita não diferia muito do sentido que damos hoje a partido, a entidade que congrega os seguidores de determinada ideia.

Ao longo dos séculos, a palavra assumiu valor claramente pejorativo. Hoje, sectários – os componentes de uma seita – são os que divergem frontalmente da doutrina majoritária e preferem seguir orientação de um guru político ou espiritual. São olhados pela maioria como se estivessem fora da lei.

É curioso notar que maiorias e minorias são instáveis, portanto, evoluem. Assim, os que são hoje vistos como sectários, por serem devotos de uma seita minoritária, podem se tornar majoritários amanhã. A partir daí, sectários serão os outros. E o mundo continua a girar.

Reputações

José Horta Manzano

A direção do Facebook cassou páginas e perfis criados e mantidos pelo “gabinete do ódio”, milícia digital associada a doutor Bolsonaro. Essa central de difusão de informações enganosas tem por encargo, entre outras tarefas, a “destruição” de reputações. Pus “destruição” entre aspas porque, apesar de ser a palavra usada por dez entre dez jornalistas, não me parece adequada.

Por definição, reputação é conceito neutro; ela tanto pode ser boa quanto ruim. Tanto podemos dizer que “Fulano tem excelente reputação” quanto podemos afirmar que “a reputação de Beltrano é péssima”. Portanto, não faz sentido falar em “destruir” reputações. Boa ou má, reputação sempre haverá. Será melhor utilizar outro verbo. Há muitos à disposição: sujar, manchar, enxovalhar, emporcalhar, deslustrar, enlamear, encardir.

Antigamente, dizia-se denegrir, palavra hoje considerada politicamente incorreta. É paradoxal que “denegrir reputações” seja incorreto, enquanto “embranquecer de medo” é admitido. Fica difícil entender por que um pode e o outro não. Mas esse é assunto pra outro artigo. Vamos voltar ao que nos interessa hoje.

É interessante notar que a palavra reputação vem do latim reputatio, formada a partir do verbo reputare. Este verbo é filhote de putare, cujo sentido originário é ligado à pureza (putus = purus). Putare é a forma latina de nosso podar (=limpar, eliminar galhos inúteis).

Por associação de pensamento, putare evoluiu para o sentido mais abstrato de calcular, fazer as contas, opinar, julgar, considerar. Hoje a família é extensa. Dela fazem parte, entre outros descendentes: computar (computador), contar, deputar (deputado), imputar, amputar, disputar. E, naturalmente, todas as reputações que vêm sendo solapadas pelos gentis assessores presidenciais.

Propaganda

José Horta Manzano

Você sabia?

O Ministério das Comunicações está sendo recriado. Más línguas predizem que será, na verdade, o Ministério da Propaganda de doutor Bolsonaro.

A palavra propaganda, que 9 entre 10 línguas adotaram tal e qual, sem mudar nem uma letra, tem origem curiosa. É substantivo que provém de um gerundivo latino. Embora não seja a única a ter seguido esse caminho, suas congêneres vieram por via erudita (o formando, o educando) ou são de uso jurídico (o considerando, o adendo, o alimentando). Já propaganda entrou por via religiosa e instalou-se na língua nossa de todos os dias. Está aqui a história.

A publicação do protesto do monge alemão Martinho Lutero, consignada em 95 teses pregadas no ano de 1517 na porta da catedral de Wittenberg, levantou um tsunami na Europa. Lutero, sem ter tido intenção, acabava de dar início a um cisma que perdura até hoje e que divide o cristianismo ocidental entre católicos e protestantes.

Naquele início dos anos 1500, as potências dominantes eram a Espanha e Portugal, que tinham partilhado os territórios da América – e as riquezas que vinham das novas colônias. A Igreja, preocupada com o avanço do protestantismo, obteve dos reis de Espanha e de Portugal a garantia de que, nos territórios americanos, o catolicismo seria defendido.

Palazzo di Propaganda Fide
Piazza di Spagna, Roma

Um século mais tarde, as riquezas americanas já davam sinais de exaurimento. Empobrecidos, Espanha e Portugal não tinham mais condições de prover à defesa vigorosa do catolicismo em suas colônias. Preocupada, a Santa Sé decidiu agir. Uma bula emitida em 1622 pelo papa Gregório XV criou a Sacra Congregatio de Propaganda Fide – Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (*).

É difícil especular como teriam sido as coisas se a Propaganda Fide não tivesse sido insituída; é de notar que as colônias americanas da Espanha e de Portugal mantêm até hoje contingente pequeno de adeptos do protestantismo. Talvez isso se deva ao trabalho da Congregação. Os protestantes se concentram nas antigas colônias inglesas (EUA e Canada), povoadas principalmente por imigrantes do norte europeu.

Faz meio século, a Sacra Congregatio de Propaganda Fide mudou de nome. Passou a ser conhecida como Congregação para a Evangelização dos Povos. A sede continua ocupando o mesmo imóvel da Piazza di Spagna (Roma), onde a Congregação se instalou 400 anos atrás. O imóvel tem estatuto de possessão extra-territorial do Vaticano. Leva até hoje o nome de Palazzo di Propaganda Fide – Palácio da Propaganda Fide.

(*) Propaganda fides = a fé que deve ser propagada; a fé a difundir-se; a fé a ser espalhada.

Briga

José Horta Manzano

A animosidade entre cidadãos, por razões político-ideológicas, é herança nociva da passagem do lulopetismo pelo topo do poder. Talvez seja o mal maior causado ao país por aquele bando de gananciosos. Diferentemente de uma crise econômica, que tem conserto, a cicatriz deixada por quinze anos de ‘nós x eles’ vai demorar pra desaparecer – se é que desaparecerá um dia.

A insistência nesse discurso excludente deu origem a disputas que se infiltraram no seio de famílias. Até hoje, tem pai que não fala com filho. Amizades se desfizeram. Vizinhos viram a cara um pro outro. Essa herança, sim, pode ser qualificada de maldita. Não pesou no bolso dos brasileiros: atingiu-lhes a alma. O ambiente belicoso deu margem a muita briga.

Briga é palavra interessante. Etimologistas atribuem-lhe origem celta. Fora de dúvida, é pré-romana, utilizada há milênios. Está presente em numerosas línguas europeias. O significado não é idêntico em todas elas, mas sempre gira em torno da noção de litigar, combater, disputar, incomodar, quebrar, despedaçar.

É parente do alemão brechen (quebrar), do sueco bråka (lutar), do inglês break (quebrar). Em francês, briguer é disputar (uma promoção, por exemplo). O mesmo significado tem o italiano brigare. O espanhol bregar tem o mesmo sentido de nosso conhecido brigar. É interessante notar que a raiz aparece até em serbo-croata (брига = briga), que significa preocupação, distúrbio.

Há controvérsia, mas muitos acham que os celtas diziam brig ou briga para designar uma cidade fortificada. Assim, Coimbra, cujo nome originário era Conímbriga, faz parte da família. Há uma cidadezinha na Suíça chamada Brig. Devia ser fortificada desde tempos antiquíssimos porque está situada em lugar estratégico. Fica ao pé da estrada de montanha que conduz ao Colo do Sempione(*), a rota mais utilizada para atravessar os Alpes antes que perfurassem túneis.

Não por razões de ideologia do governo, mas devido ao Brexit, que rachou o país em dois, praticamente todos os britânicos perderam algum amigo de dois anos pra cá. São as brigas que estouram nos pubs depois de algumas canecas de cerveja.

Mas há uma diferença fundamental entre britânicos e brasileiros. Em Londres, os campos do ‘nós’ e do ‘eles’ estão perfeitamente delineados. Os cidadãos pró-Brexit estão de um lado e os anti-Brexit, do outro. Já no Brasil, o ‘nós x eles’ foi criação artificial, de geometria variável. A linha demarcatória entre os dois campos é nebulosa, podendo se modificar e variar dependendo da conveniência de quem discursa.

(*) Colo, palavra pouco utilizada em nossa língua, indica a parte mais baixa entre dois picos de uma cadeia de montanhas. É passagem propícia para a construção de estrada. Tem significado próximo de garganta, desfiladeiro.