Ressignificando

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aula de ciências naturais e biológicas em um abrigo 5 estrelas para cães

Professora
Bom, meus queridos alunos, hoje eu queria falar um pouco sobre a teoria da evolução das espécies. Embora ela não tenha sido formulada por um de nós, nossos cientistas corroboraram suas descobertas. Acho importante que vocês a conheçam porque ela nos ajuda a entender melhor como se deu nosso processo de domesticação… Como vocês já devem saber, nossa espécie evoluiu a partir dos lobos…

Aluno 1
Péra aí, fessora. Eu não descendo de lobo, não. Nunca ataquei nem mordi ninguém e sempre respeitei tanto meus coleguinhas de grupo quanto meus tutores. Essa teoria aí que a senhora tá falando, acho que só vale pros cachorros pretos e de rua.

Professora
Que absurdo, garoto! Quem foi que te disse uma asneira dessas?

Aluno 1
Foi meu pastor, que, por sinal, não é alemão, mas suíço porque é todo branco. Ele disse – e meu pai confirmou – que foi o Deus de Quatro Patas quem criou a raça dos golden retriever. Pode ver, entre nós só tem criaturas com essa carinha de anjo que conquista tantos humanos. Isso sem falar de nosso lindo pelo dourado…

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Professora
Não, meu amor, você deve ter entendido mal. Está certo que, segundo a religião dominante entre nós, Deus criou todos os seres vivos. Mas uma coisa não anula a outra, a ciência já comprovou que uma espécie foi evoluindo e se transformando em outra, a partir de um ancestral comum. No nosso caso, o ancestral comum é o lobo. E, através de sucessivos cruzamentos, eles deram origem a filhotes mais mansos e com pelagens de todas as cores, umas mais claras e outras mais escuras. Também é verdade que, ao longo do tempo, os humanos passaram a dar preferência aos de pelagem clara, acreditando que eles eram mais confiáveis e menos traiçoeiros porque estavam mais distantes da aparência selvagem de seus antepassados. Mas isso é lamentável, só demonstra a ignorância dessa gente que se orgulha de andar em duas patas. Muitos de nossos irmãos de pelagem escura acabaram sendo abandonados na rua por causa disso…

Aluno 2
Então, tia, minha mãe disse que esses escurinhos foram jogados nas ruas porque nunca aprenderam a viver em sociedade. Só sabiam comer e dormir e, de tão gordos, não serviam mais nem como reprodutores. Daí, como não tinham pai nem mãe por perto para cuidar deles, foram perdendo todos os limites. Não se envergonhavam de cruzar o tempo todo com qualquer cachorrinha que passasse por eles, até mesmo com as mais feias, que não mereciam o esforço. Alguns até subiam em outros machos, um horror, uma aberração. Não respeitavam mais nem nossas leis sagradas e chegaram ao ponto de adorar o diabo…

Professora
Não, querido, nada disso é verdade. Primeiro, nossa espécie ainda obedece aos instintos animais mais primitivos, não só o da violência, mas inclusive os de ordem sexual, e isso independe de raça. Segundo, quando um macho sobe em outro macho, ele está só querendo demonstrar dominância, não tem nada a ver com cópula. Finalmente, onde é que sua mãe estava com a cabeça para inventar uma barbaridade religiosa assim?

Aluno 2
É que lá perto da minha casa tem um centro de encontro dos cães pretos. Precisa ver como eles latem, uivam, pulam feito loucos, correm de um lado para outro, mordem e se esfregam uns nos outros, uma bagunça só…

Professora
Não é porque eles têm um ritual diferente do nosso que eles são adoradores do diabo. Acho que alguns teólogos caninos de classe média confundem aquele som de latido de hiena com o de uma gargalhada para propor uma estupidez dessas. Não se deixe impressionar por crenças tão disparatadas e respeite mais os princípios de outras religiões.

Aluno 3
É, pode ser que a senhora tenha razão. Mas já ouvi dizer que esse pessoal escurinho é do mal, dá azar para quem chega perto. Além disso, quando chega a hora da gente casar, nossos tutores não deixam a gente cruzar com as cadelas que frequentam esses centros. Cá pra nós, a gente também prefere aquelas fêmeas jeitosinhas, limpinhas e bem comportadas. Pra casar, tem de ser bela, recatada e do lar, pode conferir.

Aluno 4
Tem mais, professora. Não tem nada a ver essa estória de que nós temos de estender a pata para ajudar nossos irmãos desfavorecidos. Isso já era. Nosso líder de matilha anterior é que deu moleza a eles, só para continuar dando as cartas. Esse pessoal é folgado, não trabalha, vive pedindo comida e um cantinho para dormir. Se a gente engole o mimimi deles e abre o coração, eles ficam mamando nas nossas tetas o resto da vida, só sabem fazer baderna…

Aluno 5
Outro dia eu estava na minha aula de adestramento e um desses caras entrou com tudo na sala e pulou nas pernas da minha tutora. Coitada, ela ficou desesperada, foi um vexame só o carinha se esfregando nela, com a língua para fora. Não é justo. A gente que é do bem tem que suportar horas sem fim para aprender a obedecer a tantos comandos. Tem que tomar banho toda semana, passar perfume, sair na rua só com coleira e guia, usar gravatinha ou lacinho na cabeça, tem de respeitar as fêmeas do bairro e ainda não pode peitar os machos mais atrevidos. E aí vem um sujeito sem berço desses, quebra todas as regras de disciplina e ninguém faz nada. Esse tipo de cachorro tinha que ser mandado para um reformatório já na segunda vez que aprontar alguma e ainda levar um pau daqueles no lombo pra aprender de vez. Que nosso Deus me perdoe, mas às vezes acho melhor não perder tempo tentando domesticar esses sem noção. O que devia ser feito era, isso sim, colocar chumbinho na comida deles. Aí resolvia o problema para sempre.

Professora
Chega de tanta asneira, por hoje é só. Na semana que vem vamos conversar sobre como os animais gregários, como nós, aprenderam a desenvolver tolerância para sobreviver às calamidades naturais que impliquem falta de comida, de água, de território ou de parceiros sexuais. Procurem no Google outros detalhes sobre a evolução da nossa espécie. Se sobrar um tempinho, leiam também com atenção as informações sobre o conceito do choque entre a cultura e as pulsões caninas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Discurso e atitude

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conta a fábula que um escorpião precisava atravessar um rio muito largo e, com medo de morrer afogado, pediu a um sapo que o levasse nas costas até a outra margem. O sapo, por sua vez temeroso de ser picado durante a travessia, rejeitou o pedido: “De jeito nenhum. Você é uma criatura traiçoeira e vai acabar me picando e me matando”. O escorpião argumentou então: “Não se preocupe, não existe essa possibilidade. Se eu o picasse, meu veneno o paralisaria, você afundaria e nós dois morreríamos afogados”.

Impressionado, o sapo decidiu confiar na lógica do que dizia o escorpião. Quando estavam a meio caminho, o escorpião de surpresa enterrou seu ferrão no dorso de seu infeliz condutor. Lutando com todas as forças para safar-se da morte, o sapo ainda teve tempo de perguntar: “Por quê, em nome de Deus, você foi fazer isso?”. Ao que o escorpião respondeu: “Porque é da minha natureza e não há nada que eu possa fazer para alterar isso”.

Não sei como outras mentes entendem o fenômeno, mas, para mim, se há um fato inelutável é o de que a natureza humana incorpora atitudes igualmente contraditórias e perversas. Sempre me chamou a atenção como nossa espécie é tão crédula e tão propensa a se deixar influenciar pelo discurso verbal de seus semelhantes. Comparada às formas de comunicação animal, que prescindem do uso de palavras, a nossa é de longe a mais ineficaz, a mais eivada de enganos e a que provoca mais sofrimento. Quando uma abelha localiza uma fonte de pólen, ela inicia imediatamente uma dança aérea em formato de oito que alerta todas as companheiras num raio de quilômetros. Quando uma formiga cai num buraco, todas as demais que caminhavam em fila indiana atrás dela se desviam automaticamente da trilha.

Minha convivência de longa data com cachorros me ensinou aquela que é, provavelmente, a lição mais preciosa de minha vida: a seleção cuidadosa de palavras não é sinônimo de boas intenções por parte de meu interlocutor. Antes de me entregar ao discurso sedutor, preciso checar se a energia emanada de seu corpo é compatível com a de sua fala. Sangue nos olhos e lábios crispados não me parecem compatíveis com a promessa de conciliação. Mãos tensas não sinalizam desejo de proximidade. Peito estufado não se harmoniza com alegação de humildade.

Para um cão, a intenção da mensagem transparece com toda clareza no tom com que as palavras são proferidas. Tom de voz e significado são uma coisa só, estão inexoravelmente interligados. Claro está que humanos sempre podem manipular seu tom de voz para gerar uma reação favorável no cão. Não há, entretanto, condição para que a mensagem seja mal interpretada se ao tom de voz se associam outros elementos, como postura corporal, respiração e cheiro da pele.

Embora não tenhamos consciência disso, nossas emoções provocam a liberação de hormônios na corrente sanguínea e estes, por sua vez, alteram nosso tom de voz e nosso cheiro. É isso o que faz seu cão pressentir que você está prestes a sair, que ele vai levar uma bronca ou que você está, de fato, propondo um descontraído passeio no parque, quaisquer que sejam as palavras que você utilize. Se pudéssemos aprender com eles a farejar a boa e a má fé de nossos interlocutores, tenho certeza que boa parte de nossos conflitos se extinguiria. A não ser, é claro, aqueles que se originam da intenção de nos causar dano, independentemente de nossa reação.

O marketing é a ciência da sedução através do discurso. Se as palavras forem articuladas de acordo com as expectativas do público a que se destinam, o desejo de consumo será despertado e significará um incremento nas vendas. O marketing político não é, de forma alguma, exceção. Destina-se a ressaltar as boas qualidades do aspirante a um cargo público, disfarçar seus defeitos e, dessa forma, minimizar os receios de problemas futuros do eleitorado. Na falta de argumentos verossímeis sobre a qualidade do produto, pode também ser usado para maximizar as fragilidades dos concorrentes, de modo a infundir descrença prévia nos argumentos que estes venham a utilizar em retaliação.

As redes sociais, a forma contemporânea de marketing político mais utilizada, notabilizam-se por ecoar apenas as mensagens que seus usuários querem receber. Eventuais contrapontos e dissidências podem ser eliminados de pronto, bastando clicar no botão deletar ou bloquear. Na ausência de fontes acessórias de informação (como o olhar, o tom de voz, etc.), as mensagens ganham status de verdade cristalina, por mais contraditórias ou chocantes que sejam. Mais grave ainda, em nome da liberdade de expressão, as mídias sociais descobriram uma maneira de driblar a censura que o contato olho no olho implica e de desconstruir a necessidade de emprego do vocabulário politicamente correto.

É possível que muitos acreditem que a disposição de cada um dizer o que pensa e exatamente da forma como pensa represente um benefício a longo prazo para a sociedade, qual seja o da diminuição da hipocrisia. Acreditar, no entanto, que o ódio gerado pela maior transparência do discurso vencedor pode ser contido ou engolido pelos perdedores a posteriori com atitudes concretas é uma ilusão que ainda nos vai custar muito caro.

Há mais de um século, Freud já alertava que as pulsões humanas primitivas estão em permanente choque com a cultura. Einstein, mesmo alegando não saber como seria a terceira, profetizou que a quarta guerra mundial se travaria com pedras e paus. Assistindo ao espetáculo horripilante da involução da civilização brasileira, eu faço coro à advertência de uma terapeuta: aquilo que entrou com violência sai com violência ainda maior. Não dá para relaxar e esperar. A natureza sempre ganha a luta contra o discurso no fim. Salve-se quem puder.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pasárgada, aqui vou eu

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não tem mais jeito, aconteça o que acontecer, vou-me embora para Pasárgada. De manhã, bem cedinho, antes mesmo do horário de abertura das seções eleitorais, ponho o pé na estrada, levando comigo mala e cuia. Ainda não sei onde fica Pasárgada, nem como chegar lá, mas estou apostando que o caminho se fará no meu caminhar.

Não me entendam mal. Não estou indo para Pasárgada porque lá sou amiga do rei. Não sou. Aliás, nem mesmo sei se Pasárgada é de fato uma monarquia. Ainda que seja, ignoro se o soberano ‒ ou soberana ‒ que a governa é pessoa amistosa, intelectualmente articulada, sensível e acolhedora de forasteiros. Além disso, desagrada-me a proximidade afetiva com integrantes de um círculo fechado de poder. Prefiro a liberdade de circular em meio às gentes e conhecer-lhes as opiniões, vontades, receios, esperanças e desesperanças.

Também não espero receber favores sexuais em lá habitando. Claro que os prazeres sensuais e a catarse que o sexo propicia me seduzem, mas não é isso o que estou buscando em primeiro lugar. É minha alma que está ferida, cansada e precisada de aconchego. Não reivindico nem mesmo o direito de escolher a cama na qual me deitarei. Basta-me que ela suporte meu peso e sirva de abrigo confortável para os sonhos e pesadelos que certamente terei.

O que me encanta em Pasárgada é que Pasárgada não é aqui, não é meu país. Mais uma vez, peço-lhes que não me interpretem mal. Não estou renegando minha pátria, sou grata a tudo o que ela me proporcionou até aqui. É que não gosto de fronteiras e prefiro não me expor à fogueira das vaidades que vem provocando lesões profundas em tantos de meus compatriotas. Sou um pouco indisciplinada para perseguir com afinco a tal da promessa de ordem e progresso. Confesso que meu coração um tanto anárquico se apraz mais com a algazarra das multidões se debatendo em meio a um caos criativo.

Na condição de estrangeira residente em Pasárgada, vou finalmente poder me desobrigar de emitir opiniões, sem culpa. Estou cansada de explicar, justificar, tentar entender, conciliar. Lá serei finalmente livre para escolher um novo estilo de vida, um novo discurso e uma nova mentalidade. Como ninguém me conhece por aquelas bandas, ainda levo a vantagem de minhas esquisitices parecerem menos destoantes do perfil do grosso da população.

Estou querendo trocar ideologias por sentimentologias, se é que me entendem. Torço para que, em Pasárgada, a tecnologia ainda não tenha pervertido o psiquismo das pessoas e substituído as relações olho no olho, o toque, as festas, as danças e o riso. Ah, como me têm feito falta a leveza de espírito, a delicadeza e a generosidade…

Se, por qualquer razão, eu não conseguir chegar a Pasárgada, posso recorrer a destinos alternativos que tenho pesquisado em segredo. Primeiro, reúno toda a minha coragem e vou para Maracangalha. Não levarei comigo um uniforme branco nem um chapéu de palha porque suspeito que lá as credenciais de malandragem não sejam exigidas com muito rigor. Também não pretendo convidar a Anália, nem ninguém mais, para me acompanhar.

Quero que minha viagem para Maracangalha se configure não como uma excursão de entretenimento, mas represente uma verdadeira peregrinação. Vou em busca de um reencontro com a alegria de ser quem sou e, para tanto, preciso caminhar só. No limite, aceito a companhia de minhas cachorras. Tenho certeza de que a travessia vai ficar mais fácil, com elas me ensinando a viver um dia de cada vez.

Se, de novo, meu plano de ir para Maracangalha não der certo, minha última cartada será mudar radicalmente de estrada e seguir altiva em direção a Macondo. Não há como errar o caminho. Latino-americana que sou, estou profundamente familiarizada com as rotas que levam ao surrealismo do cotidiano e ao realismo fantástico do clima político local.

Pode lhes parecer que essa minha opção de residir em Macondo seja uma mudança cosmética, um giro de 360° graus que só vai me levar de volta ao ambiente do qual quero escapar. Não se deixem enganar. Tenho como lema de vida as sábias palavras de T.S. Elliot de que “o final de toda jornada é voltar ao ponto de partida, vendo o lugar pela primeira vez”.

Nasci e cresci sob o signo da perseverança. Estou ciente de que, daqui por diante, a difícil missão que me espera é a de ser capaz de reconhecer a queda, não desanimar, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Brasileiro não desiste nunca, que se há de fazer?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano – 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma amiga, bióloga, estava curtindo um dia de sol na praia ao lado do marido e da filha de 4 anos. O pai da criança havia saído para fazer uma caminhada e as duas se divertiam construindo castelos na areia.

Lá pelas tantas, a menina interrompe o passatempo, olha longamente para o mar e pergunta à mãe: “Mamãe, por que o mar é salgado?”.

Antes de responder, a mãe hesita, se perguntando se devia dar uma resposta genérica, dessas que os pais dão distraidamente para se livrar de um interrogatório incômodo, se seria mais adequado dar uma resposta precisa, mas envolta em linguagem simples que pudesse ser rapidamente absorvida pela criança, ou se seria melhor propiciar a ela uma experiência mais ampla de aprendizagem.

Agnóstica por natureza e orgulhosa de sua formação científica, minha amiga optou por despertar na filha desde cedo o interesse pela investigação dos intrigantes fenômenos do mundo natural e dispôs-se a elencar todos os fatores envolvidos na geração desse resultado. Falou com entusiasmo sobre o movimento das marés, a influência da lua, o tipo de rocha presente no fundo dos oceanos, etc. Quando se sentiu satisfeita, concluiu, em voz terna, ao mesmo tempo maternal e professoral: “Então, filha, é porque a aguinha bate nas pedrinhas do fundo do mar, aí começa a sair o salzinho e ele se mistura na água. Entendeu, meu amor?”.

A menina ouvia tudo com ar de grande interesse e concentração. A cada etapa de explicação, interrompia apenas para acrescentar novos porquês. Quando a mãe terminou de falar, ela voltou imediata e espontaneamente a brincar com seu balde e pazinha, o que serviu de indicativo para a mãe que ela havia incorporado corretamente a mensagem.

Minutos depois, o pai volta do passeio e senta-se na areia ao lado da filha, ajudando-a com o desafio de erigir torres, portões e janelas. A mãe, ainda saboreando os frutos gloriosos de seu extenso saber científico, estimula a filha: “Conta pro papai por que é que o mar é salgado”.

A menina, entretida com seu passatempo, fica em silêncio por alguns segundos, como se estivesse metabolizando os ensinamentos recém-recebidos. Depois, abrindo um largo sorriso, encara o pai e, com toda a deliciosa ingenuidade infantil, responde de chofre: “Ué, porque…. é porque Deus quer, ué…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um de meus professores de psicanálise defendia a tese de que todas as pendengas judiciais que se arrastam indefinidamente são fruto não de um pretenso desequilíbrio de poder, mas sim de um desbalanceamento de satisfação. Embora fácil de entender, essa formulação me era difícil de aceitar. Transpondo para palavras mais simples, o que ele propunha era que, se estou satisfeita com minha cota de benefícios ou privilégios, não há razão para reivindicar aumento da minha parcela, nem contestar o tamanho das parcelas alheias.

Conhecendo os paradoxos da natureza humana, eternamente desejante, eu me esforçava por identificar alguma exceção que me permitisse ir mais fundo na compreensão da proposta, mas nunca encontrei nenhuma. Hoje, às voltas com a angústia de lidar com uma espécie de versão apocalíptica da “Escolha de Sofia” na disputa presidencial, achei por bem ir direto à fonte e reler trechos da obra do próprio Sigmund Freud.

Para minha satisfação, encontrei menção a certos fatores da psicologia de massas que podem ajudar a compreender melhor os motivos de tanta virulência na campanha. Para começar, Freud analisa a diferença entre grupos naturais ‒ isto é, aqueles que se formam espontaneamente em torno de objetivos comuns ou defesa contra inimigos comuns ‒ e os grupos que são formados de fora para dentro, a partir de um propósito ao qual se deve aderir e jurar obediência, aos quais ele dá o nome de grupos artificiais. Dentre estes últimos, ele destaca os mais emblemáticos: o exército e a igreja.

Nos dois casos, argumenta Freud, porque a adesão a esses grupos nem sempre é espontânea, torna-se necessário criar alguma forma de sanção para impedir que o grupo se desintegre caso aconteça alguma dissensão. Se uma contestação dos princípios fundadores do grupo é levantada, é preciso evitar que ela se alastre internamente e ameace a credibilidade ou continuidade da própria instituição. Traduzindo para a linguagem do Capitão Nascimento, o insubordinado tem de lembrar que entrou para a tropa porque quis e, se não aguenta mais carregar o fardo da disciplina interna, tem de “pedir para sair”. A punição prevista em tais casos – tanto para hereges quanto para traidores da pátria ‒ é, assim, a expulsão compulsória.

Outra característica comum é que esses grupos são estruturados como uma família, na qual seu chefe supremo – Cristo, para a igreja católica, e o comandante em chefe, no caso do exército – é apresentado como um pai amantíssimo, que distribui cotas iguais de afeto para cada um de seus filhos. Sua autoridade moral tem por base a crença de que não há um filho melhor que outro, mais próximo ou mais merecedor do amor do pai. Se isso fosse sugerido, ainda que implicitamente, o resultado seria a decretação de sangrentas lutas fratricidas. Isso porque é o amor equânime do chefe da família que serve de espelho e cimento para a construção de laços de solidariedade entre seus membros.

Sabemos todos que, na última década e meia, teve início, por iniciativa do governo federal, a implementação de uma estratégia explícita de conceder parcelas maiores de benefícios a alguns segmentos sociais, sob a alegação de combater distorções históricas. Aos que passaram a se indispor com o projeto de justiça social, o governo apresentava como única resposta o argumento de que tais protestos eram simples derivativo da cupidez, ganância e insensibilidade das elites para com seus “irmãos” desfavorecidos. Tal qual a incompreensão e o desapontamento do filho que se manteve sempre ao lado do pai, descritos na parábola do filho pródigo. Enquanto a economia crescia – e, com ela, se mantinha a satisfação dos estratos sociais mais altos – o sapo foi engolido, mesmo a contragosto. Um inevitável ressentimento aflorou, porém, quando essa mesma elite foi chamada a pagar a conta do desequilíbrio fiscal. A insuportável mensagem passada naquele momento era a de que havia uma classe especial de filhos a quem o pai ‒ antes símbolo por excelência do amor democrático e incondicional – adulava, dizendo ser mais merecedora de seu afeto. Não é necessário se estender na análise das consequências da estratégia. Elas estão registradas a ferro e a fogo na história nacional e na memória afetiva de cada um.

Fernando Pessoa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”

Em paralelo e aproximadamente no mesmo período, ganhou vulto no território nacional um novo credo religioso. Tímido de início, o movimento sofreu uma expansão geométrica ao propor que o reino de Deus não se conquista necessariamente apenas depois da morte, mas pode ser usufruído no aqui e agora. As dádivas divinas também foram logo redefinidas: se antes o fiel tinha de aceitar passar por um vale de lágrimas antes de conquistar a vida eterna, agora já lhe era possível encontrar a bem-aventurança logo ali na esquina, com a compra da casa própria, carro, emprego mais bem remunerado, etc. Na tentativa de reafirmar a origem divina de Cristo, desconstruiu-se sua frágil condição humana. Já não era mais necessário fazer menção à virgindade da mãe ou à ira contra os mercadores do templo. Se não está claro que o verbo divino se fez carne, habitou entre nós e sofreu os mesmos percalços, perde também valor de mercado a ideia central do cristianismo de amar o próximo como a si mesmo.

Não é, pois, de espantar que tanto fundamentalismo, fanatismo, irracionalismo, maniqueísmo, misoginia, homofobia e violência social a que temos assistido impotentes ao longo da campanha presidencial tenham advindo de uma articulação, inédita em nossa história política, entre uma força militar e uma força religiosa. Ambas exigindo submissão irrestrita à voz de comando, ambas proibindo interpretações descontextualizadas de seus discursos, ambas prometendo o alcance do paraíso na terra quando os infiéis forem finalmente esmagados.

Em resumo, estamos sendo chamados a escolher entre dois messias e dois soldados. O foco da esmagadora maioria do eleitorado não está, como seria de se esperar, na análise de seus poderes e fragilidades. O que se almeja explicitamente é conseguir bloquear o canto de sereia do outro. A insatisfação campeia dos dois lados: estamos clamando por uma parcela significativamente maior de benefícios para nossa turma e pela menor cota possível de privilégios para a outra.

Uma dica final para se livrar da angústia. Um de meus livros preferidos, escrito por um psicoterapeuta americano, leva o título “Se você encontrar o Buda na estrada, mate-o”. A mensagem é simples: o Buda não está do lado de fora. Se pararmos de perseguir profetas e gurus, vamos poder finalmente nos concentrar na espinhosa tarefa de alcançar a iluminação por conta própria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desejo de emancipação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

‒ Minha filha, ouça sua mãe. Aceite logo o pedido de casamento do Jair e esqueça essa loucura de se jogar no mundo por conta própria. Ponha um pouco de juízo nessa sua cabeça, meu bem. Já está mais do que na hora. Até suas amigas estão comentando que você está se fazendo de difícil só para valorizar seu passe…

‒ O que os outros pensam de mim não é meu problema. Falta de juízo eu teria se aceitasse atrelar minha vida a um homem que me trata como se eu fosse só mais uma das suas propriedades, mãe. Além disso, não estou embarcando numa aventura maluca. Estou criando meu próprio projeto de vida, de felicidade e de futuro.

‒ Mas, filha, pense bem. Sonhar é bom, necessário até, mas um dia a gente tem de encarar a realidade. O mundo é machista, cruel, não vai facilitar nada para uma mulher que não tem quem a defenda. Você vai ter de enfrentar toda espécie de dificuldade, de falta de dinheiro a falta de respeito. E o Jair tem todas as condições para lhe dar estabilidade, segurança, conforto e uma vida respeitável na sociedade.

‒ Pode ser, mãe. Mas não estou procurando um pai substituto. Já estou bastante crescidinha para continuar sentada no colo de alguém e gostar de ser chamada de princesinha. Não quero ser sustentada, quero aprender a me sustentar. E o Jair não aceita nem sequer pensar na possibilidade de eu continuar trabalhando. Não respeita minhas ideias, acha que pode me convencer aos gritos. É ciumento, possessivo, chega a ficar violento quando acha que minha saia está curta demais. Meu fígado não suportaria a convivência com ele por mais de uma semana…

‒ Meu bem, você já tem maturidade suficiente para saber como contornar essas inseguranças bobas de todo homem. Engula seu orgulho por um tempinho, revele-se uma boa administradora de um lar, dê um filho a ele e, pode apostar, ele vai comer na sua mão o resto da vida. Se um dia não suportar mais, peça o divórcio. Com o dinheiro da pensão polpuda que você vai receber, vai poder retomar esses seus projetos românticos de ajudar os necessitados lá fora…

‒ Minha consciência e minha independência não estão à venda, minha mãe. Não há dinheiro no mundo que me faça querer trocar minha paz de espírito por esse estilo de vida de dondoca que eu desprezo tanto…

‒ Bom, se você pensa assim, então se case com o Fernando. Ele também é um sonhador que aposta que a felicidade é uma equação que envolve só um amor e uma cabana. Sofro só de imaginar como será sua vida quando as primeiras contas chegarem e ele não tiver nem como botar comida na mesa.

‒ Mãe, não entendo porque você acha que minha única chance de realização na vida é me casando com um dos dois. Sabe, eu já cheguei a pensar que o Fernando era um companheiro leal de viagem, mas me decepcionei muito. Imagine que ele me pediu para ser avalista num empréstimo para a compra da casa da mãe dele e até hoje não me pagou. Depois veio com aquela desculpa esfarrapada de que, assim que a economia se estabilizar de novo, ele vai me devolver tudo, que nós vamos voltar a ser felizes. Pior, até hoje nunca me pediu desculpas por ter feito tanta cortesia com chapéu alheio.

‒ Pra você ver que não dá para confiar em quem não tem os pés firmemente plantados na realidade…

‒ Há mais opções entre o céu e a terra do que sonha sua vã filosofia casamenteira, mãe. Não me sinto obrigada a amarrar meu destino a ninguém para ser feliz. O que me encanta é exatamente a possibilidade de escolher novos parceiros sempre que eu sentir que é necessário.

‒ Tudo bem, minha filha, não quero aborrecer mais você com a ótica conservadora de toda velha mãe. Mas preste atenção: não é só casar que dá sentido à vida de uma mulher, é também ter filhos. Eu só queria que você não esquecesse que vai precisar ser amparada na velhice, seja por quem for.

‒ Não esqueci, não, mãe. Acho que é a senhora que esquece que eu posso ser minha própria provedora de amparo. Depois, não acredito que a felicidade só virá se eu me dobrar às conveniências de outras pessoas. Tem mais: os únicos filhos que eu sempre quis ter são os de quatro patas, rabo e latidos… E eles me ensinaram que o único jeito de se sentir pleno é se jogando de cabeça, sem rede de proteção, no abismo do aqui e agora…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A cena aconteceu dentro de um hospital psiquiátrico, no qual eu realizava um estágio obrigatório de formação em psicologia clínica.

O psiquiatra-chefe do hospital, que também era nosso professor na faculdade, distribuía os prontuários aleatoriamente entre os estudantes. A mim coube uma paciente esquizofrênica, internada havia já muitos anos, sem sinal de remissão. Nos últimos meses ela estava sendo submetida a diversas sessões de eletrochoque, aparentemente como última tentativa de trazê-la de volta à realidade.

Acontece que, durante as aulas, meu professor havia feito menção ao fato de que essa forma de terapia não era recomendada por longo tempo, dado o risco de o paciente demenciar. Intrigada, fui ter com ele para conhecer os motivos da contradição entre teoria e prática.

Ao verificar a ficha, ele pareceu ficar extremamente contrariado. Acreditei por alguns segundos que alguém da equipe de enfermagem houvesse desrespeitado suas instruções. Não era isso. A orientação havia partido dele mesmo. Indignada, confrontei-o de forma agressiva. Olhando bem no fundo dos meus olhos, ele explodiu, dizendo: “O que você queria que eu fizesse? Tenho que me sustentar, pagar os estudos de meus filhos e ainda pagar minha análise…. O que você esperava? Que eu fosse vender banana na feira?”

Com a inconsequência típica dos jovens que ainda podem contar com o respaldo dos pais para sobreviver e cheia de fúria pseudomoralista, respondi de pronto: “Me desculpe, mas se eu estivesse no seu lugar, preferiria vender banana na feira! Pelo menos, não teria de pagar terapia para minimizar a consciência de culpa…”

Quando terminei de vomitar tudo o que tinha a dizer, percebi que havia ultrapassado todos os limites da boa educação, do respeito a um mestre e até os de civilidade. Mas já era tarde. Sem dizer uma só palavra, ele permaneceu de pé, com o prontuário na mão, olhando para mim como se se perguntasse como poderia retrucar. Não disse nada.

Alguns dias depois, cruzei com ele nos corredores da faculdade. Ele estava saindo da sala da congregação. Tinha os olhos vermelhos e fungava baixinho. Assustada, perguntei: “Você está resfriado ou está chorando?”

Ele respondeu com aparente naturalidade: “Não, não estou resfriado. Estou chorando mesmo”. Fui inundada por uma sensação de culpa e de vergonha. Imaginei que alguém levara à direção da faculdade a informação sobre o que havia ocorrido com minha paciente e que, consequentemente, ele havia sido punido. Angustiada, pedi desculpas por meu comportamento agressivo na semana anterior e perguntei o que poderia fazer para corrigir a situação. Sabia que ele era um profissional respeitável, sério e sensível.

Sem nem mesmo parar de andar, ele respondeu com um meio sorriso: “Não se preocupe. Acabo de saber que fui contratado em período integral pela faculdade”. Foi minha vez de me emocionar. Era uma mistura de alívio e de orgulho por não ter tido medo de lhe dizer a verdade. Sem saber, havia sido responsável por muita reflexão por parte dele e por sua feliz mudança de rumos de carreira.

Por que conto essa história? Simples, estou sem trabalho há vários meses e extremamente ansiosa para descobrir como fazer frente a despesas extras no final do mês. Uma vozinha lá no fundo da minha consciência avisa que o melhor a fazer daqui para a frente seria começar a me preparar para armar minha barraca na feira e identificar logo fornecedores confiáveis desse fruto tão saboroso que é a banana…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quando a liberdade dá mais medo que a servidão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não tenho acompanhado de perto os lances da atual campanha eleitoral. Envolvida que estou com assuntos mais prosaicos, como minha própria sobrevivência financeira e a evolução pós-cirúrgica de minha cachorra, não consigo esconder de mim mesma o tédio e o desalento que me invadem quando me deparo com as mesmas velhas promessas requentadas, apresentadas como iscas de credibilidade para seduzir o eleitorado.

Navegando pela internet e pelas redes sociais, volto, no entanto, a entrar em contato com um fenômeno que me embasbaca há décadas: a disseminada dependência psicológica de uma liderança política que mostre ser capaz de construir – sozinha e por puro voluntarismo ‒ o futuro que almejamos para o país. Esse não é um fenômeno exclusivamente atrelado à política, é claro. No entanto, o efeito deletério causado pelo contínuo surgimento de pretensos salvadores da pátria assombra mais nessa área.

Hoje quero falar mais genericamente sobre a dinâmica psicológica de quem é chamado a escolher um guia. Gostemos ou não, em diversos momentos de nossa vida sentimos a necessidade de nos apoiar em alguém que caminhe à nossa frente, abrindo novos caminhos ou nos indicando a trilha mais sensata a percorrer em qualquer excursão que pretendamos fazer. É isso que esperamos de um pai, de um parceiro, de um professor, de um conselheiro espiritual ou de um consultor especializado na área em que pretendemos nos aventurar.

Até aí, tudo bem. Faz sentido, se o que estamos buscando é aprender novas habilidades, desenvolver novas competências, identificar novas formas de relacionamento. Posso até concordar que a dependência de um modelo externo de conduta seja decorrência do longo processo de amadurecimento dos mamíferos. O que não posso aceitar é que a dependência psicológica que se prolonga para a adolescência e vida adulta seja teorizada como instintiva ou “natural” da espécie humana. Contar com o apoio de alguém mais experiente é, sem dúvida, fonte de profundo alívio. O problema, a meu ver, está em aprender a discernir em que ponto de nossa jornada de aprendizagem o alívio se transforma em estagnação.

Talvez seja pura ingenuidade de minha parte, limitação intelectual ou simples ignorância ideológica, mas nada me tira da cabeça que a necessidade de esperar que alguém que nos pegue pela mão para nos conduzir a nosso destino pode ter como importantes efeitos colaterais a falta de iniciativa, a acomodação mesmo a contragosto aos desígnios de terceiros e a paralisia intelectual ou emocional que impede de explorar soluções próprias.

Se já me é difícil entender a necessidade de liderança por si só, mais complicado será compreender por que ansiamos tanto nos dias de hoje pelo retorno da autocracia. Esse, infelizmente, não é um fenômeno apenas local. No mundo todo, há demonstrações inequívocas de que a tolerância às novas formas de despotismo vem crescendo de forma assustadora.

Em tempos de empoderamento das minorias, esse fenômeno torna-se ainda mais intrigante. Diversos teóricos da filosofia, sociologia e psicologia já levantaram hipóteses a respeito do que leva as pessoas a aceitar abrir mão do direito à autoexpressão e autodeterminação, trocando-os pela sujeição a uma mentalidade externa. Insegurança causada pelo excesso de escolhas, a volatilização e relativização de princípios e valores morais decorrentes da globalização, medo da liberdade, falta de sintonia com elementos culturais locais – muitas são as explicações possíveis, mas nenhuma com poder de impedir o recrudescimento da vontade de esmagar toda forma de dissidência.

Há pouco tempo li uma reportagem sobre os fatores que estão na base do populismo. Para chegarem ao poder ou nele se sustentarem, os líderes populistas usam e abusam da estratégia de gerar medo na população, caso seus antagonistas sejam os escolhidos. Acredito que nenhum brasileiro que tenha acompanhado as duas últimas eleições presidenciais se esqueceu dos inúmeros exemplos desse tipo de propaganda, tanto a ameaça de que “vai tirar a comida da mesa do pobre” quanto a de “vai privatizar tudo”.

Por que, continuo me perguntando dia e noite, cheia de angústia, preciso que um governante me diga que tipo de educação devo ter, que livros devo ou não ler, com que ideologias políticas posso me envolver, que tipo de família devo construir, com quais parceiros afetivos e sexuais posso me relacionar, com que amigos posso ou não me identificar, por quais princípios religiosos devo orientar minhas decisões dentro de um estado laico, que profissão devo adotar, que formas de entretenimento são mais ou menos aceitáveis ou até por quais critérios posso enquadrar uma obra como arte? Como posso prosseguir na minha luta por mais autonomia se necessito que alguém do lado de fora defina em meu nome o que é moral e o que é civismo?

Passei boa parte de minha vida fazendo pesquisas políticas, na tentativa de compreender as motivações que estão por trás da escolha deste ou daquele candidato ou dos critérios levantados para traçar o perfil de governante ideal. Entrevistei centenas de eleitores para conhecer que mensagens eles retiram das propagandas políticas ou do horário eleitoral gratuito. A única conclusão segura a que cheguei foi a de que todos querem aquilo que sentem não ter no momento.

Há poucas semanas, escrevi sobre a mudança ineficaz. Para quem não leu, relembro: quando o desejo de mudar aparece, o primeiro impulso é fazer o contrário do que se vinha fazendo até então. Se não der certo, aumenta-se a dose. Se, por exemplo, você está com frio, veste uma malha ou agasalha-se com um cobertor. Só que há um limite para a incorporação de mais calor externo. Em um dado momento, você acaba fazendo um strip-tease e, inadvertidamente, volta ao ponto de partida. Em outras palavras, se a alternativa escolhida para a mudança pertence ao mesmo grupo do problema, um estímulo acaba anulando o outro.

Sabemos todos o que não queremos para o próximo presidente e para o próximo Congresso. Somos capazes de fazer um diagnóstico preciso do que vem nos infelicitando como nação. Só falta agora colocar mãos à obra para nos apropriarmos do destino deste país, perceber de uma vez por todas que é nossa responsabilidade como cidadãos monitorar todos os desdobramentos sociais e políticos, independentemente de quem sejam os vencedores desta e de futuras eleições.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fúnebre cenário eleitoral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mais uma emissora de televisão preocupou-se em organizar um debate entre presidenciáveis. Cenário hollywoodiano, profusão de luzes, cores e sons, gente empertigada vestindo suas melhores roupas e escolhendo cuidadosamente as palavras e o tom mais atraente a ser empregado no discurso. A aparente seriedade das pessoas contrastando fortemente com o tom carnavalesco emprestado ao evento. Mas, afinal, o que foi dito? Não sei ao certo, já que não me dei ao trabalho de acompanhar a transmissão, mas posso apostar que tudo não passou do mesmo de sempre: acusações aos governos anteriores, falsos embates entre direita e esquerda, homens e mulheres, promessas de mudar radicalmente o foco e, finalmente, atender aos reclamos da população. Como se a única entidade a satisfazer fosse a sociedade e não o exigente mercado. Manchete do dia: mercado especula com a eleição e dólar opera perto de R$4,00.

Mais um instituto de pesquisa divulgou o resultado bombástico do último levantamento. Primeiro e segundo colocados na intenção de voto mantêm firmes suas posições, mesmo que um corra o risco de ter sua candidatura impugnada e o outro rebole para amansar o eleitorado hostil a suas convicções, sem frustrar a empolgação dos que dão apoio a seus discursos de ódio.

Mais reportagens e mais entrevistas em todos os órgãos de imprensa com os candidatos. Mais análises de especialistas sobre as reais chances de cada candidato chegar ao posto de primeiro mandatário. Angustiantes considerações de cientistas políticos sobre o que está faltando abordar e como corrigir distorções históricas no sistema presidencialista brasileiro.

A sensação de déjà-vu é tão forte que me causa engulhos. Para que, me pergunto, gastar tanta energia com toda essa pantomima e emprestar um ar de seriedade ao que não passa de um espetáculo burlesco? Nada é sério, nada é representativo, nada é convincente. Me desculpem os que se deixam seduzir por tanto falatório para ouvidos moucos, mas o fato é que estamos revivendo a farsa que nos assombra desde que nos conhecemos por nação.

Não tivemos de lutar pela república, ela nos foi dada de presente por um militar abilolado, anteriormente servil ao imperador. Nunca correu sangue de veias pátrias na conquista ou na defesa de direitos civis. Nunca tivemos de perseguir o pleno Estado de Direito. Enfrentamos, é verdade, revoluções e contrarrevoluções, embates pontuais entre diferentes segmentos ideológicos que, entretanto, nunca se generalizaram para se transformar em genuíno levante da cidadania. Experimentamos, é certo, um gostinho refrescante de arejamento em 2013, mas os caciques de sempre se apressaram em fechar novamente as janelas. Por que agora seria diferente? Em poucas palavras, nas eleições de outubro próximo, não estaremos buscando democracia. Ponto. Nem mais democracia.

Em psicanálise se diz que só o que pode ser simbolizado tem o condão de nos tirar do lamaçal da animalidade e nos afastar da miséria humana. E, perguntar não ofende, quais são mesmo os símbolos da democracia para a imensa maioria de nossa população? Liberdade de expressão, direito à autoafirmação, igualdade de direitos, independência e harmonia entre os três poderes da república e até justiça neutra para todos são conceitos vazios, ocos mesmo, para quem sente que sua única forma de participação no regime democrático é votar ‒ mesmo que isso não se configure em nosso país como direito, mas como simples obrigação.

O que estamos procurando de fato, ainda que doa dizer, é o restabelecimento da autocracia. Seja ele um civil, um militar, um príncipe ou um sindicalista, ansiamos por encontrar um líder forte que ponha cobro aos avanços dos movimentos sociais libertários, como o empoderamento feminino, a maior visibilidade dos segmentos LGBTT e negro, a descriminalização do aborto e das drogas, o acesso universal a uma educação de qualidade e a um sistema de saúde impecável, de primeiro mundo ou de padrão Fifa. A ilusão que se esconde por trás desse desejo? A de que seremos para sempre amigos de quem dá as cartas.

Não queremos diálogo, queremos calar a boca de quem ousa dissentir. Se não for por convencimento quanto à superioridade de nosso ângulo de visão, que se inserte então, à força, uma premissa religiosa que sirva de obstáculo definitivo à conquista desses e de novos avanços. Estado laico? Ora bolas, isso é conversa mole para boi dormir.

Não queremos mais liberdade. Ao contrário, já redefinimos muitas de suas formas como libertinagem e estamos cansados de nos sentir oprimidos por ela: agora é tempo de proclamar a necessária volta da moral e dos bons costumes.

Não desejamos mais encarnar o tão propalado espírito de conciliação característico da brasilidade, nossos adversários agora são nossos inimigos. Toda resistência democrática será doravante enquadrada como puro “mimimi” de perdedores, de quem não sabe jogar o jogo. Chegamos a um estado tal de descrença na democracia representativa que a única paz que pode nos redimir é a paz dos cemitérios.

Quem se anima a escolher o menos pior para reformar nossa oscilante democracia?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 4

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estava se candidatando a uma vaga de vigia numa grande empresa multinacional. Tinha acabado de chegar de uma cidadezinha no interior do Nordeste, onde deixara mulher e uma penca de filhos. Da rodoviária, havia ido direto para os testes e a entrevista de seleção. Não havia tempo a perder, já que estava sem vintém no bolso para as despesas mais primárias.

Mesmo cansado e faminto, conseguiu manter a concentração durante todo o processo de seleção. Foi aprovado e encaminhado para exames médicos. Alguns dias depois, apresentou-se diante de mim para receber as orientações finais referentes à contratação.

Parecia um tanto ansioso para saber quando poderia começar, mas foi capaz de ouvir com paciência tudo o que lhe foi dito a respeito de tarefas e horários. A certa altura, não aguentou mais esperar pela informação mais preciosa – a de quanto iria ganhar ‒ e me interrompeu, de forma abrupta. Dei a ele o valor do salário por hora trabalhada. Ele pareceu ficar confuso, sem saber dimensionar se isso era pouco ou muito para suprir suas necessidades pessoais.

Fiz com ele as contas. Quando chegamos ao valor mensal total, o tal homenzinho congelou. Os olhos estatelaram, a respiração ficou suspensa e um ar de suspeição tomou conta de todo o seu corpo. Sem entender a razão daquela transformação, esperei que ele recobrasse o fôlego para continuar. O dito cujo inclinou-se para a frente, com cautela, e numa voz esganiçada perguntou aflito: “Mas o que é que eu vou ter de fazer para ganhar isso?”

by François Ougen, desenhista francês

Ainda pasma, sem compreender o que verdadeiramente o afligia, repeti as informações sobre as tarefas previstas para cada turno de trabalho. Parecendo acuado, ele me interrompeu de chofre: “Moça, sou um homem pobre mas honrado, tem coisa que eu não faço…”

Uma luz surgiu lá no fundo do túnel do meu cérebro. Eu sabia que, no último emprego que tivera no Nordeste, ele recebia um salário miserável até mesmo para as condições de uma região pobre, algo em torno de 50 reais por mês. E o que eu estava lhe propondo agora era uma remuneração pelo menos 200 vezes maior por um cargo similar. Entendi finalmente que o que ele mais temia era estar sendo contratado como matador de aluguel.

Apressei-me em assegurar que essa possibilidade não existia e pedi que ele voltasse a conversar com seu futuro chefe para ter certeza de que estaria trabalhando em condições de igualdade com todos os demais vigias da empresa.

Ele ainda permaneceu sentado por vários minutos, sem reação. De repente, alguma coisa vibrou dentro dele e ele se ergueu resoluto. Abriu a porta e saiu da sala, sem dizer uma só palavra e sem me olhar.

Nunca mais voltou.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Preocupado com as constantes quebras e alto custo de manutenção, o síndico apresentou em assembleia um projeto de reforma dos elevadores do condomínio. Fascinado por tecnologia, ele propôs que a reforma não se limitasse à troca de cabos e reforço da estrutura das cabines, mas que se adotasse um sistema computadorizado de acionamento, definido pelo fabricante como “elevador inteligente”.

Através desse sistema, o elevador mais próximo do piso em que o usuário está é enviado, independentemente de qual dos elevadores seja acionado primeiro. Com isso, afirmava o síndico, empolgado, seria possível não só economizar na conta de energia elétrica, mas também diminuir o tempo de espera. Isso sem contar o benefício de evitar que crianças e adolescentes ‘engraçadinhos’ brincassem de acionar os botões de todos os andares, como costumava acontecer. Até mesmo os condôminos mais renitentes deixaram-se sensibilizar e a proposta foi aprovada por vasta maioria.

Não se passaram nem quinze dias desde a implementação para surgirem os primeiros conflitos. Acostumados com antigos privilégios, alguns moradores passaram a se ressentir com a presença de empregados domésticos e de funcionários do condomínio no elevador social. No entanto, como não dependia mais da vontade destes usar este ou aquele elevador ‒ e a discriminação é vetada por força de lei ‒, perceberam que não havia o que fazer a não ser engolir o próprio desconforto.

Por outro lado, a insatisfação ganhou ares de rebelião incontrolável quando moradores se viram forçados a conviver com cães dentro do elevador. Marcou-se, então, uma nova assembleia para decidir como contornar o problema. Argumentos irados pipocavam de ambos os lados: os donos de cães alegando que era legítimo usufruir dos mesmos benefícios que os demais condôminos e estes protestando contra os “riscos” a que estavam expostos. Se você pensou que o único risco apontado era o de ser mordido ou lambido, enganou-se. Senhoras da fina flor da classe média paulistana chegaram a argumentar, angustiadas, que se sentiam expostas a riscos mais prosaicos, como o de terem suas roupas de festa contaminadas com “cheiro de cachorro” ou ainda a “má impressão” que visitantes mais bem posicionados financeiramente poderiam ter ao se depararem com um cachorro no elevador social.

Depois de horas de discussão acalorada, o próprio síndico acabou apresentando a contragosto uma solução conciliatória: o dono do cão deveria entrar no elevador, apertar o botão do último andar, sair e chamar o outro, de serviço. Mesmo sabedor de que a estratégia acarretaria aumento na conta de energia – o principal benefício alegado e aprovado para a implantação do sistema – ele a apresentou como saída temporária até que, como disse, encontrasse outra forma de tornar o elevador “menos inteligente”.

Teve início, então, a “revolta dos pet lovers”. Capitaneada por esta que vos fala, admito, a rebelião mirou a parte mais sensível do corpo dos condôminos cinofóbicos: o bolso. Ameaçamos depositar o valor mensal do condomínio em juízo até que a causa fosse julgada em definitivo, uma vez que a convenção do condomínio previa que o condômino que provocasse aumento de custos gerais deveria arcar com contribuição mensal maior. Foi o que bastou. Em poucos minutos, começaram a pipocar novas sugestões de como lidar com o conflito de interesses.

A solução vencedora revelou-se um primor de sensatez, uma obviedade tão explícita que ninguém ousou refutar: negociação caso a caso. Ou seja, sempre que, ao entrar no elevador, o dono de um cão encontrasse um morador já em seu interior, deveria perguntar se ele aceitava compartilhar o espaço com um cachorro. Caso recusasse, bastaria fechar a porta e aguardar pela chegada do seguinte.

Até hoje, passados já alguns anos, nunca mais se teve notícia de incidentes ou reclamações.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um por todos, todos por um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha mãe tinha razão: sou mesmo uma pessoa do contra. Talvez por ser canhota e me ver forçada a reinterpretar imagens em espelho, quase nunca resisto ao impulso de priorizar o lado do avesso na análise dos eventos externos e das emoções que eles despertam nas pessoas normais.

Com a Copa do Mundo de futebol, não foi diferente. Apesar de não ter acompanhado nenhum dos jogos por inteiro e não ser capaz de avaliar tecnicamente o desempenho de cada time, experimentei uma sensação de forte alívio quando o Brasil foi desclassificado e não se registraram reações em massa de fúria dos torcedores brasileiros. Pouquíssimas pessoas de que tenho notícia se deram ao trabalho de culpar o técnico ou a falta de garra de nossos jogadores. Ao contrário, todos os que criticavam a alienação do brasileiro médio ficaram sem interlocutor ao constatarem que a maioria absoluta dos torcedores abriu mão da tradicional passionalidade esportiva. Sinal de maturidade?

Acredito que sim. Ao longo de toda a competição, um fenômeno já vinha chamando minha atenção: todos os ídolos, individuais ou coletivos, mostraram ter pés de barro e foram caindo, um por um. E, assombrosamente, mesmo assim, não sobrou muito espaço para vergonha. O humilde reconhecimento da superioridade do adversário foi, para mim, a grande novidade e a mais agradável das surpresas desta Copa. Concluí que o tempo das seleções de um só homem havia acabado. Outro bem-vindo sinal de aprendizado e amadurecimento? Tomara que seja.

No mesmo sentido, quando, em junho de 2013, pipocaram as primeiras manifestações gigantes de rua, meu coração explodiu de felicidade. Depois de décadas de paralisia, senti que estávamos finalmente nos apropriando do destino do país. Pela primeira vez, reivindicávamos a soberania popular para determinar os rumos que as coisas deveriam tomar mesmo nos assuntos mais comezinhos da nação. Aprendíamos na prática que, sem povo, não há democracia.

A profunda cisão esquizofrênica que se seguiu não esmoreceu meu ânimo. Achava – e ainda acho – que esse era o preço a pagar por termos sido secularmente carneiros conduzidos por gulosos lobos a pastos secos e sem fontes de água. Inevitável que, na ausência de pastores confiáveis, o rebanho se dividisse e hesitasse em qual direção seguir. Tudo o que ansiávamos naquele momento era nos afastar das alcateias, ainda que não soubéssemos discernir de pronto quem era lobo em pele de cordeiro e quem era cordeiro em pele de lobo.

Reduzidos ao nosso tamanho original, estamos agora inexoravelmente nos debatendo com as contradições da pátria sem chuteiras. Nossas graves deformações políticas e judiciárias, assim como nossa falta de infraestrutura cidadã, já não podem ser disfarçadas com nenhum photoshop. A hora agora é a de assumir, para consumo interno e externo, que somos menos belos, menos cordiais e menos inventivos do que julgávamos ser. Um fantástico avanço para a alma nacional, já que a maturidade psicológica pressupõe o fim das ilusões de onipotência.

Sinto que o que está em jogo neste momento ‒ não só no Brasil, nem só na América Latina ‒ é uma quebra de paradigma. Do poder central forte, do sistema de dominação autocrática, estamos migrando para um processo de horizontalização de todas as decisões. Todas as hierarquias estão sendo abolidas, todas as lideranças estão sendo contestadas e todo voluntarismo estrebucha em agonia. O tecido social agora esgarça no sentido vertical porque ainda não havíamos nos dado conta de que era preciso reforçar as fibras horizontais. Com isso, acabamos perdendo flexibilidade nas articulações políticas, religiosas e sociais. Literalmente, dobrar os joelhos diante da autoridade ou cruzar os braços na eventualidade de um impasse passou a ser cada dia mais difícil.

Que tempos de muito choro e ranger de dentes ainda estarão pela frente, não há como duvidar. O que colocaremos no lugar das lideranças? Em quais pares poderemos depositar confiança? Se não há mais um líder de matilha inconteste, como lidaremos com o dissenso daqui por diante? Será que estamos fadados a descobrir mais uma vez que o homem é o lobo do homem?

Não tenho resposta para nenhuma dessas questões, mas não acredito no aprofundamento das lutas fratricidas. Quero acreditar que, por puro cansaço de esperar por um grande pai capaz de colocar todos os conflitos em pratos limpos, surgirá no horizonte algum sol de convivência respeitosa com a frustração.

Seja como for, aguardo esperançosa a emergência de novas utopias. O cooperativismo, minha utopia pessoal, é apenas uma das formas que encontrei de apostar na tese de que todo caos é criativo. Se ela se mostrar inviável e se as alternativas falharem, nem tudo estará perdido. Ecoando o pensamento de Eduardo Galeano, manifesto amorosamente a crença de que a função crítica de toda utopia é a de nos forçar a caminhar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Reflexões sobre o poder e a tirania

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Muito tempo atrás, li um interessantíssimo artigo sobre o poder, escrito por um psicanalista argentino ‒ do qual, infelizmente, não lembro o nome – cujas considerações nunca me saíram da cabeça.

Nele, o ponto de partida para a análise era a observação de que, na maioria das línguas latinas, diz-se que um partido, grupo ou indivíduo detém o poder. E, comentava ele na sequência, basta consultar um dicionário qualquer para constatar que o principal significado do verbo deter é o de fazer parar, paralisar, interromper, sustar, bloquear, impedir. Depois de analisar as implicações psicanalíticas do desejo de tolher o outro, finalizava o artigo se perguntando se todo poder é espúrio, na própria medida que se propõe a impedir, total ou parcialmente, que outros segmentos sociais expressem sua autoridade.

Algum tempo depois da leitura, me dei conta de que também na língua inglesa o fenômeno ocorre. Seja através do verbo ‘to hold’ [que se traduz por ‘manter’, ‘deter’], seja através da frase jocosa que aparecia em uma plaqueta em cima da mesa de um presidente dos Estados Unidos: ‘The buck stops here’ [que, numa tradução literal, significa ‘o bastão para aqui’].

Hoje, pensando sobre a surpreendente aproximação entre o presidente dos Estados Unidos e o ditador norte-coreano, bem como nas inquietantes candidaturas à presidência do Brasil para as eleições de outubro próximo, essa coincidência linguística me voltou à lembrança.

Harry S. Truman (1884-1972) foi presidente dos EUA

Poder e força não são sinônimos, assim como autoridade e autoritarismo não coincidem. É inegável, porém, que nos círculos políticos de lá e de cá, muitos se esforçam por seduzir a plateia, tentando fazer crer que há plena sobreposição desses conceitos. Insanidade ou ilusionismo, tanto faz. O mais apavorante é que a bravata encontra eco na doentia sociedade do século 21: um número crescente de cidadãos vem demandando poder cada vez mais absoluto para seus representantes. Estamos, sem dúvida, diante de uma mistura perversa de machismo, conservadorismo, militarismo e egocentrismo.

Resta entender as razões que levam a esse estado de espírito e tentar encontrar um meio de nos livrarmos dele. Tenho cá minhas hipóteses. Quem viajou para Marte nas últimas férias pode ainda não ter percebido o explosivo crescimento dos movimentos de ‘empoderamento’ (eta palavrinha feia, sô!) das minorias. Os assim chamados “millennials” parecem ter embarcado de corpo e alma num comportamento experimentalista, sem precedentes na história. Seu mote é o de ‘se permitir’ viver toda sorte de experiências, sejam elas nobres, como engajar-se em trabalhos sociais voluntários, ou cruéis, como traficar drogas ou matar moradores de rua. É a relativização absoluta dos valores morais e éticos.

Não é preciso ter pós-graduação em psicologia ou psiquiatria para entender que isso provoca profundo desconforto e angústia em quem não se permite afrontar o próprio código de valores. Daí a secretamente desejar contar com um líder tirânico que se mostre capaz de calar em definitivo os que lutam por essas “liberdades” incômodas é só um passo.

No quesito, somos campeões. Basta lembrar das polêmicas que frequentaram o noticiário nos últimos meses: cura gay, escola sem partido, intervenção militar já, não à descriminalização do aborto e das drogas, manutenção do ensino religioso em escolas infantis públicas, militarização da segurança pública, desqualificação do conceito contemporâneo de família, desqualificação dos crimes de racismo em favor do enquadramento como simples injúria racial, e por aí vai. O inferno – não o céu ‒ é o limite para a ânsia de controle dos divergentes.

Uma chamada que encontrei por estes dias na internet chamou minha atenção por explicitar com humor esse fenômeno, ainda que, no original, se referisse apenas a um ministro do STF famoso por libertar corruptos: “Na septicemia, escolhe o lado das bactérias”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lições de desapego

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Desde que entrou em minha vida há exatos seis meses, Vivi, minha SRD afrodescendente, tem me dado lições quase diárias de como me desapegar de tudo o que eu tolamente considerava fundamental para minha felicidade, conforto e bem-estar. Não me entendam mal, não é a primeira vez que me envolvo na tarefa de adestrar um filhote. Mas, como dizia um amigo, é certamente a primeira vez que tenho de cuidar desta que é minha quarta filhotinha.

Ela me força a adotar na prática o conceito jesuíta de pecado, aquele que dita que só há pecado quando há intenção de pecar. Sempre que enlouqueço de raiva com suas traquinagens e tenho ímpetos de atirá-la pela janela, ela me olha com aquele olhar ao mesmo tempo cândido e safado de filhote, como se me perguntasse: “O que foi que eu fiz de errado agora?” Ora bolas, deixa de ser histérica, eu estava só querendo descobrir que gosto isso tem.

Tudo é brincadeira para ela, até mesmo o hábito de abocanhar algo que ela já aprendeu que não deve, bem debaixo do meu nariz, e depois sair correndo, convidando-me a persegui-la pela casa toda. Acompanha compenetradamente cada gesto meu ao longo do dia e, na sequência, dedica-se a tentar repeti-los dentro da lógica e das habilidades caninas. Se acendo um cigarro, na primeira distração ela surrupia o maço inteiro ‒ se possível, também o isqueiro ‒ e os mordisca com ar de prazer. Se a tranco em algum cômodo como castigo, ela logo descobre um jeito de me forçar a abrir a porta, quebrando coisas, fazendo ruídos estranhos ou chorando alto.

Obriga-me a ter disciplina para tudo. Não posso me preparar para dormir sem antes checar se deixei à mostra e ao alcance dela algum objeto tentador para as travessuras da madrugada. Não consigo sair de casa sem antes me perguntar que tipo de retaliação por seu pretenso ‘abandono’ ela vai adotar. Provocação é seu sobrenome e seu passatempo favorito.

Os estragos têm sido pesados do ponto de vista financeiro: ela deixou marcas de dente tanto na lente de meus óculos de leitura quanto nos de sol, abriu um buraco no braço do sofá novinho que ganhei de minha irmã, quebrou absolutamente todos os enfeites de vidro e de cerâmica que acumulei ao longo da vida e, por último, abriu furos na mangueira da máquina de lavar roupas, fazendo com que a área de serviço fosse inundada. Meu limite de tolerância foi ultrapassado quando ela arrancou a capa e comeu diversas páginas de um de meus livros preferidos. Nesse dia, chorei copiosamente pela ‘morte’ dos únicos objetos que considero sagrados, intocáveis.

Educar um filhote, seja de que espécie for, é um exercício diário de generosidade. Perdoar é sempre um desafio sobre-humano. Aprender a se repetir que esses pequenos crimes do cotidiano não são planejados, não são perpetrados com o propósito de causar mágoa ou aborrecimento, entender que cães não sabem estimar o valor financeiro ou afetivo de um objeto, são tarefas dignas de um asceta experimentado – coisa que estou longe de ser e um estado ao qual nunca aspirei chegar.

Ao mesmo tempo, quando, ao final de um dia exasperante, eu contemplo a pequena meliante dormindo a sono solto, abrigada entre as patas de sua companheira peluda, meu coração se enche de ternura e me envergonho de tanto destempero. Magicamente, me dou conta mais uma vez de que sou eu ‒ e não ela ‒ quem está precisando alcançar a maturidade emocional. Melhor dizendo, descubro de novo que somos nós, os humanos, que necessitamos aprender com os animais a bem-aventurança que é saber viver um dia de cada vez, refestelar-se apenas e tão somente no aqui e agora.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Golpe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sete e meia da manhã, toca o telefone. Atendo já um pouco apreensiva, pensando em quem poderia estar chamando àquela hora. Do outro lado, uma voz chorosa implora: “Mãe, me ajuda, mãe!”

Senti pela primeira vez o impulso de estender a mão àquela desconhecida, mas não disse nada. A voz desesperada da filha que eu nunca tive exigia de mim uma escuta terapêutica. Pareceu-me mais sábio apenas esperar pelo restante do discurso de praxe: “Mãe, fui sequestrada. Eles estão querendo me matar se você não der o que eles querem. Por favor, mãe, não desligue nem avise a polícia…”

Não aconteceu. Aparentemente ‒ refleti ‒ meu silêncio desarticulou a cabeça da moça. Sem saber ao certo como prosseguir, depois de uns segundos de hesitação, ela repetiu o pedido de ajuda, só colocando um pouco mais de ênfase na sua pretensa postura de fragilização: “Mãe, mãe…por favor, me ajuda, mãe!!!”

Senti uma onda de ternura tomar conta de mim. Afinal, aquela moça estava mesmo claramente necessitada de orientação materna. Era evidente que ela nunca tivera alguém que a aconselhasse, que lhe desse colo e a levasse a sério pelo menos uma vez na vida. Seria eu esse alguém?

Na dúvida, permaneci em silêncio. Mesmo assim, nas entrelinhas do mais absoluto mutismo, eu lhe disse tantas coisas… Falei da dor da impotência de toda mãe de não ser capaz de moldar o caráter dos filhos de acordo com seus valores mais caros. Repeti a cantilena religiosa de que, depois do pecado original, estamos todos condenados a ganhar a vida com o suor de nossos corpos. Perguntei por quais circunstâncias do destino ela escolhera recorrer a tramoias para sobreviver. Sem julgá-la, afirmei convicta que, em última instância, ela precisava ajudar a si mesma a encontrar o caminho do bem.

Não adiantou, ela não escutou minha maternagem silenciosa. Fez pouco do meu aconselhamento, não reconheceu o desabrochar tardio do meu instinto materno. Pena, eu já estava até gostando de estar em posição de orientar uma mulher adulta, sem ter tido o trabalho de amamentar, trocar fraldas, consolar nos tombos, encorajar as aventuras, educar, compartilhar segredos femininos.

A moça, infelizmente, não agarrou a oportunidade tão inusitada que eu lhe dava de personalizar o golpe, de demonstrar criatividade para, quem sabe, inaugurar uma nova franquia de crime. Continuou repetindo mecanicamente seu pedido de ajuda, como um disco quebrado. Comecei a me irritar. Parece que os jovens de hoje em dia, disse para meus botões, continuam a acreditar que envelhecimento é sinônimo de emburrecimento, lentidão de raciocínio, perda de iniciativa e de noção de lógica.

Aos poucos, fui esmorecendo na decisão de oferecer-lhe suporte. Começava a ficar claro que a hora da doutrinação tinha passado. O caráter da moça estava irremediavelmente formado, para o bem e para o mal. ‘Respeito não se exige, conquista-se’, repeti para mim mesma.

Desliguei.

Dentro de mim, no entanto, o diálogo mudo prosseguiu. Uma sensação amarga de tristeza subiu-me pela garganta. É que, inadvertidamente, ao tentar ajudar uma filha hipotética, eu acabei me dando conta de que meu tempo de gestação de rebentos à minha imagem e semelhança terminara.

Não dê muita importância a isso, a maternidade nunca foi mesmo para você ‒ consolei-me.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um colega da faculdade de psicologia estava realizando um trabalho de observação do padrão de teias fabricadas por aranhas de diversas espécies, para a cadeira de etologia. Querendo causar boa impressão, ele havia coletado diversas espécies nativas e importado outras, visando a uma análise comparativa. Para facilitar a visualização das teias, acomodou as aranhas dentro de caixas de sapato revestidas com um tecido preto e iluminadas por baixo.

Extremamente preocupado para que nada nem ninguém interferisse no comportamento natural das aranhas, tão logo terminava de fazer suas anotações do dia, ele trancava a porta do quarto. Certo dia, apressado para um compromisso de trabalho, ele saiu e esqueceu a porta aberta. Horas depois, ao voltar para casa, encontrou a faxineira nervosa, sentada no sofá da sala, à espera dele. Sem dar tempo para qualquer reação, a mulher começou a reclamar da falta de confiança e de reconhecimento por parte dele. Falava de seu zelo na manutenção da higiene da casa, do seu orgulho de limpar os cantinhos mais escondidos para se certificar de que tudo estava na mais perfeita ordem, e por aí vai.

Sem entender o que estava acontecendo, meu colega a interrompeu: Onde você está querendo chegar? O que foi que aconteceu de diferente hoje? Com ar horrorizado, a faxineira emendou, triunfante: “Então, hoje eu finalmente consegui limpar aquele quarto que está sempre trancado. O senhor não faz ideia da sujeira que encontrei lá. Tudo empoeirado, cheio de teia de aranha, um nojo! E o senhor nem imagina o monte de aranhas que eu achei dentro das caixas. Quase morri do coração de tanto susto… Mas o senhor não precisa se preocupar. Já matei todas e limpei tudo bem direitinho!”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 1

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa feita, eu havia sido chamada por uma multinacional para pesquisar a satisfação de usuários com um sistema eletrônico de vigilância doméstica. Era um sistema sofisticado e complexo, que combinava um aparelho telefônico acoplado a um computador com dispositivos móveis que enviavam continuamente imagem e som da residência a uma central de atendimento. Diante de uma emergência de qualquer tipo, um alerta era enviado automaticamente tanto para as equipes de segurança quanto para pessoas indicadas pelo usuário.

Quando voltei à empresa para apresentar os resultados, fui recebida pelo gerente técnico do produto. Era um homem com vasta bagagem na área, também habituado a sondagens técnicas e pesquisas de opinião. Ele me olhava com ar desafiador, como se dissesse: “Quero ver você apontar algum problema que eu já não conheça”. Fiz de conta que não havia percebido o desdém com que ele encarava meu trabalho e comecei a apresentação dizendo: “Detectamos um problema um tanto delicado…”

Com um meio sorriso de ironia nos lábios, ele me impediu de terminar a frase: “Só um? Nós já descobrimos vários…”. Mais uma vez, sem me deixar intimidar, prossegui: “Bom, o problema que descobrimos parece ter potencial para contaminar toda a eficácia e credibilidade do sistema”. Foi o que bastou para alterar drasticamente a atmosfera da reunião. Num gesto rápido, o homem inclinou-se para trás num susto e, na sequência, jogou o corpo com força para a frente. A cadeira oscilou e, como uma catapulta, quase o lançou ao chão. Seu rosto lívido traía a imagem de autoconfiança que ele tentava passar desde o início.

Mal pôde esperar pela conclusão do raciocínio. Com calma, expliquei que o funcionamento a contento do sistema dependia não só da tecnologia empregada, mas também e principalmente de algo corriqueiro: a estabilidade da corrente elétrica. Caso houvesse uma pane ou simples falta de energia, o usuário estaria totalmente desprotegido. E acrescentei (curtindo o prazer da retaliação, confesso): “E, como o senhor sabe, a primeira coisa que os ladrões fazem ao tentar invadir uma casa é cortar os cabos de energia para não serem flagrados por câmeras ou para os alarmes não dispararem. Em tempo: a concorrência já percebeu isso e já encontrou soluções”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dos paradoxos da pesquisa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, li um artigo que tratava dos riscos de manipulação das pesquisas eleitorais. Com cuidado, o escrito alinhavava brechas que podem fragilizar ou até comprometer a credibilidade das sondagens. Provocativo, o texto terminava com a afirmação de que, considerando o impacto negativo que elas podem exercer sobre o ânimo do eleitorado, talvez fosse melhor abolir a divulgação de pesquisas eleitorais.

Fiquei pensativa e, confesso, um tanto incomodada com essa afirmação. Longe de mim o intuito de negar a existência de estratégias pouco éticas na área. Ao contrário, as teses que o artigo sustentava me fizeram lembrar de uma frase que ilustra bem como se pode destacar um determinado número para ludibriar a opinião pública: “A estatística vem sendo usada da mesma forma que um bêbado se utiliza de um poste de luz – não para iluminar, mas só como apoio”.

Há ainda uma velha piada que vai na mesma direção. Conta ela que o conselho de odontologia de uma cidadezinha do interior decidiu fazer um levantamento sobre as condições de trabalho dos dentistas locais. Ao cabo de poucas semanas, recebeu relatório bombástico de um pesquisador iniciante que apontava um dado inquietante: aumento de 50% no número de mortes entre os profissionais locais. Preocupado, o conselho destacou uma equipe para investigar in loco. Descobriu que a cidade contava com apenas dois dentistas e que um deles havia falecido no mês anterior.

O ponto crucial que pretendo levantar com essa pitada de humor é, portanto, que o problema não está só no modo como os institutos de pesquisa elaboram seus projetos, nem no modo como os dados são coletados. Está fundamentalmente na forma como os resultados são lidos pelos analistas e interpretados pela opinião pública.

O que nem todo mundo sabe é que não são feitos apenas levantamentos estatísticos de intenção de voto. Há diversos tipos de pesquisa eleitoral, que podem ser feitos isoladamente ou em conjunto.

As pesquisas quantitativas, o tipo mais difundido e gerador de muita polêmica, elaboram um retrato da concentração (ou da dispersão) de opiniões a favor deste ou daquele candidato. Funcionam, por assim dizer, como um termômetro do interesse popular. No entanto, deixam em segundo plano ‒ intencionalmente ou não ‒ os motivos que levam cada segmento da população a apoiar ou rejeitar cada candidato.

Esse é justamente o objetivo das pesquisas qualitativas, que propõem um mergulho profundo na motivação do eleitorado, independentemente do fato de uma dada opinião ser ou não majoritária ou representativa de seu segmento. Elas permitem a abertura de outras linhas de investigação, já que podem ser realizadas em grupo (para saber como as opiniões flutuam ao sabor da pressão da mídia e da visão de outros eleitores) ou através de entrevistas individuais.

Graças à abundância de dados sugeridos espontaneamente, as pesquisas qualitativas costumam anteceder os levantamentos quantitativos, e os resultados são normalmente usados para estruturar os questionários.

Não estou querendo dizer com tudo isso que as pesquisas qualitativas são mais confiáveis ou que deveriam sempre acompanhar a divulgação de números. Também não pretendo ingenuamente afiançar que elas são menos sujeitas a fraudes e a distorções intencionais.

Aonde quero chegar, então? Tão somente ao fato de que a força das pesquisas para alterar a disposição do eleitorado está intimamente ligada à falta de educação política. A crença disseminada de que optar livremente por um candidato mal colocado nas pesquisas seria o mesmo que “perder o voto” é icônica do analfabetismo ideológico e da indigência cultural.

Se o voto não fosse obrigatório por estas paragens, talvez ainda houvesse esperança de reverter esse quadro nefasto a curto prazo, mas…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pontaria ruim

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gente, como é que pode?!? Quando é que tudo isso vai ter fim? Será que ninguém mais percebeu o que está acontecendo com a mira do nosso Judiciário?

Promotores estaduais e federais, policiais federais, procuradores regionais e gerais, juízes de primeira e segunda instâncias ‒ além do Supremo, é claro ‒ dão seguidas provas de sua incompetência, seu despreparo técnico, seu viés ideológico, seu descompromisso com a letra fria da lei, além de, arrogantemente, colocarem-se acima das paixões humanas. Por que digo isso? Ora, só os cegos não veem que, por maiores que sejam seus esforços de comprovar suas teses, até agora não atingiram um único alvo legítimo sequer, não encaçaparam nenhuma bola.

A estatística comprova. Do lado dos corruptores, em especial entre os empresários, apenas um minguado percentual, que não deve chegar nem a 10%, confessa-se culpado. Do lado dos pretensamente corrompidos, o que temos? Só inocentes! Repito, 100% de INOCENTES!

By Ray Clid, desenhista francês

Insones há anos, temos assistido ao desfile macabro de políticos acusados injustamente e perseguidos sem dó nem piedade simplesmente por estarem fazendo seu trabalho costumeiro de arrebanhar votos, conquistar adesão, articular apoios, tudo com o único intuito de favorecer suas comunidades de base. Não é para isso que se elegeram representantes do povo?

Dá pena ver o olhar compungido de presidentes e ex-presidentes, ministros e ex-ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados estaduais, deputados federais e vereadores diante das câmeras na tentativa de proclamar inocência. Ouvindo suas vozes esganiçadas pela indignação, como não acreditar que estão, sim, sendo vítimas das artimanhas de seus opositores, dolorosamente traídos por assessores de confiança, matreiramente envolvidos em armadilhas preparadas por bandidos confessos que nada mais almejam do que diminuir seu tempo de pena?

Nenhum – repito, NENHUM – assumiu até agora ter sequer um dia cogitado burlar a confiança que o povo neles depositou. São todos servidores dedicados, verdadeiros livros abertos, gente de passado transparente e meritório, almas puras e bem-intencionadas, verdadeiros guerreiros e mártires da causa pública, tementes a Deus, cônscios de seu papel histórico de promover a igualdade, a justiça e o desenvolvimento do país.

Como, senão por ingenuidade extrema e um certo grau de perversidade, acreditar que sabiam dos malfeitos de seus apaniguados, que se deram ao desplante de exigir vantagens pessoais, amealhar fortunas desviadas dos cofres públicos, usar seu poder de forma espúria para influenciar a tomada de decisões estratégicas para o país?

Onde, afinal, estão as provas de seus supostos delitos? Podem seus perseguidores gastar o tempo de vida que lhes resta procurando por elas que nada encontrarão! Pela simples razão de que não há prova alguma, material, palpável, incontestável. Só delações, delações e mais delações de gente comprometida até o pescoço com o hábito de comprar consciências.

By Sniper, desenhista francês

E, não posso deixar de indagar, quem está por trás de tanto delator interessado em apontar impunemente o dedo para terceiros? Muita gente, distraída com as novelas e ocupada em votar no participante que deve ganhar o BBB, ainda não ligou os pontinhos para visualizar a figura oculta desses procuradores, moleques impertinentes mal saídos das fraldas que, só por terem aprendido a brincar de Powerpoint, acham que podem dar lição de moral a gerações de políticos experimentados e profundos conhecedores da realidade cultural brasileira.

Não sou adepta de teorias conspiratórias, mas não dá mais para tapar o sol com peneira. É uma questão de lógica concluir que o dedo da CIA está metido fundo em todo esse imbróglio. Não dá para esquecer que esse juizeco da Lava a Jato foi treinado nos Estados Unidos e deve ter aprendido essas táticas de destruição de reputações para conquistar espaço. Foi ele que começou com esse negócio cansativo de exigir moralidade pública, essa mania de divulgar conversas particulares gravadas ilegalmente e ver sempre duplo sentido nelas, não foi?

Pois é, acreditem senhores, é corroendo a base de credibilidade de tantas figuras públicas, antes tão respeitadas entre nós, que eles vão conseguir diminuir a importância do Brasil no cenário internacional e nos alijar do mercado de exportação de bens de consumo. Será que ninguém se lembra do que eles fizeram com as carnes brasileiras e estão tentando fazer agora com o aço e o alumínio?

Acordem, brasileiros! O tempo é o senhor da razão e o tempo vai mostrar de que lado está a verdade. Óculos de grau já para nosso Judiciário!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Supremo cansaço

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá pelos idos de 1957, o cineasta Sidney Lumet dirigiu aquela que é provavelmente uma de suas mais emblemáticas obras, o filme “12 Homens e uma Sentença”. Protagonizado pelo ator Henry Fonda, o filme gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho acusado de ter assassinado o próprio pai.

Segundo as regras do tribunal nova-iorquino, o réu só poderia ser sentenciado à morte caso fosse unanimemente considerado culpado pelos 12 jurados, acima de qualquer dúvida razoável. No dia do julgamento, acontecia a partida final do campeonato nacional de beisebol e vários jurados queriam terminar rapidamente a discussão para poder voltar para casa a tempo de assistir aos lances finais. O dia havia sido insuportavelmente quente e, à noite, o desconforto se intensificara com uma chuva torrencial.

Em resumo, tudo conspirava a favor de um debate apressado e desatento entre os jurados. Um deles propõe logo de início que seja feita uma votação simbólica, sem apresentação de argumentos, apenas para conhecer a disposição de cada um para a condenação ou absolvição do réu. Contados os votos, surpresa geral: 11 jurados haviam dado o veredito de culpado e apenas 1 o de inocente. A tensão escala e a pressão sobre o único jurado dissidente cresce exponencialmente.

Henry Fonda
Caricaturado por Thierry Coquelet, artista francês

Este, resistindo com galhardia à irritação dos demais, afirma não ter certeza da inocência do réu, apenas muitas dúvidas quanto à sua culpabilidade. Começa, então, a questionar cada uma das provas e testemunhos apresentados. A cada novo argumento, reação explosiva de incompreensão dos pares e nova rodada de votação. O placar da segunda rodada é ainda mais surpreendente: 10 a 2; os subsequentes, mais e mais angustiantes: 9 a 3, 8 a 4, etc. O jurado que trocou de lado em cada votação apresenta, então, os motivos que o levaram a rever a convicção inicial de culpa. Tem início um debate tenso que se transforma em verdadeira sessão de psicoterapia, durante a qual começam a emergir, sem filtro social, valores, princípios e crenças pessoais. Estes, por sua vez, abrem terreno para a excomunhão angustiada de todos os preconceitos e limitações subjacentes.

Uma hora é o jurado que vive uma guerra particular, sem fronteiras, com o insubordinado filho adolescente. Outra, a do jurado que sente vergonha de ser portador de alto grau de miopia (e que a disfarça trocando os óculos por lentes de contato) que não ousa contraditar o testemunho de uma vizinha igualmente míope. Depois, é a vez de um velho conservador que confessa discriminar, odiar mesmo, os barulhentos jovens latino-americanos. Inútil tentar colocar em palavras o clímax emocional da sessão a partir de cada revelação. A nobreza e a pequenez da natureza humana ilustradas em todas as suas dimensões, o esplendor e o horror acabrunhante das paixões psíquicas de cada um.

Já tínhamos visto antes o filme a que assistimos, mais uma vez constrangidos, ontem. O dia havia sido igualmente exaustivo: as manifestações de rua, as fortes chuvas, o calor escaldante dentro e fora dos corpos humanos, a repercussão da entrevista dada na véspera pelo ministro Gilmar Mendes, a declaração polêmica do comandante do exército sentida como ameaça por muitos, a celebração dos 50 anos da morte de Martin Luther King. Um cardápio de peso literalmente.

Fernando Pessoa

Outra notícia, dada na véspera sem qualquer destaque, a da morte de Winnie Mandela, me fez relembrar uma frase que ela proferiu há mais de meio século, que me parece sintetizar com precisão os embates nada delicados que presenciamos ontem entre os 11 ministros do Supremo:

“Se na construção de um novo mundo for necessário repetir os erros do velho mundo, então não faz sentido criar o novo mundo”.

Antes mesmo de terminado o voto do quinto ou sexto ministro, fui invadida por uma sensação de cansaço exemplar, que beirava à desesperança. O torpor foi mais forte do que qualquer vontade de conhecer o placar final ou sua repercussão dentro e fora de nossas fronteiras. Desliguei a televisão e fui dormir, docemente embalada pelos versos de Fernando Pessoa:

“A sutileza das sensações inúteis, as paixões violentas por coisa nenhuma…. Tudo isso faz um cansaço, este cansaço, cansaço…. Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo cansaço”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.