Conservadorismo e defesa da família

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu estagiava num hospital psiquiátrico, como parte obrigatória da graduação em psicologia clínica. Uma de minhas pacientes era uma jovem franzina, tímida, na casa dos vinte e poucos anos, que pouquíssimo falava sobre sua vida pregressa. Dado seu mutismo quando questionada sobre as emoções que se agitavam em seu universo interior, era difícil para mim obter informações confiáveis sobre os motivos que a haviam levado a ser internada e que alimentavam delírios religiosos frequentes.

Decidi então submetê-la ao teste de Rorschach para colher subsídios que pudessem determinar a melhor forma de abordar o caso. Esse teste, também chamado de “teste dos borrões de tinta”, consiste na apresentação, em uma sequência padrão, de 10 pranchas com manchas aleatórias, em branco e preto ou coloridas, e a solicitação de interpretação simbólica das figuras formadas – mais ou menos como acontece na brincadeira de identificar formatos nas nuvens em movimento no céu que se pareçam com pessoas, animais ou objetos.

A cada prancha apresentada, ela respondia com uma evidente mistura de curiosidade e medo. Depois de se deter por alguns minutos escaneando visualmente mas em silêncio os detalhes com total interesse, ela se retraía súbita e inexplicavelmente, dizendo: “Não estou vendo nada… só meu pai consegue ver”. O comportamento e a frase esdrúxulos se repetiram ao longo de todo o teste. Cada vez mais intrigada com aquela clara proibição interna de revelar conteúdos profundos, resolvi então reapresentar as 10 pranchas, uma a uma, perguntando: “O que seu pai vê aqui?”

Naquele instante, o psiquiatra que supervisionava o estágio entrou na sala e me lançou um olhar furioso. Como eu ousava alterar as regras do jogo irresponsavelmente, confundindo ainda mais a cabeça da garota? Fiz um intervalo, saí da sala e contei a ele o que estava acontecendo. Expliquei que, como o teste é projetivo, isto é, depende da projeção de percepções, emoções e sentimentos pré-existentes no psiquismo do paciente e que só são liberados quando há autorização da censura interna, eu precisava apostar que ela estaria driblando a própria censura ao assumir as percepções do pai como suas e trazendo à tona os elementos necessários para compreender as razões de sua falta de autonomia. Ele consentiu.

Minha estratégia foi um sucesso. Ela produziu um farto material para investigação, na maior parte das vezes com conteúdo de violência sexual. Entrou num frenesi verborrágico ao entrar em contato com uma prancha em que há uma mancha vermelha, com respingos espalhados sobre um fundo preto, que interpretou em meio a muita angústia como vagina sangrando, penetração violenta, sensação de fragmentação do corpo.

Comecei a escarafunchar o histórico familiar da paciente, na tentativa de descobrir as raízes dessas percepções. Sabia que o pai da garota era pastor de uma igreja fundamentalista cristã e era tido na comunidade como modelo de moralidade exemplar. No entanto, ninguém sabia informar como eram as relações dele no interior da família, com a esposa e com a filha.

Contrastando o material colhido no teste com esses fatos, foi-se revelando aos poucos que a garota não só era vítima aterrorizada de um pai autoritário, que se pretendia também possuidor de moralidade religiosa inatacável, mas havia sido estuprada seguidas vezes por ele e dele havia engravidado aos 14 anos. Forçada a abortar para não manchar a reputação do pai na comunidade, com o silêncio cúmplice da mãe, ela colapsou sob o fardo da opressão sexual e enlouqueceu.

Diagnosticada como esquizofrênica, ela passou a ter delírios religiosos, durante os quais se via como a Virgem Maria, a única pessoa isenta de pecado que poderia aceitar a missão de conceber o filho de Deus, representado pelo pai pastor. A morte forçada do filho também se encaixava à perfeição nesse contexto de autoridade divina inquestionável. Só ele sabia o que era melhor para ela e ela não podia duvidar das intenções e desígnios “sagrados” dele.

Sem o saber, eu havia encostado num fio desencapado em que entravam em curto o horror sexual real e a fantasia da pureza espiritual. Ela se refugiava nas alucinações místicas para escapar da loucura de sua realidade familiar. A partir dali, percorremos juntas toda uma Via Crucis de reinterpretações, avanços, quedas e retrocessos, até que ela se abrisse para a possibilidade de ajuda terapêutica. Esse caso me ajudou a entender não só o papel da cisão esquizofrênica na tentativa de restaurar a coesão do Eu mas também a aprofundar minha compreensão da violência contida na estrutura patriarcal de nossa sociedade.

Agora, com a campanha eleitoral de 2022 já em andamento, constato estarrecida que um grande número de candidatos insiste em apresentar-se ao público como “conservador”, repisando orgulhosamente o tema da “defesa da família” como trunfo eleitoral. Inevitavelmente, o caso dessa jovem esquizofrênica volta à minha cabeça e me força a perguntar: A qual família eles se referem, afinal? À família patriarcal, branca, de classe média/alta, heteronormativa? Àquela mesma família em cujo seio se instala a imensa maioria dos casos de pedofilia, estupro, abuso sexual, perversões e violência doméstica? Àquele tipo de família em que deve haver um abafamento compulsório de casos de homossexualidade e transgeneridade, mesmo que isso termine em suicídio de crianças e jovens?

Se é a esse tipo de família que precisamos voltar para reestruturar nossa sociedade, estamos de fato perdidos. Se ele fosse realmente tão poderoso para gerar harmonia social, convivência democrática e progresso, por que vivemos tempos tão sombrios de ódio e intolerância radical? Quando a esse modelo patriarcal se junta a noção de um Deus Pai todo-poderoso, guardião dos costumes para o alcance de elevação espiritual, não há como vislumbrar um futuro de mínima sanidade psíquica, de respeito às diferenças e de reafirmação da cidadania para o avanço das pautas das minorias.

O foco central da família patriarcal cristã sempre esteve na exigência de pastoreio rigoroso da sexualidade… feminina apenas, é bom lembrar. Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar. O duplo padrão de moralidade sexual do patriarcado continua a se vender como salvação da lavoura nacional ‘against all odds’ e, no atual contexto de direito à “liberdade de expressão” sem limites, deriva muitas vezes para um padrão de masculinidade tóxica que ainda seduz politicamente muitas cabeças jovens.

Claro que há famílias saudáveis, bem-estruturadas e funcionais em todos os estratos sociais, raciais e religiosos, mas ninguém se atreve a questionar de que forma esse modelo fantasiado de família de comercial de margarina se encaixa com a realidade da imensa maioria das famílias brasileiras em que as mulheres são as chefes, as provedoras e os modelos inspiracionais, em meio a muita carência, fome, desemprego e violência sexual/social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Minha Páscoa estragada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A bem da verdade, não foi apenas a atual que foi conspurcada. Foram 21 Páscoas minhas estragadas, justo no período que deveria ter sido o mais produtivo e de mais efervescente participação social da minha vida. Longuíssimos 21 anos em que eu e muitos de meus compatriotas fomos forçados a percorrer em silêncio e impotência todas as estações da Via Crucis da ditadura militar e a reviver em agonia todos os anos o martírio da carne de nossos companheiros seviciada impunemente. Para meu desconsolo, a elas juntam-se agora mais três Páscoas estragadas, contaminadas pelo veneno do descompromisso de nossas elites civis e militares para com a vida e a dignidade humana.

Não sei se o indigníssimo general se deu conta em algum momento de que seu pronunciamento foi feito exatamente em referência ao dia em que os cristãos celebram a vitória do espírito sobre a carne. Ao dia da Ressurreição do compromisso cidadão (mais do que cristão) com o combate à desigualdade, com o respeito às diferenças e com a justiça social. Não, é mais do que provável que ele não tenha percebido. A Páscoa, para ele, deve ser apenas mais um feriado de comilança com a família, depois do tempo do jejum forçado. Aquele dia tão aguardado em que o gosto amargo de sangue em suas bocas pode finalmente ser substituído pelo sabor doce da consagração do princípio do excludente de ilicitude.

Tivesse compreendido que ‘mesmo calada a boca, resta o peito’, não teria se dado ao luxo de debochar de maneira tão afrontosa de nossa dor, de nossas feridas mal cicatrizadas que voltam a sangrar sempre que somos atingidos por novos golpes de desfaçatez. Pensando bem, é até compreensível que ele se dirija à nação como se dono fosse do país e da razão: não está acostumado a perguntar a opinião de seus comandados. Foi treinado para mandar, não para o exercício da cidadania.

Para sustentar sua indiferença arrogante, o Pilatos de plantão deve ter partido da premissa de que foi uma escolha de nossa sociedade – representada por todas aquelas senhoras cristãs da Marcha da Família com Deus pela Liberdade – a implantação de um regime de horror e exceção. Afinal, tudo estava uma bagunça e havia o risco de uma ditadura comunista, não é mesmo? Estava claro o que os mais céticos nunca conseguiram compreender: a urgente necessidade de implantar um regime autoritário de direita para impedir a ascensão do autoritarismo de esquerda. Mas, por um descuido, por um desses raciocínios matemáticos incompreensíveis, ele pulou de uma equação a outra e acabou não conseguindo explicar a conexão lógica entre a necessidade da tortura e o pleno restabelecimento da democracia.

Desculpe minha ignorância, general. Não compreendo muito bem as razões estratégicas de Estado para conduzir a nação com mão de ferro a seu destino glorioso de paz e harmonia social. Deve ter sido um ‘mal necessário’ para alcançarmos o ‘bem’ de uma vida civilizada, disciplinada, em que os de farda se locupletam e os sem farda se contentam resignados com a evidente impossibilidade de restauração da moralidade. Pena que nem todos, como eu, compreendamos a nobreza patriótica dos atos das Forças Armadas nos porões do Doi-Codi.

Para ser sincera, seu pronunciamento fez-me lembrar a prepotência da patricinha alienada que reage às cobranças de maior sensibilidade social dizendo: “O que vem de baixo não me atinge”. Perdão mais uma vez, general. Nós, aqui de baixo, não conseguimos visualizar a estrada toda, só os descaminhos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A síndica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que se torna praticamente virtuose na arte de manipular emocionalmente outras pessoas. Sua expertise é provocar a fúria de qualquer um que atravesse seu caminho, fazendo comentários desrespeitosos sobre características que a pessoa não tem como controlar (como cor da pele, gênero, deficiências físicas ou mentais), desqualificando moralmente seus oponentes e abalando sua autoestima.

Um dos pontos-chave dessa estratégia é que a ofensa seja feita sempre de forma sorrateira, indireta: é preciso que o agressor pegue o outro desprevenido, seja através de uma postura inicialmente amistosa, seja através de um raciocínio ferino rápido durante a conversação que pareça ocasional, não-intencional. O emprego de um tom de voz contido ou jocoso colabora para que a intenção de causar descontrole emocional no noutro se concretize mais rapidamente. O lado triste é que, quando a vítima finalmente sai do sério, retrucando de forma intempestiva, ela não está dando uma resposta à altura, mas apenas reforçando a eficácia da estratégia e confirmando o poder demolidor do agressor.

As mulheres sabem bem como isso funciona. Acuadas por frequentes comentários discriminatórios a respeito de sua competência técnica ou autoridade para liderar grupos, ou ainda por observações de baixo nível (normalmente de cunho sexual), se reagem chorando ou estapeando o agressor, lá vem a velha cantilena: “Mulheres são instáveis emocionalmente, não têm sangue frio para lidar com situações de tensão, não têm senso de humor”. E o agressor, impune e com presumido ar de espanto, se rejubila com a comprovação na prática de suas teses.

Forçoso é admitir que, para que a estratégia funcione, o agressor precisa possuir algum resquício de inteligência. Precisa saber que não pode levantar acusações diretas aos berros, uma vez que isso demonstraria para os circunstantes que ele também não consegue controlar seus impulsos. Precisa saber identificar com antecedência qual é o posicionamento exato de seu oponente na escala reativa que vai de “sangue de barata” a “pavio curto”. Precisa impedir a qualquer custo que os circunstantes se alinhem com a vítima e saiam em defesa dela. Um caso emblemático desse tipo de expertise é o que eu relato abaixo.

Todo mundo sabe como os síndicos costumam ser malvistos pelos moradores de um condomínio. As razões para esse estereótipo são muitas: postura autoritária, moralismo, tentativas de interferência na vida particular dos moradores, formação de panelinhas no atendimento às demandas dos moradores, suspeitas de apropriação indébita ou de má gestão orçamentária, dentre muitas outras.

No condomínio onde moro não foi diferente. A síndica de ocasião era uma senhora de cerca de 80 anos, que se apresentava como especialista em administração de pessoal, contabilidade, legislação trabalhista e fiscal. O síndico anterior havia sido acusado de desviar dinheiro do condomínio. A eleição dela representava, portanto, a esperança de uma faxina completa nas contas do condomínio.

Era uma pessoa altiva e austera mesmo fora das funções de síndica. Ríspida no trato com moradores e funcionários, logo começou a causar um sem-número de conflitos. Sentia-se à vontade para legislar sobre novas regras de convivência caso a convenção do condomínio fosse omissa nesse sentido. Gritava com crianças e adolescentes que brincavam no jardim do térreo pisando na grama, ou ouviam música alto. Vira e mexe soltava uma circular recriminando hábitos dos moradores que, segundo ela, contrariavam a imagem de um condomínio “de classe”.

Uma das coisas que mais a irritavam era o contato afetivo próximo dos moradores com os porteiros. Alegando questões de segurança, ela passou a proibir que o contato fosse além do ‘bom-dia’. Mandou reformar a portaria, colocando-a num plano mais elevado e revestiu os vidros com filtro escuro. Proibiu os funcionários de se afastarem do posto mesmo que por alguns segundos para ajudar moradores com sacolas de compra ou problemas de locomoção.

Ao longo do tempo, sua especialidade mostrou ser mais especificamente a de tirar os moradores do sério, tratando-os como subordinados. Para isso, ela não economizava adjetivos pejorativos e humilhações em público. Chamou a mãe de uma moradora, de quase 90 anos, de esclerosada. Acusou, sem provas, um morador eletricista de ter feito uma gambiarra na antena de tevê para ter acesso indevido a canais pagos. Certa vez, depois de ter brigado com um morador gay por seu comportamento espalhafatoso, interfonou para meu apartamento, pedindo que eu alertasse a mãe dele de que ele “não valia a comida que a mãe preparava”.

Intimidados, os condôminos deixaram de recorrer a ela para resolver quaisquer pendengas. Temendo serem a próxima vítima de seus maus bofes, limitavam-se a comentar em voz baixa pelos corredores os absurdos mais recentes. A tensão escalou sem controle até o dia em que ela resolveu confrontar um morador que era um ex-militar aposentado por distúrbios psiquiátricos. Como o homem tinha surtos frequentes de agressividade e andava armado, representava um páreo duro para a intempestividade dela. Certo dia, ao passar em frente ao escritório da administração, ele foi questionado sem meias palavras se não se envergonhava de ser “encostado na mulher”, que trabalhava dia e noite para sustentar a casa, enquanto ele levava uma vida fútil, cuidando apenas de sua cachorra.

Foi o que bastou: furioso, o homem invadiu o escritório e estapeou a síndica sem dó nem piedade. Pega no contrapé pela primeira vez, ela registrou um boletim de ocorrência, mandou trancar a porta da administração e deslocou um vigia para fazer sua segurança 24 horas por dia. Contratou um advogado e exigiu que os moradores pagassem por seus serviços, alegando que estava no exercício de suas funções quando da agressão. O rebuliço foi total. Logo os moradores se dividiram, uns apoiando uma mulher idosa vítima de agressão e outros justificando a perda de controle de um homem aviltado em sua honra, já sem muitos freios racionais.

Por fim, um grupo de moradores decidiu organizar um abaixo-assinado para a realização de uma assembleia extraordinária, em que se discutiria o afastamento definitivo da síndica em função de tantas polêmicas. Para que ninguém fosse alvo isolado de fúria, ficou combinado que cada morador apresentaria de própria voz as circunstâncias de seu embate pessoal com ela. Informada dessa tática e vendo que não teria como contraditar cada caso, poucos minutos antes do início da assembleia, a síndica apresentou sua renúncia por escrito.

Aprendi com essa mulher que não há uma forma 100% eficaz de reagir a esse tipo de manipulação emocional, nem mesmo o silêncio despeitado. No limite, pode-se respirar fundo, perguntar-se se há um fundo de veracidade no comentário insultuoso e retrucar usando da mesma técnica: a ironia ou o sarcasmo.

Certa vez, quando nos encontramos no corredor e ela pretendeu me ensinar a melhor forma de embalar o lixo para que ele não provocasse mau cheiro, olhei para ela espantada e emendei com toda coragem: “Nossa, me desculpe, devo estar ficando com Alzheimer! Imagine a senhora que eu não me lembro de ter pedido sua opinião…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Das intenções

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um fenômeno relativamente recente espalha-se pelo mundo como praga. Filho dileto do pensamento dicotômico, da polarização sem sentido, da mania de enxergar o mundo em preto e branco e de raciocinar sempre em espelho, ele ganhou em inglês o título de ‘whataboutism’.

O nome pode ser complicado de entender mas é uma das características mais marcantes da bipolaridade da cultura brasileira. ‘What about…?’ pode ser traduzido como ‘E quanto a…?’. Refere-se a uma tática comum de conversação em que, ao invés de responder diretamente a uma crítica, assumindo-a como pertinente e legitimando-a (ou não) na resposta, opta-se por desviar do assunto em pauta e focar na contracrítica à isenção (ou ao caráter) de quem levantou a discussão pela primeira vez. É um jeito matreiro de demonstrar que a crítica está por princípio invalidada pelo simples fato de que o outro lado também não pode ser considerado totalmente isento de miopia, viés ideológico, preconceito, parcialidade, culpa ou responsabilidade.

Se você ainda não ligou o nome à situação, é fácil lembrar como isso acontece entre nós. Alguém critica alguma medida controversa da administração Bolsonaro e lá vem a indefectível pergunta: “E o PT? E o Lula?”. E o debate se arrasta interminavelmente em torno de quem teria feito mais mal ao país, a corrupção das esquerdas ou a contínua destruição do patrimônio natural e das instituições democráticas brasileiras promovida pela extrema-direita. Embora fosse possível esperar que levar em consideração os argumentos dos dois lados da disputa implicasse maior transparência ou racionalidade na abordagem, não é isso o que acontece: ao contrário, o maniqueísmo só se aprofunda e interdita a manifestação de neutralidade, acusando-a de “ingenuidade”, analfabetismo político ou alienação. A ninguém ocorre perguntar: se os dois lados são perniciosos, como escapar da armadilha da polarização e promover a emergência de uma terceira via responsável, como deixar de votar em nomes e passar a pensar em termos de projetos de futuro para o país ou, no limite, como desapegar da ideia de que só um salvador da pátria pode nos tirar do atoleiro em que nos metemos.

Os exemplos abundam, cada um deve ter seu preferido no noticiário nacional ou internacional. Agora, diante da invasão da Ucrânia, o whataboutism ressurge poderoso, reeditando o patrulhamento ideológico dos tempos da ditadura militar, como numa espécie de indagação irritada sobre o ‘lugar de fala’ de cada parte envolvida nas críticas. Só que, desta vez, ele vem ineditamente mancomunado com outro mecanismo psicológico perverso que passei a chamar de ‘gaslighting’ geopolítico. Ou seja, toda vez que alguém posta um elogio à resiliência dos ucranianos e à coragem e espírito patriótico de Zelenski – e as mulheres são maioria, nesse sentido – muitos analistas deixam no ar a suspeita de que se está “romantizando” a guerra e vendo o líder ucraniano como uma espécie de Príncipe Valente que veio salvar a donzela fragilizada e acuada.

Verdadeiros batalhões – tanto de direita quanto de esquerda – se mobilizam para demonstrar que não há inocentes no conflito, que a Ucrânia está pagando o preço de cutucar irresponsavelmente onça com vara curta, que Zelenski teve várias oportunidades de negociação com a Rússia antes da guerra e as descartou, que é um ‘inocente útil’ manipulado pelo imperialismo dos EUA e pelo expansionismo da Otan – lembrando que ambos têm as mãos sujas de sangue inocente e, portanto, não têm moral para acusar Putin de terrorismo de Estado. Todos sempre se pretendendo especialistas em conflitos no leste europeu, agregando “informações privilegiadas” obtidas em jornais e revistas especializados ou alegando possuírem contato com fontes mais confiáveis entre os ‘insiders’.

No Brasil, ao whataboutism vieram ainda se juntar duas outras bestas apocalípticas: a defesa irracional da liberdade de expressão sem limites (mesmo que ela signifique o direito de injuriar terceiros e atacar a democracia) e da supremacia das liberdades individuais em desfavor dos interesses coletivos. Não é só na política que usamos e abusamos desse tipo de cacoete intelectual. Desde o direito ao aborto, passando pela inaudita violência contra mulheres, gays e trans, as cotas raciais nas universidades, o viés do judiciário que não enxerga o abismo de desigualdade social, até a substituição da adoção de bebês humanos abandonados por filhos de 4 patas, nos damos cotidianamente ao luxo de manifestar desapreço pela conciliação de diferentes princípios éticos e visões de mundo.

Diferentemente do que acontece com os animais, o discurso humano é sujeito a um sem-número de mal-entendidos. Como dizia muito apropriadamente o psicanalista Lacan, você pode saber o que disse mas nunca o que o outro escutou. A escolha das palavras, o tom de voz, a postura corporal e o gestual que empregamos ao defendermos uma ideia são todos dependentes da interpretação de seus significados. Isso nos remete inexoravelmente ao reino das intenções.

E o terreno das intenções é pantanoso e impenetrável por princípio, já que só se pode lidar com suposições. Questionar-se a respeito das reais intenções de quem justifica a guerra levantando bandeiras como ‘desnazificação’ da Ucrânia ou a nobreza de intenções de quem defende a paz, suspeitando do alastramento da ‘russofobia’, só eleva o conflito a um novo patamar de tensão. O subtexto da guerra psicológica ora em curso agrava sobremaneira nossa já combalida consciência cidadã e certamente terá reflexos importantes sobre a próxima campanha eleitoral.

É de se esperar que assistamos em breve a um forte recrudescimento das teorias conspiratórias, a novos delírios persecutórios decorrentes do inesperado reagrupamento das forças que se diziam anteriormente “anticomunistas” e “patrióticas” e da triste ideia que as minorias devem se curvar diante da vontade da maioria. Preferencialmente, sem nem tentar lutar pela abertura de novos espaços de conciliação.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Brasil: um país para não-amadores

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da imensa importância da energia elétrica – e do gigantesco estrago que ela pode causar na vida das pessoas comuns caso falte por alguma razão – foi quando a luz acabou no prédio da empresa em que eu trabalhava.

Eu atuava no RH da companhia e minha sala ficava no primeiro andar. Naquele momento, eu estava finalizando a contratação de um funcionário e precisava esclarecer alguns pontos da remuneração a que ele teria direito com o departamento financeiro – que, para meu desgosto, ficava no quarto andar. Como a coisa era urgente, subi pelas escadas e me deparei com uma pá de funcionários inertes, recostados em suas cadeiras, braços cruzados e olhar perdido na distância. O silêncio era geral e todos pareciam resignados com a situação, esperando obedientemente que a energia fosse restabelecida para entrar novamente em ação, como cachorros adestrados para não se mover até que um apito ou tiro fosse disparado.

Surpresa e incomodada com a apatia geral, tentei fazer o supervisor resolver o problema fazendo contas à mão mesmo, já que o recém-contratado não podia esperar. Ele me olhou com ar de perplexidade, como se eu lhe estivesse pedindo para escalar o Everest sem cordas. Respondeu que seria impossível, uma vez que teria de fazer cálculos complexos para posicionar os benefícios previstos para o cargo proporcionalmente à remuneração dos demais funcionários do setor a que a pessoa iria pertencer.

Foi minha vez de ficar perplexa. Perguntei se não havia alguma calculadora manual que pudesse dar conta do recado. Ele balançou negativamente a cabeça, sem disfarçar uma careta de desdém. Era como se ele me dissesse: Como assim? Calculadoras manuais são objeto de interesse de museus, mas não de uma empresa multinacional como a nossa. Não pude deixar de pensar no meu velho pai, também contador, que varava madrugadas a fio fazendo e refazendo suas contas incansavelmente na ponta do lápis. Não gostava de calculadoras e nunca se permitiu aprender a lidar com computadores.

É curioso como a gente desaprende certas habilidades ao terceirizá-las para máquinas. Se você teve de redigir algum texto mais longo à mão nos últimos anos, sabe do que estou falando. Se precisou lembrar do número do telefone de algum conhecido sem dispor de uma agenda eletrônica, também. Até hoje me pergunto como os mais jovens fazem para reter os aprendizados escolares se sua memória foi integralmente delegada ao Google.

Voltou à minha cabeça um acidente aéreo acontecido na rota São Paulo – Belém do Pará. O piloto havia se distraído ao inserir o código da região de destino no computador de bordo e só percebeu o engano depois de horas sobrevoando a floresta amazônica sem enxergar o aeroporto em que deveria pousar. A bordo havia um mateiro, experimentado nas características geográficas da região. Acompanhando o trajeto dos rios, a posição do sol, da lua e das estrelas, o dito cujo logo se deu conta de que o piloto estava perdido. Levantou-se, foi até a cabine e alertou o piloto que estavam fora de rota. Preferindo confiar mais nos instrumentos de bordo do que na sabedoria ancestral de um homem do povo, o piloto continuou voando em círculos até que o combustível acabou e o avião acabou se chocando contra as árvores.

Sem um plano B efetivo, não há como lidar com imprevistos. Dizem que as maiores descobertas científicas acontecem quando a máquina quebra. Como apontou Darwin em sua obra, não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive. É o mais adaptável, o mais flexível diante das situações extremas. Por estranho que pareça, meu cérebro sempre se sai melhor em situações de alta tensão. Aliás, um dos meus prazeres mais extravagantes é imaginar o que eu faria se vivesse no século 18 e precisasse obter ajuda rápida sem poder contar com os recursos tecnológicos contemporâneos.

Terça-feira, 15 de fevereiro de 2022, 6 horas da manhã. Ao acordar, percebi que estava sem acesso à Internet. O problema não era falta de energia, mas algo errado com a minha conexão. Já prevendo atraso com minhas traduções, peguei o telefone para reclamar com a operadora e, surpresa! Meu telefone fixo estava mudo também! Entrei em surto: pela primeira vez na vida a sensação de estar isolada do mundo civilizado representava uma dor insuportável.

Nunca fui exatamente fã dos computadores, mas sempre foi motivo de orgulho para mim manter-me atualizada, em sintonia com a realidade. De repente, me ocorreu que eu já dispunha de um celular. Como não o uso habitualmente, não havia me dado conta de que a salvação estava ao alcance da minha mão. Liguei para o serviço de atendimento da operadora só para ficar ainda mais transtornada. Uma voz eletrônica descontraída me informou, assim como se nada de anormal estivesse acontecendo: a previsão é a de que o serviço seja restabelecido na quinta-feira, 17 de fevereiro, após as 18 horas!

Meu cérebro travou de tanta indignação. Vivendo na principal cidade da América Latina, em pleno século 21, num mundo em que a informação circula em velocidade ultrassônica, ele não conseguia entender como uma empresa que vende justamente acesso rápido ao mundo se permitia oferecer resposta em passo de tartaruga – e ainda encarar o fato como mero acidente de percurso totalmente desculpável.

Instantaneamente, comecei a fabular formas de vingança contra tanto descaso. Acessei o site do Procon, na vã expectativa de que pudessem forçar a empresa a resolver o problema mais rápido. Qual o quê! Para pasmo ainda maior, pediram um prazo de 20 dias para investigar junto à equipe técnica do provedor qual teria sido o real motivo da interrupção do serviço: incompetência, descaso ou simples obstáculo tecnológico incontornável.

Eu acabava de perceber que a indisponibilidade da tecnologia era ainda mais poderosa do que a falta de energia elétrica. Eu havia sido devolvida, de fato, ao século 18. Impotência, humilhação, descrença. Agora era eu de mãos vazias contra o Golias da comunicação, uma cidadã sem poder de influência contra os verdadeiros donos da nação.

Fernando Sabino, em seu livro Encontro Marcado, imaginou um divertido ataque terrorista contra a típica indiferença das autoridades brasileiras: certa manhã, os habitantes de uma cidade descobrem que não podem sair de casa porque há um gigantesco pão interditando a entrada. Mais tarde, surgem outros pães em pontos aleatórios da cidade, interrompendo o tráfego nas ruas, avenidas e pontes. Perplexidade geral. Peritos são chamados às pressas para examinar tão exótico artefato: nada com que se preocupar, trata-se apenas de farinha, água e fermento. Logo outras cidades começam a relatar o mesmo fenômeno e, em poucas horas, o país inteiro é paralisado.

Pondero que tipo de pão terrorista eu poderia utilizar em substituição. De repente, faz-se luz: vou infiltrar-me nas hostes inimigas e destruir o sistema por dentro, usando as redes sociais para aliar-me a outros usuários insatisfeitos e aumentar a pressão. Dito e feito, experimento uma sensação tola de justiça. Relaxo, me deito indolente, à espera do retorno ao paraíso.

Sexta-feira, 18 de fevereiro, uma e meia da tarde, a conexão é finalmente restabelecida…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

BREAKING NEWS: Deus não é mais brasileiro!

Myrthes Suplicy Vieira (*)


O Altíssimo convocou uma cadeia de rádio e televisão de urgência para um pronunciamento bombástico, retransmitido por todas as plataformas de streaming.

Com o rosto tenso e a voz embargada, começou dizendo:


“Quero informar que estou abrindo mão em definitivo do título de cidadão brasileiro. Como sabem todos, tenho o dom da ubiquidade e, portanto, posso assumir todas as nacionalidades ao mesmo tempo. Agrada-me que as pessoas me tratem como um dos seus, uma vez que isso sinaliza que habito seus corações. No entanto, não me parece mais adequado que um determinado povo queira sequestrar para sempre minha identidade só para si.

Aceitei a contragosto por muito tempo a falácia de que sou brasileiro. Na época, pareceu-me simpática a homenagem que me prestavam, já que minha mãe também é considerada nativa desse país miscigenado e gigante e foi inclusive aclamada sua padroeira. Além disso, queria deixar claro na ocasião que não é preciso demonstrar a sisudez e a formalidade dos povos do Velho Continente para ter acesso a mim. A descontração, a alegria e a espontaneidade típicas da cultura brasileira me cativavam e, confesso, me davam também a oportunidade de expandir meu domínio sobre todo o continente americano. Era, portanto, não só uma questão familiar mas também estratégica para minha igreja.

Parecia-me ainda uma justa retribuição por todos os privilégios que concedi ao Brasil. Dotei a terra brasiliense de múltiplos recursos naturais. Os brasileiros puderam contar sempre com uma abundância de água, terras férteis, sol o ano inteiro, ausência de cataclismos e vulcões. Os mais belos cenários naturais do mundo eu os plantei aqui. Permiti que a maior floresta tropical da terra aqui florescesse. Adornei estas terras com uma das floras e faunas mais exuberantes, coloridas e belas do mundo. Para habitar esse paraíso terrestre, escolhi um povo multifacetado, herdeiro dos melhores traços de caráter de três etnias fundamentais: brancos, índios e negros.

Imaginava que a harmonia entre o homem e a natureza nesse pedaço de chão tão generoso fosse durar para sempre, assim como a integração e a colaboração de todas as raças. Mas o que fizeram com tantos dotes? Escravizaram índios e negros, alijaram os mais pobres do usufruto dos bens derivados de seu próprio trabalho, destruíram todos os biomas escavando a terra para dela extrair ouro, pedras preciosas e minerais, como se não houvesse amanhã. Envenenaram os rios para acumular fortunas e, no processo, mataram de sede e de fome as populações ribeirinhas. Deixaram-se levar pela crença de que a destruição do patrimônio natural, humano e cultural em nome do progresso era prerrogativa dos seus governantes e de sua elite empresarial. Acreditaram que o bolo da economia só pode ser dividido depois de ter crescido e, por isso, não aprenderam a compartilhar. Não satisfeitos, zombaram de todos os seus vizinhos sul-americanos que enfrentavam uma história de escassez e de revoluções sangrentas.

Mais grave, imaginaram que minha ira diante de tanta insensibilidade e desumanidade seria aplacada se construíssem templos revestidos de ouro para minha adoração. Que tipo de ser abominavelmente vaidoso seria eu para deter meu braço de justiça em troca de luxo fútil? Alardearam que estou no comando de todas as operações que interferem na vida do homem e, blasfêmia, insinuaram que até mesmo eventuais desastres naturais, períodos de fome e seca, de crise política, degradação moral e desalento espiritual faziam parte de minha vontade soberana, caracterizando-os como forma de punição aos homens maus. Ora, mau seria eu se permitisse que o castigo fosse generalizado e atingisse quem não tem como se defender da cupidez dos homens poderosos que só querem perpetuar a injustiça social e a desigualdade.

Jamais me imiscuí em seus assuntos políticos, até porque cansei de dizer que meu reino não é deste mundo. Embora alguns de meus representantes na terra tenham por vezes tentado me associar a esta ou aquela força político-ideológica, nunca tomei partido nas disputas humanas por poder. Eu lhes concedi livre arbítrio justamente para que pudessem determinar o melhor rumo para suas vidas e para o da nação. E, muitas vezes, vocês escolheram seus líderes com base na miopia do rancor e do ressentimento pessoal, não na razão. Quando se deram conta de que haviam se colocado voluntariamente nas mãos de tiranos impiedosos, imploraram pela minha interferência e eu nada fiz. Esqueceram do comando bíblico: faze tua parte e eu te ajudarei.

Para minha suprema tristeza, seus dois últimos mandatários declararam terem sido escolhidos por mim. Inominável absurdo! Elegem inconscientemente o Anticristo de plantão e ainda me culpam? Repito: A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César. Assumam responsabilidade por suas escolhas equivocadas de uma vez por todas. Pelo amor de Deus (no caso, eu mesmo), cresçam, amadureçam. Tenho mais o que fazer do que ficar cuidando de picuinhas humanas.

Tolerei por séculos esse estado de coisas, acreditando que as demonstrações de fé inabalável em mim e de resiliência da gente humilde brasileira bastariam para instaurar novos tempos de comunhão entre o povo e seus dirigentes. Mas o país do futuro promissor também não aconteceu nesse sentido. Ultimamente as coisas atingiram um patamar paroxístico que não posso mais tolerar. O ódio entre irmãos nunca esteve tão forte, a desigualdade nunca pareceu tão irreversível e a insensibilidade social de seus dirigentes jamais se mostrou tão despudorada. E tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que seus líderes políticos proclamam que o Brasil está acima de tudo e eu estou acima de todos. Será mesmo?

Como isso é possível se tudo o que fazem é repetir como um disco quebrado meu nome e o de meu filho Jesus, aceitando, ao mesmo tempo conviver com o mais dramático quadro de desamor ao próximo de que se tem notícia? Como fiz questão de deixar registrado na Bíblia no começo dos séculos, meu nome não pode ser pronunciado em vão. Entendam em definitivo que a salvação nunca vem de fora, que palavras e ações têm de coincidir para que as coisas mudem para melhor.

Compreensivelmente, não posso mais acobertar tanto desatino. Ontem, quando soube que seu ministro da Saúde – aquele mesmo que já foi até comparado a Herodes por precisar de um “número significativo” de mortes de crianças para tomar alguma ação prática de defesa de suas vidas – disse ter se inspirado na minha sagrada família para desenvolver um novo programa de saúde familiar, entendi que não há mais esperança de tudo mudar. A hipocrisia e o cinismo venceram. Mesmo sabendo e repetindo todos os dias que a verdade liberta, seus dirigentes optaram explicitamente pela desfaçatez, pelo perjúrio, pela ignomínia.

Se vocês dizem conhecer minha vontade e ainda acreditam que ela deve prevalecer, saibam que eu já não acredito na sua capacidade de superação do egoísmo, nem em seu amor por mim. Vocês decidiram livremente pelo pior dos caminhos e devem, portanto, percorrê-lo até o fim, sem mim.

Em bom português: Cansei, pra mim já deu. Fui, vazei. Hasta la vista, babies…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O Papa, os filhos e os pets

Papa Francisco

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Causou espécie o recente pronunciamento do papa Francisco de que seria um sinal de egoísmo e perda de humanidade a decisão de “trocar” filhos por pets. Não sei como as palavras do papa ressoaram junto às feministas, aos defensores da causa animal ou aos católicos tradicionalistas, mas admito que esse discurso me atingiu em cheio.

Em primeiro lugar, porque nunca quis ter filhos, embora tenha contemplado muitas vezes a possibilidade de adoção e me dedicado à criação de meus sobrinhos e sobrinhos-netos. Em segundo lugar, porque há 20 anos convivo prazerosamente com cachorros e os considero essenciais para meu bem-estar psicológico. Em terceiro lugar, ainda que não menos importante, porque nunca achei que, na decisão de adotar um pet, estivesse implícita necessariamente a escolha de substituição afetiva, a ideia de não querer lidar com a criação de um filho humano. Por que não as duas coisas ao mesmo tempo?

Confesso que uma fala forte como essa, associando o amor aos animais com menos amor à humanidade me chocou por ter saído da boca justamente de um papa que escolheu o nome de Francisco – o santo protetor dos animais – para enaltecer seu pontificado.

Não pretendo absolutamente crucificar um papa que me encanta desde que assumiu o pontificado. Compreendo que, por ser o líder máximo de uma estrutura patriarcal, hegemônica e conservadoramente misógina, ele precisa moderar suas palavras para não detonar uma crise que poderia ser fatal ao catolicismo, diante da crescente influência do neopentecostalismo.

No entanto, o que me parece central na sua mensagem é que, na tentativa de conciliar visões de mundo antagônicas e não ferir suscetibilidades, Francisco acabou dando uma no cravo e outra na ferradura. Antes de mais nada, não deve ter escapado a ninguém a inoportunidade do ‘timing’ de sua fala: como desejar colocar mais crianças num mundo pandêmico, em que os recursos naturais do planeta se esgotam a olhos vistos e onde o desemprego e a fome campeiam? Mesmo entendendo que ele não poderia escapar de estimular o comando bíblico do “Crescei e multiplicai-vos’, como desconsiderar as diferenças abissais em termos de contexto político, econômico e social de cada país ou continente?

Mas os deslizes conceituais não param por aí. Voluntária ou involuntariamente, Francisco colocou em pé de igualdade conjunturas psicológicas e sociais distintas, mesmo dentro de uma mesma comunidade. Misturou, por exemplo, a opção de não ter filhos biológicos com o tema da responsabilidade social de adoção (que deveria ser contraposta mais propriamente com a crescente valorização das técnicas de fertilização in vitro ou barriga de aluguel, acessíveis apenas aos mais ricos). Me veio à cabeça na hora aquela canção satírica de Eduardo Dussek (“Troque seu Cachorro por uma Criança Pobre”) que fez muito sucesso por aqui nos anos 80.

Talvez por ser um homem idoso, Francisco não conseguiu abarcar em sua exortação as profundas diferenças psíquicas e aspiracionais de homens e mulheres, tratando como se fossem idênticos os desejos e sentimentos vinculados à paternidade e à maternidade, o que evidentemente não são nem nunca foram. Ignorou, consciente ou inconscientemente, as lutas de emancipação femininas e os dilemas éticos enfrentados por muitas mulheres ao entrar para o competitivo universo do trabalho. “Esqueceu-se” de mencionar que os cuidados com a prole sempre foram tratados historicamente como atribuição exclusiva das mulheres. Deixou de abordar os graves transtornos psicossociais derivados do abandono masculino de suas parceiras logo após tê-las engravidado e do decorrente abandono de recém-nascidos por impossibilidade de sustento financeiro.

Talvez ainda mais grave, assumiu que o desenvolvimento de um vínculo de amor entre pais e filhos é algo natural, instintivo e está inscrito mais especificamente na natureza feminina. Há um livro chamado ‘Um Amor Conquistado, o Mito do Amor Materno’, de Elisabeth Badinter, que demonstra de forma exaustiva que essa pretensa devoção amorosa incondicional da mulher a seus rebentos flutua ao sabor das épocas e das culturas. Ela narra como se dava a criação de bebês na Europa dos séculos 17 e 18: as crianças eram normalmente entregues a uma ama e levadas para um depósito na zona rural, onde eram acumuladas sem qualquer cuidado higiênico, e as que sobrevivessem só eram devolvidas às mães após os cinco anos de idade. Sempre me perguntei também como uma mulher estuprada pode vir a amar o fruto de uma violência sexual, como defendem muitos cristãos fundamentalistas antiaborto.

Do ponto de vista psicológico, não sei se há base científica para se afirmar que se “escolhe amar” isto ou aquilo. Há muito pouco de racionalidade na entrega amorosa. Que seja possível eleger objetos preferenciais de amor só faz sentido à luz das necessidades afetivas individuais, valores, carências, traumas infantis, contingências atuais, etc. Mas parece não haver qualquer fundamento científico na crença de que apaixonar-se por A significa desapaixonar-se por B, C ou Z, ou de que um amor substitui todos os demais possíveis.

Já a necessidade de cuidar de outros seres vivos – seja de uma planta, uma baleia ou outra pessoa – me parece uma tendência universal, que não é apanágio do universo feminino, mas abrange também os homens, todas as classes sociais, raças e idades. Excetuando-se, é claro, os casos de psicopatias e sociopatias que abundam entre nós.

Isso tudo posto, preciso concordar com Francisco em alguns aspectos: há realmente pessoas que optam pela convivência com os bichos porque não conseguem superar suas dificuldades de relacionamento com outros humanos. Tenho ainda de dar a mão à palmatória de que a tendência de tratar pets como filhos é um fenômeno recente, uma distorção típica da pós-modernidade líquida de que falava Bauman, e eivado de egocentrismo e futilidade.

Mais do que filhos, acredito que os pets são representações de um ego ideal – isto é, revelam os traços de personalidade valorizados pela pessoa para se destacar socialmente, assim como as pré-condições impostas por ela para a formação de um relacionamento minimamente aceitável com outras criaturas (sujeição incondicional ao seu estilo de vida e valores, além de risco quase zero de virem a ser abandonados um dia).

Falando nisso, o mesmo descompromisso que muitos revelam com filhos humanos pode ser testemunhado com os pets todos os dias nas ruas e praças das cidades: o número de animais abandonados só fez crescer tão logo a pandemia deu os primeiros sinais de recrudescimento.

Pode parecer paradoxal, mas estou convicta de que, ao contrário do que apregoa o papa, a convivência com os bichos nos humaniza ainda mais – ou seja, nos desarma de nossa intelectualidade discriminatória e, dessa forma, destrói o mito da superioridade moral da espécie humana.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lamento, mas…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Leio no dicionário em relação ao significado do emprego de “mas” em uma frase: conjunção coordenativa, que liga orações com as mesmas propriedades sintáticas, introduzindo frase que denota basicamente oposição ou restrição ao que foi dito”.

Desde a icônica frase de Mário Amato, então presidente da FIESP, referindo-se a Dorothea Werneck, então ministra da Indústria e do Comércio, “Ela é inteligente, apesar de ser mulher”, nunca mais tinha atentado para o sentido de correção de rumo do pensamento embutido no emprego de uma simples locução conjuntiva. Só com a ascensão ao trono de Jair Messias Bolsonaro e, em especial, após a eclosão da pandemia de coronavírus, voltei a prestar atenção às intenções ocultas contidas num pronunciamento de autoridade.

Impressionantemente, o presidente da República parece jamais ter-se dado conta da gravidade de seus constantes lapsos linguísticos. Nunca percebeu que seu pretenso compadecimento pelo sofrimento de seu povo ia somente até a página 2 (isto é, o capítulo de apoio à sua reeleição), jamais mostrou ser capaz de colocar um ponto final na frase lamurienta que lhe foi evidentemente impingida por conselheiros e estrategistas políticos. Jamais permitiu que suas alegadas condolências se fizessem acompanhar e se traduzissem num rosto crispado pela dor, num corpo alquebrado pelo peso da responsabilidade ou num gesto fraterno de estender a mão a quem precisasse, anunciando alguma medida urgente de amparo às comunidades mais atingidas.

Precisou sempre colocar um “mas” imediatamente após a expressão de seu suposto lamento, para introduzir uma frase aviltante qualquer que comunicasse o verdadeiro significado de altaneira indiferença contida em suas palavras. Como um moleque que diz de forma inconsequente: “Foi mal, pessoal, mas é o que temos para hoje” ou “Deu ruim, mas e daí?”. Sentiu sempre a compulsão de manifestar oposição ferrenha à lógica científica da quase totalidade das cabeças pensantes no Brasil e no mundo, duvidar da legitimidade dos procedimentos recomendados por tantos órgãos nacionais e internacionais de saúde. Sonhou sempre secretamente ser aclamado como o único chefe de Estado em todo o mundo capaz de apontar outra solução – mais rápida, barata e menos trabalhosa – para equilibrar os desafios econômicos e sanitários, mesmo que para isso tivesse de caminhar sobre uma montanha de cadáveres e se tornasse alvo do ridículo internacional.

Nunca se envergonhou de demonstrar publicamente que não está nem um pouco alinhado emocionalmente com o sofrimento da população carente, dos trabalhadores, dos idosos – e, mais recentemente, com a aflição de pais e mestres em vacinar o mais rápido possível as crianças. Em todas as ocasiões em que foi instado a expressar oficialmente constrangimento diante da ausência de políticas públicas para combater o desemprego e a fome, ele optou por relativizar a importância de tanto infortúnio e se isentar de qualquer forma de responsabilidade. Preferiu colocar a economia à frente da vida de sua gente, contrastar sarcasticamente sua suposta coragem de militar destemido à mariquice da sociedade civil, sugerir hipocritamente que estava impedido de agir por determinação do Judiciário e denunciar a “ditadura” de todos aqueles que adotaram procedimentos de prevenção e isolamento.

Seu insolente “Sou Messias, mas não faço milagres” vai passar para a história universal como a demonstração mais cabal de insensibilidade social e falta de empatia das piores lideranças populistas. Tão criminosamente pervertida quanto o lema nazista de “O trabalho liberta” afixado no portão dos campos de concentração, sua mensagem de Natal revelou-se mais um exercício nauseante de mitomania:

“Estamos finalizando mais um ano. Um ano de muitas dificuldades. Contudo, não nos faltaram seriedade, dedicação e espírito fraterno no planejamento e na construção de políticas públicas em prol de todas as famílias”.

Ao criar o conceito de atos falhos, o sábio judeu Sigmund Freud destacou que eles representam uma solução de compromisso entre o impulso individual desviante e as normas sociais, trazendo à tona “sem querer” um desejo inconsciente que havia sido reprimido – ou seja, ilustrando sempre um ‘sem querer, querendo’. Campeão mundial de atos falhos e medalhista olímpico de ouro na categoria arremesso de responsabilidade à distância, com mais essa demonstração de alienação da dramática realidade brasileira, Bolsonaro deixou escapar pela enésima vez que seu eternamente repetido amor à pátria, a Deus, à família e à liberdade serve apenas ao propósito de reafirmar seu compromisso com a mentira, a desfaçatez, o ilusionismo e o autoelogio.

A nós, cidadãos conscientes, só resta retrucar em uníssono ao excelso mandatário nas próximas eleições: “Lamento, capitão, mas desta vez vou de comunista de novo”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A pressa é inimiga da perfeição?

Myrthes Suplicy Vieira (*)


A pressa é inimiga da perfeição?


Depende. Se você for um burocrata distraído e, principalmente se trabalha com números, é muito provável que a pressa seja mesmo inimiga da perfeição. Com quase toda certeza, se você for um neurocirurgião de ponta operando um AVC hemorrágico posicionado numa região cerebral muito delicada ou inacessível, sua necessária atenção aos mínimos detalhes pode também ser comprometida pela sensação de urgência. Por outro lado, se você for um socorrista do SAMU atendendo a um acidente de trânsito grave com muitas vítimas, piloto de helicóptero da PM, motorista de ambulância ou bombeiro atendendo a um incêndio em um asilo de idosos ou na UTI neonatal de um grande hospital, a pressa pode muito bem ser entendida como um estímulo à perfeição.

O desafio é sempre, em todos os casos, equilibrar a entrega do trabalho dentro do menor prazo possível e com o maior padrão de excelência/qualidade disponível. A isso se dá o nome de competência e, para atingi-la, é preciso contar com uma equipe multidisciplinar altamente capacitada para acompanhar cada etapa do processo e comunicar rapidamente aos demais envolvidos a necessidade de providências extraordinárias.

Doutor Queiroga não entendeu bem, no início, onde o presidente queria chegar ao pedir que ele impedisse – ou, em caso de insucesso por falta de argumentos técnico-científicos convincentes, que atrasasse ao máximo – a vacinação infantil. Mas anuiu mesmo assim. Depois que lhe explicaram que seu chefe ainda oferecia muita resistência ao projeto e estava inseguro quanto à ocorrência de eventuais efeitos colaterais graves nesse público que poderiam cair nas suas costas, ele finalmente vislumbrou uma solução: discutir o tema com todos os órgãos intermediários de controle e com a sociedade civil organizada, antes da tomada final de posição do Ministério da Saúde. Não contava, porém, com a agilidade dos técnicos da Anvisa para aprovar por unanimidade a vacinação para esse segmento etário e o beneplácito de um sem-número de associações de pediatria, imunologia e infectologia.

No afã de mostrar serviço e agradar à chefia, sem comprometer sua permanência no cargo, ele no entanto acabou trocando as bolas: entendeu que sua missão era a de entregar a pior qualidade possível (no sentido da urgência do pedido de compra de novas doses e da logística de distribuição aos estados) dentro do prazo mais dilatado autorizado pelo STF. E foi isso o que ele fez, com total denodo. Contrariando todas as expectativas até mesmo de pais e mestres, ele imaginou ter feito um pronunciamento médico respeitável, durante o qual tentou disfarçar seu servilismo acrítico e sua incompetência atrás da alegação cor-de-rosa de que está comprometido com a segurança dos pequeninos brasileiros. Seria comovente se não fosse pela inevitável comparação com o desempenho tétrico de seu antecessor.

Um antigo colega consultor de empresas desenvolveu um conceito revolucionário para explicar às chefias as causas de frequentes erros em áreas sensíveis da organização capitaneadas por um gestor imaturo, autoritário ou inexperiente, que me encanta desde sempre: o da Síndrome da Anuência Precoce. Sabe aquele garoto assustado, acostumado a ser maltratado por um pai arrogante, perfeccionista e ditatorial, que não consegue ouvir até o fim a mais nova exigência de cumprimento de uma tarefa que lhe é apresentada aos berros? Então, dada sua enorme ansiedade e medo de falhar, a criança não consegue interromper a fala do pai para pedir esclarecimentos adicionais, contra-argumentar com dados realísticos ou tentar negociar um prazo mais elástico. Atira-se de cabeça na tarefa e, afundado na angústia da provável surra que vai levar se não obedecer aos conformes do combinado, não se organiza, atropela as fases do processo, ignora a necessidade de revisão da eficácia dos procedimentos adotados em cada passo e descuida do acabamento, terminando por falhar miseravelmente outra vez. À culpa vem se somar a crença de que é burro, desajeitado e não talhado para se destacar no mundo profissional. Pronto, está criado mais um jovem neurótico, especializado na arte de responsabilizar as contingências de sua vida, botar a culpa em terceiros e se alienar de toda e qualquer iniciativa no futuro.

Mesmo um observador não-treinado pode afirmar com toda a segurança que o fenômeno atinge pesadamente todos os integrantes do ministério bolsonarista. Da educação e cultura (inserida curiosamente, para vergonha nossa diante dos espantados olhares de estrangeiros, na estrutura do ministério do turismo), passando pelo Itamaraty e pelas Forças Armadas, até os criativos ministérios da economia e do meio-ambiente (que não se cansam de apresentar em fóruns internacionais um Brasil que desconhecemos integralmente), não há um só dia em que não sejamos convidados a interpretar as estatísticas nacionais sob o prisma de Alice no País das Maravilhas, elaboradas por orgulhosos portadores crônicos da Síndrome de Anuência Precoce.

Mas não se preocupe, prezado concidadão. Tudo isso deve acabar em breve. Deve ser apenas um efeito colateral indesejado da prevalência de militares em cargos civis de grande especialização técnica. E, para um militar, contrariar a voz de comando é uma insensatez inaceitável. Quem diria que um ex-capitão reformado por indisciplina agregaria tanto poder e influência para fazer calar generais e humilhar em público os mais prestigiados cientistas e instituições nacionais?

Que falta faz um estadista! Cuidado redobrado com quem você vai eleger no ano que vem.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Golpe 2: A opção pelo engano

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha “filha” voltou a ligar ontem à noite, pedindo ajuda, depois de tanto tempo. Já tinham se passado vários meses desde sua última investida malsucedida e eu apostava que ela havia aprendido uma lição definitiva: nunca subestime a inteligência da pessoa a quem você pretende enganar, principalmente se ela for bem mais vivida do que você.

Para quem não acompanhou minha desdita quando da primeira tentativa de golpe, relembro: mesmo tendo adivinhado desde o primeiro minuto que se tratava de uma tentativa de extorsão, quando ouvi o apelo choroso de ajuda, algo se mexeu dentro de mim e senti pela primeira vez a necessidade de oferecer escuta terapêutica a uma golpista. Aquela jovem me soava tão convincentemente desorientada que me deixei sensibilizar e optei por permanecer em silêncio, sem recorrer a um discurso moralista igualmente batido, ao longo de todo o telefonema. Funcionou, é verdade, ela desligou sem saber como prosseguir, mas me deixou pensativa quanto ao meu papel na sociedade para proporcionar uma efetiva orientação psicológica aos jovens neste nosso desatinado mundo líquido contemporâneo.

Desta vez, mal ouviu meu alô, ela já emendou aos prantos: “Mãe, me ajuda!”. Respirei fundo e perguntei, como quem não se dá conta do que está acontecendo: “Quem está falando?”. Ela repetiu sem pudor a velha cantilena: “Sou eu, mãe, me ajuda por favor!”. Num ímpeto, misto de surpresa pela ousadia da moça em repetir um golpe tão manjado e de tristeza por a quadrilha ser tão desorganizada, a ponto de não riscar o número dos telefones que “deram ruim”, respondi: “De novo, minha filha???”

Ela desligou instantaneamente. Voltei aos meus afazeres, satisfeita por ter interrompido já no nascedouro mais uma tentativa burra de chantagem, mas de novo não pude deixar de mergulhar em pensamentos sombrios a respeito das dificuldades de maternagem num mundo pandêmico. Meu cérebro voltou a se questionar sem parar: O que leva uma pessoa a optar por ganhar a vida aplicando golpes? Mãe (ou pais) afetivamente ausente na vida real, falta de escola, de um guru espiritual ou de aconselhamento psicológico? Baixa autoestima ou inaceitável falha de caráter? Preguiça mental ou prazer psicopático com o sofrimento alheio? Que homens presos, já sem qualquer esperança de reinserção produtiva na sociedade, recorram a esse expediente talvez seja mais fácil de compreender, mas uma mulher aceitar utilizar seu talento dramático para denunciar e/ou se aproveitar da desigualdade de oportunidades?

Perto dos escândalos políticos que nos acabrunham todos os dias, refleti, isso não é nada. Que direito tenho eu de julgar o ânimo trambiqueiro de mulheres que nem conheço? Que sei eu da vida que essa moça leva? Se ela fosse presa, não seria dispensada de punição pelo juiz sob a alegação de furto famélico? Que tipo de sermão moralizante poderia eu articular se a falta de consciência ética e a insensibilidade social campeiam sem controle entre nós e vêm de cima? Que sei eu de tão fundamental sobre a maternidade (que nunca quis experimentar) para orientar e pretender compensar o desencanto com a vida no coração dessa moça? Aos poucos, o cansaço intelectual bateu e a programação rame-rame da tevê de sábado à noite conseguiu sobrepujar minhas apreensões. Distraí-me e esqueci o assunto.

Por volta da meia noite, o telefone toca de novo. Dessa vez, meu coração pulou no peito, angustiado. Quem será que me liga a essa hora? Só pode ter acontecido algo de ruim com alguém da minha família. Saio correndo para atender. Lá vem de novo a vozinha pretensamente desesperada da minha hipotética filha: “Mãe, preciso da sua ajuda mesmo, mãe… Teve um assalto de novo na minha casa…”

De início, fiquei agradavelmente surpresa por ela ter acrescentado um elemento novo à entediante trama. Dessa vez ela alegava não haver sido pega de surpresa na rua, os marginais que a atacaram haviam invadido sua casa. Que bom, pensei, ela deve ter ouvido meu conselho silencioso de inaugurar uma nova franquia de bandidagem. Mas o entusiasmo durou pouco. Ela mais uma vez não soube como prosseguir diante do meu silêncio. O rancor começou a crescer no meu peito.

O que me incomodava nem era tanto o susto naquela hora incômoda. Era a falta de inteligência e de sagacidade da moça. Para sobreviver na malandragem, pensava eu pela enésima vez, é preciso ter flexibilidade e agilidade mental, prever e se adiantar a uma eventual reação inusitada da vítima, deixar no ar outras deixas que reforcem a credibilidade quanto ao próprio desamparo. E a pessoa que me abordava pela segunda vez no mesmo dia demonstrava não ter avançado um milímetro sequer na direção por mim pretendida. Irritada, usei da voz mais doce que consegui arranjar e disse: “Lamento, filha…Faz o seguinte, meu amor. Da próxima vez que você me ligar, tente inventar novos argumentos. Que falta de criatividade, meu bem! Você não está honrando a tradição da família! Entenda, pela última vez, que eu não tenho filhas….”

Foi o que bastou. Mais uma vez, ela bateu o telefone na minha cara, assustada. Posso apostar que mais alguns meses vão se passar antes que ela ligue de novo. E, se Deus quiser, minha pressuposta herdeira vai então saber fazer jus ao perfil de feminilidade intelectualmente sedutora que eu sempre cultuei. Espero que ela me surpreenda com um discurso parecido com: “Minha senhora, desculpe estar ligando a essa hora. Isto não é um golpe, estou realmente precisando de ajuda. Liguei para a senhora antes de falar com a polícia porque uma amiga comum me garantiu que eu poderia contar com seu bom senso e expertise profissional…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Libertas quæ sera tamen

A Roda da Fortuna
décimo arcano maior do Tarô de Marselha

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Na crítica apressada à fala de Bolsonaro, ecoada por Marcelo Queiroga, alguns raciocínios importantes se perderam.

Vale mesmo arriscar perder a vida em nome da liberdade? Depende. Depende de qual liberdade estamos falando: da liberdade individual ou da coletiva? Dos direitos assegurados pela Constituição, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos – que, aliás, está comemorando seu 73º aniversário –, ou dos deveres de todo cidadão para com sua coletividade? Na lógica ilógica presidencial, tudo leva a crer que ele mais uma vez se coloca ao lado do direito autoarrogado de se afirmar agressivamente como um conjunto de crenças pessoais mais ou menos defensáveis, mesmo que no processo seja necessário transgredir as normas e os valores civilizatórios que devem reger as sociedades democráticas.

É do conhecimento de todos que o governo Bolsonaro tem se oposto sistematicamente a todo tipo de liberdade democrática: a liberdade de imprensa, a liberdade de cátedra, a liberdade de culto religioso e a liberdade de orientação ideológica. Ao mesmo tempo, reafirma de todas as maneiras possíveis a liberdade típica do adolescente rebelde: a de não fazer nada que não se queira fazer espontaneamente, de lutar contra toda forma de imposição de autoridade externa. Direito de sair à noite com os amigos e de encher a cara, sim; obrigação de arrumar o quarto e tratar os irmãos e pais com respeito e cortesia, não.

Pescar em área de proteção ambiental; dispensar o uso de cadeirinha para transporte de crianças pequenas; tornar mais elástica a tolerância com infrações de trânsito para motoristas profissionais; armar a população civil para compensar a ineficácia da segurança pública; defender o direito de agentes policiais reagirem com violência em situações de medo ou surpresa; ameaçar fechar os dois outros Poderes da República com a força das armas; autorizar o garimpo em terras indígenas e impedir a demarcação de novas terras; acusar sem provas ONGs, fiscais e cientistas de agirem com base em interesses escusos contrários aos interesses da pátria; dar-se ao direito de difundir teses as mais estapafúrdias nas redes sociais a partir de meras convicções – mesmo que contrariem a ciência, a harmonia social, a dignidade humana. Tem lei que regulamenta isso daí? Sou contra! Não tô nem aí pro que dizem os especialistas. Sou o presidente e não abro mão da minha autoridade, porra!

Na mentalidade tortuosa de nosso mandatário-mor, não há – nem deve haver legalmente –oposição entre liberdade individual e interesse coletivo. E só duas formas de liberdade individual merecem dele respeito incondicional: a liberdade de opinião/autoexpressão (a dele e a de seus apaniguados, é claro) e a liberdade de ir e vir. Se e quando elas forem contraditadas por outras autoridades, a denúncia indignada é sempre a mesma: os outros estão agindo como ditadores.

À luz de tantos outros atos falhos que caracterizam a vida psíquica do capitão, não custa perguntar: como ele pode se opor à ditadura se a defende abertamente como solução governamental em outras circunstâncias? Como pode exigir que a sociedade brasileira esconjure toda forma de ditadura de esquerda e aceite bovinamente a de direita? Para se eximir desse paradoxo, só mesmo admitindo que ele acredita que tudo o que vem de dentro é bom, sensato, expressão da verdade que liberta e não pode ser contestado; já tudo o que vem de fora é mau, violentador de consciências e precisa ser combatido.

Não é preciso ser estudado em direito, sociologia ou psicologia para saber que a vida em sociedade implica necessariamente na imposição de limite às liberdades individuais. Se você mora em condomínio e decide arrastar até altas horas sua festinha particular, com música que ultrapassa o número de decibéis permitido por lei, precisa estar pronto para receber a visita da polícia e a contratação de um advogado que justifique seu direito de fazer o que lhe aprouver dentro do seu apartamento. Se você decide sair à rua nu sob o pretexto de que quer combater a hipocrisia social, deve estar preparado para lidar com a repercussão negativa no seu emprego e no seu círculo familiar, religioso e social. A liberdade de matar, roubar ou discriminar também não está coberta por nenhuma legislação no mundo todo.

Nos vemos agora na iminência de tomar partido no debate sobre o direito de infectar, disfarçado sob a oposição entre vida e liberdade. É bem verdade que quando se deseja mais segurança é preciso abrir mão de um pouco de liberdade e, inversamente, quando se deseja mais liberdade inevitavelmente temos de nos dispor a desprezar um pouco de nossa segurança pessoal. Mas colocar outras vidas em risco, além da própria, é mesmo uma liberdade de consciência assegurada pela Constituição? É sempre possível acreditar que vacinas são menos eficazes para criar anticorpos do que a própria contaminação, mas será que é possível acreditar que todos os organismos reagem da mesma forma a patógenos externos? Não é o que a ciência diz.

Por causa da globalização, muitos valores regionais e nacionais acabaram sendo relativizados e, aos poucos, foi se perdendo na esteira a noção de bem comum. Agora tudo depende do grupo ao qual se acredita pertencer. Se Deus está morto, tudo é permitido. Se você acredita que vida e liberdade são mutuamente excludentes, também.

Antonio Abujamra tinha uma frase emblemática para orientar seu filho quanto ao pretenso direito de autoexperimentação libertária que ele reivindicava: “A vida é sua, estrague-a como quiser”. Esse é o conselho que dou hoje a todos os apoiadores do bolsonarismo. Mas atenção: lembre-se que outras pessoas e grupos podem adotar a qualquer momento a mesma linha de raciocínio. Quando a Roda da Fortuna girar novamente, é mais que provável que você seja apontado nas ruas como um elemento nocivo ao bem-estar da sua coletividade. E daí…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 7

Soldado alemão
by Alfred-Georges Hoën (1869-1954), artista francês

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem os psicanalistas que a especialidade da histérica é colocar-se repetidas vezes e voluntariamente dentro da boca do leão. Por temerem a exposição a situações que poderiam lhes causar perda do autocontrole, os histéricos inconscientemente – e paradoxalmente – manobram suas experiências de vida para cair de cabeça, sem paraquedas, justamente nas situações que mais temem.

Ao longo dos meus muitos anos de terapia, minha psicoterapeuta por diversas vezes me questionou: “Qual é sua cena temida?”. Eu nunca sabia responder com clareza. Falava vagamente do meu medo da nudez pública, dos “brancos de memória” em uma prova, do desconforto de falar em público e, especialmente, do pavor de que outras pessoas descobrissem um dia que eu não passava de uma fraude – ou seja, uma pessoa sem uma base sólida de conhecimento para se apresentar como autoridade ou especialista de qualquer área. Mas quase nunca meus temores encontravam alívio revivendo simbolicamente cenas como essas.

O primeiro livro “adulto” que li, lá por volta dos 12 anos, foi O Diário de Anne Frank. Mal consigo descrever em palavras o impacto que ele me causou. A Segunda Guerra estava a apenas uma década de distância, o nazismo havia deixado marcas profundas de culpa no subconsciente coletivo, minha melhor amiga de infância vinha de uma família de judeus poloneses que haviam sido forçados a emigrar para escapar da sanha destruidora das forças da SS e continuavam a viver escondidos, assombrados com a possibilidade de serem denunciados e repatriados.

Além da empatia que desenvolvi para com o sofrimento dessa família e minha posterior identificação com muitos dos traços da cultura judaica, pairava no ar em nossa própria casa a suspeita de que o sobrenome Suplicy fosse de origem judaica (o que mais tarde foi confirmado através de uma pesquisa do lado materno de nossa árvore genealógica). Tudo isso contribuiu, é claro, para que eu sentisse desde muito cedo uma profunda aversão por movimentos totalitários, de supremacia racial.

Já adulta e trabalhando para uma empresa de pesquisa de mercado e opinião pública, fui convidada para ser a representante brasileira em um seminário internacional sobre técnicas projetivas [minha especialização] em pesquisa qualitativa, que aconteceria em Paris. Entusiasmada, decidi juntar a participação no workshop com minhas férias, para aproveitar ao máximo a estada no continente europeu. Durante o seminário, todas as noites os participantes saíam em grupos para confraternizar, jantar e se divertir. Nessas ocasiões, travei contato mais próximo com um colega austríaco que me intrigava por ser uma pessoa muito comedida e reservada, embora demonstrasse ser dono de uma mente brilhante, de uma curiosidade inesgotável e estivesse sempre pronto a debater com empolgação seus trabalhos na área.

Por outro lado, ele parecia nunca se sentir à vontade para se referir à sua vida particular. Trancava-se em copas sempre que o assunto derivava para hábitos e interesses pessoais, formas preferidas de lazer e entretenimento ou detalhes sobre a vida familiar. Algo me dizia que não era questão de timidez nem a circunspecção esperada de um psicólogo clínico. Eu preferia apostar que se tratava de um traço comportamental característico da formalidade saxônica ou derivado de sua faixa etária, mais alta do que a nossa. Seja como for, aos poucos fomos desenvolvendo uma relação mais calorosa e, tão logo soube que eu visitaria outros países na sequência, ele insistiu em me convidar para sua casa quando eu chegasse a Viena.

Meu primeiro ponto de parada na Áustria foi a encantadora Salzburg. Mesmerizada com a beleza das paisagens de montanha e com a singeleza do casario urbano, a imponência dos castelos e igrejas e, em especial, com a história de vida de Mozart, eu me sentia vivendo um conto de fadas ou fazendo parte do elenco do filme A Noviça Rebelde. Deixei a cidade a contragosto e, ainda embalada pelas delícias da cultura musical e gastronômica austríaca, cheguei a Viena num dia de forte nevasca. O taxi que me levou até o hotel mal conseguia circular em linha reta e derrapou infinitas vezes, quase batendo em outros carros estacionados ao tentar se desviar das grossas camadas de neve suja que se acumulava nas ruas. O frio era terrível e o aquecimento do meu quarto estava com problemas.

Desapontada e irritada com tanto desconforto, resolvi ligar para meu colega, antecipando uma noite de animadas conversas, muita cerveja e comidas apetitosas. Ele se prontificou de imediato a me pegar no hotel e me levar até sua casa. Quando lá chegamos, sua esposa me recebeu nitidamente constrangida, já que não falava inglês e eu não falava alemão. Tentávamos nos entender com sorrisos e gestos, mas tudo o que posso dizer é que o clima geral de retraimento combinava em cheio com aquele apartamento escuro e apertado. Sem graça, eu explorava com o canto dos olhos o local para tentar descobrir mais pistas sobre as razões da sisudez do dono.

Ao examinar uma mesinha lateral repleta de fotos de família, vi horrorizada o retrato esmaecido de um senhor vestido com o uniforme de oficial nazista. Embora não fosse uma imagem de glorificação da suástica nem trouxesse o braço estendido em saudação ao Führer, congelei de imediato. Um quase-pânico tomou conta de mim ao perceber que eu havia me colocado inadvertidamente dentro do covil de inimigos ideológicos. Devo ter ficado muito pálida porque meu anfitrião logo se deu conta do meu desconforto. Com uma voz cansada e triste, ele disse simplesmente: “É meu avô…”. Sem saber como prosseguir com a conversa, optei por não fazer mais perguntas e me calei. Mesmo assim, ele prosseguiu numa espécie de desabafo, me passando alguns detalhes de sua vida na infância e adolescência. Contou como havia sido alvo de bullying na escola por ser neto de uma figura tão odiada, a dificuldade de relacionamento com as meninas da mesma idade, o retraimento da família diante de vizinhos e como esse isolamento compulsório havia sido decisivo para ele escolher a psicologia como profissão.

Quando me acalmei, entendi que não estava diante de um apoiador entusiasmado do regime nazista, mas que, ao contrário, ele havia dedicado sua vida a tentar compreender as motivações psíquicas que haviam levado seu avô a aderir à ideologia supremacista. De qualquer forma, meu constrangimento persistia. Quando a conversa se esvaiu, saímos para jantar em uma famosa cervejaria na periferia da cidade. Meu anfitrião nitidamente se esforçava em trazer alguma leveza e descontração para nossas conversas, mas logo o clima mudou de novo. Quase engasguei com a comida quando mais uma vez ele sem querer fez referência ao nazismo, me contando que aquele local era frequentado habitualmente pela alta cúpula da SS.

Tudo acabou se juntando na minha cabeça para determinar um dos piores fins de noite da minha vida: o frio congelante, a dificuldade de locomoção, a dificuldade de comunicação, a falta de ar naquele apartamento sombrio, as histórias igualmente sufocantes da família, a falsa descontração à mesa e a quebra de expectativa com a cidade de Viena, praticamente uma antípoda da alegria ingênua de Salzburg. No dia seguinte logo cedo, arrumei minhas malas e fui embora com a sensação de página virada na minha angústia existencial. Nunca mais soube daquele homem de olhar perdido, sobrecarregado com tantas memórias tristes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Linguagem e pensamento crítico

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que foi feito de palavras tão úteis e precisas que frequentavam o vocabulário das pessoas antigamente, como cizânia e debacle? Essas duas eram as palavras preferidas de meu pai quando ele queria impressionar seus convidados, ao formarem uma roda para discutir o eternamente conturbado cenário político e econômico brasileiro, depois do jantar.

Hoje em dia, quando penso nos vocábulos mais comuns usados por intelectuais, psicólogos e cientistas políticos para se referirem ao atual quadro de embates irracionais nas redes sociais, como “polarização”, “polêmica”, “discurso de ódio”, …

 

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O 8 de setembro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estamos todos apreensivos com as manifestações programadas para o 7 de Setembro. Se não fosse por outras razões mais, digamos assim, vexaminosas como o último desfile de tanques no Planalto, assusta o fato de que, paradoxalmente, nem o amor à pátria nem o amor a Deus estarão na pauta dos atos convocados para Brasília e São Paulo. Dentro e fora do país, imprensa e autoridades alertam continuamente para o risco de embates violentos nas ruas, uma vez que a motivação pressuposta para aderir à chamada para as ruas é a de dar um “ultimato” ao STF e ao TSE.

Eu não sou exceção. Acompanho diariamente o noticiário, as falas bravateiras dos protagonistas, as análises dos especialistas políticos e dos responsáveis pela segurança pública, a temperatura mais alta dos pronunciamentos oficiais. Sou catastrofista crônica assumida e, só de pensar na possibilidade de ruptura institucional e da volta dos anos de chumbo, meu diafragma fica mais tenso que corda de violino.

Anteontem, no entanto, comecei a sentir uma brisa mais leve soprando ao ver as imagens das rodovias superlotadas, das aglomerações nas praias e o clima geral de festa popular nos bares e restaurantes. Parece que, mais uma vez, nossa população está mais interessada em curtir o feriado, experimentar o alívio de estar de novo ao ar livre, em confraternização com a família e os amigos – e pretende deixar para quem não pôde viajar ou não tem nada melhor a fazer o entediante encargo de defender os ameaçados valores da pátria (leia-se do presidente).

Foi só então que me dei conta de que a política tende a ser sentida entre nós como coisa “dos hómi lá de cima”, um assunto estimulante só para quem entende dela, algo que não diz respeito ao cidadão comum que tem de empregar todas as suas energias para sobreviver com o mínimo de dignidade possível. É assim, sempre foi assim, por exemplo nos dias de eleição. O negócio é encarar a fila de votação (já que o voto é obrigatório) o mais cedo possível para, depois de cumprido o dever pseudamente patriótico, pegar o carro e cair na estrada, empanturrar-se com um bom churrasco regado a muita cerveja e pagode. Alegria já, o amanhã pode esperar.

É bem verdade que nos últimos dois anos o interesse pelo debate político-ideológico escalou, alimentado pelos discursos de ódio nas redes sociais e regado pelos delírios persecutórios de militares, congressistas, evangélicos e policiais militares. E promete ser exatamente a obediência devida aos pastores e comandantes de tropa o estopim para a ocorrência de um gigantesco e virulento protesto no Dia da Independência.

Por outro lado, também é verdade que o mar não está para peixe para o restante da população. A motivação para participação de um maior número de segmentos sociais esbarra inevitavelmente no aumento do preço dos alimentos da cesta básica, do gás de cozinha, da gasolina, da energia elétrica, entre outros, e ainda conta com o auxílio luxuoso da crise sanitária, da crise hídrica, do desemprego, do congelamento de salários, do extermínio de direitos trabalhistas e da falta de perspectivas de ascensão social para incrementar o desânimo em avalizar manifestações de grande porte em favor do presidente.

Não há, portanto, muito o que fazer, qualquer que seja a orientação político-ideológica de cada um, a não ser aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Uma coisa é certa, porém: haja o que houver, no dia 8 as coisas voltarão ao “normal”. Entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos e os combatentes cansados voltarão para suas casas, com o rabinho entre as pernas. As bandeiras serão novamente enroladas e jogadas num fundo de gaveta, os cartazes de papelão servirão como combustível nos fogões a lenha, as camisetas amarelas serão lavadas e reservadas para os jogos da Seleção de futebol e a principal preocupação voltará a ser cuidar do próprio umbigo. O noticiário voltará ao cardápio rame-rame da pandemia, temperado com notas picantes e ácidas de confrontos entre o Executivo e novas atuações preventivas do Judiciário.

Como assim? Não é que eu não acredite na garra do povo brasileiro para lutar por liberdade. É apenas que preferimos que tudo aconteça sem a necessidade de grande esforço pessoal. Se dá para negociar, nosso jeitinho de fazer revoluções sem sangue prevalecerá. Vamos examinar com cuidado as possibilidades.

Se os protestos forem realmente gigantes, restará comprovado que o presidente tem forte poder de mobilização… dos seus apoiadores de sempre, mas continua tendo baixíssimo poder de persuasão para mudar a disposição emocional do restante do eleitorado. Além disso, alguém acha realmente que o STF vai se deixar intimidar pela multidão nas ruas e recuar na sua decisão de enquadrar o incendiário em um sem-número de transgressões da ordem legal?

Se, montado no já encilhado cavalo militar e empolgado com o sucesso de seus planos de poder absolutista, o presidente resolver desembainhar a espada para declarar uma “nova independência” e fechar o Supremo (ou substituir os 11 ministros por outros mais compassivos e lenientes), sabe que enfrentará forte resistência, tanto no plano interno quanto internacional. Com a economia em frangalhos e sem o apoio maciço dos segmentos que contam, periga assistir à deterioração final do seu capital político em poucas semanas, se muito. Muita gente está pulando do barco antes mesmo da primeira gota de água entrar, só de pensar na inabilidade do capitão para encontrar o rumo de um porto seguro.

Coincidentemente, algumas das manchetes da semana passada informam que o TSE já estuda a possibilidade de decretar sua inelegibilidade para 2022, algumas igrejas evangélicas já estão apelando para seus fiéis não participarem do evento, lideranças de caminhoneiros dizem desconhecer o autoproclamado líder bolsonarista que ameaçou parar o país, alguns líderes do Centrão já ameaçam cair fora para não comprometer suas chances de reeleição, etc. A turma do ‘deixa disso’ é engrossada ainda por sanitaristas e epidemiologistas, preocupados com a disseminação da variante delta.

Se, ao contrário, as manifestações forem minguadas e deixarem claro que as palavras de ordem do “meu povo” [Intervenção militar com Bolsonaro no poder, Volta do AI-5, Eu Autorizo] não representam de maneira alguma os anseios da maioria esmagadora da população brasileira, restará a ele muito pouco arsenal para novas ameaças minimamente críveis, assim como para se manter sentado no trono até outubro de 2022.

Ainda é preciso considerar que novas manifestações estão sendo planejadas pela oposição para o dia 12. Dependendo do resultado das aguerridas demonstrações de força do dia 7, é provável que o clima de tensão piore, que sangue corra pelas ruas durante o protesto. Mas, guerra civil? Não acredito. Dizem que as pessoas só mudam quando se cansam – e eu posso apostar que até mesmo os bolsonaristas de raiz estão exaustos com tanta turbulência.

Claro que o bom senso indica a necessidade de não botar a mão no fogo, apostando na racionalidade e moderação dos combatentes de ambos os lados. Mas, se conheço bem o caráter brasileiro de perseguir resultados imediatos e não se comprometer com nenhum processo longo de transformação da realidade, vaticino que o 7 de setembro que se avizinha será uma impensável e colorida mistura autolimitada de Marcha para Jesus com Micareta Fardada.

Façam suas apostas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Canário na mina de carvão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Recentemente um amigo me encaminhou um texto filosófico altamente complexo e me pediu que analisasse sua utilidade para jovens que talvez não dispusessem de todas as referências utilizadas para a argumentação filosófica. Fez questão de alertar que estava me usando como “um canário numa mina de carvão” para saber se ele poderia ser entendido e absorvido por seus alunos.

Pesquisei na internet o significado dessa expressão idiomática da língua inglesa e adorei a analogia. Ela faz referência ao hábito de mineiros de levarem consigo um canário dentro de uma gaiola ao entrarem pela primeira vez num túnel de mina de carvão para verificar se há gases tóxicos dentro dela, como o monóxido de carbono. Dado seu pequeno porte, se houver, o canário morrerá em instantes e servirá de alerta para que os trabalhadores abandonem a mina a tempo.

Senti, sem falsa modéstia, que a metáfora me caía como uma luva. Acredito mesmo que essa foi a missão que me impus desde que me conheço por gente: identificar pessoas, ambientes e relacionamentos tóxicos. Não tenho dom para o auto sacrifício, mas sempre me senti portadora da capacidade de antecipar eventos futuros, especialmente os mais funestos. Desde criança, experimento ondas de choque e vibrações energéticas ao entrar num ambiente ou fazer contato com novas pessoas. É algo intuitivo, que não tem necessariamente a ver com o olhar, tom de voz, gestos, ou postura corporal de quem está diante de mim, nem com a estética, cheiro, modernidade ou organização do ambiente em que penetro. Talvez tenha sido por essa característica que me senti atraída desde muito pequena pelos cachorros, que são mestres na arte de ler a energia dos que estão à sua volta e são extremamente hábeis em antecipar eventos – como “adivinhar” a chegada de seus donos.

Astrólogos de todos os matizes concordam em afirmar que os nativos do signo de Peixes funcionam como uma espécie de mata-borrão, absorvendo prontamente as energias que estão disseminadas no ambiente. É como se, para eles, o ar, de tão denso e pesado, pudesse ser apalpado ou cortado em fatias. Não sei se para minha alegria ou pesar, além de nativa de Peixes, sou catastrofista crônica assumida. Cheiro o ar continuamente em busca de evidências de futuros problemas, transtornos, tragédias, crises e ameaças.

Costumo dizer que nasci com um sistema de alerta embutido na minha alma, que praticamente nunca falha: graças a ele, aprendi a diferenciar as pessoas que representam alguma forma de perigo para mim e as que são benfazejas almas gêmeas, contatos prováveis de vidas anteriores. Claro que essa capacidade me serve de importante guia nas relações pessoais e profissionais mas, ao mesmo tempo, é inegável fonte de angústia permanente.

Além da ansiedade para confirmar ou desmentir o que minha intuição indica e que contamina todas as atividades e planos do meu dia a dia, vale lembrar que é bastante difícil encontrar pessoas que disponham desse mesmo radar de navegação na vida. Assim, não é nada incomum que minhas previsões pessimistas causem desconforto e irritação em terceiros e me preguem um rótulo de prepotência, como se eu me apresentasse sempre como uma sensitiva “iluminada” que menospreza a falta de inteligência ou de sensibilidade dos demais.

Quando Bolsonaro se apresentou como candidato à presidência, minha imensa repulsa a suas crenças pessoais e a seu comportamento político ditatorial, irracional, desrespeitoso e obscurantista me induziu a escrever uma série de artigos antecipando a tragédia que se avizinhava caso ele fosse de fato eleito. Imediatamente após a eleição, produzi outro tanto de textos denunciando suas primeiras iniciativas macabras, bem como a desastrada escolha de seus ministros. Um dos textos que mais causaram furor entre conhecidos e desconhecidos foi o que levou o título de “Torço para que não dê certo”.

Reproduzo abaixo a introdução: “Não vou dizer ‘bem feito’, ‘bem que eu avisei’, nem ‘só você não percebeu que ia dar com os burros n’água’ para nenhum amigo meu, real ou virtual, que tenha achado que valia a pena eleger a geringonça que nos desgoverna hoje… Minha recusa em aderir ao bolsonarismo também tinha pouco de racional. Era e continua sendo uma questão instintiva, um alerta recebido pelos meus sensores de que a tragédia da volta dos anos de chumbo nos esperava logo adiante” [maio de 2019].

Na ocasião, recebi mais de 70 comentários irados que me acusavam de estar torcendo contra o Brasil e me convidando a ir experimentar as “delícias” dos países comunistas no que se refere à liberdade de expressão. No limite do ódio ao pensamento divergente, uma amiga próxima dos tempos de escola sugeria sem meias palavras que eu caísse e quebrasse o pescoço, sendo apoiada por mais 3 ou 4 pessoas das minhas relações. Hoje, assistindo ao derretimento do apoio dado ao inominável “capetão”, me pergunto o que diriam essas mesmas pessoas quanto às chances de o país voltar aos trilhos da prosperidade e da conciliação dos espíritos sob o comando de mais um tirânico salvador da pátria.

E é também quanto à eleição presidencial de 2022 que meus instintos de canário em mina de carvão alertam: estamos prestes a aprofundar ainda mais o buraco em que nos metemos caso o eleitor médio continue descartando a seu bel prazer candidatos moderados/menos conhecidos no primeiro turno só para forçar uma escolha praticamente impossível de ser feita no segundo turno entre dois extremos igualmente indesejáveis. A tese segundo a qual basta votar no “menos ruim” ou no único com condições de peitar e derrotar o atual presidente é, além de irracional, prova inconteste de falta de consciência política e de amadurecimento da cidadania. Votar em quem deve sair – herança maldita dos reality-shows – e não naquele que apresenta um plano factível para recuperar a dignidade da governança federal é receita mais que certa de desastre.

A ansiada “terceira via” não vai surgir do nada, como por milagre. Ela precisa ser pacientemente construída apontando nomes com os quais cada um mais se identifica, examinando desde já o curriculum dos candidatos disponíveis, analisando em profundidade a viabilidade (política e econômica) de suas propostas, identificando a compatibilidade entre as próprias crenças e valores políticos com os do candidato e, acima de tudo, lembrando que a república brasileira está alicerçada em três poderes que devem atuar com autonomia mas harmonicamente. Acreditar que só o Executivo pode dar todas as respostas de que precisamos, ignorando as pressões e obstruções do legislativo e do judiciário, é outra ilusão perigosa que pode nos matar asfixiados logo após o pleito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escrever é ter esperança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma de minhas canções favoritas, inexplicavelmente muito menos conhecida, de Jacques Brel (1), é a que leva o título de “Chanson sans Paroles” [Canção sem palavras]. Nela, ele elabora um acachapante contraponto entre o tempo do sentir – ou, mais precisamente, a perda da noção de tempo que acontece quando se está passando por uma experiência emocional intensa – e o tempo do narrar como a experiência foi sentida.

Num diálogo mental com uma mulher, ele rememora o envolvimento amoroso que teve com ela e declara sua intenção de lhe compor “um longo poema”, no qual lhe falaria “de mil maneiras diferentes” de amor, de fuga da realidade e da sensação de eternidade que os amantes experimentam ao viverem…

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Apontando soluções

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Como todos sabem, brasileiro é sempre muito bom para apontar os principais problemas do país mas não costuma se esforçar muito para encontrar soluções para cada um.

Tendo em vista o desânimo generalizado com as crises sanitária, econômica, social e política que vêm atrapalhando nosso sono, decidi sugerir algumas alterações no comando dos ministérios que poderiam ajudar a nos tirar do buraco em que nos metemos acidentalmente.

Convido a todos para acrescentarem suas próprias percepções e sugestões. Alerta importante: todas as indicações têm de ser feitas com base na expertise de cada ministro; apenas nomes técnicos serão considerados.

Mãos à obra:

  • Tira o Ernesto Araújo e põe o Pazuello nas Relações Exteriores: Ué, não é uma questão de logística colocar embaixadores em postos estratégicos para convencer os organismos internacionais multilaterais (como a ONU e a OMS) e os líderes do G-20 que o Brasil é exemplo de controle da pandemia? Pode ser que ele confunda a Albânia com a Alemanha (um lapso compreensível, considerando que o nome de ambos os países começa com Al), mas pra tudo dá-se um jeito no final, pode acreditar. Outro benefício é que ninguém vai nem notar a mudança de chefia do Itamaraty; afinal, esses dois países são comunistas e nós não queremos mesmo estreitar relações com essa gente.
  • Tira o Guedes e põe Salles na Economia: Ué, ele não é especialista em passar a boiada enquanto a imprensa está preocupada com o mimimi do negacionismo de Bolsonaro? Aproveita e deixa passar as reformas tributária, administrativa e política.
  • Tira a Damares e põe ela no Meio Ambiente: Ué, mulher sabe cuidar muito melhor das plantinhas.
  • Tira o Milton Ribeiro e põe o Augusto Heleno na Educação: Ué, ele não é especialista em segurança institucional? Quer área mais crítica que a educação para garantir que o futuro do país vai estar mais seguro nas mãos de um militar? Além disso, ele vai saber educar melhor nossa juventude a respeito da oportunidade e funcionalidade da decretação de um novo AI-5.
  • Tira o Marcos Pontes e coloca ele no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: Ué, ele já foi pro espaço e, portanto, já sabe que a terra é redonda, né? Por isso, ele vai ser muito útil para modernizar as diretrizes do ministério e colocar o Brasil de volta na rota da Renascença, em especial no que tange aos direitos humanos. Além disso, ele vai poder aplicar novas tecnologias na área dos direitos reprodutivos da mulher.
  • Tira a Teresa Cristina e põe ela no Ministério da Saúde: Ué, lá ela vai poder falar com muito mais propriedade sobre os efeitos benéficos dos gases estufa e dos agrotóxicos para fazer avançar os limites das áreas destinadas à pecuária e garantir uma alimentação mais farta e mais diversificada para as populações mais carentes, sem ter de pagar muito por isso. Além disso, ela deve ter muito mais experiência na vacinação em massa…mesmo que de bovinos.

Pronto, aí está. A lista de trocas sugeridas pode não ser exaustiva, mas certamente servirá de inspiração para a indicação de novas alterações ministeriais.

Nota para os pessimistas de plantão: Se nenhuma dessas trocas funcionar tão bem na prática quanto imagino, sugiro que se tire Bolsonaro e se coloque a neozelandesa Jacinda Ardern na presidência. O quê?? Não pode porque ela não foi eleita vice na chapa de 2018? Bobagem! Nada que o STF não dê um jeitinho, né não?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Rádio Astral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um estranho fenômeno vem acontecendo comigo há já um bom tempo. Acordo todos os dias ao som de uma melodia qualquer e me pego tentando decifrar de onde ela vem: de fora ou de dentro? Isto é, estaria o som flutuando só na minha cabeça ou existiria alguma fonte externa identificável para ele?

Inicialmente, imaginei que as canções que eu “ouvia” teriam vazado durante a madrugada do apartamento de baixo, onde minha vizinha costuma organizar festas e encontros com amigos, sempre regados a muita conversa e cantorias animadas. Podia ser também que essa esquisita parada musical fosse proveniente do radinho de pilha do porteiro do condomínio, às voltas com a necessidade de afastar o tédio e o sono das madrugadas. Abria a janela, olhava para todos os lados procurando identificar de qual direção o som poderia estar vindo, mas sempre em vão. Nunca descobri nenhuma pista segura.

Aos poucos, fui entendendo que teria de procurar na minha mente os gatilhos para esse exótico desfile musical. Teria sido um sonho? Mas, se fosse, por que não havia na minha cabeça nenhuma lembrança, nenhuma imagem, nenhuma sensação, nenhum contexto emocional capaz de explicar satisfatoriamente a emergência da trilha musical? E, mais intrigante ainda, qual seria a mensagem que meu inconsciente estava tentando me mandar?

O que mais me impressionava nesse sentido era a imensa variedade de ritmos, estilos musicais e das épocas que ficaram marcadas por eles. Podia ser uma valsa, um tango ou bolero, uma modinha interiorana, um samba-canção do passado, uma dessas músicas-chiclete dos dias de hoje que não saem mais da sua cabeça por mais que você as rejeite, um ‘hit’ sertanejo ou de sofrência, funk ou reggae, música de Carnaval, Natal ou de festa junina, algo no estilo bossa nova, MPB ou de axé-music. Era como se eu estivesse rebobinando mentalmente a fita que continha a história da minha vida baseada apenas em seu fundo musical.

Ao longo do tempo, outras canções e estilos preferidos vieram se juntar aos do repertório popular brasileiro. Ainda deitada e de olhos fechados, eu tentava rememorar a letra de cada melodia e me emocionava com a capacidade de recuperar as emoções provocadas por antigas canções francesas e antigos sucessos das divas americanas do jazz, soul e blues que marcaram minha adolescência. Logo foram entrando em cena, sem pedir licença, também músicas folclóricas, hinos pátrios que eu era obrigada a cantar na escola e até hinos religiosos, que incluíam as músicas de procissão que minha mãe me forçava a acompanhar em criança.

O maior susto veio quando acordei um dia cantarolando a ária Nessun Dorma, trecho da ópera Turandot de Puccini. Nunca me interessei muito por música clássica e mal podia reconhecer as grandes obras da categoria e seus autores mais famosos. Também não conhecia a letra e não compreendia as expressões italianas. Corri para o computador e busquei freneticamente o libreto para tentar entender a história nele contada e os significados que eu poderia derivar para meu momento de vida atual. Apesar de tê-la considerado muito instigante, não fui capaz de compreender a ligação entre a tirânica princesa chinesa e a princesa adormecida que me habita, ambas ordenando que ninguém durma até que o segredo seja revelado.

Ontem, para meu igual espanto, acordei repetindo, mesmo sem saber por quê, os versos em latim de uma música com forte conteúdo patriótico que cantávamos na escola, durante o curso ginasial: Deus salva América de hostibus/Cuncta bona ei dona in malorum fluctibus/Nos rogantes et clamantes inter carmen discimus/Deus salva América, Amééricaa…

Mais uma vez, ‘dei um Google’ assim que me levantei para saber se minha memória havia sido capaz de preservar fielmente a letra original. Não a encontrei em nenhum site ou blog. Havia apenas referência ao fato de que essa música é considerada uma espécie de hino não-oficial dos Estados Unidos e que havia uma versão em inglês da letra, escrita por Irving Berlin em 1918.

Fiquei atônita. Jamais me ocorreria pensar que nossos professores de canto tivessem nos apresentado a uma canção patriótica estrangeira, sem se preocuparem em nos informar com clareza sobre sua origem. Ainda mais pasma, descobri que havia uma versão em português da mesma música escrita por João de Barro (e cantada por Francisco Alves) em 1945. Mas, me perguntava atordoada, se tivemos de decorar uma letra em latim, ela devia ser forçosamente muito anterior à versão americana – e, portanto, tratava-se de uma composição de autor desconhecido que havia sido apenas encampada pelos Estados Unidos, graças à mania de se considerarem única referência de América (e não o continente como um todo).

Preciso fazer um parêntesis para explicar de que forma a música moldou minha personalidade ao longo da vida. Quando criança, era forçada a ouvir quase que exclusivamente música instrumental, tocada por uma grande orquestra ou por um pianista famoso, que meu pai adorava. Admito que aquilo me entediava bastante. Sempre senti falta das palavras. Acompanhar – e ser capaz de entender – a mensagem contida na letra era minha grande paixão. Foi em nome dela que me interessei pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Ao longo de minha adolescência e começo da vida adulta, passava horas a fio ouvindo o mesmo disco e anotando às pressas como podia as palavras que decifrava. Depois, com o auxílio do dicionário, ia juntando uma palavra a outra, até que as frases começassem a fazer sentido.

É inegável que a arte, em todas as suas formas, é a única ferramenta com que podemos contar para refletir em profundidade sobre a condição humana e transcender todas as limitações que ela impõe. A linguagem musical é universal no que tange às emoções que desperta. Não há fronteiras nacionais, credos religiosos ou políticos que possam interromper o fluxo associativo de pensamentos, sentimentos e estados de espírito que emergem diante de cada frase musical. Pensando nisso, resolvi deixar de lado tanto esforço para compreender o conteúdo emocional despertado pela melodia que me acorda a cada dia. Navegar com prazer e deixar-me levar sem o uso da razão pela forma delas passou a bastar-me.

Foi então que me ocorreu um insight. Se podemos simbolizar numa melodia todos os acontecimentos relevantes de cada fase de nossas vidas, qual seria a música-tema universal mais representativa deste dramático ano de 2020? E, mais especificamente, que fundo musical poderíamos atrelar iconicamente aos terríveis eventos pandêmicos, climáticos, econômicos, sociais e políticos brasileiros?

Façam suas apostas. A minha lista das canções concorrentes ao título já está pronta. Acredito piamente que o plano astral está nos convidando – nada gentilmente, diga-se de passagem – a nos despedirmos da vida no planeta Terra tal qual a conhecíamos até aqui, bem como a superarmos a era do ódio às diferenças para podermos adentrar finalmente novos tempos de reconciliação com a natureza ambiental, com a natureza humana e com a natureza espiritual. Quem sabe, relembrando ou compondo novas músicas sejamos capazes de elaborar novas utopias que nos guiem com segurança e harmoniosamente pelo fantástico universo apocalíptico do século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Admirável Brasil Novo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Por caminhos insondáveis, fui estimulada a pesquisar na internet as razões da atual crise internacional de representatividade política, a aparente obsolescência dos regimes democráticos e a espetacular guinada à direita no cenário pós-eleitoral brasileiro.

A prevalência entre nós do ideário conservador e das soluções de força, assim como o aprofundamento das exigências de compatibilidade entre o plano de governo e as crenças religiosas fundamentalistas do grupo do entorno do presidente eleito incomodam, inquietam e geram especulações em intelectuais de todos os matizes.

Na base desse quadro funesto, o aspecto mais chocante, ao menos para mim, está na condenação virulenta de toda forma de ideologia humanista, tradicionalmente associada às esquerdas. É como se o fato de propugnar pela desarticulação sumária de valores universais ‒ como respeito aos direitos humanos, ou mesmo de valores locais, como tolerância e convivência harmoniosa entre desiguais ‒, não representasse uma ideologia em si mesma.

Associadas à repulsa pela igualdade de tratamento na concessão de benefícios sociais, fazem sentir sua presença outras bestas apocalípticas: a repulsa à diversidade em todas as suas formas; o desdém pelo discurso politicamente correto em nome de uma pretensa liberdade de expressão; a criação de parâmetros normativos para a educação, para a atuação da imprensa e até dos programas televisivos de entretenimento; o moralismo que se traveste de necessidade de controle social para coibir o empoderamento das minorias e para definir o que é ou não manifestação artística.

Ao mesmo tempo, nossa consciência cidadã, a cada dia mais acabrunhada, termina por se anestesiar de vez diante de tanto furor nacionalista. O brasileiro médio, que já foi um dia o homem cordial, orgulhoso de sua mestiçagem, tranquilamente aconchegado em seu estrato social e plenamente identificado com a ideia de habitar o país da conciliação e das revoluções sem sangue, agora se vê aturdido na defesa a qualquer preço da mãe pátria, a mesma mãe que lhe nega colo, preferindo oferecer suas tetas repletas de leite aos filhos histórica e socialmente mais bem equipados.

Como chegamos a esse estado de coisas? Os mais apressados tendem a oferecer uma resposta pronta: culpa do governo anterior, que estimulou a luta de classes, aparelhou o estado para nele se perpetuar e lucrar mais com o butim dos cofres públicos. Essa é, sem dúvida, uma possibilidade concreta, mas, a meu ver, não esgota de forma alguma o assunto.

Se o temor primeiro da maioria de nossos concidadãos fosse mesmo a implantação de uma ditadura comunista na oitava ou nona maior economia do planeta, em pleno século 21 e em meio ao descrédito do marxismo, por que então tantos se predispõem a aceitar um regime que se anuncia abertamente como totalitário e com forte viés militarista? A única resposta que posso conceber é que já quase ninguém aceita que o proletariado tupiniquim continue (?) a dar as cartas. Se a farinha é pouca, gritam as ruas, que nosso pirão venha primeiro.

Por mais agressiva que seja a constatação, não estamos lutando por mais democracia. Consciente ou inconscientemente, queremos menos gente reivindicando direitos, queremos alguém de pulso firme que possa calar as vozes de quem busca um lugar ao sol neste momento em que as nuvens sombrias da economia toldam nossa visão de progresso.

Foi buscando entender este acúmulo de paradoxos que fui direcionada pelo mecanismo de busca aos escritos de Ignacio Ramonet, jornalista e sociólogo espanhol, doutor em semiologia, professor de teoria da comunicação e diretor do jornal Le Monde Diplomatique. O primeiro artigo dele a que tive acesso intitula-se “A atualidade chocante de Admirável Mundo Novo”. Na sequência, me deliciei com a leitura um outro artigo por ele escrito em 1995, no qual introduziu o conceito de ‘pensamento único’.

Neles, Ramonet tece uma vasta e rica argumentação a respeito da onda de neoliberalismo que varre o mundo, da primazia do fenômeno econômico sobre o político, da supremacia do mercado e avança na abordagem das múltiplas formas contemporâneas de manipulação da mente humana, em especial através da publicidade, das pesquisas de mercado e do marketing.

Como premissa básica das análises de Ramonet, destaca-se o conceito de condicionamento pavloviano. Para quem não o conhece, explico: o cientista russo Pavlov, partindo da tese de que os cães aprendem por associação, teve a ideia de apresentar um pedaço de carne a um cão simultaneamente à detonação de uma campainha para verificar se ele se condicionava a salivar sem o cheiro da carne, apenas ouvindo o som. O sucesso foi estrondoso. Um efeito colateral não-previsto do treinamento botou, no entanto, tudo a perder. Durante as sessões, o cão ficava atado a uma mesa do laboratório, que fora construído no porão de uma casa. Certo dia, uma chuva intensa provocou a inundação do porão. O cão, ao invés de tentar escapar do recinto, pulou então para a mesa e lá permaneceu imobilizado na posição, provavelmente acreditando que dessa forma estaria protegido. Morreu afogado o infeliz.

Tal qual o cão de Pavlov, diz Ramonet, somos pacientemente doutrinados desde o nascimento a conhecer e aceitar nosso lugar no mundo, adotando as crenças e valores de nosso grupo familiar. Mais tarde, a escola se encarrega de aprofundar e alargar nosso condicionamento social. Na sociedade pós-moderna, outras forças – como a televisão, as redes sociais, a publicidade e a globalização – tornaram o quadro mais complexo para a perversa indução de comportamentos desejados por quem está no poder.

Fiquei simplesmente apalermada com a coincidência de tópicos abordados por Ramonet nesses artigos e os que elenquei quando escrevi um livro ao qual dei o título de Guia Básico de Adestramento de Humanos. Quase uma década se passou desde que me dediquei a investigar o tema, mas posso jurar que o mesmo horror me invade ainda hoje quando penso nas armadilhas ideológicas a que estamos expostos diariamente.

Uma delas, a mais preocupante e infame, atrai minha atenção em especial: a proposta da Escola sem Partido. Não sou especialista na área, mas jamais me cansarei de levantar duas objeções indignadas a esse projeto. A primeira diz respeito ao fato de que o cérebro humano só se desenvolve estabelecendo novas conexões entre fenômenos díspares. A segunda refere-se à premissa não-verbalizada de que as crianças não têm como se defender da doutrinação de seus mestres. Ou, mais precisamente, de que a mente infantil é uma tábula rasa na qual se pode imprimir os códigos atitudinais que desejarmos.

Educação é diferente de ensino. A função da escola é ensinar a pensar, não a de criar clones. O pensamento crítico é uma conquista que só se obtém pelo confronto de ideias, teorias e visões de mundo. Faço minhas as palavras de Henri Michaux, um escritor e poeta belga: “A aprendizagem da aranha não é para a mosca”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ressignificando

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aula de ciências naturais e biológicas em um abrigo 5 estrelas para cães

Professora
Bom, meus queridos alunos, hoje eu queria falar um pouco sobre a teoria da evolução das espécies. Embora ela não tenha sido formulada por um de nós, nossos cientistas corroboraram suas descobertas. Acho importante que vocês a conheçam porque ela nos ajuda a entender melhor como se deu nosso processo de domesticação… Como vocês já devem saber, nossa espécie evoluiu a partir dos lobos…

Aluno 1
Péra aí, fessora. Eu não descendo de lobo, não. Nunca ataquei nem mordi ninguém e sempre respeitei tanto meus coleguinhas de grupo quanto meus tutores. Essa teoria aí que a senhora tá falando, acho que só vale pros cachorros pretos e de rua.

Professora
Que absurdo, garoto! Quem foi que te disse uma asneira dessas?

Aluno 1
Foi meu pastor, que, por sinal, não é alemão, mas suíço porque é todo branco. Ele disse – e meu pai confirmou – que foi o Deus de Quatro Patas quem criou a raça dos golden retriever. Pode ver, entre nós só tem criaturas com essa carinha de anjo que conquista tantos humanos. Isso sem falar de nosso lindo pelo dourado…

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Professora
Não, meu amor, você deve ter entendido mal. Está certo que, segundo a religião dominante entre nós, Deus criou todos os seres vivos. Mas uma coisa não anula a outra, a ciência já comprovou que uma espécie foi evoluindo e se transformando em outra, a partir de um ancestral comum. No nosso caso, o ancestral comum é o lobo. E, através de sucessivos cruzamentos, eles deram origem a filhotes mais mansos e com pelagens de todas as cores, umas mais claras e outras mais escuras. Também é verdade que, ao longo do tempo, os humanos passaram a dar preferência aos de pelagem clara, acreditando que eles eram mais confiáveis e menos traiçoeiros porque estavam mais distantes da aparência selvagem de seus antepassados. Mas isso é lamentável, só demonstra a ignorância dessa gente que se orgulha de andar em duas patas. Muitos de nossos irmãos de pelagem escura acabaram sendo abandonados na rua por causa disso…

Aluno 2
Então, tia, minha mãe disse que esses escurinhos foram jogados nas ruas porque nunca aprenderam a viver em sociedade. Só sabiam comer e dormir e, de tão gordos, não serviam mais nem como reprodutores. Daí, como não tinham pai nem mãe por perto para cuidar deles, foram perdendo todos os limites. Não se envergonhavam de cruzar o tempo todo com qualquer cachorrinha que passasse por eles, até mesmo com as mais feias, que não mereciam o esforço. Alguns até subiam em outros machos, um horror, uma aberração. Não respeitavam mais nem nossas leis sagradas e chegaram ao ponto de adorar o diabo…

Professora
Não, querido, nada disso é verdade. Primeiro, nossa espécie ainda obedece aos instintos animais mais primitivos, não só o da violência, mas inclusive os de ordem sexual, e isso independe de raça. Segundo, quando um macho sobe em outro macho, ele está só querendo demonstrar dominância, não tem nada a ver com cópula. Finalmente, onde é que sua mãe estava com a cabeça para inventar uma barbaridade religiosa assim?

Aluno 2
É que lá perto da minha casa tem um centro de encontro dos cães pretos. Precisa ver como eles latem, uivam, pulam feito loucos, correm de um lado para outro, mordem e se esfregam uns nos outros, uma bagunça só…

Professora
Não é porque eles têm um ritual diferente do nosso que eles são adoradores do diabo. Acho que alguns teólogos caninos de classe média confundem aquele som de latido de hiena com o de uma gargalhada para propor uma estupidez dessas. Não se deixe impressionar por crenças tão disparatadas e respeite mais os princípios de outras religiões.

Aluno 3
É, pode ser que a senhora tenha razão. Mas já ouvi dizer que esse pessoal escurinho é do mal, dá azar para quem chega perto. Além disso, quando chega a hora da gente casar, nossos tutores não deixam a gente cruzar com as cadelas que frequentam esses centros. Cá pra nós, a gente também prefere aquelas fêmeas jeitosinhas, limpinhas e bem comportadas. Pra casar, tem de ser bela, recatada e do lar, pode conferir.

Aluno 4
Tem mais, professora. Não tem nada a ver essa estória de que nós temos de estender a pata para ajudar nossos irmãos desfavorecidos. Isso já era. Nosso líder de matilha anterior é que deu moleza a eles, só para continuar dando as cartas. Esse pessoal é folgado, não trabalha, vive pedindo comida e um cantinho para dormir. Se a gente engole o mimimi deles e abre o coração, eles ficam mamando nas nossas tetas o resto da vida, só sabem fazer baderna…

Aluno 5
Outro dia eu estava na minha aula de adestramento e um desses caras entrou com tudo na sala e pulou nas pernas da minha tutora. Coitada, ela ficou desesperada, foi um vexame só o carinha se esfregando nela, com a língua para fora. Não é justo. A gente que é do bem tem que suportar horas sem fim para aprender a obedecer a tantos comandos. Tem que tomar banho toda semana, passar perfume, sair na rua só com coleira e guia, usar gravatinha ou lacinho na cabeça, tem de respeitar as fêmeas do bairro e ainda não pode peitar os machos mais atrevidos. E aí vem um sujeito sem berço desses, quebra todas as regras de disciplina e ninguém faz nada. Esse tipo de cachorro tinha que ser mandado para um reformatório já na segunda vez que aprontar alguma e ainda levar um pau daqueles no lombo pra aprender de vez. Que nosso Deus me perdoe, mas às vezes acho melhor não perder tempo tentando domesticar esses sem noção. O que devia ser feito era, isso sim, colocar chumbinho na comida deles. Aí resolvia o problema para sempre.

Professora
Chega de tanta asneira, por hoje é só. Na semana que vem vamos conversar sobre como os animais gregários, como nós, aprenderam a desenvolver tolerância para sobreviver às calamidades naturais que impliquem falta de comida, de água, de território ou de parceiros sexuais. Procurem no Google outros detalhes sobre a evolução da nossa espécie. Se sobrar um tempinho, leiam também com atenção as informações sobre o conceito do choque entre a cultura e as pulsões caninas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.