Pontaria ruim

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gente, como é que pode?!? Quando é que tudo isso vai ter fim? Será que ninguém mais percebeu o que está acontecendo com a mira do nosso Judiciário?

Promotores estaduais e federais, policiais federais, procuradores regionais e gerais, juízes de primeira e segunda instâncias ‒ além do Supremo, é claro ‒ dão seguidas provas de sua incompetência, seu despreparo técnico, seu viés ideológico, seu descompromisso com a letra fria da lei, além de, arrogantemente, colocarem-se acima das paixões humanas. Por que digo isso? Ora, só os cegos não veem que, por maiores que sejam seus esforços de comprovar suas teses, até agora não atingiram um único alvo legítimo sequer, não encaçaparam nenhuma bola.

A estatística comprova. Do lado dos corruptores, em especial entre os empresários, apenas um minguado percentual, que não deve chegar nem a 10%, confessa-se culpado. Do lado dos pretensamente corrompidos, o que temos? Só inocentes! Repito, 100% de INOCENTES!

By Ray Clid, desenhista francês

Insones há anos, temos assistido ao desfile macabro de políticos acusados injustamente e perseguidos sem dó nem piedade simplesmente por estarem fazendo seu trabalho costumeiro de arrebanhar votos, conquistar adesão, articular apoios, tudo com o único intuito de favorecer suas comunidades de base. Não é para isso que se elegeram representantes do povo?

Dá pena ver o olhar compungido de presidentes e ex-presidentes, ministros e ex-ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados estaduais, deputados federais e vereadores diante das câmeras na tentativa de proclamar inocência. Ouvindo suas vozes esganiçadas pela indignação, como não acreditar que estão, sim, sendo vítimas das artimanhas de seus opositores, dolorosamente traídos por assessores de confiança, matreiramente envolvidos em armadilhas preparadas por bandidos confessos que nada mais almejam do que diminuir seu tempo de pena?

Nenhum – repito, NENHUM – assumiu até agora ter sequer um dia cogitado burlar a confiança que o povo neles depositou. São todos servidores dedicados, verdadeiros livros abertos, gente de passado transparente e meritório, almas puras e bem-intencionadas, verdadeiros guerreiros e mártires da causa pública, tementes a Deus, cônscios de seu papel histórico de promover a igualdade, a justiça e o desenvolvimento do país.

Como, senão por ingenuidade extrema e um certo grau de perversidade, acreditar que sabiam dos malfeitos de seus apaniguados, que se deram ao desplante de exigir vantagens pessoais, amealhar fortunas desviadas dos cofres públicos, usar seu poder de forma espúria para influenciar a tomada de decisões estratégicas para o país?

Onde, afinal, estão as provas de seus supostos delitos? Podem seus perseguidores gastar o tempo de vida que lhes resta procurando por elas que nada encontrarão! Pela simples razão de que não há prova alguma, material, palpável, incontestável. Só delações, delações e mais delações de gente comprometida até o pescoço com o hábito de comprar consciências.

By Sniper, desenhista francês

E, não posso deixar de indagar, quem está por trás de tanto delator interessado em apontar impunemente o dedo para terceiros? Muita gente, distraída com as novelas e ocupada em votar no participante que deve ganhar o BBB, ainda não ligou os pontinhos para visualizar a figura oculta desses procuradores, moleques impertinentes mal saídos das fraldas que, só por terem aprendido a brincar de Powerpoint, acham que podem dar lição de moral a gerações de políticos experimentados e profundos conhecedores da realidade cultural brasileira.

Não sou adepta de teorias conspiratórias, mas não dá mais para tapar o sol com peneira. É uma questão de lógica concluir que o dedo da CIA está metido fundo em todo esse imbróglio. Não dá para esquecer que esse juizeco da Lava a Jato foi treinado nos Estados Unidos e deve ter aprendido essas táticas de destruição de reputações para conquistar espaço. Foi ele que começou com esse negócio cansativo de exigir moralidade pública, essa mania de divulgar conversas particulares gravadas ilegalmente e ver sempre duplo sentido nelas, não foi?

Pois é, acreditem senhores, é corroendo a base de credibilidade de tantas figuras públicas, antes tão respeitadas entre nós, que eles vão conseguir diminuir a importância do Brasil no cenário internacional e nos alijar do mercado de exportação de bens de consumo. Será que ninguém se lembra do que eles fizeram com as carnes brasileiras e estão tentando fazer agora com o aço e o alumínio?

Acordem, brasileiros! O tempo é o senhor da razão e o tempo vai mostrar de que lado está a verdade. Óculos de grau já para nosso Judiciário!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Supremo cansaço

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá pelos idos de 1957, o cineasta Sidney Lumet dirigiu aquela que é provavelmente uma de suas mais emblemáticas obras, o filme “12 Homens e uma Sentença”. Protagonizado pelo ator Henry Fonda, o filme gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho acusado de ter assassinado o próprio pai.

Segundo as regras do tribunal nova-iorquino, o réu só poderia ser sentenciado à morte caso fosse unanimemente considerado culpado pelos 12 jurados, acima de qualquer dúvida razoável. No dia do julgamento, acontecia a partida final do campeonato nacional de beisebol e vários jurados queriam terminar rapidamente a discussão para poder voltar para casa a tempo de assistir aos lances finais. O dia havia sido insuportavelmente quente e, à noite, o desconforto se intensificara com uma chuva torrencial.

Em resumo, tudo conspirava a favor de um debate apressado e desatento entre os jurados. Um deles propõe logo de início que seja feita uma votação simbólica, sem apresentação de argumentos, apenas para conhecer a disposição de cada um para a condenação ou absolvição do réu. Contados os votos, surpresa geral: 11 jurados haviam dado o veredito de culpado e apenas 1 o de inocente. A tensão escala e a pressão sobre o único jurado dissidente cresce exponencialmente.

Henry Fonda
Caricaturado por Thierry Coquelet, artista francês

Este, resistindo com galhardia à irritação dos demais, afirma não ter certeza da inocência do réu, apenas muitas dúvidas quanto à sua culpabilidade. Começa, então, a questionar cada uma das provas e testemunhos apresentados. A cada novo argumento, reação explosiva de incompreensão dos pares e nova rodada de votação. O placar da segunda rodada é ainda mais surpreendente: 10 a 2; os subsequentes, mais e mais angustiantes: 9 a 3, 8 a 4, etc. O jurado que trocou de lado em cada votação apresenta, então, os motivos que o levaram a rever a convicção inicial de culpa. Tem início um debate tenso que se transforma em verdadeira sessão de psicoterapia, durante a qual começam a emergir, sem filtro social, valores, princípios e crenças pessoais. Estes, por sua vez, abrem terreno para a excomunhão angustiada de todos os preconceitos e limitações subjacentes.

Uma hora é o jurado que vive uma guerra particular, sem fronteiras, com o insubordinado filho adolescente. Outra, a do jurado que sente vergonha de ser portador de alto grau de miopia (e que a disfarça trocando os óculos por lentes de contato) que não ousa contraditar o testemunho de uma vizinha igualmente míope. Depois, é a vez de um velho conservador que confessa discriminar, odiar mesmo, os barulhentos jovens latino-americanos. Inútil tentar colocar em palavras o clímax emocional da sessão a partir de cada revelação. A nobreza e a pequenez da natureza humana ilustradas em todas as suas dimensões, o esplendor e o horror acabrunhante das paixões psíquicas de cada um.

Já tínhamos visto antes o filme a que assistimos, mais uma vez constrangidos, ontem. O dia havia sido igualmente exaustivo: as manifestações de rua, as fortes chuvas, o calor escaldante dentro e fora dos corpos humanos, a repercussão da entrevista dada na véspera pelo ministro Gilmar Mendes, a declaração polêmica do comandante do exército sentida como ameaça por muitos, a celebração dos 50 anos da morte de Martin Luther King. Um cardápio de peso literalmente.

Fernando Pessoa

Outra notícia, dada na véspera sem qualquer destaque, a da morte de Winnie Mandela, me fez relembrar uma frase que ela proferiu há mais de meio século, que me parece sintetizar com precisão os embates nada delicados que presenciamos ontem entre os 11 ministros do Supremo:

“Se na construção de um novo mundo for necessário repetir os erros do velho mundo, então não faz sentido criar o novo mundo”.

Antes mesmo de terminado o voto do quinto ou sexto ministro, fui invadida por uma sensação de cansaço exemplar, que beirava à desesperança. O torpor foi mais forte do que qualquer vontade de conhecer o placar final ou sua repercussão dentro e fora de nossas fronteiras. Desliguei a televisão e fui dormir, docemente embalada pelos versos de Fernando Pessoa:

“A sutileza das sensações inúteis, as paixões violentas por coisa nenhuma…. Tudo isso faz um cansaço, este cansaço, cansaço…. Um supremíssimo cansaço, íssimo, íssimo, íssimo cansaço”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Crônica de (mais) uma morte anunciada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não precisa ser agente de um serviço de inteligência qualquer para descobrir quem matou a vereadora carioca e seu motorista. Tampouco é necessário ter lido os romances de Agatha Christie ou fazer parte de um departamento de investigações criminais para levantar pistas.

Também não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra forense experimentado para ajudar a polícia a traçar o perfil mais que provável dos assassinos. De tão evidente, a verdade salta aos olhos, enrubesce a mais ingênua das criaturas, constrange até mesmo quem se imagina imune, acima das paixões humanas e acima do bem e do mal.

As autoridades federais, estaduais e municipais estão em rebuliço total, proferindo discursos inflamados contra o ato, qualificando-o como de extrema covardia e prometendo punição máxima aos envolvidos. A imprensa nacional e internacional não falam de outra coisa. Nas redes sociais já se articula um movimento para inserir em todas as páginas a chamada #Mariellepresente. Aqui e ali, grupos reais e virtuais começam a emergir das sombras para contraditar e ironizar a comoção geral. Numa espécie de defesa prévia contra a revelação ‒ que fatalmente virá ‒ de que os “bandidos” que perpetraram o crime fazem parte, na verdade, do grupo dos “mocinhos”, eles ensaiam tímidas ou escancaradas justificativas para o ato, como: ‘colheu o que plantou’, ‘ela defendia bandidos’, ‘era contra quem dá a vida para nos proteger’ ou ainda ‘ninguém se importou com o assassinato de uma policial negra numa UPP porque ela não era militante de esquerda’. O maniqueísmo político e ideológico reinstala-se com pompa e circunstância também nas ruas das grandes capitais.

Dizem que, numa guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. Na guerra civil não declarada que sacode o país há quase uma década, de que lado ela está? Não importa. O grave é que, como sociedade, nos tornamos insensíveis à dor e ao sofrimento humano. Não é mais uma pessoa – com cheiro, cor, contornos físicos, textura de pele, sentimentos, ideias e vontades ‒ que morre. É só uma abstração moral.

Incorporamos de tal forma o raciocínio binário da tecnologia informática que agora só nos posicionamos e reagimos a categorias mentais: gente do bem x gente do mal, trabalhadores x vagabundos, pessoal de esquerda x pessoal de direita, militares x civis, terroristas x cidadãos, gays x héteros. Para cada uma, criamos uma lista pétrea de atributos morais positivos e negativos que define o caráter do grupo como um todo. Esquecemos de considerar que, se a premissa inicial do silogismo for falsa, a conclusão também o será. Talvez ainda mais angustiante: nem mesmo nos damos ao trabalho de pensar que essas categorias não são mutuamente excludentes.

Como sintetizou com brilhantismo a viúva do motorista da vereadora, neste momento o foco tem de estar na dor da tragédia humana, forçosamente maior do que qualquer revolta: “No fim das contas, é (só) mais um” a fazer parte desta estatística macabra. Assino embaixo.

O mal já foi banalizado, tornou-se rotina entre nós. Tudo já foi dito, todas as lágrimas derramadas, toda indignação manifestada, toda investigação prometida, e absolutamente nada mudou. Basta de clichês. A hora agora é de silêncio e introspecção. Temos de passar recibo do calo emocional que se criou no seio da sociedade civil, que nos impede de encarar sem anteparos nossa secular impotência diante da vilania de quem deveria zelar por nossa segurança e bem-estar.

Como lembrou Hannah Arendt, o mal nem sempre é fruto de uma mente perversa, cruel, doentia. É filho dileto da irreflexão, da incapacidade de fazer julgamento moral caso a caso. É seguir burocraticamente as ordens recebidas, realizar as tarefas pelas quais nos pagam, sem atentar para as consequências. É manter imutáveis certas crenças que alimentam e reproduzem a violência nossa de cada dia. É não se dar conta de que somos o único animal dotado de livre arbítrio e, portanto, aptos a fazer escolhas.

Afinal, que crenças são essas? Algumas me ocorrem neste momento, mas tenho a certeza de que, se refletirmos um pouco, a lista será bem maior:

• Acreditar que a força pode vencer a inteligência.

• Acreditar que o medo pode ser sustentáculo eterno da tirania.

• Acreditar que, calando bocas, calam-se também ideias e projetos de futuro.

• Acreditar que a rede de proteção comprada a peso de ouro pelos poderosos de plantão ou conquistada pela intimidação nunca vai quebrar o silêncio e se insurgir.

• Acreditar que se pode confiar cegamente nos próprios comparsas.

Termino com uma provocação, que é também um convite para reflexão. Como escreveu um dia um consultor organizacional americano, lembre-se sempre que: “Se você não faz parte da solução, então é parte do problema”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O tempo da delicadeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias uma amiga virtual postou um comentário em uma rede social que me deixou intrigada e reflexiva. Dizia ela que acreditava ter entrado em definitivo na terceira idade já que “qualquer coisinha” a comovia às lágrimas.

Foi o que bastou. Não consegui mais me concentrar em nenhum outro assunto desde então. Passei todo esse tempo me perguntando se ela era dotada de uma liberdade interna especial ou se havia também no meu caso uma correlação palpável entre envelhecimento e maior sensibilidade.

Explico. Sou uma exceção aberrante no que se refere à capacidade de chorar. Sou capaz, sim, de me emocionar – e muito até – diante de eventos trágicos ou excepcionalmente felizes, mas não consigo me abandonar por inteiro ao choro. No máximo, experimento um nó na garganta, rictos faciais, a voz se esganiça e uma ou outra lágrima furtiva aflora. Em segundos, porém, meu maxilar trava, a musculatura do peito se retesa, a garganta fecha tanto que fica difícil respirar e a dor faz com que o processo seja interrompido.

by Elodie de Poitiers, artista francesa

A única experiência de choro convulsivo espontâneo que guardo na lembrança aconteceu no meu primeiro dia de aula no jardim de infância. Minha mãe havia me deixado na porta do colégio e voltado apressada para casa para cuidar de meu irmão recém-nascido. A sensação de abandono, de ter sido alijada do ninho sem aviso prévio e entregue à sanha de um bando de totais desconhecidos foi tão forte que eu tive de ser levada para o ambulatório médico da escola, onde fiquei até que o cansaço tomasse conta de mim e eu adormecesse.

Depois disso, talvez por uma questão de sobrevivência, aprendi a evitar manifestações públicas ruidosas de tristeza, raiva ou alegria profunda. Quando não dá para controlar a emoção, permito-me apenas ficar com os olhos marejados, mas sempre em total silêncio e compostura.

Voltando ao tema da correlação entre envelhecimento e maior sensibilidade, não encontrei dentro de mim nenhuma evidência estatística que confirmasse a tese de minha amiga, nem no sentido de maior intensidade, nem no de maior frequência. Porém, alguma coisa me dizia que talvez fosse possível detectar uma diferença qualitativa entre o que nos comove na juventude e aquilo que nos leva às lágrimas na velhice.

Essa não é, evidentemente, uma constatação científica. Não entrevistei ninguém e não pesquisei bibliografia sobre o assunto. Depois de muito refletir e contando tão somente com o apoio de minhas vivências pessoais, consegui estabelecer algumas analogias com o processo físico de envelhecimento.

Da mesma forma como nossa pele torna-se a cada dia mais fina e translúcida, acredito que o sutil tecido que compõe a camada externa de nossa alma também se adelgaça. Sem precisarmos nos defender com tanto afinco das convenções sociais, deixamos que nossa condição anímica circunstancial aflore com mais facilidade. Com a alma mais mole ou mais transparente, como queiram, as emoções ficam literalmente mais à flor da pele.

by Claire Frelon, artista francesa

Mas, é importante observar, não é qualquer emoção que nos subjuga na velhice. Ao menos no meu caso pessoal, aquelas mais intensas e típicas da juventude, ligadas à adrenalina e ao cortisol, mais assustam do que comovem. Acredito que, com o passar dos anos, a musculatura estriada da alma, boa para enfrentar com galhardia os embates da paixão, vai aos poucos sendo substituída por musculatura lisa, que reage melhor aos momentos de ternura e está associada à secreção de endorfinas e serotoninas. Estar em meio à natureza, ver o dia amanhecer, observar crianças e animais brincando juntos em total harmonia, testemunhar um gesto de perdão ou um momento de superação são situações em que as emoções típicas da velhice são ativadas mais prontamente.

Falando nisso, acaba de me ocorrer que é possível que as criaturas longevas voltem emocionalmente a um estágio primitivo, animal mesmo, no que diz respeito aos modos não verbais de relacionamento. Como cães ou lobos, aprendemos a identificar com mais precisão a energia que emana das pessoas à nossa volta e passamos a emprestar menor importância às palavras e à razão. E, por assim ser, tornamo-nos mais hábeis para decifrar intenções e mais aptos a lidar com a fragilidade, a sutileza e a serenidade, que também habitam a alma humana.

Só posso torcer para que essas hipóteses ditadas por minha intuição estejam certas e que os leitores mais “entrados em anos” se identifiquem. Mas, atenção: ao formulá-las, entendi que elas se aplicam apenas às pessoas normais. Como diria Nelson Rodrigues, os canalhas também envelhecem…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

É carnaval

Myrthes Suplicy Vieira (*)

E, porque é carnaval, tudo o mais fica suspenso, cai para segundo plano, perde interesse, é postergado. Não são só os pequenos comércios, os autônomos prestadores de serviços e os bancos que aproveitam o enlouquecimento coletivo para se permitir uma folga e fechar as portas. É também a mente humana que entra em estado de torpor e vai embotando aos poucos, sufocada pelo calor escaldante, embalada pelo frenético ritmo dançante e hipnotizada pelas imagens de luxo e esplendor.

Tudo se adapta ao clima festivo e se transforma. Os telejornais são encurtados, as notícias de política e economia passam a ocupar o terceiro ou quarto bloco da edição e as manchetes mais preocupantes dizem respeito ao carro de uma escola que se desgovernou durante o desfile, quebrou ou pegou fogo. Os sites e portais de notícia na internet não ficam atrás: milhares de fotos das celebridades instantâneas que desfilaram e uma profusão de enquetes e análises de especialistas sobre as chances de cada escola ser campeã.

Nas novelas, os personagens das tramas mais terríveis de traição, vingança e sexo também encontram alívio temporário em seu tormento, se fantasiam e caem na folia. A grade de programação das emissoras sofre contínuos ajustes para acomodar chamadas ao vivo. Até a previsão do tempo enfrenta sutis alterações: ao invés de destacar o perigo de deslizamentos e inundações em áreas de alta densidade populacional, o destaque fica com a temperatura e o risco de chuva no horário do desfile em todas as passarelas regionais do samba.

E como fica quem não gosta de carnaval? Ora, como já diz a canção, quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé. Os incomodados que se mudem, dita a sabedoria popular. Por que não vão fazer um retiro espiritual em alguma zona de mata? Ah, não pode por causa do risco de febre amarela? Pois que se tranquem em alguma clínica e passem por uma sonoterapia até a quarta-feira de cinzas, ora bolas.

Pensando bem, justiça seja feita, esse forçar goela abaixo não é exclusividade do carnaval. Em terras brasileiras, o mesmo se aplica ao futebol e aos “reality-shows”. Mesmo que você não suporte nenhum dos dois, é bombardeado a cada segundo com toneladas de informações indesejadas sobre o desenrolar de cada novo lance.

Sofremos, como povo, da doença dos imperativos categóricos do consumo. Se você é brasileiro e não gosta de café, de cerveja, de feijoada, não é torcedor fanático de algum time de futebol nem de alguma escola de samba, não gosta de praia, de sol e de verão, não se deixa atrair por novelas nem pelos embates tempestuosos (ou picantes) dos participantes de algum “reality-show”, melhor dar início aos preparativos de mudança para outro país.

Excesso e repetição, esses são os lemas da marqueteira alma tupiniquim. Transbordamento e deboche, as únicas respostas possíveis do adestrado cidadão-consumidor-folião para se livrar da angústia que o oprime social e politicamente nos outros 361 dias do ano.

Não existe pecado do lado de baixo do Equador…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um fundo de verdade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Refletindo sobre o julgamento de um ex-presidente em Porto Alegre, sobre a onda de moralismo que se espraia por todas as áreas do país e sobre o devido respeito às leis, cheguei à triste conclusão de que há, sim, um fundinho de verdade nas lamúrias da esquerda brasileira.

Antes de mais nada, #nuncaantesnahistóriadessepaís um chefe do Executivo viu-se forçado a depor coercitivamente, ser julgado formalmente por corrupção e lavagem de dinheiro e enfrentar a humilhação de ter seu passaporte apreendido após condenação unânime em segunda instância.

Sabemos todos, mesmo que não queiramos admitir, que praticamente todos os antecessores do infeliz personagem tiveram lá seus deslizes éticos, administrativos, financeiros e políticos, sem jamais terem sido levados às barras de um tribunal. Por que, então, só ele e agora que estamos a poucos meses de uma nova eleição presidencial? A condenação da #almamaispuradoplaneta terá sido reles consequência de ele ter se compadecido do infortúnio secular do lado menos favorecido da sociedade brasileira e ter-lhe propiciado mais educação, mais renda, mais empregos, mais direitos e menos desigualdade? Ou os tempos deveras são outros? Evoluímos como cidadãos combativos ou regredimos como massa de manobra de líderes populistas?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Depois, inútil negar, a tese mil vezes repetida dentro e fora de nossas fronteiras do #égolpe provou estar ao menos parcialmente correta. Desde a carta aberta do atual mandatário, queixando-se de sua irrelevância política no cargo de vice-presidente e prometendo ser um articulador mais competente para recolocar o Brasil nos trilhos, até os dias de hoje, a consciência crítica dos cidadãos tem sido abalada quase diariamente por sucessivas infrações à ética e à moralidade pública perpetradas por ministros, secretários de Estado, integrantes do partido governante, membros da base aliada e pelo próprio presidente. Por maiores que sejam as evidências, os indícios e as provas, nenhum deles foi afastado do cargo por decisão judicial ou teve de se defender em juízo. Inquietante, não é mesmo?

Se tudo o que fizemos em infinitas manifestações de rua foi trocar seis por meia dúzia, como desacreditar da existência de interesses inconfessos nas batalhas pelo impedimento da então presidente? Pense rápido: o que conta mais para a concretização de um futuro esplendoroso para o país, a competência ou o caráter? O olhar social ou o equilíbrio da economia? Envie sua resposta em vídeo para a principal emissora do país, tomando o cuidado de manter o celular na posição horizontal, deitado.

Ainda, quando vamos finalmente enfrentar a dolorosa realidade de que o sistema judiciário brasileiro é enviesado, inconsistente, lento e ideologicamente comprometido? Quem ignora que a expressiva maioria de suas decisões é tomada com base não no RG, mas no CIC? Quem não se apercebe do fato de que nem os magistrados da mais alta corte do país obedecem estritamente ao que reza o texto constitucional e atropelam muitas vezes a separação de poderes? Como deixar de lado as evidências de que são capazes de incluir em seus arrazoados argumentações que configuram, sem sombra de dúvida, #perseguiçãopolítica?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Aí estão para provar casos emblemáticos como o impedimento da posse do ex-presidente no cargo de secretário de governo por suspeita de desvio de finalidade e a passividade de vários juízes federais frente à escolha de uma deputada condenada por infrações trabalhistas graves para o cargo de ministra do Trabalho, ou a nomeação de um indivíduo com mais de 120 pontos em sua carteira de habilitação para o cargo de diretor do Detran de Minas Gerais.

Não, senhores, definitivamente não há como tapar o sol com uma peneira. O fato cabal, irrefutável, é que #semLulanãohádemocracia. Chega de mimimi de quem não tem coragem de analisar os fatos políticos com espírito de isenção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mais uma experiência inacreditável que resgatei sem querer bem lá no fundo do meu baú de memórias. Como o último tema que abordei foi o do marketing, a lembrança veio por associação. Sei que pode parecer ficção, mas meus mais de 20 anos trabalhando como pesquisadora de mercado e de opinião pública estão repletos de fatos inusitados como o que vou relatar.

Eu estava envolvida na época com um levantamento qualitativo dos hábitos de consumo de uma marca de preservativo masculino. O fabricante desejava saber para que tipo de práticas sexuais ele era mais utilizado por cada segmento de público e qual o grau de satisfação dos usuários com o desempenho do produto em práticas não-convencionais.

Como o tema era para lá de delicado, optamos por realizar entrevistas em profundidade diretamente na residência dos respondentes ou em outro local em que eles se sentissem à vontade. Como também era difícil recrutar interessados em expor sua vida íntima para desconhecidos, decidimos trabalhar com base em indicações – ou seja, uma pessoa já entrevistada indicava amigos ou conhecidos que igualmente se dispusessem a falar sobre suas práticas e fantasias sexuais.

O público-alvo era extenso: casais heterossexuais tradicionais com e sem filhos, casais homoafetivos, profissionais do sexo, homens e mulheres, solteiros e divorciados, jovens e idosos. Não dá para resumir em poucas linhas as descobertas que fizemos em cada um desses segmentos. Só posso dizer que eu e meus colegas pesquisadores passamos por um bom período de muitas risadas e espantos.

Uma de minhas entrevistadas era uma mulher casada, fissurada em sexo anal. Como o marido se opunha intransigentemente à prática, ela viu-se forçada a “adotar” um amante mais jovem e mais liberal e com ele se encontrava regularmente. O caso nos interessava bastante, já que o preservativo tinha para ela dupla finalidade: evitar uma gravidez indesejada nas relações com o marido e proteger-se de doenças venéreas que evidenciassem uma possível traição. Além disso, para cada parceiro, os requisitos quanto ao desempenho do produto eram bastante distintos.

A entrevista foi longa e animada. Muito simpática e descolada, ela não opôs nenhuma resistência às perguntas mais invasivas e nem mesmo ao fato de a entrevista ser gravada. Quando terminou, agradeci a gentil acolhida e fiz questão de reassegurar-lhe que as informações cedidas jamais seriam divulgadas sem estrita permissão dela.

Cerca de um mês depois da entrevista, já envolvida com outros temas de pesquisa e sem me lembrar da conversa que com ela tinha tido, fui convidada para o casamento da filha de uma amiga de longa data. A igreja era pequena e estava lotada. Após a cerimônia, entrei na fila dos cumprimentos aos noivos. Minha amiga estava postada ao lado do casal, ajudando-os a recepcionar os convivas. Estrangeira e muito divertida, ela se preocupava em demonstrar intimidade com as regras de descontração dos brasileiros mesmo em eventos formais.

Quando chegou minha vez, ela me abraçou, comentou entusiasmada alguns detalhes da cerimônia e me pegou pelo braço, dizendo: “Vem comigo, quero lhe apresentar uma pessoa”. Acompanhei-a até um salão lateral da igreja, onde eram servidos champanhe e bolo. Várias pessoas conversavam animadamente de pé, numa rodinha. Minha amiga invadiu a roda me arrastando atrás e toda orgulhosa me apresentou a um casal: “Quero que você conheça fulana, minha melhor amiga desde que cheguei ao Brasil, e o marido dela”.

Quando ergui os olhos, não pude acreditar no que estava prestes a acontecer. Diante de mim, pálida e rígida como um cadáver, lá estava a mulher que eu havia entrevistado um mês antes. Tive apenas alguns segundos para me perguntar qual seria a melhor forma de evitar um constrangimento fatal para todos os circunstantes.

Paradoxalmente, foi o olhar de estarrecimento que ela me lançou que providenciou a pista de que eu precisava. A mensagem era clara: era preciso que eu comunicasse corporalmente, em absoluto silêncio, que ela não corria risco nenhum de ser desmascarada.

Num segundo, fez-se luz dentro de mim. Adotei uma cara de estudada paisagem, estendi a mão profissionalmente, esbocei um sorriso e disse com toda a serenidade que me foi possível: “Muito prazer!”

Pude acompanhar com os olhos cada um de seus músculos se distendendo e a respiração voltando ao normal. As cores logo voltaram a seu rosto e seu olhar agora era de gratidão. Ela sorriu de volta e se encarregou de me apresentar ao marido.

Deixei passar alguns segundos e escapuli à francesa, por uma porta lateral, dando graças mentalmente por ninguém ter se apercebido da saia justa. Nunca mais a vi, mas tenho a certeza de que, se eu precisar um dia de alguém que testemunhe a favor do meu profissionalismo ou da confiabilidade dos pesquisadores em geral, ela será a pessoa certa.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Marketing burro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que uma pessoa satisfeita com o desempenho de um produto/serviço, marca ou fabricante conta para outras três os motivos de sua satisfação. A propaganda boca a boca acaba sendo uma das formas mais vitais de marketing para seu gestor já que, além de potencializar a atração do artigo sobre quem ainda não o experimentou, tem custo zero. Por seu lado, uma pessoa insatisfeita tende a pesar a mão ao explicar para outras dez as razões de sua decepção. Com essa simples atitude, a marca pode sofrer significativo abalo de imagem antes mesmo que outros potenciais usuários tenham acesso a ela. E, mais grave, para recuperar credibilidade, o gestor precisará encarar pesadíssimos investimentos em propaganda formal.

A função do marketing é a de despertar o desejo, não a de impor o consumo. Em alguns casos, como quando se pretende introduzir no mercado um produto, categoria, marca ou fabricante, ele pode se permitir ir um pouco mais longe, abordando de forma mais agressiva o potencial consumidor, no esforço de criar patamares de desejo. Só não pode, em nenhum caso, substituir-se à consciência crítica do público que pretende atingir.

Todo produto tem o que os especialistas chamam de “benefício único”, ou seja, um atributo que o diferencia de todos os demais da categoria. Pode ser alguma característica físico-química como cor, sabor, textura, tamanho, design. Pode ser um traço de distinção social associado à imagem de marca, algum critério de especialização técnica, seu preço ou até seu caráter de inovação revolucionária. Descobrir qual é esse benefício singular é tarefa da pesquisa de mercado.

Embora poucos saibam, os resultados da pesquisa nem sempre são seguidos ao pé da letra pelo fabricante. Por razões estratégicas, ele pode querer posicionar o produto em segmentos distintos dos que a pesquisa identificou. É movimento corporativo legítimo, ainda que comporte alguns riscos.

O que todo marqueteiro que se preza sabe é que, como diz o ditado, você pode levar um cavalo até à água, mas não pode forçá-lo a beber. É preciso detectar exatamente qual é o perfil mais provável de consumidor que se deixará sensibilizar pela promessa mercadológica e ir ampliando aos poucos a identificação e a mobilização para a compra.

Os problemas começam a aparecer quando o marketing avança sobre a privacidade do público, ignora a necessidade de identificar o segmento a ser abordado prioritariamente e acredita ser mais vantajoso repetir ad nauseam a mensagem publicitária para atrair o maior número possível de interessados. São as chamadas estratégias “de baciada”.

Primeiro foi a assim chamada mala direta. Para os mais jovens, que podem nem desconfiar o que isso significa, explico. Tratava-se de um simulacro de carta pessoal, impressa com uma fonte que mimetizava a escrita humana. Ficou tristemente famosa por numerosas gafes. Como era enviada aleatoriamente a um público extenso, podia acontecer de, por exemplo, um vegetariano receber um informe publicitário convidando-o a saber mais sobre os melhores cortes de carne bovina. Ou algo ainda pior, traumatizante mesmo para o infeliz destinatário, como a divulgação de brinquedos eróticos para um religioso.

Depois foi a vez das impertinentes chamadas de telemarketing. Todos devem se lembrar dos folclóricos atendentes de call center, que se esmeravam no uso de gerúndios. Não demorou para as reclamações aos órgãos de defesa dos direitos do consumidor se acumularem. Pressionada, a agência estatal de telecomunicações decidiu implantar um serviço gratuito de bloqueio de telefones para barrar ligações de telemarketing.

Àquela altura, ninguém poderia imaginar que sentiríamos saudades daquele tempo. Impedidos de dar continuidade à sanha de sedução grosseira, sob pena de multas pesadas, os marqueteiros de plantão criaram logo uma estratégia ainda mais perversa. As chamadas de telemarketing passaram a ser pré-gravadas, A mensagem publicitária acaba sendo acionada automaticamente ao se atender o telefone. Para tornar a coisa um pouco pior, se é que isso é possível, muitos famosos se renderam à inglória causa de emprestar sua credibilidade pessoal para reforçar o apelo do produto/marca. Tragédia anunciada: a grande maioria naufragou num oceano de indiferença e irritação.

A coisa não parou por aí, infelizmente. A estupidez humana não conhece limites, como Einstein nos ensinou. Logo o raio de ação dessa forma rasteira de marketing se estendeu para os meios eletrônicos. Hoje em dia não é nada incomum tropeçar em propagandas, aninhadas em sites e portais de notícias, que são acionadas involuntariamente ao se rolar a página para baixo.

Afinal, você pode estar se perguntando, essa forma invasiva de marketing funciona? A resposta é: se tudo o que o fabricante deseja é auferir lucro imediato, sim. Claro que a repetição da informação tem lá suas vantagens. O nome do produto/marca gruda como chiclete na mente do consumidor e, caso ele se veja envolvido num processo de escolha, num mercado do qual pouco sabe, a assinatura da marca pode ser decisiva para a tomada de decisão. A longo prazo, porém, essa forma preguiçosa e burra de marketing genérico destrói todas as chances de o fabricante vir a se afirmar como detentor de uma imagem de qualidade, seriedade e responsabilidade social.

Nada que diga respeito ao humano é definitivo, no entanto. Mesmo a contragosto, sou forçada a admitir: há quem goste de ser tratado como massa ou gado. Sei que a noção de direito à privacidade caiu em desuso há já algumas décadas. Quanto mais barulho e holofotes forem gerados pela comunicação mercadológica, maior o desejo das novas gerações de fazerem parte do “seleto” público-alvo.

O tempora, o mores…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Uma cachorra afrodescendente

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu preferiria que ela fosse de grande porte, mais velha e de outra cor. Tinha elaborado uma longa lista de requisitos quanto ao temperamento, comportamento tranquilo e silencioso, obediência exemplar, além de grande capacidade de adaptação com outros animais e pessoas, em especial com crianças e idosos. Queria interagir com ela antes de apresentá-la à minha outra cachorra, para descobrir se ela se submeteria facilmente ou não a meus comandos.

Preferiria. Mas a vida – ou, quem sabe, São Francisco – tinha outros planos para mim. Do nada, despencou em meu colo uma filhotinha esguia, do tamanho da palma de uma mão, com apenas 33 dias. Fico constrangida em dizer que ela é negra como as asas da graúna. Primeiro, porque nunca vi uma graúna na vida e, segundo, porque o linguajar politicamente correto dos dias de hoje assim o exige. Seja como for, mal dá para distinguir os olhinhos curiosos dela em meio à escuridão da pelagem.

Como todo bom filhote, ela me enlouquece diariamente, mordendo e arranhando minhas pernas e braços, destroçando os rolos de papel higiênico e pendurando-se em tudo o que está suspenso. Enfia-se pelos cantos mais improváveis, esconde-se dentro de sacolas, diverte-se derrubando e mordiscando garrafas pet. Corre pela casa como um foguete e late muito quando a companheira de quatro patas não aceita o convite para participar de suas muitas estrepolias. Desafia-me sempre que tento conter seus excessos e me encara com um olhar provocador, como se me dissesse: E daí? Vai fazer o quê agora?

Esta é a Vivi, protagonista da história.

Paradoxalmente, não tenho do que reclamar. Mesmo exausta de correr atrás dela dia e noite, posso afirmar que, como diz a canção, desde que ela chegou instalou-se como um posseiro dentro do meu coração.

As compensações são muitas. Ela tem se esmerado em me fazer reaprender a importância do perdão e da tolerância. Ajuda-me a relativizar todos os dias o conceito de autoridade. Ensina-me com leveza a conviver com as diferenças e com minhas próprias limitações. Mostra com graça como são ridículos os preconceitos de raça e gênero. Traz em seu corpo as marcas da brasilidade, da desejável miscigenação, e encanta a todos com sua beleza singela.

Além de ter estabelecido uma relação de total harmonia e cumplicidade com minha outra cachorra, ariana pura, ela também não se deixa intimidar por machos dominantes. Ao contrário, para usar uma palavra da moda, abusa do empoderamento feminino. Sabe se submeter quando isso é conveniente para sua sobrevivência, mas deixa claro que sedução é seu forte. Joga-se despudoramente ao chão, de barriga para cima, e depois lambe o focinho de qualquer um que rosne para ela.

Tal qual um vampiro, ela suga toda a energia dos circunstantes. Passa os dias perturbando a tranquilidade de minha outra cachorra e impedindo que eu me concentre em qualquer outra atividade. Noutro dia, cansada de procurar palavras para dissuadi-la de morder tudo e todos, tive uma ideia: se ela obedece em segundos aos latidos raivosos da Aisha, porque não obedece aos comandos da fala humana? Não tive dúvida: quando ela se aproximou, enchi os pulmões e soltei um latido forte, digno do de um pitbull. Foi tiro e queda. Ela olhou em volta, assustada, procurando a fonte do som e interrompeu de imediato o ataque. Só não entendeu até agora que raio de animal grandão capaz de emitir sons tão diversos sou eu.

Ainda é muito cedo para fazer previsões quanto ao porte que terá e para saber se manterá a postura sociável que demonstra agora. Torço apenas para que as memórias de uma infância feliz a preparem emocionalmente para levar a vida adulta com mansidão e alegria.

É certo que a abundante energia de um filhote não é compatível com o desejo de sossego de uma idosa como eu. Aliás, o que mais tenho ouvido nas últimas semanas é que sou louca, que deve haver um quê de masoquismo na estrutura de minha personalidade ou que o esforço de cuidar de apenas uma cachorra deveria me bastar. Tudo o que tenho a dizer em resposta é que há uma graça especial para mim em todo recomeçar.

Parafraseando T.S. Eliot, eu aconselharia a todos que temem embarcar em novas aventuras na velhice que descubram enquanto é tempo que “o fim de toda viagem é voltar ao ponto de partida, conhecendo o local pela primeira vez”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Mudança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos melhores livros que já li leva exatamente esse título. Escrito por três psicólogos americanos, defende a tese de que uma estratégia de mudança, para ser efetiva e duradoura, precisa ser em alguma medida paradoxal. Em outras palavras, ela precisa propor um novo paradigma, um novo enquadramento para a realidade que se deseja alterar, capaz de inspirar soluções alternativas às já tentadas.

Valendo-se da teoria matemática dos grupos, os autores explicam que, se a solução sugerida pertencer ao mesmo grupo do problema, ela perderá eficácia a curto prazo, e os benefícios, se houver algum, terminarão sendo automaticamente anulados com o tempo. Em linguagem matemática, se o problema for representado por +1 e a tentativa de solução por -1, o resultado será sempre zero se ambos pertencerem ao mesmo grupo.

Pense, por exemplo, numa pessoa que sente frio. A tendência universal é recorrer a medidas conceitualmente ancoradas na sensação oposta, ou seja, na ideia de se aquecer. A pessoa pode recorrer de início a alguma fonte externa de calor, como um cobertor, meias de lã ou agasalho. Se não funcionar, ela simplesmente aumenta a dose.

O conforto trazido pode representar um importante alívio dos sintomas, o que induz a pessoa a crer que seu problema está resolvido em definitivo. No entanto, a própria imobilidade do corpo, esmagado sob tantas camadas de roupa e de acessórios, fará com que a sensação de frio volte a incomodar. A pessoa pode, então, experimentar alternativamente alguma forma de geração de calor interno, exercitando-se vigorosamente ou ingerindo alguma bebida quente. Nesse caso, a transpiração levará inexoravelmente de volta a um resfriamento da pele e nova onda de frio será experimentada.

Pense agora na solução implementada pelos esquimós para combater o frio extremo de seu habitat. Os iglus, mesmo construídos com blocos de neve, mostraram ser uma solução engenhosa e eficaz por terem partido de outro conceito-base: o de impedir a circulação dos ventos. Graças a esse novo paradigma, vários outros produtos puderam ser desenvolvidos para combater a hipotermia, como é o caso dos agasalhos térmicos, que incorporam uma camada externa impermeável aos ventos. Até mesmo o frio causado pelo contato com as águas geladas dos oceanos, rios e lagos pode ser minimizado com o uso de trajes de mergulho de neoprene.

Os autores oferecem dezenas de exemplos deliciosos e instigantes de mudanças paradoxais introduzidas com sucesso ao longo da história, tanto em termos comunitários quanto na vida de pessoas comuns. Um dos que mais gosto diz respeito a um oficial francês que recebe ordens de Maria Antonieta para esvaziar a praça em frente ao palácio. Percebendo a enorme desproporção numérica entre seus soldados e a multidão que se aglomera em protesto, ele tem uma súbita inspiração. Sobe num caixote e grita, chamando a atenção da multidão. Em tom respeitoso e sério, ele se dirige aos camponeses e operários dizendo ter recebido ordens de se livrar apenas e tão somente de ‘la canaille’, ou seja, dos indivíduos vis e desprezíveis. Diz ainda que, por não ter como distingui-los a distância, pede encarecidamente a todos os cidadãos de bem que retornem às suas casas. A praça se esvazia em segundos.

Trago de volta essas lembranças inspirada pelo clima geral de final de feira em nossa república. Qual será a estratégia de mudança que teremos de elaborar para pôr fim a tanta desfaçatez, decadência moral e esgarçamento do tecido político, institucional e social em 2018?

Já experimentamos de tudo um pouco: desde intermináveis soluções de força a dirigentes que se proclamam não-políticos como forma de atrair a simpatia de eleitores indignados, passando por toda uma gama de líderes populistas de direita e de esquerda. Fizemos testes com membros da elite e com um da classe operária, com muitos homens e uma única mulher, com figuras públicas afeitas à norma culta da língua portuguesa e outras constrangedoramente donas de raciocínios tortuosos e discurso ilógico e gramaticalmente incorreto. Tivemos até um ditador reconduzido à presidência da república nos braços da população e fervorosamente aclamado como “pai do povo”.

Analisando todos os perfis de dirigentes até onde minha memória alcança, sou forçada a admitir, entretanto, que até hoje não conseguimos pensar fora da caixa. Continuamos elegendo sempre o perfil contrário ao de quem nos desagrada no momento, sem atinarmos com soluções pertinentes a outros grupos conceituais.

Que novos conceitos ainda nos resta explorar? Será que teremos de eleger não o candidato, mas o próprio marqueteiro que cuidou da campanha a peso de ouro? Será que um homem de televisão conseguirá aglutinar em torno de si cérebros privilegiados e corações sinceramente dedicados à nobre tarefa de servir aos interesses da população? Será que um jurista pode nos prometer mais isenção frente aos conchavos partidários e mais idoneidade no trato da coisa pública?

Não tenho as respostas, estou aceitando sugestões, por mais bizarras que elas sejam. Minha capacidade criativa – com o perdão do digno editor deste blog – foi devastada por décadas de irracionalidade e nonsense. No meu cérebro já não nasce nem a grama dos projetos comezinhos de sobrevivência individual. Duvido até da necessidade de lideranças para conduzir nosso imenso e complexo agrupamento social. O caos também é criativo, ora bolas.

Confesso por fim que tenho sentido ímpetos de cortejar a ideia de democracia direta. Alguém mais disposto a embarcar comigo nessa tentação?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Psiconeuroimunologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Passeando pela seção de ciências de um conhecido jornal, dei de cara com esse palavrão. Curiosa, fui investigar do que se tratava. De início, uma certa decepção. Era apenas a designação dada a um campo interdisciplinar de estudos científicos que se propõe a revelar as conexões entre a psicologia, a neurologia e o sistema imunológico.

Fiquei intrigada. Que as emoções interferem na saúde geral do corpo é fato comprovado cientificamente há mais de meio século. Muito já se estudou a respeito do papel dos neurotransmissores na promoção de sensações de bem-estar, assim como sobre a influência potencialmente deletéria de alguns hormônios ligados ao estresse sobre a imunidade. Nada de novo, portanto.

Por que, então, querer agrupar antigas áreas de pesquisa científica e rebatizar o conjunto, emprestando a ele ares de um novo campo do saber? Pelo que entendi, ainda faltava desvendar mais precisamente através de quais mecanismos os processos mentais atuam sobre a saúde. Ou seja, descobrir como o sistema nervoso central influencia e é influenciado pelo sistema endócrino e de que maneira os dois se articulam com as instâncias psíquicas para gerar a resposta imune. Uma vez conhecidos os vetores, ainda era preciso investigar de que forma o psiquismo humano pode se tornar um aliado estratégico para reforçar a imunidade do corpo. Ou, inversamente, como evitar que ele se posicione como força motriz para o aparecimento de doenças autoimunes, como o câncer, o diabetes e a aids.

Não foi nada disso, entretanto, o que aguçou minha curiosidade. O que me encantou mesmo foi saber como tudo começou. A estória é banal e demonstra, mais uma vez, a importância do acaso para o avanço do conhecimento científico. Tudo teve início em 1986, quando um professor de psicologia teve a ideia de pedir a seus alunos que escrevessem sobre o maior trauma de suas vidas ou, se não tivessem passado por nenhum, sobre o momento mais difícil que haviam vivido.

O professor insistia para que eles fossem o mais fundo possível na reminiscência de cada detalhe e colocassem no papel seus pensamentos e sentimentos mais profundos, mesmo que nunca tivessem ousado compartilhá-los antes. A tarefa foi repetida por vários dias consecutivos, para que os participantes pudessem dar vazão plena aos meandros de seu conturbado universo emocional interior. ara dar validade científica ao experimento, foi formado também um grupo de controle, ao qual se atribuiu a tarefa de registrar pensamentos e sentimentos a respeito de eventos cotidianos neutros, pelo mesmo número de sessões.

Segundo relato do próprio pesquisador, vários alunos choraram durante as sessões e afirmaram que ficar remoendo o passado havia feito com que eles se sentissem, de início, ainda pior. Curiosamente, no entanto, quando indagados se preferiam abandonar o experimento, todos expressaram o desejo de continuar. Nos seis meses seguintes, o professor monitorou a frequência com que os estudantes iam ao médico. Descobriu, sem muita surpresa, que aqueles que haviam se envolvido com o que hoje é chamado de “escrita expressiva” haviam se consultado muito menos vezes do que os colegas “neutros”.

Ele acreditava que o efeito benéfico sobre a saúde se devia apenas à catarse. Ou seja, pelo fato de terem se livrado de uma carga emocional pesada, os participantes provavelmente estavam apenas colhendo os frutos de uma menor preocupação com sintomas de desconforto físico. Mas a pesquisa não parou por aí. Vários outros experimentos foram realizados na sequência, enfocando quais áreas da saúde eram mais impactadas positivamente, desde problemas simples, como disfunções respiratórias, até os mais complexos, como o câncer.

Alguns resultados mostraram-se decepcionantes, seja por não apresentarem relevância estatística, seja por não perdurarem no tempo. Havia uma área, entretanto, em que os exames de laboratório mostravam resultados positivos mais consistentes e duradouros: o da cicatrização de ferimentos. Alguns voluntários foram até mesmo recrutados para se submeterem a um ferimento intencional (corte no braço e retirada de uma pequena amostra de pele) para analisar como e porque isso acontecia.

Foi então que o pesquisador decidiu investigar o tipo de linguagem usada na escrita expressiva e correlacioná-la com a melhora na saúde. Descobriu que aqueles cujos ferimentos saravam mais rápido haviam iniciado seus relatos usando mais vezes a palavra “eu” e, ao longo do tempo, migraram para o uso mais frequente de relatos em terceira pessoa, o que seria um indicador de mudança sutil de perspectiva na análise dos eventos traumáticos.

Além disso, essas pessoas recorriam mais vezes à palavra “porque”, o que sugeria que elas estavam aprendendo a dar um sentido aos acontecimentos e os alinhavando numa narrativa mais pessoal e estruturada.

Não estou sugerindo com essas divagações que estamos diante de uma revolução na ciência. Claramente, ainda não há nada de muito espetacular nas descobertas feitas até aqui. O que me é altamente estimulante, porém, é saber que ainda há um campo fascinante e muito extenso de investigação científica a ser explorado pelas futuras gerações.

Meu interesse pela área da psiconeuroimunologia fica ainda mais despertado quando penso na dificuldade que os jovens de hoje em dia, educados pelo e no mundo virtual, sentem de lidar com a linguagem escrita. O “internetês” criado por eles – os kkkkk e os rsrsrs para expressar divertimento, o recurso aos emojis para comunicar emoções e aos likes para manifestar concordância ou apoio – deixa em mim uma sensação amarga de retrocesso da capacidade humana de criação de vínculos.

Em psicanálise, costuma-se dizer que um dos sinais indicadores de desenvolvimento de maturidade psíquica surge quando a pessoa aprende a dar nome aos próprios sentimentos e emoções. Mais tarde, a interlocução afetiva efetiva vai depender em grande parte da precisão dessa linguagem interior.

Outra coisa que me preocupa e assusta é que o século 21 parece ter trazido consigo uma recusa maciça das novas gerações de se aventurarem livremente nos processos de interiorização. Passamos a viver na periferia de nós mesmos, incapazes de delinear os contornos de nossa subjetividade, voltados para fora e interessados apenas em garantir nossa aceitação na comunidade virtual.

É em função de tudo isso que ouso sugerir uma nova explicação para os fenômenos de cura observados através da escrita expressiva. Talvez seja reservando um tempo para meditar e lamber nossas feridas internas que possamos, finalmente, restabelecer as fibras de nosso tecido anímico, social e existencial.

A pesquisar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não é estória de pescador. Foram eventos reais e tão surpreendentemente reveladores das minhas limitações que eu os havia enterrado bem fundo no meu baú de memórias.

Eu era muito jovem na ocasião. Recém-formada, sem experiência no mundo profissional, carente de autoconfiança, tudo conspirava para fazer de mim uma pessoa tímida, defensiva e impressionável. Trabalhava no departamento médico de uma empresa paraestatal, respondendo sozinha pela coordenação do setor de seleção de pessoal.

Um de meus colegas de departamento era uma médica psiquiatra, já madura e experiente. Mulher muito alta e corpulenta, a simples presença dela era suficiente para impor respeito. Um sorriso sempre nos lábios e seu caloroso olhar acolhedor, no entanto, deixavam claro que ela era dona de espírito crítico e senso de humor refinado, que não precisava usar a autoridade como arma para intimidar ninguém. Foi ela quem me deu a primeira e mais preciosa lição a respeito do que significa inteligência emocional, um conceito que só seria formulado décadas mais tarde.

O chefe do departamento era um médico cardiologista um tanto limitado intelectualmente, visceralmente machista, que acreditava que todos os conflitos internos podiam ser resolvidos através de sua lábia e comportamento pretensamente sedutor. Eu me esforçava o quanto podia para driblar seus assédios, fechando a cara, me empertigando e tentando parecer séria.

A primeira vez em que a vi reduzir a pó sua fachada de segurança aconteceu durante uma reunião de departamento. Ele havia aberto o encontro com ar compenetrado, explicando que havia recebido ordens da diretoria no sentido de otimizar os recursos humanos do departamento. Para tanto, propunha ele, era necessário que nós duas elaborássemos um levantamento estatístico do número de casos atendidos por mês, separando-os por categoria diagnóstica. Ou seja, ele queria saber quantos candidatos “normais” e quantos portadores de distúrbios mentais ou psicológicos, como esquizofrênicos, psicopatas, neuróticos de todos os matizes, epiléticos, alcoólicos crônicos, etc. haviam passado por nossas mãos.

by Tania Messaoudi (1989-), desenhista francesa

Estupefata, eu buscava, sem sucesso, algum meio de comunicar a ele do modo mais educado possível a implausibilidade de seu pedido. Sentada a meu lado, a psiquiatra, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Com serenidade, ela tomou a palavra e disse literalmente: “O senhor está parecendo um chefe de família que decide entrevistar a esposa e cada um dos filhos para saber quantas vezes eles defecam por semana para, dessa forma, poder planejar a compra de papel higiênico para o próximo mês”.

Afrontado e ridicularizado, ele reagiu com indisfarçável sarcasmo: “Da sua boca, minha senhora, só se pode esperar m… só sai porcaria mesmo”.

Gargalhando, ela prontamente retrucou: “Doutor, a merda está na sua cabeça, não na minha boca”.

Foi o que bastou. A reunião foi encerrada ali e ele nunca mais trouxe o assunto de volta à baila. Profundamente impressionada com essa aula magna de perspicácia, eu passei a buscar o aconselhamento dela para outras situações difíceis de trabalho. Poucos meses depois, a empresa foi chamada a cuidar do processo de seleção de juízes de primeira instância para uma vaga no Tribunal de Justiça Militar.

Era época de ditadura e eu me sentia extremamente atemorizada para fazer valer meu poder de aprovar ou rejeitar qualquer daquelas figuras de autoridade. Era uma tarefa hercúlea para quem sabia não dispor de suficiente isenção para avaliar o psiquismo de militares, nem equilíbrio emocional suficiente para enfrentar eventuais recursos e apelações.

Um dos candidatos era um tipo asqueroso, que não demonstrava qualquer pudor em lançar mão dos recursos mais vis para alcançar seus objetivos. Eu o havia submetido a testes psicológicos que apontavam sérios desvios comportamentais, mas hesitava em colocar no papel um diagnóstico claro de inadequação para a função.

Talvez por já antever uma reprovação, o tal indivíduo achou por bem subornar um funcionário administrativo para ter acesso ao arquivo com os exames e laudos, o que foi feito de madrugada. Inteirado de sua periclitante situação, na manhã seguinte ele procurou e pagou um psiquiatra particular para elaborar um laudo que negasse as suspeitas levantadas.

A prova final era uma entrevista com minha colega psiquiatra. Eu a procurei logo cedo e falei da minha angústia para expor fatos tão graves ao juiz-presidente do tribunal. Afinal, era minha palavra contra a dele e contra a de um outro profissional, mais qualificado que eu. Ela me acalmou, sugerindo que eu deixasse a cargo dela a tarefa de desmascarar o sujeito.

Ansioso, no dia marcado ele chegou para a entrevista com algumas horas de antecipação. Aboletou-se numa cadeira da sala de espera, fingindo descontração e autocontrole. A cada candidato que saía da sala após a entrevista, ele investigava que tipo de pergunta ela fazia, que tipo de testes eram feitos e como cada um havia respondido. Descobriu dessa maneira que teria de passar por um exame neurológico, que consistia em ficar em pé no meio da sala, descalço e de olhos fechados, fazendo um quatro com as pernas.

Quando chegou sua vez, ele entrou na sala com ar arrogante e foi logo desamarrando os sapatos. Levantou-se, pôs-se na posição, sem que nada lhe houvesse sido solicitado. Ela, em total silêncio, deixou que ele passasse vários minutos na posição. Incomodado com a falta de outras orientações, o sujeito finalmente abriu os olhos e percebeu que ela o encarava com um olhar de surpresa e divertida interrogação.

Candidamente, ela então perguntou: “O senhor costuma fazer isso com frequência?“. Constrangido, ele ainda tentou disfarçar: “Isso o quê?”

“Ficar nessa posição esquisita sempre que entra num consultório médico”, respondeu ela.

Dali para frente, como bem se pode imaginar, o indivíduo perdeu o controle da situação e caiu em seguidas contradições. Quando ele saiu, ela me chamou para mostrar seu laudo. Em poucas palavras, ela havia condensado com maestria as táticas empregadas pelo candidato e redigido seu parecer de tal forma que ele não pudesse vir a contestar uma só palavra.

Estava escrito algo como: “Indivíduo ansioso, impulsivo, que atropela o bom senso, tomando iniciativas esdrúxulas, sem que tenha havido demanda externa. Falta-lhe ponderação, argúcia e controle emocional para lidar com decisões delicadas, o que o inabilita para assumir as graves tarefas pretendidas por esse egrégio tribunal”.

Sua candidatura foi inapelavelmente rejeitada pelo tribunal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

À míngua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Hoje minha alma acordou nublada. Uma sensação vaga de desconforto aqui, uma espécie de insatisfação ali, um certo desalento acolá.

Preocupada com tanta apatia, perguntei a ela: “O que está acontecendo com você?”

Ela respondeu num muxoxo: “Nada…”

“Como assim? Estou vendo que você está muda, murcha, acabrunhada”, insisti.

“Pois é.… parece que estou anestesiada…. Será que você não percebe que a causa do meu mal-estar é exatamente o fato de que não estou sentindo nada?”

A resposta me chocou. Num exame rápido, constatei que ela estava dizendo a verdade. Nada parecia ter a força de tocá-la, afetá-la, sensibilizá-la. Minha mente começou a divagar, tentando ajudá-la a identificar o momento em que ela perdeu o rumo e se deixou cobrir por uma grossa camada de indiferença. De onde vinha esse anestesiamento emocional?

Até ontem, ponderei, meu cérebro estava febril, correndo alucinado de um lado para outro, tentando estabelecer novas conexões, como nunca havia ousado antes. Eu estava até me sentindo orgulhosa desse arroubo juvenil tardio. Mas, pensando bem, havia algo mais no fundo da consciência que me incomodava. A sensação, recordei, era a de que não havia tempo a perder.

A taquicardia, a sensação de urgência e a inegável voracidade da procura bem podiam ser sinais de que a energia elétrica estava se esgotando em todos os meus circuitos cerebrais. Talvez, no desespero de chegar a algum lugar antes que o Alzheimer me pegasse, eu inadvertidamente tenha consumido toda a reserva de oxigênio disponível.

Mas, se isso era verdade, me perguntei, onde encontrar novos fornecedores desse combustível? A resposta explodiu como uma bomba em meu peito. Na troca com outras pessoas! Era dessa falta que tanto minha cabeça quanto minha alma se ressentiam, afinal.

Fez-se subitamente luz. Eu tinha passado as últimas semanas acionando todo mundo que se dispusesse a dialogar comigo sem compromisso, a pensar junto. Poucas, muito poucas pessoas reagiram bem ao convite. A imensa maioria simplesmente preferiu ignorar a solicitação. Sabe como é, o trabalho, o cuidado com a família e os imprevistos tomavam todo seu tempo.

Passei a procurar no mundo virtual algum estímulo minimamente personalizado que tivesse o condão de me retirar daquele tédio existencial. Tudo o que encontrei foram respostas prontas e genéricas, típicas de manual de autoajuda. Nenhum sinal de vida humana inteligente realmente interessada em indagar, especificar, relativizar, contraditar ou acrescentar ângulos pessoais para as minhas questões. Era como morrer de fome em meio a um festim pantagruélico. Tanto alimento para o pensamento e nenhum específico para o tipo de satisfação que minha alma buscava.

Lembrei da tese de um estudioso das conexões corpo-mente que dizia que a psique humana é como uma sanfona. Para produzir sons harmônicos, ela precisa ser capaz de se expandir e contrair totalmente, abrindo-se de forma igual para os dois lados. Se a vareta de um dos lados do fole está quebrada, já não é possível a plena expressão dos sons do lado oposto.

Em outras palavras, se a gente se recusa a vivenciar a dor, torna-se, sem querer, inapto para experimentar alegria. Se tememos ser tomados cegamente pelo rancor ou pela raiva, não conseguimos mais nos deixar inundar pelo sentimento de ternura. Talvez fosse exatamente isso o que os gregos queriam dizer quando afirmavam que só se conhece os sabores por seus opostos. Difícil de aceitar, mas só quem já provou do amargo pode conhecer o que é doce.

Seja como for, ainda me parecia que o que estava acontecendo com minha alma não era, em definitivo, a falta de variedade, de contraste. Ao contrário, lembrava algo mais próximo ao cansaço com tanto estica-e-puxa de suas fibras. Algo parecido com a sensação de déjà-vu diante de tantas manifestações de extremismo, passionalidade. Mais propriamente, era algo como uma vontade de se recolher, de passar desapercebida, de não incomodar.

Para quem ainda não chegou lá, eu explico. Na velhice, não é nada raro a gente se sentir como uma caixa colocada no meio da sala da casa de outras pessoas, que atrapalha a livre circulação dos moradores. E, como ninguém se preocupa em retirá-la do caminho, a gente vai acumulando pó. A sensação de não-pertencimento ao ambiente começa a causar deformações profundas na estrutura da caixa e, finalmente, a incapacidade de sentir prazer se instala.

Sem sombra de dúvida, concluo, minha alma está de volta ao limbo. Como dizia um amigo, já não importa se eu estou certa e o mundo errado, ou se é o contrário. Se sou minoria, sou eu quem tem de mudar. Alguém aí para me jogar uma corda redentora?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Consulta heterodoxa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O paciente entra na sala do oncologista pálido, abatido. O médico o convida a sentar. Ele se curva lentamente e desaba sobre a cadeira, com um gemido. De cabeça baixa, permanece em silêncio por vários minutos.

Preocupado, o médico o estimula: “Como posso lhe ajudar?”

Uma lágrima desce hesitante pela face do paciente. Ele se apruma, encara com firmeza o médico e diz: “Quero fazer uma terapia de reversão do câncer”.

Atônito, o médico indaga: “Como assim? O senhor foi diagnosticado recentemente com câncer por algum colega?”.

Um tanto constrangido, o paciente comenta: “Na verdade, ainda não. Já consultei especialistas de várias áreas, fiz todos os exames que eles solicitaram, mas até agora não foi possível estabelecer um diagnóstico definitivo. Pode parecer loucura da minha parte, mas sei que estou doente e que é só uma questão de tempo para encontrar o exame certo para meu caso”.

Já começando a antever problemas na relação, o médico opta por uma conduta de cautela e dá continuidade à anamnese: “O que o leva a crer que está com câncer? Em qual órgão?”

O paciente se agita na cadeira e, momentaneamente animado, despeja uma lista interminável de sintomas: “Ah, doutor, tenho sentido dores para urinar, sinto uma massa estranha na minha próstata quando me sento ou me dobro para calçar as meias, um cansaço abominável o dia inteiro, perdi muito peso nos últimos meses, meu cabelo está se tornando ralo e caindo, perdi boa parte da minha libido e, quando tento uma relação, perco rapidamente a ereção…”

Médico: “Há toda uma série de doenças com sintomas parecidos. Por que não seria, por exemplo, uma simples infecção urinária?”

Paciente: “É, eu até cheguei a considerar essa possibilidade. Mas depois, consultando o Google, percebi que há vários outros sinais que confirmam a existência de uma neoplasia”.

Médico: “Mas, então, me diga. Por qual razão nenhum dos exames foi capaz de confirmar sua suspeita? Posso vê-los?”

Paciente: “Ah, doutor, infelizmente a realidade é que os exames laboratoriais no Brasil ainda são muito limitados. Não temos acesso a equipamentos de última geração, nem profissionais qualificados para pesquisar em profundidade indicadores pouco conhecidos”.

Médico: “Pelo que posso constatar em seus exames, não há nenhuma razão para preocupação. Mantenho contato regular com especialistas americanos e europeus e posso lhe afiançar que o senhor não obteria resultados diferentes em país mais avançado”.

Paciente: “Seja como for, doutor, pressinto que estou morrendo. Preocupo-me em deixar minha mulher e meus filhos desamparados e, por isso, quero me submeter à quimioterapia, radioterapia e tudo o mais a que tenho direito. Só não quero passar por uma cirurgia porque tenho medo de ficar impotente o resto da vida”.

Médico: “O senhor está louco? Eu jamais aceitaria fazer o que o senhor propõe. Os resultados seriam desastrosos, para o senhor e para mim. As substâncias usadas na quimioterapia são drogas muito potentes, que nem sempre discriminam células sadias das cancerosas e que, portanto, apresentam importantes efeitos colaterais negativos sobre sua saúde em geral. Os efeitos nocivos da radiação são também velhos conhecidos da medicina. Se não fosse por tudo isso, eu ainda poderia ter minha licença cassada pelo Conselho de Medicina por sujeitar um paciente a um tratamento não-indicado e desnecessário”.

Paciente: “Estou pronto para assinar uma autorização, assumindo todos os riscos e eximindo o senhor de qualquer responsabilidade pelas consequências”.

Médico: “Mesmo assim, não há hipótese de eu embarcar na sua loucura. Olhe, amigo, conheço vários profissionais de psicologia e psiquiatria que poderiam ser de grande ajuda para o senhor neste momento”.

Paciente: “Não adianta, doutor. Já consultei vários deles e foram unânimes em sugerir que eu procurasse antes um urologista oncologista”.

Médico: “Bom, se esse é o caso, não sou a pessoa certa para atendê-lo. Não posso contrariar minhas próprias crenças científicas. Não há evidência de que tratamento antecipado possa reverter as chances de instalação de um câncer”.

Paciente: “Doutor, estou tão desesperado que consegui até sensibilizar um juiz para dar fim a minhas angústias. Aqui está a liminar…”

Médico: “Juízes não são os melhores conselheiros para indicação de tratamentos médicos especializados. E não seriam eles, de qualquer forma, a arcar com as terríveis consequências de um ato tão irresponsável”.

Paciente: “Doutor, se o senhor continuar com sua recusa, vou ter de processá-lo por omissão de socorro… e, se nem isso funcionar, eu me mato. O senhor vai ter de levar essa culpa consigo para o túmulo.”

Médico: “Não posso impedi-lo de levar adiante seu delírio, mas, se puder lhe dar um conselho, vá para casa, relaxe, tome um porre, chore bastante e reflita sobre os motivos de querer destruir seu corpo e sua alma. Por falar nisso, como anda sua vida afetiva? O senhor passou por estresse agudo nos últimos tempos?”

Paciente: “Bem, para ser sincero, minha vida conjugal não está nada boa. Já não sinto desejo por minha esposa e tenho encontrado algum prazer apenas na companhia de meus amigos. Quando saímos para jogar bola, eu fico extasiado com a quase indestrutibilidade dos corpos masculinos quando expostos a atividades físicas extenuantes. Quero continuar a sentir que pertenço plenamente a esse universo. Sabe, na sauna que fazemos depois do futebol, ver o suor escorrendo pelas suas costas, coxas e pernas me dá uma sensação borbulhante de vida e alegria. É isso que quero restituir para minha vida com a terapia da reversão do câncer…”

PS
Embora eu tenha me permitido tratar com ironia a autorização judicial para que “psicólogos cristãos” praticassem terapias de reorientação sexual, estou acabrunhada com a notícia do suicídio do médico Farah Jorge Farah, encontrado morto, vestido de mulher. Nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar caso mais emblemático para ilustrar o sofrimento psíquico de uma criatura que se força a viver uma vida de fachada. Muito provavelmente esse indivíduo acreditou que suas dores de alma desapareceriam se ele evitasse revelar seu universo interior misógino e repleto de ódio a algum profissional qualificado para lidar com esse tipo de problema. Não pretendo justificar os atos extremos de um assassino, mas considero fundamental que nossa sociedade reflita sobre os danos decorrentes da ideia de interferir na estrutura psíquica de uma pessoa fragilizada, seja em nome de algum ideal político, religioso ou de adequação social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A língua falada por cada um – 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se é verdade que os esquimós dispõem de mais de uma dezena de palavras diferentes para se referir à neve por simples questão de sobrevivência, que expressões frequentam mais regularmente o linguajar cotidiano dos brasileiros?

Seria, sem dúvida, muito interessante e iluminador fazer uma pesquisa de âmbito nacional para descobrir isso. Tiradas as expressões mais regionais, deve haver alguma mais emblemática que desvele o cerne da alma tupiniquim.

Por coincidência, um sociólogo holandês, que foi meu chefe, decidiu fazer um levantamento por conta própria, ainda que desprovido de rigor científico, encantado que estava com as diferenças de atitude entre o cidadão holandês médio e o homem brasileiro do povo. Para meu supremo espanto, encontrou mais de vinte expressões usadas em todo o país, com uma surpreendente característica comum: todas começando com a palavra “tudo” e comunicando sensação de domínio e bem-estar.

Tudo bom, tudo bem, tudo sob controle, tudo azul, tudo em paz (ou tudo na santa paz), tudo em ordem, tudo nos conformes, tudo indo, tudo como dantes no quartel de Abrantes, tudo como manda o figurino, tudo de vento em popa, tudo junto e misturado, e por aí vai. Garanto que, se você pensar um pouquinho, vai conseguir contribuir e muito para o enriquecimento dessa lista.

O que isso revela sobre nós? Pessoalmente, acredito que duas coisas chamam mais a atenção: a primeira, a referência à nossa capacidade de generalização, expressa na abrangência do “tudo” (no sentido positivo) ou talvez, mais tristemente, à nossa incapacidade de discriminação, de separar o joio do trigo, o desejo de tapar o sol com peneira e não entrar em contato com o lado ruim da realidade nacional.

A segunda, nosso caráter hedônico, a crença ‒ ou ilusão ‒ de que somos um povo afeito à inventividade, à improvisação e de que o resultado sempre será satisfatório se o trabalho for feito com alma e com paixão. Aí estão o futebol, o carnaval e as novelas para provar que podemos ser imbatíveis se não forem impostas restrições externas a nossos talentos e prazeres naturais.

O jeitinho brasileiro, cantado em verso e prosa dentro de nossas fronteiras e olhado com desconfiança por estrangeiros, parece ser mesmo nosso farol máximo. Só elogiamos nossa própria capacidade de superação depois de fazermos referência implícita ou explícita à habilidade de contornar toda forma de obstáculos, venham de onde vierem. Inflação, desemprego, corrupção, violência, falta de assistência médica, falta de educação de qualidade, nada é grave o suficiente para detonar uma revolta popular radical. Ao mesmo tempo, todos os entraves são sentidos como motivação para exibirmos nosso jogo de cintura e criarmos soluções caseiras alternativas.

Não temos pressa também de encontrar respostas para os desafios nacionais. O país é grande, temos terras, gente e recursos naturais suficientes para recomeçar uma vez e outra, se necessário for. Por isso, podemos até mesmo nos dar ao luxo da procrastinação, de empurrar com a barriga o encontro de uma solução definitiva. Uma hora qualquer, tudo acaba entrando nos eixos, é só questão de paciência. No país das revoluções sem sangue, em que as leis pegam ou não pegam, em que as regras são alteradas da noite para o dia, depois de começado o jogo, tudo nos induz a lidar com as emergências como se elas tivessem apenas caráter provisório. Os conflitos podem ser resolvidos, dispersando populações inteiras de uma região para outra, afastando as favelas dos centros urbanos ou desenvolvendo atrações em bairros periféricos. Somos campeões na criação de cenários conotativos de paraíso tropical, ainda que saibamos que, em última instância, eles sejam só “para inglês ver”.

Até na religião se manifesta nossa secular sede de inclusão de “tudo” e de “todos”. O sincretismo é nosso jeito especial de multiplicar possíveis bases espirituais de apoio, de conciliar os interesses da elite e do povo, de dizer que a verdadeira felicidade não está neste plano. Para quê, então, esfalfar-se na lida diária, sob um sol inclemente, se o homem põe e Deus dispõe?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Constrangimento

Myrthes Suplicy Vieira (*)

As definições de dicionário costumam ser problemáticas para quem está em busca de orientação única, dada a necessidade de considerar significados atrelados especificamente a um determinado contexto. Manga, por exemplo, pode ser uma fruta, parte do vestuário que recobre o braço, tubo usado para envolver condutores elétricos, peça tubular que serve para revestir ou proteger outra peça, parte do eixo de um veículo ou filtro afunilado para líquidos.

E, vejam vocês, toda essa multiplicidade de entendimentos acontece em torno de uma palavra comezinha, trivial, usada para se referir apenas e tão somente a um objeto. O que dizer então das infinitas possibilidades de confusão geradas por palavras que fazem referência a comportamentos, atitudes, valores individuais, princípios sociais, sentimentos ou emoções? Posso apostar que cada um dos que me leem tem sua própria coleção de estórias de situações embaraçosas causadas por alguma impropriedade linguística.

Estrangeiros podem cometer gafes imperdoáveis em função de domínio pobre das nuances semânticas de outra língua. Tradutores se debatem todos os dias com a escolha da palavra certa para transmitir fielmente a mensagem original. Humoristas valem-se muitas vezes das confusões no uso de cada vocábulo para divertir plateias e ganhar a vida. Psicólogos e psiquiatras esfalfam-se no cotidiano da clínica para trazer à luz os significados emocionais ocultos na escolha desta ou daquela palavra.

Tudo isso já era sabido. Por coincidência, os meios de comunicação acabam de nos introduzir a um outro contexto em que uma mesma palavra – constrangimento ‒ ganha conotações próprias, polêmicas e praticamente opostas: a área jurídica. Vários jornais trazem estampadas na manchete duas notícias que abordam as agruras de magistrados brasileiros para lidar com esse conceito. A primeira diz respeito à indignação generalizada, tanto de especialistas de direito quanto de pessoas comuns e, em especial, das mulheres ante a sentença de um juiz que considerou não ter havido constrangimento algum no fato de um homem ter ejaculado no pescoço de uma mulher, no interior de um ônibus que transitava em plena luz do dia pela principal avenida de São Paulo.

A segunda faz referência ao prognóstico de ministros do STF que devem julgar a suspeição de um de seus membros para julgar a libertação de um réu com quem tem relações óbvias de parentesco e compadrio. “A regra é evitar o constrangimento”, afirma a reportagem, especulando que a denúncia não deve prosperar na mais alta corte do país. Cabe perguntar: constrangimento de quem? De seus pares, que prefeririam não se posicionar formalmente contra ou a favor de suas decisões estapafúrdias ou de sua postura de confronto com colegas da magistratura e do ministério público? Ou será o constrangimento de afrontar a opinião pública que já dá mostras de cansaço com os seguidos estupros que os dirigentes de nossas três esferas de poder perpetram contra a consciência cívica e ética dos cidadãos?

Querendo entender um pouco melhor o alcance psicológico do termo constrangimento nas duas situações, fui aos dicionários. A primeira surpresa aconteceu quando me dei conta da dessintonia de significados que ocorre se o verbo se apresenta na forma transitiva direta, indireta ou pronominal (que, no meu tempo, se chamava reflexiva). Preparei até uma lista para destacar as implicações legais e psíquicas de cada vertente de significado:

transitivo direto: apertar, dificultando os movimentos, comprimir; tolher a liberdade, dominar, subjugar, sujeitar; ser inconveniente

transitivo indireto: obrigar alguém a algo pelo uso da força; forçar, coagir, compelir

pronominal: ficar embaraçado, envergonhar-se, vexar-se; sentir-se incomodado; ser vítima de inconveniências ou aborrecimentos. Já quanto ao substantivo constrangimento, os dicionários apontam ainda as seguintes conotações: “força (física, moral ou psicológica) exercida sobre alguém para obrigá-lo a agir contrariamente à sua vontade; situação moralmente desconfortável; timidez diante de outras pessoas, acanhamento, encabulamento, vergonha.”

A sutil diferença implícita? A intenção, os sentimentos e a imagem pública de quem constrange e de quem é constrangido. Impossível deixar de notar que em ambos os casos a pessoa a causar embaraço era um homem com uma vasta folha corrida de transgressões (à lei, à ética ou à moralidade pública) e a pessoa vitimada era uma mulher – além da ministra-chefe do STF que deve decidir se pauta o julgamento em plenário ou arquiva a denúncia, permito-me usar de licença poética para incluir a opinião pública nessa categoria.

Não sou feminista e não pretendo insinuar que, fossem agressor e vítima ambos do sexo masculino, as coisas seriam diferentes. Entretanto, admito que me causou profunda perplexidade o final da sentença do juiz do primeiro caso. Para os que não tomaram conhecimento dela, aqui está: “Entendo que não houve constrangimento, violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada [grifo meu] em um banco de ônibus quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado”.

Em outras palavras, para esse magistrado, assim como, infelizmente, para muitos outros homens, a sacralidade do corpo feminino e a defesa da dignidade da mulher continuam centradas no conceito de não-violação de seu orifício vaginal. Considerando que o agressor se aliviou “apenas” no pescoço da vítima, à luz do sol e em via pública, deve ter parecido sensato ao digníssimo concluir pela não-violência do ato e enquadrá-lo como simples contravenção penal, de menor potencial ofensivo.

O segundo caso deixa transparecer outro conceito francamente medieval e de efeito igualmente deletério para a preservação da tese de direitos iguais para todos: o de que juízes, por natureza, direito divino ou prerrogativa de cargo, estão além e acima das paixões humanas.

Atenção, céticos de plantão do século 21: aprendam de vez mais uma preciosa lição ministrada por nosso Judiciário: suspeita será sempre a motivação de arguir a suspeição de um varão ou de um magistrado só porque eles chamam a si a prerrogativa de impor suas interpretações da realidade, suas visões de mundo e seus desejos a toda uma coletividade. Atenção maior ainda, defensores dos direitos humanos: a violência física será ad æternum tratada por nossos legisladores e juízes como menos grave do que o constrangimento moral e a tortura psicológica.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desmascaração astral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Inventei o neologismo acima para designar uma dolorida ação orquestrada por forças astrais para me forçar a um autoexame de consciência. Ainda não sei bem qual o propósito de passar por essa experiência, se o de apontar preconceitos, vulnerabilidades e defeitos de caráter que ainda existem dentro de mim – mesmo que eu os negue peremptoriamente – ou o de me induzir a dar mais alguns passos em direção à evolução espiritual.

Tudo começou com um sonho. Eu caminhava por uma estrada asfaltada, ao lado de várias pessoas. Não via o rosto de ninguém, só enxergava as panturrilhas dos que caminhavam à minha volta. De repente, um tumulto. Todos se aglomeram do lado esquerdo da pista e apontam para baixo. Comentam angustiados uns com os outros algo que não entendo, mas que me parece de mau augúrio. Inclino-me para frente para verificar com os próprios olhos o que aconteceu. Ao fazê-lo, acabo me dando conta que a estrada desbarrancou. Vejo areia por debaixo do asfalto e concluo que, apesar de sua aparente solidez, a estrada havia sido construída sobre uma base instável.

Mesmo com medo de cair, inclino-me um pouco mais e percebo que há uma vala de esgoto lá embaixo. Alguém grita que há um corpo de mulher caído dentro dela. Um homem a meu lado olha detidamente o rosto da mulher e a identifica. Quando ele pronuncia o nome de família da moça, me desespero: eu também a conheço. Era uma colega de trabalho que sempre me inspirou admiração por sua competência, disposição e senso de humor. Pergunto-me por qual razão ela teria tido um fim tão trágico. Acordo com uma sensação de injustiça, difícil de entender.

Por mais que eu relutasse em a aceitar, a mensagem do sonho parecia clara: um abismo me separava daquela mulher e o desnível entre nós estava atrelado ao seu sobrenome. Não havia como interpretar de outra forma: simbolicamente, eu estava sendo acusada de discriminação social. Essa possibilidade me desestabilizou emocionalmente por alguns dias. Sentia que não era merecedora da pecha de preconceituosa e, por mais que buscasse outras evidências nesse sentido, não encontrava nada. Quando minha consciência já estava um pouco mais apaziguada, lá veio um segundo sonho.

Eu estava coordenando um workshop, não sei bem com qual objetivo. Apesar de não ser intervalo para almoço, os participantes estavam dentro do restaurante, agrupados em torno de uma pilha de pratos e tigelas. Os ânimos estavam exaltados, todo mundo falava ao mesmo tempo e me incomodava muito a sensação de desorganização do evento. Eu tentava chamar a atenção de um funcionário, pedindo que ele me trouxesse mais peças com uma determinada decoração. Outras pessoas faziam pedidos similares. Perdido em meio ao tumulto, ele me responde que não havia mais nenhuma à disposição. Assim não vai dar, pensei com meus botões.

Irritada, comecei a me perguntar qual era, afinal, o sentido da tarefa proposta: só agrupar peças de porcelana com base no padrão de decoração ou haveria um propósito mais “filosófico” para ela, que me escapava? Fosse como fosse, tudo aquilo me parecia absurdo, superficial demais para um treinamento.

Cansada, sentei-me em um banco, tentando recuperar o controle da situação. De repente, um rapaz sai da cozinha, todo suado, de tamancos, e abanando-se com um pano de prato. Senta-se displicentemente a meu lado e começa a conversar com um colega, aos gritos. Minha irritação cresce com a descompostura dos dois. Acordo perturbada, mais uma vez com a sensação de estar estava sendo injustiçada. Desta vez, duplamente: de um lado, acusada de não saber fazer meu trabalho, e de outro, novamente de não saber lidar com as diferenças de classe.

O terceiro sonho veio após mais alguns dias. Eu dirigia meu carro por uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, com corredores de ônibus nos dois sentidos. Era uma tarde bonita de sol e o trânsito fluía bem. De repente, sinto vontade de estacionar e ir até uma concessionária de automóveis que ficava do outro lado da pista. Paro, desligo o carro, deixo a chave na ignição e atravesso a rua, com total despreocupação. A conversa com o gerente da concessionária foi ficando animada e eu fui-me deixando ficar. Ao sair, constato o óbvio: o carro não estava mais onde o deixei. Desta vez, não havia como me eximir da responsabilidade pelo infausto resultado.

Negligência, irresponsabilidade, imprevisão, incapacidade de planejamento, insensibilidade social, prepotência, arrogância. Sem dúvida, as forças astrais encontraram duras maneiras de me apresentar a mim mesma. Ainda estou cheia de hematomas causados por tantos golpes contra minha autoestima. Não que esse confronto com as zonas de sombra do meu psiquismo constitua propriamente uma novidade. Ao contrário, sempre me considerei uma fraude, prestes a ser desmascarada por um observador mais atento. Sei que minha doença tem até nome: a síndrome do impostor.

Mas uma coisa ainda me intriga: por que os sintomas voltaram agora? Minha vida parecia ter se estabilizado depois do trauma da perda de minha filósofa canina preferida. Num segundo, a ficha cai. Volta à minha cabeça uma frase emblemática: “Não apresente o olhar de admiração de seu cachorro como prova de que você é uma boa pessoa”.

É isso! Sem o espelho compassivo dos olhos da Molly, não tenho como explorar meus melhores ângulos, não pertenço mais à família dos leves de alma e caminho sem destino sobre um terreno falsamente sólido.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Porque beleza de alma também é fundamental

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Elimine de seu cardápio imediatamente a gordura das paixões desenfreadas. Corte já de sua dieta o açúcar dos afetos comprados a peso de ouro. Não ingira nada que contenha o glúten dos laços emocionais de conveniência. Eles são um perigo, vão se transformar em açúcar no seu sangue mais dia menos dia e acarretar profundo desconforto psíquico a longo prazo.

Afaste-se tão logo seja possível da lactose dos compromissos ideológicos e partidários. Além de demandarem muito esforço orgânico para serem digeridos, só beneficiam plenamente os neófitos. Resista o quanto possa ao sedentarismo da alienação social. Gigantescas placas de conformismo vão se acumular nas suas artérias e dificultar o livre fluxo do sangue vivo da coragem de transformar.

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Abstenha-se de inalar a fumaça do derrotismo antecipatório, comprovadamente cancerígena. Não se deixe embriagar por tantas promessas inebriantes de fama e de sucesso financeiro. Vários estudos já comprovaram que ambos têm altíssimo poder aditivo. Quanto mais sedutores forem esses licores, mais eles o vão induzir ao abandono de outras conquistas relevantes, como a família, os amores gratuitos e a paz de espírito.

Fuja, como o diabo da cruz, do desejo de enrijecimento muscular do seu envoltório físico. Um dia você vai perceber que o bumbum na nuca, a barriga de tanquinho e as panturrilhas inchadas só o tornaram insensível para vivenciar as experiências enternecedoras de vida, como o sorriso de uma criança, a beleza de um pôr de sol, um silencioso abraço apertado de um amigo ou o olhar de admiração de seu cachorro.

Não se envolva em orgias sensoriais, a não ser que as planeje com total consciência das verdadeiras demandas de seu desejo e aceite a responsabilidade pelas consequências danosas de tanto estirar e encolher alienado de alma. Não carregue o sobrepeso das amarguras, dos remorsos, dos ressentimentos e da desesperança.

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Exercite-se todos os dias na arte de doar. Doe seu tempo, sua energia, seu dinheiro e seu amor a quem não espera que você o faça. Torne-se um mestre faixa preta na arte de surpreender e ser surpreendido. Não se deixe abalar por inesperados desvios forçados do seu trajeto amoroso. Às vezes vale muito a pena deixar de lado o rigor dos projetos preconcebidos para perder-se no espaço aberto das oportunidades de novos encantamentos.

Acima de tudo, ganhe consciência do quanto sua fragilidade humana pode enriquecer seu portfólio afetivo – e não o contrário. Ninguém se basta e todos os vínculos são provisórios. A aceitação dos próprios contornos anímicos derrete toda forma de resistência, aproxima seres que se sabem imperfeitos e motiva na busca pela grandeza interior.

Já está cientificamente provado que o que adoece o espírito é o tédio, a falta de sentido do estar no mundo e a falta de um propósito claro para a própria existência.

Desintoxique-se, redescubra-se, perdoe-se pelo tempo perdido, abençoe seus desafetos, recomece uma vez e outra. Viver é perigoso, fascinante… e mortal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pessoas difíceis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu confesso: sou uma pessoa difícil mesmo. Não chego a ser casquinha de ferida absoluta, mas posso sangrar em fração de segundo, bastando para isso que alguém lance no ar a suspeita de que sou desleal. Que eu me depare com a insinuação de que minha disponibilidade intelectual ou afetiva não é sinal de generosidade verdadeira, mas mero disfarce para encobrir a usurpadora que rasteja sorrateiramente dentro de mim.

Por razões insuspeitas, prefiro ser chamada de bruxa a ser confundida com gueixa. Submissão nunca foi minha praia. Estou muito longe do perfil de mulher que cola um sorriso à face e atropela os próprios sentimentos para se colocar a serviço do prazer alheio. Ao contrário, defendo com unhas e dentes meu direito ao gozo de frutos sensoriais, racionais, afetivos e espirituais de cultivo próprio. Sou mais afeita à alquimia dos encontros de alma, sempre capazes de transformar conveniências em oportunidades de enriquecimento mútuo.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Não sou uma figura solar, expansiva, daquelas que aquecem o ambiente de imediato e podem até cegar os circunstantes. Prefiro ser luz de vela que bruxuleia timidamente porque não pode negar a força da escuridão nem desmerecer o poder da indiferença. Sou mais dúvida do que certeza, mais hesitação do que rompante.

Não sou pessoa de fino trato, mas requeiro cuidado extra ao ser manipulada. Se chacoalhada com rudeza, na ânsia de descobrir o que se esconde em meu interior, posso explodir e destroçar toda forma de curiosidade invasiva. Maior perigo ainda correm os incautos, que, por medo da devastação que posso provocar, me tratam como porcelana chinesa: não conhecerão meu valor até que aceitem correr o risco de ferir as mãos com os cacos de minha presumida superioridade.

Que fique bem claro para todos: não sou ogro nem tampouco ovelha pronta para o sacrifício. A bem da verdade, sou a mistura complexa de duas naturezas conflitantes. Qual centauro, trago no peito o desejo da delicadeza e, no corpo, a fúria da libido animal. Pisciana, filha de mãe taurina e pai ariano, aprendi cedo a não medir forças com a autoridade externa. A admirar e tentar copiar a estratégia da água, que transpõe obstáculos corroendo-os um pouco a cada dia.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Acredito piamente que, para tudo nesta vida, há de haver critério e limites claros. Sou, aliás, muito boa na demarcação de territórios de liberdade e de áreas proibidas para crianças, cães ou outros invasores de minha intimidade. Não sofro do mal da fingida cortesia, nem determino infindáveis pré-requisitos para conhecer e me apaixonar por outras pessoas. Na lista dos meus defeitos de caráter, certamente não está a hipocrisia. Especializei-me na arte do “sincericídio”, seja por acreditar que a verdade liberta, seja por esperar contrapartida de mesmo nível.

Tenho alguns segredos a revelar, ainda que um tanto a contragosto, a respeito das características menos visíveis de minha estrutura psíquica. O silêncio magoado é letal para mim. Da mesma forma, os jogos de poder ferem de morte minha alma. A capacidade de ternura, de compaixão e de perdão desestruturam por completo minha sede de retaliação. Nutro um profundo desprezo pelas pessoas que acham mais confortável posicionar-se sempre em cima do muro em nome da evitação do confronto.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Aos que julgam que as personalidades difíceis são insuportáveis e deveriam ser submetidas a contínuos programas de adestramento na área de habilidades sociais, um recado final: não se deixem impressionar pela aparência de poucos amigos. Não sou mal-educada, nem uma grosseirona empedernida, incapaz de reconhecer os próprios erros e pedir perdão. Não me considero vítima de nada, a não ser talvez da crueza de minhas próprias exigências éticas.

Ao contrário, é exatamente por respeitar minha natureza menos maleável – ou mais resiliente, se preferirem – que compreendo bem a necessidade de ser respeitosa para com outras naturezas mais afáveis e condescendentes.

Em resumo, acredito que as pessoas difíceis têm a consistência certa para quem aprecia frutos carnudos que vêm abrigados em casca grossa. Tudo o que é preciso para nos consumir com prazer e extrair toda a suculência de nosso conteúdo é confiar na força de seu próprio queixo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, veado e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.