Adotando um pesadelo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Nos últimos meses, tenho evitado como posso abordar o tema “vida ao lado de cachorros”. Desde que minha filósofa de quatro patas preferida partiu, abriu-se um imenso vazio em meu coração e teve início um angustiante período de falta de interlocução com outros humanos e outros animais.

Não me entendam mal. Continuo desenvolvendo como de hábito minhas atividades profissionais e sociais, encontrando parentes e amigos, cuidando da minha cachorra Aisha e tentando encontrar uma nova companheira peluda que seja capaz de nos tirar do pântano existencial em que patinamos. Por mais contraditório que pareça, nada disso consegue trazer alívio ou verdadeiro prazer para minha mente atormentada.

Constato com mais força a cada dia que passa que o vínculo que me uniu à Molly é, para todos os efeitos, único e insubstituível. Talvez para quem nunca tenha convivido com um animal de estimação soe estranho falar sobre a personalidade de cada pet, mas assim é. Independe totalmente de sua raça, porte, idade ou sexo. Cada bicho tem um jeito peculiar de andar, comer, tomar água, brincar, dormir, exprimir suas necessidades e se relacionar com seu dono. Não há como transferir para outro cachorro a rotina de cuidados e experiências, sem que tudo pareça despropositado, forçado ou fora de ritmo.

Como a interlocução entre um humano e seu bicho de estimação é de alma, de energia e não passa pelas palavras, a gente é obrigada, mesmo que não queira, a fazer uma revisão profunda dos alicerces que sustentam nossa relação com cada animal. O passatempo preferido da Molly era ficar me olhando com um ar inquisitivo, em completo silêncio e imobilidade, como se pudesse ler tudo o que me passava pela alma. A palavra de ordem na vida da Aisha, ao contrário, é agitação. Qualquer atividade para ela é prazerosa, tanto faz se o convite é para passear ou movimentar-se dentro de casa mesmo, desde que haja uma bolinha como forma de intermediação da nossa relação. Quando não há nenhuma à mão, ela se entrega à apatia e me ignora por completo. Não há meio termo, não há possibilidade de diálogo ou negociação.

É da minha natureza buscar o sossego e a meditação, mas sou forçada a confessar que a rotina de interiorização logo me cansa. Preciso sempre que o beijo de alguma estimulação externa desperte a Bela Adormecida que vive em mim. Recomeçar é, para mim, tão vital quanto o ar que respiro. Quando a vida me oferece essa possibilidade, minha energia mental e espiritual prontamente recomeça a brotar.

Nas últimas semanas, o que mais tenho feito é visitar sites de doação e feiras de adoção de pets. Tenho analisado as mais diferentes opções de tamanho, cor, idade e temperamento canino. A desastrosa tentativa de convivência com a Helô me chamou de volta à realidade: não tenho mais idade, disposição física ou paciência para educar um filhote e lidar com a inevitável frustração de vê-lo destruir tudo ao redor. Passei a focar nas alternativas de adoção de cachorras adultas, mansas e sociáveis, uma vez que preciso levar em consideração também uma possível rejeição da Aisha.

Pode ser que o problema seja meu, mas sinto que a estratégia de marketing que vem sendo usada por muitas ongs e protetores está redondamente equivocada. Na ânsia de aumentar as chances de adoção, praticamente todos os cães anunciados são apresentados como portadores das qualidades acima. A alegação padrão costuma ser a de que o bicho é carinhoso, dócil, carente e obediente, não importa se ele é um pitbull idoso e vítima de maus tratos ou um vira-lata brincalhão que mal começou a vida.

Examino as fotos e analiso com cuidado o olhar de cada cachorra disponível. Não é isso que sinto na imensa maioria dos casos. Quando localizo alguma que tenha o olhar filosófico ou uma postura de esfinge parecida com a da Molly, meu coração bate descompassadamente. Ligo, converso, negocio, explico minha situação, peço informações detalhadas sobre o comportamento da outra. As promessas se repetem, monótonas. Quando alerto que preciso fazer uma experiência de contato entre a candidata e a Aisha antes de me comprometer em definitivo, o discurso começa sutilmente a mudar de figura.

Uma só pode morar em casa térrea, preferencialmente com grades e telas de proteção. Outra magicamente passa a ser diagnosticada como um tanto instável na convivência com outros animais adultos. Outra ainda é apresentada como extremamente medrosa e desconfiada, em função de traumas emocionais derivados de maus tratos. E por aí vai.

Ultimamente, tenho me sentido como uma socialite entediada que tem um exército de tratadores, adestradores e terapeutas caninos à disposição. Outras vezes, como uma dona de casa apalermada, cujo único interesse na vida é cuidar de cães e que tenta preencher seu vazio existencial com eles por não dispor de uma vida social (quiçá sexual) satisfatória.

Será que sou eu quem está à procura um ideal inexistente ou serão eles que ainda não se deram conta de que há infinitas outras formas de crueldade com os animais além do abandono e dos maus tratos?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A língua falada por cada um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gosto muito das lições vernáculas que recebo lendo os primorosos e divertidos textos da Dad Squarisi. O de ontem não constitui exceção de modo algum, mas não posso deixar de confessar que ele me deixou um tantinho angustiada.

A bem da verdade, admito que, quando estou na dúvida sobre a forma gramatical correta, muitas vezes recorro ao estratagema usado pela secretária que, por desconhecer a grafia correta de sexta-feira, reagendou a reunião para a quinta. Além disso, tenho certeza de que se eu estivesse na pele da segunda, sem saber ao certo se o correto seria dizer “conosco mesmos” ou “com nós mesmos”, optaria por uma solução de compromisso mais tranquilizadora do ponto de vista psicológico: aconselharia meu chefe a trocar ‘nós’ por ‘a gente’.

Na sequência, refletindo um pouco mais, acabei descartando minha própria sugestão. Novas dúvidas se enraizaram de imediato em minha cabeça: se a troca fosse aceita, como ficaria o reforço ‘mesmos’? Seria correto dizer “com a gente mesma” ou, neste caso, ‘mesmo’ agiria como reforçador neutro de ‘queremos’? Se a frase começa com o plural ‘nós’, pode terminar no singular? Pensando bem, talvez fosse melhor sugerir algo como “Queremos estar de bem com aquilo que somos”. Pode ser mais longo e não tão preciso, mas pode eliminar a angústia mais rapidamente.

É curioso como, ao longo da vida, aprendi a demonstrar tolerância zero com erros de grafia e de concordância verbal, mas descuidei do aprendizado da norma culta. Escolho intuitivamente as construções de frase que me geram total confiança e fujo como o diabo da cruz de outras que experimentei um dia e que, por sua impropriedade, me encheram de vergonha.

O que não perdoo em mim mesma, perdoo menos ainda nos outros. A reprovação mais rápida da história universal da Seleção de Pessoal aconteceu com um colega que iniciou uma entrevista com um estudante universitário perguntando: “Quando você se forma? ”. A resposta veio de pronto: “Eu se formo agora no meio do ano”.

Por seu lado, sempre achei melhor que cada pessoa se exprima verbalmente da forma como aprendeu com os pais ou com a comunidade à sua volta, mesmo que contrarie o rigor da norma culta. Soa mais natural e preserva todo o sabor do jeito particular com que cada agrupamento humano diz o mundo. Um dia, se lhe interessar, a pessoa poderá aprender com mais facilidade como articular sua fala da maneira correta para provocar o impacto que deseja.

Sei por experiência própria que, quando a pessoa finge dominar as regras da semântica com o intuito de passar boa impressão a seu interlocutor, o resultado é inevitavelmente cômico e constrangedor. Foi o que aconteceu quando eu entrevistava um candidato para uma posição de gerência.

Ele havia enviado um curriculum grandiloquente, autoelogioso e volumoso e eu estava curiosa para descobrir o quanto suas experiências profissionais anteriores retratavam a verdade dos fatos. Comecei pedindo que ele resumisse suas atribuições no último posto de trabalho. O rapaz respirou fundo enquanto tentava organizar o pensamento e, de repente, seu olhar se iluminou, como se houvesse descoberto a fórmula certa de me impressionar logo de saída com seu douto saber. Cheio de confiança, ele nem pestanejou ao lançar as seguintes pérolas:

“Permita-me fazer um prêmbulo…

Mesmo fortemente impactada, não me foi difícil compreender que o ele pretendia de fato era dizer “preâmbulo”. Segurei o riso e respondi com serenidade: “Faça quantos achar necessário”.

Estimulado, ele prosseguiu: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

by Martin Singer (1969-), desenhista francês

Mais uma vez, bastou uma rápida reflexão para entender que, na verdade, ele queria dizer “burilar”. Só que, dessa vez, algo se agitou em mim. A impropriedade linguística do candidato começou a fazer uma outra lógica, que eu só poderia descrever como um enquadramento psicológico criativo, ainda que alucinado.

É que, mesmo me parecendo surreal a comparação, eu havia chegado à conclusão de que as duas palavras guardam semelhança, ao menos no que diz respeito à intenção. Se você parar para pensar, vai descobrir que aquele que burila alguma coisa, seja pensamento ou algo concreto, está na verdade mudando seguidamente de posição, avançando e recuando, experimentando novos ângulos e aparando arestas. Talvez até mesmo se deixando excitar com as possibilidades que se abrem diante de seus olhos ao manipular com competência profissional ou atabalhoadamente a ideia ou o objeto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pittsburgh e o planeta; Brasília e o Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há alguns dias, Donald Trump postou-se em frente às câmeras e, como de hábito, inflou o peito de orgulho para anunciar diante de uma plateia embasbacada que os Estados Unidos estavam se retirando do Acordo do Clima de Paris. Sem parecer se dar conta das consequências de seu ato, cometeu simultaneamente um ato falho e ilustrou como raciocinam pacientes psiquiátricos acometidos por um distúrbio em que se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte.

Jactando-se de sua capacidade de fazer valer delirantes promessas de campanha, justificou sua decisão afirmando ter sido eleito para representar os eleitores de Pittsburgh e não os de Paris. Parece ainda não lhe ter caído a ficha de que sua inesperada (até para ele mesmo) façanha eleitoral o colocou no centro do palco para representar a totalidade dos cidadãos norte-americanos, não importando na prática se eles são oriundos de Pittsburgh, Nova Iorque ou Baltimore, se de fato votaram nele, nem se acreditam nas evidências de que o aquecimento global é um preocupante fenômeno real ou se apostam, como seu patrono, que tudo não passa de mais um embuste dos chineses.

Na sequência, na ânsia de repisar seu bordão favorito “America First”, atropelou a lógica, passando lépido e fagueiro por cima do fato de que o Acordo de Paris não representa apenas os interesses dos eleitores da capital francesa, mas é um desejo comum manifesto por mais de 190 países signatários. Pateticamente, comportou-se mais uma vez como se tivesse sido não só proclamado presidente, mas coroado imperador do universo, estando exclusivamente em suas mãos o poder de decidir o que é melhor para o futuro do planeta.

Ainda um pouquinho pior, se é que é possível, demonstrou continuar acreditando que aos demais líderes mundiais cabe apenas curvar a cabeça e dobrar-se impotentes a seus decretos. A realidade, felizmente, foi-lhe esfregada na cara poucos minutos depois, a começar pela própria cidade de Pittsburgh.

Essas considerações me ocorrem enquanto eu acompanho o julgamento da chapa vitoriosa em 2014 pelo TSE e reflito sobre os desdobramentos da eterna crise da democracia brasileira. Lá como cá, a questão da representatividade não está clara para aqueles que teoricamente nos representam. É como se todos se sentissem guindados a posições de poder não por livre escolha da população, mas por direito divino ou inteligência superior ao comum dos mortais. Mais grave, permanecem indistintos na mente da esmagadora maioria de nossos homens públicos – e, infelizmente, também de uma parte da população – os conceitos de interesses do Estado e interesses do governo de plantão.

A patológica negação dos limites da realidade domina a cena também em nossos tristes trópicos. Se já não bastassem os parlamentares e integrantes do executivo a ignorar o clamor das ruas, agora são magistrados a admitir, sem qualquer espécie de pudor, que estão a serviço da manutenção da governabilidade e não da faxina ética que a população vem perseguindo.

Retraçar através de uma decisão digna da corte eleitoral os limites jurídicos e constitucionais entre a coisa pública e a privada? Nem pensar. O TSE não se sente imbuído dessa missão. Avisa que não há tempo, nem “clima” para ponderar sobre essas minudências agora.

E lá vai a Pátria Educadora enviando a mesma velha mensagem às futuras gerações: em certas situações emergenciais, mande os escrúpulos às favas e permita-se pequenos desvios de trajeto. Quando o tempo de vacas gordas voltar, haverá tempo e motivação suficientes para dar uma bela limpada no chiqueiro e livrar-se da lama que possa ter respingado aqui e ali.

Como questionaria Mané Garrincha, será que a estratégia de jogo já foi combinada com os adversários, isto é, com a população? Pensando bem, eu diria que, a julgar pelo andar da carruagem, logo estaremos assumindo a liderança mundial no campeonato de implementação de um inovador conceito de filosofia política: a democracia sem povo. Afinal, para que serve o povo?

Já não basta estar assegurado o direito de votar para que o regime continue a ser chamado de democrático? Ora bolas, chega de hipocrisia e de discursos paternalistas inflamados para inglês ver. Está mais do que na hora de nos conscientizarmos de que o povo sempre foi um penduricalho incômodo no organograma nacional desde que a primeira caravela portuguesa aportou em território brasileiro. “O povo não sabe votar”, “o povo é só um detalhe”, lembram-nos continuamente tantos iluminados de nossa história recente.

Sem querer parecer arrogante, tenho um só conselho a dar a todos esses senhores: quando o resultado do jogo for finalmente anunciado, comecem a redigir suas cartas-testamentos, explicando à nação porque foi inevitável abrir mão da honra e da história para cair de vez na vida. Se escolherem as palavras certas, pode ser que alguns clientes ainda se deixem sensibilizar e se mostrem sôfregos para contratar novamente seus serviços de zeladoria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O poder das analogias

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da profunda sabedoria contida numa analogia ela veio envolta na saborosa e rústica forma de falar nordestina. Eu estava em Recife, coordenando um treinamento para a equipe de vendas da região. Fizemos uma pausa no meio da tarde para um café. Eu conversava com um dos participantes, que parecia empolgado com as propostas introduzidas na parte da manhã.

Ele mastigava descontraidamente uma bolacha cream-cracker enquanto me ouvia tecer considerações sobre o que viria a seguir. De repente, notei que ele fazia caretas de desagrado e, intrigada, perguntei o que o estava incomodando. Com um meio sorriso nos lábios, ele respondeu: “Não tem nada a ver com o treinamento, não. É esta bolacha… isto aqui é como dançar com irmã.” Sem entender aonde ele queria chegar, voltei a questionar: “Como assim?”. Ele retrucou de pronto, com um ar entre sério e safado: “Não tem gosto de nada!”

O poder de uma analogia reside exatamente no fato de que, ao se estabelecer uma conexão inesperada entre duas experiências díspares, vem à tona um traço fundamental do caráter de um produto/marca, de uma situação ou de uma pessoa, capaz de distingui-los de forma criativa de outros do mesmo segmento.

A pesquisa de mercado e a comunicação publicitária valem-se seguidamente desse recurso, já que não é preciso fazer nenhum esforço consciente para apreender qual é o benefício único do produto/marca que está sendo apresentado. Ao contrário, ele surge como uma espécie de revelação de algo que já se sabia, mas que ainda não havia sido colocado em palavras por ninguém. Graças a isso, o traço de união revelado adquire quase imediatamente o sentido de “verdade” para todos aqueles que partilham da mesma opinião.

Muitos devem se lembrar, por exemplo, de uma propaganda que já completou mais de vinte anos, cuja assinatura é usada até hoje como mote para fazer referência ao padrão de qualidade de alguma coisa, seja um produto/marca, situação ou pessoa: “Não é nenhuma Brastemp…”

Cansada do clima de mal-estar político e sem ver solução de curto prazo para pôr fim à agonia ética em que patinamos todos, resolvi me encher de coragem e propor aos que me leem um jogo de analogias. Para tornar o jogo mais palatável, não serão utilizados nomes de possíveis candidatos, filiações partidárias ou orientações ideológicas. Também não será levado em consideração o sistema de governo que cada um considera o mais adequado para o futuro.

O jogo é o seguinte: Imagine que a saída para boa parte dos males do país está nas mãos de uma única pessoa. Estabeleça agora uma analogia entre esse personagem e cada uma das categorias abaixo. Quando terminar, revise sua lista e identifique os motivos que o levaram a associar uma coisa à outra.

Se essa pessoa fosse:

   •  Um animal

   •  Uma ferramenta (manual ou aplicativo eletrônico)

   •  Uma música (ou gênero musical)

   •  Uma comida

Se lhe ocorrer alguma outra categoria que lhe pareça mais significativa para ressaltar a personalidade dessa espécie de “salvador da pátria” [no sentido de alguém capaz de abrir novos caminhos], não hesite em utilizá-la também. Mas atenção: o jogo tem de ser divertido e espontâneo. Registre sempre a primeira ideia que lhe passar pela cabeça, evitando o máximo que puder a autocensura, ou seja: não se importe se a ideia lhe parecer ridícula, sem sentido ou exagerada. Lembre-se sempre que não há respostas certas ou erradas.

Caso sejamos bem-sucedidos e consigamos reunir sugestões inovadoras e bem-humoradas, comprometo-me desde já a analisar os resultados e elaborar um resumo das principais características do futuro da nação com que sonhamos.

Agradeço de antemão a todos que se deixarem sensibilizar com minha proposta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Hermenêutica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É comovente, enternecedor mesmo, o esforço que nossos dirigentes fazem para que seus pronunciamentos, em especial quando feitos em momentos de grave crise institucional, sejam perfeitamente compreendidos pela população ignara. Sabem eles que, desacostumado aos matizes semânticos do linguajar culto que, por força da dignidade do cargo, seus líderes são obrigados a utilizar, o brasileiro comum pode não captar o cerne de raciocínios tão complexos.

Compreendo agora por qual razão alguns deputados federais pelejaram tanto na calada da noite para incluir, no projeto de lei que regulamenta o abuso de autoridade, os excessos na interpretação da lei por parte de procuradores e ministros da Suprema Corte.

Não bastasse ter sido a senhora ex-presidente forçada a convocar uma coletiva de imprensa para esclarecer em definitivo que a nomeação de outro famoso ex-presidente para a Casa Civil nunca teve por objetivo blindá-lo contra possível prisão, como opositores golpistas maldosos insistiam em apregoar, acabamos de ser brindados com nova aula magna de interpretação de textos por nosso estimado presidente em exercício.

Jurista que é, não escapa à atenção de nossa autoridade executiva máxima a importância e o valor da hermenêutica. Segundo reza o dicionário Michaelis, hermenêutica é:

•   Conjunto de preceitos e/ou técnicas para a interpretação de textos religiosos e filosóficos, especialmente dos textos sagrados;

•   Conjunto de elementos para a interpretação dos signos linguísticos (no sentido da semiologia);

•   Conjunto de princípios para a interpretação do texto legal (no sentido jurídico);

•   Interpretação do sentido das palavras.

Grifo a última acepção, já que foi apoiado nela que nosso ilibado jurisconsulto erigiu seu raciocínio no pronunciamento que fez neste sábado à tarde. Como lembrou com pertinência ele, sua anuência (“tem que manter isso, viu?“) não estava vinculada ao pagamento de quaisquer quantias para garantir o silêncio de um ex-deputado, como matreiramente o delator quis fazer crer, mas simplesmente ao argumento de manutenção de uma relação de cordialidade (“eu estava de boa com o Eduardo”).

Comentava-se à boca pequena que, antes do primeiro pronunciamento, sua excelência pretendia alegar que só havia dado seu aval à operação de liquidação das “dívidas” com o ex-presidente da Câmara por tê-la interpretado como um “gesto humanitário” de um empresário para socorrer uma família em apuros financeiros, uma vez que todos os seus bens haviam sido bloqueados pela justiça.

Não há de ter faltado aconselhamento jurídico e político para que ele desistisse de se valer desse recurso retórico. Deve estar ainda viva na memória de vários cidadãos que um ex-senador e ex-ministro do governo anterior já havia utilizado esse argumento em outro processo por compra do silêncio de um investigado na Operação Lava a Jato, com resultados para lá de devastadores tanto para o partido quanto para o governo. Optou-se, portanto, por deixar implícito que tudo não passou de uma edição ardilosa do áudio para gerar suspeitas quanto à honorabilidade do presidente e, dessa forma, dificultar a votação das reformas que vão reconduzir a economia do país a seus trilhos.

Referindo-se a outro trecho – um tanto mais delicado e gerador de muita controvérsia ‒ da conversa gravada, em que se limitou a comentar “ótimo” depois de ouvir o empresário delator afirmar estar “segurando” dois juízes e obtendo informações privilegiadas de um procurador da República, nosso líder nos contemplou com um exercício de hermenêutica ainda mais brilhantemente avassalador: “Não reagi”, disse ele, “porque não acreditei no que ele dizia. Ele é um falastrão…”

Quanto destemor e quanta maestria no manejo das palavras, meu Deus! Como acreditar que um homem culto e instruído tenha se utilizado de linguajar “chulo” durante uma conversa não-republicana? Como duvidar de seu anseio de servir à pátria, mesmo que, para isso, seja preciso enfrentar calúnias e contínuas ciladas armadas por inimigos políticos?

Sinto-me duplamente envergonhada, senhor presidente. Por não ter o seu talento para a hermenêutica e por ter, ainda que por poucos minutos, duvidado de suas reais intenções. Aceite, por favor, meu pedido constrangido de perdão. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sim, mas…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Acho que fui contaminada com o vírus dessa estranha doença que é ver em tudo um viés ideológico condenável e que tem por perversa consequência o hábito de relativizar ou amenizar o próprio posicionamento frente às grandes questões nacionais. Em outras palavras, uma doença cujo principal sintoma é o de procurar se posicionar como nem contra nem a favor, muito pelo contrário. De repetir que a solução de todos os problemas está no combate à miopia ‒ ou cegueira ‒ de que “eles” são acometidos e não naquilo que “nós” podemos fazer.

Algumas situações recentes me fizeram ver que meu organismo psíquico já havia sido infectado. Se, por exemplo, o foco das ações do Executivo e do Legislativo mostra ser estritamente econômico, ou seja, a defesa de reformas na pretensa busca do ajuste fiscal, meu cérebro começa imediatamente a indagar se não seria mais urgente equacionar antes as questões humanitárias e de responsabilidade social do governo. Começa, então, um interminável ir e vir de perguntas dentro da minha cabeça. Pior, mesmo quando as respostas são afirmativas, há sempre um “mas” ao qual posso recorrer para me eximir do enfrentamento das consequências de minha alienação.

As reformas são necessárias? Sim, mas não se pode jogar toda a responsabilidade pelo reequilíbrio das contas públicas nas costas da população e deixar intocados os privilégios das elites. Além disso, quem me garante que os indicadores de que as reformas são realmente necessárias são verdadeiros, se não houve transparência na divulgação do resultado das auditorias?

Não há outras opções a propor? Sim, mas ninguém quer se comprometer com a mudança de paradigmas. O raciocínio da maioria vai na linha do “ruim com ela [regra atual], pior sem ela”, principalmente quando se considera que o segmento populacional mais atingido é o de trabalhadores de baixa renda. Depois de mais de uma década de implementação de políticas assistencialistas para essa fatia da população, é como se mais ninguém se dispusesse a abrir mão do que julga ser um direito conquistado.

Se as reformas não forem feitas agora, haverá consequências negativas para todos no futuro próximo? Sim, mas a incerteza quanto à consistência e persistência dos projetos governamentais de longo prazo é velha conhecida da alma do brasileiro comum. Não escapa a ninguém a tradição secular de novos governos alterarem as regras depois de começado o jogo. E, na maior parte das vezes, constata-se a cada nova partida que os juízes apitam perigo de gol apenas quando o time do povo se aproxima da área. Já o time do andar de cima profissionalizou-se na apresentação de justificativas convincentes para gols marcados com a mão ou pênaltis não marcados. Além disso, o medo de enfrentar dias ainda mais difíceis já não assusta de fato, em especial quando o outro lado ‒ seja ele de que matiz for ‒ fica repetindo ad nauseam que é melhor entregar os anéis para não perder os dedos.

Se o tema do dia é a convocação de greve geral como protesto contra essas mesmas reformas, lá vai meu cérebro de novo criando um diálogo interno de doido: Pense bem, a greve não é um direito mundialmente reconhecido, já não demonstrou sua eficácia historicamente? Sim, mas a mobilização dos trabalhadores desta vez não surgiu espontaneamente, foi uma iniciativa dos sindicatos. Mas não é esse o caminho legítimo e natural das coisas no mundo do trabalho? Sim, mas acreditar que os dirigentes das centrais sindicais brasileiras estejam unicamente preocupados com a preservação de direitos de seus associados equivale a botar fé de que basta pendurar uma meia ao lado da chaminé para que Papai Noel nos presenteie com sua visita.

A população não poderia ter se antecipado a esses desastrosos desenlaces e saído às ruas, apresentado projetos mais condizentes com suas expectativas para dar fim ao desemprego, às desiguais condições de negociação com empregadores e amparar os cidadãos na velhice sem comprometer o orçamento da União? Sim, mas muitas pessoas, recém-escaldadas pela deturpação do projeto de medidas anticorrupção, agora sentem medo do balde de água fria que certamente lhes seria despejado sobre a cabeça no esforço de convencer deputados e senadores a subscreverem fielmente seus projetos.

Afinal, a paralisação foi um estrondoso sucesso ou tudo não passou de uma desculpa armada por um bando de “vagabundos” para não trabalhar na véspera do feriado? Foi mesmo uma greve à qual aderiram todos que conscientemente rejeitam cláusulas do projeto de reforma ou foi só mais um subterfúgio para vândalos desinformados descarregarem sua raiva?

Chego, finalmente, às questões-chave de legitimidade, credibilidade e representatividade dos propositores tanto das reformas quanto da greve geral. Não são todos eles sabidamente tidos como envolvidos em casos de corrupção, useiros e vezeiros na arte de destratar a coisa pública, legislar em causa própria, ignorar as verdadeiras demandas da população e não se preocupar em consultar os que serão impactados pela mudança? Sim, mas… fomos nós que os elegemos!

Será que algum dia nosso discurso e nossa prática cotidiana vão coincidir? Falando nisso, acabo de ler a notícia de que Lula amplia sua liderança nas pesquisas para a campanha presidencial de 2018, seguido de perto por Bolsonaro. Como sabiamente apontou o editor deste blog ainda outro dia, parece ser altamente improvável que aprendamos a curto prazo a lutar com lealdade quando nossos interesses são contrariados.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Boas-vindas à Helô

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ela é do signo de Aquário e provavelmente será criativa, inovadora e voluntariosa (já deu os primeiros sinais). Por outro lado, em sua carga genética estão presentes características que, se na infância não representam preocupação, podem vir a ser conflitantes na vida adulta – como impulsividade, grande força física, flexibilidade corporal, graciosidade, carisma, impaciência, independência, mansidão, facilidade de apego e temperamento cordato.

Tem uma beleza exótica que só se revela para quem se detém com paciência para examiná-la de perto, pela segunda vez. Para os mais apressados e preconceituosos, torna-se evidente que ela não nasceu em berço de ouro e não tem sangue azul.

Helô

Tomou seu primeiro banho hoje e foi enfeitada com pompa e circunstância para atrair o máximo de olhares cúmplices. Dada, de bem com a vida, ela se submeteu aos cuidados corporais sem muito alarido, mantendo-se aninhada e dormitando no colo do seu jovem cuidador.

Estima-se que vai crescer bastante e ganhar peso rapidamente. Tem apenas 2 meses e 16 dias e já pesa mais de sete quilos.

Foi acolhida com as bênçãos de São Francisco, da Rebecca, da Molly e da Aisha. Mesmo exausta, depois de ter corrido atrás dela a tarde toda e dormido só quatro horas, estou apostando todas as minhas fichas que nossa convivência vai ser pacífica, muito divertida e para lá de cansativa.

Deem as boas-vindas à mais nova integrante da família.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Nota deste blogueiro
Cinófila assumida, a autora do texto deixa transbordar o entusiasmo com sua nova cachorra.

A lanterna de Diógenes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Enojada, eu me forçava a prestar atenção aos detalhes escabrosos de mais uma das tantas delações premiadas que nos têm assombrado ultimamente. Pensava com os meus botões que, por mais asquerosas que sejam as revelações, nada é realmente surpreendente. Pode até acontecer que este ou aquele cidadão incauto não tenha suspeitado da existência de uma prática lesiva específica, mas quase certamente ninguém ficou horrorizado ao ser revelado o nome da pessoa que a praticou.

Assim é desde sempre o estado emocional do brasileiro comum. Desconfiamos de tudo e de todos, principalmente de quem se anuncia como salvador da pátria. Escolados por séculos de leviandade no trato da coisa pública e pelo contínuo alijamento da cidadania, acabamos nos deixando entorpecer e, pouco a pouco, nos tornamos indiferentes às mil formas de perversidade de nossas elites. Quando se atinge o nível de saturação, refletia eu, tanto faz se a dose do veneno aumenta pouco ou muito. Só a náusea cresce, mas o mal-estar é permanente.

Na sequência, acompanhei preocupada o relato de mais um caso de suicídio de adolescente associado ao jogo Baleia Azul. Não foi preciso muito esforço mental para ligar alho com bugalho. Se a adultos experimentados nas pequenas e grandes tragédias do cotidiano nacional já se tornou insuportável a repetição de casos grotescos de absoluta indiferença às demandas sociais, o que esperar de uma pessoa que se prepara para se desprender dos ingênuos paradigmas infantis e elaborar um projeto de futuro responsável? Desesperança é nosso sobrenome.

Foi quando cruzou minha cabeça a lembrança do filósofo grego que saía às ruas com uma lanterna, em pleno dia, à procura de um homem justo. Digo ‘justo’ porque assim fui ensinada. No entanto, consultando a Wikipédia, encontrei a afirmação de que o que Diógenes procurava de fato era um homem honesto. Será que honesto e justo ‒ me perguntei ‒ querem dizer a mesma coisa?

Seja como for, continuei lendo os detalhes da história de vida desse pensador andarilho que, desacreditado das hipócritas convenções sociais de sua época, optou por abrir mão dos confortos da civilização e foi morar dentro de um barril, na rua. Ele postulava que a virtude está em viver de acordo com as regras da natureza e em harmonia com a própria essência. Detalhe relevantíssimo, que caiu como uma bomba sobre minha cabeça: Diógenes sugeria que se buscasse no comportamento dos cães a inspiração para viver uma vida virtuosa e feliz.

Quase caí da cadeira ao me dar conta de que a palavra cinismo – nome da escola filosófica à qual pertencia Diógenes – deriva do grego antigo kynos (cão). Os argumentos de sustentação de sua teoria começaram a me soar estranhamente familiares: os cães perambulam livremente e sem destino pelas ruas, fazem todas as suas necessidades fisiológicas (inclusive sexo) em público, comem qualquer coisa que encontrem ou lhes seja oferecido, não fazem exigências quanto ao lugar em que vão dormir, vivem sem ansiedade o presente e conseguem distinguir intuitivamente quem é amigo e quem é inimigo.

Sem ter consciência disso, descobri que sempre fui cínica ‒ desde criancinha e nos dois sentidos da palavra. No sentido de escola filosófica, porque sempre acreditei que a felicidade vem de dentro e independe da posse de riqueza, fama ou poder. Na conotação moderna de cinismo (descrença na sinceridade ou bondade das motivações humanas), porque sempre intuí que, por trás dos propósitos nobres que apresentamos para nossas ações, escondem-se outros impulsos e desejos bem menos altruístas e, por assim dizer, mais humanos. Só não aprendi ainda a me libertar de toda forma de desejo e sou pudica demais para me desnudar por inteiro em público.

A missão da filósofa canina Molly, que encantou minha vida por quase uma década, estava finalmente revelada. Meu pulso acelerou e fui tomada por uma agitação febril. Meu cérebro não se cansava de buscar novas conexões que me permitissem reunir num só quadro diagnóstico os sintomas dessa corrosiva doença social que aflige a humanidade desde priscas eras.

Corrupção e perda de sentido da vida são gêmeas siamesas, concluo. Quem busca fora de si a felicidade, a realização e a aceitação social está fadado a descobrir-se suspenso pela brocha, sem uma escada de apoio. Da mesma forma, quem tem sua autoestima apoiada na padronização de comportamentos e sua noção de valor pessoal ancorada no reconhecimento do grupo vai se perceber, mais cedo ou mais tarde, literalmente num mato sem cachorro.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Recadinhos ressentidos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para Michel Temer
Você assumiu o cargo prometendo um ministério de “notáveis”. Só esqueceu de nos dizer que vários de seus ministros – a maioria, para ser mais precisa – são notavelmente corruptos, velhas raposas políticas envolvidas em negociatas de toda espécie com partidos e com empresas estatais.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Fez um papelão em público ao usar sua mulher “bela, recatada e do lar” como referência para caracterizar a importância de todas as mulheres brasileiras em termos econômicos, sociais e políticos. Parece continuar acreditando que basta ter um penduricalho no meio das pernas, inchar o peito, fazer pose de estadista e usar linguagem gramaticalmente correta para se diferenciar da antecessora e conquistar credibilidade.

Esforço inútil, caro presidente: a expressiva maioria da população já sabe que tudo o que conseguimos foi trocar seis por meia dúzia. Em tempo: governar e permitir que seu partido legisle de costas para a cidadania também não vai dar certo, acredite. Lembre-se do que aconteceu com sua predecessora quando, de olhos esbugalhados, ela foi à televisão dizer em cadeia nacional que havia escutado a voz das ruas e depois esqueceu o que ela dizia.

Para Donald Trump
Você certamente tem o direito de eleger suas prioridades em quaisquer áreas de seu governo. Falando especificamente de sua opção pela volta da exploração em larga escala do carvão, quero alertá-lo quanto a uma providência imprescindível que você terá de tomar antes mesmo de implementar o projeto: cercar todo seu país de muros e vidros, e colocar sobre eles uma cúpula gigantesca para impedir que a poluição atinja seus vizinhos, outros países e outros continentes.

Quem sabe respirando as consequências de seu gesto, você perceba em sua pele, suas narinas e seus pulmões que o aquecimento global não é “fake news” nem artimanha inventada pelos chineses, como você acreditava.

Para os que participam da blogosfera
O torpor parece estar se alastrando e contaminando editores e principalmente leitores da blogosfera(*). Quando leio um post, não deixo de dar uma espiada em eventuais comentários deixados pelos que me precederam. (Confesso que às vezes tem comentário mais interessante que o próprio artigo. Mas essa já é uma outra história.)

O que tenho constatado é a crescente falta de reatividade dos que leem. Um comentariozinho aqui, dois ali, mais um acolá… é de uma pobreza de dar dó. Fica uma desagradável impressão de injustiça. Pode não parecer, mas escrever um artigo com começo, meio e fim, com fio condutor, com lógica e com cuidado ortográfico dá trabalho. Pode levar horas. No final, o que é que acontece? O escriba acaba se sentindo como o cantor de churrascaria que solta trinados em meio a um festival de talheres caindo, de cadeiras arrastadas, de conversas em voz alta, de risadas, de choro de crianças.

Não é queixa, acreditem, é mera constatação. Se bem que… fica aqui o recadinho. Quem tiver gostado, que se manifeste! Caso não tenha apreciado, que se manifeste também, ora. Coragem, minha gente! Como diria minha mãe, “de boas intenções, o inferno está cheio”.

(*) Blogosfera
Para atividade nova, palavra nova, uai! O crescente número de fazedores e de leitores de blogues está a exigir um termo coletivo. Vários têm sido propostos: bloguiverso, bloguelândia, bloguespaço, bloguistão(!). Um deles acabará se impondo, são os usuários que decidirão. Por ora, fico com blogosfera, que me parece simpático.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Controlando a falta de controle

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Até agora eu vinha me recusando a entrar no debate a respeito do mais recente escândalo brasileiro, o da carne. Sou, por assim dizer, parte desinteressada da questão, uma vez que sou vegetariana por opção há muito tempo. Por outro lado, sou também naturalista e tenho verdadeiro horror aos aditivos químicos de que a indústria alimentícia se vale para alterar a textura, consistência, cor, cheiro ou sabor de seus produtos. Isso posto, aviso aos carnívoros que podem contar com minha irrestrita solidariedade sempre que forem matreiramente induzidos a erro.

Ao conhecer as reações de nossas autoridades federais à operação Carne Fraca, no entanto, percebi que não poderia mais me eximir. Há alguns ângulos do escândalo que, em minha opinião, não estão recebendo a devida atenção. A polêmica em torno do assunto evidenciou, antes de mais nada, o secular conflito de interesses entre o lucro dos grandes empresários, a imagem internacional do país e as questões atinentes aos interesses e necessidades da população, sempre relegados a segundo plano. Mais grave, as acusações lado a lado acabaram servindo ao propósito de desviar as atenções do foco da operação.

Raciocine comigo: os meios de comunicação acolheram um tsunami de reações indignadas de consumidores, mas praticamente ninguém se dispôs a analisar o escândalo sob a óptica da corrupção dos fiscais e de um superintendente do Ministério da Agricultura. Hipóteses não faltam para explicar esse desvio inicial. Em primeiríssimo lugar, a quase ninguém escapa o fato de que a esmagadora maioria dos nossos compatriotas se sente cotidianamente traída pelas elites políticas e empresariais. Ou seja, descobrir que mais agentes públicos estavam se deixando enredar com propinas para não levar a cabo com decência as tarefas para as quais são pagos já não constitui surpresa alguma. Quem nunca deu como certa a possibilidade de um fiscal achacar empresários ou se deixar subornar, independentemente da área em que atua?

Tratada como mero “detalhe” irrelevante do escândalo, a conduta criminosa dos encarregados da fiscalização da carne foi rapidamente esquecida e cedeu lugar para o apedrejamento moral dos empresários do setor. Sem nem mesmo saber quantos e quais eram os inescrupulosos que não hesitaram em contornar as regras sanitárias para auferir lucros maiores, boa parte da população se deixou envolver numa discussão paralela a respeito dos valores e hábitos nutricionais de cada um. Novo round da luta “nós” contra “eles” teve início. Coxinhas e mortadelas inesperadamente colocados no mesmo barco não viram alternativa a não ser virar seus canhões contra vegetarianos e veganos, relembrando-os do abuso de agrotóxicos e da utilização, na lavoura nacional, de pesticidas proibidos em outras partes do mundo.

Aturdidos todos com a falta de opção para compor o cardápio familiar, acabamos nos esquecendo da necessidade de aprofundar as investigações para confirmar ou não as suspeitas de envolvimento do atual Ministro da Justiça(!) na estratégia de abafar o caso, substituindo fiscais honestos por outros mais “cordatos”. Daí veio o segundo desvio ‒ intencional ou não ‒ das atenções. Presidente e ministro da Agricultura apressaram-se em buscar os holofotes e os microfones para reafirmar o rígido padrão sanitário brasileiro “reconhecido internacionalmente” (omitindo que, se a suspeita da PF se confirmar, alguns lotes de carne exportada não passaram por ele), para se queixar de não terem sido procurados antes para explicar os procedimentos permitidos e dirimir mal-entendidos quanto à linguagem utilizada no setor e, mais enfaticamente, para lamentar a provável perda de credibilidade dos exportadores brasileiros num setor e num momento crucial para nos tirar da crise.

Em suma, o que era originalmente um crime contra a saúde do consumidor perpetrado em nome do enriquecimento pessoal transformou-se em lamúria contra nossas perversas elites para, finalmente, ser enquadrado como crime contra a saúde econômica do país. Sem esquecer que, no processo, se fez uma pequena pausa para nossas autoridades federais reclamarem do desequilíbrio entre os três poderes da República e sugerirem uma vez mais que a Operação Lava a Jato vem causando danos irremediáveis à nação.

Um feito e tanto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Amigo é coisa para se guardar a sete chaves

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Amigo é aquele que…

Nem se dê ao trabalho de completar a frase, identificando as qualidades que você espera encontrar numa pessoa para fazer dela um amigo. Amigos não são escolhidos pela razão, não atendem a pré-requisitos. Eleitos pela alma, podem ser encontrados em diferentes formatos, tamanhos, cores e estilos. Não são fabricados em série, só podem ser confeccionados artesanalmente, cozidos em fogo brando e moldados de forma customizada. E, a cada vez que ganhamos um, novas surpresas e encantamentos nos esperam ao abrirmos a caixa.

Todos vêm com uma advertência clara já na própria embalagem: Atenção, este produto não contém promessa de concordância eterna e incondicional. Necessário explorar todas as características incorporadas de fábrica antes de julgar sua adequação. Não serão aceitos pedidos de devolução ou substituição por quebra caso fique comprovado que eventuais disfunções se deveram a mau uso.

Amizade não é resultado desejado. É um longo processo bilateral de ajuste, de um paciente aparar de arestas e de um corajoso desejo de contornar todos os obstáculos do caminho. Além da disposição de recomeçar sempre, é claro. A parte mais difícil de uma relação fraterna como essa é, sem sombra de dúvida, a que diz respeito à revisão e atualização das imagens um do outro. Muitas vezes nos prendemos nostalgicamente à configuração que a relação tinha em seu início, impedindo que ela floresça e frutifique como e quando quiser. Amizade é semente frágil que necessita de terreno anímico apropriado para prosperar e de muito sol de propósitos em comum para desabrochar em todo o esplendor de sua beleza.

Há uma canção de Jacques Brel que ilustra com perfeição o que quero dizer. Despedindo-se de um amigo que acabou de morrer, ele diz a certa altura: “On n´était pas du même bord mais on cherchait le même port”. De fato, para mim nunca foi preciso estar na mesma margem, o que sempre me importou foi o prazer de navegar e torcer para que os ventos nos empurrassem para o mesmo porto de destino.

Aviso aos navegantes: meu conceito pessoal de amizade é radicalmente diferente do comumente encontrado nas redes sociais hoje em dia. Não é uma categoria abrangente dentro da qual podem ser alocadas todas as pessoas que cruzaram meu caminho em algum momento. Talvez por falta de palavra melhor para designar uma relação que é mais do que simples coleguismo de escola ou de trabalho, concordamos em apresentar a pessoa como “amiga”. Pode ser um bom recurso para transmitir a ideia de que ela é de confiança, mas sempre faltará a essa descrição um elemento fundamental: o da intimidade testada e aprovada pelo tempo.

Também não é um conceito guarda-chuva que incorpore os assim chamados “seguidores”, seja lá o que isso quer dizer. Seguidor, para mim, é alguém que se submete à direção imposta por terceiros por não ter capacidade de se aventurar na criação das próprias trilhas. Para que uma amizade provoque prazer em ser degustada, é preciso que ela contenha um toque de rebeldia, de independência, de altivez, de autodeterminação.

Pensando bem, o único critério racional que considero essencial para qualificar uma pessoa como amiga é que ela seja portadora de irrestrita integridade. Que, na presença dela, eu possa também me mostrar por inteiro, sem temer nem a perda de afeto quando dos descaminhos, nem o tédio dos períodos de calmaria. Aprendi com a vida que uma verdadeira associação só pode ser conseguida por seres inteiros e separados que retêm sua separação mesmo em meio à união. Amizade é celebração contínua do dom da liberdade de espírito e dele se derivam todas as demais qualidades de caráter das duas partes.

Você pode estar se perguntando: por que essa defesa de tese tão apaixonada? Eu respondo com alegria: é que hoje é o dia do nascimento de um amigo querido. Mesmo acreditando que não existem amigos mais especiais do que outros, quero celebrar especialmente a existência e a constância dessa pessoa que vem iluminando minha vida com sua sabedoria há sete décadas. Que nunca se deixou desestimular por inúmeros contratempos nem se intimidar pelo distanciamento geográfico. Que tem a grandeza de perdoar e nunca se cansa de demonstrar compaixão.

Desculpe, Roberto Carlos, mas eu não quero ter um milhão de amigos. Como já dizia Aristóteles, ter muitos amigos é não ter nenhum. Esse amigo de quem vos falo é coisa fina, um artigo especial, raro ‒ e, por isso mesmo, precioso para mim.

Não se constranja, meu amigo, com tamanha efusividade. Em última instância, lembre que estou elogiando a mim mesma por ter sabido pinçá-lo em meio à multidão e por tê-lo conservado por tanto tempo bem perto do meu coração.

Obrigada pela longeva companhia. Que saibamos descortinar novos horizontes para nossa relação todos os dias.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Intolerância

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, uma bolsista negra da Fundação Getúlio Vargas foi afrontada, durante um evento esportivo organizado dentro da fundação por uma pessoa – provavelmente um aluno ou membro da instituição –, com os seguintes dizeres: “Negrinha aqui, não!” Que fique claro para quem não se enfronhou com o acontecido: a moça não é cotista, foi contemplada por mérito próprio com uma bolsa de estudos.

Inúmeras reportagens foram feitas nos mais diversos meios de comunicação a esse respeito, a maioria das quais destacando que a fundação prontamente instaurou inquérito para tentar identificar o agressor, sem admitir, contudo, que ele (ou ela) faça parte de seu corpo estudantil, uma vez que o evento era aberto ao público.

Reações de leitores indignados pulularam por todas as partes. Como admitir que uma violência desse calibre tivesse lugar no meio da intelectualidade paulistana e dentro de uma casa que abriga os filhos de sua mais ilustre elite financeira? Especialistas foram chamados a opinar sobre as causas do fenômeno.

Incrédula, ao terminar de ler muitas análises, tudo o que consegui sentir foi um forte impulso de dialogar com a garota. Queria que ela me contasse um pouco de sua história de vida, falasse sobre a experiência de estudar na FGV e relatasse as emoções que experimentou durante o episódio e depois dele. Queria saber por que ela optou por se manter em silêncio e preferiu não ser identificada pela imprensa. Ao final de seu relato, se pudesse, eu a olharia bem no fundo dos olhos e lhe diria:

«Não vou tentar consolá-la, não vou buscar palavras melosas para lhe dizer da minha solidariedade, nem lhe dar conselhos quanto aos passos que você poderia adotar para encontrar justiça. Não vou lhe pedir que confie na justiça divina, mesmo que a dos homens falhe. Não vou usar meus conhecimentos de psicologia para ajudá-la a entender as motivações psíquicas que estão por trás do comportamento de seu agressor. Acredito sinceramente que, como diz a canção, você já sabe disso tudo na ferida viva do seu coração. Só tenho uma coisa a lhe dizer: não busque entender. Qualquer tentativa de explicação desse tipo de fenômeno representa apenas uma forma de abrir espaço para acolhimento de justificativas e acobertamento da transgressão. Da mesma forma, deixar-se levar pela onda de indignação e achincalhar o responsável pelo insulto pode ser uma medida catártica para muitas pessoas, mas de pouca eficácia na prática. Juntar-se ao coro dos que categorizam o agressor como “não-humano” ou “idiota” me parece ainda pior. A vontade de dividir a espécie em categorias mais e menos aceitáveis é exatamente o que parece estar na origem do comportamento transgressor. Infelizmente, apontar o dedo para a pequeneza mental de terceiros pode não passar de tentativa vã de demonstrar superioridade moral. Para o bem e para o mal, estamos todos imersos na lama de nossa própria ignorância e mediocridade. Nossa memória também é lamentavelmente curta quando se trata do que aconteceu a outras pessoas. Quando nova ocorrência de discriminação for registrada, sua dor já terá sido esquecida.

Minha frase preferida, proferida por uma de minhas professoras, é emblemática da única mensagem que quero lhe transmitir: “Às vezes, é preciso não entender”. Quanto mais pessoas puderem admitir para si mesmas o mal-estar, o pasmo, o desconforto psíquico, a angústia e a incompreensão que gestos ou discursos de ódio geram, melhor para a civilização humana.

Seu silêncio e sua recusa em ser identificada têm o peso adequado para reequilibrar os pratos da balança e nos devolver a esperança de dias melhores. Ambos sinalizam que você não está em busca de 15 minutos de fama e que é preciso tempo e introspecção para metabolizar experiências de contato com a barbárie humana. Os cães ladram e a caravana passa, você sabe.

by Marine Fargetton, artista francesa

Não sei como impedir que casos como esse se repitam. Tudo o que me ocorre neste momento é pedir permissão para me juntar à sua caravana e lhe dar um abraço comovido. Um abraço de mulher, um abraço de quem se sabe mortal e já aprendeu que caixão não tem gavetas. Um abraço de quem acredita que o único legado verdadeiramente útil que se pode aspirar a deixar para as futuras gerações é o da dignidade em todas as circunstâncias.»

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Make humanity great again

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ao menos na língua portuguesa há sutis porém significativas diferenças entre os conceitos de grandeza e grandiosidade. Embora ambas as palavras conotem aferição quantitativa de dimensões ‒ como altura, largura, volume, extensão ou amplidão ‒ a primeira é a única a englobar também aspectos anímicos e de caráter.

Consultando dicionários da língua inglesa, constatei que nela é muito mais acanhada a referência às noções de nobreza de sentimentos e força moral que também estão implícitas na definição de grandeza. Na linguagem coloquial, ‘great’ é, em geral, usado como sinônimo de excelente/ótimo, ainda que possa denotar também algo ou alguém superior, poderoso, forte, influente, importante ou renomado.

Curiosamente, em português, é possível até brincar com os sentidos quantitativo e qualitativo do adjetivo ‘grande’ bastando para isso mudar sua posição em relação ao substantivo. Sem nos darmos ao trabalho de fazer todo um discurso ideológico, podemos dizer, por exemplo, que o Brasil é certamente um país grande, mas dificilmente chegará um dia a ser um grande país.

Dicionario 2Essas considerações me ocorreram quando vi pela primeira vez o slogan de campanha do atual presidente norte-americano. Não pude deixar de me perguntar: afinal, que tipo de promessa ele está fazendo mais especificamente e qual das duas vertentes de significado o eleitorado apreendeu? Não conheço as respostas, mas é muito provável que, se consultados, cidadãos de várias outras partes do mundo responderiam de pronto: “Ah, é típico de americano querer ser o maior e o melhor em tudo. Pura mania de grandeza!”

Estereótipos à parte, imagino que o mesmo arrepio de pavor percorreria a espinha de muita gente caso líderes políticos de outros países prometessem resgatar a supremacia nacional de forma tão arrogante e agressiva. Seja como for, o que chama minha atenção neste momento é que o inquietante projeto Trump de poder não pode ser considerado, de maneira nenhuma, um fenômeno isolado. Em diversas outras nações, governos que implementaram ações de proteção de direitos e inclusão social vêm sendo substituídos por administrações baseadas em ideário fortemente nacionalista e patrimonialista. Em paralelo, pipocam aqui e ali movimentos contrários à globalização, ao acolhimento de refugiados e de excludente caráter religioso fundamentalista.

Talvez tudo não passe do já proverbial movimento pendular da história, mas suspeito que motivações psíquicas muito mais profundas estejam em jogo. A impressão que tenho é a de que, em nossas tecnologicamente avançadas sociedades, já não há nem tempo nem espaço para as coisas do espírito. Vivemos todos na periferia de nós mesmos e alienados de nossa essência humana. Hoje em dia a formação de vínculos é essencialmente pragmática: dura o tempo da satisfação de um desejo ou do atendimento de uma necessidade. Em consequência, nossa ação no mundo deixou de ser altruísta e agora é forçosamente voluntarista.

É como se tudo que represente interesse coletivo tivesse perdido atratividade e respeito. Já aprendemos que o cobertor dos recursos do planeta é curto e que, para cobrir as demandas existenciais de terceiros, temos de aceitar o risco de ficar a descoberto no futuro. A luta pela sobrevivência é tão desigual que já não nos reconhecemos como comunidade humana. E o clima de ‘cada um por si’ ficou ainda mais tenso quando as grandes massas intuíram que nunca houve um Deus por ‒ e para ‒ todos.

É forçoso admitir que, em termos psíquicos, é de fato angustiante sabermo-nos todos no mesmo barco e descobrir que ele está prestes a afundar. Instintivamente, buscamos formas de nos proteger e de nos isolar do sofrimento geral. Se a farinha é pouca ‒ raciocinamos mesmo que a contragosto ‒ meu pirão primeiro.

Zygmunt Bauman

Zygmunt Bauman

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman debruçou-se sobre essa questão e postulou: “A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral”. Talvez seja exatamente porque nos convencemos de que as estatísticas estão certas ‒ não há comida, água, terra nem trabalho para todos ‒, que a civilização humana está em colapso, voltando aos poucos ao estágio da barbárie. Generosidade, compaixão e outros sentimentos nobres que antigamente estavam estocados no quartinho dos fundos da alma de cada um para uso em caso de necessidade premente parecem ter, de fato, embolorado e perdido o prazo de validade.

O que fazer então para resgatar o lado luminoso da espécie e tornar o ser humano grande de novo? Recorro mais uma vez ao pensamento do filósofo e poeta Ferreira Gullar para lembrar que “só existe generosidade onde há utopia”. Ora, se até aqui não fomos capazes de superar as contradições entre capital/trabalho, liberdade/segurança, equilíbrio econômico/proteção social, parece que está mais do que na hora de engendrarmos novas utopias.

Precisamos urgentemente de um novo paradigma filosófico humanista ético que nos inspire a desenvolver:

• um sistema de governo que substitua a agonizante democracia representativa e acabe com a centralização do poder nas mãos de oligarquias;

• um sistema econômico que garanta a prosperidade de todos, impeça a concentração de riquezas nas mãos de poucos e não recorra a práticas clientelistas e assistencialistas;

• um projeto ambiental que garanta a preservação dos recursos naturais sem se chocar com os ditames racionais do assim chamado ‘progresso’;

• um sistema religioso ecumênico que não colida com crenças ateístas e agnósticas.

Uma tarefa nada desprezível. Alguém se habilita?

cachorro-41Mas calma, relaxe, não é preciso ir tão longe desde já. Nada impede que, dentro das fronteiras de nosso mundinho particular, nos comprometamos com novas regras de existência e coexistência harmônica. A milenar filosofia oriental de integração dos opostos yin-yang pode ser um bom começo.

Outra possibilidade para reacender a chama do desejo de estar a serviço do bem-estar geral é contar com a sabedoria dos cães. Totalmente indiferentes às diferenças de cor, raça, tamanho ou comportamento de dominância, eles se comprazem em cheirar o traseiro dos recém-chegados para descobrir se são ou não dignos de confiança e dar início a jogos de interação. Porque se comunicam apenas através da energia e são capazes de viver integralmente no aqui e agora, eles nos ensinam ainda que ‘é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã… porque, se você parar para pensar, na verdade não há’.

Interligne 18cNota importante
Este texto não é originalmente meu. Foi-me ditado como última mensagem de esperança por minha filósofa canina preferida, que agora brinca nos campos do Senhor.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Na antevéspera do gozo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não sou adepta de nenhuma teoria conspiratória. Admito, no entanto, ter sentido um frio na barriga e um arrepio percorrer meu corpo quando ouvi a notícia. Imaginei ter ouvido até uma gargalhada soturna do destino, alertando que ainda não é hora de celebrar a chegada de novos tempos para a sociedade brasileira. Como não tenho elementos para solucionar o mistério nem me sinto gabaritada para tanto, deixo para os especialistas a investigação e a análise das consequências do infausto acidente que custou a vida do ministro do STF encarregado da operação Lava a Jato.

A perplexidade com mais esse duro golpe na autoestima dos brasileiros foi tanta, porém, que meu cérebro se recusou a aprofundar o exame dos altos e baixos de nossa história contemporânea. Preferiu uma saída lateral e me induziu a juntar acontecimentos díspares para compor um painel ilustrativo de nossos traços culturais mais fortes.

Ao fim e ao cabo do desvario mental, a conclusão, inevitável, explodiu na minha cabeça: tantas tragédias acontecidas na antevéspera de eventos históricos decisivos para mudar o rumo de nosso país não podem ser mera coincidência. No processo, deve haver algum outro fator que ainda não está claro.

O batizado de Macunaíma by Tarsila do Amaral (1883-1973), artista paulista

O batizado de Macunaíma
by Tarsila do Amaral (1883-1973), artista paulista

Foi tentando interpretar as razões desse movimento pendular extremo de emoções, característico de nossa história, que me ocorreu a hipótese: há uma faceta distintiva da brasilidade que até hoje não foi investigada. Poderia se tratar, pensei eu de começo, de um transtorno bipolar, que vem nos afetando secularmente e que induz nossa sociedade a alternar momentos de grande autoestima e euforia (como acontece no Carnaval e no futebol) com momentos de depressão e autocondenação (síndrome do vira-lata do ponto de vista social e político).

Mesmo considerando a hipótese plausível, ainda faltava investigar as causas do transtorno. Tentei aprofundar a análise, introduzindo nela mais um elemento: o modo como a libido atua em cada esfera do nosso cotidiano. Pensei no grande investimento que fazemos na beleza e na exposição do próprio corpo, provável herança de nossos antepassados indígenas. Ao mesmo tempo, lembrei como incorporamos pesadas noções de pecado e culpa, decorrentes da tradição católica herdada dos colonizadores portugueses. Pareceu-me bastante provável que essas forças religiosas tenham acabado atuando como importante freio para sublimarmos o Macunaíma que insiste em viver dentro de cada um de nós.

Foi então que um insight me fez alterar ligeiramente o diagnóstico: temos, como cultura, um caráter francamente histérico diante da possibilidade de gozo. Com isso, quero dizer que nos condenamos a surfar perenemente na crista de uma onda de excitação, sem jamais encontrar descarga satisfatória. Sempre que sentimos que um orgasmo coletivo se avizinha, algo em nós se tranca, a musculatura social se retesa e impede o livre fluir das paixões, a concentração desaparece e a potência orgástica se perde, dividida em uma miríade de gratificações secundárias.

O paradoxal é que até mesmo nas esferas em que nos julgamos superiores aos demais povos – como na alegria, na conciliação, na inventividade e na capacidade de superação de obstáculos ‒ estamos sempre a um passo de atingir a merecida consagração, mas algo inesperado acontece que nos força a permanecer num platô intermediário que não é total prazer nem total alívio.

Relembrando e exemplificando: foi assim quando nos preparávamos para retomar a posse plena de nossa cidadania e explodiu em nosso colo a notícia de que a emenda de restabelecimento da eleição direta para a presidência não tinha passado no Congresso. Na sequência, novo coito interrompido quando tivemos de amargar a morte do primeiro presidente civil, Tancredo Neves, antes mesmo de ele tomar posse, após 21 anos de convívio com o arbítrio e o desprazer. A mesma quebra de expectativa se abateu sobre nosso organismo cívico quando, poucos meses depois de termos eleito o primeiro presidente civil por voto direto, fomos forçados a admitir que tínhamos escolhido uma raposa-marajá para tomar conta do galinheiro.

Outro ciclo de excitação e engrandecimento teve início com os avanços do governo social-democrata de Fernando Henrique e seu plano de controle da inflação. Já antevíamos o raiar esplendoroso do dia em que o Brasil seria finalmente reconhecido como um país sério, uma economia de primeiro mundo e um centro político de excelência. Logo, no entanto, nos entediamos com esse projeto de poder certinho demais, elitizado demais, intelectualizado demais. Em resumo, estávamos cansados da relação tipo “papai e mamãe” que mantínhamos com o poder central.

morte-1Já se agitava em nosso peito a vontade de nos deixarmos seduzir por um parceiro mais propriamente “latino”, mais fogoso e com mais “pegada” para diminuir as desigualdades sociais, nossa principal fonte de preocupações e culpa. Nos encantamos com o guerreiro-camponês que chegou embalado ao som do apelo de ‘sem medo de ser feliz’. Tudo ia bem na relação, quando ele resolveu nos propor um ménage à trois e trouxe uma mulher para dar continuidade aos tempos de diversão sem culpa. Não demorou muito para que nosso superego começasse a emitir sinais de alerta de que nosso parceiro não tinha intenções sérias, só queria se divertir.

Quando essa mulher tentou nos convencer de que poderíamos extrair prazer também do “amor que não ousa dizer seu nome”, a coisa desandou de vez. Reinstalou-se entre nós de imediato o desejo de autocontrole, de moralidade irrestrita e expurgo de todos os vícios.

A sequência desse enredo de ligações perigosas todos já conhecem: um acidente de avião matou o único candidato com brilho nos olhos e que prometia nos levar a sério, Eduardo Campos. Agora, face a mais um acidente inexplicado e inexplicável atravessando nosso caminho rumo ao prazer total, impossível não perguntar: com a saída de cena de Teori, quem poderá investigar a folha corrida de todos os nossos futuros parceiros amorosos e nos tranquilizar quanto à índole não-perversa dos atuais?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 3

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Lá bem no fundo do meu baú de recordações estão aninhadas memórias que eu respeitosamente cataloguei sob o título de “Religiosidade”. Porém, como se poderá constatar a seguir, o respeito que pretendi imprimir ao conceber esse rótulo está restrito, confesso, ao desejo de demonstrar obediência às regras formais da igreja de meus pais.

A religiosidade sempre me pareceu uma manifestação transcendental menor quando comparada à espiritualidade. Muito cedo em minha vida intuí que as religiões não passam de formas mais ou menos acanhadas de grilagem do terreno espiritual. Cada denominação religiosa chama para si a glória de ser “a única” ou “a verdadeira”, aquela que, por razões históricas ou graças à virtude de seus profetas, está mais próxima de desvendar com fidelidade a vontade de Deus. Todas devotam-se com afinco às tarefas de expandir os limites territoriais de sua gleba e, ao mesmo tempo, opor-se com veemência às tentativas de expansão do território das demais. Eventuais contradições entre os dogmas e a prática religiosa dos fiéis me ensinaram também que ser praticante desta ou daquela não habilita ninguém a penetrar mais suavemente nos mistérios do sagrado.

luz-1Fui criada dentro da tradição católica. Meu pai, rato de igreja contumaz, jamais abriu mão da exigência de que todos os filhos assistissem à missa de domingo. Para ele, o horário ideal para que isso acontecesse era um pouco antes do almoço, de tal forma que pudéssemos nos manter em jejum e comungar sempre que possível. Minha mãe era forçada a permanecer em casa preparando o almoço. Embora a divisão me parecesse injusta e machista, nunca confrontei a necessidade dessa regra, uma vez que minha mãe parecia estar bem adaptada a ela.

Certa vez, a parábola apresentada durante a leitura do evangelho dizia respeito às “migalhas que caem da mesa dos poderosos” e alimentam os mais pobres. Francamente impressionada com aquele duro chamamento à responsabilidade social de todo cristão, eu saía feliz da igreja quando tropecei num mendigo com a mão estendida, pedindo algum dinheiro para mitigar sua fome. Envergonhada e culpada por já antever o prazer de consumir a farta refeição que minha mãe certamente havia preparado, olhei para meu pai na expectativa de que ele agisse de modo generoso. Incrédula, vi-o ignorar ostensivamente a presença incômoda daquele pedinte e nos arrastar de volta para casa. O choque que experimentei na ocasião foi suficiente para que eu, daquele dia em diante, vigiasse com mão de ferro a compatibilidade entre minhas crenças religiosas e minhas atitudes na vida.

Quando chegou minha vez de fazer a primeira comunhão, fui entregue aos cuidados de minha madrinha de batismo. Religiosa até a medula, essa mulher era um modelo vivo das virtudes cristãs. Esmerava-se na tarefa de zelar pela formação de novos padres, financiando seus estudos, comprando roupas e acessórios, aconselhando e visitando regularmente os noviços. Fazia tudo sempre com um sorriso nos lábios e era também gentil e tolerante para com minhas travessuras de criança. Só tinha um defeito: sentia-se autorizada a fazer promessas em meu nome, sem sequer me consultar.

religiao-7Foi ela quem idealizou e confeccionou com as próprias mãos meu traje de primeira comunhão. Sem que eu soubesse, no entanto, ela havia prometido doar o vestido a uma criança pobre tão logo terminasse a cerimônia. Eu, toda orgulhosa, ainda me sentindo a pessoa mais pura e iluminada do universo, posava para uma foto na frente da igreja, quando ela se aproximou por trás e literalmente arrancou meu traje de primeira comunhão. Não posso ocultar que me senti duplamente desnudada: embora fisicamente eu vestisse outra roupa por debaixo, minha moldura religiosa me havia sido surrupiada e minha pequeneza interior, escancarada. Foi o segundo golpe preparado pelo destino a abalar minha convicção quanto à insuperável superioridade moral dos católicos.

Dali por diante, aprendi a recitar orações e textos religiosos sem ter consciência plena dos significados, a confessar pecados que eu sentia não ter cometido, a implorar por graças em momentos de aflição, me comprometendo a não voltar a pecar caso fosse atendida, mesmo sabendo que muito provavelmente não cumpriria a promessa.

A gota d’água que fez transbordar o copo da minha religiosidade de fachada aconteceu quando eu me preparava para enfrentar a última prova do vestibular. Tratava-se de um teste psicológico que definiria se eu possuía ou não condições emocionais para me profissionalizar na área. Como é fácil de imaginar, eu estava especialmente ansiosa naquele dia. Queria chegar cedo à faculdade e reservar um tempo para relaxar e me concentrar. Fiz seguidas tentativas de apressar meu pai: o dia dele só começava depois de um banho, do café da manhã e da leitura do jornal. Esperar que todo esse ritual fosse cumprido me parecia uma perda de tempo indesculpável. Pedi, gritei, chorei, protestei e implorei infinitas vezes. Lá pelas tantas, ele abriu a porta do quarto com violência e, sem nem mesmo tomar café, me arrastou furioso para o carro.

luz-2Durante todo o trajeto, eu e ele permanecemos em silêncio absoluto. O prédio da faculdade ficava ao lado de uma igreja. Ele estacionou o carro bem em frente a ela e, sem me dizer nada, me forçou a entrar e assistir a uma missa do começo ao fim. Não é preciso dizer que minha ansiedade e irritação atingiram o ápice ao longo da cerimônia. Quando ela terminou, eu me sentia psicologicamente destruída, sem condições mínimas de comprovar minha saúde mental. Não posso culpar exclusivamente essa sequência de eventos dramáticos por minha reprovação no teste. Jamais saberei se, em condições normais, eu teria recebido as bênçãos dos profissionais da área para meu noviciado em Psicologia.

A única coisa que sei com certeza é que esse dia foi decisivo para eu abandonar de vez o proselitismo religioso familiar e me abrir a toda sorte de novas experiências. Envolvi-me prazerosamente com a leitura das obras e com as práticas do espiritismo, do zen-budismo, da antroposofia (chamada por seu fundador de ciência espiritual) e do candomblé.

Qual foi o balanço final desse percurso religioso? Acredito que meu maior ganho foi ter sido capaz de desenvolver uma visão ecumênica da necessidade humana de buscar respostas para suas questões existenciais num plano que vai muito além do cérebro e da ciência.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A opção pela grandeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É perfeitamente possível passar toda uma vida fazendo a coisa certa, cumprindo deveres legais, respeitando os limites da própria liberdade e os da liberdade dos outros, sendo um profissional responsável e ético, fomentando uma visão humanista, curvando-se à necessidade de desenvolver responsabilidade social e ambiental e, ainda assim, quedar-se perplexo ao final da própria existência com uma sensação amarga de incompletude que insiste em subir pelo peito e estrangular a garganta. Por quê?

Se você acredita que há uma ordem “natural” para todas as coisas e pauta sua existência na busca por essa ordem, talvez não faça mesmo sentido. Se você é branco, homem, heterossexual, católico, nascido em berço minimamente remediado, proveniente de um lar não-disfuncional e teve a sorte de contar com pais e professores amorosos, é provável que sua vida transcorra sem muitos acidentes de percurso. Se, no entanto, seu perfil está mais próximo do dos segmentos “minoritários” [em termos de importância] da população brasileira – ou seja, dos afrodescendentes, das mulheres, dos LGBTs e dos pobres – quase certamente tropeçará em algumas pedras pelo caminho e, talvez, esteja em melhores condições para intuir os motivos.

by Marie-Aurora, pintora francesa

by Marie-Aurora, pintora francesa

Explico. Para mim, só existimos como seres em relação. A despeito de nossas tão valorizadas identidades individuais, estamos todos, tenhamos ou não consciência disso, a serviço de uma causa existencial. Desde a mais tenra infância, somos disciplinados a eleger princípios e valores que nortearão nossa existência e moldarão os papéis que pretendemos desempenhar no mundo.

O problema não está, como pode parecer a princípio, na nobreza ou pequeneza da causa que abraçamos. Está na ilusão de que nossa causa individual é a única pela qual vale a pena lutar, a mais importante, ou que ela basta por si só. Não basta. A vida se encarregará de mostrar que ela está intimamente conectada com infinitas outras causas que não haviam despertado nosso interesse ou atenção antes. Haverá sempre, em todas as vidas, um momento em que lhe será exigido escolher entre ater-se à causa original e ignorar as demais, abandonar a causa primeira e acolher outra (ou outras) ou, simplesmente, render-se à necessidade de extrapolar seu papel social funcional e tentar conciliar todas elas.

Optar pela terceira possibilidade é decisão para poucos, já que requer um ato quase heroico de coragem. Não estou falando de um desses gestos de compaixão e solidariedade racionais, intelectuais, bravateiros a que assistimos muitas vezes. A coragem à qual me refiro vem à tona sempre em uma situação limítrofe e implica transcender a lógica cartesiana, o bom senso, a prudência e até a moralidade cotidiana. Muitas vezes, requer que nossa segurança, bem-estar ‒ e, eventualmente, nossa vida ‒ sejam oferecidos em sacrifício para lidar com demandas externas, que nem sempre nos dizem respeito diretamente. Por mais paradoxal que pareça, somos chamados a interferir por amor ou compaixão na vida de terceiros que podemos nem mesmo conhecer.

Espere um pouco. Tudo isso lhe cheira a delírio romântico démodé, coisa de poeta louco ou de desocupado sem família? Será que estou tentando lhe vender algum tipo de filosofia de botequim? Más notícias, não é nada disso. Acredito que em nenhum dicionário há palavras fortes o bastante para descrever com precisão a gravidade de um desses momentos.

Talvez funcione por analogia. Imagine um pai ou mãe que vê um bebê prestes a ser atacado por um pitbull enfurecido. A criança não é seu filho, você também não é dono do cão e estava passando acidentalmente pelo local. O que você faz? Grita, arma-se com um pedaço de pau e coloca-se entre a vítima e o agressor? Acovarda-se quando percebe que o cachorro está vindo em sua direção?

by Jadis, pintora francesa

by Jadis, pintora francesa

Liga para a polícia ou para os bombeiros? Pensa que, por mais devastador que seja o remorso que vai enfrentar depois, é melhor não se envolver, uma vez que precisa preservar a própria vida e continuar cuidando de seus filhos? Difícil responder, principalmente quando se está em casa, protegido, em condições de analisar friamente os riscos e as consequências de sua decisão. Pense agora nos dilemas emocionais que figuras de relevo em qualquer área de atuação humana enfrentariam caso se deparassem um dia com essa forma de chamamento. Seria mais ou menos difícil para elas colocar na balança as consequências éticas de sua escolha? Não sei dizer. Gostaria muito de acreditar que eu seria capaz de ceder ao impulso generoso de ajudar, mas algo me diz que isso não passa de “wishful thinking”.

Originalmente, concebi este texto como um tributo à memória de Dom Paulo Evaristo Arns, que nos deixou recentemente. Poucas vezes admirei tanto a coragem de um homem como ele, que aceitou desafiar imensos Golias ao longo de toda sua vida, mesmo se sabendo um desarmado Davi. Muitos dirão que ele só fez o que fez por pura profissão de fé. Eu prefiro acreditar que ele optou consciente e destemidamente por implementar na prática os ensinamentos que emprestavam sentido a sua vida.

Oriundo de uma família de camponeses profundamente religiosos, Dom Paulo se notabilizou pelo enfrentamento de causas muitas vezes incompatíveis com sua missão espiritual. Todo brasileiro com mais de 40 anos deve ter ouvido falar da cerimônia ecumênica que ele organizou na paulistana Catedral da Sé durante o período mais difícil da ditadura militar em homenagem a um judeu torturado até a morte na cela de uma prisão. Um número menor de pessoas deve ter sabido dos insultos que a ele foram dirigidos quando, chocado com a morte de um menino de 12 anos estrangulado por populares logo após ter roubado uma corrente de ouro na mesma Praça da Sé, ele decidiu criar e capitanear o Movimento dos Direitos Humanos, cujos rastros de ressentimento e intolerância permanecem até os dias de hoje. Um número ainda significativamente menor de brasileiros deve ter se enfronhado nos conflitos que Dom Paulo enfrentou com a autoridade máxima da igreja católica, o papa João Paulo II. Mesmo tendo visto seu poder de influência diminuído drasticamente, ele não renegou sua opção preferencial pelos “pequeninos”, apostando ser essa a verdadeira missão evangélica.

Recentemente, um cidadão comum, que bem poderia se encaixar na definição que Dom Paulo dava aos pequeninos, deu a todos nós uma poderosa lição. O vendedor ambulante Índio colocou em prática o ensinamento cristão de que é preciso amar o próximo como a si mesmo. Saiu em defesa de pessoas com quem não mantinha relações de amizade ou parentesco e foi, por isso, espancado até a morte. Pouco se sabe a respeito da orientação religiosa, ideológica, filosófica, política ou de gênero desse camelô. Aparentemente, os percalços que enfrentou desde a infância restringiram-se à tarefa de garantir a própria sobrevivência financeira e prover a subsistência da família. Tudo o que nos foi dito é que ele era um homem gentil, educado e amigo.

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

by Sylvia Penkalla, pintora francesa

A perplexidade permanece: o que teria motivado esse integrante de um grupo socialmente invisível a acreditar que seria possível dialogar e demover os agressores de duas pessoas com quem ele não mantinha relações de amizade ou parentesco? Estava em busca dos seus 15 minutos de fama? Por que não contou com a ajuda dos passantes, muitos dos quais optaram por sair bem na foto apenas depois de sua morte? Por que isso aconteceu em pleno dia de Natal num dos maiores países católicos do mundo e ninguém mais se deixou sensibilizar?

Racionalmente, pode ser reconfortante apelar à tese de que o instinto prioritário na espécie humana é o de garantir a própria sobrevivência e, consequentemente, recuar diante do medo. Não importa. O que me parece fundamental é reconhecer que algo se moveu no peito desses dois homens e ainda não sabemos que nome dar a seus gestos.

Pode ser que eu esteja agindo em função de consciência pesada ou, quem sabe, sendo vítima de uma crise de romantismo tardio. Seja de que maneira for, decidi chamar esse impulso de “opção pela grandeza”. Acredito que se trata de um impulso vital raro que sai das vísceras direto para o coração, sem passar pelo cérebro. Só acomete um dos nossos quando a pessoa se dá conta de que a vida perderia totalmente o significado se escolhesse se omitir. Provavelmente, um desvio genético grave, remanescente do tempo dos dinossauros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

É dando que se recebe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Molly, minha filósofa canina preferida, está enfrentando um dos períodos mais críticos de saúde de toda a sua vida. Confesso que ver minha mestra, sempre tão independente e altiva, combalida como está, tem sido uma experiência para lá de angustiante.

Há cerca de duas semanas, ao chegar em casa, a encontrei prostrada, deitada de lado num canto da sala. Ao contrário de seu comportamento habitual ao me ver chegar, ela permaneceu inerte, sem sequer abanar o rabo. Aproximei-me dela, preocupada, e tentei animá-la fazendo uns afagos em sua cabeça. Nada. Não teve forças nem para levantar a cabeça e seus olhos pareciam implorar por ajuda urgente.

Um turbilhão de hipóteses e pensamentos negativos cruzou minha cabeça. Eu sabia que ela vinha lutando contra uma alergia que havia deixado seu corpo todo empipocado e imaginava que o calor infernal de dezembro podia estar contribuindo para o agravamento do quadro. De qualquer forma, me desesperei porque nunca antes a havia visto tão fragilizada.

cachorro-37Após consulta ao veterinário, passamos eu e ela por uma sucessão de experiências assustadoras. Nenhum medicamento receitado parecia fazer o efeito desejado e a falta de apetite foi retirando rapidamente as energias que lhe sobravam. Emagreceu em 15 dias mais de 10% de seu peso e seu cansaço era visível, sua respiração ofegante. Eu assistia a tudo impotente, sem saber como interferir para ajudar. Passava os dias ansiosa, sem conseguir me concentrar em nada.

Apelei despudoradamente a todos os anjos e santos de meu conhecimento. Implorei por ajuda celestial, comprometendo-me a fazer tudo o que estivesse a meu alcance para retribuir a graça de recuperação da saúde de minha companheira de estimação. O milagre não veio, a despeito de minha recém-descoberta obsessão religiosa. Joguei a toalha em desespero, mas, atendendo a uma intuição de último minuto, recorri a meus amigos em busca de iluminação.

Uma coincidência nas respostas que recebi chamou minha atenção: todas apontavam minha participação no processo como decisiva para uma eventual virada de ventos. De início, não compreendi bem a mensagem. Mudar o foco das minhas preocupações e voltá-lo para minha própria saúde me parecia um contrassenso. Isolei-me de tudo e, deitada no escuro, passei horas me perguntando como alterar minha disposição emocional para ajudar minha amiga de 4 patas. Aos poucos, uma luzinha foi despontando no final do túnel.

Lembrei que a única forma efetiva de comunicação entre o bicho-homem e o bicho-bicho se dá através da energia. Energia física, energia emocional e energia espiritual. Percebi que, nos três planos, tudo o que saía de mim eram ondas de irritação, impotência, vitimização e impaciência. Compreendi que minha ansiedade retroalimentava a dela e vice-versa. Reaprendi a dura lição de que o bem-estar de um animal depende em grande parte do equilíbrio emocional da pessoa que cuida dele.

Resolvi chamar a Molly para uma conversa definitiva. Expliquei a ela como meus medos haviam escalado e me cegado ao longo do tempo e perguntei como poderíamos mutuamente nos influenciar para neutralizá-los. Ela respondeu devagar, com voz fraca e pausada:

cachorro-38“Eu também estou muito confusa e amedrontada. Com tudo que sofri nos últimos dias, acabei descobrindo a conexão entre o cérebro e as vísceras. É complicado, mas tente acompanhar meu raciocínio. No desenvolvimento fetal, todo ser em formação é de início apenas um tubo. As duas extremidades desse tubo invaginam, fazem mil circunvoluções, vão se dobrando sobre si mesmas e se curvando. De um lado, cria-se um cérebro e, do outro, os intestinos. O material de base é, no entanto, o mesmo. São as células mais sensíveis à estimulação externa do nosso corpo. Se um dos lados do tubo sofre alterações, o outro se ressente disso. Os hormônios do estresse afetam tragicamente as duas extremidades. Um cólon irritável gera um córtex cerebral igualmente irritável. Ainda não sei como colocar um ponto final nesse ciclo de autodestruição, uma vez que minhas ideias ainda estão muito inflamadas. Teorizo, salto febril de um ponto de vista a outro, mas não chego a nenhuma conclusão útil. Talvez pudesse ajudar se criássemos uma atmosfera de harmonia e aconchego para nós duas”.

Segui à risca as orientações de minha mestra. Arranjei as coisas para que nossa casa tivesse o clima mais zen possível: silêncio, escuridão, ar fresco, odores e sons suaves, gestos calmos e olhares ternos. Lentamente, o milagre foi acontecendo. Com nossa respiração mais profunda e fluída, as endorfinas foram se acumulando e ajudando a neutralizar a carga de adrenalina. A crescente serenidade que experimentamos deu conta de acalmar de vez as vísceras da cachorra e de expandir minha confiança num desfecho favorável. Um pouco de sombra e água de coco gelada fecharam com chave de ouro nossa jornada pelo território do implausível.

cachorro-39Hoje acordamos novamente de bem com a vida. O processo parece ainda estar longe do fim, mas já não nos importa. Todas as platitudes das mais ridículas acodem a nossos cérebros e saltitam pelos nossos lábios. Revigoradas, cantamos em coro com Milton Nascimento que não há “nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”. Depois, rindo uma com a outra, entoamos sensualmente os versos de Leonard Cohen: “Dance me to the end of love”.

São Francisco tinha razão. O máximo a que podemos aspirar durante nossas curtas existências é alcançar a condição de instrumentos da paz. Vital é aprender que só se recebem bênçãos divinas quando somos capazes de abençoar nossas experiências ‒ boas ou más ‒ de vida e também dar graças por nossos companheiros de jornada.

Agradeço de coração a meus amigos que me estimularam e me fizeram chegar a essas revelações. Pensando bem, é por poder contar com a sabedoria de vocês que talvez esteja sendo este o final de ano mais positivo de minha vida. Retribuo com meus votos de libertação de todas as mazelas humanas e com meu desejo de transcendência para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Balanço de fim de ano

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Em anos normais, fujo das retrospectivas ‒ que pululam por toda parte ‒ como o diabo foge da cruz. Além daquele gosto azedo de “déjà-vu”, as imagens coladas umas às outras em flashes alucinados, acompanhadas por uma locução empostada e altissonante, só fazem reforçar minha sensação de enjoo, tontura e ressaca, como se eu tivesse passado o ano envolta em desenfreada esbórnia.

Neste ano terrível que periga não se despedir sem novas pitadas de indigestos acontecimentos, manter a televisão, o rádio, o computador, o celular, a internet e as redes sociais inoperantes é decisivamente questão de saúde mental. Ninguém, acredito eu, vai ter estômago nem fígado para digerir a sucessão de eventos trágicos que envenenaram nossos dias por estas bandas, nem aqueles que enlamearam mais uma vez a história da civilização universal.

check-list-1Como já disse muitas vezes, invejo os animais por sua capacidade de viver apenas no presente. O passado, idealmente, deveria estar a serviço de nosso aprendizado, desvelando a estupidez das escolhas erradas que fizemos e iluminando nossa capacidade de nos desviarmos dos buracos e becos sem saída. Infelizmente, não é assim. A montanha-russa de imagens e sons recortados acaba inexoravelmente por reativar mágoas e ressentimentos que julgávamos adormecidos, ajudando a cavar ainda mais fundo o fosso que separa os que acreditam ter se posicionado do lado certo da história e os que se deixaram iludir por apostas temerárias.

Não quero jogar mais gasolina nesse incêndio, mas não posso me furtar a apontar uma assustadora analogia entre as decisões que tivemos de tomar no plano econômico, político e social ao longo do ano e o trágico acidente aéreo que vitimou a equipe de Chapecó. Acompanhem comigo as coincidências e vejam se não tenho razão.

Os dirigentes do time vice-campeão da Copa Brasil precisavam contratar uma companhia aérea para nos levar até o destino com que sonhávamos há muitas gerações. Tinham uma importante final de campeonato de ética e capacidade de gestão pela frente e sentiam que já estavam preparados para garantir o cumprimento das regras pelos jogadores e técnicos. Ainda que de modo titubeante, recrutaram analistas e consultores especializados para pesquisar os antecedentes e os critérios de qualidade adotados pelas empresas interessadas na licitação. Estes entregaram seus relatórios, aconselhando que o contrato fosse fechado com a empresa que demonstrasse possuir os recursos técnicos mais avançados e a equipe mais idônea e mais comprometida com o bem-estar dos passageiros. Entretanto, depois de muito ponderarem, os dirigentes, ainda assustados com as perspectivas sombrias de prolongamento da crise financeira do clube, acabaram optando pela companhia que propôs o custo mais baixo.

Estadio 1Embora pequena, essa empresa já havia lhes prestado serviços minimamente satisfatórios em ocasiões anteriores. Se o nível de conforto e segurança que ela propunha não podia ser descrito exatamente como o ideal, ao menos eles encontravam consolo no fato de que o piloto escolhido para comandar o voo já conhecia a região e estava familiarizado com as carências e desejos dos passageiros.

O avião praticamente lotado com nossas esperanças de um futuro melhor estava na cabeceira da pista, pronto para decolar, mas faltava aguardar a autorização do controle aeronáutico. O despachante da companhia vencedora havia entregado o plano de voo no último minuto e algumas irregularidades na documentação haviam sido constatadas. Os órgãos responsáveis pela autorização da decolagem (TCU, TSE e STF) alertaram que não havia combustível de reserva para chegar com segurança ao destino caso houvesse alguma emergência. O despachante deu de ombros ao alerta e respondeu com certa empáfia: “Faremos o trajeto em tempo menor, não se preocupem”.

Intimidados diante do histórico de aprovação automática dos planos de voo em todas as administrações anteriores, os órgãos controladores limitaram-se a assinar, com ressalvas, a autorização. O avião decolou. Tudo correu como previsto nos primeiros minutos, mas, logo depois de a aeronave ter estabilizado e entrado em velocidade de cruzeiro, pequenos sinais de alerta de mau funcionamento começaram a surgir por todos os lados. O espaço exíguo entre as poltronas, o forte ruído interno, o precário serviço de bordo e a desatenção da equipe de comissários para com as necessidades especiais de alguns passageiros somaram-se à turbulência típica do trajeto e detonaram um clima generalizado de insatisfação.

Havia uma escala prevista para reabastecimento (convocação de eleição direta), mas o piloto – que também era um dos sócios-proprietários da companhia – optou por não fazê-la. Sabia que a margem de lucro da empresa seria seriamente comprometida se tivesse de pagar por mais combustível e confiava cegamente em sua própria capacidade de encurtar o tempo de viagem. Acreditava também que bastaria conceder algumas benesses aqui e ali, distribuir sorrisos e se mostrar simpático para que os passageiros mais exaltados se aquietassem.

aviao-17A poucas milhas do destino, no entanto, percebeu que os tanques da aeronave estavam praticamente esgotados. Relutantemente, acionou a torre de controle e pediu prioridade para pouso, sem informar com exatidão qual era a emergência a bordo (aprovação da PEC do Teto e Reforma da Previdência). Foi informado de que já havia outra aeronave nessa condição (dívida dos Estados). Foi orientado a dar voltas até que a outra pousasse.

Um tanto temeroso, mas ainda confiante de chegar com segurança ao destino, uma vez que já havia enfrentado situações de risco semelhantes, o piloto permaneceu em silêncio por mais alguns minutos. Aos poucos, a aeronave foi perdendo altitude e se aproximando perigosamente do cume das montanhas da região. Angustiado, o piloto deu-se por parcialmente vencido. Sem usar o código internacional obrigatório que poderia colocá-lo imediatamente em terra firme, gastou, tresloucado, os poucos segundos de que dispunha para admitir que enfrentava pane elétrica total causada pela falta de combustível (crise ética e decorrente falta de credibilidade da tripulação) e solicitar que lhe fossem informados os vetores para o pouso. Infelizmente, era tarde demais. O choque com a montanha Lava a Jato foi inescapável.

O que pretendo demonstrar com essa analogia? Será que a retrospectiva de 2016 pode ser resumida como crônica de uma morte anunciada? Não, ainda não. Anime-se, foram encontrados sobreviventes! Cerca de 10% dos passageiros escaparam da morte e já se preparam para voltar a campo.

Feliz 2017 para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perguntar não ofende

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que um bom entrevistador deve fazer perguntas que não proponham escolha simplista entre o “sim” e o “não” ou que permitam acomodação entre lados pseudamente opostos de uma situação.

Se, por exemplo, você suspeita que seu entrevistado é alcoólatra e deseja que ele confirme ou elimine essa suspeita, não pergunte “Você bebe?”. Basta simplesmente perguntar “Quantos copos de bebida alcoólica você toma por dia?“. Se você for ainda mais perfeccionista, investigue uma a uma cada bebida alcoólica que lhe interessa descobrir se a pessoa consome habitualmente. Dessa maneira, além de correr menor risco de constranger o entrevistado (já que a pergunta parte da premissa de que algumas pessoas bebem todos os dias), você pode ter uma dimensão mais exata do seu grau de alcoolismo ou de abstinência.

escolha-1Uma das manchetes do dia em jornais brasileiros e sites da internet diz respeito à reação inflamada de nossa amada ex-presidente Dilma diante da pergunta feita por um jornalista da rede de televisão Al Jazeera. No trecho divulgado, o entrevistador coloca Dilma em saia para lá de justa afirmando: “Algumas pessoas dizem que, se a senhora sabia o que estava acontecendo dentro da Petrobrás, seria cúmplice, e que, se não sabia, seria incompetente”. Conclui perguntando na maior cara de pau qual das opções ela considera a verdadeira.

Dilma se exalta antes de apresentar sua resposta: “Esse é um questionamento tipo “escolha de Sofia”. Para quem não sabe ou não lembra, esse é o título de um filme que aborda o drama de uma mãe judia forçada a escolher qual de seus dois filhos deverá morrer na câmara de gás.

Na sequência, a ex-presidente, ganhando tempo para aprofundar sua defesa, aponta, irritada, as diferenças semânticas entre as atribuições do “Conselho” e da “Diretoria Executiva” das grandes empresas “no mundo todo”. Conclui, mais irritada ainda, dizendo que “nem todos os membros da diretoria sabiam que aqueles diretores da Petrobras tinham mecanismos de corrupção e estavam se enriquecendo de forma indevida”. E por aí ficou.

escolha-2Um detalhe chamou minha atenção e provavelmente chamará também a sua: sabidamente, Dilma era na época presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, órgão ao qual se subordinava todo o quadro de diretores da estatal. Freud, como de hábito, será capaz de nos auxiliar a entender os estranhos meandros cerebrais que nossos pensamentos percorrem em momentos de tensão.

Proponho que você se divirta por alguns instantes reformulando a pergunta a seu bel prazer, mas de modo a excluir em definitivo a opção da entrevistada por um dos lados da questão. A diversão pode ficar ainda melhor se a reformulação da pergunta puder incluir uma terceira via: por que não ambas as possibilidades?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lição de Psicanálise

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Assistindo ontem ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em que se debatia o projeto anticorrupção aprovado recentemente na Câmara dos Deputados, vi-me forçada a relembrar muitos dos sábios ensinamentos do pai da Psicanálise.

Quando você se depara com um comportamento bizarro, aparentemente sem sentido e cuja motivação lhe escapa, não se deixe abater. Controle por alguns segundos a sensação de que sua mente é obtusa e lembre-se: Freud explica. Tudo. Sempre. Se não parece explicável sob nenhum ângulo, é porque você ainda não absorveu inteiramente o arcabouço teórico do genial mestre.

Com um pouco de paciência para estudar a obra freudiana, você descobrirá que, dentre os mecanismos de defesa do ego propostos por ele, há um particularmente curioso chamado de “formação reativa”. O conceito é complexo, denso, cheio de meandros teóricos, mas pode ser fácil e rapidamente compreendido quando se dá um exemplo.

falar-em-publicoImagine que você tem pavor de falar em público. Só a simples ideia de que terá de se levantar, dirigir-se ao centro da sala, encarar as pessoas sentadas à sua frente e apresentar suas ideias de forma concatenada já é suficiente para detonar uma série de reações orgânicas de desconforto. Suas pernas bambeiam, suas mãos ficam trêmulas e úmidas, sua boca seca, sua voz falha e sai como um sussurro, assumindo por vezes um tom esganiçado.

Você sente que, para não ter de passar pela situação, seria capaz de fazer qualquer coisa. Ao mesmo tempo, sabe que não há escapatória. Todos serão chamados a falar, é só uma questão de tempo para que seu nome seja anunciado. Sua ansiedade extravasa e bloqueia sua mente. Não conseguindo suportá-la por mais tempo, você se voluntaria para ser o primeiro da fila.

Estranho, não é mesmo? Por que alguém aceitaria fazer o exato oposto do que está sendo pedido em seu íntimo? A explicação, no entanto, é simples: literalmente qualquer coisa é melhor para a preservação de sua saúde psíquica do que suportar a ansiedade. Sendo o primeiro, você se livra rapidamente da tensão e pode se preparar emocionalmente para responder a eventuais dúvidas ou contestações.

O exemplo mais emblemático de formação reativa no cenário político brasileiro recente é o que acometeu o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Para quem não lembra, o ex-deputado optou por depor espontaneamente numa CPI, ocasião em que declarou enfaticamente não possuir contas no exterior. Deu no que deu.

roda-viva-1Voltando ao debate no Roda Viva, estava presente o deputado maranhense responsável pela apresentação da emenda sobre o abuso de autoridade de magistrados e membros do Ministério Público. Acuado por comentários irados dos demais debatedores, ele deu início a suas explicações de peito estufado e voz firme, tecendo comentários vagos a respeito da coragem que teve para se opor ao clã Sarney em seu estado natal e relembrando um pacto assinado em 2009 entre o Executivo e o Legislativo para reformular a lei de abuso de autoridade, que data do período de ditadura militar. Foi recebido com um silêncio sepulcral.

Na sequência, um respeitado jurista fez questão de ler cada uma das 10 medidas contra a corrupção descartadas no substitutivo aprovado e concluiu enfático: “Isso é um estelionato legislativo, um verdadeiro projeto de facilitação e institucionalização da corrupção”.

Várias mensagens de apoio à fala do jurista começaram a chegar através das redes sociais. O deputado maranhense tentava se defender das acusações, mas não conseguia deixar de gaguejar e tremer. Foi então que um advogado se mostrou solidário à emenda do deputado. Elencou vários dos erros cometidos pela Operação Lava Jato e exigiu respeito à Constituição, argumentando que “ninguém está acima da lei”. Mais uma vez, a tela foi inundada por comentários de apoio dos telespectadores.

Logo depois, foi a vez de uma procuradora do Ministério Público falar. Fazendo menção às quase 2 milhões e 400 mil assinaturas coletadas, ela lembrou que várias das 10 medidas propostas haviam sido “importadas” de outros países democráticos e, algumas, recomendadas pela ONU. Ao final, sugeriu sem sutileza alguma que a intenção do “nobre deputado” só podia ser a de intimidar juízes e promotores, numa tentativa de autodefesa de parlamentares investigados por corrupção. Milhares de comentários indignados com a safadeza de membros do parlamento foram recebidos.

peticao-1Minha sensação de pasmo ao ouvir as teses apresentadas podia ser resumida pelo ditado popular que afirma que “em casa em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Não me escapava a impressão de que todos os lados da polêmica haviam recorrido inconscientemente a mecanismos de defesa. Tudo pairava no plano da “nobreza” das intenções declaradas para os próprios projetos em contraste com a suspeição quanto às “intenções ocultas” dos projetos alheios.

Freud deve ter se revirado na tumba várias vezes e se arrependido de ter formulado o conceito de motivações psíquicas inconscientes. Provavelmente, pensei eu já em meio à minha própria formação reativa, estaríamos pisando em terreno mais seguro caso fosse convocada uma Assembleia Constituinte fora do congresso e implantadas novas regras para a escolha de nossos representantes. É, concluí, Sartre estava mesmo certo: o inferno, decididamente, são os outros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.