Os mantras da política brasileira

Crédito: MoisesCartuns.com.br

Myrthes Suplicy Vieira (*)


De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Fernando Pessoa


Em psicologia clínica, é comum o alerta aos jovens terapeutas: é justamente nos momentos de maior vulnerabilidade e dor que o paciente menos tem condições emocionais de pedir e de aceitar ajuda. A pessoa está tão empenhada em provar que não há solução viável para o seu caso que rejeita sistematicamente toda forma de aconselhamento e descarta todas as medidas profiláticas sugeridas. Pior, entra numa desesperada batalha inconsciente para desqualificar a expertise, o profissionalismo, a sensibilidade ou a isenção de todos que lhe estendem as mãos.

“Você não entende… Se eu prestar queixa contra meu marido e ele for preso, vai querer se vingar nos meus filhos e na minha família. E eu não saberia viver carregando essa culpa. Além disso, eu não teria como sobreviver financeiramente sem a ajuda dele. Você não sabe como é duro ver seus filhos passarem fome… O que ninguém quer entender é que eu não posso viver o resto da vida em um abrigo, nem depender da decisão de um juiz para evitar que ele saia da cadeia e aí, sim, queira se vingar de todos. Preciso trabalhar e não tenho estudo suficiente, nem onde deixar as crianças… Melhor deixar pra lá, eu me viro sozinha, sei me defender quando é preciso. O problema é que ele está passando por um período difícil sem trabalho e acaba bebendo muito, mas tenho certeza que ele não teria coragem de me matar. Ele só faz essas ameaças porque tem medo de me perder…”

Tristemente, não é diferente na vida de uma nação. No Brasil, além do desastre humanitário causado pela pandemia e pela crise econômica que se sucedeu, estamos tendo de nos debater com uma aliança inédita entre o fundamentalismo pentecostal e o militarismo golpista. E, forçoso é admitir, nenhuma dessas duas forças conhece limites para a manipulação de mentes e de vontades. Seus códigos disciplinares não são somente vendidos a granel, mas agressivamente impostos em bloco a quem não partilha dos mesmos valores como uma questão de patriotismo. A luta deixa, então, de ser política e se configura como a batalha decisiva do bem contra o mal. Saem de cena os direitos e deveres consolidados na Constituição de 1988 e reassume triunfante seu lugar no palco o Código de Hamurabi, com sua Lei de Talião a tiracolo.

Assim, o eleitorado brasileiro já não tem a quem recorrer para pedir ajuda, e não quer – ou não pode – ser ajudado no esclarecimento dos fatores críticos que estão em jogo, seja porque desacredita da análise especializada dos cientistas políticos e juristas, da imparcialidade dos órgãos de imprensa e da credibilidade individual dos jornalistas ou da isenção dos ministros do Supremo. Acossados pela fome, pela total falta de perspectivas de um futuro melhor para todos, pela brutal insegurança pública e pelo ódio que contamina todos os setores da experiência cotidiana, vivem todos enclausurados em seus guetos ideológicos, acusando-se mutuamente de serem gado alienado e recusando-se a serem dissuadidos de suas respectivas intenções de voto.

Num estado de ânimo como esse, é fácil para o eleitor embarcar na ilusão de que “é tudo farinha do mesmo saco”. Depois de incontáveis tentativas frustradas de eleger um salvador da pátria, um pai amoroso que os resgate de seu desalento e impotência infantil, como acreditar que pode ser diferente agora? É quase inescapável a tendência de adotar uma postura cínica de equivalência moral entre os candidatos líderes nas pesquisas – principalmente quando se considera que o eleitor brasileiro vota em pessoas e não em ideias ou projetos de governo.

No que diz respeito à escolha dos melhores candidatos para o Legislativo, a situação é ainda mais aterradora. Sem se darem conta de que eles teriam um papel fundamental para reequilibrar e limitar os desmandos do futuro Executivo, desinformados pelo horário gratuito de propaganda eleitoral, herança trágica da ditadura militar, o que resta para a maioria é adotar como principal método de escolha aquele que se usava descuidadamente nas brincadeiras infantis: “Minha mãe mandou bater neste daqui, mas como sou teimoso bato neste daqui”.

Ainda não entendemos que a irracionalidade não tem como ser combatida com argumentos verbais lógicos. É o profundo investimento emocional do eleitor e sua identificação com figuras polêmicas de poder que precisariam ser confrontados. E quem ousaria se oferecer para essa tarefa? O analfabetismo político de boa parte da população, a abissal desigualdade que impede a visualização de uma solução única para todos os estratos sociais, a falta de uma identidade ideológica clara dos partidos, a crise da democracia representativa e o presidencialismo de coalizão reforçam-se mutuamente para afastar de vez a possibilidade de mudança dos ventos.

Há ainda outra tragédia à espreita. Hoje em dia ninguém mais se apresenta ao eleitorado como capaz de elaborar propostas criativas para a solução dos problemas sociais que nos afligem ou por ter maior capacidade de trânsito e negociação com forças políticas opostas. Agora tudo se resume a comprovar que você desfruta de fama e prestígio nas redes sociais – e que, portanto, suas chances de angariar o número de votos necessários para se eleger são maiores, quase certas. E dá-lhe influencer, tiktoker, subcelebridades, gente ligada ao entretenimento de massa. Não importa seu histórico educacional, profissional ou sua visão de mundo, nem que pesem sobre cada um acusações graves de descomprometimento com os valores iluministas e democráticos.

Dessa forma, a intenção de voto acaba ficando mesmo ao sabor do resultado das pesquisas eleitorais: com medo de “perder o voto” apostando num candidato lúcido mas sem reais chances de chegar lá, qualquer um que prometa pulso firme para enfrentar os poderosos de plantão, ser diferente de ‘tudo isso que aí está’ ou acabar com a corrupção e a impunidade pode atrair o interesse e a confiança maciça da população.

Ignorar que seu voto representa também a permissão para que seu país continue priorizando a economia em detrimento da qualidade de vida e bem-estar da população, que o meio ambiente sofra as consequências trágicas de uma visão deturpada de progresso, que o acesso a uma educação de qualidade continue apenas nas mãos de uma elite endinheirada, que falte capacidade ao sistema de saúde para dar atendimento digno aos mais carentes, que se normalize o infernal acréscimo no número de moradores de rua, de famintos, de desempregados e de violência contra as minorias. Em última instância, que sua indiferença significa autorizar que a democracia agonize nas mãos de déspotas nada esclarecidos. E que, ao fazê-lo, você consente em arrastar seus compatriotas para um abismo ético sem volta apenas para não entrar em contato com sua própria dor, impotência e desesperança.

O que fazer, então? Não tenho as respostas, mas pressinto que a única forma de colocarmos fim a estes tempos de barbárie é acolher terapeuticamente as frustrações e o ressentimento que ainda desorientam os dois lados do espectro ideológico. Aceitar que escolha moral é para quem não tem fome, ser capaz de ouvir os argumentos ainda não-explicitados que forem surgindo à medida que formos nos desapegando da sensação de desamparo como quem realmente quer compreender, e não como quem apenas se prepara para contra-argumentar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lei Maria da Penha ou pistola?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depende, senhor presidente. Se o “problema” em questão que presumivelmente poderia ser causado por essa tal “gente” que caminha em sua direção numa estrada deserta for uma ameaça de estupro e a mulher em questão for feia, o risco será mínimo para ela, segundo o senhor mesmo fez questão de ressaltar em outra ocasião.

Se for uma mulher bonita e conseguir sair viva da situação ilustrada, as duas ferramentas sugeridas mais do que provavelmente serão de pouca ou nenhuma valia. Antes de mais nada, é preciso dizer que elas são tão comparáveis em termos de eficácia para combater a violência contra a mulher quanto um nécessaire e uma jaca. A arma pode falhar, como aconteceu recentemente no atentado contra Cristina Kirchner. O indivíduo (ou os indivíduos, não restou claro) pode tomar a arma da mão da mulher, imobilizá-la e deixa-la ainda mais vulnerável, como o senhor mesmo contou que lhe aconteceu durante um assalto no passado. O tiro pode não atingir o potencial agressor ou só atingi-lo de raspão e deixa-lo ainda mais furioso e violento.

Já para “sacar” a lei Maria da Penha, seria preciso que a mulher vítima de uma tentativa de estupro, assalto ou assassinato se dirigisse a uma delegacia de polícia (ou a uma delegacia da mulher, caso houvesse uma na região), esperar o horário de abertura na manhã do dia seguinte e contar com a boa vontade do policial de plantão para registrar um boletim de ocorrência. Antes, porém, ela certamente teria de passar por um detalhado interrogatório, no qual lhe seria perguntado, dentre outras coisas: O que você fazia àquela hora numa estrada deserta? Como estava vestida? Havia bebido ou consumido drogas? Deu causa de alguma forma para o ataque ou o facilitou, seja não resistindo à aproximação do agressor e abrindo a porta do carro, seja sorrindo para ele e pedindo ajuda para trocar o pneu?

Para piorar, poderia acontecer de o delegado de plantão se recusar a registrar a ocorrência, alegando não ter havido nenhuma lesão física digna de nota, como aconteceu recentemente com uma senhora negra, esquálida e frágil, de 51 anos de idade, que teve seu pescoço (ou parte de cima das costas, como pretende o advogado de defesa) pisado por um brutamontes policial de mais de 80 quilos. Depois de recorrer a um advogado para ter seus direitos respeitados, essa mulher, no máximo, voltaria para casa com um papel na mão e esperaria sentada por meses ou anos até que o agressor (de quem ela desconhece a identidade, diga-se de passagem) a atacasse novamente ou fosse preso pela prática do mesmo ou de outros delitos. Se e quando isso acontecesse, a vítima poderia então entrar com um pedido de medida protetiva na justiça. Mesmo assim, se o agressor desrespeitasse a exigência de afastamento, só restaria a ela registrar um segundo boletim de ocorrência – e assim sucessivamente até a data de seu velório.

Outro dado relevante que precisaria ser levado em consideração para fazer uma escolha sensata e bem-informada do melhor jeito de reagir numa situação como a aventada diz respeito à sua suposição de que a “gente” que vem em sua direção “pode lhe causar problema”. Não ficou claro em sua douta exposição, senhor presidente, a partir de quais evidências essa impressão se concretizou: tratava-se de uma pessoal mal-encarada, segundo os critérios policiais? Talvez tivesse um olhar frio, vidrado, desses de quem consome drogas? A forma como estava vestido? Estava em atitude suspeita, atrás de um poste ou escondido embaixo de um viaduto? Portava algum objeto ameaçador nas mãos? São muitas as hipóteses e poucas sustentáveis a priori. Poderia ser, convenhamos, um simples transeunte ocasional, um morador da área, alguém voltando do trabalho e, quem sabe, até mesmo uma pessoa de boa vontade, querendo ajudar.

Digo isto porque já me aconteceu de ter o pneu estourado num cruzamento da Avenida Santo Amaro numa noite chuvosa, ter sido abordada por um cidadão – negro, veja só – que, sorridente, se aproximou da minha janela e se prontificou a me tirar daquela aflição, empurrando o carro e trocando o pneu em poucos minutos, sem nem mesmo esperar por gratificação. Tsc, tsc, tsc. Está claro que o senhor precisa conhecer melhor o “seu povo”, presidente, não apoiar suas convicções somente em seus fanáticos apoiadores mas também na gente simples e solidária que habita invisivelmente esta terra.

Além disso, capitão, não é nem preciso dizer que o [mau] hábito de atirar antes de perguntar, que está implícito na sua sugestão, deveria ser combatido e não incentivado. Esse é o traço mais distintivo da polícia militar brasileira desde sempre, usado com especial ênfase no período pós-ditadura. As manchetes sanguinolentas relativas aos constantes entreveros nos morros do Rio de Janeiro e na periferia de todas as demais capitais, com um número espantoso de vítimas colaterais, crianças e adolescentes desarmados, estão aí para quem quiser confirmar.

A defesa do excludente de ilicitude que tanto o anima está assentada exatamente nessa pressuposição de que há cidadãos de primeira categoria, honrados e cônscios de seu papel social, os militares e os PMs, e outros cidadãos de quinta categoria, os civis não pertencentes à elite branca heterossexual, que devem obediência irrestrita ao arbítrio das “otoridades” de plantão. Será que essa mentalidade já foi absorvida também pelos atuais detentores de posse e porte de armas, contaminando até mesmo aqueles que se dizem cristãos? Falando nisso: curiosamente, não lhe ocorreu sugerir que o melhor seria “entregar nas mãos de Deus” a solução do problema. Já que o senhor estava num templo evangélico, circundado exclusivamente por mulheres, seria de bom alvitre reforçar a tese de que o Altíssimo o ajudará a cuidar da segurança pública em um eventual segundo mandato seu, já que teria sido Ele a indicá-lo para o cargo presidencial ‘against all odds’.

Pensando em tudo isso, sinto dizer, senhor presidente, que, como de costume, seu pretenso argumento de apreço pela defesa da mulher foi miseravelmente infeliz. Ou melhor, como tudo que sai de sua boca, não passou de mais um ato falho para sua coleção de disparates. No seu inconsciente, onde pululam os vermes comedores de cérebro da “ideologia de gênero”, não deve haver espaço mesmo para indicar outras medidas civilizatórias, como melhor iluminação pública, serviço de assistência 24 horas nas estradas acessível online, carros de polícia circulando à noite por locais afastados do centro, etc. Acima de tudo, não lhe ocorreu a única medida realmente eficaz, já testada em diversos outros países com sucesso: a educação sexual nas escolas para meninos e meninas desde a primeira infância. Complementada preferencialmente por acesso universal a serviços de saúde mental para os transgressores.

Saiba que a única mensagem transparente – e auditável – que o restante da população recebeu foi a de que as mulheres brasileiras – sejam elas ou não portadoras de vaginas, como diz elegantemente seu filho 03 –, não podem se sentir seguras em lugar nenhum deste país, nem dentro nem fora de casa.

Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A reação das minhas cachorras ao debate

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Confesso que me surpreendi com a apatia com que minhas cachorras assistiram ao debate entre presidenciáveis do domingo passado. Eu estava uma pilha de nervos desde a hora em que acordei, aguardando ansiosamente o início do que prometia ser uma sanguinolenta troca de acusações entre os candidatos, ao invés de focarem em seus respectivos programas de governo.

Temia que, nos momentos mais tensos, dois ou mais competidores acabassem perdendo as estribeiras e se engalfinhassem fisicamente, ou ainda que o estúdio fosse invadido por uma horda de apoiadores armados até os dentes para exigir a cabeça dos adversários. Já me preparava psicologicamente para contabilizar um ou dois mortos e vários feridos graves, inclusive entre os âncoras e os jornalistas convidados. Só fiquei um pouco mais tranquila quando soube que não haveria a presença de plateia e que somente os assessores, marqueteiros e políticos aliados seriam autorizados a ocupar uma sala atrás do estúdio. Mesmo assim, eu vigiava com angústia e preocupação a cada segundo a escalada de ofensas, golpes abaixo da cintura e ameaças mal disfarçadas.

Minhas cachorras, por sua vez, pareciam bem relaxadas: se aboletaram gostosamente no sofá em frente à televisão e fingiram prestar atenção aos confrontos do primeiro bloco, permanecendo em absoluto silêncio. No entanto, tão logo terminaram de jantar, logo na entrada do segundo bloco, não conseguiram disfarçar que estavam entediadas com tanto palavrório, tanta conversa mole para boi (também cachorro?) dormir, desconcentraram-se e se deixaram embalar pela monotonia dos discursos, logo caindo em sono profundo.

Sacudi-as no começo do terceiro bloco para questioná-las a respeito das razões para tanto desinteresse. Ainda sonolenta, a mais velha me lançou um olhar enviesado e respondeu: “Tá brincando? Pra um domingo à noite, com chuva e frio, tinha que ter alguma coisa mais empolgante para assistir. Até agora, só teve mais do mesmo. Qual é a novidade que está sendo trazida a público? Nadica de nada! Parece que todos acabaram de reinventar a roda e descobriram a solução definitiva para exterminar todos os males que assolam a população desde o descobrimento, em 1500. Por que ninguém tinha pensado em tudo isso antes?”.

Já a mais nova e ainda inexperiente nos empolados confrontos pátrios agitou-se por alguns minutos para reclamar quando o candidato Felipe D’Ávila fez referência desdenhosa ao complexo de vira-lata que caracteriza os brasileiros. Rosnou, um tanto indignada: “Dobra a língua para falar de nós, seu verme! Somos SRD, com muito orgulho! Isso significa que, assim como vocês, somos fruto de miscigenação e exigimos respeito por nossa condição. Somos mais resistentes a doenças, mais resilientes e mais safos para lidar com situações de penúria, além de mais valentes para encarar as inevitáveis batalhas com tantos pitbulls nas ruas”.

Tive de concordar. Parecia mesmo que todos os debatedores diziam ao apresentar suas propostas pseudograndiosas: “Pra quem é [povo brasileiro alienado], tá de bom tamanho”. Antes que elas voltassem a dormir, ainda tentei entender como elas avaliavam a repercussão do comportamento dos candidatos-líderes nas pesquisas sobre eventual mudança de intenção de voto. Para afastar o tédio, propus a elas um joguinho, perguntando: se os candidatos fossem bichos, como vocês enquadrariam o perfil psicológico de cada um? Tudo o que consegui reunir, entre muxoxos, foi o seguinte:

Bolsonaro, o escorpião e seus instintos irrefreáveis
Deve perder um bocado de votos entre as eleitoras ainda indecisas, até entre as evangélicas. Mesmo tomando extremo cuidado para não parecer exageradamente agressivo em suas colocações, acabou deixando implícito que, tão logo ele chegue à outra margem do rio, não resistirá ao impulso de dar uma ferroada mortal no cangote daqueles que o tiverem auxiliado na travessia – com provável exceção dos fardados. Se e quando, ainda em estado de choque, um dia a população confrontá-lo com sua promessa de respeitar os demais poderes, o estado democrático de direito e o resultado das eleições, ele responderá candidamente: “É da minha natureza, e vocês sabiam disso, tá ok?”

Lula, o bom cabrito
Também deve perder um bom percentual de votos entre os antibolsonaristas e bolsonaristas arrependidos pela aparente falta do tão estimado pulso firme. Esforçou-se o tempo todo para não berrar, sabedor que era de suas vulnerabilidades, mas acabou passando uma imagem envelhecida, de pouca força e ânimo para mudar o destino do rebanho. Apegou-se à imagem de valentia do passado, mas a falta de sangue nos olhos entregou seu cansaço. Perdeu-se de vez quando hesitou em assumir o compromisso de montar um ministério paritário, de homens e mulheres, quando tudo o que o mulherio ensandecido pelo desrespeito de Bolsonaro a Vera Magalhães esperava era que ele enterrasse seus chifres bem fundo no intestino misógino de seu principal adversário.

Ciro, o rato que incorporou o flautista de Hamelin
Deve ganhar mais alguns pontinhos nas pesquisas, mas para encostar nos mais bem votados seria preciso encarnar a credulidade de um doutor Pangloss. Apesar de extraordinariamente articulado intelectualmente, não consegue desfazer a imagem de velho coronel nordestino autoritário que se vê como único portador de todas as virtudes e não se cansa de vomitar todos os defeitos de seus concorrentes. Ele parece acreditar piamente que seu projeto de pacto nacional + plebiscito após 6 meses de mandato será suficiente para que 27 ratazanas que engordam às custas do erário dos estados, 513 ratos pequenos e 81 grandes que estraçalham o restante do tesouro público se rendam ao seu carisma e o sigam acriticamente até a beira do precipício. Se vão se jogar ou não, essa é outra estória. Aposta ainda que a população já terá condição efetiva de estimar o acerto de suas medidas econômicas após 180 dias de governo e votará em peso pela manutenção de seu “revolucionário” esquema de governança.

Simone, a galinha-mãe e professora
Deve ser a que mais vai ganhar votos do público nem-nem e dos que avaliam que “é tudo farinha do mesmo saco”. Embora corajosa, auto afirmativa e doce ao mesmo tempo, desculpou-se o tempo todo por não ter conseguido apoio incondicional e universal dos galos do seu partido e assumiu seu desconforto com o passado corrupto da maioria de seus aliados, o que pode pesar muito contra seu estilo “lírio no pântano”. De boas intenções o inferno está cheio parece ser seu lema de campanha.

E isso é tudo. Minhas cachorras se recusaram a elaborar o perfil dos demais candidatos, seja por falta de informações confiáveis quanto aos seus reais interesses na candidatura e na política, seja por lembrarem do passado bolsonarista de uma e o perfil agressivamente desestatizador de outro.

Para encerrar logo a conversa e poderem voltar a dormir, elas avaliaram em uníssono que faltou abordar durante todo o debate um fato indesmentível e preocupante, ao qual a imensa maioria do eleitorado finge não prestar maior importância: qualquer que seja o resultado das eleições, estamos condenados a sermos governados por um tchutchuca do Centrão, velho ou novo, mais ou menos jeitosinho com seus pares homens e sempre tigrão com as mulheres, especialmente as mais pobres e as mais críticas/incisivas. Quem ousaria discordar?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sexo por obrigação

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

De todos os pronunciamentos delirantes a respeito da condição feminina, sua estrutura psíquica e interpretações quanto à sua disponibilidade para o sexo feitos ultimamente por integrantes da ala masculina ultraconservadora brasileira, o mais surpreendente e intrigante foi sem dúvida o registrado pela pena do digníssimo procurador de São Paulo, Anderson Gois dos Santos.

Num e-mail enviado a seus colegas da Procuradoria, ele propõe textualmente que “é de fundamental importância recuperar a ideia do débito conjugal no casamento”. E acrescentou, para perplexidade geral: “A esposa que não cumpre o débito conjugal deve ter uma boa explicação, sob pena de dissolução da união e perda de todos os benefícios patrimoniais”.

Fiquei tão impactada com o caráter medieval da proposta que fui pesquisar na Internet o que significa aos olhos da lei o débito conjugal e como esse conceito se insere na jurisprudência brasileira. Descobri que ele teve origem no Direito Canônico e foi absorvido no Código Civil de 1916. Depois que a constituição de 1988 introduziu a necessidade de observância do direito à dignidade de toda pessoa humana e a igualdade de direitos entre homens e mulheres no casamento, a tese perdeu amparo legal, embora hoje em dia ainda existam casos de pedidos de divórcio aceitos em tribunal por ter a mulher se recusado a fazer sexo com o marido.

Dado o furor condenatório com que juristas e colegas procuradores receberam a proposta, acusando seu autor de estar disfarçadamente defendendo a legalidade do estupro marital, ele achou por bem se antecipar e esmiuçar as ‘terríveis’ consequências sociais da não-aprovação de sua proposta: a recusa feminina em cumprir suas obrigações sexuais teria o potencial de levar a “traições desnecessárias” [não deixou claro se, no seu entender, haveria alguma forma de traição necessária], consumo de pornografia e acúmulo de pedidos de divórcio.

Arrogou-se ainda o direito de pontificar sobre questões fora de sua área de especialização, fazendo uma incursão amadora, típica de almanaque de farmácia do início do século 20, ao território da psicologia e da psiquiatria. Associou o feminismo a um “transtorno mental” ainda a ser catalogado num futuro CID [Classificação Internacional de Doenças], apontou as causas do distúrbio como “problemas com os pais na criação” e “muita mágoa no coração”. E foi além, descrevendo no mais misógino dos estilos a luta pelo empoderamento feminino como uma “tentativa de suprir profundos recalques e dissabores com o sexo masculino, gerado por suas próprias escolhas de parceiros conjugais”. Culpa da vítima, é claro.

Confesso que fiquei na dúvida se o foco de sua intervenção era efetivamente o de discutir os aspectos psicossociais pertinentes às obrigações conjugais ou se, além e acima dessas preocupações, pairava na mente dele a urgência de encontrar formas jurídicas seguras de proteger o patrimônio financeiro do homem casado, livrando-o da necessidade de dividi-lo com uma esposa não merecedora de tal ‘privilégio’.

Não pretendo ir a fundo na exploração das impropriedades científicas nas quais ele incorreu ao se manifestar sobre traumas psicológicos, dificuldades de identificação com o papel sexual e motivações aberrantes que comporiam em tese o perfil das mulheres feministas. São tantos e tão complexos os fatores envolvidos nessa questão que prefiro me abster, por puro cansaço e tédio antecipado. Deixo a cargo dos especialistas em psiquiatria a revelação de quais e quantos transtornos mentais estão na base da virilidade tóxica, essa sim uma doença passível de enquadramento num próximo CID.

Entretanto, reservo-me o direito de apontar a sobreposição ilógica de conceitos díspares que permeiam o raciocínio do douto procurador. Lídimo representante do pensamento binário, ao misturar num mesmo balaio a recusa a fazer sexo com o parceiro oficial e o comportamento feminista, ele deixa entrever que aposta que feminista é toda mulher que não gosta de homem. O que, convenhamos, deve ser fonte de muita angústia e ansiedade para ele.

No entanto, o que mais chamou minha atenção na proposta de revitalização da norma de “débito conjugal” foi a desconsideração – intencional ou acidental – da existência também da obrigação do marido em manter relações sexuais regulares com sua esposa. Passei horas me divertindo com a possibilidade de inversão do raciocínio, isto é, a eventualidade de uma mulher ingressar na justiça com uma queixa contra o esposo por ele ter falhado em cumprir suas obrigações sexuais no casamento e consequentemente pleitear que ele fosse destituído dos direitos à divisão do patrimônio do casal.

Em meio a piruetas mentais, acabei concebendo a seguinte cláusula contratual pré-matrimonial que poderia ser exigida pela mulher: “A parte masculina do presente contrato compromete-se a realizar o ato sexual com a parte feminina no mínimo 3 (três) vezes por semana, por todo o tempo que durar a convivência do casal, independentemente da presença de fatores limitantes à atividade, como idade, doenças físicas e mentais, abatimento com a situação financeira, consumo de bebidas alcoólicas ou drogas psicoativas e outros elementos intervenientes ocasionais, com penetração obrigatória em cada coito e número indeterminado de tentativas, até que a parte feminina atinja o orgasmo ou se declare plenamente satisfeita. Se, para tanto, a parte masculina não corresponder às expectativas de desempenho da parte feminina, assim descumprindo a presente cláusula, sob qualquer tipo de alegação, estará ele sujeito à pena de dissolução unilateral do contrato conjugal e perda do direito à divisão dos bens patrimoniais auferidos pelo casal”.

Cheguei até a fantasiar uma cena de novela rural ilustrativa desse novo enquadramento jurídico: uma “coronela”, empresária de sucesso no ramo agropecuário, entra no quarto do casal e dirige-se ao marido, que está deitado, de pijama e cueca furada, fingindo dormir, com as seguintes palavras: “Levanta já daí, seu imprestável! Vai se lavar porque hoje eu vou te usar”. Ou ainda, num contexto mais urbano, uma cena em que a mulher informasse ao parceiro intimidado por não conseguir uma ereção: “Vamos logo que hoje eu estou sem tempo e sem paciência. Se você não der no couro, vou dar para o primeiro que passar pela minha porta”.

Voltando a falar sério, qualquer que seja o ângulo pelo qual a proposta do procurador seja examinada, fica claro que não se trata apenas de anacronismo obscurantista: é um total desconhecimento da fisiologia humana e do funcionamento psíquico. Como associar sexo a obrigação se estamos falando de uma pulsão animal natural e instintiva que tem como principal propósito o prazer e o alívio das tensões? Como garantir a necessária lubrificação na mulher e a ereção masculina se na cabeça dos parceiros há um imperativo categórico de desempenho imediato? Até mesmo entre animais inferiores na escala filogenética, se a fêmea da espécie não consente com a cópula, mesmo estando no cio, ela simplesmente não acontece. Não há nada que o macho possa fazer para dissuadi-la da recusa, a não ser estupra-la, é claro – mas, se isso acontecer, quase certamente ocorrerá em meio a muita luta, sangue e provável despedaçamento de corpos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

“Escolha moral é para quem não tem fome”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Você concorda com essa afirmação? Pense um pouco: se, por um lado, ela explica por que o furto famélico encontra muitas vezes uma jurisprudência de tolerância e até de não-punição, por outro, pode servir de argumento para, por exemplo, justificar a reeleição de Bolsonaro, diante do pacote de bondades que ele acaba de implementar com o auxílio luxuoso do Centrão. Mesmo que os beneficiados estejam profundamente insatisfeitos com os atos de seu governo e condenem vigorosamente a defesa que ele faz da compra de armas em vez do feijão.

Antes de esclarecer quem foi que disse essa frase, proponho que você reflita sobre qual seria sua escolha caso estivesse na mesma situação das pessoas que se viram forçadas a abandonar seus princípios e valores morais para não ver sua família morrer de fome. Se você acha que está imune por ser uma “pessoa de bem”, incorruptível, que está acima das paixões humanas mais comezinhas, detentora de uma postura ética inabalável quaisquer que sejam as circunstâncias externas, eu o convido a pensar duas vezes. Responder com orgulho, dizendo que preferiria morrer de fome a se dobrar à tentação de roubar um pedaço de carne, um pacote de arroz, pão ou leite, revirar latas de lixo ou correr atrás de um caminhão para pegar ossos descartados, é se atribuir uma natureza essencialmente angelical – ou, pior, divina – mas que, em nenhuma hipótese, guarda relação com a frágil e imperfeita condição humana.

Absolutamente tudo já foi dito a respeito dos problemas cognitivos, disciplinares, diplomáticos e administrativos do ex-capitão. É chegada a hora de analisarmos com coragem o perfil de seus eleitores em potencial. Tradicionalmente, os eleitores do Nordeste e de outras áreas carentes da periferia do país foram acusados de serem os responsáveis pela manutenção de oligarquias perversas no poder, por aceitarem cair na armadilha do voto de cabresto, em troca de uma dentadura nova ou um par de alpargatas. Agora, num cenário desolador de pandemia, desemprego, redução de poder aquisitivo e desesperança entre os mais jovens, são os eleitores ‘nem-nem’ [que não querem a volta de Lula nem a reeleição de Bolsonaro] os mais propensos a mudar sua intenção de voto e cristãmente oferecer a outra face e dar uma segunda chance ao Anticristo em pessoa, imaginando que ele saberá finalmente orientar sua reeleição para o atendimento das demandas mais primárias do povo sofrido e contemplá-lo com novas benesses. Ao menos é isso o que indicam as mais recentes pesquisas eleitorais.

É preciso admitir: somos todos tão reféns da violência política e ideológica obscurantista de Bolsonaro quanto as mulheres vítimas de violência doméstica que decidem voltar para os braços de seus agressores alegando que “ruim com ele, pior sem ele”. E, parafraseando meu colega de profissão, Gasparetto, só se desilude quem se ilude.

Será a fome uma força-motriz superior à comoção pela morte de mais de 670 mil brasileiros e à indignação com o brutal retrocesso da democracia brasileira, além do descarado desmonte dos projetos de proteção ao meio ambiente e da educação de qualidade que poderiam garantir nosso futuro? Se você pensa que sim, lembre-se que a fome já ameaça a vida de 33 milhões de conterrâneos e coloca contra a parede 61 milhões que vivem em insegurança alimentar. Se essa turma toda resolver, de fato, abrir mão de uma escolha moral nas próximas eleições, estaremos definitivamente fritos. Por isso, antes de começar a atacar nas redes sociais esse “povinho alienado”, o gado bolsonarista, os evangélicos fundamentalistas, e reclamar pela enésima vez que “brasileiro não sabe votar”, reflita sobre os fatores estruturais que deram origem à nossa tenebrosa desigualdade social e a mantêm incólume até hoje. E pare de poupar os farialimers, os empresários ligados ao agronegócio e os economistas que colocam o equilíbrio fiscal acima do bem-estar e da qualidade de vida da população.

Identificar seu ‘lugar de fala’ na análise do quadro eleitoral pode ser uma providência necessária mas não suficiente. Há uma série de tarefas mais sérias e mais urgentes a realizar antes de outubro próximo. A primeira delas, me parece, é que você se desvie das polêmicas externas de ocasião e encare a frio de que forma você historicamente contribuiu com seu voto para perpetuar a eleição de pretensos salvadores da pátria de todas as colorações ideológicas.

Aprender a distinguir as consequências de votar em um nome forte o bastante para se opor “a tudo o que está aí” e da escolha consciente de um projeto de país talvez seja a tarefa mais difícil que o aguarda. Se a terceira via não lhe apetece porque você não quer “perder o voto”, pense que mais uma vez você está impedindo a renovação dos quadros políticos nacionais e empurrando todo mundo a fazer mais uma impossível “escolha de Sofia”. Embora a jornada de mapeamento honesto de suas próprias motivações seja longa e dolorosa, é fundamental que você entenda que eleição presidencial não é o mesmo que votar em um ‘reality-show’ para decidir quem fica e quem sai. Achar que democracia é apenas depositar seu voto na urna, lavar as mãos e voltar para casa à espera do milagre da multiplicação dos pães é a forma mais segura de fomentar o desastre.

Portanto, se você não passa fome (ainda), a única escolha legitima que tem a fazer é se juntar às forças de oposição para promover a conscientização – de famintos e não-famintos – a respeito do que é cidadania responsável. Deixar-se levar por falácias do tipo “É tudo farinha do mesmo saco” não ajuda a fazer avançar nossa carcomida República.

Ah, já ia me esquecendo de contar que não foi nenhum economista, sociólogo, psicólogo ou filósofo que disse a frase acima. Ela apareceu de surpresa, no meio do capítulo final de uma novela, na boca do protagonista, um indivíduo que hesitava o tempo todo entre assumir de vez sua vilania ou fazer acreditar que era apenas vítima impotente de um destino cruel.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Do golpismo ao banditismo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Os mais jovens podem não saber, mas presidente golpista não é novidade por estas bandas. Basta folhear um livro de história para descobrir uma penca deles. Aliás, ao fazê-lo, a mais ingênua das criaturas vai entender que nossa república começou precisamente com um golpe.

O que há de novo no pedaço é um presidente que escala do golpismo de ocasião para o banditismo mais deslavado e explícito. Questão de caráter, não de contingências políticas ou ideológicas. Quem não o conhecia em 2018 e o comprou por medo de que o Brasil avançasse para um patamar um pouco menos desigual que o diga. Quem já o conhecia e, mesmo assim, apostou que ele se corrigiria e respeitaria ao menos as instituições republicanas e o decoro do cargo agora está de pires na mão, implorando pela clemência de seus pares para retomar algum grau mínimo de cidadania.

Em 5 de fevereiro de 2019, poucos dias após Bolsonaro completar um mês de governo, escrevi um texto alertando para os tempos sombrios que nos aguardavam sob sua batuta. Nele estavam registrados, além dos óbvios defeitos de caráter do recém-eleito, os projetos macabros que alimentaram a escolha de ministros, assessores, líderes do governo e presidentes de estatais. Prevendo que a explosiva mistura de religiosos fundamentalistas e militares subservientes ocupando cargos técnicos nunca poderia dar certo. Num dos trechos fiz questão de escrever que “por medo dos bandidos, a maioria concordou em pagar a milicianos para cuidar de sua proteção pessoal”. Vidência, visionarismo, mediunidade? Não, simples experiência de vida, atrelada a algum conhecimento de psicologia clínica – ainda que a psicologia, como ciência, não lide com questões de caráter.

Como dizia um espírita famoso e colega de profissão (Gasparetto), só se desilude quem se ilude. Quem passou a vida tentando mudar as crenças e comportamentos de seus pais, companheiros, filhos, amigos ou chefes – e se frustrou redondamente – sabe bem do que estou falando. As pessoas apaixonadas costumam acreditar que o outro possa mudar “por amor” a elas. Ledo engano. Se isso já não vale para as relações pessoais, imagine então o que pode ser esperado nesse ninho de serpentes peçonhentas que é a política brasileira.

O desrespeito às leis e às instituições é marco simbólico de toda a carreira pública de Jair Bolsonaro. Inútil elencar os escabrosos atos tresloucados do ex-capitão, cada um pode localizar algum malfeito mais a seu gosto. Mas ainda vale a pergunta: Como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente? Ingenuidade tem limites, ora bolas.

Mais além da obsessão por transgredir, no entanto, está o cinismo covarde, a hipocrisia, a insensibilidade e a desfaçatez premeditada dessa criatura. Essa talvez seja a verdadeira e única novidade na presidência em todos os tempos. Antigamente, os políticos pegos com a boca na botija ainda se davam ao trabalho de fazer pronunciamentos indignados, repletos de linguagem empolada e termos incomuns da norma culta, destinados a convencer os mais crédulos de que eram seres impolutos, exemplos de probidade administrativa e simples vítimas de “perseguição política”. Hoje em dia, se já não bastasse a linguagem chula típica de botequim de beira de estrada e de prostíbulo com que o atual mandatário se dirige à nação, temos de lidar com o contínuo arremesso de responsabilidades à distância e de nos haver com bravatas inconsequentes, mentiras e desmentidos, seguidas por novas mentiras e novos desmentidos.

Não bastasse o golpismo explicitado nas manifestações do 7 de setembro passado e rapidamente minimizado como infeliz resultado do “calor do momento”, o Anticristo tupiniquim agora anuncia destemido a repetição da façanha para este ano. Quer mostrar de forma cabal “de que lado o povo está”. Fiquei pensativa: lembrei do apelo do “não me deixem sozinho” de Fernando Collor, que deu no que deu. Mas, ainda perplexa, me indago: e se as ruas e praças das capitais se encherem com multidões de devotos violentos repetindo a plenos pulmões “eu autorizo”, como reagirão as oposições e o Judiciário? Haverá guerra civil, cancelamento das eleições ou a pressão interna e internacional se encarregará de botar freio no ânimo demolidor do déspota?

Não fosse suficiente a sustentação indisfarçada de alguns militares de alto coturno para a aventura golpista, ele agora decide fechar com chave de ouro sua carreira de banditismo profissional com um inédito crime de lesa-pátria: ir buscar o apoio do presidente dos Estados Unidos para tentar impedir a ascensão de seu adversário. Aparentemente, continua apostando no cansaço e no esgarçamento das forças democráticas. Resta saber se vamos ser capazes de ressuscitar os caras-pintadas, pegar em armas mais uma vez para defender a pátria dos seus algozes ou se Deus, brasileiramente, vai dar um jeitinho de demonstrar que ele não é nem imorrível nem imbrochável.

É, pois, em nome de Marielle, de Bruno Silveira e Dom Phillips, de tantos jornalistas atacados grosseiramente, das crianças e jovens pretos da periferia mortos por violência policial, dos mortos pela pandemia e dos que estão perto de morrer pela fome que eu pergunto: como você vai justificar – não só para terceiros, mas principalmente, para sua própria consciência – sua intenção de votar nele outra vez? Ou vai continuar achando que o tal bicho-papão do “comunismo” é um mal maior a ser enfrentado?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

E eu com isso?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando a polícia carioca, mesmo contra a determinação do STF, intensificou as operações contra o tráfico de drogas nas favelas que resultaram em dezenas de mortes de moradores e pessoas que não tinham nada com isso, fiquei chocada com a violência desmedida mas não protestei porque não moro no Rio de Janeiro nem em comunidades de morro.

Quando a polícia paulista introduziu desafiadoramente blindados e atiradores de elite nas recentes incursões na Cracolândia, fiquei aterrorizada com a possibilidade concreta de reação armada dos traficantes e consequente morte indiscriminada de passantes e moradores, mas segui em frente cuidando dos meus afazeres porque não sou viciada, nem tenho parentes e amigos nessa condição, e também não moro nas adjacências.

Quando a polícia rodoviária federal de Sergipe jogou gás de pimenta e gás lacrimogêneo dentro de uma viatura matando um esquizofrênico negro cujo único deslize era estar pilotando uma moto sem capacete, fiquei indignada com a inadmissível barbárie, mas acabei me distraindo com a necessidade de cuidar da minha própria sobrevivência: afinal, os preços dos alimentos estão pela hora da morte, os planos de saúde já são impagáveis e ninguém consegue encontrar estabilidade financeira, nem empregos mais bem remunerados.

Quando chuvas torrenciais ocasionaram centenas de mortes em diversos estados brasileiros, fiquei, é claro, entristecida diante de tanta dor e sofrimento, mas lembrei que isso é consequência inevitável do aquecimento do planeta – e que, portanto, resta muito pouco para nossas autoridades fazerem para evitar a repetição dessas tragédias. Além disso, não moro em área de risco e respeito o meio ambiente, fazendo coleta seletiva.

Quando bandidos disfarçados de entregadores de moto passaram a assaltar e, por vezes, matar pedestres desavisados para roubar seus celulares, comecei a me sentir um tanto insegura, mas logo espantei as sombras porque não uso celular em público e nunca ando sozinha à noite. É bem verdade que tenho irmãos, sobrinhos e amigos que se expõem a esse risco, mas sei que eles estão um pouco mais protegidos por não circularem em bairros de periferia e morarem/trabalharem em áreas onde há maior presença de forças de segurança.

Quando o número de casos de violência doméstica, feminicídio e pedofilia começou a crescer em função do confinamento na pandemia, roguei a Deus que ela terminasse o mais rápido possível e que nossas autoridades encontrassem algum jeito de serem mais efetivas no combate a esses males; mas não me incomodei tanto, uma vez que moro sozinha e não tenho filhos.

Em suma, sei e sinto que involuímos como sociedade, que a realidade brasileira adquiriu tons surreais e macabros e que não há perspectivas concretas de construirmos um futuro promissor para nossa pátria. No entanto, mesmo perplexa com tantas catástrofes, permaneço fiel a meus princípios democráticos: sou uma cidadã de bem, cumpridora dos meus deveres sociais, pago meus impostos regularmente, sou instruída, bem-informada politicamente, temente a Deus e não me meto na vida das pessoas. Se ao menos meus compatriotas entendessem que a cada ação corresponde uma reação, as coisas seriam muito mais fáceis de administrar, tenho certeza.

Sou a favor das liberdades individuais: cada um que cuide do seu próprio nariz e evite como puder colocar-se em situações de perigo e confronto social, racial, religioso, político e de classe.

E você?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A régua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

 


“O homem é a medida de todas as coisas”

Protágoras


 

Bolsonaro ouviu o canto do galo do poder absolutista mas até hoje não descobriu de onde ele vem, nem que tipo de vocalização lhe seria necessária para reproduzi-lo com sucesso por aqui. Escutou o canto da sereia mas, acreditando que não passava de singela homenagem de seus seguidores fardados, desatou-se do mastro e jogou-se atabalhoadamente na água.

 

Freud e Paulo Freire
Tivesse algum dia se dado ao trabalho de esmiuçar o pensamento desse e de outros filósofos da antiguidade, saberia que tudo é relativo, inclusive e principalmente sua autoridade. Imediatista, megalomaníaco, voluntarista e incapaz de pensamento crítico, ele confunde alhos com bugalhos e costuma tomar a parte pelo todo – provavelmente entenderia a palavra homem como simples indicador de gênero. Acreditando ser ele próprio medida de tudo à sua volta, julga que o Brasil e o mundo deveriam se curvar à sua paralela noção de realidade, aos seus princípios morais (ou falta deles), às suas vontades e ambições.

Tivesse lido Freud alguma vez, saberia que seu psiquismo está fixado na fase de onipotência típica de Sua Majestade, o Bebê. Entenderia que nessa etapa primitiva do desenvolvimento psíquico não existe mundo fora dele e a mãe (pátria) é apenas um seio que jorra leite sempre que requisitado. Tudo leva a crer que, por circunstâncias familiares adversas (mãe omissa e pai castrador), Bolsonaro jamais superou a fase do narcisismo infantil e regride continuamente à ilusão de poder inquestionável sempre que se sente ameaçado por alguma autoridade externa.

Tivesse ido além do título do livro de Paulo Freire, compreenderia que “se a educação não é libertária, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. Se educar é frustrar, como postulam os especialistas, ele nunca se deixou educar para a cidadania. Sua formação militar o ajudou a radicalizar a noção de que toda obediência tem de ser necessariamente cega, acrítica: afinal, soldados não são feitos para pensar. No entanto, num arroubo juvenil e ainda apostando em sua superior autoridade moral, achou um dia que poderia subverter o dogma supremo da hierarquia militar. A humilhação máxima que sofreu ao ser expulso do exército por transgressão marcou sua personalidade para todo o sempre.

 

A ferida narcísica
A profunda ferida narcísica que se abriu em seu peito e o ressentimento acumulado desde então tornaram-se a marca registrada de sua atuação no mundo político e transformaram o caráter de virilidade tóxica – compensatória de sua impotência – em marco distintivo do bolsonarismo. Dando sequência ao seu complexo de Édipo embutido e jamais resolvido, Bolsonaro e bolsonaristas continuam tentando a todo custo matar o Pai Supremo, simbolicamente representado pelo Judiciário e encarnado na figura de Alexandre de Moraes, antes que sejam eles próprios castrados.

Desde que assumiu o poder em 2019, ele se comporta literalmente como se tivesse comprado a fazenda Brasil de porteira fechada. Dono de todas as consciências, ele não se cansa de instituir como regra que a ninguém é dado enxergar o mundo com outras cores ou rebelar-se contra seus éditos, uma vez que “autorizado” por seu povo e seu exército.

 

O STF e a Constituição
Professor de Deus, ele vem dando aulas diárias de constitucionalidade aos ministros do Supremo. Exibe em tom ameaçador seu douto saber jurídico, abordando temas de alta relevância para a democracia e o estado de direito, afetos principalmente ao conceito de liberdade de expressão, mas se aventurando também em questões secundárias, como a demarcação e exploração de terras indígenas, os limites de ação da Petrobrás na determinação de preços e as exigências legais imprescindíveis para a realização de eleições limpas e auditáveis.

Pontifica livremente sobre critérios de inocência e culpabilidade de parlamentares e membros do seu governo, sobre liberdade de imprensa, sobre equilíbrio e autonomia dos três Poderes da República, sobre o “interesse público” da não-adoção de medidas que beneficiariam minorias e sobre tudo o que causa “legítima comoção” na população brasileira, como se ela estivesse contida como um todo no seu grupinho de aliados e apoiadores.

 

Meu reino, meu gozo
Reinar sozinho, sem se sentir constrangido pelos tais pesos e contrapesos democráticos, seria sua única possibilidade de gozo orgástico – e ele sabe que nunca o poderá atingir graciosamente. Para chegar lá, seria preciso ter capacidade de entrega, abrir mão do desejo de ser o condutor e deixar-se ser conduzido no balé amoroso, o que lhe é impensável. Se não vai por bem, deve raciocinar, então é legítimo que se faça pelo estupro das instituições democráticas.

Mas não lhe basta o poder secular. Precisa também fazer seus apóstolos acreditarem que ele possui traços divinos de liderança carismática: a obsessão pela verdade que liberta, o pendor pastoral (“Eu sou, realmente, a Constituição”), acreditar-se ungido pelo próprio Deus para conduzir os destinos da nação.

 

Cloroquina e ivermectina
Como iluminado defensor das liberdades individuais, transgredir é com ele mesmo. Quanto mais normas legais forem quebradas em sua gestão, mais sente seu poder fortalecido e reforçada a crença de que ele é a única régua admissível para medir acertos e erros na condução dos negócios públicos – como transformar reserva natural em polo turístico, defender o trabalho infantil, defender a tortura, defender o excludente de ilicitude para policiais e militares, armar a população civil ou eliminar os radares de trânsito.

Na sua visão, é mera questão de tempo para que a OMS declare oficialmente que as vacinas são, de fato, experimentais e que foi um erro usá-las para substituir a cloroquina e a ivermectina, já que, além de custarem muito caro, podem ter efeitos colaterais inaceitáveis, como causar Aids em adolescentes ou miocardite em crianças, ou ainda conter chips para transformar pessoas em robôs. Ou para que o Supremo declare que, “dentro das quatro linhas da Constituição”, só ele teria o direito de decretar confinamento na pandemia, e interdite governadores e prefeitos que não seguissem a orientação federal. Sociólogos, filósofos e historiadores também se renderão um dia ao fato de que o nazismo foi um movimento de esquerda e que é possível perdoar o Holocausto mas não esquecê-lo, uma vez que “quem esquece seu passado não tem futuro”.

 

O psiquiatra aprendiz
Sua mais recente – e estupefaciente – incursão foi no universo da psiquiatria. Demonstrando sua expertise na área de psicopatologia aplicada à política, alertou para os eleitores ainda indecisos: só um “imbecil ou psicopata” defende a volta do AI-5.

Campeão mundial de atos falhos, resta saber se ele mais uma vez se autorrotulou sem querer (“O chefe do executivo mente”) ou se a crítica velada ao comportamento padrão de seus apoiadores mais exaltados foi só uma maneira de recriminá-los por vazarem antes da hora a intenção de golpe caso fracasse nas urnas. Ou talvez ainda ele tenha imaginado que, se vencedoras, as hostes de esquerda vão tentar instituir a ditadura do proletariado e, assim, roubar dele a bandeira do fechamento do Congresso e do STF.

Vale conferir com o psiquiatra-chefe de plantão após a abertura das urnas.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Conservadorismo e defesa da família

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu estagiava num hospital psiquiátrico, como parte obrigatória da graduação em psicologia clínica. Uma de minhas pacientes era uma jovem franzina, tímida, na casa dos vinte e poucos anos, que pouquíssimo falava sobre sua vida pregressa. Dado seu mutismo quando questionada sobre as emoções que se agitavam em seu universo interior, era difícil para mim obter informações confiáveis sobre os motivos que a haviam levado a ser internada e que alimentavam delírios religiosos frequentes.

Decidi então submetê-la ao teste de Rorschach para colher subsídios que pudessem determinar a melhor forma de abordar o caso. Esse teste, também chamado de “teste dos borrões de tinta”, consiste na apresentação, em uma sequência padrão, de 10 pranchas com manchas aleatórias, em branco e preto ou coloridas, e a solicitação de interpretação simbólica das figuras formadas – mais ou menos como acontece na brincadeira de identificar formatos nas nuvens em movimento no céu que se pareçam com pessoas, animais ou objetos.

A cada prancha apresentada, ela respondia com uma evidente mistura de curiosidade e medo. Depois de se deter por alguns minutos escaneando visualmente mas em silêncio os detalhes com total interesse, ela se retraía súbita e inexplicavelmente, dizendo: “Não estou vendo nada… só meu pai consegue ver”. O comportamento e a frase esdrúxulos se repetiram ao longo de todo o teste. Cada vez mais intrigada com aquela clara proibição interna de revelar conteúdos profundos, resolvi então reapresentar as 10 pranchas, uma a uma, perguntando: “O que seu pai vê aqui?”

Naquele instante, o psiquiatra que supervisionava o estágio entrou na sala e me lançou um olhar furioso. Como eu ousava alterar as regras do jogo irresponsavelmente, confundindo ainda mais a cabeça da garota? Fiz um intervalo, saí da sala e contei a ele o que estava acontecendo. Expliquei que, como o teste é projetivo, isto é, depende da projeção de percepções, emoções e sentimentos pré-existentes no psiquismo do paciente e que só são liberados quando há autorização da censura interna, eu precisava apostar que ela estaria driblando a própria censura ao assumir as percepções do pai como suas e trazendo à tona os elementos necessários para compreender as razões de sua falta de autonomia. Ele consentiu.

Minha estratégia foi um sucesso. Ela produziu um farto material para investigação, na maior parte das vezes com conteúdo de violência sexual. Entrou num frenesi verborrágico ao entrar em contato com uma prancha em que há uma mancha vermelha, com respingos espalhados sobre um fundo preto, que interpretou em meio a muita angústia como vagina sangrando, penetração violenta, sensação de fragmentação do corpo.

Comecei a escarafunchar o histórico familiar da paciente, na tentativa de descobrir as raízes dessas percepções. Sabia que o pai da garota era pastor de uma igreja fundamentalista cristã e era tido na comunidade como modelo de moralidade exemplar. No entanto, ninguém sabia informar como eram as relações dele no interior da família, com a esposa e com a filha.

Contrastando o material colhido no teste com esses fatos, foi-se revelando aos poucos que a garota não só era vítima aterrorizada de um pai autoritário, que se pretendia também possuidor de moralidade religiosa inatacável, mas havia sido estuprada seguidas vezes por ele e dele havia engravidado aos 14 anos. Forçada a abortar para não manchar a reputação do pai na comunidade, com o silêncio cúmplice da mãe, ela colapsou sob o fardo da opressão sexual e enlouqueceu.

Diagnosticada como esquizofrênica, ela passou a ter delírios religiosos, durante os quais se via como a Virgem Maria, a única pessoa isenta de pecado que poderia aceitar a missão de conceber o filho de Deus, representado pelo pai pastor. A morte forçada do filho também se encaixava à perfeição nesse contexto de autoridade divina inquestionável. Só ele sabia o que era melhor para ela e ela não podia duvidar das intenções e desígnios “sagrados” dele.

Sem o saber, eu havia encostado num fio desencapado em que entravam em curto o horror sexual real e a fantasia da pureza espiritual. Ela se refugiava nas alucinações místicas para escapar da loucura de sua realidade familiar. A partir dali, percorremos juntas toda uma Via Crucis de reinterpretações, avanços, quedas e retrocessos, até que ela se abrisse para a possibilidade de ajuda terapêutica. Esse caso me ajudou a entender não só o papel da cisão esquizofrênica na tentativa de restaurar a coesão do Eu mas também a aprofundar minha compreensão da violência contida na estrutura patriarcal de nossa sociedade.

Agora, com a campanha eleitoral de 2022 já em andamento, constato estarrecida que um grande número de candidatos insiste em apresentar-se ao público como “conservador”, repisando orgulhosamente o tema da “defesa da família” como trunfo eleitoral. Inevitavelmente, o caso dessa jovem esquizofrênica volta à minha cabeça e me força a perguntar: A qual família eles se referem, afinal? À família patriarcal, branca, de classe média/alta, heteronormativa? Àquela mesma família em cujo seio se instala a imensa maioria dos casos de pedofilia, estupro, abuso sexual, perversões e violência doméstica? Àquele tipo de família em que deve haver um abafamento compulsório de casos de homossexualidade e transgeneridade, mesmo que isso termine em suicídio de crianças e jovens?

Se é a esse tipo de família que precisamos voltar para reestruturar nossa sociedade, estamos de fato perdidos. Se ele fosse realmente tão poderoso para gerar harmonia social, convivência democrática e progresso, por que vivemos tempos tão sombrios de ódio e intolerância radical? Quando a esse modelo patriarcal se junta a noção de um Deus Pai todo-poderoso, guardião dos costumes para o alcance de elevação espiritual, não há como vislumbrar um futuro de mínima sanidade psíquica, de respeito às diferenças e de reafirmação da cidadania para o avanço das pautas das minorias.

O foco central da família patriarcal cristã sempre esteve na exigência de pastoreio rigoroso da sexualidade… feminina apenas, é bom lembrar. Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar. O duplo padrão de moralidade sexual do patriarcado continua a se vender como salvação da lavoura nacional ‘against all odds’ e, no atual contexto de direito à “liberdade de expressão” sem limites, deriva muitas vezes para um padrão de masculinidade tóxica que ainda seduz politicamente muitas cabeças jovens.

Claro que há famílias saudáveis, bem-estruturadas e funcionais em todos os estratos sociais, raciais e religiosos, mas ninguém se atreve a questionar de que forma esse modelo fantasiado de família de comercial de margarina se encaixa com a realidade da imensa maioria das famílias brasileiras em que as mulheres são as chefes, as provedoras e os modelos inspiracionais, em meio a muita carência, fome, desemprego e violência sexual/social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Minha Páscoa estragada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A bem da verdade, não foi apenas a atual que foi conspurcada. Foram 21 Páscoas minhas estragadas, justo no período que deveria ter sido o mais produtivo e de mais efervescente participação social da minha vida. Longuíssimos 21 anos em que eu e muitos de meus compatriotas fomos forçados a percorrer em silêncio e impotência todas as estações da Via Crucis da ditadura militar e a reviver em agonia todos os anos o martírio da carne de nossos companheiros seviciada impunemente. Para meu desconsolo, a elas juntam-se agora mais três Páscoas estragadas, contaminadas pelo veneno do descompromisso de nossas elites civis e militares para com a vida e a dignidade humana.

Não sei se o indigníssimo general se deu conta em algum momento de que seu pronunciamento foi feito exatamente em referência ao dia em que os cristãos celebram a vitória do espírito sobre a carne. Ao dia da Ressurreição do compromisso cidadão (mais do que cristão) com o combate à desigualdade, com o respeito às diferenças e com a justiça social. Não, é mais do que provável que ele não tenha percebido. A Páscoa, para ele, deve ser apenas mais um feriado de comilança com a família, depois do tempo do jejum forçado. Aquele dia tão aguardado em que o gosto amargo de sangue em suas bocas pode finalmente ser substituído pelo sabor doce da consagração do princípio do excludente de ilicitude.

Tivesse compreendido que ‘mesmo calada a boca, resta o peito’, não teria se dado ao luxo de debochar de maneira tão afrontosa de nossa dor, de nossas feridas mal cicatrizadas que voltam a sangrar sempre que somos atingidos por novos golpes de desfaçatez. Pensando bem, é até compreensível que ele se dirija à nação como se dono fosse do país e da razão: não está acostumado a perguntar a opinião de seus comandados. Foi treinado para mandar, não para o exercício da cidadania.

Para sustentar sua indiferença arrogante, o Pilatos de plantão deve ter partido da premissa de que foi uma escolha de nossa sociedade – representada por todas aquelas senhoras cristãs da Marcha da Família com Deus pela Liberdade – a implantação de um regime de horror e exceção. Afinal, tudo estava uma bagunça e havia o risco de uma ditadura comunista, não é mesmo? Estava claro o que os mais céticos nunca conseguiram compreender: a urgente necessidade de implantar um regime autoritário de direita para impedir a ascensão do autoritarismo de esquerda. Mas, por um descuido, por um desses raciocínios matemáticos incompreensíveis, ele pulou de uma equação a outra e acabou não conseguindo explicar a conexão lógica entre a necessidade da tortura e o pleno restabelecimento da democracia.

Desculpe minha ignorância, general. Não compreendo muito bem as razões estratégicas de Estado para conduzir a nação com mão de ferro a seu destino glorioso de paz e harmonia social. Deve ter sido um ‘mal necessário’ para alcançarmos o ‘bem’ de uma vida civilizada, disciplinada, em que os de farda se locupletam e os sem farda se contentam resignados com a evidente impossibilidade de restauração da moralidade. Pena que nem todos, como eu, compreendamos a nobreza patriótica dos atos das Forças Armadas nos porões do Doi-Codi.

Para ser sincera, seu pronunciamento fez-me lembrar a prepotência da patricinha alienada que reage às cobranças de maior sensibilidade social dizendo: “O que vem de baixo não me atinge”. Perdão mais uma vez, general. Nós, aqui de baixo, não conseguimos visualizar a estrada toda, só os descaminhos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A síndica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que se torna praticamente virtuose na arte de manipular emocionalmente outras pessoas. Sua expertise é provocar a fúria de qualquer um que atravesse seu caminho, fazendo comentários desrespeitosos sobre características que a pessoa não tem como controlar (como cor da pele, gênero, deficiências físicas ou mentais), desqualificando moralmente seus oponentes e abalando sua autoestima.

Um dos pontos-chave dessa estratégia é que a ofensa seja feita sempre de forma sorrateira, indireta: é preciso que o agressor pegue o outro desprevenido, seja através de uma postura inicialmente amistosa, seja através de um raciocínio ferino rápido durante a conversação que pareça ocasional, não-intencional. O emprego de um tom de voz contido ou jocoso colabora para que a intenção de causar descontrole emocional no noutro se concretize mais rapidamente. O lado triste é que, quando a vítima finalmente sai do sério, retrucando de forma intempestiva, ela não está dando uma resposta à altura, mas apenas reforçando a eficácia da estratégia e confirmando o poder demolidor do agressor.

As mulheres sabem bem como isso funciona. Acuadas por frequentes comentários discriminatórios a respeito de sua competência técnica ou autoridade para liderar grupos, ou ainda por observações de baixo nível (normalmente de cunho sexual), se reagem chorando ou estapeando o agressor, lá vem a velha cantilena: “Mulheres são instáveis emocionalmente, não têm sangue frio para lidar com situações de tensão, não têm senso de humor”. E o agressor, impune e com presumido ar de espanto, se rejubila com a comprovação na prática de suas teses.

Forçoso é admitir que, para que a estratégia funcione, o agressor precisa possuir algum resquício de inteligência. Precisa saber que não pode levantar acusações diretas aos berros, uma vez que isso demonstraria para os circunstantes que ele também não consegue controlar seus impulsos. Precisa saber identificar com antecedência qual é o posicionamento exato de seu oponente na escala reativa que vai de “sangue de barata” a “pavio curto”. Precisa impedir a qualquer custo que os circunstantes se alinhem com a vítima e saiam em defesa dela. Um caso emblemático desse tipo de expertise é o que eu relato abaixo.

Todo mundo sabe como os síndicos costumam ser malvistos pelos moradores de um condomínio. As razões para esse estereótipo são muitas: postura autoritária, moralismo, tentativas de interferência na vida particular dos moradores, formação de panelinhas no atendimento às demandas dos moradores, suspeitas de apropriação indébita ou de má gestão orçamentária, dentre muitas outras.

No condomínio onde moro não foi diferente. A síndica de ocasião era uma senhora de cerca de 80 anos, que se apresentava como especialista em administração de pessoal, contabilidade, legislação trabalhista e fiscal. O síndico anterior havia sido acusado de desviar dinheiro do condomínio. A eleição dela representava, portanto, a esperança de uma faxina completa nas contas do condomínio.

Era uma pessoa altiva e austera mesmo fora das funções de síndica. Ríspida no trato com moradores e funcionários, logo começou a causar um sem-número de conflitos. Sentia-se à vontade para legislar sobre novas regras de convivência caso a convenção do condomínio fosse omissa nesse sentido. Gritava com crianças e adolescentes que brincavam no jardim do térreo pisando na grama, ou ouviam música alto. Vira e mexe soltava uma circular recriminando hábitos dos moradores que, segundo ela, contrariavam a imagem de um condomínio “de classe”.

Uma das coisas que mais a irritavam era o contato afetivo próximo dos moradores com os porteiros. Alegando questões de segurança, ela passou a proibir que o contato fosse além do ‘bom-dia’. Mandou reformar a portaria, colocando-a num plano mais elevado e revestiu os vidros com filtro escuro. Proibiu os funcionários de se afastarem do posto mesmo que por alguns segundos para ajudar moradores com sacolas de compra ou problemas de locomoção.

Ao longo do tempo, sua especialidade mostrou ser mais especificamente a de tirar os moradores do sério, tratando-os como subordinados. Para isso, ela não economizava adjetivos pejorativos e humilhações em público. Chamou a mãe de uma moradora, de quase 90 anos, de esclerosada. Acusou, sem provas, um morador eletricista de ter feito uma gambiarra na antena de tevê para ter acesso indevido a canais pagos. Certa vez, depois de ter brigado com um morador gay por seu comportamento espalhafatoso, interfonou para meu apartamento, pedindo que eu alertasse a mãe dele de que ele “não valia a comida que a mãe preparava”.

Intimidados, os condôminos deixaram de recorrer a ela para resolver quaisquer pendengas. Temendo serem a próxima vítima de seus maus bofes, limitavam-se a comentar em voz baixa pelos corredores os absurdos mais recentes. A tensão escalou sem controle até o dia em que ela resolveu confrontar um morador que era um ex-militar aposentado por distúrbios psiquiátricos. Como o homem tinha surtos frequentes de agressividade e andava armado, representava um páreo duro para a intempestividade dela. Certo dia, ao passar em frente ao escritório da administração, ele foi questionado sem meias palavras se não se envergonhava de ser “encostado na mulher”, que trabalhava dia e noite para sustentar a casa, enquanto ele levava uma vida fútil, cuidando apenas de sua cachorra.

Foi o que bastou: furioso, o homem invadiu o escritório e estapeou a síndica sem dó nem piedade. Pega no contrapé pela primeira vez, ela registrou um boletim de ocorrência, mandou trancar a porta da administração e deslocou um vigia para fazer sua segurança 24 horas por dia. Contratou um advogado e exigiu que os moradores pagassem por seus serviços, alegando que estava no exercício de suas funções quando da agressão. O rebuliço foi total. Logo os moradores se dividiram, uns apoiando uma mulher idosa vítima de agressão e outros justificando a perda de controle de um homem aviltado em sua honra, já sem muitos freios racionais.

Por fim, um grupo de moradores decidiu organizar um abaixo-assinado para a realização de uma assembleia extraordinária, em que se discutiria o afastamento definitivo da síndica em função de tantas polêmicas. Para que ninguém fosse alvo isolado de fúria, ficou combinado que cada morador apresentaria de própria voz as circunstâncias de seu embate pessoal com ela. Informada dessa tática e vendo que não teria como contraditar cada caso, poucos minutos antes do início da assembleia, a síndica apresentou sua renúncia por escrito.

Aprendi com essa mulher que não há uma forma 100% eficaz de reagir a esse tipo de manipulação emocional, nem mesmo o silêncio despeitado. No limite, pode-se respirar fundo, perguntar-se se há um fundo de veracidade no comentário insultuoso e retrucar usando da mesma técnica: a ironia ou o sarcasmo.

Certa vez, quando nos encontramos no corredor e ela pretendeu me ensinar a melhor forma de embalar o lixo para que ele não provocasse mau cheiro, olhei para ela espantada e emendei com toda coragem: “Nossa, me desculpe, devo estar ficando com Alzheimer! Imagine a senhora que eu não me lembro de ter pedido sua opinião…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Das intenções

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um fenômeno relativamente recente espalha-se pelo mundo como praga. Filho dileto do pensamento dicotômico, da polarização sem sentido, da mania de enxergar o mundo em preto e branco e de raciocinar sempre em espelho, ele ganhou em inglês o título de ‘whataboutism’.

O nome pode ser complicado de entender mas é uma das características mais marcantes da bipolaridade da cultura brasileira. ‘What about…?’ pode ser traduzido como ‘E quanto a…?’. Refere-se a uma tática comum de conversação em que, ao invés de responder diretamente a uma crítica, assumindo-a como pertinente e legitimando-a (ou não) na resposta, opta-se por desviar do assunto em pauta e focar na contracrítica à isenção (ou ao caráter) de quem levantou a discussão pela primeira vez. É um jeito matreiro de demonstrar que a crítica está por princípio invalidada pelo simples fato de que o outro lado também não pode ser considerado totalmente isento de miopia, viés ideológico, preconceito, parcialidade, culpa ou responsabilidade.

Se você ainda não ligou o nome à situação, é fácil lembrar como isso acontece entre nós. Alguém critica alguma medida controversa da administração Bolsonaro e lá vem a indefectível pergunta: “E o PT? E o Lula?”. E o debate se arrasta interminavelmente em torno de quem teria feito mais mal ao país, a corrupção das esquerdas ou a contínua destruição do patrimônio natural e das instituições democráticas brasileiras promovida pela extrema-direita. Embora fosse possível esperar que levar em consideração os argumentos dos dois lados da disputa implicasse maior transparência ou racionalidade na abordagem, não é isso o que acontece: ao contrário, o maniqueísmo só se aprofunda e interdita a manifestação de neutralidade, acusando-a de “ingenuidade”, analfabetismo político ou alienação. A ninguém ocorre perguntar: se os dois lados são perniciosos, como escapar da armadilha da polarização e promover a emergência de uma terceira via responsável, como deixar de votar em nomes e passar a pensar em termos de projetos de futuro para o país ou, no limite, como desapegar da ideia de que só um salvador da pátria pode nos tirar do atoleiro em que nos metemos.

Os exemplos abundam, cada um deve ter seu preferido no noticiário nacional ou internacional. Agora, diante da invasão da Ucrânia, o whataboutism ressurge poderoso, reeditando o patrulhamento ideológico dos tempos da ditadura militar, como numa espécie de indagação irritada sobre o ‘lugar de fala’ de cada parte envolvida nas críticas. Só que, desta vez, ele vem ineditamente mancomunado com outro mecanismo psicológico perverso que passei a chamar de ‘gaslighting’ geopolítico. Ou seja, toda vez que alguém posta um elogio à resiliência dos ucranianos e à coragem e espírito patriótico de Zelenski – e as mulheres são maioria, nesse sentido – muitos analistas deixam no ar a suspeita de que se está “romantizando” a guerra e vendo o líder ucraniano como uma espécie de Príncipe Valente que veio salvar a donzela fragilizada e acuada.

Verdadeiros batalhões – tanto de direita quanto de esquerda – se mobilizam para demonstrar que não há inocentes no conflito, que a Ucrânia está pagando o preço de cutucar irresponsavelmente onça com vara curta, que Zelenski teve várias oportunidades de negociação com a Rússia antes da guerra e as descartou, que é um ‘inocente útil’ manipulado pelo imperialismo dos EUA e pelo expansionismo da Otan – lembrando que ambos têm as mãos sujas de sangue inocente e, portanto, não têm moral para acusar Putin de terrorismo de Estado. Todos sempre se pretendendo especialistas em conflitos no leste europeu, agregando “informações privilegiadas” obtidas em jornais e revistas especializados ou alegando possuírem contato com fontes mais confiáveis entre os ‘insiders’.

No Brasil, ao whataboutism vieram ainda se juntar duas outras bestas apocalípticas: a defesa irracional da liberdade de expressão sem limites (mesmo que ela signifique o direito de injuriar terceiros e atacar a democracia) e da supremacia das liberdades individuais em desfavor dos interesses coletivos. Não é só na política que usamos e abusamos desse tipo de cacoete intelectual. Desde o direito ao aborto, passando pela inaudita violência contra mulheres, gays e trans, as cotas raciais nas universidades, o viés do judiciário que não enxerga o abismo de desigualdade social, até a substituição da adoção de bebês humanos abandonados por filhos de 4 patas, nos damos cotidianamente ao luxo de manifestar desapreço pela conciliação de diferentes princípios éticos e visões de mundo.

Diferentemente do que acontece com os animais, o discurso humano é sujeito a um sem-número de mal-entendidos. Como dizia muito apropriadamente o psicanalista Lacan, você pode saber o que disse mas nunca o que o outro escutou. A escolha das palavras, o tom de voz, a postura corporal e o gestual que empregamos ao defendermos uma ideia são todos dependentes da interpretação de seus significados. Isso nos remete inexoravelmente ao reino das intenções.

E o terreno das intenções é pantanoso e impenetrável por princípio, já que só se pode lidar com suposições. Questionar-se a respeito das reais intenções de quem justifica a guerra levantando bandeiras como ‘desnazificação’ da Ucrânia ou a nobreza de intenções de quem defende a paz, suspeitando do alastramento da ‘russofobia’, só eleva o conflito a um novo patamar de tensão. O subtexto da guerra psicológica ora em curso agrava sobremaneira nossa já combalida consciência cidadã e certamente terá reflexos importantes sobre a próxima campanha eleitoral.

É de se esperar que assistamos em breve a um forte recrudescimento das teorias conspiratórias, a novos delírios persecutórios decorrentes do inesperado reagrupamento das forças que se diziam anteriormente “anticomunistas” e “patrióticas” e da triste ideia que as minorias devem se curvar diante da vontade da maioria. Preferencialmente, sem nem tentar lutar pela abertura de novos espaços de conciliação.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Brasil: um país para não-amadores

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da imensa importância da energia elétrica – e do gigantesco estrago que ela pode causar na vida das pessoas comuns caso falte por alguma razão – foi quando a luz acabou no prédio da empresa em que eu trabalhava.

Eu atuava no RH da companhia e minha sala ficava no primeiro andar. Naquele momento, eu estava finalizando a contratação de um funcionário e precisava esclarecer alguns pontos da remuneração a que ele teria direito com o departamento financeiro – que, para meu desgosto, ficava no quarto andar. Como a coisa era urgente, subi pelas escadas e me deparei com uma pá de funcionários inertes, recostados em suas cadeiras, braços cruzados e olhar perdido na distância. O silêncio era geral e todos pareciam resignados com a situação, esperando obedientemente que a energia fosse restabelecida para entrar novamente em ação, como cachorros adestrados para não se mover até que um apito ou tiro fosse disparado.

Surpresa e incomodada com a apatia geral, tentei fazer o supervisor resolver o problema fazendo contas à mão mesmo, já que o recém-contratado não podia esperar. Ele me olhou com ar de perplexidade, como se eu lhe estivesse pedindo para escalar o Everest sem cordas. Respondeu que seria impossível, uma vez que teria de fazer cálculos complexos para posicionar os benefícios previstos para o cargo proporcionalmente à remuneração dos demais funcionários do setor a que a pessoa iria pertencer.

Foi minha vez de ficar perplexa. Perguntei se não havia alguma calculadora manual que pudesse dar conta do recado. Ele balançou negativamente a cabeça, sem disfarçar uma careta de desdém. Era como se ele me dissesse: Como assim? Calculadoras manuais são objeto de interesse de museus, mas não de uma empresa multinacional como a nossa. Não pude deixar de pensar no meu velho pai, também contador, que varava madrugadas a fio fazendo e refazendo suas contas incansavelmente na ponta do lápis. Não gostava de calculadoras e nunca se permitiu aprender a lidar com computadores.

É curioso como a gente desaprende certas habilidades ao terceirizá-las para máquinas. Se você teve de redigir algum texto mais longo à mão nos últimos anos, sabe do que estou falando. Se precisou lembrar do número do telefone de algum conhecido sem dispor de uma agenda eletrônica, também. Até hoje me pergunto como os mais jovens fazem para reter os aprendizados escolares se sua memória foi integralmente delegada ao Google.

Voltou à minha cabeça um acidente aéreo acontecido na rota São Paulo – Belém do Pará. O piloto havia se distraído ao inserir o código da região de destino no computador de bordo e só percebeu o engano depois de horas sobrevoando a floresta amazônica sem enxergar o aeroporto em que deveria pousar. A bordo havia um mateiro, experimentado nas características geográficas da região. Acompanhando o trajeto dos rios, a posição do sol, da lua e das estrelas, o dito cujo logo se deu conta de que o piloto estava perdido. Levantou-se, foi até a cabine e alertou o piloto que estavam fora de rota. Preferindo confiar mais nos instrumentos de bordo do que na sabedoria ancestral de um homem do povo, o piloto continuou voando em círculos até que o combustível acabou e o avião acabou se chocando contra as árvores.

Sem um plano B efetivo, não há como lidar com imprevistos. Dizem que as maiores descobertas científicas acontecem quando a máquina quebra. Como apontou Darwin em sua obra, não é o mais forte nem o mais inteligente que sobrevive. É o mais adaptável, o mais flexível diante das situações extremas. Por estranho que pareça, meu cérebro sempre se sai melhor em situações de alta tensão. Aliás, um dos meus prazeres mais extravagantes é imaginar o que eu faria se vivesse no século 18 e precisasse obter ajuda rápida sem poder contar com os recursos tecnológicos contemporâneos.

Terça-feira, 15 de fevereiro de 2022, 6 horas da manhã. Ao acordar, percebi que estava sem acesso à Internet. O problema não era falta de energia, mas algo errado com a minha conexão. Já prevendo atraso com minhas traduções, peguei o telefone para reclamar com a operadora e, surpresa! Meu telefone fixo estava mudo também! Entrei em surto: pela primeira vez na vida a sensação de estar isolada do mundo civilizado representava uma dor insuportável.

Nunca fui exatamente fã dos computadores, mas sempre foi motivo de orgulho para mim manter-me atualizada, em sintonia com a realidade. De repente, me ocorreu que eu já dispunha de um celular. Como não o uso habitualmente, não havia me dado conta de que a salvação estava ao alcance da minha mão. Liguei para o serviço de atendimento da operadora só para ficar ainda mais transtornada. Uma voz eletrônica descontraída me informou, assim como se nada de anormal estivesse acontecendo: a previsão é a de que o serviço seja restabelecido na quinta-feira, 17 de fevereiro, após as 18 horas!

Meu cérebro travou de tanta indignação. Vivendo na principal cidade da América Latina, em pleno século 21, num mundo em que a informação circula em velocidade ultrassônica, ele não conseguia entender como uma empresa que vende justamente acesso rápido ao mundo se permitia oferecer resposta em passo de tartaruga – e ainda encarar o fato como mero acidente de percurso totalmente desculpável.

Instantaneamente, comecei a fabular formas de vingança contra tanto descaso. Acessei o site do Procon, na vã expectativa de que pudessem forçar a empresa a resolver o problema mais rápido. Qual o quê! Para pasmo ainda maior, pediram um prazo de 20 dias para investigar junto à equipe técnica do provedor qual teria sido o real motivo da interrupção do serviço: incompetência, descaso ou simples obstáculo tecnológico incontornável.

Eu acabava de perceber que a indisponibilidade da tecnologia era ainda mais poderosa do que a falta de energia elétrica. Eu havia sido devolvida, de fato, ao século 18. Impotência, humilhação, descrença. Agora era eu de mãos vazias contra o Golias da comunicação, uma cidadã sem poder de influência contra os verdadeiros donos da nação.

Fernando Sabino, em seu livro Encontro Marcado, imaginou um divertido ataque terrorista contra a típica indiferença das autoridades brasileiras: certa manhã, os habitantes de uma cidade descobrem que não podem sair de casa porque há um gigantesco pão interditando a entrada. Mais tarde, surgem outros pães em pontos aleatórios da cidade, interrompendo o tráfego nas ruas, avenidas e pontes. Perplexidade geral. Peritos são chamados às pressas para examinar tão exótico artefato: nada com que se preocupar, trata-se apenas de farinha, água e fermento. Logo outras cidades começam a relatar o mesmo fenômeno e, em poucas horas, o país inteiro é paralisado.

Pondero que tipo de pão terrorista eu poderia utilizar em substituição. De repente, faz-se luz: vou infiltrar-me nas hostes inimigas e destruir o sistema por dentro, usando as redes sociais para aliar-me a outros usuários insatisfeitos e aumentar a pressão. Dito e feito, experimento uma sensação tola de justiça. Relaxo, me deito indolente, à espera do retorno ao paraíso.

Sexta-feira, 18 de fevereiro, uma e meia da tarde, a conexão é finalmente restabelecida…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

BREAKING NEWS: Deus não é mais brasileiro!

Myrthes Suplicy Vieira (*)


O Altíssimo convocou uma cadeia de rádio e televisão de urgência para um pronunciamento bombástico, retransmitido por todas as plataformas de streaming.

Com o rosto tenso e a voz embargada, começou dizendo:


“Quero informar que estou abrindo mão em definitivo do título de cidadão brasileiro. Como sabem todos, tenho o dom da ubiquidade e, portanto, posso assumir todas as nacionalidades ao mesmo tempo. Agrada-me que as pessoas me tratem como um dos seus, uma vez que isso sinaliza que habito seus corações. No entanto, não me parece mais adequado que um determinado povo queira sequestrar para sempre minha identidade só para si.

Aceitei a contragosto por muito tempo a falácia de que sou brasileiro. Na época, pareceu-me simpática a homenagem que me prestavam, já que minha mãe também é considerada nativa desse país miscigenado e gigante e foi inclusive aclamada sua padroeira. Além disso, queria deixar claro na ocasião que não é preciso demonstrar a sisudez e a formalidade dos povos do Velho Continente para ter acesso a mim. A descontração, a alegria e a espontaneidade típicas da cultura brasileira me cativavam e, confesso, me davam também a oportunidade de expandir meu domínio sobre todo o continente americano. Era, portanto, não só uma questão familiar mas também estratégica para minha igreja.

Parecia-me ainda uma justa retribuição por todos os privilégios que concedi ao Brasil. Dotei a terra brasiliense de múltiplos recursos naturais. Os brasileiros puderam contar sempre com uma abundância de água, terras férteis, sol o ano inteiro, ausência de cataclismos e vulcões. Os mais belos cenários naturais do mundo eu os plantei aqui. Permiti que a maior floresta tropical da terra aqui florescesse. Adornei estas terras com uma das floras e faunas mais exuberantes, coloridas e belas do mundo. Para habitar esse paraíso terrestre, escolhi um povo multifacetado, herdeiro dos melhores traços de caráter de três etnias fundamentais: brancos, índios e negros.

Imaginava que a harmonia entre o homem e a natureza nesse pedaço de chão tão generoso fosse durar para sempre, assim como a integração e a colaboração de todas as raças. Mas o que fizeram com tantos dotes? Escravizaram índios e negros, alijaram os mais pobres do usufruto dos bens derivados de seu próprio trabalho, destruíram todos os biomas escavando a terra para dela extrair ouro, pedras preciosas e minerais, como se não houvesse amanhã. Envenenaram os rios para acumular fortunas e, no processo, mataram de sede e de fome as populações ribeirinhas. Deixaram-se levar pela crença de que a destruição do patrimônio natural, humano e cultural em nome do progresso era prerrogativa dos seus governantes e de sua elite empresarial. Acreditaram que o bolo da economia só pode ser dividido depois de ter crescido e, por isso, não aprenderam a compartilhar. Não satisfeitos, zombaram de todos os seus vizinhos sul-americanos que enfrentavam uma história de escassez e de revoluções sangrentas.

Mais grave, imaginaram que minha ira diante de tanta insensibilidade e desumanidade seria aplacada se construíssem templos revestidos de ouro para minha adoração. Que tipo de ser abominavelmente vaidoso seria eu para deter meu braço de justiça em troca de luxo fútil? Alardearam que estou no comando de todas as operações que interferem na vida do homem e, blasfêmia, insinuaram que até mesmo eventuais desastres naturais, períodos de fome e seca, de crise política, degradação moral e desalento espiritual faziam parte de minha vontade soberana, caracterizando-os como forma de punição aos homens maus. Ora, mau seria eu se permitisse que o castigo fosse generalizado e atingisse quem não tem como se defender da cupidez dos homens poderosos que só querem perpetuar a injustiça social e a desigualdade.

Jamais me imiscuí em seus assuntos políticos, até porque cansei de dizer que meu reino não é deste mundo. Embora alguns de meus representantes na terra tenham por vezes tentado me associar a esta ou aquela força político-ideológica, nunca tomei partido nas disputas humanas por poder. Eu lhes concedi livre arbítrio justamente para que pudessem determinar o melhor rumo para suas vidas e para o da nação. E, muitas vezes, vocês escolheram seus líderes com base na miopia do rancor e do ressentimento pessoal, não na razão. Quando se deram conta de que haviam se colocado voluntariamente nas mãos de tiranos impiedosos, imploraram pela minha interferência e eu nada fiz. Esqueceram do comando bíblico: faze tua parte e eu te ajudarei.

Para minha suprema tristeza, seus dois últimos mandatários declararam terem sido escolhidos por mim. Inominável absurdo! Elegem inconscientemente o Anticristo de plantão e ainda me culpam? Repito: A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César. Assumam responsabilidade por suas escolhas equivocadas de uma vez por todas. Pelo amor de Deus (no caso, eu mesmo), cresçam, amadureçam. Tenho mais o que fazer do que ficar cuidando de picuinhas humanas.

Tolerei por séculos esse estado de coisas, acreditando que as demonstrações de fé inabalável em mim e de resiliência da gente humilde brasileira bastariam para instaurar novos tempos de comunhão entre o povo e seus dirigentes. Mas o país do futuro promissor também não aconteceu nesse sentido. Ultimamente as coisas atingiram um patamar paroxístico que não posso mais tolerar. O ódio entre irmãos nunca esteve tão forte, a desigualdade nunca pareceu tão irreversível e a insensibilidade social de seus dirigentes jamais se mostrou tão despudorada. E tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que seus líderes políticos proclamam que o Brasil está acima de tudo e eu estou acima de todos. Será mesmo?

Como isso é possível se tudo o que fazem é repetir como um disco quebrado meu nome e o de meu filho Jesus, aceitando, ao mesmo tempo conviver com o mais dramático quadro de desamor ao próximo de que se tem notícia? Como fiz questão de deixar registrado na Bíblia no começo dos séculos, meu nome não pode ser pronunciado em vão. Entendam em definitivo que a salvação nunca vem de fora, que palavras e ações têm de coincidir para que as coisas mudem para melhor.

Compreensivelmente, não posso mais acobertar tanto desatino. Ontem, quando soube que seu ministro da Saúde – aquele mesmo que já foi até comparado a Herodes por precisar de um “número significativo” de mortes de crianças para tomar alguma ação prática de defesa de suas vidas – disse ter se inspirado na minha sagrada família para desenvolver um novo programa de saúde familiar, entendi que não há mais esperança de tudo mudar. A hipocrisia e o cinismo venceram. Mesmo sabendo e repetindo todos os dias que a verdade liberta, seus dirigentes optaram explicitamente pela desfaçatez, pelo perjúrio, pela ignomínia.

Se vocês dizem conhecer minha vontade e ainda acreditam que ela deve prevalecer, saibam que eu já não acredito na sua capacidade de superação do egoísmo, nem em seu amor por mim. Vocês decidiram livremente pelo pior dos caminhos e devem, portanto, percorrê-lo até o fim, sem mim.

Em bom português: Cansei, pra mim já deu. Fui, vazei. Hasta la vista, babies…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O Papa, os filhos e os pets

Papa Francisco

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Causou espécie o recente pronunciamento do papa Francisco de que seria um sinal de egoísmo e perda de humanidade a decisão de “trocar” filhos por pets. Não sei como as palavras do papa ressoaram junto às feministas, aos defensores da causa animal ou aos católicos tradicionalistas, mas admito que esse discurso me atingiu em cheio.

Em primeiro lugar, porque nunca quis ter filhos, embora tenha contemplado muitas vezes a possibilidade de adoção e me dedicado à criação de meus sobrinhos e sobrinhos-netos. Em segundo lugar, porque há 20 anos convivo prazerosamente com cachorros e os considero essenciais para meu bem-estar psicológico. Em terceiro lugar, ainda que não menos importante, porque nunca achei que, na decisão de adotar um pet, estivesse implícita necessariamente a escolha de substituição afetiva, a ideia de não querer lidar com a criação de um filho humano. Por que não as duas coisas ao mesmo tempo?

Confesso que uma fala forte como essa, associando o amor aos animais com menos amor à humanidade me chocou por ter saído da boca justamente de um papa que escolheu o nome de Francisco – o santo protetor dos animais – para enaltecer seu pontificado.

Não pretendo absolutamente crucificar um papa que me encanta desde que assumiu o pontificado. Compreendo que, por ser o líder máximo de uma estrutura patriarcal, hegemônica e conservadoramente misógina, ele precisa moderar suas palavras para não detonar uma crise que poderia ser fatal ao catolicismo, diante da crescente influência do neopentecostalismo.

No entanto, o que me parece central na sua mensagem é que, na tentativa de conciliar visões de mundo antagônicas e não ferir suscetibilidades, Francisco acabou dando uma no cravo e outra na ferradura. Antes de mais nada, não deve ter escapado a ninguém a inoportunidade do ‘timing’ de sua fala: como desejar colocar mais crianças num mundo pandêmico, em que os recursos naturais do planeta se esgotam a olhos vistos e onde o desemprego e a fome campeiam? Mesmo entendendo que ele não poderia escapar de estimular o comando bíblico do “Crescei e multiplicai-vos’, como desconsiderar as diferenças abissais em termos de contexto político, econômico e social de cada país ou continente?

Mas os deslizes conceituais não param por aí. Voluntária ou involuntariamente, Francisco colocou em pé de igualdade conjunturas psicológicas e sociais distintas, mesmo dentro de uma mesma comunidade. Misturou, por exemplo, a opção de não ter filhos biológicos com o tema da responsabilidade social de adoção (que deveria ser contraposta mais propriamente com a crescente valorização das técnicas de fertilização in vitro ou barriga de aluguel, acessíveis apenas aos mais ricos). Me veio à cabeça na hora aquela canção satírica de Eduardo Dussek (“Troque seu Cachorro por uma Criança Pobre”) que fez muito sucesso por aqui nos anos 80.

Talvez por ser um homem idoso, Francisco não conseguiu abarcar em sua exortação as profundas diferenças psíquicas e aspiracionais de homens e mulheres, tratando como se fossem idênticos os desejos e sentimentos vinculados à paternidade e à maternidade, o que evidentemente não são nem nunca foram. Ignorou, consciente ou inconscientemente, as lutas de emancipação femininas e os dilemas éticos enfrentados por muitas mulheres ao entrar para o competitivo universo do trabalho. “Esqueceu-se” de mencionar que os cuidados com a prole sempre foram tratados historicamente como atribuição exclusiva das mulheres. Deixou de abordar os graves transtornos psicossociais derivados do abandono masculino de suas parceiras logo após tê-las engravidado e do decorrente abandono de recém-nascidos por impossibilidade de sustento financeiro.

Talvez ainda mais grave, assumiu que o desenvolvimento de um vínculo de amor entre pais e filhos é algo natural, instintivo e está inscrito mais especificamente na natureza feminina. Há um livro chamado ‘Um Amor Conquistado, o Mito do Amor Materno’, de Elisabeth Badinter, que demonstra de forma exaustiva que essa pretensa devoção amorosa incondicional da mulher a seus rebentos flutua ao sabor das épocas e das culturas. Ela narra como se dava a criação de bebês na Europa dos séculos 17 e 18: as crianças eram normalmente entregues a uma ama e levadas para um depósito na zona rural, onde eram acumuladas sem qualquer cuidado higiênico, e as que sobrevivessem só eram devolvidas às mães após os cinco anos de idade. Sempre me perguntei também como uma mulher estuprada pode vir a amar o fruto de uma violência sexual, como defendem muitos cristãos fundamentalistas antiaborto.

Do ponto de vista psicológico, não sei se há base científica para se afirmar que se “escolhe amar” isto ou aquilo. Há muito pouco de racionalidade na entrega amorosa. Que seja possível eleger objetos preferenciais de amor só faz sentido à luz das necessidades afetivas individuais, valores, carências, traumas infantis, contingências atuais, etc. Mas parece não haver qualquer fundamento científico na crença de que apaixonar-se por A significa desapaixonar-se por B, C ou Z, ou de que um amor substitui todos os demais possíveis.

Já a necessidade de cuidar de outros seres vivos – seja de uma planta, uma baleia ou outra pessoa – me parece uma tendência universal, que não é apanágio do universo feminino, mas abrange também os homens, todas as classes sociais, raças e idades. Excetuando-se, é claro, os casos de psicopatias e sociopatias que abundam entre nós.

Isso tudo posto, preciso concordar com Francisco em alguns aspectos: há realmente pessoas que optam pela convivência com os bichos porque não conseguem superar suas dificuldades de relacionamento com outros humanos. Tenho ainda de dar a mão à palmatória de que a tendência de tratar pets como filhos é um fenômeno recente, uma distorção típica da pós-modernidade líquida de que falava Bauman, e eivado de egocentrismo e futilidade.

Mais do que filhos, acredito que os pets são representações de um ego ideal – isto é, revelam os traços de personalidade valorizados pela pessoa para se destacar socialmente, assim como as pré-condições impostas por ela para a formação de um relacionamento minimamente aceitável com outras criaturas (sujeição incondicional ao seu estilo de vida e valores, além de risco quase zero de virem a ser abandonados um dia).

Falando nisso, o mesmo descompromisso que muitos revelam com filhos humanos pode ser testemunhado com os pets todos os dias nas ruas e praças das cidades: o número de animais abandonados só fez crescer tão logo a pandemia deu os primeiros sinais de recrudescimento.

Pode parecer paradoxal, mas estou convicta de que, ao contrário do que apregoa o papa, a convivência com os bichos nos humaniza ainda mais – ou seja, nos desarma de nossa intelectualidade discriminatória e, dessa forma, destrói o mito da superioridade moral da espécie humana.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lamento, mas…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Leio no dicionário em relação ao significado do emprego de “mas” em uma frase: conjunção coordenativa, que liga orações com as mesmas propriedades sintáticas, introduzindo frase que denota basicamente oposição ou restrição ao que foi dito”.

Desde a icônica frase de Mário Amato, então presidente da FIESP, referindo-se a Dorothea Werneck, então ministra da Indústria e do Comércio, “Ela é inteligente, apesar de ser mulher”, nunca mais tinha atentado para o sentido de correção de rumo do pensamento embutido no emprego de uma simples locução conjuntiva. Só com a ascensão ao trono de Jair Messias Bolsonaro e, em especial, após a eclosão da pandemia de coronavírus, voltei a prestar atenção às intenções ocultas contidas num pronunciamento de autoridade.

Impressionantemente, o presidente da República parece jamais ter-se dado conta da gravidade de seus constantes lapsos linguísticos. Nunca percebeu que seu pretenso compadecimento pelo sofrimento de seu povo ia somente até a página 2 (isto é, o capítulo de apoio à sua reeleição), jamais mostrou ser capaz de colocar um ponto final na frase lamurienta que lhe foi evidentemente impingida por conselheiros e estrategistas políticos. Jamais permitiu que suas alegadas condolências se fizessem acompanhar e se traduzissem num rosto crispado pela dor, num corpo alquebrado pelo peso da responsabilidade ou num gesto fraterno de estender a mão a quem precisasse, anunciando alguma medida urgente de amparo às comunidades mais atingidas.

Precisou sempre colocar um “mas” imediatamente após a expressão de seu suposto lamento, para introduzir uma frase aviltante qualquer que comunicasse o verdadeiro significado de altaneira indiferença contida em suas palavras. Como um moleque que diz de forma inconsequente: “Foi mal, pessoal, mas é o que temos para hoje” ou “Deu ruim, mas e daí?”. Sentiu sempre a compulsão de manifestar oposição ferrenha à lógica científica da quase totalidade das cabeças pensantes no Brasil e no mundo, duvidar da legitimidade dos procedimentos recomendados por tantos órgãos nacionais e internacionais de saúde. Sonhou sempre secretamente ser aclamado como o único chefe de Estado em todo o mundo capaz de apontar outra solução – mais rápida, barata e menos trabalhosa – para equilibrar os desafios econômicos e sanitários, mesmo que para isso tivesse de caminhar sobre uma montanha de cadáveres e se tornasse alvo do ridículo internacional.

Nunca se envergonhou de demonstrar publicamente que não está nem um pouco alinhado emocionalmente com o sofrimento da população carente, dos trabalhadores, dos idosos – e, mais recentemente, com a aflição de pais e mestres em vacinar o mais rápido possível as crianças. Em todas as ocasiões em que foi instado a expressar oficialmente constrangimento diante da ausência de políticas públicas para combater o desemprego e a fome, ele optou por relativizar a importância de tanto infortúnio e se isentar de qualquer forma de responsabilidade. Preferiu colocar a economia à frente da vida de sua gente, contrastar sarcasticamente sua suposta coragem de militar destemido à mariquice da sociedade civil, sugerir hipocritamente que estava impedido de agir por determinação do Judiciário e denunciar a “ditadura” de todos aqueles que adotaram procedimentos de prevenção e isolamento.

Seu insolente “Sou Messias, mas não faço milagres” vai passar para a história universal como a demonstração mais cabal de insensibilidade social e falta de empatia das piores lideranças populistas. Tão criminosamente pervertida quanto o lema nazista de “O trabalho liberta” afixado no portão dos campos de concentração, sua mensagem de Natal revelou-se mais um exercício nauseante de mitomania:

“Estamos finalizando mais um ano. Um ano de muitas dificuldades. Contudo, não nos faltaram seriedade, dedicação e espírito fraterno no planejamento e na construção de políticas públicas em prol de todas as famílias”.

Ao criar o conceito de atos falhos, o sábio judeu Sigmund Freud destacou que eles representam uma solução de compromisso entre o impulso individual desviante e as normas sociais, trazendo à tona “sem querer” um desejo inconsciente que havia sido reprimido – ou seja, ilustrando sempre um ‘sem querer, querendo’. Campeão mundial de atos falhos e medalhista olímpico de ouro na categoria arremesso de responsabilidade à distância, com mais essa demonstração de alienação da dramática realidade brasileira, Bolsonaro deixou escapar pela enésima vez que seu eternamente repetido amor à pátria, a Deus, à família e à liberdade serve apenas ao propósito de reafirmar seu compromisso com a mentira, a desfaçatez, o ilusionismo e o autoelogio.

A nós, cidadãos conscientes, só resta retrucar em uníssono ao excelso mandatário nas próximas eleições: “Lamento, capitão, mas desta vez vou de comunista de novo”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A pressa é inimiga da perfeição?

Myrthes Suplicy Vieira (*)


A pressa é inimiga da perfeição?


Depende. Se você for um burocrata distraído e, principalmente se trabalha com números, é muito provável que a pressa seja mesmo inimiga da perfeição. Com quase toda certeza, se você for um neurocirurgião de ponta operando um AVC hemorrágico posicionado numa região cerebral muito delicada ou inacessível, sua necessária atenção aos mínimos detalhes pode também ser comprometida pela sensação de urgência. Por outro lado, se você for um socorrista do SAMU atendendo a um acidente de trânsito grave com muitas vítimas, piloto de helicóptero da PM, motorista de ambulância ou bombeiro atendendo a um incêndio em um asilo de idosos ou na UTI neonatal de um grande hospital, a pressa pode muito bem ser entendida como um estímulo à perfeição.

O desafio é sempre, em todos os casos, equilibrar a entrega do trabalho dentro do menor prazo possível e com o maior padrão de excelência/qualidade disponível. A isso se dá o nome de competência e, para atingi-la, é preciso contar com uma equipe multidisciplinar altamente capacitada para acompanhar cada etapa do processo e comunicar rapidamente aos demais envolvidos a necessidade de providências extraordinárias.

Doutor Queiroga não entendeu bem, no início, onde o presidente queria chegar ao pedir que ele impedisse – ou, em caso de insucesso por falta de argumentos técnico-científicos convincentes, que atrasasse ao máximo – a vacinação infantil. Mas anuiu mesmo assim. Depois que lhe explicaram que seu chefe ainda oferecia muita resistência ao projeto e estava inseguro quanto à ocorrência de eventuais efeitos colaterais graves nesse público que poderiam cair nas suas costas, ele finalmente vislumbrou uma solução: discutir o tema com todos os órgãos intermediários de controle e com a sociedade civil organizada, antes da tomada final de posição do Ministério da Saúde. Não contava, porém, com a agilidade dos técnicos da Anvisa para aprovar por unanimidade a vacinação para esse segmento etário e o beneplácito de um sem-número de associações de pediatria, imunologia e infectologia.

No afã de mostrar serviço e agradar à chefia, sem comprometer sua permanência no cargo, ele no entanto acabou trocando as bolas: entendeu que sua missão era a de entregar a pior qualidade possível (no sentido da urgência do pedido de compra de novas doses e da logística de distribuição aos estados) dentro do prazo mais dilatado autorizado pelo STF. E foi isso o que ele fez, com total denodo. Contrariando todas as expectativas até mesmo de pais e mestres, ele imaginou ter feito um pronunciamento médico respeitável, durante o qual tentou disfarçar seu servilismo acrítico e sua incompetência atrás da alegação cor-de-rosa de que está comprometido com a segurança dos pequeninos brasileiros. Seria comovente se não fosse pela inevitável comparação com o desempenho tétrico de seu antecessor.

Um antigo colega consultor de empresas desenvolveu um conceito revolucionário para explicar às chefias as causas de frequentes erros em áreas sensíveis da organização capitaneadas por um gestor imaturo, autoritário ou inexperiente, que me encanta desde sempre: o da Síndrome da Anuência Precoce. Sabe aquele garoto assustado, acostumado a ser maltratado por um pai arrogante, perfeccionista e ditatorial, que não consegue ouvir até o fim a mais nova exigência de cumprimento de uma tarefa que lhe é apresentada aos berros? Então, dada sua enorme ansiedade e medo de falhar, a criança não consegue interromper a fala do pai para pedir esclarecimentos adicionais, contra-argumentar com dados realísticos ou tentar negociar um prazo mais elástico. Atira-se de cabeça na tarefa e, afundado na angústia da provável surra que vai levar se não obedecer aos conformes do combinado, não se organiza, atropela as fases do processo, ignora a necessidade de revisão da eficácia dos procedimentos adotados em cada passo e descuida do acabamento, terminando por falhar miseravelmente outra vez. À culpa vem se somar a crença de que é burro, desajeitado e não talhado para se destacar no mundo profissional. Pronto, está criado mais um jovem neurótico, especializado na arte de responsabilizar as contingências de sua vida, botar a culpa em terceiros e se alienar de toda e qualquer iniciativa no futuro.

Mesmo um observador não-treinado pode afirmar com toda a segurança que o fenômeno atinge pesadamente todos os integrantes do ministério bolsonarista. Da educação e cultura (inserida curiosamente, para vergonha nossa diante dos espantados olhares de estrangeiros, na estrutura do ministério do turismo), passando pelo Itamaraty e pelas Forças Armadas, até os criativos ministérios da economia e do meio-ambiente (que não se cansam de apresentar em fóruns internacionais um Brasil que desconhecemos integralmente), não há um só dia em que não sejamos convidados a interpretar as estatísticas nacionais sob o prisma de Alice no País das Maravilhas, elaboradas por orgulhosos portadores crônicos da Síndrome de Anuência Precoce.

Mas não se preocupe, prezado concidadão. Tudo isso deve acabar em breve. Deve ser apenas um efeito colateral indesejado da prevalência de militares em cargos civis de grande especialização técnica. E, para um militar, contrariar a voz de comando é uma insensatez inaceitável. Quem diria que um ex-capitão reformado por indisciplina agregaria tanto poder e influência para fazer calar generais e humilhar em público os mais prestigiados cientistas e instituições nacionais?

Que falta faz um estadista! Cuidado redobrado com quem você vai eleger no ano que vem.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Golpe 2: A opção pelo engano

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha “filha” voltou a ligar ontem à noite, pedindo ajuda, depois de tanto tempo. Já tinham se passado vários meses desde sua última investida malsucedida e eu apostava que ela havia aprendido uma lição definitiva: nunca subestime a inteligência da pessoa a quem você pretende enganar, principalmente se ela for bem mais vivida do que você.

Para quem não acompanhou minha desdita quando da primeira tentativa de golpe, relembro: mesmo tendo adivinhado desde o primeiro minuto que se tratava de uma tentativa de extorsão, quando ouvi o apelo choroso de ajuda, algo se mexeu dentro de mim e senti pela primeira vez a necessidade de oferecer escuta terapêutica a uma golpista. Aquela jovem me soava tão convincentemente desorientada que me deixei sensibilizar e optei por permanecer em silêncio, sem recorrer a um discurso moralista igualmente batido, ao longo de todo o telefonema. Funcionou, é verdade, ela desligou sem saber como prosseguir, mas me deixou pensativa quanto ao meu papel na sociedade para proporcionar uma efetiva orientação psicológica aos jovens neste nosso desatinado mundo líquido contemporâneo.

Desta vez, mal ouviu meu alô, ela já emendou aos prantos: “Mãe, me ajuda!”. Respirei fundo e perguntei, como quem não se dá conta do que está acontecendo: “Quem está falando?”. Ela repetiu sem pudor a velha cantilena: “Sou eu, mãe, me ajuda por favor!”. Num ímpeto, misto de surpresa pela ousadia da moça em repetir um golpe tão manjado e de tristeza por a quadrilha ser tão desorganizada, a ponto de não riscar o número dos telefones que “deram ruim”, respondi: “De novo, minha filha???”

Ela desligou instantaneamente. Voltei aos meus afazeres, satisfeita por ter interrompido já no nascedouro mais uma tentativa burra de chantagem, mas de novo não pude deixar de mergulhar em pensamentos sombrios a respeito das dificuldades de maternagem num mundo pandêmico. Meu cérebro voltou a se questionar sem parar: O que leva uma pessoa a optar por ganhar a vida aplicando golpes? Mãe (ou pais) afetivamente ausente na vida real, falta de escola, de um guru espiritual ou de aconselhamento psicológico? Baixa autoestima ou inaceitável falha de caráter? Preguiça mental ou prazer psicopático com o sofrimento alheio? Que homens presos, já sem qualquer esperança de reinserção produtiva na sociedade, recorram a esse expediente talvez seja mais fácil de compreender, mas uma mulher aceitar utilizar seu talento dramático para denunciar e/ou se aproveitar da desigualdade de oportunidades?

Perto dos escândalos políticos que nos acabrunham todos os dias, refleti, isso não é nada. Que direito tenho eu de julgar o ânimo trambiqueiro de mulheres que nem conheço? Que sei eu da vida que essa moça leva? Se ela fosse presa, não seria dispensada de punição pelo juiz sob a alegação de furto famélico? Que tipo de sermão moralizante poderia eu articular se a falta de consciência ética e a insensibilidade social campeiam sem controle entre nós e vêm de cima? Que sei eu de tão fundamental sobre a maternidade (que nunca quis experimentar) para orientar e pretender compensar o desencanto com a vida no coração dessa moça? Aos poucos, o cansaço intelectual bateu e a programação rame-rame da tevê de sábado à noite conseguiu sobrepujar minhas apreensões. Distraí-me e esqueci o assunto.

Por volta da meia noite, o telefone toca de novo. Dessa vez, meu coração pulou no peito, angustiado. Quem será que me liga a essa hora? Só pode ter acontecido algo de ruim com alguém da minha família. Saio correndo para atender. Lá vem de novo a vozinha pretensamente desesperada da minha hipotética filha: “Mãe, preciso da sua ajuda mesmo, mãe… Teve um assalto de novo na minha casa…”

De início, fiquei agradavelmente surpresa por ela ter acrescentado um elemento novo à entediante trama. Dessa vez ela alegava não haver sido pega de surpresa na rua, os marginais que a atacaram haviam invadido sua casa. Que bom, pensei, ela deve ter ouvido meu conselho silencioso de inaugurar uma nova franquia de bandidagem. Mas o entusiasmo durou pouco. Ela mais uma vez não soube como prosseguir diante do meu silêncio. O rancor começou a crescer no meu peito.

O que me incomodava nem era tanto o susto naquela hora incômoda. Era a falta de inteligência e de sagacidade da moça. Para sobreviver na malandragem, pensava eu pela enésima vez, é preciso ter flexibilidade e agilidade mental, prever e se adiantar a uma eventual reação inusitada da vítima, deixar no ar outras deixas que reforcem a credibilidade quanto ao próprio desamparo. E a pessoa que me abordava pela segunda vez no mesmo dia demonstrava não ter avançado um milímetro sequer na direção por mim pretendida. Irritada, usei da voz mais doce que consegui arranjar e disse: “Lamento, filha…Faz o seguinte, meu amor. Da próxima vez que você me ligar, tente inventar novos argumentos. Que falta de criatividade, meu bem! Você não está honrando a tradição da família! Entenda, pela última vez, que eu não tenho filhas….”

Foi o que bastou. Mais uma vez, ela bateu o telefone na minha cara, assustada. Posso apostar que mais alguns meses vão se passar antes que ela ligue de novo. E, se Deus quiser, minha pressuposta herdeira vai então saber fazer jus ao perfil de feminilidade intelectualmente sedutora que eu sempre cultuei. Espero que ela me surpreenda com um discurso parecido com: “Minha senhora, desculpe estar ligando a essa hora. Isto não é um golpe, estou realmente precisando de ajuda. Liguei para a senhora antes de falar com a polícia porque uma amiga comum me garantiu que eu poderia contar com seu bom senso e expertise profissional…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Libertas quæ sera tamen

A Roda da Fortuna
décimo arcano maior do Tarô de Marselha

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Na crítica apressada à fala de Bolsonaro, ecoada por Marcelo Queiroga, alguns raciocínios importantes se perderam.

Vale mesmo arriscar perder a vida em nome da liberdade? Depende. Depende de qual liberdade estamos falando: da liberdade individual ou da coletiva? Dos direitos assegurados pela Constituição, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos – que, aliás, está comemorando seu 73º aniversário –, ou dos deveres de todo cidadão para com sua coletividade? Na lógica ilógica presidencial, tudo leva a crer que ele mais uma vez se coloca ao lado do direito autoarrogado de se afirmar agressivamente como um conjunto de crenças pessoais mais ou menos defensáveis, mesmo que no processo seja necessário transgredir as normas e os valores civilizatórios que devem reger as sociedades democráticas.

É do conhecimento de todos que o governo Bolsonaro tem se oposto sistematicamente a todo tipo de liberdade democrática: a liberdade de imprensa, a liberdade de cátedra, a liberdade de culto religioso e a liberdade de orientação ideológica. Ao mesmo tempo, reafirma de todas as maneiras possíveis a liberdade típica do adolescente rebelde: a de não fazer nada que não se queira fazer espontaneamente, de lutar contra toda forma de imposição de autoridade externa. Direito de sair à noite com os amigos e de encher a cara, sim; obrigação de arrumar o quarto e tratar os irmãos e pais com respeito e cortesia, não.

Pescar em área de proteção ambiental; dispensar o uso de cadeirinha para transporte de crianças pequenas; tornar mais elástica a tolerância com infrações de trânsito para motoristas profissionais; armar a população civil para compensar a ineficácia da segurança pública; defender o direito de agentes policiais reagirem com violência em situações de medo ou surpresa; ameaçar fechar os dois outros Poderes da República com a força das armas; autorizar o garimpo em terras indígenas e impedir a demarcação de novas terras; acusar sem provas ONGs, fiscais e cientistas de agirem com base em interesses escusos contrários aos interesses da pátria; dar-se ao direito de difundir teses as mais estapafúrdias nas redes sociais a partir de meras convicções – mesmo que contrariem a ciência, a harmonia social, a dignidade humana. Tem lei que regulamenta isso daí? Sou contra! Não tô nem aí pro que dizem os especialistas. Sou o presidente e não abro mão da minha autoridade, porra!

Na mentalidade tortuosa de nosso mandatário-mor, não há – nem deve haver legalmente –oposição entre liberdade individual e interesse coletivo. E só duas formas de liberdade individual merecem dele respeito incondicional: a liberdade de opinião/autoexpressão (a dele e a de seus apaniguados, é claro) e a liberdade de ir e vir. Se e quando elas forem contraditadas por outras autoridades, a denúncia indignada é sempre a mesma: os outros estão agindo como ditadores.

À luz de tantos outros atos falhos que caracterizam a vida psíquica do capitão, não custa perguntar: como ele pode se opor à ditadura se a defende abertamente como solução governamental em outras circunstâncias? Como pode exigir que a sociedade brasileira esconjure toda forma de ditadura de esquerda e aceite bovinamente a de direita? Para se eximir desse paradoxo, só mesmo admitindo que ele acredita que tudo o que vem de dentro é bom, sensato, expressão da verdade que liberta e não pode ser contestado; já tudo o que vem de fora é mau, violentador de consciências e precisa ser combatido.

Não é preciso ser estudado em direito, sociologia ou psicologia para saber que a vida em sociedade implica necessariamente na imposição de limite às liberdades individuais. Se você mora em condomínio e decide arrastar até altas horas sua festinha particular, com música que ultrapassa o número de decibéis permitido por lei, precisa estar pronto para receber a visita da polícia e a contratação de um advogado que justifique seu direito de fazer o que lhe aprouver dentro do seu apartamento. Se você decide sair à rua nu sob o pretexto de que quer combater a hipocrisia social, deve estar preparado para lidar com a repercussão negativa no seu emprego e no seu círculo familiar, religioso e social. A liberdade de matar, roubar ou discriminar também não está coberta por nenhuma legislação no mundo todo.

Nos vemos agora na iminência de tomar partido no debate sobre o direito de infectar, disfarçado sob a oposição entre vida e liberdade. É bem verdade que quando se deseja mais segurança é preciso abrir mão de um pouco de liberdade e, inversamente, quando se deseja mais liberdade inevitavelmente temos de nos dispor a desprezar um pouco de nossa segurança pessoal. Mas colocar outras vidas em risco, além da própria, é mesmo uma liberdade de consciência assegurada pela Constituição? É sempre possível acreditar que vacinas são menos eficazes para criar anticorpos do que a própria contaminação, mas será que é possível acreditar que todos os organismos reagem da mesma forma a patógenos externos? Não é o que a ciência diz.

Por causa da globalização, muitos valores regionais e nacionais acabaram sendo relativizados e, aos poucos, foi se perdendo na esteira a noção de bem comum. Agora tudo depende do grupo ao qual se acredita pertencer. Se Deus está morto, tudo é permitido. Se você acredita que vida e liberdade são mutuamente excludentes, também.

Antonio Abujamra tinha uma frase emblemática para orientar seu filho quanto ao pretenso direito de autoexperimentação libertária que ele reivindicava: “A vida é sua, estrague-a como quiser”. Esse é o conselho que dou hoje a todos os apoiadores do bolsonarismo. Mas atenção: lembre-se que outras pessoas e grupos podem adotar a qualquer momento a mesma linha de raciocínio. Quando a Roda da Fortuna girar novamente, é mais que provável que você seja apontado nas ruas como um elemento nocivo ao bem-estar da sua coletividade. E daí…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Baú de memórias ‒ 7

Soldado alemão
by Alfred-Georges Hoën (1869-1954), artista francês

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem os psicanalistas que a especialidade da histérica é colocar-se repetidas vezes e voluntariamente dentro da boca do leão. Por temerem a exposição a situações que poderiam lhes causar perda do autocontrole, os histéricos inconscientemente – e paradoxalmente – manobram suas experiências de vida para cair de cabeça, sem paraquedas, justamente nas situações que mais temem.

Ao longo dos meus muitos anos de terapia, minha psicoterapeuta por diversas vezes me questionou: “Qual é sua cena temida?”. Eu nunca sabia responder com clareza. Falava vagamente do meu medo da nudez pública, dos “brancos de memória” em uma prova, do desconforto de falar em público e, especialmente, do pavor de que outras pessoas descobrissem um dia que eu não passava de uma fraude – ou seja, uma pessoa sem uma base sólida de conhecimento para se apresentar como autoridade ou especialista de qualquer área. Mas quase nunca meus temores encontravam alívio revivendo simbolicamente cenas como essas.

O primeiro livro “adulto” que li, lá por volta dos 12 anos, foi O Diário de Anne Frank. Mal consigo descrever em palavras o impacto que ele me causou. A Segunda Guerra estava a apenas uma década de distância, o nazismo havia deixado marcas profundas de culpa no subconsciente coletivo, minha melhor amiga de infância vinha de uma família de judeus poloneses que haviam sido forçados a emigrar para escapar da sanha destruidora das forças da SS e continuavam a viver escondidos, assombrados com a possibilidade de serem denunciados e repatriados.

Além da empatia que desenvolvi para com o sofrimento dessa família e minha posterior identificação com muitos dos traços da cultura judaica, pairava no ar em nossa própria casa a suspeita de que o sobrenome Suplicy fosse de origem judaica (o que mais tarde foi confirmado através de uma pesquisa do lado materno de nossa árvore genealógica). Tudo isso contribuiu, é claro, para que eu sentisse desde muito cedo uma profunda aversão por movimentos totalitários, de supremacia racial.

Já adulta e trabalhando para uma empresa de pesquisa de mercado e opinião pública, fui convidada para ser a representante brasileira em um seminário internacional sobre técnicas projetivas [minha especialização] em pesquisa qualitativa, que aconteceria em Paris. Entusiasmada, decidi juntar a participação no workshop com minhas férias, para aproveitar ao máximo a estada no continente europeu. Durante o seminário, todas as noites os participantes saíam em grupos para confraternizar, jantar e se divertir. Nessas ocasiões, travei contato mais próximo com um colega austríaco que me intrigava por ser uma pessoa muito comedida e reservada, embora demonstrasse ser dono de uma mente brilhante, de uma curiosidade inesgotável e estivesse sempre pronto a debater com empolgação seus trabalhos na área.

Por outro lado, ele parecia nunca se sentir à vontade para se referir à sua vida particular. Trancava-se em copas sempre que o assunto derivava para hábitos e interesses pessoais, formas preferidas de lazer e entretenimento ou detalhes sobre a vida familiar. Algo me dizia que não era questão de timidez nem a circunspecção esperada de um psicólogo clínico. Eu preferia apostar que se tratava de um traço comportamental característico da formalidade saxônica ou derivado de sua faixa etária, mais alta do que a nossa. Seja como for, aos poucos fomos desenvolvendo uma relação mais calorosa e, tão logo soube que eu visitaria outros países na sequência, ele insistiu em me convidar para sua casa quando eu chegasse a Viena.

Meu primeiro ponto de parada na Áustria foi a encantadora Salzburg. Mesmerizada com a beleza das paisagens de montanha e com a singeleza do casario urbano, a imponência dos castelos e igrejas e, em especial, com a história de vida de Mozart, eu me sentia vivendo um conto de fadas ou fazendo parte do elenco do filme A Noviça Rebelde. Deixei a cidade a contragosto e, ainda embalada pelas delícias da cultura musical e gastronômica austríaca, cheguei a Viena num dia de forte nevasca. O taxi que me levou até o hotel mal conseguia circular em linha reta e derrapou infinitas vezes, quase batendo em outros carros estacionados ao tentar se desviar das grossas camadas de neve suja que se acumulava nas ruas. O frio era terrível e o aquecimento do meu quarto estava com problemas.

Desapontada e irritada com tanto desconforto, resolvi ligar para meu colega, antecipando uma noite de animadas conversas, muita cerveja e comidas apetitosas. Ele se prontificou de imediato a me pegar no hotel e me levar até sua casa. Quando lá chegamos, sua esposa me recebeu nitidamente constrangida, já que não falava inglês e eu não falava alemão. Tentávamos nos entender com sorrisos e gestos, mas tudo o que posso dizer é que o clima geral de retraimento combinava em cheio com aquele apartamento escuro e apertado. Sem graça, eu explorava com o canto dos olhos o local para tentar descobrir mais pistas sobre as razões da sisudez do dono.

Ao examinar uma mesinha lateral repleta de fotos de família, vi horrorizada o retrato esmaecido de um senhor vestido com o uniforme de oficial nazista. Embora não fosse uma imagem de glorificação da suástica nem trouxesse o braço estendido em saudação ao Führer, congelei de imediato. Um quase-pânico tomou conta de mim ao perceber que eu havia me colocado inadvertidamente dentro do covil de inimigos ideológicos. Devo ter ficado muito pálida porque meu anfitrião logo se deu conta do meu desconforto. Com uma voz cansada e triste, ele disse simplesmente: “É meu avô…”. Sem saber como prosseguir com a conversa, optei por não fazer mais perguntas e me calei. Mesmo assim, ele prosseguiu numa espécie de desabafo, me passando alguns detalhes de sua vida na infância e adolescência. Contou como havia sido alvo de bullying na escola por ser neto de uma figura tão odiada, a dificuldade de relacionamento com as meninas da mesma idade, o retraimento da família diante de vizinhos e como esse isolamento compulsório havia sido decisivo para ele escolher a psicologia como profissão.

Quando me acalmei, entendi que não estava diante de um apoiador entusiasmado do regime nazista, mas que, ao contrário, ele havia dedicado sua vida a tentar compreender as motivações psíquicas que haviam levado seu avô a aderir à ideologia supremacista. De qualquer forma, meu constrangimento persistia. Quando a conversa se esvaiu, saímos para jantar em uma famosa cervejaria na periferia da cidade. Meu anfitrião nitidamente se esforçava em trazer alguma leveza e descontração para nossas conversas, mas logo o clima mudou de novo. Quase engasguei com a comida quando mais uma vez ele sem querer fez referência ao nazismo, me contando que aquele local era frequentado habitualmente pela alta cúpula da SS.

Tudo acabou se juntando na minha cabeça para determinar um dos piores fins de noite da minha vida: o frio congelante, a dificuldade de locomoção, a dificuldade de comunicação, a falta de ar naquele apartamento sombrio, as histórias igualmente sufocantes da família, a falsa descontração à mesa e a quebra de expectativa com a cidade de Viena, praticamente uma antípoda da alegria ingênua de Salzburg. No dia seguinte logo cedo, arrumei minhas malas e fui embora com a sensação de página virada na minha angústia existencial. Nunca mais soube daquele homem de olhar perdido, sobrecarregado com tantas memórias tristes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.