Baú de memórias ‒ 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Mais uma experiência inacreditável que resgatei sem querer bem lá no fundo do meu baú de memórias. Como o último tema que abordei foi o do marketing, a lembrança veio por associação. Sei que pode parecer ficção, mas meus mais de 20 anos trabalhando como pesquisadora de mercado e de opinião pública estão repletos de fatos inusitados como o que vou relatar.

Eu estava envolvida na época com um levantamento qualitativo dos hábitos de consumo de uma marca de preservativo masculino. O fabricante desejava saber para que tipo de práticas sexuais ele era mais utilizado por cada segmento de público e qual o grau de satisfação dos usuários com o desempenho do produto em práticas não-convencionais.

Como o tema era para lá de delicado, optamos por realizar entrevistas em profundidade diretamente na residência dos respondentes ou em outro local em que eles se sentissem à vontade. Como também era difícil recrutar interessados em expor sua vida íntima para desconhecidos, decidimos trabalhar com base em indicações – ou seja, uma pessoa já entrevistada indicava amigos ou conhecidos que igualmente se dispusessem a falar sobre suas práticas e fantasias sexuais.

O público-alvo era extenso: casais heterossexuais tradicionais com e sem filhos, casais homoafetivos, profissionais do sexo, homens e mulheres, solteiros e divorciados, jovens e idosos. Não dá para resumir em poucas linhas as descobertas que fizemos em cada um desses segmentos. Só posso dizer que eu e meus colegas pesquisadores passamos por um bom período de muitas risadas e espantos.

Uma de minhas entrevistadas era uma mulher casada, fissurada em sexo anal. Como o marido se opunha intransigentemente à prática, ela viu-se forçada a “adotar” um amante mais jovem e mais liberal e com ele se encontrava regularmente. O caso nos interessava bastante, já que o preservativo tinha para ela dupla finalidade: evitar uma gravidez indesejada nas relações com o marido e proteger-se de doenças venéreas que evidenciassem uma possível traição. Além disso, para cada parceiro, os requisitos quanto ao desempenho do produto eram bastante distintos.

A entrevista foi longa e animada. Muito simpática e descolada, ela não opôs nenhuma resistência às perguntas mais invasivas e nem mesmo ao fato de a entrevista ser gravada. Quando terminou, agradeci a gentil acolhida e fiz questão de reassegurar-lhe que as informações cedidas jamais seriam divulgadas sem estrita permissão dela.

Cerca de um mês depois da entrevista, já envolvida com outros temas de pesquisa e sem me lembrar da conversa que com ela tinha tido, fui convidada para o casamento da filha de uma amiga de longa data. A igreja era pequena e estava lotada. Após a cerimônia, entrei na fila dos cumprimentos aos noivos. Minha amiga estava postada ao lado do casal, ajudando-os a recepcionar os convivas. Estrangeira e muito divertida, ela se preocupava em demonstrar intimidade com as regras de descontração dos brasileiros mesmo em eventos formais.

Quando chegou minha vez, ela me abraçou, comentou entusiasmada alguns detalhes da cerimônia e me pegou pelo braço, dizendo: “Vem comigo, quero lhe apresentar uma pessoa”. Acompanhei-a até um salão lateral da igreja, onde eram servidos champanhe e bolo. Várias pessoas conversavam animadamente de pé, numa rodinha. Minha amiga invadiu a roda me arrastando atrás e toda orgulhosa me apresentou a um casal: “Quero que você conheça fulana, minha melhor amiga desde que cheguei ao Brasil, e o marido dela”.

Quando ergui os olhos, não pude acreditar no que estava prestes a acontecer. Diante de mim, pálida e rígida como um cadáver, lá estava a mulher que eu havia entrevistado um mês antes. Tive apenas alguns segundos para me perguntar qual seria a melhor forma de evitar um constrangimento fatal para todos os circunstantes.

Paradoxalmente, foi o olhar de estarrecimento que ela me lançou que providenciou a pista de que eu precisava. A mensagem era clara: era preciso que eu comunicasse corporalmente, em absoluto silêncio, que ela não corria risco nenhum de ser desmascarada.

Num segundo, fez-se luz dentro de mim. Adotei uma cara de estudada paisagem, estendi a mão profissionalmente, esbocei um sorriso e disse com toda a serenidade que me foi possível: “Muito prazer!”

Pude acompanhar com os olhos cada um de seus músculos se distendendo e a respiração voltando ao normal. As cores logo voltaram a seu rosto e seu olhar agora era de gratidão. Ela sorriu de volta e se encarregou de me apresentar ao marido.

Deixei passar alguns segundos e escapuli à francesa, por uma porta lateral, dando graças mentalmente por ninguém ter se apercebido da saia justa. Nunca mais a vi, mas tenho a certeza de que, se eu precisar um dia de alguém que testemunhe a favor do meu profissionalismo ou da confiabilidade dos pesquisadores em geral, ela será a pessoa certa.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Marketing burro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que uma pessoa satisfeita com o desempenho de um produto/serviço, marca ou fabricante conta para outras três os motivos de sua satisfação. A propaganda boca a boca acaba sendo uma das formas mais vitais de marketing para seu gestor já que, além de potencializar a atração do artigo sobre quem ainda não o experimentou, tem custo zero. Por seu lado, uma pessoa insatisfeita tende a pesar a mão ao explicar para outras dez as razões de sua decepção. Com essa simples atitude, a marca pode sofrer significativo abalo de imagem antes mesmo que outros potenciais usuários tenham acesso a ela. E, mais grave, para recuperar credibilidade, o gestor precisará encarar pesadíssimos investimentos em propaganda formal.

A função do marketing é a de despertar o desejo, não a de impor o consumo. Em alguns casos, como quando se pretende introduzir no mercado um produto, categoria, marca ou fabricante, ele pode se permitir ir um pouco mais longe, abordando de forma mais agressiva o potencial consumidor, no esforço de criar patamares de desejo. Só não pode, em nenhum caso, substituir-se à consciência crítica do público que pretende atingir.

Todo produto tem o que os especialistas chamam de “benefício único”, ou seja, um atributo que o diferencia de todos os demais da categoria. Pode ser alguma característica físico-química como cor, sabor, textura, tamanho, design. Pode ser um traço de distinção social associado à imagem de marca, algum critério de especialização técnica, seu preço ou até seu caráter de inovação revolucionária. Descobrir qual é esse benefício singular é tarefa da pesquisa de mercado.

Embora poucos saibam, os resultados da pesquisa nem sempre são seguidos ao pé da letra pelo fabricante. Por razões estratégicas, ele pode querer posicionar o produto em segmentos distintos dos que a pesquisa identificou. É movimento corporativo legítimo, ainda que comporte alguns riscos.

O que todo marqueteiro que se preza sabe é que, como diz o ditado, você pode levar um cavalo até à água, mas não pode forçá-lo a beber. É preciso detectar exatamente qual é o perfil mais provável de consumidor que se deixará sensibilizar pela promessa mercadológica e ir ampliando aos poucos a identificação e a mobilização para a compra.

Os problemas começam a aparecer quando o marketing avança sobre a privacidade do público, ignora a necessidade de identificar o segmento a ser abordado prioritariamente e acredita ser mais vantajoso repetir ad nauseam a mensagem publicitária para atrair o maior número possível de interessados. São as chamadas estratégias “de baciada”.

Primeiro foi a assim chamada mala direta. Para os mais jovens, que podem nem desconfiar o que isso significa, explico. Tratava-se de um simulacro de carta pessoal, impressa com uma fonte que mimetizava a escrita humana. Ficou tristemente famosa por numerosas gafes. Como era enviada aleatoriamente a um público extenso, podia acontecer de, por exemplo, um vegetariano receber um informe publicitário convidando-o a saber mais sobre os melhores cortes de carne bovina. Ou algo ainda pior, traumatizante mesmo para o infeliz destinatário, como a divulgação de brinquedos eróticos para um religioso.

Depois foi a vez das impertinentes chamadas de telemarketing. Todos devem se lembrar dos folclóricos atendentes de call center, que se esmeravam no uso de gerúndios. Não demorou para as reclamações aos órgãos de defesa dos direitos do consumidor se acumularem. Pressionada, a agência estatal de telecomunicações decidiu implantar um serviço gratuito de bloqueio de telefones para barrar ligações de telemarketing.

Àquela altura, ninguém poderia imaginar que sentiríamos saudades daquele tempo. Impedidos de dar continuidade à sanha de sedução grosseira, sob pena de multas pesadas, os marqueteiros de plantão criaram logo uma estratégia ainda mais perversa. As chamadas de telemarketing passaram a ser pré-gravadas, A mensagem publicitária acaba sendo acionada automaticamente ao se atender o telefone. Para tornar a coisa um pouco pior, se é que isso é possível, muitos famosos se renderam à inglória causa de emprestar sua credibilidade pessoal para reforçar o apelo do produto/marca. Tragédia anunciada: a grande maioria naufragou num oceano de indiferença e irritação.

A coisa não parou por aí, infelizmente. A estupidez humana não conhece limites, como Einstein nos ensinou. Logo o raio de ação dessa forma rasteira de marketing se estendeu para os meios eletrônicos. Hoje em dia não é nada incomum tropeçar em propagandas, aninhadas em sites e portais de notícias, que são acionadas involuntariamente ao se rolar a página para baixo.

Afinal, você pode estar se perguntando, essa forma invasiva de marketing funciona? A resposta é: se tudo o que o fabricante deseja é auferir lucro imediato, sim. Claro que a repetição da informação tem lá suas vantagens. O nome do produto/marca gruda como chiclete na mente do consumidor e, caso ele se veja envolvido num processo de escolha, num mercado do qual pouco sabe, a assinatura da marca pode ser decisiva para a tomada de decisão. A longo prazo, porém, essa forma preguiçosa e burra de marketing genérico destrói todas as chances de o fabricante vir a se afirmar como detentor de uma imagem de qualidade, seriedade e responsabilidade social.

Nada que diga respeito ao humano é definitivo, no entanto. Mesmo a contragosto, sou forçada a admitir: há quem goste de ser tratado como massa ou gado. Sei que a noção de direito à privacidade caiu em desuso há já algumas décadas. Quanto mais barulho e holofotes forem gerados pela comunicação mercadológica, maior o desejo das novas gerações de fazerem parte do “seleto” público-alvo.

O tempora, o mores…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O culpado de hoje ser fim de ano

Martín Antonio Caparrós (*)

Chamava-se, parece, Luigi Lillio e nasceu, se nasceu, em 1510 num pequeno porto calabrês que na época era Psycròn e agora se chama Cirò, situado exatamente na sola da bota. Mas não há registro de seu nascimento: naqueles tempos ninguém anotava essas coisas.

Supõe-se que pelos 20 anos foi-se embora para Nápoles estudar medicina; supõe-se que tenha conseguido. Supõe-se que daí se abalou para Roma, mas ninguém sabe o que foi fazer lá. E dali, sempre supostamente, foi a Perugia, onde parece que ensinou medicina. Talvez tenha tido algum filho, talvez uma mulher, um homem, um cão fiel. Quem sabe. Quiçá se entristecia com a chuva, quiçá comia carne de porco na Quaresma, quiçá detestava os exageros de Dante Alighieri. Quiçá imaginava que o futuro lhe pertencesse. Supõe-se que em 1574 já estava morto, mas nem sobre isso se tem certeza.

Sua vida se dissolveu no ar como tantas, como a enorme maioria. Algum dia inda hei de calcular quantos, dos 100 bilhões de homens e mulheres que já viveram, deixaram alguma lembrança. De nosso personagem, apesar de tudo, alguma coisa sobrou.

Pra começar, há duas menções. Há a carta que o conterrâneo Giano Teseo Casopero lhe mandou dia 28 de janeiro de 1532 pra contar-lhe que em Nápoles não havia perdido tempo e se tinha concentrado nos estudos: «Tenta descobrir sempre algo novo, de maneira que, com a bênção de Mercúrio, possas ser teu próprio patrão e vender tua arte a bom preço». E havia a carta que um certo cardeal Cervini escreveu dia 25 de setembro de 1552 a um colega em Perugia pedindo que conseguisse um aumento para «messer Aluigi Gigli».

Fora isso, não sabemos nada: se era alto e loiro ou atarracado e dispéptico, se vivia apressado, se gostava de vinho. No entanto, hoje vamos beber como cossacos por culpa dele.

Porque o tempo, naqueles dias, era caótico. O mundo ocidental e cristão se esforçava por usar um calendário que já carregava 1500 anos de problemas. Tinha sido imposto por Júlio César no ano 45 aC, uma façanha e tanto. O problema é que seu desajuste com relação ao ciclo solar fazia que o equinócio de primavera já estivesse caindo em 10 de março e continuasse regredindo em direção a janeiro. O tempo dos homens não combinava com o tempo do céu.

A Igreja de Roma sentia o baque: os dias se lhe escapavam das mãos sem que conseguisse fixar corretamente a data das festas religiosas. O Vaticano precisava, entre outras coisas, voltar à tradição de celebrar a Páscoa no primeiro domingo depois da Lua cheia que se seguia ao equinócio. Era imperioso reformar o calendário, mas não era fácil. Não sabemos o que levou senhor Lillio a pensar que ele mesmo podia fazer isso. Sempre há, felizmente, pessoas que acreditam que podem o inacreditável.

Lillio escreveu um tratado em que explicava o plano: bastava eliminar alguns anos bissextos e suprimir 10 dias numa canetada. Os bissextos, naturalmente, não atrapalhavam ninguém, mas os 10 dias despertaram resistência feroz. Os romanos pobres suspeitavam uma manobra dos senhorios para roubar-lhes uma semana e meia de aluguel.

Ao final, apesar de tudo, a mudança se fez: o dia 5 de outubro de 1582 passou a ser 15 de outubro. Lillio já estava morto quando um certo Ugo Boncompagni ‒ de quem sabemos muita coisa ‒ impôs o calendário e lhe deu o próprio nome.

Boncompagni deu à obra o nome que já havia inventado para si ‒ Gregório XIII ‒ porque era papa, e os papas fazem essas coisas. O calendário gregoriano é o culpado de hoje ser 31 de dezembro e de que esta noite nos pareça que tudo termina e tudo começa. Luigi Lillio, se é que existe, se é que existiu, deve estar morrendo de rir.

(*) Martín Antonio Caparrós (1957-) é escritor e jornalista argentino.

Tradução deste blogueiro.

 

Uma cachorra afrodescendente

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu preferiria que ela fosse de grande porte, mais velha e de outra cor. Tinha elaborado uma longa lista de requisitos quanto ao temperamento, comportamento tranquilo e silencioso, obediência exemplar, além de grande capacidade de adaptação com outros animais e pessoas, em especial com crianças e idosos. Queria interagir com ela antes de apresentá-la à minha outra cachorra, para descobrir se ela se submeteria facilmente ou não a meus comandos.

Preferiria. Mas a vida – ou, quem sabe, São Francisco – tinha outros planos para mim. Do nada, despencou em meu colo uma filhotinha esguia, do tamanho da palma de uma mão, com apenas 33 dias. Fico constrangida em dizer que ela é negra como as asas da graúna. Primeiro, porque nunca vi uma graúna na vida e, segundo, porque o linguajar politicamente correto dos dias de hoje assim o exige. Seja como for, mal dá para distinguir os olhinhos curiosos dela em meio à escuridão da pelagem.

Como todo bom filhote, ela me enlouquece diariamente, mordendo e arranhando minhas pernas e braços, destroçando os rolos de papel higiênico e pendurando-se em tudo o que está suspenso. Enfia-se pelos cantos mais improváveis, esconde-se dentro de sacolas, diverte-se derrubando e mordiscando garrafas pet. Corre pela casa como um foguete e late muito quando a companheira de quatro patas não aceita o convite para participar de suas muitas estrepolias. Desafia-me sempre que tento conter seus excessos e me encara com um olhar provocador, como se me dissesse: E daí? Vai fazer o quê agora?

Esta é a Vivi, protagonista da história.

Paradoxalmente, não tenho do que reclamar. Mesmo exausta de correr atrás dela dia e noite, posso afirmar que, como diz a canção, desde que ela chegou instalou-se como um posseiro dentro do meu coração.

As compensações são muitas. Ela tem se esmerado em me fazer reaprender a importância do perdão e da tolerância. Ajuda-me a relativizar todos os dias o conceito de autoridade. Ensina-me com leveza a conviver com as diferenças e com minhas próprias limitações. Mostra com graça como são ridículos os preconceitos de raça e gênero. Traz em seu corpo as marcas da brasilidade, da desejável miscigenação, e encanta a todos com sua beleza singela.

Além de ter estabelecido uma relação de total harmonia e cumplicidade com minha outra cachorra, ariana pura, ela também não se deixa intimidar por machos dominantes. Ao contrário, para usar uma palavra da moda, abusa do empoderamento feminino. Sabe se submeter quando isso é conveniente para sua sobrevivência, mas deixa claro que sedução é seu forte. Joga-se despudoramente ao chão, de barriga para cima, e depois lambe o focinho de qualquer um que rosne para ela.

Tal qual um vampiro, ela suga toda a energia dos circunstantes. Passa os dias perturbando a tranquilidade de minha outra cachorra e impedindo que eu me concentre em qualquer outra atividade. Noutro dia, cansada de procurar palavras para dissuadi-la de morder tudo e todos, tive uma ideia: se ela obedece em segundos aos latidos raivosos da Aisha, porque não obedece aos comandos da fala humana? Não tive dúvida: quando ela se aproximou, enchi os pulmões e soltei um latido forte, digno do de um pitbull. Foi tiro e queda. Ela olhou em volta, assustada, procurando a fonte do som e interrompeu de imediato o ataque. Só não entendeu até agora que raio de animal grandão capaz de emitir sons tão diversos sou eu.

Ainda é muito cedo para fazer previsões quanto ao porte que terá e para saber se manterá a postura sociável que demonstra agora. Torço apenas para que as memórias de uma infância feliz a preparem emocionalmente para levar a vida adulta com mansidão e alegria.

É certo que a abundante energia de um filhote não é compatível com o desejo de sossego de uma idosa como eu. Aliás, o que mais tenho ouvido nas últimas semanas é que sou louca, que deve haver um quê de masoquismo na estrutura de minha personalidade ou que o esforço de cuidar de apenas uma cachorra deveria me bastar. Tudo o que tenho a dizer em resposta é que há uma graça especial para mim em todo recomeçar.

Parafraseando T.S. Eliot, eu aconselharia a todos que temem embarcar em novas aventuras na velhice que descubram enquanto é tempo que “o fim de toda viagem é voltar ao ponto de partida, conhecendo o local pela primeira vez”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lula será candidato em 2018?

Luiz Flávio Gomes (*)

Lula, em breve, seguramente terá sua condenação de primeiro grau confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (Porto Alegre). Lula, ao mesmo tempo, pode disputar a eleição de 2018. Como assim?

Em qualquer país civilizado, as duas frases seriam inconciliáveis. Mas vivemos no Brasil. Nossa legislação é uma balbúrdia. Só perde para a bagunça jurisprudencial dos tribunais eleitorais ‒ TSE na dianteira, claro.

Com a confirmação da sentença condenatória, Lula se transformará em ficha suja. Ficha suja, como sabemos, é inelegível, mas cuidado! Contra a decisão do TRF-4, cabem embargos de declaração. Após isso, se houver um único voto favorável ao Lula em qualquer ponto da sentença, cabem embargos infringentes. Em seguida, cabe recurso especial no STJ e extraordinário no STF.

Qual a probabilidade de um ministro do STJ conceder efeito suspensivo ao recurso especial? Grande. Primeiro, porque isso é frequente. Por seu lado, o próximo governo vai nomear, pelos atuais critérios absurdamente políticos, vários ministros para o STF nas vagas de Celso de Mello, Marco Aurélio e, possivelmente, Cármen Lúcia. Não podemos esquecer que todo ministro do STJ é potencial candidato a ministro do STF.

Paralelamente a tudo isso, mesmo ficha suja, Lula não está legalmente impedido de registrar sua candidatura à presidência da República. Deverá fazer isso, naturalmente, no último dia possível: 14 de agosto de 2018.

Em seguida virá a impugnação do registro e o contraditório (direito de defesa). O TSE deve julgar a controvérsia em setembro de 2018.

Contra a decisão do TSE cabe recurso no STF, que não o julgará antes do dia da eleição. Mais que isso, um ministro do STF pode dar efeito suspensivo ao recurso contra o TSE.

Conclusão:
Lula, mesmo sub judice, tem total chance de disputar as eleições, embora inelegível.

Por hipótese:
E se ele for vitorioso? Pela lei o STF impediria sua diplomação e, em consequência, a posse. Impediria! Na Suprema Corte brasileira tudo pode ocorrer, inclusive a possibilidade de um ministro pedir vista no dia do julgamento e não mais devolver o processo nos próximos anos. Todos conhecemos ministros capazes de fazer isso sem nenhum constrangimento.

Não é verdade que toda obscenidade dos poderosos é castigada pela nossa Suprema Corte.

(*) Luiz Flávio Gomes, jurista, é criador do movimento Quero Um Brasil Ético. Artigo publicado no Estadão.

 

A casa da minha avó

Ruth Manus (*)

A casa da minha avó tem um manacá. Tenho a estranha sensação de que ele fica florido o ano todo e não apenas nos três meses da primavera. Talvez seja só impressão minha. Ou talvez seja a presença da minha avó que encha tudo de flores roxas e brancas, 365 dias por ano.

A casa da minha avó é em Santo Amaro e é a casa mais bonita do mundo. Já estive na Toscana e na Provence e não vi nenhuma casa melhor do que a da minha avó. Vi maiores, vi mais caras, vi de tudo um pouco e nunca vi nenhuma casa que tivesse esse improvável aspecto de ser o melhor lugar do mundo. Mas a dela tem.

Na casa da minha avó, sempre que a gente chega, tem cabelos prateados à nossa espera. Não sei se há outro lugar no mundo onde eu me sinta tão bem-vinda. Meu marido sempre me espera, meus pais sempre me esperam, meus amigos sempre me esperam. Mas a minha avó me espera na porta. E nunca se importa que eu me atrase.

A casa da minha avó tem uma garagem pequena e vazia. Sempre que olho para ela me lembro do Gol preto do meu avô, no qual entramos depois dos pênaltis da Copa de 94, para buscar meu tio no aeroporto, enquanto buzinávamos e balançávamos as bandeiras. Em 95, já não havia mais meu avô, nem Gol preto. Deram-no como parte do pagamento ao empreiteiro que fez obras na casa para tentar alegrar a minha avó. Já aviso: não funciona. Novas paredes não substituem velhos amores.

A casa da minha avó tem a sala impecável, arrumada, perfumada e sem pó, mesmo que a faxineira só a visite duas vezes por mês. As flores nunca ficam com sede, os vidros nunca ficam embaçados, os quadros nunca ficam tortos. Espero aprender a ser assim até os meus 88 anos. Por enquanto, me contento em lembrar de guardar o leite de volta na geladeira.

Na casa da minha avó, a família inteira está presente, ainda que seja só nos porta-retratos. Ela coleciona amores. Os três filhos, os sete netos e as duas bisnetas estampam a sala com seus sorrisos largos e suas presenças raras. Em 2004, foi colocada a foto do casamento do meu irmão. Em 2013, do casamento da minha irmã. A ordem cronológica pedia que a próxima fosse eu, mas minha prima queimou a largada e passou na minha frente. Quem é que se casa aos 22, Júlia de Deus?

Na casa da minha avó, há um relógio verde na parede da cozinha. Embaixo dele, a mesa de madeira onde me sento e espero. Não posso fazer nada que não seja esperar, ela não deixa. E então começa: experimenta um pedacinho desse bolo. E esse pão fresco. Com geleia. Tem de damasco e de morango. Coloca requeijão também. Um suco de caju. Um Toddy quente. Manteiga Aviação. Queijo e presunto. Não importa se são 9h15, 14h30 ou 19 em ponto. Não importa.

Na casa da minha avó não se toma Coca-Cola, mas, misteriosamente, duas garrafas vazias surgiram por lá. Foi na época em que a Coca-Cola estampou as embalagens com os nomes das pessoas. Ela encontrou Rita e encontrou José. Juntou-as em cima da geladeira, como uma das únicas formas de ainda estar ao lado do meu avô, depois de 22 anos de viuvez. Acho que isso foi a coisa mais bonita que já aconteceu com a Coca-Cola.

A casa da minha avó é cheia de tricô. Mas ela só gosta de tricotar para os bebês. Para adultos, só cachecóis. E não para qualquer adulto. Só para aqueles que mereçam o suficiente para retardar a entrega do casaco de algum bebê. Eu mereço. O último foi o cinza. Antes o roxo. E antes o branco. E antes um todo colorido. São os melhores que tenho.

A casa da minha avó tem talco. Tem os perfumes do meu avô até hoje na prateleira. Tem um colar com um teletubbie vermelho que eu dei para ela há uns 20 anos, não sei bem o porquê. Tem azulejos decorados na cozinha. Novelos de lã. Goiabada. E braços abertos. Os melhores braços abertos deste mundo. Nem os do Cristo Redentor ganham deles.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Critério de apuração

Geraldo Passofundo (*)

Considerando que a maioria dos políticos brasileiros são corruptos e/ou incompetentes, o Supremo Tribunal Eleitoral bem que poderia adotar, nas próximas eleições, o seguinte critério:

Candidato mais votado: 30 anos de cadeia
Segundo mais votado: 20 anos de cadeia
Candidato menos votado: eleito com distinção. Empossá-lo.

(*) Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes é escritor, consultor empresarial, humorista e cartunista.

Distraído e desligada

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Ele muito distraído, ela extremamente desligada, Dorival e Helena formavam um par perfeito. Quando acontecia a um deles de se esquecer de alguma coisa, o outro não tinha moral para cobrar nada. De qualquer maneira, eram tão distraídos que se esqueciam de cobrar um do outro. Eram iguais. Formavam, enfim, um casal no mínimo interessante.

‒ Você se lembrou de passar na farbácia e comprar o beu rebédio para gripe?

‒ Ai meu Deus, Dori! (Pode não parecer, mas ela o chamava de “Dori” para ser carinhosa e não para irritá-lo). Sabia que estava esquecendo de alguma coisa! Sua gripe… Quer dizer, seu remédio! A gripe você já tem, não precisava comprar. Era só o remédio.

‒ Tudo bem, se até abanhã eu não tiver borrido de pdeubodia, eu besbo vou comprar o beu rebédio.

doente-4À história de estacionar o carro em algum ponto da cidade e depois ter de fazer longas caminhadas até encontrar o ponto de novo, os dois já estavam muito acostumados. Involuntariamente, disputavam para ver quem fazia isso mais vezes.

Ela só ganhava dele porque uma vez tinha ido trabalhar de carro e voltado a pé para casa, esquecendo-se do carro na garagem do escritório. Era a diferença entre ambos: ela já era pós-graduada em esquecimento e distração.

Para confirmar que o primeiro lugar era dela, houve aquela história do salto. Certa feita, saíra de casa e dançara a noite toda sem se dar conta de que o pé esquerdo do sapato alto estava sem salto. Um desnível de 7 centímetros entre os dois pés! É verdade que havia sentido uma certa dificuldade para se locomover, mas não pensou em verificar o salto.

Era comum um deles chegar na hora do jantar com muita fome e só então se aperceber de que havia se esquecido de almoçar: “Bem que eu senti que faltava alguma coisa!”

Numa noite de sexta-feira, após um dia duro de muito trabalho, ele voltou para casa muito cansado. Carregava a nítida impressão de estar se esquecendo de alguma coisa mas não sabia de que era. Sempre acontecia assim.

Como já era meio tarde, não quis incomodar a Helena, que já dormia no quarto. Preparou-se para dormir. Tomou banho, vestiu pijama e foi para o quarto, sempre com aquela impressão de estar se esquecendo de alguma coisa. Mas como não havia grande novidade em estar se sentindo daquela maneira, foi em frente, fazendo tudo igual.

Apesar do cansaço, quando a Helena procurou por seus braços dando-lhe também abraços, parecendo esperar por ele já deitada no quarto escuro onde aparentemente dormia, o Dorival não resistiu e, esquecendo-se do cansativo dia de trabalho, entregou-se à esposa como poucas vezes o fizera.

cama-2Foi uma noite interminável, como poucas, só se comparando à já longínqua lua de mel. Por fim, adormeceram e só foram acordar com os raios do sol já invadindo o quarto na manhã do sábado.

Sábado! Era isso! Mas que coisa mais estranha! Ele deveria ter ido encontrar-se com a Helena na casa da praia, onde deveriam passar o fim de semana! Mas ele havia se esquecido da viagem e tinha voltado para casa!

Mas então… Quem era?!… Só então, quando olhou para o lado, viu a Márcia deitada, ainda dormindo. A melhor amiga do casal, solteira, que sempre se insinuava para ele. Claro! Sempre que viajavam nos finais de semana era ela quem dormia lá pra tomar conta da casa!

Bom, de qualquer forma, a costumeira falta de memória ajudaria a esposa a acreditar na história. Afinal, era mesmo verdade todo o acontecido.

Ele apenas omitiria que ainda acordou a Márcia para lhe dar um bom-dia todo especial. Ele tinha certeza de que logo se esqueceria daquela história toda. E, já que estava ali…

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

O aniversário do Lula

Josias de Souza (*)

Lula fez aniversário nesta sexta-feira. Deveria ter presenteado a si mesmo com o silêncio. Mas percorre Minas Gerais em caravana. Faz comícios diários. Seus lábios não desgrudam do microfone. Assim, sem medo de ser patético, declarou: «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo para envergonhar milhões e milhões de pessoas que a vida inteira confiaram em mim.»

Lula discursou num comício na cidade de Montes Claros. Apresentou-se à plateia como um símbolo, seu papel predileto: «Estão tentando me destruir desde que nasci. Tentem destruir o Lula, vocês nunca vão conseguir, porque o Lula não é o Lula, é uma síntese daquilo que são milhões e milhões de mulheres e homens. Lula é uma idéia criada por vocês.»

O pajé do PT, de fato, pode se dar ao luxo de falar como símbolo. Deixou de ser qualquer um quando virou líder sindical em plena ditadura. Perdeu eleições como símbolo, chegou ao Planalto como símbolo, invocou a condição de símbolo para sobreviver ao mensalão e, como símbolo, imaginou-se invulnerável no petrolão. Agora, responde pelo que passou a simbolizar.

Suprema ironia: coube ao companheiro Antonio Palocci formular a pergunta que explica por que muitos brasileiros deixaram de respeitar os cabelos brancos do símbolo: «Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?», indagou Palloci na carta que enviou ao PT para se desfiliar da legenda.

Lula tornou-se um símbolo completo. Fez-se sozinho na vida. E se desconstrói sem a ajuda de ninguém. O símbolo discursa como se fosse uma estátua de si mesmo. E age como pardal que suja a própria testa de bronze. Costuma-se dizer que Lula virou um político como todos os outros. Bobagem. Aconteceu algo pior. Lula tornou-se um símbolo completamente diferente de si mesmo.

Certas frases ‒ «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo…» ‒ passam a impressão de que o autor será símbolo do cinismo até o fim. No aniversário do símbolo, um simples “parabéns” soa como ironia.

(*) Josias de Souza é jornalista e comentarista político

Nota deste blogueiro
A frase do Lula lembra uma fala do general De Gaulle em coletiva de imprensa. Em 1958, ele acabava de assumir o governo da França apoiado em nova Constituição que lhe conferia amplos poderes. Dando-se conta de que alguns se mostravam inquietos com tanto poder concentrado nas mãos de uma só pessoa, tranquilizou a população: «Não é aos 67 anos que vou iniciar uma carreira de ditador.»

De Gaulle disse a verdade. Assim como não tinha sido ditador antes, não se deixou tentar depois. Já quando fala o Lula ‒ homem condenado por corrupção a quase dez anos de cadeia ‒, é permitido desconfiar.

O país do molha a mão

Carlos Brickmann (*)

A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, denunciariam. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é bom sinal. Quem sabe um dia?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Mudança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos melhores livros que já li leva exatamente esse título. Escrito por três psicólogos americanos, defende a tese de que uma estratégia de mudança, para ser efetiva e duradoura, precisa ser em alguma medida paradoxal. Em outras palavras, ela precisa propor um novo paradigma, um novo enquadramento para a realidade que se deseja alterar, capaz de inspirar soluções alternativas às já tentadas.

Valendo-se da teoria matemática dos grupos, os autores explicam que, se a solução sugerida pertencer ao mesmo grupo do problema, ela perderá eficácia a curto prazo, e os benefícios, se houver algum, terminarão sendo automaticamente anulados com o tempo. Em linguagem matemática, se o problema for representado por +1 e a tentativa de solução por -1, o resultado será sempre zero se ambos pertencerem ao mesmo grupo.

Pense, por exemplo, numa pessoa que sente frio. A tendência universal é recorrer a medidas conceitualmente ancoradas na sensação oposta, ou seja, na ideia de se aquecer. A pessoa pode recorrer de início a alguma fonte externa de calor, como um cobertor, meias de lã ou agasalho. Se não funcionar, ela simplesmente aumenta a dose.

O conforto trazido pode representar um importante alívio dos sintomas, o que induz a pessoa a crer que seu problema está resolvido em definitivo. No entanto, a própria imobilidade do corpo, esmagado sob tantas camadas de roupa e de acessórios, fará com que a sensação de frio volte a incomodar. A pessoa pode, então, experimentar alternativamente alguma forma de geração de calor interno, exercitando-se vigorosamente ou ingerindo alguma bebida quente. Nesse caso, a transpiração levará inexoravelmente de volta a um resfriamento da pele e nova onda de frio será experimentada.

Pense agora na solução implementada pelos esquimós para combater o frio extremo de seu habitat. Os iglus, mesmo construídos com blocos de neve, mostraram ser uma solução engenhosa e eficaz por terem partido de outro conceito-base: o de impedir a circulação dos ventos. Graças a esse novo paradigma, vários outros produtos puderam ser desenvolvidos para combater a hipotermia, como é o caso dos agasalhos térmicos, que incorporam uma camada externa impermeável aos ventos. Até mesmo o frio causado pelo contato com as águas geladas dos oceanos, rios e lagos pode ser minimizado com o uso de trajes de mergulho de neoprene.

Os autores oferecem dezenas de exemplos deliciosos e instigantes de mudanças paradoxais introduzidas com sucesso ao longo da história, tanto em termos comunitários quanto na vida de pessoas comuns. Um dos que mais gosto diz respeito a um oficial francês que recebe ordens de Maria Antonieta para esvaziar a praça em frente ao palácio. Percebendo a enorme desproporção numérica entre seus soldados e a multidão que se aglomera em protesto, ele tem uma súbita inspiração. Sobe num caixote e grita, chamando a atenção da multidão. Em tom respeitoso e sério, ele se dirige aos camponeses e operários dizendo ter recebido ordens de se livrar apenas e tão somente de ‘la canaille’, ou seja, dos indivíduos vis e desprezíveis. Diz ainda que, por não ter como distingui-los a distância, pede encarecidamente a todos os cidadãos de bem que retornem às suas casas. A praça se esvazia em segundos.

Trago de volta essas lembranças inspirada pelo clima geral de final de feira em nossa república. Qual será a estratégia de mudança que teremos de elaborar para pôr fim a tanta desfaçatez, decadência moral e esgarçamento do tecido político, institucional e social em 2018?

Já experimentamos de tudo um pouco: desde intermináveis soluções de força a dirigentes que se proclamam não-políticos como forma de atrair a simpatia de eleitores indignados, passando por toda uma gama de líderes populistas de direita e de esquerda. Fizemos testes com membros da elite e com um da classe operária, com muitos homens e uma única mulher, com figuras públicas afeitas à norma culta da língua portuguesa e outras constrangedoramente donas de raciocínios tortuosos e discurso ilógico e gramaticalmente incorreto. Tivemos até um ditador reconduzido à presidência da república nos braços da população e fervorosamente aclamado como “pai do povo”.

Analisando todos os perfis de dirigentes até onde minha memória alcança, sou forçada a admitir, entretanto, que até hoje não conseguimos pensar fora da caixa. Continuamos elegendo sempre o perfil contrário ao de quem nos desagrada no momento, sem atinarmos com soluções pertinentes a outros grupos conceituais.

Que novos conceitos ainda nos resta explorar? Será que teremos de eleger não o candidato, mas o próprio marqueteiro que cuidou da campanha a peso de ouro? Será que um homem de televisão conseguirá aglutinar em torno de si cérebros privilegiados e corações sinceramente dedicados à nobre tarefa de servir aos interesses da população? Será que um jurista pode nos prometer mais isenção frente aos conchavos partidários e mais idoneidade no trato da coisa pública?

Não tenho as respostas, estou aceitando sugestões, por mais bizarras que elas sejam. Minha capacidade criativa – com o perdão do digno editor deste blog – foi devastada por décadas de irracionalidade e nonsense. No meu cérebro já não nasce nem a grama dos projetos comezinhos de sobrevivência individual. Duvido até da necessidade de lideranças para conduzir nosso imenso e complexo agrupamento social. O caos também é criativo, ora bolas.

Confesso por fim que tenho sentido ímpetos de cortejar a ideia de democracia direta. Alguém mais disposto a embarcar comigo nessa tentação?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Gerúndio criminalizado

Criminalizar gerúndio por causa do gerundismo é uma bobagem atroz

Sérgio Rodrigues (*)

Outro dia recebi de um conhecido uma mensagem que primeiro me fez sorrir, mas logo me deixou triste. O sujeito dizia que, refletindo sobre um conjunto de dados, tinha chegado a determinada conclusão.

Dados e conclusão não vêm ao caso. O que merece atenção aqui é a cunha que o meu conhecido achou importante meter no texto, entre parênteses: “Analisando (desculpe o gerundismo!) as informações disponíveis, concluo que…”.

Pensando por alguns segundos, concluí que precisava pensar por mais alguns segundos. Foi aí que a graça inicial daquilo (como assim, chamar um gerúndio perfeitamente funcional de “gerundismo”, com exclamação e tudo?) deu lugar a uma certa tristeza.

O cara não está entendendo bem o que se passa, e tem numerosa companhia. Muita gente no Brasil ouviu cantar o galo gerundista do telemarketing e concluiu que toda forma verbal terminada em “-ndo” é um ruído, um arroto, uma gafe.

Trata-se de uma bobagem atroz. O gerúndio é bacana. Versátil, vem sendo usado desde o nascimento da língua portuguesa para expressar ideias de continuidade ou frequência e criar outras modulações de tempo, modo e causa.

Embora também possam ser encontradas assumindo outras formas no vasto mundo da língua, essas ideias muitas vezes têm no gerúndio sua expressão mais elegante e concisa.

“Senhor, esteja aguardando na linha que vamos estar informando quando o senhor vai estar recebendo o produto” é uma frase ridícula, óbvio. No entanto, partir daí para condenar todos os gerúndios equivale a responsabilizar a bola pelo 7 a 1.

O que se chama de gerundismo é o vício canhestro de tratar como frequentativas –isto é, habituais, que se repetem– todas as ações do mundo. Mesmo a construção que esse modismo terminou avacalhando tem o seu lugar: “Nos próximos meses não vou viajar, estarei estudando para o Enem”.

Sendo o Brasil um país pouco letrado, com índices de leitura capazes de precipitar monges taoístas em abismos de angústia e revolta, não surpreende que tantas vezes o pessoal acabe se confundindo com a fronteira entre o abuso e o uso razoável de determinado recurso.

Quando sabemos que sabemos pouco, é natural que nossa insegurança transforme a liberdade de escolha, valor fundamental da ética e da estética, em campo minado. Daí o velho apego brasileiro à hipercorreção e a regras autoritárias em letras garrafais: isso está CERTO, aquilo está ERRADO, fim de papo.

Juntando-se a esse quadro um dos mais clássicos mal-entendidos da lusofonia, a trama se adensa. “Ah, os portugueses não usam o gerúndio” é uma ideia falsa. Essa forma nominal do verbo tem emprego firme em certas regiões de Portugal.

Ainda que fosse verdadeira, supor que a “brasilidade” rebaixaria de alguma forma o gerúndio é pura vira-latice. “A dizer” não tem nada de intrinsecamente superior a “dizendo”. Na verdade, poderia até ser visto como um uso bárbaro por um conservador radical que tomasse o português camoniano como padrão-ouro do idioma.

Com seus “reis que foram dilatando a fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando”, tirem o gerúndio de Camões e verão Os Lusíadas se desfazendo em milhares de caquinhos.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Psiconeuroimunologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Passeando pela seção de ciências de um conhecido jornal, dei de cara com esse palavrão. Curiosa, fui investigar do que se tratava. De início, uma certa decepção. Era apenas a designação dada a um campo interdisciplinar de estudos científicos que se propõe a revelar as conexões entre a psicologia, a neurologia e o sistema imunológico.

Fiquei intrigada. Que as emoções interferem na saúde geral do corpo é fato comprovado cientificamente há mais de meio século. Muito já se estudou a respeito do papel dos neurotransmissores na promoção de sensações de bem-estar, assim como sobre a influência potencialmente deletéria de alguns hormônios ligados ao estresse sobre a imunidade. Nada de novo, portanto.

Por que, então, querer agrupar antigas áreas de pesquisa científica e rebatizar o conjunto, emprestando a ele ares de um novo campo do saber? Pelo que entendi, ainda faltava desvendar mais precisamente através de quais mecanismos os processos mentais atuam sobre a saúde. Ou seja, descobrir como o sistema nervoso central influencia e é influenciado pelo sistema endócrino e de que maneira os dois se articulam com as instâncias psíquicas para gerar a resposta imune. Uma vez conhecidos os vetores, ainda era preciso investigar de que forma o psiquismo humano pode se tornar um aliado estratégico para reforçar a imunidade do corpo. Ou, inversamente, como evitar que ele se posicione como força motriz para o aparecimento de doenças autoimunes, como o câncer, o diabetes e a aids.

Não foi nada disso, entretanto, o que aguçou minha curiosidade. O que me encantou mesmo foi saber como tudo começou. A estória é banal e demonstra, mais uma vez, a importância do acaso para o avanço do conhecimento científico. Tudo teve início em 1986, quando um professor de psicologia teve a ideia de pedir a seus alunos que escrevessem sobre o maior trauma de suas vidas ou, se não tivessem passado por nenhum, sobre o momento mais difícil que haviam vivido.

O professor insistia para que eles fossem o mais fundo possível na reminiscência de cada detalhe e colocassem no papel seus pensamentos e sentimentos mais profundos, mesmo que nunca tivessem ousado compartilhá-los antes. A tarefa foi repetida por vários dias consecutivos, para que os participantes pudessem dar vazão plena aos meandros de seu conturbado universo emocional interior. ara dar validade científica ao experimento, foi formado também um grupo de controle, ao qual se atribuiu a tarefa de registrar pensamentos e sentimentos a respeito de eventos cotidianos neutros, pelo mesmo número de sessões.

Segundo relato do próprio pesquisador, vários alunos choraram durante as sessões e afirmaram que ficar remoendo o passado havia feito com que eles se sentissem, de início, ainda pior. Curiosamente, no entanto, quando indagados se preferiam abandonar o experimento, todos expressaram o desejo de continuar. Nos seis meses seguintes, o professor monitorou a frequência com que os estudantes iam ao médico. Descobriu, sem muita surpresa, que aqueles que haviam se envolvido com o que hoje é chamado de “escrita expressiva” haviam se consultado muito menos vezes do que os colegas “neutros”.

Ele acreditava que o efeito benéfico sobre a saúde se devia apenas à catarse. Ou seja, pelo fato de terem se livrado de uma carga emocional pesada, os participantes provavelmente estavam apenas colhendo os frutos de uma menor preocupação com sintomas de desconforto físico. Mas a pesquisa não parou por aí. Vários outros experimentos foram realizados na sequência, enfocando quais áreas da saúde eram mais impactadas positivamente, desde problemas simples, como disfunções respiratórias, até os mais complexos, como o câncer.

Alguns resultados mostraram-se decepcionantes, seja por não apresentarem relevância estatística, seja por não perdurarem no tempo. Havia uma área, entretanto, em que os exames de laboratório mostravam resultados positivos mais consistentes e duradouros: o da cicatrização de ferimentos. Alguns voluntários foram até mesmo recrutados para se submeterem a um ferimento intencional (corte no braço e retirada de uma pequena amostra de pele) para analisar como e porque isso acontecia.

Foi então que o pesquisador decidiu investigar o tipo de linguagem usada na escrita expressiva e correlacioná-la com a melhora na saúde. Descobriu que aqueles cujos ferimentos saravam mais rápido haviam iniciado seus relatos usando mais vezes a palavra “eu” e, ao longo do tempo, migraram para o uso mais frequente de relatos em terceira pessoa, o que seria um indicador de mudança sutil de perspectiva na análise dos eventos traumáticos.

Além disso, essas pessoas recorriam mais vezes à palavra “porque”, o que sugeria que elas estavam aprendendo a dar um sentido aos acontecimentos e os alinhavando numa narrativa mais pessoal e estruturada.

Não estou sugerindo com essas divagações que estamos diante de uma revolução na ciência. Claramente, ainda não há nada de muito espetacular nas descobertas feitas até aqui. O que me é altamente estimulante, porém, é saber que ainda há um campo fascinante e muito extenso de investigação científica a ser explorado pelas futuras gerações.

Meu interesse pela área da psiconeuroimunologia fica ainda mais despertado quando penso na dificuldade que os jovens de hoje em dia, educados pelo e no mundo virtual, sentem de lidar com a linguagem escrita. O “internetês” criado por eles – os kkkkk e os rsrsrs para expressar divertimento, o recurso aos emojis para comunicar emoções e aos likes para manifestar concordância ou apoio – deixa em mim uma sensação amarga de retrocesso da capacidade humana de criação de vínculos.

Em psicanálise, costuma-se dizer que um dos sinais indicadores de desenvolvimento de maturidade psíquica surge quando a pessoa aprende a dar nome aos próprios sentimentos e emoções. Mais tarde, a interlocução afetiva efetiva vai depender em grande parte da precisão dessa linguagem interior.

Outra coisa que me preocupa e assusta é que o século 21 parece ter trazido consigo uma recusa maciça das novas gerações de se aventurarem livremente nos processos de interiorização. Passamos a viver na periferia de nós mesmos, incapazes de delinear os contornos de nossa subjetividade, voltados para fora e interessados apenas em garantir nossa aceitação na comunidade virtual.

É em função de tudo isso que ouso sugerir uma nova explicação para os fenômenos de cura observados através da escrita expressiva. Talvez seja reservando um tempo para meditar e lamber nossas feridas internas que possamos, finalmente, restabelecer as fibras de nosso tecido anímico, social e existencial.

A pesquisar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Baú de memórias ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não é estória de pescador. Foram eventos reais e tão surpreendentemente reveladores das minhas limitações que eu os havia enterrado bem fundo no meu baú de memórias.

Eu era muito jovem na ocasião. Recém-formada, sem experiência no mundo profissional, carente de autoconfiança, tudo conspirava para fazer de mim uma pessoa tímida, defensiva e impressionável. Trabalhava no departamento médico de uma empresa paraestatal, respondendo sozinha pela coordenação do setor de seleção de pessoal.

Um de meus colegas de departamento era uma médica psiquiatra, já madura e experiente. Mulher muito alta e corpulenta, a simples presença dela era suficiente para impor respeito. Um sorriso sempre nos lábios e seu caloroso olhar acolhedor, no entanto, deixavam claro que ela era dona de espírito crítico e senso de humor refinado, que não precisava usar a autoridade como arma para intimidar ninguém. Foi ela quem me deu a primeira e mais preciosa lição a respeito do que significa inteligência emocional, um conceito que só seria formulado décadas mais tarde.

O chefe do departamento era um médico cardiologista um tanto limitado intelectualmente, visceralmente machista, que acreditava que todos os conflitos internos podiam ser resolvidos através de sua lábia e comportamento pretensamente sedutor. Eu me esforçava o quanto podia para driblar seus assédios, fechando a cara, me empertigando e tentando parecer séria.

A primeira vez em que a vi reduzir a pó sua fachada de segurança aconteceu durante uma reunião de departamento. Ele havia aberto o encontro com ar compenetrado, explicando que havia recebido ordens da diretoria no sentido de otimizar os recursos humanos do departamento. Para tanto, propunha ele, era necessário que nós duas elaborássemos um levantamento estatístico do número de casos atendidos por mês, separando-os por categoria diagnóstica. Ou seja, ele queria saber quantos candidatos “normais” e quantos portadores de distúrbios mentais ou psicológicos, como esquizofrênicos, psicopatas, neuróticos de todos os matizes, epiléticos, alcoólicos crônicos, etc. haviam passado por nossas mãos.

by Tania Messaoudi (1989-), desenhista francesa

Estupefata, eu buscava, sem sucesso, algum meio de comunicar a ele do modo mais educado possível a implausibilidade de seu pedido. Sentada a meu lado, a psiquiatra, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Com serenidade, ela tomou a palavra e disse literalmente: “O senhor está parecendo um chefe de família que decide entrevistar a esposa e cada um dos filhos para saber quantas vezes eles defecam por semana para, dessa forma, poder planejar a compra de papel higiênico para o próximo mês”.

Afrontado e ridicularizado, ele reagiu com indisfarçável sarcasmo: “Da sua boca, minha senhora, só se pode esperar m… só sai porcaria mesmo”.

Gargalhando, ela prontamente retrucou: “Doutor, a merda está na sua cabeça, não na minha boca”.

Foi o que bastou. A reunião foi encerrada ali e ele nunca mais trouxe o assunto de volta à baila. Profundamente impressionada com essa aula magna de perspicácia, eu passei a buscar o aconselhamento dela para outras situações difíceis de trabalho. Poucos meses depois, a empresa foi chamada a cuidar do processo de seleção de juízes de primeira instância para uma vaga no Tribunal de Justiça Militar.

Era época de ditadura e eu me sentia extremamente atemorizada para fazer valer meu poder de aprovar ou rejeitar qualquer daquelas figuras de autoridade. Era uma tarefa hercúlea para quem sabia não dispor de suficiente isenção para avaliar o psiquismo de militares, nem equilíbrio emocional suficiente para enfrentar eventuais recursos e apelações.

Um dos candidatos era um tipo asqueroso, que não demonstrava qualquer pudor em lançar mão dos recursos mais vis para alcançar seus objetivos. Eu o havia submetido a testes psicológicos que apontavam sérios desvios comportamentais, mas hesitava em colocar no papel um diagnóstico claro de inadequação para a função.

Talvez por já antever uma reprovação, o tal indivíduo achou por bem subornar um funcionário administrativo para ter acesso ao arquivo com os exames e laudos, o que foi feito de madrugada. Inteirado de sua periclitante situação, na manhã seguinte ele procurou e pagou um psiquiatra particular para elaborar um laudo que negasse as suspeitas levantadas.

A prova final era uma entrevista com minha colega psiquiatra. Eu a procurei logo cedo e falei da minha angústia para expor fatos tão graves ao juiz-presidente do tribunal. Afinal, era minha palavra contra a dele e contra a de um outro profissional, mais qualificado que eu. Ela me acalmou, sugerindo que eu deixasse a cargo dela a tarefa de desmascarar o sujeito.

Ansioso, no dia marcado ele chegou para a entrevista com algumas horas de antecipação. Aboletou-se numa cadeira da sala de espera, fingindo descontração e autocontrole. A cada candidato que saía da sala após a entrevista, ele investigava que tipo de pergunta ela fazia, que tipo de testes eram feitos e como cada um havia respondido. Descobriu dessa maneira que teria de passar por um exame neurológico, que consistia em ficar em pé no meio da sala, descalço e de olhos fechados, fazendo um quatro com as pernas.

Quando chegou sua vez, ele entrou na sala com ar arrogante e foi logo desamarrando os sapatos. Levantou-se, pôs-se na posição, sem que nada lhe houvesse sido solicitado. Ela, em total silêncio, deixou que ele passasse vários minutos na posição. Incomodado com a falta de outras orientações, o sujeito finalmente abriu os olhos e percebeu que ela o encarava com um olhar de surpresa e divertida interrogação.

Candidamente, ela então perguntou: “O senhor costuma fazer isso com frequência?“. Constrangido, ele ainda tentou disfarçar: “Isso o quê?”

“Ficar nessa posição esquisita sempre que entra num consultório médico”, respondeu ela.

Dali para frente, como bem se pode imaginar, o indivíduo perdeu o controle da situação e caiu em seguidas contradições. Quando ele saiu, ela me chamou para mostrar seu laudo. Em poucas palavras, ela havia condensado com maestria as táticas empregadas pelo candidato e redigido seu parecer de tal forma que ele não pudesse vir a contestar uma só palavra.

Estava escrito algo como: “Indivíduo ansioso, impulsivo, que atropela o bom senso, tomando iniciativas esdrúxulas, sem que tenha havido demanda externa. Falta-lhe ponderação, argúcia e controle emocional para lidar com decisões delicadas, o que o inabilita para assumir as graves tarefas pretendidas por esse egrégio tribunal”.

Sua candidatura foi inapelavelmente rejeitada pelo tribunal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

À míngua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Hoje minha alma acordou nublada. Uma sensação vaga de desconforto aqui, uma espécie de insatisfação ali, um certo desalento acolá.

Preocupada com tanta apatia, perguntei a ela: “O que está acontecendo com você?”

Ela respondeu num muxoxo: “Nada…”

“Como assim? Estou vendo que você está muda, murcha, acabrunhada”, insisti.

“Pois é.… parece que estou anestesiada…. Será que você não percebe que a causa do meu mal-estar é exatamente o fato de que não estou sentindo nada?”

A resposta me chocou. Num exame rápido, constatei que ela estava dizendo a verdade. Nada parecia ter a força de tocá-la, afetá-la, sensibilizá-la. Minha mente começou a divagar, tentando ajudá-la a identificar o momento em que ela perdeu o rumo e se deixou cobrir por uma grossa camada de indiferença. De onde vinha esse anestesiamento emocional?

Até ontem, ponderei, meu cérebro estava febril, correndo alucinado de um lado para outro, tentando estabelecer novas conexões, como nunca havia ousado antes. Eu estava até me sentindo orgulhosa desse arroubo juvenil tardio. Mas, pensando bem, havia algo mais no fundo da consciência que me incomodava. A sensação, recordei, era a de que não havia tempo a perder.

A taquicardia, a sensação de urgência e a inegável voracidade da procura bem podiam ser sinais de que a energia elétrica estava se esgotando em todos os meus circuitos cerebrais. Talvez, no desespero de chegar a algum lugar antes que o Alzheimer me pegasse, eu inadvertidamente tenha consumido toda a reserva de oxigênio disponível.

Mas, se isso era verdade, me perguntei, onde encontrar novos fornecedores desse combustível? A resposta explodiu como uma bomba em meu peito. Na troca com outras pessoas! Era dessa falta que tanto minha cabeça quanto minha alma se ressentiam, afinal.

Fez-se subitamente luz. Eu tinha passado as últimas semanas acionando todo mundo que se dispusesse a dialogar comigo sem compromisso, a pensar junto. Poucas, muito poucas pessoas reagiram bem ao convite. A imensa maioria simplesmente preferiu ignorar a solicitação. Sabe como é, o trabalho, o cuidado com a família e os imprevistos tomavam todo seu tempo.

Passei a procurar no mundo virtual algum estímulo minimamente personalizado que tivesse o condão de me retirar daquele tédio existencial. Tudo o que encontrei foram respostas prontas e genéricas, típicas de manual de autoajuda. Nenhum sinal de vida humana inteligente realmente interessada em indagar, especificar, relativizar, contraditar ou acrescentar ângulos pessoais para as minhas questões. Era como morrer de fome em meio a um festim pantagruélico. Tanto alimento para o pensamento e nenhum específico para o tipo de satisfação que minha alma buscava.

Lembrei da tese de um estudioso das conexões corpo-mente que dizia que a psique humana é como uma sanfona. Para produzir sons harmônicos, ela precisa ser capaz de se expandir e contrair totalmente, abrindo-se de forma igual para os dois lados. Se a vareta de um dos lados do fole está quebrada, já não é possível a plena expressão dos sons do lado oposto.

Em outras palavras, se a gente se recusa a vivenciar a dor, torna-se, sem querer, inapto para experimentar alegria. Se tememos ser tomados cegamente pelo rancor ou pela raiva, não conseguimos mais nos deixar inundar pelo sentimento de ternura. Talvez fosse exatamente isso o que os gregos queriam dizer quando afirmavam que só se conhece os sabores por seus opostos. Difícil de aceitar, mas só quem já provou do amargo pode conhecer o que é doce.

Seja como for, ainda me parecia que o que estava acontecendo com minha alma não era, em definitivo, a falta de variedade, de contraste. Ao contrário, lembrava algo mais próximo ao cansaço com tanto estica-e-puxa de suas fibras. Algo parecido com a sensação de déjà-vu diante de tantas manifestações de extremismo, passionalidade. Mais propriamente, era algo como uma vontade de se recolher, de passar desapercebida, de não incomodar.

Para quem ainda não chegou lá, eu explico. Na velhice, não é nada raro a gente se sentir como uma caixa colocada no meio da sala da casa de outras pessoas, que atrapalha a livre circulação dos moradores. E, como ninguém se preocupa em retirá-la do caminho, a gente vai acumulando pó. A sensação de não-pertencimento ao ambiente começa a causar deformações profundas na estrutura da caixa e, finalmente, a incapacidade de sentir prazer se instala.

Sem sombra de dúvida, concluo, minha alma está de volta ao limbo. Como dizia um amigo, já não importa se eu estou certa e o mundo errado, ou se é o contrário. Se sou minoria, sou eu quem tem de mudar. Alguém aí para me jogar uma corda redentora?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Consulta heterodoxa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O paciente entra na sala do oncologista pálido, abatido. O médico o convida a sentar. Ele se curva lentamente e desaba sobre a cadeira, com um gemido. De cabeça baixa, permanece em silêncio por vários minutos.

Preocupado, o médico o estimula: “Como posso lhe ajudar?”

Uma lágrima desce hesitante pela face do paciente. Ele se apruma, encara com firmeza o médico e diz: “Quero fazer uma terapia de reversão do câncer”.

Atônito, o médico indaga: “Como assim? O senhor foi diagnosticado recentemente com câncer por algum colega?”.

Um tanto constrangido, o paciente comenta: “Na verdade, ainda não. Já consultei especialistas de várias áreas, fiz todos os exames que eles solicitaram, mas até agora não foi possível estabelecer um diagnóstico definitivo. Pode parecer loucura da minha parte, mas sei que estou doente e que é só uma questão de tempo para encontrar o exame certo para meu caso”.

Já começando a antever problemas na relação, o médico opta por uma conduta de cautela e dá continuidade à anamnese: “O que o leva a crer que está com câncer? Em qual órgão?”

O paciente se agita na cadeira e, momentaneamente animado, despeja uma lista interminável de sintomas: “Ah, doutor, tenho sentido dores para urinar, sinto uma massa estranha na minha próstata quando me sento ou me dobro para calçar as meias, um cansaço abominável o dia inteiro, perdi muito peso nos últimos meses, meu cabelo está se tornando ralo e caindo, perdi boa parte da minha libido e, quando tento uma relação, perco rapidamente a ereção…”

Médico: “Há toda uma série de doenças com sintomas parecidos. Por que não seria, por exemplo, uma simples infecção urinária?”

Paciente: “É, eu até cheguei a considerar essa possibilidade. Mas depois, consultando o Google, percebi que há vários outros sinais que confirmam a existência de uma neoplasia”.

Médico: “Mas, então, me diga. Por qual razão nenhum dos exames foi capaz de confirmar sua suspeita? Posso vê-los?”

Paciente: “Ah, doutor, infelizmente a realidade é que os exames laboratoriais no Brasil ainda são muito limitados. Não temos acesso a equipamentos de última geração, nem profissionais qualificados para pesquisar em profundidade indicadores pouco conhecidos”.

Médico: “Pelo que posso constatar em seus exames, não há nenhuma razão para preocupação. Mantenho contato regular com especialistas americanos e europeus e posso lhe afiançar que o senhor não obteria resultados diferentes em país mais avançado”.

Paciente: “Seja como for, doutor, pressinto que estou morrendo. Preocupo-me em deixar minha mulher e meus filhos desamparados e, por isso, quero me submeter à quimioterapia, radioterapia e tudo o mais a que tenho direito. Só não quero passar por uma cirurgia porque tenho medo de ficar impotente o resto da vida”.

Médico: “O senhor está louco? Eu jamais aceitaria fazer o que o senhor propõe. Os resultados seriam desastrosos, para o senhor e para mim. As substâncias usadas na quimioterapia são drogas muito potentes, que nem sempre discriminam células sadias das cancerosas e que, portanto, apresentam importantes efeitos colaterais negativos sobre sua saúde em geral. Os efeitos nocivos da radiação são também velhos conhecidos da medicina. Se não fosse por tudo isso, eu ainda poderia ter minha licença cassada pelo Conselho de Medicina por sujeitar um paciente a um tratamento não-indicado e desnecessário”.

Paciente: “Estou pronto para assinar uma autorização, assumindo todos os riscos e eximindo o senhor de qualquer responsabilidade pelas consequências”.

Médico: “Mesmo assim, não há hipótese de eu embarcar na sua loucura. Olhe, amigo, conheço vários profissionais de psicologia e psiquiatria que poderiam ser de grande ajuda para o senhor neste momento”.

Paciente: “Não adianta, doutor. Já consultei vários deles e foram unânimes em sugerir que eu procurasse antes um urologista oncologista”.

Médico: “Bom, se esse é o caso, não sou a pessoa certa para atendê-lo. Não posso contrariar minhas próprias crenças científicas. Não há evidência de que tratamento antecipado possa reverter as chances de instalação de um câncer”.

Paciente: “Doutor, estou tão desesperado que consegui até sensibilizar um juiz para dar fim a minhas angústias. Aqui está a liminar…”

Médico: “Juízes não são os melhores conselheiros para indicação de tratamentos médicos especializados. E não seriam eles, de qualquer forma, a arcar com as terríveis consequências de um ato tão irresponsável”.

Paciente: “Doutor, se o senhor continuar com sua recusa, vou ter de processá-lo por omissão de socorro… e, se nem isso funcionar, eu me mato. O senhor vai ter de levar essa culpa consigo para o túmulo.”

Médico: “Não posso impedi-lo de levar adiante seu delírio, mas, se puder lhe dar um conselho, vá para casa, relaxe, tome um porre, chore bastante e reflita sobre os motivos de querer destruir seu corpo e sua alma. Por falar nisso, como anda sua vida afetiva? O senhor passou por estresse agudo nos últimos tempos?”

Paciente: “Bem, para ser sincero, minha vida conjugal não está nada boa. Já não sinto desejo por minha esposa e tenho encontrado algum prazer apenas na companhia de meus amigos. Quando saímos para jogar bola, eu fico extasiado com a quase indestrutibilidade dos corpos masculinos quando expostos a atividades físicas extenuantes. Quero continuar a sentir que pertenço plenamente a esse universo. Sabe, na sauna que fazemos depois do futebol, ver o suor escorrendo pelas suas costas, coxas e pernas me dá uma sensação borbulhante de vida e alegria. É isso que quero restituir para minha vida com a terapia da reversão do câncer…”

PS
Embora eu tenha me permitido tratar com ironia a autorização judicial para que “psicólogos cristãos” praticassem terapias de reorientação sexual, estou acabrunhada com a notícia do suicídio do médico Farah Jorge Farah, encontrado morto, vestido de mulher. Nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar caso mais emblemático para ilustrar o sofrimento psíquico de uma criatura que se força a viver uma vida de fachada. Muito provavelmente esse indivíduo acreditou que suas dores de alma desapareceriam se ele evitasse revelar seu universo interior misógino e repleto de ódio a algum profissional qualificado para lidar com esse tipo de problema. Não pretendo justificar os atos extremos de um assassino, mas considero fundamental que nossa sociedade reflita sobre os danos decorrentes da ideia de interferir na estrutura psíquica de uma pessoa fragilizada, seja em nome de algum ideal político, religioso ou de adequação social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

De asilo & de embaixadas ‒ 2

Cláudio Humberto (*)

Com o agravamento da situação penal de Lula, que tem grande risco de cumprir pena de prisão em regime fechado, parlamentares voltaram a discutir a hipótese de fuga do País.

Fontes do PT confirmam que essa opção tem sido considerada pelo próprio Lula. O problema é que ele seria preso sem demora, mediante mandado internacional de captura.

Por isso, a opção seria asilar-se em embaixada “amiga”, tipo Equador, Bolívia ou Venezuela. Mas, pelas regras internacionais, um condenado em ação penal não recebe status de asilado político e sim de fugitivo de justiça.

Os defensores do asilo em embaixada lembram a Lula o caso de Julian Assange, do WikiLeaks, que fez isso em Londres para fugir da Justiça. Há cinco anos na embaixada do Equador, Assange não tem direito a salvo-conduto para deixar o país. Como Lula o seria, Assange é fugitivo da justiça.

As embaixadas da Bolívia de Evo Morales e da Venezuela do ditador Nicolás Maduro seriam os mais prováveis destinos de Lula. A diferença é que Lula foi condenado por corrupção. Assange é acusado de violência sexual, na Suécia, por não usar preservativo.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Mantém coluna no Diário do Poder.

Nota deste blogueiro
Seria decisão temerária o Lula pedir asilo na Bolívia ou na Venezuela. Instáveis, esses países não são propriedade do clã que os subjuga atualmente. Apenas «estão» bolivarianos. O governo desses países hermanos, assentado sobre bases frágeis e hostilizado por numerosos vizinhos, pode ruir a qualquer momento. Assim que desmoronar, como é que fica nosso líder?

O asilo pode muito bem ser revogado. O demiurgo de Garanhuns periga transformar-se então em nau sem rumo, a vogar ao sabor das ondas, sem ter mais onde atracar. Faz lembrar o finado xá da Pérsia, que, expulso do país pela revolução islâmica, ninguém queria acolher. Triste fim.

Mais vale ficar de tornozeleira em São Bernardo do Campo. Ainda que tenha de morar “de favor” em apartamento emprestado.

A língua falada por cada um – 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se é verdade que os esquimós dispõem de mais de uma dezena de palavras diferentes para se referir à neve por simples questão de sobrevivência, que expressões frequentam mais regularmente o linguajar cotidiano dos brasileiros?

Seria, sem dúvida, muito interessante e iluminador fazer uma pesquisa de âmbito nacional para descobrir isso. Tiradas as expressões mais regionais, deve haver alguma mais emblemática que desvele o cerne da alma tupiniquim.

Por coincidência, um sociólogo holandês, que foi meu chefe, decidiu fazer um levantamento por conta própria, ainda que desprovido de rigor científico, encantado que estava com as diferenças de atitude entre o cidadão holandês médio e o homem brasileiro do povo. Para meu supremo espanto, encontrou mais de vinte expressões usadas em todo o país, com uma surpreendente característica comum: todas começando com a palavra “tudo” e comunicando sensação de domínio e bem-estar.

Tudo bom, tudo bem, tudo sob controle, tudo azul, tudo em paz (ou tudo na santa paz), tudo em ordem, tudo nos conformes, tudo indo, tudo como dantes no quartel de Abrantes, tudo como manda o figurino, tudo de vento em popa, tudo junto e misturado, e por aí vai. Garanto que, se você pensar um pouquinho, vai conseguir contribuir e muito para o enriquecimento dessa lista.

O que isso revela sobre nós? Pessoalmente, acredito que duas coisas chamam mais a atenção: a primeira, a referência à nossa capacidade de generalização, expressa na abrangência do “tudo” (no sentido positivo) ou talvez, mais tristemente, à nossa incapacidade de discriminação, de separar o joio do trigo, o desejo de tapar o sol com peneira e não entrar em contato com o lado ruim da realidade nacional.

A segunda, nosso caráter hedônico, a crença ‒ ou ilusão ‒ de que somos um povo afeito à inventividade, à improvisação e de que o resultado sempre será satisfatório se o trabalho for feito com alma e com paixão. Aí estão o futebol, o carnaval e as novelas para provar que podemos ser imbatíveis se não forem impostas restrições externas a nossos talentos e prazeres naturais.

O jeitinho brasileiro, cantado em verso e prosa dentro de nossas fronteiras e olhado com desconfiança por estrangeiros, parece ser mesmo nosso farol máximo. Só elogiamos nossa própria capacidade de superação depois de fazermos referência implícita ou explícita à habilidade de contornar toda forma de obstáculos, venham de onde vierem. Inflação, desemprego, corrupção, violência, falta de assistência médica, falta de educação de qualidade, nada é grave o suficiente para detonar uma revolta popular radical. Ao mesmo tempo, todos os entraves são sentidos como motivação para exibirmos nosso jogo de cintura e criarmos soluções caseiras alternativas.

Não temos pressa também de encontrar respostas para os desafios nacionais. O país é grande, temos terras, gente e recursos naturais suficientes para recomeçar uma vez e outra, se necessário for. Por isso, podemos até mesmo nos dar ao luxo da procrastinação, de empurrar com a barriga o encontro de uma solução definitiva. Uma hora qualquer, tudo acaba entrando nos eixos, é só questão de paciência. No país das revoluções sem sangue, em que as leis pegam ou não pegam, em que as regras são alteradas da noite para o dia, depois de começado o jogo, tudo nos induz a lidar com as emergências como se elas tivessem apenas caráter provisório. Os conflitos podem ser resolvidos, dispersando populações inteiras de uma região para outra, afastando as favelas dos centros urbanos ou desenvolvendo atrações em bairros periféricos. Somos campeões na criação de cenários conotativos de paraíso tropical, ainda que saibamos que, em última instância, eles sejam só “para inglês ver”.

Até na religião se manifesta nossa secular sede de inclusão de “tudo” e de “todos”. O sincretismo é nosso jeito especial de multiplicar possíveis bases espirituais de apoio, de conciliar os interesses da elite e do povo, de dizer que a verdadeira felicidade não está neste plano. Para quê, então, esfalfar-se na lida diária, sob um sol inclemente, se o homem põe e Deus dispõe?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dinheiro para ditadores

Políbio Braga (*)

Bilhões aos ditadores de Cuba via Mais Médicos

Governo brasileiro já deu R$ 5,7 bilhões aos ditadores de Cuba, tudo por conta do Mais Médicos. O blog Antagonista obteve dados atualizados e inéditos sobre o gasto do governo brasileiro com o Programa Mais Médicos.

Em apenas quatro anos, foram repassados à Opas (Organização Panamericana de Saúde), com destino final Cuba, mais de R$ 5,7 bilhões.

Desse total, R$ 4,3 bilhões foram gastos com a chamada “bolsa-formação”, o nome que se dá ao “salário” dos médicos cubanos.

Como a ditadura dos Castros embolsa 75% do valor pago pelo governo brasileiro, algo em torno de R$ 3,2 bilhões foram desviados da finalidade original do programa.

A cifra é superior aos R$ 2,9 bilhões que o BNDES ‘emprestou’ para obras do Porto de Mariel (R$ 2,4 bilhões), aeroporto de Havana (R$ 525 milhões) e para construção de fábricas locais (56 milhões).

Significa dizer que o Brasil entregou ao governo cubano dinheiro suficiente para construir outro porto, outro aeroporto e mais fábricas. Dinheiro que não será devolvido.

Para quem tem curiosidade, a diferença entre o total de R$ 5,7 bilhões e os R$ 4,36 bilhões das “bolsas” – cerca de R$ 1,3 bilhão – foi usada para pagamento de passagens aéreas, consultorias, auxílios diversos e com as taxas de administração da Opas.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.