O país do molha a mão

Carlos Brickmann (*)

A procuradora-geral Raquel Dodge disse, ao tomar posse, que o povo “não tolera a corrupção”. Sua Excelência está certa, mas na frase faltou um pedacinho que lhe daria mais precisão: o povo não tolera “a corrupção dos outros”. O problema não somos nós, mas aqueles safados que condenamos.

Uma entidade séria, a Transparência Internacional, em pesquisa agora divulgada, mostrou que 11% dos brasileiros admitiram pagar propina para ter acesso a serviços públicos como saúde, educação, segurança, emissão de documentos. Detalhe interessante: a pesquisa se realizou na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, com manifestações de massa contra a corrupção do governo. Petrolão, não; mas tudo bem molhar a mão.

As respostas positivas, em que tanta gente confessa não apenas seu hábito de transgredir a lei como o desprezo pelos que protestam contra isso, são obviamente verdadeiras: ninguém mente ao confessar que age fora da lei. Portanto, se as autoridades pensam ter apoio do povo para combater os atos mais comuns de corrupção, podem ir desde logo mudando de ideia.

A pesquisa, porém, traz aspectos mais positivos. Dos brasileiros, 81% garantem que, se presenciassem um ato de corrupção, denunciariam. Claro que até agora ninguém o fez, exceto em troca de algum tipo de perdão dos suculentos – em alguns casos, tão bons que vale a pena até assumir a culpa de um crime. Mas é bom sinal. Quem sabe um dia?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Mudança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos melhores livros que já li leva exatamente esse título. Escrito por três psicólogos americanos, defende a tese de que uma estratégia de mudança, para ser efetiva e duradoura, precisa ser em alguma medida paradoxal. Em outras palavras, ela precisa propor um novo paradigma, um novo enquadramento para a realidade que se deseja alterar, capaz de inspirar soluções alternativas às já tentadas.

Valendo-se da teoria matemática dos grupos, os autores explicam que, se a solução sugerida pertencer ao mesmo grupo do problema, ela perderá eficácia a curto prazo, e os benefícios, se houver algum, terminarão sendo automaticamente anulados com o tempo. Em linguagem matemática, se o problema for representado por +1 e a tentativa de solução por -1, o resultado será sempre zero se ambos pertencerem ao mesmo grupo.

Pense, por exemplo, numa pessoa que sente frio. A tendência universal é recorrer a medidas conceitualmente ancoradas na sensação oposta, ou seja, na ideia de se aquecer. A pessoa pode recorrer de início a alguma fonte externa de calor, como um cobertor, meias de lã ou agasalho. Se não funcionar, ela simplesmente aumenta a dose.

O conforto trazido pode representar um importante alívio dos sintomas, o que induz a pessoa a crer que seu problema está resolvido em definitivo. No entanto, a própria imobilidade do corpo, esmagado sob tantas camadas de roupa e de acessórios, fará com que a sensação de frio volte a incomodar. A pessoa pode, então, experimentar alternativamente alguma forma de geração de calor interno, exercitando-se vigorosamente ou ingerindo alguma bebida quente. Nesse caso, a transpiração levará inexoravelmente de volta a um resfriamento da pele e nova onda de frio será experimentada.

Pense agora na solução implementada pelos esquimós para combater o frio extremo de seu habitat. Os iglus, mesmo construídos com blocos de neve, mostraram ser uma solução engenhosa e eficaz por terem partido de outro conceito-base: o de impedir a circulação dos ventos. Graças a esse novo paradigma, vários outros produtos puderam ser desenvolvidos para combater a hipotermia, como é o caso dos agasalhos térmicos, que incorporam uma camada externa impermeável aos ventos. Até mesmo o frio causado pelo contato com as águas geladas dos oceanos, rios e lagos pode ser minimizado com o uso de trajes de mergulho de neoprene.

Os autores oferecem dezenas de exemplos deliciosos e instigantes de mudanças paradoxais introduzidas com sucesso ao longo da história, tanto em termos comunitários quanto na vida de pessoas comuns. Um dos que mais gosto diz respeito a um oficial francês que recebe ordens de Maria Antonieta para esvaziar a praça em frente ao palácio. Percebendo a enorme desproporção numérica entre seus soldados e a multidão que se aglomera em protesto, ele tem uma súbita inspiração. Sobe num caixote e grita, chamando a atenção da multidão. Em tom respeitoso e sério, ele se dirige aos camponeses e operários dizendo ter recebido ordens de se livrar apenas e tão somente de ‘la canaille’, ou seja, dos indivíduos vis e desprezíveis. Diz ainda que, por não ter como distingui-los a distância, pede encarecidamente a todos os cidadãos de bem que retornem às suas casas. A praça se esvazia em segundos.

Trago de volta essas lembranças inspirada pelo clima geral de final de feira em nossa república. Qual será a estratégia de mudança que teremos de elaborar para pôr fim a tanta desfaçatez, decadência moral e esgarçamento do tecido político, institucional e social em 2018?

Já experimentamos de tudo um pouco: desde intermináveis soluções de força a dirigentes que se proclamam não-políticos como forma de atrair a simpatia de eleitores indignados, passando por toda uma gama de líderes populistas de direita e de esquerda. Fizemos testes com membros da elite e com um da classe operária, com muitos homens e uma única mulher, com figuras públicas afeitas à norma culta da língua portuguesa e outras constrangedoramente donas de raciocínios tortuosos e discurso ilógico e gramaticalmente incorreto. Tivemos até um ditador reconduzido à presidência da república nos braços da população e fervorosamente aclamado como “pai do povo”.

Analisando todos os perfis de dirigentes até onde minha memória alcança, sou forçada a admitir, entretanto, que até hoje não conseguimos pensar fora da caixa. Continuamos elegendo sempre o perfil contrário ao de quem nos desagrada no momento, sem atinarmos com soluções pertinentes a outros grupos conceituais.

Que novos conceitos ainda nos resta explorar? Será que teremos de eleger não o candidato, mas o próprio marqueteiro que cuidou da campanha a peso de ouro? Será que um homem de televisão conseguirá aglutinar em torno de si cérebros privilegiados e corações sinceramente dedicados à nobre tarefa de servir aos interesses da população? Será que um jurista pode nos prometer mais isenção frente aos conchavos partidários e mais idoneidade no trato da coisa pública?

Não tenho as respostas, estou aceitando sugestões, por mais bizarras que elas sejam. Minha capacidade criativa – com o perdão do digno editor deste blog – foi devastada por décadas de irracionalidade e nonsense. No meu cérebro já não nasce nem a grama dos projetos comezinhos de sobrevivência individual. Duvido até da necessidade de lideranças para conduzir nosso imenso e complexo agrupamento social. O caos também é criativo, ora bolas.

Confesso por fim que tenho sentido ímpetos de cortejar a ideia de democracia direta. Alguém mais disposto a embarcar comigo nessa tentação?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Gerúndio criminalizado

Criminalizar gerúndio por causa do gerundismo é uma bobagem atroz

Sérgio Rodrigues (*)

Outro dia recebi de um conhecido uma mensagem que primeiro me fez sorrir, mas logo me deixou triste. O sujeito dizia que, refletindo sobre um conjunto de dados, tinha chegado a determinada conclusão.

Dados e conclusão não vêm ao caso. O que merece atenção aqui é a cunha que o meu conhecido achou importante meter no texto, entre parênteses: “Analisando (desculpe o gerundismo!) as informações disponíveis, concluo que…”.

Pensando por alguns segundos, concluí que precisava pensar por mais alguns segundos. Foi aí que a graça inicial daquilo (como assim, chamar um gerúndio perfeitamente funcional de “gerundismo”, com exclamação e tudo?) deu lugar a uma certa tristeza.

O cara não está entendendo bem o que se passa, e tem numerosa companhia. Muita gente no Brasil ouviu cantar o galo gerundista do telemarketing e concluiu que toda forma verbal terminada em “-ndo” é um ruído, um arroto, uma gafe.

Trata-se de uma bobagem atroz. O gerúndio é bacana. Versátil, vem sendo usado desde o nascimento da língua portuguesa para expressar ideias de continuidade ou frequência e criar outras modulações de tempo, modo e causa.

Embora também possam ser encontradas assumindo outras formas no vasto mundo da língua, essas ideias muitas vezes têm no gerúndio sua expressão mais elegante e concisa.

“Senhor, esteja aguardando na linha que vamos estar informando quando o senhor vai estar recebendo o produto” é uma frase ridícula, óbvio. No entanto, partir daí para condenar todos os gerúndios equivale a responsabilizar a bola pelo 7 a 1.

O que se chama de gerundismo é o vício canhestro de tratar como frequentativas –isto é, habituais, que se repetem– todas as ações do mundo. Mesmo a construção que esse modismo terminou avacalhando tem o seu lugar: “Nos próximos meses não vou viajar, estarei estudando para o Enem”.

Sendo o Brasil um país pouco letrado, com índices de leitura capazes de precipitar monges taoístas em abismos de angústia e revolta, não surpreende que tantas vezes o pessoal acabe se confundindo com a fronteira entre o abuso e o uso razoável de determinado recurso.

Quando sabemos que sabemos pouco, é natural que nossa insegurança transforme a liberdade de escolha, valor fundamental da ética e da estética, em campo minado. Daí o velho apego brasileiro à hipercorreção e a regras autoritárias em letras garrafais: isso está CERTO, aquilo está ERRADO, fim de papo.

Juntando-se a esse quadro um dos mais clássicos mal-entendidos da lusofonia, a trama se adensa. “Ah, os portugueses não usam o gerúndio” é uma ideia falsa. Essa forma nominal do verbo tem emprego firme em certas regiões de Portugal.

Ainda que fosse verdadeira, supor que a “brasilidade” rebaixaria de alguma forma o gerúndio é pura vira-latice. “A dizer” não tem nada de intrinsecamente superior a “dizendo”. Na verdade, poderia até ser visto como um uso bárbaro por um conservador radical que tomasse o português camoniano como padrão-ouro do idioma.

Com seus “reis que foram dilatando a fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando”, tirem o gerúndio de Camões e verão Os Lusíadas se desfazendo em milhares de caquinhos.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Psiconeuroimunologia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Passeando pela seção de ciências de um conhecido jornal, dei de cara com esse palavrão. Curiosa, fui investigar do que se tratava. De início, uma certa decepção. Era apenas a designação dada a um campo interdisciplinar de estudos científicos que se propõe a revelar as conexões entre a psicologia, a neurologia e o sistema imunológico.

Fiquei intrigada. Que as emoções interferem na saúde geral do corpo é fato comprovado cientificamente há mais de meio século. Muito já se estudou a respeito do papel dos neurotransmissores na promoção de sensações de bem-estar, assim como sobre a influência potencialmente deletéria de alguns hormônios ligados ao estresse sobre a imunidade. Nada de novo, portanto.

Por que, então, querer agrupar antigas áreas de pesquisa científica e rebatizar o conjunto, emprestando a ele ares de um novo campo do saber? Pelo que entendi, ainda faltava desvendar mais precisamente através de quais mecanismos os processos mentais atuam sobre a saúde. Ou seja, descobrir como o sistema nervoso central influencia e é influenciado pelo sistema endócrino e de que maneira os dois se articulam com as instâncias psíquicas para gerar a resposta imune. Uma vez conhecidos os vetores, ainda era preciso investigar de que forma o psiquismo humano pode se tornar um aliado estratégico para reforçar a imunidade do corpo. Ou, inversamente, como evitar que ele se posicione como força motriz para o aparecimento de doenças autoimunes, como o câncer, o diabetes e a aids.

Não foi nada disso, entretanto, o que aguçou minha curiosidade. O que me encantou mesmo foi saber como tudo começou. A estória é banal e demonstra, mais uma vez, a importância do acaso para o avanço do conhecimento científico. Tudo teve início em 1986, quando um professor de psicologia teve a ideia de pedir a seus alunos que escrevessem sobre o maior trauma de suas vidas ou, se não tivessem passado por nenhum, sobre o momento mais difícil que haviam vivido.

O professor insistia para que eles fossem o mais fundo possível na reminiscência de cada detalhe e colocassem no papel seus pensamentos e sentimentos mais profundos, mesmo que nunca tivessem ousado compartilhá-los antes. A tarefa foi repetida por vários dias consecutivos, para que os participantes pudessem dar vazão plena aos meandros de seu conturbado universo emocional interior. ara dar validade científica ao experimento, foi formado também um grupo de controle, ao qual se atribuiu a tarefa de registrar pensamentos e sentimentos a respeito de eventos cotidianos neutros, pelo mesmo número de sessões.

Segundo relato do próprio pesquisador, vários alunos choraram durante as sessões e afirmaram que ficar remoendo o passado havia feito com que eles se sentissem, de início, ainda pior. Curiosamente, no entanto, quando indagados se preferiam abandonar o experimento, todos expressaram o desejo de continuar. Nos seis meses seguintes, o professor monitorou a frequência com que os estudantes iam ao médico. Descobriu, sem muita surpresa, que aqueles que haviam se envolvido com o que hoje é chamado de “escrita expressiva” haviam se consultado muito menos vezes do que os colegas “neutros”.

Ele acreditava que o efeito benéfico sobre a saúde se devia apenas à catarse. Ou seja, pelo fato de terem se livrado de uma carga emocional pesada, os participantes provavelmente estavam apenas colhendo os frutos de uma menor preocupação com sintomas de desconforto físico. Mas a pesquisa não parou por aí. Vários outros experimentos foram realizados na sequência, enfocando quais áreas da saúde eram mais impactadas positivamente, desde problemas simples, como disfunções respiratórias, até os mais complexos, como o câncer.

Alguns resultados mostraram-se decepcionantes, seja por não apresentarem relevância estatística, seja por não perdurarem no tempo. Havia uma área, entretanto, em que os exames de laboratório mostravam resultados positivos mais consistentes e duradouros: o da cicatrização de ferimentos. Alguns voluntários foram até mesmo recrutados para se submeterem a um ferimento intencional (corte no braço e retirada de uma pequena amostra de pele) para analisar como e porque isso acontecia.

Foi então que o pesquisador decidiu investigar o tipo de linguagem usada na escrita expressiva e correlacioná-la com a melhora na saúde. Descobriu que aqueles cujos ferimentos saravam mais rápido haviam iniciado seus relatos usando mais vezes a palavra “eu” e, ao longo do tempo, migraram para o uso mais frequente de relatos em terceira pessoa, o que seria um indicador de mudança sutil de perspectiva na análise dos eventos traumáticos.

Além disso, essas pessoas recorriam mais vezes à palavra “porque”, o que sugeria que elas estavam aprendendo a dar um sentido aos acontecimentos e os alinhavando numa narrativa mais pessoal e estruturada.

Não estou sugerindo com essas divagações que estamos diante de uma revolução na ciência. Claramente, ainda não há nada de muito espetacular nas descobertas feitas até aqui. O que me é altamente estimulante, porém, é saber que ainda há um campo fascinante e muito extenso de investigação científica a ser explorado pelas futuras gerações.

Meu interesse pela área da psiconeuroimunologia fica ainda mais despertado quando penso na dificuldade que os jovens de hoje em dia, educados pelo e no mundo virtual, sentem de lidar com a linguagem escrita. O “internetês” criado por eles – os kkkkk e os rsrsrs para expressar divertimento, o recurso aos emojis para comunicar emoções e aos likes para manifestar concordância ou apoio – deixa em mim uma sensação amarga de retrocesso da capacidade humana de criação de vínculos.

Em psicanálise, costuma-se dizer que um dos sinais indicadores de desenvolvimento de maturidade psíquica surge quando a pessoa aprende a dar nome aos próprios sentimentos e emoções. Mais tarde, a interlocução afetiva efetiva vai depender em grande parte da precisão dessa linguagem interior.

Outra coisa que me preocupa e assusta é que o século 21 parece ter trazido consigo uma recusa maciça das novas gerações de se aventurarem livremente nos processos de interiorização. Passamos a viver na periferia de nós mesmos, incapazes de delinear os contornos de nossa subjetividade, voltados para fora e interessados apenas em garantir nossa aceitação na comunidade virtual.

É em função de tudo isso que ouso sugerir uma nova explicação para os fenômenos de cura observados através da escrita expressiva. Talvez seja reservando um tempo para meditar e lamber nossas feridas internas que possamos, finalmente, restabelecer as fibras de nosso tecido anímico, social e existencial.

A pesquisar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Baú de memórias ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não é estória de pescador. Foram eventos reais e tão surpreendentemente reveladores das minhas limitações que eu os havia enterrado bem fundo no meu baú de memórias.

Eu era muito jovem na ocasião. Recém-formada, sem experiência no mundo profissional, carente de autoconfiança, tudo conspirava para fazer de mim uma pessoa tímida, defensiva e impressionável. Trabalhava no departamento médico de uma empresa paraestatal, respondendo sozinha pela coordenação do setor de seleção de pessoal.

Um de meus colegas de departamento era uma médica psiquiatra, já madura e experiente. Mulher muito alta e corpulenta, a simples presença dela era suficiente para impor respeito. Um sorriso sempre nos lábios e seu caloroso olhar acolhedor, no entanto, deixavam claro que ela era dona de espírito crítico e senso de humor refinado, que não precisava usar a autoridade como arma para intimidar ninguém. Foi ela quem me deu a primeira e mais preciosa lição a respeito do que significa inteligência emocional, um conceito que só seria formulado décadas mais tarde.

O chefe do departamento era um médico cardiologista um tanto limitado intelectualmente, visceralmente machista, que acreditava que todos os conflitos internos podiam ser resolvidos através de sua lábia e comportamento pretensamente sedutor. Eu me esforçava o quanto podia para driblar seus assédios, fechando a cara, me empertigando e tentando parecer séria.

A primeira vez em que a vi reduzir a pó sua fachada de segurança aconteceu durante uma reunião de departamento. Ele havia aberto o encontro com ar compenetrado, explicando que havia recebido ordens da diretoria no sentido de otimizar os recursos humanos do departamento. Para tanto, propunha ele, era necessário que nós duas elaborássemos um levantamento estatístico do número de casos atendidos por mês, separando-os por categoria diagnóstica. Ou seja, ele queria saber quantos candidatos “normais” e quantos portadores de distúrbios mentais ou psicológicos, como esquizofrênicos, psicopatas, neuróticos de todos os matizes, epiléticos, alcoólicos crônicos, etc. haviam passado por nossas mãos.

by Tania Messaoudi (1989-), desenhista francesa

Estupefata, eu buscava, sem sucesso, algum meio de comunicar a ele do modo mais educado possível a implausibilidade de seu pedido. Sentada a meu lado, a psiquiatra, ao contrário, parecia se divertir com a situação. Com serenidade, ela tomou a palavra e disse literalmente: “O senhor está parecendo um chefe de família que decide entrevistar a esposa e cada um dos filhos para saber quantas vezes eles defecam por semana para, dessa forma, poder planejar a compra de papel higiênico para o próximo mês”.

Afrontado e ridicularizado, ele reagiu com indisfarçável sarcasmo: “Da sua boca, minha senhora, só se pode esperar m… só sai porcaria mesmo”.

Gargalhando, ela prontamente retrucou: “Doutor, a merda está na sua cabeça, não na minha boca”.

Foi o que bastou. A reunião foi encerrada ali e ele nunca mais trouxe o assunto de volta à baila. Profundamente impressionada com essa aula magna de perspicácia, eu passei a buscar o aconselhamento dela para outras situações difíceis de trabalho. Poucos meses depois, a empresa foi chamada a cuidar do processo de seleção de juízes de primeira instância para uma vaga no Tribunal de Justiça Militar.

Era época de ditadura e eu me sentia extremamente atemorizada para fazer valer meu poder de aprovar ou rejeitar qualquer daquelas figuras de autoridade. Era uma tarefa hercúlea para quem sabia não dispor de suficiente isenção para avaliar o psiquismo de militares, nem equilíbrio emocional suficiente para enfrentar eventuais recursos e apelações.

Um dos candidatos era um tipo asqueroso, que não demonstrava qualquer pudor em lançar mão dos recursos mais vis para alcançar seus objetivos. Eu o havia submetido a testes psicológicos que apontavam sérios desvios comportamentais, mas hesitava em colocar no papel um diagnóstico claro de inadequação para a função.

Talvez por já antever uma reprovação, o tal indivíduo achou por bem subornar um funcionário administrativo para ter acesso ao arquivo com os exames e laudos, o que foi feito de madrugada. Inteirado de sua periclitante situação, na manhã seguinte ele procurou e pagou um psiquiatra particular para elaborar um laudo que negasse as suspeitas levantadas.

A prova final era uma entrevista com minha colega psiquiatra. Eu a procurei logo cedo e falei da minha angústia para expor fatos tão graves ao juiz-presidente do tribunal. Afinal, era minha palavra contra a dele e contra a de um outro profissional, mais qualificado que eu. Ela me acalmou, sugerindo que eu deixasse a cargo dela a tarefa de desmascarar o sujeito.

Ansioso, no dia marcado ele chegou para a entrevista com algumas horas de antecipação. Aboletou-se numa cadeira da sala de espera, fingindo descontração e autocontrole. A cada candidato que saía da sala após a entrevista, ele investigava que tipo de pergunta ela fazia, que tipo de testes eram feitos e como cada um havia respondido. Descobriu dessa maneira que teria de passar por um exame neurológico, que consistia em ficar em pé no meio da sala, descalço e de olhos fechados, fazendo um quatro com as pernas.

Quando chegou sua vez, ele entrou na sala com ar arrogante e foi logo desamarrando os sapatos. Levantou-se, pôs-se na posição, sem que nada lhe houvesse sido solicitado. Ela, em total silêncio, deixou que ele passasse vários minutos na posição. Incomodado com a falta de outras orientações, o sujeito finalmente abriu os olhos e percebeu que ela o encarava com um olhar de surpresa e divertida interrogação.

Candidamente, ela então perguntou: “O senhor costuma fazer isso com frequência?“. Constrangido, ele ainda tentou disfarçar: “Isso o quê?”

“Ficar nessa posição esquisita sempre que entra num consultório médico”, respondeu ela.

Dali para frente, como bem se pode imaginar, o indivíduo perdeu o controle da situação e caiu em seguidas contradições. Quando ele saiu, ela me chamou para mostrar seu laudo. Em poucas palavras, ela havia condensado com maestria as táticas empregadas pelo candidato e redigido seu parecer de tal forma que ele não pudesse vir a contestar uma só palavra.

Estava escrito algo como: “Indivíduo ansioso, impulsivo, que atropela o bom senso, tomando iniciativas esdrúxulas, sem que tenha havido demanda externa. Falta-lhe ponderação, argúcia e controle emocional para lidar com decisões delicadas, o que o inabilita para assumir as graves tarefas pretendidas por esse egrégio tribunal”.

Sua candidatura foi inapelavelmente rejeitada pelo tribunal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

À míngua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Hoje minha alma acordou nublada. Uma sensação vaga de desconforto aqui, uma espécie de insatisfação ali, um certo desalento acolá.

Preocupada com tanta apatia, perguntei a ela: “O que está acontecendo com você?”

Ela respondeu num muxoxo: “Nada…”

“Como assim? Estou vendo que você está muda, murcha, acabrunhada”, insisti.

“Pois é.… parece que estou anestesiada…. Será que você não percebe que a causa do meu mal-estar é exatamente o fato de que não estou sentindo nada?”

A resposta me chocou. Num exame rápido, constatei que ela estava dizendo a verdade. Nada parecia ter a força de tocá-la, afetá-la, sensibilizá-la. Minha mente começou a divagar, tentando ajudá-la a identificar o momento em que ela perdeu o rumo e se deixou cobrir por uma grossa camada de indiferença. De onde vinha esse anestesiamento emocional?

Até ontem, ponderei, meu cérebro estava febril, correndo alucinado de um lado para outro, tentando estabelecer novas conexões, como nunca havia ousado antes. Eu estava até me sentindo orgulhosa desse arroubo juvenil tardio. Mas, pensando bem, havia algo mais no fundo da consciência que me incomodava. A sensação, recordei, era a de que não havia tempo a perder.

A taquicardia, a sensação de urgência e a inegável voracidade da procura bem podiam ser sinais de que a energia elétrica estava se esgotando em todos os meus circuitos cerebrais. Talvez, no desespero de chegar a algum lugar antes que o Alzheimer me pegasse, eu inadvertidamente tenha consumido toda a reserva de oxigênio disponível.

Mas, se isso era verdade, me perguntei, onde encontrar novos fornecedores desse combustível? A resposta explodiu como uma bomba em meu peito. Na troca com outras pessoas! Era dessa falta que tanto minha cabeça quanto minha alma se ressentiam, afinal.

Fez-se subitamente luz. Eu tinha passado as últimas semanas acionando todo mundo que se dispusesse a dialogar comigo sem compromisso, a pensar junto. Poucas, muito poucas pessoas reagiram bem ao convite. A imensa maioria simplesmente preferiu ignorar a solicitação. Sabe como é, o trabalho, o cuidado com a família e os imprevistos tomavam todo seu tempo.

Passei a procurar no mundo virtual algum estímulo minimamente personalizado que tivesse o condão de me retirar daquele tédio existencial. Tudo o que encontrei foram respostas prontas e genéricas, típicas de manual de autoajuda. Nenhum sinal de vida humana inteligente realmente interessada em indagar, especificar, relativizar, contraditar ou acrescentar ângulos pessoais para as minhas questões. Era como morrer de fome em meio a um festim pantagruélico. Tanto alimento para o pensamento e nenhum específico para o tipo de satisfação que minha alma buscava.

Lembrei da tese de um estudioso das conexões corpo-mente que dizia que a psique humana é como uma sanfona. Para produzir sons harmônicos, ela precisa ser capaz de se expandir e contrair totalmente, abrindo-se de forma igual para os dois lados. Se a vareta de um dos lados do fole está quebrada, já não é possível a plena expressão dos sons do lado oposto.

Em outras palavras, se a gente se recusa a vivenciar a dor, torna-se, sem querer, inapto para experimentar alegria. Se tememos ser tomados cegamente pelo rancor ou pela raiva, não conseguimos mais nos deixar inundar pelo sentimento de ternura. Talvez fosse exatamente isso o que os gregos queriam dizer quando afirmavam que só se conhece os sabores por seus opostos. Difícil de aceitar, mas só quem já provou do amargo pode conhecer o que é doce.

Seja como for, ainda me parecia que o que estava acontecendo com minha alma não era, em definitivo, a falta de variedade, de contraste. Ao contrário, lembrava algo mais próximo ao cansaço com tanto estica-e-puxa de suas fibras. Algo parecido com a sensação de déjà-vu diante de tantas manifestações de extremismo, passionalidade. Mais propriamente, era algo como uma vontade de se recolher, de passar desapercebida, de não incomodar.

Para quem ainda não chegou lá, eu explico. Na velhice, não é nada raro a gente se sentir como uma caixa colocada no meio da sala da casa de outras pessoas, que atrapalha a livre circulação dos moradores. E, como ninguém se preocupa em retirá-la do caminho, a gente vai acumulando pó. A sensação de não-pertencimento ao ambiente começa a causar deformações profundas na estrutura da caixa e, finalmente, a incapacidade de sentir prazer se instala.

Sem sombra de dúvida, concluo, minha alma está de volta ao limbo. Como dizia um amigo, já não importa se eu estou certa e o mundo errado, ou se é o contrário. Se sou minoria, sou eu quem tem de mudar. Alguém aí para me jogar uma corda redentora?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Consulta heterodoxa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O paciente entra na sala do oncologista pálido, abatido. O médico o convida a sentar. Ele se curva lentamente e desaba sobre a cadeira, com um gemido. De cabeça baixa, permanece em silêncio por vários minutos.

Preocupado, o médico o estimula: “Como posso lhe ajudar?”

Uma lágrima desce hesitante pela face do paciente. Ele se apruma, encara com firmeza o médico e diz: “Quero fazer uma terapia de reversão do câncer”.

Atônito, o médico indaga: “Como assim? O senhor foi diagnosticado recentemente com câncer por algum colega?”.

Um tanto constrangido, o paciente comenta: “Na verdade, ainda não. Já consultei especialistas de várias áreas, fiz todos os exames que eles solicitaram, mas até agora não foi possível estabelecer um diagnóstico definitivo. Pode parecer loucura da minha parte, mas sei que estou doente e que é só uma questão de tempo para encontrar o exame certo para meu caso”.

Já começando a antever problemas na relação, o médico opta por uma conduta de cautela e dá continuidade à anamnese: “O que o leva a crer que está com câncer? Em qual órgão?”

O paciente se agita na cadeira e, momentaneamente animado, despeja uma lista interminável de sintomas: “Ah, doutor, tenho sentido dores para urinar, sinto uma massa estranha na minha próstata quando me sento ou me dobro para calçar as meias, um cansaço abominável o dia inteiro, perdi muito peso nos últimos meses, meu cabelo está se tornando ralo e caindo, perdi boa parte da minha libido e, quando tento uma relação, perco rapidamente a ereção…”

Médico: “Há toda uma série de doenças com sintomas parecidos. Por que não seria, por exemplo, uma simples infecção urinária?”

Paciente: “É, eu até cheguei a considerar essa possibilidade. Mas depois, consultando o Google, percebi que há vários outros sinais que confirmam a existência de uma neoplasia”.

Médico: “Mas, então, me diga. Por qual razão nenhum dos exames foi capaz de confirmar sua suspeita? Posso vê-los?”

Paciente: “Ah, doutor, infelizmente a realidade é que os exames laboratoriais no Brasil ainda são muito limitados. Não temos acesso a equipamentos de última geração, nem profissionais qualificados para pesquisar em profundidade indicadores pouco conhecidos”.

Médico: “Pelo que posso constatar em seus exames, não há nenhuma razão para preocupação. Mantenho contato regular com especialistas americanos e europeus e posso lhe afiançar que o senhor não obteria resultados diferentes em país mais avançado”.

Paciente: “Seja como for, doutor, pressinto que estou morrendo. Preocupo-me em deixar minha mulher e meus filhos desamparados e, por isso, quero me submeter à quimioterapia, radioterapia e tudo o mais a que tenho direito. Só não quero passar por uma cirurgia porque tenho medo de ficar impotente o resto da vida”.

Médico: “O senhor está louco? Eu jamais aceitaria fazer o que o senhor propõe. Os resultados seriam desastrosos, para o senhor e para mim. As substâncias usadas na quimioterapia são drogas muito potentes, que nem sempre discriminam células sadias das cancerosas e que, portanto, apresentam importantes efeitos colaterais negativos sobre sua saúde em geral. Os efeitos nocivos da radiação são também velhos conhecidos da medicina. Se não fosse por tudo isso, eu ainda poderia ter minha licença cassada pelo Conselho de Medicina por sujeitar um paciente a um tratamento não-indicado e desnecessário”.

Paciente: “Estou pronto para assinar uma autorização, assumindo todos os riscos e eximindo o senhor de qualquer responsabilidade pelas consequências”.

Médico: “Mesmo assim, não há hipótese de eu embarcar na sua loucura. Olhe, amigo, conheço vários profissionais de psicologia e psiquiatria que poderiam ser de grande ajuda para o senhor neste momento”.

Paciente: “Não adianta, doutor. Já consultei vários deles e foram unânimes em sugerir que eu procurasse antes um urologista oncologista”.

Médico: “Bom, se esse é o caso, não sou a pessoa certa para atendê-lo. Não posso contrariar minhas próprias crenças científicas. Não há evidência de que tratamento antecipado possa reverter as chances de instalação de um câncer”.

Paciente: “Doutor, estou tão desesperado que consegui até sensibilizar um juiz para dar fim a minhas angústias. Aqui está a liminar…”

Médico: “Juízes não são os melhores conselheiros para indicação de tratamentos médicos especializados. E não seriam eles, de qualquer forma, a arcar com as terríveis consequências de um ato tão irresponsável”.

Paciente: “Doutor, se o senhor continuar com sua recusa, vou ter de processá-lo por omissão de socorro… e, se nem isso funcionar, eu me mato. O senhor vai ter de levar essa culpa consigo para o túmulo.”

Médico: “Não posso impedi-lo de levar adiante seu delírio, mas, se puder lhe dar um conselho, vá para casa, relaxe, tome um porre, chore bastante e reflita sobre os motivos de querer destruir seu corpo e sua alma. Por falar nisso, como anda sua vida afetiva? O senhor passou por estresse agudo nos últimos tempos?”

Paciente: “Bem, para ser sincero, minha vida conjugal não está nada boa. Já não sinto desejo por minha esposa e tenho encontrado algum prazer apenas na companhia de meus amigos. Quando saímos para jogar bola, eu fico extasiado com a quase indestrutibilidade dos corpos masculinos quando expostos a atividades físicas extenuantes. Quero continuar a sentir que pertenço plenamente a esse universo. Sabe, na sauna que fazemos depois do futebol, ver o suor escorrendo pelas suas costas, coxas e pernas me dá uma sensação borbulhante de vida e alegria. É isso que quero restituir para minha vida com a terapia da reversão do câncer…”

PS
Embora eu tenha me permitido tratar com ironia a autorização judicial para que “psicólogos cristãos” praticassem terapias de reorientação sexual, estou acabrunhada com a notícia do suicídio do médico Farah Jorge Farah, encontrado morto, vestido de mulher. Nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar caso mais emblemático para ilustrar o sofrimento psíquico de uma criatura que se força a viver uma vida de fachada. Muito provavelmente esse indivíduo acreditou que suas dores de alma desapareceriam se ele evitasse revelar seu universo interior misógino e repleto de ódio a algum profissional qualificado para lidar com esse tipo de problema. Não pretendo justificar os atos extremos de um assassino, mas considero fundamental que nossa sociedade reflita sobre os danos decorrentes da ideia de interferir na estrutura psíquica de uma pessoa fragilizada, seja em nome de algum ideal político, religioso ou de adequação social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

De asilo & de embaixadas ‒ 2

Cláudio Humberto (*)

Com o agravamento da situação penal de Lula, que tem grande risco de cumprir pena de prisão em regime fechado, parlamentares voltaram a discutir a hipótese de fuga do País.

Fontes do PT confirmam que essa opção tem sido considerada pelo próprio Lula. O problema é que ele seria preso sem demora, mediante mandado internacional de captura.

Por isso, a opção seria asilar-se em embaixada “amiga”, tipo Equador, Bolívia ou Venezuela. Mas, pelas regras internacionais, um condenado em ação penal não recebe status de asilado político e sim de fugitivo de justiça.

Os defensores do asilo em embaixada lembram a Lula o caso de Julian Assange, do WikiLeaks, que fez isso em Londres para fugir da Justiça. Há cinco anos na embaixada do Equador, Assange não tem direito a salvo-conduto para deixar o país. Como Lula o seria, Assange é fugitivo da justiça.

As embaixadas da Bolívia de Evo Morales e da Venezuela do ditador Nicolás Maduro seriam os mais prováveis destinos de Lula. A diferença é que Lula foi condenado por corrupção. Assange é acusado de violência sexual, na Suécia, por não usar preservativo.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Mantém coluna no Diário do Poder.

Nota deste blogueiro
Seria decisão temerária o Lula pedir asilo na Bolívia ou na Venezuela. Instáveis, esses países não são propriedade do clã que os subjuga atualmente. Apenas «estão» bolivarianos. O governo desses países hermanos, assentado sobre bases frágeis e hostilizado por numerosos vizinhos, pode ruir a qualquer momento. Assim que desmoronar, como é que fica nosso líder?

O asilo pode muito bem ser revogado. O demiurgo de Garanhuns periga transformar-se então em nau sem rumo, a vogar ao sabor das ondas, sem ter mais onde atracar. Faz lembrar o finado xá da Pérsia, que, expulso do país pela revolução islâmica, ninguém queria acolher. Triste fim.

Mais vale ficar de tornozeleira em São Bernardo do Campo. Ainda que tenha de morar “de favor” em apartamento emprestado.

A língua falada por cada um – 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se é verdade que os esquimós dispõem de mais de uma dezena de palavras diferentes para se referir à neve por simples questão de sobrevivência, que expressões frequentam mais regularmente o linguajar cotidiano dos brasileiros?

Seria, sem dúvida, muito interessante e iluminador fazer uma pesquisa de âmbito nacional para descobrir isso. Tiradas as expressões mais regionais, deve haver alguma mais emblemática que desvele o cerne da alma tupiniquim.

Por coincidência, um sociólogo holandês, que foi meu chefe, decidiu fazer um levantamento por conta própria, ainda que desprovido de rigor científico, encantado que estava com as diferenças de atitude entre o cidadão holandês médio e o homem brasileiro do povo. Para meu supremo espanto, encontrou mais de vinte expressões usadas em todo o país, com uma surpreendente característica comum: todas começando com a palavra “tudo” e comunicando sensação de domínio e bem-estar.

Tudo bom, tudo bem, tudo sob controle, tudo azul, tudo em paz (ou tudo na santa paz), tudo em ordem, tudo nos conformes, tudo indo, tudo como dantes no quartel de Abrantes, tudo como manda o figurino, tudo de vento em popa, tudo junto e misturado, e por aí vai. Garanto que, se você pensar um pouquinho, vai conseguir contribuir e muito para o enriquecimento dessa lista.

O que isso revela sobre nós? Pessoalmente, acredito que duas coisas chamam mais a atenção: a primeira, a referência à nossa capacidade de generalização, expressa na abrangência do “tudo” (no sentido positivo) ou talvez, mais tristemente, à nossa incapacidade de discriminação, de separar o joio do trigo, o desejo de tapar o sol com peneira e não entrar em contato com o lado ruim da realidade nacional.

A segunda, nosso caráter hedônico, a crença ‒ ou ilusão ‒ de que somos um povo afeito à inventividade, à improvisação e de que o resultado sempre será satisfatório se o trabalho for feito com alma e com paixão. Aí estão o futebol, o carnaval e as novelas para provar que podemos ser imbatíveis se não forem impostas restrições externas a nossos talentos e prazeres naturais.

O jeitinho brasileiro, cantado em verso e prosa dentro de nossas fronteiras e olhado com desconfiança por estrangeiros, parece ser mesmo nosso farol máximo. Só elogiamos nossa própria capacidade de superação depois de fazermos referência implícita ou explícita à habilidade de contornar toda forma de obstáculos, venham de onde vierem. Inflação, desemprego, corrupção, violência, falta de assistência médica, falta de educação de qualidade, nada é grave o suficiente para detonar uma revolta popular radical. Ao mesmo tempo, todos os entraves são sentidos como motivação para exibirmos nosso jogo de cintura e criarmos soluções caseiras alternativas.

Não temos pressa também de encontrar respostas para os desafios nacionais. O país é grande, temos terras, gente e recursos naturais suficientes para recomeçar uma vez e outra, se necessário for. Por isso, podemos até mesmo nos dar ao luxo da procrastinação, de empurrar com a barriga o encontro de uma solução definitiva. Uma hora qualquer, tudo acaba entrando nos eixos, é só questão de paciência. No país das revoluções sem sangue, em que as leis pegam ou não pegam, em que as regras são alteradas da noite para o dia, depois de começado o jogo, tudo nos induz a lidar com as emergências como se elas tivessem apenas caráter provisório. Os conflitos podem ser resolvidos, dispersando populações inteiras de uma região para outra, afastando as favelas dos centros urbanos ou desenvolvendo atrações em bairros periféricos. Somos campeões na criação de cenários conotativos de paraíso tropical, ainda que saibamos que, em última instância, eles sejam só “para inglês ver”.

Até na religião se manifesta nossa secular sede de inclusão de “tudo” e de “todos”. O sincretismo é nosso jeito especial de multiplicar possíveis bases espirituais de apoio, de conciliar os interesses da elite e do povo, de dizer que a verdadeira felicidade não está neste plano. Para quê, então, esfalfar-se na lida diária, sob um sol inclemente, se o homem põe e Deus dispõe?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dinheiro para ditadores

Políbio Braga (*)

Bilhões aos ditadores de Cuba via Mais Médicos

Governo brasileiro já deu R$ 5,7 bilhões aos ditadores de Cuba, tudo por conta do Mais Médicos. O blog Antagonista obteve dados atualizados e inéditos sobre o gasto do governo brasileiro com o Programa Mais Médicos.

Em apenas quatro anos, foram repassados à Opas (Organização Panamericana de Saúde), com destino final Cuba, mais de R$ 5,7 bilhões.

Desse total, R$ 4,3 bilhões foram gastos com a chamada “bolsa-formação”, o nome que se dá ao “salário” dos médicos cubanos.

Como a ditadura dos Castros embolsa 75% do valor pago pelo governo brasileiro, algo em torno de R$ 3,2 bilhões foram desviados da finalidade original do programa.

A cifra é superior aos R$ 2,9 bilhões que o BNDES ‘emprestou’ para obras do Porto de Mariel (R$ 2,4 bilhões), aeroporto de Havana (R$ 525 milhões) e para construção de fábricas locais (56 milhões).

Significa dizer que o Brasil entregou ao governo cubano dinheiro suficiente para construir outro porto, outro aeroporto e mais fábricas. Dinheiro que não será devolvido.

Para quem tem curiosidade, a diferença entre o total de R$ 5,7 bilhões e os R$ 4,36 bilhões das “bolsas” – cerca de R$ 1,3 bilhão – foi usada para pagamento de passagens aéreas, consultorias, auxílios diversos e com as taxas de administração da Opas.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Constrangimento

Myrthes Suplicy Vieira (*)

As definições de dicionário costumam ser problemáticas para quem está em busca de orientação única, dada a necessidade de considerar significados atrelados especificamente a um determinado contexto. Manga, por exemplo, pode ser uma fruta, parte do vestuário que recobre o braço, tubo usado para envolver condutores elétricos, peça tubular que serve para revestir ou proteger outra peça, parte do eixo de um veículo ou filtro afunilado para líquidos.

E, vejam vocês, toda essa multiplicidade de entendimentos acontece em torno de uma palavra comezinha, trivial, usada para se referir apenas e tão somente a um objeto. O que dizer então das infinitas possibilidades de confusão geradas por palavras que fazem referência a comportamentos, atitudes, valores individuais, princípios sociais, sentimentos ou emoções? Posso apostar que cada um dos que me leem tem sua própria coleção de estórias de situações embaraçosas causadas por alguma impropriedade linguística.

Estrangeiros podem cometer gafes imperdoáveis em função de domínio pobre das nuances semânticas de outra língua. Tradutores se debatem todos os dias com a escolha da palavra certa para transmitir fielmente a mensagem original. Humoristas valem-se muitas vezes das confusões no uso de cada vocábulo para divertir plateias e ganhar a vida. Psicólogos e psiquiatras esfalfam-se no cotidiano da clínica para trazer à luz os significados emocionais ocultos na escolha desta ou daquela palavra.

Tudo isso já era sabido. Por coincidência, os meios de comunicação acabam de nos introduzir a um outro contexto em que uma mesma palavra – constrangimento ‒ ganha conotações próprias, polêmicas e praticamente opostas: a área jurídica. Vários jornais trazem estampadas na manchete duas notícias que abordam as agruras de magistrados brasileiros para lidar com esse conceito. A primeira diz respeito à indignação generalizada, tanto de especialistas de direito quanto de pessoas comuns e, em especial, das mulheres ante a sentença de um juiz que considerou não ter havido constrangimento algum no fato de um homem ter ejaculado no pescoço de uma mulher, no interior de um ônibus que transitava em plena luz do dia pela principal avenida de São Paulo.

A segunda faz referência ao prognóstico de ministros do STF que devem julgar a suspeição de um de seus membros para julgar a libertação de um réu com quem tem relações óbvias de parentesco e compadrio. “A regra é evitar o constrangimento”, afirma a reportagem, especulando que a denúncia não deve prosperar na mais alta corte do país. Cabe perguntar: constrangimento de quem? De seus pares, que prefeririam não se posicionar formalmente contra ou a favor de suas decisões estapafúrdias ou de sua postura de confronto com colegas da magistratura e do ministério público? Ou será o constrangimento de afrontar a opinião pública que já dá mostras de cansaço com os seguidos estupros que os dirigentes de nossas três esferas de poder perpetram contra a consciência cívica e ética dos cidadãos?

Querendo entender um pouco melhor o alcance psicológico do termo constrangimento nas duas situações, fui aos dicionários. A primeira surpresa aconteceu quando me dei conta da dessintonia de significados que ocorre se o verbo se apresenta na forma transitiva direta, indireta ou pronominal (que, no meu tempo, se chamava reflexiva). Preparei até uma lista para destacar as implicações legais e psíquicas de cada vertente de significado:

transitivo direto: apertar, dificultando os movimentos, comprimir; tolher a liberdade, dominar, subjugar, sujeitar; ser inconveniente

transitivo indireto: obrigar alguém a algo pelo uso da força; forçar, coagir, compelir

pronominal: ficar embaraçado, envergonhar-se, vexar-se; sentir-se incomodado; ser vítima de inconveniências ou aborrecimentos. Já quanto ao substantivo constrangimento, os dicionários apontam ainda as seguintes conotações: “força (física, moral ou psicológica) exercida sobre alguém para obrigá-lo a agir contrariamente à sua vontade; situação moralmente desconfortável; timidez diante de outras pessoas, acanhamento, encabulamento, vergonha.”

A sutil diferença implícita? A intenção, os sentimentos e a imagem pública de quem constrange e de quem é constrangido. Impossível deixar de notar que em ambos os casos a pessoa a causar embaraço era um homem com uma vasta folha corrida de transgressões (à lei, à ética ou à moralidade pública) e a pessoa vitimada era uma mulher – além da ministra-chefe do STF que deve decidir se pauta o julgamento em plenário ou arquiva a denúncia, permito-me usar de licença poética para incluir a opinião pública nessa categoria.

Não sou feminista e não pretendo insinuar que, fossem agressor e vítima ambos do sexo masculino, as coisas seriam diferentes. Entretanto, admito que me causou profunda perplexidade o final da sentença do juiz do primeiro caso. Para os que não tomaram conhecimento dela, aqui está: “Entendo que não houve constrangimento, violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada [grifo meu] em um banco de ônibus quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado”.

Em outras palavras, para esse magistrado, assim como, infelizmente, para muitos outros homens, a sacralidade do corpo feminino e a defesa da dignidade da mulher continuam centradas no conceito de não-violação de seu orifício vaginal. Considerando que o agressor se aliviou “apenas” no pescoço da vítima, à luz do sol e em via pública, deve ter parecido sensato ao digníssimo concluir pela não-violência do ato e enquadrá-lo como simples contravenção penal, de menor potencial ofensivo.

O segundo caso deixa transparecer outro conceito francamente medieval e de efeito igualmente deletério para a preservação da tese de direitos iguais para todos: o de que juízes, por natureza, direito divino ou prerrogativa de cargo, estão além e acima das paixões humanas.

Atenção, céticos de plantão do século 21: aprendam de vez mais uma preciosa lição ministrada por nosso Judiciário: suspeita será sempre a motivação de arguir a suspeição de um varão ou de um magistrado só porque eles chamam a si a prerrogativa de impor suas interpretações da realidade, suas visões de mundo e seus desejos a toda uma coletividade. Atenção maior ainda, defensores dos direitos humanos: a violência física será ad æternum tratada por nossos legisladores e juízes como menos grave do que o constrangimento moral e a tortura psicológica.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desmascaração astral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Inventei o neologismo acima para designar uma dolorida ação orquestrada por forças astrais para me forçar a um autoexame de consciência. Ainda não sei bem qual o propósito de passar por essa experiência, se o de apontar preconceitos, vulnerabilidades e defeitos de caráter que ainda existem dentro de mim – mesmo que eu os negue peremptoriamente – ou o de me induzir a dar mais alguns passos em direção à evolução espiritual.

Tudo começou com um sonho. Eu caminhava por uma estrada asfaltada, ao lado de várias pessoas. Não via o rosto de ninguém, só enxergava as panturrilhas dos que caminhavam à minha volta. De repente, um tumulto. Todos se aglomeram do lado esquerdo da pista e apontam para baixo. Comentam angustiados uns com os outros algo que não entendo, mas que me parece de mau augúrio. Inclino-me para frente para verificar com os próprios olhos o que aconteceu. Ao fazê-lo, acabo me dando conta que a estrada desbarrancou. Vejo areia por debaixo do asfalto e concluo que, apesar de sua aparente solidez, a estrada havia sido construída sobre uma base instável.

Mesmo com medo de cair, inclino-me um pouco mais e percebo que há uma vala de esgoto lá embaixo. Alguém grita que há um corpo de mulher caído dentro dela. Um homem a meu lado olha detidamente o rosto da mulher e a identifica. Quando ele pronuncia o nome de família da moça, me desespero: eu também a conheço. Era uma colega de trabalho que sempre me inspirou admiração por sua competência, disposição e senso de humor. Pergunto-me por qual razão ela teria tido um fim tão trágico. Acordo com uma sensação de injustiça, difícil de entender.

Por mais que eu relutasse em a aceitar, a mensagem do sonho parecia clara: um abismo me separava daquela mulher e o desnível entre nós estava atrelado ao seu sobrenome. Não havia como interpretar de outra forma: simbolicamente, eu estava sendo acusada de discriminação social. Essa possibilidade me desestabilizou emocionalmente por alguns dias. Sentia que não era merecedora da pecha de preconceituosa e, por mais que buscasse outras evidências nesse sentido, não encontrava nada. Quando minha consciência já estava um pouco mais apaziguada, lá veio um segundo sonho.

Eu estava coordenando um workshop, não sei bem com qual objetivo. Apesar de não ser intervalo para almoço, os participantes estavam dentro do restaurante, agrupados em torno de uma pilha de pratos e tigelas. Os ânimos estavam exaltados, todo mundo falava ao mesmo tempo e me incomodava muito a sensação de desorganização do evento. Eu tentava chamar a atenção de um funcionário, pedindo que ele me trouxesse mais peças com uma determinada decoração. Outras pessoas faziam pedidos similares. Perdido em meio ao tumulto, ele me responde que não havia mais nenhuma à disposição. Assim não vai dar, pensei com meus botões.

Irritada, comecei a me perguntar qual era, afinal, o sentido da tarefa proposta: só agrupar peças de porcelana com base no padrão de decoração ou haveria um propósito mais “filosófico” para ela, que me escapava? Fosse como fosse, tudo aquilo me parecia absurdo, superficial demais para um treinamento.

Cansada, sentei-me em um banco, tentando recuperar o controle da situação. De repente, um rapaz sai da cozinha, todo suado, de tamancos, e abanando-se com um pano de prato. Senta-se displicentemente a meu lado e começa a conversar com um colega, aos gritos. Minha irritação cresce com a descompostura dos dois. Acordo perturbada, mais uma vez com a sensação de estar estava sendo injustiçada. Desta vez, duplamente: de um lado, acusada de não saber fazer meu trabalho, e de outro, novamente de não saber lidar com as diferenças de classe.

O terceiro sonho veio após mais alguns dias. Eu dirigia meu carro por uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, com corredores de ônibus nos dois sentidos. Era uma tarde bonita de sol e o trânsito fluía bem. De repente, sinto vontade de estacionar e ir até uma concessionária de automóveis que ficava do outro lado da pista. Paro, desligo o carro, deixo a chave na ignição e atravesso a rua, com total despreocupação. A conversa com o gerente da concessionária foi ficando animada e eu fui-me deixando ficar. Ao sair, constato o óbvio: o carro não estava mais onde o deixei. Desta vez, não havia como me eximir da responsabilidade pelo infausto resultado.

Negligência, irresponsabilidade, imprevisão, incapacidade de planejamento, insensibilidade social, prepotência, arrogância. Sem dúvida, as forças astrais encontraram duras maneiras de me apresentar a mim mesma. Ainda estou cheia de hematomas causados por tantos golpes contra minha autoestima. Não que esse confronto com as zonas de sombra do meu psiquismo constitua propriamente uma novidade. Ao contrário, sempre me considerei uma fraude, prestes a ser desmascarada por um observador mais atento. Sei que minha doença tem até nome: a síndrome do impostor.

Mas uma coisa ainda me intriga: por que os sintomas voltaram agora? Minha vida parecia ter se estabilizado depois do trauma da perda de minha filósofa canina preferida. Num segundo, a ficha cai. Volta à minha cabeça uma frase emblemática: “Não apresente o olhar de admiração de seu cachorro como prova de que você é uma boa pessoa”.

É isso! Sem o espelho compassivo dos olhos da Molly, não tenho como explorar meus melhores ângulos, não pertenço mais à família dos leves de alma e caminho sem destino sobre um terreno falsamente sólido.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Inflação sindical

Políbio Braga (*)

O número de sindicatos no Brasil passou dos 17.200 este ano. Em setembro de 2015, antes do impeachment de Dilma, o total já era impressionante: 15.900 entidades.

Quando Lula foi reeleito, o Brasil virou campeão no número de sindicatos, com mais de 90% do total mundial.

Os Estados Unidos têm cerca de 190 sindicatos e o Reino Unido, 168. Na Dinamarca, são 164 e na Argentina, apenas 91.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

O verbo complacente

Dad Squarisi (*)

É ou são? Cuidado. Trata-se do verbo ser. Com ele, ligue as antenas. O verbinho é complacente. Ora aceita uma forma, ora outra. Ora as duas. Especial, recebe tratamento diferenciado. Na concordância, a gramática reserva-lhe capítulo à parte. Hoje é 20 de agosto? Ou são 20 de agosto? Cem reais é muito? Ou são muito? É quase duas horas? Ou são quase duas horas? Dúvidas. Muitas dúvidas.

JOGO DUPLO
O verbo ser tem a cintura mais flexível do português. Nunca toma posição firme. Ora acha o sujeito simpático. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Eterno infiel, passa para o lado de lá.

• Tudo é flores ou tudo são flores?

O verbo olha para as flores. Acha-as simpáticas, coloridas e cheirosas. Decide: Tudo são flores.

Em outras horas, lembra-se do que aprendeu na escola (o verbo concorda com o sujeito). Muda de lado: Tudo é flores. Qual a forma correta? Ambas. Com o ser, quase sempre as duas construções estão certas. Há apenas três casos em que ele é durão, inflexível.

UM
É uma hora. São três horas. Na indicação de horas, o verbo só tem olhos para o predicativo. Concorda com o número que diz as horas:

•  É meio-dia e meia. Seria uma hora da tarde. Eram umas 11 horas da noite.

Cuidado. Às vezes o número é antecedido por expressões que indicam aproximações. Não se confunda. O verbo continua o mesmo: Seriam quase duas horas quando ele chegou. São cerca de seis horas de voo. Eram mais ou menos três horas quando o presidente fez o anúncio.

DOIS
Um é pouco, dois é bom, três é demais.

Deu-se conta? As expressões de quantidade, medida, peso, valor, tempo — como é muito, é pouco, é suficiente, é caro, é barato — são invariáveis. Pretensiosas, não ligam para o sujeito. Com elas, só o singular. Veja exemplos:

•  Dois mil reais é muito. Vinte quilos é suficiente. Dois minutos é muito tempo para quem está com dor de dente. Vinte reais é menos do que o produto vale.

TRÊS
Eu é que digo. Nós é que sabemos. A expressão é que recebe o nome de expletiva. Significa que pode cair fora. Mantém-se invariável:

•  As rosas (é que) são belas. Nós (é que) somos patriotas.

É isso.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Porque beleza de alma também é fundamental

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Elimine de seu cardápio imediatamente a gordura das paixões desenfreadas. Corte já de sua dieta o açúcar dos afetos comprados a peso de ouro. Não ingira nada que contenha o glúten dos laços emocionais de conveniência. Eles são um perigo, vão se transformar em açúcar no seu sangue mais dia menos dia e acarretar profundo desconforto psíquico a longo prazo.

Afaste-se tão logo seja possível da lactose dos compromissos ideológicos e partidários. Além de demandarem muito esforço orgânico para serem digeridos, só beneficiam plenamente os neófitos. Resista o quanto possa ao sedentarismo da alienação social. Gigantescas placas de conformismo vão se acumular nas suas artérias e dificultar o livre fluxo do sangue vivo da coragem de transformar.

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Abstenha-se de inalar a fumaça do derrotismo antecipatório, comprovadamente cancerígena. Não se deixe embriagar por tantas promessas inebriantes de fama e de sucesso financeiro. Vários estudos já comprovaram que ambos têm altíssimo poder aditivo. Quanto mais sedutores forem esses licores, mais eles o vão induzir ao abandono de outras conquistas relevantes, como a família, os amores gratuitos e a paz de espírito.

Fuja, como o diabo da cruz, do desejo de enrijecimento muscular do seu envoltório físico. Um dia você vai perceber que o bumbum na nuca, a barriga de tanquinho e as panturrilhas inchadas só o tornaram insensível para vivenciar as experiências enternecedoras de vida, como o sorriso de uma criança, a beleza de um pôr de sol, um silencioso abraço apertado de um amigo ou o olhar de admiração de seu cachorro.

Não se envolva em orgias sensoriais, a não ser que as planeje com total consciência das verdadeiras demandas de seu desejo e aceite a responsabilidade pelas consequências danosas de tanto estirar e encolher alienado de alma. Não carregue o sobrepeso das amarguras, dos remorsos, dos ressentimentos e da desesperança.

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Exercite-se todos os dias na arte de doar. Doe seu tempo, sua energia, seu dinheiro e seu amor a quem não espera que você o faça. Torne-se um mestre faixa preta na arte de surpreender e ser surpreendido. Não se deixe abalar por inesperados desvios forçados do seu trajeto amoroso. Às vezes vale muito a pena deixar de lado o rigor dos projetos preconcebidos para perder-se no espaço aberto das oportunidades de novos encantamentos.

Acima de tudo, ganhe consciência do quanto sua fragilidade humana pode enriquecer seu portfólio afetivo – e não o contrário. Ninguém se basta e todos os vínculos são provisórios. A aceitação dos próprios contornos anímicos derrete toda forma de resistência, aproxima seres que se sabem imperfeitos e motiva na busca pela grandeza interior.

Já está cientificamente provado que o que adoece o espírito é o tédio, a falta de sentido do estar no mundo e a falta de um propósito claro para a própria existência.

Desintoxique-se, redescubra-se, perdoe-se pelo tempo perdido, abençoe seus desafetos, recomece uma vez e outra. Viver é perigoso, fascinante… e mortal.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Anexo? Em anexo?

Dad Squarisi (*)

Eis o drama de quem escreve ofícios, memorandos e requerimentos. Volta e meia, precisa empregar em anexo ou anexo. Cheias de manhas, essas palavrinhas têm mistérios. Ora aparecem flexionadas, ora não. Ora vêm no início da oração, ora perdidas no meio ou no fim. Ora com vírgula, ora sem vírgula. Como lidar com elas?

EM ANEXO
Em anexo é locução adverbial. Equivale a anexamente. Invariável, não tem feminino, masculino, singular ou plural. Apresenta-se sempre com a mesma cara:

•  Em anexo, encaminho os documentos.
•  Em anexo, encaminho a correspondência.

Sempre com vírgula? Não. A vírgula depende da colocação do termo na frase. Em anexo tem o lugar dele. É no fim da oração. Se estiver lá, nada de vírgula:

•  Encaminho os documentos em anexo.

Como criança arteira, em anexo vive mudando de lugar. Ora aparece no começo da oração, ora no meio. Deslocado, vírgula nele:

•  Em anexo, encaminho os documentos solicitados.
•  Encaminho, em anexo, os documentos solicitados.

ANEXO
Anexo é outra história. Adjetivo, flexiona-se. Concorda com o substantivo a que se refere:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Anexas, encaminho as cartas.
•  Anexo, encaminho o ofício.
•  Anexos, encaminho os ofícios.

E a pontuação? Se anexo vem antes do objeto, não duvide. É vez da vírgula:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Encaminho, anexa, a carta.

Na ordem direta, a história muda de enredo. Fica assim:

•  Encaminho a carta anexa.

Reparou? Essa última frase é ambígua. Parece que anexa é qualidade permanente da carta. Na verdade, o recado é este: encaminho a carta que está anexa. A carta não é anexa. Está anexa.

A clareza é a maior qualidade do estilo. Anexa, na ordem direta, compromete-a. Dá duplo sentido à frase. Xô!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Bilinguismo luso-brasileiro ‒ 1

Ruth Manus (*)

Na semana em que cheguei, ouvi que era muit’gira a minha mala encarnada. Não sabia se era para agradecer, para me ofender ou para xingar de volta. Depois, fui descobrir que a mala era a bolsa, encarnada era vermelha e gira era bonita. Já não dava tempo de agradecer à moça.

Pouco tempo depois, procurava um supermercado e pedi ajuda a uma senhora que me mandou ir para os curraios. Não entendi, mas achei que mandar alguém para os curraios não era algo admissível, por uma simples razão de divisão de sílabas. Saí chocada, segui andando e encontrei o mercado, ao lado dos correios. Correios. Curraios. Saquei.

Depois, foi a vez de um professor narrar um caso de um país que proibiu a venda de maltadagas. Eu, quieta, pensei “Maltadaga. Deve ser uma adaga, arma branca, da ilha de Malta”. Ele falou outra vez e eu entendi “maltad’água”. Pensei “água da ilha de Malta?”. Na terceira ouvi “mota d’água”. Ok. “Mota deve ser moto. Moto de água. Jet ski!! É jet ski!!” E pronto, o professor já tinha mudado de assunto e eu até hoje não sei nem onde nem por que o jet ski foi proibido.

Fui achando que já entendia melhor. Tinha aprendido a não pedir sorvete de creme, mas gelado de nata. E pedi, no restaurante, torta com uma bola de gelado de nata. O garçom disse “bolinha?”. Eu sorri e disse, “sim, uma bola de gelado de nata”. Ele disse “uma bola de bolinha?”. E eu já pensei “ai Deus, começou”. Ele insistiu “não temus gelado d’nata. Temos chuculát, murang e bónilha. Pod’ser uma bola de bónilha?”. Enfim. Bola de bolinha, bola de bónilha, vamos levando.

Descobri que jogar na privada é deitar na sanita. Que pisar no freio é carregar nos travões. Que banheiro é casa de banho e salva-vidas é banheiro. Que dar a descarga é puxar o autoclismo. Que eu uso cuecas, por mais que eu use calcinhas. E que os homens também usam cuecas por mais que eles não usem calcinhas.

Não satisfeita, inventei de namorar um lisboeta. Fomos dormir outro dia e ele disse “q’rida, podes colocar o despertador para o Tim Maia?”. Pausa. Oi? “O despertador. Colocas para Oi Tim Maia?” Tim Maia? “Sim, para Oi Tim Maia.” E, então, eu percebi que já era bilíngue. Coloquei o despertador para 8h30 e apaguei a luz.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Pessoas difíceis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu confesso: sou uma pessoa difícil mesmo. Não chego a ser casquinha de ferida absoluta, mas posso sangrar em fração de segundo, bastando para isso que alguém lance no ar a suspeita de que sou desleal. Que eu me depare com a insinuação de que minha disponibilidade intelectual ou afetiva não é sinal de generosidade verdadeira, mas mero disfarce para encobrir a usurpadora que rasteja sorrateiramente dentro de mim.

Por razões insuspeitas, prefiro ser chamada de bruxa a ser confundida com gueixa. Submissão nunca foi minha praia. Estou muito longe do perfil de mulher que cola um sorriso à face e atropela os próprios sentimentos para se colocar a serviço do prazer alheio. Ao contrário, defendo com unhas e dentes meu direito ao gozo de frutos sensoriais, racionais, afetivos e espirituais de cultivo próprio. Sou mais afeita à alquimia dos encontros de alma, sempre capazes de transformar conveniências em oportunidades de enriquecimento mútuo.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Não sou uma figura solar, expansiva, daquelas que aquecem o ambiente de imediato e podem até cegar os circunstantes. Prefiro ser luz de vela que bruxuleia timidamente porque não pode negar a força da escuridão nem desmerecer o poder da indiferença. Sou mais dúvida do que certeza, mais hesitação do que rompante.

Não sou pessoa de fino trato, mas requeiro cuidado extra ao ser manipulada. Se chacoalhada com rudeza, na ânsia de descobrir o que se esconde em meu interior, posso explodir e destroçar toda forma de curiosidade invasiva. Maior perigo ainda correm os incautos, que, por medo da devastação que posso provocar, me tratam como porcelana chinesa: não conhecerão meu valor até que aceitem correr o risco de ferir as mãos com os cacos de minha presumida superioridade.

Que fique bem claro para todos: não sou ogro nem tampouco ovelha pronta para o sacrifício. A bem da verdade, sou a mistura complexa de duas naturezas conflitantes. Qual centauro, trago no peito o desejo da delicadeza e, no corpo, a fúria da libido animal. Pisciana, filha de mãe taurina e pai ariano, aprendi cedo a não medir forças com a autoridade externa. A admirar e tentar copiar a estratégia da água, que transpõe obstáculos corroendo-os um pouco a cada dia.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Acredito piamente que, para tudo nesta vida, há de haver critério e limites claros. Sou, aliás, muito boa na demarcação de territórios de liberdade e de áreas proibidas para crianças, cães ou outros invasores de minha intimidade. Não sofro do mal da fingida cortesia, nem determino infindáveis pré-requisitos para conhecer e me apaixonar por outras pessoas. Na lista dos meus defeitos de caráter, certamente não está a hipocrisia. Especializei-me na arte do “sincericídio”, seja por acreditar que a verdade liberta, seja por esperar contrapartida de mesmo nível.

Tenho alguns segredos a revelar, ainda que um tanto a contragosto, a respeito das características menos visíveis de minha estrutura psíquica. O silêncio magoado é letal para mim. Da mesma forma, os jogos de poder ferem de morte minha alma. A capacidade de ternura, de compaixão e de perdão desestruturam por completo minha sede de retaliação. Nutro um profundo desprezo pelas pessoas que acham mais confortável posicionar-se sempre em cima do muro em nome da evitação do confronto.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Aos que julgam que as personalidades difíceis são insuportáveis e deveriam ser submetidas a contínuos programas de adestramento na área de habilidades sociais, um recado final: não se deixem impressionar pela aparência de poucos amigos. Não sou mal-educada, nem uma grosseirona empedernida, incapaz de reconhecer os próprios erros e pedir perdão. Não me considero vítima de nada, a não ser talvez da crueza de minhas próprias exigências éticas.

Ao contrário, é exatamente por respeitar minha natureza menos maleável – ou mais resiliente, se preferirem – que compreendo bem a necessidade de ser respeitosa para com outras naturezas mais afáveis e condescendentes.

Em resumo, acredito que as pessoas difíceis têm a consistência certa para quem aprecia frutos carnudos que vêm abrigados em casca grossa. Tudo o que é preciso para nos consumir com prazer e extrair toda a suculência de nosso conteúdo é confiar na força de seu próprio queixo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, veado e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.