Imagem denegrida

Eliane Cantanhêde (*)

Bolsonaro diz que os dados do Inpe sobre desmatamento “denigrem a imagem do Brasil lá fora”, mas muita gente boa acha que quem denigre é o próprio Bolsonaro, ao querer esconder a verdade, anunciar mineração americana em terras indígenas, cortar cabelo na hora da audiência a um

by Neltair ‘Santiago’ Rebés Abreu (1950-), desenhista gaúcho

ministro da França, demitir em seu próprio favor o fiscal que cumpriu seu dever ao multar pesca em área proibida e, enfim, ao dar tantos passos retrógrados numa área em que o Brasil é superpotência: o meio ambiente. A verdade dói, a mentira destrói.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista.

Falta de civilidade

«Não é de hoje que se nota uma deterioração das virtudes cívicas na sociedade brasileira. São vários os sintomas desse empobrecimento das relações humanas: a diminuição do respeito pelo outro, a grosseria com vestes de espontaneidade, a incapacidade de ouvir quem pensa de forma diferente, a desconsideração pelas gerações mais velhas, a indiferença com quem presta serviços mais humildes, o ataque pessoal diante da falta de argumentos no debate público e tantas outras manifestações que não apenas geram desgosto quando são presenciadas, mas produzem profunda desesperança com o futuro do País.»

Editorial Estadão, 4 agosto 2019. Para ler a continuação, clique aqui.

Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Uma pergunta

Ascânio Seleme (*)

Por que pessoas que operavam no mercado sofisticado de bitcoin guardavam quase R$ 100 mil em dinheiro vivo dentro de um armário? Não existe a menor possibilidade de alguém comprar a moeda digital mandando reais pelos Correios. Carregar malas de dinheiro pra lá e pra cá, transportar dólares escondidos na cueca e guardar cédulas em caixas dentro de casa é mais parecido com coisa da história recente da corrupção nacional.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 28 julho 2019.

Seres fictícios

Eduardo Affonso (*)

“Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.”
(Manuela D’Ávila, ex-deputada pelo PCdoB e ex-candidata a vice-presidente da República).

Eu também sou assim.
Quando meu telefone é invadido, eu repasso ao invasor o contato de algum reconhecido e renomado jornalista investigativo, em vez de avisar à polícia e à operadora.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Incidente diplomático

Eduardo Affonso (*)

– Sr. Modesto Araújo, quero te apresentar aqui o novo chapeiro.

– Mas, seu Jaílson, esse não é o…

– Ele mesmo, o Ednardo. Meu filho.

– Ele tem experiência com chapa, fritura, essas coisas?

– Ele é diplomata. Fez Instituto Rio Branco. Foi embaixador na China. E já comeu pastel frito, não comeu, Ednardo?

(Ednardo concorda com a cabeça)

– Pois é, já comeu. E comeu na China, onde fritam muito pastel. É o chapeiro ideal para a JB Lanches.

– É que pastel não é feito na chapa…

– Modesto Araújo, você não está entendendo. Ele é meu filho. Portanto, está mais que qualificado para o posto de chapeiro.

– É que o fato de ele ser um diplomata… será que não vai atrasar um pouco o serviço? Ele pode querer negociar o hambúrguer bem passado por um ao ponto, não chegar nunca a um acordo com o cliente se o ketchup tem precedência sobre o alface, e aí a fila não anda…

– Com meu filho de chapeiro aqui, quando o presidente da França vier comer uma esfirra, vai falar direto com ele, sem nem fazer o pedido no caixa. Se for um xeique saudita, ele frita a coxinha de acordo com os preceitos do Alcorão. De protocolo ele entende. E de cerimonial. Ele sabe que o canudo fica à direita do copo de refrigerante e os sachês de mostarda vêm hierarquicamente embaixo dos de maionese.

– O senhor é que manda, seu Jaílson. Eu sou só o gerente desta franquia da JB Lanches. Se o senhor diz que o seu filho embaixador vai ser um bom chapeiro…

– Ele fala “quibe” e “esfirra” em vários idiomas Sr. Modesto Araújo. Fala aí “quibe” e “esfirra” em árabe, Ednardo, pro Modesto ver que você é a pessoa mais capacitada para o cargo.

(Ednardo tosse, coça a cabeça e começa a balbuciar alguma coisa.)

– Viu como ele fala? Vai lá, meu filho, que a chapa é tua. E se o pessoal do RH criar algum problema, é você quem vai pra chapa, Modesto, e ele fica de gerente.

(Modesto Araújo abaixa a cabeça, resignado. Gritos atrás do balcão. Era o pessoal do RH com o Bepantol na mão tentando – tarde demais – explicar pro embaixador Ednardo que a chapa é quente).

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Por sorte não é o Carlos

Ascânio Seleme (*)

O fato é que [na novela da nomeação do filho para embaixador em Washington], Bolsonaro já perdeu, não importa qual seja o desfecho do episódio.

Se Eduardo for indicado pelo pai, aprovado pelo Senado e pelo Supremo, o deputado vira embaixador, vai embora e enfraquece o bloco monolítico familiar que ajuda a sustentar emocionalmente o presidente.

Bolsonaro & bolsonarinhos
Crédito: vespeiro.com

Se for indicado e acabar caindo no Senado ou no Supremo, seu pai terá sofrido a mais dura derrota desde a posse, já que o rejeitado será, para lá da questão política, seu filho.

Se o presidente recuar e acabar não fazendo a indicação, terá mostrado fraqueza diante de um ambiente político hostil que não teve coragem de enfrentar. E, ainda pior, terá um filho melindrado. Por sorte não é o Carlos.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 18 julho 2019.

Por que se deve escrever certo

Dad Squarisi (*)

Sabia? A ortografia é dispensável para a comunicação eficiente. Se alguém escreve casa com z, cachorro com x e coração sem til, o leitor entende o recado. Prova é a língua usada nos chats da internet. Lá, porque vira pq; você, vc; beijo, bj; obrigado, obg. Muitos não gostam do que leem, mas entendem o recado. A razão?

De aorcdo com peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Por que, então, preocupar-se com acentos, esses e zês? Porque é o combinado. Para viver em sociedade, firmamos pactos. Combinamos andar vestidos em público. Combinamos não arrotar à mesa. Commbinamos não cuspir no chão. Combinamos, também, escrever como manda o dicionário.

Ele, baseado em critérios etimológicos ou fonéticos, diz que hospital se grafa com h; pesquisa, com s; exceção, com ç. A razão: como todas as línguas de cultura, o português tem a grafia oficial. A ortografia é convenção. Escrever certo pega bem.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Acordo Mercosul-UE

Os frutos do acordo

Vera Magalhães (*)

Além do enorme impacto comercial e econômico que a retirada de barreiras trará para o Brasil, devolvendo o país ao tabuleiro global, do qual estava escanteado, o acordo com a União Europeia funciona também como uma bem-vinda garantia de que o ímpeto bolsonarista em áreas como meio ambiente também terá de ser contido. O capítulo político do tratado inclui o compromisso dos países signatários com o Acordo de Paris e com outras metas ambientais.

A assinatura do acordo faz letra morta da cantilena bobalista da ala ideológica do governo. Ela pode até continuar entoando seus mantras no Twitter, comemorando como sua uma construção que é anterior e mais plural. Mas o fato é que, na vida real, falaram mais alto o pragmatismo e a disposição pelo liberalismo econômico e pela abertura do País ao resto do mundo.

(*) Vera Magalhães é jornalista. Trecho de artigo de 30 junho 2019.

Hora e vez de Bolsonaro

Eliane Cantanhêde (*)

Bolsonaro sai vitorioso do G-20. A seu jeito, um tanto estabanado, ele ganhou elogios de Trump, respondeu à altura a Merkel, surpreendeu Macron, foi malcriado com Xi Ji Ping com boas razões, comprometeu-se com o Acordo de Paris e abriu mais a porta da OCDE para o Brasil. Tomara que aproveite o acordo com a UE e o bom momento para parar de fazer e falar “besteiras”, controlar os excessos do seu entorno e passar a governar, ou seja, a focar as prioridades do País.

(*) Eliane Cantanhêde é jornalista. Trecho de artigo de 30 junho 2019.

O vaso e o cachepô

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Uma crônica com um título desses fica até com cara de fábula. Mas não é. Trata-se de caso que realmente aconteceu.

Contaram-me essa história como verdadeira e não tenho por que duvidar, pois a relatar-me foi o próprio dr. Venâncio Prates, homem de meia-idade (que já teve, com certeza, 1/4 de idade e um dia ainda há de ter idade inteira), sujeito boa-praça, que leva muito a sério seus cabelos grisalhos – os que ainda lhe restam e que agora observam, lá do alto, a barriga um tanto volumosa a comprometer um bocado a estética do conjunto.

Disse-me que a esposa, dona Ilda, à semelhança de tantas outras, adorava plantas. Frequentava exposições, admirava e elogiava o capricho da natureza na feitura das flores, umas mais belas que as outras, o que sempre a deixava sem saber definir qual a sua predileta, tantas as cores e as formas. Tamanha beleza e tanta variedade enchiam-lhe os olhos.

Foi num Dia dos Namorados que o dr. Prates teve a infeliz idéia de comprar um pequeno vaso com florezinhas muito delicadas, até bonitinhas mesmo. Tinha bom gosto para escolher, e não havia de existir melhor presente para a esposa.

Flor 1

Pois bem, deu-lhe o tal vaso. A mulher ficou radiante e passou uns 5 ou 6 dias agradecendo de tanto que gostou. Mas (e quase sempre há um “mas” para fazer a coisa desandar)… e o cachepô? Um recipiente desses melhoraria e muito o vaso, faria com que as flores ficassem ainda mais bonitas – achava dona Ilda. Um vaso sem cachepô está fadado ao insucesso, ao abandono, ao esquecimento.

Como de costume, dr. Prates atendeu logo ao desejo de sua amada. Um ou dois dias depois, apareceu em casa com um cachepô que, de fato, valorizou mais ainda o presente.

Um “mas” bastava? Claro que sim, se se tratasse de pessoa, digamos, normal. Já dona Ilda, com tanto tempo disponível para conjecturar, conseguia elaborar idéias mais profundas a partir de um simples vaso, agora reforçado pelo cachepô.

by Ewa Helzen, artista de Malta

by Ewa Helzen, artista de Malta

Achou que talvez fosse a cor da sala que não estivesse lá combinando muito bem com as flores, que, aliás, continuavam muito bonitas, embora parecessem já não ornar tão bem com o ambiente.

O dr. Prates não demorou a tomar a decisão de pintar a sala de estar. Claro que, logo em seguida, descobriu que a sala de jantar não podia ficar com a pintura velha e logo deu-lhe nova pintura também. Acatando sugestão da amada esposa, os quartos também foram pintados, o que obrigou, por conseqüência, a aplicar pintura nova ao resto da casa, sem esquecer, naturalmente, o lado de fora.

Feito tudo isso, dona Ilda, que continuava a cuidar muito bem das flores (que bem poderiam ser chamadas de Eva, pois foi por onde tudo começou), a sra. Prates – dizia eu – que tinha tempo de sobra para observar as coisas, após longa, acurada e minuciosa observação dos tons, do tamanho e do formato das flores do vasinho predileto, chegou à conclusão que, na verdade, era a casa que não combinava com a elegância e distinção das flores. Flores tão únicas, como jamais vira em sua vida. E depois, não era só isso, havia também que considerar o valor sentimental que elas representavam.

Flor 2

Não demorou muito e o dr. Prates, apesar das frustradas tentativas de demover a esposa da nova idéia (sem sucesso apesar de alentada argumentação), procurou nova casa, mais ampla, espaçosa (e mais cara também, claro) mas que, enfim, estaria perfeitamente apta a acolher, numa das salas, aquele vaso de flores dentro do cachepô.

Agora era hora de sossegar, mas (olha o “mas” aí de novo…) alguma coisa ainda inquietava o pobre dr. Prates (a esta altura, literalmente mais pobre mesmo, depois dos gastos consentidos). Conhecendo a esposa de longo relacionamento, ou seja, de muitos outros carnavais, pressentia ele que algo mais ainda estava por vir.

O dr. Venâncio Prates me confiou, depois de longo e profundo suspiro, que, preocupado com o conforto da esposa, comprou na semana passada uma almofadinha nova, para ela se sentar no banco do automóvel quando for dirigir.

A almofadinha até que ficou muito legalzinha, mas… (quem diria, hein, outro “mas”!), ele me disse que esta semana estão procurando um modelo novo de carro para comprar. Zero, é claro. E a almofadinha vai ter que ficar uma graça no carro novo.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Texto publicado originalmente em 29 maio 2015.

Intestinos envenenados

Vinicius Torres Freire (*)

Era uma vez um governo que teria dois superministros, Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Entraram por uma porta, saíram por outra.

São príncipes transformados em plebeus da Esplanada dos Ministérios pelo caldeirão da política de Jair Bolsonaro, que tem intestinos envenenados, filé de serpente, pelo de morcego, língua de cão e múmias de feiticeiras, como o cozido das bruxas de Macbeth, mas não tem coalizão parlamentar. Fim.

(*) Vinicius Torres Freire tem graduação em Ciências Sociais (USP) e mestrado em Administração Pública (Harvard). O texto é parte de artigo publicado na Folha de São Paulo.

Reconstruindo Chico Buarque

Eduardo Affonso (*)

Meu primeiro texto a viralizar nas redes sociais, em 2015, foi uma carta aberta ao Chico Buarque. Nela eu me apropriava dos seus versos para confrontá-lo por ter se tornado cúmplice de malandro oficial, de malandro investigado na Polícia Federal. Por defender quem não tem decência, nem nunca terá; quem não tem vergonha, nem nunca terá; quem não tem limite. Por não se importar em ver a Pátria Mãe, tão distraída, ser subtraída em tenebrosas transações.

Dizia-lhe que ele estava diferente, que já não o conhecia mais. Trocando em miúdos, que, apesar dele – e do PT – amanhã haveria de ser outro dia.

Eu era um pote até aqui de mágoa, claro. A trilha sonora da minha infância incluía ver a banda passar cantando coisas de amor. Depois houve dias de me sentir como quem partiu ou morreu, ao meio-dia só pensar em dizer não, comer feijão com arroz como se fosse um príncipe e catar a poesia entornada no chão.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Chico me ajudou a pensar em Deus como um cara gozador, que adora brincadeira. A perder a vergonha de fazer amor até mais tarde e ter muito sono de manhã. A me supor capaz de subir uma montanha não como anda um corpo, mas um sentimento; de tirar o chão dos pés, de criar raiz e me arrancar, de me indagar se é perigoso a gente ser feliz.

Chico foi a voz dos que, ouvindo passos já no vão da escada, sabiam que não havia nada a fazer senão chamar o ladrão – e pedir que afastassem de nós este “cale-se!”. Foi a mais perfeita tradução daqueles tempos de um pé na soleira e um pé na calçada, de uma mulher chamada Angélica que só queria embalar seu filho que morava na escuridão do mar.

Mas eis que chegou o destino e carregou Chico Buarque para lá – para o lado dos que apoiam ditaduras, fecham os olhos às maracutaias, se indignam seletivamente. Em algum momento sua estrada entortou, e ele resolveu ir até o fim. Se é que não tinha sido assim desde sempre, e o dono destes neurônios não via.

O PT nos roubou uma década e meia. Desviou bilhões. Nos tirou a esperança de um país mais justo, mais solidário, sem miséria. De um Brasil de todos. E, de quebra, nos tomou Chico Buarque.

Pegamos ranço dele, da sua voz de taquara rachada, da sua prática de louvar o subúrbio e a favela, e morar no Leblon. De se derreter por Havana, Luanda e Manágua, e tirar férias em Paris. Tornamo-nos macarthistas tardios, fiscais da coerência alheia. Fizemos seu funeral no mesmo cemitério dos mortos-vivos onde o cartunista Henfil um dia sepultara Elis Regina, Carlos Drummond, Clarice Lispector e todos os que cometessem o sacrilégio de colaborar com o adversário político (na ocasião, o regime militar).

Jorge Amado não é só dos baianos ou de quem cultua os orixás. Adélia Prado não é exclusiva das devotas da Festa do Divino de Divinópolis, em Minas Gerais. Por que haveria Chico Buarque de ser monopólio da sua seita?

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Se Vinicius de Moraes, também de esquerda, fosse vivo e frequentasse o palanque de Lula, Dirceu, Gleisi e Dilma, nosso amor por ele seria finito enquanto durasse essa opção política? Ou continuaríamos a amar seus versos por toda a nossa vida? Trataríamos Tom Jobim a pau e pedra? Negaríamos a Nara Leão a liberdade de ter opinião?

Santo Agostinho pregou odiar o pecado e amar o pecador. Dá para seguir sua lição ao revés: desdenhar da ideologia do autor e amar a obra. Até porque, ao contrário da relação pecado/pecador, não há vínculo entre o marxismo e a métrica, a acumulação do capital e a riqueza da rima, a ditadura do proletariado e a transcendência da poesia. “Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons”…

Chico, o eleitor, tem o direito de professar ideias contrárias às da maioria da população – direito inalienável numa democracia e utópico nos regimes que ele apoia. Chico, o compositor, é parte da nossa memória afetiva, é patrimônio nacional, não importando se a História passou na janela, só ele não viu.

O PT, que inventou o “nós x eles”, ora, tenha a fineza de desinventar. De nossa parte, parar de jogar pedra no Chico e de adorá-lo pelo avesso é uma forma de começar a reconstruir a nós próprios.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Em nome da causa

Demétrio Magnoli (*)

À sombra de Lula, a Petrobrás foi saqueada. A Lava a Jato prestou serviços valiosos à nação, expondo máfias políticas e empresariais dedicadas à pilhagem sistemática de recursos públicos. Mas, agora sabemos, desviou-se pelos atalhos do arbítrio. Não há inimigo mais letal do combate à corrupção do que juízes e procuradores dispostos a flexibilizar a lei em nome da causa.

(*) Demétrio Magnoli é geógrafo. O texto é trecho de artigo publicado na Folha de São Paulo de 15 junho 2019.

Cumprindo promessas

Ascânio Seleme (*)

Bolsonaro mandou ao Congresso projeto liberando compra e uso de armas de fogo de potência e em número nunca imaginados. Também encaminhou proposta reduzindo multas de trânsito, inclusive para quem circular com crianças soltas dentro dos carros.

Por portaria, já liberou 197 agrotóxicos, mais de um por dia. O governo diz que o presidente está cumprindo promessas de campanha. Não me lembro de Bolsonaro ter prometido tomar medidas que garantidamente aumentassem o número de brasileiros mortos a cada ano.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 9 junho 2019.

Maiúsculas e minúsculas: quando usar

Dad Squarisi (*)

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) manda grafar com inicial grandona:

1. Nomes próprios
Rafael, Renascimento, Avenida Atlântida, Presidência da República, Poder Judiciário, Região Sul, o Sul do Brasil, Região Centro-Oeste, o Centro-Oeste, o Nordeste, Oriente, Ocidente, Antiguidade, Idade Moderna, Renascimento, Belle Époque, Seleção Brasileira, Seleção Chinesa de Vôlei Feminino, Campeonato Nacional, Copa do Mundo, Olimpíadas, Medalha do Pacificador.

2. Nome de disciplinas
Marcos levou pau em Português e Matemática. Mas safou-se em Inglês.

3. Nomes de impostos e taxas
Imposto de Renda, Imposto Predial Urbano, Taxa do Lixo.

4. Atos de autoridades quando especificado o número ou o nome
Lei 2.346; Medida Provisória 242; Decreto 945; Lei Antitruste.

O ato perde a majestade em dois casos

Um: depois da 1ª referência.
A medida provisória mencionada trata do Plano Real.

O outro: na ausência do número
O presidente vetou a lei.

5. Os pontos cardeais
Norte, Sul, Leste, Oeste.

Se o ponto cardeal define direção ou limite geográfico, usa-se a inicial minúscula
O carro avançava na direção sul. Cruzou o Brasil de norte a sul, de leste a oeste.

6. As palavras Estado (país), União e Federação (associação de estados)
A sociedade controla o Estado. A Constituição enumera as competências da União. Impõe-se preservar a Federação.

7. Datas comemorativas e nome de festas religiosas
Sete de Setembro, Proclamação da República, Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia da Árvore.

Atenção, gente fina. As festas pagãs se escrevem com a inicial pequenina: carnaval, ano-novo. Também: quaresma, semana santa, quarta-feira de cinzas, sábado de aleluia.

8. Nomes científicos de famílias animais e vegetais (o segundo elemento com minúscula)
Coffea arabica, Hevea brasiliensis, Ranitomeya vanzolinii.

9. Oração incluída dentro de parênteses quando constitui oração à parte, completa, precedida de ponto. No caso, começa com letra maiúscula e termina por ponto
Na praça, o sentimento geral era de grande frustração. (Nenhum candidato se dignara comparecer ao comício.)

10. Citação
Quando vem depois de dois pontos, a citação começa com letra maiúscula. Caso contrário, com minúscula:
Fernando Pessoa escreveu: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Segundo Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Curiosidade
Na língua dos Césares, majusculus quer dizer um tanto maior. Maioral, maioria, maioridade, major, majoritário, majorar pertencem à mesma família. Todos são aparentados com maior. Por isso, têm complexo de Deus. Se deixar, ocupam um senhor espaço. Manda o bom senso pôr-lhes o pé no freio. Para dar-lhes um chega pra lá, dois princípios se impõem. Um deles: só as use nos casos obrigatórios. O outro: não as empregue para valorizar ou destacar ideias. Maiúsculas devem ser as ideias, não as letras.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Tudo ou nada já?

Vera Magalhães (*)

Num intervalo de sete dias, o presidente:

1) disse que fez um acordo com Sérgio Moro para nomeá-lo para o STF, para em seguida recuar;

2) previu um tsunami;

3) viu as investigações sobre o filho Flávio avançarem substancialmente e atingirem o resto do clã político, e reagiu a isso na base da valentia de pai;

4) minimizou os protestos contra a Educação e xingou seus participantes;

5) se enfiou numa viagem caricata a uma cidade desimportante para uma agenda irrelevante para a qual não havia sido convidado;

6) terminou a semana compartilhando corrente pelo WhatsApp com um texto que diz que sua própria pauta fracassou e que o País é ingovernável.

É preciso um talento muito específico para gastar tanta energia assim em um conjunto tão desastroso de ações.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto integral foi publicado no Estadão de 19 maio 2019.

Chute nos aliados

Ruy Castro (*)

Os aliados de Jair Bolsonaro na campanha eleitoral deviam ter desconfiado quando, assim que foi empossado, ele jogou no mar seu amigo, seguidor e devoto Magno Malta. Todos se lembram da importância de Magno Malta, então senador pelo Espírito Santo, na vida do candidato. Quando Bolsonaro levou a facada em Juiz de Fora, foi Magno Malta quem se debruçou sobre ele no leito do hospital, quase o asfixiando, e fez uma reza braba – digo, oração – pela sua recuperação. O país inteiro assistiu. Magno Malta olhou para o teto em busca de Deus e, com seus poderes de pastor evangélico e cantor de pagode gospel, só faltou ordenar a Bolsonaro: “Levanta-te e anda! Levanta-te e anda!”.

Seja como for, deu certo. Bolsonaro levantou-se, andou e, um ou dois dias depois da posse, chutou Magno Malta de volta para o limbo de onde ele nunca deveria ter saído – sem mandato, por não ter sido reeleito senador por seu estado, e sem o ministério que esperava ganhar por sua devoção. Dura perda para quem, um dia, sonhara até ser o vice de Bolsonaro.

Para Bolsonaro, aliado de campanha é uma coisa e, no governo, outra. E isso vale para todos os escalões. Sergio Moro e Paulo Guedes, por exemplo, eram decisivos para elegê-lo, daí os epítetos de superministro para o primeiro e de Posto Ipiranga para o segundo. Na prática, Bolsonaro tem se dedicado, com sucesso, a sabotar um e outro, com declarações que atrapalham que realizem seus projetos. Bolsonaro não vê a hora em que eles, tristinhos, peçam demissão.

Bolsonaro parece trabalhar contra si próprio, ao deixar que o Congresso derrube seus decretos, o Judiciário lhe faça cara feia e os militares se magoem com os insultos que recebem. Mas só parece. O que ele quer é que todos saiam da sua frente para que, dizendo-se incompreendido, possa governar com os filhos e “com o povo”, através das redes sociais.

Resta ver se combinou com o povo.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Queísmo

Dad Squarisi (*)

Certos verbos sofrem de alergia. Ficam vermelhos, empolados e com coceira quando seguidos do quê. Transitivos diretos, exigem objeto direto nominal, mas não aceitam a oração objetiva direta. Veja alguns:

  •  alertar (alerta-se alguém, mas não se alerta que)
  • antecipar (antecipa-se alguma coisa, mas não se antecipa que)
  • definir (define-se alguma coisa, mas não se define que)
  • denunciar (denuncia-se alguma coisa ou alguém, mas não se denuncia que)
  • descrever (descreve-se alguma coisa, mas não se descreve que)
  • expor (expõe-se alguma coisa, mas não se expõe que)
  • falar (fala-se de alguém ou de alguma coisa, mas não se fala que)
  • indicar (indica-se alguma coisa ou alguém, mas não se indica que)
  • lamentar (lamenta-se alguma coisa, mas não se lamenta que).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Aposta errada

Ruy Castro (*)

As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais.

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais – os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta.

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era “assertiva” demais. E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato.

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder – pensaram –, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país.

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Diz os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor – mesmo com Jesus Cristo como vice.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.