Não se metam

Carlos Brickmann (*)

Há cerca de um ano, o Brasil podia ter entrado na Covax, um grupo de 165 países que receberiam vacinas a preços menores, com cota de 200 milhões de doses. Uns meses depois, após hesitar muito (Trump não lhe havia dado a ordem), Bolsonaro entrou no programa, com cota de vinte milhões de vacinas.

Em agosto, a Pfizer ofereceu ao Brasil 70 milhões de doses, a entregar até janeiro deste ano. O Brasil não respondeu.

Em 20 de outubro, o general Cloroquina, o super-homem da logística que ocupa a Saúde, anunciou a compra de 46 milhões de doses da Coronavac. No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou o Cloroca e disse que jamais compraria essa vacina.

Vamos somar: são 316 milhões de doses que Bolsonaro não quis comprar quando havia estoques e que hoje seriam suficientes para a população brasileira – e com duas doses.

E não seria preciso ajoelhar-se ante Índia e China para implorar vacinas.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Agenda do cercadinho

Antônio Britto (*)

Em um governo ao menos sensato, a existência de qualquer crise levaria à busca imediata de soluções. No padrão Bolsonaro, comportamento reiterado ao longo desses 2 anos, a crise leva a um modelo fixo de reação: transferência imediata de responsabilidades, busca de culpados e insinuações autoritárias tentando colocar as Forças Armadas a serviço dos interesses do presidente, o que não deveria ser novidade para o Exército.

Na prática, tornou-se uma forma de saber como Bolsonaro avalia a própria popularidade ou as dificuldades que enfrenta. Se são realmente grandes e prejudicam seus índices de aceitação, no próximo cercadinho as Forças Armadas serão usadas por ele. Esta semana não foi diferente: pressionado pelo crime de Manaus, o fracasso na vacinação e as dificuldades para a retomada econômica, Bolsonaro deu uma inesquecível contribuição à ciência política determinando que são as Forças Armadas que definem a existência da democracia entre nós.

(*) Antônio Britto Filho, jornalista, foi ministro da Previdência Social do governo Itamar Franco; foi também governador do RS. O texto é excerto de artigo publicado no Poder360.

A vida dos outros

Carlos Brickmann (*)

Há tempos já se sabe que os estoques de oxigênio líquido na região Norte são precários. Que fez o governo? Aumentou, no final do ano, os impostos de importação. De acordo com a BandNews FM, a alta do dólar já elevara os custos. Com os impostos, um cilindro grande, que custava R$ 1.000, foi para os atuais R$ 1.600. O governo foi apanhado de surpresa? Talvez – mas por falta de atenção.

Houve reunião do Ministério da Saúde em Manaus, descrita com precisão pela repórter Malu Gaspar na revista Piauí de janeiro. Um dos momentosos temas em debate foi a vida sexual do governador de São Paulo, João Doria. Frase de Zoser Plata Bondim Hardman de Araújo, assessor do ministro da Saúde: “Doria é o maior pau pequeno, um boiola”.

Faltam leitos, oxigênio? Bobagem. O tema é Doria – pau dele, pau nele.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Chá de revelação

Eduardo Affonso (*)

Os amigos vão chegando. Alguns, avessos a modismos, não escondem o desconforto.

– Mas precisava mesmo fazer chá de revelação? Antigamente não tinha nada disso.

– Não tinha, tia Cotinha. Agora tem. Os tempos são outros.

Grupinhos se formam pelos cantos, sem ninguém se aproximar muito da mesa de comidas, em cujo centro há uma caixa envolta em celofane. Pelo protocolo – a coisa podia ser novidade, mas já tinha protocolo – comidas e bebidas só serão servidas depois do estouro do balão.

– E tem chá mesmo, ou é só modo de dizer?

– Só modo de dizer, tia. Não é porque é chá que tem chá. Igual chá de cadeira, chá de sumiço.

– Pelo menos uns biscoitinhos eles podiam adiantar, né?

Tia Cotinha estava de dieta, e não tinha interesse em revelação nenhuma. Só e tão somente em poder comer sem moderação, fosse o que fosse, enquanto as atenções estivessem voltadas para outra coisa.

– Sabe que cores vão usar?

– Não faço ideia. Pelo jeito, melhor não esperar nada convencional.

– Convencional é a última coisa que espero aqui.

– Só falta ser bege e dourado, e a gente que adivinhe o que cada cor quer dizer.

Alguém se aproxima da mesa dos salgados, pede silêncio, desembrulha a caixa, e dela salta um balão bege preso por uma fita dourada.

– Não falei que ia ter bege e dourado?

– Já pode pegar os salgadinhos?

– Não, tia, precisa estourar o balão primeiro.

Sobe a música. É “My way”, em ritmo cigano.

– E eu achando que o dourado era o pior que podia acontecer…

– Essa música é enorme e ainda repete. Tem mesmo que esperar até o fim pra pegar a comida?

Como se Deus ouvisse os apelos da tia Cotinha, a música é interrompida ainda na primeira parte, bem no “The record shows, I took the blows / But I did it my way” e uma voz anuncia:

– Dona Cotinha, sendo a senhora a tia favorita, queremos convidá-la a estourar o balão e…

Tia Cotinha não se faz se rogada. Com agilidade inusitada, toma a agulha das mãos do mestre de cerimônias, posiciona-se o mais perto possível dos pães de queijo, se inclina em direção ao balão, e puff! voam quadradinhos cor de chumbo por sobre a mesa de salgados.

Ecoam discretos aplausos e alguém aumenta de novo o som do celular – os Gipsy Kings agora na parte do “I ate it up and spit it out / I faced it all and I stood tall”.

Tia Cotinha se apossa da bandeja antes que outro parente mais afoito o faça.

– Papelzinho cinza significa o quê? – pergunta, com um pão de queijo pela metade, ao moço de terno preto que comanda o evento.

– Cremação. Se fosse enterro seriam papeizinhos roxos.

– Ah, tá.

A sobrinha, prima do morto, só percebe quando o segundo pão de queijo já foi devorado e o resto da travessa está bem embiocado no fundo da bolsa.

– Tia Cotinha!

– Vamos embora, Maria Alice. E no meu, por favor, contrata um bufê melhorzinho, que o pão de queijo tá borrachudo. E nada de cinza e roxo, pelamordideus! Quero púrpura e prata. Púrpura, tá entendendo, Maria Alice? Púrpura!

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Cala-te, boca

Carlos Brickmann (*)

O problema do presidente Bolsonaro não é dizer o que pensa: é pensar o que diz. Desta vez conseguiu provocar uma onda de simpatia por uma pessoa famosa por ser irritanta, desagradável, prepotenta.

Dilma passou três anos na prisão, na época daquela ditadura militar que Bolsonaro tanto elogia embora diga que não existiu. Foi torturada, como era praxe na época; a tortura foi confirmada pela Justiça. Agora, 50 anos depois, sem qualquer motivo, a não ser a vontade de falar demais, Bolsonaro pôs em dúvida, às gargalhadas, as torturas a que Dilma foi submetida. Diz que espera as provas, por raios X, da fratura que ela sofreu durante a tortura.

Bobagem, por dois motivos: 1) todos os documentos estão em poder das autoridades; 2) ele reuniu, em solidariedade a Dilma, personalidades dos mais diversos partidos, como Fernando Henrique, Rodrigo Maia, e naturalmente toda a ala esquerda da política brasileira.

Fez o possível para reviver uma personalidade esquecida.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A sutileza do general

A arrogância do líder

Otávio Santana do Rêgo Barros (*)

Os filmes de faroeste produzidos nos estúdios de Hollywood nos faziam torcer por muitos mocinhos e abominar alguns vilões. Na maioria das vezes retratavam a saga da colonização e a expansão americana rumo ao Oeste.

O “General” George Armstrong Custer foi um desses personagens, e desde já o escalo no time dos vilões, cuja ambição o tocava até no desejo de ser presidente americano, embora de sua história o que mais despertou meu interesse tenha sido seu perfil de liderança.

Custer (1839-1876) estudou na Academia Militar de West Point (equivalente aqui à Academia Militar das Agulhas Negras), formando-se em último lugar de sua classe. Não era nem aplicado nos estudos (limitado intelectualmente), nem muito rígido na observância das regras (indisciplinado).

Muito jovem, ainda como tenente, combateu na Guerra de Secessão, comissionado temporariamente no posto de general de brigada. Ao término do conflito, foi promovido a capitão e depois a tenente-coronel, assumindo o comando do lendário 7º Regimento de Cavalaria.

General Rego Barros

Antes da batalha do rio Little Bighorn, efeméride das Guerras Indígenas, batedores índios informaram ao “general cabelo comprido”, no comando de 647 homens, que estavam diante de um enorme acampamento indígena. Custer duvidou dos batedores. Como gente de uma sub-raça podia deduzir efetivos, baseando-se na profundidade das pegadas de cavalos? Ordenou o ataque. O vaidoso líder era obcecado, quase louco, por glória.

O 7º Regimento de Cavalaria atacou em várias direções, esperando provocar a dispersão dos inimigos, levando-os a uma fuga precipitada. Nesse dia, o General Custer incorreu em diversos erros. Acostumara-se a ver os índios entrarem em pânico diante de sua cavalaria. Imprudente, não valorizou as informações de seus batedores. Deparou-se com cerca de 15.000 índios de diversas tribos, liderados por Touro Sentado e Cavalo Louco. Usavam armas tradicionais e até modernos rifles de repetição.

Se fosse previdente, Custer teria estudado melhor o terreno e aguardado reforços. Ao sofrerem um contra-ataque, duas de suas colunas debandaram. Cercado numa pequena colina, pediu reforço a um subordinado, comandante de outro contingente, que recebeu a mensagem e a ignorou.

A batalha – uma carnificina – durou cerca de 20 minutos. Custer e seus comandados, incluindo seus dois irmãos, foram chacinados. Apenas um cavalo sobreviveu. Muitos estudiosos na arte da guerra o culparam pelo massacre, afirmando que ele cobiçava receber todo o prestígio pela vitória que lhe parecia destino.

A história de sua morte é plena de ensinamentos e deve ser considerada por aqueles que se encontram em posições de mando. Dela depreende-se que:

  • É impositivo planejar com segurança a hora do ataque;
  • é preciso ouvir assessores experientes;
  • não se divide forças contra inimigos poderosos;
  • é preciso cautela, mesmo que a ansiedade por fama fale mais alto;
  • há infiltrados que são mercenários e se vendem pelo melhor preço;
  • os inimigos não ficam inertes, fazem alianças e estudam os adversários e
  • os verdadeiros guias de uma nação chegam ao poder e passam à história por terem conduzido e superado com serenidade e determinação as crises e as catástrofes.

Arrematando, líderes que decidem de forma figadal podem fenecer, levando consigo seus subordinados e deixando apenas um trôpego cavalo para contar a história.

Oxalá esses ensinamentos ajudem nossos Custers contemporâneos a reverem seus conceitos de liderança, incorporando no seu alforje de atributos a humildade, a serenidade, a temperança, a maturidade, a empatia e, acima de tudo, a verdade.

Estamos ficando angustiados. Estamos chorando. Não queremos mais perdas. Nossa batalha de Little Bighorn é a da covid-19. É preciso mais ponderação e menos arrogância para enfrentá-la.

Índios ensandecidos, da temida e poderosa tribo coronavírus, desejam arrancar o nosso escalpo e demonstrar que erramos, mais uma vez, ao escolhermos esses atuais líderes.

Senhores políticos, provem que eles estão errados! É o presente de Natal que desejamos. Somos reféns de suas idiossincrasias.

Feliz Natal! E um ano novo com mais esperanças! Paz e bem!

(*) Otávio Santana do Rêgo Barros é general. Foi porta-voz da Presidência da República até 7 out° 2020.

Assédio

by Damien Glez (1967-), desenhista francês

Ascânio Seleme (*)

O assédio do deputado Fernando Cury à deputada Isa Penna é uma demonstração absurdamente explícita do desrespeito e do abuso. Como pôde o deputado imaginar que podia se esfregar assim numa mulher sem o seu consentimento e que não aconteceria nada? Ainda mais em se tratando de uma parlamentar do PSOL, partido conhecido por sua constante luta contra este tipo de abuso. O partido de Marielle Franco, convenhamos. E, depois, o local do assédio era o plenário da Assembleia Legislativa de SP, local monitorado por câmeras o tempo todo. Cury deve ser punido por importunação sexual, falta de decoro e burrice atroz.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto foi publicado no jornal O Globo de 19 dez° 2020.

Cinema

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Não fosse a grande dificuldade que tenho em vencer minha preguiça natural de sair de casa, eu frequentaria mais as salas de cinema. Existe ainda um outro importante fator: o trauma. Sei que é difícil acreditar em algum tipo de trauma que a gente possa carregar por causa de uma diversão como essa, mas eu arrasto um e posso explicá-lo melhor.

Há muitos anos, quando eu era solteiro e ainda muito mocinho, fui assistir a um filme. Nem me lembro qual era, mas fui. Levei minha namorada de então. Também não me lembro quem era, mas levei. Naquele tempo, namorar no escurinho do cinema era o máximo. Só vou fazer uma ressalva: quero deixar claro que, quando eu era mocinho, o cinema não era mais mudo. Ele já falava.

Enfrentávamos uma imensa fila para comprar os ingressos, quando dois meninos, bem vestidos até, se aproximaram e nos ofereceram dois ingressos. Ótimo. Assim, não teríamos de encarar toda aquela fila para comprar entrada e mais outra para entrar no cinema.

Os meninos nos explicaram que, como os pais deles já haviam comprado ingresso, aqueles estavam sobrando. Eu e minha namorada (qual o nome dela mesmo?…) nos entreolhamos e concordamos tacitamente em comprar os tais ingressos. Ficamos todos muito felizes. Tanto os garotos quanto eu e a… a… tá bom, vá lá, a moça que me acompanhava.

Saímos daquela fila e fomos para a outra, menos apinhada e mais rápida, para propriamente entrarmos no cinema. Logicamente, nos posicionamos atrás do último da fila para aguardar nossa vez. Percebemos que todos os companheiros de fila levavam ingressos de cor verde. Só os nossos dois eram cor-de-rosa.

Naquele exato momento, senti acender em minha testa uma luzinha que piscava: “otário, otário” em vermelho! Puxei minha namorada para fora da fila e saímos em busca dos meninos. Era um cinema de bairro, perto de onde eu morava. Naquele tempo existia apenas o cinema falado. Os shopping centers ainda não. Nem falados, nem mudos.

Saímos à cata dos dois garotos e, não demorou muito, os encontramos. Justamente na fila para comprar os bilhetes, com o meu dinheiro. Agindo como se participássemos de um filme de espionagem, ficamos atrás deles, para nos valer do fator surpresa. (Aprendi isto em filme do James Bond, mas o pessoal da Swat também usava esse truque.)

Claro, o truque funcionou como no filme. Já ia até dizer: “Meu nome é Manzano. Francisco Manzano”, com um canto da boca. Mas desisti rapidamente e comecei ali mesmo, segurando um dos meninos pelo braço, movido pelo impulso e pela raiva que eu sentia no momento, a gritar com os dois aprendizes de estelionatários.

A coisa mais delicada que eu vociferei foi que eles eram dois marginaizinhos, golpistas mirins. Disse que iria chamar a polícia para resolver o caso. Eles, ainda não recuperados da total perda de cor da pele (que, de tão branca, deixava transparecer os pulmões ofegantes), imploraram com um “pelo amor de Deus, moço, a polícia não!”.

Mexeram com meus sentimentos humanitários e fizeram jus às benesses da minha condescendência. Concordei com eles. Pra que a polícia? Antes de soltar o braço do garoto, fiz com que eles nos devolvessem o dinheiro que nos haviam surrupiado, o que fizeram com expressão apavorada. Ainda os ameacei. Num piscar de olhos, os dois sumiram. De tão rápidos, ninguém saberia dizer que rumo tomaram.

Quando já íamos nos afastar do local, com o dinheiro recuperado ainda guardado no meu bolso, surgiram-nos pela frente dois não muito simpáticos representantes de nossa polícia, que foram sem cerimônia alguma nos pegando pelo braço, enquanto uma senhora gorda, toda esbaforida, apontava para nós e gritava, chamando a atenção não só dos policiais, como de todos os que passavam pelo local:

‒ Foram esses aí mesmo, seu guarda! Foram eles que tiraram dinheiro das duas crianças. Eles ameaçaram os coitadinhos! Foi horrível! Pobres crianças! Gente tarada! Achei que eles iam bater nas crianças, até matar!

Pronto. Tentei explicar ao solícito policial o que ocorrera. Porém, no primeiro “mas” que esbocei, fomos, aquela moça que estava comigo e eu, gentilmente instalados dentro da viatura e levados até a delegacia.

Cinema é muito complicado. Depois da roda, a maior invenção foi o DVD.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Aquele abraço

Fernando Gabeira (*)

Quando William Shakespeare tomou sua vacina no histórico 8 de dezembro, confesso que o invejei. A primeira coisa que me veio à cabeça foi abraçar, depois de tantos meses, minha filha que vive longe daqui. Imaginei imediatamente quantos abraços e beijos estão congelados a 70 graus negativos, esperando o momento da vacina.

Mas aqui, caro Shakespeare, a vacina ainda é sonho de uma noite de verão. Gostaria também de voltar à estrada, passar longos dias no mato, voltar ao escurecer, com os curiangos voando diante do para-brisa, as primeiras luzes se acendendo na periferia da pequena cidade.

Aqui, William, somos reféns de um governo obscurantista, que não só negou a Covid-19, como o governo britânico no início, mas, ao contrário dele, nunca mudou de posição.

Não vou te cansar com detalhes biográficos. Para quem conheceu Hamlet, o nome Bolsonaro e seus dramas acabariam aborrecendo pela vulgaridade.

O fato é que ele acredita mais num remédio do que na vacina contra o coronavírus. Primeiro, importou da Índia insumos para hidroxicloroquina, e ela encalhou nos laboratórios do Exército. Depois, ao lado de um astronauta, investiu milhões em pesquisa sobre um vermífugo chamado Anitta. Fracasso.

Ele escolheu um general para comandar essa guerra. É um especialista em logística que deixa milhões de testes contra Covid-19 adormecidos num galpão de São Paulo.

Esse general talvez fosse um personagem. Ele acha que o inverno brasileiro do Nordeste coincide com o europeu. E promete comprar vacinas se houver demanda, como se nenhum de nós sonhasse com o seu 8 de dezembro, William.

A única preocupação do homem que preside o país é que a vacina não seja obrigatória. Mas como poderia ser, se levaremos mais de um ano para vacinar todo mundo? Como tornar obrigatório algo que não está disponível? A liberdade será preservada.

Vejo nas redes sociais que seus seguidores temem que a vacina, sobretudo as que trabalham com RNA, possam mudar o código genético. Temem a vacina que você tomou, a da Pfizer, como se depois dela William Shakespeare deixasse de escrever e se tornasse lenhador na cidade de Warwick.

O Brasil talvez seja o único país onde as vacinas têm um peso ideológico. As chinesas são preteridas pelo governo porque são chinesas, têm o olho apertado e podem nos transformar numa multidão de fanáticos do comunismo invadindo as ruas com o livrinho vermelho na mão.

O general que confunde invernos e entraria em mais frias do que Napoleão não se lembrou ainda de comprar as seringas e agulhas, dessas que foram usadas aí, William, nessa terça-feira histórica.

Para não dizer que tudo aqui é cinzento e sem esperança, registro que podemos ver o terno e o vestido que o presidente e sua mulher usaram na posse, em 2019. Eles estão expostos, a entrada é grátis, e foram inaugurados com pompa, discursos sobre estilo e Jesus Cristo, ou como definir as medidas de um enviado dos céus.

Indiferente a tudo, o vírus avança. Nada mais fácil do que enlouquecer um país antes de destruí-lo.

O governo vai amarrar ao máximo o processo de vacinação, simplesmente porque não acredita nele. Em 1904 houve uma revolta contra a vacina. Será preciso uma outra revolta, desta vez para que as vacinas sejam usadas o mais rápido possível.

Será preciso lutar não só para a retomada econômica, mas para que nossas vidas sentimentais sejam reatadas como antes. Isso é até secundário, se considerarmos o número de doentes e mortos que o atraso produz.

Contamos com alguns governadores, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Não se pode dizer que sejam rápidos ou solícitos para entrar nessa luta. Mas é o que temos. Se for necessário, que se faça uma pressão sobre todos. Pode chegar o momento em que fique claro que não só o vírus, mas a elite burocrática e política brasileira, é um obstáculo de vida ou morte.

Se no combate contra um vírus há tanta hesitação, imagino em casos mais graves como numa guerra. O Exército, que na origem era aliado da ciência, produz um general obscurantista como Pazuello, o presidente que foi escolhido por milhões dedica-se a expor numa vitrine iluminada um terno escuro e o vestido que a mulher usou na posse.

Nem todos os que se sentem mumificados podem entrar num museu. Há critérios: é preciso tempo e história, até para um lugar no museu de horrores.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O artigo reproduzido foi publicado no jornal O Globo de 14 dez° 2020.

Teimosia

Eduardo Affonso (*)

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina. O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão.

A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

A roupa velha do rei

Marcelo de Moraes (*)

Faz sentido Jair Bolsonaro demonstrar tanta alegria ao participar de um evento que coloca em exposição os trajes usados por ele e pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, no dia da posse. Certamente, ao rever as roupas, o presidente viaja de volta a um tempo em que, recém-consagrado pelas urnas, tinha muito menos preocupações.

Aparentemente, o governo não dimensiona a ansiedade desesperada das pessoas que esperam pela vacinação, depois de nove meses de pandemia e quase 180 mil mortes. Talvez o presidente também não tenha escutado o recado das urnas, que lhe contaram que seu apoio não serviu para impedir a derrota da maioria dos seus aliados. O desgaste sofrido nos dois primeiros anos de administração e o negacionismo em relação ao coronavírus já estão cobrando uma alta conta política.

(*) Marcelo Moraes é jornalista. O texto é excerto de artigo de 8 dez° 2020.

Bolsonaro e o pau no chão

Carlos Brickmann (*)

No início do Governo, a fiscalização encontrou invasores derrubando árvores amazônicas. Usavam aquelas máquinas enormes, com correntes, que arrancam grandes árvores com raiz e tudo, para abrir uma clareira na mata, onde implantariam uma fazenda em terra pública e supostamente preservada. As árvores, ilegalmente abatidas, seriam ilegalmente vendidas.

Os fiscais agiram conforme as normas: puseram fogo nas máquinas, única maneira de desativá-las, já que seria impraticável tirá-las de lá. O presidente Bolsonaro entrou em erupção: na hora, suspendeu a política federal de destruição de máquinas usadas para botar abaixo as árvores.

Dado o sinal de vale-tudo, em pouco tempo começaram os incêndios na Amazônia – havia até um grupo de WhatsApp coordenando as queimadas. Na comoção dos incêndios, que desviou as atenções, os desmatadores foram derrubando árvores. O governo Bolsonaro não pode ver pau em pé; deixa que os grandes troncos beijem o chão, sejam vendidos e só então interfere, para botar a culpa nos países e empresas estrangeiras que compram ilegalmente a madeira ilegalmente abatida. Gringos espertos! São capazes de se entender com os espertos daqui!

Alguém acredita que um jacarandá de 25 metros de altura (um prédio de oito andares) com tronco de 80 cm de diâmetro sumiu sem que ninguém notasse sua viagem para o porto? Um ipê de 40 metros (12 andares de altura!) pode ter entrado escondido no navio ilegal, sem conivência de ninguém? A culpa é só dos gringos? E aqui trabalhamos para preservar a Floresta Amazônica?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Demência de Bolsonaro

Ruy Castro (*)

Para nós que passamos 21 anos de vida adulta (1964-1985) sob a ditadura, os generais eram sujeitos sinistros, de óculos escuros, que nos ditavam quando, se e em quem podíamos votar, o que podíamos ler, ver, escutar, dizer e escrever e, se falássemos em instituições, direitos e liberdade, eles mandavam prender e arrebentar. Eles tinham as armas, as verbas e as canetas com as quais impor sua autoridade. E os porões, instrumentos de tortura e beleguins para aplicá-la. A mera visão de uma farda era intimidadora. Ela nos reduzia moralmente à menoridade, às calças curtas, à fralda.

Aí está algo incompreensível para um brasileirinho de hoje. Ele não entenderá como os militares podiam ter essa força. Para ele, militares são sujeitos que Jair Bolsonaro põe no governo, exibe nas redes sociais e logo começa a depreciar, diminuir, desmoralizar e, por fim, fulmina com a demissão. Em menos de dois anos, já fez isso com 16 generais, quatro brigadeiros e um almirante, e só entre os oficiais de alta patente.

Segundo levantamento da Folha, Bolsonaro demite um desses caciques por mês, até os que, por causa dele, abriram mão de suas promoções. Nada se compara, claro, ao esbofeteamento simbólico a que vive submetendo o general Eduardo Pazuello, pseudoministro da Saúde e seu mais dedicado ajudante de ordens.

Se Bolsonaro trata assim os graúdos, imagine seu apreço pelos 6.000 fardados do segundo time com que entupiu os ministérios, estatais, autarquias e bancos públicos. Só lhe servem para alimentar sua ilusão de que comprou o Exército.

Pode ser psicologia de galinheiro, mas estou certo de que Bolsonaro faz tudo isso para se compensar de humilhações em sua medíocre carreira militar. É uma forma de demência, que parece fascinar os generais – ou não se submeteriam a ela.

O brasileirinho de hoje tem razão. Se eles são assim, como conseguimos passar 21 anos sob suas botas?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Gooood friends

Carlos Brickmann (*)

Foi só a missão diplomática americana que veio pedir apoio na guerra à Huawei chinesa deixar o Brasil, que os EUA começaram a investir – investir contra a economia brasileira: impuseram sobretaxa de 50% às importações de chapas de alumínio aqui produzidas.

Segundo a Associação Brasileira do Alumínio, a sobretaxa inviabiliza as exportações para o mercado americano, até agora o maior cliente do Brasil. Isso ocorre junto com a assinatura do acordo brasileiro-americano sobre redução de obstáculos ao comércio.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Sai Cofrinho, entra Cofrinho Jr.

Carlos Brickmann (*)

Chico Rodrigues, DEM, o senador cuja história entrou para os anais, tirou 121 dias de licença do Senado. Assim, a decisão do ministro Barroso – que nome predestinado! – de afastá-lo do cargo por 90 dias foi suspensa pelo próprio ministro, por ter-se tornado desnecessária. Mas o importante nem é isso: é que, licenciando-se por 121 dias, um senador automaticamente passa o cargo ao suplente.

No caso, o suplente é Pedro Arthur Ferreira Rodrigues (DEM), filho de Chico Rodrigues e herdeiro, pelo menos temporário, de seu mandato. E passa a desfrutar das mordomias do cargo. Citando a frase clássica, a família é a base da sociedade. E ninguém, claro, criticará tão belo exemplo de solidariedade entre pai e filho.

A história não termina por aqui. Chico Rodrigues insiste em dizer que o dinheiro localizado no insólito esconderijo era destinado ao pagamento de seus empregados. Vá lá, vá lá, mas que é que pode ocorrer se suas empresas crescerem, graças a seu trabalho e seu tino gerencial, e contratarem mais funcionários? Chico Rodrigues, em vídeo que enviou aos senadores, também diz que, ao enfiar o dinheiro no providencial esconderijo sob suas cuecas, tomou “a decisão mais irracional de sua vida”.

Engano: a decisão mais irracional de sua vida foi candidatar-se; e a dos eleitores, dar-lhe o voto. Mas aceitemos. Só que, quando alguém está prestes a ser preso, costuma mastigar e engolir as provas. Errar o lado do aparelho digestivo é novidade.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Trump, a bomba humana

Ruy Castro (*)

Milhões perderam o emprego por causa do coronavírus. Donald Trump não. A pandemia não obrigou a Casa Branca a fechar as portas. Em consequência, Trump continuou batendo o ponto, recebendo o salário e contando com as benesses de seu cargo, inclusive a de ter sua vida salva.

Não sejamos cínicos. Foi com euforia que o mundo recebeu a notícia de que ele caíra vítima da doença que já afetou 35 milhões de pessoas e cuja gravidade sempre negou. Nada de condolências ou preces hipócritas pela sua recuperação. Multidões torceram para que ele passasse pelos mesmos horrores que nossos parentes e amigos, como o de ser entubado, e, quem sabe, se juntasse ao mais de um milhão de pessoas que o vírus levou. Entre outros motivos, para que alguém menos irresponsável tomasse as rédeas nos EUA e interrompesse o nefasto exemplo que Trump dá a governantes beócios.

Daí o encanto com que acompanhamos a batelada de remédios que os médicos bombearam no seu organismo por uma miríade de orifícios. Trump foi recheado com coquetéis de anticorpos sintéticos, antivirais, melatonina, zinco, aspirinas e antiácidos, associados a quilos de drogas heavy metal como dexametasona, remdesivir e REGN-COV 2, enquanto eles o mantinham respirando com jatos de oxigênio capazes de inflar o dirigível Hindenburg. Só não lhe deram cloroquina porque queriam salvá-lo, não matá-lo.

Com tudo isso, não admira que ele tenha levado apenas três dias para ressuscitar, voltar ao trabalho e jogar fora a máscara. O problema agora é: quem vai proteger a Casa Branca da bomba humana que Trump se tornou, despejando perdigotos por onde passa e atingindo colegas, burocratas, seguranças, faxineiros e até os pobres correspondentes?

Trump declarou que se sente melhor hoje do que “há 20 anos”. Mentira. Há 20 anos ele estava apalpando mocinhas em público. Agora já não lhe serve de nada fazer isso.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Os problemas argentinos

Carlos Brickmann (*)

Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos. Um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas.

É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”) enquanto o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é.

Juan Domingo Perón (1895-1974), político argentino

Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais (=R$ 3.300,00). E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos (=R$ 1.370,00).

Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Rádio Astral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um estranho fenômeno vem acontecendo comigo há já um bom tempo. Acordo todos os dias ao som de uma melodia qualquer e me pego tentando decifrar de onde ela vem: de fora ou de dentro? Isto é, estaria o som flutuando só na minha cabeça ou existiria alguma fonte externa identificável para ele?

Inicialmente, imaginei que as canções que eu “ouvia” teriam vazado durante a madrugada do apartamento de baixo, onde minha vizinha costuma organizar festas e encontros com amigos, sempre regados a muita conversa e cantorias animadas. Podia ser também que essa esquisita parada musical fosse proveniente do radinho de pilha do porteiro do condomínio, às voltas com a necessidade de afastar o tédio e o sono das madrugadas. Abria a janela, olhava para todos os lados procurando identificar de qual direção o som poderia estar vindo, mas sempre em vão. Nunca descobri nenhuma pista segura.

Aos poucos, fui entendendo que teria de procurar na minha mente os gatilhos para esse exótico desfile musical. Teria sido um sonho? Mas, se fosse, por que não havia na minha cabeça nenhuma lembrança, nenhuma imagem, nenhuma sensação, nenhum contexto emocional capaz de explicar satisfatoriamente a emergência da trilha musical? E, mais intrigante ainda, qual seria a mensagem que meu inconsciente estava tentando me mandar?

O que mais me impressionava nesse sentido era a imensa variedade de ritmos, estilos musicais e das épocas que ficaram marcadas por eles. Podia ser uma valsa, um tango ou bolero, uma modinha interiorana, um samba-canção do passado, uma dessas músicas-chiclete dos dias de hoje que não saem mais da sua cabeça por mais que você as rejeite, um ‘hit’ sertanejo ou de sofrência, funk ou reggae, música de Carnaval, Natal ou de festa junina, algo no estilo bossa nova, MPB ou de axé-music. Era como se eu estivesse rebobinando mentalmente a fita que continha a história da minha vida baseada apenas em seu fundo musical.

Ao longo do tempo, outras canções e estilos preferidos vieram se juntar aos do repertório popular brasileiro. Ainda deitada e de olhos fechados, eu tentava rememorar a letra de cada melodia e me emocionava com a capacidade de recuperar as emoções provocadas por antigas canções francesas e antigos sucessos das divas americanas do jazz, soul e blues que marcaram minha adolescência. Logo foram entrando em cena, sem pedir licença, também músicas folclóricas, hinos pátrios que eu era obrigada a cantar na escola e até hinos religiosos, que incluíam as músicas de procissão que minha mãe me forçava a acompanhar em criança.

O maior susto veio quando acordei um dia cantarolando a ária Nessun Dorma, trecho da ópera Turandot de Puccini. Nunca me interessei muito por música clássica e mal podia reconhecer as grandes obras da categoria e seus autores mais famosos. Também não conhecia a letra e não compreendia as expressões italianas. Corri para o computador e busquei freneticamente o libreto para tentar entender a história nele contada e os significados que eu poderia derivar para meu momento de vida atual. Apesar de tê-la considerado muito instigante, não fui capaz de compreender a ligação entre a tirânica princesa chinesa e a princesa adormecida que me habita, ambas ordenando que ninguém durma até que o segredo seja revelado.

Ontem, para meu igual espanto, acordei repetindo, mesmo sem saber por quê, os versos em latim de uma música com forte conteúdo patriótico que cantávamos na escola, durante o curso ginasial: Deus salva América de hostibus/Cuncta bona ei dona in malorum fluctibus/Nos rogantes et clamantes inter carmen discimus/Deus salva América, Amééricaa…

Mais uma vez, ‘dei um Google’ assim que me levantei para saber se minha memória havia sido capaz de preservar fielmente a letra original. Não a encontrei em nenhum site ou blog. Havia apenas referência ao fato de que essa música é considerada uma espécie de hino não-oficial dos Estados Unidos e que havia uma versão em inglês da letra, escrita por Irving Berlin em 1918.

Fiquei atônita. Jamais me ocorreria pensar que nossos professores de canto tivessem nos apresentado a uma canção patriótica estrangeira, sem se preocuparem em nos informar com clareza sobre sua origem. Ainda mais pasma, descobri que havia uma versão em português da mesma música escrita por João de Barro (e cantada por Francisco Alves) em 1945. Mas, me perguntava atordoada, se tivemos de decorar uma letra em latim, ela devia ser forçosamente muito anterior à versão americana – e, portanto, tratava-se de uma composição de autor desconhecido que havia sido apenas encampada pelos Estados Unidos, graças à mania de se considerarem única referência de América (e não o continente como um todo).

Preciso fazer um parêntesis para explicar de que forma a música moldou minha personalidade ao longo da vida. Quando criança, era forçada a ouvir quase que exclusivamente música instrumental, tocada por uma grande orquestra ou por um pianista famoso, que meu pai adorava. Admito que aquilo me entediava bastante. Sempre senti falta das palavras. Acompanhar – e ser capaz de entender – a mensagem contida na letra era minha grande paixão. Foi em nome dela que me interessei pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Ao longo de minha adolescência e começo da vida adulta, passava horas a fio ouvindo o mesmo disco e anotando às pressas como podia as palavras que decifrava. Depois, com o auxílio do dicionário, ia juntando uma palavra a outra, até que as frases começassem a fazer sentido.

É inegável que a arte, em todas as suas formas, é a única ferramenta com que podemos contar para refletir em profundidade sobre a condição humana e transcender todas as limitações que ela impõe. A linguagem musical é universal no que tange às emoções que desperta. Não há fronteiras nacionais, credos religiosos ou políticos que possam interromper o fluxo associativo de pensamentos, sentimentos e estados de espírito que emergem diante de cada frase musical. Pensando nisso, resolvi deixar de lado tanto esforço para compreender o conteúdo emocional despertado pela melodia que me acorda a cada dia. Navegar com prazer e deixar-me levar sem o uso da razão pela forma delas passou a bastar-me.

Foi então que me ocorreu um insight. Se podemos simbolizar numa melodia todos os acontecimentos relevantes de cada fase de nossas vidas, qual seria a música-tema universal mais representativa deste dramático ano de 2020? E, mais especificamente, que fundo musical poderíamos atrelar iconicamente aos terríveis eventos pandêmicos, climáticos, econômicos, sociais e políticos brasileiros?

Façam suas apostas. A minha lista das canções concorrentes ao título já está pronta. Acredito piamente que o plano astral está nos convidando – nada gentilmente, diga-se de passagem – a nos despedirmos da vida no planeta Terra tal qual a conhecíamos até aqui, bem como a superarmos a era do ódio às diferenças para podermos adentrar finalmente novos tempos de reconciliação com a natureza ambiental, com a natureza humana e com a natureza espiritual. Quem sabe, relembrando ou compondo novas músicas sejamos capazes de elaborar novas utopias que nos guiem com segurança e harmoniosamente pelo fantástico universo apocalíptico do século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Bye bye, Oscar!

Fernão Lara Mesquita (*)

Depois da britânica British Academy of Film and Television Arts, a americana Academy of Motion Pictures Arts and Sciences anunciou terça-feira que qualquer filme que queira candidatar-se ao Oscar terá de atender a uma lista de exigências que incluem:

• o uso de atores de grupos raciais ou étnicos sub-representados;

• roteiros centrados nesses temas;

• lideranças criativas ou posições-chave ocupadas por mulheres ou membros de grupos raciais e étnicos, da comunidade LGBTQ+ ou pessoas com problemas físicos ou cognitivos;

• estagiários pagos pertencentes a esses grupos e marketing de distribuição com componentes de diversidade.

Num escalonamento de três anos a começar pelo Oscar do ano que vem, quando pelo menos dois desses quatro quesitos já terão de ser atendidos, as exigências serão crescentes nas áreas de Atuação, Temas e Narrativas, Liderança Criativa e Equipe Técnica, Acesso à Industria e Oportunidades de Desenvolvimento de Audiências.

Na Alemanha nazista, assim como na União Soviética e países da Cortina de Ferro antes da queda do Muro, ou ainda na Coréia do Norte de hoje, normas de adequação política sempre condicionaram absolutamente a produção intelectual e artística, sob pena de morte.

Mesmo nos próprios Estados Unidos, não é a primeira vez que a Academia impõe regras alheias à qualidade do filme como condição para concorrer ao Oscar. Entre 1950 e 1957 eram desqualificados filmes que incluíssem qualquer ator, diretor ou pessoa com função proeminente na produção que tivesse sido membro do Partido Comunista ou que tivesse recusado testemunhar para o Comitê de Atividades Anti-americanas do Congresso, período durante o qual o apedrejamento tornou-se obrigatório para qualquer pessoa sonhando com fazer carreira no cinema americano ou de qualquer outra nacionalidade hoje.

Mesmo com um paralelo tão evidente não caiu a ficha dos novos macarthistas de Hollywood, o que confirma minha tese de que o melhor investimento do momento é comprar lotes de passagens para Marte pois é já que elas estarão sendo disputadas a peso de diamantes nesse mundo insuportavelmente chato que está aí.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro