Bolsonaro e a política externa

Elio Gaspari (*)

Quando Joe Biden venceu a eleição americana, Jair Bolsonaro levou mais de um mês para felicitá-lo.

Sua diplomacia acreditava na lorota de Donald Trump, que dizia ter sido roubado. Quatro dias depois da eleição de Pedro Castillo, o capitão disse que “perdemos agora o Peru”, pois a seu juízo “só um milagre” reverterá a derrota de Keiko Fujimori.

Demorou para reconhecer um resultado e apressou-se para admitir o outro.

Nomeando Marcelo Crivella para a representação do Brasil na África do Sul, Bolsonaro entra para os anais da diplomacia como o primeiro chefe de Estado a nomear um embaixador que está proibido de deixar o país pela Justiça.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 13 jun° 2021.

Face, Google, Twitter e o golpe

Pedro Doria (*)

Prezados Zuck, Sundar e Jack,

Aqui no Brasil, não costumamos escrever a CEOs como vocês, de Facebook, Google e Twitter, chamando pelo apelido ou prenome. Mas vou me permitir escrever assim, na informalidade americana tão típica no Vale do Silício. É para ser mais direto.

É preciso que vocês prestem atenção na política brasileira. Agora.

Em 6 de janeiro último, uma turba invadiu o Capitólio, em Washington. A polícia legislativa não acreditava que isto seria possível. Dá para entender. Numa democracia longeva que não interrompeu o ciclo de eleições regulares nem com uma guerra civil, como seria possível imaginar que cidadãos americanos invadissem o Parlamento para interromper a homologação de um pleito? Mas aconteceu. Pessoas foram radicalizadas a esse ponto em ambientes digitais e aí insufladas por um presidente que desprezava a ideia de uma sociedade livre.

No Brasil, a história nos obriga a imaginar essa possibilidade.

Minha geração de jornalistas aprendeu o ofício com colegas quinze ou vinte anos mais velhos que enfrentaram, na condição de repórteres e editores, a ditadura mais recente. Alguns desses amigos, que ainda trabalham nas redações, gente por quem temos afeto, foram exilados, presos e torturados pelo exercício das liberdades políticas essenciais: a de pensar, a de se expressar, a de se manifestar, a de publicar e a de se reunir para debater.

Donald Trump segue persona non grata em várias das redes. A decisão de excluí-lo seguiu um princípio que qualquer democrata endossa: o Paradoxo da Tolerância, descrito pelo filósofo austríaco Karl Popper. No limite, uma sociedade aberta não pode abrir espaço para que intolerantes usem destas liberdades para ameaçar o regime democrático.

A República brasileira nasceu com um golpe militar, em 1889. De lá para cá houve golpes de Estado em 1891, 1930, 1937, 1945, 1955 e 1964. Só um deles, o de 1955, fracassou. Em rigorosamente todos estes momentos, a ruptura de regime começou no momento em que foi quebrada, nas Forças Armadas, a exigência de disciplina que proíbe militares de se envolverem na política.

Há duas semanas, pela primeira vez desde a restauração da democracia no Brasil em 1985, um general da ativa subiu ao palanque em apoio ao presidente. Seus superiores no Exército, intimidados pelo mesmo presidente, nada fizeram. O sinal histórico de ameaça à democracia foi dado.

Em um ano teremos eleições. Como Trump, Jair Bolsonaro vem espalhando entre seus seguidores que há risco de fraude. Não é a única das mentiras que seu movimento trabalha diariamente para espalhar. São mentiras que têm por objetivo disseminar naquela parcela radicalizada da população elementos que a convençam de que não devem confiar nas instituições da democracia.

Bolsonaro está seguindo o script de Trump. Não há, na história do Brasil, nada que nos garanta que o desfecho será como o americano. Aqui, vivemos o receio concreto de que os generais não tenham mais pleno controle de suas tropas. E sabemos que os governadores não controlam mais plenamente suas polícias.

Me permitam ser explícito: numa situação limite, um 6 de janeiro, no Brasil, poderia contar com o apoio de parte da polícia enquanto o Exército nada faz.

Vocês conhecem as plataformas que comandam. Sabem do peso que elas têm em todos esses acontecimentos. Agir depois do ato fatal, como fizeram com Trump, aqui pode ser tarde demais.

Nós, brasileiros, não temos qualquer tipo de influência sobre as decisões que vocês tomam. Mas somos nós e nossos filhos que sofreremos pelas decisões que tomarem. É hora de ligar o alerta vermelho em Menlo Park, Mountain View e San Francisco.

O golpe, se houver, fracassado ou não, será batizado com o nome das empresas que vocês comandam.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no Estadão de 11 junho 2021.

Militares nos EUA e no Brasil

Nos EUA, militares seguiram a lei em vez de Trump, e afastaram temor que agora há no Brasil

Pedro Doria (*)

Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, o general Mark Milley discursou em novembro de 2020 sobre o dever de cada militar em sua visão, após o presidente Donald Trump promover uma série de mudanças no alto escalão do Pentágono. “Não fazemos juramento a um rei”, ele afirmou, “a um tirano ou a qualquer pessoa. Juramos defender a Constituição dos Estados Unidos.”

O cargo de Milley está acima do dos três comandantes de cada uma das Armas e ele é o militar mais graduado do país, imediatamente abaixo do secretário da Defesa, que em geral é civil. Existe um motivo para que, em democracias liberais, militares não possam se manifestar politicamente. Não é uma razão trivial. É, isso sim, uma razão da qual depende a essência da democracia.

As Forças Armadas são, o próprio nome diz, a instituição mais armada de uma nação. Tem tanques, mísseis, caças, toda sorte de armas, e profissionais especialistas em seu manuseio. Elas precisam existir. Se um país é atacado, precisa se defender. A existência de Forças Armadas já é um motivo para evitar guerras.

Mas isso cria, para democracias, um dilema. Armam-se essas instituições e seus integrantes – e o que acontece se elas decidem se envolver em política? O debate público não pode envolver violência. Não pode, portanto, ter a participação de elementos que ameacem de alguma forma, com violência, a defesa de seus ideais. É por isto que qualquer cidadão, quando escolhe a carreira militar, abre mão imediatamente de se manifestar publicamente sobre política.

Porque tem acesso às maiores armas de um país, não pode entrar no debate sobre política. É preciso que o debate público ocorra sem que um lado tenha força militar.

Não é uma peculiaridade do Brasil. Está no alicerce de qualquer democracia. O que o alto-comando do Exército decidiu na quinta-feira, ao não punir o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello por ter participado de uma manifestação com o presidente Jair Bolsonaro, é, portanto, isto: militares já podem se manifestar publicamente em favor do presidente da República. Uma decisão temerária: o Exército acaba de se colocar na política.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no jornal O Globo de 4 junho 2021.

Amazonas

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro não foi ao Amazonas quando lá morriam pessoas por falta de oxigênio. Mas agora foi, com farta comitiva, para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros por seis – no Interior, seria chamada de “pinguela”.

Lá gravou uma live defendendo a cloroquina, chamando-a de “aquele remédio que ofereci à ema”. Esqueceu de contar que a ema, indignada, o bicou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Beijo planetário

Eduardo Affonso (*)

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson.

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito um tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa(1), cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

(1) Texto preparado para um 5 de maio.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Na semana que passou

Carlos Brickmann (*)

Frente a frente
Seria ótimo promover uma acareação entre três membros do Governo: o publicitário Fábio Wajngarten, que disse que Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas; o diplomata Ernesto Araújo, que confirmou a ordem do presidente de negociar a importação de cloroquina; e Pazuello. É provável que a tal “síndrome vasovagal”, que dizem que teve e levou à interrupção da sessão da CPI, acabe sendo chamada pelo nome mais popular.

Dilmismo bolsonarista
O então deputado Jair Bolsonaro disse que, para o país tomar jeito, era preciso que morressem umas 30 mil pessoas. Donde se conclui que o general Pazuello atingiu a meta, dobrou a meta e dobrou-a de novo até ser afastado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imorrível

Ascânio Seleme (*)

Nosso presidente é tão extra ordinário que chegou ao ponto de dizer uma barbaridade diante de câmeras e microfones sem ruborizar. Ele disse ser “imorrível, imbroxável e incomível”. A declaração, abusada e grosseira, prova mais uma vez que Bolsonaro é mesmo um mentiroso.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 22 maio 2021.

Resenha da semana

Ascânio Seleme (*)

Vagabundo
Alertado pela pesquisa Datafolha que perde feio para Lula no Nordeste, Bolsonaro viajou para Alagoas e chamou para ciceroneá-lo o prefeito de Maceió, o famoso JHS, o presidente da Câmara, o ilibado Arthur Lira, e o ex-presidente de triste memória Fernando Collor de Mello. O presidente é mesmo um político de visão.

Quem dá mais
Os desvios do Mensalão do governo Lula chegaram a R$ 101 milhões, de acordo com contabilidade da Polícia Federal e de peritos do Tribunal de Contas da União. A operação, que consistia em comprar apoio político com dinheiro público, durou cerca de um ano. O Tratoraço de Bolsonaro, que tem a mesmíssima finalidade, irrigou o apoio político com R$ 3 bilhões. O senador Fernando Bezerra, da tropa de choque do governo na CPI da Covid, levou sozinho R$ 125 milhões, 25% a mais do que o Mensalão inteiro.

Além de ser 30 vezes maior do que o cala-boca petista, o caraminguá bolsonarista foi despejado em parcela única. O Mensalão foi o grande escândalo da gestão de Lula. O Tratoraço é só mais um dos diversos crimes cometidos pelo governo Bolsonaro.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 15 maio 2021.

Calendário

Ricardo Soca (*)

Os romanos tinham um método um tanto incômodo de contar os dias. Contavam para trás a partir de três datas: as calendae, que eram o primeiro dia do mês; os idus, que caíam entre o 13 e o 15; e as nonas, o nono dia antes dos idus.

Dessa forma, o 30 de janeiro (naquele tempo, esse mês só tinha 30 dias) era chamado primum dies ante calendas februarium (primeiro dia antes das calendas de fevereiro). O 29 de janeiro era o secundum dies ante calendas februarium, e assim por diante.

Na origem, calendae era a cerimonia em que o sumo pontífice convocava o povo ao Capitólio para anunciar as festas e os sacrifícios do mês. Assim, o termo calendae encerra a ideia de convocar, do latín calāre, procedente do grego καλέω (kaléo), e este, por sua vez, do indoeuropeu keld- ‘gritar’. Esta raiz pré-histórica deu lugar a clamar, que em nossa língua atual é chamar.

Talvez porque os dias antes das calendas ocupavam a maior parte do mês, acabou se chamando calendário o sistema de representação da passagem dos dias, agrupados em unidades superiores como semanas, meses, anos, etc. Ou também a lista de datas em que ocorrem as fases da Lua (calendário lunar).

(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e jornalista. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.

O jornal que nos abraça

Ruy Castro (*)

Um amigo meu, a respeito de um artigo na Folha, referiu-se ao fato de tê-lo lido “no impresso”. Queria dizer, claro, que o lera no jornal de papel. Ao ouvir isso, ocorreu-me que cada vez mais pessoas chamam de “impresso” o jornal que se compra na banca ou se recolhe pela manhã na porta do apartamento, para diferenciá-lo do online. E me ocorreu também que, mais uma vez, a substituição de um formato por outro fará com que o antigo é que tenha de mudar de nome para dar lugar ao novo.

Foi o que aconteceu quando o CD começou a se impor sobre o LP, nome pelo qual o disco de vinil foi chamado durante os seus cerca de 50 anos (1948-98) no mercado. Pois, com a chegada do CD, que era um disco metálico, o LP passou a ser chamado de “vinil” —quando, se fosse o caso, o CD, como novidade, é que devia ser chamado de “metal”. O que, com atraso, ainda pode acontecer, agora que o CD também foi reduzido a peça de museu pelas novas tecnologias.

Ninguém na Idade Média (500-1500) dizia que estava vivendo na Idade Média, e muito menos era xingado de medieval. A pecha só se estabeleceu quando veio o Renascimento. Também se diz sem pensar que dom João 6º trouxe a família real para o Brasil em 1808. Mas quem fez isto foi o príncipe-regente dom João, que só se tornou dom João 6º ao ser coroado rei, em 1816.

O advento da Segunda Guerra (1939-1945) transformou em Primeira Guerra o que até então se conhecia como a Grande Guerra (1914-1918). No Brasil, a Revolução de 1930 não derrubou a República Velha. Derrubou a República de 1889 e, para indicar a ruptura, passou a chamá-la de Velha. E o sanfoneiro Luiz Gonzaga sempre foi Luiz Gonzaga, até ser eclipsado por seu filho Gonzaguinha e tornar-se, retroativamente, Gonzagão. Etc.

Donde parece inevitável que este nosso velho amigo matinal, que nos abraça ao ser aberto, em breve se torne “o impresso”, e estaremos conversados.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Marina e a perereca

Ascânio Seleme (*)

Lula tem razão. Ele e Gleisi assinaram artigo na “Folha” mostrando preocupação com o meio ambiente e batendo na política criminosa de Bolsonaro para o setor.

Mas é bom não esquecer que o maior ícone ambientalista nacional, a ex-senadora Marina Silva, pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente no governo Lula por falta de “sustentação política” para tocar sua pauta.

Também não custa lembrar que Lula sempre se queixou da “poderosa máquina de fiscalização” ambiental. Por isso disse, no longínquo 2010, que o Brasil não podia “ficar a serviço de uma perereca”. Criticava a paralisação das obras do Arco Metropolitano do Rio em favor da preservação de um anfíbio que habitava um charco por onde passaria a estrada.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 24 abril 2021.

A multiplicação das cotas

Hélio Schwartsman (*)

Cotas provavelmente vieram para ficar, mas continuo não gostando delas. Reconheço que é tentador resolver problemas atuando diretamente sobre os resultados a que queremos chegar. Se é a discriminação que impede minorias de obter vagas nas universidades e concursos, bons postos de trabalho e cargos de direção, então basta reservar esses lugares para elas. Fazê-lo, entretanto, é abrir uma caixa de Pandora.

Não é difícil enxergar o viés contra mulheres e negros nas estatísticas. Mulheres e negros ganham em média menos do que homens brancos mesmo quando os cálculos são ajustados para comparar adequadamente qualificação, horas trabalhadas, tempo de casa etc. Pior, experimentos mostram que currículos idênticos obtêm respostas diferentes dos empregadores dependendo do sexo e da etnia do candidato.

O problema é que não são só mulheres e negros. O primeiro emprego de Lúcifer deve ter sido de estatístico. Quem se debruçar com cuidado sobre os dados encontrará discriminação contra jovens, velhos, gays, gordos, feios e até contra baixinhos.

Embora não exista uma história conhecida de perseguição e opressão contra pessoas de baixa estatura, esse grupo, a crer em estudos norte-americanos, sofre tanto quanto mulheres e negros no mercado de trabalho. Entre os CEOs das maiores companhias americanas, 58% tinham mais de seis pés (1,83 m) de estatura, contra apenas 14,5% na população geral. Cada polegada (2,54 cm) a mais de altura representa um incremento de US$ 789 na renda anual do funcionário. Curiosamente, só o estado de Michigan tem uma lei para coibir o preconceito contra baixinhos.

Uma aplicação consistente do princípio de que grupos discriminados devem ter direito à reserva de vagas nos levaria a uma irrefreável multiplicação das cotas. No limite, chegaríamos a uma situação borgiana na qual cada indivíduo, dadas suas peculiaridades, faria jus à cota de si mesmo.

(*) Hélio Schwartsman é graduado em Filosofia e escritor.

Estrela brasileira no céu azul

Carlos Brickmann (*)

Sim, já houve época em que Varig, Panair, Vasp, Transbrasil e TAM eram embaixadoras do Brasil no Exterior. Respeitadas internacionalmente, era em seus escritórios que os brasileiros no Exterior liam jornal e tomavam cafezinho; eram seus pilotos que traziam remédios do Exterior, sem frete.

Hoje, que o governo federal se orgulha de ter transformado o Brasil em pária entre as nações, podemos voar livremente, ou quase livremente, para oito países: México, República Centro-Africana, Nauru, Tonga, Costa Rica, Afeganistão e Albânia. Senhores passageiros, sejam bem-vindos a seus destinos de comércio e de turismo e tenham uma boa viagem pela Bolsonair!

Temos oito destinos dos quais dois valem a pena. E 217 países restringem a entrada de passageiros vindos do Brasil. Nada ideológico: Europa Unida, Estados Unidos, Rússia, China, Cuba, Argentina, Chile, Canadá, Inglaterra, Israel, Irã, Turquia impõem sérias restrições aos viajantes provenientes de nosso país tropical.

Este colunista passou por diversas fases em voos internacionais: a fase Pelé, a fase samba-mulher-futebol, a fase da ditadura militar, a fase Amazônia, e até, surpreendentemente, uma fase Jorge Amado, em que a Europa intelectual discutia a opção menos partidarizada de seus romances.

A fase atual – “bote esse cara na quarentena e cobre adiantado” – me era desconhecida. O Brasil era pobre, mas o brasileiro era bem recebido. Hoje o brasileiro, vetor de vírus, é mal recebido. E o Brasil continua pobre.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Escrever é ter esperança

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma de minhas canções favoritas, inexplicavelmente muito menos conhecida, de Jacques Brel (1), é a que leva o título de “Chanson sans Paroles” [Canção sem palavras]. Nela, ele elabora um acachapante contraponto entre o tempo do sentir – ou, mais precisamente, a perda da noção de tempo que acontece quando se está passando por uma experiência emocional intensa – e o tempo do narrar como a experiência foi sentida.

Num diálogo mental com uma mulher, ele rememora o envolvimento amoroso que teve com ela e declara sua intenção de lhe compor “um longo poema”, no qual lhe falaria “de mil maneiras diferentes” de amor, de fuga da realidade e da sensação de eternidade que os amantes experimentam ao viverem…

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(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Terra em transe

Dorrit Harazim (*)

Desde o início da pandemia, a parte dos brasileiros em condições de optar pelo iluminismo entendeu a seriedade do perigo, adotou medidas protetivas individuais, assumiu sua responsabilidade coletiva. Sempre se manteve decidida a não compactuar com o obscurantismo.

Para que o combate à covid-19 tivesse alguma chance de êxito ou racionalidade, teria bastado convencer o outro Brasil. Esse outro Brasil em estado de mitomania, aguerrido, porém fiel, teria seguido com disciplina religiosa qualquer ordem de distanciamento, uso de máscara ou confinamento emanada da boca do seu líder.

Tamanho poder e privilégio somente o presidente tinha, com tudo à disposição – cadeia nacional de rádio e TV diária, se quisesse, redes sociais, confiança cega de seguidores. Nenhum ministro da Saúde, nenhuma sumidade científica, nenhum acadêmico, celebridade ou vencedor do “BBB” teria, sozinho (nem em conjunto), eficácia semelhante.

O presidente da República preferiu incentivar o descarrilamento de vidas.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 abril 2021.

Absolver ou condenar?

Fernando Gabeira (*)

Tudo o que podemos fazer é prosseguir isolando Bolsonaro para derrubá-lo no momento em que for possível, ainda que isso só possa acontecer em 22. E julgá-lo também por sua incompetência assassina, quando for possível e tivermos força para que a Justiça não falhe.

Bolsonaro tem algumas características que podem absolvê-lo em certos tribunais brasileiros. Uma delas é a grande quantidade de provas contra ele. Já houve no país casos de absolvição por excesso de provas.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 5 abril 2021.

O bem da família

Carlos Brickmann (*)

Quando Bolsonaro quis nomear seu filho Eduardo “Bananinha” (apelido que lhe foi dado pelo vice, general Mourão) para a Embaixada do Brasil em Washington, disse que era natural que entregasse o filé-mignon para sua família. Pois é. Já para a população em geral, ele recusou a oferta de vacinas da Pfizer; optou por entrar com a cota mínima no consórcio internacional que garantiria vacinas mais baratas; votou na ONU contra a quebra de patentes das vacinas, o que teria permitido que vários países as produzissem, garantindo a imunização de muito mais gente em muito menos tempo; disse que quem tomasse a vacina da Pfizer podia virar jacaré; desprezou a vacina do Butantan por achar que os chineses não sabiam fazer coisa boa, chamou-a de “vachina”.

Mas sua mãe, o presidente mandou vacinar. E sua nora, esposa do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, foi vacinar-se no dia 2. Família merece sempre maior atenção.

Já dizia Chico Anysio que o povo é apenas um detalhe.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Ontem, hoje, amanhã

Carlos Brickmann (*)

Há 57 anos, nesta data, o general Olímpio Mourão Filho botou a tropa na rua e iniciou a derrubada do governo João Goulart. A situação era tensa: num grande comício, no Rio, Brizola repetira o slogan “reformas na lei ou na marra” e Luís Carlos Prestes, líder revolucionário, dizia que os comunistas já estavam no poder, só faltava tomar o Governo. Em São Paulo, centenas de milhares de pessoas, na Marcha da Família, queriam depor o presidente. Cabos e sargentos se rebelaram em favor de Goulart, que parecia tranquilo: até levou a esposa, Maria Tereza, ao comício do Rio, para vê-lo aplaudido.

Goulart tinha a seu lado o ministro da Guerra (hoje seria o da Defesa), Jair Dantas Ribeiro, o general Ladário Pereira Telles, comandante da mais poderosa tropa do país, o 3º Exército (Rio Grande do Sul), as Ligas Camponesas de Francisco Julião no Nordeste, as milícias Grupos dos Onze, de seu cunhado Leonel Brizola, um “dispositivo militar” montado por seu chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. Era amigo do general Amaury Kruel, comandante do 2º Exército (São Paulo). Tinha “generais do povo” dirigindo estatais. Se tentasse derrubá-lo a oposição seria esmagada.

No dia 31 o general Mourão botou a tropa na rua, em Juiz de Fora. Em um dia de marcha, sem um tiro, o que parecia sólido desmanchou-se no ar. Os militares de Goulart se evaporaram ou aderiram. Bolsonaro tinha uns nove anos, não percebeu nada. E não seria em livros que buscaria se instruir.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Ainda não emplacou uma

André Borges (*)

Após mais da metade do mandato, não há um programa de impacto nacional que tenha sido criado pelo presidente Jair Bolsonaro, seja na área econômica ou social. Ao contrário dos seus antecessores, que deixaram legados como Bolsa Família (Lula), Minha Casa, Minha Vida (Dilma), Bolsa Escola e combate à inflação (FHC) e Plano Real (Itamar), Bolsonaro não tem nenhuma marca que carregue o carimbo de sua gestão. E tudo indica que nada mudará até o fim de seu governo.

(*) André Borges é jornalista. Trecho de artigo publicado no Estadão de 28 março 2021.

Encontre o erro

Ascânio Seleme (*)

José Maria da Silva Paranhos Júnior (Barão de Rio Branco), Otávio Mangabeira, Afrânio de Melo Franco, Osvaldo Aranha, Horácio Lafer, Afonso Arinos, San Tiago Dantas, Evandro Lins e Silva, Magalhães Pinto, Azeredo da Silveira, Raimundo Saraiva Guerreiro, Olavo Setúbal, Celso Lafer, Francisco Rezek, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Lampreia, Celso Amorim, José Serra e Ernesto Araújo. Que tal esta galeria? Tem alguém deslocado aí?

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 27 março 2021.