A raiz da crise

Carlos Brickmann (*)

Paulo Guedes, o Imposto Ipiranga do Governo Federal era para ser, dizia Bolsonaro, o grande condutor da Economia brasileira. É ele, efetivamente, quem dá a última palavra em todas as medidas: “Sim”, “Sim, Senhor” e “Pois não, Excelência”.

Guedes acredita que os problemas do país nascem da possibilidade de reeleição. “Aprovar a reeleição”, disse, em entrevista à Rádio Jovem Pan, “foi o maior erro político que já aconteceu no país”. Em sua opinião, “há uma fixação constante dos ocupantes de cargos eletivos na conquista do segundo mandato”.

Muita gente, incluindo este colunista, concorda com Guedes. Só que é ele, e não quem concorda com ele, que trabalha o Orçamento para permitir medidas que facilitem a reeleição do presidente Bolsonaro.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Linguagem e pensamento crítico

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que foi feito de palavras tão úteis e precisas que frequentavam o vocabulário das pessoas antigamente, como cizânia e debacle? Essas duas eram as palavras preferidas de meu pai quando ele queria impressionar seus convidados, ao formarem uma roda para discutir o eternamente conturbado cenário político e econômico brasileiro, depois do jantar.

Hoje em dia, quando penso nos vocábulos mais comuns usados por intelectuais, psicólogos e cientistas políticos para se referirem ao atual quadro de embates irracionais nas redes sociais, como “polarização”, “polêmica”, “discurso de ódio”, …

 

Para ler a continuação, clique aqui.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Da ponta da praia às quatro linhas da Constituição

Eduardo Mafei (*)

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Artigo escrito em 7 setembro 2021
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Jair Bolsonaro é o pior governante que o Brasil já teve nos 199 anos desde o Sete de Setembro de 1822? Tudo depende da régua pela qual medimos seu desempenho. Se esperamos dele as realizações de um governo comum, como atender às grandes urgências do país ou pôr em prática um plano que nos eleve de patamar como nação, então, sim, Bolsonaro é o pior líder que já tivemos desde o grito do Ipiranga.

Mas e se seu plano for outro? Ou melhor: e se o plano de Bolsonaro for o mesmo desde sempre, aquele pelo qual ele trabalhou em todos os instantes de sua vida em que não estivesse dormindo, comendo, tomando banho, contratando funcionários fantasmas ou ensinando a arte da rachadinha aos filhos? Se enxergarmos em Jair Bolsonaro o propósito de trabalhar firmemente pela destruição da democracia implementada pela Constituição de 1988, documento que ele sempre desprezou por consagrar a derrota da ditadura cuja idolatria é o único sentido de sua vida pública, então Bolsonaro não vai mal. Ao contrário: nunca um presidente foi tão bem-sucedido em corroer as instituições de um sistema constitucional em tão pouco tempo.

Para um presidente que vive de hostilizar a democracia liberal, com as limitações de poder a ela inerentes, a tarde de hoje foi…

Clique para ler a continuação no site da Revista Piauí. Aproveite, que hoje está em promoção especial, com acesso livre.

(*) Rafael Mafei Rabelo Queiroz, professor da Faculdade de Direito da USP.

O 8 de setembro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estamos todos apreensivos com as manifestações programadas para o 7 de Setembro. Se não fosse por outras razões mais, digamos assim, vexaminosas como o último desfile de tanques no Planalto, assusta o fato de que, paradoxalmente, nem o amor à pátria nem o amor a Deus estarão na pauta dos atos convocados para Brasília e São Paulo. Dentro e fora do país, imprensa e autoridades alertam continuamente para o risco de embates violentos nas ruas, uma vez que a motivação pressuposta para aderir à chamada para as ruas é a de dar um “ultimato” ao STF e ao TSE.

Eu não sou exceção. Acompanho diariamente o noticiário, as falas bravateiras dos protagonistas, as análises dos especialistas políticos e dos responsáveis pela segurança pública, a temperatura mais alta dos pronunciamentos oficiais. Sou catastrofista crônica assumida e, só de pensar na possibilidade de ruptura institucional e da volta dos anos de chumbo, meu diafragma fica mais tenso que corda de violino.

Anteontem, no entanto, comecei a sentir uma brisa mais leve soprando ao ver as imagens das rodovias superlotadas, das aglomerações nas praias e o clima geral de festa popular nos bares e restaurantes. Parece que, mais uma vez, nossa população está mais interessada em curtir o feriado, experimentar o alívio de estar de novo ao ar livre, em confraternização com a família e os amigos – e pretende deixar para quem não pôde viajar ou não tem nada melhor a fazer o entediante encargo de defender os ameaçados valores da pátria (leia-se do presidente).

Foi só então que me dei conta de que a política tende a ser sentida entre nós como coisa “dos hómi lá de cima”, um assunto estimulante só para quem entende dela, algo que não diz respeito ao cidadão comum que tem de empregar todas as suas energias para sobreviver com o mínimo de dignidade possível. É assim, sempre foi assim, por exemplo nos dias de eleição. O negócio é encarar a fila de votação (já que o voto é obrigatório) o mais cedo possível para, depois de cumprido o dever pseudamente patriótico, pegar o carro e cair na estrada, empanturrar-se com um bom churrasco regado a muita cerveja e pagode. Alegria já, o amanhã pode esperar.

É bem verdade que nos últimos dois anos o interesse pelo debate político-ideológico escalou, alimentado pelos discursos de ódio nas redes sociais e regado pelos delírios persecutórios de militares, congressistas, evangélicos e policiais militares. E promete ser exatamente a obediência devida aos pastores e comandantes de tropa o estopim para a ocorrência de um gigantesco e virulento protesto no Dia da Independência.

Por outro lado, também é verdade que o mar não está para peixe para o restante da população. A motivação para participação de um maior número de segmentos sociais esbarra inevitavelmente no aumento do preço dos alimentos da cesta básica, do gás de cozinha, da gasolina, da energia elétrica, entre outros, e ainda conta com o auxílio luxuoso da crise sanitária, da crise hídrica, do desemprego, do congelamento de salários, do extermínio de direitos trabalhistas e da falta de perspectivas de ascensão social para incrementar o desânimo em avalizar manifestações de grande porte em favor do presidente.

Não há, portanto, muito o que fazer, qualquer que seja a orientação político-ideológica de cada um, a não ser aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Uma coisa é certa, porém: haja o que houver, no dia 8 as coisas voltarão ao “normal”. Entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos e os combatentes cansados voltarão para suas casas, com o rabinho entre as pernas. As bandeiras serão novamente enroladas e jogadas num fundo de gaveta, os cartazes de papelão servirão como combustível nos fogões a lenha, as camisetas amarelas serão lavadas e reservadas para os jogos da Seleção de futebol e a principal preocupação voltará a ser cuidar do próprio umbigo. O noticiário voltará ao cardápio rame-rame da pandemia, temperado com notas picantes e ácidas de confrontos entre o Executivo e novas atuações preventivas do Judiciário.

Como assim? Não é que eu não acredite na garra do povo brasileiro para lutar por liberdade. É apenas que preferimos que tudo aconteça sem a necessidade de grande esforço pessoal. Se dá para negociar, nosso jeitinho de fazer revoluções sem sangue prevalecerá. Vamos examinar com cuidado as possibilidades.

Se os protestos forem realmente gigantes, restará comprovado que o presidente tem forte poder de mobilização… dos seus apoiadores de sempre, mas continua tendo baixíssimo poder de persuasão para mudar a disposição emocional do restante do eleitorado. Além disso, alguém acha realmente que o STF vai se deixar intimidar pela multidão nas ruas e recuar na sua decisão de enquadrar o incendiário em um sem-número de transgressões da ordem legal?

Se, montado no já encilhado cavalo militar e empolgado com o sucesso de seus planos de poder absolutista, o presidente resolver desembainhar a espada para declarar uma “nova independência” e fechar o Supremo (ou substituir os 11 ministros por outros mais compassivos e lenientes), sabe que enfrentará forte resistência, tanto no plano interno quanto internacional. Com a economia em frangalhos e sem o apoio maciço dos segmentos que contam, periga assistir à deterioração final do seu capital político em poucas semanas, se muito. Muita gente está pulando do barco antes mesmo da primeira gota de água entrar, só de pensar na inabilidade do capitão para encontrar o rumo de um porto seguro.

Coincidentemente, algumas das manchetes da semana passada informam que o TSE já estuda a possibilidade de decretar sua inelegibilidade para 2022, algumas igrejas evangélicas já estão apelando para seus fiéis não participarem do evento, lideranças de caminhoneiros dizem desconhecer o autoproclamado líder bolsonarista que ameaçou parar o país, alguns líderes do Centrão já ameaçam cair fora para não comprometer suas chances de reeleição, etc. A turma do ‘deixa disso’ é engrossada ainda por sanitaristas e epidemiologistas, preocupados com a disseminação da variante delta.

Se, ao contrário, as manifestações forem minguadas e deixarem claro que as palavras de ordem do “meu povo” [Intervenção militar com Bolsonaro no poder, Volta do AI-5, Eu Autorizo] não representam de maneira alguma os anseios da maioria esmagadora da população brasileira, restará a ele muito pouco arsenal para novas ameaças minimamente críveis, assim como para se manter sentado no trono até outubro de 2022.

Ainda é preciso considerar que novas manifestações estão sendo planejadas pela oposição para o dia 12. Dependendo do resultado das aguerridas demonstrações de força do dia 7, é provável que o clima de tensão piore, que sangue corra pelas ruas durante o protesto. Mas, guerra civil? Não acredito. Dizem que as pessoas só mudam quando se cansam – e eu posso apostar que até mesmo os bolsonaristas de raiz estão exaustos com tanta turbulência.

Claro que o bom senso indica a necessidade de não botar a mão no fogo, apostando na racionalidade e moderação dos combatentes de ambos os lados. Mas, se conheço bem o caráter brasileiro de perseguir resultados imediatos e não se comprometer com nenhum processo longo de transformação da realidade, vaticino que o 7 de setembro que se avizinha será uma impensável e colorida mistura autolimitada de Marcha para Jesus com Micareta Fardada.

Façam suas apostas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cuba seja aqui

Eduardo Affonso (*)

Você já foi a Cuba, companheiro? Não? Então, vá. Quem fez isso tem muita história para contar.

Fui ávido para mergulhar no Caribe e no comunismo. Encontrei-os em frente ao hotel. Um, aspergindo azul sobre o Malecón; o outro, na forma de um sujeito que veio oferecer charutos desviados das fábricas estatais. No, gracias. Será que eu não queria rum legítimo? Conhecer uma amiga dele? Um amigo, quem sabe? Essa cena se repetiu dezenas de vezes. Mas não era nos tempos de Fulgêncio Batista que o país se tornara o paraíso do contrabando e da prostituição? Cuba e seus paradoxos.

Nas sacadas dos sobrados da Habana Vieja (impossível estar em Cuba e não pensar na Bahia), há lembranças de uma já dilapidada elegância. Numa dessas quase ruínas, a orgulhosa militante faz questão de contar que falta manteiga, mas todos têm pão; que ela não teve boneca, mas a filha é cientista. Quantos no mundo — pergunta, retoricamente — podem dizer isso? Não sei. Adiante, na calçada onde se trocam tampas sem panela por panelas sem tampa, outra mulher, com dólares amarrotados na mão, me pede para comprar, numa loja exclusiva para estrangeiros, açúcar, sabonete, um pedaço de frango. Onde se aceita peso, falta quase tudo.

O analfabetismo foi praticamente erradicado. Mas educação, entendida como diálogo, reflexão, questionamento e construção ativa do conhecimento, isso não há. Há doutrinação — o oposto de preparar para o mundo, de proporcionar a experiência de saber o que existe mais longe.

Na teoria, em Cuba haveria livros a mancheias, edições baratas por causa do papel de baixa qualidade e do pouco- caso com direitos autorais. Na prática, bem fornidas só as prateleiras de marxismo. Mas tive experiências enriquecedoras em livrarias. Com um quê de filme de 007, elas tinham se tornado o lugar perfeito para câmbio ilegal. Trocavam-se olhares, acertava-se a taxa (dez vezes maior que a oficial) com gestos sutis. Pesos cubanos eram deixados entre as páginas ásperas de um volume sobre materialismo dialético, enquanto se encartava a cédula de dólar numa obra em papel-jornal sobre a concentração de capital. Depois, era só devolver os exemplares às estantes, disfarçar, e cada um folhear o livro alheio, recolhendo discretamente o que ali houvesse de valor.

Ensaia-se agora, no verão de lá, uma “primavera de Havana”, com o povo — alegre e generoso como poucos — indo às ruas exigir liberdade, oportunidade, dignidade, comida. Quem derrubou há 62 anos uma tirania saberá como fazer uma nova revolução, trocando “Patria o muerte” por “Patria y vida”.

Estive na Hungria de Kádár, na Tchecoslováquia de Husák, na Iugoslávia de Dizdarevic. No Mianmar de uma junta militar, na Cuba de Fidel. E, para variar, no Chile de Pinochet. Muita sorte teve, muita sorte terá quem andou por lá como viajante, sabendo que as restrições eram por poucos dias, não sem data para acabar.

Na última noite em Havana, me apareceu no hotel a cubana para quem comprei comida e com quem comentei não ter encontrado os livros que queria. Trazia numa sacola todos os de Alejo Carpentier e Nicolás Guillén da sua estante.

Por isso, Cuba seja aqui. Uma gente tão parecida com a nossa, que não quer saber de ditadura. Seja a de Castro, seja a de Ustra.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Voto à antiga

Ascânio Seleme (*)

Beijo na cédula
Veterano mesário de eleições em São Paulo conta a história de um candidato a deputado federal que tinha muito apoio entre as mulheres porque era bonito, dono de grandes olhos verdes e um sorriso cativante. Era o jornalista e advogado Emílio Carlos, que perdeu alguns milhares de votos na sua primeira eleição porque as cédulas vinham borradas por batom de mulheres que beijavam o papel numa prova de ternura. O candidato acabou sendo eleito em 1946 e permaneceu na Câmara até morrer, em 1963. Pode parecer bobagem, mas a história mostra como era fácil anular votos bons num pleito com cédulas de papel.

Bruno Covas
Bolsonaro não foi o único a criticar o ex-prefeito Bruno Covas por ter vindo ao Rio com o filho assistir à final da Libertadores em meio a pandemia. A diferença é que o presidente o atacou depois de morto, para obter um ganho político. Assim é Bolsonaro. Um canalha que desrespeita os mortos e arremeda, rindo, doentes de Covid que não conseguem respirar. Não vale nada mesmo.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 agosto 2021.

Bolsonaro é a pedra no sapato

Fernando Gabeira (*)

Com um país tão interessante, não consigo ainda explicar por que tanta confusão converge para sua capital, Brasília.

Essa história da vacina da Davati, por exemplo, é um roteiro de chanchada. Um dirigente de empresa que recebe auxílio emergencial e um cabo da PM que não consegue pagar o aluguel resolvem oferecer 400 milhões de inexistentes vacinas AstraZeneca.

Usam um reverendo para se aproximar do governo. O reverendo é amigo de um homem que se diz super-homem. Sua entidade religiosa falsifica logotipos da ONU, e ele se diz embaixador da paz. Ungido por quem? Por outro reverendo, o famoso Moon. Sua grande missão diplomática foi ir a Israel para unir judeus e árabes, tarefa que, como todos sabemos, alcançou um perene êxito.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 9 agosto 2021.

Umas bobagens e outras

Carlos Brickmann (*)

As bobagens
Desemprego de quase 15% da população? Bobagem: o ministro pôs a culpa no IBGE. Quase 600 mil mortos na pandemia? Bobagem: o ritmo se reduziu, morrem menos de mil por dia, no máximo o equivalente a cinco desastres do avião da TAM em Congonhas. Preços da comida multiplicados? Bobagem: quem comia carne nem lembra mais como era, quem comia frango come ovo, quem comia ovo irá, um dia desses, receber a nova Bolsa Família.

O Governo tem coisas mais importantes a fazer: por exemplo, condecorar a primeira-dama Michelle Bolsonaro com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, destinada a pessoas com atuação destacada “no campo das atividades científicas, educacionais, culturais e administrativas” que obtêm “resultados benéficos à saúde física e mental dos brasileiros”. Além de sua esposa, Bolsonaro condecorou seus ministros da Educação, Comunicação, Turismo, Relações Exteriores. Outros beneméritos homenageados são os presidentes da Câmara e do Senado. E que é que fizeram para receber esta bela homenagem, com o nome de Oswaldo Cruz, pai da vacinação no Brasil?

O ministro do Turismo, por exemplo, levou cinco assessores para reunião internacional, onde havia três vagas para o Brasil, incluindo a dele. Um bom passeio é benéfico à saúde física e mental de qualquer pessoa, e os caronas são brasileiros. Foi este ministro que, na sanfona, fazendo a trilha sonora de Bolsonaro, destroçou a Ave Maria, alegrando quem odeia música.

E Michelle?
A primeira dama é um motivo de orgulho para seu marido presidente. Pois não é que, percebendo como o frio maltratava os moradores de rua, foi à luta e conseguiu 148 agasalhos para doar aos pobres? Como o passarinho jogando água com o bico num dos incêndios da Amazônia, ela fez sua parte. Foi de coração, fez o melhor que pôde. E conseguiu 148 agasalhos (número oficial) sozinha, sem ter sequer um Queiroz para ajudá-la. Tudo sozinha, apenas com os meios de que dispunha: carro oficial, seguranças e motorista.

A patriota
É a terceira condecoração que a esposa de Bolsonaro recebe em seu Governo. Já ganhou a Medalha da Vitória, que normalmente é concedida a quem contribuiu para divulgar a coragem dos soldados que combateram o fascismo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, participou de conflitos internacionais defendendo o Brasil ou integrou missões de paz. Foi agraciada com a Ordem do Mérito da Defesa, destinada a homenagear quem prestou “relevantes serviços ao Ministério da Defesa ou às Forças Armadas do Brasil”. E agora recebe a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, categoria Ouro, a mais alta.

O caro leitor não sabe o que foi que Michelle fez para receber as medalhas? Vá pesquisar, uai! Este colunista é que não vai combater sua ignorância sobre o tema – até porque também não sabe. O fato é que Michelle tem mais medalhas do que a olímpica Rebecca.

Inculta Flor do Lácio
O governador João Doria inaugurou o Museu da Língua Portuguesa (uma beleza: bem melhor do que o que pegou fogo, e que já era muito bom) e convidou todos os ex-presidentes da República, mais os presidentes de todos os países de língua portuguesa. Marcelo Rebelo, de Portugal, e Jorge Fonseca, de Cabo Verde, vieram. Angola mandou o ministro da Cultura. Temer e Fernando Henrique compareceram. Sarney teve um problema de saúde. Bolsonaro, Lula, Dilma, Collor? Esse negócio de cultura é chato!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Os milicos que se cuidem

Ruy Castro (*)

Foi num dia de semana à tarde, em 1970, auge da ditadura —me contaram. Um garoto de seus 15 anos ganhou uma flautinha de plástico e foi à praia com ela. Sentado na areia, numa Ipanema vazia, tentou tirar o Hino Nacional —afinal, ouvia-o todo dia. Ao extrair algo parecido com a frase inicial, percebeu uma sombra entre ele e o Sol. Olhou para cima e viu um sujeito forte, bronzeado, de cabelo reco. O homem rugiu: “Por que está tocando isso?”. O garoto, surpreso, ficou mudo. Não havia resposta. O homem emendou: “Estou ali naquela barraca escutando tudo. Se continuar com gracinha vai se dar mal!”. Um vendedor de mate sussurrou para o garoto: “Coronel do Exército”.

É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.

O governo Bolsonaro não é uma ditadura – ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como “povo”, “democracia” e “liberdade” e da expressão “homem de bem”. São “homens de bem” os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.

Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos – o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.

Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Olímpica

Ascânio Seleme (*)

Excelente exemplo da delegação brasileira que desfilou na abertura dos Jogos de Tóquio com apenas quatro integrantes. Fazer bonito de vez em quando não custa nada e ajuda a diminuir a antipatia global causada pelo capitão. O número reduzido de desfilantes era para mostrar preocupação com a pandemia de coronavírus.

No Brasil, os atletas devem ter sido vaiados por você sabe quem.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 24 julho 2021.

O bode na sala

Carlos Brickmann (*)

Dizem que há muitos anos, numa região muito pobre, um lavrador vivia com a enorme família numa casa minúscula, quase em ruínas. Um dia, ele se queixou ao padre da aldeia da vida que levava: a família toda vivia reclamando das más condições e do pouco espaço da casa, mas como mexer nisso sem dinheiro?

O padre o aconselhou: leve seu bode para dentro de casa, e daqui a uma semana voltamos a conversar. O lavrador obedeceu. Na semana seguinte, voltou dizendo que tudo estava muito pior: o espaço tinha diminuído, o bode destruía o que podia e ainda cheirava pior que as histórias de compra de vacinas. O padre lhe disse: tire o bode de dentro da casa. Dois dias depois, o lavrador agradeceu ao padre: sem o bode na sala, todo mundo estava mais feliz, se sentia melhor, e as queixas tinham virado elogios.

Essa história de o fundão eleitoral passar de R$ 2 bilhões (o que já é um despropósito) para R$ 5,7 bilhões não é igualzinha a botar o bode na sala? O presidente veta R$ 5,7 bi, se acertam todos em algo como R$ 4 bi, e todos ficam felizes: Bolsonaro fatura o veto, Suas Excelências comem o dobro da já enorme verba de campanha, e haverá quem acredite que o presidente que come picanha de R$ 1.700,00 o quilo por nossa conta defendeu o Tesouro.

O gasto público na campanha eleitoral brasileira já é o maior do mundo – isso antes do bode na sala. Como diria Dilma Rousseff, alcançada a meta, dobramos a meta. E continuamos trabalhando para alimentar pançudos.

De ponta a ponta
Quando se trata de sugar mais dinheiro da população, ideologia deixa de ser importante: deputados que adoram Lula e deputados que amam Bolsonaro votaram juntos para triplicar as verbas de campanha. Farinha do mesmo saco. Condenarão a tunga, embora tenham votado por ela. Aceitarão com ar de sofrimento, em nome do interesse nacional, a falsa redução de verbas que representará, na verdade, o dobro daquilo que já mamam.

Senhor juiz, pare agora!
A única solução para a indecente situação do financiamento de campanha é o pedido, já feito ao Supremo, para que suspenda o escândalo. Espera-se que o ataque a nossos bolsos vá contra a lei. Ou a politicalha vai tomar o nosso.

Em poucas palavras
O Fundo Eleitoral é o dinheiro que as Excelências tomam dos cidadãos para decidir quem ocupará os cargos que lhes permitirão continuar a tomá-lo.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O brasileiro e o soluço

Ricardo Araújo Pereira (*)

Por que o brasileiro suporta a pandemia, mas se verga perante o soluço?

Veja como é caprichosa a medicina. Há pouco mais de um ano, o presidente do Brasil fazia aquela declaração célebre: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

E, nesta semana, o atleta indestrutível que é indiferente a uma pandemia planetária foi hospitalizado com uma crise de soluços. A Covid, que mata milhões de pessoas no mundo inteiro, pode vir à vontade, que não causa transtorno, mas isto, hic, por amor de, hic, não se aguenta, hic, por favor, hic, alguém chame uma, hic, ambulância depressa, hic.

A teorização da invulnerabilidade nacional ao coronavírus atingiu novos cumes com a também famosa observação: “Brasileiro não pega nada, o cara pula no esgoto e não fica doente”. Mas, tal como o Super-Homem sucumbe à kriptonita, também o brasileiro, que resiste a vírus e a germes, não aguenta um soluço. Difíceis de entender os desígnios da natureza. Por que razão há de o brasileiro suportar a doce pandemia e o gentil esgoto, mas se vergar perante o cruel soluço?

Em defesa do brasileiro, talvez seja importante referir que o soluço tem intrigado o ser humano desde sempre. E que, ainda assim, permanece misterioso. O soluço não tem solução. Ou tem, mas não é muito eficaz.

A certa altura d’O Banquete, de Platão, chega a vez de Aristófanes falar. Sucede que não consegue fazê-lo porque é acometido por um persistente ataque de soluços. Erixímaco, o médico, sugere então: “Experimente, Aristófanes, ir para o hospital e tirar uma fotografia descomposto, intubado e sem roupa, para tentar excitar nos seus conterrâneos uma compaixão pelos seus soluços que você não teve pelas doenças graves deles”.

Minto. O que Erixímaco recomenda é que Aristófanes sustenha a respiração, gargareje com um pouco de água ou faça cócegas no nariz até espirrar. E resulta. A estratégia da fotografia no hospital é que já não convence ninguém.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Lições de vida

Carlos Brickmann (*)

Dia 13 de março de 1964. Este repórter ia a pé para a Folha de S.Paulo quando encontrou uma multidão no sentido oposto: era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Foi difícil atravessá-la.

Chegando à Redação, vi muita gente discutindo o tamanho da Marcha que eu tinha acabado de cruzar. Diziam que ali só havia milionários; que a Igreja ordenara aos fiéis que marchassem; ou que havia dois milhões de pessoas – uns 30% da população da cidade, na época.

Bem, milhões não caberiam, milionários não lotariam o centro, a Igreja há milhares de anos recomenda a fidelidade conjugal, sem tanta adesão. Logo depois, o secretário de Redação, Woile Guimarães, me manda coordenar a cobertura.

Fiquei orgulhoso: 19 anos de idade, um ano de jornalismo, e recebia esta missão! Eu devia ser bom mesmo. Só depois descobri que era o único a não ter opinião prévia sobre o tamanho da Marcha. Dizia apenas que tinha gente pra burro (e não era essa a palavra que usava).

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Canário na mina de carvão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Recentemente um amigo me encaminhou um texto filosófico altamente complexo e me pediu que analisasse sua utilidade para jovens que talvez não dispusessem de todas as referências utilizadas para a argumentação filosófica. Fez questão de alertar que estava me usando como “um canário numa mina de carvão” para saber se ele poderia ser entendido e absorvido por seus alunos.

Pesquisei na internet o significado dessa expressão idiomática da língua inglesa e adorei a analogia. Ela faz referência ao hábito de mineiros de levarem consigo um canário dentro de uma gaiola ao entrarem pela primeira vez num túnel de mina de carvão para verificar se há gases tóxicos dentro dela, como o monóxido de carbono. Dado seu pequeno porte, se houver, o canário morrerá em instantes e servirá de alerta para que os trabalhadores abandonem a mina a tempo.

Senti, sem falsa modéstia, que a metáfora me caía como uma luva. Acredito mesmo que essa foi a missão que me impus desde que me conheço por gente: identificar pessoas, ambientes e relacionamentos tóxicos. Não tenho dom para o auto sacrifício, mas sempre me senti portadora da capacidade de antecipar eventos futuros, especialmente os mais funestos. Desde criança, experimento ondas de choque e vibrações energéticas ao entrar num ambiente ou fazer contato com novas pessoas. É algo intuitivo, que não tem necessariamente a ver com o olhar, tom de voz, gestos, ou postura corporal de quem está diante de mim, nem com a estética, cheiro, modernidade ou organização do ambiente em que penetro. Talvez tenha sido por essa característica que me senti atraída desde muito pequena pelos cachorros, que são mestres na arte de ler a energia dos que estão à sua volta e são extremamente hábeis em antecipar eventos – como “adivinhar” a chegada de seus donos.

Astrólogos de todos os matizes concordam em afirmar que os nativos do signo de Peixes funcionam como uma espécie de mata-borrão, absorvendo prontamente as energias que estão disseminadas no ambiente. É como se, para eles, o ar, de tão denso e pesado, pudesse ser apalpado ou cortado em fatias. Não sei se para minha alegria ou pesar, além de nativa de Peixes, sou catastrofista crônica assumida. Cheiro o ar continuamente em busca de evidências de futuros problemas, transtornos, tragédias, crises e ameaças.

Costumo dizer que nasci com um sistema de alerta embutido na minha alma, que praticamente nunca falha: graças a ele, aprendi a diferenciar as pessoas que representam alguma forma de perigo para mim e as que são benfazejas almas gêmeas, contatos prováveis de vidas anteriores. Claro que essa capacidade me serve de importante guia nas relações pessoais e profissionais mas, ao mesmo tempo, é inegável fonte de angústia permanente.

Além da ansiedade para confirmar ou desmentir o que minha intuição indica e que contamina todas as atividades e planos do meu dia a dia, vale lembrar que é bastante difícil encontrar pessoas que disponham desse mesmo radar de navegação na vida. Assim, não é nada incomum que minhas previsões pessimistas causem desconforto e irritação em terceiros e me preguem um rótulo de prepotência, como se eu me apresentasse sempre como uma sensitiva “iluminada” que menospreza a falta de inteligência ou de sensibilidade dos demais.

Quando Bolsonaro se apresentou como candidato à presidência, minha imensa repulsa a suas crenças pessoais e a seu comportamento político ditatorial, irracional, desrespeitoso e obscurantista me induziu a escrever uma série de artigos antecipando a tragédia que se avizinhava caso ele fosse de fato eleito. Imediatamente após a eleição, produzi outro tanto de textos denunciando suas primeiras iniciativas macabras, bem como a desastrada escolha de seus ministros. Um dos textos que mais causaram furor entre conhecidos e desconhecidos foi o que levou o título de “Torço para que não dê certo”.

Reproduzo abaixo a introdução: “Não vou dizer ‘bem feito’, ‘bem que eu avisei’, nem ‘só você não percebeu que ia dar com os burros n’água’ para nenhum amigo meu, real ou virtual, que tenha achado que valia a pena eleger a geringonça que nos desgoverna hoje… Minha recusa em aderir ao bolsonarismo também tinha pouco de racional. Era e continua sendo uma questão instintiva, um alerta recebido pelos meus sensores de que a tragédia da volta dos anos de chumbo nos esperava logo adiante” [maio de 2019].

Na ocasião, recebi mais de 70 comentários irados que me acusavam de estar torcendo contra o Brasil e me convidando a ir experimentar as “delícias” dos países comunistas no que se refere à liberdade de expressão. No limite do ódio ao pensamento divergente, uma amiga próxima dos tempos de escola sugeria sem meias palavras que eu caísse e quebrasse o pescoço, sendo apoiada por mais 3 ou 4 pessoas das minhas relações. Hoje, assistindo ao derretimento do apoio dado ao inominável “capetão”, me pergunto o que diriam essas mesmas pessoas quanto às chances de o país voltar aos trilhos da prosperidade e da conciliação dos espíritos sob o comando de mais um tirânico salvador da pátria.

E é também quanto à eleição presidencial de 2022 que meus instintos de canário em mina de carvão alertam: estamos prestes a aprofundar ainda mais o buraco em que nos metemos caso o eleitor médio continue descartando a seu bel prazer candidatos moderados/menos conhecidos no primeiro turno só para forçar uma escolha praticamente impossível de ser feita no segundo turno entre dois extremos igualmente indesejáveis. A tese segundo a qual basta votar no “menos ruim” ou no único com condições de peitar e derrotar o atual presidente é, além de irracional, prova inconteste de falta de consciência política e de amadurecimento da cidadania. Votar em quem deve sair – herança maldita dos reality-shows – e não naquele que apresenta um plano factível para recuperar a dignidade da governança federal é receita mais que certa de desastre.

A ansiada “terceira via” não vai surgir do nada, como por milagre. Ela precisa ser pacientemente construída apontando nomes com os quais cada um mais se identifica, examinando desde já o curriculum dos candidatos disponíveis, analisando em profundidade a viabilidade (política e econômica) de suas propostas, identificando a compatibilidade entre as próprias crenças e valores políticos com os do candidato e, acima de tudo, lembrando que a república brasileira está alicerçada em três poderes que devem atuar com autonomia mas harmonicamente. Acreditar que só o Executivo pode dar todas as respostas de que precisamos, ignorando as pressões e obstruções do legislativo e do judiciário, é outra ilusão perigosa que pode nos matar asfixiados logo após o pleito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Velhacos, nossos e alheios

Ruy Castro (*)

Todos os dias, políticos, governantes e empresários são flagrados em alguma sujeira e tachados de irresponsáveis, corruptos, venais ou coisa pior. Um ou outro, isoladamente, pode chamar seu acusador a se explicar, mas nenhuma dessas categorias tem audácia ou esprit de corps suficiente para reagir em bloco contra a imprecação. Quando, digamos, Jair Bolsonaro e seus filhos são chamados de assaltantes dos cofres públicos pela prática da rachadinha, os políticos não se juntam para emitir uma nota ameaçando a democracia. Aliás, nem os próprios aliados deles os defendem – não são suicidas.

Mas, se um general de escrivaninha é declarado suspeito de algum malfeito e isso é confirmado por uma série de testemunhas, o azedume corre os quartéis. Se essas suspeitas atingem também alguns coronéis e tenentes-coronéis de suas relações, os militares espumam, falam em desrespeito às instituições e insinuam que vão mandar lubrificar o canhão.

E por que, ao contrário das outras categorias, fazem isso? Porque eles têm o lubrificante – e o canhão. Os militares se julgam diferentes de nós, os paisanos. E são mesmo. A farda lhes dá imunidades e privilégios com que nem sonhamos. Eles têm, por exemplo, seus próprios e generosos planos de carreira, saúde e previdência e até a capacidade de se administrar leniente Justiça. Sua autossuficiência só não é total porque dependem de nós, os paisanos, para sustentá-los com nossos impostos.

Por se verem tão acima de si mesmos, os militares não deveriam rebaixar-se a privar com determinados políticos, negociantes, contrabandistas, atravessadores, reverendos, cabos da polícia e outros espécimes típicos do governo Bolsonaro, muito menos em negócios envolvendo milhões de dólares e vidas.

Se privam, deixam de ser diferentes e arriscam-se a serem tratados por nós com a mesma sem-cerimônia com que nos referimos aos nossos velhacos.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

O Brasil não inventou a cretinice

Martha Batalha (*)

A cretinice é antiga, e contemporânea. Enquanto o Brasil é impedido de tirar do poder uma quadrilha de milicianos devido a um congresso e a juízes comprados, Steve Bannon, estrategista político que ajudou Trump a vencer as eleições, criou uma escola de formação de líderes populistas.

Cinco mil pessoas de todo o mundo se inscreveram para participar. Cinco mil cretinos, dos quais setenta e dois foram escolhidos para aprenderem os fundamentos dos governos populistas e se tornarem líderes de extrema direita em seus países.

O nome do curso é Escola de Gladiadores. O nome do órgão que coordena o curso é Instituto para a Dignidade Humana. Existe algo mais cretino do que sugerir que a dignidade do mundo será alcançada através do empenho de gladiadores? Imagino alguns ensinamentos, como convencer eleitores de que as notícias são mentira e que as mentiras são notícia. Ou gritar “Comunista!” para qualquer pessoa que questione o que é dito.

(*) Martha Batalha é jornalista e escritora. O texto foi extraído de artigo publicado n’O Globo em 7 jul° 2021.

Bolsonaro banana

Ruy Castro (*)

Você se esbaldou com a notícia na semana passada. O bombado deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), ao ver a PF às suas portas para prendê-lo por várias e graves lambanças, tentou fugir pulando o muro de sua casa em Petrópolis. Mas, ao completar o salto, descobriu que os homens já o esperavam no outro lado do muro. Com agilidade quase circense, pulou-o de volta, sendo afinal abotoado. Uma sequência digna de comédia do cinema mudo, só faltando Sua Excelência ter voltado por um buraco no muro e passado por entre as pernas do policial.

A ideia de um deputado federal pulando muros como um ladrão de galinha deixa mal o Congresso e pior ainda o governo que ele defende —não por acaso, o de Jair Bolsonaro. Mas é perfeita para descrever o próprio governo, repetente em pular muros e pulá-los de volta diante das suspeitas, acusações e provas de suas sujeiras. Inúmeros pilantras que o compõem já tiveram oportunidade de fazer isso, dizendo e desdizendo-se ao se verem flagrados. O pulo de volta, nesses casos, é alegar um engano, atribuindo-o a um bagrinho escalado para o sacrifício.

O grande muro, no entanto, acaba de ser pulado de volta por Bolsonaro, e resta ver o que dirão seus seguidores. Eles devem se lembrar de duas de muitas falas iguais de seu imbrochável herói: “Quem manda sou eu! Eu sou um presidente que assume ônus e bônus!” (junho de 2019). E “Quem manda sou eu! Vou deixar bem claro! Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu! Quando vão nomear alguém, falam comigo! Eu tenho poder de veto, ou vou ser um presidente banana?” (agosto de 2019).

Há dias, quando o país sentiu indisfarçável cheiro de rato numa compra de vacinas por R$ 1,6 bilhão pelo Ministério da Saúde, Bolsonaro apelou para um covarde mimimi: “Não tenho como saber o que acontece nos ministérios!”.

Ao pular o muro de volta, denunciou-se. É um presidente banana.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Teve rachadinha na vacina?

Celso Rocha de Barros (*)

Depois que Bolsonaro, de forma documentada e indiscutível, cometeu assassinato em massa contra o povo brasileiro, crimes de corrupção podem parecer menores. E, normalmente, seriam. Qualquer mãe que tenha perdido filho porque Bolsonaro não comprou vacina preferia que Bolsonaro lhe tivesse roubado a carteira.

Mas é importante lembrar que esta roubalheira aconteceu durante o assassinato em massa de 2020-2021, com dinheiro que poderia tê-lo evitado, e que talvez tenha sido parte da motivação por trás do assassinato em massa. O governo Bolsonaro pode ter matado filhos de mães brasileiras enquanto também lhes batia a carteira.

(*) Celso Rocha de Barros é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Reino Unido). O texto foi extraído de artigo publicado na Folha de SP em 27 jun° 2021.

Cambalhotas na língua

Ruy Castro (*)

Quando escuto a primeira sílaba, meus ouvidos já entram em alerta. Alguém vai dizer a palavra “especificamente”. É um dos advérbios mais em voga no momento, e cada pessoa o acentua numa sílaba diferente. Alguns carregam no “fi”: especiFIcamente. Outros fazem a língua dar uma cambalhota e põem o peso no “pe”: esPÉcificamente. E há quem tenha de dar um salto mortal sem rede para pronunciar ÉSpecificamente. Só os puristas acentuam direito o “ci”: espeCIficamente.

Outra tendência da nova fala brasileira é a desmoralização do sujeito. Lembra-se dele nos seus tempos de cartilha? O sujeito era aquele termo da oração que formava com o verbo e o predicado uma espécie de Trio Maravilhoso Regina da língua – sabonete, água de colônia e talco. Mas parece que o sujeito, ele não é mais suficiente na frase. As pessoas, elas agora o acoplam a um pronome. O resultado, ele fica assim como você está lendo. Temo que, em breve, os escritores, eles passem a fazer o mesmo em seus textos. E, quando isso acontecer, o leitor, ele vai se dar conta da monotonia da coisa. Aliás, essa monotonia, ela acontece também na língua falada. Mas as pessoas, elas ainda não acordaram para isso.

E a palavra “robusto”? No passado, robustas eram as meninas que tomavam Toddy. Hoje, abundam robustas acusações contra os bolsonaros e não acontece nada. E quem ainda tolera o “simples assim”? Nos anos 80, só os leitores de Paulo Francis, introdutor dessa expressão na língua, a usavam. Agora qualquer pazuello faz uma cara beócia e vasovagal e a emprega para explicar que um manda e outro obedece.

Por sorte, clichês agonizantes como “reto e direto”, “sem querer interromper e já interrompendo”, “zona de conforto”, “ponto fora da curva” e “tudo junto e misturado” já saíram de moda, e só os desinformados ainda os usam.

Claro que a fala do dia a dia, ela é meio assim, tudo junto e misturado, não?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Estúpido

Ascânio Seleme (*)

A declaração de Bolsonaro de que é preferível se contaminar com o coronavírus do que tomar a vacina é o ponto máximo que sua ignorância conseguiu alcançar nestes dois anos e meio de governo. Desnecessário explicar a idiotice criminosa.

É urgente que se pare o festival de besteiras que ele pronuncia diariamente nas redes sociais. Esperar por Arthur Lira não adianta. Talvez seja o caso de apelar para as redes. Por muito menos, Donald Trump foi suspenso do Facebook e banido pelo Twitter.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 19 junho 2021.