Anexo? Em anexo?

Dad Squarisi (*)

Eis o drama de quem escreve ofícios, memorandos e requerimentos. Volta e meia, precisa empregar em anexo ou anexo. Cheias de manhas, essas palavrinhas têm mistérios. Ora aparecem flexionadas, ora não. Ora vêm no início da oração, ora perdidas no meio ou no fim. Ora com vírgula, ora sem vírgula. Como lidar com elas?

EM ANEXO
Em anexo é locução adverbial. Equivale a anexamente. Invariável, não tem feminino, masculino, singular ou plural. Apresenta-se sempre com a mesma cara:

•  Em anexo, encaminho os documentos.
•  Em anexo, encaminho a correspondência.

Sempre com vírgula? Não. A vírgula depende da colocação do termo na frase. Em anexo tem o lugar dele. É no fim da oração. Se estiver lá, nada de vírgula:

•  Encaminho os documentos em anexo.

Como criança arteira, em anexo vive mudando de lugar. Ora aparece no começo da oração, ora no meio. Deslocado, vírgula nele:

•  Em anexo, encaminho os documentos solicitados.
•  Encaminho, em anexo, os documentos solicitados.

ANEXO
Anexo é outra história. Adjetivo, flexiona-se. Concorda com o substantivo a que se refere:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Anexas, encaminho as cartas.
•  Anexo, encaminho o ofício.
•  Anexos, encaminho os ofícios.

E a pontuação? Se anexo vem antes do objeto, não duvide. É vez da vírgula:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Encaminho, anexa, a carta.

Na ordem direta, a história muda de enredo. Fica assim:

•  Encaminho a carta anexa.

Reparou? Essa última frase é ambígua. Parece que anexa é qualidade permanente da carta. Na verdade, o recado é este: encaminho a carta que está anexa. A carta não é anexa. Está anexa.

A clareza é a maior qualidade do estilo. Anexa, na ordem direta, compromete-a. Dá duplo sentido à frase. Xô!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Bilinguismo luso-brasileiro ‒ 1

Ruth Manus (*)

Na semana em que cheguei, ouvi que era muit’gira a minha mala encarnada. Não sabia se era para agradecer, para me ofender ou para xingar de volta. Depois, fui descobrir que a mala era a bolsa, encarnada era vermelha e gira era bonita. Já não dava tempo de agradecer à moça.

Pouco tempo depois, procurava um supermercado e pedi ajuda a uma senhora que me mandou ir para os curraios. Não entendi, mas achei que mandar alguém para os curraios não era algo admissível, por uma simples razão de divisão de sílabas. Saí chocada, segui andando e encontrei o mercado, ao lado dos correios. Correios. Curraios. Saquei.

Depois, foi a vez de um professor narrar um caso de um país que proibiu a venda de maltadagas. Eu, quieta, pensei “Maltadaga. Deve ser uma adaga, arma branca, da ilha de Malta”. Ele falou outra vez e eu entendi “maltad’água”. Pensei “água da ilha de Malta?”. Na terceira ouvi “mota d’água”. Ok. “Mota deve ser moto. Moto de água. Jet ski!! É jet ski!!” E pronto, o professor já tinha mudado de assunto e eu até hoje não sei nem onde nem por que o jet ski foi proibido.

Fui achando que já entendia melhor. Tinha aprendido a não pedir sorvete de creme, mas gelado de nata. E pedi, no restaurante, torta com uma bola de gelado de nata. O garçom disse “bolinha?”. Eu sorri e disse, “sim, uma bola de gelado de nata”. Ele disse “uma bola de bolinha?”. E eu já pensei “ai Deus, começou”. Ele insistiu “não temus gelado d’nata. Temos chuculát, murang e bónilha. Pod’ser uma bola de bónilha?”. Enfim. Bola de bolinha, bola de bónilha, vamos levando.

Descobri que jogar na privada é deitar na sanita. Que pisar no freio é carregar nos travões. Que banheiro é casa de banho e salva-vidas é banheiro. Que dar a descarga é puxar o autoclismo. Que eu uso cuecas, por mais que eu use calcinhas. E que os homens também usam cuecas por mais que eles não usem calcinhas.

Não satisfeita, inventei de namorar um lisboeta. Fomos dormir outro dia e ele disse “q’rida, podes colocar o despertador para o Tim Maia?”. Pausa. Oi? “O despertador. Colocas para Oi Tim Maia?” Tim Maia? “Sim, para Oi Tim Maia.” E, então, eu percebi que já era bilíngue. Coloquei o despertador para 8h30 e apaguei a luz.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Pessoas difíceis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu confesso: sou uma pessoa difícil mesmo. Não chego a ser casquinha de ferida absoluta, mas posso sangrar em fração de segundo, bastando para isso que alguém lance no ar a suspeita de que sou desleal. Que eu me depare com a insinuação de que minha disponibilidade intelectual ou afetiva não é sinal de generosidade verdadeira, mas mero disfarce para encobrir a usurpadora que rasteja sorrateiramente dentro de mim.

Por razões insuspeitas, prefiro ser chamada de bruxa a ser confundida com gueixa. Submissão nunca foi minha praia. Estou muito longe do perfil de mulher que cola um sorriso à face e atropela os próprios sentimentos para se colocar a serviço do prazer alheio. Ao contrário, defendo com unhas e dentes meu direito ao gozo de frutos sensoriais, racionais, afetivos e espirituais de cultivo próprio. Sou mais afeita à alquimia dos encontros de alma, sempre capazes de transformar conveniências em oportunidades de enriquecimento mútuo.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Não sou uma figura solar, expansiva, daquelas que aquecem o ambiente de imediato e podem até cegar os circunstantes. Prefiro ser luz de vela que bruxuleia timidamente porque não pode negar a força da escuridão nem desmerecer o poder da indiferença. Sou mais dúvida do que certeza, mais hesitação do que rompante.

Não sou pessoa de fino trato, mas requeiro cuidado extra ao ser manipulada. Se chacoalhada com rudeza, na ânsia de descobrir o que se esconde em meu interior, posso explodir e destroçar toda forma de curiosidade invasiva. Maior perigo ainda correm os incautos, que, por medo da devastação que posso provocar, me tratam como porcelana chinesa: não conhecerão meu valor até que aceitem correr o risco de ferir as mãos com os cacos de minha presumida superioridade.

Que fique bem claro para todos: não sou ogro nem tampouco ovelha pronta para o sacrifício. A bem da verdade, sou a mistura complexa de duas naturezas conflitantes. Qual centauro, trago no peito o desejo da delicadeza e, no corpo, a fúria da libido animal. Pisciana, filha de mãe taurina e pai ariano, aprendi cedo a não medir forças com a autoridade externa. A admirar e tentar copiar a estratégia da água, que transpõe obstáculos corroendo-os um pouco a cada dia.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Acredito piamente que, para tudo nesta vida, há de haver critério e limites claros. Sou, aliás, muito boa na demarcação de territórios de liberdade e de áreas proibidas para crianças, cães ou outros invasores de minha intimidade. Não sofro do mal da fingida cortesia, nem determino infindáveis pré-requisitos para conhecer e me apaixonar por outras pessoas. Na lista dos meus defeitos de caráter, certamente não está a hipocrisia. Especializei-me na arte do “sincericídio”, seja por acreditar que a verdade liberta, seja por esperar contrapartida de mesmo nível.

Tenho alguns segredos a revelar, ainda que um tanto a contragosto, a respeito das características menos visíveis de minha estrutura psíquica. O silêncio magoado é letal para mim. Da mesma forma, os jogos de poder ferem de morte minha alma. A capacidade de ternura, de compaixão e de perdão desestruturam por completo minha sede de retaliação. Nutro um profundo desprezo pelas pessoas que acham mais confortável posicionar-se sempre em cima do muro em nome da evitação do confronto.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Aos que julgam que as personalidades difíceis são insuportáveis e deveriam ser submetidas a contínuos programas de adestramento na área de habilidades sociais, um recado final: não se deixem impressionar pela aparência de poucos amigos. Não sou mal-educada, nem uma grosseirona empedernida, incapaz de reconhecer os próprios erros e pedir perdão. Não me considero vítima de nada, a não ser talvez da crueza de minhas próprias exigências éticas.

Ao contrário, é exatamente por respeitar minha natureza menos maleável – ou mais resiliente, se preferirem – que compreendo bem a necessidade de ser respeitosa para com outras naturezas mais afáveis e condescendentes.

Em resumo, acredito que as pessoas difíceis têm a consistência certa para quem aprecia frutos carnudos que vêm abrigados em casca grossa. Tudo o que é preciso para nos consumir com prazer e extrair toda a suculência de nosso conteúdo é confiar na força de seu próprio queixo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, veado e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vírgula, travessão ou parênteses?

Dad Squarisi (*)

Marcelo é arquiteto. Além de linhas e formas, preocupa-se com a língua. Não abre mão do texto nota 10 nem a pedido dos senhores do Olimpo. O perfeccionismo não se restringe a ele. Estende-se à equipe. Outro dia, a turma dava o toque final a uma proposta. Pintou, então, uma dúvida. Que sinal usar — vírgula, travessão ou parêntese? Eis o quebra-cabeça:

●  Brasília, a capital do Brasil, sofre os efeitos da seca.
●  Brasília — a capital do Brasil — sofre os efeitos da seca.
●  Brasília (a capital do Brasil) sofre os efeitos da seca.

E daí?
As três opções estão certinhas. Mas há diferenças. Quais? Sobraram palpites. Faltaram certezas. Pra quem sabe ler, ponto é letra. A recíproca é verdadeira. Quem sabe tirar partido das manhas da língua homenageia o leitor. Dá-lhe oportunidade de ir além de orações e períodos burocraticamente corretos. Desvenda-lhe o universo das nuanças.

Vírgula, travessão, parêntese & cia. vieram ao mundo por necessidade da expressão. Sem os recursos da língua falada, que também fala com o tom da voz, os silêncios, a gesticulação, as caras e bocas, a escrita busca compensações. Além da pausa, recorre a outros meios. Eles dão recados.

A neutralidade
Nem frio nem quente? Então fique com o morninho. A discreta vírgula é o melhor representante dos que querem agradar a gregos e troianos. Neutros, eles ficam em cima do muro e, claro, não se comprometem. Veja:

●  Redigir, na definição do Aurélio, é escrever com ordem e método.
●  Michel Temer, presidente do Brasil, esteve na Rússia.
●  Cármen Lúcia, presidente do STF, nasceu em Minas.

O realce
Você joga no time dos fãs de plumas e paetês? Então adora foguetório. Adora, também, o travessão. O traço nasceu pra brilhar. Generoso, realça tudo que o acompanha:

●  Redigir — na definição do Aurélio — é escrever com ordem e método.
●  Michel Temer — presidente do Brasil — esteve na Rússia.
●  Cármen Lúcia — presidente do STF — nasceu em Minas.

A desqualificação
Quer desqualificar? Use parênteses. Com eles, você dá um recado: a palavra, expressão ou oração neles contida é secundária, acessória. Entrou ali de carona. Não faz falta:

●  Redigir (na definição do Aurélio) é escrever com ordem e método.
●  Michel Temer (presidente do Brasil) esteve na Rússia.
●  Cármen Lúcia (presidente do STF) nasceu em Minas.

Sem inocência
Seja esperto. Não há escrita inocente. Ao escolher este ou aquele sinal, você dá recados. Ter consciência do poder de vírgulas, parênteses e travessões tem duas vantagens. Uma: ajuda a escrever. A outra: ajuda a ler.

Casamento manhoso
Travessão e vírgula? O casamento dos dois é raro como viúvo na praça. Mas volta e meia tem vez. Quando? Preste atenção aos parezinhos:

●  Brasília, a capital do Brasil, tem 2,5 milhões de habitantes.
●  Brasília — a capital do Brasil — tem 2,5 milhões de habitantes.

No caso, os travessões substituem duas vírgulas. As núpcias não têm nenhuma chance.

●  Depois da vitória do afilhado com mais de 50% dos votos, o padrinho se sentiu forte como Tarzã.
●  Depois da vitória do afilhado — com mais de 50% dos votos —, o padrinho se sentiu forte como Tarzã.

●  Quando saiu de casa lá pela meia-noite, deixou a família reunida.
●  Quando saiu de casa — lá pela meia noite —, deixou a família reunida.

Que manha, hein? O travessão coincide com uma (uma só) vírgula. Daí o casamento raro.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Baú de memórias ‒ 4

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Volto hoje a abrir meu baú de memórias para relembrar experiências vividas em torno de um de meus temas favoritos: os fenômenos paranormais, transcendentais ou de cunho espiritual.

Desde muito pequena, eu já experimentava a sensação de que havia mais mistérios entre o céu e a terra do que poderia supor minha galopante imaginação. Contavam meus pais que, apesar de conviver com quatro irmãos dentro de um apartamento pequeno, sempre fui uma criança retraída e solitária, que preferia passar as tardes em longos diálogos com um amigo imaginário.

Filha de mineiro e criada com a ajuda de auxiliares domésticas nordestinas, fui exposta desde muito cedo a todo tipo de lendas e crendices. Minha avidez pela leitura logo permitiu que outros personagens míticos passassem a compor novas facetas do meu universo mental. A rígida formação religiosa que recebi, calcada no Velho Testamento, encarregou-se de completar o quadro, trazendo à tona o lado sombrio e aterrorizante do mundo além dos sentidos, povoando meu cotidiano com relatos de possessão demoníaca e incorporação de espíritos.

Centenas de vezes ao longo de minha infância e adolescência, benzedeiras, cartomantes, ciganas e videntes cruzaram acidentalmente meu caminho. Milhares de vezes me angustiei ao sentir que era capaz de ter premonições ou experimentar transmissão de pensamento.

Em consequência dessa overdose de estímulos, acabei desenvolvendo uma espécie de estudada indiferença ou até ojeriza a tudo que não passasse pelo crivo da razão, da lógica, ou que não pudesse ser comprovado cientificamente. O medo, o ceticismo e a descrença rapidamente me levaram a me afastar em definitivo de todas as formas de ocultismo e espiritualismo.

Até que um dia um amigo insistiu para que eu o acompanhasse a um encontro com um médium espírita. Eu havia acabado de passar por uma perda afetiva importante e havia afundado em interminável estado de melancolia. Por mais que eu relutasse em acreditar que a solução do problema estivesse em outro plano, meu amigo nutria a esperança de que uma conversa com esse médium pudesse ter algum efeito terapêutico e me abrisse novas perspectivas de vida.

Ao entrar, fui logo levada para uma sala de consultas pequena, iluminada apenas por luz negra. O médium estava em pé, imóvel e em silêncio. Seus olhos pareciam irradiar hipnotizantes faíscas de luz. Incomodada com a dramaticidade daquele ambiente soturno, imaginei ter caído em uma arapuca e estar prestes a ser vítima de um farsante. Determinei-me logo de saída a não acreditar em uma única palavra que ele me dissesse.

Como se adivinhasse meus pensamentos, ele me encarou com toda a serenidade e disse apenas: “Não acredite…”. Ficou mais alguns segundos em silêncio e repetiu a frase. Quase caí de costas. Buscava desesperadamente indícios de que algo em meu corpo estivesse facilitando o recebimento da mensagem de descrença, como a contratura de músculos ou meus olhos esbugalhados. Não tive tempo para dar continuidade a minhas divagações.

Logo ele deu prosseguimento a suas sentenças enigmáticas. “Vocês, psicólogos terrenos, são muito mecanicistas…”. Minha incredulidade e irritação só faziam aumentar. Como ele podia saber que eu era psicóloga se sequer havíamos sido apresentados? Pode ser que meu amigo tenha lhe dito, pensei, tentando me tranquilizar, mas sem conseguir afastar a angústia.

“O ser humano é uma unidade bio-físio-psico-social-espiritual… Por que você não vai estudar o que acontece ao nível das sinapses com a substância negra?“. Desta vez, uma forte onda de pânico tomou conta de mim. A frase estava muito além do conhecimento rudimentar de um ilusionista, requeria conhecimento técnico especializado. Meu amigo havia me dito que o tal médium era um advogado na vida cotidiana, mas que, em estado de transe, incorporava o espírito de um médico (que só vim a saber depois que se tratava de Bezerra de Menezes).

Tentei reativar na memória, sem sucesso, as lições de fisiologia que havia tido na faculdade. Ao voltar para casa, procurando em meus manuais, verifiquei que estranhos pontos negros se aglomeram nas terminações nervosas quando um estímulo adquire caráter vital. A analogia usada para explicar a função dessa substância era a de um trem de metrô que tem prioridade e, portanto, recebe o sinal verde em todas as conexões ao longo do trajeto. Só décadas mais tarde consegui estabelecer um vínculo entre esse fenômeno e o que o médium chamava de mecanicismo das teorias psicológicas.

A intrigante experiência não parou por aí. Logo na sequência, o médium pediu que todos os presentes saíssem da sala e nos deixassem a sós. Prendi a respiração, tentando me preparar para vivências ainda mais aterrorizantes. Calmamente, ele me pediu que me deitasse em um colchão que estava no chão. Obedeci sem nem saber por quê. Ele se inclinou, pegou meu pulso com delicadeza, sem dizer absolutamente nada. Lembro apenas de ter fechado os olhos.

by Ramone Romero

Para meu supremo espanto, acordei algumas horas depois, com a sensação de que havia tido um longo e agradável sonho, sem, contudo, me lembrar de nenhum detalhe específico. Não conseguia acreditar que aquilo tivesse acontecido comigo. Na época, eu enfrentava uma crise severa de insônia e já havia tentado vários recursos para pôr fim a ela, sem sucesso. Como era possível eu ter conseguido relaxar em um ambiente estranho, na presença de uma pessoa que me inspirava temor e sem que nenhum comando específico, verbal ou não-verbal, tivesse sido dado?

Ao abrir os olhos, vi que os médiuns auxiliares estavam postados em torno do colchão, com os braços estendidos, formando um círculo de passe. Sem fazer qualquer referência ao que havia se passado, o médium pediu que me sentasse numa cadeira, com suportes metálicos para os braços. Orientou-me a me concentrar mentalmente em uma figura protetora, paternal. A imagem de Cristo apareceu diante de meus olhos. Tentei embarcar numa peregrinação religiosa, mas não fui muito longe. Prestava mais atenção aos meus descompassados batimentos cardíacos, que impediam que meu pensamento seguisse um roteiro linear.

Alguns minutos depois, tive a nítida sensação de que meus braços haviam se erguido, sem que eu os tivesse comandado. A sensação era tão forte que me vi forçada a abrir os olhos. Constatei, horrorizada, que eles estavam mesmo levantados. Literalmente perplexa, empurrei-os de novo para baixo, com força. Muitos anos depois, durante uma sessão de Kum Nye, um método de meditação do budismo tibetano, aprendi que, quando o cérebro entra em estado alfa, esse fenômeno pode ocorrer e é chamado de “movimento automático”.

Parecendo satisfeito com os resultados obtidos, o médium se sentou então em frente a uma escrivaninha e pôs-se a redigir uma receita. Olhando de relance para o papel que ele me estendeu, percebi que haviam sido prescritos alguns chás e medicamentos fitoterápicos. Com voz segura e calma, o médium me alertou que, se eu não tomasse providências, dentro de um ano estaria enfrentando uma doença grave.

A essa altura, talvez por cansaço, minha arrogância intelectual havia reocupado lugar de destaque em meu psiquismo. Cheia de ironia, comentei com meu amigo que nada daquilo fazia lógica e rasguei com fúria o papel. Exatamente um ano mais tarde eu fui diagnosticada com um câncer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quer ser aluno de Dilma Rousseff?

Políbio Braga (*)

O curso «A esquerda no século 21» também terá Guilherme Boulos, Olívio Dutra, Emir Sader, João Pedro Stédile e outros dinossauros da esquerda entre os professores.

As aulas da pós-graduação “A esquerda no século XXI” terão lugar em Chapecó (SC). O autor da ideia é o deputado federal José Uczai (PT-SC), professor universitário. A ex-presidente e Olívio Dutra (PT), ex-governador do Rio Grande do Sul, ficarão responsáveis pela disciplina “Partidos políticos e a esquerda brasileira”, com carga de 45 horas. O time ainda inclui Emir Sader, Jean Wyllys, Guilherme Boulos, João Pedro Stédile e, a confirmar, Jandira Feghali, Chico Alencar e Leonardo Boff.

Os interessados devem desembolsar R$ 7.200, com direito a parcelamento em até 24 meses. O curso será oferecido em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul e a Fundação Perseu Abramo, controlada pelo PT e financiada com recursos do fundo partidário ‒ dinheiro público, pois. Já o diploma será expedido pelo Instituto Dom José.

Para obter o diploma de especialista em “esquerda do século 21”, será ainda necessário realizar um seminário de pesquisa (30 horas) e produzir um trabalho de conclusão (60 horas). O curso terá cerca de um ano de duração, com aulas nas sextas-feiras à noite e nos sábados na cidade do oeste catarinense.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Hermenêutica à luz da exegese

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O genial Chico Anysio foi profético ao criar um de seus personagens mais emblemáticos, o advogado Pedro Pedreira. Conhecido por seu mau humor e ceticismo diante de quaisquer evidências a ele apresentadas, sejam elas de caráter científico, religioso ou até mesmo histórico, o personagem reluta em emprestar-lhes credibilidade, usando o bordão “há controvérsias” para, em seguida, solicitar que se lhe seja apresentada alguma prova incontestável do fato.

A graça dos diálogos com esse personagem vem diretamente da sensação de perplexidade que suas demandas provocam, já que todas as comprovações que ele exige mostram-se inexequíveis na prática, dado que não guardam conformidade com o contexto original. Um exemplo dessa descabida forma de argumentar seria algo como Pedro Pedreira perguntar, caso fosse confrontado com o relato bíblico da abertura do Mar Vermelho: “Há alguma testemunha ocular que tenha feito uma selfie de pé no fundo do oceano, com as roupas totalmente secas, e sendo possível visualizar de cada lado gigantescas colunas de água?”.

Ao ouvir a resposta negativa do atônito interlocutor, o personagem fecharia então o diálogo com outro magistral bordão: “Então, não me venha com chorumelas!”.

by Lucas Leibholz (1981-), desenhista paulista

Se ainda vivo fosse, Chico Anysio certamente teria motivos para se regozijar com mais uma inequívoca demonstração de que a vida copia a arte. Ao tentar se defender da acusação de corrupção passiva apresentada ao STF pelo procurador-geral da República, Michel Temer deu mostras claras de ter incorporado o espírito de Pedro Pedreira. Logo depois de afirmar que a peça acusatória não passava de ficção, encheu o peito e, após uma pausa dramática, perguntou: “Afinal, é isso que vale? Onde estão as provas do recebimento desses valores?“.

Não as verbalizou explicitamente, mas deixou no ar indagações inquietantes: haveria, por acaso, algum recibo assinado pelo presidente que tenha tido sua autenticidade comprovada por grafólogo juramentado? Algum vídeo gravado no interior do palácio presidencial em Brasília ou na residência de Sua Excelência em São Paulo teria flagrado o presidente estendendo as mãos para acolher a mala recheada de propina? Teria a PF colhido impressões digitais do presidente em alguma das notas daqueles 35 mil reais que faltavam quando a mala foi devolvida? Teria algum familiar do presidente postado uma foto sua, sorridente, ao lado da mala, no Facebook, com a legenda “Nada nos destruirá”?

Não faltou sequer uma rápida alusão às chorumelas da imprensa e da oposição. Ao tentar comprovar em tom sarcástico que o Ministério Público Federal estava criando uma perigosa nova figura jurídica, a denúncia por ilação, o presidente insinuou com a sutileza de um elefante em loja de cristais que, se delação fosse por si só prova válida juridicamente, seria igualmente lícito supor que os milhões recebidos por um ex-assessor de confiança do Procurador-geral da República para negociar o acordo de delação da JBS não tenham sido destinados unicamente (grifo meu) a ele.

Posso não ter nenhuma expertise na arte da hermenêutica, mas minha velha relação com os escritos do mestre Sigmund Freud me autoriza a levantar a hipótese de que, sob pressão, o inconsciente intranquilo do chefe do executivo veio à tona e representou, simbolicamente, ao menos uma confissão de compadrio na culpa.

Como mais não disse e encerrou a coletiva de imprensa com ar triunfante, meu cérebro permitiu-se indagar de onde vinha todo aquele senso de autoridade moral. Da hermenêutica (isto é, da interpretação de textos jurídicos), passei a devanear também pelo terreno da exegese (isto é, pela interpretação de textos religiosos).

Sabem todos que um dos dogmas máximos da Igreja Católica, que dá sustentação à autoridade de seu chefe espiritual, é o da infalibilidade do papa. Ora, se Sua Santidade é escolhido não por um colégio de cardeais, mas sim por inspiração direta do Espírito Santo, não há como ver em seus atos, decretos e bulas a interferência de motivações humanas – a não ser que aquele que levanta objeções esteja sendo induzido a isso por influência satânica.

Ainda atônita com a extraordinária autoconfiança demonstrada por um político acuado, acreditei ter detectado no pronunciamento de nosso mandatário-mor a proposição de um novo dogma, desta vez a meio caminho entre o religioso e o político: o da infalibilidade do presidente da República. Se, como declarou, nosso atual chefe do Executivo sente-se guindado ao cargo por obra e graça do próprio Deus, como poderemos nós, ignaros e descrentes cidadãos mortais, duvidar que todos os seus atos públicos ou privados estejam unicamente a serviço da redenção de nosso amado Brasil para honra e glória do Senhor?

Assim sendo, permito-me humildemente lançar a candidatura de Michel Temer ao posto de venerável futuro prior do Mosteiro Brasil. ‘Ora et labora’ continuará sendo nosso lema, nossa derradeira profissão de fé.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Adotando um pesadelo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Nos últimos meses, tenho evitado como posso abordar o tema “vida ao lado de cachorros”. Desde que minha filósofa de quatro patas preferida partiu, abriu-se um imenso vazio em meu coração e teve início um angustiante período de falta de interlocução com outros humanos e outros animais.

Não me entendam mal. Continuo desenvolvendo como de hábito minhas atividades profissionais e sociais, encontrando parentes e amigos, cuidando da minha cachorra Aisha e tentando encontrar uma nova companheira peluda que seja capaz de nos tirar do pântano existencial em que patinamos. Por mais contraditório que pareça, nada disso consegue trazer alívio ou verdadeiro prazer para minha mente atormentada.

Constato com mais força a cada dia que passa que o vínculo que me uniu à Molly é, para todos os efeitos, único e insubstituível. Talvez para quem nunca tenha convivido com um animal de estimação soe estranho falar sobre a personalidade de cada pet, mas assim é. Independe totalmente de sua raça, porte, idade ou sexo. Cada bicho tem um jeito peculiar de andar, comer, tomar água, brincar, dormir, exprimir suas necessidades e se relacionar com seu dono. Não há como transferir para outro cachorro a rotina de cuidados e experiências, sem que tudo pareça despropositado, forçado ou fora de ritmo.

Como a interlocução entre um humano e seu bicho de estimação é de alma, de energia e não passa pelas palavras, a gente é obrigada, mesmo que não queira, a fazer uma revisão profunda dos alicerces que sustentam nossa relação com cada animal. O passatempo preferido da Molly era ficar me olhando com um ar inquisitivo, em completo silêncio e imobilidade, como se pudesse ler tudo o que me passava pela alma. A palavra de ordem na vida da Aisha, ao contrário, é agitação. Qualquer atividade para ela é prazerosa, tanto faz se o convite é para passear ou movimentar-se dentro de casa mesmo, desde que haja uma bolinha como forma de intermediação da nossa relação. Quando não há nenhuma à mão, ela se entrega à apatia e me ignora por completo. Não há meio termo, não há possibilidade de diálogo ou negociação.

É da minha natureza buscar o sossego e a meditação, mas sou forçada a confessar que a rotina de interiorização logo me cansa. Preciso sempre que o beijo de alguma estimulação externa desperte a Bela Adormecida que vive em mim. Recomeçar é, para mim, tão vital quanto o ar que respiro. Quando a vida me oferece essa possibilidade, minha energia mental e espiritual prontamente recomeça a brotar.

Nas últimas semanas, o que mais tenho feito é visitar sites de doação e feiras de adoção de pets. Tenho analisado as mais diferentes opções de tamanho, cor, idade e temperamento canino. A desastrosa tentativa de convivência com a Helô me chamou de volta à realidade: não tenho mais idade, disposição física ou paciência para educar um filhote e lidar com a inevitável frustração de vê-lo destruir tudo ao redor. Passei a focar nas alternativas de adoção de cachorras adultas, mansas e sociáveis, uma vez que preciso levar em consideração também uma possível rejeição da Aisha.

Pode ser que o problema seja meu, mas sinto que a estratégia de marketing que vem sendo usada por muitas ongs e protetores está redondamente equivocada. Na ânsia de aumentar as chances de adoção, praticamente todos os cães anunciados são apresentados como portadores das qualidades acima. A alegação padrão costuma ser a de que o bicho é carinhoso, dócil, carente e obediente, não importa se ele é um pitbull idoso e vítima de maus tratos ou um vira-lata brincalhão que mal começou a vida.

Examino as fotos e analiso com cuidado o olhar de cada cachorra disponível. Não é isso que sinto na imensa maioria dos casos. Quando localizo alguma que tenha o olhar filosófico ou uma postura de esfinge parecida com a da Molly, meu coração bate descompassadamente. Ligo, converso, negocio, explico minha situação, peço informações detalhadas sobre o comportamento da outra. As promessas se repetem, monótonas. Quando alerto que preciso fazer uma experiência de contato entre a candidata e a Aisha antes de me comprometer em definitivo, o discurso começa sutilmente a mudar de figura.

Uma só pode morar em casa térrea, preferencialmente com grades e telas de proteção. Outra magicamente passa a ser diagnosticada como um tanto instável na convivência com outros animais adultos. Outra ainda é apresentada como extremamente medrosa e desconfiada, em função de traumas emocionais derivados de maus tratos. E por aí vai.

Ultimamente, tenho me sentido como uma socialite entediada que tem um exército de tratadores, adestradores e terapeutas caninos à disposição. Outras vezes, como uma dona de casa apalermada, cujo único interesse na vida é cuidar de cães e que tenta preencher seu vazio existencial com eles por não dispor de uma vida social (quiçá sexual) satisfatória.

Será que sou eu quem está à procura um ideal inexistente ou serão eles que ainda não se deram conta de que há infinitas outras formas de crueldade com os animais além do abandono e dos maus tratos?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os crimes da mala e o cadáver do Brasil

Ruy Castro (*)

Em 1928, em São Paulo, um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, estrangulou sua mulher Maria Mercedes, que o denunciara como trambiqueiro. O que fazer com o cadáver? Pistone serrou-o pelas pernas, espremeu-o numa mala e despachou-o para um destinatário inexistente em Bordeaux, França. Ao ser içada a bordo do navio Massilia, em Santos, a mala abriu acidentalmente e revelou o seu conteúdo. Pistone foi preso e condenado a 31 anos. Cumpriu 13, saiu e até se casou de novo.

O caso passou à história como “o crime da mala”, embora não fosse o primeiro nem o último com esse nome. Há cinco anos, também em São Paulo, uma mulher matou a tiros o marido, executivo de uma grande empresa fabricante de pipoca. Experiente em enfermagem, ela o esquartejou e o distribuiu por três malas com rodinha, que enfiou no carro e levou até Cotia para se desfazer. Foi apanhada e presa. E este também não será o último caso do gênero.

Um novo tipo de crime da mala está em curso no Brasil. Consiste em esquartejar os escrúpulos e rechear malas, não com o que restou deles, mas com dinheiro ilícito. O caso mais flagrante é o do ex-deputado Rodrigo Loures, destacado pelo presidente Temer como seu “homem de confiança” para se entender com os amigos da JBS — e, dali a dias, filmado ao receber uma mala numa pizzaria e, assustado, tomar um táxi com ela no colo. A mala continha R$ 500 mil em espécie e soube-se depois que ele a escondeu na casa da mãe.

Na sequência, Fred Pacheco de Medeiros, operador e primo do senador Aécio Neves, também foi filmado acomodando em malas R$ 500 mil da mesma generosa JBS. E, antes deles, o notório ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era tão useiro em rechear mochilas com dinheiro que seu apelido era “Mocha”.

Em todas essas malas e mochilas, vai, aos pedaços, o cadáver do Brasil.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Mala preta aos três anos da Lava a Jato

Fernando Gabeira (*)

Interessante classificar os que pedem a queda de Temer como irresponsáveis. Já que estamos usando a palavra, é bom lembrar que não somos presidentes nem recebemos um empresário investigado à noite, sem anotação na agenda, usando senhas no portão de entrada.

Não nos parece responsável um presidente que mantém aquele tipo de diálogo, tarde da noite, com o dono da Friboi. Tampouco parece responsável designar como interlocutor do empresário Joesley Batista um assessor especial que, horas depois, é filmado carregando a mala com R$ 500 mil.

Para ficar no universo mínimo de uma só palavra, a irresponsabilidade decisiva foi de Temer. Supor que três anos depois da Lava a Jato não só tudo terminaria em pizza, como o dinheiro da propina seria pago diretamente na Pizzaria Camelo.

by Eneko de las Heras (1963-), desenhista venezuelano

Foi Temer sozinho que arruinou suas chances de conduzir as reformas e jogou para fora da pinguela uma grande parte da sociedade, já constrangida com ela, mas vendo-a como a única saída momentânea.

A maioria tem o direito de rejeitar um presidente que se envolve em práticas tão sospechosas. E tem também o direito de achar que ele deva ser investigado, mas que os dados já expostos o desqualificam para o cargo.

Por enquanto, vamos assistir à guerra de Temer contra a Lava a Jato. Apertem, pois, os cintos: o que chamam de estabilidade nós chamamos de turbulência.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O texto reproduzido é parte de artigo publicado em 16 jun 2017. O escrito integral está aqui.

A língua falada por cada um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gosto muito das lições vernáculas que recebo lendo os primorosos e divertidos textos da Dad Squarisi. O de ontem não constitui exceção de modo algum, mas não posso deixar de confessar que ele me deixou um tantinho angustiada.

A bem da verdade, admito que, quando estou na dúvida sobre a forma gramatical correta, muitas vezes recorro ao estratagema usado pela secretária que, por desconhecer a grafia correta de sexta-feira, reagendou a reunião para a quinta. Além disso, tenho certeza de que se eu estivesse na pele da segunda, sem saber ao certo se o correto seria dizer “conosco mesmos” ou “com nós mesmos”, optaria por uma solução de compromisso mais tranquilizadora do ponto de vista psicológico: aconselharia meu chefe a trocar ‘nós’ por ‘a gente’.

Na sequência, refletindo um pouco mais, acabei descartando minha própria sugestão. Novas dúvidas se enraizaram de imediato em minha cabeça: se a troca fosse aceita, como ficaria o reforço ‘mesmos’? Seria correto dizer “com a gente mesma” ou, neste caso, ‘mesmo’ agiria como reforçador neutro de ‘queremos’? Se a frase começa com o plural ‘nós’, pode terminar no singular? Pensando bem, talvez fosse melhor sugerir algo como “Queremos estar de bem com aquilo que somos”. Pode ser mais longo e não tão preciso, mas pode eliminar a angústia mais rapidamente.

É curioso como, ao longo da vida, aprendi a demonstrar tolerância zero com erros de grafia e de concordância verbal, mas descuidei do aprendizado da norma culta. Escolho intuitivamente as construções de frase que me geram total confiança e fujo como o diabo da cruz de outras que experimentei um dia e que, por sua impropriedade, me encheram de vergonha.

O que não perdoo em mim mesma, perdoo menos ainda nos outros. A reprovação mais rápida da história universal da Seleção de Pessoal aconteceu com um colega que iniciou uma entrevista com um estudante universitário perguntando: “Quando você se forma? ”. A resposta veio de pronto: “Eu se formo agora no meio do ano”.

Por seu lado, sempre achei melhor que cada pessoa se exprima verbalmente da forma como aprendeu com os pais ou com a comunidade à sua volta, mesmo que contrarie o rigor da norma culta. Soa mais natural e preserva todo o sabor do jeito particular com que cada agrupamento humano diz o mundo. Um dia, se lhe interessar, a pessoa poderá aprender com mais facilidade como articular sua fala da maneira correta para provocar o impacto que deseja.

Sei por experiência própria que, quando a pessoa finge dominar as regras da semântica com o intuito de passar boa impressão a seu interlocutor, o resultado é inevitavelmente cômico e constrangedor. Foi o que aconteceu quando eu entrevistava um candidato para uma posição de gerência.

Ele havia enviado um curriculum grandiloquente, autoelogioso e volumoso e eu estava curiosa para descobrir o quanto suas experiências profissionais anteriores retratavam a verdade dos fatos. Comecei pedindo que ele resumisse suas atribuições no último posto de trabalho. O rapaz respirou fundo enquanto tentava organizar o pensamento e, de repente, seu olhar se iluminou, como se houvesse descoberto a fórmula certa de me impressionar logo de saída com seu douto saber. Cheio de confiança, ele nem pestanejou ao lançar as seguintes pérolas:

“Permita-me fazer um prêmbulo…

Mesmo fortemente impactada, não me foi difícil compreender que o ele pretendia de fato era dizer “preâmbulo”. Segurei o riso e respondi com serenidade: “Faça quantos achar necessário”.

Estimulado, ele prosseguiu: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

by Martin Singer (1969-), desenhista francês

Mais uma vez, bastou uma rápida reflexão para entender que, na verdade, ele queria dizer “burilar”. Só que, dessa vez, algo se agitou em mim. A impropriedade linguística do candidato começou a fazer uma outra lógica, que eu só poderia descrever como um enquadramento psicológico criativo, ainda que alucinado.

É que, mesmo me parecendo surreal a comparação, eu havia chegado à conclusão de que as duas palavras guardam semelhança, ao menos no que diz respeito à intenção. Se você parar para pensar, vai descobrir que aquele que burila alguma coisa, seja pensamento ou algo concreto, está na verdade mudando seguidamente de posição, avançando e recuando, experimentando novos ângulos e aparando arestas. Talvez até mesmo se deixando excitar com as possibilidades que se abrem diante de seus olhos ao manipular com competência profissional ou atabalhoadamente a ideia ou o objeto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Com nós x conosco

Dad Squarisi (*)

Há secretárias e secretárias. Mas todas têm uma marca. São um baita quebra-galho. No aperto, sempre dão um jeito. Há o caso da auxiliar que não sabia se sexta-feira se escrevia com x ou com s. Sem dicionário por perto, transferiu a reunião para a quinta.

Outro dia, pintou uma dúvida no escritório. O diretor ditava um texto. A secretária anotava. Num dado momento, ele a mandou escrever:

‒ Queremos estar de bem conosco mesmos.

Ela estranhou. A construção não lhe soava bem. Não seria com nós mesmos? Ou o pronome nós, casadinho, vira sempre conosco? Pergunta daqui, pesquisa dali, encontrou a resposta.

O com nós só se emprega quando acompanhado de palavras reforçadoras como próprio, mesmo, todo: As cartas ficarão com nós todos. Paulo jantou com nós dois ontem à noite. Queremos estar de bem com nós mesmos.

Sem a palavra de reforço, o conosco pede passagem. Abra-lhe alas que ele quer passar: As cartas ficaram conosco. Paulo jantou conosco ontem à noite. Querem estar de bem conosco.

Teste
A frase certinha da silva é:

A) Não é engano. O presidente quer falar com nós mesmas.

B) Não é engano. O presidente quer falar conosco mesmas.

Resposta
Marcou a letra A? Pra lá de certo. O com nós só tem vez quando seguido de palavra que o reforça. Torna-o fortão. No caso é mesmas. Preferiu a B? Deu bobeira. Conosco não aceita reforço. É o bloco do eu-sozinho: Não é engano. O presidente quer falar conosco.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Pittsburgh e o planeta; Brasília e o Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há alguns dias, Donald Trump postou-se em frente às câmeras e, como de hábito, inflou o peito de orgulho para anunciar diante de uma plateia embasbacada que os Estados Unidos estavam se retirando do Acordo do Clima de Paris. Sem parecer se dar conta das consequências de seu ato, cometeu simultaneamente um ato falho e ilustrou como raciocinam pacientes psiquiátricos acometidos por um distúrbio em que se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte.

Jactando-se de sua capacidade de fazer valer delirantes promessas de campanha, justificou sua decisão afirmando ter sido eleito para representar os eleitores de Pittsburgh e não os de Paris. Parece ainda não lhe ter caído a ficha de que sua inesperada (até para ele mesmo) façanha eleitoral o colocou no centro do palco para representar a totalidade dos cidadãos norte-americanos, não importando na prática se eles são oriundos de Pittsburgh, Nova Iorque ou Baltimore, se de fato votaram nele, nem se acreditam nas evidências de que o aquecimento global é um preocupante fenômeno real ou se apostam, como seu patrono, que tudo não passa de mais um embuste dos chineses.

Na sequência, na ânsia de repisar seu bordão favorito “America First”, atropelou a lógica, passando lépido e fagueiro por cima do fato de que o Acordo de Paris não representa apenas os interesses dos eleitores da capital francesa, mas é um desejo comum manifesto por mais de 190 países signatários. Pateticamente, comportou-se mais uma vez como se tivesse sido não só proclamado presidente, mas coroado imperador do universo, estando exclusivamente em suas mãos o poder de decidir o que é melhor para o futuro do planeta.

Ainda um pouquinho pior, se é que é possível, demonstrou continuar acreditando que aos demais líderes mundiais cabe apenas curvar a cabeça e dobrar-se impotentes a seus decretos. A realidade, felizmente, foi-lhe esfregada na cara poucos minutos depois, a começar pela própria cidade de Pittsburgh.

Essas considerações me ocorrem enquanto eu acompanho o julgamento da chapa vitoriosa em 2014 pelo TSE e reflito sobre os desdobramentos da eterna crise da democracia brasileira. Lá como cá, a questão da representatividade não está clara para aqueles que teoricamente nos representam. É como se todos se sentissem guindados a posições de poder não por livre escolha da população, mas por direito divino ou inteligência superior ao comum dos mortais. Mais grave, permanecem indistintos na mente da esmagadora maioria de nossos homens públicos – e, infelizmente, também de uma parte da população – os conceitos de interesses do Estado e interesses do governo de plantão.

A patológica negação dos limites da realidade domina a cena também em nossos tristes trópicos. Se já não bastassem os parlamentares e integrantes do executivo a ignorar o clamor das ruas, agora são magistrados a admitir, sem qualquer espécie de pudor, que estão a serviço da manutenção da governabilidade e não da faxina ética que a população vem perseguindo.

Retraçar através de uma decisão digna da corte eleitoral os limites jurídicos e constitucionais entre a coisa pública e a privada? Nem pensar. O TSE não se sente imbuído dessa missão. Avisa que não há tempo, nem “clima” para ponderar sobre essas minudências agora.

E lá vai a Pátria Educadora enviando a mesma velha mensagem às futuras gerações: em certas situações emergenciais, mande os escrúpulos às favas e permita-se pequenos desvios de trajeto. Quando o tempo de vacas gordas voltar, haverá tempo e motivação suficientes para dar uma bela limpada no chiqueiro e livrar-se da lama que possa ter respingado aqui e ali.

Como questionaria Mané Garrincha, será que a estratégia de jogo já foi combinada com os adversários, isto é, com a população? Pensando bem, eu diria que, a julgar pelo andar da carruagem, logo estaremos assumindo a liderança mundial no campeonato de implementação de um inovador conceito de filosofia política: a democracia sem povo. Afinal, para que serve o povo?

Já não basta estar assegurado o direito de votar para que o regime continue a ser chamado de democrático? Ora bolas, chega de hipocrisia e de discursos paternalistas inflamados para inglês ver. Está mais do que na hora de nos conscientizarmos de que o povo sempre foi um penduricalho incômodo no organograma nacional desde que a primeira caravela portuguesa aportou em território brasileiro. “O povo não sabe votar”, “o povo é só um detalhe”, lembram-nos continuamente tantos iluminados de nossa história recente.

Sem querer parecer arrogante, tenho um só conselho a dar a todos esses senhores: quando o resultado do jogo for finalmente anunciado, comecem a redigir suas cartas-testamentos, explicando à nação porque foi inevitável abrir mão da honra e da história para cair de vez na vida. Se escolherem as palavras certas, pode ser que alguns clientes ainda se deixem sensibilizar e se mostrem sôfregos para contratar novamente seus serviços de zeladoria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O poder das analogias

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da profunda sabedoria contida numa analogia ela veio envolta na saborosa e rústica forma de falar nordestina. Eu estava em Recife, coordenando um treinamento para a equipe de vendas da região. Fizemos uma pausa no meio da tarde para um café. Eu conversava com um dos participantes, que parecia empolgado com as propostas introduzidas na parte da manhã.

Ele mastigava descontraidamente uma bolacha cream-cracker enquanto me ouvia tecer considerações sobre o que viria a seguir. De repente, notei que ele fazia caretas de desagrado e, intrigada, perguntei o que o estava incomodando. Com um meio sorriso nos lábios, ele respondeu: “Não tem nada a ver com o treinamento, não. É esta bolacha… isto aqui é como dançar com irmã.” Sem entender aonde ele queria chegar, voltei a questionar: “Como assim?”. Ele retrucou de pronto, com um ar entre sério e safado: “Não tem gosto de nada!”

O poder de uma analogia reside exatamente no fato de que, ao se estabelecer uma conexão inesperada entre duas experiências díspares, vem à tona um traço fundamental do caráter de um produto/marca, de uma situação ou de uma pessoa, capaz de distingui-los de forma criativa de outros do mesmo segmento.

A pesquisa de mercado e a comunicação publicitária valem-se seguidamente desse recurso, já que não é preciso fazer nenhum esforço consciente para apreender qual é o benefício único do produto/marca que está sendo apresentado. Ao contrário, ele surge como uma espécie de revelação de algo que já se sabia, mas que ainda não havia sido colocado em palavras por ninguém. Graças a isso, o traço de união revelado adquire quase imediatamente o sentido de “verdade” para todos aqueles que partilham da mesma opinião.

Muitos devem se lembrar, por exemplo, de uma propaganda que já completou mais de vinte anos, cuja assinatura é usada até hoje como mote para fazer referência ao padrão de qualidade de alguma coisa, seja um produto/marca, situação ou pessoa: “Não é nenhuma Brastemp…”

Cansada do clima de mal-estar político e sem ver solução de curto prazo para pôr fim à agonia ética em que patinamos todos, resolvi me encher de coragem e propor aos que me leem um jogo de analogias. Para tornar o jogo mais palatável, não serão utilizados nomes de possíveis candidatos, filiações partidárias ou orientações ideológicas. Também não será levado em consideração o sistema de governo que cada um considera o mais adequado para o futuro.

O jogo é o seguinte: Imagine que a saída para boa parte dos males do país está nas mãos de uma única pessoa. Estabeleça agora uma analogia entre esse personagem e cada uma das categorias abaixo. Quando terminar, revise sua lista e identifique os motivos que o levaram a associar uma coisa à outra.

Se essa pessoa fosse:

   •  Um animal

   •  Uma ferramenta (manual ou aplicativo eletrônico)

   •  Uma música (ou gênero musical)

   •  Uma comida

Se lhe ocorrer alguma outra categoria que lhe pareça mais significativa para ressaltar a personalidade dessa espécie de “salvador da pátria” [no sentido de alguém capaz de abrir novos caminhos], não hesite em utilizá-la também. Mas atenção: o jogo tem de ser divertido e espontâneo. Registre sempre a primeira ideia que lhe passar pela cabeça, evitando o máximo que puder a autocensura, ou seja: não se importe se a ideia lhe parecer ridícula, sem sentido ou exagerada. Lembre-se sempre que não há respostas certas ou erradas.

Caso sejamos bem-sucedidos e consigamos reunir sugestões inovadoras e bem-humoradas, comprometo-me desde já a analisar os resultados e elaborar um resumo das principais características do futuro da nação com que sonhamos.

Agradeço de antemão a todos que se deixarem sensibilizar com minha proposta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Se fôssemos espertos

Ruy Castro (*)

Comecei a suspeitar de algo errado com a educação no Brasil quando uma de minhas filhas, matriculada num colégio “experimental” do Rio em fins dos anos 70, chegou aos oito anos sem ser alfabetizada. Em troca, subia e descia de árvores com uma destreza de Jane do Tarzan. Seu colégio dava grande importância a essa disciplina e, não por acaso, o pátio parecia uma miniatura da Mata Atlântica.

Desde então, nosso sistema de ensino vem procurando novas fórmulas com as quais preparar os garotos. Uma delas propôs – e conseguiu – extinguir do currículo o Latim, talvez por ele não figurar entre as línguas oficiais da Disney World. Outra postulou o desaparecimento da Geografia, sob a alegação de que era inútil saber, digamos, os afluentes do rio Amazonas – para que decorar a resposta a uma pergunta que jamais lhes seria feita?

Mas isso foi então. Nos últimos 15 anos, voltamos aos conteúdos, só que para tentar inverter o polo da história – diminuindo a presença do opressor europeu e enfatizando a dos nossos indígenas e africanos. Com isso, menos Estácio de Sá e D. Pedro I, por exemplo, e mais Zumbi dos Palmares e o cacique Arariboia. Muito justo – mas o que faremos com o Aleijadinho, Chiquinha Gonzaga, Machado de Assis, Lima Barreto, Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Elizeth Cardoso, Ademir da Guia, Taís Araújo e a torcida do Flamengo, todos com algum branco descascado na composição?

Enquanto no Brasil discutimos ideologia, Portugal há anos começou a privilegiar o ensino de Português e Matemática em suas escolas. Sem ler ou escrever direito, ninguém chegará à História e à Filosofia. E sem uma forte base Matemática, ninguém dará para a saída no mundo cibernético. Os portugueses começam a colher os frutos dessa política.

Se fôssemos espertos, já os estaríamos copiando.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Nós, os touros e as rãs

Dad Squarisi (*)

Que país é este? Ninguém sabe com certeza. O andar de cima está em apuros. Presidente, senadores, deputados, empresários & cia. sem fim estão afundados num mar de corrupção. Alguém escapa? A impressão que se tem é que entrou em cartaz velha história cuja ideia central pode ser esta: «Se procurar, acha». Ou talvez esta: «Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come».

Alguns acham bom. Comemoram. Com os olhos no próprio umbigo, pensam não ter nada a perder. Outros se preocupam. Pensam no futuro de filhos e netos. Lembram, a propósito, a fábula Os touros e as rãs. Conhece?

A fábula
Dois touros vizinhos se desentenderam. Um xingou o outro, xingou a mãe do outro, xingou a vó do outro. Resultado: sem diálogo, ambos partiram pra luta. Patas e chifres entraram em ação. Foi um deus nos acuda.

Uma rã velha e sabida que vivia por perto olhava a briga com preocupação. Rãzinhas, ao contrário, se divertiam com a briga dos titãs. Ora torciam pra um. Ora pra outro. Uma delas percebeu o pânico da rãzona. Curiosa, perguntou:

‒ O que houve? Por que você está triste?

Eis a resposta:

‒ O touro que perder a luta será expulso do pasto. Virá pra cá. Nós vamos pagar a conta de uma luta que não é nossa.

Não deu outra. O derrotado foi para o brejo. Todos os dias dava uma voltinha pelas redondezas. Na caminhada, esmagava montões de rãzinhas com as patas.

A moral da história tem a ver com a realidade verde-amarela. Quando os poderosos brigam, os mais fracos pagam o pato. Quem? Eu, tu, ele.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Hermenêutica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É comovente, enternecedor mesmo, o esforço que nossos dirigentes fazem para que seus pronunciamentos, em especial quando feitos em momentos de grave crise institucional, sejam perfeitamente compreendidos pela população ignara. Sabem eles que, desacostumado aos matizes semânticos do linguajar culto que, por força da dignidade do cargo, seus líderes são obrigados a utilizar, o brasileiro comum pode não captar o cerne de raciocínios tão complexos.

Compreendo agora por qual razão alguns deputados federais pelejaram tanto na calada da noite para incluir, no projeto de lei que regulamenta o abuso de autoridade, os excessos na interpretação da lei por parte de procuradores e ministros da Suprema Corte.

Não bastasse ter sido a senhora ex-presidente forçada a convocar uma coletiva de imprensa para esclarecer em definitivo que a nomeação de outro famoso ex-presidente para a Casa Civil nunca teve por objetivo blindá-lo contra possível prisão, como opositores golpistas maldosos insistiam em apregoar, acabamos de ser brindados com nova aula magna de interpretação de textos por nosso estimado presidente em exercício.

Jurista que é, não escapa à atenção de nossa autoridade executiva máxima a importância e o valor da hermenêutica. Segundo reza o dicionário Michaelis, hermenêutica é:

•   Conjunto de preceitos e/ou técnicas para a interpretação de textos religiosos e filosóficos, especialmente dos textos sagrados;

•   Conjunto de elementos para a interpretação dos signos linguísticos (no sentido da semiologia);

•   Conjunto de princípios para a interpretação do texto legal (no sentido jurídico);

•   Interpretação do sentido das palavras.

Grifo a última acepção, já que foi apoiado nela que nosso ilibado jurisconsulto erigiu seu raciocínio no pronunciamento que fez neste sábado à tarde. Como lembrou com pertinência ele, sua anuência (“tem que manter isso, viu?“) não estava vinculada ao pagamento de quaisquer quantias para garantir o silêncio de um ex-deputado, como matreiramente o delator quis fazer crer, mas simplesmente ao argumento de manutenção de uma relação de cordialidade (“eu estava de boa com o Eduardo”).

Comentava-se à boca pequena que, antes do primeiro pronunciamento, sua excelência pretendia alegar que só havia dado seu aval à operação de liquidação das “dívidas” com o ex-presidente da Câmara por tê-la interpretado como um “gesto humanitário” de um empresário para socorrer uma família em apuros financeiros, uma vez que todos os seus bens haviam sido bloqueados pela justiça.

Não há de ter faltado aconselhamento jurídico e político para que ele desistisse de se valer desse recurso retórico. Deve estar ainda viva na memória de vários cidadãos que um ex-senador e ex-ministro do governo anterior já havia utilizado esse argumento em outro processo por compra do silêncio de um investigado na Operação Lava a Jato, com resultados para lá de devastadores tanto para o partido quanto para o governo. Optou-se, portanto, por deixar implícito que tudo não passou de uma edição ardilosa do áudio para gerar suspeitas quanto à honorabilidade do presidente e, dessa forma, dificultar a votação das reformas que vão reconduzir a economia do país a seus trilhos.

Referindo-se a outro trecho – um tanto mais delicado e gerador de muita controvérsia ‒ da conversa gravada, em que se limitou a comentar “ótimo” depois de ouvir o empresário delator afirmar estar “segurando” dois juízes e obtendo informações privilegiadas de um procurador da República, nosso líder nos contemplou com um exercício de hermenêutica ainda mais brilhantemente avassalador: “Não reagi”, disse ele, “porque não acreditei no que ele dizia. Ele é um falastrão…”

Quanto destemor e quanta maestria no manejo das palavras, meu Deus! Como acreditar que um homem culto e instruído tenha se utilizado de linguajar “chulo” durante uma conversa não-republicana? Como duvidar de seu anseio de servir à pátria, mesmo que, para isso, seja preciso enfrentar calúnias e contínuas ciladas armadas por inimigos políticos?

Sinto-me duplamente envergonhada, senhor presidente. Por não ter o seu talento para a hermenêutica e por ter, ainda que por poucos minutos, duvidado de suas reais intenções. Aceite, por favor, meu pedido constrangido de perdão. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O cabo e o duque

Elio Gáspari (*)

Para a crônica das condecorações do príncipe Philip e da sua mania de fazer piada com as medalhas alheias:

Não teria sido um almirante argentino quem devolveu um comentário grosseiro do duque de Edimburgo, mas um brasileiro, o almirante Heitor Lopes de Souza. Ele comandava o corpo de Fuzileiros Navais em 1968, quando a rainha e seu marido vieram ao Brasil.

Dois anos depois, ele contou o caso ao seu amigo Luís Fernando Freire. Philip disse-lhe que, com tantas condecorações no uniforme, deveria ter combatido em muitas guerras, ao que Heitor respondeu: “Não, mas estas medalhas eu não as ganhei na cama”.

Muitas serão as versões dessa piada, mas uma coisa é certa, o almirante não tinha papas na língua. Seu apelido era “Cabo Heitor”.

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Do lar

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

O despertador toca, e logo dona Margarida sai da cama. Não pode demorar-se, tem que se arrumar, ir até à padaria, voltar rápido e preparar a mesa de café para o marido e também para as crianças. Só depois de tudo pronto deverá acordar a família.

Todos tomam o desjejum, e a louça sobra para a mãezona lavar. Depois da louça, ela dá uma ajeitada na casa, tirando o pó daqui e dali. Depois sobe para os quartos e arruma-os todos, inclusive as camas, que todos deixaram como estavam antes de saírem para seus afazeres com o trabalho e com a escola. A dona da casa finge não se incomodar com isso.

Antes de preparar o almoço, dona Margarida ainda dá um pulinho na feira livre para comprar verduras, legumes e frutas. Volta correndo para casa e usa sua criatividade no preparo dos alimentos para satisfazer a cada um. Para o marido, o bife tem que ser bem passado, com bordas de gordura (contrariando as ordens médicas). Para o filho, a carne tem de estar mal passada e para a menina, nada de carne. A moça é vegetariana. Para dona Margarida, o bife que passar do ponto, com ou sem gordura, tanto faz, é o que lhe servirá de alimento. Ela fingirá não se importar com isso.

Terminado o almoço, todos sairão para a segunda etapa do dia. Dona Margarida também prosseguirá. Agora lavando roupas e preparando o que será servido no jantar. Novas acrobacias culinárias para agradar ao paladar de cada um, todos eles já velhos conhecidos da ‘rainha do lar’. Ela faz de conta que não está tendo trabalho nenhum.

Fim de tarde, todos já de banho tomado, a ‘heroína do lar’ sai pela casa catando as toalhas úmidas e as roupas sujas deixadas nos mais variados lugares. Ela não deixa transparecer nenhuma contrariedade.

O jantar do maridão é servido numa bandeja especial, que se ajusta perfeitamente aos braços da conhecida ‘cadeira do papai’, enquanto a dedicada esposa janta equilibrando, meio desajeitada, o prato no colo. Ela faz companhia ao esposo. Ele assiste ao noticiário da televisão enquanto comem. Ela aparenta estar feliz em companhia do marido.

Terminado o jantar, dona Margarida vai passar as roupas lavadas à tarde, agora já secas. Ela finge assistir à novela que passa na televisão, aquela mesma que o marido acompanha assiduamente. Dona Margarida mal disfarça sua indiferença com a trama.

Já tarde da noite, todas as roupas passadas, a incansável esposa acorda o marido, que a esta altura já ronca na confortável poltrona de uso exclusivo dele. É curioso que a conhecida ‘cadeira do papai’ não exista em versão feminina. De fato, nunca se ouviu falar numa ‘poltrona da mamãe’

A noite será curta. Depois de umas poucas horas de sono, o relógio despertará dona Margarida bem cedinho para novamente se arrumar, ir até a padaria e recomeçar tudo. Moto-perpétuo.

Quando se pergunta ao marido se a esposa trabalha, a resposta é sempre: “‒ Não, ela só fica em casa mesmo”.

E ainda há quem me chame de machista.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Lembrete deste blogueiro aos distraídos:
Amanhã, segundo domingo de maio, é o Dia das Mães.