Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Ressignificando

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aula de ciências naturais e biológicas em um abrigo 5 estrelas para cães

Professora
Bom, meus queridos alunos, hoje eu queria falar um pouco sobre a teoria da evolução das espécies. Embora ela não tenha sido formulada por um de nós, nossos cientistas corroboraram suas descobertas. Acho importante que vocês a conheçam porque ela nos ajuda a entender melhor como se deu nosso processo de domesticação… Como vocês já devem saber, nossa espécie evoluiu a partir dos lobos…

Aluno 1
Péra aí, fessora. Eu não descendo de lobo, não. Nunca ataquei nem mordi ninguém e sempre respeitei tanto meus coleguinhas de grupo quanto meus tutores. Essa teoria aí que a senhora tá falando, acho que só vale pros cachorros pretos e de rua.

Professora
Que absurdo, garoto! Quem foi que te disse uma asneira dessas?

Aluno 1
Foi meu pastor, que, por sinal, não é alemão, mas suíço porque é todo branco. Ele disse – e meu pai confirmou – que foi o Deus de Quatro Patas quem criou a raça dos golden retriever. Pode ver, entre nós só tem criaturas com essa carinha de anjo que conquista tantos humanos. Isso sem falar de nosso lindo pelo dourado…

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Professora
Não, meu amor, você deve ter entendido mal. Está certo que, segundo a religião dominante entre nós, Deus criou todos os seres vivos. Mas uma coisa não anula a outra, a ciência já comprovou que uma espécie foi evoluindo e se transformando em outra, a partir de um ancestral comum. No nosso caso, o ancestral comum é o lobo. E, através de sucessivos cruzamentos, eles deram origem a filhotes mais mansos e com pelagens de todas as cores, umas mais claras e outras mais escuras. Também é verdade que, ao longo do tempo, os humanos passaram a dar preferência aos de pelagem clara, acreditando que eles eram mais confiáveis e menos traiçoeiros porque estavam mais distantes da aparência selvagem de seus antepassados. Mas isso é lamentável, só demonstra a ignorância dessa gente que se orgulha de andar em duas patas. Muitos de nossos irmãos de pelagem escura acabaram sendo abandonados na rua por causa disso…

Aluno 2
Então, tia, minha mãe disse que esses escurinhos foram jogados nas ruas porque nunca aprenderam a viver em sociedade. Só sabiam comer e dormir e, de tão gordos, não serviam mais nem como reprodutores. Daí, como não tinham pai nem mãe por perto para cuidar deles, foram perdendo todos os limites. Não se envergonhavam de cruzar o tempo todo com qualquer cachorrinha que passasse por eles, até mesmo com as mais feias, que não mereciam o esforço. Alguns até subiam em outros machos, um horror, uma aberração. Não respeitavam mais nem nossas leis sagradas e chegaram ao ponto de adorar o diabo…

Professora
Não, querido, nada disso é verdade. Primeiro, nossa espécie ainda obedece aos instintos animais mais primitivos, não só o da violência, mas inclusive os de ordem sexual, e isso independe de raça. Segundo, quando um macho sobe em outro macho, ele está só querendo demonstrar dominância, não tem nada a ver com cópula. Finalmente, onde é que sua mãe estava com a cabeça para inventar uma barbaridade religiosa assim?

Aluno 2
É que lá perto da minha casa tem um centro de encontro dos cães pretos. Precisa ver como eles latem, uivam, pulam feito loucos, correm de um lado para outro, mordem e se esfregam uns nos outros, uma bagunça só…

Professora
Não é porque eles têm um ritual diferente do nosso que eles são adoradores do diabo. Acho que alguns teólogos caninos de classe média confundem aquele som de latido de hiena com o de uma gargalhada para propor uma estupidez dessas. Não se deixe impressionar por crenças tão disparatadas e respeite mais os princípios de outras religiões.

Aluno 3
É, pode ser que a senhora tenha razão. Mas já ouvi dizer que esse pessoal escurinho é do mal, dá azar para quem chega perto. Além disso, quando chega a hora da gente casar, nossos tutores não deixam a gente cruzar com as cadelas que frequentam esses centros. Cá pra nós, a gente também prefere aquelas fêmeas jeitosinhas, limpinhas e bem comportadas. Pra casar, tem de ser bela, recatada e do lar, pode conferir.

Aluno 4
Tem mais, professora. Não tem nada a ver essa estória de que nós temos de estender a pata para ajudar nossos irmãos desfavorecidos. Isso já era. Nosso líder de matilha anterior é que deu moleza a eles, só para continuar dando as cartas. Esse pessoal é folgado, não trabalha, vive pedindo comida e um cantinho para dormir. Se a gente engole o mimimi deles e abre o coração, eles ficam mamando nas nossas tetas o resto da vida, só sabem fazer baderna…

Aluno 5
Outro dia eu estava na minha aula de adestramento e um desses caras entrou com tudo na sala e pulou nas pernas da minha tutora. Coitada, ela ficou desesperada, foi um vexame só o carinha se esfregando nela, com a língua para fora. Não é justo. A gente que é do bem tem que suportar horas sem fim para aprender a obedecer a tantos comandos. Tem que tomar banho toda semana, passar perfume, sair na rua só com coleira e guia, usar gravatinha ou lacinho na cabeça, tem de respeitar as fêmeas do bairro e ainda não pode peitar os machos mais atrevidos. E aí vem um sujeito sem berço desses, quebra todas as regras de disciplina e ninguém faz nada. Esse tipo de cachorro tinha que ser mandado para um reformatório já na segunda vez que aprontar alguma e ainda levar um pau daqueles no lombo pra aprender de vez. Que nosso Deus me perdoe, mas às vezes acho melhor não perder tempo tentando domesticar esses sem noção. O que devia ser feito era, isso sim, colocar chumbinho na comida deles. Aí resolvia o problema para sempre.

Professora
Chega de tanta asneira, por hoje é só. Na semana que vem vamos conversar sobre como os animais gregários, como nós, aprenderam a desenvolver tolerância para sobreviver às calamidades naturais que impliquem falta de comida, de água, de território ou de parceiros sexuais. Procurem no Google outros detalhes sobre a evolução da nossa espécie. Se sobrar um tempinho, leiam também com atenção as informações sobre o conceito do choque entre a cultura e as pulsões caninas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

S ou z: formação de palavras

Dad Squarisi (*)

Embriaguez se escreve com z. Português, com s. No caso, z e s soam do mesmo jeitinho. Por que a grafia diferente? A resposta está na origem:

  • Se a palavra primitiva for adjetivo, o z pede passagem:
    macio = maciez,
    líquido = liquidez,
    sólido = solidez,
    frígido = frigidez,
    embriagado = embriaguez.
  • Se a palavra primitiva for substantivo, é a hora e a vez do s:
    Portugal = português,
    corte = cortês,
    monte = montês,
    economia = economês,
    campo = camponês.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Discurso e atitude

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conta a fábula que um escorpião precisava atravessar um rio muito largo e, com medo de morrer afogado, pediu a um sapo que o levasse nas costas até a outra margem. O sapo, por sua vez temeroso de ser picado durante a travessia, rejeitou o pedido: “De jeito nenhum. Você é uma criatura traiçoeira e vai acabar me picando e me matando”. O escorpião argumentou então: “Não se preocupe, não existe essa possibilidade. Se eu o picasse, meu veneno o paralisaria, você afundaria e nós dois morreríamos afogados”.

Impressionado, o sapo decidiu confiar na lógica do que dizia o escorpião. Quando estavam a meio caminho, o escorpião de surpresa enterrou seu ferrão no dorso de seu infeliz condutor. Lutando com todas as forças para safar-se da morte, o sapo ainda teve tempo de perguntar: “Por quê, em nome de Deus, você foi fazer isso?”. Ao que o escorpião respondeu: “Porque é da minha natureza e não há nada que eu possa fazer para alterar isso”.

Não sei como outras mentes entendem o fenômeno, mas, para mim, se há um fato inelutável é o de que a natureza humana incorpora atitudes igualmente contraditórias e perversas. Sempre me chamou a atenção como nossa espécie é tão crédula e tão propensa a se deixar influenciar pelo discurso verbal de seus semelhantes. Comparada às formas de comunicação animal, que prescindem do uso de palavras, a nossa é de longe a mais ineficaz, a mais eivada de enganos e a que provoca mais sofrimento. Quando uma abelha localiza uma fonte de pólen, ela inicia imediatamente uma dança aérea em formato de oito que alerta todas as companheiras num raio de quilômetros. Quando uma formiga cai num buraco, todas as demais que caminhavam em fila indiana atrás dela se desviam automaticamente da trilha.

Minha convivência de longa data com cachorros me ensinou aquela que é, provavelmente, a lição mais preciosa de minha vida: a seleção cuidadosa de palavras não é sinônimo de boas intenções por parte de meu interlocutor. Antes de me entregar ao discurso sedutor, preciso checar se a energia emanada de seu corpo é compatível com a de sua fala. Sangue nos olhos e lábios crispados não me parecem compatíveis com a promessa de conciliação. Mãos tensas não sinalizam desejo de proximidade. Peito estufado não se harmoniza com alegação de humildade.

Para um cão, a intenção da mensagem transparece com toda clareza no tom com que as palavras são proferidas. Tom de voz e significado são uma coisa só, estão inexoravelmente interligados. Claro está que humanos sempre podem manipular seu tom de voz para gerar uma reação favorável no cão. Não há, entretanto, condição para que a mensagem seja mal interpretada se ao tom de voz se associam outros elementos, como postura corporal, respiração e cheiro da pele.

Embora não tenhamos consciência disso, nossas emoções provocam a liberação de hormônios na corrente sanguínea e estes, por sua vez, alteram nosso tom de voz e nosso cheiro. É isso o que faz seu cão pressentir que você está prestes a sair, que ele vai levar uma bronca ou que você está, de fato, propondo um descontraído passeio no parque, quaisquer que sejam as palavras que você utilize. Se pudéssemos aprender com eles a farejar a boa e a má fé de nossos interlocutores, tenho certeza que boa parte de nossos conflitos se extinguiria. A não ser, é claro, aqueles que se originam da intenção de nos causar dano, independentemente de nossa reação.

O marketing é a ciência da sedução através do discurso. Se as palavras forem articuladas de acordo com as expectativas do público a que se destinam, o desejo de consumo será despertado e significará um incremento nas vendas. O marketing político não é, de forma alguma, exceção. Destina-se a ressaltar as boas qualidades do aspirante a um cargo público, disfarçar seus defeitos e, dessa forma, minimizar os receios de problemas futuros do eleitorado. Na falta de argumentos verossímeis sobre a qualidade do produto, pode também ser usado para maximizar as fragilidades dos concorrentes, de modo a infundir descrença prévia nos argumentos que estes venham a utilizar em retaliação.

As redes sociais, a forma contemporânea de marketing político mais utilizada, notabilizam-se por ecoar apenas as mensagens que seus usuários querem receber. Eventuais contrapontos e dissidências podem ser eliminados de pronto, bastando clicar no botão deletar ou bloquear. Na ausência de fontes acessórias de informação (como o olhar, o tom de voz, etc.), as mensagens ganham status de verdade cristalina, por mais contraditórias ou chocantes que sejam. Mais grave ainda, em nome da liberdade de expressão, as mídias sociais descobriram uma maneira de driblar a censura que o contato olho no olho implica e de desconstruir a necessidade de emprego do vocabulário politicamente correto.

É possível que muitos acreditem que a disposição de cada um dizer o que pensa e exatamente da forma como pensa represente um benefício a longo prazo para a sociedade, qual seja o da diminuição da hipocrisia. Acreditar, no entanto, que o ódio gerado pela maior transparência do discurso vencedor pode ser contido ou engolido pelos perdedores a posteriori com atitudes concretas é uma ilusão que ainda nos vai custar muito caro.

Há mais de um século, Freud já alertava que as pulsões humanas primitivas estão em permanente choque com a cultura. Einstein, mesmo alegando não saber como seria a terceira, profetizou que a quarta guerra mundial se travaria com pedras e paus. Assistindo ao espetáculo horripilante da involução da civilização brasileira, eu faço coro à advertência de uma terapeuta: aquilo que entrou com violência sai com violência ainda maior. Não dá para relaxar e esperar. A natureza sempre ganha a luta contra o discurso no fim. Salve-se quem puder.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

No fundo do poço

José Roberto Guzzo (*)

Em seu desabamento progressivo, Lula, com a ajuda empolgada do PT, quis representar o papel de mártir. Péssima ideia. Brasileiro, no fundo, não gosta de gente que está na cadeia. Não acha que as penitenciárias estejam cheias de injustiçados. Acha o contrário: que há muita gente culpada do lado de fora.

Para a maioria do eleitorado, Lula não é vítima, nem preso político. É só um político ladrão que foi condenado ‒ como deveriam ser nove entre dez dos que continuam soltos. Não é um julgamento sereno, mas é assim que a massa pensa e continuará pensando, e vai apenas perder seu tempo quem quiser convencê-la do contrário.

Revela muito da decomposição política de Lula e do PT o fato de terem achado que uma cela de cadeia é um lugar capaz de despertar admiração no povo ou de servir como centro de comando de uma campanha eleitoral.

(*) José Roberto Guzzo é jornalista e colunista.
O texto foi extraído de artigo publicado na revista Veja.

Pasárgada, aqui vou eu

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não tem mais jeito, aconteça o que acontecer, vou-me embora para Pasárgada. De manhã, bem cedinho, antes mesmo do horário de abertura das seções eleitorais, ponho o pé na estrada, levando comigo mala e cuia. Ainda não sei onde fica Pasárgada, nem como chegar lá, mas estou apostando que o caminho se fará no meu caminhar.

Não me entendam mal. Não estou indo para Pasárgada porque lá sou amiga do rei. Não sou. Aliás, nem mesmo sei se Pasárgada é de fato uma monarquia. Ainda que seja, ignoro se o soberano ‒ ou soberana ‒ que a governa é pessoa amistosa, intelectualmente articulada, sensível e acolhedora de forasteiros. Além disso, desagrada-me a proximidade afetiva com integrantes de um círculo fechado de poder. Prefiro a liberdade de circular em meio às gentes e conhecer-lhes as opiniões, vontades, receios, esperanças e desesperanças.

Também não espero receber favores sexuais em lá habitando. Claro que os prazeres sensuais e a catarse que o sexo propicia me seduzem, mas não é isso o que estou buscando em primeiro lugar. É minha alma que está ferida, cansada e precisada de aconchego. Não reivindico nem mesmo o direito de escolher a cama na qual me deitarei. Basta-me que ela suporte meu peso e sirva de abrigo confortável para os sonhos e pesadelos que certamente terei.

O que me encanta em Pasárgada é que Pasárgada não é aqui, não é meu país. Mais uma vez, peço-lhes que não me interpretem mal. Não estou renegando minha pátria, sou grata a tudo o que ela me proporcionou até aqui. É que não gosto de fronteiras e prefiro não me expor à fogueira das vaidades que vem provocando lesões profundas em tantos de meus compatriotas. Sou um pouco indisciplinada para perseguir com afinco a tal da promessa de ordem e progresso. Confesso que meu coração um tanto anárquico se apraz mais com a algazarra das multidões se debatendo em meio a um caos criativo.

Na condição de estrangeira residente em Pasárgada, vou finalmente poder me desobrigar de emitir opiniões, sem culpa. Estou cansada de explicar, justificar, tentar entender, conciliar. Lá serei finalmente livre para escolher um novo estilo de vida, um novo discurso e uma nova mentalidade. Como ninguém me conhece por aquelas bandas, ainda levo a vantagem de minhas esquisitices parecerem menos destoantes do perfil do grosso da população.

Estou querendo trocar ideologias por sentimentologias, se é que me entendem. Torço para que, em Pasárgada, a tecnologia ainda não tenha pervertido o psiquismo das pessoas e substituído as relações olho no olho, o toque, as festas, as danças e o riso. Ah, como me têm feito falta a leveza de espírito, a delicadeza e a generosidade…

Se, por qualquer razão, eu não conseguir chegar a Pasárgada, posso recorrer a destinos alternativos que tenho pesquisado em segredo. Primeiro, reúno toda a minha coragem e vou para Maracangalha. Não levarei comigo um uniforme branco nem um chapéu de palha porque suspeito que lá as credenciais de malandragem não sejam exigidas com muito rigor. Também não pretendo convidar a Anália, nem ninguém mais, para me acompanhar.

Quero que minha viagem para Maracangalha se configure não como uma excursão de entretenimento, mas represente uma verdadeira peregrinação. Vou em busca de um reencontro com a alegria de ser quem sou e, para tanto, preciso caminhar só. No limite, aceito a companhia de minhas cachorras. Tenho certeza de que a travessia vai ficar mais fácil, com elas me ensinando a viver um dia de cada vez.

Se, de novo, meu plano de ir para Maracangalha não der certo, minha última cartada será mudar radicalmente de estrada e seguir altiva em direção a Macondo. Não há como errar o caminho. Latino-americana que sou, estou profundamente familiarizada com as rotas que levam ao surrealismo do cotidiano e ao realismo fantástico do clima político local.

Pode lhes parecer que essa minha opção de residir em Macondo seja uma mudança cosmética, um giro de 360° graus que só vai me levar de volta ao ambiente do qual quero escapar. Não se deixem enganar. Tenho como lema de vida as sábias palavras de T.S. Elliot de que “o final de toda jornada é voltar ao ponto de partida, vendo o lugar pela primeira vez”.

Nasci e cresci sob o signo da perseverança. Estou ciente de que, daqui por diante, a difícil missão que me espera é a de ser capaz de reconhecer a queda, não desanimar, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Brasileiro não desiste nunca, que se há de fazer?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano – 6

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma amiga, bióloga, estava curtindo um dia de sol na praia ao lado do marido e da filha de 4 anos. O pai da criança havia saído para fazer uma caminhada e as duas se divertiam construindo castelos na areia.

Lá pelas tantas, a menina interrompe o passatempo, olha longamente para o mar e pergunta à mãe: “Mamãe, por que o mar é salgado?”.

Antes de responder, a mãe hesita, se perguntando se devia dar uma resposta genérica, dessas que os pais dão distraidamente para se livrar de um interrogatório incômodo, se seria mais adequado dar uma resposta precisa, mas envolta em linguagem simples que pudesse ser rapidamente absorvida pela criança, ou se seria melhor propiciar a ela uma experiência mais ampla de aprendizagem.

Agnóstica por natureza e orgulhosa de sua formação científica, minha amiga optou por despertar na filha desde cedo o interesse pela investigação dos intrigantes fenômenos do mundo natural e dispôs-se a elencar todos os fatores envolvidos na geração desse resultado. Falou com entusiasmo sobre o movimento das marés, a influência da lua, o tipo de rocha presente no fundo dos oceanos, etc. Quando se sentiu satisfeita, concluiu, em voz terna, ao mesmo tempo maternal e professoral: “Então, filha, é porque a aguinha bate nas pedrinhas do fundo do mar, aí começa a sair o salzinho e ele se mistura na água. Entendeu, meu amor?”.

A menina ouvia tudo com ar de grande interesse e concentração. A cada etapa de explicação, interrompia apenas para acrescentar novos porquês. Quando a mãe terminou de falar, ela voltou imediata e espontaneamente a brincar com seu balde e pazinha, o que serviu de indicativo para a mãe que ela havia incorporado corretamente a mensagem.

Minutos depois, o pai volta do passeio e senta-se na areia ao lado da filha, ajudando-a com o desafio de erigir torres, portões e janelas. A mãe, ainda saboreando os frutos gloriosos de seu extenso saber científico, estimula a filha: “Conta pro papai por que é que o mar é salgado”.

A menina, entretida com seu passatempo, fica em silêncio por alguns segundos, como se estivesse metabolizando os ensinamentos recém-recebidos. Depois, abrindo um largo sorriso, encara o pai e, com toda a deliciosa ingenuidade infantil, responde de chofre: “Ué, porque…. é porque Deus quer, ué…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um de meus professores de psicanálise defendia a tese de que todas as pendengas judiciais que se arrastam indefinidamente são fruto não de um pretenso desequilíbrio de poder, mas sim de um desbalanceamento de satisfação. Embora fácil de entender, essa formulação me era difícil de aceitar. Transpondo para palavras mais simples, o que ele propunha era que, se estou satisfeita com minha cota de benefícios ou privilégios, não há razão para reivindicar aumento da minha parcela, nem contestar o tamanho das parcelas alheias.

Conhecendo os paradoxos da natureza humana, eternamente desejante, eu me esforçava por identificar alguma exceção que me permitisse ir mais fundo na compreensão da proposta, mas nunca encontrei nenhuma. Hoje, às voltas com a angústia de lidar com uma espécie de versão apocalíptica da “Escolha de Sofia” na disputa presidencial, achei por bem ir direto à fonte e reler trechos da obra do próprio Sigmund Freud.

Para minha satisfação, encontrei menção a certos fatores da psicologia de massas que podem ajudar a compreender melhor os motivos de tanta virulência na campanha. Para começar, Freud analisa a diferença entre grupos naturais ‒ isto é, aqueles que se formam espontaneamente em torno de objetivos comuns ou defesa contra inimigos comuns ‒ e os grupos que são formados de fora para dentro, a partir de um propósito ao qual se deve aderir e jurar obediência, aos quais ele dá o nome de grupos artificiais. Dentre estes últimos, ele destaca os mais emblemáticos: o exército e a igreja.

Nos dois casos, argumenta Freud, porque a adesão a esses grupos nem sempre é espontânea, torna-se necessário criar alguma forma de sanção para impedir que o grupo se desintegre caso aconteça alguma dissensão. Se uma contestação dos princípios fundadores do grupo é levantada, é preciso evitar que ela se alastre internamente e ameace a credibilidade ou continuidade da própria instituição. Traduzindo para a linguagem do Capitão Nascimento, o insubordinado tem de lembrar que entrou para a tropa porque quis e, se não aguenta mais carregar o fardo da disciplina interna, tem de “pedir para sair”. A punição prevista em tais casos – tanto para hereges quanto para traidores da pátria ‒ é, assim, a expulsão compulsória.

Outra característica comum é que esses grupos são estruturados como uma família, na qual seu chefe supremo – Cristo, para a igreja católica, e o comandante em chefe, no caso do exército – é apresentado como um pai amantíssimo, que distribui cotas iguais de afeto para cada um de seus filhos. Sua autoridade moral tem por base a crença de que não há um filho melhor que outro, mais próximo ou mais merecedor do amor do pai. Se isso fosse sugerido, ainda que implicitamente, o resultado seria a decretação de sangrentas lutas fratricidas. Isso porque é o amor equânime do chefe da família que serve de espelho e cimento para a construção de laços de solidariedade entre seus membros.

Sabemos todos que, na última década e meia, teve início, por iniciativa do governo federal, a implementação de uma estratégia explícita de conceder parcelas maiores de benefícios a alguns segmentos sociais, sob a alegação de combater distorções históricas. Aos que passaram a se indispor com o projeto de justiça social, o governo apresentava como única resposta o argumento de que tais protestos eram simples derivativo da cupidez, ganância e insensibilidade das elites para com seus “irmãos” desfavorecidos. Tal qual a incompreensão e o desapontamento do filho que se manteve sempre ao lado do pai, descritos na parábola do filho pródigo. Enquanto a economia crescia – e, com ela, se mantinha a satisfação dos estratos sociais mais altos – o sapo foi engolido, mesmo a contragosto. Um inevitável ressentimento aflorou, porém, quando essa mesma elite foi chamada a pagar a conta do desequilíbrio fiscal. A insuportável mensagem passada naquele momento era a de que havia uma classe especial de filhos a quem o pai ‒ antes símbolo por excelência do amor democrático e incondicional – adulava, dizendo ser mais merecedora de seu afeto. Não é necessário se estender na análise das consequências da estratégia. Elas estão registradas a ferro e a fogo na história nacional e na memória afetiva de cada um.

Fernando Pessoa: “Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”

Em paralelo e aproximadamente no mesmo período, ganhou vulto no território nacional um novo credo religioso. Tímido de início, o movimento sofreu uma expansão geométrica ao propor que o reino de Deus não se conquista necessariamente apenas depois da morte, mas pode ser usufruído no aqui e agora. As dádivas divinas também foram logo redefinidas: se antes o fiel tinha de aceitar passar por um vale de lágrimas antes de conquistar a vida eterna, agora já lhe era possível encontrar a bem-aventurança logo ali na esquina, com a compra da casa própria, carro, emprego mais bem remunerado, etc. Na tentativa de reafirmar a origem divina de Cristo, desconstruiu-se sua frágil condição humana. Já não era mais necessário fazer menção à virgindade da mãe ou à ira contra os mercadores do templo. Se não está claro que o verbo divino se fez carne, habitou entre nós e sofreu os mesmos percalços, perde também valor de mercado a ideia central do cristianismo de amar o próximo como a si mesmo.

Não é, pois, de espantar que tanto fundamentalismo, fanatismo, irracionalismo, maniqueísmo, misoginia, homofobia e violência social a que temos assistido impotentes ao longo da campanha presidencial tenham advindo de uma articulação, inédita em nossa história política, entre uma força militar e uma força religiosa. Ambas exigindo submissão irrestrita à voz de comando, ambas proibindo interpretações descontextualizadas de seus discursos, ambas prometendo o alcance do paraíso na terra quando os infiéis forem finalmente esmagados.

Em resumo, estamos sendo chamados a escolher entre dois messias e dois soldados. O foco da esmagadora maioria do eleitorado não está, como seria de se esperar, na análise de seus poderes e fragilidades. O que se almeja explicitamente é conseguir bloquear o canto de sereia do outro. A insatisfação campeia dos dois lados: estamos clamando por uma parcela significativamente maior de benefícios para nossa turma e pela menor cota possível de privilégios para a outra.

Uma dica final para se livrar da angústia. Um de meus livros preferidos, escrito por um psicoterapeuta americano, leva o título “Se você encontrar o Buda na estrada, mate-o”. A mensagem é simples: o Buda não está do lado de fora. Se pararmos de perseguir profetas e gurus, vamos poder finalmente nos concentrar na espinhosa tarefa de alcançar a iluminação por conta própria.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fatal: emprego

Dad Squarisi (*)

Fatal quer dizer que mata. O acidente mata. É fatal. Veneno mata. É fatal. Queda pode matar. Pode ser fatal.

Muitos dizem “vítima fatal”. Bobeiam. A vítima, coitada, morre. Não mata. Se a pessoa perdeu a vida, diga que ela morreu:

O acidente provocou duas mortes.
No acidente, duas pessoas morreram.
O acidente matou duas pessoas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

O suicídio de um partido

Pedro Luiz Rodrigues (*)

Caso fatos notáveis não venham a ocorrer, o Partido dos Trabalhadores deverá sofrer amarga derrota no segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 28 de outubro.

Era apenas uma questão de tempo para que o partido começasse a se esboroar. Dado que desde sua criação (1980) viveu de contradições, de meias-verdades e de falsas aparências, nunca transitou com desenvoltura no ambiente da democracia. Como em obras que desabam, sobrou areia, faltou cimento.

A partir de quando o PT deixou de ser oposição e se tornou governo, suas bandeiras originais – que por vinte anos haviam seduzido massas de jovens idealistas – foram sendo jogadas na lata do lixo.

Honestidade, decência, transparência, todas deixaram de ser qualidades admiradas e praticadas por seus dirigentes. Os jovens idealistas ‒ não mais tão jovens assim ‒ perceberam (pelo menos alguns deles) que não haviam sido usados apenas como massa de manobra.

Fazer o quê? Quem nasceu pra tubarão não pode pretender ser golfinho. O PT diz que é democrata, mas não pode ser, porque seu objetivo final é a implantar uma ditadura, a do proletariado. Lula já jurou que o partido não é marxista, mas os intelectuais da agremiação continuam a produzir artigos recomendando seguir a pauta marxista-gramsciana, que rejeita a alternância democrática.

O povo não é burro, e aqueles que não esperam prebendas ou favores do petismo têm razões para morrer de rir com a notícia de que o PT, juntamente com seus aliados (PCdoB, PSOL e outros), estariam para formar uma “frente democrática” para contrapor-se à candidatura de Jair Bolsonaro.

Falsear, mudar de cara, é o que a dobradinha PT-PCdo B está fazendo agora, mais uma vez. Um de seus anúncios de campanha do primeiro turno era do tipo tradicional, muito vermelho, com os dois candidatos secundados pela imagem de Luiz Inácio Lula da Silva. Na versão para o segundo turno, o vermelho deu lugar ao verde, ao amarelo e ao azul, e Lula ‒ ao melhor estilo soviético ‒ foi simplesmente removido da fotografia.

Pedro Luiz Rodrigues

Para o PT, a derrota que se avizinha será estrondosa e definitiva; vai ser a pá de cal no túmulo de um partido que vem se suicidando aos poucos, desde 2005, quando o mensalão revelou à sociedade que o PT falseara suas credenciais morais para chegar ao poder e lá se manter.

Esse falseamento moral foi necessário para a participação do PT num regime democrático, onde as regras do jogo pressupõem aceitação da diversidade ideológica, alternância no poder e máxima lisura na defesa dos interesses do Estado.

O PT não aceita a democracia, nem a diversidade ideológica, nem a alternância no poder. Quanto ao Estado, cuidaram de aparelhá-lo partidariamente – inclusive o Itamaraty, instituição à qual pertenço – privilegiando a lealdade ou a subserviência ao partido em detrimento da qualidade e dos méritos profissionais.

Se saíram do poder no impeachment de Dilma (“o golpe, o golpe, o golpe”, do refrão partidário), serão definitivamente escorraçados agora, no final de outubro, pelo voto popular.

O PT não teve forças para corromper as instituições brasileiras, muito mais fortes do que as da Venezuela ‒ país próspero que os aliados do PT conseguiram levar à ruína.

(*) Pedro Luiz Rodrigues é embaixador e jornalista. Este artigo foi publicado originalmente no Diário do Poder.

Desejo de emancipação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

‒ Minha filha, ouça sua mãe. Aceite logo o pedido de casamento do Jair e esqueça essa loucura de se jogar no mundo por conta própria. Ponha um pouco de juízo nessa sua cabeça, meu bem. Já está mais do que na hora. Até suas amigas estão comentando que você está se fazendo de difícil só para valorizar seu passe…

‒ O que os outros pensam de mim não é meu problema. Falta de juízo eu teria se aceitasse atrelar minha vida a um homem que me trata como se eu fosse só mais uma das suas propriedades, mãe. Além disso, não estou embarcando numa aventura maluca. Estou criando meu próprio projeto de vida, de felicidade e de futuro.

‒ Mas, filha, pense bem. Sonhar é bom, necessário até, mas um dia a gente tem de encarar a realidade. O mundo é machista, cruel, não vai facilitar nada para uma mulher que não tem quem a defenda. Você vai ter de enfrentar toda espécie de dificuldade, de falta de dinheiro a falta de respeito. E o Jair tem todas as condições para lhe dar estabilidade, segurança, conforto e uma vida respeitável na sociedade.

‒ Pode ser, mãe. Mas não estou procurando um pai substituto. Já estou bastante crescidinha para continuar sentada no colo de alguém e gostar de ser chamada de princesinha. Não quero ser sustentada, quero aprender a me sustentar. E o Jair não aceita nem sequer pensar na possibilidade de eu continuar trabalhando. Não respeita minhas ideias, acha que pode me convencer aos gritos. É ciumento, possessivo, chega a ficar violento quando acha que minha saia está curta demais. Meu fígado não suportaria a convivência com ele por mais de uma semana…

‒ Meu bem, você já tem maturidade suficiente para saber como contornar essas inseguranças bobas de todo homem. Engula seu orgulho por um tempinho, revele-se uma boa administradora de um lar, dê um filho a ele e, pode apostar, ele vai comer na sua mão o resto da vida. Se um dia não suportar mais, peça o divórcio. Com o dinheiro da pensão polpuda que você vai receber, vai poder retomar esses seus projetos românticos de ajudar os necessitados lá fora…

‒ Minha consciência e minha independência não estão à venda, minha mãe. Não há dinheiro no mundo que me faça querer trocar minha paz de espírito por esse estilo de vida de dondoca que eu desprezo tanto…

‒ Bom, se você pensa assim, então se case com o Fernando. Ele também é um sonhador que aposta que a felicidade é uma equação que envolve só um amor e uma cabana. Sofro só de imaginar como será sua vida quando as primeiras contas chegarem e ele não tiver nem como botar comida na mesa.

‒ Mãe, não entendo porque você acha que minha única chance de realização na vida é me casando com um dos dois. Sabe, eu já cheguei a pensar que o Fernando era um companheiro leal de viagem, mas me decepcionei muito. Imagine que ele me pediu para ser avalista num empréstimo para a compra da casa da mãe dele e até hoje não me pagou. Depois veio com aquela desculpa esfarrapada de que, assim que a economia se estabilizar de novo, ele vai me devolver tudo, que nós vamos voltar a ser felizes. Pior, até hoje nunca me pediu desculpas por ter feito tanta cortesia com chapéu alheio.

‒ Pra você ver que não dá para confiar em quem não tem os pés firmemente plantados na realidade…

‒ Há mais opções entre o céu e a terra do que sonha sua vã filosofia casamenteira, mãe. Não me sinto obrigada a amarrar meu destino a ninguém para ser feliz. O que me encanta é exatamente a possibilidade de escolher novos parceiros sempre que eu sentir que é necessário.

‒ Tudo bem, minha filha, não quero aborrecer mais você com a ótica conservadora de toda velha mãe. Mas preste atenção: não é só casar que dá sentido à vida de uma mulher, é também ter filhos. Eu só queria que você não esquecesse que vai precisar ser amparada na velhice, seja por quem for.

‒ Não esqueci, não, mãe. Acho que é a senhora que esquece que eu posso ser minha própria provedora de amparo. Depois, não acredito que a felicidade só virá se eu me dobrar às conveniências de outras pessoas. Tem mais: os únicos filhos que eu sempre quis ter são os de quatro patas, rabo e latidos… E eles me ensinaram que o único jeito de se sentir pleno é se jogando de cabeça, sem rede de proteção, no abismo do aqui e agora…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A cena aconteceu dentro de um hospital psiquiátrico, no qual eu realizava um estágio obrigatório de formação em psicologia clínica.

O psiquiatra-chefe do hospital, que também era nosso professor na faculdade, distribuía os prontuários aleatoriamente entre os estudantes. A mim coube uma paciente esquizofrênica, internada havia já muitos anos, sem sinal de remissão. Nos últimos meses ela estava sendo submetida a diversas sessões de eletrochoque, aparentemente como última tentativa de trazê-la de volta à realidade.

Acontece que, durante as aulas, meu professor havia feito menção ao fato de que essa forma de terapia não era recomendada por longo tempo, dado o risco de o paciente demenciar. Intrigada, fui ter com ele para conhecer os motivos da contradição entre teoria e prática.

Ao verificar a ficha, ele pareceu ficar extremamente contrariado. Acreditei por alguns segundos que alguém da equipe de enfermagem houvesse desrespeitado suas instruções. Não era isso. A orientação havia partido dele mesmo. Indignada, confrontei-o de forma agressiva. Olhando bem no fundo dos meus olhos, ele explodiu, dizendo: “O que você queria que eu fizesse? Tenho que me sustentar, pagar os estudos de meus filhos e ainda pagar minha análise…. O que você esperava? Que eu fosse vender banana na feira?”

Com a inconsequência típica dos jovens que ainda podem contar com o respaldo dos pais para sobreviver e cheia de fúria pseudomoralista, respondi de pronto: “Me desculpe, mas se eu estivesse no seu lugar, preferiria vender banana na feira! Pelo menos, não teria de pagar terapia para minimizar a consciência de culpa…”

Quando terminei de vomitar tudo o que tinha a dizer, percebi que havia ultrapassado todos os limites da boa educação, do respeito a um mestre e até os de civilidade. Mas já era tarde. Sem dizer uma só palavra, ele permaneceu de pé, com o prontuário na mão, olhando para mim como se se perguntasse como poderia retrucar. Não disse nada.

Alguns dias depois, cruzei com ele nos corredores da faculdade. Ele estava saindo da sala da congregação. Tinha os olhos vermelhos e fungava baixinho. Assustada, perguntei: “Você está resfriado ou está chorando?”

Ele respondeu com aparente naturalidade: “Não, não estou resfriado. Estou chorando mesmo”. Fui inundada por uma sensação de culpa e de vergonha. Imaginei que alguém levara à direção da faculdade a informação sobre o que havia ocorrido com minha paciente e que, consequentemente, ele havia sido punido. Angustiada, pedi desculpas por meu comportamento agressivo na semana anterior e perguntei o que poderia fazer para corrigir a situação. Sabia que ele era um profissional respeitável, sério e sensível.

Sem nem mesmo parar de andar, ele respondeu com um meio sorriso: “Não se preocupe. Acabo de saber que fui contratado em período integral pela faculdade”. Foi minha vez de me emocionar. Era uma mistura de alívio e de orgulho por não ter tido medo de lhe dizer a verdade. Sem saber, havia sido responsável por muita reflexão por parte dele e por sua feliz mudança de rumos de carreira.

Por que conto essa história? Simples, estou sem trabalho há vários meses e extremamente ansiosa para descobrir como fazer frente a despesas extras no final do mês. Uma vozinha lá no fundo da minha consciência avisa que o melhor a fazer daqui para a frente seria começar a me preparar para armar minha barraca na feira e identificar logo fornecedores confiáveis desse fruto tão saboroso que é a banana…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Estamos bem arrumados

Vera Magalhães (*)

De um lado, o PT ‒ partido que questionou a legalidade de sucessivas decisões judiciais ‒ tem um condenado em segunda instância dizendo que a sigla “tomará o poder” de qualquer forma, pelo voto ou não. Ademais, o candidato a presidente pelo partido, Fernando Haddad, diz que pretende “criar condições” para uma Constituinte, sem dizer quais seriam elas.

De outro, Jair Bolsonaro diz que se não vencer a eleição não aceitará o resultado do pleito. A tese é propagada por seus filhos e apoiadores.

Em comum, os dois lados relativizam o compromisso com a democracia, as regras do jogo e o respeito às instituições. Na antessala da eleição.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto foi publicado no portal BR18.

Chuveiro europeu

Ruth Manus (*)

Cresci numa casa com chuveiro elétrico. Era assim: abria a porta de plástico, entrava, dava um chutinho no canto direito para fechá-la direito e abria a torneira. Uma única torneira preta. Quanto mais aberta ela estivesse, mais frio era o banho, quanto mais fechada, mais quente. No chuveiro em si, lá no alto, havia uma chave inverno-verão, na qual só meus pais podiam mexer.

Aos 13 anos, me mudei para uma casa com aquecedor a gás. Era um processo um pouquinho mais elaborado: uma torneira de água quente, outra de água fria. Abríamos a quente até que a água queimasse a ponta dos dedos, depois misturávamos com a fria, buscando a temperatura ideal.

Tudo estava bem na minha vida, no que tange a banho. Achava que já tinha aprendido tudo o que havia para aprender na matéria, numa vã esperança de esgotar um assunto ao longo da vida. Mas, na primeira vez em que embarquei para uma viagem no Velho Continente, tudo mudou.

Eu tenho consciência de que nós, brasileiros, herdamos o hábito do banho diário dos índios, não dos europeus. Isso me faz entender um pouco melhor a incompetência chuveiral que domina os membros, candidatos a membros e ex-membros da União Europeia.

Tudo começa com o chuveiro clássico, que marca presença inclusive na minha casa. Trata-se de um chuveirinho gigante, com aquele cano molenga prateado no qual podemos tropeçar a qualquer momento. A simples constatação de que se trata de um chuveirinho gigante – pouco maior que a superfície de uma lata de ervilhas –, já deveria ser suficiente para que o mundo compreendesse que ele não pode ser o chuveiro principal.

Mas ele é. Inventaram um raio de uma barra de metal que fica presa à parede, com um gancho para pendurar o chuveiro e uma regulagem de altura. Encaixa-se o aparelho no suporte e a água, ao invés de vir de cima (como os chuveiros tupiniquins ou como a própria chuva), vem de lado, direcionada para a nossa nuca, ou para a nossa cara, consoante o caso.

Frequentemente, o peso do chuveiro faz com que ele vá deslizando para baixo e, dali a um tempo, você percebe que o jato de água já está se aproximando da altura do seu cóccix. Outro problema que se apresenta é que o chuveirinho gigante também gosta de girar em torno do próprio eixo, o que faz com que você comece o banho no centro do box, mas termine grudado à parede, como uma lagartixa, em função da vida própria do chuveiro, que gira para onde quer.

O box é um outro problema. Há duas opções: a primeira é ter o chuveirinho voluntarioso, pendurado dentro de uma banheira, e você se sente como se estivesse sozinho no estádio do Maracanã, com todo aquele espaço vazio e você num cantinho. No inverno, é como se sentir tomando banho no meio do nada, com direito a vento e frio dentro da própria banheira. A segunda opção acontece quando os europeus são modernos e resolvem construir um box. O nome ideal seria jarra, no caso. Com medidas análogas às de uma caixa de sapato, tomar banho ali dentro é parecido com comer na mesa do avião, na poltrona do meio. Não há meio termo: Maracanã ou jarra. Nada de box em terras europeias.

Outro fato que merece destaque é o “meio vidro”. Um belo dia, alguém, muito sábio, decidiu trocar as cortinas de plástico por um vidro nas banheiras. Mas a pessoa que foi fazer o vidro resolveu ser brincalhona e fez meio vidro. Como assim meio vidro? Vai entrar frio, vai molhar tudo! E o brincalhão disse: “Tudo bem, vamos zoar a galera”. E assim foi. Instituiu-se o meio vidro em 80% dos banheiros europeus.

Finalizo com o ápice que conheci num hotel, neste fim de semana. Três torneiras na parede: uma define se a água sai no chuveiro ou na banheira, outra regula a temperatura, outra a intensidade. Não está escrito nada em nenhuma. Vá testando, jovem. Uma hora dá certo. Ou não.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Quando a liberdade dá mais medo que a servidão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não tenho acompanhado de perto os lances da atual campanha eleitoral. Envolvida que estou com assuntos mais prosaicos, como minha própria sobrevivência financeira e a evolução pós-cirúrgica de minha cachorra, não consigo esconder de mim mesma o tédio e o desalento que me invadem quando me deparo com as mesmas velhas promessas requentadas, apresentadas como iscas de credibilidade para seduzir o eleitorado.

Navegando pela internet e pelas redes sociais, volto, no entanto, a entrar em contato com um fenômeno que me embasbaca há décadas: a disseminada dependência psicológica de uma liderança política que mostre ser capaz de construir – sozinha e por puro voluntarismo ‒ o futuro que almejamos para o país. Esse não é um fenômeno exclusivamente atrelado à política, é claro. No entanto, o efeito deletério causado pelo contínuo surgimento de pretensos salvadores da pátria assombra mais nessa área.

Hoje quero falar mais genericamente sobre a dinâmica psicológica de quem é chamado a escolher um guia. Gostemos ou não, em diversos momentos de nossa vida sentimos a necessidade de nos apoiar em alguém que caminhe à nossa frente, abrindo novos caminhos ou nos indicando a trilha mais sensata a percorrer em qualquer excursão que pretendamos fazer. É isso que esperamos de um pai, de um parceiro, de um professor, de um conselheiro espiritual ou de um consultor especializado na área em que pretendemos nos aventurar.

Até aí, tudo bem. Faz sentido, se o que estamos buscando é aprender novas habilidades, desenvolver novas competências, identificar novas formas de relacionamento. Posso até concordar que a dependência de um modelo externo de conduta seja decorrência do longo processo de amadurecimento dos mamíferos. O que não posso aceitar é que a dependência psicológica que se prolonga para a adolescência e vida adulta seja teorizada como instintiva ou “natural” da espécie humana. Contar com o apoio de alguém mais experiente é, sem dúvida, fonte de profundo alívio. O problema, a meu ver, está em aprender a discernir em que ponto de nossa jornada de aprendizagem o alívio se transforma em estagnação.

Talvez seja pura ingenuidade de minha parte, limitação intelectual ou simples ignorância ideológica, mas nada me tira da cabeça que a necessidade de esperar que alguém que nos pegue pela mão para nos conduzir a nosso destino pode ter como importantes efeitos colaterais a falta de iniciativa, a acomodação mesmo a contragosto aos desígnios de terceiros e a paralisia intelectual ou emocional que impede de explorar soluções próprias.

Se já me é difícil entender a necessidade de liderança por si só, mais complicado será compreender por que ansiamos tanto nos dias de hoje pelo retorno da autocracia. Esse, infelizmente, não é um fenômeno apenas local. No mundo todo, há demonstrações inequívocas de que a tolerância às novas formas de despotismo vem crescendo de forma assustadora.

Em tempos de empoderamento das minorias, esse fenômeno torna-se ainda mais intrigante. Diversos teóricos da filosofia, sociologia e psicologia já levantaram hipóteses a respeito do que leva as pessoas a aceitar abrir mão do direito à autoexpressão e autodeterminação, trocando-os pela sujeição a uma mentalidade externa. Insegurança causada pelo excesso de escolhas, a volatilização e relativização de princípios e valores morais decorrentes da globalização, medo da liberdade, falta de sintonia com elementos culturais locais – muitas são as explicações possíveis, mas nenhuma com poder de impedir o recrudescimento da vontade de esmagar toda forma de dissidência.

Há pouco tempo li uma reportagem sobre os fatores que estão na base do populismo. Para chegarem ao poder ou nele se sustentarem, os líderes populistas usam e abusam da estratégia de gerar medo na população, caso seus antagonistas sejam os escolhidos. Acredito que nenhum brasileiro que tenha acompanhado as duas últimas eleições presidenciais se esqueceu dos inúmeros exemplos desse tipo de propaganda, tanto a ameaça de que “vai tirar a comida da mesa do pobre” quanto a de “vai privatizar tudo”.

Por que, continuo me perguntando dia e noite, cheia de angústia, preciso que um governante me diga que tipo de educação devo ter, que livros devo ou não ler, com que ideologias políticas posso me envolver, que tipo de família devo construir, com quais parceiros afetivos e sexuais posso me relacionar, com que amigos posso ou não me identificar, por quais princípios religiosos devo orientar minhas decisões dentro de um estado laico, que profissão devo adotar, que formas de entretenimento são mais ou menos aceitáveis ou até por quais critérios posso enquadrar uma obra como arte? Como posso prosseguir na minha luta por mais autonomia se necessito que alguém do lado de fora defina em meu nome o que é moral e o que é civismo?

Passei boa parte de minha vida fazendo pesquisas políticas, na tentativa de compreender as motivações que estão por trás da escolha deste ou daquele candidato ou dos critérios levantados para traçar o perfil de governante ideal. Entrevistei centenas de eleitores para conhecer que mensagens eles retiram das propagandas políticas ou do horário eleitoral gratuito. A única conclusão segura a que cheguei foi a de que todos querem aquilo que sentem não ter no momento.

Há poucas semanas, escrevi sobre a mudança ineficaz. Para quem não leu, relembro: quando o desejo de mudar aparece, o primeiro impulso é fazer o contrário do que se vinha fazendo até então. Se não der certo, aumenta-se a dose. Se, por exemplo, você está com frio, veste uma malha ou agasalha-se com um cobertor. Só que há um limite para a incorporação de mais calor externo. Em um dado momento, você acaba fazendo um strip-tease e, inadvertidamente, volta ao ponto de partida. Em outras palavras, se a alternativa escolhida para a mudança pertence ao mesmo grupo do problema, um estímulo acaba anulando o outro.

Sabemos todos o que não queremos para o próximo presidente e para o próximo Congresso. Somos capazes de fazer um diagnóstico preciso do que vem nos infelicitando como nação. Só falta agora colocar mãos à obra para nos apropriarmos do destino deste país, perceber de uma vez por todas que é nossa responsabilidade como cidadãos monitorar todos os desdobramentos sociais e políticos, independentemente de quem sejam os vencedores desta e de futuras eleições.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O baile das eleições

Vera Magalhães (*)

Uma parcela do eleitorado abraçou um candidato que vocifera contra a política mesmo vivendo dela há quase três décadas e nela colocando toda a família, que diz não entender nada de economia e promete vagamente cumprir um programa que é o oposto da sua vida parlamentar, sem ter maioria mínima para mudar nem nome de praça.

Do outro lado do salão de baile, está o eleitor que viveu a ilusão da pujança dos governos Lula, foi perdendo tudo aos poucos e se esqueceu que houve Dilma Rousseff, também criada por ele, para levar o país à breca e à situação em que eles se encontram hoje.

Os dois lados do salão do baile do pé na jaca da democracia achincalham a imprensa, flertam com a modificação da Constituição e com a relativização da democracia de forma irresponsável, com o beneplácito de seu eleitorado disposto a beber até o último gole.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado pelo Estadão em 16 set° 2018.

Acentuação gráfica

Dad Squarisi (*)

Por que todas as proparoxítonas são acentuadas?

Quando o português usava fraldas, era pra lá de difícil acertar a sílaba tônica dos vocábulos. Rubrica ou rúbrica? Nobel ou Nóbel? Que rolo! As palavras, então, se reuniram em conselho. Discute daqui, briga dali, firmaram este acordo:

Artigo 1°
As terminadas em a, e e o, seguidas ou não de s, são paroxítonas.

Artigo 2°
As terminadas em i e u, seguidas ou não de qualquer consoante, são oxítonas.

Artigo 3°
Quem se opuser ao acordo será punido com acento gráfico.

Conclusão: só se acentuam as palavras rebeldes.

As primeiras a reclamar foram as proparoxítonas. Se aderissem, desapareceriam da língua. É que não sobrou nenhuma vogal para elas. Por isso, todas são acentuadas: rítmico, álibi, satélite.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Carta de uma mulher a Jair Bolsonaro

Ruth Manus (*)

De uma mulher, de tantas mulheres

Caro candidato, esta é uma carta difícil de escrever. Não por medo, nem por me faltarem as palavras. Mas por não saber como devo abordar alguém com um comportamento como o seu. Na minha família fomos educados ‒ homens e mulheres ‒ para dizer as coisas de forma inteligente, sem truculência e sem agressividade barata, mas não sei se o senhor sabe ouvir algo dito nesse tom.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

De toda forma, me nego ‒ como me neguei a vida inteira ‒ a jogar fora a boa educação que tive para me ver equiparada a pessoas que não tiveram a mesma sorte na construção do seu raciocínio e da sua índole, esperando que o senhor faça um esforço para entender que nem toda força deriva do grito.

Sou uma mulher. Uma típica mulher do século XXI, dessas que trabalha muito, que se esforça ao máximo, que tem consciência dos seus direitos e da sua voz. Sou uma mulher como todas as outras, que quer apenas se ver segura, respeitada e usufruindo de uma vida justa. Não me parece um grande luxo. Mas sei bem que o senhor não pensa dessa forma.

Sei que a noção de respeito é algo muito distorcido para o senhor. Na verdade, acho que o senhor não faz a menor ideia do que é respeito. Lamento, porque isso só pode ser fruto de graves falhas da educação de base. Quando a gente cresce sendo respeitado e vendo respeito dentro de casa, a gente não tem dúvida nenhuma acerca desse verbete. Lamento sinceramente que sua história não tenha sido assim.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

Não vou listar aqui as inúmeras agressões que o senhor proferiu ao longo destes últimos anos. Agressões a mulheres, a negros, a judeus, a homossexuais, a indígenas, ao povo brasileiro como um todo. Me nego a propagar um discurso que eu poderia considerar inconsequente, infeliz ou antiquado, mas que a lei define como criminoso. Não se trata apenas de uma opinião equivocada, trata-se efetivamente de conduta criminosa. Talvez seja por isso que o senhor deseja armas com tanto fervor.

Me pergunto o que levou o senhor a ter essa vida toda guiada pelo ódio. Embora nós tenhamos consciência de que há uma série de temas que o senhor não domina, por exemplo dívida externa e taxa de juros, não temos dúvidas de que o senhor sabe muito bem que pena de morte e porte de arma não reduzem a violência em lugar nenhum. Vamos falar a verdade, vai. Suas propostas nunca visaram a redução da violência, não é mesmo? Trata-se mesmo de ódio, pura e simplesmente. E nós, mulheres, que buscamos segurança e igualdade, sabemos que armas e ódio são diametralmente opostos a esses objetivos.

by Pietro Antonio Rotari (1707-1762), artista italiano

Num documentário que eu imagino que o senhor não viu nem nunca vá ver, chamado Nanette, a protagonista diz que não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu. E me diga? Que mulher não é destruída quando ouve um candidato à Presidência fazendo apologia à violência sexual contra a mulher? Que mulher não é destruída pela apologia à discriminação contra a mulher no trabalho? Que mulher não é destruída pela penalização da sua gravidez ou pela ingerência em seu próprio corpo?

Mas eu vou te dizer, candidato, que nós, mulheres, para o seu azar, temos esse persistente hábito de nos reconstruirmos. Nos reconstruímos todos os dias de agressões como as suas. Você não é nenhuma novidade. E é com essa nossa força que nós, mulheres, não permitiremos que o senhor seja eleito, nem que seu discurso ganhe espaço, força ou suporte. Você nos despreza, mas seremos exatamente nós que te faremos permanecer tão pequeno quanto o senhor sempre foi. Pode escrever.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.