Sai Cofrinho, entra Cofrinho Jr.

Carlos Brickmann (*)

Chico Rodrigues, DEM, o senador cuja história entrou para os anais, tirou 121 dias de licença do Senado. Assim, a decisão do ministro Barroso – que nome predestinado! – de afastá-lo do cargo por 90 dias foi suspensa pelo próprio ministro, por ter-se tornado desnecessária. Mas o importante nem é isso: é que, licenciando-se por 121 dias, um senador automaticamente passa o cargo ao suplente.

No caso, o suplente é Pedro Arthur Ferreira Rodrigues (DEM), filho de Chico Rodrigues e herdeiro, pelo menos temporário, de seu mandato. E passa a desfrutar das mordomias do cargo. Citando a frase clássica, a família é a base da sociedade. E ninguém, claro, criticará tão belo exemplo de solidariedade entre pai e filho.

A história não termina por aqui. Chico Rodrigues insiste em dizer que o dinheiro localizado no insólito esconderijo era destinado ao pagamento de seus empregados. Vá lá, vá lá, mas que é que pode ocorrer se suas empresas crescerem, graças a seu trabalho e seu tino gerencial, e contratarem mais funcionários? Chico Rodrigues, em vídeo que enviou aos senadores, também diz que, ao enfiar o dinheiro no providencial esconderijo sob suas cuecas, tomou “a decisão mais irracional de sua vida”.

Engano: a decisão mais irracional de sua vida foi candidatar-se; e a dos eleitores, dar-lhe o voto. Mas aceitemos. Só que, quando alguém está prestes a ser preso, costuma mastigar e engolir as provas. Errar o lado do aparelho digestivo é novidade.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Trump, a bomba humana

Ruy Castro (*)

Milhões perderam o emprego por causa do coronavírus. Donald Trump não. A pandemia não obrigou a Casa Branca a fechar as portas. Em consequência, Trump continuou batendo o ponto, recebendo o salário e contando com as benesses de seu cargo, inclusive a de ter sua vida salva.

Não sejamos cínicos. Foi com euforia que o mundo recebeu a notícia de que ele caíra vítima da doença que já afetou 35 milhões de pessoas e cuja gravidade sempre negou. Nada de condolências ou preces hipócritas pela sua recuperação. Multidões torceram para que ele passasse pelos mesmos horrores que nossos parentes e amigos, como o de ser entubado, e, quem sabe, se juntasse ao mais de um milhão de pessoas que o vírus levou. Entre outros motivos, para que alguém menos irresponsável tomasse as rédeas nos EUA e interrompesse o nefasto exemplo que Trump dá a governantes beócios.

Daí o encanto com que acompanhamos a batelada de remédios que os médicos bombearam no seu organismo por uma miríade de orifícios. Trump foi recheado com coquetéis de anticorpos sintéticos, antivirais, melatonina, zinco, aspirinas e antiácidos, associados a quilos de drogas heavy metal como dexametasona, remdesivir e REGN-COV 2, enquanto eles o mantinham respirando com jatos de oxigênio capazes de inflar o dirigível Hindenburg. Só não lhe deram cloroquina porque queriam salvá-lo, não matá-lo.

Com tudo isso, não admira que ele tenha levado apenas três dias para ressuscitar, voltar ao trabalho e jogar fora a máscara. O problema agora é: quem vai proteger a Casa Branca da bomba humana que Trump se tornou, despejando perdigotos por onde passa e atingindo colegas, burocratas, seguranças, faxineiros e até os pobres correspondentes?

Trump declarou que se sente melhor hoje do que “há 20 anos”. Mentira. Há 20 anos ele estava apalpando mocinhas em público. Agora já não lhe serve de nada fazer isso.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Os problemas argentinos

Carlos Brickmann (*)

Tenho uma opinião firmada sobre os problemas argentinos. Um dos países mais ricos do mundo, com analfabetismo próximo de zero, autossuficiente em carne, trigo e petróleo, não resistiu à devastação peronista. Pior: a coisa foi tão longe que há peronistas de esquerda, de direita, extremistas.

É normal que as eleições envolvam disputas entre peronistas de um lado e de outro. Já vi eleições em que o hino peronista de direita louvava a segunda mulher de Perón (“Perón, Isabelita, la Patria peronista”) enquanto o peronismo de esquerda era favorável à primeira mulher de Perón (“Perón, Evita, la Patria socialista”). E Cristina Kirchner dificilmente poderia ser pior do que já é.

Juan Domingo Perón (1895-1974), político argentino

Bom, mas isso não significa que sejam verdadeiras as notícias sobre a vida na Argentina. A informação de que a pobreza atinge 40,9% da população argentina é falha. Pobreza, lá, significa receber menos de 45 mil pesos mensais (=R$ 3.300,00). E indigente é quem ganha abaixo de 18.500 pesos (=R$ 1.370,00).

Estão mal, mas há pelo menos um país vizinho que está bem pior.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Rádio Astral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um estranho fenômeno vem acontecendo comigo há já um bom tempo. Acordo todos os dias ao som de uma melodia qualquer e me pego tentando decifrar de onde ela vem: de fora ou de dentro? Isto é, estaria o som flutuando só na minha cabeça ou existiria alguma fonte externa identificável para ele?

Inicialmente, imaginei que as canções que eu “ouvia” teriam vazado durante a madrugada do apartamento de baixo, onde minha vizinha costuma organizar festas e encontros com amigos, sempre regados a muita conversa e cantorias animadas. Podia ser também que essa esquisita parada musical fosse proveniente do radinho de pilha do porteiro do condomínio, às voltas com a necessidade de afastar o tédio e o sono das madrugadas. Abria a janela, olhava para todos os lados procurando identificar de qual direção o som poderia estar vindo, mas sempre em vão. Nunca descobri nenhuma pista segura.

Aos poucos, fui entendendo que teria de procurar na minha mente os gatilhos para esse exótico desfile musical. Teria sido um sonho? Mas, se fosse, por que não havia na minha cabeça nenhuma lembrança, nenhuma imagem, nenhuma sensação, nenhum contexto emocional capaz de explicar satisfatoriamente a emergência da trilha musical? E, mais intrigante ainda, qual seria a mensagem que meu inconsciente estava tentando me mandar?

O que mais me impressionava nesse sentido era a imensa variedade de ritmos, estilos musicais e das épocas que ficaram marcadas por eles. Podia ser uma valsa, um tango ou bolero, uma modinha interiorana, um samba-canção do passado, uma dessas músicas-chiclete dos dias de hoje que não saem mais da sua cabeça por mais que você as rejeite, um ‘hit’ sertanejo ou de sofrência, funk ou reggae, música de Carnaval, Natal ou de festa junina, algo no estilo bossa nova, MPB ou de axé-music. Era como se eu estivesse rebobinando mentalmente a fita que continha a história da minha vida baseada apenas em seu fundo musical.

Ao longo do tempo, outras canções e estilos preferidos vieram se juntar aos do repertório popular brasileiro. Ainda deitada e de olhos fechados, eu tentava rememorar a letra de cada melodia e me emocionava com a capacidade de recuperar as emoções provocadas por antigas canções francesas e antigos sucessos das divas americanas do jazz, soul e blues que marcaram minha adolescência. Logo foram entrando em cena, sem pedir licença, também músicas folclóricas, hinos pátrios que eu era obrigada a cantar na escola e até hinos religiosos, que incluíam as músicas de procissão que minha mãe me forçava a acompanhar em criança.

O maior susto veio quando acordei um dia cantarolando a ária Nessun Dorma, trecho da ópera Turandot de Puccini. Nunca me interessei muito por música clássica e mal podia reconhecer as grandes obras da categoria e seus autores mais famosos. Também não conhecia a letra e não compreendia as expressões italianas. Corri para o computador e busquei freneticamente o libreto para tentar entender a história nele contada e os significados que eu poderia derivar para meu momento de vida atual. Apesar de tê-la considerado muito instigante, não fui capaz de compreender a ligação entre a tirânica princesa chinesa e a princesa adormecida que me habita, ambas ordenando que ninguém durma até que o segredo seja revelado.

Ontem, para meu igual espanto, acordei repetindo, mesmo sem saber por quê, os versos em latim de uma música com forte conteúdo patriótico que cantávamos na escola, durante o curso ginasial: Deus salva América de hostibus/Cuncta bona ei dona in malorum fluctibus/Nos rogantes et clamantes inter carmen discimus/Deus salva América, Amééricaa…

Mais uma vez, ‘dei um Google’ assim que me levantei para saber se minha memória havia sido capaz de preservar fielmente a letra original. Não a encontrei em nenhum site ou blog. Havia apenas referência ao fato de que essa música é considerada uma espécie de hino não-oficial dos Estados Unidos e que havia uma versão em inglês da letra, escrita por Irving Berlin em 1918.

Fiquei atônita. Jamais me ocorreria pensar que nossos professores de canto tivessem nos apresentado a uma canção patriótica estrangeira, sem se preocuparem em nos informar com clareza sobre sua origem. Ainda mais pasma, descobri que havia uma versão em português da mesma música escrita por João de Barro (e cantada por Francisco Alves) em 1945. Mas, me perguntava atordoada, se tivemos de decorar uma letra em latim, ela devia ser forçosamente muito anterior à versão americana – e, portanto, tratava-se de uma composição de autor desconhecido que havia sido apenas encampada pelos Estados Unidos, graças à mania de se considerarem única referência de América (e não o continente como um todo).

Preciso fazer um parêntesis para explicar de que forma a música moldou minha personalidade ao longo da vida. Quando criança, era forçada a ouvir quase que exclusivamente música instrumental, tocada por uma grande orquestra ou por um pianista famoso, que meu pai adorava. Admito que aquilo me entediava bastante. Sempre senti falta das palavras. Acompanhar – e ser capaz de entender – a mensagem contida na letra era minha grande paixão. Foi em nome dela que me interessei pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Ao longo de minha adolescência e começo da vida adulta, passava horas a fio ouvindo o mesmo disco e anotando às pressas como podia as palavras que decifrava. Depois, com o auxílio do dicionário, ia juntando uma palavra a outra, até que as frases começassem a fazer sentido.

É inegável que a arte, em todas as suas formas, é a única ferramenta com que podemos contar para refletir em profundidade sobre a condição humana e transcender todas as limitações que ela impõe. A linguagem musical é universal no que tange às emoções que desperta. Não há fronteiras nacionais, credos religiosos ou políticos que possam interromper o fluxo associativo de pensamentos, sentimentos e estados de espírito que emergem diante de cada frase musical. Pensando nisso, resolvi deixar de lado tanto esforço para compreender o conteúdo emocional despertado pela melodia que me acorda a cada dia. Navegar com prazer e deixar-me levar sem o uso da razão pela forma delas passou a bastar-me.

Foi então que me ocorreu um insight. Se podemos simbolizar numa melodia todos os acontecimentos relevantes de cada fase de nossas vidas, qual seria a música-tema universal mais representativa deste dramático ano de 2020? E, mais especificamente, que fundo musical poderíamos atrelar iconicamente aos terríveis eventos pandêmicos, climáticos, econômicos, sociais e políticos brasileiros?

Façam suas apostas. A minha lista das canções concorrentes ao título já está pronta. Acredito piamente que o plano astral está nos convidando – nada gentilmente, diga-se de passagem – a nos despedirmos da vida no planeta Terra tal qual a conhecíamos até aqui, bem como a superarmos a era do ódio às diferenças para podermos adentrar finalmente novos tempos de reconciliação com a natureza ambiental, com a natureza humana e com a natureza espiritual. Quem sabe, relembrando ou compondo novas músicas sejamos capazes de elaborar novas utopias que nos guiem com segurança e harmoniosamente pelo fantástico universo apocalíptico do século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Bye bye, Oscar!

Fernão Lara Mesquita (*)

Depois da britânica British Academy of Film and Television Arts, a americana Academy of Motion Pictures Arts and Sciences anunciou terça-feira que qualquer filme que queira candidatar-se ao Oscar terá de atender a uma lista de exigências que incluem:

• o uso de atores de grupos raciais ou étnicos sub-representados;

• roteiros centrados nesses temas;

• lideranças criativas ou posições-chave ocupadas por mulheres ou membros de grupos raciais e étnicos, da comunidade LGBTQ+ ou pessoas com problemas físicos ou cognitivos;

• estagiários pagos pertencentes a esses grupos e marketing de distribuição com componentes de diversidade.

Num escalonamento de três anos a começar pelo Oscar do ano que vem, quando pelo menos dois desses quatro quesitos já terão de ser atendidos, as exigências serão crescentes nas áreas de Atuação, Temas e Narrativas, Liderança Criativa e Equipe Técnica, Acesso à Industria e Oportunidades de Desenvolvimento de Audiências.

Na Alemanha nazista, assim como na União Soviética e países da Cortina de Ferro antes da queda do Muro, ou ainda na Coréia do Norte de hoje, normas de adequação política sempre condicionaram absolutamente a produção intelectual e artística, sob pena de morte.

Mesmo nos próprios Estados Unidos, não é a primeira vez que a Academia impõe regras alheias à qualidade do filme como condição para concorrer ao Oscar. Entre 1950 e 1957 eram desqualificados filmes que incluíssem qualquer ator, diretor ou pessoa com função proeminente na produção que tivesse sido membro do Partido Comunista ou que tivesse recusado testemunhar para o Comitê de Atividades Anti-americanas do Congresso, período durante o qual o apedrejamento tornou-se obrigatório para qualquer pessoa sonhando com fazer carreira no cinema americano ou de qualquer outra nacionalidade hoje.

Mesmo com um paralelo tão evidente não caiu a ficha dos novos macarthistas de Hollywood, o que confirma minha tese de que o melhor investimento do momento é comprar lotes de passagens para Marte pois é já que elas estarão sendo disputadas a peso de diamantes nesse mundo insuportavelmente chato que está aí.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro

Um é pouco, dois é bom

Dad Squarisi (*)

R$ 600 é muito, R$ 200 é pouco:
o porquê da concordância

A pandemia nos pegou de surpresa. Ceifou vidas e roubou empregos. Nada menos de 66 milhões de brasileiros ficaram sem salário e sem renda. O governo fez o que tinha de fazer — criou o auxílio emergencial de R$ 600. A ajuda, pra lá de bem-vinda, chega ao fim. Mas a crise sanitária continua.

E daí?
A saída é prorrogar o socorro. A equipe econômica disse que o país não aguenta manter o valor. Propôs reduzi-lo pra R$ 200. O Congresso bate pé nos R$ 600. Bolsonaro se opôs aos extremos: “R$ 600 é muito, 200 é pouco. Vamos ficar no meio-termo”.

A fala presidencial foi seguida de murmúrios. Não sobre montantes. Mas sobre a concordância: R$ 600 é muito, R$ 200 é pouco. O verbo no singular está correto? Está.

A manha
As locuções é muito, é pouco, é suficiente & cia. acompanhadas de especificação de quantidade, medida, preço, tempo e valor são invariáveis:

R$ 600 é muito.
R$ 200 é pouco.
Quinze anos é tanto tempo!
Dois quilos é pouco.
R$ 10 é suficiente.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Direitos

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Almoçar fora aos domingos sempre é uma maneira agradável de o marido dizer que gosta da mulher, poupando-a de parte dos trabalhos domésticos, nem que seja uma vez por semana. Ou pode ser uma negociação antecipada (sem que a mulher se dê conta) para o maridão ir assistir ao jogo de futebol logo mais, tomando aquela cervejinha com os amigos. É preciso a mulher ficar atenta para julgar da sinceridade de um convite para almoçar fora num domingo.

De uma maneira ou de outra, muita gente acaba fazendo um programa desses aos domingos. Muita mulher desatenta acaba assinando um alvará para o marido abandoná-la pelo resto do dia, voltando a casa só bem mais tarde, depois de muitas cervejas e, dependendo da quantidade delas, com dificuldade até mesmo para se lembrar do nome da própria esposa:

— Ô… Ô… Ah!… Ifffone!!!

E, quando finalmente se lembra do nome da mulher, sente extrema dificuldade para se lembrar do assunto do qual queria tratar. Aí desiste e deixa pra outra hora.

Mas enfim aconteceu num domingo desses que o Genivaldo foi com a distraída Ivone almoçar fora. Ele já engatilhando as cervejinhas com os amigos mais tarde. Ela indo ingenuamente almoçar.

O Genivaldo é um desses sujeitos que se acham com todos os direitos e mais alguns que, aliás, não tem. Mas, mesmo assim, briga por eles. Tipo “você sabe com quem está falando?” e a outra pessoa nem ousa perguntar “com quem?”. Aí, pelo sim, pelo não, são obtidos os direitos e, de quebra, alguns privilégios também.

Assim, quando chegaram ao restaurante e fizeram menção de ocupar uma determinada mesa num lugar privilegiado junto a uma janela, um garçom, pedindo mil desculpas, indicou-lhes uma outra, num cantinho meio solitário, onde quem se senta parece estar de quarentena. Aquelas mesas já estavam reservadas para um cliente antigo do lugar.

‒ Como assim, não podemos nos sentar aqui? Só porque um figurão vem por aí?

‒ Não se trata disso, meu senhor ‒ respondeu muito polidamente o garçom ‒ é que ele reservou as mesas desta ala. Estão reservadas faz uma semana. É isso.

O Genivaldo já estava começando a espumar discretamente pelo canto esquerdo da boca, o que, para quem o conhecia, não era bom sinal.

‒ Então é isso? A gente trabalha, paga os impostos todos em dia e, quando resolve almoçar fora, não pode porque alguém mais importante segura a mesa antes de chegar ao local!

Comedidamente o garçom tenta explicar-lhe:

‒ Meu senhor, não se trata disso, é que simplesmente o nosso outro cliente fez reserva antecipada. Se me permite, temos uma mesa disponível alí naquele cantinho que, se for de seu agrado…

E apontou para um canto que só não era fora do restaurante porque providencialmente havia uma parede ali, justamente onde a mesa se encostava. Aliás, a mesa estava quase embutida na parede a ponto de deixar no ar uma pitada de dúvida sobre qual das duas viera primeiro: a parede ou a mesa. Podia-se arriscar um palpite de que ambas haviam sido instaladas ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

O Genivaldo aceitou e se dirigiu para o cantinho junto com a esposa.

Garçom que é garçom não olha em volta para saber onde é que estão precisando de seus serviços. Acho que nas próprias escolas de formação profissional aprendem a desviar o olhar justamente para os lados onde não há ninguém. Em seguida, com poucos anos de prática, alguns chegam a atingir a perfeição. Você faz um discreto sinal com uma das mãos, mas nada. Você então ergue o braço em nova tentativa, mas o garçom continua a fingir que não viu. Em desesperada tentativa, quando você quase se levanta da cadeira e ergue o braço para chamar a atenção, como se estivesse numa estação de trem, quando todo o restaurante já se deu conta da sua agitação, só o garçom ainda não reparou. Provavelmente, quando você já estiver subindo à mesa para arriscar um zapateado, daqueles que terminam com um sonoro “olé”, aí sim, o garçom vai se resolver a vir até você.

Assim foi com o casal Genivaldo. A mesa à qual se sentavam ficava num canto quase esquecido do resto do restaurante (aliás, do resto de todo o mundo), bem pouco visitada pelos garçons que, a julgar pelo tempo que demoravam a voltar ao salão, pareciam estar em pleno campeonato de palitinhos na cozinha e somente nos intervalos davam umas voltinhas pelo salão, para reforçar a impressão de que ainda estavam por lá e para que os clientes não se sentissem em abandono total.

O bife à parmigiana pedido chegou à mesa em forma de peixe assado (devido a um pequeno mas lamentável equívoco do garçom). De sobremesa, veio um manjar branco em lugar do sorvete de framboesa encomendado (por outro menor mas também frustrante equívoco, coincidentemente do mesmo garçom). Como é natural, tais acontecimentos acrescentaram legitimidade a todas as reclamações feitas pelo Genivaldo, não ao garçom e muito menos ao gerente do restaurante, claro que não, mas à pobre Ivone que, como todas as esposas dedicadas, exerce, entre outras, a função de ouvidora do marido.

Saíram do restaurante depois de pagar a conta, obviamente sem deixar gorjeta alguma.

Quando foram reganhar o carro na rua, viram um policial lavrando uma multa por estacionamento em local proibido. O Genivaldo ainda tentou reclamar:

— Ô, seu guarda! Mas e os direitos da gente? Todo o mundo para por aqui. Será que só eu não posso?

— Não se preocupe não. Aqui todos têm seus direitos garantidos. Já multei todos os outros que estão estacionados e o senhor teve sorte: sua multa é um direito seu e, com ela, foi-se a última folha do meu bloquinho. Todos são iguais, sim, senhor…

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Os amigos do presidente

Carlos Brickmann (*)

Na época da ditadura que dizem que não houve, contava-se esta piada: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca; quem denunciasse dois comunistas ganharia um Fusca e um apartamento; quem denunciasse três comunistas iria em cana, porque conhecia comunistas demais.

E como a família Bolsonaro conhece gente que tem problemas, digamos, éticos! É o Queiroz, são aqueles milicianos que têm foto com alguém da família, é aquela tropa de gente empregada em seus gabinetes parlamentares e que mora a horas e horas de distância, tendo ainda de ocupar parte de seu tempo em outros trabalhos remunerados! E esse tipo de amigos e conhecidos agora se internacionalizou: Steve Bannon, guru de Olavo de Carvalho, talvez o maior ideólogo do bolsonarismo, foi preso nos Estados Unidos. Problema político? Não: a acusação é mesmo a de ter enfiado a mão no pudim.

Bannon sentou-se ao lado de Bolsonaro no jantar da embaixada brasileira em Washington (do outro lado, Olavo de Carvalho). Ali estavam sete ministros, inclusive o Imposto Ipiranga Paulo Guedes, mas Bannon era o astro. Já ídolo e amigo de Eduardo Bolsonaro, defendeu publicamente sua nomeação para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Eduardo o chamou de ícone da luta contra o marxismo cultural. Bannon o escolheu como seu representante no Brasil, chefiando a seção brasileira do Movimento, grupo empenhado em lutar internacionalmente contra o comunismo.

Bannon foi guru de Trump, que o demitiu: nem ele o aguentou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Implicar: regência

Dad Squarisi (*)

O verbo implicar tem três empregos. Em dois, ninguém tem dúvida. Na acepção de ter implicância, pede a preposição com:

• O diretor implicou com ele.

Na de comprometer, envolver, é a vez do em:

• A secretária implicou o chefe no escândalo.

A dúvida surge no significado de produzir consequência. Aí, implicar implica e complica. O verbo parece, mas não é. No sentido de acarretar consequências, o malandro é transitivo direto. Não suporta a preposição em:

• Autonomia também implica responsabilidade.

• Deflação implica recessão.

• Aumento da taxa de juros implica crescimento do deficit público.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Colocações

Sérgio Rodrigues (*)

No Brasil, adoramos colocar. Houve um tempo em que púnhamos com mais frequência, para não mencionar todas as ocasiões em que botávamos. Por razões que será preciso investigar melhor, hoje preferimos colocar. E como colocamos!

Ano passado, na mesma semana, lemos na Folha que uma cabeçada de Everton Ribeiro “colocou Cássio para trabalhar”, que “a China colocou a culpa dos protestos (de 1989) nos contra-revolucionários” e que Jean Wyllys anunciou medidas contra “a mentira abjeta que colocou nossas vidas em risco”.

São só três ocorrências, entre as incontáveis que nos cercam, em que o arrivista colocar rouba o posto de trabalho de colegas como pôr, botar, meter, pousar, depositar, atribuir, aplicar etc.

Seria absurdo dizer que aquelas frases estão erradas. Contudo, em sua política expansionista, colocar provoca um estrago vocabular equivalente ao do desmatamento de um belo naco da Amazônia.

Não há muito a fazer. É um fato linguístico banal uma notícia como “Homem coloca fogo na própria casa”. Verdade que, a olhos mais cevados na tradição, o fogo, com sua imaterialidade feroz, é um parceiro desajeitado de colocar, verbo a princípio mais técnico.

Acontece que o uso detém a última palavra, as opções coletivas sempre acabam por vencer – cartilhas e ouvidos delicados que se adaptem, ora. A banda toca essa música há séculos. Mesmo assim, é saudável ficar atento a abusos.

 

Coloquei!

Já foi pior. Nossa compulsão colocadora tornou epidêmico, nas últimas décadas do século 20, um vício nascido na linguagem universitária: aquele em que o verbo é (ou era) usado como sinônimo de dizer, sustentar, argumentar: “Entendo a sua colocação, mas gostaria de colocar que…”

Essa praga, se não passou, arrefeceu bastante. No entanto, quando hoje as galinhas optam por colocar ovos e a gente se dá conta de que, se fosse criado neste século, o bairro carioca de Botafogo se chamaria Colocafogo – nesse momento vale a pena parar e pensar.

Vindo do latim “collocare”, isto é, “cum + locare”, pôr em determinado local, colocar é uma palavra nascida no século 15, quando a língua portuguesa se sofisticava. Sinônimo de pôr, botar e meter, estas do século 13 e mais próximas das raízes orais do idioma, representava uma espécie de gentrificação linguística.

Pelo menos a princípio, era um termo mais fino, de maior precisão no onde e no como. O “chute colocado” da linguagem futebolística traduz bem essa ideia. Qual força, então, acabou por fazer de colocar esse irresistível genérico de massa?

A resposta que eu queria deixar como hipótese é: aquela ânsia mal-orientada de formalidade e apuro, quando não de pompa e pedantismo, que é uma marca da cultura brasileira.

Nossa inclinação coletiva pelo termo que parece mais erudito, menos popular, e que portanto imaginamos mais correto e bacana, tem prestado maus serviços à língua. O modismo do verbo possuir empregado indiscriminadamente no lugar de ter é o exemplo clássico.

Há anos temos lido e ouvido, no Brasil, que pessoas possuem resfriados, dúvidas, dores de cabeça, um picolé – como se tais coisas contingentes e fortuitas estivessem inscritas em seu corpo ou lavradas em escritura no cofre de sua casa.

É uma impropriedade vocabular e tanto, diante da qual o mais novidadeiro uso de colocar parece saído de uma página de Machado de Assis. Mas neste momento fica claro que o assunto é amplo demais para ser colocado por inteiro aqui.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Portunhol ‒ 2

Quando yo me fui das casa

Fabián Severo (*)

Cuando yo me fui das casa
mi madre me deu uma caya de zapato
llena de rollo de foto.
‘Algún día Fabi, tu vai podé revelá esas foto
de cuando tu y teus irmaum era piqueno.’

Cuando pudíamos festeyá algún cumpliano
yo consiguía la máquina con doña Selia.
Solo se pudía sacar doce foto
sempre del cumplañero
atrás del bolo con los invitado.
Nunca pudemo revelá. Nou había plata.

Ainda tengo la caya guardada nel ropero.
Teño las palabra, faltan las imagen.

Quando eu fui embora de casa

Fabián Severo (*)

Quando eu fui embora de casa
minha mãe me deu uma caixa de sapato
cheia de rolos de fotos.
‘Algum dia, Fabi, você vai poder revelar estas fotos
de quando você e seus irmãos eram pequenos.’

Quando podíamos festejar algum aniversário
eu conseguia a máquina com dona Célia.
Só se podiam tirar doze fotos
sempre do aniversariante
atrás do bolo com os convidados.
Nunca pudemos revelar. Não havia dinheiro.

Ainda tenho a caixa guardada no guarda-roupa.
Tenho as palavras, faltam as imagens.

(*) Fabián Severo (1981-) é escritor e poeta uruguaio, nascido em Artigas, cidade encostada no Rio Grande do Sul, às margens do Quaraí. Grande parte da obra deste autor está escrita em portunhol, um concentrado dos falares ibéricos em que se exprimem os viventes da fronteira. É uma língua que, ainda que soe estrangeira, toca a sensibilidade do leitor. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro. Para escutar o poema declamado pelo autor, clique aqui.

 

Ao nível de x em nível de

Dad Squarisi (*)

Ao nível de ou em nível de? Depende.

Ao nível de significa à altura de:

Recife fica ao nível do mar.
O cargo de Maria está ao nível de Luís.

Em nível de quer dizer no âmbito de:

Faço um curso em nível de pós-graduação.
A decisão foi tomada em nível de diretoria.
A ideia está em nível de projeto.

Nível

Cá entre nós: em nível de é dispensável. Como tudo que é dispensável, sobra. Livre-se dele. A frase ganha em concisão e elegância; veja:

Faço um curso de pós-graduação.
A decisão foi tomada pela diretoria.
O projeto ainda está no papel.

É isso. A língua é um sistema de possibilidades. Democrática, dá liberdade de escolha. Podemos dizer a mesma coisa de diferentes maneiras. A mais curta e enxuta ganha disparado. Fique com ela.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

De volta ao amadorismo

Ruy Castro (*)

A história é conhecida. Em 1956, no Rio, o jornalista Lucio Rangel apresentou o jovem Tom Jobim a Vinicius de Moraes no bar Villarino, como sendo o homem que Vinicius procurava para musicar sua peça “Orfeu da Conceição”. Para Vinicius, se Lucio Rangel o indicava, é porque Tom devia ser bom mesmo. E fez com a cabeça algo como “Ótimo!” ou “Vamos nessa!”. E, então, Tom perguntou: ”Tem um dinheirinho nisso?”.

Lucio quase caiu de seu copo de uísque. Recuperou-se e esbravejou: “Tom, este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes! Como é que você me fala em dinheirinho?” ‒ como se o simples fato de trabalhar com Vinicius fosse remuneração suficiente. E Tom, já quase querendo se matar, balbuciou: “É que… eu preciso pagar o aluguel”.

Bem, Tom e Vinicius saíram dali parceiros e o que fizeram juntos, pelos seis anos seguintes, entrou para a história. E teve, sim, um dinheirinho para Tom. Mas o que interessa aqui é a ideia de que, em 1956, o teatro e a música popular ainda eram uma operação romântica, em que falar de dinheiro era quase uma ofensa. Dava-se de barato que os artistas trabalhassem pela glória e só almoçassem de vez em quando.

Mas, a partir dos anos 70, o Brasil se profissionalizou. A arte brasileira ingressou no capitalismo e todos lucraram: os artistas, os produtores, o público, o país. O mundo se encantou com o que fazíamos, e isso só foi possível porque nossos artistas já podiam viver de sua arte.

Mas o mundo gira e, de repente, regredimos a 1956. Desde 2015, quando Dilma Rousseff quebrou o país, o dinheiro sumiu. Incontáveis projetos na área da arte e da cultura foram cancelados; outros tantos nem saíram do papel. E, sob a ignorância ou má-fé dos beleguins de Jair Bolsonaro, a Lei Rouanet virou palavrão. Na área cultural, o Brasil dispara de volta rumo ao amadorismo. Perguntar pelo dinheirinho pode ser, de novo, uma ofensa.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Números

Eduardo Affonso (*)

Noêmia se preparava para sair do cemitério, amparada pelos filhos, quando Moacirzinho a puxou pelo braço.

– Mãe, tá ouvindo?

Soluçando e fungando, Noêmia não ouvia nada.

– Mãe, escuta.

Todos pararam. Zirlene, que não tinha largado o celular um minuto durante todo o sepultamento, tirou o fone do ouvido e também ouviu.

– O barulho. Lá embaixo.

Havia mesmo um tum tum tum abafado, vindo debaixo do montinho de terra fofa.

Tudo bem que não tinha havido velório, que Moacir fora entregue envelopado e ninguém pudera ver o corpo, mas…

Começou o corre-corre, o escava-escava. O coveiro com a pá, Moacirzinho e o os primos e tios, com as mãos. O tum tum tum cada vez mais forte, até que chegaram ao caixão, abriram-no, puxaram o fechecler do saco plástico e lá estava Moacir, de olhão arregalado.

Noêmia não sabia se desmaiava de emoção ou de pavor.

– Papai! – contra todas as recomendações médicas, era Moacirzinho que se jogava sobre o corpo do pai, dando como no reencontro o abraço que não tinha podido dar de despedida.

Içaram Moacir enquanto Noêmia recuperava os sentidos.

Claro que estavam todos perplexos e felizes, mas era nítido que havia algo errado com Moacir.

Ele não respirava.

– Pai, você tá bem?

Moacir não respondeu.

Valdemar apalpou o irmão e declarou:

– Ele está duro.

Rigor mortis – pontificou o coveiro, gastando o único latim que sabia.

Zirlene, de celular em punho, decifrou o mistério.

– Foi o governo. Papai não está mais morto. Ele e mais 352 foram ressuscitados na recontagem.

Ficaram todos imóveis. Moacir mais imóvel que os outros. Quiseram levá-lo para casa, mas ele não andava.

Rigor mortis, eu falei – repetiu o coveiro. As juntas não dobram.

Carregaram-no até o Uno, mas logo viram que iam precisar de uma Kombi ou, quem sabe tivessem que levá-lo em pé, de ônibus.

Moacir não só não respirava como não piscava, e só parava em pé porque Valdemar e Moacirzinho o seguravam.

Noêmia pensava num jeito de desmaiar de novo e acordar apenas quando tudo aquilo tivesse acabado.

– Gente – falou Zirlene, ainda mexendo no celular – parece que o Globo, a Folha e o Estadão estão fazendo uma contagem paralela dos óbitos e…

No meio da frase, Moacir caiu para trás. Mais duro do que antes.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Prostituta é professora?

Dad Squarisi (*)

O verbete está no dicionário. O Google o reproduz. Alguém consulta o significado da palavra professora. Ops! A tela mostra: “prostituta com quem adolescentes se iniciam na vida sexual”. Grupos se mobilizam no WhatsApp. Querem que o site da internet apague a acepção que ofende as mestras.

Internautas emitem opinião. A maior parte dos comentários fala em injustiça, machismo, desconsideração com a classe, contribuição para aumentar o sofrimento das maltratadas profissionais. Etc. e tal. Não faltou quem comparasse o feminino com o masculino. Aí, a revolta aumentou. Na definição de professor, não se encontra nenhuma acepção negativa.

Revolta semelhante ocorreu há 20 anos. Lúcia Carvalho, então presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, consultou o verbete mulher, no Aurélio. Encontrou 15 vocábulos sinônimos de meretriz. Entre eles, mulher-dama, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher do mundo.

Dicionário Houaiss

E homem? No pai de todos nós, injustamente chamado pai dos burros, só aparecem significados positivos. Ela comparou homem da rua com mulher da rua. Ele é homem do povo. Ela, meretriz. E homem do mundo e mulher do mundo? Ele é homem de sociedade; ela, prostituta. A indignação da deputada foi tal que os protestos chegaram aos ouvidos de Jô Soares. O Gordo a convidou para o Programa do Jô. Ela foi. E daí?

O Aurélio, o Houaiss & cia. lexical são machistas? Devem ser condenados por registrar professora como prostituta? Ou por tratar tão desigualmente mulher e homem? Não. O dicionário é inocente. Ele sofre de incurável falta de criatividade. Incapaz de inventar, só anota as acepções que frequentam a boca dos falantes. Machista, discriminatória, injusta etc. e tal é a sociedade. O paizão repete o que ouve. É papagaio encadernado.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

Se eu morrer, saibam quem me matou

Ignacio de Loyola Brandão (*)

Esta é a crônica mais delirante e real que escrevi nestes meus 27 anos neste jornal. Se eu morrer de covid-19, saibam que fui assassinado. Sei que posso ser morto apesar dos cuidados que tomo. Estou há 50 dias encerrado em casa. Não desço sequer para atender motoboys que trazem medicamentos, compras de supermercados ou refeições. Gastei hectolitros de álcool gel, cheguei ao máximo de, após receber uma ligação, dar um banho no telefone com medo de ser contaminado pelo som. Quando vejo noticiário, desligo se o presidente começa a falar, enraivecido, espalhando perdigotos, tossindo, espirrando, dando a mão, insensível, abusado.

Tenho medo de ser infectado. Aqueles olhos claros que poderiam ser amorosos e cordiais nos fuzilam com chispas de ódio. Como deve sofrer quem vive assim na defensiva. Porque ele é pura defensiva o tempo todo. Segundo os sábios, não podemos olhar nos olhos de uma pessoa que odeia tudo, o mundo, a vida, porque podemos trazer para dentro de nós o que ela tem de maligno. Há o perigo de nos tornarmos como ela, malvada, perversa. Dona Ursulina, senhora sábia, que cozinhava como poucos, avó de um primo querido, diante de gente ruim costumava dizer: “Isso não é gente, isso é o demônio”. E esse presidente se diz religioso, vai a cultos, agrada a fiéis, bispos, pastores, o que for. Quem ele quer enganar?

(*) Ignacio de Loyola Brandão é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O texto é fragmento de artigo publicado em 22 maio 2020.

Apertem os cintos

Eduardo Affonso (*)

– Torre de comando, aqui é o capitão.

– Torre de comando na escuta, capitão. Prossiga.

– Quero trocar o engenheiro de voo, talquei?

– Durante o voo, capitão?

– Agora mesmo.

– Mas capitão…

– Eu sou o capitão, não sou? Quero colocar no lugar dele, hmmm, deixa eu ver, o comissário Éverton.

– O comissário Éverton tem conhecimentos para ser o engenheiro de voo?

– Ele trabalha no avião, porra. Conhece o avião. Já andou de avião. Quero o comissário Émerson como engenheiro de voo e pronto. O engenheiro antigo está demitido.

– Capitão, o senhor falou comissário Éverton ou comissário Émerson?

– Sei lá, porra. Um comissário aí.

– Está bem, capitão. O senhor está no comando, há de saber o que é melhor para a condução da aeronave até o seu destino.

– Eu andei pensando em mudar também o destino disso daí.

– O senhor quer mudar o plano de voo em pleno voo, capitão?

– Se os passageiros quiserem… E eu sei que os passageiros não estão satisfeitos de ser obrigados a viajar com o cinto afivelado, mesinha travada, não poder fumar… Tem muita gente insatisfeita com isso daí.

– Capitão, esses são procedimentos normais. É para a segurança dos passageiros e da tripulação.

– Falando em tripulação, eu não quero mais aquela aeromoça como chefe de cabine. Minha sobrinha, que está na poltrona 7F, é a nova chefe de cabine.

– Capitão, sua sobrinha trabalha na empresa? Tem os cursos?

– Contrata agora, porra. Contrato temporário. É que eu preciso de alguém de confiança na cabine enquanto eu vou lá fora trocar as turbinas.

– O senhor vai… trocar as turbinas?

– Vou. Elas estão me incomodando ali na asa. Não gosto de turbina zumbindo no meu ouvido.

– O senhor não prefere pousar primeiro para depois trocar as turbinas?

– Não. E quero as turbinas ali na parte de baixo. Naquele lugar ali, como é que chama? Aquele com pneu. Trem de pouso. Isso, quero as turbinas no lugar do trem de pouso.

– Capitão, vai ser difícil pousar sem os trens de pouso. Troque apenas a aeromoça e…

– Droga, tem uma luzinha vermelha acendendo aqui no painel. Ô da torre, como é que eu apago essa luzinha?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

A lição de Ibrahim Sued

Elio Gaspari (*)

Em novembro de 1972 o jornalista Ibrahim Sued lançou seu livro “20 anos de caviar” na pérgola do Copacabana Palace. Barão do colunismo social, reuniu todo o Rio de Janeiro e autografou 1.012 exemplares. As pessoas pagavam pelo livro e o dinheiro era colocado em caixas de charutos.

Quando a festa terminou, Ibrahim entrou no seu carro com as caixas debaixo do braço. A noite havia sido uma consagração daquele turco enorme, criado na pobreza do velho centro da cidade.

Ibrahim saiu do Copa em direção a Ipanema. Em todo o percurso, metia a mão na caixa de charutos e dava um punhado de notas a guardadores de carros ou às pessoas que perambulavam pela Avenida Atlântica.

by Zelda Zonk, desenhista francesa

Um amigo que estava no carro disse-lhe:

– Ibrahim, desse jeito você vai detonar a renda da noite.

O ‘Turco’ respondeu:

– É isso mesmo, o dinheiro tem que circular. Se não circulasse, não chegava a mim.

Quem puder, pode repetir a lição de vida e de ciência econômica de Ibrahim.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 5 abril 2020.

Na pressão

Eduardo Affonso (*)

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição. Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Carta a Regina Duarte

Ruth de Aquino (*)

A Cultura brasileira está órfã. Pior: no governo Bolsonaro, tornou-se uma filha enjeitada, uma inconveniente, uma borralheira, aquela que leva pontapés e ouve grosserias. Cultura engloba artes plásticas, cinema, teatro, balé, literatura, música.

Quando um presidente manda uma repórter calar a boca, ou veta e persegue artistas em nome de Deus e de ideologias, negando-se até a entregar prêmios internacionais, isso não é ser censor. É ser estúpido.

Você jamais se comportaria assim. Não se oporia a entregar o prêmio Camões a Chico Buarque. Acho que se sentiria honrada. Arte acima de tudo.

(*) Ruth de Aquino é jornalista e colunista do jornal O Globo. O texto acima foi tirado de artigo publicado em 24 jan° 2020.