O jogo está feito?

José Horta Manzano

A mais recente pesquisa de intenção de voto para presidente, feita pelo Instituto PoderData, reflete a preferência do eleitorado entre uma paleta de quase dez candidatos – entre declarados e prováveis. Ela mostra, sem surpresa, o Lula bem à frente de Bolsonaro.

A continuar nessa curva ascendente em que já conta com 42% dos votos contra 28% do capitão, o Lula tem condições de reunir um total superior à soma de todos os adversários, o que lhe daria a vitória no primeiro turno.

O eleitorado masculino diverge vigorosamente do feminino. Quase metade das eleitoras (48%) têm intenção de votar no Lula, deixando Bolsonaro com somente 17% das preferências. Quem vir nesse placar o resultado das atitudes misóginas e sexistas do capitão não estará longe da verdade.

Já os homens preferem Bolsonaro. No seio do eleitorado masculino, o triunfo do capitão não é tão espetacular quanto o do Lula entre as mulheres, mas é significativo. O voto dos homens é de 41% para o ex-militar contra 35% para o ex-metalúrgico.

A divisão do Brasil em regiões é um tanto artificial, baseada em limites administrativos (divisas dos estados) e não em limites históricos e socioculturais. O norte do Paraná, por exemplo, é incluído na Região Sul, ainda que sua história e seu desenvolvimento sejam tardios com relação aos estados sulinos, e que seu povoamento se tenha feito a partir do estado de São Paulo. A mesma distorção surge no norte de Minas, zona que compartilha clima e tradições mais com o Nordeste do que com o sul do estado. Há outras distorções.

Isso dito, é o que temos. O levantamento mostra um Lula triunfante no Sudeste e no Nordeste, enquanto Bolsonaro ganha folgado no Norte. Na Região Sul e no Centro-Oeste, os dois empatam. Isso não é de bom augúrio para o atual presidente, visto que o Nordeste e o Sudeste são as regiões mais populosas. Quem ganhar nas duas tem boas chances de ser o próximo presidente.

No corte por escolaridade (fundamental, médio e superior), o Lula deixa Bolsonaro comendo poeira em todas as faixas. O mesmo ocorre no corte por faixas de renda: o capitão perde feio em todas.

Nestas alturas, resta a pergunta: por que, diabos, se dar ao trabalho de votar em outubro, se já se conhece o resultado?

Primeiramente, porque pesquisa pode até influir, mas o que conta é voto na urna – é o que reza a Constituição.

Segundamente, porque muita água há de passar sob as pontes do Norte, do Sul e das demais regiões daqui até lá. Por exemplo:


  • alguém pode adoecer (essa covid anda um perigo);

  • alguém pode falecer (pra morrer, basta estar vivo);
  • alguém pode ficar (ainda mais) gagá, que o Alzheimer não escolhe vítima;
  • alguém pode desistir (não duvide, que tudo é possível na vida);
  • alguém pode acertar no milhar na Paratodos ou vencer uma rifa e decidir se estabelecer nas Bahamas pelo resto da vida.

Enfim, não convém estourar champanhe nenhum por enquanto. Ainda resta a esperança de ver surgir um nome forte alternativo a esses dois fósseis que dominam as pesquisas atualmente. Em princípio, qualquer dos citados na pesquisa seria um caso a considerar.

Moro, Ciro, Doria, Janones, Vieira e Tebet podem não ser nenhuma Brastemp, mas, convenhamos, nenhum deles há de ser pior que Bolsonaro ou Lula.

Brasil vai virar comunista?

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, dizia-se que comunistas eram perigosos porque devoravam criancinhas. Não se espante, distinto leitor, muitos acreditavam nisso. Na verdade, ninguém tinha ideia exata de como era a vida nos países de regime comunista. Pouquíssima informação escapava da URSS de Stalin e da China de Mao. E dos satélites deles, naturalmente.

Em 1989, a queda do Muro de Berlim não só eliminou o muro, mas levantou o véu que encobria os podres do império soviético. Por detrás dos escombros, o mundo pôde constatar o estado de indigência em que viviam os povos castigados pelo comunismo durante 70 anos.

Com isso, na Europa e nas Américas, virou-se a página desse sistema de organização do Estado. Partidos comunistas, que ainda eram fortes na Europa, murcharam. Ficou claro que não havia meio de aquilo dar certo.

A China, contida pela mão pesada do partido único, mantém um comunismo apenas de fachada; na realidade, o nome do jogo é ditadura ultra-autoritária, onde “comunismo” não passa de firula semântica.

Já Cuba é uma excrescência, uma fábrica de pobreza que ainda sobrevive com os euros trazidos pelas hordas de turistas europeus que passam uma semana bronzeando baratinho em Varadero all inclusive. Sem conversar com nenhum nativo, a não ser com os ultravigiados serviçais do “resort”. O regime, mais dia menos dia, desmorona.

Em meados de dezembro passado, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa detalhada. Entre outras questões, quis tomar a temperatura da população e saber que percepção tinham de uma certa “ameaça comunista” constantemente denunciada pelos bolsonaristas.

A pergunta era se o entrevistado concordava ou não com a afirmação de que havia risco de o Brasil se tornar comunista na próxima eleição. Espantosamente, 44% dos eleitores declararam ter esse receio. Do outro lado do espectro, 50% consideram que não há perigo. Sobram 6% que não têm a menor ideia. Considerando que quem cala consente, os que não se pronunciaram podem ser acrescentados aos receosos.

Logo – é espantoso! – metade dos eleitores brasileiros têm algum receio (pouco ou muito, dependendo do grau de adesão às ideias do capitão) de que o país se torne comunista na próxima eleição. Supõe-se que estejam entrevendo a eleição do Lula.

Acho inacreditável que metade dos brasileiros ainda vivam nos anos da Guerra Fria, com os mesmos temores. Esse deve ser o contingente que teme uma invasão da Amazônia com bombas, aeroplanos e tanques de guerra. Decerto os terraplanistas fazem parte da turma. Coisa de louco!

Não é possível que Bolsonaro, apesar de se esforçar durante três anos de diabruras, tenha incutido essas caraminholas na cabeça do povo. Isso tem nome certeiro, uma praga bem anterior à chegada do capitão: é desinformação. O que falta a essa gente é desempoeirar as ideias, abrir-se para o mundo, aprender o que vem acontecendo no planeta no último meio século.

Fica claro que passar o dia grudado no telefone a se divertir com memes, videozinhos, conversas de zap e fake news não dá camisa a ninguém. A raiz do mal está no mesmo lugar de sempre: falta de instrução.

Assessoria indigente

José Horta Manzano

 


Pra que vamos criar problema?


 

O assunto já está na praça há três dias. Tenho de correr pra escrever antes que ele saia da mira. Com o capitão, os escândalos se sucedem, vertiginosos, cada novo episódio condenando o anterior ao esquecimento. A gente tem a impressão de estar sempre correndo atrás pra não perder o bonde.

Sábado passado, o Instituto PoderData publicou o resultado de sua pesquisa sobre a aceitação da vacina por parte dos brasileiros. A pergunta era se o entrevistado já tomou ou pretende tomar vacina contra o coronavírus. Dentre as 3.000 pessoas questionadas – em 489 municípios das 27 unidades federadas ––, somente 2% não souberam ou não quiseram responder à pergunta. As demais responderam afirmativamente. Trocado em miúdos, isso significa que somente 1 em cada 50 habitantes, com 16 anos ou mais, é contrário à vacina. O que se ouviu foi um quase unânime “SIM” nacional.

O povo brasileiro é o mais entusiasta, na América Latina, e quiçá no mundo, com relação à vacina. Dois porcento de ‘vacino-hesitantes’ é praticamente nada. Pode-se concluir que o brasileiro amou a vacina, se jogou em cima dela, abraçou-a, beijou-a, espichou o braço, levou a picada e saiu feliz, pedindo mais.

Dito isso, fica cada dia mais difícil entender o posicionamento do capitão. Não é que, no mesmo sábado em que saiu a pesquisa, ele afirmou ser contrário ao passaporte vacinal exigido de viajantes que chegam do estrangeiro? Soltou frase reveladora: “Pra que vamos criar problema?”

É que, na visão doentia de Bolsonaro, correr o risco de deixar entrar a nova variante mal conhecida do vírus não é problema. Para ele, o verdadeiro problema está em se assegurar que o viajante não está infectado. Pode?

E pensar que, desde que o ser humano vive em comunidade, a função primeira do chefe é justamente a de proteger o grupo. Desde a pré-história, o líder tem sido escolhido por ser capaz de transmitir segurança a seu povo. Bolsonaro prefere importar doença a “criar problema” para viajantes potencialmente infectados.

O capitão não conhece a História da Humanidade. Na escola, pouco aprendeu; durante a vida, nada acrescentou a seu parco capital intelectual. Não consegue se dar conta de que os líderes – bons ou maus – que o povo carregou um dia nos braços foram os que mostraram estar em sintonia com a população. Churchill, Stalin, Hitler, De Gaulle, Mussolini entram nessa conta. Evidentemente, Bolsonaro jamais será membro do clube. Nem dos bons, nem dos maus.

O capitão não perde ocasião pra escancarar sua falta de inteligência. Só dois porcento dos brasileiros rejeitam a vacina. Isso quer dizer que os 10% ou 15% que (ainda) apoiam o presidente já se vacinaram ou pretendem fazê-lo, ou seja, fazem parte do contingente que abraçou a vacina. Ao insistir em se posicionar contra vacina, contra vacinados e contra passaporte vacinal, ele está pisando o calo dos próprios devotos.

Será que ele não tem nenhum assessor menos tapado, capaz de orientá-lo? Parece que não.

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

Tuíte – 21

José Horta Manzano
O Google não mente?

Pesquisas no Google valem o que valem. Não há garantia alguma de resultado acurado. Assim mesmo, ainda que não se possa jurar por elas, sempre dão uma indicação geral.

Acabo de fazer uma experiência caseira. Associei o termo “corrupto” ao nome dos presidentes do Brasil dos últimos 25 anos e chequei no Google quantas menções aparecem. O resultado foi um tanto surpreendente. Eu não teria apostado que aparecessem nesta ordem:

 

Dilma corrupta     :    280’000 menções

FHC corrupto       :    622’000 menções

Temer corrupto     :  1’460’000 menções

Lula corrupto      :  1’880’000 menções

Bolsonaro corrupto : 12’000’000 menções

Interessante, não é? O mais mencionado, vencedor por ampla margem, é justamente o capitão.

O nome de Bolsonaro associado à palavra “corrupto” aparece 6 vezes mais que o nome do Lula nas mesmas condições. E olhe que Lula e Temer passaram pela casa prisão, fato que aumenta a probabilidade de serem vistos como corruptos.

Bolsonaro (ainda) não passou pela Papuda. Talvez um dia. O mundo dá voltas.

Gente mole

José Horta Manzano

Pesquisa publicada ontem pelo Ipec revela que a polarização continua firme no cenário eleitoral. Para as presidenciais de 2022, só dois (presumíveis) candidatos têm chance: Bolsonaro e o Lula. O resto é o resto – um punhado de nomes que, juntos, perfazem 10% do eleitorado.

Me recuso a acreditar que o eleitorado brasileiro se divida entre o antigo presidente (e ex-presidiário) e o atual presidente (e talvez futuro presidiário). Não é possível que, de cada dez cidadãos, somente um recuse dar seu voto a um desses dois políticos de qualidade duvidosa, ambos situados a um passo da prisão (passada ou futura).

Continuo acreditando que nós, aqueles que rejeitamos tanto o demiurgo quanto o genocida, formamos uma maioria silenciosa. Civilizados e discretos, não nos agrada sair em passeata, gritar slogans, segurar faixas, protestar de motocicleta, soltar rojões, vestir como torcida organizada, caminhar enrolados em bandeira. Se isso não aparece nas pesquisas, é porque nenhum nome conseguiu se mostrar suficientemente forte até agora.

Os políticos não bolsonaristas e não lulistas estão dormindo no ponto. O país está num momento crítico. Se eles não se mexerem, nosso futuro periga ser cada vez mais tenebroso. Se o próximo presidente for Lula ou Bolsonaro, qualquer um dos dois, teremos a continuação do desastre atual.

Há pouca diferença entre os dois. São ambos autoritários, incultos, estatizantes, mentirosos, traiçoeiros, populistas, poltrões, corruptos, permissivos. O que os distingue é a psicopatia de Bolsonaro, fator agravante para o desempenho de qualquer mortal.

Se os verdadeiros políticos de oposição – aqueles que se opõem aos dois – não abandonarem vaidades e não se reunirem em torno de um nome comum para enfrentar a ambos, estarão dando a vitória ao Lula, de mão beijada. O barbudinho é sempre melhor que o capitão, mas será que é realmente isso que queremos?

Vacinação – 9 maio 2021

José Horta Manzano

Volta e meia, algum dos luminares do governo se vangloria da rapidez do processo de vacinação anticovid, gargarejando que o Brasil é o 6° país que mais vacinou. Bolsonaro – que justiça seja feita! – escapou dessa. Pela simples razão de ele jamais pronunciar a palavra vacina. Por seu lado, ministros e assessores, que são valentes e não têm medo de agulha, deitam falação. Mas distorcem a realidade.

Com mais de 200 milhões de habitantes (grande parte dos quais espremidos em insalubres megalópoles), é natural que o número de vacinados no Brasil seja expressivo. De fato é. O balanço de 9 de maio indica que quase 47 milhões de cidadãos já receberam pelo menos uma dose do imunizante.

Dito assim, parece enorme. Mas há que relativizar. Esse número milionário representa, na realidade, apenas 22% da população total, ou seja, apenas um em cada cinco habitantes do território nacional recebeu pelo menos uma dose. A imunização avança tímida. Ainda há muito por vir.

Pelo critério de doses aplicadas por 100 habitantes, bem mais realista que números absolutos, o Brasil se classifica em 78° lugar num total de 196 países, com 22,05 doses.

Os primeiros 15 lugares da lista são ocupados por ilhas e pequenos países pouco populosos. Assim mesmo, há alguns “penetras” nessa faixa. Sobressaem Israel, os Emirados Árabes e, surpreendentemente, o Chile, classificado em 12° lugar, com 82,15 doses aplicadas por 100 habitantes.

Reino Unido e EUA, que aparecem antes da 20ª posição, também estão muito bem colocados. Seguem-se os países europeus. Uruguai, onde já foram aplicadas 57,73 doses por 100 habitantes, também merece destaque.

Na faixa em que se situa nosso país – a dos que já aplicaram entre 20 e 30 doses por 100 habitantes –, Turquia, Marrocos, China e Argentina nos fazem companhia.

O que dá angústia é ver países ultrapopulosos como Egito, Congo e Vietnã, cada um com cerca de 100 milhões de habitantes, ainda estacionados nas últimas posições, sem terem aplicado nem uma dose. Perigam tornar-se viveiros de novas cepas, quiçá resistentes às vacinas atuais. Se isso acontecer, o mundo pode ir se preparando para a 4ª onda, a 5ª, a 6ª…

Para quem tiver curiosidade de ver a lista completa, deixei o pdf à disposição aqui, no site deste blogue.

Bolsonaro e a fome

José Horta Manzano

Parece que faz uma eternidade, mas foi em julho do ano passado, não mais que nove meses atrás. A história se passou durante um café da manhã que doutor Bolsonaro ofereceu a jornalistas da imprensa internacional. Naquele tempo, o presidente ainda convidava jornalistas para encontro face a face e ainda se dignava de responder às perguntas.

Quando um dos profissionais levantou o problema da pobreza e da fome no país, o doutor respondeu de bate-pronto: «Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira!» E ensinou que não precisa nem de dados estatísticos; basta prestar atenção no fato de não se ver «gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo».

Duzentos e sessenta dias e uma pandemia depois, muita coisa mudou. Já faz tempo que o doutor deixou de receber jornalistas sérios. Se já não lhe agradava ter de responder a perguntas, hoje agrada ainda menos. De lá pra cá, a pandemia pegou forte, ministros caíram, Trump se foi, o Exército está se esquivando das locuras federais, a aposta no Centrão está se revelando um furo n’água.

Faz alguns dias, o Instituto PoderData publicou pesquisa feita em mais de 500 municípios de todas as unidades federativas. O que se buscava saber era como a pandemia tinha afetado a alimentação dos brasileiros. O resultado é triste de fazer dó.

Adicionando os que têm comido menos que de costume e os que têm passado fome, chega-se a assustadores 36%. Isso significa que 1 em cada 3 brasileiros estão em situação crônica de insegurança alimentar. Com ou sem pandemia. Um em cada três cidadãos!

Pra se dar conta do mundaréu de gente que isso significa, o distinto leitor está convidado a passear a pé pelo centro de sua cidade. Vá andando e observando os que vêm em sentido contrário. E vá contando: ‘este não, este não, este sim. (O sim corresponde aos que estão na corda bamba, sem dinheiro suficiente pra matar a fome hoje.) Pode continuar: ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim. Não é angustiante?

Isso significa que nosso doutor chegou ao mais alto encargo da República sem ter noção do mal maior que aflige o povo que o elegeu. Como ele é meio duro de cabeça, é bem capaz de não ter aprendido até hoje, passados dois anos. Pra dizer a verdade, a vidinha do brasileiro comum não parece fazer parte das preocupações maiores do doutor. Se ele tivesse disposição de cuidar dos que o puseram lá, sua atitude com relação à pandemia teria sido diferente.

Dificilmente quem está lendo este artigo tem ideia do que seja ir pr’a cama com fome. Tirando aquele dia em que o jantar queimou e a pizzaria estava em reforma, nenhum de nós sabe o que significa ter fome crônica, não ter comida suficiente para alimentar a família, ter de pôr as crianças pra dormir com a barriga roncando.

O Lula, sim, sabia o que é passar fome. Quando no governo, criou um arremedo de solução que lhe foi assaz benéfica em termos eleitorais. No entanto, não pôs fim à insegurança alimentar no país. Mitigou o problema, reelegeu-se, fez a sucessora, ficaram 14 anos no poder, mas o problema da fome continua inteiro, exatamente como era antes.

Já Bolsonaro, com o negacionismo que é característica incrustada de sua personalidade, nega tudo o que não lhe convém. Assim como nega hoje a pandemia, negou e continuará negando a fome crônica do brasileiro pobre. Se o problema, para ele, não existe, não há razão para se preocupar com essas miudezas.

Pode ser que, quando Bolsonaro tiver sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional e estiver encarcerado na Holanda, esqueçam um dia de levar-lhe a quentinha. Talvez lhe acuda então à memória o que afirmou aos jornalistas naquele longínquo café da manhã. Ou talvez não queira se lembrar.

O triste destino dos intubados

José Horta Manzano

O Instituto de Pesquisa Poder360 expôs estes dias a elevada taxa de mortalidade dos brasileiros que têm de sofrer intubação em decorrência da covid-19. A letalidade entre os intubados no Brasil foi comparada com a de outros quatro países populosos: Itália, Alemanha, Reino Unido e México.

Constata-se que a mortalidade dos intubados brasileiros é superior à de britânicos e mexicanos, e muito superior à de alemães e italianos. Segundo o comunicado do instituto, as razões pelas quais o quadro é mais grave no Brasil são as seguintes:

1. UTIs lotadas;
2. profissionais sem experiência de intubação;
3. burnout das equipes;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
4. falta de equipamentos;
5. centros médicos sem condições de atendimento;
6. quebra de protocolos de boas práticas.

Todas essas razões parecem válidas. Mas uma coisa não pode ser esquecida: a pandemia não é exclusividade brasileira. O coronavírus pegou o mundo todo de surpresa. Nenhum país estava preparado para lidar com ela. Em nenhum lugar do mundo, hospitais têm pessoal de reserva, treinado para intubação, nem equipamentos sobrando. O esgotamento nervoso (que hoje convém chamar burnout) atingiu todas as equipes, no mundo todo. As UTIs lotaram na Itália, no Reino Unido, no México. Na Europa, pacientes hospitalizados chegaram a ser exportados de um país a outro.

Portanto, as três primeiras razões invocadas atingem o mundo todo. Não sendo especificidade brasileira, não explicam a disparidade no número de intubados mortos.

As três últimas justificativas, sim, aplicam-se particularmente a nosso país. Aqui está a descrição de cada uma delas.

Centros médicos sem condições
Esse problema não começou com a explosão da covid. E, infelizmente, vai durar mais que a epidemia. É vício antigo e recorrente, que vem de muito antes do atual governo. Resulta de uma extravagância brasileira: a de contar com dois circuitos paralelos de saúde, um público e um privado. Trocando em miúdos, a rede pública, financiada por todos mas utilizada apenas pelo povão, é descurada pelo poder público, cujos membros contam com outros canais de atendimento hospitalar.

Quebra de protocolos
Protocolos são feitos para serem respeitados. Só devem ser quebrados em raríssimos casos de força maior. Acontece que a proverbial indisciplina que rege nosso comportamento transforma casos corriqueiros em casos de força maior. Assim, a quebra de protocolos passa a ser corriqueira. O resultado é a desordem.

Falta de equipamentos
Quando estourou a epidemia, nenhum país contava com suficiente quantidade de equipamentos. Em outras terras, o poder público se apressou em encomendar respiradores, máscaras, vacinas, seringas e equipamentos para UTI. O governo brasileiro optou por negar a gravidade da pandemia. Não agiu e preferiu pagar pra ver. Viu.

O exemplo vem de cima
Uma última razão ajuda a explicar o assustador quadro de mortandade dos intubados brasileiros. É talvez o fator que mais pesou. Desde o começo da epidemia, dia sim, outro também, doutor Bolsonaro fez pouco caso da doença, incentivou aglomerações, zombou de máscaras, trovejou contra a distanciação social, combateu a vacinação.

Nem todos os brasileiros são dotados de bom senso. Muitos acreditaram em nosso Napoleão de hospício e acreditaram poder fazer como ele. Em vez de procurar atendimento hospitalar desde o começo da doença, correram atrás de cloroquina e outras drogas milagrosas que compõem o “tratamento precoce” do doutor presidente. Quando, finalmente, foram hospitalizados, já era tarde.

Resumindo, constata-se que a diferença na taxa de mortandade entre o Brasil e os demais países não se explica por fatores como UTIs lotadas, esgotamento nervoso do pessoal, falta de experiência de intubação – que são problemas comuns a todos. A elevada mortandade dos infelizes que tiveram de ser intubados no Brasil prende-se a duas causas principais: a falta de equipamentos e a ingenuidade dos que, tendo acreditado na jactância do presidente, só procuraram o hospital quando a doença já se havia instalado firme e forte.

A tristeza maior é entender que, tivesse o governo federal agido com bom senso e boas intenções, esse morticínio poderia ter sido mitigado. Ora sabemos que, no Brasil, intubação é praticamente sentença de morte.

Popularidade

José Horta Manzano

Semana sim, outra também, nova pesquisa de popularidade presidencial circula na praça. Olha só, a popularidade subiu! Veja, a popularidade baixou! Ih, agora parece que tem mais gente gostando dele! Nossa, se ele continuar descendo desse jeito, vão lhe cassar o mandato antes do fim do ano!

Não sou especialista em pesquisa de opinião. Assim mesmo, acredito que sondagens são o que se costuma chamar de «retrato do momento»; pelo menos, é o que garantem os pesquisadores. Os institutos são bem claros ao explicar que ‘se a eleição fosse hoje’, a tendência seria esta ou aquela. Como a eleição não é hoje, o valor dessas pesquisas é bem relativo. Em outras palavras: o que vale hoje pode não valer mais nada amanhã.

Mas o que me surpreende é outra coisa. Eu me pergunto como é que a aprovação do trabalho do presidente pode seguir num ritmo de ioiô, que hoje sobe, amanhã desce, pra depois subir de novo e baixar em seguida. Como é que pode? Será que a população é assim volúvel?

Cada um tende a medir o mundo com a própria régua. No caso de Bolsonaro ou do Lula, por exemplo, já me convenci de que são ambos gente que não presta, que não serve para cargo político; são gente que eu não gostaria, aliás, de ver em cargo público nenhum. Portanto, minha aprovação será sempre negativa e não mudará nem amanhã, nem no ano que vem, nem no dia da eleição. Nem que venham com asas nas costas, tocando lira e cantando louvas ao Senhor.

Abro um parêntese. Só votaria num deles se fosse pra evitar a eleição do outro. Exemplo: pra rejeitar Bolsonaro, votaria até no Lula. Mas isso não é oscilação de humor, é estratégia.

Curiosamente, me dou conta de que nem todos pensam assim. Ah, o ser humano é diverso! Muita gente oscila, a depender dos últimos acontecimentos. Veio o auxílio emergencial? Adoro o presidente! Não veio o auxílio? Detesto o presidente! Ele fez um discurso bonito? Adoro o homem! Falou palavrão? Destesto (ou amo) aquele sujeito!

Enfim, ainda bem que as pessoas são todas diferentes umas das outras. Se a opinião de todos fosse sempre a mesma e sempre imutável, o mundo seria bem monótono.

Ódio à ciência

José Horta Manzano

Artigo do jornalista Vinicius Sassine, publicado no Estadão, dá a informação:

«O governo Jair Bolsonaro cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos destinados à pesquisa científica. A medida afeta principalmente as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz no combate à pandemia da Covid-19. Em 2020, o valor foi de US$ 300 milhões. Para 2021, serão apenas US$ 93,3 milhões.»

O distinto leitor leu corretamente. No meio da epidemia mais grave que o país já enfrentou, quando o pouco que temos de institutos de pesquisa se descabelam pra tirar do chapéu uma solução para prevenir o alastramento da doença, doutor Bolsonaro gira a faca na ferida. Cortou mais de 2/3 dos incentivos que deviam beneficiar a pesquisa.

Ele segue firme e bate o pé. Odeia a ciência. E continua apostando na derrocada do país. Em sua cabecinha, sobrevive a ideia fixa: com a nação em ruínas, montanha de mortos, caos total, ele se atribuirá plenos poderes e se tornará o salvador da pátria.

É por caminho semelhante que ditadores subiram ao trono. Napoleão se aproveitou do caos provocado pela Revolução Francesa. Josef Stalin valeu-se da bagunça que se seguiu à Revolução Bolchevique. Adolf Hitler surgiu das cinzas da Alemanha derrotada e humilhada em 1918. Só que tem uma diferença importante. Todos esses ditadores cresceram de um desmoronamento que não tinha sido provocado por eles. Já nosso doutor procura, por conta própria, provocar esse desmoronamento.

Essa teoria é a única que explica tim-tim por tim-tim todas as suas atitudes que, à primeira análise, parecem desconjuminadas e incompreensíveis. No delírio presidencial, há método.

A meu ver, a sua destituição não deveria passar pelo impeachment, caminho pedregoso e incerto; ele devia mesmo é ser interditado. Tinha de sair do Planalto direto para o hospital psiquiátrico. Lugar de Napoleão de hospício é o hospício.

Coronavoucher

José Horta Manzano

O Instituto PoderData publica sua mais recente pesquisa sobre a percepção do eleitor quanto ao trabalho de doutor Bolsonaro. A opinião de 2500 cidadãos representativos da população brasileira, distribuídos nas 27 unidades da Federação, é incontestável: a popularidade do doutor cai. As curvas se cruzaram, mostrando que a desaprovação (48%) supera a aprovação (42%).

Analistas atribuem a queda de aprovação a diversos fatores. Entre eles, está a chegada da vacina, fato que contraria a postura de um Bolsonaro descaradamente hostil, sobretudo em se tratando da vacina chinesa. O crime do Carrefour é outro acontecimento que, tendo em vista o silêncio do presidente, convence o eleitor de que o governante é racista, ensimesmado e distante do país real. Por último, o mais importante: o fim anunciado do coronavoucher.

O fracasso de quase todos os candidatos a prefeito apoiados pelo presidente já era sintoma do declínio de sua influência – se é que um dia ela foi benéfica. Ao fim e ao cabo, vai ficando claro que a subida do nível de aprovação é que foi o ponto fora da curva. Bolsonaro está retornando ao fundo das estatísticas. A Lei da Gravitação, cláusula pétrea da Constituição do planeta, ensina que tudo aquilo que sobe acaba descendo um dia.

Coronavoucher
Quando a situação aperta e o fim do mês está longe, o funcionário pede um vale por conta do salário. O passado recente da nação está salpicado de outros vales: vale-transporte, vale-gás, vale-brinde, vale-refeição.

Curiosamente, na hora de dar nome ao auxílio especial ligado à epidemia, poucos disseram vale-corona. A expressão que se firmou foi coronavoucher. Minha hipótese é de que o termo coronavírus, já no ouvido de todos, terá contaminado.

Voucher era um verbo do francês medieval, usado em textos administrativos. Significava chamar, dar nome a e tinha as formas vochier/vogier. Nos anos 1300, atravessou o Canal da Mancha e foi enriquecer o inglês.

É interessante que o termo desapareceu da língua francesa, enquanto permanece vivíssimo em inglês. O pai de família é o verbo latino vocare. Em nossa língua, temos numerosos descendentes: vogal, vocábulo, vocação, advogado, convocar, evocar, invocar, provocar, revogar, equívoco, provocação. Há inúmeros outros.

Aprovação presidencial

José Horta Manzano

O Brasil é um poço de problemas. É um pote até aqui de injustiça, desigualdade e desesperança. Como resolver? Nada é impossível, mas a tarefa é gigantesca. Seria coisa pra duas ou três gerações. Essa conta só vale se houver verdadeira vontade. Como sabemos, verdadeira vontade não há. Portanto, nada vai começar a mudar. Vamos continuar esperando o messias, que esse que está aí não serve.

Toda e qualquer tentativa de esvaziar o poço de problemas e de elevar o nível civilizatório das gerações futuras passa obrigatoriamente pela educação. Não é razoável nem necessário exigir que todos recebam formação acadêmica; escola fundamental já está de bom tamanho, desde que a instrução seja de boa qualidade.

Se alguém ainda duvidava que uma pessoa instruída enxerga o mundo com outros olhos, eis um cala-boca: a mais recente pesquisa do Instituto Atlas. A sondagem, que acaba de ser publicada, constata que 56% da população reprova a atuação do presidente Bolsonaro, enquanto 40% a aprovam.

Esse é o número total, o somatório de todos os entrevistados. Veja agora a diferença que um pouco de estudo faz na capacidade de entendimento de cada um. Dos que fizeram curso superior, 70% reprovam o presidente, enquanto 30% aprovam (ou não respondem). Na outra margem, entre os que não foram além do ensino fundamental, as proporções praticamente se invertem: 60% o aprovam, enquanto 40% desaprovam (ou não sabem).

O distinto leitor sabe que o doutor é um estropício, uma pedra no caminho do Brasil, um prenúncio de tempos ainda mais difíceis que os atuais. Mas essa clareza de visão é privilégio de quem recebeu boa formação – aquela que abre as portas para a boa informação.

Nos tempos do lulopetismo, ainda havia a desculpa da ideologia – muitos se recusavam a admitir que os elevados ideais eram anulados pela vil roubalheira. Hoje, essa desculpa desapareceu. Ideologia não há, o que há é a ignorância rasteira de um governo que está mais para associação mafiosa. Só não se dá conta quem não consegue.

Meio cheio, meio vazio

José Horta Manzano

É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.

As últimas pesquisas de popularidade indicam que cerca de 35% dos eleitores consideram o governo de doutor Bolsonaro ótimo ou bom. Devotos do clã presidencial exultam. Que sucesso! É o copo meio cheio.

De um ponto de vista menos fanático, percebe-se que, se 1/3 dos pesquisados considera o governo ótimo ou bom, 2/3 não o consideram nem ótimo, nem bom. Portanto, os descontentes são dois em cada três. Para um satisfeito, há dois insatisfeitos! O dobro! É o copo meio vazio.

Os fanáticos precisam baixar a bola, que não há razão pra tanta euforia. Dizem que o Lula chegou a 80% de popularidade – um nível soviético que me deixa meio desconfiado, mas é o que ficou registrado. Pois bem, se o Lula bateu nos 80% e o Bolsonaro não consegue chegar aos 40%, ainda tem muito chão pela frente. Por enquanto, não há o que festejar. E tomara que nunca haja.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

Cloroquina

José Horta Manzano

Algo fora de série está acontecendo. Um fármaco do qual ninguém tinha ouvido falar até um mês atrás caiu na boca do povo. Seu uso está no centro das discussões. Cresce o bate-boca entre a ala dos ferventes admiradores e a dos acalorados oponentes. Tanto os bem informados quanto os que se empapam unicamente em redes sociais, todos têm uma opinião sobre o sulfato de hidroxicloroquina, cloroquina para os amigos. Só que tudo o que se tem dito sobre o uso de cloroquina em pacientes com covid-19 é, por enquanto, puro achismo, que não combina com ciência.

Esse remédio vem sendo receitado há mais de meio século em infectologia e reumatologia. Trata, entre outras afecções, doenças reumáticas, lupus eritematoso e certos tipos de malária. A cloroquina arrasta uma lista robusta de contraindicações; também tem alto risco de interação danosa com outros fármacos. É aquele tipo de remédio que o médico receita como derradeiro recurso, quando o paciente não respode a outras moléculas.

Docteur Raoult, médico que exerce no sul da França, confessa ter administrado cloroquina a todos os seus pacientes com covid-19. Assegura que noventa e tantos porcento deles se curaram. Isso tem criado polêmica e dado muito que falar na França. Profissionais que acompanharam o experimento revelam que a maioria dos pacientes tratados por docteur Raoult estava fora de todo grupo de risco: eram jovens e sem doença crônica; portanto, era gente que se teria curado de qualquer maneira, com ou sem cloroquina. Além disso, a amostragem é pequena demais. Fica a dúvida.

Os hospitais suíços estão administrando esse fármaco a 50% dos internados com covid-19. Ainda é cedo, mas dentro de algumas semanas já deveremos ter o resultado de um teste que não ousa dizer seu nome. A cloroquina vem sendo sistematicamente receitada em associação com um ou mais remédios.

Este blogueiro, que não é médico nem pesquisador, se abstém de aderir ao bloco dos admiradores ou ao dos oponentes. Que os pesquisadores pesquisem e que os médicos receitem. Metade da população mundial está, em maior ou menor grau, confinada. Metade da humanidade! Pois deixe estar. Médicos, hospitais, institutos de pesquisa, laboratórios do mundo inteiro estão buscando a cura da covid-19. Cada um deles gostaria de alcançar a glória de poder declarar: «Encontramos o remédio que cura!».

Que o distinto leitor não se preocupe. Assim que descobrirem o remédio milagroso, seremos informados na hora. O que fica esquisito, de verdade, é o presidente de um país, que não é médico nem nada, vestir-se de garoto propaganda de um fármaco cuja eficácia para a covid-19 ainda está em estudo. Tirando a militância digital, que engole tudo sem refletir e faz tudo que Seu Mestre mandar, os demais brasileiros se perguntam: «Mas por que, raios, ele insiste tanto com isso?».

Resposta clara, não há. Há uma suposição: a de que ele tenha sentido sintomas da doença e feito um teste; assim que soube que tinha dado positivo, tomou esse fármaco; os sintomas desapareceram, e ele atribui o milagre ao remédio. Essa hipótese explica por que o homem dá uma de valentão e se expõe tanto. Explica também por que o general Heleno abandonou a quarentena. Sabem de uma coisa? Com tanto tagarela que há no governo, qualquer hora a verdade aparece.

O déficit presidencial

José Horta Manzano

A cada dia que passa, fica mais evidente o déficit de inteligência que acomete nosso presidente. Sua persistência em cometer bizarrices não provém de sua posição à esquerda ou à direita; nem dos conselhos do guru boca-suja ou dos filhos destrambelhados; nem da síndrome do parvenu que subiu rápido demais; nem da paranoia que o domina. Tudo o que mencionei não é causa, mas consequência. A causa de tudo é seu déficit de inteligência; em língua de casa, é burrice mesmo.

No trato que doutor Bolsonaro tem dispensado ao ministro da Saúde, salta aos olhos sua incapacidade de entender o que se passa a seu redor. Já faz dias que as pesquisas de opinião do Datafolha e do Ipesp/XP mostram que a população aplaude o trabalho do ministro, ao mesmo tempo que reprova a ação do próprio presidente.

Ciente da situação, doutor Bolsonaro age como barata: morde e assopra. De manhã, afaga o ministro; à tarde, dá-lhe uma fenomenal desancada. Tenta, sem sucesso, semear intriga entre o ministro e a população. Promete demiti-lo, mas, no último minuto, se acovarda e passa pomada. Não se dá conta de que, agindo assim, propulsa a popularidade do ministro às alturas e empurra a sua para baixo. Cada viravolta se traduz pelo acréscimo de pontos à popularidade do ministro – e, inversamente, pela queda do placar do próprio presidente.

Isso não é estratégia; é sinal de burrice. Sem perceber, doutor Bolsonaro está dando enorme contribuição para a popularidade de um ministro sensato e simpático. Sem se dar conta, está fabricando o adversário que poderá enfrentá-lo em 2022, com boas chances de vencer. Se o doutor continuar presidente até lá, naturalmente.

A força do Congresso

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 dezembro 2019.

A névoa de destempero que envolve nosso bizarro presidente e seus áulicos é tão fora dos padrões que embaralha as cartas do jogo político. Notícias de velhos e obstinados ‘malfeitos’ atribuídos a membros do clã se embolam com a belicosa verbosidade presidencial para tecer o enredo do angustiante drama que continua em cartaz no Planalto. Faz um ano que analistas de alto estofo tentam – sem sucesso – decifrar o indecifrável. Nada de significativo ressalta das atividades presidenciais senão vingança, mesquinhez, paranoia. O prato feito que nos é servido todos os dias é sempre o mesmo. Fica a impressão de que, se alguma coisa ainda caminha no país, é por inércia ou por obra samaritana de funcionários dedicados.

A permanência, no mando, de mentes perturbadas monopoliza a atenção da nação. O espalhafato da cúpula manda pra escanteio tudo o mais. É pena porque dá recado distorcido. Embora não pareça, o clã do Planalto não segura sozinho as rédeas do país. Para o que der e vier, está aí o Congresso, sustentado por naco robusto do voto dos brasileiros.

No entanto, recente pesquisa do Instituto Datafolha atesta que só 14% dos que votaram nas últimas eleições avaliam positivamente o Congresso atual. E pensar que a legislatura deu partida há um ano justinho, com eleitos que sequer cumpriram o primeiro quarto do mandato. O motor ainda nem esquentou e Suas Excelências já rolaram para o vale dos enjeitados. Apenas 1 em cada 7 brasileiros vê Senado e Câmara com bons olhos. Como é possível? Os cidadãos nem bem elegeram seus representantes, e já se declaram arrependidos. É difícil de entender. Abstenção maciça ou número expressivo de votos nulos e brancos seria uma explicação. Mas os eleitores brasileiros votaram em massa. Exprimiram-se. Um ano depois, já foi tudo por água abaixo? Sozinha, a monopolização da cena política pelas estrepolias do Planalto não explica o desamor.

A mesma pesquisa informa que, às vésperas da inauguração da atual legislatura, 56% dos eleitores botavam fé nos parlamentares. A queda brutal, em um ano, de 56% para 14% só tem uma explicação plausível: os eleitores votaram às cegas, sem saber direito quem estavam elegendo. Sabe-se que, no geral, o eleitor brasileiro não se lembra do nome dos candidatos em que votou; mesmo que se lembrasse, não poderia ter certeza de que seu voto beneficiou realmente o candidato escolhido ou se foi sequestrado e desviado para a sacola de um desconhecido.

Voto distrital: representação artística

Nosso sistema eleitoral é viciado. O voto proporcional foi pensado para um cenário de partidos fortes. Não é nosso caso. O panorama partidário está esfarelado em uma torrente de agremiações, algumas minúsculas. Ideologia e propósitos tendem a ser pouco claros. Num quadro fragmentado a esse ponto, ‘dono’ de partido nanico sonha em conseguir a afiliação de um figurão de renome – futebolista, artista, pouco importa, desde que seja conhecido. Será o puxador de voto. A montanha de sufrágios que receber elegerá figuras desconhecidas, que perigam engrossar o baixo clero. E o eleitor, sem se dar conta, terá sido defraudado.

Fora do voto distrital puro, não há solução. Com ele, as vantagens serão múltiplas: proximidade entre eleitor e eleito, forte tendência ao desaparecimento de siglas de aluguel, enxugamento da fragmentação partidária. Cada um saberá sempre quem é SEU deputado, aquele que representa seu distrito de residência, o que facilita a cobrança. Outra consequência benéfica será o barateamento das campanhas, pois cada candidato se limitará a vender seu peixe dentro do próprio distrito. E mais: a falta de um deputado provocará eleição parcial somente naquele distrito, eliminando a figura esquisita do suplente.

Em períodos turbulentos como este que atravessamos, em que a Presidência derrama decretos desvairados a três por dois, sobressai a importância de um legislativo esclarecido e competente. Juntos, os parlamentares têm mais força que o presidente. Podem fazer a lei, desfazê-la e até derrubar vetos presidenciais. Oxalá a introdução do voto distrital puro intervenha rapidamente. É aprimoramento republicano bem-vindo. Feliz ano-novo a todos!

O adversário maior

José Horta Manzano

Ainda é muito cedo pra pensar na próxima eleição presidencial. Até lá, muita água ainda há de passar pelo Amazonas e, espera-se, também pelo canal de repartição do São Francisco. Ainda assim, se nenhuma catástrofe ocorrer no meio do caminho, o maior adversário de doutor Bolsonaro para a reeleição chama-se Sergio Moro.

Recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha constata que a popularidade do ex-juiz é inabalável. Nada parece capaz de derrubá-lo. As revelações sobre conversas inadequadas não degradaram sua imagem. A fritura intermitente a que é submetido pelo presidente tampouco arranhou o elevado conceito em que os brasileiros o têm. Imperial, Moro continua lá no topo. Em matéria de simpatia, deixa o presidente comendo poeira: sua popularidade estacionou 25 pontos à frente da do chefe.

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Bolsonaro está numa sinuca cabeluda. Se conservar Moro no cargo de ministro, estará garantindo fabulosa vitrine ao ex-juiz que, humilhado ou não, continuará no noticiário. Se o demitir, perderá apoiadores e será apupado pelos brasileiros, que enxergam no ex-magistrado caçador de corruptos o garante da lisura da Presidência. Manter Moro na fritura não adianta nada, que sua popularidade parece blindada.

Doutor Bolsonaro só tem uma maneira de afastar Moro do caminho. (Eu até nem deveria dizer estas coisas aqui. Não acredito que o presidente seja leitor do blogue, mas… nunca se sabe.) O único jeito de neutralizar a ameaça é nomear Moro para o STF. Em 2020, uma vaga vai surgir. Que Bolsonaro aproveite a ocasião e esqueça essa bobagem de indicar ministro «terrivelmente evangélico». Dê a cadeira ao ex-juiz.

Se fizer isso, auferirá vantagem múltipla. Contentará a todos os que simpatizam com Moro. Não ferirá a imagem de probidade do Executivo. Asfaltará o caminho que o pode levar à reeleição. E terá, no STF, um integrante que lhe deve favores – o que pode ser uma mão na roda para quando ele deixar a presidência e começarem a surgir os inevitáveis processos.