O mais corrupto

José Horta Manzano

O Instituto Ipsos, gigante de origem francesa especializado em pesquisa de opinião, fez uma sondagem centrada na percepção que têm os brasileiros da Operação Lava a Jato em geral e de Lula da Silva em particular.

As perguntas foram feitas a 1.200 adultos no fim de semana passado. O entrevistador leu uma série de frases e perguntou ao entrevistado se concordava ou não com cada uma delas.

A frase que mais me chamou a atenção foi a seguinte: «A Lava a Jato está mostrando que Lula é mais corrupto que os outros políticos». Olhe que a afirmação é forte e ousada. Não declaram que o Lula é tão corrupto quanto os outros, mas que é mais corrupto que todos os outros. É pesado!

Pois imagine o distinto leitor que 44%(!) dos entrevistados concordou com a afirmação. Enquanto isso, 5% ficaram na dúvida e 51% discordaram. Somando os que concordam com os que ainda não sabem direito, chegamos praticamente à metade da população. E tem mais. Dos que discordaram, não ficou claro se acreditam que Lula da Silva seja honesto ou tão corrupto como os demais políticos.

Metade dos brasileiros acredita que o Lula seja mais corrupto que os outros políticos, veja só… E era esse senhor que queria voltar à presidência? Supondo que se candidatasse e, por desgraça, chegasse ao segundo turno, é garantido que perderia a eleição, fosse quem fosse o adversário. Com essa fama de ladrão que lhe cola à pele, perderia até para um Bolsonaro.

Com informações do Estadão, 14 abr 2018.

Programa vazio

José Horta Manzano

Fico impressionado com a desenvoltura com que cidadãos se apresentam como candidatos ao mais alto cargo do Executivo. Não passa uma semana sem que novo nome venha se juntar à lista de «presidenciáveis». Justiça seja feita, alguns nomes são lançados ao vento à revelia do interessado principal. É o caso do juiz Sergio Moro. Embora o homem já tenha declarado que não se candidatará, seu nome continua aparecendo em dez em cada dez pesquisas.

Entre os possíveis candidatos, estão as incontornáveis velhas raposas da política coronelista, um antigo ministro do STF, um apresentador de tevê, um militar reformado, um antigo presidente da República, um governador de estado, um prefeito de capital, sem contar deputados e senadores pouco expressivos. Alguns juram de pés juntos que não se apresentarão. Outros preferem não confirmar nem negar, muito pelo contrário.

O que me deixa perplexo é que nenhum deles trouxe a público um programa de governo completo e coerente. Como sabe o distinto leitor, em nossa República, o presidente tem atribuição dupla: é, ao mesmo tempo, chefe de Estado e chefe do governo. Entre suas atribuições está, portanto, imprimir as diretivas mestras à condução da política nacional. O rumo do país depende, em larga medida, de sua visão.

Dirigir os destinos de duzentos milhões de compatriotas não é algo que se improvise. É atividade que demanda preparação minuciosa, planos apurados, projetos bem estruturados. No entanto, não é o que se vê entre os pré-candidatos. Passam o tempo a criticar-se mutuamente. Juntam-se todos para atirar pedras no governante atual. Essa é a parte fácil. Do mais difícil, que é mostrar seu programa de governo, esquivam-se todos. Lançam uma ideia aqui, outra acolá, mas não passa disso.

by Angel Boligán Corbo (1965-), desenhista cubano

Nas pesquisas, ouve-se que doutor Joaquim Barbosa subiu, que doutor Luciano Huck tem chances, que doutor Ciro Gomes isso, que o Lula aquilo, que doutora Marina sei lá mais o quê. São apenas palavras jogadas no ventilador. Qual é o programa de cada um desses personagens? Caso sejam eleitos, que pretendem fazer? Quando tiverem tomado posse do trono, qual será o passo seguinte?

Enquanto presidentes e outros dirigentes continuarem a ser eleitos sem programa claro e definido, apoiados apenas por marketing e slogans, não há esperança de escolhermos gente séria, competente e bem-intencionada.

Todos culpados

José Horta Manzano

O Instituto Ipsos, especializado em pesquisa de opinião, testou a percepção que os brasileiros têm de 20 personalidades. Foram escolhidos 19 personagens políticos ou da alta administração. Para completar os 20, selecionaram ‒ sabe-se lá por que razão ‒ um homem de televisão.

Pesquisa Ipsos – Infográfico Estadão
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Excluindo justamente o homem de televisão, todos os personagens são mais rejeitados que aprovados. Não sobra nenhum. Os entrevistados torcem o nariz para todos eles, sem exceção. Começa com doutor Michel Temer, alvo da desaprovação mais eloquente, e vai até doutor João Doria, que recolhe a rejeição menos brutal. A desaprovação de doutor Aécio é fenomenal. Há que reconhecer que aquele que recolheu metade dos votos nas mais recentes eleições presidenciais foi o que mais decepcionou. É mais repelido que o próprio Lula, que, por sua vez, é mais rejeitado que doutor Bolsonaro.

Nota-se que algumas figurinhas carimbadas da política ficaram fora do questionário. Penso em doutor Maluf, doutor Sarney, doutor Collor, dona Marta Suplicy. Enfim, a selva de gente enrolada com a justiça ou com a opinião pública é tão densa que fica difícil estabelecer uma lista.

O mesmo instituto testou também a aprovação popular de sete figurões da Justiça tomados ao acaso. (Ou, talvez, não tão ao acaso assim.) No topo da desaprovação, aparece doutor Gilmar Mendes. Doutor Sergio Moro é quem sai melhor na foto. Surpreendentemente, medalhões como doutores Lewandowski e Toffoli não entraram na seleção.

Pesquisa Ipsos – Infográfico Estadão
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Ao fim e ao cabo, que me perdoe o distinto leitor pela vulgaridade, fica a impressão generalizada de saco cheio. Dado que boa parte dos entrevistados não deve ter ideia precisa de quem possam ser doutores Paulo Skaf, Tasso Jereissati ou Nélson Jobim, é de acreditar que a reprovação vale para todos. Parafraseando George Orwell, fica assim: embora alguns sejam mais culpados que outros, no fundo, são todos culpados.

O rodamoinho da corrupção traga todo o andar de cima, que sejam culpados, condenados, suspeitos ou juízes. Sobra para todos. Só não será reprovado… quem não for mencionado.

Observação
Seria extremamente interessante se a pesquisa tivesse ido mais fundo. Deveriam ter perguntado a razão da aprovação (ou desaprovação) de cada nome citado. Do jeito que está, embora pareça espetacular, a análise dos resultados não permite ir além de conjecturas.

Um resultado, duas análises

José Horta Manzano

Saíram esta semana os resultados de extensa pesquisa feita no Brasil pelo instituto Ipsos, de origem francesa. A sondagem avalia a percepção que o eleitorado brasileiro tem da política em geral e do momento atual em particular.

Perguntas referentes a doutor Temer, a doutora Dilma, a deputados e senadores são inevitáveis. As respostas mostram que o eleitor não vota nem avalia com o cérebro, mas com o fígado. Tem até os que julgam com o estômago. De fato, com o país atravessando momento difícil, com aumento de preços e queda na oferta de empregos, a população tende a culpar os dirigentes de turno. Ainda que não tenha responsabilidade direta sobre a situação atual do país, doutor Temer encarna o vilão da novela.

É interessante notar que cada analista enxerga nos resultados aqueles que vão de par com suas próprias convicções. Passando por cima das respostas que não lhe agradam, cada um dá ênfase aos resultados que vão ao encontro de suas teses. Senão vejamos.

O Estadão, jornal que nunca escondeu sua oposição à visão de mundo lulopetista, focalizou sua análise na ojeriza crescente inspirada pelos políticos. Destacou o fato da rejeição que atinge a totalidade dos políticos. Mencionou que, de cada quatro brasileiros, três são contra o voto obrigatório. Tece outras considerações sem se deter ao modo de governar de doutor Temer. Acrescenta que os brasileiros não se sentem representados por nenhum político.

Já o portal Gente de Opinião, que mostra simpatia para com o lulopetismo, analisa os resultados de outro jeito. Destaca que a democracia não é respeitada e explica que isso era previsível «desde que um impeachment afastou a presidente legítima e permitiu que o poder fosse usurpado (sic) pelo vice Michel Temer, que a traiu». Diz também que noventa e tantos porcento dos eleitores não se sentem representados por «Temer e sua turma».

Ao final, a gente fica pensativo. Pra que servem mesmo essas sondagens? Cada um vê o que quer ver, entende o que quer entender, analisa como lhe convém, chega à conclusão que lhe apraz. Eta, mundão grande… e hipócrita!

O Lula e as pesquisas

José Horta Manzano

Doutor Mauro Paulino, diretor do Datafolha (instituto de pesquisa de opinião cujo renome dispensa apresentações), deu entrevista à revista Valor. Declarou textualmente:

«Lula passou pelo mensalão e se reelegeu em 2006. Passou pelo farto noticiário negativo da Lava a Jato e permanece em primeiro, com 30%. Se for condenado [pelo TRF4], pode ser identificado como vítima, o perseguido».

À primeira leitura, sua declaração choca. Deixa a impressão de que o diretor realmente acredita que o eleitor brasileiro escolhe candidato por compaixão. Quanto mais coitadinho for, mais chance terá de ser eleito.

Como não posso crer em tamanha ingenuidade de diretor de instituto tão conhecido, privilegio uma segunda hipótese ‒ bem mais sutil. Para começar, o diretor insiste em ressaltar o resultado de sua sondagem para o primeiro turno, escamoteando a evidência de que o ex-presidente não venceria eventual segundo turno em nenhum dos cenários.

Em seguida, percebo um recado astucioso dirigido ao tribunal que vai julgar o Lula em segunda instância. Doutor Paulino não ousa dar instruções aos magistrados, mas adverte subliminarmente que, caso a condenação seja confirmada, o ex-presidente ganhará força e poderá voltar à presidência, coisa que ninguém de bom senso quer.

A declaração flutua entre apelo e ameaça e deixa no ar desconfortável sensação de ambiguidade. Para mim, não faz senão reforçar a impressão de que determinadas pesquisas parecem cronicamente tendenciosas. Errar, todos os institutos erram, é inevitável. Ressaltar certos pontos dos resultados e minimizar outros já é outra coisa.

Il gelo che dà foco

José Horta Manzano

No segundo ato da ópera Turandot, última obra de Giacomo Puccini, os libretistas inseriram um verso que diz: «il gelo che dà foco» ‒ o gelo que dá fogo.

Na ópera, é mera imagem poética. Em nosso país, é a dura realidade. Não fosse trágico, seria cômico.

Chamada Folha de São Paulo, 1° maio 2017

Tempo de chutar todos os baldes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para meu supremo desgosto, pareço ter me transformado em uma espécie de Mãe Dinah de segunda classe. Ultimamente tenho tido visões catastróficas às dezenas, pressentimentos esdrúxulos e premonições que me enchem de pavor ainda que nem sempre se concretizem. Quando minhas previsões pessimistas falham, não sinto pudor em alegar que o mal foi desviado graças a meu poder espiritual. Em última instância, culpo minha própria incapacidade de decodificar de maneira correta as mensagens recebidas de meus guias.

Ainda ontem tive um pesadelo que me deixou abalada o dia todo. Nele, encontrava na rua o marido de uma amiga. Ele estava de pé, descontraído, parado em frente a um ponto de ônibus, visivelmente mais magro. Recentemente, essa amiga tinha me confidenciado que ele estava muito doente e havia se mostrado abatida com as frágeis perspectivas de solução do quadro médico. Embora eu e ele tenhamos conversado poucas vezes e somente sobre temas do cotidiano, no meu sonho ele parecia feliz por me reencontrar e mostrava-se confortável na minha presença, como se fossemos velhos amigos. Olhando para sua figura serena e percebendo a luz que emanava de seu rosto sorridente, perguntei como tinha evoluído seu quadro de saúde. Ele me olhou confiante e respondeu: “Ah, muito bem! Alcancei tudo o que eu queria”.

freud-1Ao acordar, me perguntei se o sonho podia ser interpretado como sinal de bons presságios ou se tudo não passava de uma forma de ele me usar como mensageira de seu último desejo de tranquilizar o coração da companheira. Passei o dia tentando espantar as nuvens sombrias da segunda alternativa, sem sucesso. Me intrigava a sensação de coração apertado diante de uma situação que não me dizia respeito diretamente, envolvendo pessoas com quem não tenho muita intimidade.

Recorri a Freud na tentativa de descortinar as motivações inconscientes que estavam em jogo. Se, como dizia o velho Sigmund, os sonhos são a realização distorcida de um desejo, quem ou o que eu estava querendo matar? A opressão masculina, a fé nos milagres, a desconfiança da capacidade humana de amorosidade duradoura ou, quem sabe, o poder da intuição feminina? Seja como for, nenhuma das interpretações possíveis me convenceu. Apelei ao plano espiritual. Acendi uma vela e rezei pedindo iluminação.

Também não resolveu. Embora me sentisse um pouco mais tranquila, fui me deitar ainda abrigando no peito a sensação de impotência para alterar os rumos de qualquer coisa, fosse o de minha vida ou o de qualquer outro destino. A última coisa que ouvi antes de fechar os olhos foi o relato da apuração dos votos da eleição presidencial em alguns Estados americanos.

Por volta das quatro horas da madrugada, despertei num pulo, com o coração batendo apressado e angustiado. A primeiríssima ideia que cruzou meu cérebro foi: Donald Trump ganhou as eleições! O pensamento me encheu de pavor: tinha o gosto de pesadelo inaceitável, era como estar vivendo os minutos que antecedem a declaração da Terceira Guerra Mundial. Em segundos, percorri mentalmente as reações inflamadas dos líderes dos países mais influentes do globo. Cenas de guerra, terrorismo, destruição ambiental, caos econômico, intolerância religiosa, milhões de pessoas protestando nas ruas, tudo veio à tona de forma devastadora.

cama-1Ainda tentei me confortar, dizendo para mim mesma que imaginar toda essa catástrofe podia ser mera decorrência de uma crise de hipoglicemia. Para quem nunca passou pela experiência, explico: quando falta glicose na corrente sanguínea, o cérebro chama para si os últimos resíduos na tentativa desesperada de preservar a si mesmo. As consequências são apavorantes: taquicardia, tremores incontroláveis por todo o corpo, suor frio e sensação de morte iminente.

Levantei, fui à cozinha, tomei água e comi tudo que pudesse rapidamente se transformar em açúcar. Não adiantou. Arrepios continuavam a percorrer minha coluna e a sensação de desamparo não me deixou. Voltei para a cama e me encolhi, agarrada às cobertas, como se elas fossem uma espécie de tábua de salvação. Demorei a retomar o sono e, para espantar a angústia, fiz mais uma vez um pedido silencioso aos santos para não ter de passar por essa provação.

Ao acordar, liguei ansiosa o computador. A imagem que tomava toda a tela de um homem sorridente de topete prescindia de explicações: o desastre estava consumado. Passado o sobressalto, uma luz brilhou no fundo do meu cérebro: as cartas estavam todas na mesa havia muito tempo ‒ como é que eu não havia percebido antes? Minhas experiências paranormais não eram profecias, representavam apenas minha recusa em apostar na minha própria sensibilidade. O recrudescimento do conservadorismo em todo o mundo, a irritação generalizada com os movimentos de imigração em massa e com os efeitos danosos da globalização, o Brexit, a turbulência no Mercosul, a descrença na democracia representativa, o desprezo por tudo que é sinônimo de racionalidade, bom senso e politicamente correto.

Milagrosamente, tudo entrou nos eixos e eu me acalmei. Percebi que de nada serve ficar exorcizando o que acontece fora de mim. A esperança, se é que existe, é ser capaz de mudar o que está dentro. Pode ser que os quatro cavaleiros do Apocalipse já estejam, sim, em marcha, mas não só no mundo externo. Eles fincam suas esporas no lombo da animalidade que habita o coração de cada um e que secularmente temos nos recusado a admitir.

"Ālea iacta est" ‒ frase que Julio Cesar teria lançado ao cruzar o Rio Rubicão

“Alea iacta est” ‒ “A sorte está lançada” :   Julio César ao cruzar o Rio Rubicão

Vivemos a era das “selfies” emocionais, para o bem e para o mal. Só estamos focados em nossos próprios umbigos e repetimos com orgulho diante do espelho: meu desejo é soberano, minha visão de mundo tem de prevalecer, que se danem os que pensam diferente de mim, cansei de me deixar arrastar pelas preferências da maioria.

Já é hora de todos os profetas colocarem suas barbas de molho. O futuro é definitivamente imprevisível, a ação humana não tem o poder de alterar o que está escrito nas estrelas. Alea jacta est. Maktub.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ser ou não ser, eis a questão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Li estes dias o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha a respeito de como os brasileiros entendem a responsabilidade da mulher em casos de estupro. Ainda que o instituto venha enfrentando severa crise de credibilidade, o resultado não surpreende: 1 em cada 3 brasileiros acredita que a mulher vítima tem, de alguma forma, culpa pela violência sofrida, seja por se vestir de maneira provocante ou por “não se dar ao respeito”.

Por mais chocante que seja constatar que essas crenças machistas subsistem, acredito que a expressiva maioria dos estudos realizados sobre o tema até hoje conseguiu apenas tangenciar outras questões, que me parecem mais centrais do ponto de vista científico: Como se dá o desejo feminino? O desejo masculino tem o poder de deflagrar o feminino em qualquer situação? A tensão ajuda ou atrapalha na aceitação do intercurso e no atingimento do prazer? Qual é a relação entre gozo sexual e emprego de violência?

fiu-fiuA sexualidade humana comporta muitos mitos. Que a curva de excitação sexual tenha um traçado diferente no caso masculino e no feminino, é fato sabido e aceito há muito tempo. Que o estímulo visual seja mais decisivo para desencadear o desejo masculino, também. O que raramente se investiga e pouco se fala, entretanto, é sobre a capacidade “natural” que homens e mulheres têm de controlar o impulso sexual.

Em torno dessa última questão orbitam múltiplos fatores culturais, religiosos e outros relativos ao gênero propriamente dito. Ao menos no que diz respeito à cultura ocidental, a conduta feminina tende a ser sempre crivada por duas representações simbólicas presentes na tradição judaico-cristã: ou ela é Eva, a mulher ingênua, forçada a se submeter ao homem por não ter sido feita da mesma matéria-prima; ou ela é Lilith, a primeira esposa de Adão e feita do mesmo barro, a mulher-diabo, a serpente maliciosa que seduz prometendo bem-aventurança para quem ousar desrespeitar a proibição celestial e experimentar do fruto da árvore do conhecimento.

Se socialmente a mulher é tratada como legítima descendente de Eva, espera-se que ela se preserve virginal até que um laço conjugal tenha sido oficialmente reconhecido. Posteriormente, mesmo tendo jurado fidelidade eterna a um só homem, que, no mínimo, aparente recato ‒ seja em público, seja na intimidade do casal. A regra é clara e repetida à exaustão em todos os manuais de educação feminina: à mulher de César não basta ser honesta, ela tem de parecer honesta.

fiu-fiuSe, movida por ilusões de igualdade de gênero, a mulher se mostra fogosa com seu companheiro ou, pior, desejosa de novas experiências sexuais com outros parceiros, desperta imediatamente fúria, condenação social e dúvidas quase unânimes quanto à sua verdadeira natureza. Não será ela na verdade uma loba disfarçada em pele de angelical ovelha? Não terá ela manipulado o comportamento do homem, atiçando seu desejo através de posturas corporais, gestos, roupas, falas e silêncios cúmplices para depois recuar e se pretender vítima do que não pode ser controlado?

Eis um aspecto da questão da violência sexual que raramente vem à tona em estudos interculturais: afinal, o impulso sexual masculino não pode mesmo ser controlado? Em geral, no levantamento de responsabilidades, parte-se da premissa de que cabe à mulher bem-criada, de princípios morais sólidos, opor-se a investidas sexuais indesejadas. Nem sequer se discute na maior parte das vezes se a menor força física feminina seria de fato suficiente para deter um impulso considerado tão vital e tão incontrolável para o homem.

A pesquisa Datafolha vai mais longe e assinala uma outra realidade paradoxal. Apesar de homens e mulheres apresentarem porcentagens praticamente iguais (cerca de 30%) de concordância com a ideia de que a mulher é parcialmente responsável pelo estupro, elas divergem muito em outro aspecto: 85% das mulheres e 46% dos homens dizem temer ser estuprados.

fiu-fiuAí parece estar o cerne de uma questão psicológica que mereceria ser investigada mais a fundo. As perguntas que não podem ser existencialmente caladas são outras: Se eu estivesse diante de uma situação real de ameaça de estupro, resistiria ou não? Daria minha vida para defender a integridade do meu corpo e da minha alma? Se não resistisse, como explicaria para os outros e para mim mesma as circunstâncias que me levaram a fraquejar?

Indo dolorosamente mais fundo nesse questionamento, eu diria que há um outro medo ainda inexplorado. Mais profundo que o pânico dos piores pesadelos, ele atormenta em especial as mulheres (ainda que detectável também entre homens) em todas as partes do mundo: o medo de gozar durante um estupro.

Uma possibilidade terrível, sem dúvida, mas característica da imperfeita natureza humana. Uma probabilidade que não se ousa confessar nem para o próprio analista e que, no entanto, contém a chave da verdadeira liberdade psicológica, independente de gênero.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?

Tripartidarismo

José Horta Manzano

Este domingo, vota-se na França. O povo está sendo convocado para eleger os dirigentes das 13 grandes regiões (um tanto artificiais) em que o país está dividido. Estes últimos tempos, por razões de economia, Paris decidiu fusionar antigas regiões. Das dezenas que, séculos atrás, compunham o país, resta apenas uma dúzia de conjuntos heterogêneos, verdadeira colcha de retalhos.

Regiões da França

Regiões da França

Região é escalão intermediário entre município e governo central. Dado que a organização política da França é unitária e não federativa, o grau de independência da região é bastante limitado. Nenhuma delas conta com Constituição, nem assembleia, nem Justiça independente. Entram na competência regional o transporte, a assistência às empresas, o zoneamento territorial, a gestão ecológica do lixo, o aprendizado dos jovens, a formação profissional.

Tradicionalmente, o mundo político francês se divide entre direita e esquerda. As últimas décadas têm levado os dois campos a convergir a ponto de as diferenças se tornarem quase imperceptíveis. Assim mesmo, ainda é importante, na cabeça de cada um, que cada político se encaixe numa etiqueta: ou é de esquerda ou é de direita.

Assemblee nationale 1

Até os anos 1970-1980, ainda eram numerosos os cidadãos que haviam vivido os horrores da guerra. Estava viva a consciência de que regimes populistas haviam arrastado o continente à catástrofe. Até aqueles anos, idéias de extrema-direita não tinham a menor chance de prosperar.

Mas o tempo passou, os antigos se foram, novas gerações que não conheceram a guerra são os adultos de hoje. Para estes, a paz é estado natural, automático, quase obrigatório. A guerra desapareceu do rol das preocupações.

As desgraças que a extrema-esquerda causou na União Soviética e na Europa Oriental só terminaram em 1989, com a queda do Muro de Berlim. O fato é recente e todos, assustados, se lembram. Como resultado, os partidos de extrema-esquerda (comunistas) sumiram do mapa.

Já a debacle que a extrema-direita (nazistas e fascistas) acarretou é antiga, acabou faz 70 anos, todos tendem a esquecer. Como filme de terror, a história esquecida tende a se repetir. De uns anos pra cá, mais e mais cidadãos aderem ao populismo nacionalista. Em todos os países do continente.

Esquerda tradicional, direita tradicional, extrema-direita populista

Esquerda tradicional   –   Direita tradicional   –   Extrema-direita populista

Pela primeira vez na história, a França periga conhecer nova partilha política. A crer nas sondagens, o tradicional bipartidarismo já era. Viva o tripartidarismo! Direita tradicional, esquerda tradicional e uma extrema-direita populista ressuscitada dominarão a paisagem política do país nos próximos anos.

Cidadãos equilibrados torcem para que o desvario dos conterrâneos não chegue ao desatino de entregar o poder central a extremistas populistas. Como bem sabem norte-coreanos, cubanos e venezuelanos, todo extremismo é daninho.

Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pensando bem – 7

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Pra fazer uma sondagem
e encontrar opinião,
é preciso ter coragem,
escapar da malandragem,
caprichar na rechecagem
e contar tudo ao povão.

Um instituto conhecido
pela sua exatidão
anda quieto e encolhido
já não diz mais ter ouvido
a voz da população.

Pesquisou, já várias vezes,
o tal grau de aprovação
do governo do País.
Mas agora, já faz meses
que me deixam infeliz:
não há mais publicação!

O silêncio é contundente
e me deixa encafifado.
No fundo, quem me garante
que, neste Brasil amado,
inda temos presidente?

Gaúchos opinam

José Horta Manzano

O jornalista Políbio Braga repercute pesquisa realizada estes dias pelo Instituto Paraná Pesquisas. Trata da intenção de voto do eleitorado gaúcho, caso eleições para presidente da República fossem realizadas hoje.

Dos candidatos propostos, os eleitores escolheram na seguinte ordem:

Aécio Neves     43,8%
Lula da Silva   19,5%
Marina Silva    14,7%
Ronaldo Caiado   3,4%
Eduardo Cunha    2,8%
Nenhum deles     7,9%
Indecisos        7,9%

Urna 7

Quando o nome de Aécio Neves for substituído pelo de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o resultado embolou. Assim mesmo, o amargor dos gaúchos pelo pífio desempenho do governo nos últimos 12 anos se reflete nas declarações de voto a nosso guia.

Fica assim:

Geraldo Alckmin   29,9%
Lula da Silva     20,7%
Marina Silva      20,3%
Eduardo Cunha      5,0%
Ronaldo Caiado     4,3%
Nenhum deles      10,4%
Indecisos          9,4%

Pesquisa de opinião – 2

José Horta Manzano

Dilma 9Este post faz eco a meu artigo de ontem. O grupo Folha de São Paulo há de ter-se dado conta de que sua “contagem científica” dos participantes da passeata de domingo 15 de março pegou mal pra caramba. O pouco que pudesse restar de credível à imagem do Instituto Datafolha sofreu sério arranhão. A partir de agora, duvido que alguém, com intenção honesta de conhecer a verdade verdadeira, arrisque confiar a sondagem a esse instituto.

Além de deixar no ar a suspeita de que suas pesquisas podem ser ‘negociadas’, a instituição deixa patente sua miopia estratégica. De fato, sondagens têm mais vocação para serem lidas pelos estratos esclarecidos da população. Logo, a trapalhada consiste em serrar precisamente o galho onde se está apoiado.

by Chico Caruso, desenhista paulista

by Chico Caruso, desenhista paulista

A duvidosa estimativa do número de participantes da manifestação de domingo passado assestou pancada pesada à credibilidade do instituto. Eles sentiram o golpe, sim. E a prova está em destaque no sítio do jornal.

Numa tentativa de amenizar suspeitas de parcialidade, a Folha traz, neste 18 março, o resultado de sondagem mostrando a baixa catastrófica na apreciação de nossa mal-amada presidente.

Sei não. Muitas pesquisas sérias terão de ser publicadas para alçar a confiabilidade do instituto ao patamar anterior.

Chamada de 18 mar 2015 - in Folha de São Paulo

Chamada de 18 mar 2015 – in Folha de São Paulo

Você acredita?

José Horta Manzano

Estatísticas 1Saiu o resultado da última sondagem do Ibope. Mede a aprovação do atual governo. Segundo o instituto, a maneira de governar de dona Dilma, que era aprovada por 48% dos entrevistados em setembro, subiu a espantosos 52%.

Uma conclusão se impõe: escândalos de corrupção nas altas esferas são proveitosos para o governo. Se outras falcatruas continuarem a ser descobertas – e tudo indica que ainda há muita sujeira a ser revelada – a presidente periga terminar seu quadriênio com aprovação staliniana, coisa de 90%–95%.

Desse jeito, ainda vai conseguir cacife para modificar a Constituição e obter um terceiro mandato. O Lula que se cuide!

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Ah, essas pesquisas…

O futuro é amanhã

José Horta Manzano

Estatísticas 3A Fundação Getúlio Vargas costuma sondar a opinião da população para medir seu grau de confiança nas instituições. Encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a última pesquisa acaba de sair do forno. Seus resultados serão discutidos, pelo detalhe, estes próximos dias. Enquanto isso, o Estadão deste 10 nov° publicou as grandes linhas.

A confiança dos entrevistados em 11 instituições foi testada. Apenas duas delas contam com a aprovação da maioria: as Forças Armadas e a Igreja Católica.

Os demais componentes da ossatura da sociedade não conseguiram convencer nem metade do povo. O Ministério Público, a imprensa escrita e as grandes empresas até que se saem bem, com mais de 40% de aprovação.

De corporações tais como polícia, Justiça e emissoras de tevê, dois em cada três brasileiros desconfiam. É muita gente. A desconfiança com relação ao governo federal, então, é mais grave: atinge 69% dos cidadãos!

Pesquisa 3Na rabeira, estão duas instituições. Em penúltimo lugar, o Congresso, no qual 83% dos brasileiros não depositam confiança. Fechando a fila, vêm os partidos políticos, nos quais 94%(!) dos entrevistados não botam nenhuma fé.

Esses resultados são pra lá de inquietantes. Os brasileiros que têm hoje 35 anos não conheceram a ditadura militar. Dela só têm notícias pelo que contam os mais velhos ou pelos livros de história. O passado costuma exercer fascínio especial – «ah, aqueles é que eram bons tempos».

Esses jovens, a caminho da maturidade, são os que dirigirão o País nos próximos vinte anos. Descrentes do governo, da Justiça, do Congresso e da polícia, que reviravolta imprimirão ao Brasil?

Estatísticas 1As correntes e partidos que hoje dominam a cena política nacional deveriam debruçar-se numa análise aprofundada do futuro que se prepara. Nada é eterno. O que sobe acaba descendo, mais dia, menos dia. Para evitar catástrofes anunciadas, mais vale consertar desde já o que ainda pode ser remendado.

Para fugir a um tombo brutal, os inquilinos do andar de cima devem, em seu próprio interesse, dar mais atenção às demandas daqueles que os puseram lá. Ainda há tempo, mas não muito.

Jogo de cartas marcadas?

José Horta Manzano

Já alguns dias atrás, as pesquisas de um dos institutos de sondagem divergiam desavergonhadamente das demais. Os ultraconhecidos Ibope e Datafolha indicavam caminho asfaltado e liso para vitória folgada de dona Dilma, enquanto um certo Instituto Verità, do qual poucos tinham ouvido falar, ousou prever vitória incontestável da oposição.

Agora tem mais. O Instituto Sensus executou pesquisa a mando da revista IstoÉ. A sondagem, realizada de 21 a 24 out°, inquiriu 2000 pessoas em 24 Estados. Seu resultado não deixa margem pra discussão:

Dilma e AecioAécio 54,6%      x      Dilma 45,4%

Cada um que tire as conclusões que lhe parecerem mais adequadas. Esses resultados contrastantes podem indicar incapacidade técnica deste ou daquele instituto. Podem também indicar outra coisa.

Vá entender

Está ficando muito complicado entender o como e o porquê das sondagens eleitorais. Virou samba do afrodescendente doido.

Pesquisa 2O sempre bem informado jornalista Claudio Humberto publicou dia 21, em seu Diário do Poder, pesquisa do Instituto Verità. Dá Aécio Neves com ampla vantagem sobre Dilma Rousseff.

A bolsa de apostas continua aberta.

Já ganhou!

José Horta Manzano

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

by Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

O site francês Eurosport dá conta de pesquisa de opinião publicada dois dias atrás. Nada menos que 43% dos franceses acreditam que a seleção do Brasil vai levar a «Copa das copas».

Nas apostas francesas, a Espanha vem em segundo lugar, lá longe, com 9% dos palpites. A Alemanha (8%), a Argentina (4%) e a própria França (4%) vêm a seguir.

Somente 8% dos entrevistados acredita que a França chegará à final. E minguados 6% imaginam que ela vença e leve a taça.