Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

Tuíte – 21

José Horta Manzano
O Google não mente?

Pesquisas no Google valem o que valem. Não há garantia alguma de resultado acurado. Assim mesmo, ainda que não se possa jurar por elas, sempre dão uma indicação geral.

Acabo de fazer uma experiência caseira. Associei o termo “corrupto” ao nome dos presidentes do Brasil dos últimos 25 anos e chequei no Google quantas menções aparecem. O resultado foi um tanto surpreendente. Eu não teria apostado que aparecessem nesta ordem:

 

Dilma corrupta     :    280’000 menções

FHC corrupto       :    622’000 menções

Temer corrupto     :  1’460’000 menções

Lula corrupto      :  1’880’000 menções

Bolsonaro corrupto : 12’000’000 menções

Interessante, não é? O mais mencionado, vencedor por ampla margem, é justamente o capitão.

O nome de Bolsonaro associado à palavra “corrupto” aparece 6 vezes mais que o nome do Lula nas mesmas condições. E olhe que Lula e Temer passaram pela casa prisão, fato que aumenta a probabilidade de serem vistos como corruptos.

Bolsonaro (ainda) não passou pela Papuda. Talvez um dia. O mundo dá voltas.

Gente mole

José Horta Manzano

Pesquisa publicada ontem pelo Ipec revela que a polarização continua firme no cenário eleitoral. Para as presidenciais de 2022, só dois (presumíveis) candidatos têm chance: Bolsonaro e o Lula. O resto é o resto – um punhado de nomes que, juntos, perfazem 10% do eleitorado.

Me recuso a acreditar que o eleitorado brasileiro se divida entre o antigo presidente (e ex-presidiário) e o atual presidente (e talvez futuro presidiário). Não é possível que, de cada dez cidadãos, somente um recuse dar seu voto a um desses dois políticos de qualidade duvidosa, ambos situados a um passo da prisão (passada ou futura).

Continuo acreditando que nós, aqueles que rejeitamos tanto o demiurgo quanto o genocida, formamos uma maioria silenciosa. Civilizados e discretos, não nos agrada sair em passeata, gritar slogans, segurar faixas, protestar de motocicleta, soltar rojões, vestir como torcida organizada, caminhar enrolados em bandeira. Se isso não aparece nas pesquisas, é porque nenhum nome conseguiu se mostrar suficientemente forte até agora.

Os políticos não bolsonaristas e não lulistas estão dormindo no ponto. O país está num momento crítico. Se eles não se mexerem, nosso futuro periga ser cada vez mais tenebroso. Se o próximo presidente for Lula ou Bolsonaro, qualquer um dos dois, teremos a continuação do desastre atual.

Há pouca diferença entre os dois. São ambos autoritários, incultos, estatizantes, mentirosos, traiçoeiros, populistas, poltrões, corruptos, permissivos. O que os distingue é a psicopatia de Bolsonaro, fator agravante para o desempenho de qualquer mortal.

Se os verdadeiros políticos de oposição – aqueles que se opõem aos dois – não abandonarem vaidades e não se reunirem em torno de um nome comum para enfrentar a ambos, estarão dando a vitória ao Lula, de mão beijada. O barbudinho é sempre melhor que o capitão, mas será que é realmente isso que queremos?

Vacinação – 9 maio 2021

José Horta Manzano

Volta e meia, algum dos luminares do governo se vangloria da rapidez do processo de vacinação anticovid, gargarejando que o Brasil é o 6° país que mais vacinou. Bolsonaro – que justiça seja feita! – escapou dessa. Pela simples razão de ele jamais pronunciar a palavra vacina. Por seu lado, ministros e assessores, que são valentes e não têm medo de agulha, deitam falação. Mas distorcem a realidade.

Com mais de 200 milhões de habitantes (grande parte dos quais espremidos em insalubres megalópoles), é natural que o número de vacinados no Brasil seja expressivo. De fato é. O balanço de 9 de maio indica que quase 47 milhões de cidadãos já receberam pelo menos uma dose do imunizante.

Dito assim, parece enorme. Mas há que relativizar. Esse número milionário representa, na realidade, apenas 22% da população total, ou seja, apenas um em cada cinco habitantes do território nacional recebeu pelo menos uma dose. A imunização avança tímida. Ainda há muito por vir.

Pelo critério de doses aplicadas por 100 habitantes, bem mais realista que números absolutos, o Brasil se classifica em 78° lugar num total de 196 países, com 22,05 doses.

Os primeiros 15 lugares da lista são ocupados por ilhas e pequenos países pouco populosos. Assim mesmo, há alguns “penetras” nessa faixa. Sobressaem Israel, os Emirados Árabes e, surpreendentemente, o Chile, classificado em 12° lugar, com 82,15 doses aplicadas por 100 habitantes.

Reino Unido e EUA, que aparecem antes da 20ª posição, também estão muito bem colocados. Seguem-se os países europeus. Uruguai, onde já foram aplicadas 57,73 doses por 100 habitantes, também merece destaque.

Na faixa em que se situa nosso país – a dos que já aplicaram entre 20 e 30 doses por 100 habitantes –, Turquia, Marrocos, China e Argentina nos fazem companhia.

O que dá angústia é ver países ultrapopulosos como Egito, Congo e Vietnã, cada um com cerca de 100 milhões de habitantes, ainda estacionados nas últimas posições, sem terem aplicado nem uma dose. Perigam tornar-se viveiros de novas cepas, quiçá resistentes às vacinas atuais. Se isso acontecer, o mundo pode ir se preparando para a 4ª onda, a 5ª, a 6ª…

Para quem tiver curiosidade de ver a lista completa, deixei o pdf à disposição aqui, no site deste blogue.

Bolsonaro e a fome

José Horta Manzano

Parece que faz uma eternidade, mas foi em julho do ano passado, não mais que nove meses atrás. A história se passou durante um café da manhã que doutor Bolsonaro ofereceu a jornalistas da imprensa internacional. Naquele tempo, o presidente ainda convidava jornalistas para encontro face a face e ainda se dignava de responder às perguntas.

Quando um dos profissionais levantou o problema da pobreza e da fome no país, o doutor respondeu de bate-pronto: «Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira!» E ensinou que não precisa nem de dados estatísticos; basta prestar atenção no fato de não se ver «gente pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países por aí pelo mundo».

Duzentos e sessenta dias e uma pandemia depois, muita coisa mudou. Já faz tempo que o doutor deixou de receber jornalistas sérios. Se já não lhe agradava ter de responder a perguntas, hoje agrada ainda menos. De lá pra cá, a pandemia pegou forte, ministros caíram, Trump se foi, o Exército está se esquivando das locuras federais, a aposta no Centrão está se revelando um furo n’água.

Faz alguns dias, o Instituto PoderData publicou pesquisa feita em mais de 500 municípios de todas as unidades federativas. O que se buscava saber era como a pandemia tinha afetado a alimentação dos brasileiros. O resultado é triste de fazer dó.

Adicionando os que têm comido menos que de costume e os que têm passado fome, chega-se a assustadores 36%. Isso significa que 1 em cada 3 brasileiros estão em situação crônica de insegurança alimentar. Com ou sem pandemia. Um em cada três cidadãos!

Pra se dar conta do mundaréu de gente que isso significa, o distinto leitor está convidado a passear a pé pelo centro de sua cidade. Vá andando e observando os que vêm em sentido contrário. E vá contando: ‘este não, este não, este sim. (O sim corresponde aos que estão na corda bamba, sem dinheiro suficiente pra matar a fome hoje.) Pode continuar: ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim, ‘este não, este não, este sim. Não é angustiante?

Isso significa que nosso doutor chegou ao mais alto encargo da República sem ter noção do mal maior que aflige o povo que o elegeu. Como ele é meio duro de cabeça, é bem capaz de não ter aprendido até hoje, passados dois anos. Pra dizer a verdade, a vidinha do brasileiro comum não parece fazer parte das preocupações maiores do doutor. Se ele tivesse disposição de cuidar dos que o puseram lá, sua atitude com relação à pandemia teria sido diferente.

Dificilmente quem está lendo este artigo tem ideia do que seja ir pr’a cama com fome. Tirando aquele dia em que o jantar queimou e a pizzaria estava em reforma, nenhum de nós sabe o que significa ter fome crônica, não ter comida suficiente para alimentar a família, ter de pôr as crianças pra dormir com a barriga roncando.

O Lula, sim, sabia o que é passar fome. Quando no governo, criou um arremedo de solução que lhe foi assaz benéfica em termos eleitorais. No entanto, não pôs fim à insegurança alimentar no país. Mitigou o problema, reelegeu-se, fez a sucessora, ficaram 14 anos no poder, mas o problema da fome continua inteiro, exatamente como era antes.

Já Bolsonaro, com o negacionismo que é característica incrustada de sua personalidade, nega tudo o que não lhe convém. Assim como nega hoje a pandemia, negou e continuará negando a fome crônica do brasileiro pobre. Se o problema, para ele, não existe, não há razão para se preocupar com essas miudezas.

Pode ser que, quando Bolsonaro tiver sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional e estiver encarcerado na Holanda, esqueçam um dia de levar-lhe a quentinha. Talvez lhe acuda então à memória o que afirmou aos jornalistas naquele longínquo café da manhã. Ou talvez não queira se lembrar.

O triste destino dos intubados

José Horta Manzano

O Instituto de Pesquisa Poder360 expôs estes dias a elevada taxa de mortalidade dos brasileiros que têm de sofrer intubação em decorrência da covid-19. A letalidade entre os intubados no Brasil foi comparada com a de outros quatro países populosos: Itália, Alemanha, Reino Unido e México.

Constata-se que a mortalidade dos intubados brasileiros é superior à de britânicos e mexicanos, e muito superior à de alemães e italianos. Segundo o comunicado do instituto, as razões pelas quais o quadro é mais grave no Brasil são as seguintes:

1. UTIs lotadas;
2. profissionais sem experiência de intubação;
3. burnout das equipes;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
4. falta de equipamentos;
5. centros médicos sem condições de atendimento;
6. quebra de protocolos de boas práticas.

Todas essas razões parecem válidas. Mas uma coisa não pode ser esquecida: a pandemia não é exclusividade brasileira. O coronavírus pegou o mundo todo de surpresa. Nenhum país estava preparado para lidar com ela. Em nenhum lugar do mundo, hospitais têm pessoal de reserva, treinado para intubação, nem equipamentos sobrando. O esgotamento nervoso (que hoje convém chamar burnout) atingiu todas as equipes, no mundo todo. As UTIs lotaram na Itália, no Reino Unido, no México. Na Europa, pacientes hospitalizados chegaram a ser exportados de um país a outro.

Portanto, as três primeiras razões invocadas atingem o mundo todo. Não sendo especificidade brasileira, não explicam a disparidade no número de intubados mortos.

As três últimas justificativas, sim, aplicam-se particularmente a nosso país. Aqui está a descrição de cada uma delas.

Centros médicos sem condições
Esse problema não começou com a explosão da covid. E, infelizmente, vai durar mais que a epidemia. É vício antigo e recorrente, que vem de muito antes do atual governo. Resulta de uma extravagância brasileira: a de contar com dois circuitos paralelos de saúde, um público e um privado. Trocando em miúdos, a rede pública, financiada por todos mas utilizada apenas pelo povão, é descurada pelo poder público, cujos membros contam com outros canais de atendimento hospitalar.

Quebra de protocolos
Protocolos são feitos para serem respeitados. Só devem ser quebrados em raríssimos casos de força maior. Acontece que a proverbial indisciplina que rege nosso comportamento transforma casos corriqueiros em casos de força maior. Assim, a quebra de protocolos passa a ser corriqueira. O resultado é a desordem.

Falta de equipamentos
Quando estourou a epidemia, nenhum país contava com suficiente quantidade de equipamentos. Em outras terras, o poder público se apressou em encomendar respiradores, máscaras, vacinas, seringas e equipamentos para UTI. O governo brasileiro optou por negar a gravidade da pandemia. Não agiu e preferiu pagar pra ver. Viu.

O exemplo vem de cima
Uma última razão ajuda a explicar o assustador quadro de mortandade dos intubados brasileiros. É talvez o fator que mais pesou. Desde o começo da epidemia, dia sim, outro também, doutor Bolsonaro fez pouco caso da doença, incentivou aglomerações, zombou de máscaras, trovejou contra a distanciação social, combateu a vacinação.

Nem todos os brasileiros são dotados de bom senso. Muitos acreditaram em nosso Napoleão de hospício e acreditaram poder fazer como ele. Em vez de procurar atendimento hospitalar desde o começo da doença, correram atrás de cloroquina e outras drogas milagrosas que compõem o “tratamento precoce” do doutor presidente. Quando, finalmente, foram hospitalizados, já era tarde.

Resumindo, constata-se que a diferença na taxa de mortandade entre o Brasil e os demais países não se explica por fatores como UTIs lotadas, esgotamento nervoso do pessoal, falta de experiência de intubação – que são problemas comuns a todos. A elevada mortandade dos infelizes que tiveram de ser intubados no Brasil prende-se a duas causas principais: a falta de equipamentos e a ingenuidade dos que, tendo acreditado na jactância do presidente, só procuraram o hospital quando a doença já se havia instalado firme e forte.

A tristeza maior é entender que, tivesse o governo federal agido com bom senso e boas intenções, esse morticínio poderia ter sido mitigado. Ora sabemos que, no Brasil, intubação é praticamente sentença de morte.

Popularidade

José Horta Manzano

Semana sim, outra também, nova pesquisa de popularidade presidencial circula na praça. Olha só, a popularidade subiu! Veja, a popularidade baixou! Ih, agora parece que tem mais gente gostando dele! Nossa, se ele continuar descendo desse jeito, vão lhe cassar o mandato antes do fim do ano!

Não sou especialista em pesquisa de opinião. Assim mesmo, acredito que sondagens são o que se costuma chamar de «retrato do momento»; pelo menos, é o que garantem os pesquisadores. Os institutos são bem claros ao explicar que ‘se a eleição fosse hoje’, a tendência seria esta ou aquela. Como a eleição não é hoje, o valor dessas pesquisas é bem relativo. Em outras palavras: o que vale hoje pode não valer mais nada amanhã.

Mas o que me surpreende é outra coisa. Eu me pergunto como é que a aprovação do trabalho do presidente pode seguir num ritmo de ioiô, que hoje sobe, amanhã desce, pra depois subir de novo e baixar em seguida. Como é que pode? Será que a população é assim volúvel?

Cada um tende a medir o mundo com a própria régua. No caso de Bolsonaro ou do Lula, por exemplo, já me convenci de que são ambos gente que não presta, que não serve para cargo político; são gente que eu não gostaria, aliás, de ver em cargo público nenhum. Portanto, minha aprovação será sempre negativa e não mudará nem amanhã, nem no ano que vem, nem no dia da eleição. Nem que venham com asas nas costas, tocando lira e cantando louvas ao Senhor.

Abro um parêntese. Só votaria num deles se fosse pra evitar a eleição do outro. Exemplo: pra rejeitar Bolsonaro, votaria até no Lula. Mas isso não é oscilação de humor, é estratégia.

Curiosamente, me dou conta de que nem todos pensam assim. Ah, o ser humano é diverso! Muita gente oscila, a depender dos últimos acontecimentos. Veio o auxílio emergencial? Adoro o presidente! Não veio o auxílio? Detesto o presidente! Ele fez um discurso bonito? Adoro o homem! Falou palavrão? Destesto (ou amo) aquele sujeito!

Enfim, ainda bem que as pessoas são todas diferentes umas das outras. Se a opinião de todos fosse sempre a mesma e sempre imutável, o mundo seria bem monótono.

Ódio à ciência

José Horta Manzano

Artigo do jornalista Vinicius Sassine, publicado no Estadão, dá a informação:

«O governo Jair Bolsonaro cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos destinados à pesquisa científica. A medida afeta principalmente as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz no combate à pandemia da Covid-19. Em 2020, o valor foi de US$ 300 milhões. Para 2021, serão apenas US$ 93,3 milhões.»

O distinto leitor leu corretamente. No meio da epidemia mais grave que o país já enfrentou, quando o pouco que temos de institutos de pesquisa se descabelam pra tirar do chapéu uma solução para prevenir o alastramento da doença, doutor Bolsonaro gira a faca na ferida. Cortou mais de 2/3 dos incentivos que deviam beneficiar a pesquisa.

Ele segue firme e bate o pé. Odeia a ciência. E continua apostando na derrocada do país. Em sua cabecinha, sobrevive a ideia fixa: com a nação em ruínas, montanha de mortos, caos total, ele se atribuirá plenos poderes e se tornará o salvador da pátria.

É por caminho semelhante que ditadores subiram ao trono. Napoleão se aproveitou do caos provocado pela Revolução Francesa. Josef Stalin valeu-se da bagunça que se seguiu à Revolução Bolchevique. Adolf Hitler surgiu das cinzas da Alemanha derrotada e humilhada em 1918. Só que tem uma diferença importante. Todos esses ditadores cresceram de um desmoronamento que não tinha sido provocado por eles. Já nosso doutor procura, por conta própria, provocar esse desmoronamento.

Essa teoria é a única que explica tim-tim por tim-tim todas as suas atitudes que, à primeira análise, parecem desconjuminadas e incompreensíveis. No delírio presidencial, há método.

A meu ver, a sua destituição não deveria passar pelo impeachment, caminho pedregoso e incerto; ele devia mesmo é ser interditado. Tinha de sair do Planalto direto para o hospital psiquiátrico. Lugar de Napoleão de hospício é o hospício.

Coronavoucher

José Horta Manzano

O Instituto PoderData publica sua mais recente pesquisa sobre a percepção do eleitor quanto ao trabalho de doutor Bolsonaro. A opinião de 2500 cidadãos representativos da população brasileira, distribuídos nas 27 unidades da Federação, é incontestável: a popularidade do doutor cai. As curvas se cruzaram, mostrando que a desaprovação (48%) supera a aprovação (42%).

Analistas atribuem a queda de aprovação a diversos fatores. Entre eles, está a chegada da vacina, fato que contraria a postura de um Bolsonaro descaradamente hostil, sobretudo em se tratando da vacina chinesa. O crime do Carrefour é outro acontecimento que, tendo em vista o silêncio do presidente, convence o eleitor de que o governante é racista, ensimesmado e distante do país real. Por último, o mais importante: o fim anunciado do coronavoucher.

O fracasso de quase todos os candidatos a prefeito apoiados pelo presidente já era sintoma do declínio de sua influência – se é que um dia ela foi benéfica. Ao fim e ao cabo, vai ficando claro que a subida do nível de aprovação é que foi o ponto fora da curva. Bolsonaro está retornando ao fundo das estatísticas. A Lei da Gravitação, cláusula pétrea da Constituição do planeta, ensina que tudo aquilo que sobe acaba descendo um dia.

Coronavoucher
Quando a situação aperta e o fim do mês está longe, o funcionário pede um vale por conta do salário. O passado recente da nação está salpicado de outros vales: vale-transporte, vale-gás, vale-brinde, vale-refeição.

Curiosamente, na hora de dar nome ao auxílio especial ligado à epidemia, poucos disseram vale-corona. A expressão que se firmou foi coronavoucher. Minha hipótese é de que o termo coronavírus, já no ouvido de todos, terá contaminado.

Voucher era um verbo do francês medieval, usado em textos administrativos. Significava chamar, dar nome a e tinha as formas vochier/vogier. Nos anos 1300, atravessou o Canal da Mancha e foi enriquecer o inglês.

É interessante que o termo desapareceu da língua francesa, enquanto permanece vivíssimo em inglês. O pai de família é o verbo latino vocare. Em nossa língua, temos numerosos descendentes: vogal, vocábulo, vocação, advogado, convocar, evocar, invocar, provocar, revogar, equívoco, provocação. Há inúmeros outros.

Aprovação presidencial

José Horta Manzano

O Brasil é um poço de problemas. É um pote até aqui de injustiça, desigualdade e desesperança. Como resolver? Nada é impossível, mas a tarefa é gigantesca. Seria coisa pra duas ou três gerações. Essa conta só vale se houver verdadeira vontade. Como sabemos, verdadeira vontade não há. Portanto, nada vai começar a mudar. Vamos continuar esperando o messias, que esse que está aí não serve.

Toda e qualquer tentativa de esvaziar o poço de problemas e de elevar o nível civilizatório das gerações futuras passa obrigatoriamente pela educação. Não é razoável nem necessário exigir que todos recebam formação acadêmica; escola fundamental já está de bom tamanho, desde que a instrução seja de boa qualidade.

Se alguém ainda duvidava que uma pessoa instruída enxerga o mundo com outros olhos, eis um cala-boca: a mais recente pesquisa do Instituto Atlas. A sondagem, que acaba de ser publicada, constata que 56% da população reprova a atuação do presidente Bolsonaro, enquanto 40% a aprovam.

Esse é o número total, o somatório de todos os entrevistados. Veja agora a diferença que um pouco de estudo faz na capacidade de entendimento de cada um. Dos que fizeram curso superior, 70% reprovam o presidente, enquanto 30% aprovam (ou não respondem). Na outra margem, entre os que não foram além do ensino fundamental, as proporções praticamente se invertem: 60% o aprovam, enquanto 40% desaprovam (ou não sabem).

O distinto leitor sabe que o doutor é um estropício, uma pedra no caminho do Brasil, um prenúncio de tempos ainda mais difíceis que os atuais. Mas essa clareza de visão é privilégio de quem recebeu boa formação – aquela que abre as portas para a boa informação.

Nos tempos do lulopetismo, ainda havia a desculpa da ideologia – muitos se recusavam a admitir que os elevados ideais eram anulados pela vil roubalheira. Hoje, essa desculpa desapareceu. Ideologia não há, o que há é a ignorância rasteira de um governo que está mais para associação mafiosa. Só não se dá conta quem não consegue.

Meio cheio, meio vazio

José Horta Manzano

É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.

As últimas pesquisas de popularidade indicam que cerca de 35% dos eleitores consideram o governo de doutor Bolsonaro ótimo ou bom. Devotos do clã presidencial exultam. Que sucesso! É o copo meio cheio.

De um ponto de vista menos fanático, percebe-se que, se 1/3 dos pesquisados considera o governo ótimo ou bom, 2/3 não o consideram nem ótimo, nem bom. Portanto, os descontentes são dois em cada três. Para um satisfeito, há dois insatisfeitos! O dobro! É o copo meio vazio.

Os fanáticos precisam baixar a bola, que não há razão pra tanta euforia. Dizem que o Lula chegou a 80% de popularidade – um nível soviético que me deixa meio desconfiado, mas é o que ficou registrado. Pois bem, se o Lula bateu nos 80% e o Bolsonaro não consegue chegar aos 40%, ainda tem muito chão pela frente. Por enquanto, não há o que festejar. E tomara que nunca haja.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

Cloroquina

José Horta Manzano

Algo fora de série está acontecendo. Um fármaco do qual ninguém tinha ouvido falar até um mês atrás caiu na boca do povo. Seu uso está no centro das discussões. Cresce o bate-boca entre a ala dos ferventes admiradores e a dos acalorados oponentes. Tanto os bem informados quanto os que se empapam unicamente em redes sociais, todos têm uma opinião sobre o sulfato de hidroxicloroquina, cloroquina para os amigos. Só que tudo o que se tem dito sobre o uso de cloroquina em pacientes com covid-19 é, por enquanto, puro achismo, que não combina com ciência.

Esse remédio vem sendo receitado há mais de meio século em infectologia e reumatologia. Trata, entre outras afecções, doenças reumáticas, lupus eritematoso e certos tipos de malária. A cloroquina arrasta uma lista robusta de contraindicações; também tem alto risco de interação danosa com outros fármacos. É aquele tipo de remédio que o médico receita como derradeiro recurso, quando o paciente não respode a outras moléculas.

Docteur Raoult, médico que exerce no sul da França, confessa ter administrado cloroquina a todos os seus pacientes com covid-19. Assegura que noventa e tantos porcento deles se curaram. Isso tem criado polêmica e dado muito que falar na França. Profissionais que acompanharam o experimento revelam que a maioria dos pacientes tratados por docteur Raoult estava fora de todo grupo de risco: eram jovens e sem doença crônica; portanto, era gente que se teria curado de qualquer maneira, com ou sem cloroquina. Além disso, a amostragem é pequena demais. Fica a dúvida.

Os hospitais suíços estão administrando esse fármaco a 50% dos internados com covid-19. Ainda é cedo, mas dentro de algumas semanas já deveremos ter o resultado de um teste que não ousa dizer seu nome. A cloroquina vem sendo sistematicamente receitada em associação com um ou mais remédios.

Este blogueiro, que não é médico nem pesquisador, se abstém de aderir ao bloco dos admiradores ou ao dos oponentes. Que os pesquisadores pesquisem e que os médicos receitem. Metade da população mundial está, em maior ou menor grau, confinada. Metade da humanidade! Pois deixe estar. Médicos, hospitais, institutos de pesquisa, laboratórios do mundo inteiro estão buscando a cura da covid-19. Cada um deles gostaria de alcançar a glória de poder declarar: «Encontramos o remédio que cura!».

Que o distinto leitor não se preocupe. Assim que descobrirem o remédio milagroso, seremos informados na hora. O que fica esquisito, de verdade, é o presidente de um país, que não é médico nem nada, vestir-se de garoto propaganda de um fármaco cuja eficácia para a covid-19 ainda está em estudo. Tirando a militância digital, que engole tudo sem refletir e faz tudo que Seu Mestre mandar, os demais brasileiros se perguntam: «Mas por que, raios, ele insiste tanto com isso?».

Resposta clara, não há. Há uma suposição: a de que ele tenha sentido sintomas da doença e feito um teste; assim que soube que tinha dado positivo, tomou esse fármaco; os sintomas desapareceram, e ele atribui o milagre ao remédio. Essa hipótese explica por que o homem dá uma de valentão e se expõe tanto. Explica também por que o general Heleno abandonou a quarentena. Sabem de uma coisa? Com tanto tagarela que há no governo, qualquer hora a verdade aparece.

O déficit presidencial

José Horta Manzano

A cada dia que passa, fica mais evidente o déficit de inteligência que acomete nosso presidente. Sua persistência em cometer bizarrices não provém de sua posição à esquerda ou à direita; nem dos conselhos do guru boca-suja ou dos filhos destrambelhados; nem da síndrome do parvenu que subiu rápido demais; nem da paranoia que o domina. Tudo o que mencionei não é causa, mas consequência. A causa de tudo é seu déficit de inteligência; em língua de casa, é burrice mesmo.

No trato que doutor Bolsonaro tem dispensado ao ministro da Saúde, salta aos olhos sua incapacidade de entender o que se passa a seu redor. Já faz dias que as pesquisas de opinião do Datafolha e do Ipesp/XP mostram que a população aplaude o trabalho do ministro, ao mesmo tempo que reprova a ação do próprio presidente.

Ciente da situação, doutor Bolsonaro age como barata: morde e assopra. De manhã, afaga o ministro; à tarde, dá-lhe uma fenomenal desancada. Tenta, sem sucesso, semear intriga entre o ministro e a população. Promete demiti-lo, mas, no último minuto, se acovarda e passa pomada. Não se dá conta de que, agindo assim, propulsa a popularidade do ministro às alturas e empurra a sua para baixo. Cada viravolta se traduz pelo acréscimo de pontos à popularidade do ministro – e, inversamente, pela queda do placar do próprio presidente.

Isso não é estratégia; é sinal de burrice. Sem perceber, doutor Bolsonaro está dando enorme contribuição para a popularidade de um ministro sensato e simpático. Sem se dar conta, está fabricando o adversário que poderá enfrentá-lo em 2022, com boas chances de vencer. Se o doutor continuar presidente até lá, naturalmente.

A força do Congresso

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 dezembro 2019.

A névoa de destempero que envolve nosso bizarro presidente e seus áulicos é tão fora dos padrões que embaralha as cartas do jogo político. Notícias de velhos e obstinados ‘malfeitos’ atribuídos a membros do clã se embolam com a belicosa verbosidade presidencial para tecer o enredo do angustiante drama que continua em cartaz no Planalto. Faz um ano que analistas de alto estofo tentam – sem sucesso – decifrar o indecifrável. Nada de significativo ressalta das atividades presidenciais senão vingança, mesquinhez, paranoia. O prato feito que nos é servido todos os dias é sempre o mesmo. Fica a impressão de que, se alguma coisa ainda caminha no país, é por inércia ou por obra samaritana de funcionários dedicados.

A permanência, no mando, de mentes perturbadas monopoliza a atenção da nação. O espalhafato da cúpula manda pra escanteio tudo o mais. É pena porque dá recado distorcido. Embora não pareça, o clã do Planalto não segura sozinho as rédeas do país. Para o que der e vier, está aí o Congresso, sustentado por naco robusto do voto dos brasileiros.

No entanto, recente pesquisa do Instituto Datafolha atesta que só 14% dos que votaram nas últimas eleições avaliam positivamente o Congresso atual. E pensar que a legislatura deu partida há um ano justinho, com eleitos que sequer cumpriram o primeiro quarto do mandato. O motor ainda nem esquentou e Suas Excelências já rolaram para o vale dos enjeitados. Apenas 1 em cada 7 brasileiros vê Senado e Câmara com bons olhos. Como é possível? Os cidadãos nem bem elegeram seus representantes, e já se declaram arrependidos. É difícil de entender. Abstenção maciça ou número expressivo de votos nulos e brancos seria uma explicação. Mas os eleitores brasileiros votaram em massa. Exprimiram-se. Um ano depois, já foi tudo por água abaixo? Sozinha, a monopolização da cena política pelas estrepolias do Planalto não explica o desamor.

A mesma pesquisa informa que, às vésperas da inauguração da atual legislatura, 56% dos eleitores botavam fé nos parlamentares. A queda brutal, em um ano, de 56% para 14% só tem uma explicação plausível: os eleitores votaram às cegas, sem saber direito quem estavam elegendo. Sabe-se que, no geral, o eleitor brasileiro não se lembra do nome dos candidatos em que votou; mesmo que se lembrasse, não poderia ter certeza de que seu voto beneficiou realmente o candidato escolhido ou se foi sequestrado e desviado para a sacola de um desconhecido.

Voto distrital: representação artística

Nosso sistema eleitoral é viciado. O voto proporcional foi pensado para um cenário de partidos fortes. Não é nosso caso. O panorama partidário está esfarelado em uma torrente de agremiações, algumas minúsculas. Ideologia e propósitos tendem a ser pouco claros. Num quadro fragmentado a esse ponto, ‘dono’ de partido nanico sonha em conseguir a afiliação de um figurão de renome – futebolista, artista, pouco importa, desde que seja conhecido. Será o puxador de voto. A montanha de sufrágios que receber elegerá figuras desconhecidas, que perigam engrossar o baixo clero. E o eleitor, sem se dar conta, terá sido defraudado.

Fora do voto distrital puro, não há solução. Com ele, as vantagens serão múltiplas: proximidade entre eleitor e eleito, forte tendência ao desaparecimento de siglas de aluguel, enxugamento da fragmentação partidária. Cada um saberá sempre quem é SEU deputado, aquele que representa seu distrito de residência, o que facilita a cobrança. Outra consequência benéfica será o barateamento das campanhas, pois cada candidato se limitará a vender seu peixe dentro do próprio distrito. E mais: a falta de um deputado provocará eleição parcial somente naquele distrito, eliminando a figura esquisita do suplente.

Em períodos turbulentos como este que atravessamos, em que a Presidência derrama decretos desvairados a três por dois, sobressai a importância de um legislativo esclarecido e competente. Juntos, os parlamentares têm mais força que o presidente. Podem fazer a lei, desfazê-la e até derrubar vetos presidenciais. Oxalá a introdução do voto distrital puro intervenha rapidamente. É aprimoramento republicano bem-vindo. Feliz ano-novo a todos!

O adversário maior

José Horta Manzano

Ainda é muito cedo pra pensar na próxima eleição presidencial. Até lá, muita água ainda há de passar pelo Amazonas e, espera-se, também pelo canal de repartição do São Francisco. Ainda assim, se nenhuma catástrofe ocorrer no meio do caminho, o maior adversário de doutor Bolsonaro para a reeleição chama-se Sergio Moro.

Recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha constata que a popularidade do ex-juiz é inabalável. Nada parece capaz de derrubá-lo. As revelações sobre conversas inadequadas não degradaram sua imagem. A fritura intermitente a que é submetido pelo presidente tampouco arranhou o elevado conceito em que os brasileiros o têm. Imperial, Moro continua lá no topo. Em matéria de simpatia, deixa o presidente comendo poeira: sua popularidade estacionou 25 pontos à frente da do chefe.

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Bolsonaro está numa sinuca cabeluda. Se conservar Moro no cargo de ministro, estará garantindo fabulosa vitrine ao ex-juiz que, humilhado ou não, continuará no noticiário. Se o demitir, perderá apoiadores e será apupado pelos brasileiros, que enxergam no ex-magistrado caçador de corruptos o garante da lisura da Presidência. Manter Moro na fritura não adianta nada, que sua popularidade parece blindada.

Doutor Bolsonaro só tem uma maneira de afastar Moro do caminho. (Eu até nem deveria dizer estas coisas aqui. Não acredito que o presidente seja leitor do blogue, mas… nunca se sabe.) O único jeito de neutralizar a ameaça é nomear Moro para o STF. Em 2020, uma vaga vai surgir. Que Bolsonaro aproveite a ocasião e esqueça essa bobagem de indicar ministro «terrivelmente evangélico». Dê a cadeira ao ex-juiz.

Se fizer isso, auferirá vantagem múltipla. Contentará a todos os que simpatizam com Moro. Não ferirá a imagem de probidade do Executivo. Asfaltará o caminho que o pode levar à reeleição. E terá, no STF, um integrante que lhe deve favores – o que pode ser uma mão na roda para quando ele deixar a presidência e começarem a surgir os inevitáveis processos.

Viva a ignorância!

José Horta Manzano

Assim como o melhor dos governos tem seu lado sombrio, o pior deles tem também um lado luminoso. Se o período militar foi sinistro em inúmeros aspectos, teve também alguns lampejos. Uma herança das boas é a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Criada em 1973, em pleno governo do general Medici, ela pode hoje ser definida como uma multinacional da pesquisa.

A Embrapa é a estatal brasileira mais importante. Conta com 10 mil funcionários incluindo 2.500 pesquisadores. Entre estes últimos, 84% são titulares de doutorado ou mesmo pós-doutorado obtido em universidades nacionais e estrangeiras. A empresa, presente em todo o território nacional, tem antenas em numerosos países com os quais colabora e troca informações científicas.

Seus trabalhos permitiram introduzir a agricultura no cerrado, bioma que era antes considerado improdutivo e que hoje responde por metade de nossa fabulosa produção de grãos. A tecnologia gerada pela empresa tornou possível multiplicar por quatro a oferta de carne bovina e suína. A produção de frango pôde ser ampliada em 22 vezes.

De importador de alimentos básicos, o Brasil alcançou o patamar de potência exportadora. A Embrapa goza de respeito planetário por seu grau de excelência. Suas pesquisas cobrem todos os biomas brasileiros – Amazônia, Pantanal, cerrado, semiárido, regiões temperadas.

Se o distinto leitor leu o título deste escrito, deve estar se perguntando onde está a ignorância. Pois ela vem agora. Acaba de sair nota informando que o governo federal pretende cortar perto de 50% do orçamento da Embrapa para o ano de 2020. Metade do que é necessário pra permitir a continuidade da pesquisa agropecuária brasileira! A notícia é angustiante. O Brasil não é potência econômica. Está longe de ser gigante bélico. Na política mundial, é anão. O único ponto em que somos globalmente importantes e respeitados é na pesquisa e na produção agropecuária. Em total desvario, o governo não consegue enxergar a importância disso.

Há que constatar que, mesmo com doutor Bolsonaro acamado, a guerra contra o conhecimento continua. Fica claro que a equipe que rodeia o presidente está afinada com ele. A ausência do chefe não é sinônimo de trégua. A obra de demolição segue adiante. No Planalto, continuam todos fiéis ao propósito de impedir que o Brasil suba de patamar. Que seja na difusão da cultura, no ensino universitário ou na pesquisa científica, a ordem é cortar, impedir, barrar, cercear.

O lulopetismo não foi tão longe. O atual governo é uma ode à ignorância.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Va-t-en guerre

José Horta Manzano

Os franceses dizem que alguém é «va-t-en guerre» (vai à guerra) quando essa pessoa é briguenta, daquelas que, quando veem uma confusão, já entram batendo pra só em seguida perguntar o que aconteceu. Entre o diálogo e o enfrentamento, o «va-t-en guerre» sempre dará preferência à solução forte. Hillary Clinton era vista como pertencente a esse grupo de valentões e essa tendência de madame há de ter contribuído para sua derrota nas últimas eleições.

Acabo de ler uma pesquisa feita por Ideia Big Data sob encomenda do Estadão. Buscava-se conhecer a opinião do brasileiro sobre a atitude que nosso país deve assumir diante da crise venezuelana. Foi perguntado aos entrevistados se acreditavam que o Brasil deve intervir militarmente pra depor Nicolás Maduro.

Sem pesquisa, eu teria lascado que nove entre cada dez compatriotas querem ver a pátria longe desse tipo de aventura. Afinal, somos alegres, sorridentes e pacíficos. Ou não? Pois fique sabendo, distinto leitor, que… não! Não é bem assim.

Foram 1300 entrevistados em todo o país. Praticamente metade deles (46%) são de opinião que o Brasil deve, sim, intervir militarmente na Venezuela. É um volume de gente impressionante. Nem doutor Bolsonaro, aquele que anda de braço dado com o lobby dos fabricantes de armas e que bate continência até pra porteiro de hotel, ousou pronunciar-se por esse tipo de solução.

Nessas horas, me divirto a imaginar que vou andando por uma rua cheia de gente. À medida que cruzo os passantes, vou contando: este é a favor, este é contra, este é a favor, este é contra. Metade dos compatriotas! Um pasmo! Estamos longe da imagem do Zé Carioca, o brasileiro esperto, mas gentil e inofensivo.

Sinceramente, não imaginava que o brasileiro fosse tão va-t-en guerre. Acredito que a existência desse espantoso contingente de belicosos possa ser atribuída ao perfeito alheamento da população. Por um lado, dado que o último conflito travado em território nacional foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), ninguém faz a menor ideia do que seja viver em país em guerra. Devem ter uma visão romântica e acreditar que tudo se passa como nos videojogos (em português: video games). Por outro lado, desconhecem o fato de as forças armadas venezuelanas estarem superbem equipadas.

Se pensam que uma aventura venezuelana seria como um passeio à beira-mar, enganam-se. Que tal alguns mísseis de fabricação russa explodindo contra metrópoles brasileiras? Será que nossos va-t-en guerre pensaram nisso? Um alienamento desse porte cai bem nos coreanos do norte, gente que sofre lavagem cerebral permanente e vive numa realidade paralela. Mas no Brasil? Quem diria…

A queda de Bolsonaro

José Horta Manzano

Grande estardalhaço se está fazendo em torno da queda de aprovação que castiga doutor Bolsonaro. O Instituto Datafolha, que vem fazendo esse tipo de levantamento desde os tempos de Collor de Mello, afirma que nenhum presidente em primeiro mandato sofreu, em tão pouco tempo, baixa de popularidade tão significativa. Para ser confiável, um levantamento tem de partir de bases concretas e comprovadas. Ora, no caso em questão, acredito que esses alicerces estejam faltando.

O Instituto diz que, aos três meses de mandato, FHC era aprovado por 39% da população, Lula da Silva chegava a 43% e a doutora atingia incríveis 47%. Na rabeira, doutor Bolsonaro não passa de 32%. À vista desses números, analistas afirmam que a queda de popularidade do atual presidente foi vertiginosa. Queda? Será mesmo? Tenho cá minhas dúvidas.

Para medir a queda, será preciso conhecer a aprovação do presidente no momento da eleição. A tarefa é impossível, dada a ausência de levantamento. Que fazem, então, os analistas? Partem da hipótese tácita de cada presidente, no momento da eleição, ter contado com aprovação plena. Visto que é virtualmente impossível alguém ser unanimemente aprovado, parte-se do pressuposto de todos os presidentes terem iniciado no mesmo patamar de aprovação, um número próximo da porcentagem de votos com que cada um foi eleito. É aí que reside o erro.

FHC, Lula e Dilma foram eleitos pelos méritos que o eleitor sabia que tinham ou supunha que tivessem. Portanto, pode-se considerar que seus eleitores ‒ que representam, grosso modo, metade do eleitorado ‒ votaram neles porque os aprovavam. Assim, esses três presidentes partem de um mesmo patamar de aprovação. A comparação entre a queda de cada um deles é válida. Já o caso de doutor Bolsonaro é diverso.

Parte considerável dos que votaram no atual presidente não o fez por convicção mas por exclusão. Votaram nele não por adesão à causa bolsonarista, mas para esconjurar o espectro da volta do petismo. Portanto, ainda que possa soar paradoxal, boa parte dos eleitores de Jair Messias não aprovava o personagem já àquela altura. Foram votar de nariz tapado, só pra afastar o mal maior. Já estavam de má vontade, preparados pra lançar um olhar pra lá de crítico ao novo governo.

É o que está ocorrendo. Acredito que os 32% que agora aprovam doutor Bolsonaro são o núcleo duro de seus eleitores, aqueles que o escolheram pelos méritos que tinha ou se supunha tivesse. A diferença entre esse patamar e os 55% ‒ sua votação total ‒ representa aquela porção do eleitorado que lhe deu ‘voto útil’. Não sendo bolsonaristas desde criancinhas e vendo que o perigo petista se afastou, esses cidadãos têm dificuldade em aprovar um presidente que, ainda por cima, não é lá essas coisas. Assim, aguçam suas críticas.

É o que me parece. A aprovação do presidente não “caiu”. O fato é que ela nunca esteve lá em cima. Portanto, não pode ter “caído” de uma altura onde nunca esteve.