Visto do Vietnã

Explosão da fome que atinge 33 milhões de brasileiros
Le Courrier du Vietnam, 10 junho 2022

 

José Horta Manzano


Notícia boa interessa pouca gente. É por isso que às vezes demora a chegar.

Notícia ruim atrai a atenção e chega rápido feito corisco.


Você conhece o Vietnã? Sabe apontar o país num mapa? Não é fácil. Fica lá na Cochinchina. Pensa que é brincadeira minha? Não é. Parte dos contornos do Vietnã atual coincidem com a costa que os navegadores portugueses visitaram 500 anos atrás e chamaram Cochinchina.

A linguagem popular costuma dizer “Conchinchina”, acrescentando um N que não aparece no original. Esse N sobra. É Cochinchina mesmo.

A origem do nome é curiosa. É obra dos navegantes portugueses. Quando aportaram naquelas costas, já fazia anos que tinham aberto um posto de comércio no litoral da Índia, junto à cidade de Cochim (Kochi em inglês). Não se sabe por que razão, chamaram a nova terra também Cochim. Para diferenciar as duas Cochins, esta ficou Cochinchina (= Cochim da China).

Com o declínio do poderio português, a região passou a ser cobiçada por outras potências europeias. A partir da metade do século 19, caiu aos poucos na órbita da França e e acabou tornando-se colônia. Conservou esse estatuto até 1954, quando, depois de 8 anos de guerra sangrenta, os vietnamitas conseguiram expulsar os colonizadores.

Os franceses se foram, mas a língua ficou. Cada vez perdendo mais terreno em relação ao inglês, é verdade, mas resistindo até hoje. Nas escolas do país, o francês ainda é ensinado como segunda língua.

Pois é. Nós não sabemos grande coisa sobre o Vietnã. Mas eles estão informados sobre as mazelas de nosso país, aquelas desgraças que nos incomodam mas que insistimos em negar.

A edição de ontem do Courrier du Vietnam, jornal online vietnamita redigido em francês, traz longo artigo sobre a “explosão de fome que atinge 33 milhões de brasileiros”. Até vietnamita se espanta com nossa assustadora realidade; só brasileiro é que ouve uma barbaridade dessas e continua seu caminho achando que é normal.

Minha gente, é o seguinte: são 15% dos conterrâneos passando fome. É um em cada sete. Da próxima vez que passar por uma rua movimentada, experimente contar. Deixe passar 6 indivíduos. No sétimo, anote: este aqui não tem comida suficiente. Faça esse exerciciozinho durante cinco minutos.

Aí você vai entender a extensão do drama. É de dar vertigem. É muita gente. Gente como nós, mas que sofre as consequências de um pecado original: nascer pobre num país onde a desigualdade social não incomoda ninguém.

Enquanto isso, o capitão passeia de motocicleta ou de jet ski para encanto dos devotos, o Lula dá festa de casamento com banquete para uma multidão de adoradores, parlamentares passam a mão no nosso dinheiro, servido sob forma de orçamento secreto.

Bolsonaro já está em fim de mandato e lega um país mais faminto do que encontrou ao assumir. O Lula e seus aliados estiveram 13 anos no poder e deixaram tudo do jeitinho que tinham encontrado. Os parlamentares estão há décadas se locupletando, indiferentes ao drama maior.

Mas deixe estar. As eleições vêm aí. Sabem como vai ficar depois de novembro? Vai mudar tudo!

1) O capitão vai se aposentar e ficar ruminando vingança, balançando numa rede, em regime de picanha macia.

2) O Lula, cercado de bajuladores, vai voltar a se esbaldar com o luxo e as benesses do poder, que é o que mais lhe interessa no Planalto.

3) Os parlamentares, cujo apetite é insaciável, continuarão arrancando significativos nacos do tesouro público. Afinal, são profissionais.

E o país vai continuar empacado.

Falou pouco, mas bem

José Horta Manzano

O Estadão de hoje traz o relato de uma palestra dada por um antigo morubixaba do Google. O empresário americano ocupou o maior cargo da empresa de 2001 a 2011, o que não é coisa pouca.

Não conheço o grau de rotatividade de caciques no Vale do Silício. Permanecer por dez anos em função tão elevada me parece uma façanha. O homem deve ser bom mesmo.

Declarou:


O Brasil tem tudo, menos um governo estável. Vocês têm uma única língua, um país de 200 milhões de habitantes, uma cultura fantástica e são pessoas ótimas.”


Até aí, tudo tranquilo. Quem é que não gosta de receber flores?

E o figurão continuou:


Para mim, os problemas do Brasil são muito mais sobre as regras do governo. Conheci quase todos os presidentes brasileiros e acredito que vocês precisam de um jeito de ter um presidente e instituições experientes para evitar que mais presidentes acabem presos.”


O grifo das últimas palavras é meu. Não sei em que tom o palestrante as pronunciou, mas pouco importa: ele acertou o tiro. Em poucas linhas, mostrou ser bom conhecedor de nossos problemas.” Tudo está aí, resumido.

Vantagens e problemas
Na primeira frase, estão as vantagens. O país é habitado por um mundaréu de gente cuja língua de escola é a mesma, o que facilita enormemente as comunicações e as interações. É um privilégio observado com inveja por outros países.

Não temos conflitos étnicos. Essa história de “nós x eles” (inventada pelo lulopetismo e reforçada pelo bolsonarismo) é artificial. Existem fraturas sociais, como por toda parte, mas elas não podem ser resumidas a “nós de um lado, eles do outro”. A fórmula é vaga e redutora. Nós quem? Eles quem?

Na segunda frase do palestrante estão nossos problemas.

Presidente experiente
Que precisamos dar um jeito de eleger um presidente experiente é evidente verdade. Quem haverá de constestar? A Presidência não pode continuar sendo utilizada como pátio de recreação de aprendizes, como vem ocorrendo há duas décadas.

Que precisamos de instituições mais experientes é outra verdade. Eu diria até mais: que, além de experientes, sejam eficazes. Temos anomalias intoleráveis:

  • presidente com poder de anistiar correligionários,
  • ministro do STF que dá entrevista pra divulgar sua opinião pessoal,
  • deputados que fazem a festa com dinheiro extorquido do povo por meio de orçamento secreto,
  • presidente da Câmara com poder de bloquear centenas de pedidos de impeachment,
  • presidente da República que comete crimes de responsabilidade um atrás do outro.

Tumor invisível
Essas mazelas que acabo de citar – e que, de tão acostumados que estamos, nos parecem inofensivas e naturais – são o tumor que ninguém quer ver. Um estrangeiro, que não pode ser acusado de ser petista nem bolsonarista, vê com maior clareza o que o brasileiro comum não consegue enxergar.

Nossas leis e nossos costumes políticos estão distorcidos e corrompidos. O debate político desapareceu. Não há mais argumentação. O que interessa é insultar, caluniar, demolir, desmontar, cancelar adversários (verdadeiros ou imaginários), tratados sempre como inimigos.

Se os dois principais candidatos à Presidência tivessem de enfrentar um exame tipo vestibular para avaliar a aptidão para o cargo, dificilmente passariam. Teriam de cair fora da lista de candidatos, o que seria um alívio para a República.

Um “Enem presidencial” tem de ser instituído para candidatos ao cargo maior. É o único caminho para termos um dia “um presidente que não acabe preso”.

Personalidade caricata

José Horta Manzano

Certas personalidades do mundo artístico ou político são fáceis de caricaturar. Outras, um pouco menos. Há os que chamam a atenção por algum atributo físico; há outros que deixam como marca a maneira peculiar de se vestir; outros ainda impressionam por algum comportamento fora dos padrões.

No exterior, os desenhistas têm sido mais assíduos em desenhar charges sobre Bolsonaro do que eram nos tempos do Lula. O capitão não chama a atenção por atributo físico nem pelo vestuário: o que impressiona mesmo são suas ideias, sua grosseria, seus baixos instintos, seu modo explícito de destruir o futuro da terra em que nasceu e do povo que o elegeu.

O leitor estrangeiro pode não ler a mídia brasileira nem assistir ao Jornal Nacional, mas as charges publicadas na mídia local de cada país se encarregam de dar o recado e mostrar a todos quem é o homem que preside o mais populoso país latino.

Nunca encontrei charge suave de Bolsonaro. Todas elas traem a indignação do desenhista estrangeiro, que nada mais faz que botar no papel a revolta dos leitores de bom senso diante do modo bolsonárico de governar.

Aqui está uma seleção de charges colhidas em Oropa, França e Bahia. (Bahia não, era só pra rimar.)

 

by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Um Bolsonaro de verdade!!!
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Vou varrer a política… e o meio ambiente!
by Brandan Reynolds, desenhista sul-africano

 

 

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

 

 

O Semeador
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Enquanto isso, no Brasil…
by Kak, desenhista francês

 

 

by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

Alusão ao filme de Charles Chaplin “O Grande Ditador”, de 1940.
by Kunturis, desenhista grego

 

 

Oba! Graças à covid, estou conseguindo rapar a floresta amazônica inteirinha!
by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

by Plantu, desenhista francês

 

 

Desordem em andamento
(trocadilho em inglês com as palavras Ordem e Progresso)
by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Plano Bolsonaro para o Desenvolvimento da Amazônia
Os índios têm terras demais!
by Solal Comics, França

 

 

O Brasil tem que continuar avançando! Feliz ano novo! Boa saúde!
by Vadot, desenhista belga

 

 

Bolsonaro, presidente do Brasil
by Placide, desenhista francês

 

 

Estamos de volta!
(A ditadura pelas urnas)
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

 

Candidatura oficial

José Horta Manzano

Não é todos os dias que uma eleição que só se realizará daqui a 5 meses, num país de importância estratégica próxima de zero, desperta tamanho interesse.

Ou por acaso alguém já viu a grande mídia internacional se interessar por eleições em países tão grandes e tão periféricos como o nosso, tais como Indonésia (275 milhões de habitantes) ou Paquistão (225 milhões de almas)?

No caso brasileiro, há a junção de duas forças antagônicas.

De um lado, está o governo Bolsonaro, com sua procissão de desgraças de alcance mundial: destruição da Amazônia e de outros biomas, aproximação com regimes autoritários ou ditatoriais, tratamento agressivo e insultuoso dispensado a personalidades estrangeiras, gestão catastrófica da economia.

De outro, está o recall do governo Lula. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar na lenda do Lulinha paz e amor, pai dos pobres e protetor dos desvalidos, fato que, aliás, pouco interesse apresenta fora do país. Porém, visto do exterior, o Lula transmitiu a ideia de estabilidade constitucional, e respeito às instituições. Se foram descobertos muitos casos de corrupção grossa, foi porque a Lava a Jato muito investigou. Desde que ela foi enterrada pelo capitão, é compreensível que a descoberta de peculatos e outras maracutaias tenha ficado prejudicada.

Na torcida para ver o Brasil livre de um governante que incentiva a instabilidade, parece que o mundo torce pela eleição de Lula. Guardadas as devidas proporções, equivale à torcida mundial pela eleição de Joe Biden e cancelamento de Donald Trump.

 

Em inglês (Guardian, Reino Unido)

 

Em francês (Le Monde, França)

 

Em italiano (Il Giornale, Itália)

Em sueco (Västerbotten-Kuriren, Suécia)

Em alemão (Spiegel, Alemanha)

 

Em inglês (South China Morning Post, Hong Kong)

 

Em russo (Krasnaya Vesna, Rússia)

 

Em espanhol (El Mundo, Espanha)

 

Madame e os frangos do Brasil

José Horta Manzano

Como lembrei anteontem, estamos entre os dois turnos das eleições presidenciais francesas. Ontem realizou-se o grande debate, o único organizado entre os dois finalistas. Foram duas horas e meia de perguntas, respostas, explicações, afirmações, aproximações, esgueiradas, maldades, dardos envenenados, sorrisos desajeitados.

Cada um dos candidatos – o atual presidente, Emmanuel Macron e a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen – deu o que tinha pra dar, fez o que sabe fazer e representou o papel que costuma representar. Foi sem surpresa. O medidor de audiência marcou 15,6 milhões de telespectadores, aos quais convém acrescentar os que, em algum momento, deram uma espiada nas redes sociais, que também transmitiam ao vivo.

Pra se ter uma ideia de quanto tem baixado o interesse público por esse tipo de confrontação, é bom saber que o primeiro debate, travado em 1974 entre Mitterrand e Giscard d’Estaing, tinha reunido 30 milhões de telespectadores – o dobro da audiência de ontem.

Mas o diálogo entre os adversários, às vezes polido, às vezes ácido, sempre traz algum momento interessante. Uma passagem impagável surgiu quando Madame Le Pen criticava o funcionamento da União Europeia, cavalo de batalha que ela costuma montar com frequência. Adepta do fechamento de seu país para o mundo, ela deprecia a Europa dia sim, outro também.

Madame Le Pen (de estreita visão nacionalista-passadista) acusou Monsieur Macron (europeísta convicto) de ter intenção de “substituir o povo francês pelo povo europeu”. E continuou argumentando que há “uma série de políticas da UE com as quais não estou de acordo”. Citou “a multiplicação de acordos de livre-comércio que servem para vender carros alemães e castigam os agricultores franceses com a concorrência de frangos do Brasil ou bovinos do Canadá”.

Nesse ponto, Monsieur Macron percebeu que Madame – por ignorância ou má-fé – misturava alhos com bugalhos. Perguntou: “Que frango do Brasil?”. E lembrou à distraída adversária que ele tinha se oposto ao acordo da UE com o Mercosul, porque “quando impomos certas exigências aos agricultores nacionais, exigimos o mesmo dos de fora”. Diante do silêncio embaraçado da adversária, acusou Madame Le Pen de “tentar vender gato por lebre”.

É verdade que, enquanto Macron é dotado de uma inteligência superior à média, sua adversária se limita à esperteza dos populistas: diz o que a audiência quer ouvir. Mas uma coisa é falar num cercadinho qualquer para público cativo, e outra é argumentar diante de um homem que está há cinco anos lidando diariamente com esses temas. Não tem como.

Observação
A história dos “frangos do Brasil”, que Madame pôs à mesa, rendeu pano pra mangas e fez a alegria das redes sociais. Nos momentos seguintes, houve milhares de comentários, menções, tuítes, retuítes, likes & alia. A maioria dos comentaristas dizia não saber do que ela estava falando.

Potenzmittel

José Horta Manzano


“Problemas de ereção?
O governo brasileiro aprova remédio contra a impotência para o Exército”


O Frankfurter Allgemeine, jornal alemão de referência, não perdoou. Além da manchete reproduzida acima – ilustrada com sugestiva foto que sugere um Bolsonaro submisso aos fardados –, contou o resto da história.

“Além das acusações de corrupção, o governo do presidente Jair Bolsonaro é alvo de zombaria e de sátiras. O Exército teria adquirido, em grande quantidade e a preços exorbitantes, comprimidos para a virilidade.”

O diário alemão não foi o único a caçoar. A mídia europeia em peso, num espírito situado entre a surpresa e a ironia, também deu a notícia.

O fato é que, nesta parte do mundo em que vivo, nenhum plano de saúde – do mais básico ao mais sofisticado – cobre remédios contra a impotência. Há de ser porque as autoridades da Saúde Pública consideram que disfunções eréteis decorrentes do envelhecimento não são consideradas patológicas, mas simples fatos da vida.

Por aqui, quem desejar revigorar seu desempenho sexual tem de consultar o médico, pedir receita e comprar o remédio pagando do próprio bolso sem direito a reembolso. Não sei se no Brasil os planos médicos são mais camaradas. Parece que, entre nossos fardados, é assim que funciona.

Seja como for, a compra de milhares de comprimidos desse tipo de remédio pelas Forças Armadas da República do Brasil pega mal pra caramba. Dá ensejo a duas reflexões.

Ou os engalonados de mais idade estão usando dinheiro do povo para seu conforto na cama; ou os recrutas, que deviam ser o retrato da virilidade e do vigor das Forças, estão dando precoces e inquietantes sinais de impotência.

Ora, minha gente, as Forças Armadas de um país não somente têm de ser fortes, mas também têm de parecer fortes. Virilidade é termo que combina com força, coragem, destreza, masculinidade. Distribuir à tropa comprimidos para combater problemas de ereção é um baita arranhão na virilidade dos uniformizados. A encomenda desses remédios, feita em escala industrial, passou um rolo compressor por cima da imagem da tropa. Os brios daquela juventude armada deve ter levado um baque.

Agora todos os brasileiros têm o direito de se preocupar. Suponha por um momento que, amanhã, nosso território fosse invadido. Como é que ia ficar? Quem nos defenderia? Um exército de brochas?

Não acredita? Pois até mês e pouco atrás, ninguém no mundo acreditaria na invasão da Ucrânia. No entanto, taí…

Observação
O título faz alusão ao nome carinhoso que a língua alemã dá a esse tipo de medicamento: pílulas de potência.

Escárnio

José Horta Manzano

CNews é um dos braços de um conglomerado francês de mídia fortemente orientado politicamente à extrema-direita. Volta e meia, seu canal de tevê de informação contínua é processado por parcialidade e tendenciosidade. É o equivalente francês do grupo americano Fox News, o favorito de Trump e dos ultradireitistas americanos.

Monsieur Eric Zemmour, atualmente candidato às eleições presidenciais francesas do mês que vem, foi comentarista desse canal por muitos anos. Abandonou as funções poucas semanas atrás para poder se candidatar. Zemmour promete que, se for eleito, expulsará todos os estrangeiros (a começar pelos árabes de confissão maometana), tirará a França da União Europeia e passará cadeado nas fronteiras. Se pudesse, recuperaria até as antigas colônias.

É importante notar que foi justamente esse canal que publicou a manchete que reproduzo acima. Em princípio, Bolsonaro – assim como Trump, Orbán, Putin e outros da mesma laia – formam um seleto grupo de “líderes” admirados por CNews.

Se os redatores do grupo se escandalizaram com a notícia vinda de Brasília, é sinal de que a indignação com a desfaçatez do capitão é considerada excessiva até para os padrões dos ultras da direita francesa. Percebe-se que até os da extrema-direita estão começando a se dar conta de que Bolsonaro se comporta como pária.

O título diz:
Indignações depois de Jair Bolsonaro ter mandado que lhe concedessem uma medalha do ‘mérito indigenista’. (as aspas estão no original)

E o subtítulo continua:
Durante seu mandato, Jair Bolsonaro tem sido muito criticado por sua ação contra o desmatamento e a espoliação das terras indígenas.

O restante do texto segue na mesma linha.

O escárnio bolsonárico é tão asqueroso, que escandaliza até a mídia vinculada à extrema-direita. Em resumo, qualquer vivente medianamente informado, seja de esquerda, seja de direita, não consegue deixar de se indignar com a insolência do chucro que ora ocupa a Presidência.

Brasil extraviado

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que o Brasil atraía imigrantes em busca de recomeçar a vida num país pacífico e de futuro.

Saudades do tempo em que a simples menção do nome “Brasil” evocava imagens de gente feliz, sorridente, acolhedora, alegre, prestativa, solidária, dançante.

Saudades do tempo em que o mundo nos olhava com respeito e uma ponta de inveja.

O Brasil se extraviou. Os novos tempos são anunciados diariamente, ao mundo todo, em todas as línguas. Aqui está o exemplo mais recente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recepção calorosa

José Horta Manzano

Ah, como é agradável ser bem recebido quando a gente faz uma viagem tão longa! Muita gente fina já teve de entrar pela porta dos fundos algum dia em algum lugar. Acontece, que é o preço da fama.

Quanto a Bolsonaro, ele que se prepare. Onde houver brasileiros não-lobotomizados, pode ir se preparando: vai continuar a utilizar a entrada dos funcionários. Até o fim da vida.

Araçatuba

José Horta Manzano

Que horror isso que aconteceu em Araçatuba! No mundo todo, ataques e carnificinas pipocam aqui e ali, a todo momento. Mas, na quase totalidade dos casos, os autores reivindicam uma causa – uma causa qualquer que, no dizer deles, é sempre nobre. Em geral são motivos ligados a ideologias político-religiosas. É, por exemplo, o que está por trás de ataques dos talibãs e dos integrantes do dito “estado islâmico”.

Nossas chacinas, como essa de Araçatuba, não têm nobreza nenhuma. É bandidagem pura, o mal pelo mal, o mero interesse pecuniário de quem planejou. Nunca deixará de me surpreender que, num mundo em que todas as comunicações passam pela internet e o cidadão honesto se sente espreitado, vigiado e controlado o tempo todo, operações como essa possam se organizar sem despertar suspeitas.

A polícia sabe (ou deveria saber) quem são os bandidos. São sempre os mesmos, todos integrantes de facções ultramanjadas. Como é que esse pessoal não tem internet e telefone grampeados? Eu não sei. Se alguém souber, mande carta para a redação por favor.

Naturalmente, a violência foi tão grande que a imprensa do mundo todo deu a notícia. Reproduzo abaixo um sortilégio de comentários colhidos no quotidiano parisiense Le Figaro, o preferido dos leitores direitistas.

Sanzot-Pignon
Voilà ce qui nous attend si la France commet l’erreur de prolonger l’expérience Macron.
Taí o que nos espera se a França cometer o erro de reeleger Macron.

Jhamen
Incroyable ce pays plonge dans la violence à l’état pur…
É incrível esse país mergulha na violência pura…

Anonyme
On est loin des promesses de Bolsozéro.
Estamos longe das promessas de Bolsozero. (Bolsozero é ótima – ndr)

38gilles
Bon, une chance que chez nous, plus d’espèces dans les banques. Tout dans les distributeurs et les fourgons blindés.
Ainda bem que, na França, agência bancária não guarda mais dinheiro. Tudo está nos caixas eletrônicos e nos furgões blindados.

Canard-déchaîné
Encore plus forts que les escadrons de la mort.
Ainda mais eficientes que os esquadrões da morte.

Jo Bard
Je demandais à une connaissance brésilienne pourquoi elle avait voté Bolsonaro. Elle m’a répondu qu’elle n’en pouvait plus de devoir vivre dans une insécurité permanente. Et bien voilà!
Eu perguntei a uma conhecida brasileira por que razão ela tinha votado no Bolsonaro. Ela me respondeu que não dava mais pra viver continuamente na insegurança. Pois veja só!

NiBlancNiNoir
Bientôt en Europe. Question de temps.
Logo [a moda] chega à Europa. Questão de tempo.

Antoine 77000
Des talibans au Brésil? Le Mal n’a pas de visage et n’épargne personne, n’épargne aucun pays!
Os talibãs no Brasil? O Mal não tem rosto e não poupa ninguém, não poupa nenhum país!

payepaye
Pour ces champions de braquages, que risquent-ils? D’être arrêtés, emprisonnés, puis libérés après quelques années de prison pour alors récidiver.
Para esses mestres do assalto, qual é o risco? Ser apanhado, encarcerado, em seguida liberado depois de alguns anos de cadeia para então reincidir.

lacerisesurlegateau!
Allo Bolsonaro?
Alô, Bolsonaro?

mrpignon
Visiblement, même avec Bolsonaro, c’est toujours la fiesta chez les voyous brésiliens…
Dá pra ver que, mesmo com Bolsonaro, a “fiesta” corre solta pro lado dos bandidos brasileiros…

dijonnais
C’est comme ça en Bolsonaronie…
É assim na Bolsonarônia… (Bolsonarônia também é ótima – ndr)

Hotline
Régime d’extrême droite au Brésil. Voilà le résultat.
Regime de extrema-direita no Brasil. Eis o resultado.

Muir
Il est beau le Brésil de Bolsonaro. A part placer ses fils dans l’administration et détruire l’Amazonie, ce type n’a rien fait.
Ah, que beleza o Brasil de Bolsonaro. Além de dar cargos públicos aos filhos e destruir a Amazônia, esse sujeito não fez nada.

Resta um consolo. Como o distinto leitor pode ver, o leitor da imprensa francesa ainda consegue separar o joio do trigo: Bolsonaro é uma coisa, o povo brasileiro é outra. Apesar da artilharia pesada que o eleitor da direita francesa dirige contra o capitão, não senti nenhuma degradação de nossa imagem. Espero que não sejam meus olhos que se recusam a enxergar a realidade.

Acredito (e torço para) que os horrores promovidos pelo estropício que está na Presidência continuem nos poupando. Pelo menos aos olhos dos estrangeiros – já é alguma coisa.

Humilhação internacional

The Guardian, Londres

José Horta Manzano

Esta é do jornal britânico The Guardian, em artigo que descreve o fumarento e carnavalesco desfile de ontem, que misturava veículos de guerra e carros de passeio, como se vê na foto.

Os carros particulares parecem exasperados tipo “Ô, sai da frente, seu Tartaruga, que eu quero passar!”. Ou não?

A expressão “banana republic” dispensa tradução.

Mal-afamado

José Horta Manzano

Por acaso, caí num canal YouTube indiano (em inglês) que analisa diariamente os acontecimentos do planeta. Cada notícia é descrita em vídeos curtos de 2 a 4 minutos. Imagino que o canal seja popular na Índia, tendo em vista que caminha para um milhão de assinantes.

Naturalmente, tanto a crise de soluços que acometeu o capitão quanto a internação foram objeto de um filminho. Benfeito e legendado, ele explica a atualidade brasileira a um público exótico, que eu imaginava distante e pouco interessado.

Acho que vou ter de rever meus conceitos sobre o interesse que o Brasil desperta do outro lado do mundo. Em 24 horas, o filme já foi visionado por quase 17 mil pessoas e suscitou 90 comentários. Fico imaginando se, Deus o livre, Narendra Modi (o primeiro-ministro indiano) tivesse uma crise de soluços e fosse hospitalizado, qual seria a repercussão no Brasil. Me pergunto se um vídeo em português sobre o caso teria alguma audiência.

Mas o que mais me surpreendeu foram os comentários. Você pensava que, naquelas lonjuras, ninguém estivesse a par do que acontece nesta Pindorama? Engano seu. Nosso capitão não somente é conhecido, como é bem pouco apreciado.

Surpreenda-se e divirta-se com este apanhado de comentários sobre os infortúnios de Bolsonaro.

Hrshv Harey
Ele foi alcançado pelos próprios pecados.

Krapto
Pra que hospitalizá-lo? Ele não é homem forte o suficiente pra superar uns “soluçozinhos”, como ele mesmo diria?

Wam Teng
Ele tinha de evitar essa comida apimentada, brother. Veja como está mexendo com o intestino dele, brother.

Sandeep Singh
Ele era anti-Índia, até que precisou de nossa vacina.

The Reckon
Mais um líder desastroso.

Axioo
Isso é o que acontece quando você é da extrema-direita e destrói a floresta amazônica em vez de protegê-la para o bem do planeta.

Lurking Arachnid
Satan vai levá-lo.

Sahil Balani
Impeachment nele!

Vivek Tamma
Esses soluços vêm da corrupção, acredito.
(Este comentarista está atualizado! Deve estar acompanhando a CPI.)

Gozo The Clown
Soluços fake! Ele está é apavorado!

Raymundo Rebueno
O carma se exprime em diferentes maneiras.

Vikram M
Dez dias de soluços? É certeza que ele está virando jacaré.

Garoto-propaganda da fábrica de mentiras

José Horta Manzano

Num momento em que a imprensa livre é intimidada, insultada e agredida pelo presidente, dia sim, outro também, é um alívio saber que ainda há gente disposta a botar a boca no trombone e expor ao mundo o que ocorre no Brasil.

Em todo o planeta, a voz mais forte na defesa da liberdade de imprensa falada e escrita é Repórteres sem Fronteiras, ONG fundada em 1985 e baseada em Paris. É uma sociedade sem fins lucrativos composta de 120 colaboradores, com filiais em uma dezena de países, entre os quais o Brasil.

Sua ação é menos espetaculosa que a da Greenpeace, porém mais eficaz a longo prazo. Ações teatrais podem garantir o espetáculo na hora, mas nem sempre geram efeito duradouro. Mais vale ir pianinho (como dizem os gaúchos), pois mingau se come pelas bordas (como dizem os mineiros).

No ano passado, quando as más intenções do clã presidencial brasileiro ficaram claras, a Repórteres sem Fronteiras (RSF para os íntimos) cunhou nova expressão: o Sistema Bolsonaro. A denominação engloba o presidente, seus filhos e todos os que integram a máquina de distorcer a verdade e de fabricar mentiras, instalada no Planalto. A expressão é um achado.

No exterior, já faz algum tempo que Bolsonaro está classificado no mesmo balaio que Lukachenko (Belarus) e Maduro (Venezuela), um clube de dirigentes autoritários, mais interessados em favorecer a si e à própria família do que em melhorar a vida dos governados.

Para denunciar os maus-tratos que o presidente tem infligido aos brasileiros, a RSF lançou nova campanha de informação. A intenção é chamar a atenção para as mentiras espalhadas pelo Sistema Bolsonaro. A imagem-símbolo é uma montagem em que o doutor aparece atrás de um cartaz com os dizeres «A verdade nua», além do número de mortos e de casos positivos da covid.

Ignorantes como são, não acredito que os integrantes do Sistema Bolsonaro tomem conhecimento da campanha. Mas o mundo vai ficar sabendo. E, às vezes, por via indireta, o bumerangue acaba voltando.

Para ver o texto da campanha, clique na língua correspondente:

Em português

Em francês

Em inglês

Em espanhol

A lagoa e o jacaré

José Horta Manzano

Com o estilo mordaz que caracteriza o espírito francês, Le Nouvel Observateur (l’Obs), órgão importante da imprensa, sintetizou o fim da Operação Lava a Jato.

Brésil: Bolsonaro enterre l’opération anticorruption à laquelle il doit son électionBrasil: Bolsonaro enterra a operação anticorrupção à qual ele deve a própria eleição.

Em matéria de logro eleitoral, é raro ver uma trapaça feita tão às claras. Mas deixe estar, jacaré, que a lagoa há de secar. Quem pelo engodo venceu, pelo engodo será vencido. Memento Lula – Lembrem-se do Lula!

Finura em francês

José Horta Manzano

Dizem que o francês é a língua do amor. Talvez seja, não posso garantir. Mas uma coisa é certa:

  • palavrão, em qualquer língua que seja, cai mal;
  • quando é usado para ofender a mãe de alguém, fere a decência;
  • quando é proferido com a veemência dos insanos, é hora de dar um passo atrás;
  • quando o ofensor é o presidente da República, é bom ir chamando a viatura;
  • quando um bando de boçais faz claque e acha graça, pode chamar o camburão.

 

Le Figaro, França

O Figaro, jornal francês de referência, tentou, bem ou mal, traduzir as palavras edificantes que o presidente da República do Brasil pronunciou outro dia perante seleta plateia – todos gente fina. A tradução ficou meio assim assim, porque traduzir palavrão não é fácil.

«Quand je vois la presse m’attaquer, disant que j’ai acheté 2,5 millions de boîtes de lait concentré. Allez vous faire foutre chez votre putain de mère. Cette putain de presse. Ces boîtes sont pour vous, la presse, pour vous les mettre au cul».

Vindo de doutor Bolsonaro, já nenhuma vilania nos surpreende. Mas fico imaginando os olhos arregalados dos franceses, que estão habituados a outro nível de comunicação pública, ao lerem a frase. Se ela tivesse sido pronunciada por um cafajeste qualquer, seria impressa com tarja preta, censurada para não ferir espíritos sensíveis. Dado que veio do presidente do Brasil, por dever de ofício, o jornal se viu na obrigação de publicar na íntegra.

E assim vai a vida. A cada dia que passa, lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Martinica

José Horta Manzano

De criança, eu achava que Martinica era um lugar imaginário onde as mulheres se vestiam com casca de banana nanica. Essa curiosa crença vinha de uma marchinha de Carnaval de João de Barro e Alberto Ribeiro lançada em 1949. A letra, simplesinha e fácil de memorizar, dizia:

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma casca de banana nanica
Não usa vestido, não usa calção
Inverno pra ela é pleno verão
Existencialista com toda a razão
Só faz o que manda o seu coração.

(Desconfio que a Martinica só entrou na dança pra fazer rima com a Chiquita e com sua banana nanica.) Está aqui a versão original, na voz de Emilinha Borba.

Foi só muito mais tarde que vim a saber que a Martinica é uma migalhinha de território, uma relíquia do imenso império colonial francês. É uma ilha pequenina, com cerca de 400 mil habitantes acomodados numa área equivalente à do município de Joinville (SC). Situa-se nas Pequenas Antilhas, Mar do Caribe (ou Caraíbas, se preferirem). A principal fonte de renda do território é o turismo; os visitantes mais numerosos são franceses que escapam das brumas europeias para se aquecer sob o sol tropical.

Josephine Baker e a Revue Nègre
Paris, 1927

A letra da marchinha, embora curta, evoca duas imagens. Em primeiro lugar, vem à mente a artista americana Josephine Baker (1906-1975), que chegou à França jovem, ainda nos anos 1920, fugindo do racismo e da discriminação que a sociedade de seu país reservava aos não-brancos. Ela fez imenso sucesso em teatro de revista. Desinibida, vestia-se como uma Carmen Miranda com menos roupa. Com muito menos roupa, por sinal. Veja a ilustração.

Em segundo lugar, a letra da Chiquita Bacana faz alusão ao existencialismo, doutrina muito em voga quando a musiquinha foi lançada, num pós-guerra em que uma juventude cansada de sangue queria mais é aproveitar da vida. Era uma época em que os livros do guru Jean-Paul Sartre apareciam entre os mais vendidos.

Mas nem só de casca de banana vive a Martinica. Antenados ao que ocorre no mundo, os martinicanos ficaram sabendo da vergonhosa apalpadela de que foi vítima a deputada paulista Isa Penna por parte de um eleito cafajeste. Não é o primeiro cafajeste que o povo elege, temos outros exemplos. Mas esse aí estourou o teto da decência. Ao tentar seguir o cordão da baixaria puxado pelo Planalto, estrepou-se.

O jornal digital Carib Creole News, que se proclama o n° 1 da informação na Martinica e vizinhança, convoca seus leitores a assinarem uma petição que reclama castigo exemplar para o agressor da deputada. A petição exige nada menos que a destituição do deputado ofensor.

É impressionante como as notícias voam hoje em dia. Quem diria que uma jovem brasileira, vítima de agressão de caráter sexual, receberia apoio dos martinicanos! Sem dúvida, a globalização tem seu lado bom.

A face sinistra do doutor

José Horta Manzano

Já faz algum tempo que o mundo conhece a personalidade execrável de doutor Bolsonaro – o Trump dos trópicos, como é chamado na Europa. Assim mesmo, sua incompreensível antipatia pelo povo que o elegeu atingiu um pico terça-feira passada. Foi quando demonstrou, ao vivo e em cores, dar importância maior à cruzada que move contra o governador de SP do que à saúde dos duzentos milhões que, em tese, ele devia estar liderando.

A cena de horror não passou despercebida no exterior. Aqui está um trecho do que o portal estatal francês de telecomunicações publicou.

«Alors que le monde entier hier s’enthousiasmait, à tort et à travers, des bons résultats affichés par le vaccin Pfizer contre le Covid-19, alors que les éditoriaux se multipliaient sur “la lumière au bout du tunnel”, “2021 année du vaccin”, etc (on rappellera quand même qu’un vaccin qui doit être conservé à -70° C exclut de facto une bonne moitié de l’humanité qui vit dans des régions reculées et mal équipées d’Asie et d’Afrique), alors donc que le mot vaccin cristallisait tous les espoirs ce mardi, au Brésil, le président Jair Bolsonaro se réjouissait, publiquement, de l’arrêt dans son pays des tests cliniques d’un vaccin de fabrication chinoise.»

«Ontem, enquanto uma onda de entusiasmo varria o mundo inteiro, a torto e a direito, na esteira dos bons resultados da vacina Pfizer contra a covid-19; enquanto os editoriais saudavam “a luz no fim do túnel”, “2021 ano da vacina”, etc. (sem esquecer, assim mesmo, que uma vacina que exige ser armazenada à temperatura de -70°C exclui, na prática, a metade da humanidade que vive em regiões remotas e carentes da Ásia e da África); enquanto o termo vacina cristalizava todas as esperanças nesta terça-feira, pois bem, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro se alegrava publicamente da paralisação em seu país dos testes clínicos de uma vacina de fabricação chinesa.»

Bolsonaro passará – e quanto antes, melhor. Mas, antes disso, ele está tratando de hipotecar o futuro do Brasil. Depois que esse estropício tiver ido embora, vai levar anos pra recuperarmos nossa imagem de país amistoso e bem-intencionado. A desconfiança costuma demorar pra se dissipar.

Katastrophale Corona-Politik

José Horta Manzano

Nossa percepção do som de línguas estrangeiras não é uniforme. Cada uma delas nos deixa uma impressão diferente. Em assunto técnico, por exemplo, o inglês é insuperável. Já uma história de amor, se contada em francês, fica mais picante. Se ela terminar em festa de casamento, com família e amigos em torno de uma longa mesa ao ar livre, será descrita em italiano. Se, no entanto, houver traição e vingança, convém passar para o espanhol. Acontecimentos fortes, impactantes, trovejantes, serão descritos com perfeição em alemão.

Bolsonaro: A catastrórica política do coronavírus
Der Standard, Áustria

Convenhamos que «Jair Bolsonaros katastrophale Corona-Politik» soa como bordoada e dispensa tradução. É o título de artigo publicado pelo diário austríaco Der Standard. Conta de onde vem a fixação bolsonárica pela cloroquina. Aqui estão os primeiros parágrafos.

O presidente brasileiro e seu grande modelo, Donald Trump, são responsáveis por dezenas de milhares de mortes por anunciarem uma droga ineficaz.

Em 7 de março, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro visitou seu homólogo americano, Donald Trump, em Mar-a-Lago. Ele havia cancelado viagens planejadas para a Itália, Polônia e Hungria a conselho de seu ministro da Saúde, mas o populista de direita não queria deixar escapar a importância midiática de ser visto ao lado de seu grande modelo.

Trump deu-lhe uma caixa do medicamento antimalárico hidroxicloroquina, como o próprio Bolsonaro relatou com orgulho. “A partir daí”, lembra o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido em abril, “ele não levou mais a sério as recomendações dos cientistas”.

Ao retornar dos Estados Unidos, 22 integrantes da delegação brasileira deram positivo.

Clique aqui quem quiser ler o artigo na íntegra (em alemão).