Bicicleta

Danas, jornal sérvio

José Horta Manzano

Os torcedores sérvios amanheceram zonzos, com cara de quem teve pesadelos à noite. A imprensa local não perdoou. O artigo ilustrado com a foto de Pixie (o técnico da seleção sérvia) mostra o estado de espírito que reinou no pós-jogo:

“Uma imagem, mil palavras: a reação de Pixie após a bicicleta de Richarlison diz mais do que tudo”.

Prognóstico

Corriere della Sera, 24 nov° 2022

José Horta Manzano

“O líder da direita [Bolsonaro] contabilizou o apoio de Neymar e fez duas promessas: “Eu vou ganhar as eleições e ele, a Copa”. A primeira aposta frustrou-se. Quanto à segunda, hoje começa o baile.

E se, no final, a seleção que mais títulos já recebeu na história devesse chegar de novo ao topo, provavelmente Lula vai esquecer a brincadeirinha de Neymar e vai abraçá-lo como um filho predileto. Porque essa é a democracia, e sobretudo esse é o futebol (não somente) no Brasil.”

Virando a página

by Luciano “Kayser” Vargas (1970-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

No Brasil, ainda se ouve o eco das reclamações dos que ficaram desagradados com o resultado da eleição. Ainda tem gente imitando o guru Roberto Jefferson e jogando paus e pedras na polícia. E até dando tiros de revólver contra a força pública. A razão é que esses inconformados pressentem que dificilmente poderão contar de novo com um extremista na Presidência. O pesadelo (chamado de “sonho” por bandidos, garimpeiros selvagens, madeireiros ilegais, grileiros, milicianos e ingênuos) acabou.

Esse estropício que está de saída do Planalto conseguiu chegar lá em 2018 porque ninguém tinha a medida do que poderia ser um indivíduo nazi-fascista sentado no trono. Ninguém tinha nunca convivido com um. Agora todos sabem. É por isso que, pelas próximas décadas, é de duvidar que outro espécime da mesma laia seja eleito. Nem ele, nem uma imitação.

No Brasil, ainda pipoca aqui e ali uma notícia de rodapé sobre aqueles agrupamentos de gente embandeirada zanzando de um lado pro outro como se estivessem todos em estado de transe coletiva, a chorar o messias naufragado. Já no estrangeiro, Bolsonaro e seus devotos são página virada. O Brasil agora é mencionado em relação à COP27 e, cada vez mais, em relação à Copa.

O canal de informação contínua France Info se alegra de ver o Brasil de retorno à COP27(*) e lamenta que a China de Xi Jinping esteja ausente.

France Info

O sueco Nyheter 24 também se enche de esperança ao mencionar a presença de Lula na Conferência Climática. Diz textualmente:

“A recente vitória de Luiz Inácio “Lula” da Silva nas eleições presidenciais brasileiras é vista como um possível ponto de inflexão na luta pelo cumprimento das metas climáticas globais. Com o negacionista climático Jair Bolsonaro no poder, as florestas tropicais vitais da Amazônia foram desmatadas a um ritmo acelerado – o que Lula diz querer parar.”

Nyheter 24

O inglês The Guardian anuncia que o Brasil, a Indonésia e o Congo estão em tratativas para formar uma aliança estratégica para a conservação da floresta úmida. O novo clube, que reúne mais de 50% da floresta equatorial, já recebeu o apelido de “OPEP das Florestas Tropicais”, em alusão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

The Guardian

A edição alemã do site esportivo GOAL escolheu outro tema. Publica artigo sobre o fervor com que a Seleção canta o hino nacional. Lembra que, na Copa de 2014, o público presente no estádio continuava a cantar a cappella quando os 90 segundos regulamentares permitidos pela Fifa para cada hino se esgotavam e o acompanhamento musical silenciava.

Para completar, o artigo conta a história de nosso hino e traz a versão alemã da letra – com todos os versos. E inclui ainda um vídeo de um jogo de 2014 com o estádio inteiro cantando de pé. Era uma época em que vestir-se de amarelo significava apenas ser um cidadão direito, não de extrema-direita.

Goal (deutsche Ausgabe)

(*) COP = Conference of the Parties (Conferência das Partes). Na verdade, o nome em inglês é Climate Change Conference (Conferência de Mudanças Climáticas). No entanto, a sequência CCC foi abandonada visto que, na língua inglesa, a sigla já tinha mil e uma utilidades.

Na política dos EUA dos anos 1930:
Civilian Conservation Corps

Nos negócios:
Cash Conversion Cycle

Nos aplicativos de mensagem:
Coricidin Cough and Cold

Na escola:
Community Classroom Collaborative

Na administração californiana:
California Conservation Corps

Na área de saúde:
Clinical Competency Committee

Na temática LGBT:
Classic Closet Case

Cristofascismo

Fascio Littorio: emblema do fascismo

José Horta Manzano

Em longo artigo, o italiano Corriere della Sera digital discorre sobre a campanha presidencial brasileira deste ano. Sobrevoa as acusações de canibalismo, satanismo e pedofilia. Lembra a sombra de um possível golpe de Estado, a ser dado unicamente em caso de vitória da esquerda.

Menciona ainda: a Venezuela e a Nicarágua, o “pintou um clima”, Janja da Silva, Michelle Bolsonaro, o ditador paraguaio Stroessner, Silas Malafaia, Fernando Collor, confisco de aposentadorias, Neymar, Copa do Mundo, fechamento de igrejas, aborto, satanás, dom Odilo Scherer, o “perigo comunista”. E outros nomes e fatos que nós todos conhecemos.

Fechando o cerco, relata a inacreditável história de tráfico de crianças, que Damares Alves “ouviu na rua” e denunciou à Justiça. Acrescenta a apropriação que “cantanti gospel” (=cantores evangélicos) fizeram da historinha horripilante. E conclui discorrendo sobre o cristofascismo. (Esse conceito fica por conta do Corriere della Sera, não é tema de campanha no Brasil.)

Fascismo cristão ou cristofascismo é expressão cunhada por uma teóloga alemã nos anos 1970. Descreve o ponto de contacto entre o fascismo e o cristianismo, contacto induzido pelas teorias de extrema-direita. O cristofascismo pode ser entendido como uma ampla muleta que dá uma fachada de dignidade cristã aos princípios atrozes e violentos que formam a ossatura da ideologia fascista.

É exatamente o que desabrochou na nação brasileira quando se instalou o governo do capitão. E que continua plantando raízes em nossa sociedade. É um movimento pérfido e insidioso, dado que se instila como veneno na mente de honestos cidadãos que se enxergam como cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo que toleram – e até praticam sem se dar conta – comportamentos extremistas.

É desse mal corrosivo que temos de nos desvencilhar domingo agora, enquanto é tempo.

Anauê, cidadãos!(*)

(*) Anauê era a saudação adotada pelos adeptos do integralismo, corrente de pensamento de matriz fascista que chegou a ter certa força no Brasil dos anos 1930.

Preocupação mundial

José Horta Manzano

Costumo dizer, brincando, que a importância da eleição presidencial americana é tão grande para o mundo, que não só os americanos deviam votar, mas também os eleitores do resto do planeta. É uma boutade, naturalmente, uma tirada sem muito sentido.

Mas agora, fora de brincadeira, os brasileiros não parecem estar se dando conta da importância que a eleição de domingo está assumindo além-fronteiras. Falo dos brasileiros que pensam porque, para os outros, não há remédio.

Eu já lhes contei que, em décadas e décadas vivendo no exterior, nunca tinha visto tanto interesse pela política tupiniquim. Naturalmente, fatos excepcionais como a morte de Tancredo, a destituição de Dilma ou a prisão de Lula receberam cobertura. Só que, desta vez, não houve morte, nem impeachment, nem prisão. São só eleições gerais que, em outros tempos, não chamariam a atenção.

Quer uma prova do interesse inabitual? Pois aqui estão os primeiros parágrafos que recortei do editorial de um semanário regional italiano, publicação sem projeção nacional que, em princípio, deveria estar comentando a situação em sua paróquia. No entanto, lançam um olhar preocupado a nossas eleições. Aqui está.

“Enquanto os olhos italianos estão todos voltados para Roma, onde se desenrolam os dias históricos do lançamento do primeiro governo cujo primeiro-ministro é uma mulher;

enquanto a atenção dos europeus está capturada pelos desdobramentos do conflito na Ucrânia, onde ainda não se sabe como as hostilidades vão cessar;

enquanto ecos longínquos continuam a chegar de um Irã que não suporta mais as arbitrariedades do regime dos aiatolás, e de uma China onde Xi Jinping perpetua seu poder garantindo que a independência de Taiwan tem os anos (ou os meses) contados;

enquanto o olhar de todos parece voltado ao Oriente, domingo 30 de outubro é no Ocidente que terá lugar o acontecimento mais importante e também o mais perigoso da cena mundial.

O segundo turno das eleições brasileiras têm importância planetária, não podemos mais fazer de conta que não é assim. Seu resultado determinará por muito tempo o destino não só do continente, mas além.”

Como veem, tem muita gente pelo mundo que adoraria poder votar no nosso segundo turno domingo que vem.

A lei do trabuco

José Horta Manzano

Dia sim, outro também, Bolsonaro e sua malta nunca nos decepcionam. Há sempre alguma barbaridade nas manchetes. A imprensa internacional, quando falta assunto, não deixa de dar uma espiada por cá: nunca saem de mãos abanando.

 

Ex-deputado bolsonarista fere dois policiais que o vinham deter

 

 

Ao ser preso, apoiador do presidente Bolsonaro fere policiais

 

 

Ao ser preso, ex-deputado brasileiro lançou granadas e atirou contra a polícia

 

 

Político brasileiro joga granadas na polícia no estado do Rio

 

 

Político ia ser preso – lançou granada

 

 

Ex-deputado atira e lança uma granada ferindo dois policiais

 

Refém da eleição

Bandeira brasileira, refém da eleição

José Horta Manzano

A foto tirada em BH atravessou o Atlântico e chegou à imprensa francesa. Era pra ser alegre, com todas aquelas bandeirinhas em formato flâmula a compor uma cena comum a todas as Copas. Tinha sido assim em 2018, em 2014, em 2010 e nas anteriores. Só que…

Só que, desta vez, o cenário está sombrio. A falta de imaginação da franja doente de nossa sociedade não lhe permitiu criar símbolo próprio. Na ausência de símbolo, as cores nacionais, que são de todos, foram monopolizadas por aqueles cuja argumentação se faz pela granada e pelo fuzil.

Como se vê na ilustração, a revista L’Express gastou três linhas para explicar a seus incrédulos leitores o caso peculiar de um país em que a bandeira nacional foi sequestrada por uma parte da população – na indiferença dos demais, que agora têm de dar explicações para poder agitar o símbolo maior.

O Brasil decente não se preocupou em defender a bandeira. Entregou-a, sem luta, aos discípulos do cafajeste.

Mais ecos do debate

José Horta Manzano

O debate que Lula e Bolsonaro protagonizaram na tevê ecoou forte além-fronteiras. Debates à brasileira, que se assemelham cada dia mais a briga de criançada do ensino fundamental, são desconhecidos na Europa, onde o nível costuma ser menos rasteiro.

Essa história de “Acusado! Eu vi você mostrando a língua pra professora!” não cabe numa confrontação entre candidatos à Presidência de país civilizado. O que tem divertido a imprensa estrangeira são justamente essas alfinetadas pré-adolescentes, comportamento que destoa vindo de dois personagens que já ocuparam o posto máximo.

 

 

El Mundo
O espanhol El Mundo não se ateve a detalhes. Deu uma nota global: “Um eletrizante debate corpo a corpo”.

 

 

Corriere della Sera
O Corriere della Sera é escrito numa língua (italiano) que não é pródiga no uso de diminutivos. Para traduzir a expressão “pequeno ditadorzinho”, que Lula dirigiu a Bolsonaro, o jeito foi duplicar o adjetivo: “Um piccolo piccolo dittatore”um pequeno pequeno ditador.

 

 

The Guardian
O mesmo problema de diminutivos tem a língua inglesa. Na hora de verter o “pequeno ditadorzinho”, o Guardian de Londres escreveu: “Tiny little dictator” – minúsculo pequeno ditador.

 

 

Sud Ouest
O francês Sud Ouest fez a chamada em dose dupla, com réplica e tréplica. Não só o “ditadorzinho” apareceu, mas a “vergonha nacional” também. Falaram então de “petit dictateur” – ditadorzinho e “honte nationale” – vergonha nacional.

 

 

HLN
Já o holandês HLN escolheu outro par de insultos. Afinal, não foi dícil encontrar, tantas foram as ofensas estúpidas e contraproducentes. A chamada incluiu: “klein dictatortje” – pequeno ditadorzinho e “koning der leugens” – rei da mentira.

 

 

Thuner Tabglatt
Mais dramático, o suíço Thuner Tagblatt escolheu palavras impactuosas para descrever o que considerou ‘batalha de lama’: “Pädophil” e “Kannibale”. Dispensam tradução.

 

 

Para travar a língua
A descrição alemã do debate, mostrada nesta última ilustração, traz uma palavra de aspecto assustador: Schlammschlacht. Essa fila indiana de 15 letras comporta apenas 2 vogais para 13 consoantes. Essa massa de letras forma só duas sílabas, acredite. Significa batalha de lama.

O mundo de olho

“Debate venenoso entre Bolsonaro e Lula”
Le Monde, França – 30 set° 2022

José Horta Manzano

Antes deste ano da graça de 2022, nunca jamais uma eleição presidencial brasileira tinha despertado tamanho interesse além-fronteiras. No tempo dos militares, nem se fala. A “eleição” estava mais pra nomeação e não levantava paixões. Desde a redemocratização, o interesse aumentou, mas não resultou em entusiasmo internacional.

Este ano é diferente. O mundo está assustado. Assustado com o espantalho de um Trump ameaçando voltar a se apossar do governo da maior potência do planeta. Assustado com a ditadura de Putin, que aterroriza com suas bombas atômicas. Assustado com regimes populistas e autoritários que pipocam no coração da Europa: Hungria, Polônia. Assustado com as eleições da semana passada na Itália, que deram a vitória a uma extrema-direita populista e xenófoba.

O mundo civilizado tem acompanhado os quatro anos do desastre bolsonárico. Embora dirigentes dos principais países respeitem o dever de reserva que se exige deles, sabe-se que todos estão preocupados com as eleições brasileiras.

O temor de um autogolpe, presente até pouco tempo atrás, arrefeceu. Bolsonaro, decerto por não receber o apoio que esperava, anda mais calmo. E todos nós nos damos conta de que o perigo de uma reviravolta no regime, se não estiver de todo esconjurado, está menos ameaçador.

Resta o risco de uma reeleição do capitão, fato considerado um verdadeiro desastre. Bolsonaro, com sua visão simplória de geopolítica, não tem capacidade de entender o perigo representado pela ditadura totalitária de Putin. Chegou a declarar que “o Brasil é solidário à (sic) Rússia”. Dirigentes de visão sentem calafrios ao imaginar o Brasil entrando no clube das pseudodemocracias autoritárias.

Não se passa um dia sem que se fale de nosso país e destas eleições. Estações de rádio e de tevê mandaram enviados especiais, que já estão no país à espera do domingo. Diariamente, há bloco nos telejornais especialmente para analisar o Brasil pelo direito e pelo avesso. Os jornais seguem na mesma linha. Assisti estes dias a dois longos documentários sobre o clã dos Bolsonaros. O primeiro, com uma hora de duração, passou na tevê suíça; o outro, de três horas espalhadas por três capítulos, passou na britânica BBC.

Até o debate de ontem já apareceu na imprensa europeia. A ilustração mostra longo artigo com boa análise feita praticamente no fogo da ação.

Faz bem ao ego ver que o mundo se interessa pelo país da gente. Só que, francamente, eu preferia que esse interesse fosse por aspectos mais civilizados de nossa sociedade, e não por esse indivíduo repulsivo.

Que ele seja logo despachado de volta pr’a geleia geral dos baixos círculos milicianos. De onde nunca deveria ter saído.

Se acabou

João Selva, cantor e compositor carioca

José Horta Manzano

Hoje, logo depois do almoço, estava eu tranquilamente na cozinha pondo ordem em panelas, pratos e talheres. Observe-se que deste lado do mundo, pra pagar serviçais, precisa ser abastado. O rei da Inglaterra, por exemplo, com os bilhões que já tem mais outros tantos que acaba de herdar, tem quem lhe arrume a cozinha. Eu não tenho.

O rádio estava ligado. O locutor comentava das algas que infestam os grandes lagos pré-alpinos. E continuava falando de algas comestíveis, que alguns gostam de misturar na salada. Eu ouvia sem escutar, que o assunto não era lá tão interessante. Eis senão quando, entra um intervalo musical. E a música me pareceu familiar.

O ritmo estava entre o baião e a marchinha de carnaval. Acompanhamento singelo e uma voz masculina suave. Prestei atenção na letra. Dizia:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Em seguida falava em galo, galinha, periquito, carcará e toda a animália que pode caber numa letra de música. A imagem era de a bicharada toda estar comemorando a despedida do capitão. E voltava o refrão:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Pensei: “Puxa, será que o horário de propaganda eleitoral gratuita chegou até aqui?” Logo me dei conta de que a ideia era absurda. Que tolice!

Cogitei então que os candidatos de oposição a Bolsonaro tivessem feito uma vaquinha pra inserir um anúncio pago na rádio pública suíça. Cheguei logo à conclusão de que a ideia não fazia sentido. É verdade que a colônia tem aumentado e que somos hoje dezenas de milhares de conterrâneos no país; assim mesmo, não dá um contingente em que valha a pena investir.

Em seguida, pensei em mais uma explicação para o fato de a rádio suíça estar tocando uma musiquinha anti-bolsonarista às vésperas da eleição brasileira. Certamente estão dando a contribuição que podem para abrir os olhos daqueles que ainda teimam em mantê-los fechados.

Não acredito que funcione. Ninguém consegue ensinar uma avestruz a desenterrar a cabeça. Assim mesmo, fico grato aos serviços públicos de radiodifusão do país pela boa vontade.

O autor
O locutor descreveu a musiquinha como “Sê acabú” cantada por “Joaô Sellvá”. Traduzi: Se acabou, por João Selva.

Nunca tinha ouvido falar nesse artista. Fui pesquisar e fiquei sabendo que se trata de um carioca que se casou com uma moça de Guadalupe (ilha francesa do Caribe) e se estabeleceu na França há alguns anos. Não sei se é conhecido no Brasil, mas em seu país de adoção lança discos, participa de festivais e se apresenta em programas de rádio.

Se você quiser ouvir um trechinho, está aqui no Youtube.

Bolsonaro: a imbroxabilidade desvendada

José Horta Manzano

Bruno Meyerfeld é um escritor e jornalista franco-brasileiro. É o correspondente no Brasil do jornal Le Monde, quotidiano francês de referência. Acaba de lançar novo livro, redigido em francês, com o título Cauchemar brésilien – Pesadelo brasileiro. A ilustração mostra a capa da obra.

Fruto de acurado trabalho de investigação jornalística, o livro, ainda sem edição brasileira, retrata a história da ascensão de Jair Messias Bolsonaro, desde a infância até a Presidência. A obra está cheia de historietas interessantes – algumas conhecidas, outras menos – todas girando em torno da vida do capitão.

O público francês vê em Bolsonaro apenas um incansável destruidor da floresta amazônica. O livro trata de esclarecer que Bolsonaro é muito mais que isso – mais e pior. Narra suas obsessões, sua incrustada paranoia, suas transgressões, sua ojeriza às minorias (pretos, mestiços, homossexuais, índios), sua misoginia, seu comportamento mortífero perante a epidemia de covid. E muito mais.

Entre as revelações, aparece uma muito interessante. Lá pelas tantas, depois de descrever as noites arrastadas que um presidente insônico passa a perambular pelos corredores do Alvorada nas horas mortas, o autor continua:

«En plus de ses soucis de sommeil, [Jair Bolsonaro] souffre également de ‘dysfonction érectile’. Il est un utilisateur régulier de Cialis, ce vasodilatateur concurrent du Viagra. Et ne s’en cache nullement. La présidence, cela fait ‘débander même les super-héros’.»

«Além do problema de insônia, [Jair Bolsonaro] sofre também de ‘disfunção erétil’. Ele é cliente regular de Cialis, vasodilatador concorrente do Viagra. E não se preocupa em esconder. A presidência deixa ‘até um super-herói broxa’.»

Sensacionalismo não é o forte do jornal Le Monde nem de seus jornalistas. Se o autor citou essa peculiaridade do presidente do Brasil e assinou embaixo, é porque checou a informação junto a fontes confiáveis.

Sabendo disso, a gente agora começa a entender por que o capitão concordou com a distribuição de Viagra para oficiais das Forças Armadas. E fica também claro o porquê de ele se referir continuadamente à própria ‘imbroxabilidade’. Compreende-se. Apoiado no braço amigo do Cialis, não precisa ser super-herói: qualquer um consegue.

No fundo, ele parece mais é estar em marcha acelerada para a impotência total. Se é que já não chegou lá.

Se você estiver em Paris
Está marcada para este 12 de setembro a noite de autógrafos do lançamento do livro Cauchemar brésilien. Será no Bar Cultural 61, Paris 19ème, a partir das 19 horas.

Deu no Stern

José Horta Manzano

Stern, revista semanal alemã com tiragem de um milhão de exemplares, publicou análise da campanha eleitoral brasileira. O título já dá o tom:


Wahlkampf in Brasilien: Es geht um nicht weniger als die Zukunft der Demokratie

Campanha eleitoral no Brasil: nada menos que o futuro da democracia está em jogo


Na apresentação dos dois principais candidatos, não se perde tempo bordando a bainha. Os alemães são concisos e vão direto ao ponto, dando apenas uma síntese de cada personagem:


O ex-militar que um dia aterrissou na prisão por envolvimento em tumultos contra o ex-líder sindical que um dia aterrissou na prisão sob acusações de corrupção.


Precisa dizer mais?

Que tal dar adeus ao voto útil e escolher candidato mais palatável no primeiro turno? Tebet, Thronicke, até Ciro. Muita gente acha melhor quitar a fatura no primeiro turno para evitar um segundo. Pensam tirar do caminho a ameaça de golpe.

Quanto a mim, acredito que a ameaça de golpe está no ar desde o primeiro dia do capitão na Presidência. E lá ficará até o último dia. Não me parece que um segundo turno de eleição aumente o risco. Pelo contrário: tendo falhado no primeiro, o capitão perderá força e embalo.

Aviso aos navegantes: a candidata do PCB, que se chama Sofia Manzano, não tem relação de parentesco com este blogueiro. Mas, se alguém tiver simpatia pelo partidão, que vote nela. Por que não?

As eleições na mídia internacional

José Horta Manzano

As primárias e os debates que precedem a eleição presidencial nos EUA costumam ser acompanhados com atenção pelo mundo todo. Mas por acaso o distinto leitor já viu, na mídia nacional, relatos sobre debates eleitorais de algum outro país exceto os EUA? A resposta é provavelmente não.

É natural. Pelo peso mastodôntico da economia dos EUA, suas eleições interessam ao mundo inteiro. Já campanhas de outros países dão, no máximo, nota de rodapé. Mas isso não é particularidade da imprensa brasileira: por toda parte é igual. A política dos países vizinhos sempre interessa um pouco; já, de países distantes, pouco ou nada se fala.

Mas exceções acontecem. De uns 2 ou 3 anos para cá – e não exatamente pelas melhores razões –, a política brasileira entrou no foco dos holofotes. Meio divertido, meio assustado, o mundo inteiro acompanha a singular batalha presidencial que se travam dois típicos políticos nacionais: um admirador de Hugo Chávez que já passou pela casa prisão contra um admirador de Hugo Chávez que ainda há de estacionar na mesma casa.

A mídia internacional não perdeu o festival de insultos ao qual o baixo nível dos dois candidatos reduziu um momento que deveria ter sido dedicado a uma civilizada exposição de argumentos.

Foi mais uma prova de que os dois protagonistas são carentes de ideias. São ambos reativos (quando reagem…), raramente propositivos. Incapazes de traçar um programa de governo, navegam em modo visual, sem instrumentos, ao léu, ao deus-dará. Como se diz popularmente, só pegam no tranco. Isso, quando pegam.

Aqui está um florilégio de reações da mídia internacional ao debate da Band. A repercussão chegou à Turquia. E até à longínqua Lituânia, país que não é qualquer um que conseguiria apontar num mapa.

 

 

“A temperatura sobe quando Lula e Bolsonaro se encontram”
Upsala Nya Tidning, Suécia

 

 

“Bolsonaro descontrolado, Lula exausto e candidatos alternativos vitoriosos”
El Mundo, Espanha

 

 

“A senhora decerto sonha comigo à noite”
Süddeutsche Zeitung, Alemanha

 

 

“Bolsonaro e Lula se enfrentam”
Le Figaro, França

 

 

“No Brasil, corrida presidencial esquenta”
Sözcü, Turquia

 

 

“O primeiro duelo na tevê entre Bolsonaro e Lula foi uma tempestade de insultos”
Agenzia Italia, Itália

 

 

“Bolsonaro e Lula da Silva se enfrentam no debate nas eleições presidenciais brasileiras”
15min, Lituânia

 

Deus, dinheiro e mentiras

José Horta Manzano


Deus, dinheiro e mentiras no Brasil

Jair Bolsonaro vs. Lula da Silva: a campanha eleitoral entre dois políticos predominantes já começou. Para o presidente Bolsonaro, as chances de reeleição são escassas.


O jornal Wiener Zeitung, de Viena (Áustria), sintetizou em três palavras a campanha presidencial brasileira deste ano: Gott, Geld und Lügen Deus, dinheiro e mentiras.

Note-se que discussões, debates, argumentações, ideias, projetos e outros tópicos que costumam frequentar as campanhas em países mais adiantados estão ausentes da nossa. A democracia brasileira está se aproximando perigosamente do padrão do Zimbábue ou do Mali.

Vias de fato

Sempre alerta, a mídia europeia não deixou passar a refrega

José Horta Manzano

“Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” – foram as palavras amáveis dirigidas ao capitão por um “youtuber de direita”, seja lá o que isso queira dizer. Na atualidade, todo cidadão faz obrigatoriamente jus a uma etiqueta a especificar se ele é do bem ou do mal, de Jesus ou de Belzebu.

Em tempos mais gentis que o atual, os epítetos lançados ao presidente seriam inadmissíveis, inconcebíveis. No entanto, desde que Bolsonaro vestiu a faixa, a civilidade foi pro espaço. Hoje em dia, nem aqueles palavrões cabeludos que a gente tinha vergonha de pronunciar chocam mais. Que saiam da boca de um cidadão qualquer ou até do presidente da República(!), o efeito é nulo. Nenhum frisson. Expressões de calão entraram para a conversa corriqueira.

Assim mesmo, é menos comum assistir-se à cena de um presidente se atracar fisicamente com um cidadão pelo motivo de ter escutado qualificativos que não lhe agradaram. Já fiquei sabendo de coronéis e deputados que se comportaram assim. De um presidente, principalmente quando está em campanha de reeleição, é mais raro.

Pensando bem, as palavras utilizadas pelo rapaz refletem a pura verdade. Nua, crua e sem retoques. “Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” é excelente resumo da personalidade presidencial. Ou não?

Mas dá pra entender a razão pela qual o capitão se sentiu tão à vontade pra rodar a baiana no meio da rua. Em primeiro lugar, o interlocutor era baixo e franzino. Em seguida, Bolsonaro estava rodeado daqueles agentes tamanho leão de chácara. Nessas condições, até eu me aventuraria a abordar fisicamente o “ofensor”.

Queria ver se a macheza seria a mesma caso os seguranças não estivessem ali e o “youtuber de direita” fosse do tamanho daquele deputado anabolizado, aquele que foi condenado à masmorra e salvo pela graça presidencial. Não tenho certeza de que Sua Excelência encararia, peito aberto.

Se eu fosse o youtuber agredido, não hesitaria em dar parte na polícia por ter sido vítima de vias de fato – em reação desproporcionada a mera interpelação verbal.

A torcida

José Horta Manzano

Fora dos EUA, o antigo presidente Donald Trump era visto como uma espécie de palhaço. Seu comportamento de elefante em loja de cristais incomodava. Só que tem uma coisa: ele era palhaço, mas um palhaço com exército e bomba atômica. São argumentos fortes que impõem respeito.

Em nosso triste Brasil, temos um presidente que tenta, há quase quatro anos, seguir a cartilha de Trump. Como se sabe, as mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. Assim, não deu outra: no exterior, Bolsonaro também é visto como palhaço. Só que… um palhaço sem bomba atômica, fato que deixa todo o mundo à vontade, língua destravada.

Em meio século de vivência no exterior, acompanhei numerosas campanhas eleitorais e eleições presidenciais. Naqueles tempos pré-internet, pra saber como iam as coisas em Pindorama, o único jeito era pedir a alguém que mandasse uma revista ou um jornal pelo correio. Com quinze dias de atraso, a gente se atualizava.

Hoje, com internet, a informação circula com a velocidade do raio. No entanto, vale contar que, mesmo que não tivessem inventado a rede, não haveria mais necessidade de encomendar revista. De fato, a mídia europeia passou a se interessar de perto pelas peripécias eleitorais do Brasil.

Dado que, até poucos anos atrás, havia pouquíssimo interesse pelos acontecimentos brasileiros, acredito que o fervor atual seja um “efeito Bolsonaro”. Os estrangeiros, que não dependem de auxílio nem de cesta básica, são mais propensos a ver as coisas como elas são, despojadas da cosmética eleitoreira.

Ainda hoje, o rádio informou do início oficial da campanha eleitoral no Brasil. Contaram até como foi o primeiro dia de cada um dos integrantes da dupla mais cotada – Lula e Bolsonaro. Com ênfase neste último, naturalmente. Até uma parte do discurso do capitão foi transmitida, com tradução simultânea, veja só.

Em outros tempos, a gente se sentiria até orgulhoso – veja como nosso país ficou importante! Só campanha eleitoral nos EUA e nos países da Europa Ocidental costumavam atrair a atenção. Infelizmente, sabe-se que o Brasil não ficou importante de repente. O mal é a ameaça representada por Bolsonaro, estranho dirigente que trabalha contra seu país e seu povo. Vem daí o interesse internacional.

Não são só os brasileiros decentes que não veem a hora de se livrar do Capitão Tragédia. Não estamos sós. O mundo decente está ao nosso lado, na torcida. Infelizmente, essa massa de gente de boa vontade não vota no Brasil. Mas sabe fazer pressão. A ameaça de golpe vai arrefecendo. No final, que vença o que tiver mais votos. Mas sem golpe.

Em francês

Em inglês

Em italiano

Em sueco

Em espanhol

Em alemão

Passeata virtual

Brasileiros mobilizados para salvar a democracia
Le Temps, diário suíço de referência

José Horta Manzano

Não é só no Brasil que o capitão virou motivo de piada. Também na Europa, a menção de seu nome vem geralmente em tom de caçoada. Nosso presidente costuma ser visto como uma espécie de palhaço, mais ou menos na linha de outros dirigentes cômicos – como o líder da Coreia do Norte, por exemplo.

A Carta aos Brasileiros – verdadeira passeata virtual que reuniu mais de um milhão de participantes – foi noticiada com euforia por toda a mídia europeia. De redes sociais, não sei, mas rádios, tevês e jornais ecoaram o grito retumbante de um povo heroico.

É um alívio constatar que ainda há brasileiros pensantes e que importante naco da população parece ter acordado de um coma profundo. Vamos ver se dura.

République bananière

 

José Horta Manzano

“Mas… de onde saiu essa gente?” – é a pergunta que se faz desde que o capitão vestiu a faixa. De onde vem esse povo estranho que cerca o presidente, gente desprovida de inteligência, de bom senso e de lógica, sempre com quatro pedras no bolso e uma faca entre os dentes? Onde se escondiam antes? Como é que passaram despercebidos até chegar ao entorno de Seu Mestre?

Todos os jornais da França, sem exceção, reproduziram a inacreditável fala de Sua Excelência Guedes, ministro-chave desta República, que ousou apontar o dedo para a França e declarar que ela estava “ficando irrelevante para nós”.

O trecho do discurso em que o ministro chantageia o tradicional parceiro do Brasil e o ameaça de “irrelevância”caso não cessem as críticas sobre o desmatamento da Amazônia foi estampado em todos os jornais. Até o palavrão (coisa fina, Guedes!) sujou o papel. Fico aqui imaginando a incredulidade que marcou a expressão dos leitores, gente pouco habituada ao baixo nível da fala de Guedes. Talvez o ministro nem desconfie, mas francês é um povo que lê.

Falando nisso, muitos dados importantes sobre o comércio exterior brasileiro devem estar escapando a nosso bizarro ministro. Levantamento do Estadão mostra que, segundo dados fornecidos pela embaixada da França em Brasília, há 1.042 empresas francesas instaladas em nosso país, que dão emprego a 471.784 funcionários e atingem um volume anual de negócios de 66,1 bilhões de euros (R$ 350 bi).

No ano de 2020, com um volume de 32,3 bilhões de dólares (R$ 165.3 bi) a França foi o terceiro investidor estrangeiro no Brasil, atrás apenas dos EUA e da Espanha. Agora vem o dado mais interessante: enquanto a França ocupa o 11° lugar entre todos os países que vendem para o Brasil, o Brasil ocupa o 36° lugar entre todos os países que vendem para a França.

Tenho o dever de contradizer o ministro e informá-lo de que, no ponto em que estamos, é o Brasil que se está tornando irrelevante para a França, não o contrário. Sem as importações do Brasil, a França poderia continuar funcionando sem sobressaltos. Já sem as importações da França, o Brasil teria problemas.

É verdade que Paulo Guedes é reincidente. Já reclamou do horror que seria ter de viajar de avião ao lado de uma empregada doméstica; já deixou claro que lugar de filho de porteiro não é na faculdade; já insultou a primeira-dama da França ao dizer (em discurso público) que ela era feia mesmo. Tudo isso é verdade.

É verdade que ele é tolo, arrogante, boca-suja, inconsequente, imbuído da própria importância. Só que tem uma coisa: se seu chefe fosse um outro presidente que não Bolsonaro, sua soberba e essa sujeira que lhe sai pela boca ficariam quietinhas, guardadas no fundo de uma gaveta e trancadas a sete chaves. Se abre as asinhas e se comporta como se discursasse para bêbados num botequim, é porque se integrou no time presidencial e absorveu os princípios éticos e morais em vigor no Planalto.

Senhor Guedes acaba de dar excelente contribuição para cristalizar, aos olhos europeus, a imagem do Brasil como legítima república de bananas.

No Brasil, sua fala já saiu das manchetes e faz parte do passado; na França, há de marcar nossa imagem por décadas.

Visto do Vietnã

Explosão da fome que atinge 33 milhões de brasileiros
Le Courrier du Vietnam, 10 junho 2022

 

José Horta Manzano


Notícia boa interessa pouca gente. É por isso que às vezes demora a chegar.

Notícia ruim atrai a atenção e chega rápido feito corisco.


Você conhece o Vietnã? Sabe apontar o país num mapa? Não é fácil. Fica lá na Cochinchina. Pensa que é brincadeira minha? Não é. Parte dos contornos do Vietnã atual coincidem com a costa que os navegadores portugueses visitaram 500 anos atrás e chamaram Cochinchina.

A linguagem popular costuma dizer “Conchinchina”, acrescentando um N que não aparece no original. Esse N sobra. É Cochinchina mesmo.

A origem do nome é curiosa. É obra dos navegantes portugueses. Quando aportaram naquelas costas, já fazia anos que tinham aberto um posto de comércio no litoral da Índia, junto à cidade de Cochim (Kochi em inglês). Não se sabe por que razão, chamaram a nova terra também Cochim. Para diferenciar as duas Cochins, esta ficou Cochinchina (= Cochim da China).

Com o declínio do poderio português, a região passou a ser cobiçada por outras potências europeias. A partir da metade do século 19, caiu aos poucos na órbita da França e e acabou tornando-se colônia. Conservou esse estatuto até 1954, quando, depois de 8 anos de guerra sangrenta, os vietnamitas conseguiram expulsar os colonizadores.

Os franceses se foram, mas a língua ficou. Cada vez perdendo mais terreno em relação ao inglês, é verdade, mas resistindo até hoje. Nas escolas do país, o francês ainda é ensinado como segunda língua.

Pois é. Nós não sabemos grande coisa sobre o Vietnã. Mas eles estão informados sobre as mazelas de nosso país, aquelas desgraças que nos incomodam mas que insistimos em negar.

A edição de ontem do Courrier du Vietnam, jornal online vietnamita redigido em francês, traz longo artigo sobre a “explosão de fome que atinge 33 milhões de brasileiros”. Até vietnamita se espanta com nossa assustadora realidade; só brasileiro é que ouve uma barbaridade dessas e continua seu caminho achando que é normal.

Minha gente, é o seguinte: são 15% dos conterrâneos passando fome. É um em cada sete. Da próxima vez que passar por uma rua movimentada, experimente contar. Deixe passar 6 indivíduos. No sétimo, anote: este aqui não tem comida suficiente. Faça esse exerciciozinho durante cinco minutos.

Aí você vai entender a extensão do drama. É de dar vertigem. É muita gente. Gente como nós, mas que sofre as consequências de um pecado original: nascer pobre num país onde a desigualdade social não incomoda ninguém.

Enquanto isso, o capitão passeia de motocicleta ou de jet ski para encanto dos devotos, o Lula dá festa de casamento com banquete para uma multidão de adoradores, parlamentares passam a mão no nosso dinheiro, servido sob forma de orçamento secreto.

Bolsonaro já está em fim de mandato e lega um país mais faminto do que encontrou ao assumir. O Lula e seus aliados estiveram 13 anos no poder e deixaram tudo do jeitinho que tinham encontrado. Os parlamentares estão há décadas se locupletando, indiferentes ao drama maior.

Mas deixe estar. As eleições vêm aí. Sabem como vai ficar depois de novembro? Vai mudar tudo!

1) O capitão vai se aposentar e ficar ruminando vingança, balançando numa rede, em regime de picanha macia.

2) O Lula, cercado de bajuladores, vai voltar a se esbaldar com o luxo e as benesses do poder, que é o que mais lhe interessa no Planalto.

3) Os parlamentares, cujo apetite é insaciável, continuarão arrancando significativos nacos do tesouro público. Afinal, são profissionais.

E o país vai continuar empacado.