Cinco anos de adiamento

“Frexit”, o Brexit da França
Objetivo do programa da candidata Marine Le Pen

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 abril 2022

Na Europa, desde a derrota do nazi-fascismo, ao final da Segunda Guerra, as ideias da extrema direita foram guardadas em geladeira. Não é que tenham sido erradicadas, longe disso, que a capacidade do ser humano de armazenar baixos instintos é infinita. É que, durante as décadas seguintes, toda alusão a essas ideias trazia lembranças dolorosas a uma população que havia presenciado a guerra e seu cortejo de morte e miséria. Por longos anos, nada que pudesse trazer à memória bombardeios e privações teve lugar à mesa.

O tempo passou e a geração que havia assistido ao desastre provocado por ideias extremistas foi pouco a pouco desaparecendo. No entanto, mesmo com o rareamento de testemunhas oculares, a ressurgência do extremismo de direita continuou tímida: um ameaço de surto aqui, outro acolá, nada mais. Nem a débâcle da União Soviética e o abandono da doutrina comunista foram capazes de sacudir o torpor da direita extrema.

Desde sempre, ideias de retraimento, de fechamento sobre si mesmo, de defesa de uma hipotética pureza étnica, de cerceamento à livre circulação, de hermetismo diante da imigração circularam em surdina. Mas permaneceram subjacentes, como bomba à espera de um detonador. Um dia, sem que ninguém tivesse antecipado, surgiu o estopim. Veio personificado no dirigente do país mais poderoso do planeta. Chamava-se Donald Trump.

Os que votaram por sua reeleição devem julgar que foi bom presidente. Já os 7 milhões de votos de diferença com que Joe Biden o superou amortecem essa percepção. Na política externa, o homem fez estragos. Pirotecnia, como a que pôs em prática com o dirigente da Coreia do Norte, nem sempre é o melhor caminho para resolver problemas internacionais.

O pior legado de Trump foi sem dúvida sua adesão explícita à doutrina do fechamento sobre si mesmo, escancarada pela tentativa de construção de um muro de contenção na fronteira por onde entram os indesejados. Sua desenvoltura desinibiu movimentos subterrâneos ao redor do mundo, que criaram coragem para se expor à luz do meio-dia.

Dirigentes de figurino abertamente reacionário – como o italiano Salvini, o húngaro Orbán, o esloveno Jansa e o próprio Bolsonaro – não teriam se sentido tão à vontade para subir ao palco se Trump não lhes houvesse antes carpido o terreno. A expressão é batida, mas continua verdadeira: Trump abriu a caixa de Pandora. Os males lá trancafiados despertaram de um torpor de sete décadas.

Comparado com o de outros países da Europa, o sistema político francês é sui generis. Por um lado, o presidente da República, eleito pelo sufrágio popular direto, detém poder muito grande, herdeiro que é de um rei guilhotinado há dois séculos. Por outro lado, o voto distrital puro aliado a um bipartidarismo de facto tendem a dar ao presidente maioria no Parlamento, tornando-o (quase) tão poderoso como os reis do passado.

A campanha eleitoral francesa foi acompanhada com lupa pela União Europeia. De fato, caso a vitória fosse favorável à extrema direita de Marine Le Pen, a Europa, como a conhecemos, deixaria de existir. Embora a candidata extremista tenha suavizado o discurso e arredondado os ângulos de seu programa, mantinha a firme intenção de retirar seu país da Otan e da Europa. Mais que isso, tencionava pôr fim à livre circulação das gentes, restabelecer os controles nas fronteiras, abandonar o euro, ressuscitar o finado franco francês. E, para coroar, aproximar a França da Rússia e firmar pacto militar com Putin.

Se a União Europeia resistiu ao Brexit, não resistiria à saída da França – membro fundador, o maior em superfície, o segundo em economia, o único detentor de armamento nuclear. Para Vladímir Putin, uma vitória de Madame Le Pen seria notícia estupenda. Seria prenúncio do enfraquecimento e talvez do desmonte da União Europeia, sonho acalentado por Moscou. Seria um revés para Otan, organização que é pedra no sapato de Putin. Por fim, seria um sinal verde para candidatos a autocrata ao redor do globo, um dos quais aliás ocupa atualmente o Palácio do Planalto.

Desta vez, passou. Mas foi por pouco. O mundo democrático ganhou cinco anos de adiamento, a duração do novo mandato de Macron. Em 2027 voltamos a conversar. Se, daqui até lá, um conflito nuclear não tiver extinguido a humanidade.

No cavalo certo

José Horta Manzano

Em 2019, as eleições presidenciais argentinas estavam sendo preparadas. Todos já sabiam que o presidente Mauricio Macri, candidato à própria sucessão, não tinha chance. Bolsonaro passou por cima das evidências. Foi até lá, trocou beijos e abraços com o dirigente argentino e ainda ousou criticar o adversário. Deu no que deu: o adversário ganhou – o que todos já sabiam que ia acontecer, menos o capitão. As relações Brasil x Argentina se complicaram.

Em 2020, foi a vez das presidenciais americanas. Os prognósticos se apresentavam apertados. Nem a vitória de Trump, nem a de Biden estava garantida. Bolsonaro passou por cima da reserva a que todo chefe de Estado inteligente se obriga nessas horas. Com palavras e atos, foi ostensivo ao sustentar Donald Trump. Encerrada a contagem dos votos, constatou-se que o presidente não havia sido reeleito. Inconformado, Bolsonaro negou a realidade quanto pôde, e foi um dos últimos dirigentes mundiais a reconhecer que tinha perdido a aposta. As relações Brasil x EUA se complicaram.

Em 2021, chegou a hora das eleições chilenas. As pesquisas hesitavam em apontar claramente o vencedor. Em situações assim, a prudência ensina que chefes de Estado estrangeiros devem evitar demonstrar claramente sua preferência por este ou por aquele. Nunca se sabe. Mas Bolsonaro não reza por essa cartilha. Pra piorar, não deve ter assessores qualificados. De novo, apostou no cavalo errado. Botou todas as fichas em cima de Señor Kast, candidato da extrema direita. Ganhou Señor Borić, um jovem esquerdista. As relações Brasil x Chile se complicaram.

Neste mês de abril de 2022, é a França que está em pleno processo eleitoral. O mandato do presidente Macron se encerra dentro de poucas semanas. Pela lógica, nosso capitão já teria se jogado nos braços de Marine Le Pen, candidata da direita extrema. Mas tem um porém.

Um dia, em nossa eleição de 2018, quando Bolsonaro já tinha passado para o segundo turno, Madame deu uma entrevista à televisão francesa. Entre um assunto e outro, o apresentador mencionou o nome de Bolsonaro, naquele momento candidato à Presidência do Brasil, e o classificou como “de extrema direita”. Em seguida, perguntou à política francesa o que ela achava do brasileiro. Madame declarou que “não é só porque alguém costuma dizer coisas desagradáveis que se deve logo colar-lhe uma etiqueta de extrema direita”. Ficou claro que ela repelia o capitão. É certamente baseado nessa declaração que ele se absteve de tomar partido na atual disputa francesa, que voltou a alçar Madame Le Pen ao segundo turno.

Quanto ao Lula, mostrou mais uma vez que, mesmo sendo fraquinho em geopolítica, de bobo não tem nada. No primeiro turno, apoiou Monsieur Mélenchon, velho militante da esquerda radical, que completa 71 anos este ano. Pois não é que o homem quase passou para o segundo turno? Com 22% dos votos, faltou um nadinha pra ultrapassar Madame Le Pen, que obteve 23,4%.

Ao apoiar Mélenchon, o Lula estava também retribuindo a visita que o político francês lhe fez quando mofava no cárcere úmido de Curitiba. O destino não quis que o companheiro francês passasse ao segundo turno. No discurso pronunciado assim que foram conhecidos os nomes dos finalistas, Mélenchon dirigiu-se a seus eleitores e, alto e bom som, deu-lhes a recomendação para o segundo turno: “Nenhum voto para a extrema-direita!”. Para deixar bem claro, pronunciou quatro vezes a mesma frase.

Mélenchon recomendou a seus eleitores que não votassem na extrema direita, mas não teve peito pra pedir voto para Macron. Deve ter achado que era demais. Assim sendo, deixou seus apoiadores livres para se absterem, votarem em branco, anularem o voto ou eventualmente votarem em Macron. Em resumo, fez o serviço pela metade.

O Lula, que está ciente de ter boas chances de vencer a eleição brasileira, foi mais realista. Já que o companheiro Mélenchon ficou pelo caminho, lançou uma série de tuítes conclamando a derrotar a extrema direita francesa. Foi ainda mais longe que o militante francês. Deu serviço completo. Acrescentou que votar em Emmanuel Macron é fundamental porque ele “encarna melhor os valores democráticos e humanistas”.

Lula está agindo com esperteza. Em primeiro lugar, está se valendo da antipatia que Bolsonaro espalhou pelo mundo, especialmente na França. Portanto, ao apoiar o provável vencedor das presidenciais, ganha pontos. Em segundo lugar, Lula sabe que tem boas chances de ser o próximo presidente do Brasil. Um Macron reeleito e que foi apoiado pelo demiurgo estará pronto a abrir os braços para um Lula eleito e que o apoiou.

Quando insultou Brigitte Macron e quando se indispôs com meio mundo, o empacado Bolsonaro não pensou no dia seguinte. O Lula já está pensando no futuro que terá início com sua (provável) volta ao Planalto.

Entre Bolsonaro e Lula, há muitos pontos convergentes e alguns divergentes. Ambos amparam a corrupção, adoram acertos e conchavos, dirigem o país de olho no retrovisor. Uma das poucas diferenças é que o Lula pensa.

Madame e os frangos do Brasil

José Horta Manzano

Como lembrei anteontem, estamos entre os dois turnos das eleições presidenciais francesas. Ontem realizou-se o grande debate, o único organizado entre os dois finalistas. Foram duas horas e meia de perguntas, respostas, explicações, afirmações, aproximações, esgueiradas, maldades, dardos envenenados, sorrisos desajeitados.

Cada um dos candidatos – o atual presidente, Emmanuel Macron e a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen – deu o que tinha pra dar, fez o que sabe fazer e representou o papel que costuma representar. Foi sem surpresa. O medidor de audiência marcou 15,6 milhões de telespectadores, aos quais convém acrescentar os que, em algum momento, deram uma espiada nas redes sociais, que também transmitiam ao vivo.

Pra se ter uma ideia de quanto tem baixado o interesse público por esse tipo de confrontação, é bom saber que o primeiro debate, travado em 1974 entre Mitterrand e Giscard d’Estaing, tinha reunido 30 milhões de telespectadores – o dobro da audiência de ontem.

Mas o diálogo entre os adversários, às vezes polido, às vezes ácido, sempre traz algum momento interessante. Uma passagem impagável surgiu quando Madame Le Pen criticava o funcionamento da União Europeia, cavalo de batalha que ela costuma montar com frequência. Adepta do fechamento de seu país para o mundo, ela deprecia a Europa dia sim, outro também.

Madame Le Pen (de estreita visão nacionalista-passadista) acusou Monsieur Macron (europeísta convicto) de ter intenção de “substituir o povo francês pelo povo europeu”. E continuou argumentando que há “uma série de políticas da UE com as quais não estou de acordo”. Citou “a multiplicação de acordos de livre-comércio que servem para vender carros alemães e castigam os agricultores franceses com a concorrência de frangos do Brasil ou bovinos do Canadá”.

Nesse ponto, Monsieur Macron percebeu que Madame – por ignorância ou má-fé – misturava alhos com bugalhos. Perguntou: “Que frango do Brasil?”. E lembrou à distraída adversária que ele tinha se oposto ao acordo da UE com o Mercosul, porque “quando impomos certas exigências aos agricultores nacionais, exigimos o mesmo dos de fora”. Diante do silêncio embaraçado da adversária, acusou Madame Le Pen de “tentar vender gato por lebre”.

É verdade que, enquanto Macron é dotado de uma inteligência superior à média, sua adversária se limita à esperteza dos populistas: diz o que a audiência quer ouvir. Mas uma coisa é falar num cercadinho qualquer para público cativo, e outra é argumentar diante de um homem que está há cinco anos lidando diariamente com esses temas. Não tem como.

Observação
A história dos “frangos do Brasil”, que Madame pôs à mesa, rendeu pano pra mangas e fez a alegria das redes sociais. Nos momentos seguintes, houve milhares de comentários, menções, tuítes, retuítes, likes & alia. A maioria dos comentaristas dizia não saber do que ela estava falando.

A razão da visita de Bolsonaro

José Horta Manzano

Parece que está esclarecida a disparidade de dimensões entre, de um lado, a mesinha de chá que punha Putin a meio metro de distância do argentino Fernández, e, de outro, a mesona de mármore que mantinha 6 metros de distância entre o russo e o francês Macron.

Segundo o próprio Kremlin, a razão é sanitária. Visto que Emmanuel Macron se recusou a passar pelos testes de detecção de covid exigidos pelo hospedeiro, este impôs distância física entre os dois. Vladímir Putin afasta todo risco a sua excelsa pessoa. Ameaçar vizinho de bombardeio pode (veja a Ucrânia), mas respirar bafo de colega não testado não pode.

Bolsonaro está de partida para Moscou. Agora, que as redes sociais já começam a estranhar a insistência do capitão em fazer essa viagem justo agora, quando o mundo faz novena pra evitar uma guerra na região, está começando a ficar realmente esquisito.

O presidente não é conhecido por ser homem corajoso. No dia a dia, vive transferindo as próprias culpas a terceiros e, quando obrigado a aparecer em público, vem regularmente escorado atrás de uma legião de seguranças. Se ele se expõe a atravessar uma região em conflito e passar uns dias nos gelos russos, com o risco de ser alvejado por um míssil, alguma razão muito forte haverá. Qual será?

Nem o Kremlin nem o Planalto vão confirmar. Resta conjecturar. Não custa nada, vamos lá.

O distinto leitor já há de ter ouvido falar em Pegasus, um spyware israelense de excepcional desempenho, capaz de se infiltrar em qualquer telefone celular e realizar tarefas de roubo de dados e monitoramento de voz. Meses atrás, fiquei sabendo que um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado federal, estava interessadíssimo em adquirir a tecnologia. O objetivo evidente era espionar adversários, desafetos, ministros do STF, parlamentares da oposição, líderes de associações, ONGs e quetais. Talvez tenha sido essa uma das razões da viagem que uma alentada comitiva do Planalto fez a Tel Aviv meses atrás. O motivo declarado era buscar um spray nasal contra a covid, mas essa alegação podia ser mera cobertura.

Por mais que apreciem o clã Bolsonaro, os israelenses não são bobos. Sabem que, dentro em breve, serão todos varridos para a lata de lixo da história. Em resumo: não vão se comprometer vendendo tecnologia tão sensível a gente tão pouco estável – e nada confiável. Acredito que o negócio tenha dado chabu.

Por trás da visita “de cortesia” a Putin, o capitão pode estar com alguma ideia desse tipo. Embora a Rússia não tenha nunca admitido, o mundo ficou sabendo da insidiosa interferência de Moscou quando da corrida presidencial americana que elegeu Donald Trump. Interferência, se houve, foi muito benfeita. Tanto que, até hoje, todos desconfiam, mas ninguém foi capaz de comprovar.

Essa poderia ser a razão que está levando o capitão a procurar comprar ajuda russa para lhe dar uma mãozinha na tentativa de reeleição. Comprar ajuda russa com nosso dinheiro, saliente-se. Diante de uma reeleição quase impossível, ele há de estar apelando para todos os santos.

Depois de ter orgulhosamente anunciado ao mundo todo que não estava vacinado e que não pretendia vacinar-se, Bolsonaro está agora em situação delicada. Putin foge da covid como da peste. Para se aproximar dele, todo convidado tem de passar por meia dúzia de testes consecutivos, ainda que esteja vacinado. Como é que as coisas vão se desenrolar?

Macron, que está vacinado com três doses, recusou-se a passar pelos testes. Receia que seu ADN seja coletado pelo Kremlin para fazer sabe-se lá o quê. Como vai reagir Bolsonaro? Vai passar pela humilhação dos testes? Acho que será obrigado, se não Putin não o receberá nem com mesa de 6 metros. E quanto à ajuda que está buscando, vai conseguir? Teremos interferência russa nas eleições de outubro?

Tenho cá minha ideia. Não é porque Bolsonaro voou até Moscou que ele será agraciado com ajuda russa para reeleger-se. Acho que Putin, que pode não ser grande amigo da democracia mas bobo não é, vai recusar. Não vejo que interesse ele teria em ter o capitão por mais quatro anos no Planalto. Mais interessante para Moscou é ter em Brasília um amigo da Venezuela, que é atualmente afilhada da Rússia.

E o distinto leitor sabe qual dos candidatos à Presidência do Brasil é o mais próximo de Caracas, pois não?

O Lula e a Nicarágua

Lula e Daniel Ortega, o tiranete nicaraguense

José Horta Manzano

A Nicarágua é um pequeno país da América Central, um pouco maior que Portugal e um pouco menor que o Amapá. Abriga cerca de 6 milhões de habitantes.

Pobre e vampirizado por uma classe dominante acostumada a revezar-se no poder há séculos, o país não consegue deslanchar. Vive da extração de algum minério e da agricultura. Está entre os quinze maiores produtores de café.

A família Somoza mandou e desmandou no país durante meio século, a começar dos anos 1930, instalando um desavergonhado regime dinástico, com um ditador sucedendo ao outro.

No limiar dos anos 1980, levantou-se uma revolução nacional “para acabar com tudo isso que está aí”. É estado de espírito tristemente conhecido entre nós. Quando surge um líder com esse tipo de conversa, pode apostar: vai haver muita movimentação, mas, no final, nada vai mudar. Já vimos esse filme com o Collor, com o Lula, com o Bolsonaro. Deu no que deu.

De fato, foi o que aconteceu. Um jovem Daniel Ortega era o líder daquela que ficou conhecida como Revolução Sandinista, uma guerra de guerrilha. Muita gente morreu, os EUA se meteram na confusão, mas, no final, a dinastia dos Somoza foi interrompida. O quadro guarda semelhanças com a “revolución” dos bondosos irmãos Castro, na ilha de Cuba.

Os sandinistas nicaraguenses não conseguiram tomar o poder imediatamente. Instalou-se um governo civil, não revolucionário. Mas Daniel Ortega manteve-se nas cercanias do poder, esperando sua hora. Já não tão jovem como nos tempos da revolução, conseguiu finalmente chegar à presidência pelo voto em 2006.

Eleito, tomou gosto pelo poder. Agindo como um Putin tropical, ajeitou regras e leis em causa própria, e acabou instalando um regime que não fica nada a dever à ditadura que tinha jurado combater – veja como são as coisas.

Tendo sido eleito em 2006 com mandato de 5 anos, deu um jeito de se reelejer em 2011 e de novo em 2016. Faz alguns dias, venceu sua quarta eleição seguida, para novo mandato de 5 anos. Frise-se que a vice-presidente é Rosario Murillo, esposa do tiranete, a confirmar o total domínio do clã. Considerando que ele já completou 76 aninhos, terá 81 ao término do mandato. Se chegar até lá.

Para alcançar seu objetivo eleitoral, o velho líder não hesitou em instalar o terror nos partidos de oposição. Começou seis meses atrás. Ditadorzinho descarado, mandou prender os sete adversários que poderiam representar risco para sua reeleição. Só deixou livres os cinco nanicos, que não lhe traziam perigo e que lhe eram, de certo modo, subservientes. Proibiu que observadores estrangeiros viessem conferir a lisura do voto e da apuração. Sem surpresa, venceu com 75% dos votos. Foi na semana que passou.

O mundo civilizado denunciou a farsa, mas o PT, partido do qual o Lula é presidente de honra, entrou na contramão. Soltou nota qualificando a re-re-re-reeleição de Ortega como “grande manifestação popular e democrática”. O texto ainda menciona o trabalho do ditador na “construção de um país socialmente justo e igualitário”.

Passados dois dias, diante da onda de indignação que se alevantou na imprensa brasileira, a direção do PT decidiu improvisar uma retratação. Doutora Gleisi Hoffmann jura de pés juntos que o primeiro texto não tinha sido submetido à apreciação da diretoria. Portanto, ficava o dito pelo não dito. O quê? Que uma nota daquele teor tenha saído sem o aval do comitê central? Acredite quem quiser.

O ocorrido dá margem a interpretação. Na minha opinião, foi o próprio Lula, que é falto de instrução mas cheio de esperteza, quem mandou os companheiros desdizerem aquele palavrório padronizado e carimbado anos 1970. Em plena campanha eleitoral, tudo o que nosso guia não quer é reavivar, na lembrança do eleitorado, o radicalismo e as amizades perigosas que seu partido tem alimentado durante décadas: Chaves, Maduro, os bondosos irmãos Castro, os ditadores africanos.

Mas ninguém é bobo. A primeira nota – solta, livre, espontânea e sem amarras – foi o reflexo do verdadeiro ADN (=DNA) do Lula e dos seus. O resto é lantejoula para enfeitar campanha e enganar trouxa.

Entre a permanência de um desonesto Bolsonaro e a volta de um desonesto Lula… ai, meu São Benedito! Ajude-nos a encontrar uma terceira via decente! Mas não demore muito!

O próximo presidente

José Horta Manzano


Pra ser muito sincero, não acredito que doutor Sergio Moro venha a ser o próximo presidente do Brasil.


Isso não significa que este blogueiro tenha uma quedinha por Bolsonaro ou pelo Lula. Meus fiéis leitores sabem que a verdade não é bem essa. Acredito – e principalmente espero! – que o próximo chefe de nosso Executivo não venha a ser nenhum dos três: nem Moro, nem Bolsonaro, nem o Lula.

Eliminados os três, me parece que aumentam as chances de termos um próximo presidente razoável. Nem peço nem que seja excelente; razoável já estaria de bom tamanho.

Bolsonaro dispensa apresentações: é esse estropício que está aí. Ele não deixa passar um dia sem nos lembrar quem é, de onde veio, quem são seus acumpliciados, como age, quais são suas intenções, de que estofo é feito. O homem é transparente, cristalino. Não só parece mau, é mau. Não só parece primitivo, é primitivo. Não só parece rasteiro, é rasteiro. Não só parece falto de inteligência, é falto de inteligência.

O Lula, bom, desse então, nem precisa falar. Mas não custa lembrar, que há sempre gente desmemoriada. Além de “aparelhar” toda a administração do Estado brasileiro com seus cupinchas, permitiu (chefiou?) a instalação da maior corrupção sistêmica já vista num Estado que se imagina democrático. Se sofremos hoje o castigo de ter um Bolsonaro segurando as rédeas do país, agradeça-se ao Lula. Sem a roubalheira, os excessos e os escândalos do primeiro, não haveria o segundo.

De Sergio Moro, não se conhece muito. Mas o que se sabe já é suficiente para colar-lhe algumas etiquetas. Sabe-se que é obstinado e que não hesita em lançar mão de procedimentos “quase legais” a fim de alcançar seus propósitos. Sabe-se que apoiou o capitão e que seu ardor pelo personagem foi tão grande, que o fez abandonar a magistratura para seguir o chefe. Sabe-se que, no espectro político, suas posições estão à direita da direita. Exagerando um pouco, eu diria que Moro é um Bolsonaro que não fala palavrão.

Acho muito difícil Sergio Moro chegar ao segundo turno. Se, por surpresa, chegasse lá, suas chances de vencer não seriam enormes.

Se Moro tiver de enfrentar o Lula, vai pular um cortado. Por um lado, Lula conta com um capital de eleitores cativos; por outro, duvido que os devotos do capitão, desamparados, deem uma mão a Moro, votando naquele que eles consideram “traidor” da causa. Nesta configuração, nosso guia conserva todas as suas chances.

Se Moro tiver de enfrentar o Bolsonaro, vai ser pior ainda. Alguém imagina um simpatizante do Lula votar naquele que, quando juiz, mandou o demiurgo para a cadeia? Portanto, subtraindo os votos do eleitorado simpático ao Lula e os votos dos que desconfiam de Moro, não há de sobrar grande coisa para o ex-magistrado. Nesta configuração, quem conserva todas as chances é o capitão.

Vamos torcer para sobressair logo um nome que encarne uma verdadeira terceira via. Essa que o ex-juiz representa está mais pra beco sem saída. Sem calçamento e sem iluminação.

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

Canário na mina de carvão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Recentemente um amigo me encaminhou um texto filosófico altamente complexo e me pediu que analisasse sua utilidade para jovens que talvez não dispusessem de todas as referências utilizadas para a argumentação filosófica. Fez questão de alertar que estava me usando como “um canário numa mina de carvão” para saber se ele poderia ser entendido e absorvido por seus alunos.

Pesquisei na internet o significado dessa expressão idiomática da língua inglesa e adorei a analogia. Ela faz referência ao hábito de mineiros de levarem consigo um canário dentro de uma gaiola ao entrarem pela primeira vez num túnel de mina de carvão para verificar se há gases tóxicos dentro dela, como o monóxido de carbono. Dado seu pequeno porte, se houver, o canário morrerá em instantes e servirá de alerta para que os trabalhadores abandonem a mina a tempo.

Senti, sem falsa modéstia, que a metáfora me caía como uma luva. Acredito mesmo que essa foi a missão que me impus desde que me conheço por gente: identificar pessoas, ambientes e relacionamentos tóxicos. Não tenho dom para o auto sacrifício, mas sempre me senti portadora da capacidade de antecipar eventos futuros, especialmente os mais funestos. Desde criança, experimento ondas de choque e vibrações energéticas ao entrar num ambiente ou fazer contato com novas pessoas. É algo intuitivo, que não tem necessariamente a ver com o olhar, tom de voz, gestos, ou postura corporal de quem está diante de mim, nem com a estética, cheiro, modernidade ou organização do ambiente em que penetro. Talvez tenha sido por essa característica que me senti atraída desde muito pequena pelos cachorros, que são mestres na arte de ler a energia dos que estão à sua volta e são extremamente hábeis em antecipar eventos – como “adivinhar” a chegada de seus donos.

Astrólogos de todos os matizes concordam em afirmar que os nativos do signo de Peixes funcionam como uma espécie de mata-borrão, absorvendo prontamente as energias que estão disseminadas no ambiente. É como se, para eles, o ar, de tão denso e pesado, pudesse ser apalpado ou cortado em fatias. Não sei se para minha alegria ou pesar, além de nativa de Peixes, sou catastrofista crônica assumida. Cheiro o ar continuamente em busca de evidências de futuros problemas, transtornos, tragédias, crises e ameaças.

Costumo dizer que nasci com um sistema de alerta embutido na minha alma, que praticamente nunca falha: graças a ele, aprendi a diferenciar as pessoas que representam alguma forma de perigo para mim e as que são benfazejas almas gêmeas, contatos prováveis de vidas anteriores. Claro que essa capacidade me serve de importante guia nas relações pessoais e profissionais mas, ao mesmo tempo, é inegável fonte de angústia permanente.

Além da ansiedade para confirmar ou desmentir o que minha intuição indica e que contamina todas as atividades e planos do meu dia a dia, vale lembrar que é bastante difícil encontrar pessoas que disponham desse mesmo radar de navegação na vida. Assim, não é nada incomum que minhas previsões pessimistas causem desconforto e irritação em terceiros e me preguem um rótulo de prepotência, como se eu me apresentasse sempre como uma sensitiva “iluminada” que menospreza a falta de inteligência ou de sensibilidade dos demais.

Quando Bolsonaro se apresentou como candidato à presidência, minha imensa repulsa a suas crenças pessoais e a seu comportamento político ditatorial, irracional, desrespeitoso e obscurantista me induziu a escrever uma série de artigos antecipando a tragédia que se avizinhava caso ele fosse de fato eleito. Imediatamente após a eleição, produzi outro tanto de textos denunciando suas primeiras iniciativas macabras, bem como a desastrada escolha de seus ministros. Um dos textos que mais causaram furor entre conhecidos e desconhecidos foi o que levou o título de “Torço para que não dê certo”.

Reproduzo abaixo a introdução: “Não vou dizer ‘bem feito’, ‘bem que eu avisei’, nem ‘só você não percebeu que ia dar com os burros n’água’ para nenhum amigo meu, real ou virtual, que tenha achado que valia a pena eleger a geringonça que nos desgoverna hoje… Minha recusa em aderir ao bolsonarismo também tinha pouco de racional. Era e continua sendo uma questão instintiva, um alerta recebido pelos meus sensores de que a tragédia da volta dos anos de chumbo nos esperava logo adiante” [maio de 2019].

Na ocasião, recebi mais de 70 comentários irados que me acusavam de estar torcendo contra o Brasil e me convidando a ir experimentar as “delícias” dos países comunistas no que se refere à liberdade de expressão. No limite do ódio ao pensamento divergente, uma amiga próxima dos tempos de escola sugeria sem meias palavras que eu caísse e quebrasse o pescoço, sendo apoiada por mais 3 ou 4 pessoas das minhas relações. Hoje, assistindo ao derretimento do apoio dado ao inominável “capetão”, me pergunto o que diriam essas mesmas pessoas quanto às chances de o país voltar aos trilhos da prosperidade e da conciliação dos espíritos sob o comando de mais um tirânico salvador da pátria.

E é também quanto à eleição presidencial de 2022 que meus instintos de canário em mina de carvão alertam: estamos prestes a aprofundar ainda mais o buraco em que nos metemos caso o eleitor médio continue descartando a seu bel prazer candidatos moderados/menos conhecidos no primeiro turno só para forçar uma escolha praticamente impossível de ser feita no segundo turno entre dois extremos igualmente indesejáveis. A tese segundo a qual basta votar no “menos ruim” ou no único com condições de peitar e derrotar o atual presidente é, além de irracional, prova inconteste de falta de consciência política e de amadurecimento da cidadania. Votar em quem deve sair – herança maldita dos reality-shows – e não naquele que apresenta um plano factível para recuperar a dignidade da governança federal é receita mais que certa de desastre.

A ansiada “terceira via” não vai surgir do nada, como por milagre. Ela precisa ser pacientemente construída apontando nomes com os quais cada um mais se identifica, examinando desde já o curriculum dos candidatos disponíveis, analisando em profundidade a viabilidade (política e econômica) de suas propostas, identificando a compatibilidade entre as próprias crenças e valores políticos com os do candidato e, acima de tudo, lembrando que a república brasileira está alicerçada em três poderes que devem atuar com autonomia mas harmonicamente. Acreditar que só o Executivo pode dar todas as respostas de que precisamos, ignorando as pressões e obstruções do legislativo e do judiciário, é outra ilusão perigosa que pode nos matar asfixiados logo após o pleito.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O rasgado e o esgarçado

by Anne ‘Adene’ Derenne (1983-), desenhista francesa

 

José Horta Manzano

Parece maldição. Faz 20 anos que, na hora da eleição presidencial, a gente é obrigado a votar contra. Já vai longe o tempo em que cada um saía de casa, votava no candidato de sua preferência e voltava tranquilamente pra esperar a apuração, sempre torcendo pra seu preferido. Mesmo sabendo que ele tinha pouca chance, votava-se nele assim mesmo. Se outro ganhasse, a gente não gostava, mas acabava se conformando. Que remédio?

Desde que o lulopetismo se agarrou ao poder, muitos de nós deixaram de escolher candidato e passaram a votar contra. São já cinco eleições presidenciais em que não se dá mais o voto ao candidato preferido, mas vota-se contra. Contra quem? Contra aquele que não se quer de jeito nenhum. No meu caso, contra o lulopetismo, nos últimos anos.

Dois anos atrás, quando houve a troca da guarda e entrou esse que está aí, muita gente pensou que, doravante, tudo passasse a ser melhor. Que horror, minha gente!

Este governo não governa. Passa metade do tempo assaltando o erário e roubando nosso dinheiro para comprar parlamentares, militares, magistrados e emissoras de tevê. E passa a outra metade do tempo estudando como se esquivar das escabrosas revelações quotidianas e das acusações diárias de crimes.

Do jeito que vão as coisas – e a pesquisa Datafolha confirma – no ano que vem teremos um problemão. A menos que surja um candidato forte e crie uma terceira via, a final será entre o genocida e o cachaceiro.

Pra escolher entre um e outro nem precisava eleição – cara ou coroa era a mesma coisa.

Sina

José Horta Manzano

Internet e redes sociais têm seu lado bom. Se assim não fosse, não teriam conquistado tantos adeptos. A informação instantânea (que hoje convém dizer “em tempo real”) é bom exemplo dos benefícios.

Nos tempos de antigamente, um meio muito utilizado de transmitir informação era o “telefone sem fio” ou “boca a boca”. Não era sofisticado, mas tinha sua graça. Logo após ter se inteirado de uma notícia, a gente corria pra informar algum conhecido.

– Você soube da novidade?

– Não. O que é que foi?

Neste ponto, o bom da coisa era contar o que tinha ocorrido e parar pra observar a cara de espanto do interlocutor. Era uma sensação impagável.

– Noooossa! Não diga!

– Digo, sim. E digo mais.

E aqui se acrescentava algum comentário pessoal. Como se sabe, quem conta um conto aumenta um ponto.

E assim seguia. Terminada a conversa, cada um seguia seu caminho pra continuar a espalhar a notícia.

Diálogos assim, hoje, são mais raros. Com o celular sempre no bolso, (quase) todos ficam sabendo de (quase) tudo ao mesmo momento. Não tem mais graça perguntar “– Soube da novidade?”. Normalmente, a resposta será “– Soube, sim.”

Nem tudo, porém, é cor-de-rosa. Há gente que exagera na dose e tem nas redes sociais seu único canal de informação. Não é o caso do distinto leitor, naturalmente, visto que chegou a este blogue caminhando com as próprias pernas. Está ficando cada vez mais raro ver gente que usa as próprias pernas para andar; muitos por aí andam caminhando com as pernas alheias. Parece cômodo, mas pode ser nocivo a longo prazo. Massa cinzenta pouco utilizada acaba se atrofiando.

Essa dedicação exclusiva e em tempo integral às redes pode causar distorções em certos momentos. Em política, na hora de escolher candidato para eleição majoritária (presidente, governador, prefeito), esse hábito trabalha contra o eleitor, visto que limita sua liberdade de escolha.

A frequentação permanente das redes acaba por fagocitar outros canais de comunicação que costumavam ser usados entre candidatos e eleitores. Debates, por exemplo, em que cada pretendente tem ocasião de expor as próprias ideias, estão em processo de rápida perda de importância.

Esse estreitamento dos canais de informação dificulta o aparecimento e a ascensão de novos candidatos, enquanto favorece a reeleição dos nomes mais conhecidos. Para as presidenciais de 2022, o quadro se delineia cada dia com maior nitidez.

Um terceiro candidato, fora do binômio Lula x Bolsonaro, tem pouca chance de se fortalecer eleitoralmente. Esses dois personagens são tão conhecidos, que um terceiro será naturalmente menos popular do que eles. E terá menos espaço nas redes, o que limitará suas chances de sucesso.

Salvo acontecimento extraordinário, os dois nomes que o país inteiro conhece – o do ex-presidente (e ex-presidiário), e o do atual presidente (e futuro presidiário?) – têm todas as chances de aparecer na cédula do segundo turno.

Eta carma pesado, o nosso!

Lula livre

José Horta Manzano

De médico e de louco, todos temos um pouco. De estridente e de rouco, todo STF tem um pouco. Nosso tribunal maior é uma caixinha de surpresas. No caso do Lula, depois de uns dez anos de processo e um ano e meio de cadeia, resolvem que não valeu. Tudo volta à estaca zero. Um vício processual insanável acaba de ser descoberto. Tchau e desculpe qualquer coisa aí.

Para o Lula, até que a conta saiu barata. Se analisarmos o conjunto da obra, se somarmos todo o prejuízo que ele e sua turma deram ao Brasil, se pusermos na balança os bilhões roubados e a falta que esse dinheiro fez para o povo, chegaremos à conclusão de que, com um ano e meio de xilindró, a travessura saiu em conta. Eu disse xilindró? Engano! Aposentos de luxo com sala de visitas e suite, isso sim.

Falando nisso, quem deve estar cada dia mais apavorado de terminar seus dias encarcerado é o Bolsonaro. Ele já deve ter percebido que, assim que sair da Presidência, um camburão o espera. Ok, vamos tirar o exagero. Não vai direto dar um passeio de viatura, mas enfrentará uma enxurrada de processos, isso é certeza. Ele sabe que o dia da prestação de contas está chegando. Eis por que sonha com um golpe militar que o mantenha no trono. Quanta ilusão…

Lula e Bolsonaro são irmãos xifópagos. Um não existiria sem o outro. Sem Lula, não teria havido Bolsonaro. E agora, do jeito que vão as coisas, o ex-militar vai ceder o lugar ao ex-sindicalista. Cada um deles só sobrevive politicamente em função do outro. Em teoria, se Bolsonaro saísse de cena agora – digamos que renunciasse, se aposentasse e se mudasse para as Bahamas –, as chances presidenciais do Lula cairiam vertiginosamente. Sobraria aquele núcleo duro de devotos que não passam de um terço do eleitorado.

Vai ser dramático apertar os botões da urna na próxima eleição. No primeiro turno, ainda há opção, porque sempre aparece uma renca de candidatos. Já no segundo, se a dupla for Lula e Bolsonaro, ai Jesus! Vamos ter de escolher entre a peste e a cólera. Será um dilema no verdadeiro significado da palavra: uma escolha entre duas opções ruins.

Mas algo me diz que o cenário vai se desanuviar antes do fim do mandato do capitão. Em vez de camburão, uma ambulância é que vai entrar qualquer dia destes pela porta dos fundos do Planalto. Dela vão descer quatro enfermeiros carregando sedativos e uma camisa de força pra embarcar o psicopata.

Façam as contas comigo

José Horta Manzano

by Kleber Sales/Estadão

Bolsonaro
Quantos apoiadores firmes terá Bolsonaro? Esqueçam aqueles que as pesquisas mostram como “satisfeitos” com o governo – a satisfação é temporária, e durará o tempo que durarem os trocados emergenciais. Esses não contam; são apoiadores de passagem. Quero saber quantos são os devotos, os incondicionais, aqueles que votarão no capitão sejam quem forem os adversários. Serão 20% do eleitorado? Admitamos que sejam 25%, e já estou sendo camarada.

Lula
Quantos apoiadores firmes terá o Lula? Esqueçam aqueles que só olham para nosso guia com certa simpatia porque acham que ele é infinitamente menos nocivo que Bolsonaro. Esses não contam; estão apenas querendo se livrar do capitão, eis por que aceitariam até o Lula. Quero saber quantos são os fãs de carteirinha, os incondicionais, aqueles que votarão no ex-metalúrgico sejam quem forem os adversários. Serão 20% do eleitorado? Admitamos que cheguem a 30%, não mais.

E daí
Adicionando as estimativas mais otimistas, temos os 25% de Bolsonaro mais os 30% de Lula = dá 55%. E o resto? Pra fechar o cálculo, falta contar os 45% de eleitores que não são devotos de nenhum dos candidatos populistas. Em quem vão votar?

Quem souber entrar nesse vácuo, não tiver rabo preso demais e convencer o eleitor de que é o melhor antídoto contra o bolsopetismo(*) tem boas chances de ficar com a bolada.

O chato é que a vaidade e a cobiça vão levar muitos a tentar a sorte. Assim sendo, a proliferação de candidatos periga pôr tudo a perder. Os postulantes se neutralizarão mutuamente, numa verdadeira autofagia da terceira via. Quando o segundo turno chegar, vamos ter mesmo de escolher entre a peste e a cólera.

(*) Bolsopetismo
Neologismo que me agrada, por resumir a evidência: bolsonarismo e lulopetismo são farinha do mesmo saco. Dos dois líderes, é impossível dizer qual é o mais trapaceiro.

Já são dois

José Horta Manzano

Quando dois argutos analistas políticos cogitam e olham na mesma direção e no mesmo momento, convém prestar atenção. Estou falando de Carlos Brickmann e Eliane Cantanhêde. Neste domingo, cada um deles publicou um artigo apontando uma hipotética candidatura apta a encarar Bolsonaro nas eleições de 2022 – se ele se aguentar no trono até lá, naturalmente. Aqui vai um trecho de cada artigo.

Palpite

Carlos Brickmann

Preste atenção na empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza: caso o plano que vem articulando para vacinar toda a população do país antes do fim do ano dê certo, ela pode ser a novidade eleitoral. Terá feito aquilo que ninguém conseguiu fazer, sua reputação é excelente, já mostrou que é muito competente e capaz de fazer o que é preciso. Mas, exatamente por isso, espere pelos obstáculos que vão colocar-lhe no caminho. Não podemos nos iludir: salvar vidas, ajudar a vencer a pandemia, melhorar a situação da população, nada importa para os lá de cima. Importa é não ter adversário.

E Luiza Trajano?

Eliane Cantanhêde

Doria, Huck, Moro e Luiz Henrique Mandetta são torpedeados antes de alçar voo, mas, como não há vácuo em política, quem pode preencher esse vácuo é uma mulher, empresária, colecionadora de êxitos, com o pé no chão e defensora de boas causas, como cotas, vacinas, menos ideologia e mais resultados. Sim, Luiza Trajano, sem partido e sem traquejo político, mas instada a botar o bloco na rua e, num carnaval tão atípico, animar e atrair um grande aliado de Bolsonaro: o eleitor desiludido, ou desesperado, que só vê o buraco aumentando.

Comentário deste blogueiro
Estes últimos vinte anos, presidentes desastrosos têm reprimido o avanço do país, deixando-nos cada vez mais firmemente ancorados num Terceiro Mundo irrevogável. Pra consertar, os brasileiros bem-intencionados estão apelando pra qualquer um, desde que jure:

  • que a Terra não é plana,
  • que não pretende armar a população,
  • que não prestigiará ditador africano,
  • que não concederá passaporte diplomático aos parentes,
  • que não acreditará no E.T. de Varginha,
  • e, principalmente, que, sim, acredita na vacina e pretende imunizar toda a população.

Se dona Luíza preencher todos os requisitos, vamos de Madame Trajano!

Loser

José Horta Manzano

Ingleses e americanos são bons pra criar expressões de gíria. Não sei se é a língua inglesa que se presta bem a esse contínuo exercício de criação ou se é o espírito do povo que combina com ele. Talvez os dois.

A palavra loser (=perdedor) é substantivo derivado do verbo to lose (=perder). No meio estudantil americano de meados do século 20, o termo loser adquiriu uma acepção insultuosa. Passou a designar não aquele que eventualmente deixa de vencer numa ocasião precisa – como uma partida de xadrez – mas o perdedor infeliz, habitual e contumaz, o indivíduo que não vence nunca e que passa a vida perdendo todas. No falar popular americano, a melhor tradução é fracassado, ofensa doída num país em que a meritocracia é erigida em ideal nacional.

Faz anos que Donald Trump se apresenta como o homem que vence todas, o líder carismático que tem sempre razão e que traz no bolso do colete a solução simples para males complexos; um verdadeiro deus ex machina que há de redimir o país desnorteado e à deriva. Foi assim que vendeu seu peixe e foi com esse discurso que venceu a eleição de 2016.

Quatro anos se passaram. Trump governou de olho nas pesquisas, sempre jogando para a plateia interna, um tanto descolado do fato de presidir a maior potência planetária. Não há de ter desagradado tanto assim, visto que, na corrida para o segundo mandato, recebeu mais de 70 milhões de votos. Mas o que conta é o resultado, que lhe foi desfavorável: perdeu a eleição.

O balanço de sua gestão é pra lá de negativo: perdeu a Câmara (House of Representatives) para os democratas; perdeu o Senado também para os democratas; e, pra coroar, perdeu as eleições. O homem perdeu todas! Tornou-se um loser! Um fracassado!

Essa pancada no orgulho está na origem de suas atitudes alucinadas estes últimos tempos. Durante a vida, Donald Trump já deve ter usado inúmeras vezes a palavra loser como insulto. Sentir agora a ofensa na própria carne deve ser insuportável. Loser! Loser! Loser!

Brasileiro não sabe votar?

José Horta Manzano

Para doutor Bolsonaro, a derrota de Trump já tinha sido uma senhora bordoada. Agora, nas municipais, conheceu uma derrota… que adjetivo usar? Vamos lá: estrepitosa. Ou fragorosa. Ou estrondosa. São todos termos que têm a ver com barulho forte de alguma coisa que se espatifa no chão.

O barulho foi tão forte que atravessou o Atlântico. Pela primeira vez, vejo a mídia europeia dar notícias das eleições municipais brasileiras – um assunto, em princípio, sem importância internacional. Pois imagine o distinto leitor que os principais órgãos soltaram uma breve nota sobre o assunto. A ênfase foi posta no fracasso de nosso doutor presidente no teste de meados do mandato.

Para todos os que, como este blogueiro e muita gente fina no planeta, andavam preocupados com a perspectiva de um Trump reeleito e de um Bolsonaro revalidado, foi um alívio. Um grande uff!

No tempo em que os militares mandavam, corria a voz de que ‘brasileiro não sabe votar’. Aliás, a frase foi repetida pelo Pelé, numa declaração imprudente que marcou o personagem e que o persegue até hoje. Olhe que, na época, podia até ser verdade, visto que os eleitores dos anos 70 eram menos esclarecidos que os atuais. Mas a situação mudou, e a prova está no resultado destas eleições.

Em mostra de amadurecimento cívico, o eleitor está reparando erros cometidos ao longo dos últimos vinte anos. Fosse hoje, é de duvidar que figuras simplórias como Lula, Dilma e Bolsonaro fossem eleitas.

by Angel Boligán Corbo (1965-), desenhista cubano

Ninguém está totalmente blindado contra aventureiros que prometem o que jamais poderão entregar. No entanto, o resultado destas municipais mostra um brasileiro menos ingênuo, mais objetivo, mais preparado para filtrar promessas e descartar potenciais estelionatários da política.

O resumo da ópera é que, se conseguir se segurar até o fim do mandato – o que não está garantido –, doutor Bolsonaro chegará ao fim da carreira em 2022. Não será reeleito. Nem ele, nem seu eventual indicado. Aliás, apadrinhamento de Bolsonaro é tóxico: é receber sua bênção e despencar nas pesquisas.

Outro que está queimado é o Lula. E seu partido junto. Não terão chance nenhuma de vencer em 2022. O Brasil acaba de mostrar que se enganou ao crer que Bolsonaro era o antídoto de Lula. Depois de experimentar ambos, optou por uma terceira via.

Assim, Lula e Bolsonaro podem saudar o público e sair de cena. Tanto eles como os respectivos afilhados. Assim que cair o pano sobre o atual governo, poderemos começar a reconstruir o país. Vai ser demorado e trabalhoso, mas não há outro jeito.

Vox populi

José Horta Manzano

Acontece com todos os personagens importantes. Quando chegam lá, atraem inevitavelmente uma tropa de aduladores, cuja ocupação principal é achar graça em qualquer bobagem que o chefe disser, achar genial qualquer ideia que ele tiver, aprovar toda medida que ele decidir tomar. Isso cria uma realidade paralela, tão forte, que o chefe acaba acreditando ser onipotente e estar acima do bem e do mal.

Já tinha ocorrido com Lula da Silva. Agora, não foi diferente com Bolsonaro. Bobinho, acreditou num carisma e num poder que não tinha, e se expôs durante a campanha eleitoral para as municipais. Não precisava, que era melhor ter-se preservado. Mas como ninguém teve a coragem de avisar, fez.

Deu no que deu. O que antes estava no terreno das suposições, agora tem o peso da vox populi – a voz do povo. As urnas falaram, como diria o outro. E não tem como fingir que não viu. O resultado está aí pra quem quiser ver.

Assim como o veredicto deixa um presidente diminuído, o lulopetismo também sai das urnas achatado, desmilinguido e sem gás. A situação é pra lá de péssima para ambos, Bolsonaro e Lula.

Lula se dá conta – se é que ainda não tinha caído a ficha – de que seu tempo passou. O que está feito, está feito. Mais não haverá. Quanto a Bolsonaro, assiste ao desmanche do (falso) enredo de ser ele o bastião que vai purificar o Brasil, livrando-nos do petismo.

Por um lado, o PT já não é ameaça para ninguém. Por outro, a extrema esquerda representada pelo PSOL desponta como força ascendente. E os temidos psolistas surgem nos braços do povo, situação espinhosa para Bolsonaro.

O ‘centrão’, que de bobo não tem nada, já se deu conta da nova paisagem. Num estalar de dedos, podem todos saltar fora do bonde e deixar o presidente falando sozinho. Se isso ocorrer, a cotação do doutor no mercado vai cair. Será caminho espinhoso que pode levar ao encurtamento de seu mandato.

Vox populi
É expressão latina que se traduz por voz do povo. Aparece já na Bíblia mas, como toda citação das Escrituras, tem de ser tomada com precaução. Termos bíblicos atravessaram muitos séculos e foram objeto de muitas traduções, às vezes malfeitas. De todo modo, o original não teria o significado que lhe atribuímos hoje.

A expressão completa utilizada atualmente é: Vox populi, vox DeiA voz do povo é a voz de Deus. É o enunciado sobre o qual repousa a noção de democracia.

Cloud Oracle

José Horta Manzano

Quem viver, verá. Mas quem viveu, já viu. Quem conheceu as eleições brasileiras pré-urna eletrônica sabe o que é bom pra tosse.

Pra voltar àquela época, precisa fazer um esforço de imaginação. Pense num Brasil com 50% da população vivendo na zona rural, em localidades remotas e de difícil acesso. Imagine urnas sendo transportadas por estrada de terra (ou de lama), num país sem computador, sem internet, (quase) sem telefone, com rede elétrica periclitante.

Pesquisas prévias não estavam na moda. Só a apuração valia – e como era lenta! Os primeiros resultados, bem parciais, só começavam a surgir lá pelo quarto ou quinto dia. Pra contar todos os votos, levava uns quinze dias. Mas era assim mesmo, e a gente já estava feliz de ter eleições, num mundo bipolar em que a maior parte da humanidade não dispunha desse luxo.

Estes dias, o TSE – órgão que dá as cartas em matéria de eleições – está apanhando de todos os lados. Governo, parlamentares e povo se uniram pra apedrejar o Tribunal. E tudo isso por quê? Porque estamos todos mal acostumados. Esperávamos o resultado em duas horas, mas ele levou uma noite inteira. O pior é que não é difícil imaginar quem encomendou e pagou os piratas internéticos.

Quanto à demora, não vejo razão pra tanto assanhamento. Veja o que se passa nos EUA. Entendo que o voto lá é mais complexo, o eleitor tendo de se pronunciar em numerosos assuntos. Assim mesmo, demoram muito pra contar. Hoje, exatamente 15 dias depois do dia do voto, a apuração ainda não terminou.

Até que nossa demora é rápida…

Carolina do Norte e Niterói

José Horta Manzano

Para quem está acostumado com o esquema 1 eleitor = 1 voto, o sistema eleitoral americano parece surpreendente. Como é que é? Não é o mais votado que vence? Pois é, não é necessariamente o mais votado que vence. Em cinco ocasiões, ao longo da história americana, aconteceu de o vencedor ser o candidato que tinha ficado em segundo no voto popular. Da última vez, foi justamente em 2016, quando competiam Donald Trump e Hillary Clinton. Para nós, é desnorteante. É o famoso “ganha, mas não leva”.

Tudo tem um porquê. Nos tempos de antigamente, quando o sistema foi instituído, o mundo era outro. Não havia internet, nem tevê, nem rádio, nem fax, nem telex, nem telefone. Não havia nem mesmo estrada de ferro. Ainda que o território fosse menos vasto que o de agora, os EUA já eram um país enorme. Viagens eram demoradas e penosas, por estradas poeirentas ou nevadas, em veículo a tração animal.

Por essa razão, ficou combinado que, a cada 4 anos, na hora de escolher o presidente do Executivo, os eleitores de cada estado federado escolheriam, por voto popular, uma comitiva de grandes eleitores, cujo papel era representar os eleitores do estado. No dia marcado, cada unidade da federação enviaria seu grupo de grandes eleitores à capital do país. Cada grupo levava o resultado do voto de seu estado. Na época, a solução era excelente: evitava transportar papéis, borderôs, livros ou urnas.

O tempo passou, muita coisa mudou. Hoje há rádio, tevê, telefone, internet. Viaja-se de trem, de carro, de avião. As mulheres têm (já faz tempo) o direito de votar. No entanto, acomodados com um sistema secular, os americanos hesitam em alterá-lo. A cada vez que a apuração se espicha e ameaça terminar nos tribunais, volta-se ao assunto. Em seguida, as coisas se acalmam e o assunto morre. Até a próxima eleição.

by Adam Zyglis (1982-), desenhista americano

Outra particularidade da eleição americana, surpreendente para um país avançado, é a lentidão da apuração. Neste ano de pandemia, a razão da demora foi o fato de grande parte do eleitorado ter dado preferência ao voto enviado por correio em vez de se arriscar a apanhar um vírus qualquer num local apinhado.

Os estados têm bastante autonomia para fixar as regras da apuração. Alguns deles só validam as cédulas que forem recebidas até o dia do voto nacional – o que me parece correto. Já outros reconhecem votos que cheguem mais tarde; a Carolina do Norte, um caso extremo, aceita votos que deem entrada até 12 de novembro (9 dias depois da eleição). Essa medida é uma maçada, na medida que trava a proclamação do resultado nacional.

Não acredito que o esquema de eleição indireta venha a ser modificado tão cedo. Mas ouso esperar que, com o objetivo de evitar a angústia deste 2020, as normas de aceitação de votos antecipados seja revista. Dependesse de mim, só os votos recebidos o mais tardar 3 dias antes do pleito seriam validados. Assim, a comissão de apuração já poderia começar a trabalhar antecipadamente, de modo que, no dia do voto final, o resultado final sairia rapidinho.

O que eu disse acima não passa de visão de espírito, pura opinião pessoal. Como diziam os gaiatos no Rio de antigamente: ‘não sou daqui, sou de Niterói’(*).

(*) São palavras de um samba de Ataúlfo Alves e Wilson Batista, lançado em 1941 por Aracy de Almeida. No youtube aqui.

Sem mistura

José Horta Manzano

No Brasil, desigualdades sociais são tão frequentes e tão brutais, que não assustam. Muitas vezes, passam despercebidas, sem que ninguém se comova. Ainda ontem, com o adiamento das eleições municipais, um desses desequilíbrios voltou, gritante, à ordem do dia. Mas ninguém viu.

Com o voto na Câmara, as eleições ficam transferidas para 15 de novembro. O segundo turno, se houver, terá lugar duas semanas depois, em 29 de novembro. O problema está escondido por trás do ‘se houver’.

Em grandes cidades, quando nenhum dos candidatos a prefeito supera 50% dos votos válidos, organiza-se um segundo turno de votação com participação dos dois mais votados. Em pequenos municípios, essa possibilidade desaparece. Desaparece por quê? Por qual razão os eleitores de 5400 dos 5600 municípios brasileiros são tratados de modo diferente?

Pela lei atual, mais da metade dos eleitores são privados do direito de afinar a escolha daquele que vai governar a cidade por 4 anos; têm de se contentar com o menos pior. Se um pequeno município tiver, por exemplo, 4 candidatos que recebam respectivamente 35%, 30%, 25% e 10% dos votos, o primeiro da lista será eleito para a prefeitura. Com votos de 1 eleitor em cada 3! É justo isso?

É evidente que não. Se discriminação assim podia passar despercebida 30 ou 40 anos atrás, hoje não faz mais sentido. Os votos dos grandes centros são computados na mesma velocidade dos votos da Amazônia, do sertão do Nordeste ou das campinas do Rio Grande. A tecnologia aplainou um bocado de diferenças – mas o legislador ainda não se deu conta.

Já se viu o segundo colocado no primeiro turno passar à frente do adversário e vencer o segundo turno. Não é normal privar metade da população dessa chance.

Vejam a contradição: nas eleições presidenciais, todos os municípios votam no segundo turno. Por que não nas eleições municipais, justamente aquelas que interessam de perto os eleitores locais? Volta e meia ouve-se um figurão repetir o bordão: «Ninguém vive na República, todos vivem no município». Então? Se é possível organizar um segundo turno para as presidenciais, há de ser também assim para as municipais.

Todos têm o direito de poder ajustar o tiro na hora de escolher o prefeito. Não é possível continuarmos a ter eleitores de primeira e de segunda classe, uns que comem refeição completa e outros que têm de se conformar com arroz e feijão, sem mistura.

Paranoia ou método?

José Horta Manzano

«Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude

«[Essa quantidade de óbitos] está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político. Não estou acreditando nesse número

Ambas as frases, nem precisa dizer, foram pronunciadas por doutor Bolsonaro. A primeira, em Miami, num evento neopentecostal. A segunda, no Brasil, em entrevista a uma estação de televisão.

Em ambas, ele abre o jogo: deixa claro que, no seu entender, manipulação de resultados é matéria corriqueira, coisa que todo o mundo faz. Está brincando com assunto sério, Excelência! Nem sua proverbial mania de perseguição explica essa desconfiança.

A menos que…
A menos que, por detrás dessa conversa boba de matuto, haja método, armação, orquestração. É permitido imaginar que Sua Excelência esteja preparando o espírito do distinto público para uma dança de números, jogados no ventilador com o intuito de causar polêmica, confusão e descrença geral. Ele mesmo já deu a dica de como enxerga o problema quando insinuou não acreditar nos números paulistas porque pode ser um jogo de números para favorecer interesse político”.

Imaginemos um cenário
O Planalto sabe muito bem que, afrouxadas as medidas de confinamento, a doença vai se alastrar. Assim mesmo, decide apoiar o afrouxamento, com o fim de evitar catástrofe que lhe parece mais importante: a perda de renda dos trabalhadores informais. Diga-se, en passant, que o presidente já avisou que «terão mortes»(sic).

Pra evitar que esse ‘terão mortes’ resulte em número assustador, prepara-se para maquiar estatísticas e mascarar a realidade. Afinal, cada hospital tem seus números, mas só o governo federal é dono da planilha que coleta todos os dados. Com um pouco de arte, não é difícil ‘achatar’ essa curva. Os números paulistas são os que fazem a curva empinar, daí o descrédito que o presidente lança, desde já, sobre eles.

O achatamento artificial somado à não notificação de casos em que a morte tiver ocorrido em casa, longe de amparo e assistência, vão dar o resultado sonhado pelo doutor. Ficará demonstrado que ele tinha razão ao liberar geral.

Engenhoso, não?