A régua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

 


“O homem é a medida de todas as coisas”

Protágoras


 

Bolsonaro ouviu o canto do galo do poder absolutista mas até hoje não descobriu de onde ele vem, nem que tipo de vocalização lhe seria necessária para reproduzi-lo com sucesso por aqui. Escutou o canto da sereia mas, acreditando que não passava de singela homenagem de seus seguidores fardados, desatou-se do mastro e jogou-se atabalhoadamente na água.

 

Freud e Paulo Freire
Tivesse algum dia se dado ao trabalho de esmiuçar o pensamento desse e de outros filósofos da antiguidade, saberia que tudo é relativo, inclusive e principalmente sua autoridade. Imediatista, megalomaníaco, voluntarista e incapaz de pensamento crítico, ele confunde alhos com bugalhos e costuma tomar a parte pelo todo – provavelmente entenderia a palavra homem como simples indicador de gênero. Acreditando ser ele próprio medida de tudo à sua volta, julga que o Brasil e o mundo deveriam se curvar à sua paralela noção de realidade, aos seus princípios morais (ou falta deles), às suas vontades e ambições.

Tivesse lido Freud alguma vez, saberia que seu psiquismo está fixado na fase de onipotência típica de Sua Majestade, o Bebê. Entenderia que nessa etapa primitiva do desenvolvimento psíquico não existe mundo fora dele e a mãe (pátria) é apenas um seio que jorra leite sempre que requisitado. Tudo leva a crer que, por circunstâncias familiares adversas (mãe omissa e pai castrador), Bolsonaro jamais superou a fase do narcisismo infantil e regride continuamente à ilusão de poder inquestionável sempre que se sente ameaçado por alguma autoridade externa.

Tivesse ido além do título do livro de Paulo Freire, compreenderia que “se a educação não é libertária, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. Se educar é frustrar, como postulam os especialistas, ele nunca se deixou educar para a cidadania. Sua formação militar o ajudou a radicalizar a noção de que toda obediência tem de ser necessariamente cega, acrítica: afinal, soldados não são feitos para pensar. No entanto, num arroubo juvenil e ainda apostando em sua superior autoridade moral, achou um dia que poderia subverter o dogma supremo da hierarquia militar. A humilhação máxima que sofreu ao ser expulso do exército por transgressão marcou sua personalidade para todo o sempre.

 

A ferida narcísica
A profunda ferida narcísica que se abriu em seu peito e o ressentimento acumulado desde então tornaram-se a marca registrada de sua atuação no mundo político e transformaram o caráter de virilidade tóxica – compensatória de sua impotência – em marco distintivo do bolsonarismo. Dando sequência ao seu complexo de Édipo embutido e jamais resolvido, Bolsonaro e bolsonaristas continuam tentando a todo custo matar o Pai Supremo, simbolicamente representado pelo Judiciário e encarnado na figura de Alexandre de Moraes, antes que sejam eles próprios castrados.

Desde que assumiu o poder em 2019, ele se comporta literalmente como se tivesse comprado a fazenda Brasil de porteira fechada. Dono de todas as consciências, ele não se cansa de instituir como regra que a ninguém é dado enxergar o mundo com outras cores ou rebelar-se contra seus éditos, uma vez que “autorizado” por seu povo e seu exército.

 

O STF e a Constituição
Professor de Deus, ele vem dando aulas diárias de constitucionalidade aos ministros do Supremo. Exibe em tom ameaçador seu douto saber jurídico, abordando temas de alta relevância para a democracia e o estado de direito, afetos principalmente ao conceito de liberdade de expressão, mas se aventurando também em questões secundárias, como a demarcação e exploração de terras indígenas, os limites de ação da Petrobrás na determinação de preços e as exigências legais imprescindíveis para a realização de eleições limpas e auditáveis.

Pontifica livremente sobre critérios de inocência e culpabilidade de parlamentares e membros do seu governo, sobre liberdade de imprensa, sobre equilíbrio e autonomia dos três Poderes da República, sobre o “interesse público” da não-adoção de medidas que beneficiariam minorias e sobre tudo o que causa “legítima comoção” na população brasileira, como se ela estivesse contida como um todo no seu grupinho de aliados e apoiadores.

 

Meu reino, meu gozo
Reinar sozinho, sem se sentir constrangido pelos tais pesos e contrapesos democráticos, seria sua única possibilidade de gozo orgástico – e ele sabe que nunca o poderá atingir graciosamente. Para chegar lá, seria preciso ter capacidade de entrega, abrir mão do desejo de ser o condutor e deixar-se ser conduzido no balé amoroso, o que lhe é impensável. Se não vai por bem, deve raciocinar, então é legítimo que se faça pelo estupro das instituições democráticas.

Mas não lhe basta o poder secular. Precisa também fazer seus apóstolos acreditarem que ele possui traços divinos de liderança carismática: a obsessão pela verdade que liberta, o pendor pastoral (“Eu sou, realmente, a Constituição”), acreditar-se ungido pelo próprio Deus para conduzir os destinos da nação.

 

Cloroquina e ivermectina
Como iluminado defensor das liberdades individuais, transgredir é com ele mesmo. Quanto mais normas legais forem quebradas em sua gestão, mais sente seu poder fortalecido e reforçada a crença de que ele é a única régua admissível para medir acertos e erros na condução dos negócios públicos – como transformar reserva natural em polo turístico, defender o trabalho infantil, defender a tortura, defender o excludente de ilicitude para policiais e militares, armar a população civil ou eliminar os radares de trânsito.

Na sua visão, é mera questão de tempo para que a OMS declare oficialmente que as vacinas são, de fato, experimentais e que foi um erro usá-las para substituir a cloroquina e a ivermectina, já que, além de custarem muito caro, podem ter efeitos colaterais inaceitáveis, como causar Aids em adolescentes ou miocardite em crianças, ou ainda conter chips para transformar pessoas em robôs. Ou para que o Supremo declare que, “dentro das quatro linhas da Constituição”, só ele teria o direito de decretar confinamento na pandemia, e interdite governadores e prefeitos que não seguissem a orientação federal. Sociólogos, filósofos e historiadores também se renderão um dia ao fato de que o nazismo foi um movimento de esquerda e que é possível perdoar o Holocausto mas não esquecê-lo, uma vez que “quem esquece seu passado não tem futuro”.

 

O psiquiatra aprendiz
Sua mais recente – e estupefaciente – incursão foi no universo da psiquiatria. Demonstrando sua expertise na área de psicopatologia aplicada à política, alertou para os eleitores ainda indecisos: só um “imbecil ou psicopata” defende a volta do AI-5.

Campeão mundial de atos falhos, resta saber se ele mais uma vez se autorrotulou sem querer (“O chefe do executivo mente”) ou se a crítica velada ao comportamento padrão de seus apoiadores mais exaltados foi só uma maneira de recriminá-los por vazarem antes da hora a intenção de golpe caso fracasse nas urnas. Ou talvez ainda ele tenha imaginado que, se vencedoras, as hostes de esquerda vão tentar instituir a ditadura do proletariado e, assim, roubar dele a bandeira do fechamento do Congresso e do STF.

Vale conferir com o psiquiatra-chefe de plantão após a abertura das urnas.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Novas vagas

Estadão, 20 maio 2022

José Horta Manzano

Ganha dez minutos de massagem cardíaca quem conseguir criar velhas vagas.

O custo de vida anda nas alturas. Se poupar reais é bom, economizar palavras também é. Com as verbas do MEC racionadas do jeito que estão, é proibido jogar fora palavras.

Na chamada do jornal, criação de vagas basta e já dá o recado. O “novas” está sobrando.

De volta para o futuro – 1

José Horta Manzano

O sonho de todo comerciante é baixar seus custos sem prejudicar a qualidade do produto ou do serviço fornecido. Os armadores – aqueles que cuidam de transporte marítimo – têm de prever a evolução de seus custos com grande antecedência. Considerando o planejamento, a construção e a entrega, fabricar um cargueiro de grande porte leva muitos anos.

Não é segredo para ninguém que as reservas globais de petróleo são limitadas, e que vão se extinguir um dia, talvez até antes do que se pensa. Guerras e tensões mundiais, por seu lado, podem levar o preço dos combustíveis fósseis às alturas, como é o caso atualmente.

O item mais pesado na planilha de gastos de um navio cargueiro é justamente o óleo combustível. O objetivo de todo armador é baixar quanto possível sua utilização.

“Solid Sail” – retenha essa expressão. Vai se tornar comum dentro em breve. Trata-se de nova geração de vela que, em vez de queimar petróleo caro e poluente, aproveita a energia mais abundante nos mares do planeta: o vento.

A vela tipo “solid sail” não é feita de tecido, como nos atuais veleiros de turismo. É construída com materiais compósitos, uma aliagem que apresenta diversas qualidades interessantes: baixo custo, leveza, solidez e resistência.

A nova geração de velas é fácil de recolher. Não funciona mais como nos filmes de pirata, em que um marujo tinha de subir por uma escada de corda e enrolar o pano no muque, baloiçando aos ventos de mares nunca dantes navegados. Tudo é automatizado. Basta apertar um botão, e a vela se recolhe sozinha, dobrando como persiana. É crucial em caso de forte vento contrário ou de tempestade em alto mar. Nessas horas, o barco volta a ligar o motor tradicional.

Os primeiros navios a experimentar esse novo modo de propulsão estão em fase de construção nos Chantiers de l’Atlantique, canteiros navais franceses. Nesta fase experimental, estão sendo produzidos barcos menores. Dependendo do desempenho deles e de futuras encomendas, porta-contêineres e cargueiros de grande porte serão construídos.

A ideia é excelente e, excetuando as petroleiras, deixa todo o mundo contente. Diminui os custos de transporte, não polui o mar e não contribui para o aumento do efeito estufa. O novo conceito não elimina o combustível, mas reduz fortemente seu uso.

Pensando bem, a ideia de fazer longas viagens em barco à vela não é nova. Mais de meio milênio atrás, as caravelas de Vasco da Gama já havia chegado à Índia à força do vento. Ora pois.

Dois avisos

José Horta Manzano

Na quarta-feira 18 de maio, a Casa Branca mandou dois avisos.

Primeiro aviso
Suécia e Finlândia apresentaram seu pedido oficial de entrada na Otan. Para refrescar a memória, a Otan é uma aliança militar de defesa mútua do tipo “um por todos, todos por um”. Inclui os EUA, o Canadá e praticamente todos os países europeus, com exceção das micronações e dos países neutros (Suíça e Áustria).

No fundo, o interesse maior de cada membro do clube é abrigar-se debaixo do “guarda-chuva” nuclear dos Estados Unidos, a maior potência militar do planeta. É a melhor garantia contra agressões como a que a Ucrânia está sofrendo.

Só que tem um problema. A admissão da Suécia e da Finlândia não será imediata. O processo pode levar 6 meses ou mais. Enquanto isso, tecnicamente os dois países não fazem parte da aliança e, em princípio, não contam com sua ajuda.

É um período perigoso. Se sofrerem um ataque – da Rússia, de quem mais? – terão de se defender sozinhas.

O presidente Biden mostrou ter entendido o drama. Ontem mesmo a Casa Branca publicou um comunicado oficial garantindo que, mesmo neste período em que o procedimento de adesão não está finalizado, os EUA acudirão Finlândia e a Suécia “para deter e enfrentar toda agressão ou ameaça de agressão”. Traduzindo: para os EUA, os dois países já fazem parte do clube.

O recado foi direto para Putin: mexeu com eles, mexeu comigo. Não ouse!

Segundo aviso
No mesmo dia, Elizabeth Bagley, diplomata indicada por Biden para o cargo de embaixadora dos EUA em Brasília, foi sabatinada pelo Congresso americano.

Durante a audição, a diplomata lembrou que tem 30 anos de experiência em supervisão de eleições ao redor do mundo. Disse ter certeza de que as eleições brasileiras de outubro serão livres e justas, dada a tradição do país nesse particular.

Com estilo diplomático, fez uma referência leve mas incisiva ao comportamento do capitão, que tem feito o que pode para conturbar o processo eleitoral. A nova embaixadora mostrou estar ciente de que “os tempos serão difíceis” por causa “da quantidade de comentários”. Não chegou a apontar o autor dos “comentários”. Nem precisava.

São múltiplas as maneiras de exercer pressão sobre um país. Nem sempre é necessário recorrer a uma invasão. A futura embaixadora americana traz na sacola recados para o capitão. Se ele continuar a perturbar o processo eleitoral e, pior ainda, se ousar tentar derrubar a ordem constitucional, as consequências serão imediatas e vigorosas.

Diferentemente do que Bolsonaro parece acreditar, os países no mundo atual são interdependentes. O Brasil não é uma ilha. Nosso país depende de tecnologia estrangeira para funcionar. Um avião enguiçado precisa de peças americanas. Um aparelho de ressonância magnética é fabricado no exterior. Nossa indústria – química ou mecânica – é tributária de insumos americanos.

O que a embaixadora dirá a Bolsonaro – e que não sairá nos jornais – é justamente isto: se vosmicê ousar dar “aquele” passo torto, a torneirinha vai fechar e o Brasil vai parar. Será um caos. Um embargo americano pode ser extremamente dolorido, que o digam Cuba e o Irã.

Com o país enguiçado e o povo revoltado, quem vai levar um chute no traseiro é vosmicê.

Pronto, já lhe dei o aviso adiantado.

Falou pouco, mas bem

José Horta Manzano

O Estadão de hoje traz o relato de uma palestra dada por um antigo morubixaba do Google. O empresário americano ocupou o maior cargo da empresa de 2001 a 2011, o que não é coisa pouca.

Não conheço o grau de rotatividade de caciques no Vale do Silício. Permanecer por dez anos em função tão elevada me parece uma façanha. O homem deve ser bom mesmo.

Declarou:


O Brasil tem tudo, menos um governo estável. Vocês têm uma única língua, um país de 200 milhões de habitantes, uma cultura fantástica e são pessoas ótimas.”


Até aí, tudo tranquilo. Quem é que não gosta de receber flores?

E o figurão continuou:


Para mim, os problemas do Brasil são muito mais sobre as regras do governo. Conheci quase todos os presidentes brasileiros e acredito que vocês precisam de um jeito de ter um presidente e instituições experientes para evitar que mais presidentes acabem presos.”


O grifo das últimas palavras é meu. Não sei em que tom o palestrante as pronunciou, mas pouco importa: ele acertou o tiro. Em poucas linhas, mostrou ser bom conhecedor de nossos problemas.” Tudo está aí, resumido.

Vantagens e problemas
Na primeira frase, estão as vantagens. O país é habitado por um mundaréu de gente cuja língua de escola é a mesma, o que facilita enormemente as comunicações e as interações. É um privilégio observado com inveja por outros países.

Não temos conflitos étnicos. Essa história de “nós x eles” (inventada pelo lulopetismo e reforçada pelo bolsonarismo) é artificial. Existem fraturas sociais, como por toda parte, mas elas não podem ser resumidas a “nós de um lado, eles do outro”. A fórmula é vaga e redutora. Nós quem? Eles quem?

Na segunda frase do palestrante estão nossos problemas.

Presidente experiente
Que precisamos dar um jeito de eleger um presidente experiente é evidente verdade. Quem haverá de constestar? A Presidência não pode continuar sendo utilizada como pátio de recreação de aprendizes, como vem ocorrendo há duas décadas.

Que precisamos de instituições mais experientes é outra verdade. Eu diria até mais: que, além de experientes, sejam eficazes. Temos anomalias intoleráveis:

  • presidente com poder de anistiar correligionários,
  • ministro do STF que dá entrevista pra divulgar sua opinião pessoal,
  • deputados que fazem a festa com dinheiro extorquido do povo por meio de orçamento secreto,
  • presidente da Câmara com poder de bloquear centenas de pedidos de impeachment,
  • presidente da República que comete crimes de responsabilidade um atrás do outro.

Tumor invisível
Essas mazelas que acabo de citar – e que, de tão acostumados que estamos, nos parecem inofensivas e naturais – são o tumor que ninguém quer ver. Um estrangeiro, que não pode ser acusado de ser petista nem bolsonarista, vê com maior clareza o que o brasileiro comum não consegue enxergar.

Nossas leis e nossos costumes políticos estão distorcidos e corrompidos. O debate político desapareceu. Não há mais argumentação. O que interessa é insultar, caluniar, demolir, desmontar, cancelar adversários (verdadeiros ou imaginários), tratados sempre como inimigos.

Se os dois principais candidatos à Presidência tivessem de enfrentar um exame tipo vestibular para avaliar a aptidão para o cargo, dificilmente passariam. Teriam de cair fora da lista de candidatos, o que seria um alívio para a República.

Um “Enem presidencial” tem de ser instituído para candidatos ao cargo maior. É o único caminho para termos um dia “um presidente que não acabe preso”.

Burkini

José Horta Manzano

O distinto leitor talvez não tenha ouvido falar em burkini. A palavra, contração brejeira de burka + bikini, designa um traje de banho usado por mulheres que seguem a religião maometana. Grafada à nossa moda, a palavra seria burquini.

Imagino que essa roupa não seja comum nas areias de Copacabana. Trata-se de uma espécie de maiô integral que cobre o corpo inteirinho, só deixando o rosto, as mãos e os pés de fora. Pode ser satisfatório para maridos ciumentos, mas não é adequado para obter um bronzeado completo.

Grenoble está entre as 20 cidades mais populosas da França. É um centro universitário importante. Dispõe de todos os ramos do ensino universitário, mas está especialmente focado em alta tecnologia.

A Câmara de Grenoble reuniu-se ontem para um debate curioso. Tratava-se de autorizar (ou não) a entrada nas piscinas municipais de mulheres trajando burkini.

Os que apoiam o uso desse tipo de maiô argumentam que, além de não ser escandaloso, o burkini faz parte dos preceitos religiosos de uma parte da população do país e que, portanto, merece ser respeitado.

Já os que são contra o burkini retrucam que ele é a marca de um insuportável machismo. Acreditam que ele é a prova de que a mulher muçulmana é oprimida pelo marido e pelo mundinho em que vive. Acham que a França, que a pátria dos direitos humanos, não pode tolerar que, em pleno século 21, o sexo feminino seja publicamente humilhado. O uso do burkini, portanto, não deve ser autorizado.

Na Câmara, os debates foram acalorados e levaram 2 horas e meia. O resultado da votação foi apertado: 29 vereadores votaram pela autorização do burkini, enquanto 27 foram contra. Assim, as mulheres que o desejarem (ou que forem obrigadas) poderão frequentar as piscinas municipais no próximo verão trajando burkini.

Contrário à liberação do burkini, o governador da região anunciou imediatamente que ia contestar na Justiça a decisão da Câmara.

Observação
Quem dera o grande problema de nossa sociedade fosse a moda vestimentária de banhistas. Temos outros peixes para fritar, como dizem os portugueses.

Reflexões – 2

José Horta Manzano

Fugiu da escola
Em 16 de fevereiro, Bolsonaro esteve em Moscou. Foi recebido por Vladímir Putin. Diante das câmeras, expressou solidariedade com a Rússia. Em seguida, confidenciou o seguinte: “A leitura que eu tenho do presidente Putin é que ele é uma pessoa também que busca a paz.

Exatamente oito dias depois, as tropas de Putin (aquele que “busca a paz”, segundo Bolsonaro), invadiram a Ucrânia, um país independente e soberano. Vê-se que o capitão deve ser péssimo estrategista, visto que é bem ruinzinho de leitura. Devia voltar pr’a escola.

Brics
O capitão está aperreado com a reunião do Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, prevista para junho próximo em formato virtual. Encarregada da organização, a China não fala em cancelamento do encontro. Nem há por que cancelá-lo. Portanto, ele deve ocorrer.

Uma semana depois de Bolsonaro ter prestado “solidariedade à Rússia”, Putin deu sinal verde a seus exércitos para a invasão da Ucrânia. Ao agir assim, tornou-se um pária  e foi banido dos países mais avançados (Europa ocidental, América do Norte, Japão, Austrália). O banimento deve durar por muitos anos.

O capitão está metido numa saia justa.  Precisa ter em mente que ele próprio também está sendo olhado de soslaio pelos dirigentes de países decentes. O encontro do Brics está cada vez mais parecendo um fórum de autocratas confirmados e aspirantes a autocrata. Faltar a uma reunião virtual não pega bem, visto que, salvo uma crise de intestino solto, não há desculpa.

Então, vai ou não vai?

China
O que devia incomodar o capitão é outra coisa. A organizadora do evento é a China “comunista”, que ele escolheu como sua arqui-inimiga favorita. Virtual ou não, participar da reunião é como entrar na casa do inimigo! Será que os devotos não vão se escandalizar?

Até na hora de escolher seu pária favorito ou seu inimigo preferencial o capitão se empepina.

Reflexões – 1

José Horta Manzano

A prestação de solidariedade que Bolsonaro fez à Rússia não me sai da cabeça. Ao fazer a jura de submissão diante de Putin, ele esboçou uma reverência, daquelas que se costumam reservar para a rainha da Inglaterra.

Porque que razão ele pronunciou a frase da “solidariedade”, visivelmente ensaiada? Vamos ver.

Putin é o modelo ideal no projeto que o capitão rumina para si. Para Bolsonaro versão 2022, Trump é o passado; o presente se chama Putin. O dirigente russo é a norma, a referência de tudo o que o capitão gostaria de ser. E de ter!

O ditador russo reina sozinho. Os outros poderes são marionetes, todos controlados por ele. O Legislativo vota as leis que Putin determinar. O Judiciário põe na cadeia quem Putin mandar.

A imprensa livre desapareceu. A Nôvaia Gaziêta, último jornal livre, fechou algumas semanas atrás. Adversários políticos e oponentes ao regime desapareceram: ou foram envenenados ou estão passando alguns anos num simpático campo de reeducação na Sibéria.

A tevê aberta é toda estatal e só conta ao povão a verdade putiniana. Um cidadão brasileiro comum está mais bem informado sobre o que ocorre na Ucrânia do que um cidadão russo comum.

É com esse paraíso que o capitão sonha: ter o poder absoluto, como Putin. E também possuir bilhões de dólares, evidentemente. Igualzinho ao autocrata russo.

Mas nossa realidade tupiniquim é diferente. Na minha opinião, a probabilidade de o capitão realizar seu sonho está próxima de zero. Nem mesmo se, por desgraça, fosse reeleito.

Não é angelismo da minha parte. É que nosso andar de cima é amebóide, uma enguia escorregosa que ninguém consegue apreender. Na minha concepção de “andar de cima”, ponho todos: parlamentares, magistrados, militares de alta patente e civis de alta estatura. Todos estão de olho no dinheiro, sim, mas o instinto de sobrevivência fala mais alto. Todos sabem que, com um Bolsonaro ditador, correriam perigo de ir parar atrás das grades.

O capitão pode (e ainda vai) causar estragos enormes ao país, mas não conseguirá implantar sua sonhada ditadura. Bolsonaro é um saco vazio, sem estofo. Sem ajuda, não pára em pé. Só está lá até hoje porque está sendo escorado.

Ucrânia: o pós-guerra

José Horta Manzano

Um assíduo leitor que se assina Ricardo fez um comentário interessante no artigo Perigo por 100 anos, publicado faz alguns dias. Achei que podia interessar a todos. Publico aqui o comentário e minha resposta.

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Minha resposta
Hitler e Napoleão estão longe de ter causado à humanidade o estrago que essa estúpida guerra de Putin está provocando.

Nenhum dos ditadores belicosos do passado conseguiu a façanha de unir contra si todos os países da Europa como é o caso atualmente. Com a exceção notável da pouco significativa Bielo-Rússia (que alguns dizem ser “a última ditadura da Europa”), Putin conseguiu ressuscitar na Europa inteira o medo do urso russo, que assustou durante séculos, mas que andava hibernando havia 30 anos, desde a queda do Muro de Berlim.

Nenhum dos ditadores do passado conseguiu, como Putin, a façanha de esfomear o povo de dezenas de países espalhados pelo globo. As primeiras vítimas são os duzentos milhões de habitantes do norte da África (Egito, Argélia, Tunísia, Marrocos), que se encaminham para convulsão social em virtude da fome. Como outros países, eles são inteiramente dependentes do trigo da Ucrânia e da Rússia para fazer o pão, principal alimento da região. E esse trigo não chega mais. Quando os estoques acabarem, problemas graves vão surgir.

Quanto à Otan, ela não podia entrar na guerra como cobeligerante, nem muito menos fazer ataque preventivo à Rússia. A Otan é uma organização defensiva, não ofensiva. Foi criada logo depois da Segunda Guerra como contraponto ao Pacto de Varsóvia, que reunia os países que orbitavam em torno da União Soviética. Sempre funcionou como redoma de proteção para os países europeus que estavam fora da órbita comunista. Seu objetivo não é dar o primeiro tiro, mas responder imediatamente a um ataque inimigo. O Artigo 5° do Tratado reza que, se qualquer dos países-membros for atacado, o ataque será considerado como se fosse contra todos os signatários. A resposta, portanto, será dada por todos, em esforço coordenado.

Putin sabe muito bem disso, tanto é que não atacou os países baltas, por exemplo, que são pequenos e aparentemente indefesos. É que os três são membros da Otan. Quem está apreensivo atualmente é o povo da Moldávia, pequena e pobre vizinha da Ucrânia, que tem o PIB per capita mais baixo da Europa, que não é país-membro da Otan nem da União Europeia. No entanto, visto o fiasco protagonizado na Ucrânia pelo antes temido exército russo, dificilmente os generais de Moscou se arriscarão a atacar um segundo país, ainda que Putin esperneasse.

A decepção
A decepção dos peritos militares do mundo todo com o desempenho do exército russo é enorme. Nem mesmo os serviços de inteligência americanos, que costumam ser muito bem informados, previam um fracasso dessa magnitude. (Se previam, não deixaram vazar nada. Ficaram quietinhos.)

Imaginando que a guerra seria curta, a Rússia lançou milhares de mísseis sobre a Ucrânia. Passados dois meses e meio, não conseguiu capturar nenhuma cidade importante, perdeu sua nave-almirante (Moskvá, o encouraçado capitânia), perdeu mais algumas naves importantes e centenas (talvez milhares) de tanques. Quanto às perdas humanas, as estimações variam entre 15 mil e 30 mil homens e uma dezena de generais. Ainda por cima, o exército teve de abandonar a ideia de invadir e ocupar a capital, Kiev. Um vexame.

Nestas alturas, o estoque de mísseis russos de boa qualidade está praticamente exaurido. Eis por que eles tiveram de reduzir o front e encolher a linha de combate. Abandonaram as amplas ambições iniciais e agora limitam-se ao sudeste da Ucrânia. É exatamente a faixa litorânea que ambicionam tomar, o que incomoda a Turquia, dona do litoral do outro lado do Mar Negro.

Para fazer mísseis de boa qualidade, a Rússia precisa importar componentes eletrônicos dos Estados Unidos. Mas, ai! O comércio está embargado! Nada se vende, nada se compra. Mercadoria americana não entra mais na Rússia. Portanto, nada de míssil de boa qualidade. Os soldados de Putin às vezes lançam algum foguete de segunda categoria, tipo “buscapé”, que acaba atingindo edifício de habitação ou cemitério.

Daqui pra frente, a Rússia entra obrigatoriamente em declínio. Ainda que se aproxime da China, será a “sleeping partner” da sociedade, a parceira secundária do gigante asiático. Viverá na dependência dos caprichos de Pequim.

O futuro
O grosso das exportações russas é constituído de matérias primas: gás, petróleo e trigo. Todas as exportações estão sob crescente embargo dos países ocidentais. Dentro em pouco, as trocas comerciais entre a Rússia e o Ocidente cessarão e hão de permanecer em estado de hibernação por dezenas de anos. A China, por mais boa vontade que tenha, não será capaz de absorver sozinha a produção russa.

A Ucrânia receberá (já está recebendo) bilhões de euros e dólares para a reconstrução. Levará décadas, como foi o caso da Europa após a Segunda Guerra. Pontes, viadutos, aeroportos, estradas de rodagem, redes de saneamento e de eletricidade, edifícios públicos e privados terão de ser refeitos.

A desminagem do país – principalmente dos campos cultivados, onde o trator, a colhedeira e o arado podem roçar uma bomba e matar quem estiver por perto – será um problema a enfrentar com atenção. Vai levar muitos anos para desminar as terras aráveis.

A Rússia terá de se virar sozinha. Materialmente, não foi bombardeada nem destruída, o problema é mais profundo. Os russos terão de cuidar sozinhos de seus demônios. Um flagrante fracasso, como essa guerra de Putin, costuma levar a uma troca de regime. Mas, quando se fala em Rússia, toda previsão é arriscada. Vamos ver no que vai dar.

Por muitos e muitos anos, o país conservará seu armamento nuclear, mas continuará com extrema dificuldade para comprar ou desenvolver armas de alta tecnologia.

A consequência maior é que o medo do urso vermelho voltou à ordem do dia na Europa e na América do Norte. Desde já, no quesito imagem, a Rússia perdeu feio.

Estocando vento

José Horta Manzano

Era 25 set° 2015. Dilma discursava num evento patrocinado pela ONU. Como de costume, falava de modo confuso, com frases que nem sempre tinham começo, meio e fim. Talvez até quisesse dizer algo, mas a mensagem não passava, como se entre ela e o ouvinte houvesse uma parede. Algum som passava, mas as frases chegavam rateando.

Lá pelas tantas – pra quem quiser recordar, é fácil encontrar no youtube –, Madame afirma que o Brasil tem hidroelétricas e que a água é de graça. Diz também que o Brasil também tem vento, mas que não dá pra estocar vento.

Ah, pra quê! Ela foi alvo de uma avalanche de críticas, sarcasmos e gozações. Jornais publicaram charges, o fruteiro da esquina deu risada, o motorista de aplicativo comentou com um sorriso maroto, até o porteiro do condomínio tirou uma casquinha e abanou a cabeça.

Somada ao fato de haver afirmado dois anos antes que acreditava no ET de Varginha, essa da estocagem do vento selou a entrada de Madame no panteão das personalidades excêntricas. (Dizem que um rico que age fora dos padrões normais é excêntrico, mas um pobre nas mesmas condições é louco. Que cada um tire suas conclusões.)

Estadão, 12 mai ’22

Mas o mundo gira. Sete anos depois do vento de Madame, parece que os cientistas estão descobrindo modo de armazená-lo. Isso pode ser visto de duas maneiras. Pode-se dizer que não passa de coincidência e que a fala da doutora não tem nada a ver com a descoberta dos cientistas. Pode-se também dizer que Madame era uma visionária com o dom de levantar um problema antes de todo o mundo. Talvez tenha sido inspirada pelo ET de Varginha, vai saber.

Agora, que estamos no caminho da solução do problema da estocagem do vento, Madame está 50% perdoada. Para receber absolvição completa, tem de revelar ao país se a ideia foi dela ou se foi sugestão do ET. Depois disso, o nó estará desfeito. Conforme for, passaremos todos a acreditar tanto na estocagem de vento quanto no ET.

Agora, sem brincadeira, tente comparar por um instante a personalidade de Madame com a do capitão.

Têm características comuns. São ambos irritadiços, mandões, incompetentes, ignorantes, presunçosos, desbocados, sectários. Devem ter outros pontos em comum que não me ocorrem neste momento.

Mas têm diferenças importantes. Da boca de Madame, não me lembro de ter ouvido palavrão soltado em público. Já da boca do capitão, cruz-credo! Quando ele se prepara para falar, é bom tirar rápido as crianças da sala. Ele próprio não se dá ao respeito, razão pela qual não pode esperar pelo respeito de ninguém. Do jeito que se comporta, o capitão é tão respeitado quanto o pinguço que, acotovelado no bar da esquina, resmunga palavrões.

O grande estrago que Madame provocou no país foi de ordem econômica, com sua “nova matriz”, que já veio bichada e com prazo vencido. Mas a economia, sabe como é, estraga-se hoje, amanhã está consertada. Não se lembra como o Plano Real deu um jeito, num piscar de olhos, numa inflação que fermentava havia 50 anos?

Já o estrago provocado pelo capitão é bem mais profundo. Os milhares de quilômetros quadrados de floresta destruída não crescerão nunca mais. Ele acelerou o caminho da desertificação de nosso território. As armas distribuídas a torto e a direito não voltarão ao fornecedor; parte considerável delas vai irremediavelmente terminar nas mãos do crime organizado. As terras da União doadas a grileiros, agora com escritura passada em cartório, não voltarão ao cofre da viúva – são nacos de nosso território ofertados aos amigos do rei, e perdidos para sempre.

A lista é longa. Poderia citar dezenas de exemplos. O problema é que, a cada linha que escrevo, vai batendo o desânimo. Paro antes que venha a depressão.

Conclusão
Acho que até a doutora, apesar da ignorância, da mandonice e da incompetência seria menos nociva para “essepaiz” que o capitão. Se este blogueiro (que jamais votou no PT) tivesse de escolher entre os dois, não hesitaria um instante.

Perigo por 100 anos

Bomba da Segunda Guerra não explodida encontrada em canteiro de obras

José Horta Manzano

Na quarta-feira 11 de maio, Herr Olaf Scholz, o chanceler alemão (sucessor de Angela Merkel) fez uma declaração um tanto desanimadora.

Começou lembrando que “Todos os que vivem na Alemanha sabem que as bombas que caíram durante a Segunda Guerra Mundial continuam a ser encontradas até hoje e que os alertas continuam”.

Na sequência, foi ao ponto principal e fez uma advertência: “Portanto, é bom a Ucrânia ir se preparando desde já para enfrentar durante 100 anos as consequências desta guerra”.

E completou: “Sabe-se que guerras dessa magnitude deixam consequências de longo prazo. Todas as bombas que estão sendo lançadas agora ficarão muito tempo no solo”.

Um bocado deprimente, a observação do chanceler é desalentadora mas pertinente. Em todos os países europeus que sofreram bombardeios na última guerra mundial, volta e meia se encontra uma bomba enterrada – às vezes profundamente. São artefatos que caíram de um avião, não explodiram, ficaram enterrados, mas, ao menor descuido, podem explodir.

França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda – além da própria Alemanha – são países que sofrem até hoje consequências de bombardeios intensos. A guerra terminou faz 77 anos, mas o risco continua elevado.

O grande perigo surge quando se faz uma escavação urbana – para erguer edifício, construir metrô, enterrar cabos elétricos, instalar tubulações. Se uma grande bomba é descoberta, equipes de desminagem são chamadas. As autoridades mandam evacuar os quarteirões adjacentes e os profissionais cuidam de desarmar o artefato.

Calcula-se que o subsolo de Berlim contenha cerca de 3000 artefatos não explodidos. Os berlinenses caminham sobre um barril de pólvora. Infelizmente, acidentes ocorrem. São relativamente raros, mas o risco está sempre presente.

Numa Alemanha cujo território ainda está recheado de bombas que não explodiram e permanecem enterradas, aconteceu um drama recentemente. Foi em dezembro passado, num canteiro de obras perto da estação ferroviária de Munique. As escavadeiras roçaram numa bomba de 250kg, que explodiu e deixou 4 feridos. Até o tráfego ferroviário teve de ser interrompido.

Muitas gerações futuras de ucranianos continuarão correndo o risco de viver sobre um solo minado. E não há nada que o cidadão comum possa fazer. O que está feito, está feito – as bombas e os mísseis não explodidos estão lá e lá vão continuar.

Daqui pr’a frente, a quantidade só pode aumentar. O futuro depende dos neurônios desequilibrados de uma pessoa só: Vladímir Putin.

Nunca ninguém imaginou que um homem sozinho pudesse tomar a humanidade inteira como refém.

Observação
Quando fala em “100 anos”, até que o chanceler alemão está sendo otimista. Se hoje, quase 80 anos depois do último bombardeio, Berlim ainda esconde 3 mil bombas no subsolo, a conta não fecha. Os netos dos bisnetos das crianças ucranianas de hoje ainda estarão pisando em bombas.

Personalidade caricata

José Horta Manzano

Certas personalidades do mundo artístico ou político são fáceis de caricaturar. Outras, um pouco menos. Há os que chamam a atenção por algum atributo físico; há outros que deixam como marca a maneira peculiar de se vestir; outros ainda impressionam por algum comportamento fora dos padrões.

No exterior, os desenhistas têm sido mais assíduos em desenhar charges sobre Bolsonaro do que eram nos tempos do Lula. O capitão não chama a atenção por atributo físico nem pelo vestuário: o que impressiona mesmo são suas ideias, sua grosseria, seus baixos instintos, seu modo explícito de destruir o futuro da terra em que nasceu e do povo que o elegeu.

O leitor estrangeiro pode não ler a mídia brasileira nem assistir ao Jornal Nacional, mas as charges publicadas na mídia local de cada país se encarregam de dar o recado e mostrar a todos quem é o homem que preside o mais populoso país latino.

Nunca encontrei charge suave de Bolsonaro. Todas elas traem a indignação do desenhista estrangeiro, que nada mais faz que botar no papel a revolta dos leitores de bom senso diante do modo bolsonárico de governar.

Aqui está uma seleção de charges colhidas em Oropa, França e Bahia. (Bahia não, era só pra rimar.)

 

by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Um Bolsonaro de verdade!!!
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Vou varrer a política… e o meio ambiente!
by Brandan Reynolds, desenhista sul-africano

 

 

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

 

 

O Semeador
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Enquanto isso, no Brasil…
by Kak, desenhista francês

 

 

by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

Alusão ao filme de Charles Chaplin “O Grande Ditador”, de 1940.
by Kunturis, desenhista grego

 

 

Oba! Graças à covid, estou conseguindo rapar a floresta amazônica inteirinha!
by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

by Plantu, desenhista francês

 

 

Desordem em andamento
(trocadilho em inglês com as palavras Ordem e Progresso)
by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Plano Bolsonaro para o Desenvolvimento da Amazônia
Os índios têm terras demais!
by Solal Comics, França

 

 

O Brasil tem que continuar avançando! Feliz ano novo! Boa saúde!
by Vadot, desenhista belga

 

 

Bolsonaro, presidente do Brasil
by Placide, desenhista francês

 

 

Estamos de volta!
(A ditadura pelas urnas)
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

 

O imperador do Japão

José Horta Manzano

Numerosos pontos ligam Bolsonaro e Lula, os dois principais concorrentes às presidenciais de outubro. Um ponto importante é o fato de ambos serem homens do passado.

Bolsonaro continua a viver com os pés fincados nos anos de chumbo que o Brasil viveu quando eram os militares que davam as cartas. Ele imagina ressuscitar a ditadura. Aliás, na sua cabeça, não é bem assim – a questão não é nem de reimplantar o sistema que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

De fato, por mais autoritário que fosse o regime daquela época, até que havia certa rotatividade no topo do Executivo. Do 31 de março até a eleição de Tancredo, cinco generais se sucederam no comando da nação.

Na cabeça de nosso aprendiz, não é assim que deve funcionar. Ele imagina ser guindado à cabeça de um regime sem rotatividade, sem alternância, sem mudança. Pretende permanecer no topo sozinho, como um Führer, um Duce, um Conducător, um Lider Máximo. Até a queda final, que pode ser por deposição ou coisa pior. Tudo que sobe acaba caindo um dia. Mas cada um se ilude como pode, não é mesmo?

Lula, nesse ponto, não pensa igualzinho a Bolsonaro. Por ter exercido a Presidência – pessoalmente ou por procuração – durante 14 anos, já perdeu as ilusões. Os quase 600 dias de cadeia lhe ensinaram que, quanto mais alto for o coqueiro, maior será o tombo. Sua parecença com Bolsonaro, em matéria de ligação com o passado, é forte, mas não se pode dizer que sejam idênticos.

Lula, que alguns dizem ser esperto como raposa, não quer (ou não consegue) entender que o mundo mudou. Não estamos mais nos anos 1970, em que ele subia numa caixa de sabão à frente da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, fazia um discurso inflamado para os companheiros, dizia o que lhe passava pela cabeça, e tudo ficava por isso mesmo. Ele ainda não se compenetrou de um fator inexistente à época mas fortíssimo hoje: o politicamente correto.

Nascido nos EUA anos atrás e potencializado por internet e redes sociais, a tendência a se exprimir de maneira politicamente correta impõe linguagem pasteurizada, isenta de palavras e expressões que possam, de perto ou de longe, ser consideradas ofensivas por esta ou aquela categoria de cidadãos.

Outro dia, Lula dircursou numa cerimônia de um partido chamado Solidariedade. (Abram-se parênteses: Este blogueiro acredita que todos os partidos deveriam se chamar Solidariedade. Afinal, ser solidário deveria ser a característica maior de todo afiliado. Fechem-se os parênteses) Lula sabe que muitos, neste país, acalentam o sonho de implantar o semipresidencialismo. No afã de demolir essa ideia que o horroriza, tirou do bolsinho uma metáfora infeliz. Referiu-se ao imperador do Japão de forma depreciativa.

Ato contínuo, uma torrente de críticas desabou. Deputados petistas se sentiram incomodados. Até (ou principalmente) a comunidade japonesa ressentiu-se da menção desairosa.

Sabe-se que história e geografia não são ocupam lugar preferencial nos parcos conhecimentos de nosso guia. Sabe-se que, apesar de ter passado 8 anos como presidente do país, outros assuntos devem ter lhe parecido mais interessantes – afinal, ler e estudar dá uma preguiça! História, geografia e geopolítica ficaram de fora.

Vai aqui um conselho ao Lula. Dificilmente ele lerá estas linhas, mas algum assessor bem-intencionado talvez possa transmitir-lhe a ideia.

Ô Lula! Da próxima vez que vosmicê quiser trazer a imagem de um homem poderosíssimo, use uma figura que não existe, mas que impressiona. Aqui estão algumas metáforas que não vão incomodar ninguém:

Ele age como se fosse o sultão de Samarcanda!

Ele pensa que é o imperador da Quirguízia!

Ele se acha o emir da Mongólia!

Deixo aqui a pista. Seus assessores certamente encontrarão outras variantes, que é pra não bater sempre na mesma tecla.

Aproveite, que conselho meu é grátis e desinteressado. Como dizia um irmão meu, “se é de graça, até injeção na veia”.

Candidatura oficial

José Horta Manzano

Não é todos os dias que uma eleição que só se realizará daqui a 5 meses, num país de importância estratégica próxima de zero, desperta tamanho interesse.

Ou por acaso alguém já viu a grande mídia internacional se interessar por eleições em países tão grandes e tão periféricos como o nosso, tais como Indonésia (275 milhões de habitantes) ou Paquistão (225 milhões de almas)?

No caso brasileiro, há a junção de duas forças antagônicas.

De um lado, está o governo Bolsonaro, com sua procissão de desgraças de alcance mundial: destruição da Amazônia e de outros biomas, aproximação com regimes autoritários ou ditatoriais, tratamento agressivo e insultuoso dispensado a personalidades estrangeiras, gestão catastrófica da economia.

De outro, está o recall do governo Lula. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar na lenda do Lulinha paz e amor, pai dos pobres e protetor dos desvalidos, fato que, aliás, pouco interesse apresenta fora do país. Porém, visto do exterior, o Lula transmitiu a ideia de estabilidade constitucional, e respeito às instituições. Se foram descobertos muitos casos de corrupção grossa, foi porque a Lava a Jato muito investigou. Desde que ela foi enterrada pelo capitão, é compreensível que a descoberta de peculatos e outras maracutaias tenha ficado prejudicada.

Na torcida para ver o Brasil livre de um governante que incentiva a instabilidade, parece que o mundo torce pela eleição de Lula. Guardadas as devidas proporções, equivale à torcida mundial pela eleição de Joe Biden e cancelamento de Donald Trump.

 

Em inglês (Guardian, Reino Unido)

 

Em francês (Le Monde, França)

 

Em italiano (Il Giornale, Itália)

Em sueco (Västerbotten-Kuriren, Suécia)

Em alemão (Spiegel, Alemanha)

 

Em inglês (South China Morning Post, Hong Kong)

 

Em russo (Krasnaya Vesna, Rússia)

 

Em espanhol (El Mundo, Espanha)

 

Imunidade arcaica

Ascânio Seleme (*)

Nenhum país concede tantas imunidades aos seus parlamentares quanto Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Do grupo de ex-ditaduras do Cone Sul, apenas o Chile está fora da lista de piores num estudo feito em 90 países pelos professores e pesquisadores Karthik Reddy, Moritz Schularick e Vasiliki Skreta.

Os quatro países refletiram em suas leis preocupação que teve origem nas ditaduras, procurando defender os parlamentares da má vontade de um governante de botas.

Na maioria dos países pesquisados as imunidades são limitadas. Na Inglaterra não há qualquer imunidade parlamentar, nem mesmo para o primeiro-ministro. O que deve ser inalcançável pela Justiça é o voto do representante popular, não as suas opiniões e palavras.

O exagero pode significar que não importa o que diga o parlamentar, nada lhe será imputado. Essa é a questão de Daniel Silveira. Alega que a ameaça que fez ao Supremo, aos ministros e seus familiares era opinião e deve ser protegida. Não foi opinião, foi crime e precisa ser punido.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 maio 2022.

Apelo

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro faz campanha contra as urnas eletrônicas e deve saber do que fala: sempre teve seus votos clicados em urnas eletrônicas, elegeu-se e elegeu seus três filhos mais velhos. Levanta suspeita de fraude nas eleições de 2018, que o levaram à Presidência. Será que ele sabe algo de que não sabemos?

Lula declarou que a ONU não é levada a sério. Lula também deve saber das coisas. Pois não é que um comitê da mesma ONU concluiu que ele foi vítima de procuradores parciais e de um juiz parcial na Operação Lava Jato?

Um apelo aos dois principais candidatos à Presidência: contem tudo!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Crônica policial

Fábrica Nespresso nas bucólicas colinas de Romont (Cantão de Friburgo, Suíça),
onde foi descoberta a droga.

José Horta Manzano

A marca Nespresso pertence à multinacional suiça Nestlé, maior grupo de laticínios do planeta e uma das gigantes do ramo alimentício. É interessante notar que as cápsulas de café Nespresso são todas fabricadas na Suíça e, em seguida, exportadas para o mundo todo.

O café, importado em quantidades industriais dos grandes países produtores – Brasil, Vietnam, Colômbia, Indonésia, Etiópia –, é torrificado, moído, preparado e acondicionado numa das três usinas suíças.

A notícia saiu na quinta-feira 5 de maio, mas os fatos podem ser anteriores. Numa das fábricas de cápsulas Nespresso, em meio a sacas de café em grãos, foram encontrados 500 quilos de cocaína “padrão exportação” com grau de pureza de 80%. A polícia foi chamada. Por alto, calcula-se que o valor da carga atinja os 50 milhões de francos suíços – em torno de 250 milhões de reais.

Aberto o inquérito, descobriu-se que a droga estava distribuída em 5 contêineres provenientes do Brasil. Segundo a polícia, trata-se de uma das mais importantes apreensões de droga jamais efetuadas no país.

O que se sabe até agora é que a carga desembarcou no porto de Antuérpia (Bélgica), de onde subiu o Rio Reno de barco até o porto fluvial de Basileia (Suíça). A quantidade de cocaína é tão enorme, que se supõe tenha havido um erro de logística no meio do caminho. O mercado suíço é pequeno demais para tanto pó.

Sem esboçar um sorriso, o porta-voz da polícia suíça informou que em nenhum momento a droga entrou em contacto com o café. O apreciador (de Nespresso) pode continuar degustando sem susto seu café favorito, seja ele Intenso, Volluto ou Fortissio.

Dificilmente se saberá quem despachou a droga e quem era o destinatário. Há sempre muito laranja no meio, o que dificulta chegar aos verdadeiros donos do negócio. É certo que, no meio do caminho, tinha uma pedra. E alguém tropicou. Francamente, com um prejuízo de 250 milhões de reais, alguma cabeça é capaz de rolar.

Quem manda aqui sou eu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Um jornalista italiano do Corriere della Sera entrevistou estes dias Serguêi Márkof. O entrevistado, que foi conselheiro pessoal de Putin de 2011 a 2019, dirige hoje o Instituto de Estudos Políticos de Moscou. Conhece muito bem o ditador.

Quando o entrevistador, curioso, lhe perguntou que critérios Putin adota para escolher ministros, assessores e auxiliares, respondeu: “É simples. Ele põe sempre a pessoa errada no lugar certo. Assim, no final, quem decide tudo é ele mesmo.”

Pode parecer engraçado, mas temos no Brasil um presidente que faz igualzinho. Em cargos importantes, bota sempre gente que não entende do riscado, assim quem acaba decidindo é ele mesmo. Já repararam?

Lembre-se do Pazuello, o “especialista em logística” que, em plena emergência sanitária nacional, cometeu o irreparável: despachou respiradores para o estado errado.

Não se esqueça do Salles, o ministro do Meio Ambiente que se mancomunou com uma máfia de madeireiros marginais.

Tenha em mente o Milton Ribeiro, ministro da Educação até outro dia, que andou metido com venda de verbas oficiais contra barras de ouro.

A lista de incapazes que cercaram (e ainda cercam) o presidente é longa como prontuário de delinquente recidivista.

Ah! O Bolsonaro tem outra característica putiniana. Além de tomar a si todas as decisões, decide mal, exatamente como o russo. Ainda agora acaba de vetar verba para a Cultura, mostrando que continua firme no propósito de perenizar o atraso da nação. Sua decisão foi tão mal tomada quanto a do colega Putin, com sua desastrada invasão do país vizinho, seguida de feroz mordaça na mídia do país.

Tanto o capitão quanto o ditador russo tentam seguir métodos soviéticos em pleno século 21. Não se dão conta de que o mundo mudou. Num universo mergulhado na internet, em que a informação circula, é evidente que métodos stalinianos não funcionam mais.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Conservadorismo e defesa da família

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu estagiava num hospital psiquiátrico, como parte obrigatória da graduação em psicologia clínica. Uma de minhas pacientes era uma jovem franzina, tímida, na casa dos vinte e poucos anos, que pouquíssimo falava sobre sua vida pregressa. Dado seu mutismo quando questionada sobre as emoções que se agitavam em seu universo interior, era difícil para mim obter informações confiáveis sobre os motivos que a haviam levado a ser internada e que alimentavam delírios religiosos frequentes.

Decidi então submetê-la ao teste de Rorschach para colher subsídios que pudessem determinar a melhor forma de abordar o caso. Esse teste, também chamado de “teste dos borrões de tinta”, consiste na apresentação, em uma sequência padrão, de 10 pranchas com manchas aleatórias, em branco e preto ou coloridas, e a solicitação de interpretação simbólica das figuras formadas – mais ou menos como acontece na brincadeira de identificar formatos nas nuvens em movimento no céu que se pareçam com pessoas, animais ou objetos.

A cada prancha apresentada, ela respondia com uma evidente mistura de curiosidade e medo. Depois de se deter por alguns minutos escaneando visualmente mas em silêncio os detalhes com total interesse, ela se retraía súbita e inexplicavelmente, dizendo: “Não estou vendo nada… só meu pai consegue ver”. O comportamento e a frase esdrúxulos se repetiram ao longo de todo o teste. Cada vez mais intrigada com aquela clara proibição interna de revelar conteúdos profundos, resolvi então reapresentar as 10 pranchas, uma a uma, perguntando: “O que seu pai vê aqui?”

Naquele instante, o psiquiatra que supervisionava o estágio entrou na sala e me lançou um olhar furioso. Como eu ousava alterar as regras do jogo irresponsavelmente, confundindo ainda mais a cabeça da garota? Fiz um intervalo, saí da sala e contei a ele o que estava acontecendo. Expliquei que, como o teste é projetivo, isto é, depende da projeção de percepções, emoções e sentimentos pré-existentes no psiquismo do paciente e que só são liberados quando há autorização da censura interna, eu precisava apostar que ela estaria driblando a própria censura ao assumir as percepções do pai como suas e trazendo à tona os elementos necessários para compreender as razões de sua falta de autonomia. Ele consentiu.

Minha estratégia foi um sucesso. Ela produziu um farto material para investigação, na maior parte das vezes com conteúdo de violência sexual. Entrou num frenesi verborrágico ao entrar em contato com uma prancha em que há uma mancha vermelha, com respingos espalhados sobre um fundo preto, que interpretou em meio a muita angústia como vagina sangrando, penetração violenta, sensação de fragmentação do corpo.

Comecei a escarafunchar o histórico familiar da paciente, na tentativa de descobrir as raízes dessas percepções. Sabia que o pai da garota era pastor de uma igreja fundamentalista cristã e era tido na comunidade como modelo de moralidade exemplar. No entanto, ninguém sabia informar como eram as relações dele no interior da família, com a esposa e com a filha.

Contrastando o material colhido no teste com esses fatos, foi-se revelando aos poucos que a garota não só era vítima aterrorizada de um pai autoritário, que se pretendia também possuidor de moralidade religiosa inatacável, mas havia sido estuprada seguidas vezes por ele e dele havia engravidado aos 14 anos. Forçada a abortar para não manchar a reputação do pai na comunidade, com o silêncio cúmplice da mãe, ela colapsou sob o fardo da opressão sexual e enlouqueceu.

Diagnosticada como esquizofrênica, ela passou a ter delírios religiosos, durante os quais se via como a Virgem Maria, a única pessoa isenta de pecado que poderia aceitar a missão de conceber o filho de Deus, representado pelo pai pastor. A morte forçada do filho também se encaixava à perfeição nesse contexto de autoridade divina inquestionável. Só ele sabia o que era melhor para ela e ela não podia duvidar das intenções e desígnios “sagrados” dele.

Sem o saber, eu havia encostado num fio desencapado em que entravam em curto o horror sexual real e a fantasia da pureza espiritual. Ela se refugiava nas alucinações místicas para escapar da loucura de sua realidade familiar. A partir dali, percorremos juntas toda uma Via Crucis de reinterpretações, avanços, quedas e retrocessos, até que ela se abrisse para a possibilidade de ajuda terapêutica. Esse caso me ajudou a entender não só o papel da cisão esquizofrênica na tentativa de restaurar a coesão do Eu mas também a aprofundar minha compreensão da violência contida na estrutura patriarcal de nossa sociedade.

Agora, com a campanha eleitoral de 2022 já em andamento, constato estarrecida que um grande número de candidatos insiste em apresentar-se ao público como “conservador”, repisando orgulhosamente o tema da “defesa da família” como trunfo eleitoral. Inevitavelmente, o caso dessa jovem esquizofrênica volta à minha cabeça e me força a perguntar: A qual família eles se referem, afinal? À família patriarcal, branca, de classe média/alta, heteronormativa? Àquela mesma família em cujo seio se instala a imensa maioria dos casos de pedofilia, estupro, abuso sexual, perversões e violência doméstica? Àquele tipo de família em que deve haver um abafamento compulsório de casos de homossexualidade e transgeneridade, mesmo que isso termine em suicídio de crianças e jovens?

Se é a esse tipo de família que precisamos voltar para reestruturar nossa sociedade, estamos de fato perdidos. Se ele fosse realmente tão poderoso para gerar harmonia social, convivência democrática e progresso, por que vivemos tempos tão sombrios de ódio e intolerância radical? Quando a esse modelo patriarcal se junta a noção de um Deus Pai todo-poderoso, guardião dos costumes para o alcance de elevação espiritual, não há como vislumbrar um futuro de mínima sanidade psíquica, de respeito às diferenças e de reafirmação da cidadania para o avanço das pautas das minorias.

O foco central da família patriarcal cristã sempre esteve na exigência de pastoreio rigoroso da sexualidade… feminina apenas, é bom lembrar. Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar. O duplo padrão de moralidade sexual do patriarcado continua a se vender como salvação da lavoura nacional ‘against all odds’ e, no atual contexto de direito à “liberdade de expressão” sem limites, deriva muitas vezes para um padrão de masculinidade tóxica que ainda seduz politicamente muitas cabeças jovens.

Claro que há famílias saudáveis, bem-estruturadas e funcionais em todos os estratos sociais, raciais e religiosos, mas ninguém se atreve a questionar de que forma esse modelo fantasiado de família de comercial de margarina se encaixa com a realidade da imensa maioria das famílias brasileiras em que as mulheres são as chefes, as provedoras e os modelos inspiracionais, em meio a muita carência, fome, desemprego e violência sexual/social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.