Ontem, hoje, amanhã

Carlos Brickmann (*)

Há 57 anos, nesta data, o general Olímpio Mourão Filho botou a tropa na rua e iniciou a derrubada do governo João Goulart. A situação era tensa: num grande comício, no Rio, Brizola repetira o slogan “reformas na lei ou na marra” e Luís Carlos Prestes, líder revolucionário, dizia que os comunistas já estavam no poder, só faltava tomar o Governo. Em São Paulo, centenas de milhares de pessoas, na Marcha da Família, queriam depor o presidente. Cabos e sargentos se rebelaram em favor de Goulart, que parecia tranquilo: até levou a esposa, Maria Tereza, ao comício do Rio, para vê-lo aplaudido.

Goulart tinha a seu lado o ministro da Guerra (hoje seria o da Defesa), Jair Dantas Ribeiro, o general Ladário Pereira Telles, comandante da mais poderosa tropa do país, o 3º Exército (Rio Grande do Sul), as Ligas Camponesas de Francisco Julião no Nordeste, as milícias Grupos dos Onze, de seu cunhado Leonel Brizola, um “dispositivo militar” montado por seu chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. Era amigo do general Amaury Kruel, comandante do 2º Exército (São Paulo). Tinha “generais do povo” dirigindo estatais. Se tentasse derrubá-lo a oposição seria esmagada.

No dia 31 o general Mourão botou a tropa na rua, em Juiz de Fora. Em um dia de marcha, sem um tiro, o que parecia sólido desmanchou-se no ar. Os militares de Goulart se evaporaram ou aderiram. Bolsonaro tinha uns nove anos, não percebeu nada. E não seria em livros que buscaria se instruir.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Chanceler

Itamaraty, Brasília

José Horta Manzano

Cancela é palavra de uso corrente nos campos, fora das cidades. Nos centros urbanos, é menos utilizada. É o nome que se dá ao portão baixo, geralmente feito de pranchas de madeira cruzadas, que barra a entrada de chácaras, sítios e fazendas. A palavra carrega a ideia de barrar, riscar. O verbo cancelar faz parte da família. O sentido básico é justamente de barrar o que foi escrito, fazendo riscos por cima.

Nos últimos tempos do Império Romano, o cancellarius era uma figura importante. O título designava o oficial encarregado de montar guarda em frente aos aposentos do imperador, que eram barrados com uma grade (cancellus).

O imperador foi-se, mas o nome da função exercida pelo guardião ficou. Cancellarius e seus descendentes diretos constituem caso pouco comum de nome de função cujo significado exato varia conforme o país ou a língua.

Chancelor
O chancelor inglês é palavra multiúso. Determinados funcionários de alto escalão levam esse título. O secretário-geral de uma embaixada também. Até o reitor de certas universidades americanas são chamados chancelor.

Cancelliere
O cancelliere italiano também tem numerosas funções. Tanto pode receber esse título um bancário quanto um alto funcionário da administração pública do país. A Cúria Romana chegou a atribuir esse título a um cardeal que executava certas funções. Academias (de letras ou de ciências) e embaixadas também têm encarregados aos quais se dá o nome de cancelliere.

Canciller
O canciller espanhol é o secretário de uma diocese católica. O termo também é usado para designer o chefe de expediente de uma representação diplomática, assim como um alto funcionário da administração.

Chancelier
O chancelier francês é título histórico. No ancien régime (antes da Revolução Francesa), era já atribuído a um altíssimo funcionário encarregado da custódia sigilo real (=sinete de selar, a marca que autenticava a assinatura do rei). Nos dias atuais, chancelier é o encarregado da administração de uma ordem militar. O termo serve também para designar um funcionário graduado lotado numa representação diplomática.

Kanzler
Na Alemanha e na Áustria, o Kanzler (pr: kántsler) tem função específica: designa o primeiro-ministro da República. Na Áustria, o Kanzler atual é Sebastian Kurz, um jovem de 34 anos. Na Alemanha, faz dez anos que o cargo é ocupado por uma mulher, Frau Angela Merkel. Neste caso, a palavra assume a forma feminina: Kanzlerin (pr: kántslerin).

Bundeskanzler
O chancelier fédéral suíço (Bundeskanzler em alemão) é o chefe do departamento que assegura o bom funcionamento do expediente do Poder Executivo colegiado do país – uma espécie de chefe de Estado-Maior do Executivo.

Chanceler
E chegamos a nosso chanceler. Embora de origem latina (cancellarius), a palavra nos veio através do francês (chancelier). Na Igreja Católica, é o encarregado da chancelaria de uma arquidiocese. Mas o termo é mesmo conhecido por designar o ministro das Relações Exteriores.

O trágico personagem que passou os últimos dois anos fantasiado de chanceler acaba de ser despachado de volta ao anonimato de onde nunca devia ter saído. Meio de pé atrás, o Brasil espera que o sucessor vá além da fantasia e funcione como chanceler de verdade. Visto o histórico de um governo que, entre acertar e errar, sempre escolhe a segunda opção, ninguém deve nutrir muita esperança.

Hasta la vista, baby!

José Horta Manzano

«A verdade liberta e a mentira escraviza. Hoje, a mentira é despudoradamente utilizada para um projeto materialista que visa a escravizar o Brasil e os brasileiros, a escravizar o próprio ser humano e roubá-lo de sua dignidade material e, principalmente, espiritual.»

A frase delirante consta da carta de demissão de Ernesto Araújo. A visão estrábica do chanceler o faz enxergar ‘verdade’ nas teorias delirantes que lhe invadem a mente, e ‘mentira’ na cabeça dos que não ruminam as mesmas fantasias.

De um ministro encarregado de cuidar da relação entre o Brasil e os quase 200 países do globo, podem-se admitir alguns defeitos – afinal, trata-se de um ser humano. Aceita-se que seja dispéptico, eupéptico ou céptico. Pode ainda ter dor nas costas, falta de cabelo ou unha encravada. Se tiver medo de cachorro, de tempestade e de assombração, ninguém vai nem perceber. Tagarelice, mau gosto vestimentar e fanhosez são defeitos que não desonram ninguém.

Mas tem um defeito que nunca, jamais, em tempo algum, ministro das Relações Exteriores pode se permitir: a ingenuidade. As relações internacionais do Brasil (assim como de qualquer outro país) não podem ser entregues a um homem ingênuo. Um irresponsável Bolsonaro conseguiu cometer o sacrilégio.

O discurso de Ernesto Araújo, pronunciado no dia em que tomou posse do cargo, já anunciava as tintas do que estava por vir. Os delírios do chanceler ingênuo, com anuência do capitão ignorante, foram a receita perfeita para desmerecer o país perante o mundo civilizado.

Consertar o estrago vai dar trabalho. Com todos os problemas que já tem, o Brasil bem que dispensava mais este.

De ministros e telenovelas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 março 2021.

Não é à toa que telenovela faz tanto sucesso no Brasil. E não é de hoje. Quando não havia tevê, nossas mães e avós já se encantavam com as radionovelas. A razão é simples: brasileiro adora assistir a um espetáculo grátis. Se for dramático, melhor ainda. Se sair sopapo e palavrório, é um delírio. Se pingar sangue, então, é o nec plus ultra, o júbilo total.

Em outras terras, troca de ministros é operação que já chega ao distinto público como pacote pronto e embrulhado pra presente. Sai um, entra outro, cumprimentam-se na porta, e a vida segue macia. As tratativas e negociações que precedem a escolha fazem parte da cozinha interna e nunca são divulgadas. Entre nós, não funciona assim.

O povo aprecia um espetaculozinho. Começa já semanas antes, com ‘fritura’ pública do titular e boatos que correm. Será que cai? Será que não cai? Depois vêm os ‘convites’. Fulano foi convidado; vai aceitar? Ih, foi conversar com o presidente! Será que se entenderam? Não, parece que não deu certo. Dizem que a Ala X quer, mas a Ala Y rejeita. E assim segue, como se fosse espetáculo teatral, com a população sentada na fileira da frente. Entre uma pipoca e outra, cada um dá seu palpite.

Quando, finalmente, a coisa decanta e o novo ministro é nomeado, parece último capítulo de novela. Comentários correm soltos pelos elevadores, na rua, no cabeleireiro, no supermercado, na padaria. Passado o desenlace, todos murcham e já se preparam para a próxima atração.

É um procedimento peculiar, esse modo brasileiro de troca ministerial. Mal comparando, é como se um sujeito fosse trocar de carro e os vizinhos resolvessem se intrometer. Cada um se permitiria dar palpite (não solicitado) sobre marca, modelo e cor, tudo sob o olhar atento da rua inteira (ou do condomínio inteiro), uma multidão dividida em alas, cada uma torcendo por seu modelo ou sua cor. É surreal.

No fundo, a escolha de ministros de Estado é ato privativo do presidente da República, visto que são assessores de sua confiança – é o que reza a Constituição. Em princípio, pois, o chefe do Executivo não deve satisfações a ninguém nesse assunto. Se o povo está em desacordo com a política deste ou daquele ministério, o melhor caminho não é reclamar do ministro. Ele foi nomeado para executar a política ditada pelo chefe. No fundo, o cômico Pazuello tinha, até certo ponto, razão: “Um manda, outro obedece”.

O general ficou marcado para o resto da vida pela ingenuidade de ter pronunciado a frase, mas ela não deixa de refletir a realidade. O que se reprova não é tanto que ele a tenha dito, mas que tenha aceitado o posto, já sabedor de que teria de se curvar a um chefe iracundo. A doutora que, outro dia, recusou o posto mostrou-se também ingênua de acreditar poder impor suas visões a um presidente obcecado por conceitos que, viessem de um terraplanista, não chocariam. A ex-futura titular da Saúde escapou na undécima hora, justo a tempo de evitar ter de carregar no currículo a pecha de ter sido ministra de Bolsonaro.

Esse rebuliço que se alevanta a cada troca de ministro não desenha imagem firme e forte do governo federal. Dirigente forte, bem assentado e de pés no chão dispensa teatralidade: troca seus assessores e pronto. Tratativas há, como é natural, mas não há por que deixá-las transpirar. Com a publicidade que foi dada à contratação da quase ministra Hajjar, quem saiu mal foi o próprio presidente. Ao fim e ao cabo, a imagem passada à nação é de que foi ela a dispensar Bolsonaro, e não o contrário. Outro que saiu mal na foto foi o sucessor do general demitido. Está passando recibo de ser ministro de segunda linha – “second choice”, como diriam os ingleses. Isso é péssimo.

Inteligência e sutileza não são mercadoria abundante no Planalto, disso sabemos todos. Será essa a razão de Bolsonaro não estar se dando conta de que, ao imprimir a uma simples troca ministerial ares de espetáculo teatral, está deixando claro que o governo é fraco, hesitante e dependente da opinião alheia. Não fica bem sobretudo para um presidente que, mais de uma vez, já chegou a reclamar: “Quem manda aqui sou eu, pô!”.

Ainda não emplacou uma

André Borges (*)

Após mais da metade do mandato, não há um programa de impacto nacional que tenha sido criado pelo presidente Jair Bolsonaro, seja na área econômica ou social. Ao contrário dos seus antecessores, que deixaram legados como Bolsa Família (Lula), Minha Casa, Minha Vida (Dilma), Bolsa Escola e combate à inflação (FHC) e Plano Real (Itamar), Bolsonaro não tem nenhuma marca que carregue o carimbo de sua gestão. E tudo indica que nada mudará até o fim de seu governo.

(*) André Borges é jornalista. Trecho de artigo publicado no Estadão de 28 março 2021.

Encontre o erro

Ascânio Seleme (*)

José Maria da Silva Paranhos Júnior (Barão de Rio Branco), Otávio Mangabeira, Afrânio de Melo Franco, Osvaldo Aranha, Horácio Lafer, Afonso Arinos, San Tiago Dantas, Evandro Lins e Silva, Magalhães Pinto, Azeredo da Silveira, Raimundo Saraiva Guerreiro, Olavo Setúbal, Celso Lafer, Francisco Rezek, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Lampreia, Celso Amorim, José Serra e Ernesto Araújo. Que tal esta galeria? Tem alguém deslocado aí?

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 27 março 2021.

Butantan

José Horta Manzano

Fundado no fim do século 19, o Instituto Butantan trabalhou em silêncio por mais de um século. Produtor de vacinas há 120 anos, já prestou valiosos serviços. Embora reconhecido por cientistas do mundo todo, nunca chegou a ter uma projeção comparável à do Instituto Pasteur (Paris) ou do Instituto Max Planck (Munique). A seu favor, diga-se que o orçamento que lhe tem sido dedicado é incomparavelmente mais modesto que o de seus congêneres europeus ou norte-americanos.

A pandemia de covid-19 e a desesperada busca por vacina subitamente giraram os holofotes para o Butantan. Nosso sabido presidente tentou menosprezá-lo, mas o tiro saiu pela culatra: apesar dos muxoxos do capitão, o instituto passou a ser nacionalmente conhecido e olhado com respeito.

Duas curiosidades linguísticas cercam o nome do instituto. A primeira é de ordem etimológica. De onde vem essa palavra? Pela sonoridade, dá pra adivinhar que vem da língua tupi, como grande parte de nossos topônimos – rios, morros, vilarejos, cidades e até alguns estados.

A versão mais difundida ensina que Butantan é composto por bu (=terra) + tata (muito dura). Há variantes para o adjetivo: tata, tatã, tãta, tãtã.

Outra versão pretende que seja corruptela de m’boy (=cobra) + tata (=fogo), ou seja, boitatá = cobra de fogo, personagem de antiga lenda indígena. Se assim for, compartilha o étimo com a cidade paulista de Batatais, cujo nome também poderia ser uma variante de boitatá.

Desde que, lá pelo fim dos anos 1700, o último bandeirante aprendeu o português e esqueceu o tupi, a antiga lingua franca definhou até praticamente desaparecer. Assim, será difícil estabelecer com segurança a origem do nome do local onde foi instalado o instituto.

A segunda curiosidade tem a ver com a grafia Butantan. A norma de 1943 diz que os topônimos conservarão a forma que lhes atribuiu a «tradição  histórica secular». E cita um único exemplo – Bahia –, deixando a questão em aberto. Tirando a região da cidade de São Paulo, em que excursões escolares costumam levar os pequerruchos a conhecer o serpentário do Butantan, é difícil encaixar o nome do instituto no conceito de «tradição histórica secular».

Assim sendo, a grafia da palavra deveria seguir a regra comum das palavras de origem tupi, ou seja, Butantã, com ã no final. No entanto, o que se lê por toda parte é Butantan, com um improvável an no final. Tenho minha ideia quanto à origem dessa anomalia.

Acredito que a palavra vem sendo escrita tal como foi entalhada, 100 anos atrás, no frontispício do instituto. A reforçar essa grafia, está o site oficial do instituto, que adota Butantan em detrimento de Butantã.

Sabem de uma coisa? Desde que o sedento mercado brasileiro seja logo inundado com as esperadas vacinas, que cada um use a grafia que lhe apetecer. Pra acompanhar a corrente, vamos de Butantan mesmo!

O caos que nos rouba a vida

Marco Aurélio Nogueira (*)

Com Bolsonaro o ataque aos sistemas atingiu o auge. Muitos foram sucateados, perderam parte de sua potência positiva. O presidente não preside, age para impedir que o governo governe. A inteligência desapareceu, rejeitada por uma equipe ministerial pouco qualificada e desorientada pela ausência de um plano concatenado de governo. Os sistemas foram atingidos no coração. Não só na saúde. A corrosão atinge também a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia, o meio ambiente.

O governo atual, em vez de atuar como vértice supremo dos sistemas, age deliberadamente para desorganizá-los, recusa-se a coordenar suas peças e as impede de funcionar. Forma-se assim uma nuvem tóxica, de rara perversidade, que provoca caos sistêmico geral, impulsiona a disseminação do vírus e aumenta o número de doentes e mortos. É um crime.

(*) Marco Aurélio Nogueira é professor titular de Teoria Política da Unesp. O texto é fragmento de artigo publicado n’O Estado de São Paulo de 27 março 2021.

O triste destino dos intubados

José Horta Manzano

O Instituto de Pesquisa Poder360 expôs estes dias a elevada taxa de mortalidade dos brasileiros que têm de sofrer intubação em decorrência da covid-19. A letalidade entre os intubados no Brasil foi comparada com a de outros quatro países populosos: Itália, Alemanha, Reino Unido e México.

Constata-se que a mortalidade dos intubados brasileiros é superior à de britânicos e mexicanos, e muito superior à de alemães e italianos. Segundo o comunicado do instituto, as razões pelas quais o quadro é mais grave no Brasil são as seguintes:

1. UTIs lotadas;
2. profissionais sem experiência de intubação;
3. burnout das equipes;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
4. falta de equipamentos;
5. centros médicos sem condições de atendimento;
6. quebra de protocolos de boas práticas.

Todas essas razões parecem válidas. Mas uma coisa não pode ser esquecida: a pandemia não é exclusividade brasileira. O coronavírus pegou o mundo todo de surpresa. Nenhum país estava preparado para lidar com ela. Em nenhum lugar do mundo, hospitais têm pessoal de reserva, treinado para intubação, nem equipamentos sobrando. O esgotamento nervoso (que hoje convém chamar burnout) atingiu todas as equipes, no mundo todo. As UTIs lotaram na Itália, no Reino Unido, no México. Na Europa, pacientes hospitalizados chegaram a ser exportados de um país a outro.

Portanto, as três primeiras razões invocadas atingem o mundo todo. Não sendo especificidade brasileira, não explicam a disparidade no número de intubados mortos.

As três últimas justificativas, sim, aplicam-se particularmente a nosso país. Aqui está a descrição de cada uma delas.

Centros médicos sem condições
Esse problema não começou com a explosão da covid. E, infelizmente, vai durar mais que a epidemia. É vício antigo e recorrente, que vem de muito antes do atual governo. Resulta de uma extravagância brasileira: a de contar com dois circuitos paralelos de saúde, um público e um privado. Trocando em miúdos, a rede pública, financiada por todos mas utilizada apenas pelo povão, é descurada pelo poder público, cujos membros contam com outros canais de atendimento hospitalar.

Quebra de protocolos
Protocolos são feitos para serem respeitados. Só devem ser quebrados em raríssimos casos de força maior. Acontece que a proverbial indisciplina que rege nosso comportamento transforma casos corriqueiros em casos de força maior. Assim, a quebra de protocolos passa a ser corriqueira. O resultado é a desordem.

Falta de equipamentos
Quando estourou a epidemia, nenhum país contava com suficiente quantidade de equipamentos. Em outras terras, o poder público se apressou em encomendar respiradores, máscaras, vacinas, seringas e equipamentos para UTI. O governo brasileiro optou por negar a gravidade da pandemia. Não agiu e preferiu pagar pra ver. Viu.

O exemplo vem de cima
Uma última razão ajuda a explicar o assustador quadro de mortandade dos intubados brasileiros. É talvez o fator que mais pesou. Desde o começo da epidemia, dia sim, outro também, doutor Bolsonaro fez pouco caso da doença, incentivou aglomerações, zombou de máscaras, trovejou contra a distanciação social, combateu a vacinação.

Nem todos os brasileiros são dotados de bom senso. Muitos acreditaram em nosso Napoleão de hospício e acreditaram poder fazer como ele. Em vez de procurar atendimento hospitalar desde o começo da doença, correram atrás de cloroquina e outras drogas milagrosas que compõem o “tratamento precoce” do doutor presidente. Quando, finalmente, foram hospitalizados, já era tarde.

Resumindo, constata-se que a diferença na taxa de mortandade entre o Brasil e os demais países não se explica por fatores como UTIs lotadas, esgotamento nervoso do pessoal, falta de experiência de intubação – que são problemas comuns a todos. A elevada mortandade dos infelizes que tiveram de ser intubados no Brasil prende-se a duas causas principais: a falta de equipamentos e a ingenuidade dos que, tendo acreditado na jactância do presidente, só procuraram o hospital quando a doença já se havia instalado firme e forte.

A tristeza maior é entender que, tivesse o governo federal agido com bom senso e boas intenções, esse morticínio poderia ter sido mitigado. Ora sabemos que, no Brasil, intubação é praticamente sentença de morte.

Pensando bem – 19

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Butanvac

O Instituto Butantan já avisou
que já está lá no forno uma vacina
feita aqui, totalmente nacional
esta, sim, sem produto lá da China

Pra poder começar a fabricar,
Já pediu a devida permissão.
Com essa história, o presidente do Brasil
Vai ficar em bizarra situação.

Se autoriza, os devotos vão chiar;
Se proíbe, o Congresso vai impichar
Que fazer numa luta tão inglória?

Não tem jeito, não vai dar pra escapar
Queira ou não, é melhor se preparar:
O triunfo, desta vez, será do Dória.

Au pair

José Horta Manzano

Pouco conhecida entre nós, a expressão au pair define uma atividade difundida e bastante apreciada pelos jovens europeus. A falta de intimidade com a expressão, faz que ela seja às vezes traduzida por ‘babá’, o que não corresponde necessariamente à realidade.

A imagem de um rapaz (mais frequentemente de uma moça) au pair surge no século 19. A construção de estradas de ferro facilitou muito as viagens. Trechos que demandavam dias de estrada passaram a ser percorridos em poucas horas – um achado. O mundo ficou mais perto, e a mocidade se empolgou.

Aos poucos, foi se firmando nova atividade para a juventude. A jovem au pair é aquela que passa algum tempo – geralmente um ano – no exterior, hospedada na casa de uma família com crianças. O trato é paritário (=au pair), ou seja: a moça tem casa, comida e roupa lavada; em troca, dá um pouco do seu tempo para cuidar das crianças e ajudar na arrumação da casa.

Em geral, o principal interesse da jovem au pair não é tanto cuidar de criança, mas aprender a língua, num regime de mergulho total. A família costuma pagar o curso intensivo de língua e dar horas livres para a hóspede poder frequentá-lo. A jovem recebe, além disso, uma mesada, coisa pouca, que não chega a ser um salário, mas dinheiro de bolso.

De origem francesa, a expressão au pair é utilizada na maioria das línguas, sem tradução nem adaptação. Na origem, o termo era usado unicamente em economês, para tratar de paridade entre moedas.

Até pouco tempo atrás, grande parte das jovens candidatas a uma colocação como au pair sonhavam com a Inglaterra. É natural, a atração da língua inglesa supera a das demais. Só que, passado o Brexit, as autoridades britânicas tomaram uma decisão polêmica.

Talvez com intenção de melhorar as estatísticas de desemprego, decidiram despertar à força vocações de mocinhas britânicas candidatas a uma colocação au pair dentro das fronteiras do Reino Unido. Para aumentar a atratividade da “profissão”, promoveram-na à categoria de profissão especializada, com piso salarial fixado em 20 mil libras por ano.

Não sei se vai dar certo. Por um lado, jovens britânicos não parecem muito interessados em mergulhar no ‘aprendizado’ da própria língua materna; preferem estudar na Espanha, na França ou na Itália. Por outro, o elevado piso salarial é proibitivo para uma família inglesa comum. O interessante da atividade era justamente essa informalidade, esse toma lá dá cá (no bom sentido).

As novas regras britânicas vão conseguir frustrar nas duas pontas. As famílias inglesas que gostariam de contratar uma estrangeira para cuidar das crianças não vão mais poder fazê-lo. E os jovens europeus, que adorariam passar um ano no Reino Unido aprendendo inglês, vão ter de saciar sua sede de viagens em outro lugar.

De quebra, fecha-se um canal barato de projeção da língua inglesa. Está aí uma decisão mal ajambrada, em que todos saem perdendo.

Bolsonaro e a guerra ao vírus

Carlos Brickmann (*)

Respondendo a pressões americanas contra incêndios na Amazônia e no Pantanal, no fim do ano passado, Bolsonaro disse que, quando as palavras acabam, chega a hora da pólvora.

Pois agora, cansado das palavras contra a covid, parece ter decidido ir à guerra contra os coronavírus: destinou 20% do orçamento oficial para as Forças Armadas. Serão destruídos à bala!

Além disso, para estimular os combatentes, decidiu que os militares serão os únicos servidores a ter reajuste neste ano. A nutrida tropa (nutrida com 700 mil kg de picanha, 80 mil litros de cerveja, boa parte importada, uísque do bom e enorme estoque de leite condensado) terá armas à vontade.

Tremei, vírus!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Apontando soluções

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Como todos sabem, brasileiro é sempre muito bom para apontar os principais problemas do país mas não costuma se esforçar muito para encontrar soluções para cada um.

Tendo em vista o desânimo generalizado com as crises sanitária, econômica, social e política que vêm atrapalhando nosso sono, decidi sugerir algumas alterações no comando dos ministérios que poderiam ajudar a nos tirar do buraco em que nos metemos acidentalmente.

Convido a todos para acrescentarem suas próprias percepções e sugestões. Alerta importante: todas as indicações têm de ser feitas com base na expertise de cada ministro; apenas nomes técnicos serão considerados.

Mãos à obra:

  • Tira o Ernesto Araújo e põe o Pazuello nas Relações Exteriores: Ué, não é uma questão de logística colocar embaixadores em postos estratégicos para convencer os organismos internacionais multilaterais (como a ONU e a OMS) e os líderes do G-20 que o Brasil é exemplo de controle da pandemia? Pode ser que ele confunda a Albânia com a Alemanha (um lapso compreensível, considerando que o nome de ambos os países começa com Al), mas pra tudo dá-se um jeito no final, pode acreditar. Outro benefício é que ninguém vai nem notar a mudança de chefia do Itamaraty; afinal, esses dois países são comunistas e nós não queremos mesmo estreitar relações com essa gente.
  • Tira o Guedes e põe Salles na Economia: Ué, ele não é especialista em passar a boiada enquanto a imprensa está preocupada com o mimimi do negacionismo de Bolsonaro? Aproveita e deixa passar as reformas tributária, administrativa e política.
  • Tira a Damares e põe ela no Meio Ambiente: Ué, mulher sabe cuidar muito melhor das plantinhas.
  • Tira o Milton Ribeiro e põe o Augusto Heleno na Educação: Ué, ele não é especialista em segurança institucional? Quer área mais crítica que a educação para garantir que o futuro do país vai estar mais seguro nas mãos de um militar? Além disso, ele vai saber educar melhor nossa juventude a respeito da oportunidade e funcionalidade da decretação de um novo AI-5.
  • Tira o Marcos Pontes e coloca ele no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: Ué, ele já foi pro espaço e, portanto, já sabe que a terra é redonda, né? Por isso, ele vai ser muito útil para modernizar as diretrizes do ministério e colocar o Brasil de volta na rota da Renascença, em especial no que tange aos direitos humanos. Além disso, ele vai poder aplicar novas tecnologias na área dos direitos reprodutivos da mulher.
  • Tira a Teresa Cristina e põe ela no Ministério da Saúde: Ué, lá ela vai poder falar com muito mais propriedade sobre os efeitos benéficos dos gases estufa e dos agrotóxicos para fazer avançar os limites das áreas destinadas à pecuária e garantir uma alimentação mais farta e mais diversificada para as populações mais carentes, sem ter de pagar muito por isso. Além disso, ela deve ter muito mais experiência na vacinação em massa…mesmo que de bovinos.

Pronto, aí está. A lista de trocas sugeridas pode não ser exaustiva, mas certamente servirá de inspiração para a indicação de novas alterações ministeriais.

Nota para os pessimistas de plantão: Se nenhuma dessas trocas funcionar tão bem na prática quanto imagino, sugiro que se tire Bolsonaro e se coloque a neozelandesa Jacinda Ardern na presidência. O quê?? Não pode porque ela não foi eleita vice na chapa de 2018? Bobagem! Nada que o STF não dê um jeitinho, né não?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um torturante band-aid no calcanhar

José Horta Manzano

Entre nós, a gigante norte-americana Johnson & Johnson é identificada com o Óleo Johnson, produto que mães aplicam há décadas nos pequerruchos. Sem saber que são produzidos pela mesma empresa, conhecemos também o Tylenol e o Band-aid (que nem todos usam no calcanhar, aliás). Além desses três artigos, o cidadão comum pouco conhece da firma.

Com a pandemia, o mundo começa a tomar conhecimento de que a Janssen – braço do conglomerado Johnson & Johnson – desenvolveu com sucesso uma vacina contra a covid-19. Por estar chegando ao mercado um pouco depois das primeiras, a vacina Janssen é menos conhecida. Que não seja por isso: apresenta vantagens consideráveis.

Em primeiro lugar, conserva-se a uma temperatura entre 2° e 8°, vantagem apreciável em comparação com a Pfizer, que exige armazenamento a 70° abaixo de zero – um senhor desafio para a trôpega logística do Ministério da Saúde.

A segunda vantagem é o preço. Visto que as negociações nem sempre são transparentes, valores raramente são publicados; assim mesmo, estima-se que cada dose saia pela metade do preço das concorrentes Pfizer e Moderna.

A terceira vantagem é importantíssima: uma dose é suficiente, enquanto todas as concorrentes exigem duas. É um benefício supimpa para países em que o avanço da vacinação é lento.

É verdade que a eficácia (66%) é mais baixa do que a das concorrentes. No entanto, sem atingir os 90% das que funcionam melhor, a Janssen é mais eficaz do que a Coronavac, que gira em torno de 50%.

A vacina Janssen estará disponível no segundo semestre deste ano. Visto que, até lá, nossa população ainda vai estar longe da imunização geral, o governo federal devia considerar com muita atenção a possibilidade de adquirir esse imunizante. E, desta vez, fazê-lo antes que outros países passem à frente.

Sítio

José Horta Manzano

Situm é o particípio perfeito do verbo latino sínere, que tem o significado de pôr, colocar, deixar. Alguns descendentes aparecem em nossa língua. Situar, sitiar, situação e sítio estão entre eles.

O sítio aparece entre os sonhos crônicos do brasileiro. Um sitiozinho tranquilo, jeitoso, suficientemente longe de casa pra dar a impressão de ter viajado, mas suficientemente perto para a viagem não parecer uma chatice. Milhões gostariam de ter esse privilégio.

Em nosso mundo político atual, sítio também é palavra pra lá de especial. Por razões diferentes, o termo é particularmente caro a dois de nossos personagens mais estridentes: Lula e Bolsonaro.

Lula se enroscou por causa de um sítio em Atibaia. O irônico da coisa é que, depois de fechar o olho para a roubalheira desenfreada que marcou sua gestão, foi cair justamente por causa de uma propriedade que sequer em seu nome estava registrada. Um sitiozinho à toa, cujo luxo maior era um laguinho com pedalinhos. Coisa de principiante.

Bolsonaro, escolado, não periga aceitar o usufruto de chácara de terceiros. Sua relação com sítio é outra. O atual presidente é vidrado em estado de sítio. O nome é o mesmo, mas o panorama é mais sombrio. Ninguém se exclama: «O lago é uma delícia!», mas «Cuidado com a milícia!» – o que, convenhamos, é menos acolhedor.

Lula vai pensar duas vezes antes de se enfiar de novo em sítio alheio. Quanto ao capitão, está dando mostra de pouca familiaridade com o país em que vive. Seu sonho de estado de sítio não se realizará. Os que repudiam a ideia têm mais peso do que os que apoiam. Se ele continuar insistindo, vai dar-se mal.

Escalada verbal

José Horta Manzano

Nunca jamais esta República (que alguns começam a chamar ‘República de bananas’) tinha assistido a tamanha escalada de epítetos pespegados ao presidente. É uma chuvarada que aperta a cada dia que passa.

O interessante é que, como a pandemia, a espiral começou de mansinho, como uma gripezinha que incomoda mas não mata – (sem alusões, hein!). De repente, um jornalista aqui, outro ali, ousou realçar alguma característica desairosa do capitão. Os começos foram tímidos, mas a progressão logo se mostrou geométrica.

Como em tudo na vida, a coisa vai e a coisa vem. Quem começou, na verdade, foi o presidente, ao desancar jornalistas com qualificativos agressivos. Os profissionais revidaram em seus artigos. E assim o pingue-pongue foi crescendo até atingir picos nunca vistos. Ninguém gosta de apanhar calado. Assistimos hoje a um leilão em que cada um dobra o lance do concorrente.

Em julho do ano passado, escrevi um artigo comentando a escalada verbal introduzida por doutor Bolsonaro nos costumes desta maltratada República. Relembrei como era a coisa nos tempos de Juscelino, ao final dos anos 1950, num tempo em que o Brasil ainda era civilizado.

Meio receoso, eu listei 15 qualificativos colhidos na internet, todos aplicados ao presidente. Já me pareceu uma enormidade. Frisei bem que não eram de minha autoria, mas escritos por outras plumas – eu só fazia citar. Na época, ninguém imaginava que o pior ainda estava por vir. Se o distinto leitor quiser rememorar aquele passado tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante, deixo o link mais abaixo.

Meses mais tarde, outros escribas também tiveram a ideia de compilar adjetivos, substantivos e expressões aplicáveis ao presidente. Selecionei três artigos, que estão aqui para quem quiser dar uma olhada. Os links estão logo mais abaixo.

Apesar dessa inflação de epítetos, a língua não se esgotou. Ainda há expressões a garimpar. Dizem que não adianta, porque Bolsonaro é blindado contra expressões ofensivas. Ah, é? Por que então pede instauração de inquérito contra qualquer um que o chame de genocida, pequi roído ou outro nome cheiroso ou espinhudo? Essa história de blindagem está mal contada.

Links

13 jul° 2020
José Horta Manzano
15 qualificativos

26 jan° 2021
Ruy Castro
24 qualificativos

28 jan° 2021
Ruy Castro
146 qualificativos

19 março 2021
Mariliz P. Jorge
191 qualificativos

Parece mentira

José Horta Manzano

Nem bem acabei de escrever o post anterior, sobre o confinamento na França, abri o Estadão online. Logo na primeira página, dou de cara com estas duas chamadas, ironicamente colocadas lado a lado:

Chamada Estadão, 19 março 2021

Doria sobretaxa esporte e cultura
Num país de iletrados, onde 1/3 da população se mostra ignorante a ponto de achar que Bolsonaro está fazendo bom governo, sobretaxar a cultura é crime maior. Governador que faz isso merece ser impichado ao término de processo expeditivo.

Bolsonaro combate toque de recolher
Num país onde a pandemia corre solta e ceifa a vida de jovens e velhos, combater medidas de contenção da hecatombe é crime maior. Presidente que faz isso merece ser impichado em processo relâmpago.