Gauche caviar

José Horta Manzano

Você sabia?

No mundo inteiro, até a virada dos anos 1980, meios universitários botavam fé no sucesso da revolução socialista. Eram movidos por desejo sincero de promover igualdade social por meio da implantação ‒ pelas boas ou pelas más ‒ de regime autoritário que impusesse redistribuição da renda.

Stalin, o paizinho dos povos, já tinha morrido fazia décadas. Mesmo assim, intelectuais do mundo inteiro, integrantes do que os franceses chamam gauche caviar (=esquerda caviar), continuavam filosofando e refazendo o mundo entre dois goles de pastis ou de bourgogne.

A queda do Muro de Berlim, o fracasso da Cuba dos Castros, a derrota dos sandinistas e dos guerrilheiros das Farc, o inferno norte-coreano e o descalabro bolivariano teriam despertado qualquer cristão para a realidade. Qualquer indivíduo de bom senso se teria convencido de que o caminho não é esse. Nossa gauche caviar, no entanto, bate pé firme.

O curioso fenômeno não se limita a nosso país. Longe disso: é mundial. Essa peculiar casta de reformadores do mundo briga com os fatos e está de mal com a realidade. Vivem eles encastelados num universo de fantasia rodeado de filtros que só deixam passar o que estão dispostos a ouvir.

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Em cerimonia realizada ontem, a argentina Universidad Nacional del Comahue concedeu a Lula da Silva o doutorado honoris causa. Comahue é universidade pública, baseada principalmente em Neuquén, mas com satélites em uma dezena de outras localidades. Aparece entre as dez maiores universidades do país.

Em sua fala, o reitor acusou textualmente o “poder judicial corrupto” do Brasil de manter o demiurgo injustamente na prisão. Acusações voaram para todos os lados. Doutor Temer, o presidente da Argentina e a diretora do FMI tiveram direito a sua dose de insultos. “‒ Um dia voltaremos a recuperar as forças na América Latina!”, encerrou o magno reitor. O artigo não confirma, mas imagino que, nessa hora, o moço tenha levantado o punho esquerdo cerrado.

O coro da universidade e um conjunto de batucada alegraram a jornada de “Homenagem ao Brasil camponês, operário, negro e popular” (sic), conforme a descrição oficial. Nos discursos, nenhuma menção foi feita ao mensalão, ao petrolão nem aos 13 milhões de desempregados. É compreensível.

Leitores irados inseriram comentários à notícia no site do jornal La Mañana Neuquén:

  • Que vergonha!
  • Presente de folgados para corruptos e ladrões. Da próxima vez para Maduro e Ortega!
  • No Equador, com bom senso, derrubaram a estátua de um corrupto. Aqui damos distinção a um outro?
  • Gastam verba homenageando um delinquente, corrupto e encarcerado?

Dezenas seguem no mesmo tom.

Dupla carreira política

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é todo dia que a gente vê homem político fazendo carreira em dois países, evento pra anotar em livro de história. É o que está pra acontecer com Monsieur Manuel Valls, o poliglota que está inscrevendo peculiar percurso político.

O pai dele, espanhol de Barcelona, emigrou para a França quando moço. Lá conheceu a moça com quem viria a se casar, uma suíça italiana. Trocadas as alianças, continuaram vivendo na França. Quando estava pra chegar o primeiro filho, o pai fez questão de que a criança, como ele, viesse ao mundo em Barcelona. Dito e feito, foram de férias à Espanha e lá nasceu o menino Manuel.

Manuel Valls, antigo primeiro-ministro da França

Logo de cara, o moço já tinha duas nacionalidades: a espanhola por parte de pai, e a suíça por parte de mãe. Cresceu na França, país do qual requereu a cidadania assim que completou 20 anos. Esse colecionador de nacionalidades teve ainda a chance de aprender quatro línguas na infância, idiomas que consegue manejar à perfeição: o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. Bagagem e tanto!

Jovem ainda, filiou-se ao Partido Socialista Francês e ingressou na política. Foi prefeito, deputado e até primeiro-ministro do país de adoção. Chegou a ser pré-candidato à presidência da república, mas não conseguiu vencer as primárias. Com a débâcle de seu partido estes últimos anos, o homem ficou à deriva, com um mandato de deputado mas sem perspectiva de ocupar postos importantes. É muito pouco pra político ambicioso.

Que não seja por isso. Já faz uns seis meses que ele está em campanha para a prefeitura de Barcelona, sua cidade natal. Na França, poucos acreditavam que desse o passo. Mas parece que Monsieur Valls ‒ agora Señor Valls ‒ está mesmo decidido. Se conseguir, será um dos raros espécimes políticos a ter feito carreira em dois países.

Para a Catalunha em geral e para Barcelona em particular, seria muito bom se o antigo primeiro-ministro francês vencesse a corrida para a prefeitura. Numa província em que o ódio corrói as relações entre independentistas e unionistas, é bem-vinda a presença de um prefeito aberto ao mundo e desprovido de visão sectária.

Sommerzeit

José Horta Manzano

Você sabia?

Já nos tempos da Primeira Guerra, o governo alemão teve a ideia de avançar os relógios durante o verão com o intuito de economizar energia. À época, o carvão movia a indústria e produzia eletricidade. Prevenir escassez era primordial.

Com altos e baixos, a ideia de instaurar a hora de verão se espalhou pelo planeta. Durante todo o século XX, numerosos países situados em regiões afastadas do Equador conheceram mudança de hora. Esporádica, a mudança valia por um ano, era cancelada no ano seguinte. E assim por diante, sem regularidade.

Nos anos 2000, o Parlamento Europeu decidiu oficializar e harmonizar a passagem anual à hora de verão. Desde então, a entrada em vigor se faz no último domingo de março e vai até o último domingo de outubro. Todos os países fazem a mudança no mesmo momento.

Estudos recentes, no entanto, têm revelado que os malefícios da mudança de hora são tão importantes ‒ se não maiores ‒ que os benefícios. A claridade que avança noite adentro perturba a produção de melatonina, o que retarda o adormecimento. A redução das horas de sono tende a aumentar a frequência de acidentes do trabalho e da circulação. As crianças, muito sensíveis ao fenômeno, apresentam problemas de concentração na escola.

Ao detectar o descontentamento, o Conselho Europeu botou no ar a mais importante consulta popular jamais lançada. Procurava conhecer a opinião dos cidadãos dos diversos países sobre a hora de verão. O resultado surpreendeu. Nada menos que 4,6 milhões de pessoas preencheram o questionário online. Dos participantes, 84% se declararam hostis à hora de verão. É maioria expressiva. Para reforçar o quadro, estudos indicam que a economia de energia assegurada pela hora de verão não chega a 0,5%. É coisa pouca.

Como no resto do mundo, a máquina administrativa da UE é um bocado lenta. Mas o assunto será apresentado ao Parlamento. Se o voto da maioria for parelho ao desejo dos que responderam ao questionário, a ab-rogação será pronunciada em breve. Não é impossível que, já em 2019, essa amolação termine.

Resta um detalhe a acertar: a escolha da hora definitiva. Guarda-se a hora de inverno ou a de verão? Ficou combinado que todos os países da UE terão de acatar a decisão do Parlamento. Se a hora de verão for revogada, todos terão de se conformar. No entanto, cada país será livre de escolher se guarda a hora de verão ou a de inverno.

Sabe-se que, no frigir dos ovos, os países se determinam com relação aos vizinhos mais importantes. Para facilitar as comunicações, os pequenos procuram se adaptar aos grandes. Portanto, tudo vai depender dos dois ou três maiores. França e Alemanha vão dar o tom: os vizinhos acompanharão.

Quem sabe esse movimento não inspira as autoridades brasileiras? Já está na hora de acabar com essa chateação de mudar de hora duas vezes por ano. Os ganhos são irrelevantes e os incômodos, significativos.

Sommerzeit = hora de verão (em alemão).

Candidatos: origem do sobrenome

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Antiguidade, não havia necessidade de sobrenome. Como vilarejos eram pequenos, o prenome bastava pra identificar cada membro da comunidade. Com o crescimento da população, na Idade Média, foi preciso acrescentar um especificador ao nome de batismo. A mudança foi gradativa e se fez sem método predeterminado. Os sobrenomes se classificam em cinco categorias principais.

1a) Patronímico
O prenome do patriarca serviu de sobrenome para a descendência. Alguns casos são bastante evidentes, como os ibéricos Péres/Perez (filhos de Pero), Álvares/Álvarez (filhos de Álvaro), Esteves/Estevez (filhos de Estêvão), Nunes (filhos de Nuno). Em território germânico, estão os Johnson/Jansen (filhos de John/Jan). Outros patronímicos saltam menos aos olhos.

2a) Toponímico
O nome de família tem relação com o lugar de origem do patriarca. Exemplos: Aguiar (lugar alto onde havia ninhos de águia), da Costa, do Monte, Napolitano, de Toledo, Ribeiro (da beira do rio), Castelo Branco (nome da cidade).

3a) Profissão ou ocupação
O ofício do patriarca acabou dando sobrenome à descendência. A profissão de ferreiro por exemplo, deu: Ferreira, Herrera, Fabbri, Lefèvre, Smith, Schmid, Kovac. Temos ainda: Pastor, Farina, Molino, Trigueiro. Poucos sobrenomes portugueses entram nesta categoria.

4a) Alcunha
Esta tendência é interessante e muito difundida. Famílias ficaram conhecidas por alguma característica física do patriarca ou pela alcunha dele. Calvo, Preto, Manso, Gago, Valente, Bravo.

5a) Nome religioso
Muitas famílias têm sobrenome relacionado com a religião. Exemplos: de Jesus, Assunção, São Marcos, dos Santos, Batista.

Analisei o sobrenome dos principais candidatos à Presidência. A origem de cada um deles está aqui abaixo.

Henrique Meirelles
Meirelles é toponímico. Deriva do município de Meira, na província de Lugo, Galiza, Espanha.

Álvaro Dias
Dias tem origem patronímica. Equivale ao Diez espanhol. Deriva do nome próprio Diago, variante de Diego, Tiago e Iago. Na Idade Média, quando foram adotados sobrenomes, o patriarca devia chamar-se Diago.

João Amoedo
Amoedo é toponímico de origem galega. É o nome de um distrito do município de Pazos de Borbén, na província de Pontevedra, Galiza, Espanha.

Jair Bolsonaro
Bolsonaro é topônimo. É transcrição errônea do original Bolzonaro. O patriarca deve ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza, Vêneto, Itália.

Guilherme Boulos
Boulos é patronímico. É a versão árabe de nosso nome próprio Paulo. A transcrição Boulos vale para a fonética francesa. Para ser pronunciado corretamente por nós, deveria ser grafado Bulos. Esse nome sugere que a família tem origem cristã.

Fernando Haddad
Haddad é nome de profissão. Em árabe, designa o ferreiro, uma das raras profissões da Idade Média, época em que o homem era faz-tudo, sem especialização. Este candidato é descendente longínquo de um artesão da forja.

Ciro Gomes
Gomes é sobrenome patronímico comum ao espanhol e ao português (Gómez/Gomes). A origem é o nome próprio Gome, difundido na Idade Média, hoje desaparecido. Gome pertence à mesma raiz do latim homo (=homem).

Marina Silva
Silva é o sobrenome mais difundido nos países de fala portuguesa. É considerado toponímico, derivado do latim silva (=selva, mato, bosque, floresta). No Brasil, sua difusão foi amplificada pelo fato de muitos ex-escravos o terem adotado como nome de família.

Geraldo Alckmin
Alckmin não tem origem clara. É forte a probabilidade que derive do árabe al-kimyia, que significa química e também alquimia. Se assim for, trata-se de nome ligado ao ofício do patriarca.

Que ventania!

José Horta Manzano

Você sabia?

Nossa língua ‒ como as demais ‒ dispõe de uma coleção de termos para designar fenômenos atmosféricos. Só pra dar nome à água que cai do céu, temos: chuva, tempestade, temporal, aguaceiro, borrasca, pé d’água, pancada, tormenta, chuvisco, garoa, chuvarada, intempérie. Há ainda outros termos menos conhecidos.

Estes dias, duas violentas tempestades estão deixando extensas regiões do globo de cabelo em pé. Uma delas atingiu a costa leste dos EUA enquanto a outra castigou as Filipinas. Talvez o distinto leitor tenha reparado que, quando se refere ao fenômeno que varreu a Carolina do Norte, a imprensa usa a palavra furacão, ao passo que chama a tormenta das Filipinas de tufão. Por que essa diferença? Os dois são fenômenos de mesma natureza, o que muda é apenas o nome.

Para vendavais que atingem o Caribe e a costa atlântica da América do Norte, dizemos furacão, palavra que nos chegou do taíno, uma língua indígena das Antilhas, através do espanhol huracán.

Para vendavais que remoinham nas costas chinesas e nos arredores, dizemos tufão, termo de origem controversa. Alguns etimologistas atribuem ao árabe e outros a uma voz chinesa. Há ainda quem aposte numa origem grega.

Além de furacão e tufão, outra palavra indica o mesmo fenômeno. Trata-se de ciclone, termo usado para descrever furacões que nascem nas Antilhas, atravessam o Oceano Atlântico e vêm morrer, já quase sem força, nas costas europeias.

Aquecimento global

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é voz corrente que na Europa faz frio. É verdade. Mas faz calor também, e muito. E tem piorado estes últimos tempos em virtude do aquecimento global.

Jakub Marian preparou um mapa mostrando a temperatura máxima já registrada em cada país. Está aqui.

Só para comparar, no dia mais quente jamais registrado no Brasil, os termômetros marcaram 44,7°. Aconteceu em Bom Jesus (PI) em 2005.

O aprendizado ‒ 3

José Horta Manzano

Você sabia?

Espera-se que todo profissional seja diplomado. Esse postulado é válido por toda parte para quem cursou ensino superior: médicos, engenheiros, filósofos, biólogos, geógrafos. Na Suíça, a coisa vai mais longe. Diplomas são conferidos a profissionais artesanais. Pedreiros, cozinheiros, eletricistas, azulejistas, vendedores de loja, criadores de moda, encanadores têm diploma.

A formação começa à altura dos 15 anos de idade. O jovem que não estiver disposto a encarar, depois de terminar a escola média, quatro ou cinco anos de estudos universitários, pode optar pelo sistema de aprendizado. Será contratado como aprendiz numa empresa que lhe ofereça a oportunidade de aprender a profissão escolhida.

O aprendizado dura geralmente três anos. Durante esse período, o jovem dividirá seu tempo entre o trabalho e a escola. Alguns dias por semana, permanecerá no emprego, onde aprenderá a prática da profissão. Nos demais dias, seguirá um curso para aprender a parte teórica.

Candidatos ao diploma de agricultor

Ao final, enfrentará um exame federal. Se for aprovado, receberá seu CFC ‒ Certificado Federal de Capacidade, que prova estar ele apto a exercer a profissão escolhida. É um trunfo inestimável, uma quase garantia de emprego para o resto da vida. Na hora de encontrar colocação, quem tem CFC passa à frente de quem não tiver.

Uma das formações possíveis é a de agricultor. A ouvidos brasileiros, pode parecer surpreendente, mas muitos jovens escolhem esse caminho. Ao final, todavia, enfrentam um problema: não encontram meio de exercer a profissão que escolheram.

Na Suíça, não existem grandes empresas agrícolas como no Brasil. As propriedades são pequenas e agricultura é assunto familiar. Se o jovem recém-formado for filho de agricultores, continuará a trabalhar com a propriedade dos pais quando eles se aposentarem. Se, no entanto, não for herdeiro de gente da terra, vai dar de cara com um problemão: como fazer pra comprar um sitiozinho?

A terra custa um dinheirão, e jovem não tem capacidade financeira pra obter financiamento bancário. Assim, quando um casal de agricultores chega à idade da aposentadoria sem herdeiros, a terra acaba sendo dividida e vendida aos agricultores vizinhos.

Desse modo, os recém-formados, apesar do diploma, ficam a ver navios. São os trabalhadores rurais sem terra à moda suíça.

Bit

Ricardo Soca (*)

É palavra espanhola? Não exatamente, mas algumas de suas acepções atuais remontam ao século 15, mais precisamente ao reinado de Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

É verdade que bit é palavra inglesa que se infiltrou em quase todas as línguas ‒ espanhol incluído ‒, na esteira do avanço tecnológico das últimas décadas do século 20, quando grande parte da humanidade passou a ter acesso à informática.

Os franceses, entrincheirados com louvável bravura na defesa do próprio idioma, forjaram octet ‒ octeto para denominar cada um dos conjuntos de oito elementos, uns e zeros, utilizados na codificação binária dos computadores. Em inglês, esse conjunto de oito elementos se chama byte, e cada uma de suas partes é um bit.

No entanto, o que poucos sabem é que o uso da palavra bit para designar cada elemento de um conjunto de oito provém de antiga moeda espanhola de prata, o real, criado em 1497 pelos Reis Católicos, quando uma reforma monetária se fez necessária para a Espanha recém-unificada.

O peso se dividia em oito reais (real de oito). Os povos de língua inglesa, mesmo rechaçando essa prática, mantiveram o costume de dividir a moeda em oito partes. Sua moeda principal, primeiro a libra e hoje o dólar, frequentemente era chamada eight bits ‒ oito pedaços, ou também piece of eight ‒ moeda de oito.

Até hoje, em zonas rurais e pequenas cidades dos EUA, a moeda de 25 centavos (quarter) se chama two-bits ‒ dois pedaços de oito, relíquia do velho dólar inspirado no real de oito. A explicação de que o uso da palavra bit en informática provém de binary digit foi engendrada, portanto, vários séculos depois que bit designasse pela primeira vez cada unidade de um conjunto de oito.

(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e jornalista. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução do texto acima, descompromissada, é deste blogueiro.

Olimpíadas camponesas

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, quando a vida era ritmada pelos trabalhos do campo, a colheita era o ponto culminante. Por essa ocasião, em sinal de regozijo, organizavam-se jogos e festas, com danças, comes e bebes.

Com o inchaço das cidades e o correspondente esvaziamento do campo, as festas de antanho perduram, mas com outro significado. Não mais representam o júbilo do camponês cujo trabalho foi coroado com uma boa colheita. São agora atração turística desconectada do sentido antigo, mas sempre animadas.

Saint-Oyens

Em matéria de jogos e festas, a imaginação humana não tem limites. Dependendo do lugar, há corrida de caramujos, batalha de tomates, combate de lanceiros montados, concurso de danças e trajes típicos ‒ de tudo um pouco.

Nas regiões montanhosas da Suíça, os invernos são longos e rudes. Seis meses por ano, quando não há pasto, o gado vive confinado no estábulo. Nesse período, é alimentado com palha colhida no fim do verão, posta a secar e armazenada em fardos. Conservado ao abrigo da umidade, esse feno vai garantir o sustento dos animais até a volta da primavera.

O povoado de Saint-Oyens (366 habitantes) é pobre. Suas poucas dezenas de cabeças de gado leiteiro são alimentadas, no inverno, com palha colhida no fim do verão. O vilarejo guarda uma tradição peculiar: os jogos que celebram a colheita utilizam fardos de palha seca.

Esporte camponês

Escolhe-se um fardo de exatos 15kg. A competição consiste em lançá-lo o mais longe possível. Um certo Sébastien Debonneville detém o recorde absoluto, imbatido há diversos anos: 7 metros ‒ um prodígio!

O concurso, cuja recompensa única são os aplausos do público presente, é aberto a todos. Nos primeiros minutos, só os habitantes do povoado se arriscam. Passado o primeiro susto, vêm os primeiros goles de vinho brando e os forasteiros vão se desinibindo.

Este ano, o concorrente que atirou mais longe o fardo de feno alcançou 6 metros, bem longe do recorde. Se o distinto leitor quiser se candidatar, é só passar, que é bem-vindo. Não precisa se inscrever. Não precisa de endereço, que o vilarejo é pequeno. Basta procurar no google.

Shanghai Ranking

José Horta Manzano

A Academic Ranking of World Universities (Shanghai Ranking), entidade chinesa especializada em avaliar universidades, publicou sua classificação 2018.

Segundo ela, 6 universidades brasileiras aparecem entre as 500 melhores do planeta. São elas: a Universidade de São Paulo, a Federal do Rio de Janeiro, a Unesp, a Unicamp, a Federal de Minas Gerais e a Federal do Rio Grande do Sul.

Pode parecer pouco, mas não está tão mal assim, que a concorrência é forte. Países conhecidos pelo ensino de qualidade não fazem muito melhor. Só pra comparar, a França conta com 18 universidades entre as 500 melhores. A Espanha tem apenas 10.

Das 20 primeiras, 16 são americanas, 3 são britânicas e uma é suíça.

Baby governor

José Horta Manzano

Você sabia?

Em novembro deste ano, os americanos vão às urnas para o que chamam “midterm elections”, as eleições que ocorrem no meio do mandato presidencial. Como grande parte dos Estados americanos, Vermont escolherá novo governador. Com meia dúzia de postulantes já declarados, a campanha começa a ferver.

Entre os candidatos, está um sorridente cidadão chamado Ethan Sonneborn, que concorre pelo Partido Democrata. Demonstrando visão abrangente da sociedade, o moço tem mente aberta. Declara-se «forte aliado» da comunidade LGBT. Dá mostra de especial sensibilidade para tudo o que tange à ecologia e ao desenvolvimento sustentável. Aprova também a cobertura universal de saúde, questão crucial e ainda não resolvida naquele país.

Consultei o programa do candidato. Sem descer a minúcias, o documento fixa os pontos cardeais da linha de ação que pretende seguir. Se eleito, naturalmente. Sem ser especialista em previsão eleitoral, sinto que Mr. Sonneborn não tem grande chance de vencer a eleição. Não tanto pelo programa, que, embora bastante progressista para os padrões americanos, não chega a ser chocante. O buraco é mais embaixo.

De fato, Ethan tem apenas… 14 anos de idade. Por uma curiosa brecha na legislação, um cidadão de 14 anos ainda não pode votar em Vermont, mas pode ser eleito. O legislador se esqueceu de fixar idade mínima para candidatos. Não se tem notícia de caso anterior, mas era tempo de aparecer o primeiro.

Fosse no Brasil ‒ que já elegeu Tiririca, Enéas, Clodovil & companhia pitoresca ‒, o garoto teria boas chances de chegar lá. Tem gente que acha engraçado brincar com coisa séria. Felizmente, nossa legislação estabeleceu idade mínima. Dessa, escapamos. Já temos bizarria suficiente no panorama político nacional.

Turistas estrangeiros

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a contagem ficou pronta, o Ministério do Turismo, orgulhoso, anunciou: “Em 2017, o Brasil recebeu a visita de 6,5 milhões de turistas!”. Dito assim, parece número respeitável. Analisando mais a fundo, a realidade é menos deslumbrante.

Crédito: jakubmarian.com

Aqui acima mostro um mapa da Europa com o número (em milhões) de turistas estrangeiros recebido por cada país. A França continua imbatível no primeiríssimo lugar, com quase 83 milhões de visitantes ‒ melhor até que os EUA. A Espanha e a Itália sobressaem. No geral, com exceção de pequenas nações do leste europeu, todos se saem bem.

Crédito: jakubmarian.com

Vejam agora este outro mapa. Ele compara os turistas recebidos com a população do país. A França, por exemplo, recebeu 120 estrangeiros para cada 100 habitantes, enquanto a Inglaterra foi visitada por 50 estrangeiros por 100 habitantes. A Turquia está em boa posição, com 40 chegadas por 100 turcos. A Rússia tem melhorado estes últimos anos: já recebe 20 turistas para cada 100 russos.

E o Brasil, como é que fica nessa conta? Depois de multiplicar, dividir e tirar os noves fora, chega-se ao resultado. Nosso país recebe apenas 3 visitantes para cada 100 brasileiros. Magrinho, não? É malogro que, na Europa, só a pequenina, distante e esquecida Moldávia consegue alcançar.

Se quiser justificar sua existência, o Ministério do Turismo ainda tem trabalho espinhoso pela frente.

Filho illegitimo

José Horta Manzano

Você sabia?

O elevador é boa imagem para exprimir a ascensão social. A metáfora é muito usada na França, onde, volta e meia, surge a figura do elevador social. Não me refiro àquele que, em certos edifícios, é reservado para uso de não funcionários. Falo de um imaginário veículo que permite subir na vida.

Certos países são conhecidos por facilitar a ascensão. Nos EUA, por exemplo, é comum topar com indivíduos que saíram do nada e chegaram a posição de destaque ou à riqueza. Por um lado, os que seguiram esse caminho se orgulham de havê-lo feito; por outro, são admirados e aplaudidos pelos concidadãos.

Sem ser propriamente paralisada, a sociedade brasileira não está entre as que mais favorecem a mobilidade social. Via de regra, ascensão, quando há, é lenta e complicada. Quando algum cidadão galga os degraus de quatro em quatro ‒ caso excepcional ‒ periga ser olhado de banda. Todos vão desconfiar que ele andou tomando atalho proibido.

A herança ibérica, o catolicismo forjado na Inquisição, o escravagismo, o prolongado estatuto colonial são fatores que moldaram o Brasil atual. Não se sai facilmente de trezentos anos de regime escravista. O Treze de Maio liberou escravos que, em razão da Lei do Ventre Livre, estariam de qualquer maneira livres a médio prazo. Liberou escravos mas não liberou mentes. A estratificação de nossa sociedade continua firme e forte como nos tempos de antigamente.

Certidão de nascimento de 1914: menção da legitimidade da criança
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Um nadinha basta pra tascar um carimbo na testa de cada indivíduo. Um sotaque mais carregado, uma tez mais cerrada, um nome que escape ao molde, um vestir menos apurado ‒ qualquer sinal de desvio do padrão será punido com a exclusão. Estão aí as políticas de quota como prova definitiva de que nosso elevador social, mais que enguiçado, anda travado.

E olhe que hoje em dia já estamos bem melhor do que algumas décadas atrás. A sociedade já foi mais amarrada. Os mais jovens talvez nem imaginem que, até a metade do século passado, certidão de nascimento mencionava se o cidadão era filho legítimo ou não. Legítimo era o que nascia de casal casado nos conformes. Se nascesse fora do casamento, ainda que o pai a reconhecesse, a criança seria registrada como ‘illegitima’. E carregava essa pecha pelo resto da vida, como marca de um pecado original, como defeito de fabricação. Pode?

Esse arcaísmo já caiu, assim como a criminalização do adultério. Mulheres já podem trabalhar fora de casa e sair à rua sozinhas. Com a legalização do divórcio, mulher separada já não é olhada com desdém. Mas o caminho ainda é longo. O elevador ainda vai continuar enguiçado por um tempo. Nossa herança é pesada.

Escolha seu candidato

José Horta Manzano

Você sabia?

Não sei se o distinto leitor já sabia. Quanto a mim, acabo de descobrir. Um apanhado de mais de vinte cabeças pensantes (e trabalhantes) se reuniu para dar uma mão ao eleitor brasileiro. Criaram um site ‒ politicos.org.br ‒ que avalia a atuação de senadores e deputados federais da legislatura atual.

Fazia tempo que eu matutava sobre o assunto. Como faço pra ficar por dentro da atuação de cada parlamentar? Entre senadores e deputados, são quase 600! Quando a gente só pode contar com o google, fica complicado, pra não dizer impossível.

O pessoal desse novo site faz o trabalho e entrega o prato pronto. Pra chegar à classificação final, levam em conta, entre outros pontos: a assiduidade de cada parlamentar, os gastos que faz por conta da viúva, os processos judiciais em que é réu, o voto que deu a cada lei, sua formação acadêmica, a frequência com que trocou de partido. Outros atos significativos de cada parlamentar podem também ser considerados.

Pontos positivos (ou negativos) são atribuídos. Na classificação atual, o parlamentar mais bem avaliado é doutor Lobbe Neto, deputado federal pelo PSDB/SP. Ele atinge a respeitável marca de 590 pontos. Na outra extremidade, o lanterninha é doutor Celso Jacob, deputado federal pelo MDB/RJ, autor da proeza de baixar a 1086 pontos negativos.

O site fornece ainda os dados pessoais de todos os parlamentares, incluindo data de nascimento, n° de CPF, formação acadêmica, endereço eletrônico. A classificação por quantidade de processos vai desde os que não respondem a nenhum até os que se encontram esmagados sob um calhamaço de acusações.

Com insistência, recomendo ao leitor que consulte o site antes de decidir. Ponha lá o nome de seu candidato e veja se o doutor (ou a doutora) merece realmente seu voto. Ah! E não se esqueça de espalhar a boa-nova. Vale a pena.

De novo a Coreia

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a Inglaterra sediou a Copa do Mundo, em 1966, os tempos eram outros. Estados Unidos e União Soviética se encaravam com ar feroz. Quanto aos demais países, cada um se alinhava com uma das potências. Em 1950, o norte da Coreia, alinhado com a URSS, havia invadido o sul, alinhado com os EUA. As superpotências guerrearam por procuração. O conflito armado só foi suspenso três anos depois, com a criação de uma zona desmilitarizada dividindo a península em duas zonas de influência. Foi o advento das duas Coreias, tais como as conhecemos.

Entre os 16 participantes da Copa de ’66, estava a Coreia do Norte, tão pobre e tão misteriosa quanto hoje. Sua participação dava dor de cabeça ao país organizador. Dado que a Inglaterra não reconhecia o regime de Pyongyang, tanto o hasteamento da bandeira daquele país como a execução do hino criavam problema. Depois de muita concertação, uma solução intermediária foi encontrada.

O hasteamento da bandeira era incontornável, pois não era concebível que uma delas fosse retirada enquanto as outras continuavam a ondular. A bandeira ficou. Quanto ao hino, ficou acertado que, com exceção do jogo de abertura e da partida final, não haveria execução de hino nenhum. O remendo atenuou o mal-estar causado pela presença do incômodo visitante.

Na fase de grupos, a Coreia do Norte amargou, dentro da lógica, um 3 x 0 da URSS. Em seguida, surpreendeu ao empatar com o Chile por 1 a 1. No terceiro jogo, enfrentou a poderosa Itália. Tranquilos, todos esperavam pela lavada que os orientais haviam de levar. O primeiro tempo já estava pra terminar, e nada de sair gol. Aquilo já estava ficando enervante. Eis senão quando, aos 40 minutos… os coreanos marcam! Estupor!

Ferida em seus brios, a Itália voltou do intervalo disposta a repor as coisas nos devidos lugares. Mas não houve jeito. Desorientados pela energia abnegada dos coreanos, os jogadores italianos tinham a impressão de que os orientais eram muito mais numerosos que os onze regulamentares. O tempo passou, o jogo terminou, e a Itália não marcou. Teve de engolir a derrota por 1 a 0. Os visitantes incômodos só seriam derrubados por Portugal, na partida seguinte.

Até hoje, passado meio século, os italianos comentam aquele momento ressentido como vergonha nacional. Tornaram-se a única grande equipe europeia a ter jamais sido batida pela Coreia em Copa do Mundo. Essa situação durou até ontem. A derrota concedida pela Alemanha neste 27 de junho de 2018 mudou o cenário. Doravante, alemães e italianos estão juntos. Guardarão a mesma lembrança constrangedora.

E passam as décadas

José Horta Manzano

Você sabia?

Muitos anos atrás, quando eu ainda não entendia do riscado, um costume suíço me parecia curioso. Quando um cidadão ‒ o mais das vezes, uma cidadã ‒ completa 99 anos de idade, é de praxe o prefeito fazer-lhe uma visita e levar um presente.

Dependendo da região, o regalo varia. Nos arredores de Lausanne, Genebra e Sion, o ancião recebe uma jarra de estanho que chamam channe. É recipiente típico pra servir vinho branco. Desconfio que a palavra channe, que desapareceu na França mas se conserva no falar suíço, possa ser parente de nossa caneca, que os etimólogos jogam no balaio comum dos termos de origem desconhecida.

Channe avec 3 gobelets (jarra com 3 copinhos)

No começo, não entendia por que entregavam o presente no 99° aniversário. Por que será que não esperavam o centésimo, cifra redonda? Talvez por receio de que a velhinha cansasse de esperar e se fosse? Um dia, entendi.

Com muita lógica, o suíço mede os anos de vida de modo ligeiramente diferente do nosso. Considera que, no dia em que nasce, a criança já entra no primeiro ano de vida. Vive esse primeiro ano inteiro e, doze meses mais tarde, completa-o. É quando a família se reúne pra cantar o Parabéns a você. Nesse dia, a criança entra no segundo ano de vida, ano que só estará completo doze meses depois.

E assim por diante. Portanto, no dia em que a velhinha completa 99 anos de vida, entra no centésimo ano. É justamente o fato de ter chegado a esse ano simbólico que dá lugar à cerimônia de entrega do presente.

É interessante que os alemães usam a mesma lógica pra dizer as horas. Têm em mente que, no instante em que os ponteiros se cruzam pra marcar meia-noite, entra-se na primeira hora, que só será completada 60 minutos depois. E assim por diante.

Artigo Estadão, 18 jun 2018
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Pra dizer as horas, o alemão leva em conta essa realidade. Às 7h15, ele dirá que já se passaram 15 minutos da oitava hora. Às 7h30, já se terão passado 30 minutos da oitava hora. É como ele dirá: halb acht (metade de oito), ou seja, metade da oitava hora.

O mesmo vale para as décadas vividas. Ao nascer, o bebê entra de cara na primeira década de existência. Ao completar dez anos de idade, a criança entra direto na segunda década. E assim por diante.

O Estadão publicou, estes dias, artigo interessante sobre os problemas de voz que castigam antigos ídolos da canção ligeira de meio século atrás. Todos sentem o peso dos anos. O curioso é que a reportagem informa que os cantores vivem «sua sétima década de vida». O autor bobeou. Setentões, os antigos ídolos estão vivendo a oitava década de vida.

Pode até assustar, mas assim é.

Bebeu, pagou

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, o sentimento de cidadania é palpável. Desde a infância, todos aprendem que pertencem a uma comunidade e que devem seguir as regras indispensáveis para conviver em harmonia. Diferentemente do que ocorre no Brasil, as leis se aplicam a todos os cidadãos, sem exceção nenhuma. Particularidades como cela especial ou foro privilegiado são inconcebíveis para um suíço.

Como em todo o mundo, os jovens às vezes se excedem. Em bares ou festas, especialmente em fins de semana, alguns exageram na bebida e acabam dando trabalho. As delegacias de polícia do país têm uma cela reservada para esse tipo de ocorrência. É chamada «cela para recuperar a sobriedade».

Toda pessoa encaminhada a essa cela permanece lá até voltar ao estado normal. Ao sair, receberá conta cujo valor pode variar conforme o cantão. Em Genebra, são 300 francos suíços (R$ 1100). O cálculo corresponde a uma hora de trabalho de dois policiais. O raciocínio é que o contribuinte não deve arcar com o custo de comportamentos problemáticos. O pagamento da despesa cabe a quem causou o problema ‒ uma lógica aceita por todos.

Em casos extremos, se o comportamento escandaloso daquele que bebeu demais tiver causado incômodo a moradores ou transeuntes, ele receberá multa de 300 francos por perturbação da ordem e da tranquilidade.

Como no Brasil, a polícia faz batidas pra medir a taxa de alcoolemia de motoristas. Costuma parar veículos aleatoriamente e mandar o condutor soprar no bafômetro. Se o teste der negativo, é «merci et au revoir» ‒ obrigado e até logo. Já se der positivo, é apreensão da carteira, imobilização do veículo e multa pesada. Com uma peculiaridade: além da multa, o motorista imprudente terá de pagar a despesa do teste de bafômetro. O preço é 100 francos (R$ 370).

Mais vale pensar duas vezes antes do primeiro trago.

Tapis rouge

José Horta Manzano

Você sabia?

O tapete vermelho que recobre as escadarias do Palais des Festivals de Cannes durante o festival de cinema é trocado três vezes por dia!

A presidência do júri da 71a. edição, que vai de 8 a 19 de maio deste ano, será confiada à atriz australiana Cate Blanchett.

Yes, nós temos bananas!

José Horta Manzano

Você sabia?

A banana é, de longe, a fruta mais consumida no planeta. Em 2016, foram produzidas mais de 120 milhões de toneladas, uma enormidade. Fruta do pobre por excelência, está presente em todas as refeições de países da África Negra, onde o consumo por habitante atinge 200kg/ano ‒ um volume significativo. Os pratos da culinária africana costumam levar banana entre os ingredientes.

O Equador é o primeiro produtor, bem à frente dos demais. Supre um quarto do consumo mundial. O Brasil é grande produtor, mas praticamente não exporta. A razão é o persistente e incompreensível «custo Brasil». Empecilhos de logística aliados a lenta burocracia e pesada tributação fazem que a banana brasileira chegue ao porto com preço mais elevado que a dos demais exportadores.

Estes dias tornou-se público um acordo firmado em 2014 ‒ durante a gestão da doutora Dilma Rousseff ‒ entre o Brasil e o Equador. O pacto estipula que o Equador abrirá as portas para a importação de calçados brasileiros. Em contrapartida, o Brasil se compromete a liberar a importação de… bananas do Equador. Parece primeiro de abril, não? O Brasil importando banana!

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro lançaram, pela voz de Almirante, a marchinha «Yes, nós temos bananas!», sucesso no carnaval daquele ano. A música era paródia de uma divertida canção americana de 1923.

Que o Brasil não apareça entre os grandes exportadores de banana já é surpreendente. Dá pena ver que há condições, o clima ajuda, a terra está aí à vontade, mas a burocracia trava tudo ‒ uma lástima!

Agora, importar banana do Equador? Como é que é? Pois a marchinha não dizia que «temos bananas pra dar e vender»? O que é que aconteceu de lá pra cá? Parece que descemos ao ponto de não dar mais conta de produzir bananas para o mercado interno. Aonde vamos parar?

Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Dez anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades de vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
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Ao comemorar dez anos de existência, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.