O terremoto

Correio Paulistano, sabbado 28 jan° 1922

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil de antigamente, parece que a vida escorria mais lenta. Há razões objetivas para isso.

  • O clima era mais ameno. Não fazia calor como hoje. Basta conferir os registros meteorológicos.
  • As distâncias eram menores – refiro-me às que se percorriam habitualmente, de casa ao trabalho e vice-versa.
  • Havia menos gente. (Basta dar uma olhada na Wikipedia pra se inteirar do desenfreado crescimento populacional de vilas e cidades.)

Há também razões subjetivas.

  • Sem internet e sem telefone celular, o indivíduo não sentia a afobação de ter de estar ligado e antenado o tempo todo. A vida corria mais ‘relax’.
  • Sem a torrente de informação que nos invade atualmente, havia espaço para uns minutos de prosa com um conhecido, quando de encontro casual – sempre havia alguma novidade a contar (ou a ficar sabendo).

Este blogueiro tem especial prazer em dar uma espiada em jornais antigos. Uma leitura atenta da imprensa nos ensina muito sobre os costumes de cada época.

Este 28 de janeiro, faz exatamente 100 anos que os jornais comentaram o incrível acontecimento: a terra tremeu numa vasta região compreendendo grande parte do estado de São Paulo, o Rio de Janeiro e o sul de Minas. O raríssimo fenômeno acordou a população às 3h50 da madrugada do dia 27 de janeiro de 1922.

A linguagem pitoresca da época acrescenta uma nota poética aos acontecimentos. No Correio Paulistano, o subtítulo já informa que “A cidade despertou sobresaltada (sic)”. E continua: “o phenomeno foi observado em quasi todo o Estado de S. Paulo, em Minas e no Rio de Janeiro”. Em seguida, vem a notícia. Começa assim:

“Hontem, ás 3 horas e 50 minutos, S. Paulo presenciou um terremoto. Os que, por dever de officio ou inveterados habitos de noctivago, estavam acordados áquella hora tiveram opportunidade de assistir a um espectaculo bem raro e bem difficil de ser apreciado tão cedo neste privilegiado torrão da nossa terra immunizado pelas suas condições geologicas e geographicas contra todas as calamidades sismicas, tão frequentes em outros paises.”

Com um linguajar assim, o desabamento de alguns telhados fica até simpático. O sismo não deixou vítimas mortais, com exceção de um cidadão que, na linguagem da época, “morreu de susto”. (Há de ter tido o que hoje se descreveria como infarto ou parada cardíaca.)

Houve um outro cidadão que, assonado e assustado, achou que gatunos estivessem assaltando a casa. Catou a a garrucha e saiu atirando a esmo.

O presidente do estado, hoje chamado governador, tomou o estrondo por estampidos de arma de fogo, e imaginou que tivesse estourado uma revolução. É que revoluções eram corriqueiras à época. Os revoltosos atiravam de verdade e costumavam visar o palácio do governo. Hoje revoluções não passam de papo de internet. Quando os ‘revoltosos’ miram um prédio oficial, não é mais o palácio do governo, mas o STF. E as armas são fogos de artifício. Francamente, não se fazem mais revoluções como antigamente.

Um senhor, bastante assombrado, relatou ao repórter do Correio Paulistano que, sempre que morria alguma pessoa na família, ele recebia aviso de um espírito. Tendo sentido o tremendo abalo, saiu correndo de madrugada em direção ao telegrapho para pedir notícias dos seus.

Os boatos mais estapafúrdios correram pela capital paulista. Que haviam desabado casas e igrejas, que estátuas haviam despencado de fachadas, que havia mortos nos baixios do bairro do Brás. Nada disso se confirmou.

De manhã bem cedo, assim que o dia clareou, viram-se famílias inteiras a passear pela Rua Direita, felizes de constatar que as casas continuavam de pé e que não tinha ocorrido nenhuma catástrofe.

Consta que o último terremoto de que se tinha notícia havia ocorrido nos anos 1500, nos tempos do Padre Anchieta. Se o intervalo entre dois sismos for de 400 anos, não temos nada a temer. Daqui até o próximo, os tataranetos de nossos tataranetos já terão deixado este vale de lágrimas.

Caminhão elétrico

José Horta Manzano

Você sabia?

Para preparar este artigo, tive de mergulhar no mundo do transporte por caminhão. Mergulhar não é o melhor termo; só molhei a pontinha do pé. É que eu precisava conhecer o nome em português de um determinado tipo de caminhão conhecido aqui como semi-remorque.

Para leigos, caminhão é caminhão, tudo a mesma coisa. Mas não é assim tão simples. Aprendi que o mundo dos caminhões se subdivide em dois grandes ramos: o caminhão propriamente dito e a carreta. O caminhão é um veículo fixo, feito de um bloco só. Já a carreta é articulada, com o cavalo mecânico na frente e o semirreboque atrás.

Talvez o distinto leitor já soubesse dessas minúcias. Quanto a mim, acabo de aprender.

Nota
Muitos escrevem semi-reboque, que leva jeito de ser mais correto. No entanto, a ortografia oficial manda grudar tudo e, ainda por cima, acrescentar um R no meio: semirreboque. Fica esquisito, mas é assim. É como semirreta, semirrei, semirrígido, semirrústico, semirrisonho. Um espanto.

A Suíça acaba de fabricar o maior caminhão do mundo movido a eletricidade. Na verdade, é uma carreta, um veículo articulado, com cabine + plataforma (ver imagem). O cavalo mecânico (cabine) tem dois eixos e o semirreboque tem mais três. O mastodonte é capaz de levar até 40 toneladas de carga. Vazio, tem autonomia de 900 km; carregado, roda até 500 km sem recarregar as baterias de lítio.

Esse primeiro modelo saiu em dois exemplares, que tiveram até direito a uma cerimônia especial realizada no Museu dos Transportes de Lucerna. A parte mecânica, qualquer um sabe construir. O grande feito tecnológico está nas quatro baterias de lítio de mais de uma tonelada cada uma. O veículo roda em silêncio quase total. Quando ele passa, ouve-se um leve zumbido, semelhante ao de um patinete elétrico.

A proeza, inimaginável até um ano atrás, se insere na onda mundial da transição energética. A queima de combustíveis fósseis vai sendo rapidamente abandonada em prol de outros meios, renováveis e sustentáveis. As crianças que nascerem daqui a 20 anos, se quiserem conhecer um veículo de motor a explosão, terão de ir ao museu.

Agrotóxicos

Os europeus parecem estar mais preocupados do que os brasileiros, os mais afetados

 

José Horta Manzano

Você sabia?

Leis e regulamentos são, muitas vezes, hipócritas. A maioria dos países europeus proíbe a utilização de dezenas de agrotóxicos, aqueles da pesada. Já os regulamentos de exportação desses mesmos países são bem mais condescendentes quando se trata de exportar os ditos venenos. Em resumo: fabricar e exportar pode; espalhar em solo europeu, nem pensar!

A indústria mundial de fertilizantes, integrada por firmas da estatura econômica de uma Syngenta ou de uma Bayer, é poderosíssima. Se as leis europeias parecem contraditórias (pode fabricar, mas não pode utilizar), ponha-se o milagre na conta dos ativíssimos lobbies financiados pelos fabricantes.

Assim como agem para conseguir manter a fabricação em solo europeu, filiais desses mesmos lobbies agem em países mais atrasados, para que o uso de pesticidas perigosos continue permitida. Se esses produtos são proibidos na Europa, não é por capricho de legisladores. É porque estudos demonstraram sua nocividade.

Nessa prateleira de venenos, há os cancerígenos, os que matam abelhas, os que acabam com os peixes. E todos eles terminam, pelo menos em parte, nos leçóis freáticos, contaminando a água que os humanos vão beber amanhã.

Quando as rédeas do país estão entregues ao clã do Bolsonaro, então, ai, meu Deus! Deve ter um bocado de gente ganhando comissões polpudas pra garantir que continue autorizada a importação de venenos agrícolas. “O povão que se lixe” – devem dizer – “meu croissant chega todos os dias fresquinho de Paris”.

É interessante saber que o Brasil é o segundo maior importador mundial de agrotóxicos, incluindo os que estão proibidos na Europa. Em 2018, importou 10 mil toneladas. Em 2019, foram 12 mil toneladas. Não disponho de dados mais recentes, mas é permitido desconfiar que, com a chegada do capitão ao Planalto e as autorizações que tem concedido para uso desse tipo de veneno, devam ter aumentado muito.

Mas o mundo dá voltas. Os netos do capitão ainda hão de amaldiçoar o avô, quando descobrirem que a polinização desapareceu por falta de abelhas, e que não se pode mais tomar água por estar contaminada. Mas aí será tarde. O chato é que será tarde para nossos netos também.

Mas tem remédio. Quando a coisa chegar a esse ponto, basta parar de utilizar os venenos. E aguardar umas poucas centenas de anos. A natureza sempre acaba por se regenerar. Passa logo.

Quem inventou a baguete?

José Horta Manzano

Você sabia?

Aquele pão comprido, crocante e de pouco miolo, que os franceses chamam “baguette” (baguete), está tão ligado ao patrimônio cultural da França, que a gente imagina que deva ser tradição antiga, velha de muitos séculos. Engano. A baguete é criação relativamente recente. As primeiras foram assadas faz 100 anos.

A baguete nasceu com o inchaço das cidades, que se verificou a partir do fim do século 19. A multiplicação das indústrias, geralmente localizadas na periferia das cidades maiores, fez surgir uma nova casta de cidadãos enriquecidos: os donos das fábricas.

Essa classe de novos-ricos já não se satisfazia com o pão tal como era feito tradicionalmente, em formato redondo, denso, cada bolota pesando de um quilo e meio a dois quilos. Durava uma semana, mas perdia o viço, amolecia por fora e secava por dentro. Já que tinham dinheiro e podiam pagar, os membros das classes urbanas enricadas queriam pão fresco e crocante no almoço e, de novo, no jantar.(*)

Uma lei de 1919, querendo proteger os padeiros, proibiu o trabalho noturno na profissão. Ora, o pão sempre foi amassado durante a noite e assado de madrugada para ser posto à venda de manhã logo cedo. Além disso, a panificação era tradicionalmente feita com fermento natural – que dá sabor especial ao pão, mas demanda trabalho e muita paciência.

Para resolver o problema, os padeiros parisienses decidiram abandonar o fermento natural e substitui-lo pelo fermento que conhecemos como biológico (ou Fleischmann), aquele de tabletinho que se guarda na geladeira, ou que também se encontra granulado, em sachê. O gosto e a textura do produto final mudavam bastante; em compensação a crosta ficava mais crocante, e o principal: a preparação era bem mais rápida e dispensava o trabalho noturno.

Para diminuir ainda mais o tempo de cozimento, a forma (ó) redonda foi abandonada e deu lugar ao formato comprido que conhecemos. O sucesso foi imediato.

Só que os tempos eram duros. Não é qualquer francês que podia se dar ao luxo de comprar pão duas vezes por dia. As classes menos favorecidas continuaram privilegiando o tradicional pão redondo, pesadão e de tamanho familiar.

Foi preciso esperar que o tempo passasse. Em 1945, terminada a guerra, a produção foi se regularizando e o racionamento de gêneros alimentícios foi pouco a pouco desaparecendo. Só então a baguete ganhou impulso, se popularizou e se espalhou pela França inteira.

No Brasil da minha infância, não se usava o termo baguete – isso é novidade das últimas décadas. A gente dizia “um filão” para designar um pão comprido, porém de diâmetro mais gordo. E “uma bengala” pra indicar aquele mais fininho. Não sei se alguém ainda fala assim.

(*) Até hoje, boa parte das famílias francesas não come, no jantar, o pão do almoço. Compram duas vezes por dia. Quem vive em cidade, vai até a padaria. Quem vive em vilarejo, compra do padeiro itinerante, que passa duas vezes por dia. Famílias pequenas compram meia baguete ao meio-dia e, de novo, meia baguette ao entardecer. Curioso costume, não?

Pandeiro e bandolim

José Horta Manzano

Você sabia?

O que é que pandeiro e bandolim têm em comum? São instrumentos que tocam juntos em certos conjuntos regionais. É verdade, mas não é só. A intimidade entre os dois é mais antiga e mais profunda. Vamos ver.

Você já ouviu falar em Assurbanípal ou em Semíramis? Se não ouviu, não tem a menor importância. O nome deles só aparece aqui pra impressionar. São personagens históricos que viveram no Império Assírio, civilização que começou a se desenvolver 5 mil anos atrás, no tempo em que os bichos falavam. No auge de sua expansão, a nação assíria cobria partes do território do Iraque, da Turquia, da Síria e do Irã atuais. O povo falava uma língua do grupo semítico, família representada hoje pelo hebreu e pelo árabe.

Num trabalho de paciência, os linguistas conseguem identificar aqui e ali, nas línguas que falamos atualmente, palavras de origem assíria. Dado que não subsistiram documentos escritos, nem sempre é possível afirmar com certeza.

Estudiosos acreditam que a palavra latina pandura, tomada emprestada do grego, vem da língua assíria. Na antiguidade, designava um instrumento de corda, espécie de alaúde, antepassado do violino e do violão atuais. Tanto o instrumento como a palavra evoluíram.

De pandura, o nome passou por pandore e mandore pra desembocar em mandola (ó). Na Itália, uma mandola de pequenas dimensões chamava-se mandolino. A mandola, instrumento pouco sonoro, desapareceu faz tempo. Mas o mandolino ficou e seu nome deu origem – vocês já adivinharam – ao nosso bandolim.

Como curiosidade, note-se que nossos dicionários ainda hoje trazem a palavra bandurra, a significar antigo instrumento de cordas espanhol. Na origem desse nome, não é difícil identificar a pandura grega.

E o que tem o pandeiro a ver com isso? Joan Corominas, o mais conceituado etimologista das línguas ibéricas (castelhano, português e catalão), dá nosso pandeiro como descendente do pandero castelhano, que, por sua vez, vem do latim pandura. E o círculo se fecha.

O distinto leitor há de se perguntar como é possível que a mesma palavra (pandura) tenha se bifurcado para designar ao mesmo tempo dois instrumentos tão diferentes como o pandeiro e o bandolim. Eu também fico surpreso, mas assim é.

Como confirmação dessas voltas que a língua dá, o Houaiss ensina que a origem de nosso tambor é o étimo árabe at-tanbúr. Acontece que, no original, a expressão at-tanbúr significa guitarra.

Para nós, do século 21, é impossível confundir tambor com guitarra ou pandeiro com bandolim. Para os antigos, parece que a individualidade dos instrumentos não era assim tão importante. Todos eram válidos desde que tocassem.

Vinho de enchente

José Horta Manzano

Você sabia?

As inundações que castigaram o noroeste da Alemanha no mês passado destruíram boa parte do vinhedo de Ahr, grande região produtora de vinho tinto. Não só as vinhas foram destruídas, mas a enchente, ao engolfar vilas e vilarejos, levou gente, casas e deixou porões debaixo d’água.

Com a baixa das águas, os sobreviventes descobriram um espetáculo de desolação. Móveis, utensílios e objetos pessoais estão perdidos. Mas os porões conservavam boa reserva de garrafas de vinho intactas, ainda estocadas nas prateleiras onde sempre estiveram. Com um detalhe: estão todas sujas de lodo e de barro seco.

Chamados para examinar, laboratórios deram o veredicto: o barro não é tóxico. Portanto o conteúdo das garrafas não está contaminado. O conteúdo está perfeitamente consumível, já que a sujeira se limita à parte externa.

O primeiro impulso foi de limpar as garrafas. Mas alguém teve a ideia de guardá-las tal como estão e fazer uma venda especial em favor dos vinhateiros da região. É bom exemplo do ditado “fazer das tripas coração”. Os vinhos dessa “safra” levam todos o nome de Flutwein – vinho de enchente”(*).

Organizou-se uma espécie de “ação de crowdfunding”, em que cada comprador contribui para ajudar financeiramente os pequenos produtores a se levantarem do baque que os derrubou. Quem contribuir leva de brinde uma garrafa – ou mais de uma, conforme o valor da doação. O preço das garrafas varia de 10 a 500 euros, dependendo da qualidade e da raridade do conteúdo.

Quem se habilitar, que entre em contacto com a União dos Pequenos Vinhateiros da Região de Ahr. Dado que a catástrofe despertou forte sentimento de solidariedade no país inteiro, não garanto que ainda sobrem garrafas. De todo modo, o estoque era limitado.

(*) Flutwein é termo composto de Flut (enchente) + Wein (vinho). Reparem que Flut é cognato do inglês flood, de mesmo significado.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.

Quanto recebe um medalhado olímpico?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz só uma semana que se encerraram os Jogos Olímpicos de Tóquio, mas parece que faz um tempão. É que eventos marcantes arrebatam a atenção no momento em que ocorrem mas, assim que acabam, desaparecem da memória cansada.

Estive colecionando dados sobre o prêmio em dinheiro que cada comitê nacional destinou a seus campeões. Não foi fácil. Tive de catar um aqui, outro ali, que cada um fala do seu sem se preocupar muito com os demais.

As conclusões são interessantes, inesperadas e, às vezes, surpreendentes. Os montantes dados pelos países a seus atletas variam muito. Vão desde Singapura e Taiwan – generosíssimos – até países extremamente sovinas como a Grã-Bretanha e a Suécia.

Um singapuriano ou um taiwanês medalhado com ouro ganhou um amortecedor confortável para o resto de seus dias: voltou para casa com 3.800.000 reais no bolso. Além disso, os taiwaneses, ainda que não tenham conseguido o pódio mas tenham chegado, por exemplo, em 7° ou 8° lugar na prova final, foram premiados em dinheiro.

Para Singapura, a vistosa política até que saiu em conta, visto que o país não conseguiu nenhuma medalha. Já para o comitê taiwanês, a conta saiu salgada: seus atletas ganharam 12 medalhas, sendo 2 de ouro.

Nos esportes individuais, o Brasil pagou 250 mil reais a cada atleta dourado, 150 mil aos prateados e 100 mil aos de bronze. Os prêmios oferecidos por nosso país se encaixam na média dos vizinhos latino-americanos. Para o ouro, a Colômbia dá 300 mil reais, o Peru oferece 316 mil, o Chile presenteia com 289 mil. Mais generosa que o Brasil, a Bolívia propõe 262.500 reais a todo boliviano que chegue ao ouro; assim mesmo, nunca obtiveram nenhuma medalha.

Os comitês olímpicos de Hong Kong e da Indonésia também tiveram de levar a mão ao bolso pra pagar os prêmios prometidos. A Indonésia tinha oferecido 1.800.000 reais por ouro; seus atletas levaram um total de 5 medalhas, sendo uma de ouro. O mesmo aconteceu com Hong Kong. Um feliz vencedor “dourou” e embolsou a fabulosa soma de 3.400.000 reais por sua medalha; outros 5 colegas receberam prêmios menores com suas pratas e seus bronzes.

O paupérrimo Bangladesh propôs um megaprêmio de quase 1.600.000 reais por medalha dourada e um pouco menos para as prateadas e bronzeadas. Mas o risco de empobrecer era pequeno, visto nunca ter ganhado medalha antes. E não foi desta vez que ganhou.

A Estônia, país de espírito previdente, não dá prêmio tipo mega-sena. Talvez para evitar que o jovem, de cabeça avoada, jogue o dinheiro pela janela, faz proposta diferente. Os campeões passam a receber imediatamente uma pensão anual vitalícia de 4.600 euros, que será complementada por uma ajuda especial assim que chegarem aos 65 anos, a idade da aposentadoria.

A Polônia segue caminho semelhante, com um acréscimo generoso. Seus atletas dourados recebem, logo de cara, um prêmio de 310 mil reais. Bem mais tarde, quando chegarem ao 40° ano de vida, passarão a receber uma renda livre de impostos equivalente a 60% do salário médio nacional. Todos os meses, até o fim da vida! Atenção: não é o salário mínimo, mas o salário médio do país. Nada mal, não?

No fim da lista, estão os países de espírito pão-duro, aqueles que julgam que os atletas, treinados e financiados durante anos com o dinheiro dos contribuintes, não fazem mais que a obrigação quando vencem competições. Os jovens estarão assim devolvendo uma parte do que receberam. Sem dúvida, é uma maneira de enxergar o funcionamento da sociedade. Bem diferente da nossa criação, que nos faz acreditar que tudo nos é devido.

Entre os que não dão nenhum prêmio a seus vencedores, estão a Grã-Bretanha (65 medalhas), a Nova Zelândia (20 medalhas), a Suécia (9 medalhas), a Noruega e a Croácia (8 medalhas cada uma). Como se vê pelo número de medalhas recebidas pelos que ficaram chupando dedo, não é o vil metal que move essa juventude corajosa. O importante é competir.

Observação
Os montantes mencionados são resultado da conversão aproximada dos valores originais, expressos em moeda local.

De buldogues e coleiras

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos desenhos animados, cachorro feroz é geralmente representado como um buldogue de dentes arreganhados e com uma coleira salpicada de pontas de metal. Fica a impressão de que os dentes e a coleira são apenas efeitos cênicos pra reforçar a ferocidade do animal. Quanto aos dentes, isso é verdade. Mas no caso da coleira, a história é outra.

Desde a Antiguidade, o homem tem utilizado o cão para acompanhá-lo na caça e principalmente para tomar conta do rebanho. Um dos grandes perigos que o cão corre é ser atacado por seus primos selvagens, os lobos, que costumam atacar mordendo na garganta.

Já na Grécia antiga, os pastores tiveram a ideia de acrescentar pregos à coleira dos cães de guarda para protegê-los contra ataque de lobos.

Em zonas montanhosas da Europa onde os lobos estão presentes até hoje, os pastores põem esse tipo de coleira no cachorro que cuida do rebanho.

Gente que virou coisa – 5

Château de Nointel, França

José Horta Manzano

Você sabia?

Bechamel
O molho bechamel é tão simples, tão básico, que é difícil apontar, com certeza, o criador. Acreditam muitos que a origem seja um antigo molho italiano conhecido como salsa colla ou colletta. É difícil contestar.

A receita de base leva apenas leite, manteiga, farinha de trigo e sal – nada de mais singelo. A partir daí, o bechamel muda de cor, de aspecto, de gosto e de uso, conforme os temperos e as variantes. E, naturalmente, muda de nome também.

Como ocorre com frequência, o nome foi dado em honra a um personagem importante. Naquele longínquo século 17, mais ainda do que hoje, era importante estar de bem com os poderosos. A organização da sociedade era bem diferente. Trabalho como conhecemos hoje, com patrão e empregado, ainda não estava de moda. Havia os nobres de um lado, os eclesiásticos noutra ponta do triângulo, e os camponeses na ponta inferior. No meio, muito pouca coisa. Quem não fosse nobre nem religioso e não quisesse voltar aos trabalhos do campo não tinha outra escolha: tinha de encontrar um protetor.

Foi o que fez François Pierre de la Varenne, cozinheiro a serviço de um marquês. Adaptou o molho branco a um gosto mais apurado e deu-lhe o nome de sauce Béchameil, em homenagem a Louis Béchameil (1630-1703), um marquês endinheirado.

A história não registra se a bajulação explícita rendeu frutos ao cozinheiro. Ao homenageado, garantiu a perenidade do sobrenome, recitado até hoje em cozinhas de França, Oropa e Bahia. O cozinheiro, de toda maneira, já estava a serviço de outro nobre.

Em francês, com o passar do tempo, a grafia original do nome Béchameil evoluiu até desembocar em béchamelle, substantivo comum.

Note-se que, em muitos países, o molho bechamel é chamado molho branco (white sauce, em terras anglo-saxônicas). Em toda simplicidade.

O castelo do marquês
O castelo de Nointel, onde viveu o marquês de Béchameil, foi confiscado em 1792, durante a Revolução Francesa. Transformado em prisão, sofreu com o descaso e, em questão de anos, virou ruína. Foi demolido em 1810 e reconstruído cem anos mais tarde, no mesmo sítio. É habitado ainda hoje.

 

(continua)

Pólen & covid

José Horta Manzano

Você sabia?

Em regiões de clima mais frio, a vegetação descansa no inverno. Com a chegada da primavera, cada espécie vai despertando, lançando brotos e flores. Com as flores, vêm os pólens, cuja função é fecundar outras plantas da mesma espécie, num fenômeno chamado polinização.

Para o caso de flores ornamentais, a natureza dispõe das abelhas que, ao colher o néctar de uma flor, levam pólen grudado às patinhas. Esse pólen acabará sendo depositado em outra flor, fecundando-a. Essa é a função das abelhas: a polinização.

Para o caso de árvores – que também botam flores e dependem de polinização –, quem se encarrega de transportar o pozinho é o vento.

Enquanto pólen de flor ornamental é mais pesado e dificilmente levado pelo vento, o de árvore é fininho, levinho, às vezes invisível. Voa pelo ar. Em organismos mais sensíveis, costuma provocar a febre do feno, uma rinite alérgica – doença respiratória que causa grande desconforto.

A National Academy of Sciences (EUA) publicou recentemente um vasto estudo coapresentado por uma penca de cientistas originários de uma dúzia de países. Ele trata da interferência entre pólens e covid-19, visto que os dois causam afecção respiratória. O trabalho, muito completo, baseou-se nos dados de 130 estações de medição de pólen, situadas em 31 países do Hemisfério Norte.

O estudo é longo e altamente técnico, mas o que interessa saber é que a ação dos pólens é realmente fator agravante da covid. A abundância de pólen no ar resulta em significativo aumento das taxas de infecção. Não se tem absoluta certeza do mecanismo, mas o fato é este: mais pólen, mais covid.

Que eu saiba, não existem no Brasil estações destinadas a medir a quantidade de pólen no ar. Se as árvores de clima temperado se fecundam por meio de pólen lançado ao ar, quero crer que árvores tropicais sigam o mesmo caminho. A diferença é que, dado que nosso inverno não é tão marcado, as árvores não soltam o pólen todas ao mesmo tempo. Como resultado, nosso ar contém pólens de modo constante.

Talvez um dia alguma instituição que tiver escapado à atual sanha obscurantista consiga fazer um estudo sobre a interferência dos pólens tropicais na infecção por coronavírus. Enquanto nossa civilização não atinge esse estágio, distinto leitor, a melhor arma é a máscara. Para pessoas sensíveis ao pólen, são recomendadas máscaras mais especiais ainda: aquelas que protegem contra micropartículas.

Ao fugir de aglomeração, evita-se contaminação pelo bafo alheio. Mas não se evita respirar os pólens que, invisíveis, dançam por todos os ares em busca de uma árvore amiga. A única maneira de escapar aos dois – ao bafo e ao pólen – é usando máscara. Não é má ideia usá-la o tempo todo que se passa fora de casa, seja num baile clandestino, seja passeando no bosque.

Paetê

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça carece de matérias-primas. O país não dispõe de petróleo, nem de carvão, nem de ouro, nem de ferro, nem de minerais preciosos. Não tem saída para o mar. As terras cultiváveis são escassas. Sem outra saída, os habitantes sempre tiveram de usar a cabeça – e as mãos – para sobreviver.

A indústria têxtil, que começou a se desenvolver na Idade Média, deu fama ao país. Durante muito tempo, produtos têxteis (sedas, bordados, fitas, rendas e tecidos) foram o primeiro produto de exportação. Até os anos 1920, os têxteis ainda apareciam à frente dos relógios na lista de produtos exportados.

Nos tempos de antigamente, a produção era essencialmente manual, o que pressupõe uma certa lentidão e pequenas quantidades produzidas. Com a Revolução Industrial, a fabricação deixou de ser obra de artesãos e foi se reagrupando em manufaturas organizadas. No século 19, a Suíça viveu a época de ouro de sua indústria têxtil. A máquina de bordar, inventada nos anos 1820 e aperfeiçoada nas décadas seguintes, deu impulso às artes do bordado suíço e fez sua fama.

Antes da automatização, tecidos bordados com lantejoulas, por exemplo, se destinavam a quem tinha muitíssimo dinheiro. A confecção era lenta, visto que cada pecinha de metal era costurada à mão. Essa mão de obra elevava o preço final às alturas; só quem podia encomendar eram rainhas, princesas & assemelhados. As máquinas de costurar e bordar baixaram os custos de produção e puseram tecidos bordados ao alcance da maioria.

O termo lantejoula é corruptela de lentejoula, palavra que vem do espanhol lentejuela (=lentezinha). Já na língua francesa, aquela pecinha de aspecto brilhante e metálico com um furo no meio, destinada a ser costurada ao tecido, chama-se paillette (palhazinha, da família de palha).

Um tecido recoberto de paillettes se diz pailleté, termo que se pronuncia paietê. O distinto leitor já deve ter reconhecido a origem de nossa palavra paetê. Trata-se de aproximação fonética, uma tentativa de reprodução do som original. Paetê combina com estes dias de Carnaval frustrado. E faz par com strass, que aparece no post de 12 fev° 2021.

Gente que virou coisa – 4

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 4

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

Strass
Georg Friedrich Strass nasceu em 1701 num vilarejo alsaciano, a poucos quilômetros de Estrasburgo, hoje em território francês. Desde a Idade Média, aquela região de fronteira era objeto de cobiça. Ao final de cada guerra, o território mudava de dono, oscilando entre príncipes germânicos e o governo central de Paris. Quando nasceu Georg Friedrich Strass, quem mandava era o rei da França. A instabilidade já aparece em seu registro de nascimento: o documento não foi redigido em francês, mas em alemão.

Filho de pastor protestante, Strass entrou como aprendiz num ateliê de joalheria, onde aprendeu a profissão. Com a idade de 20 e poucos anos, já se encontra em Paris trabalhando num ateliê de joalheria que produz joias muito procuradas. Imagina-se que o rapaz fosse bastante esperto, pois em poucos anos já aparece como sócio da firma.

De espírito criativo, Strass se interessou pelas joias de imitação, aquelas que aqui chamamos bijuteria. Modificando a química da preparação, conseguiu fabricar pedras preciosas artificiais tão luminosas e transparentes que tinham aspecto idêntico às verdadeiras.

O sucesso foi tão grande que o moço, que não tinha nem completado 35 anos, foi nomeado ‘joalheiro privilegiado do rei’ – um título de grande prestígio. Graças à invenção, os negócios prosperaram e Strass enriqueceu. Aos 52 anos, pôde aposentar-se e viver tranquilo até seu falecimento em 1773, aos 72 anos.

Nestes dias de Carnaval frustrado, as (falsas) pedrinhas de Strass vêm a calhar. Indumentária carnavalesca exige paetês e strass. Como o distinto leitor já se deu conta, strass – aquelas pedrinhas coloridas que fazem parte da festa – devem seu nome a Georg Friedrich Strass.

(continua)

Gente que virou coisa – 3

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 3

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

Jacuzzi
Conta a lenda que Cleópatra, rainha do Egito, tomava banho com leite de jumenta. Outros juram que o leite era de cabra. Pouco importa, não vamos nos perder nessas minúcias. O que fica claro é que, já na Antiguidade, acreditava-se que o banho tinha qualidades terapêuticas e que garantia conforto, beleza e longa vida.

Que fosse de leite ou de água mesmo, reparem que Cleópatra, que era rainha, foi a única que ficou lembrada por causa do banho. Nenhum de seus súditos aparece nessa história, sinal de que o banho de imersão não estava ao alcance de qualquer um.

Por muitos séculos, banho foi exclusividade de reis e de nobres. O povão tomava banho de gato, com bacia e paninho pra esfregar. Entre nós, a generalização da água encanada é relativamente recente. Até o fim do século 19, mesmo nas cidades maiores, poucos eram os que dispunham desse conforto.

Nos início dos anos 1900, a família Jacuzzi deixa a Itália e emigra para os EUA. Na bagagem, vão conhecimentos de hidráulica, que acabarão sendo extremamente úteis mais adiante. Durante as primeiras décadas, os Jacuzzi se dedicam a desenvolver bombas d’água para a agricultura. A grande transformação do negócio tem início nos anos 1950.

Para tratar um membro da família que sofria de reumatismo, os irmãos Jacuzzi criam uma bomba de hidroterapia para ser instalada dentro da própria banheira doméstica. O resultado foi tão espetacular que todos se animaram para aperfeiçoar a ideia. Em 1968, um membro da terceira geração do clã integra um sistema de jatos múltiplos a uma banheira e patenteia a invenção: nasce assim a primeira banheira doméstica de hidromassagem.

Daí para a frente, o crescimento foi contínuo. Os sistemas Jacuzzi são hoje comercializados em mais de 60 países. No mundo todo, o nome jacuzzi tornou-se a maneira mais simples de chamar a banheira de hidromassagem. É mais um nome de gente que virou nome de coisa.

Observação
Jacuzzi é sobrenome de origem italiana. Na língua original, a grafia mais utilizada é com i inicial (iacuzzi). Na Itália, pronuncia-se iacútsi (o zz funciona como o zz de pizza). Jacuzzi é forma carinhosa e familiar (embora arcaica) de tratar alguém chamado Iacopo ou Iacobo (Jacó).

Na Idade Média, Iacopo e Iacobo eram prenomes muito apreciados. Por essa razão, são numerosos os sobrenomes que derivam deles: Iacovini, Iacumin, Iacopucci, Iacopino, Iacolucci, Iacubino, Copelli, Cobbe e dezenas de outras. Lá pelos anos 1200-1300, quando nomes de família começaram a ser atribuídos, o patriarca da família dos criadores da banheira devia ser conhecido pela alcunha de Iacuzzi.

(continua)

Gente que virou coisa – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 2

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

 

Macadame
Na virada do século 18 para o 19, o engenheiro escocês John Loudon McAdam (1756-1836) ocupava o posto de administrador das estradas da Escócia.

Os meios de transporte não haviam evoluído muito desde o tempo dos romanos. Em muitos sentidos, haviam até involuído. Enquanto as estradas que partiam de Roma eram calçadas com paralelepípedos, nem todas as que saíam de Londres eram revestidas. Mas o revestimento de paralelepípedo apresentava o inconveniente de chacoalhar os veículos.

Mr. McAdam inventou então um meio bom e barato de calçar as estradas escocesas. Criou uma técnica inovadora que, assentando camadas de pedras de calibres diferentes, permitia revestimento sólido, firme e mais liso. As carroças e diligências podiam rodar sem chacoalhar tanto.

Na falta de nome, o novo revestimento foi chamado com o nome do inventor. McAdam era, e macadame ficou. Embora seja menos utilizado atualmente, o termo aparece em nossa língua desde os anos 1850.

Como curiosidade, note-se que o filme Midnight Cowboy (1969), estrelado por Dustin Hoffman e conhecido no Brasil com o título Perdidos na Noite, recebeu o nome de Macadam Cowboy nos países de língua francesa.

(continua)

Gente que virou coisa – 1

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 1

Num passe de mágica, Monteiro Lobato criou Emília, a boneca que virou gente. É muito raro ver coisa que se tornou gente. Em geral, a transformação é de mentirinha e só ocorre na imaginação do autor.

No sentido inverso, também há gente que virou coisa. Estou me referindo a alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras comuns.

Silhueta
Etienne de Silhouette (1709-1767) era o alto funcionário encarregado de fiscalizar as finanças da França ao tempo do rei Luís XV. Rigoroso e implacável, granjeou impopularidade por tentar impor reformas que elevavam impostos a níveis confiscatórios.

Para zombar dele, os detratores representavam apenas o contorno de sua imagem, com o miolo vazio, recortado com tesourinha. Com isso, enfatizava-se que se tratava de personagem vazio, como o contribuinte empobrecido, cuja substância tinha sido tragada pelos pesados impostos.

Com o passar do tempo e por extensão, o nome de Monsieur de Silhouette passou a designar também as figuras humanas recortadas em papel, em que se descartava o excesso e se deixava unicamente o miolo. Entre nós, o substantivo comum foi aportuguesado para silhueta.

(continua)

Gênero das frutas

José Horta Manzano

Você sabia?

Em nossa língua, com uma única exceção, nome de árvore tem o mesmo gênero do nome da fruta. Assim, temos:

a banana   a bananeira
o mamão    o mamoeiro
a maçã     a macieira
o abacate  o abacateiro
a cereja   a cerejeira
o pêssego  o pessegueiro

A única exceção é esta:

o figo     a figueira

Ao vencedor, as batatas!

José Horta Manzano

Para 38 milhões de eleitores, hoje é dia de ir às urnas. De novo. E é bom votar direitinho, porque não há terceiro turno. A escolha de hoje é definitiva e o mandato dos eleitos, de quatro anos.

É de Machado de Assis (1839-1908) a expressão «Ao vencedor, as batatas!», que aparece no romance Quincas Borba. O tubérculo – que antigamente chamávamos batata-inglesa, por oposição à batata-doce – é originário da América do Sul, mais precisamente das encostas da Cordilheira dos Andes. Ainda hoje é a base da alimentação de populações inteiras naquela região.

Os primeiros europeus que visitaram a América se interessaram por aquele estranho tubérculo que alimentava tanta gente. Levaram mudas e se surpreenderam com a facilidade com que a nova planta se aclimatava às condições europeias. Não precisou muito tempo para a batata ser consumida e apreciada por todos os povos do Velho Continente. Seu consumo logo se equiparou ao do pão, chegando até a suplantá-lo na Europa do Norte.

Entre 4500 e 5000 variedades de batata (!) estão inventoriadas pelos organismos dedicados à classificação dessa solanácea. Em muitos países, entre os quais a França, sua produção é rigorosamente controlada. Não se pode vender qualquer tipo de batata assim, sem mais nem menos. Para que a comercialização de uma variedade qualquer seja autorizada, ela tem obrigatoriamente de estar inscrita Catálogo Oficial francês.

Em 2010, apenas 214 variedades estavam oficialmente registradas. Assim, somente elas tinham o direito de ser comercializadas. Antes do plantio, o agricultor prudente consulta a lista oficial. Caso tente vender uma variedade não autorizada, estará cometendo infração. Portanto, estará exposto a sanções. É possível inscrever uma nova variedade no catálogo oficial, mas não é fácil. O caminho é longo e a burocracia, pesada.

Espantado? Eu também fiquei no dia em que soube da existência da lista oficial e, principalmente, da proibição de escapar dela. Mas o problema é só de princípio, tem pouca influência sobre a vida de todos os dias. Os comércios, mesmo as épiceries fines (mercearias finas), não oferecem mais que 10 ou 15 variedades. São amplamente suficientes para a realização das receitas mais sofisticadas.

Sem dúvida, é muito interessante saber que, entre nativas e manipuladas, milhares de variedades de batata já foram identificadas. Para o cidadão comum, no entanto, não passa de mera estatística.

Nota
“Ao vencedor, as batatas!”, a frase marcante de nosso escritor maior, tem de ser adaptada à realidade de nosso século. Hoje em dia, convém dizer “Ao vencedor, o abacaxi!”.

Publicado originalmente em 29 dez° 2012.

Blue Moon

José Horta Manzano

Você sabia?

Blue Moon (Lua Azul) é expressão que aparece há séculos na língua inglesa. Seu sentido evoluiu através do tempo. Os primeiros registros surgem 500 anos atrás e indicam que a expressão era usada para designar coisas absurdas. Dado que a cor da Lua varia entre o branco, o amarelo e o vermelho, nunca se viu uma Lua de cor azul. Portanto, dizer que alguém acreditava numa ‘Lua azul’ equivalia a dizer hoje que esse mesmo alguém jura que a Terra é plana. Coisa de hospício.

O sentido da expressão flutuou ao longo dos anos até que, em meados do século 19, acabou se fixando. Na época, os almanaques eram muito populares, com o santo de cada dia, as festas religiosas, as fases da Lua, os eclipses. Esses livrinhos consolidaram o significado da Lua Azul. O ano se divide em 4 estações. Cada uma delas, em princípio, tem 3 Luas cheias. Quando uma estação tem 4 Luas cheias, a terceira é chamada Lua Azul. Esse desvio da norma, com uma Lua suplementar, ocorre a cada 3 anos mais ou menos. Parece complicado, não? Espere, que vai piorar.

Um artigo de 1946, escrito por astrônomo amador e publicado em revista especializada, continha um erro de interpretação – ou um desleixo, não tem importância. (É chato alguém ficar na história por ter cometido um erro; não menciono o nome do moço pra evitar conflito com os herdeiros.) Em vez de contar quantas Luas cheias tem uma estação, ele contou quantas Luas cheias tem cada mês, veja só. Ninguém se deu conta de que, dali por diante, a definição da expressão Blue Moon (Lua Azul) ia dividir-se em duas correntes.

A partir da publicação do artigo, a corrente tradicional continuou respeitando a definição antiga: Lua Azul é a terceira Lua cheia da estação do ano que tiver 4 Luas cheias. Mas a nova corrente entendeu que Lua Azul é a segunda Lua cheia que eventualmente ocorra num mesmo mês, pouco importando a estação do ano. Parece que dá no mesmo, mas não dá. As Luas Azuis da corrente antiga e da nova não coincidem.

Pela definição antiga, houve Lua Azul em agosto 2013, maio 2016, maio 2019. Para observar a próxima, há que ter paciência até agosto de 2021. Já pela definição modificada, houve Lua Azul em julho 2015, janeiro 2018, março 2018. A próxima cai justamente hoje, 31 de outubro de 2020.

Seguir a corrente tradicional e esperar pela Blue Moon de agosto de 2021 é problemático. Com essa pandemia que grassa por aí, ninguém mais tem certeza de nada. Nem se sabe se a humanidade estará ainda firme e forte até lá. É melhor festejar hoje mesmo, aproveitando que cai junto com o Bumba Ralouín Meu Boi, tradicional festa caipira brasileira. Saúde!

Imunidade de rebanho

José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.