Voto no bico de pena

José Horta Manzano

Você sabia?

É difícil dizer se os brasileiros sabem ou não votar. Taí um conceito de geometria variável. Quando elegem candidato que nos é simpático, concordamos que, sim, amadureceram e aprenderam a votar. Ao contrário, quando votam maciçamente em quem não nos agrada, afirmamos que são todos ignaros, atrasados, que ainda vivem na Idade da Pedra Lascada. Como vemos, a etiqueta de «bom eleitor» é elástica.

No Brasil, antes de 1932, votava-se no bico de pena. O voto não era secreto. Cada eleitor escrevia o nome do candidato preferido num grande livro e assinava ao lado, à vista de todos. Há que reconhecer que a transparência era absoluta, o que praticamente impossibilitava fraude na apuração. Em caso de litígio, lá estava o livro com o nome de cada votante seguido pelo do candidato escolhido. Se precisasse, bastava recontar.

Por seu lado, num Brasil ainda mais estratificado que o de hoje, como escapar à ordem do patrão, do coronel, do poderoso do lugar? Cada um era livre de votar em quem quisesse… desde que votasse no candidato do dono do pedaço. E ai de quem ousasse desobedecer!

Embora hoje o voto secreto nos pareça natural e evidente, nem sempre foi assim. Quando veio, significou conquista grande. Nosso país adotava o voto pessoal, livre e secreto com 20 anos de atraso com relação à França. Mas há que relativizar. Vinte anos, naquela época, não era tanto tempo assim.

Voto de cabresto

Adotado o segredo eleitoral, o voto ‘no bico de pena’ desapareceu. O Brasil enterrou, pelo menos em princípio, o ‘voto de cabresto’, aquele em que o cidadão era forçado a seguir as ordens do mandachuva local. Assim mesmo, ainda hoje se fala em ‘compra de votos’, prática difícil de controlar. Como ter certeza de que o eleitor ‘comprado’ realmente cumpriu o acordo?

É possível que, em lugarejos pequeninos, o dono do pedaço terrorize seus súditos dizendo-lhes, por exemplo, que tem meios de ficar sabendo em quem cada um votou. Com eleitores muito simples, é capaz de funcionar. Portanto, embora não se fale muito no assunto, o ‘voto de cabresto’ não só sobrevive como tem dias promissores pela frente.

O sistema eleitoral francês guarda, em certa medida, semelhanças com o brasileiro. Mas diverge fortemente em algumas particularidades. Uma especificidade de lá, dificilmente encontrada em outras terras do globo, é o voto por procuração. O eleitor que não puder (ou simplesmente não quiser) se deslocar até a secção eleitoral pode dar procuração a outra pessoa para votar em seu nome. As formalidades são simples: basta anunciar com antecedência à autoridade eleitoral por meio de formulário adequado. As exigências também são básicas: o procurador deve ser maior, cidadão francês e residente no mesmo município.

É verdade que, para coibir abusos, cada procurador só pode receber mandato de um único eleitor. Em outros termos, ninguém pode votar no lugar de vários eleitores ausentes. Assim mesmo, essa prática soa bizarra. Quem garante que o eleitor que vota em nome de um terceiro não terá obtido a procuração por meio de coação?

Francês adora reclamar. Todos exprimem opinião sobre qualquer assunto, mesmo sobre matérias que desconhecem ‒ parece uma obrigação incontornável. Pois acredite o distinto leitor que, até hoje, nunca ouvi ninguém se levantar contra o princípio do voto por procuração. É sinal de que ninguém enxerga aí nenhum inconveniente. Vasto mundo…

Publicado originalmente em 6 maio 2017.

Ignorância de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

A impressora de tipos móveis, desenvolvida na Europa por Johannes Gutenberg, apareceu por volta de 1450. Na década de 1530, a imprensa chegou à América Espanhola – ao México, mais precisamente. Antes de 1540 já circulavam panfletos e outros avisos impressos.

Quanto à colônias portuguesas da América, as ordens de Lisboa eram claras: proibição absoluta de imprimir fosse o que fosse. Portanto, no Brasil não havia impressoras. Livros, os poucos que havia eram trazidos da metrópole. A informação e a cultura não circulavam.

Foi preciso que Napoleão desse uma ajudazinha. Quando suas tropas apontavam na esquina e se preparavam para ocupar Lisboa, a família real pôs o rabo no meio das pernas e escapou rapidinho. Partiram para o Brasil levando armas, bagagens e tudo o que de precioso possuíam.

Ao aportar no Rio de Janeiro, o rei João VI se deu conta do atraso em que vivia a colônia. Achou que fazia falta pelo menos um jornal. Mandou vir uma impressora de Portugal, o que permitiu o aparecimento do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro. Haviam-se passado 300 anos da chegada de Cabral.

Esse descaso, sozinho, não é a causa da pouca familiaridade do brasileiro com as letras; mas certamente não ajudou a assentar a cultura nacional em bases sólidas.

Propaganda

José Horta Manzano

Você sabia?

O Ministério das Comunicações está sendo recriado. Más línguas predizem que será, na verdade, o Ministério da Propaganda de doutor Bolsonaro.

A palavra propaganda, que 9 entre 10 línguas adotaram tal e qual, sem mudar nem uma letra, tem origem curiosa. É substantivo que provém de um gerundivo latino. Embora não seja a única a ter seguido esse caminho, suas congêneres vieram por via erudita (o formando, o educando) ou são de uso jurídico (o considerando, o adendo, o alimentando). Já propaganda entrou por via religiosa e instalou-se na língua nossa de todos os dias. Está aqui a história.

A publicação do protesto do monge alemão Martinho Lutero, consignada em 95 teses pregadas no ano de 1517 na porta da catedral de Wittenberg, levantou um tsunami na Europa. Lutero, sem ter tido intenção, acabava de dar início a um cisma que perdura até hoje e que divide o cristianismo ocidental entre católicos e protestantes.

Naquele início dos anos 1500, as potências dominantes eram a Espanha e Portugal, que tinham partilhado os territórios da América – e as riquezas que vinham das novas colônias. A Igreja, preocupada com o avanço do protestantismo, obteve dos reis de Espanha e de Portugal a garantia de que, nos territórios americanos, o catolicismo seria defendido.

Palazzo di Propaganda Fide
Piazza di Spagna, Roma

Um século mais tarde, as riquezas americanas já davam sinais de exaurimento. Empobrecidos, Espanha e Portugal não tinham mais condições de prover à defesa vigorosa do catolicismo em suas colônias. Preocupada, a Santa Sé decidiu agir. Uma bula emitida em 1622 pelo papa Gregório XV criou a Sacra Congregatio de Propaganda Fide – Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (*).

É difícil especular como teriam sido as coisas se a Propaganda Fide não tivesse sido insituída; é de notar que as colônias americanas da Espanha e de Portugal mantêm até hoje contingente pequeno de adeptos do protestantismo. Talvez isso se deva ao trabalho da Congregação. Os protestantes se concentram nas antigas colônias inglesas (EUA e Canada), povoadas principalmente por imigrantes do norte europeu.

Faz meio século, a Sacra Congregatio de Propaganda Fide mudou de nome. Passou a ser conhecida como Congregação para a Evangelização dos Povos. A sede continua ocupando o mesmo imóvel da Piazza di Spagna (Roma), onde a Congregação se instalou 400 anos atrás. O imóvel tem estatuto de possessão extra-territorial do Vaticano. Leva até hoje o nome de Palazzo di Propaganda Fide – Palácio da Propaganda Fide.

(*) Propaganda fides = a fé que deve ser propagada; a fé a difundir-se; a fé a ser espalhada.

Quanta fronteira!

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando se pensa em fronteira, vem logo a imagem de um quiosque à beira da estrada, guarda uniformizado e armado, apresentação de passaporte, revista de bagagem. É isso, sem dúvida, mas não só. Além de confins terrestres, os países têm também fronteiras marítimas. Não são visíveis, mas estão lá. Delimitam a zona de exploração marítima exclusiva de cada nação.

Com exceção dos países sem saída para o mar e daqueles situados em ilhas sem vizinhos próximos, os demais têm fronteiras marítimas. O Brasil não dispõe de territórios ultramarinos; por isso, suas fronteiras marítimas são poucas, apenas duas: com a França (Guiana Francesa) e com o Uruguai. Dado que, com esses dois países, temos também fronteira terrestre, nosso total de vizinhos de parede não se altera: dá 10 no total.

Há particularidades exóticas. A Argentina, por exemplo, faz fronteira (marítima) com o Reino Unido na altura das Ilhas Falkland (Malvinas). Portugal encosta no Marrocos, a Itália beija a Tunísia e a Turquia está colada em Chipre. Embora estejam distantes um do outro, a Costa Rica e o Equador têm fronteira marítima comum, por causa das Ilhas Galápagos.

Zonas exclusivas de exploração marinha
e fronteiras marítimas

Há um país – caso único no mundo – que, entre terrestres e marítimas, faz fronteira com 34 países! E esse país não são os EUA. Trata-se da França. São resquícios de um tempo em que seu poderio era bem maior que hoje. Subsistem pequenas ilhas espalhadas ao redor do planeta. Além da metrópole europeia, a França tem territórios no Caribe, na América do Norte, no Atlântico Sul, no Pacífico, no Índico. A lista de vizinhos é pra ninguém botar defeito:

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Pra terminar, é interessante notar que o Brasil não é o único país não contíguo com o qual a França faz fronteira. Eles têm outros dois vizinhos situados longe do território nacional: a Venezuela (pela Guiana Francesa) e a Holanda (na ilha binacional de St.Martin, Caribe).

Caladão – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

by Tiff, desenhista da França

Ministro vem do latim minister, derivado de minus (= inferior).

Em oposição, temos magister, de magis (=superior).

Magister deu mestre, aquele que ensina.

Ministro é funcionário inferior, que cumpre função por ordem de outrem.

Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Uma dúzia de anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
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Atualmente, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.

Artigo publicado originalmente em 14 março 2018.

As três vacas

José Horta Manzano

Você sabia?

O tratado mais antigo da Europa foi firmado em 1375. Continua em vigor há quase 650 anos. Na época em que foi assinado, os países ainda não existiam da forma como os conhecemos; os Estados não tinham meios de exercer soberania sobre todo o território. Muitas das atribuições de um governo central ficavam por conta de pequenas autoridades locais.

Os Montes Pireneus marcam a fronteira entre França e Espanha. Por ali, em altitudes acima dos mil metros, a água escasseia e as nascentes são raras. Desde que domesticou bovinos e caprinos, o homem tem absoluta necessidade de água para matar a sede dos animais que são levados a pastar. Dois mil anos atrás, já se tem notícia de rusgas e conflitos motivados pelo acesso à água.

Em certo trecho da cadeia de montanhas, de um lado fica o Béarn (região francesa) e do outro a Navarra (região espanhola). Entre os dois, aqueles montes pontudos. Lindos, mas semiáridos. No verão, pastores dos dois lados levam o rebanho a pastar a erva abundante lá no alto. Na região, só há uma nascente – pomo de discórdia que, desde sempre, azucrinou a existência de todos.

Junto ao marco fronteiriço: três prefeitos franceses (de faixa) e três espanhóis (de sombrero preto).

No começo dos anos 1370, numa briga feia pela água, um pastor espanhol matou um pastor francês. Seguiram-se anos de violência generalizada, vinganças, emboscadas, assassinatos. O horror chegou a vitimar 300 pessoas de cada lado da fronteira, uma hecatombe regional. Numa batalha importante, os franceses perderam o chefe e acabaram entregando os pontos e debandando. Os bispos da região decidiram que era hora de pôr um fim à barbárie.

Costuraram o tratado popularmente conhecido como Tributo das Três Vacas. Ficou combinado que, todos os anos à mesma época, os pastores franceses entregariam aos espanhóis três vacas de 2 anos de idade, em perfeita saúde. Passaram os séculos, houve revoluções, alianças se fizeram e se desfizeram, houve guerras mundiais, ditaduras viraram pó, e… o Tributo das Três Vacas continua de pé. Aliás, foi oficialmente reconhecido e confirmado em meados do século 19 pelo Estado Francês e pela Coroa Espanhola.

Religiosamente, no dia 13 de julho de cada ano, três prefeitos de vilarejos franceses e três do lado espanhol se reúnem junto ao marco fronteiriço n° 262 para a cerimônia de entrega das três vacas. Foi-se o tempo em que os pastores da região se matavam por uma nascente; mas a tradição ficou, como uma página da história local que os habitantes insistem em não virar. O Tributo das Três Vacas está inscrito no Inventário do Patromônio Cultural Imaterial da França.

Alhos e bugalhos

José Horta Manzano

Você sabia?

Certamente todos já usaram, alguma vez, a expressão «alhos com bugalhos». Juntamos essas duas palavras para exprimir coisas disparates. «Não misturar alhos com bugalhos» ‒ é o que se ouve de costume. Mas… o distinto leitor saberia dizer o que são bugalhos? Atenção: o desafio só vale para brasileiros. Portugueses conhecem a resposta.

Pois é, alho, todo o mundo sabe o que é. Mas aposto que poucos de vocês se terão preocupado em conhecer o significado de bugalho. Na verdade, uma palavra não tem relação nenhuma com a outra. Estão aí justapostas só pra dar rima. Mas vamos ao significado.

Bugalho em folha de carvalho

O carvalho, árvore comum em regiões de clima temperado, é praticamente inexistente no Brasil, o que explica que o termo seja desconhecido. O bugalho é uma excrescência ‒ uma doença, pode-se dizer ‒ que aparece na folha de uma árvore, especialmente na do carvalho, quando picada por determinado tipo de inseto ou de parasita. Para quem nunca viu, imagine uma noz moscada. O bugalho tem aspecto semelhante.

Os franceses dão a essa bolinha o nome de noix de galle ‒ algo como «noz gálica». Dela se extrai o ácido gálico, que foi usado, durante séculos, em tinturaria.

Por extensão, os portugueses dão o nome de bugalho ao que conhecemos como bolinha de gude. No Brasil, a ausência de carvalhos e de bugalhos faz que o povo desconheça o significado da palavra.

Bolinha de gude, conhecida como bugalho em Portugal

Em compensação, permanece viva na língua brasileira de todos os dias a expressão «olhos esbugalhados», com o significado de olhos muito abertos, arregalados, redondos como dois bugalhos. Certos casos de cirurgia estética mal sucedida dão como resultado uma infeliz criatura com olhos permanentemente arregalados. Um perigo.

É interessante como a gente pode passar a vida usando palavras sem conhecer o sentido.

Artigo publicado originalmente em 24 abril 2017.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, os grandes profissionais especializados eram dois: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os petrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais maiores, praticamente todos os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, a tradição mandava que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era a forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra sustentado por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada podia ser habitada. Era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição entre duas águas.

Artigo publicado originalmente em 8 out° 2017.

Emergência no avião

José Horta Manzano

Você sabia?

Mayday
Em todo filme em que um avião descontrolado está prestes a cair, o piloto berra ao microfone: “Mayday! Mayday!”. Nem todos conhecem a origem da estranha expressão. De onde virá? Que significa na origem? Em inglês, traduzindo ao pé da letra, dá «dia de maio», conjunto de palavras sem sentido.

A explicação é que a expressão não foi criada na língua inglesa. O curioso Mayday é aproximação fonética, para ouvidos anglo-saxônicos, de uma expressão francesa. O original é: «Venez m’aider» ‒ venham me ajudar. Como pode não dar tempo, na emergência, de pronunciar a frase inteira, ficou combinado truncar e dizer somente «m’aider», que soa «mayday» em inglês. Portanto, Mayday é «me ajude». Ou «ajude-me», vai do gosto do freguês. Se a expressão francesa tivesse sido adaptada a nossa fonética, teríamos: «medê», palavra que também não tem significado. Dado que, em inglês, os sons vocálicos são quase todos ditongados, ficou «mayday».

Pouco importa o sotaque, o importante é que todos os profissionais ligados à aeronáutica conheçam o desesperado pedido de socorro. Na aviação, pilotos, controladores, tripulação e todos os outros sabem que, uma vez irradiado, não é como no cinema: esse código tem de ser levado a sério.

Pan-pan
O curioso ‘mayday’ não é a única expressão francesa usada pra pedir ajuda na navegação marítima e aérea. «Pan-pan» é outra, derivada do francês «panne-panne». Como fica evidente, informa que há pane a bordo. Tem menos força que Mayday. Pode indicar, por exemplo, que um passageiro está passando mal e precisa de assistência médica. «Pan-pan» também tem de ser pronunciada três vezes. É seguida obrigatoriamente de explicação.

Seelonce
Há outros chamados decalcados da língua francesa. Por exemplo, o surpreendente «Seelonce», transcrição de «Silence», um pedido para que outros usuários se abstenham de utilizar a mesma frequência de rádio. Um pedido de emergência absoluta pode ser anunciado como «Seelonce Mayday». No final, para informar que a frequência está de novo liberada, o código é «Seelonce Feenee», transcrição inglesa de «Silence fini» ‒ acabou o silêncio.

Como é possível que subsistam expressões francesas num universo ultradominado pelo inglês? É que não foram introduzidas hoje. Vêm de um tempo em que a aeronáutica estava mais desenvolvida na França do que em outros países.

Inspirado em post de 2 dez° 2016

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

Eleições na França

José Horta Manzano

Você sabia?

Em matéria eleitoral, o mundo político francês está vivendo momento de embaraço. As eleições municipais, que ocorrem a cada 6 anos para escolher vereadores e prefeitos, estavam marcadas para o domingo que passou. Uma semana antes, como o coronavírus já se alastrava pelo país, levantou-se um vozerio sobre a manutenção ou anulação do pleito. De fato, ficava esquisito o governo central determinar que todos evitassem sair de casa e, ao mesmo tempo, encorajá-los a ir votar.

Um comitê de crise foi criado às pressas no mais alto nível. Após se aconselharem com médicos, técnicos, especialistas e todos os que entendem do assunto, decidiram manter a eleição. Mas com algumas condições.

1) Cada eleitor deveria trazer a própria caneta pra assinar a folha de presença;

2) Nas filas de espera, deveria ser respeitada distância de 1 metro entre votantes;

3) Os maiores de 70 anos teriam prioridade;

4) Frascos de álcool gel estariam à disposição para uso de todos.

E assim foi. A votação correu bem, apesar da abstenção recorde de mais de metade do colégio eleitoral. Dos 35 mil prefeitos, 30 mil foram eleitos no primeiro turno – geralmente em municípios pequenos. Para os 5 mil restantes, os eleitores deveriam voltar às urnas no domingo seguinte.

Acontece que, em poucos dias, a propagação da doença foi geométrica. Todos perderam a coragem de enfrentar fila e puxar uma cortininha que dezenas de mãos já haviam puxado. (Na França, não se vota em traquitana eletrônica, mas com tradicionais cédulas de bom papel; daí a cortininha.)

Que fazer? De novo, reuniu-se o comitê de crise. As consultações apuraram que os chefes de todos os partidos estavam de acordo de adiar o segundo turno. A situação era inédita, coisa nunca vista. E como é que fica quem foi eleito no primeiro turno? Anula-se a eleição? A decisão foi salomônica. Os eleitos no primeiro turno têm a vitória garantida. Os demais terão esperar três meses. A nova votação se fará dia 21 de junho – ou mais tarde, dependendo do estado de contaminação do país.

Está armada uma baita confusão. Nos municípios em que o novo prefeito já foi definido, a cerimônia de tomada de posse pode ser, em princípio, programada. Terá de ser virtual, sem público, para evitar alastramento do vírus. Quanto às demais localidades, mandato de prefeito e vereadores terá de ser prolongado por decreto excepcional.

«Aux grands maux, les grands remèdes – a grandes males, grandes remédios».

Scherzo

José Horta Manzano

Você sabia?

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Está aqui um quadro interessante. Traz a altura (corporal) de alguns figurões. Não sei quem é o autor, mas merece parabéns pelo esforço. Não é tarefa fácil coletar imagem desse pessoal, todos na proporção justa, alinhá-los, identificá-los. Quanto a mim, só tive de traduzir pés e polegadas em centímetros.

Os personagens antigos (Churchill e Hitler) são figuras históricas que cabem em qualquer comparação. Os demais eram os grandes de então – esse “então” há de ter sido uns dez anos atrás.

Pra que serve o quadro? Pra nada. È uno scherzo – é uma brincadeira. Bom domingo para os que já estão confinados em casa e para aqueles que logo estarão.

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

    • O pai desconfiava que o filho não fosse seu;
    • O bebê apresentava um defeito físico;
    • A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;
    • A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2

Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava em torno de um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4

Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, também no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1

A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um detector de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6

Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado, quando recém-nascido, na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. O sobrenome tem variantes (Esposto, Esposti, Espositi) e é particularmente presente na região de Nápoles.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Publicado originalmente em 3 fev° 2016.

Lula no palanque

José Horta Manzano

Você sabia?

Daqui a dez dias, como fazem a cada 6 anos, os eleitores franceses vão às urnas eleger vereadores e prefeitos. Apesar do protagonismo do coronavírus estes dias, a campanha corre solta, com beliscões, mordidas, acusações, revelações, golpes baixos.

Naturalmente, a disputa pela prefeitura de Paris atrai o interesse da nação inteira. Há já seis anos, a capital é governada pela franco-espanhola Anne Hidalgo, nascida Ana Maria Hidalgo Aleu. Ela nasceu na Espanha mas foi, ainda pequena, para a França, para onde a família emigrou. Perfeitamente bilíngue espanhol-francês, cresceu no país de adoção e naturalizou-se. Sempre militou no PS – Partido Socialista.

Madame Hidalgo concorre à reeleição. Sua mais recente jogada, que deixou boquiabertos e indignados os adversários, foi chamar Lula da Silva para dar uma forcinha em sua campanha. Ontem de manhã, valendo-se dos poderes que lhe confere o cargo de prefeita, Madame Hidalgo convidou-o para uma cerimônia oficial em que lhe concedeu o título de cidadão honorário de Paris. Horas mais tarde, nosso ex-presidente aparecia ao lado da prefeita num comício eleitoral. E não foi à festa sozinho: levou Dilma e Haddad.

Lula, Dilma e Haddad com a prefeita de Paris
2 março 2020

Os adversários de Madame Hidalgo chiaram. Disseram que não é normal ela gastar dinheiro público convidando gente e organizando cerimônias com a única finalidade de alavancar a própria candidatura.

No fundo, eles têm razão. Mas o que ela fez não é proibido; só pega mal. Quanto a nós, o importante é que nossos dois ex-presidentes, assim como doutor Haddad, não venham se servir na arca da Receita Federal para financiar viagens particulares. Acredito que não seja mais o caso. Além do que, o polpudo salário que se paga aos ex-presidentes dá pra essas ninharias.

Curiosidade
Nestas eleições francesas, uma centena de municípios não têm candidatos nem a prefeito, nem a vereador. Visto do Brasil, parece estranho. Como é que é?

O fato é que, num município pequeno, o salário é baixo e o trabalho, puxado. O prefeito funciona como padre no confessionário: tem de ouvir os problemas de cada um, resolver todos os conflitos, estar de prontidão o tempo todo. E, no final, o salário é baixo, não compensa.

Na França, salário de prefeito não é decidido em cada município. É fixado por lei nacional e varia de acordo com a população. Alguns exemplos:

Vilarejos de menos de 500 habitantes: 661,20 euros

Vilarejos entre 500 e 999 habitantes: 1.205,71 euros

Cidadezinhas entre 1000 e 3499 habitantes: 1.672,44 euros

E assim por diante, aumentando pouco a pouco, até chegar ao mais bem pago, o prefeito de Paris, que recebe 9.207 euros por mês.

Note-se que o salário mínimo em 2019 estava em 1.521 euros. É fácil entender que somente prefeito de cidade grande pode dar-se ao luxo de não ter outra atividade. A imensa maioria dos eleitos, depois de empossados, continuam a exercer sua profissão.

Quem quiser saber mais sobre o salário dos prefeitos franceses deve clicar aqui.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século XX, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China painting

O Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda de Pequim. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O príncipe tinha duas missões: por um lado, buscava firmar acordos comerciais; por outro, tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, a Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a totalidade da península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. É por isso que, no mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque o francês é apelidado de frog (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então os dois que reproduzo acima. A China está localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Nota
Embora representem variedades do mesmo animal, os termos sapo, e perereca são intercambiáveis no falar brasileiro.

Artigo publicado originalmente em 15 jan° 2014

Com casca e tudo

José Horta Manzano

Você sabia?

O sítio onde hoje se ergue a cidade do Porto – maior metrópole portuguesa depois de Lisboa – está entre as zonas de povoamento mais antigo da Península Ibérica.

Livraria Lello & Irmão, PortoBem antes da chegada das primeiras legiões romanas, um povoado já lá estava, implantado bem à beira do Rio Douro. Durante séculos foi conhecido como Cale, mais tarde como Portus Cale. É geralmente aceito que o nome da aldeia se tenha transmitido ao país inteiro.

De fato, a evolução de Portus Cale a Portugal é difícil de contestar. Já quanto ao significado primitivo de Cale, não há consenso. Alguns vêem um descendente do latim calidus (=quente). Dado que não há registros escritos da época, não será fácil dar resposta definitiva.

Porto 1A língua portuguesa é avessa à letra L. Em inúmeros casos em que línguas irmãs apresentam um L simples, o português puramente o suprimiu. Exemplos? Aqui vão:

Italiano     Espanhol     Francês     Português
colare       colar        couler      coar
filo         hilo         fil         fio
tela         tela         toile       teia
volare       volar        voler       voar

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

Os artigos definidos seguiram o mesmo caminho. O L que aparece nas línguas hermanas desapareceu na nossa. Le, el, il transformaram-se em o. É um charme, não há dúvida, mas essa queda do L nos causou problemas. Um dia falarei sobre isso. Por hoje, vamos continuar nossa visita a Portugal.

A cidade do Porto é uma das raras que, em nossa língua, são sempre precedidas do artigo. As outras são: o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Cairo, o Guarujá. Se houver mais, são poucas. Vai daí, mapas antigos costumavam anotar O Porto, como se escrevessem O Rio de Janeiro ou O Recife.

Vuelo de Ginebra a Oporto

Vuelo de Ginebra a Oporto

Ignorando que aquele «o» não fazia parte do nome da cidade, espanhóis e ingleses engoliram o produto sem desembalar. Consumiram a mercadoria do jeito que veio.

Pelas bandas de Londres e de Madri, o nome da segunda cidade de Portugal é Oporto, sim, senhor. Aliás, o código internacional do aeroporto da cidade é OPO.

Curiosamente, os ingleses, maiores consumidores do vinho do Porto, não aglutinaram o artigo ao nome da bebida. Acertadamente, dizem Port Wine. É de crer que o consumo do néctar produzido nas encostas ensolaradas do Douro esclarece as ideias.(*)

(*) A consumir com moderação.

Publicado originalmente em 6 março 2015.

Por ordem de chegada

José Horta Manzano

Você sabia?

Os primeiros automóveis não tinham placa. Um veículo esquisito, que se movia sem tração animal, era novidade absoluta. Havia poucos, razão pela qual não carecia identificá-los. Aliás, mais ou menos na mesma época, ocorreu o mesmo com os telefones residenciais. Quando ainda eram poucos, não tinham número. Girava-se a manivela pra chamar a telefonista; quando ela atendia, bastava pedir: «Quero falar com senhor Fulano (ou doutor Sicrano)». E pronto. Tinha mais charme.

As primeiras placas de automóvel surgiram nos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Nova York. Foi em 1901. Como ainda não havia sido instituído nenhum padrão, a lei obrigava cada automobilista a fabricar a própria placa. Material e cores ficavam a cargo do freguês, mas era obrigatório inscrever as iniciais do nome do proprietário. Com a multiplicação de carros nas ruas, o sistema caducou em poucos anos. Logo veio a normatização.

Na Europa, a superfície dos países é geralmente menor do que nas Américas. Com os novos veículos e estradas mais bem calçadas, viagens internacionais foram se tornando pouco a pouco comuns. Surgiu a necessidade de identificar todo veículo com um novo dado: o país onde estava registrado.

Já em 1910, uma dezena de países europeus – não necessariamente os mais adiantados – se reuniram pra estabelecer um sistema internacional de identificação de veículos. Decidiram que cada país seria designado por uma letra (ou uma combinação de letras). Essa(s) letra(s) deveria(m) aparecer numa placa suplementar, geralmente de formato oval, fixada na trazeira.

O critério para determinar o código de cada país foi… a ordem de chegada. Os primeiros saíram correndo na frente antes que viessem mais pretendentes. Como tinham o alfabeto inteiro à disposição, escolheram ser identificados por uma única letra. A Alemanha (Deutschland, em alemão) ficou com o D; a Áustria e a França reservaram o A e o F respectivamente; Portugal e Espanha garantiram o P e o E. A Hungria quis o H e a Bélgica se apoderou do B. Novos países foram se adicionando ao grupo e, lá pelos anos 1920, quase todos os códigos de uma letra só tinham sido atribuídos. Não havia mais remédio senão aceitar código de duas ou três letras.

Placas padronizadas Mercosul

O interessante da história é que, enquanto outros códigos internacionais foram repensados e reorganizados para refletir a nova realidade (o DDD particularmente), o sistema de identificação internacional de veículos continua igualzinho ao que era mais de um século atrás. Assim, países pequeninos como Luxemburgo e Malta têm código de uma letra só (L e M respectivamente). Enquanto isso, a imensa Índia ficou com uma sequência de três letras (IND), assim como a Rússia (RUS).

No Brasil, em virtude da imensidão do território, não é todos os dias que se cruza uma fronteira. Daí a parca difusão de nosso código. Desde que foi escolhido, em 1930, é BR (porque a Bélgica já tinha ficado com o B). As novas placas padronizadas Mercosul, já aplicadas a todo veículo novo, vão preencher essa lacuna. Pra ninguém botar defeito, trazem o nome do país por extenso.

Nosso vizinho do norte, antes identificado por duas solitárias letrinhas (YV) decidiu ostentar “República Bolivariana de Venezuela”. Pra fazer o nome caber na placa, estão condenados a usar sempre letra miudinha.

Crescendo e minguando

José Horta Manzano

Você sabia?

O interesse pelos astros começou na noite em que o primeiro homem levantou a cabeça e viu aquele mundaréu de pontinhos luminosos no céu. Faz muito tempo, muito mesmo.

Cinco mil anos atrás, quando papirus e papel não haviam sido inventados, tabuinhas de argila já registravam informação sobre os astros e seu movimento aparente.

O Sol e a Lua, maiores e mais rápidos que os demais, foram os primeiros a chamar a atenção. O Sol, que aparecia sempre redondo e do mesmo tamanho, passou impressão de regularidade. A ideia de firmeza e constância foi reforçada pelo fato de o astro levantar-se e pôr-se, com pequenas variações ao longo do ano, sempre à mesma hora. Já a Lua variava de aparência com frequência. Embora os ciclos fossem regulares e graduais, a impressão que ficou foi de inconstância.

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

Num tempo em que o Direito da Mulher ainda não havia entrado nas preocupações humanas, vigorava a lei do mais forte. O mundo era machista, bem mais que hoje. As línguas que atribuíam gênero aos substantivos puseram o Sol no masculino e a Lua no feminino. Assim aprendemos nós, nunca ninguém reclamou nem achou esquisito.

É interessante notar que a língua alemã ‒ caso único, a meu conhecimento ‒ fez o inverso. Em alemão, Lua é palavra masculina (Der Mond) e Sol é do gênero feminino (Die Sonne). Curioso, não?

Quando a professora pede aos aluninhos, já no Kindergarten (Jardim da Infância) que desenhem o Sol e a Lua, já se sabe: o Sol virá de batom e trancinhas enquanto a Lua terá chapéu e bigode.

Crescendo e minguando
Continuando nosso assunto selenita(*), lembro que todos nós aprendemos, desde pequeninos, que a Lua crescente forma um C, enquanto a minguante desenha um D no céu. É fácil reter: C para crescente e D para decrescente.

É possível que o distinto leitor não saiba que, vista do Hemisfério Norte, a imagem é invertida. Por estas bandas, quando a Lua desenha um C é porque está na fase minguante. E vice-versa. Vasto mundo…

(*) Selenita
Selene vem de raiz grega que traz ideia de esplendor, luz. Os antigos não sabiam que a Lua não faz mais que refletir a luz do Sol. Pouco importa. Deram ao astro noturno um nome que traduzia essa luminosidade.

Publicado originalmente em 26 maio 2016.

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação nem sempre pode ser feita. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, é village, que se pode traduzir por vilarejo ou cidadezinha. (Em Portugal, dizem aldeia.)

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade. No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, em 2012. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, como no Brasil atual, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. Fica a cargo do bom senso. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de 50 mil viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França – ah! o país das regulamentações rigorosas – a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE francês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando a população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau(*) (= povoado, arraial).

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente. Volta e meia vem algum grupo de políticos pregar desmembramento de municípios. Em vez de um só, acham mais vantajoso que haja dois ou três. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, toda vez que se aproximam eleições, esse tipo de «bondade» volta ao noticiário. Às vezes, pega.

Na Europa, assiste-se a um movimento inverso. Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos, mais instruídos, fazem as contas e, deixando pra lá rivalidades locais, chegam à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensam amplamente a perda de autonomia.

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos mandachuvas brasileiros continua igualzinha à do Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas. Ou é?

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham e Tottenham (Reino Unido), Arnhem (Holanda), Mannheim (Alemanha), Trondheim (Noruega) são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

Publicado originalmente em 17 jun° 2013.