O Jato d’Água de Genebra

José Horta Manzano

Você sabia?

O século 19 foi um tempo de expansão e de progresso em muitos campos da ciência. Na Europa, a instalação de indústrias atraiu populações rurais; as cidades cresceram rapidamente. Metrópoles como Londres, Paris e Viena são esplêndido exemplo do fenômeno. Até na pequena Suíça, o inchaço da cidade de Genebra foi significativo. Dos 64 mil habitantes de 1850, ela passou a mais de 100 mil em 1890 – crescimento comparável ao que a cidade de São Paulo conheceu por aqueles anos.

O fim do século se aproximava, mas Genebra ainda não dispunha da infraestrutura necessária para a geração de força e a distribuição de água à população. A água abundante do Lago Léman e do Rio Ródano estava à disposição, mas faltava uma instalação que gerasse pressão para distribui-la a todas as casas.

Com essa finalidade, pequena usina hidroelétrica foi construída. Em 1886, as cinco primeiras turbinas foram inauguradas, capazes de fornecer força e água tanto às indústrias quanto aos lares.

Genebra: o primeiro Jato d’Água, inaugurado em 1886

Acontece que, à noite, quando as fábricas paravam, o rio continuava a correr fazendo girar as turbinas, o que gerava excesso de pressão. Ninguém sabia quando se atingiria nível crítico, o que obrigava uma equipe a ficar todas as noites de prontidão. Um dia, alguém teve a ideia de criar uma válvula de segurança para evacuar automaticamente o excesso. Quando se atingia uma determinada pressão, o dispositivo liberava um esguicho d’água destinado a aliviar o mecanismo.

Sem se dar conta, tinham inventado o futuro cartão postal da cidade. Paris tem a Torre Eiffel; Roma, o Coliseu; Lisboa, a Torre de Belém; o Rio de Janeiro, o Corcovado. Genebra tem seu esguicho, o Jato d’Água, marca turística da cidade.

Hoje em dia, sistemas mais modernos dão conta de manter a pressão sob controle permanente, sem necessidade de recorrer ao esguicho para aliviar o excesso. O esguicho de Genebra é mantido unicamente com finalidade turística. Aliás, o atual nem está no mesmo lugar do primeiro. A municipalidade logo se deu conta do potencial turístico do Jato. Ele está hoje localizado num ponto mais afastado das margens e mais visível.

Genebra: o Jato d’Água na atualidade

O original de 1886 alcançava 30m de altura. O atual vai bem mais alto, podendo atingir 140m – a altura de um prédio de 45 andares. O jato sai num fluxo de 500 litros por segundo, a uma velocidade de 200km/h. À noite, é iluminado por 21 projetores.

Funciona o ano inteiro e só é interrompido em duas ocasiões: 1) quando o vento sopra forte e na direção errada; 2) quando a temperatura desce abaixo de 2°C, por causa do risco de projeção de gotículas de gelo, que podem causar ferimentos.

Faz mais de 130 anos que Genebra se orgulha de seu símbolo animado e ecológico. É monumento autossustentável, em harmonia com os tempos atuais.

São outros quinhentos

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem sempre é fácil encontrar a origem de expressões da língua. Algumas são tão evidentes que não precisam de explicação. Outras são misteriosas, como é o caso desta que tratamos hoje. Que outros quinhentos serão esses?

Fosse feita anos atrás, uma busca desse tipo seria trabalhosa. Precisava conversar com os mais velhos, perguntar ao professor de Português, ir até a casa de um amigo que tivesse a Enciclopédia Barsa – mas ir com disposição pra passar a tarde consultando os intermináveis 22 volumes. Era complicado, mas tinha uma vantagem: achada uma resposta, a gente se contentava. Era aquela, e não se falava mais nisso.

Hoje mudou. Em três rápidos cliques, encontram-se respostas. O problema é que surge logo uma dúzia de explicações, que nem sempre têm a ver uma com a outra. O engraçado é que tem gente incapaz de transmitir com as próprias palavras aquilo que leu; então, num rápido exercício de copiar/colar, apanham parágrafos inteiros e apresentam como se fosse obra sua. Curioso. O resultado é a multiplicidade de pistas, umas mais consistentes, outras menos.

Uma origem, apresentada por alguns como legítima, é a história engraçada de um trapaceiro que chega a uma cidadezinha e, com sua lábia, acaba enganando o padre, o fazendeiro, o dono da venda. E consegue extorquir 500 (reais, cruzeiros, milréis, como queira) deles. A historieta é engenhosa, mas não convence. Como é que uma piadinha que quase ninguém conhece havia de se transformar em expressão popular tão arraigada?

Outra origem – esta, mais consistente – situa a origem da expressão nos tempos medievais, uns 700 anos atrás. Encontrei um bocado de gente fina sustentando esta explicação. Naqueles tempos, a nobreza formava casta superior, cujos membros escapavam à lei comum. Até para punir delito de injúria, a pena variava conforme o ofendido pertencesse à nobreza ou ao povão. Quem ofendesse gente simples pagava 300 soldos de multa; se ofendesse barão, duque ou marquês, o descuido ia lhe custar 500 soldos(*).

Acontece que o pagamento da multa não livrava o ofensor de futuros arroubos. Caso escorregasse e reincidisse, pagava nova multa: eram outros 500. A história parece um tanto esquisita, mas é o que encontrei. Quando topam com uma explicação dessas, meio tortuosa, os franceses dizem que foi «tirée par les cheveux – puxada pelos cabelos». Ai, meu couro cabeludo!

(*) O soldo
Durante toda a Idade Média, antes da reforma introduzida no século XV pelo rei Eduardo 1°, a unidade monetária do Reino de Portugal foi o dinheiro, nome simples mas evidente, derivado do denarius romano.

De toda maneira, na Idade Média, dinheiro não era como hoje; não havia notas e os valores não circulavam. O escambo (sistema de trocas) era o modo habitual de comerciar. Portanto, que o dinheiro se chamasse dinheiro não incomodava ninguém. Doze dinheiros valiam um soldo (do latim solidus), e vinte soldos valiam uma libra (do latim libra).

Quem se lembrou do sistema vigente na Inglaterra até 1971, antes da decimalização da moeda, acertou. A libra se dividia em 20 xelins(shillings), subdivididos em 12 pence cada um. Como no Reino de Portugal, era reminiscência do sistema romano.

Dois sustos

José Horta Manzano

Você sabia?

Primeiro susto
Se alguém, na França, lhe propuser visitar uma maison troglodytecasa troglodita, o distinto leitor não deve se assustar. Não imagine que o cicerone vá conduzi-lo a lugar não recomendável a pessoas de boa família.

Troglodita 3

A língua francesa atual reserva o adjetivo troglodita para construções – em geral habitáveis, mas não necessariamente – que têm a particularidade de serem escavadas no flanco de parede rochosa. Corresponde ao que, na Espanha, chamam cueva. Têm a particularidade de manter temperatura constante ao longo do ano.

Troglodita 2

Ideal para os sem-teto medievais, abrigos desse tipo vêm sendo aproveitados para acolher turistas em busca de alojamento fora do corriqueiro. Quando bem ajeitadas, as casas trogloditas podem exibir charme incomum.

Na Idade Média, até castelos trogloditas foram construídos. Em vales estreitos, o aproveitamento da parede rochosa fazia ganhar espaço. Era prático: os fundos do imóvel já estavam prontos, só faltava construir a frente. Duro mesmo devia ser a escavação no muque para acrescentar um cômodo, quando a família crescia.

Segundo susto
Falando ainda da França, se alguém se apresentar como personne ordinairepessoa ordinária, não tome isso como sincericídio de criminoso. No francês de hoje, tudo o que não for extraordinário é ordinário. Portanto, ordinário significa comum, corriqueiro, usual. A pessoa que se qualifica como ordinária está simplesmente informando que é pessoa comum, sem atributos especiais.

Croissant 1

Se você entrar, por exemplo, numa boulangerie e pedir um croissant, virá a pergunta incontornável: beurre ou ordinaire? – de manteiga ou comum? Encomende o que lhe apetecer. No entanto, gordura por gordura, mais vale ficar com o de manteiga. Já que o destino é engordar, que seja com mais gosto.

Madame ou mademoiselle?

José Horta Manzano

Você sabia?

Por mais que se considerem progressistas, os franceses são bastante conservadores. Na hora de dirigirem a palavra uns aos outros, a coisa fica evidente. Há dois níveis de tratamento: tu e vous, ambos da segunda pessoa.

O tu, mais íntimo, é utilizado em família, entre camaradas de escola, entre adolescentes. É usado também no âmbito de associações sindicais. Fora disso, denota uma intimidade que pode soar forçada. Quando se diz tu a alguém com quem não se tem intimidade, o tratamento soa artificial, obrigatório. Quanto ao vous, mais formal, usa-se nos demais casos – a maioria.

O uso da terceira pessoa, em voga até um século atrás, é hoje considerado preciosismo démodé. Simbolizava um excessivo respeito que já passou de moda. Frases como «Madame est servie» (A senhora está servida = o jantar está na mesa), dita por serviçais, só é ouvida hoje em dia em filmes históricos. De toda maneira, poucos são os que ainda se podem dar ao luxo de pagar empregados domésticos.

As regras de uso de tu e de vous são muito rígidas. Há casos, comuns por aqui, que deixariam qualquer brasileiro boquiaberto. Suponhamos que um seu colega de escritório ocupe a mesa ao lado da sua. Se a empresa não for uma startup, você e seu colega perigam passar 20 anos sentando-se todos os dias um ao lado do outro e chamando-se reciprocamente de vous seguido do nome de família. Bonjour, Monsieur Dupont! Bonjour, Monsieur Dubois! Esquisito para nós, não? Imagine só: Bom dia, senhor Silva! Bom dia, senhor Souza! Parece filme mal dublado.

Se o ambiente de trabalho for menos rígido, talvez você se sinta autorizado a chamar seu colega pelo nome. Nesse caso, teremos: Bonjour, Jean! Bonjour Paul! Mas não se engane: Jean e Paul continuarão a se dizer vous até o fim dos tempos. Jamais ousarão transpor o muro invisível que retém cada um e o impede de entrar na intimidade do outro.

O que acabo de descrever é o caso genérico, representativo do estado de espírito mais disseminado. Evidentemente, há situações particulares em que o relacionamento pode funcionar de outra maneira.

Fora da intimidade, um homem será sempre chamado Monsieur. Pouco importa se é casado ou não, será sempre Monsieur. Já o mesmo não ocorre com uma mulher, não me pergunte por quê. Chegada à idade adulta, ela se apresentará como Madame, se já for casada, ou como Mademoiselle, se não o for. E assim será chamada. Atenção: esse termo de tratamento será sempre seguido pelo sobrenome, nunca pelo nome. Se não, fica parecendo nome de vidente ou daquelas que os antigos chamavam «mulheres de vida fácil».

Mas o tempo passa e os costumes mudam. Faz anos que movimentos feministas denunciam a flagrante diferença de tratamento entre homens e mulheres. Por que todos têm de ficar sabendo se uma mulher é casada ou não? Por que os homens escapam a toda inquirição sobre seu estado civil?

Depois de muita luta, senhoras e senhoritas conseguiram uma lei para acabar com essa diferença. Foi votada em 2013. No entanto, uma lei não consegue mudar mentalidades da noite para o dia. Não se pode proibir que formas consagradas por séculos de uso popular desapareçam por encanto. O que o novo regulamento determina é que, nos documentos oficiais, seja abolida a diferença entre casadas e solteiras. Todas as mulheres serão chamadas Madame.

Isso vale para o Imposto de Renda, a conta de eletricidade, o IPTU, documentos de identidade, passaporte, carteira de motorista, enfim, tudo o que for documento oficial. Na vida prática, no entanto, os velhos costumes resistem e não vão mudar tão já. Para fazer evoluir as mentalidades, ainda vai levar um tempinho. Modos de pensar não se mudam por decreto.

Publicado originalmente em 2 jan° 2013.

Voto no bico de pena

José Horta Manzano

Você sabia?

É difícil dizer se os brasileiros sabem ou não votar. Taí um conceito de geometria variável. Quando elegem candidato que nos é simpático, concordamos que, sim, amadureceram e aprenderam a votar. Ao contrário, quando votam maciçamente em quem não nos agrada, afirmamos que são todos ignaros, atrasados, que ainda vivem na Idade da Pedra Lascada. Como vemos, a etiqueta de «bom eleitor» é elástica.

No Brasil, antes de 1932, votava-se no bico de pena. O voto não era secreto. Cada eleitor escrevia o nome do candidato preferido num grande livro e assinava ao lado, à vista de todos. Há que reconhecer que a transparência era absoluta, o que praticamente impossibilitava fraude na apuração. Em caso de litígio, lá estava o livro com o nome de cada votante seguido pelo do candidato escolhido. Se precisasse, bastava recontar.

Por seu lado, num Brasil ainda mais estratificado que o de hoje, como escapar à ordem do patrão, do coronel, do poderoso do lugar? Cada um era livre de votar em quem quisesse… desde que votasse no candidato do dono do pedaço. E ai de quem ousasse desobedecer!

Embora hoje o voto secreto nos pareça natural e evidente, nem sempre foi assim. Quando veio, significou conquista grande. Nosso país adotava o voto pessoal, livre e secreto com 20 anos de atraso com relação à França. Mas há que relativizar. Vinte anos, naquela época, não era tanto tempo assim.

Voto de cabresto

Adotado o segredo eleitoral, o voto ‘no bico de pena’ desapareceu. O Brasil enterrou, pelo menos em princípio, o ‘voto de cabresto’, aquele em que o cidadão era forçado a seguir as ordens do mandachuva local. Assim mesmo, ainda hoje se fala em ‘compra de votos’, prática difícil de controlar. Como ter certeza de que o eleitor ‘comprado’ realmente cumpriu o acordo?

É possível que, em lugarejos pequeninos, o dono do pedaço terrorize seus súditos dizendo-lhes, por exemplo, que tem meios de ficar sabendo em quem cada um votou. Com eleitores muito simples, é capaz de funcionar. Portanto, embora não se fale muito no assunto, o ‘voto de cabresto’ não só sobrevive como tem dias promissores pela frente.

O sistema eleitoral francês guarda, em certa medida, semelhanças com o brasileiro. Mas diverge fortemente em algumas particularidades. Uma especificidade de lá, dificilmente encontrada em outras terras do globo, é o voto por procuração. O eleitor que não puder (ou simplesmente não quiser) se deslocar até a secção eleitoral pode dar procuração a outra pessoa para votar em seu nome. As formalidades são simples: basta anunciar com antecedência à autoridade eleitoral por meio de formulário adequado. As exigências também são básicas: o procurador deve ser maior, cidadão francês e residente no mesmo município.

É verdade que, para coibir abusos, cada procurador só pode receber mandato de um único eleitor. Em outros termos, ninguém pode votar no lugar de vários eleitores ausentes. Assim mesmo, essa prática soa bizarra. Quem garante que o eleitor que vota em nome de um terceiro não terá obtido a procuração por meio de coação?

Francês adora reclamar. Todos exprimem opinião sobre qualquer assunto, mesmo sobre matérias que desconhecem ‒ parece uma obrigação incontornável. Pois acredite o distinto leitor que, até hoje, nunca ouvi ninguém se levantar contra o princípio do voto por procuração. É sinal de que ninguém enxerga aí nenhum inconveniente. Vasto mundo…

Publicado originalmente em 6 maio 2017.

Ignorância de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

A impressora de tipos móveis, desenvolvida na Europa por Johannes Gutenberg, apareceu por volta de 1450. Na década de 1530, a imprensa chegou à América Espanhola – ao México, mais precisamente. Antes de 1540 já circulavam panfletos e outros avisos impressos.

Quanto à colônias portuguesas da América, as ordens de Lisboa eram claras: proibição absoluta de imprimir fosse o que fosse. Portanto, no Brasil não havia impressoras. Livros, os poucos que havia eram trazidos da metrópole. A informação e a cultura não circulavam.

Foi preciso que Napoleão desse uma ajudazinha. Quando suas tropas apontavam na esquina e se preparavam para ocupar Lisboa, a família real pôs o rabo no meio das pernas e escapou rapidinho. Partiram para o Brasil levando armas, bagagens e tudo o que de precioso possuíam.

Ao aportar no Rio de Janeiro, o rei João VI se deu conta do atraso em que vivia a colônia. Achou que fazia falta pelo menos um jornal. Mandou vir uma impressora de Portugal, o que permitiu o aparecimento do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro. Haviam-se passado 300 anos da chegada de Cabral.

Esse descaso, sozinho, não é a causa da pouca familiaridade do brasileiro com as letras; mas certamente não ajudou a assentar a cultura nacional em bases sólidas.

Propaganda

José Horta Manzano

Você sabia?

O Ministério das Comunicações está sendo recriado. Más línguas predizem que será, na verdade, o Ministério da Propaganda de doutor Bolsonaro.

A palavra propaganda, que 9 entre 10 línguas adotaram tal e qual, sem mudar nem uma letra, tem origem curiosa. É substantivo que provém de um gerundivo latino. Embora não seja a única a ter seguido esse caminho, suas congêneres vieram por via erudita (o formando, o educando) ou são de uso jurídico (o considerando, o adendo, o alimentando). Já propaganda entrou por via religiosa e instalou-se na língua nossa de todos os dias. Está aqui a história.

A publicação do protesto do monge alemão Martinho Lutero, consignada em 95 teses pregadas no ano de 1517 na porta da catedral de Wittenberg, levantou um tsunami na Europa. Lutero, sem ter tido intenção, acabava de dar início a um cisma que perdura até hoje e que divide o cristianismo ocidental entre católicos e protestantes.

Naquele início dos anos 1500, as potências dominantes eram a Espanha e Portugal, que tinham partilhado os territórios da América – e as riquezas que vinham das novas colônias. A Igreja, preocupada com o avanço do protestantismo, obteve dos reis de Espanha e de Portugal a garantia de que, nos territórios americanos, o catolicismo seria defendido.

Palazzo di Propaganda Fide
Piazza di Spagna, Roma

Um século mais tarde, as riquezas americanas já davam sinais de exaurimento. Empobrecidos, Espanha e Portugal não tinham mais condições de prover à defesa vigorosa do catolicismo em suas colônias. Preocupada, a Santa Sé decidiu agir. Uma bula emitida em 1622 pelo papa Gregório XV criou a Sacra Congregatio de Propaganda Fide – Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (*).

É difícil especular como teriam sido as coisas se a Propaganda Fide não tivesse sido insituída; é de notar que as colônias americanas da Espanha e de Portugal mantêm até hoje contingente pequeno de adeptos do protestantismo. Talvez isso se deva ao trabalho da Congregação. Os protestantes se concentram nas antigas colônias inglesas (EUA e Canada), povoadas principalmente por imigrantes do norte europeu.

Faz meio século, a Sacra Congregatio de Propaganda Fide mudou de nome. Passou a ser conhecida como Congregação para a Evangelização dos Povos. A sede continua ocupando o mesmo imóvel da Piazza di Spagna (Roma), onde a Congregação se instalou 400 anos atrás. O imóvel tem estatuto de possessão extra-territorial do Vaticano. Leva até hoje o nome de Palazzo di Propaganda Fide – Palácio da Propaganda Fide.

(*) Propaganda fides = a fé que deve ser propagada; a fé a difundir-se; a fé a ser espalhada.

Quanta fronteira!

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando se pensa em fronteira, vem logo a imagem de um quiosque à beira da estrada, guarda uniformizado e armado, apresentação de passaporte, revista de bagagem. É isso, sem dúvida, mas não só. Além de confins terrestres, os países têm também fronteiras marítimas. Não são visíveis, mas estão lá. Delimitam a zona de exploração marítima exclusiva de cada nação.

Com exceção dos países sem saída para o mar e daqueles situados em ilhas sem vizinhos próximos, os demais têm fronteiras marítimas. O Brasil não dispõe de territórios ultramarinos; por isso, suas fronteiras marítimas são poucas, apenas duas: com a França (Guiana Francesa) e com o Uruguai. Dado que, com esses dois países, temos também fronteira terrestre, nosso total de vizinhos de parede não se altera: dá 10 no total.

Há particularidades exóticas. A Argentina, por exemplo, faz fronteira (marítima) com o Reino Unido na altura das Ilhas Falkland (Malvinas). Portugal encosta no Marrocos, a Itália beija a Tunísia e a Turquia está colada em Chipre. Embora estejam distantes um do outro, a Costa Rica e o Equador têm fronteira marítima comum, por causa das Ilhas Galápagos.

Zonas exclusivas de exploração marinha
e fronteiras marítimas

Há um país – caso único no mundo – que, entre terrestres e marítimas, faz fronteira com 34 países! E esse país não são os EUA. Trata-se da França. São resquícios de um tempo em que seu poderio era bem maior que hoje. Subsistem pequenas ilhas espalhadas ao redor do planeta. Além da metrópole europeia, a França tem territórios no Caribe, na América do Norte, no Atlântico Sul, no Pacífico, no Índico. A lista de vizinhos é pra ninguém botar defeito:

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Pra terminar, é interessante notar que o Brasil não é o único país não contíguo com o qual a França faz fronteira. Eles têm outros dois vizinhos situados longe do território nacional: a Venezuela (pela Guiana Francesa) e a Holanda (na ilha binacional de St.Martin, Caribe).

Caladão – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

by Tiff, desenhista da França

Ministro vem do latim minister, derivado de minus (= inferior).

Em oposição, temos magister, de magis (=superior).

Magister deu mestre, aquele que ensina.

Ministro é funcionário inferior, que cumpre função por ordem de outrem.

Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Uma dúzia de anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
clique para ampliar

Atualmente, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.

Artigo publicado originalmente em 14 março 2018.

As três vacas

José Horta Manzano

Você sabia?

O tratado mais antigo da Europa foi firmado em 1375. Continua em vigor há quase 650 anos. Na época em que foi assinado, os países ainda não existiam da forma como os conhecemos; os Estados não tinham meios de exercer soberania sobre todo o território. Muitas das atribuições de um governo central ficavam por conta de pequenas autoridades locais.

Os Montes Pireneus marcam a fronteira entre França e Espanha. Por ali, em altitudes acima dos mil metros, a água escasseia e as nascentes são raras. Desde que domesticou bovinos e caprinos, o homem tem absoluta necessidade de água para matar a sede dos animais que são levados a pastar. Dois mil anos atrás, já se tem notícia de rusgas e conflitos motivados pelo acesso à água.

Em certo trecho da cadeia de montanhas, de um lado fica o Béarn (região francesa) e do outro a Navarra (região espanhola). Entre os dois, aqueles montes pontudos. Lindos, mas semiáridos. No verão, pastores dos dois lados levam o rebanho a pastar a erva abundante lá no alto. Na região, só há uma nascente – pomo de discórdia que, desde sempre, azucrinou a existência de todos.

Junto ao marco fronteiriço: três prefeitos franceses (de faixa) e três espanhóis (de sombrero preto).

No começo dos anos 1370, numa briga feia pela água, um pastor espanhol matou um pastor francês. Seguiram-se anos de violência generalizada, vinganças, emboscadas, assassinatos. O horror chegou a vitimar 300 pessoas de cada lado da fronteira, uma hecatombe regional. Numa batalha importante, os franceses perderam o chefe e acabaram entregando os pontos e debandando. Os bispos da região decidiram que era hora de pôr um fim à barbárie.

Costuraram o tratado popularmente conhecido como Tributo das Três Vacas. Ficou combinado que, todos os anos à mesma época, os pastores franceses entregariam aos espanhóis três vacas de 2 anos de idade, em perfeita saúde. Passaram os séculos, houve revoluções, alianças se fizeram e se desfizeram, houve guerras mundiais, ditaduras viraram pó, e… o Tributo das Três Vacas continua de pé. Aliás, foi oficialmente reconhecido e confirmado em meados do século 19 pelo Estado Francês e pela Coroa Espanhola.

Religiosamente, no dia 13 de julho de cada ano, três prefeitos de vilarejos franceses e três do lado espanhol se reúnem junto ao marco fronteiriço n° 262 para a cerimônia de entrega das três vacas. Foi-se o tempo em que os pastores da região se matavam por uma nascente; mas a tradição ficou, como uma página da história local que os habitantes insistem em não virar. O Tributo das Três Vacas está inscrito no Inventário do Patromônio Cultural Imaterial da França.

Alhos e bugalhos

José Horta Manzano

Você sabia?

Certamente todos já usaram, alguma vez, a expressão «alhos com bugalhos». Juntamos essas duas palavras para exprimir coisas disparates. «Não misturar alhos com bugalhos» ‒ é o que se ouve de costume. Mas… o distinto leitor saberia dizer o que são bugalhos? Atenção: o desafio só vale para brasileiros. Portugueses conhecem a resposta.

Pois é, alho, todo o mundo sabe o que é. Mas aposto que poucos de vocês se terão preocupado em conhecer o significado de bugalho. Na verdade, uma palavra não tem relação nenhuma com a outra. Estão aí justapostas só pra dar rima. Mas vamos ao significado.

Bugalho em folha de carvalho

O carvalho, árvore comum em regiões de clima temperado, é praticamente inexistente no Brasil, o que explica que o termo seja desconhecido. O bugalho é uma excrescência ‒ uma doença, pode-se dizer ‒ que aparece na folha de uma árvore, especialmente na do carvalho, quando picada por determinado tipo de inseto ou de parasita. Para quem nunca viu, imagine uma noz moscada. O bugalho tem aspecto semelhante.

Os franceses dão a essa bolinha o nome de noix de galle ‒ algo como «noz gálica». Dela se extrai o ácido gálico, que foi usado, durante séculos, em tinturaria.

Por extensão, os portugueses dão o nome de bugalho ao que conhecemos como bolinha de gude. No Brasil, a ausência de carvalhos e de bugalhos faz que o povo desconheça o significado da palavra.

Bolinha de gude, conhecida como bugalho em Portugal

Em compensação, permanece viva na língua brasileira de todos os dias a expressão «olhos esbugalhados», com o significado de olhos muito abertos, arregalados, redondos como dois bugalhos. Certos casos de cirurgia estética mal sucedida dão como resultado uma infeliz criatura com olhos permanentemente arregalados. Um perigo.

É interessante como a gente pode passar a vida usando palavras sem conhecer o sentido.

Artigo publicado originalmente em 24 abril 2017.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, os grandes profissionais especializados eram dois: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os petrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais maiores, praticamente todos os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, a tradição mandava que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era a forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra sustentado por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada podia ser habitada. Era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição entre duas águas.

Artigo publicado originalmente em 8 out° 2017.

Emergência no avião

José Horta Manzano

Você sabia?

Mayday
Em todo filme em que um avião descontrolado está prestes a cair, o piloto berra ao microfone: “Mayday! Mayday!”. Nem todos conhecem a origem da estranha expressão. De onde virá? Que significa na origem? Em inglês, traduzindo ao pé da letra, dá «dia de maio», conjunto de palavras sem sentido.

A explicação é que a expressão não foi criada na língua inglesa. O curioso Mayday é aproximação fonética, para ouvidos anglo-saxônicos, de uma expressão francesa. O original é: «Venez m’aider» ‒ venham me ajudar. Como pode não dar tempo, na emergência, de pronunciar a frase inteira, ficou combinado truncar e dizer somente «m’aider», que soa «mayday» em inglês. Portanto, Mayday é «me ajude». Ou «ajude-me», vai do gosto do freguês. Se a expressão francesa tivesse sido adaptada a nossa fonética, teríamos: «medê», palavra que também não tem significado. Dado que, em inglês, os sons vocálicos são quase todos ditongados, ficou «mayday».

Pouco importa o sotaque, o importante é que todos os profissionais ligados à aeronáutica conheçam o desesperado pedido de socorro. Na aviação, pilotos, controladores, tripulação e todos os outros sabem que, uma vez irradiado, não é como no cinema: esse código tem de ser levado a sério.

Pan-pan
O curioso ‘mayday’ não é a única expressão francesa usada pra pedir ajuda na navegação marítima e aérea. «Pan-pan» é outra, derivada do francês «panne-panne». Como fica evidente, informa que há pane a bordo. Tem menos força que Mayday. Pode indicar, por exemplo, que um passageiro está passando mal e precisa de assistência médica. «Pan-pan» também tem de ser pronunciada três vezes. É seguida obrigatoriamente de explicação.

Seelonce
Há outros chamados decalcados da língua francesa. Por exemplo, o surpreendente «Seelonce», transcrição de «Silence», um pedido para que outros usuários se abstenham de utilizar a mesma frequência de rádio. Um pedido de emergência absoluta pode ser anunciado como «Seelonce Mayday». No final, para informar que a frequência está de novo liberada, o código é «Seelonce Feenee», transcrição inglesa de «Silence fini» ‒ acabou o silêncio.

Como é possível que subsistam expressões francesas num universo ultradominado pelo inglês? É que não foram introduzidas hoje. Vêm de um tempo em que a aeronáutica estava mais desenvolvida na França do que em outros países.

Inspirado em post de 2 dez° 2016

O vírus vem do morcego?

José Horta Manzano

Você sabia?

O professor Luc Montagnier foi agraciado em 2008 com o Nobel de Medicina por seus trabalhos que, em 1983, tinham levado à descoberta do VIH, o vírus da aids.

Espírito turbulento, o professeur é chegado a uma polemicazinha. Volta e meia, apoia alguma tese ousada, daquelas que encontram resistência por parte da ciência oficial. No começo dos anos 2000, por exemplo, emprestou seu prestígio à defesa de um cientista francês que afirmava que a água tinha uma espécie de memória – realidade difícil de ser comprovada. Naturalmente, a tese foi rechaçada com vigor por uma indignada comunidade científica. É por isso que convém desconfiar quando o professeur vem com mais uma das suas.

Um site francês dedicado à medicina publicou em 16 de abril uma entrevista com Luc Montagnier, na qual ele dá opinião ousada sobre a origem do SARS-CoV-2, nome técnico do coronavírus que assola o planeta. Fala com a autoridade de quem já dirigiu um instituto de pesquisa em Xangai, na China.

Docteur Montagnier formula a hipótese de que a epidemia tenha tido início com o escape acidental de uma cepa de vírus que estava sendo manipulada num laboratório de Wuhan no âmbito de uma pesquisa de vacina contra aids.

Visto o histórico de tomadas de posição polêmicas do professeur, a mídia francesa não deu grande importância; e a internacional, menos ainda. Assim mesmo, a hipótese não deve ser descartada sem análise. Se bem que a missão é quase impossivel, dado que, ainda que a tese fosse verdadeira, Pequim dificilmente reconheceria o acidente. Transparência não é o forte de nenhum regime autoritário.

Quem havia de ficar feliz com a notícia são os bolsonarinhos e os associados do gabinete do ódio. A tese fortalece a narrativa de um “vírus chinês”, (que é como eles se referem ao coronavírus), criado e espalhado pra dar uma rasteira no mundo e impulsionar a dominação chinesa. Mas nenhum deles vai ler . Estão demais ocupados a arquitetar ruindades e tuitar boçalidades.

Eleições na França

José Horta Manzano

Você sabia?

Em matéria eleitoral, o mundo político francês está vivendo momento de embaraço. As eleições municipais, que ocorrem a cada 6 anos para escolher vereadores e prefeitos, estavam marcadas para o domingo que passou. Uma semana antes, como o coronavírus já se alastrava pelo país, levantou-se um vozerio sobre a manutenção ou anulação do pleito. De fato, ficava esquisito o governo central determinar que todos evitassem sair de casa e, ao mesmo tempo, encorajá-los a ir votar.

Um comitê de crise foi criado às pressas no mais alto nível. Após se aconselharem com médicos, técnicos, especialistas e todos os que entendem do assunto, decidiram manter a eleição. Mas com algumas condições.

1) Cada eleitor deveria trazer a própria caneta pra assinar a folha de presença;

2) Nas filas de espera, deveria ser respeitada distância de 1 metro entre votantes;

3) Os maiores de 70 anos teriam prioridade;

4) Frascos de álcool gel estariam à disposição para uso de todos.

E assim foi. A votação correu bem, apesar da abstenção recorde de mais de metade do colégio eleitoral. Dos 35 mil prefeitos, 30 mil foram eleitos no primeiro turno – geralmente em municípios pequenos. Para os 5 mil restantes, os eleitores deveriam voltar às urnas no domingo seguinte.

Acontece que, em poucos dias, a propagação da doença foi geométrica. Todos perderam a coragem de enfrentar fila e puxar uma cortininha que dezenas de mãos já haviam puxado. (Na França, não se vota em traquitana eletrônica, mas com tradicionais cédulas de bom papel; daí a cortininha.)

Que fazer? De novo, reuniu-se o comitê de crise. As consultações apuraram que os chefes de todos os partidos estavam de acordo de adiar o segundo turno. A situação era inédita, coisa nunca vista. E como é que fica quem foi eleito no primeiro turno? Anula-se a eleição? A decisão foi salomônica. Os eleitos no primeiro turno têm a vitória garantida. Os demais terão esperar três meses. A nova votação se fará dia 21 de junho – ou mais tarde, dependendo do estado de contaminação do país.

Está armada uma baita confusão. Nos municípios em que o novo prefeito já foi definido, a cerimônia de tomada de posse pode ser, em princípio, programada. Terá de ser virtual, sem público, para evitar alastramento do vírus. Quanto às demais localidades, mandato de prefeito e vereadores terá de ser prolongado por decreto excepcional.

«Aux grands maux, les grands remèdes – a grandes males, grandes remédios».

Scherzo

José Horta Manzano

Você sabia?

clique para ampliar

Está aqui um quadro interessante. Traz a altura (corporal) de alguns figurões. Não sei quem é o autor, mas merece parabéns pelo esforço. Não é tarefa fácil coletar imagem desse pessoal, todos na proporção justa, alinhá-los, identificá-los. Quanto a mim, só tive de traduzir pés e polegadas em centímetros.

Os personagens antigos (Churchill e Hitler) são figuras históricas que cabem em qualquer comparação. Os demais eram os grandes de então – esse “então” há de ter sido uns dez anos atrás.

Pra que serve o quadro? Pra nada. È uno scherzo – é uma brincadeira. Bom domingo para os que já estão confinados em casa e para aqueles que logo estarão.

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

    • O pai desconfiava que o filho não fosse seu;
    • O bebê apresentava um defeito físico;
    • A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;
    • A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2

Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava em torno de um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4

Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, também no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1

A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um detector de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6

Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado, quando recém-nascido, na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. O sobrenome tem variantes (Esposto, Esposti, Espositi) e é particularmente presente na região de Nápoles.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Publicado originalmente em 3 fev° 2016.

Lula no palanque

José Horta Manzano

Você sabia?

Daqui a dez dias, como fazem a cada 6 anos, os eleitores franceses vão às urnas eleger vereadores e prefeitos. Apesar do protagonismo do coronavírus estes dias, a campanha corre solta, com beliscões, mordidas, acusações, revelações, golpes baixos.

Naturalmente, a disputa pela prefeitura de Paris atrai o interesse da nação inteira. Há já seis anos, a capital é governada pela franco-espanhola Anne Hidalgo, nascida Ana Maria Hidalgo Aleu. Ela nasceu na Espanha mas foi, ainda pequena, para a França, para onde a família emigrou. Perfeitamente bilíngue espanhol-francês, cresceu no país de adoção e naturalizou-se. Sempre militou no PS – Partido Socialista.

Madame Hidalgo concorre à reeleição. Sua mais recente jogada, que deixou boquiabertos e indignados os adversários, foi chamar Lula da Silva para dar uma forcinha em sua campanha. Ontem de manhã, valendo-se dos poderes que lhe confere o cargo de prefeita, Madame Hidalgo convidou-o para uma cerimônia oficial em que lhe concedeu o título de cidadão honorário de Paris. Horas mais tarde, nosso ex-presidente aparecia ao lado da prefeita num comício eleitoral. E não foi à festa sozinho: levou Dilma e Haddad.

Lula, Dilma e Haddad com a prefeita de Paris
2 março 2020

Os adversários de Madame Hidalgo chiaram. Disseram que não é normal ela gastar dinheiro público convidando gente e organizando cerimônias com a única finalidade de alavancar a própria candidatura.

No fundo, eles têm razão. Mas o que ela fez não é proibido; só pega mal. Quanto a nós, o importante é que nossos dois ex-presidentes, assim como doutor Haddad, não venham se servir na arca da Receita Federal para financiar viagens particulares. Acredito que não seja mais o caso. Além do que, o polpudo salário que se paga aos ex-presidentes dá pra essas ninharias.

Curiosidade
Nestas eleições francesas, uma centena de municípios não têm candidatos nem a prefeito, nem a vereador. Visto do Brasil, parece estranho. Como é que é?

O fato é que, num município pequeno, o salário é baixo e o trabalho, puxado. O prefeito funciona como padre no confessionário: tem de ouvir os problemas de cada um, resolver todos os conflitos, estar de prontidão o tempo todo. E, no final, o salário é baixo, não compensa.

Na França, salário de prefeito não é decidido em cada município. É fixado por lei nacional e varia de acordo com a população. Alguns exemplos:

Vilarejos de menos de 500 habitantes: 661,20 euros

Vilarejos entre 500 e 999 habitantes: 1.205,71 euros

Cidadezinhas entre 1000 e 3499 habitantes: 1.672,44 euros

E assim por diante, aumentando pouco a pouco, até chegar ao mais bem pago, o prefeito de Paris, que recebe 9.207 euros por mês.

Note-se que o salário mínimo em 2019 estava em 1.521 euros. É fácil entender que somente prefeito de cidade grande pode dar-se ao luxo de não ter outra atividade. A imensa maioria dos eleitos, depois de empossados, continuam a exercer sua profissão.

Quem quiser saber mais sobre o salário dos prefeitos franceses deve clicar aqui.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século XX, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China painting

O Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda de Pequim. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O príncipe tinha duas missões: por um lado, buscava firmar acordos comerciais; por outro, tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, a Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a totalidade da península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. É por isso que, no mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque o francês é apelidado de frog (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então os dois que reproduzo acima. A China está localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Nota
Embora representem variedades do mesmo animal, os termos sapo, e perereca são intercambiáveis no falar brasileiro.

Artigo publicado originalmente em 15 jan° 2014