Os descendentes de Jacó

José Horta Manzano

Você sabia?

A tradição hebraica, atestada pela Gênese ― um dos livros que compõem o Antigo Testamento ― ensina que, muitos anos antes de nossa era, viveu Yakov. Neto de Abraão, filho de Isaac e de Rebeca, é patriarca bíblico.

Acreditam alguns que seu nome derive de uma palavra significando calcanhar, dado que Yakov teria nascido agarrado ao calcanhar de Esaú, seu irmão gêmeo. Afirmam outros que o termo poderia ter o sentido de suplantar, numa alusão ao prato de lentilhas que Yakov deu ao irmão para conquistar os direitos que correspondem à condição de primogênito.

Embora a gente não se dê conta à primeira vista, está aí um dos nomes mais comuns no planeta. Sua propagação foi impressionante. Teve início com a conquista dos territórios do Oriente Médio pelos romanos. Os invasores, sabe-se lá por que razão, apreciaram o nome e logo trataram de latinizá-lo. O original Yakov assumiu a forma Jacobus. Mais raramente, aparecem também alguns Jacomus.

Passaram-se alguns séculos. A expansão do cristianismo por toda a Europa, aliada ao fato de numerosos Jacobus terem sido santificados, fez que o nome se alastrasse pelo continente. O passar do tempo se encarregou de adaptá-lo ao vernáculo de cada região.

Em algumas línguas, o antigo Yakov mantém-se ainda bem próximo da forma original. Em outras, contudo, sofreu importantes transformações gráficas e fonéticas que o tornaram quase irreconhecível.

Assim, encontramos hoje, em praticamente todas as línguas europeias, filhotes de Jacó. Dou-lhes abaixo uma lista. Ela está longe de ser exaustiva. Apreciem a diversidade de descendentes do Jacó bíblico.

Bible
Inglês:
Jacob, Jakob, Jake, Jack, Jackie, Jock, Cobb, Cobby, Jeb, James, Jim, Jay, Jimmie, Jamie

Alemão:
Jakob, Jakobus, Jeckel, Jockel, Jocki, Jakel, Kobi, Köbes

Francês:
Jacques, Jacob, Jacquot

Espanhol:
Jacobo, Jaime, Diago, Diego, Iago, Santiago
(Santiago é contração do nome do santo. Sant’Iago = Santiago)

Catalão:
Jaume

Sueco, dinamarquês e norueguês:
Jakob, Jacob

Italiano:
Giacobbe, Giacobbo, Giacomo

Húngaro:
Jakab, Jákób, Jákó, Jakus

Occitano:
Jacme, Jaume

Polonês:
Jakub, Kuba, Kubuś

Armênio:
Hagop

Russo:
Яков (= Yakov)

Grego:
Ιάκοβος (= Iákovos)

Estoniano:
Jaagup, Jaak

Tcheco:
Jakub, Jakoubek, Kuba, Kubík, Kubas, Kubis

Letão:
Jekabs

Finlandês:
Jaakob

Árabe:
Yakub

Galego:
Xacobe, Xaime, Iago

Lituano:
Jokubas

Georgiano:
Iakobi

Turco:
Yakup

Ucraniano:
Яків (= Yakiv)

Albanês:
Japku, Jakup, Jakub

Napolitano:
Giacumino, Jacuviello, Jacuvo, Cuviello

Milanês:
Giàcum, Giàcumin

Piemontês:
Giàcom, Giàco, Giacolino

Curdo:
Ya’qub, Aqo

Bretão:
Jagu, Jagut, Jak, Jakez, Jakou, Iagu, Jalm

E NÓS?
Se o distinto leitor acredita que, em nossa terra, há pouca gente com esse nome, está enganado. Temos Jacó e Iago, que, é verdade, são pouco usados. Em compensação, estes últimos anos, apareceram muitos Diogos, Diegos e Tiagos. Aqui vai a explicação.

Aportuguesado, o Jacobus romano transformou-se em Jacó ou Iago, nomes muito comuns na Idade Média. O Jacomus romano deu Jaime.

Entre santos e beatos, a Igreja conta com mais de 30 Jacós. O mais importante deles é contemporâneo de Jesus. Em sua honra, uma catedral foi erigida na Espanha, numa cidade que leva o nome de Santiago (de Compostela). Hoje, como na Idade Média, muita gente vem de longe em peregrinação à catedral de lá. Santiago é a contração de Santo + Iago (= São Jacó).

Pra resumir, nossa língua guarda lembrança variada do Iakov bíblico. Temos: Jacó, Jaime, Diogo, Diego, Iago, Santiago e Tiago.

Conheço dois irmãos, um chamado Tiago e o outro, Diego. Ambos fazem parte da grande família dos tataranetos de Jacó. Carregam variantes do mesmo nome.

Publicado originalmente em 16 mar 2013.

Aceita um cálice?

José Horta Manzano

Você sabia?

Se o distinto leitor for amador de vinho, será que já provou um cálice do vigoroso tinto lituano da casta syrah? Ou do suave espumante polonês de casta pinot blanc? Ou talvez do delicioso branco sueco de casta chasselas? Por enquanto ainda é brincadeira, mas peritos em aquecimento global reunidos ontem em congresso(*) afirmam que o mapa da vinha europeia, daqui a 30 anos, será bastante diferente do que conhecemos.

Três décadas pode parecer muito tempo, mas muitos de vocês que hoje leem este escrito ainda estarão neste vale de lágrimas quando a «linha da vinha», que hoje roça o paralelo 50° Norte, tiver se deslocado para perto do paralelo 60° Norte. Falo da linha imaginária que assinala o limite além do qual, por razões climáticas, vinhedo não vinga.

Na França, vão trocar seis por meia dúzia. O sul (Bordeaux principalmente) não dará mais vinho. Em compensação, as planícies de todo o norte se transformarão em território vinícola.

VINHEDOS EUROPEUS
Hoje e daqui a 30 anos

O mais impressionante na previsão dos entendidos – posto que tenham razão – é que boa parte das atuais regiões viníferas da Europa terão desaparecido. Portugal e a Itália serão as maiores vítimas da catástrofe: não darão mais uma gota da preciosa bebida. Adeus, Chianti! Adeus, vinho do Porto! Na Espanha, apenas uma pequena região do norte, hoje fora da linha de produção, dará algumas pipas.

Em compensação, muitos vão trocar campos de cevada, tulipa, trigo e batata por vinhedos. Será o caso de países inteiros como a Alemanha, a Polônia, a Bélgica, a Holanda e os países bálticos. Até o sul da Inglaterra, da Dinamarca e da Suécia se tornarão regiões vinícolas.

Na Suécia, aliás, isso já começa a ser realidade. Campos cobertos de vinhedo já fazem parte da paisagem rural. Por enquanto, o vinho sueco é de caráter experimental e ainda não se compara com o que se produz no sul da Europa. Mas do jeito que vai o aquecimento climático, não será espantoso chegarem a fazer tintos encorpados.

Mr. Trump e doutor Bolsonaro, que têm a arrogância que só a ignorância lhes permite, podem continuar duvidando. De todo modo, daqui a 30 anos, não estarão mais aqui pra conferir. Se estiverem, estarão caducos.

(*) Refiro-me ao congresso do GIEC (Grupo intergovernamental de peritos internacionais sobre o clima), cujos aderentes se reuniram ontem em Lausanne, Suíça.

Ícaro moderno

José Horta Manzano

Você sabia?

Franky Zapata é piloto profissional de jet ski. Apesar do nome de revolucionário mexicano, o moço é francês de Marselha. Tem uma coleção de medalhas conquistadas em campeonatos nacionais e internacionais.

Acontece que Monsieur Zapata é buliçoso e criativo. Com um grupo de amigos, trabalhou duro durante anos a fim de construir o que chamou de Flyboard. O nome da geringonça corresponde ao que ela faz: é uma prancha que voa. Desde 2012, ele comercializa exemplares de seu invento.

Trata-se de uma prancha de diminutas dimensões, sobre a qual cabe apenas um homem de pé. Debaixo estão instalados os turbopropulsores. O reservatório de combustível fica… adivinhem onde? Numa mochila, nas costas do piloto. Precisa ser meio maluquinho, não?

Bom de marketing, o rapaz achou que precisava dar ao mundo um exemplo marcante do funcionamento da engenhoca. A travessia do Canal da Mancha – 35km entre França e Inglaterra – é o sonho de todos os que inventam algum objeto voador. Desde que o pioneiro Blériot atravessou o canal com seu precário avião, em 1909, muitos seguiram sua iniciativa. Nosso campeão de jet ski sentiu que tinha chegado sua vez.

Franky Zapata de ‘Flyboard’

Depois de uma tentativa infrutifera em julho, Franky Zapata conseguiu atravessar o canal neste domingo 4 de agosto. Decolou de Sangatte, uma praia na costa francesa, e pousou em St. Margaret’s Bay (Inglaterra), 20 minutos mais tarde. Voou a uma altura de 15-20 metros, a uma impressionante velocidade média de 160-170km/h. Foi acompanhado por helicópteros. No meio do percurso, um barco estava a postos, esperando por ele. Chegando lá, o aventureiro pousou por alguns segundos, só pra apanhar nova mochila. Em outras palavras: reabasteceu.

Um grupo de cinegrafistas disse adeus ao piloto quando levantou voo na França e outro grupo saudou sua chegada à Inglaterra. O engenhoso inventor já foi sondado pelo exército francês, interessado na utilidade que o Flyboard possa ter para o Ministério da Defesa.

Ainda bem que o voo experimental ocorreu antes do Brexit. Se tivesse sido depois de 31 de outubro, Monsieur Zapata poderia até ser preso assim que pisasse solo inglês. Seria processado por ter entrado no país através de passagem fronteiriça não autorizada. E era bom que tivesse o passaporte no bolso, se não ia ser ainda pior.

Para ter uma ideia de como é ver um homem voando, assista à chegada do aventureiro à praia inglesa neste videozinho de um minuto.

A small step for man

José Horta Manzano

Você sabia?

Literalmente, a máxima italiana “traduttore, traditore” quer dizer “tradutor, traidor”. Na prática, deve ser entendida como “traduzir é trair”. Muitas vezes, corresponde à realidade. Uma tradução, ainda que esmerada, pode não transmitir exatamente a intenção do autor. Isso ocorre principalmente quando o contexto é intraduzível. Por exemplo, nossa palavra saudade costuma dar dor de cabeça a tradutores, porque é difícil achar correspondente exato em outras línguas. O tradutor, nessa hora, será necessariamente um ‘traidor’, faça o que fizer.

Há casos, no entanto, em que a ‘traição’ melhora o original. Nestes dias em que se comemora o 50° aniversário do primeiro pouso de um homem na Lua, as imagens do evento vêm sendo repetidas, com insistência, por toda a mídia. No meio de um chuvisqueiro cinzento, aparece a vaga silhueta de um astronauta descendo uma escadinha e firmando o pé no solo lunar. Nessa hora, no meio de um chiado de fazer inveja a tacho de fritura de manjuba, vem a voz anasalada: «A small step for man, a giant leap for mankind».

Mr. Armstrong, o astronauta que pronunciou a frase, estava visivelmente emocionado. Apesar de ter ensaiado com afinco, atrapalhou-se na hora e pulou uma palavra. Era uma palavrinha curtinha, à toa, mas faz toda a diferença. Devia ter dito: «A small step for a man, a giant leap for mankind», que se traduz por «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade». Do jeito que ele pronunciou, sem o a, a sentença ficou aleijada, capenga. Sem o artigo, a palavra “man” deixou de significar “um homem” para designar a humanidade. Assim, a frase pronunciada foi: «Um pequeno passo para a humanidade, um salto gigantesco para a humanidade» – o que, convenhamos, fica pra lá de esquisito.

Foi aí que entraram em ação os tradutores. Desta vez, traíram. Consertaram o soluço de Mr. Armstrong. Até hoje, em toda transcrição brasileira, a frase aparece correta, bonita e com sentido. Curiosamente, os americanos preferiram manter fidelidade ao original. Pode conferir no Google. Continuam a transcrever a frase sem o pequenino a.

A aventura de julho de 1969 foi bem sucedida, mas a frase gravada no mármore da história está torta. Para todo o sempre.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Você, que vive no Sul ou no Sudeste, às vezes sente um friozinho. Mas saiba que já houve épocas bem mais geladas. Entre os distintos leitores, muito poucos hão de se lembrar do terrível inverno de 1955. Aqui vai a descrição detalhada do fenômeno extraordinário daquele ano, coisa que só acontece uma vez por século.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, mais de 60 anos atrás, tinha início a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi marcante em cinco aspectos atípicos.

1°) A extensão territorial
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sobrado cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2°) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3°) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4°) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5°) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO

Nota: Os dados que se seguem baseiam-se nos registros no Inmet

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu acima de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a máxima foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e, na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De a madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul
Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina
São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná
Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo
Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso
Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia
Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio foi intenso principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:
Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

Com informações de: Abaixodezero.com

Publicado originalmente em 26 jul° 2013

 

Greve

José Horta Manzano

Você sabia?

A palavra que utilizamos para indicar uma parada de trabalho ― organizada voluntária e coletivamente na esperança de alcançar melhora salarial ou vantagem laboral ― vem do francês. Tem longa história.

Na época em que rei detinha poder absoluto, decisões dependiam, naturalmente, de sua excelsa vontade. Na Paris do século XII, a burguesia pleiteava um espaço público adequado para cerimônias e festas. Em resumo: queriam um salão de festas ao ar livre. O rei Luís VII aquiesceu, mas impôs uma condição: exigia que, em troca, os burgueses lhe pagassem a soma de 70 libras, montante considerável para a época. Concluído o trato, um terreno às margens do Rio Sena ficou reservado para cerimônias e festejos. Era o salão de festas da alta burguesia. O rei garantiu que nunca se construiria ali.

Place de Grève em 1746 Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

Place de Grève em 1746
by Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

A proximidade do rio era bem prática. Tirando ocasiões em que era ocupado para festejos, o espaço era regularmente utilizado como atracadouro para barcaças que traziam carvão e outras mercadorias para abastecer a cidade. Grève é o nome dado pelos franceses a um terreno de pedrisco que se inclina em direção à água. Uma praia de cascalho, em suma. Daí o nome de Place de Grève ― a Praça do Cascalho.

A promessa do rei foi mantida e o enorme espaço retangular está lá até hoje. Séculos depois, a majestosa sede da prefeitura foi construída no alto da praça. O palácio acabou provocando a mudança do nome da praça. Ela passou a ser conhecida como Place de l’Hôtel de Ville ― Praça da Prefeitura. É o nome atual.

Nem só de festas viveu a Place de Grève. Execuções públicas foram praticadas lá, desde fogueiras medievais reservadas para bruxas e hereges até as primeiras cabeças guilhotinadas pelos revolucionários de 1792.

A Revolução Industrial deu nascimento às primeiras manufaturas e, em consequência, aos primeiros operários. O grande espaço que a praça oferecia era raridade na Paris de princípios do século XIX ― uma teia irregular de ruelas estreitas e malcheirosas. Assim, em pouco tempo, tornou-se ponto de encontro de homens à procura de trabalho. Donos de manufatura à cata de mão de obra passavam por lá para engajar pessoal.

Place de l'Hôtel de Ville nos dias atuais

Place de l’Hôtel de Ville
nos dias atuais

Com o passar dos anos, os operários foram-se dando conta de que, unidos, tinham mais força pra reivindicar melhores salários ou melhores condições de trabalho. A maneira mais simples e mais visível de mostrar descontentamento era deixar de comparecer ao emprego. Coletivamente, de preferência. A Place de Grève encontrou vocação nova: tornou-se ponto de agrupamento dos que se recusavam a trabalhar em razão de alguma reivindicação.

A praça acabou emprestando seu nome à novidade. A língua francesa adotou o termo grève para designar paralisação de trabalhadores. Faire la grève (=fazer a greve) é como dizem. Cada língua encontrou solução própria pra descrever o fenômeno novo. Das 30 línguas mais faladas, somente duas adotaram o termo francês: o turco e o português.

Eis por que, enquanto outros dizem huelga, sciopero, Streik, stávka, nós permanecemos fiéis ao original e não arredamos pé. Greve é greve.

Texto originalmente publicado em 21 set° 2014.

Fronteiras por atacado

José Horta Manzano

Você sabia?

O Brasil é um país grande. Ocupa praticamente a metade do subcontinente sul-americano e faz fronteira com dez vizinhos. A Rússia e a China, que têm superfície superior à do Brasil, confinam ambas com 14 países. Agora tente imaginar, distinto leitor, um país que fizesse fronteira com 34 países. Impossível? Pois esse país existe. É a França.

Bom, tem uma pegadinha aí. Quando eu disse que a França tem fronteira com 34 países, adicionei fronteiras terrestres e fronteiras marítimas. Assim mesmo, considerando somente as terrestres, a França se limita com 11 países, entre eles o Brasil. De fato, o Estado do Amapá confina com a Guiana Francesa, território francês.

Planisfério mostrando a superfície terrestre e marítima de cada país

Mas há também zonas marítimas sobre as quais um país tem soberania. Essas zonas estão na costa marítima de cada país assim como ao redor de ilhas. A região do Oceano Atlântico sobre a qual o Brasil tem soberania não faz fronteira com nenhum país. Portanto, nossos vizinhos são só dez. E pronto.

A França é dona de territórios espalhados por todo o planeta e muitos deles têm fronteira marítima com a zona de soberania de algum vizinho. Abaixo está a lista dos países com os quais a França faz fronteira.

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

Impressionante, não?

A origem da receita

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem vai ao médico, nos dias de hoje, não se dá conta de que a regulamentação da profissão ― em terras europeias e americanas ― é relativamente recente.

Da Idade Média até o século XIX, a arte de curar foi exercida por corporações disparates, tais como: homens de igreja, barbeiros, boticários, tira-dentes, curandeiros, charlatães, feiticeiras.

Prescription 2

A Revolução Francesa, entre outros feitos, tornou a sociedade consciente de que certas práticas ancestrais reclamavam por normatização. O sistema métrico, por exemplo, é fruto daquela época. Até então, havia um rosário de unidades de medida ― de peso, de capacidade, de tamanho. Pés, polegadas, quintais, braças, arrobas variavam de uma região a outra.

A Revolução, assim como normalizou as unidades de medida, apontou para a necessidade de sistematizar outros atos e procedimentos que cada um costumava, até então, executar a seu modo. A regulamentação de certos ofícios começou naquela época.

A valorização das profissões da área de saúde ― medicina, cirurgia, farmácia ― gerou, como corolário inevitável, o rebaixamento de curandeiros e feiticeiras. Barbeiros passaram a dedicar-se unicamente à pilosidade de seus clientes, deixando sangrias e extrações dentárias para profissionais habilitados.

Olho de Horus

Olho de Horus

Embora já fosse adotada esporadicamente desde o século XVII, ganhou força aquela marca de que uma receita tinha sido prescrita por um profissional. Tratava-se de um R barrado ― este aqui: .

Está em uso até nossos dias. É muito provável, distinto leitor, que o médico que cuida de sua saúde tenha guardado o que lhe ensinaram na escola e continue a marcar suas receitas com o símbolo distintivo da corporação. Preste atenção da próxima vez.

De onde vem essa, digamos assim, logomarca? Pois parece que a origem é incrivelmente longínqua. Dizem que as raízes descem até o Egito antigo. O R barrado seria a transcrição, se assim podemos nos exprimir, do hieroglifo que simbolizava o olho esquerdo de Horus, um dos deuses da mitologia egípcia.

Olho de Horus

Olho de Horus

Por que o olho esquerdo? Ih, é uma história complicada, com briga entre deuses, assassinato, esquartejamento, muito sangue. Pra resumir, saiba-se que, numa luta entre Seth e Horus, o olho esquerdo deste último foi arrancado e picado em 64 pedaços. Toth, o deus da ciência e da medicina, foi quem conseguiu dar jeito de recompor o despedaçado olho de Horus.

Seja como for, é surpreendente que milhares de médicos ao redor do planeta encabecem suas prescrições, talvez sem o saber, com símbolo forjado milênios atrás.

Publicado originalmente em 22 agosto 2014.

Da cabeça para a mão

José Horta Manzano

Você sabia?

Meus distintos e cultos leitores hão de conhecer a estranha palavra inglesa handkerchief, que corresponde a nosso lenço. Assim, de cara, o termo nem parece inglês. Leva mais jeito de ser alemão ou holandês. A palavra tem origem divertida. Vem por caminho surpreendente.

Idade Media 1Na Alta Idade Média europeia, todos andavam de cabeça coberta. Fosse de dia ou de noite, dentro ou fora de casa, cobrir a cabeça fazia parte do ritual. Mal comparando, corresponde ao telefone que (quase) todos levam hoje no bolso. Indispensável.

A raiz latina caput, que reaparece no italiano capo e no português cabeça, deu chef em francês. Para designar aquilo que cobre a cabeça, os franceses da Idade Média diziam couvre-chef – literalmente cobre-cabeça. Servia pra designar chapéu, touca, boné, pano, o que fosse.

Quando o francês Guilherme, o Conquistador, venceu as tropas inglesas na Batalha de Hastings (1066), invadiu o país com seu exército. O domínio francês abriu as portas para a francização da Grã-Bretanha. Considerados mais refinados, os costumes dos invasores passaram a ser imitados pelos autóctones. Foi assim que uma enxurrada de palavras latinas entraram no léxico inglês: por intermédio do dialeto francês falado na região da Normandia (norte da França). Entre as palavras adotadas, aparecia couvre-chef, aquele pano de cobrir cabeça.

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

Os camponeses britânicos não conheciam o acessório que hoje conhecemos como lenço. Quando necessário, faziam como faz todo jogador de futebol: assoavam o nariz nos dedos, chacoalhavam a mão com elegância e enxugavam algum eventual perdigoto na roupa. Uma finura.

Os invasores normandos, que tinham se tornado casta dominante, tinham o costume de levar sempre um pedaço de pano, que fazia as vezes de lenço. Era um notável avanço no asseio pessoal. Admirativos, os ingleses mais endinheirados logo aderiram à moda. Naturalmente, a objeto novo, dá-se nome novo. Como chamá-lo?

Tomaram a referência que lhes era mais familiar. O trapo lembrava um pano de cobrir cabeça. A diferença é que não ia em cima da cachola, mas na mão. Sem problema. Passou a ser designado como cobre-cabeça de mão, ou seja, hand couvre-chef.

O povão, incapaz de pronunciar couvre-chef, popularizou a forma handkerchief, que usamos ainda hoje. Atchim!

Publicado originalmente em fev° 2015.

Os santos de gelo

José Horta Manzano

Você sabia?

Um dos espantalhos dos agricultores da Europa centro-meridional é o gelo. Não falo do frio do inverno, quando a natureza adormecida está preparada para receber neve e temperaturas glaciais. Falo das geadas de primavera.

A partir de março, a primavera faz ressurgirem brotos e flores. Em abril, a floração das árvores chega ao máximo. Cerejeiras, macieiras, pereiras, ameixeiras, abricoteiros colorem a paisagem. No começo de maio, as flores murcham, caem e, pouco a pouco, cedem lugar aos frutos.

Nessa época, as frutinhas são ainda pequeninas e frágeis. Uma tempestade de granizo ou um frio extemporâneo pode dar cabo delas. A preocupação maior dos agricultores é a de uma geada que sobrevenha e arrase a plantação.

Desde a alta Idade Média, o povo acostumou-se a invocar a proteção dos chamados santos de gelo. São santos cuja existência é às vezes posta em dúvida mas que figuram assim mesmo na hagiografia cristã. Implora-se a eles que intercedam junto ao Altíssimo para evitar geada nesse período crítico. A partir de junho, já não faz falta invocar nenhuma entidade: o perigo já está esconjurado pela força do verão.

Conforme o país e a região, cultuam-se diferentes santos de gelo. Na maior parte da França e da Suíça, o povo pensa em São Mamerte, São Pancrácio e São Servásio, cujas festas caem dias 11, 12 e 13 de maio respectivamente. É que esta época marca o fim do perigo de geadas. Nada é garantido, mas é raríssimo que o frio volte depois da metade do mês de maio.

Regiões situadas mais ao norte preferem invocar santos cuja celebração ocorre alguns dias mais tarde. Ao contrário, territórios meridionais dirigem súplicas a santos comemorados logo no começo de maio. Cada um escolhe aqueles cuja festa coincida com a subida da temperatura.

Este ano, com invocação ou sem ela, a primavera anda meio preguiçosa. Ainda semana passada, tivemos neve alta. Os dias se alongam, é verdade. Flores já apareceram, já se foram, pássaros já procriaram e continuam cantando. Mas o sol ainda se faz raro. Chove muito. A verdade é que já não se fazem mais santos de gelo como antigamente. Ou será que o povo, imprudente, se descuidou e deixou de invocá-los?

Observação
O distinto leitor provavelmente jamais chegou a conhecer alguém chamado Mamerte. Nem Servásio. Dificilmente terá cruzado um Pancrácio. É interessante notar que a atribuição de prenome também segue moda. Em uma ou duas gerações, já dá pra notar a diferença. Nomes relativamente comuns na minha infância hoje são raridade. É o caso de Benta, Gertrudes, Porfírio, Filomeno. Mas a roda gira e costumes reaparecem. É bem capaz de Mamerte, Pancrácio e Servásio voltarem qualquer dia. Para quem for original e quiser se adiantar à moda, fica a sugestão.

Marcas duráveis

José Horta Manzano

As autoridades e o povo suíço acabam de levar um susto. A notícia cai mal, justamente num momento em que cresce a fatia do distinto público que se converteu à dieta orgânica(*), seita que se universaliza nestes admiráveis novos tempos.

Ninguém se importa em pagar mais caro por produtos chancelados com o selo bio/orgânico. Às vezes sai bem mais caro. Pra coroar, dado que ainda não há regulamentação rígida, não há definição clara do que seja esta nova classe de produtos. Que critérios devem ser respeitados para que um artigo tenha o direito de entrar na categoria? Ninguém sabe direito.

Saído estes dias, um estudo da Universidade de Neuchâtel (Suíça) revela que 90% das terras dedicadas à agricultura biológica no país estão contaminadas com pesticidas. Como é que é? O escândalo se alevanta. Como é possível? Estaremos todos sendo enganados então?

A explicação, no entanto, não é complicada. Antes de serem dedicadas à agricultura orgânica, essas terras eram cultivadas com o uso de pesticidas químicos. Os solos não se purificam da noite pro dia. Passados anos e anos, a contaminação permanece. Além disso, a poluição por produtos químicos é continuamente trazida pelos ventos, pelos animais, pelos insetos, pelos veículos e pelo próprio homem. Querer descontaminar toda a superfície agrícola do planeta é como enxugar gelo: quando a gente acha que o trabalho chegou ao fim, aparece mais água.

Não acredito que a notícia dê um golpe mortal na agricultura sem pesticida. Mas é bom que os cidadãos se armem de paciência. A total despoluição do campo não é pra amanhã.

(*) A agricultura isenta de insumos e pesticidas químicos, dita orgânica no Brasil, é conhecida como bio na Europa. (Bio de biológica.)

O tamanho e o formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares e de formato idêntico. Pois a realidade não é exatamente essa. O formato e as proporções das bandeiras são bastante variados. Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional, quanto a ela, segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão não de 1,5, mas de 1,429. Apenas duas nações seguem esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suíça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com a afiliação a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

ONU ‒ Sede europeia, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada. Lá está a bandeira vermelha de cruz branca. Quadradinha.

Artigo publicado originalmente em jan° 2017.

Grão-Ducado de Luxemburgo

José Horta Manzano

Você sabia?

Em muitos aspectos, Luxemburgo é um país diferente dos demais. Pra começar, é o único grão-ducado de que se tem notícia no planeta. Há reinos, principados, confederações, uniões. Grão-ducado, só esse. O chefe de Estado é o grão-duque Henri. O nome da dinastia se confunde com o nome do país: Luxemburgo.

É um país rico. Pelas contas do FMI, tem o PIB per capita mais elevado do mundo: 112 mil dólares. Para comparação, o do Brasil é de 17 mil dólares.

Para padrões brasileiros, o grão-ducado tem superfície exígua: 2600km2, menos da metade do Distrito Federal. Assim mesmo, faz fronteira com três países: Bélgica, Alemanha e França. Entre os membros fundadores da União Europeia, é o menorzinho.

A população fixa é de 600 mil pessoas. Todos os dias um importante contingente de 200 mil trabalhadores estrangeiros fronteiriços se dirige ao país. Entram e saem diariamente. Metade deles são franceses. Os demais são alemães ou belgas.

O país está na fronteira entre as línguas germânicas e latinas. Essa situação confere ao grão-ducado uma paisagem linguística peculiar. O luxemburguês, um dialeto germânico, é a língua vernacular. Praticamente todos os que cresceram no país se exprimem nesse idioma. No entanto, quando se trata de textos escritos, o alemão e o francês são as línguas mais difundidas.

Em matéria legislativa e judiciária, o francês domina. As leis são todas escritas nessa língua. Já na administração fiscal, reina o alemão. Os impostos são cobrados nessa língua ‒ ficam mais assustadores.

Os primeiros anos de escola (pré-escola) são dados em luxemburguês. Em seguida, a alfabetização é feita em alemão. O francês é ensinado a partir do segundo ano do ensino fundamental.

A colônia portuguesa é importante. Imigrantes lusos representam 16% da população, ou um cidadão em cada seis. Embora conheçam também as línguas do país, esses imigrantes se exprimem em português como primeira língua.

Comunicações oficiais de maior importância costumam ser feitas nas quatro principais línguas escritas do país: alemão, francês, português e inglês.

Herr Bausch, ministro da Mobilidade, acaba de anunciar uma novidade mundial. A partir de março 2020, os transportes públicos serão gratuitos, tanto trens como ônibus. Somente os passageiros de primeira classe nos trens continuarão a pagar passagem. Os demais viajarão de graça. Com essa medida, o governo espera reduzir a emissão de poluentes e os congestionamentos de tráfego.

Nota de 500 euros

José Horta Manzano

Você sabia?

Povos diferentes têm tradições diferentes. A diversidade se conjuga em atos e fatos do dia a dia. A ‘revolução’ provocada pelo aparecimento dos cartões de crédito, nas últimas décadas, não teve efeito uniforme. Em alguns países ‒ os EUA em primeiro lugar ‒ a novidade entrou rapidamente nos hábitos. Em outros, foi olhada com alguma desconfiança.

Na Europa, não foi diferente do resto do mundo. Enquanto a maioria dos países reservou boa acolhida ao novo meio de pagamento, outros foram mais reticentes. Na França, por exemplo, o cartão teve dificuldade em mandar o cheque pra escanteio. Até hoje, boa parte dos cidadãos franceses prefere tirar o talão de um bolso, a caneta de outro, os óculos do estojo, preencher o chequinho, assinar, entregar para conferência.

A Alemanha, a Áustria e a Suíça sempre tiveram especial apego ao dinheiro vivo. Carregar na carteira certo montante em notas e moedas é costume nacional que nem o cheque nem o cartão de crédito conseguiram desbancar. Na Alemanha e na Áustria, a introdução do euro não afetou o velho hábito. Berlinenses e vienenses continuam preferindo pagar com cédulas.

O desamor que os demais sentem pelo dinheiro vivo é visível no fato de a imensa maioria dos europeus nunca ter tido nas mãos uma nota de 500 euros (2100 reais), a de maior valor. Ela não faz falta a ninguém, exceto aos alemães e aos austríacos. Na Espanha, chegou a ganhar o apelido de binladen ‒ a que todos procuram mas ninguém encontra. Em vez de servir ao honesto cidadão, a nota de 500 tem sido mais útil para doleiros e lavadores de dinheiro, daqueles que carregam elevados montantes em sacolas. Ou em cuecas.

Dezessete anos depois da introdução do euro, o Banco Central Europeu decidiu deixar de imprimir cédulas de 500 euros. As que estão em circulação serão retiradas à medida que passarem por um estabelecimento bancário. Sem desaparecer totalmente, vão escassear nos próximos anos. No entanto, se o distinto leitor tem alguma cédula de 500 euros escondida debaixo de uma pilha de camisas não se alarme: ela não vai perder validade. Se comerciantes se recusarem a aceitá-la, lembre-se que bancos continuarão a reconhecer-lhe o valor indefinidamente.

Entendo que essa nota seja de pouco uso e que esteja mais servindo a interesses escusos. No entanto, visto que alemães e austríacos são apegados ao dinheiro vivo, a decisão de descontinuar sua produção me parece injusta. Mal comparando, seria como se se deixasse de fabricar telefones celulares sob o pretexto de eles estarem sendo utilizados por traficantes de droga. Há outros meios para combater lavagem de dinheiro.

Que se veja o caso brasileiro. O baixo valor das notas de real ‒ a de maior valor (100 reais) equivale a pouco mais de 20 euros ‒ não impediu a circulação dos bilhões afanados da Petrobrás e dos cofres públicos. O único inconveniente é que as malas têm de ser mais amplas. Ou as cuecas.

Noite Feliz

José Horta Manzano

Você sabia?

Os tempos eram duros na Áustria daquele começo de século 19. Naquele mundo mal emergido do regime feudal, a luta pela sobrevivência era espinhosa. Longe dos grandes centros, pior ainda.

O jovem Franz Xaver Gruber teve a sorte de receber instrução e iniciação musical. Ao atingir a maioridade, casou-se. Logo chegaram os filhos. À busca de rendimento pra sustentar a família, Herr Gruber encontrou uma colocação como professor de primeiras letras e organista na igreja do vilarejo de Arnsdorf, perto de Salzburgo.

Selo lançado pelos Correios Austríacos por ocasião do 150° aniversário do falecimento de Franz Xaver Gruber

Mais adiante, o músico recebeu novas responsabilidades. Foi nomeado organista e maestro de coro no vizinho Oberndorf bei Salzburg, vilarejo bem maior. Compositor a horas perdidas, ele decidiu apresentar uma peça nova para ser tocada na Missa do Galo daquele ano. Era bom de música, mas não tinha o dom de escrever versos. Deu com uns escritos de Joseph Mohr, padre que exercia seu ofício na mesma paróquia, e pôs-se a musicá-los.

Na véspera do Natal de 1818, o mundou ouviu, pela primeira vez, a melodia criada por Gruber: Stille Nacht, Heilige Nacht, que conhecemos como Noite Feliz. ‘O mundo ouviu’ é afirmação pra lá de exagerada. Quem ouviu a ‘première’ foram os poucos fiéis que tinham enfrentado o frio para assistir à missa da meia-noite. Como acontece muitas vezes, um sucesso planetário teve início modesto.

Partitura manuscrita de Noite Feliz.
Ainda sem título, vem descrita como Weyhnachts-Lied – Canção de Natal

Esquecida durante as primeiras décadas, a melodia ressurge em meados do século 19, primeiro como peça orquestral. A simplicidade da linha melódica, comovente, parece combinar com o espírito de Natal. Tanto é que, já na virada do século 19 para o 20, boa parte da Europa já conhecia a canção.

Estes dias, Noite Feliz está comemorando 200 anos de existência. De seu nascimento até hoje, já se registram mais de 300 versões gravadas em 45 línguas. De Bing Crosby a Justin Bieber, de Plácido Domingo a Fats Domino, muitíssima gente fina já gravou a canção.

A versão portuguesa foi feita há mais de cem anos. Por questões de métrica, o original alemão «Stille Nacht, Heilige Nacht», que significa «Noite Silenciosa, Noite Santa» deu lugar a nosso familiar «Noite Feliz».

Sem dizer água vai

José Horta Manzano

Você sabia?

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

No Rio de Janeiro, a solução era simples. Os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam-se na bacia e faziam suas necessidades no penico. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

Paraty (RJ)

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgoto doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo. Ainda bem.

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

Os automóveis

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos primeiros anos dos século XX, a língua francesa vivia um período de prestígio mundial. Embora já não exercesse predominância absoluta como nos anos 1700, sua influência ainda era notável. No Brasil, a moda, os remédios, os alimentos enlatados, os livros e as revistas vinham de Paris.

Aprisionado a seu desterro tropical, o brasileiro endinheirado só tinha olhos para o que chegasse da França. Tudo o que de lá viesse era bem-vindo. Chique mesmo era mandar vir uma preceptora francesa para guiar os pequerruchos ‒ privilégio só concedido a muito poucos.

Por aqueles anos, os primeiros automóveis começaram a rodar sobre os sacolejantes paralelepípedos das ruas brasileiras e pelos caminhos do interior, picadas poeirentas que só costumavam ver passar carros de boi. Dá pra imaginar o espanto das gentes que, à beira da estrada, observavam bólidos malucos, que desafiavam as leis do bom senso ao disparar a 25 ou 30 quilômetros por hora!

O ‘vehiculo automovel’ descrito no Almanaque Richards de 1909
Repare que a palavra automóvel é usada indistintamente como substantivo e adjetivo

A maior parte das peças que compõem o automóvel tem nome francês. Embreagem, capô, freio, marcha, banco, carburador, virabrequim, manivela, escapamento, volante, vela, radiador, alternador, pistão, biela, bobina, distribuidor, bateria, condensador ‒ cada uma dessas palavras é o aportuguesamento ou a tradução literal do original francês.

A palavra automóvel, naturalmente, também vem de Paris. A curiosidade é que, no início, era um adjetivo. A expressão original é «veículo automóvel», que designa o veículo que se move por si mesmo, como uma geladeira autodescongelante ou um profissional autodidata. Nos primeiros anos, a palavra importada foi utilizada como adjetivo. Na França, ainda hoje, um carro pode ser chamado indiferentemente de automobile ou de véhicule automobile.

No Brasil, essa flutuação vigorou durante uns poucos anos. Rapidamente, na certa por ser expressão muito comprida, o antigo vehiculo automovel saiu de cena e abriu passo para o substantivo automóvel. Bênção e praga dos tempos modernos.

Gauche caviar

José Horta Manzano

Você sabia?

No mundo inteiro, até a virada dos anos 1980, meios universitários botavam fé no sucesso da revolução socialista. Eram movidos por desejo sincero de promover igualdade social por meio da implantação ‒ pelas boas ou pelas más ‒ de regime autoritário que impusesse redistribuição da renda.

Stalin, o paizinho dos povos, já tinha morrido fazia décadas. Mesmo assim, intelectuais do mundo inteiro, integrantes do que os franceses chamam gauche caviar (=esquerda caviar), continuavam filosofando e refazendo o mundo entre dois goles de pastis ou de bourgogne.

A queda do Muro de Berlim, o fracasso da Cuba dos Castros, a derrota dos sandinistas e dos guerrilheiros das Farc, o inferno norte-coreano e o descalabro bolivariano teriam despertado qualquer cristão para a realidade. Qualquer indivíduo de bom senso se teria convencido de que o caminho não é esse. Nossa gauche caviar, no entanto, bate pé firme.

O curioso fenômeno não se limita a nosso país. Longe disso: é mundial. Essa peculiar casta de reformadores do mundo briga com os fatos e está de mal com a realidade. Vivem eles encastelados num universo de fantasia rodeado de filtros que só deixam passar o que estão dispostos a ouvir.

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Em cerimonia realizada ontem, a argentina Universidad Nacional del Comahue concedeu a Lula da Silva o doutorado honoris causa. Comahue é universidade pública, baseada principalmente em Neuquén, mas com satélites em uma dezena de outras localidades. Aparece entre as dez maiores universidades do país.

Em sua fala, o reitor acusou textualmente o “poder judicial corrupto” do Brasil de manter o demiurgo injustamente na prisão. Acusações voaram para todos os lados. Doutor Temer, o presidente da Argentina e a diretora do FMI tiveram direito a sua dose de insultos. “‒ Um dia voltaremos a recuperar as forças na América Latina!”, encerrou o magno reitor. O artigo não confirma, mas imagino que, nessa hora, o moço tenha levantado o punho esquerdo cerrado.

O coro da universidade e um conjunto de batucada alegraram a jornada de “Homenagem ao Brasil camponês, operário, negro e popular” (sic), conforme a descrição oficial. Nos discursos, nenhuma menção foi feita ao mensalão, ao petrolão nem aos 13 milhões de desempregados. É compreensível.

Leitores irados inseriram comentários à notícia no site do jornal La Mañana Neuquén:

  • Que vergonha!
  • Presente de folgados para corruptos e ladrões. Da próxima vez para Maduro e Ortega!
  • No Equador, com bom senso, derrubaram a estátua de um corrupto. Aqui damos distinção a um outro?
  • Gastam verba homenageando um delinquente, corrupto e encarcerado?

Dezenas seguem no mesmo tom.

Dupla carreira política

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é todo dia que a gente vê homem político fazendo carreira em dois países, evento pra anotar em livro de história. É o que está pra acontecer com Monsieur Manuel Valls, o poliglota que está inscrevendo peculiar percurso político.

O pai dele, espanhol de Barcelona, emigrou para a França quando moço. Lá conheceu a moça com quem viria a se casar, uma suíça italiana. Trocadas as alianças, continuaram vivendo na França. Quando estava pra chegar o primeiro filho, o pai fez questão de que a criança, como ele, viesse ao mundo em Barcelona. Dito e feito, foram de férias à Espanha e lá nasceu o menino Manuel.

Manuel Valls, antigo primeiro-ministro da França

Logo de cara, o moço já tinha duas nacionalidades: a espanhola por parte de pai, e a suíça por parte de mãe. Cresceu na França, país do qual requereu a cidadania assim que completou 20 anos. Esse colecionador de nacionalidades teve ainda a chance de aprender quatro línguas na infância, idiomas que consegue manejar à perfeição: o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. Bagagem e tanto!

Jovem ainda, filiou-se ao Partido Socialista Francês e ingressou na política. Foi prefeito, deputado e até primeiro-ministro do país de adoção. Chegou a ser pré-candidato à presidência da república, mas não conseguiu vencer as primárias. Com a débâcle de seu partido estes últimos anos, o homem ficou à deriva, com um mandato de deputado mas sem perspectiva de ocupar postos importantes. É muito pouco pra político ambicioso.

Que não seja por isso. Já faz uns seis meses que ele está em campanha para a prefeitura de Barcelona, sua cidade natal. Na França, poucos acreditavam que desse o passo. Mas parece que Monsieur Valls ‒ agora Señor Valls ‒ está mesmo decidido. Se conseguir, será um dos raros espécimes políticos a ter feito carreira em dois países.

Para a Catalunha em geral e para Barcelona em particular, seria muito bom se o antigo primeiro-ministro francês vencesse a corrida para a prefeitura. Numa província em que o ódio corrói as relações entre independentistas e unionistas, é bem-vinda a presença de um prefeito aberto ao mundo e desprovido de visão sectária.

Sommerzeit

José Horta Manzano

Você sabia?

Já nos tempos da Primeira Guerra, o governo alemão teve a ideia de avançar os relógios durante o verão com o intuito de economizar energia. À época, o carvão movia a indústria e produzia eletricidade. Prevenir escassez era primordial.

Com altos e baixos, a ideia de instaurar a hora de verão se espalhou pelo planeta. Durante todo o século XX, numerosos países situados em regiões afastadas do Equador conheceram mudança de hora. Esporádica, a mudança valia por um ano, era cancelada no ano seguinte. E assim por diante, sem regularidade.

Nos anos 2000, o Parlamento Europeu decidiu oficializar e harmonizar a passagem anual à hora de verão. Desde então, a entrada em vigor se faz no último domingo de março e vai até o último domingo de outubro. Todos os países fazem a mudança no mesmo momento.

Estudos recentes, no entanto, têm revelado que os malefícios da mudança de hora são tão importantes ‒ se não maiores ‒ que os benefícios. A claridade que avança noite adentro perturba a produção de melatonina, o que retarda o adormecimento. A redução das horas de sono tende a aumentar a frequência de acidentes do trabalho e da circulação. As crianças, muito sensíveis ao fenômeno, apresentam problemas de concentração na escola.

Ao detectar o descontentamento, o Conselho Europeu botou no ar a mais importante consulta popular jamais lançada. Procurava conhecer a opinião dos cidadãos dos diversos países sobre a hora de verão. O resultado surpreendeu. Nada menos que 4,6 milhões de pessoas preencheram o questionário online. Dos participantes, 84% se declararam hostis à hora de verão. É maioria expressiva. Para reforçar o quadro, estudos indicam que a economia de energia assegurada pela hora de verão não chega a 0,5%. É coisa pouca.

Como no resto do mundo, a máquina administrativa da UE é um bocado lenta. Mas o assunto será apresentado ao Parlamento. Se o voto da maioria for parelho ao desejo dos que responderam ao questionário, a ab-rogação será pronunciada em breve. Não é impossível que, já em 2019, essa amolação termine.

Resta um detalhe a acertar: a escolha da hora definitiva. Guarda-se a hora de inverno ou a de verão? Ficou combinado que todos os países da UE terão de acatar a decisão do Parlamento. Se a hora de verão for revogada, todos terão de se conformar. No entanto, cada país será livre de escolher se guarda a hora de verão ou a de inverno.

Sabe-se que, no frigir dos ovos, os países se determinam com relação aos vizinhos mais importantes. Para facilitar as comunicações, os pequenos procuram se adaptar aos grandes. Portanto, tudo vai depender dos dois ou três maiores. França e Alemanha vão dar o tom: os vizinhos acompanharão.

Quem sabe esse movimento não inspira as autoridades brasileiras? Já está na hora de acabar com essa chateação de mudar de hora duas vezes por ano. Os ganhos são irrelevantes e os incômodos, significativos.

Sommerzeit = hora de verão (em alemão).