Dilema de bico

José Horta Manzano

Corrupto de mais de 60 anos de idade, quando apanhado, julgado e encarcerado, não demora muito pra pedir soltura por razões de saúde. E acaba conseguindo, que nossa sociedade ainda confunde velhice com doença.

Quem soube entrar por essa brecha foi o manhoso doutor Paulo Maluf. Nunca o encontrei, mas quem costumava cruzar-lhe o caminho quando ele exercia a função de deputado federal, até pouco tempo atrás, diz que o homem caminhava lépido, saltitante e lampeiro. Comparecia às sessões, distribuía sorrisos e mostrava estar em plena forma.

Foi só a PF bater-lhe à porta, pra ele aparecer curvado, titubeante, apoiado em bengala, com grande dificuldade de locomoção. Não deu outra. Apesar de condenado por roubos milionários contra a própria população que o tinha elegido, não passou mais de um mês na gaiola. Foi logo mandado pra casa por motivo de doença.

Doutor Maluf não foi o único, longe disso. O juiz Lalau, aquele que, nos anos 90, surrupiou milhões do Tribunal do Trabalho paulista, seguiu o mesmo caminho. Um punhado de outros estão na mesma condição de «condenado aposentado».

E o Lula, como é que fica? Em primeira análise, esgotados todos os recursos que lhe poderiam evitar a prisão, resta a porta da ‘desculpa de velhice’. Um paciente de 72 anos pode alegar a enfermidade que quiser ‒ todos acreditarão. Se for o caso, atestado médico é a coisa mais fácil de se obter. Porque é que o homem ainda não pensou nisso?

He, he.. Aí é que está o nó do problema. Ele pretende, como recurso pra aparecer na mídia diariamente, apresentar-se como candidato às eleições, pois não? Só que candidatura não rima com enfermidade. Não faria sentido um homem doente pretender assumir, por quatro anos, o cargo mais elevado do país.

Não se pode ter o sorvete e o dinheiro do sorvete. Ou é um ou é outro. Ou o demiurgo se candidata e continua na prisão, ou vai para prisão domiciliar por doença e, nesse caso, esquece a presidência. Por enquanto, nosso guia está dando preferência à cadeia. É sinuca de bico.

A empresa

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Era uma empresa de porte médio, mas crescendo a cada dia. Muitos funcionários. Entre eles um chefe, o Januário, dono de um cargo de destaque e que supervisionava o trabalho de toda aquela gente que carregava a empresa nas costas.

Como tinha curso universitário, muito embora nunca tivesse defendido nenhuma tese, era tratado por doutor. Era, portanto, o Doutor Januário, muito prazer.

Era um homem que sempre tirava nota baixa em toda prova de humildade. Sem “por favor” nem “muito obrigado”. Ninguém lhe prestava favor algum, pois era sempre uma obrigação servi-lo. A ninguém agradecia, pois não precisa agradecer quando alguém não faz mais que a obrigação.

Mas onde será que andava o Macedinho? Já uma semana sem comparecer ao trabalho. Ninguém sabia dizer. Nenhuma notícia, nenhum telefonema, nenhum pedido de desculpa. Aquilo era demais, era só ligar ou mandar um recado por outra pessoa, sei lá. Mas não, ninguém sabia dele.

Na segunda-feira seguinte, lá apontou o Macedinho, sorridente, com o mesmo semblante calmo e sereno de sempre. Por onde passava, todos olhavam para ele como se fosse um homem-bomba em direção ao seu triste destino, coitado, prestes a explodir a qualquer instante. Ninguém ousava dirigir-lhe a palavra nem sequer aproximar-se dele. Subiu, sem ninguém lhe dizer nada, até o 3º andar do prédio, onde, depois de bater à porta anunciando sua chegada, entrou no gabinete do dr. Januário, que o recebeu não com cara de poucos amigos mas com cara de amigo nenhum amigo.

‒ Entre e feche a porta, sr. Macedo. Sente-se e vamos conversar. Vai ser rápido.

O Macedinho sentou-se numa das duas poltronas em frente à mesa do chefe. Não parecia preocupado, transmitia tranquilidade. Parecia feliz.

‒ Pois bem, sr. Macedo. Uma semana sem comparecer ao trabalho. Já vi algumas coisas acontecerem em minha vida, mas uma ousadia dessas é a primeira vez. Esqueceu que há um chefe aqui, que quem manda aqui sou eu, que todos têm a obrigação de dar satisfações? Ainda mais num caso destes! Uma semana!

‒ É… – ponderou em tom tranquilo o Macedinho.

‒ O que é que o senhor acha que eu devo fazer agora? Não, não me diga. Aposto que vai me contar uma história qualquer, de uma tia velhinha lá do interior que estava doente e coisa e tal. Esqueça, não vai colar. E também não estou a fim de ouvir bobagem.

‒ Claro, tem razão, bobagem… ‒ comentou impassível o funcionário.

‒ Já vi funcionários rebeldes, já vi muitos desleixados, mas o senhor me parece mais do que isso. É um grande idiota… Mas pode ser que seja só um retardado mental mesmo. Aliás, o senhor pode até escolher. Pode ser um idiota ou um retardado mental. Para mim, tanto faz, dá na mesma. Pode escolher.

Sem dar qualquer espaço para que o funcionário, ao menos, tentasse se explicar (ou optasse entre idiota e retardado), o chefe continuou:

‒ Olhe aqui, eu cheguei aonde estou depois de muitos anos batalhando e não por puro puxa-saquismo, como dizem esses seus colegas idiotas por aí. Por competência. E agora, mesmo com essa história que a gente já está sabendo, da venda da empresa, saiba que eu vou continuar aqui, neste mesmo lugar, tá ouvindo? Por competência no cargo.

Houve um pequeno intervalo de total e desconcertante silêncio, após o quê o chefe disse:

‒ Agora, se quiser, pode falar. Mas seja breve.

‒ Bom, dr. Januário, eu gostaria só de fazer duas perguntas. São fáceis de responder. Vai ser rápido.

‒ Pode fazer, mas rápido.

‒ Pois bem. O senhor ficou sabendo que o sorteio da mega-sena da semana passada teve só um ganhador para aquela fortuna toda de quase 30 milhões?

Nesse momento deu um clique na cabeça do chefe, que se ajeitou melhor na cadeira, descruzando as pernas para novamente cruzá-las do outro lado com ambas as mãos segurando os braços da poltrona e respirando um pouco mais profundamente.

‒ Muito bem. Primeira pergunta: adivinhe só quem foi esse sortudo ganhador? – perguntou o Macedinho abrindo um grande e muito malicioso sorriso no rosto, olhando fixamente nos olhos do chefe.

O dr. Januário não respondeu, talvez com medo da própria resposta. Ficou com o olhar paralisado, fixado no funcionário, a boca entreaberta.

‒ Segunda pergunta: adivinhe só quem foi que passou a semana toda em negociação e acabou comprando esta empresa?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Palestras do Lula

Cláudio Humberto (*)

O ex-presidente Lula se enrola para explicar como faturou R$ 52,3 milhões, inclusive com sua empresa de palestras – a Lils (suas iniciais) – entre 2011 e 2014.

Lula caricatura 2Lula jurou que sua receita vem de “palestras”, que, curiosamente, não são encontradas nas redes sociais. Tampouco no YouTube, onde palestrantes profissionais divulgam seu trabalho. O Instituto Lula se recusa a informar a lista de palestras do ex-presidente.

Se Lula tiver trabalhado os 1460 dias de 2011 a 2014, os R$ 52,3 milhões que ganhou com palestras representam R$ 35,8 mil por dia(!).

A movimentação financeira milionária nas contas de Lula foi detectada pelo Coaf, órgão de inteligência do Ministério da Fazenda.

A mídia segue Lula diariamente, mas só há registro de poucas palestras em grandes empresas, tipo LG, Santander, Itaipava e Caixa.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Dr. Jekyll & Mr. Hyde

José Horta Manzano

Biografia

A maioria de nós escolhe levar uma existência discreta, corriqueira, comum. Há os que ― por motivos profissionais ou não ― tornam-se conhecidos além do estreito círculo familiar e profissional. Tornam-se personagens públicos. Podem ser artistas, políticos, esportistas, milionários, grandes empresários. Bandidos de grande fama também entram nessa categoria. Quem puser um pé nessa seara fica marcado pelo resto da vida.

Greta Garbo (1905-1990), de origem sueca, era uma linda e famosa atriz de cinema nos anos 20 e 30. Deve ter partido muitos corações naquele tempos. No cinema, no entanto, teve carreira curta. Aos 36 anos, abandonou a vida artística, retirou-se e passou a viver reclusa. Não queria mais ser vista por ninguém. Mas não houve jeito: foi perseguida por fotógrafos e repórteres até seu último dia. Alguns anos após seu falecimento, no ano em que comemoraria 100 anos de nascimento, o governo sueco autorizou até que suas cartas pessoais fossem publicadas.

Tenho lido estes dias que alguns artistas brasileiros se opõem a que se publiquem suas biografias sem o consentimento expresso do biografrado. Parece-me incongruente. Acho que as coisas são ou não são. Todos temos um pouco de Dr. Jekyll e uma dose de Mr. Hyde. Nos mortais comuns ― a maioria da humanidade ― isso passa despercebido. Ninguém está realmente interessado em conhecer os desvãos da personalidade alheia.

Biografia

Já o mesmo não acontece com relação a figuras públicas. É natural que detalhes da história de um artista ou de um político de renome interessem mais do que as peripécias de um zé qualquer. Alguns dizem que esse é o preço da fama.

Por coerência, artistas não podem se opor a que se lhes investigue a vida. A remuneração deles vem de um público pagante e entusiasta que lhes cultua a personalidade. É normal que retribuam, que satisfaçam a curiosidade de seus fãs.

Ocupantes de cargos públicos têm (ou teriam) de declarar seu patrimônio ao chegar e ao sair. Isso me parece normal. Não é invasão de privacidade. Eles têm de declarar todo o patrimônio, não somente a parte que lhes interessa, escondendo o resto.

Por que seria diferente com os que atuam no mundo do espetáculo? Não me parece que possam selecionar as informações publicáveis, escondendo as outras.

Na vida, tem o toma lá. Mas tem também o dá cá. Nada sai de graça.