Bolsa combustível

José Horta Manzano

Por razões que não cabe aqui analisar, o preço dos derivados de petróleo tem aumentado sensivelmente estes últimos meses. O fenômeno é mundial. No final das contas, a população toda sente os efeitos desagradáveis, visto que o preço de todos os bens aumenta.

Os profissionais do volante – taxistas, caminhoneiros, motoboys – estão na linha de frente: sentem o impacto diáriamente no posto de gasolina. São os primeiros a reclamar, e seu grito pode ecoar num país inteiro.

Anos atrás, quando ainda não detinha as rédeas do poder, Bolsonaro, por razões eleitorais ou por propensão inata à rebeldia, pôs-se ao lado dos caminhoneiros e apoiou uma greve que durou dias e paralisou o país.

Agora a grita dos estradeiros se alevanta de novo, só que, desta vez, o capitão está do outro lado do balcão. Tudo o que ele não quer é um país parado, estradas bloqueadas, fome e inflação piorando. Receia ser acusado de mais uma marretada.

Ofereceu 400 reais aos caminhoneiros, que cuspiram em cima da oferta e a qualificaram de “esmola”. O preaviso de greve continua de pé. A não ser que caia do céu uma solução, o movimento será no começo de novembro.

Na França, o governo está enfrentando problema parecido. Não se pode dizer que seja idêntico, porque o povo de lá não vive nas mesmas condições do povo de cá. Assim mesmo, aumento constante no preço do combustível dói no bolso de quem precisa usar o carro diariamente.

Nem todos os franceses vivem em Paris, com metrô na esquina de casa; grande parte da população mora em vilarejos espalhados pelo país, onde ônibus não passa e trem não chega. Para essa gente, o carro é essencial; sem ele, não teriam como se dirigir ao trabalho.

Antes que os coletes amarelos despertem do torpor em que se encontram e decidam retomar passeatas e manifestações, o governo francês acaba de anunciar que, daqui para o fim do ano, um bônus de 100 euros (660 reais) será distribuído aos cidadãos de menor poder aquisitivo.

Quem são? São aqueles cujos rendimentos se situam abaixo de determinado valor, e que são as maiores vítimas da subida de preço dos combustíveis. Mas atenção: não é uma bolsa mensal; trata-se de um valor único, igual para todos, dado uma vez só.

Para chegar a esse montante, tomaram o aumento de preço dos combustíveis este ano e multiplicaram pela média anual de quilômetros percorridos pelos automobilistas franceses.

Estima-se que 38 milhões de pessoas terão direito ao vale combustível. Quase € 4 bi serão assim distribuídos (R$ 26 bi), uma bela quantia. É bom ter em mente que 2022 é ano eleitoral tanto na França quanto no Brasil, o que explica essa generosidade nos dois países.

É permitido acreditar que os motoristas franceses não se contentarão com o “bônus combustível”. É igualmente provável que os caminhoneiros brasileiros não se satisfarão com a “esmola” bolsonárica. Vamos ver o que acontece.

ADN (=DNA)

José Horta Manzano

Há um assunto que me deixa cismado. Vamos a ele. Talvez algum detalhe esteja me escapando e alguém possa me trazer alguma luz.

Parto da premissa que, em matéria de pandemia, a maioria dos países está no mesmo barco. Vacina, que anda escassa por toda parte, tornou-se objeto de desejo. Com exceção de um ou outro personagem empacado como Bolsonaro, todos já entenderam que a salvação passa pela imunização. O fator mais importante a reter o avanço da vacinação é justamente a escassez de vacinas. Portanto, o cenário básico é o mesmo para todos os países.

Na região do mundo em que vivo, acompanho com atenção a atualidade de diversos países. Geográfica e culturalmente, os mais próximos são: Suíça, França, Itália, Alemanha, Áustria, Espanha, Portugal. Mas o resto não fica muito longe. Deste lado do mundo, nunca ouvi falar em nenhum escândalo de roubo de vacina, nem muito menos de enfermeiro(a) desonesto(a) que tivesse apenas fingido aplicar o imunizante ou que tivesse ludibriado o paciente injetando soro fisiológico.

No Brasil, país cuja atualidade sigo também com atenção, não se passa um dia sem que apareça alguma notícia desse tipo. Já nem se pode mais chamar de escândalo, tão modesta é a repercussão. Vem em nota de rodapé. A mais recente que li foi ontem, a triste história de um idoso que recebeu «injeção de vento». O fato foi notado pela neta que o acompanhava e que, felizmente, botou a boca no trombone. Como se vê, os golpistas não disfarçam mais o crime, nem mesmo diante de testemunhas.

Volto à parte do mundo em que vivo. Por aqui, simplesmente não passaria pela cabeça de ninguém fazer alguma coisa desse tipo. E olhe que a escassez de vacinas é a mesma do Brasil. Veja-se o seguinte exemplo. Enquanto, no Brasil, já estão vacinando pessoas da faixa de 60 e poucos anos, na Suíça só idosos com 75 anos ou mais têm direito à vacinação – além das conhecidas exceções: pessoal médico e pessoas com comorbidade pesada. Cidadãos de 74 anos para baixo estão quietinhos esperando a vez.

Agora vem a pergunta. Por que esses atos criminosos acontecem no Brasil e não aqui? Tenho algumas pistas.

A quase certeza da impunidade incentivaria esses atos.
Dado que, por aqui, algo desse tipo é inimaginável, ninguém está desconfiado. Portanto, ninguém está vigiando. Assim, em teoria, aqui também há uma quase certeza de impunidade. No entanto, esses crimes não ocorrem.

A desigualdade social explicaria a criminalidade.
Não vejo bem por que é que a desigualdade social levaria enfermeiros a expor compatriotas idosos a risco de morte. A explicação da desigualdade é meio capenga.

O negacionismo de Bolsonaro explica.
O quê? Isso quer dizer que os enfermeiros que agem assim estão pondo em prática a doutrina do presidente de ‘resguardar’ os velhinhos contra os perigos da vacina? Ora, conte outra.

Posso continuar aqui desfiando supostas razões a explicar essa distorção nacional. Sem chegar a conclusão nenhuma. A ausência de razão objetiva conduz a uma conclusão terrível: a tendência ao crime estaria inscrita no ADN (=DNA) do brasileiro. Será? É de dar arrepio.

Luzes são bem-vindas! Se o distinto leitor quiser tecer suas considerações sobre o tema, não hesite: o espaço de comentários (assinalado no final do artigo) está aí para isso.

O triste destino dos intubados

José Horta Manzano

O Instituto de Pesquisa Poder360 expôs estes dias a elevada taxa de mortalidade dos brasileiros que têm de sofrer intubação em decorrência da covid-19. A letalidade entre os intubados no Brasil foi comparada com a de outros quatro países populosos: Itália, Alemanha, Reino Unido e México.

Constata-se que a mortalidade dos intubados brasileiros é superior à de britânicos e mexicanos, e muito superior à de alemães e italianos. Segundo o comunicado do instituto, as razões pelas quais o quadro é mais grave no Brasil são as seguintes:

1. UTIs lotadas;
2. profissionais sem experiência de intubação;
3. burnout das equipes;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
4. falta de equipamentos;
5. centros médicos sem condições de atendimento;
6. quebra de protocolos de boas práticas.

Todas essas razões parecem válidas. Mas uma coisa não pode ser esquecida: a pandemia não é exclusividade brasileira. O coronavírus pegou o mundo todo de surpresa. Nenhum país estava preparado para lidar com ela. Em nenhum lugar do mundo, hospitais têm pessoal de reserva, treinado para intubação, nem equipamentos sobrando. O esgotamento nervoso (que hoje convém chamar burnout) atingiu todas as equipes, no mundo todo. As UTIs lotaram na Itália, no Reino Unido, no México. Na Europa, pacientes hospitalizados chegaram a ser exportados de um país a outro.

Portanto, as três primeiras razões invocadas atingem o mundo todo. Não sendo especificidade brasileira, não explicam a disparidade no número de intubados mortos.

As três últimas justificativas, sim, aplicam-se particularmente a nosso país. Aqui está a descrição de cada uma delas.

Centros médicos sem condições
Esse problema não começou com a explosão da covid. E, infelizmente, vai durar mais que a epidemia. É vício antigo e recorrente, que vem de muito antes do atual governo. Resulta de uma extravagância brasileira: a de contar com dois circuitos paralelos de saúde, um público e um privado. Trocando em miúdos, a rede pública, financiada por todos mas utilizada apenas pelo povão, é descurada pelo poder público, cujos membros contam com outros canais de atendimento hospitalar.

Quebra de protocolos
Protocolos são feitos para serem respeitados. Só devem ser quebrados em raríssimos casos de força maior. Acontece que a proverbial indisciplina que rege nosso comportamento transforma casos corriqueiros em casos de força maior. Assim, a quebra de protocolos passa a ser corriqueira. O resultado é a desordem.

Falta de equipamentos
Quando estourou a epidemia, nenhum país contava com suficiente quantidade de equipamentos. Em outras terras, o poder público se apressou em encomendar respiradores, máscaras, vacinas, seringas e equipamentos para UTI. O governo brasileiro optou por negar a gravidade da pandemia. Não agiu e preferiu pagar pra ver. Viu.

O exemplo vem de cima
Uma última razão ajuda a explicar o assustador quadro de mortandade dos intubados brasileiros. É talvez o fator que mais pesou. Desde o começo da epidemia, dia sim, outro também, doutor Bolsonaro fez pouco caso da doença, incentivou aglomerações, zombou de máscaras, trovejou contra a distanciação social, combateu a vacinação.

Nem todos os brasileiros são dotados de bom senso. Muitos acreditaram em nosso Napoleão de hospício e acreditaram poder fazer como ele. Em vez de procurar atendimento hospitalar desde o começo da doença, correram atrás de cloroquina e outras drogas milagrosas que compõem o “tratamento precoce” do doutor presidente. Quando, finalmente, foram hospitalizados, já era tarde.

Resumindo, constata-se que a diferença na taxa de mortandade entre o Brasil e os demais países não se explica por fatores como UTIs lotadas, esgotamento nervoso do pessoal, falta de experiência de intubação – que são problemas comuns a todos. A elevada mortandade dos infelizes que tiveram de ser intubados no Brasil prende-se a duas causas principais: a falta de equipamentos e a ingenuidade dos que, tendo acreditado na jactância do presidente, só procuraram o hospital quando a doença já se havia instalado firme e forte.

A tristeza maior é entender que, tivesse o governo federal agido com bom senso e boas intenções, esse morticínio poderia ter sido mitigado. Ora sabemos que, no Brasil, intubação é praticamente sentença de morte.

Covid-19 x Gripe Espanhola

José Horta Manzano

35.000 é o número geralmente aceito de vítimas mortais que a Gripe Espanhola de 1918-1919 deixou no Brasil.

A população do país era então de 30 milhões de habitantes.

Trocado em miúdos, dá 11,6 mortes de Gripe Espanhola em cada 10 mil habitantes.

260.000 é o número atualizado de vítimas mortais deixadas no Brasil pela covid-19 segundo o consórcio de veículos de imprensa.

A população atual do país é de 213 milhões de habitantes.

Trocado em miúdos, dá 12,2 mortes de covid-19 em cada 10 mil habitantes. Até esta data.

A conclusão é que a mortandade causada pela covid já superou o estrago da pandemia de cem anos atrás. E, com ativa contribuição da gestão criminosa do governo Bolsonaro, a estatística macabra tem tudo pra continuar engordando.

Covid – desempenho por país

José Horta Manzano

O Lowy Institute da Austrália é um ‘think tank’, expressão inglesa que se traduz por ‘laboratório de ideias’ ou ‘círculo de reflexão’.

Com a intenção de pôr às claras a montanha de narrativas e contranarrativas que criam verdadeira ‘infodemia’ e embaralham a realidade da pandemia, fizeram um estudo minucioso sobre a maneira como cada país enfrentou a pandemia.

Na avaliação consideraram 6 variáveis:

  • Número de casos
  • Número de mortes
  • Casos por milhão de habitantes
  • Mortes por milhão de habitantes
  • Casos em proporção de testes
  • Testes por mil habitantes

O estudo observou o comportamento que cada país adotou a partir da 36a. semana após confirmação do primeiro caso de covid.

Uma conclusão interessante à qual chegaram foi a de que Estados autoritários não obtiveram classificação melhor do que os demais. Um enfrentamento rigoroso mas de curta duração dá resultados semelhantes aos de uma abordagem menos severa porém mais prolongada.

Outra conclusão – e esta explica, até certo ponto, a dramática situação do Brasil e dos EUA – é a de que países vastos e populosos foram mais atingidos que outros. Isso se deve ao fato de que, enquanto fronteiras se fecharam e a circulação internacional de viajantes foi reduzida, as viagens internas nesses países permaneceram livres e autorizadas. Muitos viajaram, o que permitiu o alastramento do vírus para todos os rincões. Países pequenos sofreram menos com o problema.

Apesar dessa justificativa, há que reconhecer que o Brasil não é o único país grande e populoso. Muitos outros estão na mesma situação e obtiveram resultados melhores. A pesquisa estudou o desempenho de 98 países no enfrentamento da covid. Sem surpresa, o Brasil classificou-se em… 98° lugar. O último da classe. Na rabeira, minha gente! Não estamos mais ‘entre os piores’. Somos os piores. Os campeões da indigência.

Para espíritos masoquistas, estou anexando a lista completa. Lá estamos nós, assim como os mais bem classificados, ou seja, o resto do mundo. Para sofrer, basta clicar na ligação (=link) aqui abaixo:

Covid-19 – Desempenho

Ganha uma caixa de Cloroquina quem descobrir a causa principal do vergonhoso desempenho brasileiro. Repare que os 3 países governados por dirigente negacionista – Brasil, EUA e México – estão entre os 5 últimos da lista de 98 nações. Precisa fazer um desenho?

Tuíte – 19

José Horta Manzano
“– Lamento, pessoal, quer que continue (o auxílio emergencial), vai quebrar o Brasil […]”

Meus distintos leitores, que são todos fãs do presidente, certamente assistiram ao vivo à ‘live’ de ontem. Por problemas de diferença de fuso horário, não tive ocasião de assistir, mas os jornais de hoje me socorreram. Foi de lá que tirei a simpática citação acima.

“Vai quebrar o Brasil”, disse ele. Confesso que a declaração – que não foi conversa de botequim, mas pronunciamento à nação – me deixou perplexo. Como é possível dizer que o auxílio de emergência vai quebrar o Brasil, se ainda outro dia ele mesmo anunciou que o país já estava quebrado?

Vai ver que, de lá pra cá, já consertaram. Ou então ele entrou pr’a escola da desacreditada Dilma Rousseff, que de vez em quando soltava o bordão: “– FHC quebrou o país três vezes”.

Lei do Ecocídio

José Horta Manzano

O governo francês acaba de anunciar o envio ao parlamento de uma lei que criminaliza todo e qualquer ato capaz de causar dano importante ao meio ambiente. Visto que o governo conta com folgada maioria, o novo dispositivo deverá ser aprovado. Será provavelmente conhecido como Lei do Ecocídio.

O texto ainda deve sofrer alterações, mas o cerne permanecerá. Na mira do legislador, estão não somente os danos intencionais, mas também os que forem causados por negligência. Deverão ser punidos comportamentos como despejar num rio material poluente, atear fogo à vegetação, expelir fumaça tóxica.

As multas previstas são dissuasivas: vão de 375.000 a 4,5 milhões de euros. Segundo a ministra da Ecologia, o poluidor periga levar multa de até dez vezes o valor que ele economizou despejando seu esgoto industrial no rio.

Um segundo projeto de lei está em preparação para punir as agressões ainda mais graves. Os crimes que se enquadrarem neste outro dispositivo vão render ao autor pena de até um ano de prisão em regime fechado.

Não se deve esquecer que os 594 membros de nosso Congresso constituem um Poder independente do Executivo e do Judiciário. Tirando os que, por convicção ou por interesse, se ajoelham diante de doutor Bolsonaro, os demais deveriam mirar-se no exemplo francês.

Com o presidente empacado que temos e com o execrável ministro do Meio Ambiente que o assessora, não há esperança. Está claro que o Executivo não vai se mover na boa direção.

O Congresso está aí justamente para servir de contrapeso a uma presidência que bate cabeça enquanto nossos rios se enchem de mercúrio e de esgoto, e nossa vegetação vira fumaça.

No dia em que nossos desmatadores e poluidores começarem a ser encarcerados, os atentados contra a natureza cessarão rapidinho.

This guy, I love him

Vera Magalhães (*)

Não que Trump esteja ligando para o Brasil ou para a família Bolsonaro. Nunca o fez a sério.

Mas o contrário não é verdade: toda a estrutura da política externa brasileira foi erigida em razão dos interesses norte-americanos, que ditaram nossa escolha para a tecnologia 5G, o destino da base de Alcântara, a política de preços de etanol, alumínio e aço, a estratégia de ingresso em organismos multilaterais, nossa política no continente (tendo a Venezuela como ponto central), e até a relação com Israel e Palestina.

by Cristina Sampaio (1960-), desenhista portuguesa

Sem Trump, ficamos a ver navios e ainda mais expostos na questão ambiental, pois Biden certamente se unirá à Europa nas cobranças veementes e na ameaça de retaliação comercial caso continuemos queimando biomas como se não houvesse amanhã.

(*) É jornalista com atuação em numerosos veículos.

Banguecoque e Estugarda

José Horta Manzano

«A firma me propôs um estágio de três meses em Amesterdão. Fui e gostei muito de lá. Aproveitei para viajar um pouco. Conheci Copenhaga, Helsínquia e até Bordéus. Uma viagem e tanto.»

O enésimo acordo ortográfico que entrou em vigor faz alguns anos se propunha a encurtar a distância entre a escrita lusa e a nossa. Se o vão era de quilômetros, o acordo encurtou alguns centímetros, se tanto. O grosso da questão continua aberto.

O Acordo Ortográfico de 1990 é, a meu ver, o menos feliz de todos os que já conhecemos nos últimos cem anos. Incomodou a todos, sem resolver o problema de ninguém. Serviu, isso sim, para acentuar a insegurança ortográfica que nos persegue desde sempre. Os hífens, então, são uma catástrofe. Os que escrevem com frequência, como é meu caso, têm de conviver com um dicionário aberto e pronto a ser consultado a cada instante. Uma chateação.

Bem, desabafo feito, gostaria de ressaltar uma discrepância entre os falares de lá e de cá. Trata-se de certas cidades estrangeiras cujo nome se fixou de maneira diferente em Portugal e no Brasil. Pelo costume luso, sempre se escreveu Nova Iorque, enquanto, no Brasil, usa-se Nova York. No fundo, onde está o problema, se todos entendem?

Conheça Estugarda!

O exemplo que pus no cabeçalho deste artigo é uma amostra do nome que os portugueses costumam dar a cidades pra lá de conhecidas. São diferenças que resistem a todo engessamento produzido por acordos ortográficos.

Vai aqui uma lista longe de ser exaustiva:

Portugal       Brasil
==========================
Telavive       Tel Aviv
Banguecoque    Bangkok
Orleães        Orleans
Nova Orleães   New Orleans
Amesterdão     Amsterdã
Nova Iorque    Nova York
Bilbau         Bilbao
Helsínquia     Helsique
Zagrebe        Zagreb
Copenhaga      Copenhague
Nuremberga     Nuremberg
Moscovo        Moscou
Marraquexe     Marrakech
Bordéus        Bordeaux
Estugarda      Stuttgart

Tanto lá quanto cá, alguns nomes, por inusitados, surpeendem. Falta de hábito, nada mais. No final, a gente acaba se acostumando.

Proibições

José Horta Manzano

Na Coreia do Norte, tudo é proibido ‒ até aquilo que é permitido.

Na Alemanha, tudo é proibido ‒ salvo o que é permitido.

Na Itália, tudo é permitido ‒ salvo o que é proibido.

No Brasil, tudo é permitido ‒ especialmente o que é proibido.

Mapa macabro

José Horta Manzano

O ESRI (Environmental Systems Research Institute) é uma entidade americana que gere poderosa plataforma cartográfica de análise. Alimentada pelos dados da Universidade Johns Hopkins, o instituto mantém um mapa interativo da propagação da covid-19 no planeta.

O mapa mostra a mortalidade, não em números absolutos, mas por 100.000 habitantes, uma abordagem que reflete melhor o estrago provocado pela doença. De fato, algumas centenas de óbitos num pequeno país podem representar uma baixa relativamente mais importante do que centenas de milhares de mortes num país mais populoso.

Em números absolutos, os EUA e o Brasil são os mais atingidos pela epidemia. Porém, em número de mortos por 100.000 habitantes, o quadro se modifica. Excluindo casos anômalos, como San Marino, Andorra e outros micropaíses, a lista macabra dos 10 mais atingidos é a seguinte:

Mortes por 100.000 habitantes
Bélgica       85,7
Reino Unido   71,5
Peru          63,8
Espanha       58,3
Suécia        57,7
Itália        56,6
Chile         54,6
EUA           47,6
Brasil        45,7
França        45,2

clique para ver o original

A maioria de nossos vizinhos sul-americanos está em situação bem mais confortável que a nossa:

Mortes por 100.000 habitantes
Peru          63,8
Chile         54,6
Brasil        45,7
Equador       35,4
Bolívia       29,0
Colômbia      23,1
Argentina      8,6
Suriname       4,6
Guiana         2,9
Uruguai        1,1
Paraguai       0,8
Venezuela      0,8

Observa-se que o confinamento precoce parece ter contido, em certa medida, o avanço da epidemia. Países que, num primeiro momento, deram de ombros às medidas de distanciação social estão pagando conta mais salgada – é o caso do Reino Unido e da Suécia. A Alemanha, que deu resposta rápida à ameaça, exibe quota menos trágica: 11,37 mortos por 100.000 habitantes.

Essa era a situação em 4 de agosto. O problema é que, enquanto o contágio caiu na Europa, continua feroz nas Américas. Fica evidente que as trapalhadas (ordens e contraordens, confinamento e desconfinamento, quarentena vs circulação livre), além de repercutir mal no exterior, contribuíram e continuam contribuindo para a subida incessante dos números.

O link para o mapa interativo original é este.

A conta chega

José Horta Manzano

O povo diz que ‘aqui se faz, aqui se paga’. Em linguagem mais elevada, o axioma newtoniano diz a mesma coisa: ‘A toda ação corresponde uma reação oposta e de igual intensidade’. No frigir dos ovos, todos sabem que nada sai de graça, tudo tem seu custo. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega.

Um dia, logo no início do mandato, com aquela incúria de adolescente mal-educado cuja mãe nunca botou fé em simancol, doutor Bolsonaro achou uma graça comentar uma tuitada que ofendia Brigitte Macron, esposa do presidente da França. Acumpliciou-se ao autor da patacoada e ainda completou com um MDR (morto de rir).

A ofensa, em si, estava mais pra deboche que pra insulto. Fazia alusão ao fato de madame já ter perdido o frescor e o encanto da juventude. Piada de sarjeta. Só que doutor Bolsonaro ainda não tinha se dado conta – não se deu até hoje – de que não era dono do botequim da esquina, mas chefe do Estado brasileiro.

Na ocasião, vi pela televisão o semblante de Monsieur Macron, colhido assim que lhe deram a notícia, em plena reunião do G7. Fez, por breve instante, aquela cara de quem não estava acreditando no que ouvia. A pedrada era suficiente para derrubar qualquer Golias.

Inteligente e bom orador, engoliu em seco, pronunciou meia dúzia de palavras e fechou: «Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements – Acho que os brasileiros, que são um grande povo, sentem vergonha de ver esse tipo de comportamento». Uma saída elegante, diferente do nível rasteiro que vigora no Planalto. No final, ficou tudo por isso mesmo.

Ficou tudo por isso mesmo? Não acredite, distinto leitor. Nada fica por isso mesmo. Aqui se faz, aqui se paga. Vindo da boca de um chefe de Estado, a ofensa passou de desacato: na França, foi interpretada como agressão. Um obtuso Bolsonaro instilou ressentimento no espírito do colega francês. Todo agredido costuma ter desejo de vingança.

Hoje o episódio anda esquecido. Para azar nosso, Monsieur Macron, que ainda tem dois anos de mandato, não se esqueceu. São coisas que marcam para a vida toda. Como resultado da brincadeira de um irresponsável Bolsonaro, o Brasil pode dizer adeus – e por muitos anos – à ratificação do acordo de comércio entre a UE e o Mercosul, aquele que levou 20 anos pra ser costurado. Enquanto Macron estiver na presidência, não será assinado porque a França vai bloquear.

A conta chega. Não adianta correr.

Tem mais. A covid-19 revelou fragilidades que ninguém imaginava. A Europa descobriu que a desindustrialização das últimas décadas privou o continente de rapidez de reação. Não há mais fábrica de máscaras, por exemplo. Tudo vem da China. Por seu lado, as estrepolias de nosso ministro Salles estão puxando os holofotes para a Amazônia brasileira e o desmatamento que a destroça. Em Paris, as autoridades encarregadas de pensar o futuro do país se deram conta da total dependência, em matéria de alimentação animal, da soja estrangeira, importada principalmente do Brasil.

Macron, com o tuíte de Bolsonaro ainda zunindo no ouvido, está embarcando em nova cruzada. Tem dito, a quem quer ouvir, que seu país – grande importador de soja – tem de diversificar, procurando novos fornecedores. Países interessados em tomar o lugar do Brasil é o que não falta. É só uma questão de tempo, que essas coisas não se fazem do dia para a noite.

Sozinho, o presidente francês não tem o poder de determinar de onde seu país vai importar soja. Mas seu prestígio tem peso, e ele está se valendo disso. Tem mexido os pauzinhos no sentido de alargar o leque de fornecedores e deixar o Brasil à míngua. Para isso, conta com o apoio entusiasta de Greenpeace e de outras centenas de ongs. Agindo assim, dá satisfação à ala ecologista de seu eleitorado, colhe pencas de votos e, de quebra, dá o troco a Seu Jair.

Pois é, a conta do jantar acaba chegando um dia, embora nem sempre seja cobrada de quem encheu a pança. No caso da imbecilidade cometida por nosso presidente, quem vai pagar a dolorosa é você, sou eu, somos todos nós. Ao fim do mandato – quer siga como previsto, quer seja encurtado – o verdadeiro ofensor estará livre e solto, com pensão vitalícia, carro, motoristas, secretários e seguranças pagos com nosso dinheiro. Nós, sem ter pedido a conta, vamos ter de enfiar a mão no bolso.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Voto no bico de pena

José Horta Manzano

Você sabia?

É difícil dizer se os brasileiros sabem ou não votar. Taí um conceito de geometria variável. Quando elegem candidato que nos é simpático, concordamos que, sim, amadureceram e aprenderam a votar. Ao contrário, quando votam maciçamente em quem não nos agrada, afirmamos que são todos ignaros, atrasados, que ainda vivem na Idade da Pedra Lascada. Como vemos, a etiqueta de «bom eleitor» é elástica.

No Brasil, antes de 1932, votava-se no bico de pena. O voto não era secreto. Cada eleitor escrevia o nome do candidato preferido num grande livro e assinava ao lado, à vista de todos. Há que reconhecer que a transparência era absoluta, o que praticamente impossibilitava fraude na apuração. Em caso de litígio, lá estava o livro com o nome de cada votante seguido pelo do candidato escolhido. Se precisasse, bastava recontar.

Por seu lado, num Brasil ainda mais estratificado que o de hoje, como escapar à ordem do patrão, do coronel, do poderoso do lugar? Cada um era livre de votar em quem quisesse… desde que votasse no candidato do dono do pedaço. E ai de quem ousasse desobedecer!

Embora hoje o voto secreto nos pareça natural e evidente, nem sempre foi assim. Quando veio, significou conquista grande. Nosso país adotava o voto pessoal, livre e secreto com 20 anos de atraso com relação à França. Mas há que relativizar. Vinte anos, naquela época, não era tanto tempo assim.

Voto de cabresto

Adotado o segredo eleitoral, o voto ‘no bico de pena’ desapareceu. O Brasil enterrou, pelo menos em princípio, o ‘voto de cabresto’, aquele em que o cidadão era forçado a seguir as ordens do mandachuva local. Assim mesmo, ainda hoje se fala em ‘compra de votos’, prática difícil de controlar. Como ter certeza de que o eleitor ‘comprado’ realmente cumpriu o acordo?

É possível que, em lugarejos pequeninos, o dono do pedaço terrorize seus súditos dizendo-lhes, por exemplo, que tem meios de ficar sabendo em quem cada um votou. Com eleitores muito simples, é capaz de funcionar. Portanto, embora não se fale muito no assunto, o ‘voto de cabresto’ não só sobrevive como tem dias promissores pela frente.

O sistema eleitoral francês guarda, em certa medida, semelhanças com o brasileiro. Mas diverge fortemente em algumas particularidades. Uma especificidade de lá, dificilmente encontrada em outras terras do globo, é o voto por procuração. O eleitor que não puder (ou simplesmente não quiser) se deslocar até a secção eleitoral pode dar procuração a outra pessoa para votar em seu nome. As formalidades são simples: basta anunciar com antecedência à autoridade eleitoral por meio de formulário adequado. As exigências também são básicas: o procurador deve ser maior, cidadão francês e residente no mesmo município.

É verdade que, para coibir abusos, cada procurador só pode receber mandato de um único eleitor. Em outros termos, ninguém pode votar no lugar de vários eleitores ausentes. Assim mesmo, essa prática soa bizarra. Quem garante que o eleitor que vota em nome de um terceiro não terá obtido a procuração por meio de coação?

Francês adora reclamar. Todos exprimem opinião sobre qualquer assunto, mesmo sobre matérias que desconhecem ‒ parece uma obrigação incontornável. Pois acredite o distinto leitor que, até hoje, nunca ouvi ninguém se levantar contra o princípio do voto por procuração. É sinal de que ninguém enxerga aí nenhum inconveniente. Vasto mundo…

Publicado originalmente em 6 maio 2017.

Olhar da mídia

José Horta Manzano

Houve uma época, e não foi ao tempo dos Sumérios, em que não havia internet. A informação vinha pela imprensa. No exterior, o Brasil costumava aparecer nas páginas turísticas. Sol, praia, futebol, Carnaval era o que se lia. Copacabana, Iguazú (sic), Ipanema – eram esses nomes exóticos que emolduravam as imagens de coqueiros, de sol, de sal, de sul.

Com a virada do século, veio a grande (e bem-sucedida) jogada de marketing do lulopetismo. Um Lula paz e amor, todo sorridente, percorria o mundo. Dizia e fazia besteiras, mas tudo lhe era perdoado por transmitir a imagem de paizinho dos pobres. Lentamente, o Brasil saiu do caderno Turismo para entrar nas páginas políticas.

A derrocada do regime abalou muita gente. Ao redor do mundo, alguns não entenderam até hoje o que aconteceu e preferem se agarrar à imagem do demiurgo injustiçado. Cada um é livre de venerar os santos de sua preferência.

Um belo dia, na esperança de enterrar o governo marqueteiro, o povo brasileiro elegeu doutor Bolsonaro, um desconhecido que prometia fazer melhor do que tudo aquilo que havia sido feito antes.

Bolsonaro é bem-sucedido em recurso contra a obrigação de usar máscara
Artigo do Deutschlandfunk

A magia não durou muito. O rojão estava molhado e deu chabu. Depois do caderno Turismo e das páginas políticas, o Brasil escorregou para a rubrica policial, aquela que os franceses chamam «faits divers – fatos diversos», e que engloba crimes e acidentes.

A ilustração é do Deutschlandfunk, um dos braços do conglomerado de mídia pública alemã. Explica a história sombria de uma briga judicial de doutor Bolsonaro contra a obrigação de usar máscara de proteção contra covid-19.

Este blogueiro teria vergonha de ser ameaçado de multa por se negar a proteger o próximo contra a epidemia que assola o país. Mas vergonha é palavra que não consta do indigente vocabulário presidencial.

Ministros da Educação

José Horta Manzano

À moda de lá
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio – sua tese de doutorado havia sido fortemente ‘inspirada’ de textos anteriores, com largos trechos idênticos.

Em países sérios, não se brinca com essas coisas. Quando é um cidadão comum que escorrega, a mentira já pega mal; quando a mutreta vem de um ministro de Estado, o mundo desaba. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira.

A espertona nem tentou dar desculpa. De cara no chão, foi chorar sua vergonha longe dos holofotes. Nunca mais se ouvir falar dela.

À moda daqui
Com o pranteado Weintraub fugido do país, o terreno estava aplainado para entrada triunfal do substituto. Afinal, ser melhor do que o anterior é barbada: qualquer um consegue.

Besteiras, todos cometemos. Só que, para os mortais comuns, que vivemos longe do palco, os deslizes podem passar a vida toda esquecidos. Para quem aceita cargo importante, a coisa é diferente: saem todos os jornalistas à cata de falhas do passado. Quem procura, acha. No caso do novo ministro da Justiça, não demorou muito.

Alguns dias atrás, o reitor da Universidade de Rosario (Argentina) veio a público em pessoa para uma ‘retificação’. Doctor Decotelli, nosso novo ministro, havia afirmado, no currículo inserido por ele mesmo na plataforma Lattes, ter obtido o título de doctor em Administração naquela universidade. Negativo – o reitor desautorizou o ministro mentiroso. Ai, que coisa feia!

Dois ou três dias depois, lá vem bomba de novo. Desta vez, o novo ministro é acusado de plágio na dissertação de mestrado que apresentou à FGV em 2008. Como a ministra alemã, doctor Decotelli também é suspeito de haver copiado passagens inteiras, palavra por palavra, de trabalhos anteriores.

Só que aqui não estamos na Alemanha. Brasília não é Berlim. Diferentemente de Frau Merkel, que despachou rapidinho sua ministra de volta a casa, doutor Bolsonaro continua quietinho no seu canto. Nem um pio. Quanto ao ministro, seguiu o padrão dos políticos brasileiros que enfrentam acusações. Longe de se dobrar às evidências, ousou contestar. Nega tudo.

Em lugar de agarrar o touro pelos chifres, mandou o ministério soltar nota. Saiu um daqueles contorcionismos do tipo ”caso” haja alguma ilicitude, terá sido mera distração, “que corrigiremos imediatamente”. O problema será contornado, 12 anos após a entrega da dissertação, com o acréscimo do crédito aos verdadeiros autores dos trechos plagiados. E pronto.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Viva São João!

José Horta Manzano

Hoje é dia de Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perde alguma coisa, o melhor é invocar Santo Antônio. Não costuma falhar.

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Diz-se de Santo Antônio que é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. Descendente de Carlos Magno, nasceu em berço aristocrático e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após sua morte.

É o padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade italiana.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Quadrilha

Quadrilha

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, vamos lá?

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, liberdade de inventar seus próprios passos não era deixada a cada par. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Quadrilha

Quadrilha

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na pátria gaulesa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Em francês, naturalmente. Eis alguns:

Balancê = balancé
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous / en avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Quadrilha

Quadrilha

Alguns outros passos foram conservados no Brasil, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça
promenade, demi-promenade

Grande roda das damas
chaîne des dames

Grande roda
chaîne, chaîne anglaise

O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

Publicado originalmente em 12 jun° 2013.

Quanta fronteira!

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando se pensa em fronteira, vem logo a imagem de um quiosque à beira da estrada, guarda uniformizado e armado, apresentação de passaporte, revista de bagagem. É isso, sem dúvida, mas não só. Além de confins terrestres, os países têm também fronteiras marítimas. Não são visíveis, mas estão lá. Delimitam a zona de exploração marítima exclusiva de cada nação.

Com exceção dos países sem saída para o mar e daqueles situados em ilhas sem vizinhos próximos, os demais têm fronteiras marítimas. O Brasil não dispõe de territórios ultramarinos; por isso, suas fronteiras marítimas são poucas, apenas duas: com a França (Guiana Francesa) e com o Uruguai. Dado que, com esses dois países, temos também fronteira terrestre, nosso total de vizinhos de parede não se altera: dá 10 no total.

Há particularidades exóticas. A Argentina, por exemplo, faz fronteira (marítima) com o Reino Unido na altura das Ilhas Falkland (Malvinas). Portugal encosta no Marrocos, a Itália beija a Tunísia e a Turquia está colada em Chipre. Embora estejam distantes um do outro, a Costa Rica e o Equador têm fronteira marítima comum, por causa das Ilhas Galápagos.

Zonas exclusivas de exploração marinha
e fronteiras marítimas

Há um país – caso único no mundo – que, entre terrestres e marítimas, faz fronteira com 34 países! E esse país não são os EUA. Trata-se da França. São resquícios de um tempo em que seu poderio era bem maior que hoje. Subsistem pequenas ilhas espalhadas ao redor do planeta. Além da metrópole europeia, a França tem territórios no Caribe, na América do Norte, no Atlântico Sul, no Pacífico, no Índico. A lista de vizinhos é pra ninguém botar defeito:

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Pra terminar, é interessante notar que o Brasil não é o único país não contíguo com o qual a França faz fronteira. Eles têm outros dois vizinhos situados longe do território nacional: a Venezuela (pela Guiana Francesa) e a Holanda (na ilha binacional de St.Martin, Caribe).

Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

Tuíte – 13

José Horta Manzano

Volta e meia se vê algum analista repetir que, lá fora, o Brasil de Bolsonaro virou piada. Dá impressão de que basta mencionar o nome de nosso país para fazer estourarem gargalhadas em Londres, Paris e Berlim. Não é bem assim. Aliás, não é nada disso.

‘Lá fora’, não se costuma brincar com coisa séria. O Brasil – como os EUA, a China, a Rússia – é grande demais pra ser alvo de riso. Ninguém acha engraçado o drama que se desenrola sob a batuta do maestro Bolsonaro. O Brasil não virou piada, virou objeto de perplexidade. Se nós, que temos familiaridade com o assunto, não entendemos o que acontece, imagine o que se passa na cabeça de um estrangeiro. O espanto é maior do que a vontade de rir.

O vírus e o pão

José Horta Manzano

O surto de coronavírus assusta. Dizem que pegou o mundo de surpresa. Pudera! Alguém estaria suficientemente escolado pra encarar um pesadelo desses sem surpresa? O susto vira pânico quando se descobre que não há remédio contra a infecção.

Estamos acostumados a ter medicamento pra tudo. Tuberculose, sífilis, lepra, poliomielite, sarampo e outros males que flagelaram a humanidade por séculos hoje têm cura e, em certos casos, até vacina imunizante.

De repente, surge um bichinho desconhecido, sorrateiro, oportunista; e todos passam a desconfiar de todos. Se passa alguém de máscara, logo imaginamos que esteja doente. Se alguém tosse ou dá um espirro, logo se afastam todos à sua volta – e ainda olham feio.

Aqui onde vivo, nos supermercados, os pães estão às moscas (força de expressão). Pão sobra mas, em compensação, não se encontra mais fermento. Há duas razões para isso. Por um lado, o confinamento deixa o povo sem ter que fazer; ir para a cozinha amassar pão é excelente remédio contra o tédio. Por outro, muitos preferem agora fazer pão em casa por receio de contaminação; nunca se sabe: alguém pode ter tossido em cima do pão na gôndola.

Não sei se ainda se acha fermento no Brasil neste momento. Se houver, sugiro ao distinto leitor tentar a experiência de amassar e assar o próprio pão. É simples, basta respeitar as regras. Receitas há, aos montes: basta passear pelo youtube. Bom apetite.