La queue d’une poire ‒ 2

José Horta Manzano

«Il ne se prend pas pour la queue d‘une poire» – ele não se considera o cabinho de uma pera. É o que costumam dizer, jocosamente, os franceses diante de uma pessoa que acredita ter mais importância do que realmente tem. «Ele se acha», expressão da moda, dá o mesmo recado.

A última façanha de nosso guia é relatada em reportagem do Estadão. O figurão caído, em nova demonstração de que se considera acima dos demais mortais, volta a acionar o Comitê de Direitos Humanos da ONU. Yes, o ex-presidente tem uma «equipe legal no exterior».

Mr. Geoffrey Robertson, chefe do batalhão de criminalistas, deve convocar coletiva de imprensa internacional em Genebra esta semana. Pela enésima vez, pretendem denunciar a «perseguição contra o Lula».

É curioso. Não ocorreu ao Lula acionar a ONU quando velhos companheiros de caminhada ‒ penso em José Dirceu, Genoino, Vaccari, Palocci ‒ se encontraram em dificuldade com a justiça nacional. O privilégio de apelar para instâncias superiores é exclusivo do chefe. Edificante.

O personagem se considera o centro do universo. Seja como for, a gesticulação terá efeito nulo sobre o destino do ex-presidente. Primeiro, porque nenhuma decisão da ONU deverá ser tomada antes de uns dois anos. Segundo, porque as Nações Unidas são uma organização internacional, não supranacional. A legislação brasileira é soberana, portanto imune a injunções vindas de fora. O Comitê de Direitos Humanos não pode ir além de vaga recomendação.

Como se sabe, todo corrupto, quando apanhado, se diz perseguido político. O esperneio de nosso guia, além de não lhe ser de utilidade, periga piorar a percepção de nosso país no exterior. O Brasil que ele denuncia compara-se a uma república de bananas.

Perguntar não ofende
De onde estará saindo o dinheiro para pagar esse batalhão de advogados nacionais e internacionais? Advogado com gabarito para atuar junto à ONU cobra até para atender ao telefone. Pra uma hora de conversa com um profissional desse padrão, pode ir contando alguns milhares de dólares. Naturalmente, cobram adiantado.

O voto do Conselho de Segurança

José Horta Manzano

A ONU, fundada em 1945, é retrato do mundo político daquele momento. A antiga Sociedade das Nações, criada logo após o primeiro conflito mundial, não tinha sido capaz de evitar o segundo. A ONU foi pensada como anteparo a futuras guerras. Embora não tenha conseguido evitar todas, contribuiu para impedir a catástrofe nuclear que se temia nos tempos da Guerra Fria.

Quando da fundação, havia duas condições para fazer parte do clube. A primeira era ser Estado independente. A segunda, ter declarado guerra à Alemanha pelo menos três meses antes do fim do conflito. Os membros fundadores não foram muitos: resumiram-se a 51. Os perdedores da guerra só foram admitidos anos mais tarde, e não todos ao mesmo tempo. Hungria e Itália entraram em 1955. No ano seguinte, foi a vez do Japão. A Alemanha só se tornou membro em 1973.

ONU ‒ sede de Nova York

Prevendo que, em casa onde vive muita gente, todos falam e ninguém se entende, os idealizadores criaram o Conselho de Segurança, órgão que, de facto, toma as decisões importantes. O CS, como é conhecido, compõe-se de 15 membros. Cinco deles são permanentes e os demais, temporários.

Os membros permanentes são justamente os maiores e mais fortes aliados que haviam vencido a Segunda Guerra. Por acaso, todos eles acabaram se tornando potências nucleares, ainda que não o fossem em 1945. São eles: EUA, Rússia (antes URSS), China, Reino Unido e França. Os dez membros rotativos são eleitos com mandato de dois anos. A cada ano, renova-se metade das dez cadeiras.

Os não-permanentes são Estados distribuídos equitativamente pelos continentes. A América Latina tem direito a duas cadeiras. Entre os membros não-permanentes, o Japão é o que já foi eleito mais vezes: está cumprindo o 11° biênio. Em segundo lugar, vem o Brasil, que já ocupou uma cadeira no CS durante 10 biênios. Em seguida, está a Argentina, eleita 9 vezes. Por razões que a razão desconhece, o Brasil não se tem candidatado a uma vaga rotativa estes últimos anos. Pelo mecanismo de funcionamento da ONU, terá de esperar até 2022 ou 2023 para postular de novo.

Atualmente, o Uruguai (biênio 2016-2017) e a Bolívia (biênio 2017-2018) ocupam as cadeiras do CS reservadas para a América Latina. O Japão, membro ativo e assíduo, tem lugar garantido até o fim de 2017. As regras da ONU não permitem a eleição de um membro não-permanente para dois biênios consecutivos.

ONU ‒ sede de Genebra

Para ser bem sucedida, uma proposição submetida ao CS terá de ser aceita pela maioria simples dos 15 membros, ou seja, se obtiver 8 votos a favor, entra em vigor. Mas há um senão: o voto contrário de um dos membros permanentes tem valor de veto.

O bombardeio com armas químicas orquestrado pelo ditador da Síria contra um vilarejo, que matou dezenas de civis e horrorizou o mundo, foi objeto de pedido de resolução de reprovação apresentado ao CS por EUA, França e Reino Unido. Submetido ao voto, o pedido obteve 10 votos a favor, 3 abstenções e 2 votos contrários.

Embora a maioria dos membros tenha votado a favor, um dos que se opuseram era a Rússia, cujo voto contrário tem valor de veto. Assim, a resolução não pôde ser  adotada. Sabe o distinto leitor qual foi o país que acompanhou a Rússia? Pois foi nossa vizinha e hermana, a Bolívia.

Surpreendente, não? Nenhuma decisão governamental é inocente ‒ há sempre algum interesse por detrás, ainda que não seja claro à primeira vista. Não acredito em legames ideológicos entre a Bolívia e o sanguinário ditador sírio que justifiquem voto tão bizarro. O buraco é mais embaixo.

Com o “projeto criminoso de poder” fora de cena, o Brasil volta ao caminho da civilização. Banidos os Kirchner, a Argentina também se afasta da esfera bolivariana. A aproximação entre Cuba e EUA, inaugurada por Obama, tende a apartar a ilha caribenha da influência de Caracas. Por fim, a orientação bolivariana da própria Venezuela está em acelerada decomposição. O alinhamento da Bolívia à Rússia parece ser sinal desesperado de busca de apoio, de procura de novo padrinho, em virtude de crescente isolamento. Não acredito que Moscou se deixe enternecer pelo olhar langoroso de La Paz.

Frase do dia — 329

«Diplomatas brasileiros sugerem ao novo chanceler esquecer o “sonho infantil” de assento no Conselho de Segurança da ONU e concentrar-se na reestruturação de postos, no corte de gastos e no desenvolvimento de novas estratégias.»

Cláudio Humberto, bem informado jornalista, no Diário do Poder, 6 março 2017.

O formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares, de formato idêntico. Qual nada! Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

bandeiras-4De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão de 1,429. São apenas duas nações a seguir esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

bandeira-suica-2Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suiça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com o pertencimento a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

Sede europeia da ONU, Genebra

Sede europeia da ONU, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada.

A província rebelde

José Horta Manzano

Donald Trump é bom exemplo de pessoa certa no lugar errado.

Pessoa certa por quê? Porque algum jeito para negócios há de ter. A boa estrela não teria sido suficiente para fazer um indivíduo progredir de milionário a multibilionário no espaço de 40 anos. Nem maracutaia grossa de político brasileiro alcança essa amplitude. Para negócios, não resta dúvida, o moço tem talento.

Lugar errado por quê? Porque a presidência dos EUA não é trono pra qualquer um. Mandatário que, além de inexperiente, vem imbuído da arrogância dos que se acostumaram a comprar tudo com dinheiro, periga escorregar feio. E se, ao resvalar, acabar levando o tapete junto, pode causar desastre planetário.

China continental & Taiwan

China continental & Taiwan

Semana passada, Mr. Trump teve uma conversa telefônica com a presidente de Taiwan. Um distraído poderia perguntar: “E daí?” A resposta é que um diferendo entre a China continental (Pequim) e Taiwan (Taipei, ilha de Formosa) perdura há quase 70 anos. O bate-papo foi mal recebido lá pelas bandas de Pequim.

A revolução comunista comandada por Mao Tsé-Tung nos anos 1930-1940 acabou vencendo as tropas nacionalistas ao fim de quase 20 anos de combate. No ano de 1949, a China toda estava dominada e o regime comunista, instalado. Sobrou uma pequena exceção: a ilha de Formosa ‒ que, diga-se de passagem, herdou o bonito nome dos primeiros portugueses que ali desembarcaram faz meio milênio.

Taipei, capital de Taiwan

Taipei, capital de Taiwan

Nessa ilha, que os nativos chamam Taiwan, os vencidos da guerra civil se refugiaram e fundaram uma república não-comunista. Apoiados pelos EUA, receberam ajuda comercial e militar. Foram admitidos na ONU, ao passo que a enorme China continental foi descartada. A situação perdurou até que, durante o governo Nixon, os papéis se inverteram. Em 1971, sob pressão americana, as Nações Unidas excluíram a pequena ilha e passaram a reconhecer a China continental como representante única do povo chinês.

No entanto, a perda de assento na ONU não significou o banimento da ilha do comércio internacional. Os Estados Unidos continuaram a fornecer armamento e as relações comerciais com os demais países continuou, criando uma situação esdrúxula. No oficial, Taiwan não existe. Na prática, tem sido importante ator do comércio mundial. O delicado equilíbrio vem se mantendo há 45 anos.

Taiwan

Taiwan

O telefonema entre a presidente de Taiwan e Mr. Trump desagradou as autoridades de Pequim, para as quais a ilha não é país independente, mas simples «província rebelde», um filho desgarrado. Esta semana, o presidente eleito dos EUA foi mais longe. Em entrevista, aventou a possibilidade de vir a reconhecer a «província rebelde» como país independente, hipótese inaceitável para a China continental, que nunca desistiu de reintegrar os taiwaneses à patria mãe.

O assunto é pra lá de sensível. Para a China, os EUA são parceiros comerciais de suma importância. E vice-versa. Pra completar o quadro, os chineses são os maiores credores dos Estados Unidos. A interdependência é forte ‒ uma ruptura causaria um tsunami de consequências inimagináveis.

Ninguém sabe como a situação vai evoluir, mas é certo que a inexperiência e a ousadia de Mr. Trump ainda vão provocar muito ranger de dentes. O mundo ainda vai levar umas sacudidas. Quem viver verá.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela

José Horta Manzano

Você sabia?

Todos já ouviram falar do cemitério parisiense Père-Lachaise, provavelmente o mais famoso do planeta. Turistas vêm do outro lado do mundo só para ver de perto as tumbas que guardam os despojos de gente famosa. É o lugar de repouso eterno mais visitado: três milhões e meio de curiosos acorrem a cada ano.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Também, pudera. Artistas do porte de Georges Bizet e Frédéric Chopin estão lá. Samuel Hahnemann, o inventor da homeopatia e a artista Sarah Bernhardt também. Allan Kardec, Edith Piaf e centenas de celebridades repousam no Père-Lachaise.

Genebra, cidade internacional mas relativamente pequena, não conta com o esplendor parisiense e nunca exerceu a atração planetária da Cidade-Luz. Assim mesmo, tem um cemitério singular: o Cimetière des Rois ‒ Cemitério dos Reis. Com 2,8 hectares, a necrópole suíça é bem mais modesta que sua equivalente francesa, que se espalha por 44 hectares.

O Cimetière des Rois fica no coração da cidade e, a um turista desavisado, pode até parecer um jardim público. Não é qualquer um que tem direito a eleger residência eterna ali. Todo pedido de concessão tem de ser feito ao Conselho Administrativo da cidade. Cada caso é estudado minuciosamente. Novas autorizações são raras.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Unicamente magistrados e personalidades marcantes ‒ nacionais ou estrangeiras ‒ que tiverem dado contribuição significativa à cidade serão admitidas. Essa política restritiva explica que as sepulturas cheguem hoje a pouco mais de trezentas.

Na maior parte delas, repousam celebridades locais, nem sempre conhecidas além-fronteiras. A tumba mais famosa e mais visitada é a de Jean Calvin (João Calvino), teólogo cristão de origem francesa cuja influência sobre a Reforma Protestante em Genebra, no século XVI, foi determinante. Suas ideias marcaram a implantação do protestantismo em outras terras, até no Reino Unido, na Holanda e nos EUA.

Ernest Ansermet, maestro suíço de renome internacional está enterrado lá. Dois argentinos famosos também: o compositor Alberto Ginastera e o escritor Jorge Luís Borges. O psicólogo suíço Jean Piaget é outro cujos restos repousam no cemitério genebrino.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Um único brasileiro faz parte do seleto clube dos que tiveram direito a sepultura no Cimetière des Rois. Trata-se do carioca Sérgio Vieira de Mello, alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, morto em 2003, aos 55 anos de idade, num atentado em Bagdá. Funcionário de carreira da ONU, era pressentido como possível futuro secretário-geral da organização. O destino tomou outra decisão.

Origem do nome
Nenhum rei está enterrado no cemitério de Genebra. A origem do nome é bem mais prosaica: está situado na Rue des Rois ‒ Rua dos Reis.

Carta aberta ao chanceler

Excelentíssimo Senhor José Serra,

Antes de mais nada, permita-me congratular-me com Vossa Excelência pela direção auspiciosa que a diplomacia brasileira assumiu sob seu comando. Foi guinada importante, verdadeira recondução do comboio a trilhos que nunca deveriam ter sido abandonados.

Pela mídia, fiquei sabendo das mais recentes notícias sobre o posicionamento firme do Brasil em face do sinistro espetáculo que se vem desenrolando na vizinha Venezuela. Regozijo-me pelo discurso incisivo pronunciado dia 1° de novembro por nossa embaixadora junto à ONU.

escrita-5Em certos momentos, o veludo dos códigos diplomáticos tem de ser posto de molho. Há horas em que é preciso arregaçar as mangas, mostrar os músculos e deixar clara a posição do país. Foi o que fez nossa embaixadora, por certo sob orientação de Vossa Excelência. O discurso da representante brasileira não podia ser mais explícito ao pedir às autoridades venezuelanas que garantam o total exercício dos direitos constitucionais e que tomem medidas para realizar o referendo revogatório sem demora, de forma clara, transparente e imparcial. Foi pronunciamento límpido e cristalino.

Em resposta, a chanceler da Venezuela ‒ homóloga de Vossa Excelência ‒ declarou que «não reconhece o governo de Michel Temer». Mas não parou por aí. Afirmou que «houve um golpe de Estado no Brasil» e concluiu o ultraje asseverando que «esse governo golpista é formado por um grupo de corruptos.»

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

Nos tempos em que ofensa se lavava com sangue, tal invectiva constituiria um casus belli, razão suficiente para retrucar com armas. Felizmente, os costumes se suavizaram, mas certos insultos não podem passar em branco. Os brasileiros esperam de Vossa Excelência uma reação à altura do orgulho ferido. É insuportável ter de ouvir desaforos da representante oficial de um Estado. De um vizinho ainda por cima. Dizer que não reconhece nosso governo golpista ultrapassa todo limite.

Se a República Bolivariana não reconhece nosso governo, não temos outro caminho senão deixar de reconhecer o deles. A partir daí, a consequência inevitável é uma só: o rompimento de relações diplomáticas. Temos a obrigação de ensinar a nossos vizinhos ignorantes com quantos paus se faz uma canoa em Pindorama. Sinto pena pelo infeliz povo do outro lado da fronteira, mas, infelizmente, os medalhões bolivarianos não entendem outra linguagem que não seja a da força bruta.

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

A hora é agora. A querela não pode ficar no nível de bate-boca entre comadres. Torcemos para que Vossa Excelência não esmoreça e tome a atitude drástica que a situação está a exigir. Amanhã, passada a tempestade, o próprio povo venezuelano lhe agradecerá.

Respeitosamente,

José Horta Manzano

Aqui se faz, aqui se paga

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que um mal nunca vem sozinho. Sei não, mas parece que o destino é realmente brincalhão. As «brincadeiras» ‒ nem sempre de bom gosto ‒ são cíclicas, como uma linha ondulada. Tem horas em que a gente se sente no topo da onda, com um bocado de coisas boas acontecendo. O chefe dá um aumento, o médico informa que os preocupantes exames deram resultado negativo, o vizinho barulhento se muda. E tem, infelizmente, aquela temporada em que más notícias se acumulam.

Poucos anos atrás, no auge da popularidade e sabendo que não poderia concorrer a um terceiro mandato, o Lula sonhava com a presidência do Banco Mundial ou, por baixo, com o secretariado-geral da ONU. Por seu lado, o Nobel da Paz já lhe parecia praticamente garantido, estava no papo. Pelo menos, era voz corrente entre os cortesãos do andar de cima.

sinusoidal-1Desgraçadamente… a vida é cruel. As coisas são como são e nem sempre como gostaríamos que fossem. Nosso guia, aquele que, garboso, já passeou de carruagem ao lado da rainha da Inglaterra, está no baixo da curva. Ou no fundo do poço, se preferirem. No curto espaço de 24 horas, três notícias pesadas lhe caíram direto no cocuruto.

Dia 6 de outubro, uma pancada. O sorridente senhor Guterres, que já foi primeiro-ministro de Portugal, foi sacramentado como secretário-geral da ONU. Assume as novas funções dia 1° de janeiro. Nosso taumaturgo pode dar adeus àquele trono.

A segunda pancada ‒ essa doeu! ‒ veio no mesmo dia. Foi a decisão do STF de «fatiar» acusações de corrupção. Deixo a explicação dos pormenores para especialistas, que o assunto é meio complicado. Trocando em miúdos, fica a certeza de que nosso guia, pelo menos nesse caso específico, escapou de Curitiba mas caiu direto no tribunal maior. Condenado ali, não terá a quem apelar: é direto pro xilindró.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Se não bastasse a decepção de ver, ao mesmo tempo, a ONU escapar-lhe das mãos e as grades se aproximarem, recebeu outra paulada no dia seguinte. O presidente da Colômbia ‒ que insolência! ‒ acaba de ser anunciado como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2016. Justamente o presidente Santos!

O distinto leitor há de se lembrar que certos “assessores” do Lula levaram anos tentando dar uma mãozinha à guerrilha colombiana. De repente, vem um pouco conhecido presidente do país vizinho e, como quem não quer nada, acaba com o conflito de meio século! Que bordoada, Lula!

Assim são as coisas, que fazer? Resta a nosso demiurgo esperar por um convite para presidir o Banco Mundial. Nada é impossivel, mas acho que vai ser difícil. Ainda que escape da cadeia, o homem não tem inglês fluente.

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

Frase do dia — 309

«Essa reação do Lula não tem nenhuma originalidade, porque instintivamente todo político no mundo quando é pilhado praticando corrupção diz que é perseguido político. Eu acho que a ONU não vai levar em consideração esse tipo de pedido que não tem originalidade nenhuma.»

Modesto Carvalhosa, jurista e escritor, ao pronunciar-se sobre o pedido de socorro que o Lula dirigiu à ONU. A entrevista integral está no Estadão de 31 jul° 2016.

Lula aciona ONU ‒ 2

José Horta Manzano

Nota
Este artigo retoma o tema de ontem. Pra poder acompanhar, é interessante dar uma espiada, nem que seja de relance, no post anterior. É esse que aparece logo abaixo.

Interligne 28a

Lula caricatura 2Vamos dar continuação a nossa conversa de ontem. Falávamos sobre o Lula, esse pedregulho incontornável, essa figura que invariavelmente aparece na origem (ou no epílogo) de nossas mazelas atuais.

Eu dizia que a ONU, além de não ter poder para intervir na querela, tem problemas mais importantes a cuidar. A última coisa que gostariam é de arrumar briga com o Brasil, o que aconteceria se se intrometessem em nossos problemas internos.

Convenhamos: para uma entidade que lida com conflitos planetários, com milhares de mortos, com milhões de refugiados, com tensões políticas e com perigo nuclear, não faz sentido perder tempo com a choradeira de nosso guia.

Mandaram logo o aviso: aqui ninguém dá carteirada. O caso do demiurgo vai entrar no fim de uma fila em que já estão uns 500. Apanhe a senha na entrada, se faz favor. Deixaram claro que ia levar pelo menos dois anos. Com isso, praticamente enterraram o assunto.

Diferentemente do que a defesa do Lula parece acreditar, a ONU dispõe de equipe eficiente de observadores. Como você e eu, também eles estão a par do que se passa no Brasil. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

Lula caricatura 2aAo tentar acionar a ONU, o Lula desclassificou a Justiça brasileira. Deu-se mal. A reação dos magistrados veio no mesmo dia: entrou para a lista dos réus no vendaval de escândalos que varre o país. Com duas particularidades. A primeira é que seu caso não foi parar nas mãos do temido Sérgio Moro, numa prova de que há outros juízes e procuradores sérios no país. A segunda é que a acusação é bem mais pesada do que a propriedade clandestina de triplex ou de pedalinho de lata. O ex-presidente responde agora por obstrução de Justiça, crime bem mais grave.

Um Lula visivelmente abalado houve por bem dar resposta. Não lhe ensinaram que, em certas ocasiões, mais vale se eclipsar. Fez-se de desentendido. Perante plateia amestrada, esquivou-se da acusação mais grave e ateve-se a repetir que não possuía imóvel registrado em seu nome, lenga-lenga que todos já ouviram.

Lula caricatura 2Mal aconselhado ‒ ou «alterado», segundo as más línguas ‒, ameaçou candidatar-se à presidência do Brasil em 2018. Sim, distinto leitor, até o próprio Lula já se deu conta de que o espectro de sua volta ao poder soa como ameaça. Foi como se dissesse: «se insistirem nas investigações, posso até voltar».

A meu ver, errou. Deu ideias aos juízes. Entregou o ouro aos bandidos, como se diz. Ativou o risco de ser condenado à perda dos direitos civis. Numa demonstração de que vive desligado da realidade, está cutucando a onça com vara pra lá de curta.

Lula aciona ONU

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Assombrado com a ordem de prisão, cada dia mais nítida, o batalhão de advogados do Lula implora à ONU que faça alguma coisa para proteger o antigo mandatário.

Não por acaso, usei o verbo implorar. O Brasil, como país soberano, dispensa tutela de organismos estrangeiros ou supranacionais. Se nem o Mercosul tem poder de influenciar nossas instituições, menos ainda terá a Organização das Nações Unidas. O Lula há de estar em pânico, o que explica estar arriscando as últimas fichas na empreitada. Acaba de dar passo perigoso.

Há duas possibilidades: a ONU tanto pode aprovar como reprovar o funcionamento da Justiça brasileira. Caso considere o processo isento e honesto, Lula terá perdido definitivamente a batalha ‒ quiçá a guerra. Caso considere que o ex-presidente é vítima de jogo de cartas marcadas, como numa «república de bananas», nosso Judiciário se sentirá, com razão, afrontado, ofendido e desafiado.

Lula caricatura 2aNinguém gosta de se sentir afrontado, nem ofendido, muito menos desafiado. O orgulho nacional será atingido. Nossos magistrados se sentirão todos insultados. Esse sentimento periga voltar-se contra o acusado, surtindo efeito contrário ao que estava sendo buscado.

É verdade que o Lula não tem muitas opções. Como cônjuge de cidadã italiana, deve ter imaginado poder um dia, em caso de necessidade, refugiar-se na Itália. O caso Pizzolato freou seus ardores. A Itália provou que, quando lhe parece justo, não hesita em extraditar os próprios cidadãos.

Caso consiga escapar das garras do juiz Moro, como tem tentado, quem garante que nosso guia não cairá nas mãos de magistrado ainda mais rigoroso? Moro não é o único juiz competente e tenaz.

Lula caricatura 2Se escolher deixar o país e estabelecer-se em alguma ilha paradisíaca, estará abrindo o flanco para os EUA pedirem ‒ e obterem ‒ sua extradição. Transação internacional de dinheiro sujo ou limpo costuma transitar por aquele país. No escândalo que emaranha Lula, Petrobrás, Mensalão, Eletrobrás, BNDES & companhia, não será difícil encontrar fundamento jurídico para pedido de extradição. Bilhões de dólares roubados aqui transitaram por lá.

Sobra ainda a possibilidade de o Lula pedir asilo político a algum país. (Quem garante que a eventualidade já não tenha sido sondada?) Não vai ser fácil encontrar abrigo. Se ninguém quis acolher um simples Snowden, quem abrigará um Lula? A Bolívia ou a Venezuela talvez? Pode ser um caminho. Pelo menos, enquanto não caírem os respectivos governos.

Vão ainda duas ou três reflexões. A primeira, mais evidente, é quanto ao custo do batalhão de advogados. Quem paga? Estarão todos trabalhando por amor a um acusado desvalido?

Outra observação é quanto à escolha do escritório de Mister Robertson, jurista australiano especializado em direitos humanos, que conta com Salman Rushdie e Julian Assange entre seus clientes. Não é um fantástico cartão de visitas.

Lula caricatura 2aO escritor britânico Salman Rushdie sobrevive há quase 30 anos, sob rigorosa proteção policial, a uma ordem de assassinato expedida pelo bondoso (e já finado) aiatolá Khomeini. Quanto a Mister Assange, esconde-se há quatro anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres. Visto o histórico da banca de advocacia de Mister Robertson, não fica claro o que podem fazer pelo Lula.

Penso ainda no foro competente para julgar nosso ex-presidente. Por enquanto, é acusado comum. Na inimaginável eventualidade de dona Dilma voltar à presidência, o Lula poderia até ser nomeado ministro, o que lhe daria direito a ser julgado pelo STF. Ainda assim, não é concebível que a maioria de nossos magistrados-mores se pronunciem pela total inocência do indiciado. Nenhum deles vai querer entrar para a História com reputação manchada.

Uma saideira: ninguém garante que as informações vazadas até agora representam a totalidade dos indícios e das provas. Debaixo desse angu ainda deve ter muita carne.

Interligne 18c

Observação
Para quem acaba de chegar de Marte, aqui está a notícia no Estadão e na Folha de São Paulo.

Carta à ONU e aos americanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Senhoras e senhores,

Antes de voltarem suas atenções para as considerações que nossa atual presidente deseja lhes apresentar para reflexão no dia de hoje, parece-me fundamental introduzi-los um pouco mais em detalhe à realidade brasileira. Para que lhes seja possível contextualizar com facilidade os fatos preocupantes que nossa mandatária pretende divulgar aqui, permitam-me guiá-los numa viagem conceitual pelo nosso país.

O Brasil não é um país para amadores. Turistas ocasionais podem se entreter e se deliciar com nossas belas paisagens, nosso clima tropical, nossa gastronomia diversificada, nosso multifacetado folclore e, principalmente, com nossa cultura de inclusão, conciliação, alegria e crença no futuro. Quaisquer que sejam seus interesses pessoais e visões de mundo, temos sempre a lhes oferecer um cardápio prolífico, generoso mesmo, de opções.

Já entender como nosso povo lida historicamente com sua realidade mais imediata – isto é, com seus desafios econômicos, sociais e políticos cotidianos ‒ é algo que requer uma robusta capacidade profissional de análise, capaz de contemplar com serenidade seus múltiplos aspectos conflitantes.

Dilma ONUCulturalmente nossos concidadãos se especializaram em extrair comédia de toda forma de tragédia. Como o próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, já sugeria desde os primórdios do século 20, o senso de humor e os chistes podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar, já que “numa brincadeira, pode-se até dizer a verdade”.

Talvez o nonsense de nossa realidade não seja evidente de imediato para um estrangeiro que nos brinde com a honra de por aqui morar, mas certamente se revelará mais tarde diante dos contornos surrealistas de nossas leis “que pegam” ou não, de nossa forma de fazer justiça “pelo CPF e não pelo RG”, de nossos conceitos arraigados de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro” e que todo pai dos pobres acaba funcionando também como mãe dos ricos. Nossa tradição de fazer piada com tudo aquilo que, em tese, poderia deflagrar convulsão social em outros países é tão forte que já nos rendeu o epíteto de “país não sério”. Os acontecimentos políticos dos últimos meses ameaçam agora nos transformar no “país da piada pronta”.

Dilma Obama 2O traço mais marcante da cultura social brasileira é, sem dúvida, aquilo a que chamamos de “jeitinho”. Talvez em decorrência de nossa flexibilidade corporal, mental e psíquica, herança de nossos antepassados africanos, aprendemos a driblar toda e qualquer restrição legal, a contornar normas e jurisprudências, a acreditar que o atalho é a rota mais curta para chegar aonde queremos e livrar-nos de toda forma de punição. Ou, quem sabe, seja ele herdeiro direto da crença de que tudo em nosso país “acaba em pizza” – ou, melhor dizendo, da constatação de que, em última instância, a balança da justiça pende sempre para o lado mais empoderado da sociedade.

Por outro lado, nossa forma de lidar com a autoridade talvez seja a característica mais paradoxal de nossa cultura aos olhos de um estrangeiro. Podemos nos submeter a ela sem contestação e perdoar-lhe todos os desvios desde que ela seja hábil em nos fazer crer que tudo o que faz é para o nosso bem. Ao mesmo tempo, quanto mais irascível, arrogante e distanciada do nosso jeito simples de falar, mais ela será desqualificada através de nosso modo zombeteiro de enxergar as coisas sérias da vida. Expor o ridículo das pequenezas mentais de nossos governantes é nosso jeito peculiar de expô-los ao ridículo.

Assim sendo, senhoras e senhores, afianço-lhes que todos os aqui presentes disporão de farto material linguístico e comportamental ao longo do discurso de nossa mandatária-mor para aferir por conta própria e com total isenção de espírito a consistência racional de seus proclames. Devo alertá-los, no entanto, que é provável que a grandiloquência dos argumentos usados por assessores na composição da fala presidencial contraste e seja impactada negativamente pelos atropelos à lógica nas entrevistas que se seguirão ao pronunciamento oficial. Rogo-lhes que desconsiderem eventuais contradições em nome da manutenção dos laços de fraternidade que unem nossos povos.

¿ Por qué no te callas ?

Acredito sinceramente que sua experiência recente com as polêmicas geradas pelo candidato republicano às próximas eleições presidenciais americanas pode lhes servir de base segura para um julgamento sereno das implicações de aderir a este ou àquele lado de nossos atuais confrontos políticos. Se de todo lhes for humanamente impossível isentar-se da força do mantra “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, peço-lhes que experimentem se colocar emocionalmente na pele de comandados. Se e quando uma onda de indignação começar a se agitar em seus peitos, relembrem a reação do rei de Espanha às colocações agressivas do então líder máximo venezuelano e, em coro, refaçam sua indagação: “Por qué no te callas?”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Choramingo tardio

José Horta Manzano

De uns meses pra cá, novela, futebol e acontecimentos político-policiais têm prendido a atenção da nação. Pouco espaço tem sobrado para outros assuntos ‒ para os internacionais, menos ainda.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Num último esperneio de aflição, despojada de apoio interno, dona Dilma busca no exterior a sustentação que costumava menosprezar. Diferentemente do que se poderia supor, não procurou amigos fiéis como os bondosos irmãos de Havana, o mal-encarado mandão de Caracas ou os turbantados guias iranianos. Foi direto à ONU, a fonte principal ‒ usada por todos mas dominada pelos odiados loiros de olhos azuis. O desespero apronta cada uma…

Vai falar no deserto, a presidente. O exterior olha para nosso país como oportunidade de negócios, como destino de investimento, eventualmente como lugar para férias. A destituição da atual mandatária e de sua nefasta corte é, antes, vista com alívio por Estados mais equilibrados. Se aplausos houver ao final da fala presidencial, serão de circunstância, ditados pela civilidade, qualidade que costuma faltar à discursante.

Blabla 2É verdade que editorialistas e correspondentes estrangeiros têm produzido textos que comparam a destituição da presidente a um golpe de Estado. Há dois casos bem distintos.

Dilma 1Numa primeira hipótese, são produto de má-fé. Correspondentes que se expressam assim nada mais fazem que se conformar à linha política do veículo que os contrata. Afinal, precisam do emprego e não convém brincar em serviço.

Em outros casos, editoriais que não refletem a realidade brasileira são puro produto de falta de informação. Correspondentes não vivem como o brasileiro mediano. Têm salário acima da média, vida mansa, despesas pagas, viagens garantidas, restaurantes de bom nível, mordomias além do alcance do cidadão padrão. Embora vivam no Rio ou em São Paulo, enxergam o Brasil como se em Londres ou Paris estivessem.

Para resumir, é bobagem grossa choramingar no púlpito da ONU. O panorama nacional anda inóspito demais. Qualquer modificação será bem-vinda mesmo porque, como já dizia o outro, pior não fica.

Cadeira cativa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 out° 2015

Onu 3Ano sim outro também, o ritual se repete: terminadas as férias de verão do Hemisfério Norte, abre-se mais um ano de trabalho na ONU. E lá vai nosso presidente, a quem cabe discursar em primeiro lugar. Segue-se uma cachoeira de alocuções em línguas sortidas. O espetáculo se desenrola sobre fundo de granito verde-imperial muito chique – pedra que, aliás, é bem capaz de ter sido extraída de nosso solo.

Este ano, à guisa de aperitivo à liturgia, fomos mimoseados com um conciliábulo apelidado G4, que reuniu quatro mandatários. Observe-se, en passant, que o costume atual de atribuir número a reunião de medalhões (G4, G7, G20) é sintomático. Realça o fato de os objetivos dos participantes não serem necessariamente concordantes. Foi-se o tempo em que alianças tinham propósito bem estruturado e compartilhado, donde a atribuição de nome próprio como Entente Cordiale ou Pacto de Varsóvia. A acertos efêmeros, números bastam.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão irmanaram-se, por um instante, na reivindicação de uma reforma da ONU que lhes conceda assento permanente no Conselho de Segurança. Cada qual desses países é movido por um conjunto de interesses que lhe dizem respeito. O traço comum, sem hesitação, é a busca do prestígio perdido. Ou nunca havido.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Alemanha e Japão, gigantes industriais e econômicos, procuram recuperar a aura que a derrota na última guerra lhes tolheu. A Índia, país populoso, em franca ascensão e – ponto não desprezível – dotado de armamento nuclear, também aspira a sentar-se à mesa dos grandes. Quanto ao Brasil, a justificativa é menos nítida. No frigir dos ovos, o olhar que o mundo lança sobre nosso país não é muito diferente do de setenta anos atrás, quando a Organização das Nações Unidas foi fundada. Senão, vejamos.

Já naquela época, o Brasil era visto como país de futuro promissor, mas de modesta importância militar, industrial, econômica e diplomática. Se as últimas décadas renderam progresso a nosso país, não há que perder de vista que as demais nações, longe de terem parado no tempo, também se desenvolveram e avançaram. Ao fim e ao cabo, o posicionamento relativo do Brasil no conjunto dos Estados não está lá tão distante do que era em 1945.

ONU - Conselho de Segurança

ONU – Conselho de Segurança

Ilude-se, portanto, quem faz abstração das mudanças alheias e só leva em consideração as transformações pelas quais passamos nós outros. A população de alguns países cresceu mais que a nossa. Alguns deles se aplicaram e conseguiram industrializar-se mais rapidamente que nós. Um ou outro optou por dotar-se da arma nuclear. Diligências diplomáticas constantes fizeram que certos países, por se terem mostrado mais atuantes, nos superem hoje em relevância.

Cadeira permanente no Conselho de Segurança é assunto pra lá de delicado. Titular nenhum abre mão da que lhe cabe. Qualquer país que pretenda entrar para o clube pode até ser bem-visto por uns, mas desagradará a outros. Basta que uma das cinco potências com direito a veto bote empecilho, e pronto: o candidato não passa da soleira. Reforma do sistema? Nem pensar, que não serve ao interesse dos atuais membros permanentes. Por que a fariam?

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Com tantos problemas por resolver, mais graves e mais urgentes, o Brasil deveria economizar energia e evitar arriscar-se num pleito cujas chances de dar certo são próximas de zero. No dia em que uma reforma for anunciada – o que está longe de acontecer – aí, sim, terá chegado o momento de reivindicar vaga. Por enquanto, é perda de tempo. Essa atitude de pedinte é humilhante e constrangedora.

Asilo 4Nossa industrialização vem encolhendo há vários anos, o que não nos torna mais poderosos no conjunto das nações. Nossa participação proporcional nas trocas comerciais globais não progride há décadas. Seria útil começar por assumir postura diplomática séria e coerente. Milhões de sírios deslocados pela guerra civil estão imersos na precariedade. O Brasil mostraria grandeza se, por exemplo, fizesse o necessário para acolher uma parcela desses infelizes. Que, pelo menos, nos apliquemos a promover uma diplomacia digna de nação adulta e consciente.

Que não nos contentemos em ser um Brasil grande, mas que nos esforcemos para nos tornar um grande Brasil. Não custa caro e está ao alcance de nossas possibilidades. A persistir em deixar como está pra ver como fica, continuaremos pagando, à prestação, nosso bilhete de volta ao Terceiro Mundo. E olhe que faltam poucas folhas para chegar ao fim do carnê.

Calote diplomático

José Horta Manzano

Dinheiro não é extensível. Puxa daqui, espicha dali, subtrai dacolá, um dia não sobra mais nem pro gasto.

Quem pode mais chora menos. Nossos medalhões – e o ‘petrolão’ está aí para não me deixar mentir – se servem primeiro. Do que sobra, jogam as devidas migalhas àqueles que garantem, com seu voto, a continuidade do sistema. Por fim, o País que se contente com o que restar.

As necessidades são muitas e a verba, curta. Os que gritarem mais alto serão os primeiros a receber atenção. O dinheiro costuma ir para obras que apareçam, que façam efeito imediato e rendam votos. Tudo o que for menos visível – infraestrutura, educação, diplomacia – vai sendo empurrado com a barriga.

Unesco – Escritório de Brasília      Foto: Andréia Bohner

Unesco – Escritório de Brasília                       Foto: Andréia Bohner

Unesco é acrônimo da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. O Brasil é membro fundador. Educação? Ciência? Cultura? Quá… Esses conceitos estão a anos-luz das prioridades nacionais. Se, algum dia, fizeram parte de nossas preocupações, hoje os tempos são outros. Cultura? Francamente, não. Não combina com nosso governo popular.

Mais corajoso seria se nossas autoridades tirassem o Brasil da Unesco. Pelo menos, estariam assumindo que o Estado brasileiro não está nem um pouco interessado em assuntos de educação, ciência ou cultura. Causaria espanto, mas seria atitude honesta, clara e cristalina. Passaríamos por atrasados, mas não por caloteiros.

Nossos dirigentes preferiram outra estrada. O Brasil continua entre os 195 membros do clube, mas não paga as mensalidades. O calote, segundo investigação do Estadão, ultrapassa 35 milhões de reais e nos classifica como segundo maior devedor da organização.

Os EUA são o maior devedor, mas lá o problema é outro. Em litígio com a Unesco, Washington suspendeu o pagamento. É um protesto, uma queda de braço. Nossa situação é diferente. O não pagamento brasileiro não decorre de nenhum conflito: é calote no duro.

Não chegarei a fazer um apelo ao partido que domina nossa política para pedir-lhe que organize uma vaquinha para nos livrar da vergonha internacional. Eles hão de estar gastando muito com advogados estes últimos tempos.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Mas não custa fazer uma sugestão ao Itamaraty. Que tal fechar algumas embaixadas inúteis, verdadeiros sorvedouros de dinheiro público? Como já mencionei em meu artigo É do Caribe, de 17 out° 2014, o Brasil mantém embaixadas de interesse duvidoso em países exóticos tais como Santa Lúcia, Antigua e Barbuda, Granada, São Cristóvão e Nevis, Barbados, Coreia do Norte.

Sugiro que se fechem essas instalações caras e inúteis e que se quite a dívida para com a Unesco. O almejado ‘prestígio’ propiciado por meia dúzia de embaixadas desnecessárias não cobre a vergonha de ser caloteiro internacional.

Os amigos do Lula

José Horta Manzano

Um dos objetivos maiores da agigantada vaidade do Lula era conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nem que fosse um postozinho de segunda classe, sem direito a veto. O que importava a nosso messias, custasse o que custasse, era entrar nos livros de História como aquele que tinha alçado o País a patamar de destaque.

Burkina Faso 2Hoje é ideia morta e enterrada. Nossa bizarra política exterior mostrou-se incapaz de se impor no Mercosul, onde somos sócios ultramajoritários com 70% das ações. Até em Honduras, o Lula tentou e fracassou. Recuou inclusive na Bolívia. Mais tarde, chegamos a nos desentender com o pequeno Paraguai. E a África então? Sumiu na poeira do caminho.

Mas não era assim antes de 2010. Nossa trôpega diplomacia, esquecida de que quem manda na ONU são as grandes potências, procurava agregar o maior número possível de nações deserdadas, na esperança de que apoiassem o pleito do Brasil. A ingenuidade que reinava pelas bandas do Planalto devia sonhar com um levante dos países pobres, uma espécie de Revolução Francesa mundializada.

Burkina Faso 1Em 2007, no dia em que o mandachuva do Alto Volta(*) – hoje chamado Burquina Fasso – completava 20 anos à frente do país, o Lula fez questão de prestigiar, com sua presença, o personagem. Pouco importou a nosso líder o fato de o antigo capitão Blaise Compaorê ter chegado ao poder na esteira de um golpe de Estado em que o mandachuva anterior foi assassinado.

Nosso presidente tampouco se importou com o fato de os 20 anos de mando do bambambã africano terem mantido o país entre os 10 mais atrasados do mundo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Burquina Fasso é de 0.343. O Brasil tem 0.744. A Noruega atinge 0.944.

Burkina Faso 3O Lula apertou amistosamente a mão do ditador, discursou, posou para fotos, foi acolhido em visita de Estado com direito a tapete vermelho e hospedagem principesca. O ditador continua lá até hoje. O povo continua na mesma indigência. Só que, faz uns dois dias, a situação mudou.

O povo, cansado de tanta miséria e tanta corrupção, se sublevou contra a enésima tentativa do «presidente» de alterar a Constituição a fim de ganhar mais um mandato. «Chega, que já aguentamos 27 anos! Está na hora de acabar com isso!» – clamam.

A guerra civil está declarada. Os edifícios públicos de Uagadugu, a capital, estão sitiados. Alguns foram incendiados. Quebra-quebras, tiros e incêndios já causaram 30 mortes. O «dono do país» disse que não renuncia. Tudo, agora, está nas mãos do exército. O que os generais decidirem será respeitado à força.

Tenho certeza de que, na impossibilidade de viajar para prestar solidariedade ao amigo africano em apuros, nosso messias já telefonou a ele. Dizem que, homem fiel, nosso líder nunca traiu ninguém. Não será a esta altura da vida que há de começar.

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apud Cahiers d'études africaines by Yves Person

apud Cahiers d’études africaines
by Yves Person

(*) Desde o século XV, navegadores portugueses visitaram a costa da África ocidental. Cada acidente geográfico recebia nome, fosse rio, cabo, estuário, ilha, promontório, golfo. Por razões hoje esquecidas, um rio que desembocava naquelas redondezas recebeu o nome de Rio da Volta.

Quatro séculos depois, quando o território atravessado pelo rio se tornou protetorado francês, recebeu o nome de Alto Volta, como temos nós o Alto Tietê ou o Alto Amazonas.

Em 1984, por ocasião de um golpe de Estado, o nome – que trazia perfume de tempos coloniais – foi substituído por denominação de sabor local.

Mais uma última informação: Burquina Fasso conta com mais de 60 etnias, cada uma falando sua própria língua. Para se entenderem, utilizam o francês.

O sequestro

José Horta Manzano

Raptar uma pessoa e mantê-la em cativeiro a fim de chantagear terceiros é um dos crimes mais abjectos, mais nojentos. Se a extorsão por meio de chantagem já é ignóbil, o uso de um inocente como mercadoria de escambo é repulsivo e insuportável.

O rapaz raptado

O rapaz raptado

No começo de abril, bandoleiros paraguaios sequestraram um adolescente brasileiro e mandaram avisar os parentes que só o libertariam contra pagamento de resgate de meio milhão de dólares em dinheiro mais cinquenta mil dólares em víveres. A família, que tem posses, não discutiu e pagou rapidinho. Acontece que, além de criminosos, os cangaceiros eram desleais: embolsaram a fortuna, mas não soltaram o menino.

Agora, mais de seis meses depois do sequestro, o quotidiano paraguaio ABC Color informa que os delinquentes acabam de divulgar um vídeo inspirado nas asquerosas encenações de Al Qaeda e do grupúsculo Daech. No filminho, o sequestrado lê um texto escrito por outrem.

A quadrilha, que se autodenomina EPP «Ejército» del Pueblo Paraguayo, traindo a promessa feita em abril, exige a libertação de seis de seus membros, atualmente encarcerados. Sem isso, não soltará o jovem brasileiro nem um outro refém, um policial paraguaio.

Em outros tempos, esse drama, que se desenrola a poucos quilômetros da fronteira brasileira, já teria contado com reação eficaz do Planalto, do Itamaraty e até – por que não? – do exército brasileiro. Afinal, uma corriola de malfeitores está zombando de nós todos.

Em outros países mais zelosos de seus cidadãos, a opinião pública não permitiria que o caso se eternizasse, encalacrado. Afinal, o Paraguai, nosso vizinho, tem governo constituído, democrático, minimamente organizado, sobre o qual se pode fazer pressão. O brasileirinho não foi levado para as montanhas da Península Arábica nem para o dédalo de ruelas do centro antigo de Bagdá. Cáspite! Está a um tiro de estilingue da fronteira do Brasil.

Para infelicidade de todos nós, a alta cúpula que deveria estender sua mão protetora a todos os brasileiros está mais preocupada em garantir sua própria permanência no poder. Não sobra tempo nem disposição para outro assunto. Os brasileiros em apuros que se lixem. De todo modo, sequestrado não vota, não é mesmo?

Dilma e Garcia 2

Dona Dilma e o senhor Garcia

E pensar que temos, no primeiro círculo que rodeia a atual presidente, um assessor para assuntos internacionais. Seu nome é Marco Aurélio Garcia. Esse senhor, que está entre os mais influentes ideólogos do governo, tem tido, tradicionalmente, contacto com as autodenominadas Farc – Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, narcoguerrilha que, há mais de 40 anos, atormenta a existência de nossos vizinhos do norte. O senhor Garcia tem passe livre no seio daquele, digamos assim, movimento.

Não se sabe exatamente quem escreveu o discurso pronunciado por dona Dilma na ONU, aquele em que ela preconiza o diálogo com os decapitadores do deserto sírio. Ainda que o texto tenha sido redigido por um assessor, é improvável que tenha sido liberado sem o beneplácito do senhor Garcia, nosso virtual ministro de Relações Exteriores.

Já que não fica bem despachar um comando especial para resgatar o jovem refém, que se despache o assessor especial. Tanto pode ele ir pessoalmente à selva paraguaia, como pode também convidar o chefe do bando para uma conversa particular no Planalto. Pode até receber o conviva com honras de chefe de Estado, com passagem e hospedagem pagas pelo contribuinte brasileiro. Um malfeito a menos, um malfeito a mais, ninguém vai se escandalizar.

Afinal, quem tem Garcia dispensa acrobacia.

Frase do dia — 186

«Assim como ocorreu em governos anteriores, a diplomacia de Dilma paga pedágio às forças do atraso, conforme vimos estes dias no Conselho de Direitos Humanos da ONU.
(…)
Pela primeira vez em muito tempo, temos uma sociedade mais moderna do que a política externa que a representa.»

Matias Spektor, doutor pela Universidade de Oxford, professor de Relações Internacionais na FGV e colunista da Folha de São Paulo, 1° out° 2014.