Verba volant

José Horta Manzano

Verba volant 1A frase marcante da semana que passou foi, sem dúvida, aquela com que o vice-presidente encabeçou a carta enviada à chefe: Verba volant, scripta manent – palavras voam, escritos permanecem.

Firme e robusto, o adágio romano vigorou por dois milênios até que a revolução digital destas últimas décadas viesse injetar um grão de areia no azeitado mecanismo. De fato, escritos podem ser facilmente destruídos, enquanto dados digitalizados tedem a ser reproduzidos e conservados com segurança.

Toda moeda, no entanto, tem duas faces. Adulterar documentos escritos é possível, mas não é tarefa simples. Rasuras e correções costumam deixar rastro, ao passo que fraude em dados digitais é muito mais difícil de detectar.

Caramuru 1Faz duas semanas, soltei fogos ao receber a notícia do fim do voto eletrônico no Brasil. Infelizmente, não eram fogos Caramuru, aqueles que nunca dão chabu. A esmola era grande demais para sacola pequena. A boa-nova não se manteve de pé.

A crer no desmentido que acaba de surgir, continuaremos a apertar botões na hora de escolher representantes. E estaremos na incapacidade de conferir se a opção de cada eleitor terá sido realmente respeitada.

Era bom demais pra ser verdade. Em matéria eleitoral, a exceção brasileira prossegue. A comprovação de nosso voto continuará embrulhada nos mistérios impenetráveis da informática e avessa a toda tentativa de autentificação. É pena.

2 pensamentos sobre “Verba volant

  1. Com muita desconfiança, risquei um palito de fósforo pra comemorar… A cada momento surgem mudanças… Se assim fosse, dentro da minha desconfiança dessas urnas eletrônicas, com as de papel, talvez, nenhum ficha semi-suja seria eleito agora em 2.016.
    O tal voto impresso, me parece, está aprovado, mas, somente para as eleições de 2.018. Ou seja, o voto é eletrônico mas o cidadão sai com o comprovante. Tem alguns críticos da urna, engenheiros, especialistas no assunto, que acham no voto impresso uma boa maneira de reduzir possibilidade de fraudes, em conjunto com outras ações…
    O que penso eu, que me tornei especialista em pulga atrás da orelha? Que, em se tratando de Brasil, quanto menos virtual o processo, mais seguro. Virutal volant, scripta Manent…
    Veja:
    http://www.brunazo.eng.br/voto-e/textos/ADI4543.htm
    http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/11/lei-sobre-voto-impresso-nas-eleicoes-e-sancionada

    Grande abraço.

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    • No Portal Brasil, li o artigo que explica a nova modalidade. Sem dúvida, é melhor que o que temos hoje, mas me parece um sistema inutilmente complicado. Na prática, o eleitor terá de votar duas vezes. Da primeira, escolhe o(s) candidato(s). Da segunda, relê o papel impresso e confirma o voto.

      Se voltasse a boa e velha cédula, bastaria que cada cidadão votasse uma vez só. A chamada «confirmação impressa» já estaria implícita no voto.

      Como dizem os alemães, «Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?» – por que facilitar, se complicado funciona também?

      Curtido por 1 pessoa

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