Lula, Battisti e as desculpas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 agosto 2020.

Como se verá a seguir, certas atitudes expõem a incompetência e a falta de visão de governantes. O caso Battisti é emblemático. Terrorista condenado por atos cometidos nos anos 70 – dois homicídios e participação em outros dois –, o italiano Cesare Battisti fugiu da prisão, passou anos homiziado por França e México, para finalmente pousar em Copacabana, onde se escondeu por 3 anos.

Descoberto em 2007, passou a navegar pelos meandros da exótica prática judiciária do Brasil. Foi preso, foi solto, recebeu o estatuto de refugiado político, perdeu essa condição. As chicanas de nossa peculiar justiça – com sua dificuldade de dar decisão definitiva, como a deixar sempre brecha para uso futuro – conduziram o caso até a escrivaninha do presidente da República, então um certo Lula da Silva.

A ele coube dar o veredicto. Numa decisão estranha, Lula humilhou a justiça italiana e, passando por cima da decisão dos tribunais da Península, concedeu asilo político ao condenado por homicídio. Pegou muito mal, tanto aqui quanto na Itália.

O asilado passou a transcorrer dias despreocupados numa cidade de praia do estado de São Paulo. Distraído, não se deu conta de que o Brasil ainda guarda relentos absolutistas do “ancien régime”, sistema em que a lei se amolda à vontade pessoal do rei. Pois foi o que aconteceu. Recém-eleito, doutor Bolsonaro prometeu revogar, uma vez empossado, o asilo dado a Cesare Battisti. O asilado não esperou para ver – escapou à sorrelfa e tomou o rumo da Bolívia.

Ao passar a fronteira, deve ter acreditado que estava a salvo. Engano bobo. Agentes do serviço secreto italiano não tardaram a encontrar seu paradeiro. A partir daí, é permitido especular que tenha havido um acerto entre Roma e La Paz. (Esta parte não é oficial, mas é plausível.) O fato é que, apenas chegado a Santa Cruz de la Sierra, Cesare Battisti foi preso pela polícia boliviana e, em 24 horas, deportado em rito sumário. Nem processo de extradição houve.

Levado à Itália, foi trancado numa prisão de segurança máxima. Meses depois de ter voltado ao país natal, talvez para aliviar a consciência, confessou ser realmente autor dos crimes pelos quais tinha sido condenado. Consternada, a família lulopetista emparedou-se num silêncio obsequioso.

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

Agora, ano e meio depois da confissão de Battisti, entra em cena nosso conhecido Lula da Silva. Numa entrevista concedida há 10 dias a um canal amigo, apareceu contrito e arrependido de ter concedido asilo ao italiano. No entanto, a fim de manter intacta a imagem do guia infalível, procurou um culpado para a enormidade cometida. Declarou ter sido “enganado” pelo homicida – o que traz à mente o estouro do mensalão, quando ele também se queixara de ter sido “traído”. Declarou ainda que não teria problema em pedir desculpa à família das vítimas. Usou o condicional: “não teria problema”. Como ninguém cobrou as desculpas, não as pediu. E o assunto morreu ali.

Com a velocidade do raio, a notícia chegou à Itália. Das vítimas de Battisti, Alberto Torreggiani é aquele que sofreu os “efeitos colaterais” mais severos. Tinha 15 anos de idade quando o pai, um joalheiro milanês foi assassinado a sangue-frio. Baleado na coluna vertebral, o jovem não morreu, mas ficou paraplégico. Está hoje com 56 anos, 41 dos quais passou aprisionado a uma cadeira de rodas.

Ao tomar conhecimento das “desculpas” do Lula, Torreggiani mostrou desânimo. Declarou-se indignado e perplexo. Intuiu que as lágrimas do ex-presidente são para uso eleitoreiro. Amargo e irônico, indagou se seria o caso de agradecer ao Lula. Depois de tantos anos de sofrimento e atribulações, não vê sentido em ouvir, de pessoa tão importante, a confirmação do que sempre foi evidente: que ele, a vítima, estava com a razão.

Battisti, decerto habituado às chicanas da justiça do Brasil, solicitou em maio prisão domiciliar em razão dos riscos de apanhar a covid-19. O Ministério da Justiça italiano negou provimento argumentando que todos corriam o mesmo risco e que ele não era melhor que ninguém.

Quanto às desculpas fora de hora do Lula, comenta-se na Itália que essa covid parece estar causando efeitos estranhos na cabeça de certas pessoas.

Morreu por covid?

José Horta Manzano

Esta aqui, recortei da edição online do G1 de ontem. Não sei o que o distinto leitor acha, mas a chamada, a mim, soa estranha.

Chamada do G1, 29 agosto 2020

Sou do tempo em que se morria de alguma coisa. Por exemplo:

Morreu de câncer
Morreu de infarto
Morreu de fome
Morreu de acidente
Morreu de parto
Morreu de desgosto

Pode-se também morrer por alguém ou por algo:

Morreu pela pátria
Morreu por seu ideal

Já o título da chamada – Morreu pela covid-19 – é esquisito. Ademais, o estagiário tascou letra maiúscula no início do nome da doença. Essa reverência deve vir do fato de se tratar de doença nova. A caixa alta me parece desnecessária.

A aids, que no início também era sigla, tornou-se nome comum e perdeu o privilégio: hoje se escreve com minúscula. Acho que a covid deve entrar na mesma categoria, assim como entraram a peste bubônica e a gripe espanhola.

Consertando a chamada:
Brasil passa dos 120 mil mortos de covid-19.

Cai ou não cai?

José Horta Manzano

Entre nós, a queda de alto dirigente não é tabu. Só no estado do Rio de Janeiro, nos últimos 4 anos, 5 governadores foram presos: Sérgio Cabral, Pezão, Garotinho (ele), Garotinho (ela) e Moreira Franco. Afastado ontem pelo Tribunal de Justiça, doutor Witzel está a um passo do presídio de Bangu.

No Planalto, não tem sido diferente. Nos últimos 25 anos, 2 presidentes foram destituídos (Collor e Dilma) e 2 outros foram presos (Lula e Temer). Portanto, figurão afastado e/ou preso não é novidade.

Se doutor Bolsonaro conseguir se segurar até o fim do mandato sem ser derrubado com base nos preceitos constitucionais, estará dada a prova de que nossa República está de fato desamparada. Ficará (ainda mais) evidente que os integrantes do Congresso e do STF são, em maioria, gente de mesmo nível que o presidente. Ou são oportunistas que, por interesse pessoal, a ele se igualam – o que dá no mesmo.

Se doutor Bolsonaro conseguir se segurar até o fim do mandato sem ser derrubado por manifestações populares como as de 2013, que acabaram por mandar Dilma de volta pra casa, estará dada a prova de que somos todos bundões.(*)

(*) Não está nos hábitos deste blogueiro empregar aquele padrão de palavras que, antes de serem pronunciadas, exigem que se retirem as crianças da sala. Estou aqui citando literalmente o epíteto que o presidente pespegou aos que ousaram questioná-lo sobre atos suspeitos.

Malária

José Horta Manzano

Desde tempos antiquíssimos, a malária tem castigado a face da Terra. O combate contra essa praga se confunde com a história da humanidade, dado que tanto o protozoário responsável pela doença quanto o mosquito que a transmite apareceram antes do Homo Sapiens.

Atualmente, a moléstia está praticamente erradicada nas regiões de clima temperado, onde se situa a maioria dos países desenvolvidos. Isso contribui para que seja vista como doença de país subdesenvolvido. É verdade e, ao mesmo tempo, não é.

Nas regiões mais quentes – equatoriais, tropicais e subtropicais – chove muito. A acumulação de água no solo concorre para formar pântanos, banhados e alagados. Toda essa água parada, aliada ao calor, é excelente viveiro para o mosquito transmissor. O combate a sua proliferação se torna complicado. Portanto, as condições climáticas são importante fator a tornar endêmica a doença.

Na época da grande onda de imigrantes europeus, lá pelo final do século 19, os portos brasileiros do Rio de Janeiro e de Santos, de clima quente e úmido, eram infestados pelo mosquito da malária, o que assustava numerosos candidatos à imigração. Na Europa, certas companhias de navegação, para atrair clientes, informavam ter navios de partida para Montevidéu e Buenos Aires sem parada no Rio de Janeiro.(*)

A feroz urbanização das cidades costeiras do Brasil trouxe problemas, mas teve efeito colateral positivo: ao eliminar várzeas e brejos, diminuiu a quantidade de viveiros do mosquito transmissor da malária. E a doença regrediu. Regrediu, mas não desapareceu. O combate continua.

Tenho lido notícias sobre os ajuntamentos provocados por doutor Bolsonaro, em campanha eleitoral temporã. Já se vê que, por detrás do sorriso de fachada, o homem continua dando banana para o povo e rosnando um debochado “E daí”. Ajuntamentos favorecem o alastramento da covid-19. “Ora, todos têm que morrer mesmo”.

Além de eventuais condenações penais, a biografia de doutor Bolsonaro vai carregar dois pecados. O primeiro é o charlatanismo de um mandatário que praticou medicina sem ser médico e receitou antimalárico contra coronavírus. A segunda culpa é ter contribuído, por atos e gestos, para a formação de multidões e, assim, para difusão desenfreada da pandemia de 2020.

Imigrantes europeus já não vêm mais ao Brasil. Mas turistas, sim. Se o fluxo de turistas – que já é minguado – diminuir, doutor Bolsonaro carregará boa parte da culpa. Responda rápido: o distinto leitor arriscaria passar férias num país onde a covid-19 se tornou endêmica e continua, impiedosa, a fazer vítimas?

Vêm aí a covid-20, a covid-21, a covid-22, a covid-23. Todas bolsonáricas de raiz. Prepare-se.

Outros nomes
Malária (do italiano mal’aria = mau ar, ar danoso), maleita (do latim maledicta = maldita), paludismo (do latim palus = lodaçal, brejo) são palavras sinônimas. Certos dialetos brasileiros usam ainda febre terçã e sezão, em referência à periodicidade das crises. Menos utilizadas, há ainda outras denominações para a mesma enfermidade: impaludismo, sezões, sezonismo, febre palustre, febre intermitente, febre quartã.

(*) Muito imigrante italiano há de ter trocado Santos ou o Rio de Janeiro por Buenos Aires com base no nome da cidade. De fato, o nome da capital argentina (Buenos Aires = ares bons) parecia antídoto contra a malária (mal’aria = ares ruins).

Belarus

José Horta Manzano

Como se sabe, a cultura nacional não desdenha uma regrazinha. Que seja cumprida ou não, é o de menos. O que conta é que esteja lá, gravada na pedra, pra ajudar (ou atrapalhar) a vida de muita gente. O chato é que, de regrazinha em regrazinha, arma-se um cipoal amazônico. Sabia que, até para grafar nome de países, há maneira oficial? Pois é. Nessa matéria, quem dá o tom é o Itamaraty.

Com a explosão da União Soviética, entre 1990 e 1991, surgiu uma quinzena de países dos quais pouco se falava antes. Em maioria, são países discretos, daqueles que a gente teria dificuldade em apontar no mapa. São lugares onde a gente tem a impressão de que nada acontece. Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão estão entre eles. Só muito de vez em quando, uma das 15 antigas repúblicas soviéticas sai do esquecimento e vem à tona trazida por algum acontecimento excepcional.

Nos anos 90, assim que o Estado brasileiro reconheceu esses novos países, foi preciso fixar nome oficial para cada um em nossa língua. O caso de Belarus é curioso. Décadas atrás, o país era conhecido como Bielo-Rússia ou Rússia-Branca. De fato, a primeira acepção da palavra russa Белый (Biély) é branco.

O Itamaraty optou por acompanhar a preferência dos nativos, abandonando a antiga denominação. Oficializou-se Belarus(1). Mas o gato que se esconde costuma deixar o rabo de fora. O próprio Itamaraty não chama os nativos de belarussos, como se poderia esperar; o gentílico oficial é bielorrusso – assim, com dois erres –, numa alusão explícita ao nome de décadas atrás.

Alexander Lukachenko
by Güngör Özme (1938-), desenhista turco

Na antiga URSS, imensa região com centenas de línguas e dialetos, a língua-teto, aquela que servia para as trocas do dia a dia, era o russo, que se escreve com caracteres cirílicos. Toda adaptação daqueles nomes para nossa língua será, portanto, uma transliteração, isto é, uma adaptação do som original utilizando nossos caracteres latinos. Uma transliteração será sempre fonética: as letras são utilizadas com o valor que têm em nossa língua. (Essa é a teoria; como veremos, na prática, ela pode variar.)

Estes dias, Belarus está no noticiário. Considerado a última ditadura da Europa, o país anda sacudido por manifestações de uma juventude que tem sede de normalização democrática; estão cansados de sofrer com tanta truculência e corrupção. O nome do ditador, pouco conhecido no Brasil até duas semanas atrás, tornou-se familiar: Lukachenko.

Naturalmente, o Itamaraty não fixou normas para transliteração de nome de gente. Não é sua função. Talvez por causa disso, a quase totalidade da mídia atirou-se de cabeça nos despachos que vêm das agências noticiosas internacionais. Copiou ipsis litteris a transliteração inglesa do original Лукашенко: Lukashenko, com esse sh que não faz parte de nossas convenções. O sh é um dígrafo utilizado nos países de fala inglesa para representar o som ch. Na nossa língua, embora possa parecer familiar, não tem vez.

Resumindo, o nome do ditador de Belarus deve ser escrito Lukachenko (2). (Aproveitem enquanto o homem ainda está no poder – depois, será tarde.)

No duro, no duro, deveríamos escrever Lucachenco. Mas não vamos ser mais católicos que o papa: com um k aqui, outro ali, fica bem mais chique. Fica mais russo. Ou bielorrusso, como queira.

(1) O Itamaraty não recomenda artigo antes do nome do país. Não é, portanto, nem o, nem a Belarus, mas simplesmente Belarus.

(2) Em russo, esse o final é pronunciado a. Digo isso só pra registro. Afinal, ninguém é obrigado a conhecer essas minúcias.

Coco na veia

José Horta Manzano

As repetidas e forçadas correções de rumo de nossa ortografia oficial trazem efeitos secundários danosos. O maior deles é semear a desorientação entre os que escrevem: a cada parágrafo, uma ou duas palavras nos fazem hesitar. Outro efeito importante é dificultar a leitura. Tome o título deste artigo. Uma leitura rápida pode até sugerir que estou propondo atirar coquinhos na senhora idosa. Não é isso. Não se deve ler véia, mas vêia.

Volta e meia, a história da água de coco na veia (vêia!) ressurge. Até doutor Bolsonaro tocou no assunto esta semana. Na festa que organizou para comemorar os 100 mil mortos de covid-19, valeu-se de uma fábula para justificar o uso de cloroquina no tratamento do coronavírus.

Mencionou um caso ocorrido na Guerra do Pacífico (guerra essa que se supõe ser o conjunto de batalhas travadas na região do Oceano Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial). Segundo o presidente, um soldado precisava de transfusão de sangue. O estoque estava a zero. Na emergência, o médico decidiu ministrar-lhe água de coco por via intravenosa. Segundo o presidente, a injeção foi aplicada e… deu certo! A injeção de água de coco valeu por uma transfusão de sangue!

Nesta altura, os devotos hão de ter vibrado. É notório que doutor Bolsonaro é homem de poucas letras. Estivéssemos no tempo dos almanaques, pode até ser que ele tivesse colhido essa historieta num deles. Dado que desapareceram, pode-se supor que algum assessor lhe tenha soprado a dica. Só que, como diria minha avó, ouviram cantar o galo mas não sabem onde.

A história registra – não só na «Guerra do Pacífico» – raras ocasiões em que a água de coco realmente teria sido injetada no homem. São casos extremos, em que um paciente se encontra em quadro sério de desidratação, complicado pela impossibilidade de reidratação por via oral e coroado pela ausência de soro fisiológico disponível. Em casos assim, para salvar uma vida in extremis, médicos já teriam utilizado água de coco. Mas , se aconteceu, será fato raríssimo.

De saída, é preciso que a cena se passe em terra tropical, aquelas em que cresce esse coqueiro que dá coco. Em segundo lugar, é necessário escolher um fruto verde; aqueles maduros de casca marrom dura não servem. Em terceiro, é indispensável dispor de material esterilizado e certificar-se de que o coco não tem nenhum sinal de rachadura, que é para garantir que o líquido interno não está contaminado pela entrada de ar do exterior.

A água de coco não é idêntica ao plasma sanguíneo. Em compensação, é líquido estéril (sem bactérias e outros germes). Em casos desesperados, pode substituir o soro fisiológico, com o fim de hidratar o paciente. Mas não pode ser usada como tratamento habitual, dado que não contém sódio suficiente para permanecer na circulação sanguínea. Assim, poderia elevar o cálcio e o potássio do organismo a um nível perigoso.

Portanto, se o distinto leitor tiver acesso a doutor Bolsonaro, solicito-lhe o obséquio de fazer chegar ao Planalto o complemento de informação que está faltando aos ouvidos presidenciais. Em casos excepcionais e desesperados, como último recurso para reidratação de um paciente que, sem isso, periga morrer, uma perfusão intravenosa de água de coco pode prolongar-lhe a existência por algumas horas.

Só que isso não é «transfusão de sangue», presidente! Água de coco não substitui o sangue. Em hipótese alguma. Em medicina, pode haver remédio bom, remédio mais ou menos ou remédio inútil, mas remédio milagroso não há. Salvo um, cujo nome não vou dizer aqui, que é pra não fazer propaganda indevida.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Mais uma boçalidade

José Horta Manzano

A mais recente boçalidade presidencial – (deixe escrever depressa, antes que ele cometa mais uma e esta aqui deixe de ser a última) – a mais recente, dizia eu, é a ameaça que fez a um repórter que lhe cobrava esclarecimentos sobre dinheiro suspeito depositado na conta da primeira-dama.

No mais puro estilo valentão de Xiririca, rosnou que queria quebrar a cara do jornalista atrevido. Cá entre nós, é moleza chamar alguém para a briga, quando se está rodeado de seguranças, cada um medindo dois por dois. Assim, até eu.

Sabe-se que cão que ladra não morde. Queria ver o presidente em campo aberto, sozinho, desarmado, só com o jornalista em frente. Vai que o atrevido é campeão de caratê, nunca se sabe. Queria ver se não afinava.

Jornais, tevês, plataformas, blogues e outros sites por onde passei comentaram a notícia. Imensa maioria disse algo como: «Ao ser perguntado sobre os depósitos na conta da primeira-dama (…)».

Ao ser perguntado? Bobeou que escreveu isso. É tentador dizer «Fulano foi perguntado sobre» ou «Na prova, os alunos foram perguntados se (…)». Mas a norma culta condena. O uso da voz passiva só é possível em presença de verbo transitivo direto. Assim:

O menino viu o livro.
O livro foi visto pelo menino.

A moça leva a sacola.
A sacola é levada pela moça.

O Congresso vai aprovar a lei.
A lei será aprovada pelo Congresso.

O problema é que, na acepção de pedir informação, o verbo perguntar não é transitivo direto. Portanto, nada de utilizá-lo na voz passiva.

Há diversas maneiras de dizer a mesma coisa sem atentar contra a norma culta. Esqueça o «ele foi perguntado». Use outro verbo. Aqui estão alguns:

indagar
interrogar
inquirir
questionar
interpelar
sondar
investigar
(há outros).

Cada um tem sua nuance. Procure o que melhor exprime o que você quer dizer. Todos os que mencionei são transitivos diretos, o que significa que podem ser usados na voz passiva.

Os amigos do presidente

Carlos Brickmann (*)

Na época da ditadura que dizem que não houve, contava-se esta piada: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca; quem denunciasse dois comunistas ganharia um Fusca e um apartamento; quem denunciasse três comunistas iria em cana, porque conhecia comunistas demais.

E como a família Bolsonaro conhece gente que tem problemas, digamos, éticos! É o Queiroz, são aqueles milicianos que têm foto com alguém da família, é aquela tropa de gente empregada em seus gabinetes parlamentares e que mora a horas e horas de distância, tendo ainda de ocupar parte de seu tempo em outros trabalhos remunerados! E esse tipo de amigos e conhecidos agora se internacionalizou: Steve Bannon, guru de Olavo de Carvalho, talvez o maior ideólogo do bolsonarismo, foi preso nos Estados Unidos. Problema político? Não: a acusação é mesmo a de ter enfiado a mão no pudim.

Bannon sentou-se ao lado de Bolsonaro no jantar da embaixada brasileira em Washington (do outro lado, Olavo de Carvalho). Ali estavam sete ministros, inclusive o Imposto Ipiranga Paulo Guedes, mas Bannon era o astro. Já ídolo e amigo de Eduardo Bolsonaro, defendeu publicamente sua nomeação para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Eduardo o chamou de ícone da luta contra o marxismo cultural. Bannon o escolheu como seu representante no Brasil, chefiando a seção brasileira do Movimento, grupo empenhado em lutar internacionalmente contra o comunismo.

Bannon foi guru de Trump, que o demitiu: nem ele o aguentou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

O latim, sempre atual

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro foi escolhido para cuidar do Brasil e dos brasileiros. Saído do baixo clero do parlamento, não entendeu até hoje a mudança de patamar.

Pardus maculas non deponit
Leopardo não perde as manchas

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Por desgraça, é inimigo do saber. Se faltasse uma prova, acaba de permitir que um ministro seu proponha a cobrança de imposto sobre venda de livros, algo nunca visto antes.

Qui pauca legit, pauca scit
Quem pouco lê pouco sabe

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Passou um tempo em jejum, sem a companhia dos colegas baixo-clérigos. Depois de um ano, não resistiu. Sorriu para o Centrão e voltou a abraçar os antigos companheiros.

Ex aurea etiam sede in paludem rana resilit
Até de um trono dourado, a rã pula sempre de volta ao pântano

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Medroso, permite que os filhos e o entourage fabriquem e difundam dossiês e notícias falsas sobre adversários, sistematicamente elevados à categoria de inimigos.

Timendi causa est nescire
A causa do medo é a ignorância

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Costuma se esquecer da igualdade de todos, prometida pela Constituição.

Nemo est supra leges
Ninguém está acima da lei

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E pensar que, se agisse corretamente, nunca teria problemas.

Recte faciendo securus
Agir corretamente não traz preocupações

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Ao declarar: “Não sou coveiro”, “Todo o mundo tem de morrer”, “E daí?”, mostra total falta de empatia (pra não dizer total presença de antipatia) para com o povo que o elegeu. Nem bichos selvagens procedem assim.

Nutrit et accipiter pullos suos
Até o falcão alimenta seus filhotes

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Melhor faria se meditasse sobre a transitoriedade de tudo.

Omnia transibunt! Sic ibimus, ibitis, ibunt
Tudo há de passar! Passaremos, passareis, passarão.

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Publicado também no site Chumbo Gordo.

Meritocracia

José Horta Manzano

O Houaiss contém o verbete meritocracia e data seu aparecimento de 1958. Nestes tempos de fake news circulando rápido, não se verifica mais origem e autenticidade da informação. Este blogueiro, que guardou hábitos antigos, costuma verificar. Até o venerando Houaiss, que é considerado o nec plus ultra dos dicionários de nossa língua, tem de passar pelo filtro. Checar é prática útil: pode diminuir a velocidade do trabalho, mas é blindagem contra notícias falsas.

Fui procurar, na hemeroteca(*) da Biblioteca Nacional, se não havia mesmo registro da palavra meritocracia anterior a 1958. Havia. O substantivo é mencionado no Jornal do Brasil (RJ) em 1934, no Diário de Notícias (RJ) em 1931, n’O Jornal (RJ) em 1929 e no Jornal do Commercio (RJ) em 1928. O pesquisador do Houaiss havia de estar apressado.

Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

(*) Hemeroteca
É palavra que entrou na língua por via culta. É formada pelas raízes gregas heméra (=dia ) + teca (=lugar onde se guarda). Indica o lugar onde se conservam as coleções de jornais.

Hemer(o) entra na composição de numerosos termos técnicos e científicos como hemeropatia (doença que dura apenas um dia), hemerobatista (membro de uma seita cristã que reiterava o batismo todos os dias), hemeróbio (inseto cuja curta existência não ultrapassa um dia).

Teca é velho conhecido nosso. Aparece em termos que indicam o lugar onde se guarda uma coleção qualquer: biblioteca (livros), filmoteca (filmes), discoteca (discos), datilioteca (anéis), mapoteca (mapas), e por aí vai.

A Biblioteca Nacional mantém uma preciosa hemeroteca, com a versão digitalizada de praticamente todos os jornais publicados no Brasil, desde o primeirão, de 1808. Ainda não estão lá aqueles que seguem sendo publicados.

Pra finalizar
Embora o som de hemeroteca e de meritocracia guarde certa semelhança, as duas raízes não se conhecem nem de elevador. A primeira vem do grego, enquanto a segunda vem do latim.

Proibições

José Horta Manzano

Na Coreia do Norte, tudo é proibido ‒ até aquilo que é permitido.

Na Alemanha, tudo é proibido ‒ salvo o que é permitido.

Na Itália, tudo é permitido ‒ salvo o que é proibido.

No Brasil, tudo é permitido ‒ especialmente o que é proibido.

Meio cheio, meio vazio

José Horta Manzano

É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio.

As últimas pesquisas de popularidade indicam que cerca de 35% dos eleitores consideram o governo de doutor Bolsonaro ótimo ou bom. Devotos do clã presidencial exultam. Que sucesso! É o copo meio cheio.

De um ponto de vista menos fanático, percebe-se que, se 1/3 dos pesquisados considera o governo ótimo ou bom, 2/3 não o consideram nem ótimo, nem bom. Portanto, os descontentes são dois em cada três. Para um satisfeito, há dois insatisfeitos! O dobro! É o copo meio vazio.

Os fanáticos precisam baixar a bola, que não há razão pra tanta euforia. Dizem que o Lula chegou a 80% de popularidade – um nível soviético que me deixa meio desconfiado, mas é o que ficou registrado. Pois bem, se o Lula bateu nos 80% e o Bolsonaro não consegue chegar aos 40%, ainda tem muito chão pela frente. Por enquanto, não há o que festejar. E tomara que nunca haja.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Tutti buona gente

José Horta Manzano

Dá muito gosto ver que, no exterior, nossos figurões continuam na ribalta, no centro das atenções. Vejam esta que nos vem da China.

China Global Television Network (CGTN) é um dos braços do poderosíssimo conglomerado estatal chinês de informação. Sua versão online em língua inglesa traz uma notícia de Angola.

Revela que a Igreja Universal do Reino de Deus, propriedade do bilionário ‘bispo’ Macedo, está enfrentando sérios problemas com a justiça. Em Angola, um dos 130 países onde está implantada, a empresa está sendo processada pela prática de numerosos crimes, como: associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais, abuso de confiança & conexos. Vejam só.

Sexta-feira passada, o procurador-geral do país decretou o confisco de sete templos da empresa, situados em território angolano.

En passant
Doutor Macedo não é aquele amigão de doutor Bolsonaro? Não é aquele que (re)batizou o presidente e teve a honra de aparecer a seu lado no desfile do 7 de setembro? Pois então, diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Estão ambos sintonizados na mesma frequência. Baixa frequência, naturalmente.

Uma lavada

José Horta Manzano

Pelo campeonato da Liga dos Campeões, enfrentaram-se ontem o Bayern (de Munique, Alemanha) e o Barça (de Barcelona, Espanha), dois times de primeira grandeza. A partida teminou com um inacreditável placar de várzea: 8 x 2 em favor dos alemães. Até parece notícia falsa.

O glorioso Barça, que hoje tem Messi, Piqué e Suárez, já abrigou astros como Cristiano Ronaldo e Neymar num passado bem recente. Ninguém imaginava que pudesse levar uma surra desse tamanho.

Às vezes, o destino parece irônico. O carioca Philippe Coutinho, autor de dois gols em favor do Bayern, na realidade é jogador no Barça; está apenas ‘emprestado’ ao time de Munique.

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

Do lado alemão, Lewandowski também marcou um gol. Falo do Lewandowski deles, não do nosso. Que fique bem claro. Quarenta anos separam os dois.

Muitos comentaristas lembraram de um tristemente famoso 7 x 1, o ‘mineiraço’ imposto pelos alemães aos brasileiros na Copa de 2014.

Fica confirmado o dito popular francês:

«Le football est un sport qui se joue à onze. Et à la fin c’est les allemands qui gagnent.»

«Futebol é um esporte de onze jogadores. E, no final, são os alemães que ganham.»

E estamos combinados.

Implicar: regência

Dad Squarisi (*)

O verbo implicar tem três empregos. Em dois, ninguém tem dúvida. Na acepção de ter implicância, pede a preposição com:

• O diretor implicou com ele.

Na de comprometer, envolver, é a vez do em:

• A secretária implicou o chefe no escândalo.

A dúvida surge no significado de produzir consequência. Aí, implicar implica e complica. O verbo parece, mas não é. No sentido de acarretar consequências, o malandro é transitivo direto. Não suporta a preposição em:

• Autonomia também implica responsabilidade.

• Deflação implica recessão.

• Aumento da taxa de juros implica crescimento do deficit público.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

O velho prefeito

José Horta Manzano

Paul Girod é prefeito do pequeno município de Droisy. Seu vilarejo, de apenas 74 habitantes, fica na França, a 120km de Paris, nas planícies agrícolas do norte do país. Aos 89 anos de idade, Monsieur Girod detém um recorde difícil de ser batido: está no cargo há 62 anos.

Foi eleito pela primeira vez em 1958, quando era um jovem de 27 aninhos, e o mundo era outro. No Brasil, Juscelino Kubitschek ainda tratava de construir Brasília, a futura capital. Em Washington, Eisenhower ocupava a Casa Branca. Em Paris, o reinado de De Gaulle ainda não havia iniciado; o presidente se chamava René Coty.

De lá pra cá, Monsieur Girod foi candidato em todas as eleições – e ganhou todas. Está no 12° mandato consecutivo. É de crer que seus munícipes estão satisfeitos com o desempenho do patriarca.

Ele explica que, naquele tempo, as motivações do eleitor eram diferentes do que conhecemos hoje. Recém-diplomado, ele assumiu o comando da propriedade do tio, onde se cultivava a terra e se criavam umas poucas reses. Diminuta para padrões brasileiros, a fazendola era a mais importante do município. Naqueles meados de anos 50, ninguém tinha automóvel no vilarejo. Monsieur Girod foi o primeiro a ter um.

Droisy (Picardia), França

Por razões que a sociologia explica, os eleitores tinham tendência a entregar as chaves da prefeitura ao candidato mais abastado. É que acreditavam que um rico teria mais tempo disponível para se dedicar à coisa pública. É permitido enxergar nessa tendência um resquício da ordem feudal, quando era natural que o rei fosse o mais rico. Ou que o mais rico fosse rei, o que dá no mesmo.

Quando li a explicação do velho prefeito francês, pensei nos coronéis brasileiros que, até hoje, seguram municípios pequenos com rédea curta. Não sei se os munícipes os elegem e reelegem porque acreditam que eles têm mais tempo disponível pra cuidar da administração. Deve parecer natural, aos eleitores, que o coronel-prefeito seja o mais rico.

O problema é que, mantidos na ignorância, eles nem sempre se dão conta de que o mandachuva, distraído, pode estar incorporando uma parte das verbas públicas a seu patrimônio pessoal. Não sei por que, acabo de me lembrar do mensalão e do petrolão. Mas essa é uma outra história.