Há pior

José Horta Manzano

Engana-se quem acha que as patacoadas imaginadas por doutor Bolsonaro são o cúmulo do atropelo ao bom senso. Há coisa pior. É verdade que nosso presidente se tem esforçado no campo da irracionalidade. Parece fazer de propósito. Diz hoje para, em seguida, desdizer-se amanhã. Irrefletido, engalfinha-se com a imprensa, esquecido do princípio básico que ensina que você não deve entrar em conflito com os órgãos dos quais pode precisar amanhã. Toma decisões de arrepiar o cabelo. Mas, como eu dizia, há pior.

O inimigo é Papa Francisco

Matteo Salvini, que compartilha com Luigi di Maio o posto de vice-primeiro-ministro da Itália, é o atual enfant terrible da política europeia. Desde a juventude, militou em movimentos nacionalistas que tinham como objetivo a independência do Norte da Itália. Ao ver que, numa Europa forte, não tinha chance nenhuma de atingir o objetivo, deu um passo atrás e decidiu agir na raiz. Se uma Europa forte impede o sonho de independência, o remédio é enfraquecer a Europa.

Dottor Salvini pôs de molho, por enquanto, o discurso separatista. Desde que chegou às altas esferas da política italiana, tem-se dedicado a solapar descaradamente a União Europeia. Faz amizade com qualquer político europeu, desde que isso lhe pareça contribuir para o desmonte do continente. A francesa Le Pen, o húngaro Orbán, o suíço Blocher, o inglês Farage, o holandês Wilders ‒ todos o que puderem ajudar no desmantelamento da União são bem-vindos.

Matteo Salvini: “O meu papa é Bento”

Do extremista americano Steve Bannon, ouviu recentemente um conselho: «Papa Francisco é o inimigo a atacar». Surpreendente de ousadia, não é? O americano, que é justamente aquele cujas posições extremadas já assustaram o próprio Trump, se referia à visão humanitária que o papa tem em matéria de migração.

Sem esperar o conselho do americano, Matteo Salvini já tinha decidido emprestar seu prestígio para demolir a imagem de Francisco. Deixou-se fotografar ostentando orgulhosamente uma camiseta com os dizeres «O meu papa é Bento», uma afronta à Igreja Católica Romana. Cai mal o vice-primeiro-ministro de um país civilizado intrometer-se numa instituição religiosa. Cai pior ainda quando se considera que o povo italiano tem forte ligação com essa Igreja.

Quem se arrepia com os escândalos do clã Bolsonaro deve ter em mente que podia ser pior. Mas estamos no bom caminho pra piorar.

Páscoa e passagem

José Horta Manzano

Muito antes que o primeiro humano se equilibrasse sobre dois pés, a Terra já estava lá naturalmente. E também o ciclo da natureza que se renovava a cada ano. Dizem os cientistas ‒ e, certamente, terão razão ‒ que os primeiros hominídeos surgiram no continente africano. Faz sentido. Desprovidos do pelame de um urso e da independência de uma águia, os humanos só podiam ter aparecido em terras tropicais sob clima quente e clemente.

O aumento da população, a escassez da caça, secas devastadoras impeliram os primeiros grupos a migrar. Muitas e muitas gerações depois de Lucy, os primeiros bandos alcançaram territórios mais ao norte onde o clima já não era marcado pela alternância de estações secas e úmidas, mas por uma estação quente e confortável, seguida por um período frio e agressivo.

As novas condições eram bem diferentes da suavidade tropical, mas os humanos já haviam desenvolvido novas capacidades. O uso de utensílios, o domínio do fogo e, finalmente, a invenção da agricultura permitiram a sobrevivência nos novos territórios. A adaptação não deve ter sido fácil nem rápida. Muitos milênios hão de ter corrido, mas o homem acabou por amoldar-se às novas condições. A prova maior dessa acomodação é o fato de estarmos aqui ainda hoje.

No verão, a vida é mais suave. A caça é farta. A agricultura nutre os viventes. Na estação fria, a paisagem é outra. A neve pode ser linda em cartão postal, mas os antigos temiam a chegada dos primeiros ventos gelados. As folhas caem. A vegetação adormece. A caça desaparece. Os dias encolhem. Se ainda hoje, com todo o conforto que o progresso nos legou, o inverno nos parece longo, fico a imaginar como deve ter sido para os humanos de milênios atrás. O fato é que a chegada da primavera, com pássaros cantando de novo e árvores vestidas de verde, traz um imenso alívio. A natureza renasce. A vida retoma a suavidade. É tempo de festa.

Desde as primeiras primaveras, os descendentes de Lucy sentiam-se animados com a volta dos belos dias. À medida que os homens foram desenvolvendo um sentimento de religiosidade, sentiram que era hora de agradecer a quem lhes devolvia a alegria de viver. Politeístas num primeiro momento, os agrupamentos humanos se habituaram a reunir-se em regozijo para comemorar o renascimento da natureza. Todos os deuses eram homenageados. Gregos, romanos, sumérios, egípcios sentiam a mesma euforia. Cada um desenvolveu maneira própria de demonstrar agradecimento. Fogueiras e sacrifício de animais foram as manifestações primitivas mais comuns.

O aparecimento do monoteísmo não eliminou o entusiasmo pela chegada da bela estação. Sacrifícios foram abolidos, abrindo espaço para práticas mais civilizadas.  O povo judeu insituiu o Pessach. O Êxodo e a travessia do deserto guardam uma inequívoca simbologia. A ideia de passagem está presente. Comemora-se o fim de um tempo de sofrimento e a chegada de uma era promissora.

Os cristãos seguiram na mesma linha. Escolheram o mesmo período do ano para fixar a Páscoa. O símbolo do renascimento continua presente na ressureição de Jesus, o nazareno. Não por acaso, chineses, turcos, curdos, persas e outros povos também elegeram a época do retorno da primavera para celebrar o renascimento, a renovação. Todos festejam um recomeço que traz consigo a promessa de uma vida melhor.

Que seja melhor para nós todos!

Boa Páscoa!

E ponto final

José Horta Manzano

Continuam a ser registrados testemunhos de apoio à bizarra (e contestada) decisão de conceder passaporte diplomático a senhor Edir Macedo, dono de importante seita neopentecostal. A portaria a garantir o documento foi assinada por doutor Araújo, nosso barbudo chanceler, aquele cujo espírito de abertura ao mundo é notório. A concessão do documento foi sustada por determinação de uma juíza federal.

Assim mesmo, a emissão do passaporte ganhou novo apoiador na figura do presidente da República, homem de visão e cultura raras, como é do conhecimento de todos. Em declaração encharcada de autoritarismo, doutor Bolsonaro garantiu que o privilégio outorgado ao prelado será mantido. “E ponto final“ ‒ acrescentou. A convicção de estar no caminho certo vem do fato de tal passaporte já ter sido concedido por governos petistas. “Ora, se eles concederam, por que não eu?“ ‒ é o implacável argumento do presidente.

Ademais, pastores, bispos e outros prelados gozam da mesma prerrogativa. Em sendo gente acima da ralé, têm direito a escapar de filas e amontoados onde poderiam até terminar contaminados, um horror!

Continua em cartaz a doutrina do nós também. Se todos fazem, por que não nós? ‒ era o moto dos adeptos do caixa dois no auge da Operação Lava a Jato. O fato de outros já terem errado não justifica que se continue errando. Ao amparar-se nesse alicerce bambo, doutor Bolsonaro mostra que ainda não conseguiu escapar das manhas da velha política. O prolongado uso do cachimbo deixou-lhe torta a boca.

Doações midiáticas

José Horta Manzano

Estão fazendo fila os doadores para a causa da reconstrução da catedral Notre-Dame de Paris. Os donativos já atingem um bilhão de euros, quantia respeitável, quase 4,5 bilhões de reais.

Na Europa, os franceses têm fama de reclamões, aquele tipo de gente que nunca está contente. Há nisso um fundo de verdade. Mas, desta vez, parece que têm razão de se queixar. Muitas vozes se levantam pra lamentar que, quando se trata de ajudar aos que precisam, nunca há dinheiro; no entanto, pra reconstruir «uma igreja» ‒ e isso tem de ser pronunciado com boca de pouco caso ‒ chovem milhões.

Para recolher dinheiro, foi aberta uma subscrição nacional. Por seu lado, loterias, vaquinhas e quermesses se organizam em todo o território francês. Logo, logo, vai ser instalada uma conferência de doadores pra arrecadar mais fundos. E, mais que tudo isso junto, chovem doações de grandes empresas e de bilionários.

A família Arnault, a mais rica do país, doou 200 milhões de euros. A família Pinault, outra potência, vai contribuir com 100 milhões. Outros abastados ‒ os Bettencourt, donos do grupo l’Oréal ‒ vão entrar com 200 milhões. Em seguida, vêm os “pequenos” doadores, aqueles que doam 10 ou 20 milhões de euros. São muitos.

Villa Leopolda, na Côte d’Azur (França), propriedade de Madame Lily Safra
Avaliada em US$ 500 milhões, é uma das propriedades mais caras do planeta

Entre esses “pequenos”, está a bilionária Lily Safra ‒ brasileira, nascida no Rio Grande do Sul, viúva do banqueiro Edmond Safra. Segundo algumas fontes, propôs-se a doar 10 milhões de euros (44 milhões de reais). Outros chegam a mencionar 20 milhões (88 milhões de reais). Seja como for, é muuuito dinheiro.

Cada um faz o que quer com o próprio dinheiro. Fica registrada, no entanto, a surpresa. Madame Safra é conhecida pelas doações milionárias que faz regularmente a causas e institutos diversos. É curioso que ela, que cresceu no Rio de Janeiro, não se tenha comovido com o incêndio do Museu Nacional, aquela monstruosa queima de arquivo da memória do país. Não consta que tenha destinado nem um centavo à reconstrução do prédio ou à reconstituição do acervo. É verdade que não teria dado ibope. Doação boa é doação que aparece.

Clube latino-americano

José Horta Manzano

Quando viu baterem à porta de casa os policiais que o vinham prender, señor Alan García ‒ que foi duas vezes presidente do Peru ‒ pressentiu o frio das algemas e o peso da humilhação. Preferiu não enfrentar. Suicidou-se.

Para bordar o assunto, a mídia compôs listas de dirigentes que, nos últimos cem anos, decidiram, seja por que razão for, tirar a própria vida. Não são poucos. Entre eles, aparece Getúlio Vargas, que mandou no Brasil por 19 anos. A lista inclui ainda Adolf Hitler e o chileno Salvador Allende(1).

O elenco mais impressionante é o de ex-presidentes latino-americanos presos ou investigados por corrupção. A gente imagina que o caso de Lula da Silva seja único, mas não é bem assim. O clube dos corruptos, que perpetua secular tradição em nosso continente, tem muitos membros.

O Peru aparece em boa posição, com seus cinco últimos presidentes na lista. Além do recém-falecido Alan García, aparecem Alberto Fujimori, Ollanta Humala, Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski. Todos eles já passaram algum tempo atrás das grades ou estão envolvidos em processo por corrupção. Os três últimos citados foram regados pelo propinodutro internacional patrocinado pela brasileira Odebrecht ‒ nossa maior exportadora de corrupção.

O clube dos presidentes corruptos tem mais gente fina. Está lá a argentina Cristina Fernández de Kirchner, que só escapou da cadeia até agora em razão de sua imunidade parlamentar. Outra figurinha carimbada é Rafael Correa, ex-presidente do Equador. Está sendo processado por “delinquência organizada” no caso Odebrecht. A América Central não está ausente. A representá-la, estão o panamenho Martinelli, o hondurenho Callejas, os guatemaltecos Pérez Molina e Álvaro Colom, todos ex-presidentes. Os representantes brasileiros nessa exemplar confraria são, como é sabido de todos, Lula da Silva e Michel Temer.

Li hoje entrevista concedida por um jornalista que trabalhou para O Pasquim nos anos 1970. Ele pondera que o fato de Lula da Silva estar preso é prova de vigor da democracia. Sem dúvida. Mais vigorosa seria a democracia, no entanto, se nenhum dirigente tivesse de ir pra cadeia por crime de corrupção.

(1) Dizem uns que Salvador Allende se suicidou, enquanto outros asseveram que «foi suicidado». Passado quase meio século sem conclusão confiável, a controvérsia tende a se perpetuar.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

Missionário no exterior

José Horta Manzano

Sem intenção de afrontar a notória abertura de espírito do culto ministro Ernesto Araújo, pergunto-me em que medida o passaporte diplomático que ele concedeu ao casal Edir Macedo Bezerra pode ajudar o eclesiástico a “desempenhar de maneira mais eficiente suas atividades em prol das comunidades brasileiras no exterior”.

Que tem o passaporte a ver com atividades episcopais do titular? Um doce pra quem puder informar. Cartas para a redação, por favor.

Nota da redação postada em 17 abr 2019
Um juiz federal do Rio de Janeiro confortou este blogueiro no entendimento de que não tem cabimento conceder passaporte diplomático a um eclesiástico sob pretexto de que costuma partir para viagens missionárias. Em sábio juridiquês, o magistrado deu despacho cassando o documento.

Aguardemos o próximo capítulo. Num país extremamente judiciarizado como o nosso, nunca se sabe. Batalhas judiciais são intermináveis, principalmente para quem tem (muito) dinheiro. É voz corrente que donos de igrejas neopentecostais vivem em abastança.

Quem viu, viu

José Horta Manzano

«Je ne la verrai plus jamais. Il faudra 40 à 50 ans pour la reconstruire ‒ Eu não a verei nunca mais. A reconstrução vai levar 40 ou 50 anos.» As palavras (e as lágrimas) são de Monsieur Stéphane Bern, popular apresentador televisivo que aparece todos os anos na lista das personalidades mais apreciadas pelos franceses. O testemunho foi dado enquanto ainda não se haviam extinguido as brasas do incêndio da catedral Notre-Dame(*) de Paris.

Talvez haja algum exagero na estimativa de Monsieur Bern, compreensível dada a emoção do momento. Na minha opinião, no entanto, por mais importantes que sejam as verbas aplicadas na reconstrução, ela não se fará da noite para o dia. As dificuldades são muito muito grandes.

Para começar, certos materiais simplesmente não existem mais. A parte que se incendiou completamente ‒ o madeirame que sustentava o telhado ‒ era de carvalho maciço. Setecentos anos atrás, árvores de bom tamanho e de boa qualidade já não eram fáceis de encontrar. Hoje em dia, simplesmente desapareceram. Não existem mais. Muitas análises terão de ser feitas só pra encontrar substituto válido.

Os estudos de solidez da estrutura que restou serão minuciosos e longos. Afinal, a ordem de reconstruir por cima de alicerces fragilizados não pode ser dada com leviandade. Nenhum arquiteto gostaria de ver seu nome ligado, para todo o sempre, a um eventual desmoronamento de Notre-Dame em consequência de erro seu. Que terrível estigma!

Obras arquitetônicas há muitas, algumas magníficas como o Taj Mahal. Templos religiosos há milhares, como a igreja de qualquer pracinha. Construções icônicas há um punhado, como o Cristo Redentor. O magnetismo de Notre-Dame vinha do fato de concentrar essas três qualidades: era monumento arquitetônico, templo religioso de primeira grandeza e símbolo da França e de Paris em particular. Com 13 milhões de visitantes por ano, era ‒ disparado ‒ o edifício mais visitado da Europa, quiçá do mundo.

Mas assim são as coisas. Quem viu Notre-Dame por dentro, viu. Quem não viu, não verá.

(*)À cata da repercussão do desastre de Paris, consultei sites escritos em diversas línguas. Achei curioso que nenhum deles traduzisse o nome da catedral. Ninguém falou em Our Lady Cathedral, nem em Cattedrale della Madonna, muito menos em Catedral de Nossa Senhora. Todos mantêm a forma original: Notre-Dame. Não há dúvida, soa muito mais chique.

Olha o radar!

José Horta Manzano

Num momento de desatino ‒ ou inspirado sabe-se lá por qual guru ‒, doutor Bolsonaro mandou barrar a instalação de 8 mil radares nas estradas do país. Alem de afrontar o bom senso, a ordem contraria a tendência mundial de reforçar a regulamentação do tráfego rodoviário. Por toda parte, já está comprovada a relação entre a velocidade dos veículos e a gravidade dos acidentes.

Tão fora de esquadro é a decisão presidencial que até uma juíza federal se comoveu e emitiu contraordem. Não se sabe como terminará o embate, que a briga é de foice. Vença quem vencer, o balanço será ruim. Se a vontade presidencial prevalecer, perderão o utilizadores de nossas precárias estradas, que se tornarão ainda mais perigosas. Se a ordem judicial triunfar, a imagem de doutor Bolsonaro sairá do episódio ainda mais esfolada e enfraquecida.

Os franceses receberam, estes dias, confirmação da eficácia dos radares rodoviários na prevenção de acidentes. Desde que começaram a protestar, em novembro do ano passado, os Coletes Amarelos já atacaram 75% do parque de radares fixos instalados no país. Aparelhos foram queimados, derrubados, destruídos, inutilizados ou furtados. As estatísticas do primeiro trimestre, impiedosas, trazem o veredicto: o número de mortos nas estradas francesas aumentou 17% desde o início do ano. Uma subida brutal.

É fácil de entender. Os radares costumam ser instalados nos pontos perigosos, onde o motorista tende a aumentar a velocidade do carro. Ciente de que há um radar fixo, o cidadão refreia seus ímpetos pra não levar multa. Assim, contribui para desinchar as estatísticas de acidentes. Quando sabe que não há radar nenhum, o sujeito se solta. It’s human nature ‒ é natural.

Espero que o bom senso vença e que a instalação dos radares seja liberada no Brasil. É excelente caminho pra diminuir a hecatombe rodoviária brasileira, drama de características e proporções africanas.

Com a ajuda de Deus

Stanislaw Ponte Preta(*)

Tia Zulmira, pesquisadora do nosso folclore, descobre mais um conto anônimo. Conforme os senhores estão fartos de saber, quando uma coisa não tem dono, passa a ser do tal de folclore. Assim é com este conto muito interessante que a sábia macróbia(1) colheu alhures.

Diz que era um lugar de terra seca e desgraçada, mas um matuto perseverante um dia conseguiu comprar um terreninho e começou a trabalhar nele e, como não existe terra bem tratada que deixe na mão quem a tratou bem, o matuto acabou dono da plantação mais bonita do lugar.

Foi quando chegou o padre. Chegou, olhou para aquele verde repousante e perguntou quem conseguira aquilo. O matuto explicou que fora ele, com muita luta e muito suor.

‒ E a ajuda de Deus ‒ emendou o sacerdote.

O matuto concordou. Disse que no começo era de desanimar, mas deu um duro desgraçado, capinou, arou, adubou e limpou todas as pragas locais.

‒ E com a ajuda de Deus ‒ frisou o padre.

O matuto fez que sim com a cabeça. Plantou milho, plantou legumes, passou noites inteiras regando tudo com cuidado e a plantação floresceu que era uma beleza. O padre já ia dizer que fora com a ajuda de Deus, quando o matuto acrescentou:

‒ Mas deu gafanhoto por aqui e comeu tudo.

O matuto ficou esperando que o padre dissesse que deu gafanhoto com a ajuda de Deus, mas o padre ficou calado. Então o matuto prosseguiu. Disse que não esmorecera. Replantara tudo, regara de novo, cuidara da terra como de um filho querido e o resultado estava ali, naquela verdejante plantação.

‒ Com a ajuda de Deus ‒ voltou a afirmar o padre.

Aí o matuto achou chato e acrescentou:

‒ Sim, com a ajuda de Deus. Mas antes, quando Ele fazia tudo sozinho, o senhor precisava ver, seu padre. Esta terra não valia nada.

(1) Que teve vida longa; pessoa muito velha.

(*) Sergio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta, escritor, cronista, radialista e compositor carioca.

Marcas duráveis

José Horta Manzano

As autoridades e o povo suíço acabam de levar um susto. A notícia cai mal, justamente num momento em que cresce a fatia do distinto público que se converteu à dieta orgânica(*), seita que se universaliza nestes admiráveis novos tempos.

Ninguém se importa em pagar mais caro por produtos chancelados com o selo bio/orgânico. Às vezes sai bem mais caro. Pra coroar, dado que ainda não há regulamentação rígida, não há definição clara do que seja esta nova classe de produtos. Que critérios devem ser respeitados para que um artigo tenha o direito de entrar na categoria? Ninguém sabe direito.

Saído estes dias, um estudo da Universidade de Neuchâtel (Suíça) revela que 90% das terras dedicadas à agricultura biológica no país estão contaminadas com pesticidas. Como é que é? O escândalo se alevanta. Como é possível? Estaremos todos sendo enganados então?

A explicação, no entanto, não é complicada. Antes de serem dedicadas à agricultura orgânica, essas terras eram cultivadas com o uso de pesticidas químicos. Os solos não se purificam da noite pro dia. Passados anos e anos, a contaminação permanece. Além disso, a poluição por produtos químicos é continuamente trazida pelos ventos, pelos animais, pelos insetos, pelos veículos e pelo próprio homem. Querer descontaminar toda a superfície agrícola do planeta é como enxugar gelo: quando a gente acha que o trabalho chegou ao fim, aparece mais água.

Não acredito que a notícia dê um golpe mortal na agricultura sem pesticida. Mas é bom que os cidadãos se armem de paciência. A total despoluição do campo não é pra amanhã.

(*) A agricultura isenta de insumos e pesticidas químicos, dita orgânica no Brasil, é conhecida como bio na Europa. (Bio de biológica.)

Todas as fichas no passageiro

José Horta Manzano

É perigoso apostar todas as fichas em algo passageiro que, amanhã, já poderá ter mudado. Apostar em governo de turno é atraso de vida. Ontem, foi o terrorista Battisti que, tendo escolhido o volúvel Brasil, esborrachou-se no chão. Mudou o governo, e ele se estrepou. Hoje é Mr. Assange, aquele que andou divulgando documentos confidenciais ‒ um ato que agradou a muita gente mas desagradou fortemente ao governo dos EUA.

Perseguido e com a cabeça a prêmio, o ‘lançador de alerta’ aceitou a oferta do frágil Equador, cujo presidente à época jogava no time do antiamericanismo radical. Isso foi em 2012. Desde então, viveu recluso na embaixada londrina daquele país, confinado a um espaço bem menor do que a confortável suite que hospeda Lula da Silva em Curitiba.

Mas tudo muda na vida. Cansado de guerra e de mutretas, o povo equatoriano entronizou presidente de outra corrente filosófica. Ontem, ao cabo de longas negociações com Londres, Quito anunciou que cancelava o asilo político concedido a Mr. Assange. Ato contínuo, as portas da embaixada foram abertas para permitir que a polícia de Sua Majestade entrasse e apanhasse o ex-asilado. O moço foi levado algemado num veículo policial.

O balanço final mostra que Mr. Assange, tentando se esquivar à prestação de contas, apostou no cavalo errado. Depois de passar sete anos encerrado num cubículo sem ao menos possibilidade de tomar banho de sol, volta à estaca zero. Terá de enfrentar interrogatório, extradição, julgamento e provavelmente condenação. Em resumo, ter confiado num regime de turno só lhe valeu postergar o encontro com o destino. Acrescentou sete anos de cela solitária ao prontuário e terá de cumprir a pena que lhe for imposta, que pode ser de mais cinco anos.

O clã Bolsonaro escolheu uma senda perigosa. A vassalagem que vêm prestando à pessoa do presidente dos EUA não é caminho de sol e flores. À volta das próximas eleições americanas, tempestade e espinhos podem surgir. Suponhamos que Mr. Trump não seja reeleito. Não é provável, mas sempre é possível. Certamente o presidente democrata que viria ocupar seu lugar não lançaria o mesmo olhar lânguido a doutor Bolsonaro. As coisas poderiam azedar, principalmente levando em conta que, imprevidentes como são, os bolsonarinhos são bem capazes de continuar a se apresentar com o boné « Trump 2020 » enfiado no cocuruto. Se Trump perder… já imaginaram o desastre?

Medo da polícia

José Horta Manzano

Os franceses andam assustados e preocupados. As mais recentes estatísticas relativas à delinquência atestam um aumento da incidência de pequenos crimes de novembro pra cá. Em apenas seis meses, o conjunto de crimes e delitos chamados «petite délinquence ‒ pequena delinquência» aumentou de 7% a 10%. Estamos falando de ocorrências como furto ou roubo de pessoa física, furto ou roubo de veículo, assalto a residência na ausência do morador.

Não foi preciso analisar muito profundamente pra descobrir relação entre o súbito aumento da criminalidade e as manifestações dos Coletes Amarelos. De fato, as passeatas de protesto começaram em novembro, atravessaram Natal, continuaram no ano-novo e estão chegando à Páscoa. Tirando a pequena parte da população que gostaria de ver o circo pegar fogo, os franceses estão até aqui de confusão. Não aguentam mais ver o país tomado por arruaceiros. Sair de casa aos sábados tornou-se um exercício perigoso.

Mas o quem tem de ver o movimento de protesto com o aumento da criminalidade? A relação é simples. Frequentemente violentos, os protestos exigem presença reforçada de batalhões inteiros de policiais. E de onde é que vem esse reforço? Pois é justamente do policiamento normal, ostensivo e de proximidade. Despe-se um santo pra vestir outro.

Os policiais convocados pra garantir a segurança de pessoas e bens durante as manifestações acabam fazendo falta na região onde costumam trabalhar. Ao notar que não há guardas, os bandidos fazem a festa. É a demonstração de que a mera presença do uniforme inibe muita incivilidade e muito delito.

Anota na caderneta?

José Horta Manzano

Percorrer os corredores do supermercado, cheirar frutas, revirar embalagens, decifrar letrinhas, abrir portinholas, apanhar produtos, empilhar tudo no carrinho e dirigir-se à fila do caixa são atividades corriqueiras. De tão habituais, fazem parte do dia a dia, e a gente nem presta mais atenção. Mas houve um tempo em que isso não existia.

No hall central da estação

Quando surgiram os primeiros armazéns concebidos segundo o novo e revolucionário conceito ‘sirva-se você mesmo’, importado dos EUA, muita gente se espantou. «Como é que é? A gente mesmo vai pegando as compras e pondo na sacola? E na hora de pagar, como é que faz? Anota na caderneta? E se anotar errado?» As muitas indagações eram compreensíveis, tal era o chacoalhão que a novidade dava nos hábitos.

Loja de conveniência sem funcionários

Hoje, passados mais de sessenta anos, ninguém mais se espanta. Mesmo assim, o ramo da venda de produtos alimentícios no varejo ainda consegue inventar novidades. Não sei se já existe no Brasil, mas por aqui acaba de aparecer: uma loja de conveniência sem funcionário e sem caixa. Por mais blasés que estejam os cidadãos do mundo que nos tornamos, é pra lá de original ver um comércio sem ninguém pra servir nem pra cobrar. É fora dos padrões.

Escanear o código para abrir a porta

Na Suíça, a primeira loja do gênero abriu esta semana em Zurique. Está instalada provisoriamente no meio do grande hall da estação de estrada de ferro. Pra entrar, tem de ter baixado o aplicativo da empresa. Pra abrir a porta, precisa escanear, com o celular, o código afixado à entrada. A mercadoria está toda ali, exposta, à espera de ser carregada. O comprador terá de escanear cada artigo. Terminada a compra, dá um ‘totalizar’, e pronto. O montante será debitado do cartão de crédito. (Neste caso, cartão de crédito é a versão 2.0 da velha caderneta da venda.) Dois funcionários da empresa passam diversas vezes por dia pra reabastecer prateleiras e gondolinhas.

Ao carregar o aplicativo, o cliente já está dando sua identidade, o que reduz drasticamente toda tentação de furto. Se deixar de escanear um artigo, por exemplo, não escapará. Será flagrado por uma das câmeras de segurança e receberá a conta do mesmo jeito. O sistema é uma amostra do que nos espera no futuro. Ninguém segura o progresso.

(*) No Brasil, os primeiros empórios a adotar o sistema de autosserviço surgiram nos anos 1950. A rede Peg Pag foi pioneira. Maroto, o povo fazia troça com a novidade. Em vez de Peg Pag, dizíamos «Pegue e Corra».

Mais chique

José Horta Manzano

Em queda nas pesquisas, doutor Bolsonaro tomou a decisão de seguir os passos do ilustre predecessor. Não pretende chegar ao ponto de “jogar dominó em Curitiba”, mas já começou por imitar o look de Lula da Silva. Pendurou no pescoço um ‘fake’ da gravata preferida do demiurgo.

A queda de Bolsonaro

José Horta Manzano

Grande estardalhaço se está fazendo em torno da queda de aprovação que castiga doutor Bolsonaro. O Instituto Datafolha, que vem fazendo esse tipo de levantamento desde os tempos de Collor de Mello, afirma que nenhum presidente em primeiro mandato sofreu, em tão pouco tempo, baixa de popularidade tão significativa. Para ser confiável, um levantamento tem de partir de bases concretas e comprovadas. Ora, no caso em questão, acredito que esses alicerces estejam faltando.

O Instituto diz que, aos três meses de mandato, FHC era aprovado por 39% da população, Lula da Silva chegava a 43% e a doutora atingia incríveis 47%. Na rabeira, doutor Bolsonaro não passa de 32%. À vista desses números, analistas afirmam que a queda de popularidade do atual presidente foi vertiginosa. Queda? Será mesmo? Tenho cá minhas dúvidas.

Para medir a queda, será preciso conhecer a aprovação do presidente no momento da eleição. A tarefa é impossível, dada a ausência de levantamento. Que fazem, então, os analistas? Partem da hipótese tácita de cada presidente, no momento da eleição, ter contado com aprovação plena. Visto que é virtualmente impossível alguém ser unanimemente aprovado, parte-se do pressuposto de todos os presidentes terem iniciado no mesmo patamar de aprovação, um número próximo da porcentagem de votos com que cada um foi eleito. É aí que reside o erro.

FHC, Lula e Dilma foram eleitos pelos méritos que o eleitor sabia que tinham ou supunha que tivessem. Portanto, pode-se considerar que seus eleitores ‒ que representam, grosso modo, metade do eleitorado ‒ votaram neles porque os aprovavam. Assim, esses três presidentes partem de um mesmo patamar de aprovação. A comparação entre a queda de cada um deles é válida. Já o caso de doutor Bolsonaro é diverso.

Parte considerável dos que votaram no atual presidente não o fez por convicção mas por exclusão. Votaram nele não por adesão à causa bolsonarista, mas para esconjurar o espectro da volta do petismo. Portanto, ainda que possa soar paradoxal, boa parte dos eleitores de Jair Messias não aprovava o personagem já àquela altura. Foram votar de nariz tapado, só pra afastar o mal maior. Já estavam de má vontade, preparados pra lançar um olhar pra lá de crítico ao novo governo.

É o que está ocorrendo. Acredito que os 32% que agora aprovam doutor Bolsonaro são o núcleo duro de seus eleitores, aqueles que o escolheram pelos méritos que tinha ou se supunha tivesse. A diferença entre esse patamar e os 55% ‒ sua votação total ‒ representa aquela porção do eleitorado que lhe deu ‘voto útil’. Não sendo bolsonaristas desde criancinhas e vendo que o perigo petista se afastou, esses cidadãos têm dificuldade em aprovar um presidente que, ainda por cima, não é lá essas coisas. Assim, aguçam suas críticas.

É o que me parece. A aprovação do presidente não “caiu”. O fato é que ela nunca esteve lá em cima. Portanto, não pode ter “caído” de uma altura onde nunca esteve.

Capitalização

José Horta Manzano

Pouco a pouco, o Brasil vai se dando conta de que, do jeito que está, a Previdência Social vai direto pro buraco. Gradualmente vai-se desfazendo a noção de que a entidade abstrata chamada «governo» tudo pode. Todos entendem que este é o país do toma lá dá cá, ou seja, a terra em que tudo tem seu preço e nada vem de graça. No entanto, curiosamente, a população tem dificuldade em entender que, para poder pagar a pensão dos aposentados, o «governo» tem de receber dinheiro dos que estão na ativa. Afinal, dinheiro não dá em árvores. Mas parece que a ficha está caindo e mensagem está passando. Era hora.

Esta mudança, apresentada como A reforma, não é senão um ajuste. A longevidade se espicha, os jovens entram cada vez mais tarde na vida ativa, casais têm menos e menos filhos ‒ enfim, a sociedade evolui. Que não se imagine que, feitos estes acertos, nada mais mudará nas próximas décadas. Não será assim. A reforma atual é significativa porque o corpo social evoluiu e as regras não têm sido adaptadas desde o tempo do Onça. O segredo de evitar choques traumáticos gerados por reformas drásticas é ir adaptando as regras aos poucos.

A grande medida a ser implantada agora, por ter sido descurada por muito tempo, tornou-se a principal anomalia da Previdência brasileira: a fixação de idade mínima para aposentadoria. No mundo civilizado, ninguém acreditaria se ficasse sabendo que brasileiros em boa saúde têm o direito de se aposentar por volta dos 55 anos de idade. É de admirar que a estrutura ainda não tenha arrebentado.

Aproveitando o atual debate, há quem fale em substituir o sistema de repartição pelo de capitalização. A meu ver, seria tremendo erro conceptual. O princípio da Previdência Social é a solidariedade nacional. Todos contribuem para alimentar a poupança comum, cada um conforme seus ganhos. Chegada a hora da aposentadoria, todos receberão da mesma sacola. O benefício variará conforme parâmetros individuais e profissionais.

Sistema de capitalização é outro capítulo. É cada um por si, longe de toda solidariedade nacional. É poupança individual, que nada tem a ver com Previdência Social. Pode servir como complemento ao benefício básico, mas não deve substitui-lo. Espero ‒ e acredito ‒ que o legislador evitará pautar a reforma por esse princípio.