De asilo & de embaixadas ‒ 2

Cláudio Humberto (*)

Com o agravamento da situação penal de Lula, que tem grande risco de cumprir pena de prisão em regime fechado, parlamentares voltaram a discutir a hipótese de fuga do País.

Fontes do PT confirmam que essa opção tem sido considerada pelo próprio Lula. O problema é que ele seria preso sem demora, mediante mandado internacional de captura.

Por isso, a opção seria asilar-se em embaixada “amiga”, tipo Equador, Bolívia ou Venezuela. Mas, pelas regras internacionais, um condenado em ação penal não recebe status de asilado político e sim de fugitivo de justiça.

Os defensores do asilo em embaixada lembram a Lula o caso de Julian Assange, do WikiLeaks, que fez isso em Londres para fugir da Justiça. Há cinco anos na embaixada do Equador, Assange não tem direito a salvo-conduto para deixar o país. Como Lula o seria, Assange é fugitivo da justiça.

As embaixadas da Bolívia de Evo Morales e da Venezuela do ditador Nicolás Maduro seriam os mais prováveis destinos de Lula. A diferença é que Lula foi condenado por corrupção. Assange é acusado de violência sexual, na Suécia, por não usar preservativo.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Mantém coluna no Diário do Poder.

Nota deste blogueiro
Seria decisão temerária o Lula pedir asilo na Bolívia ou na Venezuela. Instáveis, esses países não são propriedade do clã que os subjuga atualmente. Apenas «estão» bolivarianos. O governo desses países hermanos, assentado sobre bases frágeis e hostilizado por numerosos vizinhos, pode ruir a qualquer momento. Assim que desmoronar, como é que fica nosso líder?

O asilo pode muito bem ser revogado. O demiurgo de Garanhuns periga transformar-se então em nau sem rumo, a vogar ao sabor das ondas, sem ter mais onde atracar. Faz lembrar o finado xá da Pérsia, que, expulso do país pela revolução islâmica, ninguém queria acolher. Triste fim.

Mais vale ficar de tornozeleira em São Bernardo do Campo. Ainda que tenha de morar “de favor” em apartamento emprestado.

Foguetes maranhenses

José Horta Manzano

Cada um usa os trunfos que tem. Se não usar, estará dormindo no ponto. E olhe que tem gente tirando soneca profunda. Desde que os russos ‒ então conhecidos como soviéticos ‒ tomaram a dianteira na corrida espacial ao lançar o Sputnik em 1957, uma luzinha vermelha acendeu no painel dos países mais avançados. Se eles podem, nós também, uai!

Na época, a competição só tinha mais um participante: os EUA. De lá pra cá, meia dúzia de países se aventuraram na empreitada. O clube, assim mesmo, continua seletíssimo. A França veio logo em seguida. Já no início dos anos 60, montou um centro de lançamento de foguetes no desértico sul da Argélia, então colônia francesa. A China, a Índia e até a misteriosa Coreia do Sul têm feito o que podem para acompanhar os pioneiros.

Um fator constante salta aos olhos. Todos escolheram sítio de lançamento próximo da linha do Equador. Próximo é maneira de dizer, que cada um fez o que pôde. A URSS, situada longe dos trópicos, instalou-se em Baikonur, no Cazaquistão, a uma latitude de 45°, um dos pontos mais ao sul de seu território. Os americanos deram preferência à Florida, estado mais meridional do país. Estabeleceram-se no Cabo Cañaveral(*), a 28,5° de latitude. A França, que se tinha instalado no sul da Argélia, a 31° de latitude, ficou de mãos abanando ao perder a colônia. Depois de estudar diferentes possibilidades, transferiu o centro espacial para Curu (Kourou), na Guiana Francesa, praticamente na linha do Equador.

E por que é que todos procuram se aproximar do Equador? É fácil entender. A Terra gira de oeste para leste. Para aproveitar o impulso dado pela própria rotação do globo, todo foguete é lançado em direção ao leste. A velocidade de rotação da Terra ‒ conhecida na física como velocidade tangencial ‒ é tanto mais elevada quanto mais próximo se está do Equador.

Base de Alcântara, Maranhão

Portanto um foguete lançado da região equatorial requer menos combustível para o arranque. Calcula-se que, em comparação com Cabo Cañaveral, utiliza-se 15% de combustível a menos para obter o mesmo desempenho. É considerável. Eis uma das razões pelas quais a Agência Espacial Europeia tem tanto sucesso com a base francesa da Guiana. Até foguetes russos são lançados de lá.

No tempo dos generais, o Brasil se deu conta de que contamos com esse trunfo: o Equador corta nosso território. Desde 1983, foi instalado um centro de lançamento em Alcântara, no Estado do Maranhão, a 2° de latitude. Uma tragédia ocorreu em 2003, quando uma explosão acidental matou mais de 20 técnicos e cientistas, e acabou freando o projeto.

Passaram-se 14 anos. Foram justamente anos em que as preocupações do andar de cima estavam focalizadas em outros assuntos. Lançamento de foguete não costuma gerar propina, que fazer? O projeto foi sendo empurrado com a barriga. E olhe que a localização do sítio é ideal. Fica praticamente no Equador, em região de clima estável, não sujeita a furacões nem a terremotos. Além disso, a linha costeira é orientada de norte a sul, com o mar a leste. Dado que os foguetes são lançados em direção ao oceano, o risco de caírem acidentalmente sobre zona habitada é praticamente nulo.

Cañaveral: campo de caniços
crédito: wikipedia

Com esse trunfo, é difícil entender por que razão a base ficou até hoje sem utilização comercial. Li esta semana que os EUA estão interessados em utilizar as instalações. Alvíssaras! A negociação terá de ser conduzida com perspicácia. Há que se evitar, a todo custo, a implantação de uma espécie de Guantánamo, que escape à soberania nacional. Obtidas as garantias, o resto é lucro. Que venham logo lançar satélites a partir do Maranhão. Só temos a ganhar.

(*) Cañaveral é palavra de origem castelhana. Designa um campo coberto de caña vera, planta nativa cujo nome científico é Phragmites australis. Na nossa língua, dizemos caniço. Cañaveral é um caniçal, se é que nos podemos exprimir assim.

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

Organização dos Estados Americanos

José Horta Manzano

Desde que os primeiros europeus aportaram no continente americano, começaram a surgir estabelecimentos estáveis e permanentes. Ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, holandeses se fixaram ao longo da costa.

Com o passar do tempo, colônias inglesas, portuguesas e espanholas se mostraram mais vigorosas que as demais. À custa de muito enfrentamento e muita briga ‒ tudo temperado com boa pitada de vaidades pessoais ‒ as colônias primitivas foram-se sentindo cada dia mais fortes para pleitear independência da metrópole. Após pouco mais de três séculos de colonização, a maior parte do território tinha alcançado independência. Uma vintena de novos Estados havia surgido.

OEA 1A linha histórica comum a todos incentivou-os a criar um foro de encontro e discussão. A ideia, que já vinha das primeiras décadas do século 19, foi tomando corpo com os anos. A forma atual foi sacramentada com a adoção da Carta de 1948, quando todos os países americanos independentes aderiram à Organização dos Estados Americanos.

Por seu peso econômico e militar, os EUA sempre representaram papel importante no bloco. No entanto, tirando um ou outro esporádico atrito aqui e ali, essa situação não incomodou a maioria. Isso durou até o fim do século 20.

Os anos 2000 trouxeram mudanças significativas que viriam balançar o coreto. Governantes populistas e pseudonacionalistas pipocaram em diversos países do continente. Venezuela, Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Honduras, Nicarágua sofreram as agruras que esse tipo de medalhões costuma gerar. Pouco a pouco, os regimes vão caindo de podres. Mas as consequências da corrupção e da incompetência se farão sentir por muitos anos.

OEA 2No auge do movimento populista, dirigentes se mancomunaram na defesa de seus interesses. Como outros governantes autoritários registrados pela História, julgavam-se inamovíveis e definitivamente instalados. Nosso guia juntou-se aos pranteados Chávez e Kirchner para fundar uma nova organização. No fundo, funcionaria exatamente como a OEA, com uma grande diferença: os EUA não seriam admitidos no clube.

E assim foi feito. Criou-se a Unasur, que as más línguas apelidam de União dos Cucarachas. Lula, Chávez, Kirchner & companhia exultaram por ter mandado a OEA para escanteio. Enfim, livres dos imperialistas!

Interligne 18h

Estes dias, em desespero de causa, os advogados de dona Dilma estão queimando os gravetos de que ainda dispõem para alimentar fogareiro moribundo. Algum assessor, brilhante como os demais, teve a genial ideia de denunciar, pela milésima vez, o «golpe» desferido contra a (ainda) presidente.

Diabo 3Para obter maior eco internacional, foi escolhida naturalmente a Unasur, certo? Errado, distinto leitor. Engolindo cobras, lagartos e jacarés, apelaram para… a Organização dos Estados Americanos. Ai, ai, ai… Pedir socorro aos odiados «loiros de olhos azuis», que vergonha! Só faltava isso.

Nossa idolatrada líder declarou, um dia, que, nas eleições, «se faz o diabo». Agora fica claro que não é só nas eleições

Lula aciona ONU

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Assombrado com a ordem de prisão, cada dia mais nítida, o batalhão de advogados do Lula implora à ONU que faça alguma coisa para proteger o antigo mandatário.

Não por acaso, usei o verbo implorar. O Brasil, como país soberano, dispensa tutela de organismos estrangeiros ou supranacionais. Se nem o Mercosul tem poder de influenciar nossas instituições, menos ainda terá a Organização das Nações Unidas. O Lula há de estar em pânico, o que explica estar arriscando as últimas fichas na empreitada. Acaba de dar passo perigoso.

Há duas possibilidades: a ONU tanto pode aprovar como reprovar o funcionamento da Justiça brasileira. Caso considere o processo isento e honesto, Lula terá perdido definitivamente a batalha ‒ quiçá a guerra. Caso considere que o ex-presidente é vítima de jogo de cartas marcadas, como numa «república de bananas», nosso Judiciário se sentirá, com razão, afrontado, ofendido e desafiado.

Lula caricatura 2aNinguém gosta de se sentir afrontado, nem ofendido, muito menos desafiado. O orgulho nacional será atingido. Nossos magistrados se sentirão todos insultados. Esse sentimento periga voltar-se contra o acusado, surtindo efeito contrário ao que estava sendo buscado.

É verdade que o Lula não tem muitas opções. Como cônjuge de cidadã italiana, deve ter imaginado poder um dia, em caso de necessidade, refugiar-se na Itália. O caso Pizzolato freou seus ardores. A Itália provou que, quando lhe parece justo, não hesita em extraditar os próprios cidadãos.

Caso consiga escapar das garras do juiz Moro, como tem tentado, quem garante que nosso guia não cairá nas mãos de magistrado ainda mais rigoroso? Moro não é o único juiz competente e tenaz.

Lula caricatura 2Se escolher deixar o país e estabelecer-se em alguma ilha paradisíaca, estará abrindo o flanco para os EUA pedirem ‒ e obterem ‒ sua extradição. Transação internacional de dinheiro sujo ou limpo costuma transitar por aquele país. No escândalo que emaranha Lula, Petrobrás, Mensalão, Eletrobrás, BNDES & companhia, não será difícil encontrar fundamento jurídico para pedido de extradição. Bilhões de dólares roubados aqui transitaram por lá.

Sobra ainda a possibilidade de o Lula pedir asilo político a algum país. (Quem garante que a eventualidade já não tenha sido sondada?) Não vai ser fácil encontrar abrigo. Se ninguém quis acolher um simples Snowden, quem abrigará um Lula? A Bolívia ou a Venezuela talvez? Pode ser um caminho. Pelo menos, enquanto não caírem os respectivos governos.

Vão ainda duas ou três reflexões. A primeira, mais evidente, é quanto ao custo do batalhão de advogados. Quem paga? Estarão todos trabalhando por amor a um acusado desvalido?

Outra observação é quanto à escolha do escritório de Mister Robertson, jurista australiano especializado em direitos humanos, que conta com Salman Rushdie e Julian Assange entre seus clientes. Não é um fantástico cartão de visitas.

Lula caricatura 2aO escritor britânico Salman Rushdie sobrevive há quase 30 anos, sob rigorosa proteção policial, a uma ordem de assassinato expedida pelo bondoso (e já finado) aiatolá Khomeini. Quanto a Mister Assange, esconde-se há quatro anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres. Visto o histórico da banca de advocacia de Mister Robertson, não fica claro o que podem fazer pelo Lula.

Penso ainda no foro competente para julgar nosso ex-presidente. Por enquanto, é acusado comum. Na inimaginável eventualidade de dona Dilma voltar à presidência, o Lula poderia até ser nomeado ministro, o que lhe daria direito a ser julgado pelo STF. Ainda assim, não é concebível que a maioria de nossos magistrados-mores se pronunciem pela total inocência do indiciado. Nenhum deles vai querer entrar para a História com reputação manchada.

Uma saideira: ninguém garante que as informações vazadas até agora representam a totalidade dos indícios e das provas. Debaixo desse angu ainda deve ter muita carne.

Interligne 18c

Observação
Para quem acaba de chegar de Marte, aqui está a notícia no Estadão e na Folha de São Paulo.

Traducción, por favor!

José Horta Manzano

Dilma 15Nem a eloquência nem a clareza são atributos do discurso de dona Dilma. Até aí, nenhuma novidade: todos já nos demos conta. Há ocasiões, no entanto, em que a governante consegue se superar.

Ontem, em visita ao compañero Rafael Correa, presidente do Equador, a senhora Rousseff declarou que «o Brasil não consegue restabelecer condições sustentáveis de crescimento nesse novo contexto internacional sem o crescimento dos demais países da América Latina».

Sem dúvida, a frase é pomposa. ‘Condições sustentáveis’ e ‘contexto internacional’ são termos à la mode. Tirando os penduricalhos e trocando em miúdos, a fala presidencial permite várias interpretações.

Dilma e Correa1) O Brasil só cresce se os vizinhos crescerem primeiro.
Denota pirraça. Lembra conversa de namorado do tipo «só vou se você for». Pega mal.

2) O Brasil só cresce se os vizinhos ajudarem.
Denota fraqueza e dependência. Equivale a: ‘se vocês não me derem uma força, não consigo andar com minhas próprias pernas’. Pega pior ainda.

3) O Brasil tem tentado crescer, mas vocês estão nos atrapalhando.
Denota arrogância. Corresponde a acusar os vizinhos de fazer corpo mole. Além de pegar mal, ofende.

O distinto leitor pode torcer, rodear, revirar, enrolar, inverter a frase ‒ o sentido continua absconso. Não é de espantar, que já estamos habituados.

Da próxima vez, vale incluir na comitiva presidencial um intérprete simultâneo.

COP21 e as oportunidades perdidas

José Horta Manzano

A 21a edição da Conferência Internacional sobre o Clima tem lugar em Paris. Começa hoje e termina amanhã. O nome oficial – COP – é contração da expressão COnferência das Partes. Em princípio, todas as partes interessadas na evolução do clima estão representadas. No fundo, todos os países.

Cop 21A primeira COP realizou-se em 1992 no Rio de Janeiro. Collor de Mello, nosso mandatário de então, presidia. De lá pra cá, os coabitantes do planeta já se reuniram uma vintena de vezes para discutir sobre modificações climáticas. As esperanças são sempre enormes, mas os resultados costumam desapontar. É muito difícil pôr de acordo tanta gente. Dado que os interesses de determinados países colidem com os de outros, é difícil encontrar meio-termo.

Paris está em pé de guerra. Pudera: são 195 delegações nacionais, 147 delas encabeçadas pelo chefe de Estado. Essas delegações totalizam 25.000 componentes. Outras 25.000 pessoas – repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, cientistas e gente do ramo – completam a lista de visitantes.

Cinquenta mil hóspedes assim, da noite pro dia, não é fácil de gerir. Ainda mais numa cidade que acaba de sofrer importantes atentados terroristas. Os parisienses foram incentivados a não sair de casa na segunda-feira. Quem puder, que tire um dia de férias. As autoridades pedem que só metam o nariz na rua aqueles que tiverem absoluta necessidade.

Internacional 1Por reunir dezenas de chefes de Estado, megaconferências costumam ser palco de reuniões paralelas, conversas de bastidores. Como se sabe, grandes decisões e bons acertos costumam ser alinhavados nesses encontros fora dos holofotes.

Dona Dilma, num esforço desesperado para comprir metas fiscais, tomou a constrangedora decisão de anular viagem ao Japão e ao Vietnã programada para a semana que entra. A COP21 favorece encontros bilaterais – desde que haja vontade de ambas as partes. Seria razoável supor que a presidente se preparasse a aproveitar a estada em Paris para trocar pontos de vista com os mandatários extremo-orientais que não poderá visitar.

Dilma Evo CorreaIsso era sem contar com a influência do inefável aspone Marco Aurélio «top-top» Garcia, personagem movido por lógica pessoal, diferente da nossa e frequentemente estranha aos interesses do Estado brasileiro. Entre 146 chefes de Estado, sabem os distintos leitores quais foram os escolhidos para um bate-papo neste domingo? Apenas quatro: a primeira-ministra da Noruega, um representante do Caribe, o presidente do Equador e… o presidente da Bolívia. Para nossa política externa, a conferência universal será tão proveitosa quanto uma reunião de condomínio.

Ir até Paris (com nosso dinheiro) para encontrar-se com Rafael Correa e Evo Morales, nossos vizinhos de parede? Francamente. Tendo à mão tanta gente de maior peso para os interesses brasileiros – grandes clientes, importantes fornecedores, fortes parceiros comerciais – por que deixar passar a ocasião? É de chorar.

Vazamento seletivo

José Horta Manzano

Espião 4O que se passa na cabeça de cada um é mistério. Quem saberá dizer por que cargas d’água o australiano Julian Assange resolveu, um belo dia, criar um site para espalhar segredos de Estado? Curiosa ideia.

Meus cultos e distintos leitores sabem quem é o mencionado cavalheiro. Fundou um site especializado em divulgar informações sensíveis e chamou-o Wikileaks, numa (pretensiosa) alusão a Wikipedia acoplada à raiz inglesa leak (vazamento).

Vazamento 1Especializou-se em disseminar dados confidenciais do governo americano. Poderia ter escolhido outro país? Sem dúvida, mas, assim que recebeu de mão beijada informações sobre a diplomacia daquele país, optou pela facilidade. A limitação linguística de uma equipe monoglota também há de ter pesado na escolha.

Terá buscado a glória, aquela meia hora de fama que muitos almejam? Pode ser.

Terá agido por desafio pessoal, como aqueles que arriscam a vida escalando o Everest? Quem sabe.

Terá sido por interesse financeiro, como se esperasse recompensa por seus atos? Nada é impossível.

Terá sido para ficar na história como o homem que, sozinho, mexeu com as relações de poder entre as nações, como um Napoleão ressuscitado? Vai ver, é isso mesmo.

Napoleon 3Ninguém me fará acreditar que um peculiar sentido de justiça o tenha movido. Pelo contrário, acho que o indivíduo, parco de inteligência, carrega visão filosófica embotada.

Equador 1Apavorado com prováveis más consequências das estrepolias que praticou, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres. Faz três anos que lá está, sem perspectiva de sair. Se puser o pé na rua, periga ser apanhado pela polícia britânica,  encarcerado e extraditado para os EUA.

Louco pra sair da embaixada, Mister Assange arquitetou um plano: deixar vazar informação susceptível de encolerizar determinado país e, em seguida, pedir asilo político às autoridades do Estado ofendido. Mas tem de ser país de peso, que possa forçar o Reino Unido a conceder-lhe salvo-conduto da embaixada até o aeroporto.

Começou pela França, tradicional adversário dos ingleses. Semana passada, seu site soltou informação segundo a qual não somente o atual presidente francês foi espionado pela NSA, mas também seus dois antecessores, Sarkozy e Chirac. Quatro dias depois, Mister Assange pediu asilo à França. A resposta veio no mesmo dia. O Palácio do Eliseu, estimando que o requerente não se encontra em situação de perigo imediato, rejeitou o pedido.

Espião 3O segundo na lista foi o Brasil. Logo depois que dona Dilma voltou dos EUA, Wikileaks noticiou que não só ela, mas dezenas de figurões da República tinham sido espionados. Não funcionou. O escândalo engendrado pelo Lula, quando recusou extraditar o condenado Cesare Battisti, deixou marcas em Brasília. Rapidinho, dona Dilma mandou dizer que essa história de espionagem é página virada.

Ela não disse, mas ficou o aviso: que não se atreva esse indivíduo a pedir asilo. Nem vem, que não tem.

Sejam quais forem os motivos que levaram o personagem traquinas a fazer o que fez, o preço está saindo salgado. E o equilíbrio entre as nações continua inalterado. Uma frustração. Ah, se arrependimento matasse…

Quem paga o pato

José Horta Manzano

FHC 1Não acho que seja função de quem já esteve no topo da carreira ficar dando palpite sobre o dia a dia da República. Para a biografia de suas excelências, mais valeria recolher-se a um silêncio distante e majestático. A aura dos figurões sairia reforçada.

Mas as coisas no Brasil não funcionam assim. É comum aparecer, na mídia, entrevista concedida pelos mais improváveis personagens: encarcerados, juízes, desembargadores, antigos ministros do STF, antigos presidentes da República. Ah, essa vaidade…

Ademais, a situação peculiar que nosso País atravessa permite certos excessos. Vamos ao mais recente deles.

Tesoura 1Toda a imprensa noticiou a declaração do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, pronunciada em 23 de maio no Centro Universitário de Brasiília. Disse o palestrante que, ao cortar 70 bilhões de seus gastos este ano, o governo “está pagando seus pecados”. O «governo» está pagando? Quéquéisso, cara-pálida?

Arca 1Integrantes do «governo» estão com as burras cheias – abarrotadas – de dinheiro, ouro e pedras preciosas. Houve os bilhões roubados da Petrobrás. Houve os réus confessos de haver pago propina a políticos de alto e baixo quilate.

Há ainda quem suspeite que boa parte dos bilhões entregues aos bondosos irmãos Castro, no âmbito do Mais Médicos, estar sendo devolvida sob forma de depósito em contas particulares, domiciliadas em paraísos fiscais. Há desconfiança de assombrosos desvios ligados a obras bilionárias financiadas pelo BNDES em Angola, na Venezuela, no Equador e em outros países amigos.

Quem está pagando somos nós, povão, tanto os ingênuos que botaram essa gente lá quanto os que não se dobraram ao marketing oficial.

Ninguém pode perder o que não tiver. Portanto, os integrantes do «governo» não podem perder a dignidade, por nunca a terem tido. A eles, venais e egocentrados, a fortuna pecuniária basta. São gente atrasada e daninha, que jamais deveria ter sido alçada aos píncaros da República.

Crédito: Junecember

Crédito: Junecember

Quem está pagando, prezado ex-presidente, é o povo. A conta veio justamente para aqueles que dão duro todos os dias na esperança de um futuro melhor. Dói no bolso e no coração ver que nosso destino está sendo forjado por cafajestes.

Data venia, excelência, entendo a intenção de suas palavras e com ela concordo. Mas, convenhamos, a formulação foi pra lá de infeliz.

Não me esqueçam!

José Horta Manzano

O senhor Julian Assange, nome meio esquecido ultimamente, está mofando há dois anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Sabe-se lá por que razão, o gajo decidiu um dia subir ao telhado e gritar ao mundo o que o mundo já sabia. Contou que agências americanas bisbilhotavam a vida e a obra de gente importante e de empresas relevantes. Por malícia ou por ignorância, nada disse sobre agências de outros países.

O primeiro caso de espionagem se deu quando um agrupamento de neandertais sofreu a primeira cisão, indo cada subgrupo morar em caverna própria. A partir do dia seguinte, cada grupo designou emissário para, discretamente, inteirar-se do que estava acontecendo na caverna rival.

E assim continua até hoje. Todos espionam todos. Marido e mulher, pais e filhos, chefes e subordinados, bandoleiros, seitas religiosas, partidos políticos. E, com maior razão, países. Democráticos, comunistas, fascistas, autoritários, liberais, republicanos, monárquicos ― todos os países se espionam entre si. Na medida dos interesses de cada um e, é claro, de suas possibilidades.

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

É altamente improvável que agências americanas sejam as únicas interessadas em abelhudar altas esferas brasileiras. Não precisa ser formado em contraespionagem para imaginar que russos, chineses, argentinos, britânicos, alemães, franceses também tentem colher informações sobre o que se passa em Tupiniquínia.

Bom, eu disse tudo isso para reafirmar que, ao dar com a língua nos dentes, o senhor Assange não disse nada de extraordinário. Todos fizeram cara de espanto e ar de melindre, mas era ― ou deveria ter sido… ― só pra inglês ver.

Depois de dois anos sem botar o nariz fora do imóvel onde se encontra, é compreensível que Assange esteja à beira de um ataque de nervos. Como bom súdito da Coroa, ele sabe que as autoridades britânicas não costumam largar o osso. Uma vez que decidiram negar-lhe salvo-conduto e vigiar a saída da embaixada 24 horas por dia, irão até o fim.

Outro dia, o refugiado bateu um papo telefônico com um jornalista do Estadão. Percebendo que, no Brasil, alguns ainda se lembram dele, decidiu requentar o prato já servido dois anos atrás.

Para botar medo nas autoridades brasileiras ― e tentar, quem sabe, cavar uma oferta de asilo ―, ressaltou o fato de que «os EUA são capazes de cortar o Brasil do resto do mundo em qualquer momento que queiram». É grande o risco de sua advertência cair em ouvidos de mercador.

EspiãoEm primeiro lugar, porque é de conhecimento geral que o grosso das telecomunicações planetárias transita pelos Estados Unidos. Assim é e assim continuará a ser. Não faz sentido instalar centenas de cabos submarinos para ligar o Brasil diretamente a cada país.

Em segundo lugar, porque o refugiado agita espantalho na hora errada. Período eleitoral não é momento adequado para esse tipo de polêmica.

Em terceiro lugar, vem a razão mais importante. O Brasil não precisa de interferência dos EUA para desligar-se do mundo. Nosso governo federal, com a inestimável ajuda dos aspones que cuidam de nossa diplomacia, já está cuidando, faz anos, de apequenar nossa importância na cena planetária. Mais alguns anos, conseguirão.

Thank you anyway, Mr. Assange. Valeu!

Anão? Ah, não!

José Horta Manzano

Anao 1Sem paz
No conflito entre israelenses e palestinos, a paz é o que menos parece interessar. A nenhuma das partes calharia bem. Ambos os lados dependem crucialmente da ajuda internacional, que vem dos EUA para Israel e da União Europeia para a Palestina. Se a conflagração sumir do radar, a atenção internacional se voltará para outros pontos e as doações perigam minguar. Convém alimentar o conflito.

Interligne 18c

Resoluções ONU
Dezenas de resoluções já foram votadas na ONU, tanto na Comissão de Direitos Humanos quanto em plenário. Têm sido falatório estéril, de efeito nulo. O Brasil, membro fundador da organização, deveria saber disso. Quando dois insistem em brigar, não há força que se possa interpor.

Interligne 18c

O voto de 23 de julho
Nesta enésima votação, os 47 países que compõem a Comissão de Direitos Humanos da ONU votaram da seguinte maneira:

A favor (29):
África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Brasil, Casaquistão, Chile, China, Congo, Costa Rica, Costa do Marfim, Cuba, Emirados Árabes, Etiópia, Filipinas, Índia, Indonésia, Kuwait, Maldivas, Marrocos, México, Namíbia, Paquistão, Peru, Quênia, Rússia, Serra Leoa, Venezuela e Vietnam.

Contra (1):
EUA.

Abstenções (17):
Alemanha, Áustria, Benin, Botsuana, Burkina Faso, Coreia do Sul, Estônia, França, Gabão, Irlanda, Itália, Japão, Macedônia, Montenegro, Reino Unido, República Tcheca, Romênia.

Interligne 18c

A escolha brasileira
O mais prudente teria sido abster-se de votar ― foi o que fizeram países mais lúcidos. Sabem que, de qualquer maneira, não vai servir para nada. Diplomacia é arte sutil que não se exerce à luz do sol em mesas com 47 participantes, luzes, câmera e ação. O Brasil decidiu acompanhar a maioria. Até aí, nada de extraordinário. De qualquer maneira, o resultado prático da gesticulação será igual a zero.

Interligne 18c

Anao 1O exibicionismo equatoriano
O Equador, que nem parte da Comissão é, chamou seu embaixador em Israel para consultas. Isso, em linguagem diplomática, é demonstração de forte desagrado, degrau que precede o rompimento de relações.

Como vinha do Equador, o gesto não rendeu nem noticia de rodapé em site de segunda classe.

Interligne 18c

A imprudência brasileira
O Planalto resolveu seguir o exemplo do pequeno Equador. Chamou de volta seu embaixador em Israel. Foi mais longe: convocou o embaixador israelense em Brasília para expressar-lhe, de viva voz, o profundo descontentamento do Planalto.

É interessante notar o ensurdecedor silêncio brasileiro diante de outras barbaridades tais como prisioneiros políticos em Cuba, lapidação de mulheres iranianas, abate de avião de linha na fronteira russo-ucraniana.

Interligne 18c

O descontrole israelense
Tivesse o Brasil se contentado em votar a favor da resolução, o assunto estaria encerrado. No entanto, o fato de ter seguido o exemplo do pequenino Equador, teve o poder de irritar o governo de Israel.

Num espantoso descontrole, o porta-voz do governo de Jerusalém cometeu a arrogância de atribuir ao Brasil o epíteto de «political dwarf» ― anão político. Cá entre nós, e que ninguém nos ouça: o que o homem disse não é mentira. Sabemos todos que a grande diplomacia brasileira começou e terminou com o Barão do Rio Branco.

O problema é que o porta-voz israelense feriu um princípio universal: eu posso falar mal da minha família, mas você, não. Em outras palavras: certas verdades, embora conhecidas por todos, não devem ser ditas em voz alta. Uma fala tem de ser politicamente correta.

Interligne 18c

Anao 1As consequências
Com suas palavras, o governo israelense despertou a ira do povo brasileiro inteiro. Nada como um inimigo comum para federar as forças de uma nação.

A empáfia das autoridades israelenses periga surtir efeito contrário ao que eles imaginavam. Pode até reforçar o apoio do povo brasileiro à posição do Itamaraty e do Planalto. Estamos a menos de três meses de eleições gerais. Um povo, quando se sente agredido, tende a renovar sua confiança naqueles que mostram disposição para defendê-lo.

Em resumo: o diferendo com Israel é uma bênção para a campanha de dona Dilma. Bem explorado, o sucedido pode render-lhe a simpatia e a adesão de muitos indecisos.

Lista vermelha

José Horta Manzano

A Interpol é a maior organização policial do planeta. Conta com 190 países-membros. A rapidez com que as gentes se deslocam atualmente torna o papel da polícia internacional cada dia mais importante.

Mas para que um jogo seja bem jogado, é preciso que todos os participantes aceitem ― e cumpram ― as regras estabelecidas. Se ajoelhou, tem de rezar. Mas nem todos são devotos, como se verá a seguir.

O senhor Désiré Delano Bouterse, personagem de reputação sulfurosa mais conhecido como Desi Bouterse(*), é o atual mandachuva do Suriname (antiga Guiana Holandesa, país vizinho ao nosso). O mandarim aparece na lista vermelha de notificações da Interpol entre outros dez mil criminosos procurados.

Itaquera, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Itaquera, 12 jun° 2014 – Tribuna de honra
Foto: Eduardo Knapp, FolhaPress

Seu crime? Tráfico de droga. Coisa da pesada: uma tonelada e meia de cocaína despachadas para a Holanda e para a Bélgica. Foi condenado à revelia pela Justiça holandesa faz alguns anos.

O homem não é nenhum principiante em caminhos tortuosos. Controla seu país com pulso firme, braço forte, dinheiro a rodo e o indispensável apoio das forças armadas. Frequenta as manchetes desde os anos 80. Já esteve à frente de dois golpes de Estado para tomar as rédeas do país. Presume-se que seja também assassino, embora ainda não tenha sido julgado por esse tipo de crime.

Para esse senhor, o tráfico internacional de droga parece ser negócio de família. Pelo mesmo crime, seu filho foi preso no ano passado no Panamá e extraditado para os EUA. Resultado disso tudo: o senhor Bouterse está obrigado a viver enclausurado em seu pequeno e pobre país, certo?

Não, distinto leitor, não é bem assim. Pessoas influentes que apareçam na lista vermelha da Interpol podem até viajar ao exterior, desde que as autoridades do país de destino garantam que não vão prendê-lo.

Quanto a outros países, não saberia dizer. Mas nosso Brasil, pisando as regras de convivência civilizada entre nações, passa por cima dessas ninharias e acolhe o medalhão procurado pela polícia. Não só acolhe, como lhe reserva um lugar na tribuna de honra ao lado da presidente da República.

Itaquerão, 12 jun° 2014  -  Tribuna de honra Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Itaquerão, 12 jun° 2014
Na tribuna de honra, Desi Bouterse, mandarim do Suriname

Na foto acima, tirada quando do jogo de abertura da «Copa das copas», podem-se identificar personalidades cuja presença se justifica: a presidente e o vice-presidente do Brasil, o presidente do Equador, a presidente do Chile, o presidente do Senado Federal, o presidente da Fifa e o da União Europeia de Futebol, o Secretário-Geral da ONU. Gente graúda, de quem se pode gostar ou não, mas que, ao que se saiba, não aparece em lista oficial de bandidos procurados.

No meio de toda essa gente boa, está o senhor Desi Bouterse. Se veio, é porque lhe garantiram que não seria incomodado durante sua estada em terra tupiniquim.

Já se sabe que nosso governo costuma lançar olhar benévolo a criminosos. Arriscar-se, contudo, a permitir que um procurado pela Interpol frequente a tribuna VIP, tome assento a dois metros da presidente da República e seja visto por bilhões de espectadores é temeridade.

Se entendi bem, a «Copa das copas» tinha sido organizada para mostrar ao mundo as grandezas do Brasil, não suas baixezas.

Interligne 18b(*) Pronunciado à holandesa, o nome fica assim: Báuterse.

Raios que o partam

José Horta Manzano

Você sabia?

Os franceses costumam dizer que «on ne parle jamais des trains qui arrivent à l‘heure», ninguém fala dos trens que chegam no horário. É verdade. Os acontecimentos corriqueiros não costumam aparecer nas manchetes. Em compensação…

… em compensação, quando sobrevém uma desgraça ou uma catástrofe, a história muda de figura. Vai direto para a primeira página de todos os jornais. E também para a abertura de todos os informativos de rádio e tevê. Na falta de grandes desastres, qualquer fato fora do costumeiro também serve.

Faz uns dias, um raio acertou um dedo da estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Estima-se que 32 milhões de raios atinjam o solo do planeta a cada ano. Isso dá quase 90 mil por dia. Assim mesmo, não é todos os dias que a natureza demonstra pontaria tão certeira. Bem na ponta do dedo!

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia) Crédito: Nasa.gov

Frequência de raios que atingem o solo (n° de ocorrências por km2 por dia)
Crédito: Nasa.gov    –    Clique no mapa para ampliar

Jornais online não deixaram de enriquecer sua galeria com fotos do raro acontecimento. Entre outras, aqui está a do Nouvel Observateur, de Paris. Com um certo humor, relatam que a gigantesca imagem acidentada teve de levar pontos de sutura.

É voz corrente que o Brasil é o país onde o maior número de raios atinge o solo. Deve ser verdade. Esse fenômeno elétrico é muito mais frequente em zonas equatoriais e tropicais do que no resto do globo. O Brasil está situado entre equador e trópico. Além disso, é dono de imenso território. Portanto, a afirmação faz sentido.

Frase do dia — 63

«Ao propor a fundação da Alba, Chávez disse que a integração latino-americana por ele projetada era vital: “Ou nos unimos ou afundaremos”. Pelo visto, os países bolivarianos estão se afastando da Venezuela justamente para evitar esse abraço dos afogados.»

A fonte chavista secou, editorial do Estadão, 27 dez° 2013

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

Jogo de cena

José Horta Manzano

Todos já ouviram falar no drama do senador boliviano que, ameaçado pelo governo do folclórico e bolivariano Evo, tinha solicitado asilo à embaixada do Brasil em La Paz faz mais de um ano. Ao ligar o rádio, a tevê ou a internet neste domingo, todos ficarão sabendo que o homem passou a fronteira e se encontra em território brasileiro. Melhor assim.

O círculo mais próximo do senador garante que ele concederá à imprensa uma entrevista coletiva na segunda-feira 26 de agosto. O Itamaraty preferiu não comentar o assunto. O governo boliviano fechou-se num silêncio ensurdecedor.

Seja o que for que disserem ― antes, durante e depois da entrevista do senador ― nós, meros mortais, jamais saberemos exatamente o que aconteceu. Alguma historinha rocambolesca terá de ser costurada, naturalmente, para tirar todo resquício de responsabilidade das costas das autoridades bolivianas e das brasileiras. Mas eu não poria a mão no fogo sobre a veracidade do relato que está por vir.

Vigiar uma embaixada e impedir a entrada ou a saída de alguma pessoa não é empreendimento difícil. Que o diga o senhor Assange, que continua cumprindo sua pena de privação de liberdade na representação londrina do Equador. Por coincidência, um país também bolivariano.

Embaixada do Brasil La Paz, Bolívia

Embaixada do Brasil
La Paz, Bolívia

Em 1956, na esteira da fracassada revolução húngara, o cardeal József Mindszenty recebeu asilo na Embaixada dos EUA em Budapest, onde permaneceu 15 longos anos. Só saiu quando lhe foi concedido, na sequência de um acordo político, um salvo-conduto para deixar o país. Antes disso, nem por sonho. Faleceu 4 anos depois de libertado, já com 83 anos.

Portanto, nenhuma explicação, por mais sofisticada que venha, me fará acreditar que o senador boliviano «fugiu» da embaixada. E em seguida? Dirigiu-se ao aeroporto, comprou uma passagem, entrou num avião, desceu em Corumbá (ou em Cuiabá, dependendo da fonte)? Tudo isso sem dinheiro e sem passaporte? Me engana, que eu gosto ― como diz o outro.

É muito mais plausível que a vinda do senador seja fruto de um arreglo político entre Brasília e La Paz. Nenhuma das partes estava interessada em fazer durar a situação. Ao mesmo tempo, nenhuma queria perder a face. Estou curioso para ouvir a explicação oficial.

Há males que vêm para bem. Nesse melodrama, algo de positivo começa a apontar: o Brasil aparenta já não mais estar de joelhos diante da Bolívia. Que alívio! Como parecem distantes aqueles tempos bizarros em que o Lula não só aceitou como também aprovou a invasão e a encampação de uma refinaria da Petrobrás situada em território boliviano. Uma prova de fraqueza!

Vale lembrar que o sócio majoritário da semiestatal de petróleo somos nós, o povo brasileiro. O governo federal, por mais enfatuados que sejam seus integrantes, não é dono da gigante. Ele é mero representante dos verdadeiros donos, que somos nós. Fosse o Brasil um país menos preocupado com direitos individuais e mais atento ao Direito ― com D maiúsculo ―, o presidente pusilânime teria sido processado por crime de responsabilidade.

Enfim, vamos a quedarnos con lo bueno. A novela de La Paz teve final feliz. Podemos dormir em paz.

Interligne 37i

Despacho do Estadão e da Folha de São Paulo.

Quem semeia vento…

José Horta Manzano

… colhe tempestade.
Qui sème le vent récolte la tempête.
Chi semina vento raccoglie tempesta.
As you sow, so shall you reap.
Quién siembra vientos recoge tempestades.
Wer Wind sät wird Sturm ernten.

Catavento

Catavento

A sabedoria vem de longe, mais precisamente do Antigo Testamento. Espertos, os antigos já tinham se dado conta de que, para atrair simpatia, melhor sorrir do que fazer cara feia. Honey catches more flies than vinegar, atraem-se mais moscas com mel do que com vinagre, dizem os ingleses.

Nesta quinta-feira, toda a mídia europeia menciona, em tom levemente jocoso, a desaventura vivida pelo presidente da Bolívia. Por mais que faça ares indignados, nosso caro hermano Evo não convence. Ele sabe muito bem ― ou deveria saber ― por que tantos chefes de Estado europeus desconfiam dele e não procuram esconder esse sentimento.

O presidente do país vizinho tem aprontado estes últimos anos. Aliou-se ao que há de mais duvidoso na vizinhança: Chávez, Correa, Ortega, os Kirchner, os Castros. Já invadiu e encampou refinaria de petróleo brasileira. Acusou diplomatas estrangeiros de espionagem e os expulsou. Num gesto autocrático, fez votar uma Constituição à sua imagem e semelhança e nela inscreveu tudo aquilo que satisfazia seus interesses.

Vento

Vento

O destrambelhado Snowden ― aquele que botou a boca no trombone e agora se esconde ― pediu asilo a mais de 20 países. A maioria deles não quis saber de confusão e caiu fora. Até Correa, presidente do Equador, se esquivou com a justificativa de o candidato ao asilo não se encontrar em território equatoriano.

Já a Bolívia não disse nem sim nem não. Ficou de estudar o caso. Deixou o resto do mundo com a pulga atrás da orelha. Isso dá uma pista sobre o porquê da má vontade com que Evo foi tratado.

O Brasil, naturalmente, juntou sua voz ao coro dos vizinhos para reclamar do trato humilhante dispensado ao mandachuva. É normal que assim seja. Solidariedade diplomática não rima necessariamente com sinceridade. Logo passa.

É difícil entender por que razão Evo, Correa, Maduro & companhia insistem em brigar com os mais ricos. Para começar, são seus melhores clientes e, mais que isso, são justamente aqueles que lhes poderiam dar uma mão nas horas difíceis.

Tempestade

Tempestade

Enfim, eles que resolvam seus próprios problemas. Tolice será o governo brasileiro ir além da solidariedade de fachada. Não há razão para nos equipararmos a esses ressentidos, a essa gente que estacionou nos anos 50.

Os doze anos de experiência no comando já devem ter ensinado a nosso governantes que ideologia não dá camisa a ninguém.

Aqui se faz, aqui se paga. Quem não quiser ser colhido pela tempestade, que não semeie o vento.

Hipocrisia

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, espia-se o próximo. Desde a esposa que remexe nos bolsos da calça do marido (e vice-versa) até altas esferas do governo do país A que bisbilhota os assuntos internos do país B. Desde o mordomo que escuta atrás da cortina, como nos filmes, até organizações oficiais ― complexas, estruturadas e gordamente financiadas ― especializadas no ramo.

Sempre foi assim e sempre será. No entanto, em nome da coabitação harmoniosa, convém tomar cuidado para manter a discrição. Seja debaixo do teto familiar, seja entre países. Assim como os mafiosos, os espiões também têm sua omertà, seu código de conduta.

Embora não se faça muito alarde sobre o assunto, a cada ano são organizadas em vários países (inclusive no Brasil) dezenas de feiras e exposições especializadas em armamentos. Expõem-se revólveres, carabinas, espingardas, bombas de fragmentação, minas antipessoais, até tanques de guerra. As balas são apresentadas em estojos almofadados. Coisa de louco.

Faz algum tempo, num salão desse tipo organizado em Paris, descobriu-se que os chineses haviam montado, no interior de seu estande, uma complexa central de escuta telefônica. Conseguiam captar todas as comunicações que circulassem via telefone celular no recinto da feira. Alguns poucos jornalistas ficaram sabendo. Para evitar um incidente diplomático, o Estado francês fez questão de abafar o acontecido. Ficou tudo por isso mesmo.

A História (não) registrou milhares de outros episódios de mesmo tipo. Dar publicidade a certos fatos pode ser mais danoso do que fazer de conta que não aconteceu.

Interligne 34e

Estes dias, um jovem com vocação para salvador do mundo tomou a ousada decisão de subir ao telhado para anunciar que espiões espionam. Não contou nenhuma novidade, o infeliz. Nada disse que especialistas no assunto já não soubessem. Mas rompeu velho acordo tácito, atributo básico da velha profissão de espião: manter a discrição a todo custo.

Os países espionados ― os quais, sejamos claros, também se espionam entre si ― mostraram-se indignados. «Oh! Como é possível? Entre amigos?» Esqueceram-se todos de que até marido e mulher cometem a mesma incorreção. Mutuamente, às vezes.

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva Moscou, Rússia

Aeroporto Шереметьево Chirimiêtiva
Moscou, Rússia

Enfim, cada um tem de representar seu papel nesta grande comédia planetária. Ao mesmo tempo que juram respeito e amizade eterna, todos os países transgridem como podem. Espionam-se uns aos outros na medida da tecnologia de que cada um dispõe. Quando um é apanhado com a boca na botija, vem a grita generalizada: «Céus! Nunca esperava isso de você!».

Quanta hipocrisia! No final, vai ficar tudo por isso mesmo. O mundo não vai acabar. O infeliz denunciante, que tenha feito isso por ingenuidade ou por estrelismo, será o único prejudicado.

Que seja acolhido no Equador, na Venezuela ou no Sultanato de Omã, está condenado a viver em aflição permanente até o fim de seus dias. Terá palpitações a cada vez que tocar o telefone ou a campainha de casa. Não se quebram as regras do métier impunemente.

Interligne 34a

Preguiça mental
O site Wikileaks informa que o jovem imprudente enviou pedido de asilo a mais de 20 países. Não sei se por erro de digitação ou por ignorância, a nota informa que o Consulado Russo (sic) no Aeroporto de Шереметьево(*) está despachando os pedidos às embaixadas que os países solicitados mantêm em Moscou. Consulado russo em Moscou? É tão incongruente quanto falar de um consulado brasileiro em Brasília. Vivendo e aprendendo…

Mas não pára por aí. Os funcionários de plantão na Folha de São Paulo e no Estadão, meio sonolentos, repercutiram a informação tal qual a receberam. Engoliram sem mastigar. Confirmam todos a existência de um consulado da Rússia dentro da própria Rússia.

Mundo, mundo, vasto mundo…

 .

(*) Шереметьево = Na Rússia, a pronúncia “Cheremetiêvo” é considerada inculta. Faça como os moscovitas, diga Chirimiêtchiva, numa pronúncia proparoxítona.

Posso entrar?

José Horta Manzano

Em despacho de 23 de junho, o diário South China Morning Post informa que Edward Snowden escapou de Hong Kong. Embarcou num voo da companhia Aeroflot em direção a Moscou. No momento em que escrevo estas linhas, deve estar sobrevoando território russo. A previsão de pouso é por volta das 10h da manhã deste domingo, pela hora de Brasília.

Conheço muito bem as formalidades de imigração em vigor em Hong Kong. A cidade-estado está longe de ser uma peneira. Os controles de entrada e de saída aliam o antigo rigor comunista à eficiência britânica. De olhos perscrutantes, os agentes são mal-encarados, silenciosos, inflexíveis.

Se Snowden deixou o território, fez isso com a anuência das autoridades. É possível ― e mesmo bastante provável ― que Pequim tenha fechado um olho na esperança de se livrar de um problema cabeludo. O homem está sendo procurado pelo governo dos EUA sob a acusação de espionagem, crime ultrapesado pela lei de qualquer país.

Os dirigentes russos, pelo menos por enquanto, alegam estar completamente alheios ao que se passa. Acredite quem quiser.

Robin Hood

Robin Hood

O destino final do fugitivo, segundo o South China Morning Post, poderia ser a Islândia ou o Equador. Eu acrescento: poderia também ser o Brasil, por que não?

A Islândia acolheu, 4 anos atrás, um cirurgião plástico brasileiro, que, condenado a 47 anos de prisão por homicídio, havia escapulido de sua prisão. Mas o problema foi resolvido em pouco tempo. O governo brasileiro solicitou e obteve a extradição do condenado.

O Equador abriga em sua embaixada londrina, há mais de um ano, um Robin Hood dos tempos modernos. O original, a quem a lenda confere uma aura de honra e magnanimidade, roubava dos ricos para distribuir aos pobres. O clone atual roubou segredos diplomáticos e os publicou ao planeta inteiro. Segredo é para quatro paredes. Espalhar troca de correspondência confidencial, além de ser feio, não traz vantagem a ninguém. Tanto o Robin Hood original quanto o moderno agiram mal. Nenhum deles transformou o mundo.

No apagar das luzes de seu governo, como quem põe o morango em cima do bolo, no mesmo dia em que concedeu passaporte diplomático a seus filhos e netos, o Lula negou definitivamente a extradição de um fugitivo da Justiça italiana, já condenado em seu país por participação em quatro assassinatos.Interligne 38

A Islândia é país pequeno, sem árvores e sem calor. Para um jovem de 30 anos, como Snowden, a perspectiva de passar o resto da vida naquele lugar é desmoralizante.

Já o Equador é um pouco melhor. Tem árvores, tem calor, mas o território é diminuto. Para quem chega, saber que não vai nunca mais poder sair deve ser frustrante.

Robin Hood

Robin Hood

Se eu fosse Snowden, sondaria o governo brasileiro. Generosos, estamos sempre prontos para acolher assassinos, ex-ditadores e outros bandidos. Por que não traidores? O País é vasto como coração de mãe. Cabem todos.

No entanto, caso a Islândia decida abrigar o fugitivo, resta-nos a possibilidade de convidar aquele país hermano para integrar o Mercosul. Seria mais ou menos como se nós mesmos tivéssemos acolhido o fugitivo. É sempre um consolo, não é mesmo?Interligne 38

Complemento
Sabe aquela batata quente, aquela que ninguém quer segurar na mão e joga no colo de quem estiver mais distraído? Pois é. Este caso Snowden está ficando assim. Tornou-se um abacaxi que ninguém quer descascar.

No momento em que escrevo este complemento, o homem deve estar desembarcando em Moscou. A Agência Reuters informa que seu destino poderia ser Caracas, via Havana. Faz sentido.

A Islândia, finalmente, não vai precisar ser convidada a fazer parte do Mercosul. Não faz jus ao convite, além do que a Venezuela já é membro de pleno direito. Snowden vai se sentir em casa. A velha máxima do tempo de nossos tataravós continua válida: dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.

Que o destino final seja Cuba, o Equador, a Venezuela, tanto faz. Pode ser até um País gigante por natureza, por que não? Quem viver verá.

Interligne 38

 

 

Panem et circenses

José Horta Manzano

No primeiro século da Era Cristã, o poeta satírico latino Decimus Junius Juvenalis, que passou para a História como Juvenal, deu fama à antiga expressão panem et circenses(1). Não foi o inventor da locução, que já existia séculos antes dele. O que Juvenal fez, com sua pluma feroz, foi conferir-lhe um sentido diferente do habitual.

Depois que o poeta analisou com lente impiedosa os costumes declinantes da Roma de seu tempo, a expressão passou a ser usada para denunciar a cooptação a que recorrem governantes e poderosos para atrair simpatia popular.

Pão crocante

Pão crocante

Já naquela época, mandachuvas tinham se dado conta de que a ineficiência ― assim como também a inexorável decadência ― de qualquer regime pode ser dissimulada com políticas populistas que distraiam o bom povo. Para tal, nada melhor que alimento e diversões. Isso não impedirá o fim do regime, seja ele qual fôr, porque tudo tem um fim. Mas é estratagema que pode prolongar a sobrevida do sistema.

A América Latina tem conhecido estes últimos anos um florilégio de regimes populistas. Brasil, Argentina, Venezuela, Nicarágua, Equador, Bolívia fazem parte dessa lista. O grau de desfaçatez de cada governo está na razão inversa do nível cultural de seu povo. Quanto mais instruída for a população, menor será a margem de manobra de governantes oportunistas.

Dentre os países citados, o Brasil talvez seja aquele onde o autoritarismo do governo é o menos acentuado. Será porque boa parcela de nossa população já tem instrução suficiente para discernir se o que lhe estão vendendo é lebre ou gato. No Brasil, os candidatos a cargos executivos não costumam ser eleitos com votações stalinianas de 90% ou 95%. Ponto para nós.

Já os venezuelanos, nossos sofridos hermanos do norte, não têm tido a mesma sorte. Anestesiados pelas migalhas que lhes vêm sendo distribuídas, ainda não se deram conta de que sua pátria-mãe está sendo subtraída em tenebrosas transações(2). Continuam prestando honras ao defunto caudilho e, de tabela, aos que se apresentam, gratia Dei(3), como seus sucessores.

Coliseu ― Circo romano

Coliseu ― Circo romano

Estes dias, aprontaram mais uma boa, curiosamente pouco noticiada no Brasil. De Caracas nos chega a espantosa informação de que o Premio Nacional de Periodismo 2013 (nós diríamos jornalismo), conferido pela fundação de mesmo nome, foi atribuído em caráter póstumo a… Hugo Chávez. A honraria lhe foi outorgada, por unanimidade do júri, em virtude «do impulso que deu à mídia pública e popular do país». Não sorria. É a razão oficial!

Segundo o filósofo ítalo-venezuelano Antonio Pasquali (1929-), o líder máximo da Revolução Bolivariana, no intuito de garantir sua permanência no mando supremo, fechou dezenas de emissoras de rádio e um canal de televisão muito crítico (RCTV). Dar a esse personagem um prêmio de excelência em jornalismo equivale a homenagear a raposa como defensora maior das galinhas.

A história é simplesmente inacreditável. Antes que me acusem de insanidade mental, apresso-me a citar as fontes onde bebi.

Granma, o sítio oficial (e único) do Partido Comunista de Cuba babou de contentamento.

El Universal, um corajoso diário de Caracas, ousou criticar, embora por via indireta. Ateve-se a citar a declaração desagradada do CNP ― Colegio Nacional de Periodistas.

El Nuevo Herald, jornal editado em Miami e crítico feroz do regime bolivariano, não deixou de dar sua visão.

Por fim, O Globo, do Rio de Janeiro,  limitou-se a dar a notícia em poucas linhas, sem julgamento de valor.Interligne 36

Algumas explicações:

(1) Panem et circenses = pão e divertimentos circenses. Mais concisamente, pão e circo.

(2) Uma piscadela ao Sanatório Geral de Chico Buarque, cuja letra é um achado.

(3) Gratia Dei = pela graça de Deus, de droit divin