Ocasiões perdidas

José Horta Manzano

Alca 1Estávamos no começo dos anos 1990. A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento do Império Soviético marcavam o fim da Guerra Fria. Meio estonteado, o planeta se reorganizava militar e economicamente.

Tomando como espelho o sucesso da Comunidade Econômica Europeia, estrategistas de Washington imaginaram aplicar o mesmo princípio a todas as Américas. O objetivo da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) era derrubar paulatinamente barreiras alfandegárias e transformar o continente num enorme e poderoso mercado comum.

O intento era ambicioso, portanto, a adesão dos principais atores era crucial ‒ os países menores acompanhariam por inércia. O problema é que o plano colidia frontalmente com a ambição de alguns líderes populistas que despontavam na América Latina. Assim mesmo, a ideia progrediu, bem ou mal, até a desastrosa cúpula de Mar del Plata, realizada em 2005.

Cúpula de Mar del Plata, 1995

Cúpula de Mar del Plata, 2005

Naquela altura, a Venezuela já estava manietada por Chávez. Na Argentina, Kirchner já comandava o barco. Para completar o trio, o Brasil tinha o Lula na presidência. No posto de assessor de nosso guia, já estava o inoxidável Marco Aurélio «top-top» Garcia, exatamente aquele que, ressentido e rancoroso, estacionou nos anos 1970 e rumina, desde então, seu antiamericanismo primário.

Nenhum dos três ‒ nem Chávez, nem Kirchner, nem o Lula ‒ via com bons olhos a aliança de livre comércio. A seu modo, cada um deles tinha o objetivo de se tornar protagonista dos novos tempos. A parceria com os EUA atrapalhava os planos. Juntos, bombardearam a Alca e despacharam o projeto de aliança comercial para o espaço.

Nafta

Nafta

O México, mais ajuizado e mais realista, preferiu ignorar ideologias ultrapassadas. Aliou-se aos EUA e, junto com o Canadá, formaram a Nafta ‒ versão regional da natimorta Alca ‒ restrita aos três grandes países da América do Norte. O mercado comum norte-americano continua de pé. Vai de vento em popa, obrigado. Os três sócios estão satisfeitos.

Enquanto isso, na América do Sul, tudo deu errado. A baixa do preço do petróleo aliada ao desastre administrativo de Chávez e de seu sucessor rebaixaram a Venezuela a um patamar indigente. A roubalheira e a gestão calamitosa travaram o avanço do Brasil e da Argentina.

E quem é que acaba ganhando com isso? O México, minha gente, aquele que, dez anos atrás, fez a boa opção. Artigo publicado no diário El Financiero (equivalente mexicano de nosso Valor Econômico) leva título significativo: «As penas do Brasil seriam uma bênção para o México

Menção é feita ao recente rebaixamento da nota de risco do Brasil, fato que levará obrigatoriamente importantes fundos de investimento a livrar-se de títulos brasileiros. Calcula-se que muitos bilhões de dólares serão retirados de papéis brasileiros e tomarão rumos mais seguros. Não precisávamos de mais essa.

Boa parte dessa bolada será investida no México, única nação latino-americana cuja inflação está abaixo da meta. A economia do país deve crescer 2.5% este ano e 2.8% em 2016 ‒ que inveja! Este ano, o peso mexicano desvalorizou-se 13% com relação ao dólar, enquanto o real caiu assustadores 32%.

Assim é a vida ‒ nada sai de graça. Mais cedo ou mais tarde, opções obtusas acabam cobrando a conta. Estamos todos pagando pela ignorância e pela miopia de uns poucos. Qualquer dia, a casa cai.

A faixa presidencial

José Horta Manzano

Você sabia?

Pelo rodar da carroça, senhor Michel Temer pode ir encomendando o terno da posse. Parece ser questão de (pouco) tempo. O rebaixamento da nota de confiança na economia do País é golpe duro e vem em hora delicada. Desconfiança dos financistas internacionais é o pior que poderia acontecer neste momento.

Faixa presidencialOs grandes investidores institucionais – fundos de pensão, fundos de ações, cestos de investimento – têm como regra seguir a orientação das agências de avaliação de risco. Estatuto de fundo sério proíbe expressamente que se arrisque dinheiro em países mal avaliados. Portanto, não é questão de simpatia. O Brasil continua bonito por natureza, mas será desprezado, que as regras têm de ser seguidas.

Os personagens políticos brasileiros, tão flexíveis, estão-se tornando todos oposicionistas, já repararam? Até nosso guia anda vociferando mais que chefe de oposição. Com a água batendo na cintura, ninguém quer saber de prestar solidariedade à atual mandatária. Tem gente que nem se aproxima mais dela, com medo de aparecer a seu lado em alguma foto furtiva.

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

Arthur Bernardes

Arthur Bernardes

Ah, que senhor Temer aproveite e mande também preparar a faixa presidencial, símbolo do cargo! Aquele pedaço de tecido aformoseia e vai bem em qualquer um – desde que o portador saiba usar.

Instituída no Brasil pelo marechal Hermes da Fonseca, a faixa já é centenária. Tirando um retoque aqui, outro ali, o desenho pouco se alterou desde a criação. O que se tem alterado, isso sim, é a maneira de vesti-la.

Fernando Collor foi o último a paramentar-se com a faixa sobre a camisa, mas debaixo do paletó – como se vinha usando fazia 80 anos. Depois dele, sabe-se lá por que razão, os presidentes passaram a portar o adereço por cima do paletó. Fica mais visível, é verdade, mas abala a solenidade dos raros momentos em que se costuma usá-la. Afinal, não é faixa de concurso de miss.

Sabia o distinto leitor que, se calhar de Michel Temer assumir o trono, será o primeiro presidente paulista desde Rodrigues Alves, que deixou o Catete em 1906, faz mais de um século, num tempo em que ainda não se usava a faixa?

Juscelino Kubitschek

Juscelino Kubitschek

Depois disso, o único paulista a ocupar a presidência o fez de forma interina e efêmera: foi Ranieri Mazzili, em duas ocasiões: 1961 e 1964. No total, só presidiu a nação por um mês. Em caso de vacância do cargo, o presidente do Congresso assume provisoriamente, eis por que o homem foi parar lá.

Vamos ver se senhor Temer, dono de certo senso de elegância, vai pensar em vestir a faixa condignamente. Se o destino decidir guindá-lo ao cargo maior, naturalmente.

Interligne 18hEcharpe 1

Origem do símbolo
A faixa, como símbolo de poder, surgiu na Europa em meados do século XIX. Foi adotada em dezenas de países, tanto na Europa quanto na África e na América. Na França, é atributo de prefeitos, não do presidente. Os alcaides a vestem em cerimônias oficiais, principalmente quando celebram casamentos. É sempre usada por cima do paletó.