Calendário

Ricardo Soca (*)

Os romanos tinham um método um tanto incômodo de contar os dias. Contavam para trás a partir de três datas: as calendae, que eram o primeiro dia do mês; os idus, que caíam entre o 13 e o 15; e as nonas, o nono dia antes dos idus.

Dessa forma, o 30 de janeiro (naquele tempo, esse mês só tinha 30 dias) era chamado primum dies ante calendas februarium (primeiro dia antes das calendas de fevereiro). O 29 de janeiro era o secundum dies ante calendas februarium, e assim por diante.

Na origem, calendae era a cerimonia em que o sumo pontífice convocava o povo ao Capitólio para anunciar as festas e os sacrifícios do mês. Assim, o termo calendae encerra a ideia de convocar, do latín calāre, procedente do grego καλέω (kaléo), e este, por sua vez, do indoeuropeu keld- ‘gritar’. Esta raiz pré-histórica deu lugar a clamar, que em nossa língua atual é chamar.

Talvez porque os dias antes das calendas ocupavam a maior parte do mês, acabou se chamando calendário o sistema de representação da passagem dos dias, agrupados em unidades superiores como semanas, meses, anos, etc. Ou também a lista de datas em que ocorrem as fases da Lua (calendário lunar).

(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e jornalista. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.

Lição de distributivismo

Sede da OMS, Genebra (Suíça)

José Horta Manzano

Vamos imaginar uma situação. É um bocado irreal, mas serve para ilustrar o que quero dizer. Digamos que o distinto leitor, ao caminhar no centro da cidade, topa com um grupo de pessoas maltrapilhas, adultos e crianças. Dois homens, que parecem liderar o grupo, estendem a mão. Faz sol, o dia está bonito, você se levantou feliz e de bem com o mundo. Por isso, se dispõe a ajudar. Vasculha a carteira e tira de lá uma nota de 5 reais (ou 10, ou 20, ou 50 – dependendo do nível de generosidade do leitor).

Você estende a nota em direção aos dois, movimenta levemente o braço de um lado para o outro e diz: “Isto é para os dois; não tenho trocado, mas fica metade pra cada um”. Neste ponto, em vez de agradecer, um dos homens retruca: “Ei, moço (ou moça, se for o caso), metade pra cada um não está certo! O companheiro aqui tem dois filhos e eu tenho três. Mereço mais.”

Quem achou que a situação é absurda acertou. Ela é. Pra início de conversa, nos dias atuais, seria imprudente parar na rua diante de um grupo de cidadãos desconhecidos e, ainda por cima, remexer na carteira (ou na bolsa). Porém, há mais importante que isso: as regras básicas da civilidade ensinam que não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio.

Pois esse princípio elementar acaba de ser violado por um ministro de Bolsonaro. Foi na semana passada. Durante coletiva de imprensa organizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), doutor Queiroga, ministro da Saúde do Brasil, lançou um apelo. Falando de vacina anticovid, implorou a todos os países que tivessem doses sobrando que compartilhassem lotes com o Brasil.

Até aí, tudo bem. Pedir, todo o mundo pode. O enrosco vem agora. Petulante, o doutor aproveitou os holofotes para dar instruções aos hipotéticos doadores. Em verdadeira lição sobre distributivismo, acrescentou que “o acesso ao imunizante deve ser proporcional à gravidade da emergência sanitária”. Com isso, quis dizer que o Brasil merece receber mais que os demais, visto que nossa situação é mais embolada.

Tenho dois reparos. Primeiro, como já disse antes, não cabe ao suplicante dar instruções ao socorrista sobre a repartição do auxílio. Esse tipo de arrogância pega mal pra caramba.

Segundo, não se pode esquecer que o governo Bolsonaro – ao qual o ministro serve – não tem perdido ocasião, desde que a pandemia se instalou, para desancar a OMS, difundir notícias falsas sobre ela, acusá-la de ser partidária e de estar a serviço da China. O capitão imitou o comportamento de Donald Trump, seu ídolo, nesse desvario. Só que, agora que Trump se foi, Bolsonaro ficou no mato sem cachorro tendo de implorar à pérfida OMS umas sobras de vacina. Um vexame.

Não tivessem nossos dirigentes sido tão estúpidos e pretensiosos, o planeta inteiro estaria socorrendo o Brasil espontaneamente, como um punhado de países mais civilizados estão fazendo com a Índia. Não precisaria nem pedir, e muito menos ensinar aos socorristas como distribuir as doações.

Pátria voluntária

José Horta Manzano

Em excelente reportagem publicada estes dias, o Estadão esclarece que, desde que foi criado dois anos atrás, o programa “Pátria Voluntária” – coordenado pela senhora Michelle Bolsonaro – já distribuiu 27 mil cestas básicas e 38,5 mil kg de alimentos. Tendo em vista as profundas carências de nossa população, o balanço é meritório.

Só que… o quadro não é tão cor-de-rosa como parece. O programa de assistência da primeira-dama gasta muito mais com propaganda do que com doações. De fato, R$ 9,3 milhões foram utilizados para divulgar o programa, enquanto os assistidos tiveram de se contentar com R$ 5,9 milhões. Note-se que a propaganda não é feita com dinheiro de doações, mas com verba pública – dinheiro saído do bolso do distinto leitor. E do meu.

Para efeito de comparação, é interessante notar que, no mesmo período, uma única ONG, a Ação da Cidadania, doou um volume 50 vezes maior. Só de março de 2020 até agora, foram 14 milhões de quilos de alimentos, que beneficiaram 1,5 milhão de famílias.

Fica a desagradável impressão que o objetivo principal do programa da primeira-dama é a promoção do clã presidencial. O esquema é simples: o dinheiro arrecadado com doações vai para a compra de alimentos, enquanto a portentosa verba de propaganda é garantida com nosso dinheiro. No final, fica assim: nós pagamos, o clã aparece bem na foto e os pobres recebem umas migalhas.

Lembra-se daquele ministro esquisito que, aboletado no Itamaraty, aporrinhou nossas relações exteriores durante dois anos? Ele declarava orgulhar-se de o Brasil (dele) ser um pária internacional, lembra? Ao ver a notícia do programa assistencial de Madame Bolsonaro, li o título com mais rapidez do que meus velhos olhos conseguem acompanhar. Na pressa, tive a nítida impressão de que estava escrito “Pária Voluntária”.

Acho que foi ilusão de óptica. Ou não.

Soropango da vingança

José Horta Manzano

Para reavivar memórias de infância.

Se meu jovem leitor está ainda na casa dos vinte ou trinta anos, o que vou dizer agora parece vindo direto do planeta Marte: nos anos 1950, as crianças do Brasil brincavam na rua. Yes! Na rua, pé no chão, em cima dos paralelepípedos! Nas pequenas e até nas grandes cidades! Era um tempo em que ninguém era obrigado a fugir de bandido nem de bala perdida. Para os brasileirinhos de hoje, deve até parecer invenção da mídia intriguenta.

Naquele tempo sem televisão e sem videogame, os maiorzinhos jogavam pelada, enquanto os pequeninos brincavam de roda. Meninos e meninas misturados, que a sexualização da pequena infância ainda não estava em voga.

No hit parade, figurava o Soropango da vingança, uma cantiga importante. Como em todos esses cantos populares tradicionais, todo o mundo conhecia a mesma melodia, mas havia inúmeras versões da letra – cada família tinha a sua. As palavras eram misteriosas, desconexas, sem pé nem cabeça, mas ninguém ligava muito pra isso. O importante era que letra e música se encaixassem. Com a repetição, a cantiga acabava se fixando na memória. A prova de que repetir é bom pra decorar está aqui: passadas tantas décadas, a gente se lembra de tudo, de cabo a rabo.

A letra que aprendi com minha turminha era assim:

Soropango da vingança
Toda a gente passa lá

A costureira faz assim,
Faz assim também assim;

A passadeira faz assim,
Faz assim também assim;

A lavadeira faz assim,
Faz assim também assim.

E aí desfilavam todos os ofícios que a criançada conhecia – e que pudessem ser mimados.

Há quem diga que Soropango da vingança era calcada sobre a antiquíssima cantiga francesa Sur le pont d’Avignon (Na Ponte de Avignon). É verdade que, depois de passar pelo filtro da língua popular, “sur le pont” pode bem ter virado “soropango”, assim como “d’Avignon” é bem capaz de ter  se tornado “da vingança”. É verdade também que o espírito da cançoneta é o mesmo. Tanto a francesa medieval quanto a nossa colonial mimam os gestos de pessoas ou de artesãos.

No entanto, em desagravo à musicalidade de nossa alma cabocla, frise-se que a melodia de nosso “Soropango” é bem diferente da francesa. Faz até parecer que o criador da cantiga brasileira pescou a ideia no original e criou melodia própria. Em todo caso, nossa versão é bem mais melodiosa que a original.

Sur le pont d’Avignon
Encontrei a versão francesa no youtube. Está aqui

Soropango
No youtube, não achei nosso Soropango. Que não seja por isso: fiz uma gravação caseira da melodia que me ficou na memória. Está aqui.

Curiosidade
Um vilarejo da Costa do Marfim leva o nome de Sorobango. Imagino tratar-se de pura coincidência fonética.