Impávido colosso

José Horta Manzano

Meus distintos leitores já devem ter-se dado conta de que estou longe de admirar o desempenho de senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, aquele assessor atarraxado há uma eternidade ao Planalto. De fato, atribuo à má influência desse senhor muitos dos tropeções de nossa diplomacia e boa parte dos vexames internacionais que nos têm humilhado.

O governo israelense tratou um dia o Brasil de «anão diplomático». Se o fez, foi em virtude de nossa errática e inconsequente política externa, da qual «Top-top Garcia» é um dos principais mentores. A ofensa nos foi feita quando um Lula, inebriado pelo incenso dos cortesãos, tinha-se imaginado capaz de resolver, em três tempos, o conflito entre árabes e israelenses. Quanta pretensão…

Embaixador nos tempos de antigamente

Embaixador nos tempos de antigamente

Naquela época, não havia dúvida: o pronunciamento do porta-voz israelense, embora brutal, tinha fundamento. Era como quem advertisse: «Não se meta onde não foi chamado.»

Hoje a situação é outra. Como já comentei duas semanas atrás, Brasília se recusa a conceder o agrément ao novo embaixador designado por Israel. Traduzido da linguagem diplomática para o falar nosso de cada dia, isso quer dizer que o governo brasileiro não aceita aquele diplomata.

De fato, o nomeado é figura de proa do movimento que milita pela implantação maciça de israelenses em territórios ocupados. Como o Estado brasileiro não concorda com essa política do Estado israelense, a rejeição do novo embaixador exprime o desagrado. Como já disse, nossa reação é sensata e respeita os aveludados códigos diplomáticos.

Prédio que abriga a embaixada do Brasil em Tel Aviv

Prédio que abriga a embaixada do Brasil em Tel Aviv

Inconformado com a recusa, o governo israelense decidiu reagir. Segundo nos informa o jornal The Times of Israel, o embaixador enjeitado exige que seu governo dê resposta forte ao que considera uma afronta. A argumentação do diplomata é marota e faz lembrar o artifício habitual de nosso guia quando, na hora do aperto, distribui parte da culpa a outros.

O ex-futuro embaixador passa por cima do fato de ser ativo militante da ala dos favoráveis a novas implantações em terra alheia. Com falsa modéstia, dissolve sua responsabilidade entre todos os moradores das colônias da Cisjordânia ao perguntar se «as portas da diplomacia estariam fechadas a 700 mil israelenses».

O diplomata sabe perfeitamente que Brasília se recusa a aceitá-lo não porque ele habite aqui ou ali, mas por ser porta-bandeira assumido da política de implantações, julgada inaceitável pelo Estado brasileiro. Nem o Lula encontraria argumento mais manhoso. A tentativa de vitimização faz lembrar o “nós x eles” e os olhos azuis.

Tel Aviv

Tel Aviv

Na intenção de pressionar Brasília, o governo israelense já preveniu que a rejeição do embaixador trará graves consequências para as relações entre os dois Estados. Espero que o Planalto tenha a força de resistir e de se manter firme na decisão de não acolher o diplomata. Se se dobrarem à exigência de Israel, aí, sim, estarão comprovando que o Brasil não só é «anão diplomático», como também timorato e frouxo.

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PS: Impávido, palavra de uso raríssimo, deriva do verbo latino paveo (=tremer de medo). A mesma raiz deu pavor, pavoroso, espavento, apavorar, espavorido & companhia. Portanto, impávido é aquele que não tem medo. Chegou a hora de mostrar ao mundo se o Brasil é impávido colosso ou anão frouxo.

Falta de tacto ou desaforo?

José Horta Manzano

Não me canso de apontar a enxurrada de erros primários que tem encharcado nossa diplomacia desde que o «governo popular» se aboletou no Planalto. O inspirador de grande parte dessas iniciativas calamitosas é senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, assessor que dispõe de cadeira cativa: entrou em função no primeiro governo do Lula e está lá até hoje.

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Tito, Indira Gandhi, Nasser

Pode até nem parecer, mas esse senhor não é nenhum ignorantão. Estudou, tem formação. Seu problema – que acaba apequenando a diplomacia brasileira – é a fixação numa ultrapassada visão terceiro-mundista. Seu pensamento ficou ancorado no mundo dos anos 1960 e 1970, quando Nasser, Indira Gandhi e Tito tentavam escapar (sem realmente conseguir) da dualidade da Guerra Fria. Hoje, essa dicotomia não faz mais sentido.

Política externa não é o forte do Lula nem de dona Dilma. Tanto ele quanto ela decidiram abandonar esse importante espaço. Na falta de luminares, sobrou para senhor «Top-top». Que fazer? Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

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Cônsules e embaixadores são enviados temporários. Dependendo das normas e da conveniência do Estado que representam, permanecem alguns meses ou alguns anos em cada missão. Em seguida, como numa dança de cadeiras, são removidos e despachados a outro país.

O posto de embaixador de Israel em Brasília vagou. O primeiro-ministro daquele país decidiu indicar senhor Dani Dayan para preencher o cargo. O governo brasileiro foi informado. Em princípio, o país receptor dá sua aprovação ao cabo de duas ou três semanas. Neste caso, passadas oito semanas, nosso Planalto se fecha num silêncio ensurdecedor.

Em artigo de 10 dez° 2015, o jornal The Times of Israel acredita ter entendido a razão da atitude de Brasília. O embaixador designado é notório ativista conhecido por seu empenho na causa da implantação de colônias israelenses na Cisjordânia ocupada.

Relações internacionais by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Relações internacionais
by Satoshi Kambayashi, desenhista japonês

Ao que tudo indica, em julho de 2014, quando tratou o Brasil de «anão diplomático», o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores israelense não estava usando figura de linguagem. Estava realmente expressando a convicção dos mandachuvas daquele país. A designação do novo embaixador é a prova flagrante.

Se enviassem esse senhor para um país pequeno e inexpressivo, o fato passaria despercebido. Nomeá-lo para representar Israel no Brasil é, no mínimo, falta de tacto. Na pior das hipóteses, é desaforo.

Grande e populoso, nosso país conta com importante comunidade de confissão judaica. Além disso, Brasília já mostrou sua desaprovação quanto à persistência de Israel na política de implantação de colônias em território ocupado.

As credenciais do novo embaixador dificilmente serão acolhidas pelo Planalto. Desta vez, justiça seja feita, não se pode atirar pedra no “top-top”. A aceitação desse diplomata seria interpretada como conivência com a ocupação da Cisjordânia, atitude que o atual governo brasileiro desaprova. E eu também.