O incontrolável Putin

– Você está vendo chegar alguma coisa?
– O passado!
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

 

José Horta Manzano

Putin me lembra cada vez mais Bolsonaro. Sofrem ambos do mesmo mal. Ao adotar o terror como método de mando, recebem de volta uma submissão obsequiosa mas vazia, que lhes acaba sendo nociva.

Vladímir Putin, o obscuro buracrata de 30 anos atrás, aprendeu a dirigir seus comandados utilizando os métodos pouco ortodoxos que aprendeu com seus superiores. Os anos que passou na polícia secreta lhe ensinaram a ser dissimulado, duro e impiedoso. Os anos que passou como braço direito do chefe da máfia de São Petersburgo lhe ensinaram a impor-se pela violência desabrida e ilimitada, exatamente como fazem os chefes mafiosos.

É desse modo que Putin entende que devam ser resolvidos os conflitos: primeiro, pela dissimulação e pelo engodo; em seguida, pela violência sem rédeas.

O rapaz subiu na vida, enricou, tornou-se homem de poder. Mais temido que respeitado. Infunde o terror a seu redor. Seus áulicos se dividem em dois grupos: os do “sim” e os do “sim, senhor”.

O ditador pode até ser esperto, mas ninguém é perfeito. Ele não tem qualidades de estrategista militar – não foi formado para isso. Na sua cabeça encruada, descurou a dimensão emocional. Dado que é praticamente desprovido de emoções tem dificuldade em imaginar que os outros possam, em certas circunstâncias, agir sob o império do abalo e da comoção.

Quando expôs a seus ministros e generais o plano de invasão e anexação da Ucrânia, as reticências de alguns, se houve, terão sido tímidas. Quem é que ousa contradizer o chefão? Afinal, todos devem a ele o cargo e as benesses. (Isso me lembra alguém, mas não é o caso de mencionar aqui, que o tema é outro.)

Putin não levou em consideração, talvez por não ter aprendido, que não há nada melhor para unir um povo que um inimigo externo. Os bondosos irmãos Castro e o bigodudo Maduro aprenderam isso há séculos – eis por que não se cansam de praguejar contra o “império”. Basta mencionar o império para acender a chama patriótica no povo.

Putin provavelmente imaginava que, à vista do primeiro tanque de guerra russo, o povo ucraniano lançaria flores aos invasores e cantaria loas à glória do capo de Moscou. Deu tudo errado. A Ucrânia, minúsculo território comparado à Rússia, e o exército ucraniano, um anão comparado ao superequipado invasor, têm dado conta do recado. Até o momento em que escrevo, travam luta heroica e retêm os agressores.

Circulam na mídia cenas comoventes de chefes de família que acompanham mulher e filhos até a fronteira polonesa e, depois de deixá-los em lugar seguro, despedem-se e sobem no trem para voltar. “Quero lutar para ajudar meu país a expulsar os invasores”. É emocionante.

Ganhar o domínio dos ares é fácil, quando se possuem armas de última geração, mísseis, caças, drones. Avançar em embates urbanos é completamente diferente. E bem mais complicado. Os generais russos de 80 anos atrás sabiam disso. Levaram dias e dias para chegar ao centro de Berlim. Foram lutando casa por casa, quarteirão por quarteirão até chegar à sede do poder. Pelo que se vê, os generais de Putin esqueceram a lição. Ou o chefe lhes deu um cala-boca.

O mesmo efeito de coesão diante da ameaça se observa entre os membros da Otan e da União Europeia. Putin tentou se aproveitar das divisões internas. Imaginou que os europeus nunca chegassem a um acordo. Deu com o nariz na porta. Em 48 horas, colheu espinhos.

Os 27 membros da UE fecharam o espaço aéreo para aviões russos e cancelaram todos os voos para a Rússia. Com isso, ninguém mais vai da Europa a Moscou, a não ser que passe pelo Saara ou pela Mongólia. A Alemanha dobrou o orçamento militar, coisa nunca vista desde 1945. A moeda russa derreteu. Os jovens soldados russos enviados por Putin devem se perguntar o que é que estão fazendo na Ucrânia, atirando contra mulheres e crianças que são, no fundo, iguais a eles.

Na História moderna, não há registro de estrategista tão ruim. Só por isso, Putin merecia ser despachado de volta à própria insignificância. Um golpe de Estado na Rússia seria aplaudido no planeta. Daria um alívio ao mundo. Até que surgisse novo aprendiz. Num país de tradição autoritária como aquele, tudo é possível.

Bolsonaro deu o nariz aos russos

José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (*)

Há poucos dias a minha filha Kianda, de 3 anos, veio ter comigo, preocupada com a origem da Humanidade:

– Como é que nós aparecemos no mundo, nós, as pessoas?

Tentei explicar-lhe a Teoria da Evolução, de Charles Darwin, nos termos mais simples possíveis. Ela escutou-me atentamente, como se eu lhe estivesse a contar uma história de fadas, antes de dormir. Por fim, concluiu:

– Eu cá não descendo de macacos, descendo de unicórnios.

Fiquei a pensar naquilo. Talvez Kianda esteja certa e nem todos tenhamos a mesma ascendência. Muitas vezes, assistindo aos noticiários, ou escutando os discursos de certos políticos, me horroriza a ideia de partilhar com toda a restante Humanidade uma avozinha comum.

Penso, por exemplo, em Donald Trump, e numa boa parte dos seus seguidores, esses mesmos que insistem em defender a ineficácia das vacinas. Sinceramente, acho mais fácil acreditar que Donald descenda dos arimaspos ou dos cíclopes, aqueles homens com um único olho, um tanto brutos, que viviam nas margens da terra plana. Nada contra os arimaspos e os cíclopes. Tampouco contra Trump e os seus seguidores. Só não os quero no meu galho.

Ao contrário do presidente francês, Emmanuel Macron, e do chanceler alemão, Olaf Scholz, que recusaram fazer os testes de PCR russos, Jair Bolsonaro permitiu que os médicos e cientistas de Vladimir Putin lhe vasculhassem as fossas nasais – ao que parece por cinco vezes!

Macron explicou a firme recusa, afirmando que não gostaria de ceder aos russos o seu material genético. A mim, aquela afirmação inquietou. Passei uma noite sem dormir, imaginando o que os russos poderiam fazer com o material genético de Macron. Ou com o material genético de Olaf Scholz. Felizmente, o que quer que tencionassem fazer, não conseguiram.

Bolsonaro, contudo, deu o nariz aos russos. Não uma, não duas, mas cinco vezes!

Na posse do material genético de Jair Bolsonaro, os cientistas russos podem, por exemplo, investigar a sua ancestralidade. Vai que descobrem algum arimaspo, um cinocéfalo, um basilisco, perdido numa ramagem remota da sua árvore genealógica, onde era suposto haver apenas doces macaquinhos?

Vai que descobrem genes fraquejados? Ou genes exultantes de feminilidade, carnavalescos, brilhando de suor e purpurina?

Vai que descobrem genes ateus, marxistas-leninistas?

E, embora seja extremamente improvável, o que acontecerá se os cientistas russos descobrirem no muco bolsonarista remotos genes feministas, pacifistas ou antirracistas?

Tendo tais resultados nas mãos, os russos poderiam facilmente chantagear o presidente do Brasil. Quem sabe conseguiriam forçá-lo a prestar homenagem aos soldados que combateram pelo comunismo na II Guerra Mundial? Ou forçá-lo a apoiar a Rússia, ao lado da China comunista, contra os EUA e todo o mundo ocidental, no conflito com a Ucrânia?

Leio agora, enquanto escrevo esta coluna, que isso já aconteceu, durante a atual visita relâmpago de Bolsonaro a Moscou.

A sério?! Mau sinal. Muito mau sinal.

Provavelmente descobriram o arimaspo.

(*) José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (1960-) é escritor e jornalista angolano.