De amargar

José Horta Manzano

Tem notícias que são de amargar. Não sei se ainda se usa essa expressão, quem sabe não. Para os mais jovens, que talvez não entendam, explico. De amargar traduz um estado de espírito amargurado, chateado, contrariado, desagradado. Certas notícias nos deixam nesse estado.

A notícia que li é sobre dinheiro vivo. Falando nisso, adoro esse costume de dizer que dinheiro em espécie é dinheiro vivo. Me faz imaginar dinheiro pulando e dançando em cima da mesa. Ou da cueca, dependendo do gosto do freguês.

Manchete Estadão, 18 jul° 2018

Bom, agora chega de brincadeira, e vamos ao que interessa. Leio que as autoridades competentes vão controlar o dinheiro vivo declarado por candidatos com relação às eleições deste ano. A manchete do jornal deixa bem claro que será a primeira vez que o fisco efetua tal controle.

Não, mas… espere um pouquinho! De brincadeira estão eles! Com a corrupção que corrói este país desde que o primeiro navegante arribado subornou um índio pra receber ouro em troca, como é possível que a autoridade fiscal nunca tenha cuidado de controlar a circulação de dinheiro vivo?

Volta e meia se fica sabendo que um indivíduo portando três ou quatro mil reais foi detido para averiguações. É sinal claro de que é sempre duvidosa a honestidade de qualquer cidadão que manipule fortes somas de dinheiro vivo. Como é possível, então, que nunca tenham fiscalizado políticos?

É aquele tipo de notícia de deixar embasbacado. É de amargar.

Filho illegitimo

José Horta Manzano

Você sabia?

O elevador é boa imagem para exprimir a ascensão social. A metáfora é muito usada na França, onde, volta e meia, surge a figura do elevador social. Não me refiro àquele que, em certos edifícios, é reservado para uso de não funcionários. Falo de um imaginário veículo que permite subir na vida.

Certos países são conhecidos por facilitar a ascensão. Nos EUA, por exemplo, é comum topar com indivíduos que saíram do nada e chegaram a posição de destaque ou à riqueza. Por um lado, os que seguiram esse caminho se orgulham de havê-lo feito; por outro, são admirados e aplaudidos pelos concidadãos.

Sem ser propriamente paralisada, a sociedade brasileira não está entre as que mais favorecem a mobilidade social. Via de regra, ascensão, quando há, é lenta e complicada. Quando algum cidadão galga os degraus de quatro em quatro ‒ caso excepcional ‒ periga ser olhado de banda. Todos vão desconfiar que ele andou tomando atalho proibido.

A herança ibérica, o catolicismo forjado na Inquisição, o escravagismo, o prolongado estatuto colonial são fatores que moldaram o Brasil atual. Não se sai facilmente de trezentos anos de regime escravista. O Treze de Maio liberou escravos que, em razão da Lei do Ventre Livre, estariam de qualquer maneira livres a médio prazo. Liberou escravos mas não liberou mentes. A estratificação de nossa sociedade continua firme e forte como nos tempos de antigamente.

Certidão de nascimento de 1914: menção da legitimidade da criança
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Um nadinha basta pra tascar um carimbo na testa de cada indivíduo. Um sotaque mais carregado, uma tez mais cerrada, um nome que escape ao molde, um vestir menos apurado ‒ qualquer sinal de desvio do padrão será punido com a exclusão. Estão aí as políticas de quota como prova definitiva de que nosso elevador social, mais que enguiçado, anda travado.

E olhe que hoje em dia já estamos bem melhor do que algumas décadas atrás. A sociedade já foi mais amarrada. Os mais jovens talvez nem imaginem que, até a metade do século passado, certidão de nascimento mencionava se o cidadão era filho legítimo ou não. Legítimo era o que nascia de casal casado nos conformes. Se nascesse fora do casamento, ainda que o pai a reconhecesse, a criança seria registrada como ‘illegitima’. E carregava essa pecha pelo resto da vida, como marca de um pecado original, como defeito de fabricação. Pode?

Esse arcaísmo já caiu, assim como a criminalização do adultério. Mulheres já podem trabalhar fora de casa e sair à rua sozinhas. Com a legalização do divórcio, mulher separada já não é olhada com desdém. Mas o caminho ainda é longo. O elevador ainda vai continuar enguiçado por um tempo. Nossa herança é pesada.

Os sem-rede e os sem-ética

José Horta Manzano

Empedernido, nunca aderi à onda das redes sociais. Não tenho perfil em nenhum dos operadores. Faço parte dos dinossauros que ainda se comunicam por email, um atraso só! Assim mesmo, por bem ou por mal, tenho conseguido manter-me à tona no oceano de informação que nos balouça.

Sou adepto da atitude positiva que me ensinaram muito tempo atrás: quem procura, acha. Em que pese a meu estatuto de sem-rede, costumo encontrar o que me interessa. Estes dias, dei de cara com uma dessas petições que circulam às dúzias. Ela me chamou a atenção em particular: pede que seja barrada a ascensão de doutor Dias Toffoli à presidência do STF.

Como se sabe, a presidência de nossa Corte Maior é rotativa. Em sistema de rodízio, novo ministro acede ao trono a cada dois anos. Cabe a doutor Toffoli assumir as rédeas a partir de setembro. A posição confere grande poder ao titular.

Não sem razão, muitos se mostram inquietos com isso. De fato, no currículo do doutor sobressai forte ligação com o PT, partido para o qual ele advogou. Para vitaminar ainda mais o CV, o homem exerceu cargo subordinado a José Dirceu quando este era ministro da Casa Civil, no governo do Lula.

Toffoli tem mostrado não ter compromisso com a isenção que se espera de um juiz. Apesar do histórico profissional, não se sentiu impedido quando lhe coube apreciar processos envolvendo o antigo chefe ou o partido para o qual trabalhou. E tem ido mais longe no afrontamento da ética. Via de regra, dá voto favorável a figuras próximas ao partido. Ainda outro dia, mandou soltar seu antigo chefe ‒ condenado em segunda instância a trinta anos de galera!

Quem é culpado por essa situação bizarra que permite ao réu ser julgado por amigo fraterno? Não se pode apontar uma pessoa em particular. Leis maiores e menores foram costuradas na era que antecedeu o lulopetismo. Em 1988, não passava pela cabeça de nenhum constituinte que juiz comprometido com a causa ousasse declarar-se competente pra julgá-la. No entanto, uma era de degradação dos costumes se abateu por longos treze anos. Princípios de ética elementar se foram apagando. O que vemos hoje é o resultado, que, curiosamente, não parece causar grande incômodo ao respeitável público.

Tivesse o legislador, trinta anos atrás, imaginado que a degradação pudesse chegar a tal ponto, teria tomado providências. No caso do juiz, a decisão sobre competência (ou não) para atuar não seria deixada em mãos do interessado. Mas o que temos é isso aí, uma legislação demasiado condescendente, da qual se aproveitam os malandros que infestam as altas esferas. A solução do problema começa obrigatoriamente pela feitura de nova Constituição.

Postfácio
Aprecio a garra e a esperança dos iniciadores da petição que visa a prevenir os estragos que doutor Toffoli pudesse provocar. Receio, (que lástima!), que seja tão inútil quanto esmurrar ponta de faca. Aquele que afronta a ética com tamanho descaramento não há de comover-se com alguns milhares de assinaturas. O homem sabe que é intocável. Até no Judiciário, penúltimo baluarte da dignidade da nação, a coisa está abaixo da decência! Eu disse penúltimo.

Falou e disse

José Horta Manzano

No discurso oral, o verbo dizer é sistematicamente substituído pelo colega falar. Passa batido e ninguém faz caso. Já na língua escrita, a coisa muda de figura. Mais exigente, a norma culta distingue perfeitamente entre dizer e falar.

Alguém pode:

falar uma língua
falar rápido
falar com alguém
falar ao telefone
falar difícil
falar de alguém
falar de algo
falar pelos cotovelos
falar linguagem elevada
falar por sinais

Reparem que, em nenhum dos exemplos que citei, está explicitado o que foi dito. Quando se quer contar o que foi dito, o verbo falar cai fora. É hora de usar o colega dizer.

Assim, alguém pode:

dizer uma poesia
dizer a verdade
dizer adeus
dizer patacoada
dizer a razão do acontecido

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

Uma regra de ouro: todas as vezes que o verbo for seguido de que, fuja do falar e use dizer. Falar não será nunca seguido de que.

Ele disse que viria.
Eu diria que deve medir uns dois metros.
Eles disseram que estava chovendo.
Ela disse que delação premiada funciona.
Ele disse que nunca 
mente.

E naturalmente: «Collor volta a dizer que é candidato ao Planalto».(*)

Que Deus nos livre e guarde!

(*) Este blogueiro, embora já um tanto desesperançado, continua acreditando que presidente destituído devia ser proibido de se candidatar pelo resto da vida. Se já mostrou não estar à altura da função, não faz sentido tentar de novo. Cargo eletivo não é banco de provas e eleitor não é cobaia. Visto que essa gente fina não tem vergonha na cara, que sejam banidos da vida pública pela mão pesada da lei.

Xô, urubu!

José Horta Manzano

Os franceses estão deslumbrados diante da possibilidade, cada dia mais real, de se tornarem campeões do mundo de futebol pela segunda vez. Mas não estão nada tranquilos.

Semana passada, tinham quase certeza de que, se chegassem à final, iam encontrar a Inglaterra, uma seleção que lhes parecia fácil de encarar. No entanto, deu Croácia, um time aguerrido. Estão engolindo em seco.

Pra complicar, a figura aziaga de Mister Mick Jagger, componente dos Rolling Stones, está ameaçando surgir no horizonte. Pé frio mundialmente reconhecido, o homem é um perigo!

A carreira de azarento de Mister Jagger é pontilhada de insucessos. Dos jovens anos do cantor, pouco se sabe. Certo é que, a partir da Copa do Mundo de 2010, ele nunca desmentiu a fama de beijo frio.

Nas oitavas de final daquele ano, torceu pra Inglaterra ‒ seu país ‒, que deu vexame ao perder de 4 a 1 para a Alemanha e ter de voltar pra casa. Dias depois, a convite da federação americana, assistiu ao encontro EUA x Gana, que terminou com a vitória do país africano por 2 a 1. Nas quartas de final, é enrolado numa bandeira brasileira que testemunhou a eliminação do Brasil diante da Holanda (1 x 2).

Em 2014, a aventura continuou. O homem tranquilizou os italianos ao prever que a Itália passaria tranquilamente às oitavas de final ‒ o país foi eliminado na fase de grupos. Avisou aos portugueses que levantariam a taça ‒ foram eliminados pela Espanha igualmente na fase de grupos. Mais enervante ainda foi a “força” que deu ao torcer pela Seleção no Mineirão naquele terrível 7 x 1.

Nesta Copa da Rússia, o cantor foi visto torcendo por sua Inglaterra quando ela foi derrotada pela Bélgica e perdeu toda esperança de ser campeã do mundo. Visto que ele continua deambulando pela Rússia, jornalistas franceses quiseram saber o que ele acha da final de domingo próximo. Quem vai ganhar? A resposta: «Acho que vai ser a França, mas ainda não tenho certeza».

De dedos cruzados, os franceses andam espalhando sal pela casa. Só não rezam novena porque não dá tempo. Te esconjuro!

Prevaricação grosseira

José Horta Manzano

O dicionário é claro ao indicar o campo semântico coberto pelo verbo prevaricar. Todas as accepções carregam valor negativo. As principais são:

  • deixar de cumprir o dever por interesse ou má-fé
  • cometer abuso de poder, provocando injustiças ou causando prejuízo ao Estado
  • trair a confiança

Etimologicamente, prevaricar ‒ que nos chegou direto do latim prævaricare ‒ é composto de præ = antes e de varicari de varus = o que sai da linha reta, ou seja, torto. Alguns estudiosos enxergam parentesco com o termo curvo.

O ato cometido pelo plantonista do TRF4, que deu origem a tremenda balbúrdia institucional domingo passado, se enquadra perfeitamente em todas as accepções do verbo. Imbuído de indisfarçável má-fé, o magistrado desviou-se da linha reta, cometeu abuso de poder, traiu a confiança de que era depositário e causou prejuízo ao Estado. Se isso não for prevaricação, o que será?

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

O estagiário que redigiu a manchete se impressionou com o termo. Talvez por desconhecer-lhe o significado, tascou aspas em volta. É maneira de isolar o desconhecido, pra evitar ser por ele engolido. Palavra estranha pode até morder! Melhor tomar cuidado.

Falando sério, a procuradora-geral pede que o plantonista seja investigado por ter prevaricado. Sem aspas. Aquele que comete abuso de poder e causa dano ao Estado não tem perdão.

Pobre Mandela

José Horta Manzano

Não sei se a intelligentsia lulopetista tem dificuldade em entender os grandes movimentos da história ou se, como anunciava aquele humorista de décadas atrás, vieram ‘pra confundir e não pra explicar’.

Acho que a resposta é abrangente. Por um lado, não conhecem História. Por outro, confusos, acabam se atrapalhando na hora de explicar. Faz anos que tentam pendurar Lula da Silva na rabeira de ícones históricos. Já pelejaram pra emparelhar o demiurgo com Getúlio Vargas, com Gandhi e até ‒ vejam a ousadia ‒ com Jesus Cristo. Estão prontos pra tomar carona em qualquer veículo, desde que lhes pareça boa jogada de marketing.

Acaba de ser montada nova tentativa, canhestra como as anteriores. A patota procura agora associar a imagem do chefão encarcerado à do venerável Nelson Mandela ‒ um disparate.

A alta direção do Partido dos Trabalhadores marcou uma enésima manifestação de protesto para 18 de julho em Curitiba. Acontece que a data, que coincide com o centésimo aniversário de nascimento do grande Mandela, não foi escolhida ao acaso. A escolha reflete a intenção de colar a imagem do demiurgo à do personagem sul-africano.

Como Mandela, o Lula amargou o cárcere. Como Mandela, o Lula foi presidente do país. Só que, mequetrefe, a intelligentsia descuidou detalhe importante: no presente caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto.

A vida de Nelson Mandela seguiu curva ascendente. Saiu da luta clandestina, passou 27 anos(!) na prisão e terminou a carreira no posto máximo, reverenciado pelo povo e aplaudido pelo mundo todo. Ao aposentar-se, deixou um país pacificado.

Já a carreira de Lula da Silva foi descendente. Da vida sindical, foi propulsado ao mais alto cargo e, desde então, vem rolando ladeira abaixo. Condenado a 12 anos de cadeia em processo por corrupção, é réu em mais meia dúzia de casos e está encarcerado em Curitiba. É repelido pela maioria dos conterrâneos e olhado com desconfiança pelo resto do mundo. Deixou um país conflagrado. Sua carreira termina onde a de Mandela começou: no cárcere.

Se o primeiro subiu na vida, o segundo desceu. Portanto, a comparação é faceciosa e ilusória. Ao fim e ao cabo, fica a pergunta: não conhecem a História ou vieram pra confundir? Fico com a segunda opção.

Um por todos, todos por um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha mãe tinha razão: sou mesmo uma pessoa do contra. Talvez por ser canhota e me ver forçada a reinterpretar imagens em espelho, quase nunca resisto ao impulso de priorizar o lado do avesso na análise dos eventos externos e das emoções que eles despertam nas pessoas normais.

Com a Copa do Mundo de futebol, não foi diferente. Apesar de não ter acompanhado nenhum dos jogos por inteiro e não ser capaz de avaliar tecnicamente o desempenho de cada time, experimentei uma sensação de forte alívio quando o Brasil foi desclassificado e não se registraram reações em massa de fúria dos torcedores brasileiros. Pouquíssimas pessoas de que tenho notícia se deram ao trabalho de culpar o técnico ou a falta de garra de nossos jogadores. Ao contrário, todos os que criticavam a alienação do brasileiro médio ficaram sem interlocutor ao constatarem que a maioria absoluta dos torcedores abriu mão da tradicional passionalidade esportiva. Sinal de maturidade?

Acredito que sim. Ao longo de toda a competição, um fenômeno já vinha chamando minha atenção: todos os ídolos, individuais ou coletivos, mostraram ter pés de barro e foram caindo, um por um. E, assombrosamente, mesmo assim, não sobrou muito espaço para vergonha. O humilde reconhecimento da superioridade do adversário foi, para mim, a grande novidade e a mais agradável das surpresas desta Copa. Concluí que o tempo das seleções de um só homem havia acabado. Outro bem-vindo sinal de aprendizado e amadurecimento? Tomara que seja.

No mesmo sentido, quando, em junho de 2013, pipocaram as primeiras manifestações gigantes de rua, meu coração explodiu de felicidade. Depois de décadas de paralisia, senti que estávamos finalmente nos apropriando do destino do país. Pela primeira vez, reivindicávamos a soberania popular para determinar os rumos que as coisas deveriam tomar mesmo nos assuntos mais comezinhos da nação. Aprendíamos na prática que, sem povo, não há democracia.

A profunda cisão esquizofrênica que se seguiu não esmoreceu meu ânimo. Achava – e ainda acho – que esse era o preço a pagar por termos sido secularmente carneiros conduzidos por gulosos lobos a pastos secos e sem fontes de água. Inevitável que, na ausência de pastores confiáveis, o rebanho se dividisse e hesitasse em qual direção seguir. Tudo o que ansiávamos naquele momento era nos afastar das alcateias, ainda que não soubéssemos discernir de pronto quem era lobo em pele de cordeiro e quem era cordeiro em pele de lobo.

Reduzidos ao nosso tamanho original, estamos agora inexoravelmente nos debatendo com as contradições da pátria sem chuteiras. Nossas graves deformações políticas e judiciárias, assim como nossa falta de infraestrutura cidadã, já não podem ser disfarçadas com nenhum photoshop. A hora agora é a de assumir, para consumo interno e externo, que somos menos belos, menos cordiais e menos inventivos do que julgávamos ser. Um fantástico avanço para a alma nacional, já que a maturidade psicológica pressupõe o fim das ilusões de onipotência.

Sinto que o que está em jogo neste momento ‒ não só no Brasil, nem só na América Latina ‒ é uma quebra de paradigma. Do poder central forte, do sistema de dominação autocrática, estamos migrando para um processo de horizontalização de todas as decisões. Todas as hierarquias estão sendo abolidas, todas as lideranças estão sendo contestadas e todo voluntarismo estrebucha em agonia. O tecido social agora esgarça no sentido vertical porque ainda não havíamos nos dado conta de que era preciso reforçar as fibras horizontais. Com isso, acabamos perdendo flexibilidade nas articulações políticas, religiosas e sociais. Literalmente, dobrar os joelhos diante da autoridade ou cruzar os braços na eventualidade de um impasse passou a ser cada dia mais difícil.

Que tempos de muito choro e ranger de dentes ainda estarão pela frente, não há como duvidar. O que colocaremos no lugar das lideranças? Em quais pares poderemos depositar confiança? Se não há mais um líder de matilha inconteste, como lidaremos com o dissenso daqui por diante? Será que estamos fadados a descobrir mais uma vez que o homem é o lobo do homem?

Não tenho resposta para nenhuma dessas questões, mas não acredito no aprofundamento das lutas fratricidas. Quero acreditar que, por puro cansaço de esperar por um grande pai capaz de colocar todos os conflitos em pratos limpos, surgirá no horizonte algum sol de convivência respeitosa com a frustração.

Seja como for, aguardo esperançosa a emergência de novas utopias. O cooperativismo, minha utopia pessoal, é apenas uma das formas que encontrei de apostar na tese de que todo caos é criativo. Se ela se mostrar inviável e se as alternativas falharem, nem tudo estará perdido. Ecoando o pensamento de Eduardo Galeano, manifesto amorosamente a crença de que a função crítica de toda utopia é a de nos forçar a caminhar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Perguntar não ofende ‒ 5

José Horta Manzano

Por que será que as instâncias superiores não põem em pauta o julgamento dos recursos do Lula? É a melhor maneira de dar um cala a boca a essa choradeira insuportável. Uma vez o processo transitado em julgado, não há volta possível. Que estão esperando? É passo importante para a pacificação nacional.

Molecagens de um plantonista

José Horta Manzano

Onde já se viu juiz plantonista determinar soltura do Lula? Que vergonha esse carnaval que ele armou, gente! O mundo sabe que nosso país não é o primeiro da classe em matéria de organização, mas assim também já é demais. O observador estrangeiro, que acredita na seriedade de determinações judiciais, continua se esforçando pra manter o Brasil no rol dos países sérios. Mas está difícil.

Essa palhaçada montada pelo plantonista de Porto Alegre fez a mídia internacional correr feito barata tonta atrás da verdade. Se no Brasil já estava difícil acompanhar o ritmo frenético de ordens e contraordens, imagine a perplexidade que invadiu as redações de França, Oropa e Mongólia.

No domingo, o jornal televisivo das 19h disse que o Lula ia ser solto. O boletim radiofônico das 20h desmentiu. O televisivo das 22h reiterou. O portal informativo na internet disse outra coisa. Em virtude desse diz-que diz, o Lula acabou sumindo do noticiário nesta manhã de segunda-feira. É que, por não entender bem o que está acontecendo, a mídia decidiu abster-se. Até pra bagunça tem limite.

É a imagem do Brasil que se vai deteriorando a cada dia. O pior é que, no frigir dos ovos, bufonadas rasteiras como essa não servem a ninguém. O condenado continua encarcerado. E o país confirma seu lugar no clube dos subdesenvolvidos. O faroeste é aqui.

Ressaca ‒ 2

José Horta Manzano

Apesar da queda da seleção brasileira, a Copa do Mundo não acabou. Ainda falta uma semana. O número de atores diminuiu, mas a festa continua assim mesmo.

Embarcada a equipe brasileira, começam a escapar algumas verdades pouco comentadas antes. Li estes dias que a obesa delegação de nosso país era composta por nada menos que 150 pessoas. Uma coisa que eu não sabia: jogadores da seleção têm direito a trazer amigos e familiares ‒ a viúva é rica e generosa. Os cartolas-mores se encarregam da logística, compreendendo alojamento e transporte.

Tempos atrás, meu trabalho incluiu viagens com longa permanência no exterior. Como é natural, nunca foi permitido levar parentes nem amigos, que não era hora de farra. O bom senso indica que trabalho é trabalho, e férias são férias. Não se deve confundir.

É provável que a leviandade com que os dirigentes futebolísticos brasileiros encaram competições internacionais explique a negligência dos jogadores quando atuam no gramado. Os jovens se amoldam ao espírito da casa. Além disso, a carga afetiva causada pela presença da família há de contribuir para a instabilidade emocional da meninada. Pode até estar na raiz dos ataques de choro convulso a cada derrota.

Como contraponto, tenho um exemplo edificante. Herr Andreas Granqvist, 33 aninhos, é o capitão da seleção sueca de futebol. Entre dois jogos desta Copa de 2018, tornou-se papai. Diante de fato tão importante, a direção da seleção concedeu-lhe o direito a um bate-volta até a Suécia pra conhecer o rebento. Pois imaginem que a recém-parida esposa foi taxativa: «Nem pensar numa coisa dessas! Faça seu trabalho até o fim, depois você volta». Obediente, o capitão continuou na Rússia até seu time ser despachado pra casa.

Assombroso, não é mesmo?

Ressaca

José Horta Manzano

Este sábado com cara de Quarta-Feira de Cinzas é propício para algumas reflexões futebolísticas despretensiosas.

Azedou
A copa, que era pra ser de champanhe, virou cálice de amargura. Quem provou, desaprovou.

João que chora, João que ri
Tristeza de uns, alegria de outros: os franceses estão rindo à toa por terem escapado de enfrentar o Brasil. Caíram com a Bélgica. Não sei se fizeram bom negócio. Há controvérsia.

Quem muito espera…
Quem fixa meta muito elevada está mais sujeito a se desapontar. Em geral, países põem objetivos mais modestos: chegar às oitavas ou chegar às quartas de final, por exemplo. Quando chegam lá, ficam supercontentes. Já o Brasil mira sempre ao primeiro lugar, sem alternativa possível. Eis por que se decepciona. Não é fácil chegar lá ‒ acontece uma vez a cada 20 ou 30 anos, e olhe lá! Além do mais, nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Soberba
Todos os comentaristas brasileiros se puseram a tentar descobrir onde é que o Brasil errou. Este aponta a falha de tal jogador, aquele reclama da arbitragem, um outro acusa o selecionador. A mim, parece que o problema é exatamente esse egocentrismo que cega.

Todos raciocinam como se a seleção brasileira fosse o centro do universo e que todas as demais equipes gravitassem em órbita longínqua e excêntrica. O bom senso informa que não é assim. Se a seleção do Brasil tem seus méritos, as demais também os têm.

O Brasil jogou bem, não há que dizer. Se perdeu, não é porque tenha jogado mal: é porque a Bélgica jogou muito melhor. O time de vermelho estava num patamar mais elevado, foi mais realista e mais eficaz. Deixou de lado dribles espetaculares ‒ e desastrosos ‒ para ir direto ao essencial. É menos artístico, mas funciona. A nós, está faltando humildade pra reconhecer essa realidade. Repito: nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Palco iluminado
Jogadores vão a campo pra jogar, não pra dar espetáculo teatral. O drama tem de estar centrado na bola que rola. Sem bola, acabou o show. É patético assistir, depois de uma derrota, ao choro convulsivo de marmanjos com pés de barro. Pega mal pra caramba. Tinham mais é que sair rapidinho do gramado e ir chorar no vestiário. Está faltando compostura.

De luxo
Vejo aqueles espectadores decepcionados, chorando pelas arquibancadas, morrendo de pena dos jogadores. E conjecturo que talvez tenham feito prestação pra comprar a passagem para a Rússia. Quem sabe ainda vão passar alguns meses de aperto até quitar o carnê. Enquanto voltam para o hotel, enxugam uma derradeira lágrima e afivelam as malas, os pobres meninos que choravam em campo já terão embarcado num jatinho privê de volta para fazer a festa na mansão de Londres ou de Paris. Ou de Mallorca, que ninguém é de ferro.

Escolha seu candidato

José Horta Manzano

Você sabia?

Não sei se o distinto leitor já sabia. Quanto a mim, acabo de descobrir. Um apanhado de mais de vinte cabeças pensantes (e trabalhantes) se reuniu para dar uma mão ao eleitor brasileiro. Criaram um site ‒ politicos.org.br ‒ que avalia a atuação de senadores e deputados federais da legislatura atual.

Fazia tempo que eu matutava sobre o assunto. Como faço pra ficar por dentro da atuação de cada parlamentar? Entre senadores e deputados, são quase 600! Quando a gente só pode contar com o google, fica complicado, pra não dizer impossível.

O pessoal desse novo site faz o trabalho e entrega o prato pronto. Pra chegar à classificação final, levam em conta, entre outros pontos: a assiduidade de cada parlamentar, os gastos que faz por conta da viúva, os processos judiciais em que é réu, o voto que deu a cada lei, sua formação acadêmica, a frequência com que trocou de partido. Outros atos significativos de cada parlamentar podem também ser considerados.

Pontos positivos (ou negativos) são atribuídos. Na classificação atual, o parlamentar mais bem avaliado é doutor Lobbe Neto, deputado federal pelo PSDB/SP. Ele atinge a respeitável marca de 590 pontos. Na outra extremidade, o lanterninha é doutor Celso Jacob, deputado federal pelo MDB/RJ, autor da proeza de baixar a 1086 pontos negativos.

O site fornece ainda os dados pessoais de todos os parlamentares, incluindo data de nascimento, n° de CPF, formação acadêmica, endereço eletrônico. A classificação por quantidade de processos vai desde os que não respondem a nenhum até os que se encontram esmagados sob um calhamaço de acusações.

Com insistência, recomendo ao leitor que consulte o site antes de decidir. Ponha lá o nome de seu candidato e veja se o doutor (ou a doutora) merece realmente seu voto. Ah! E não se esqueça de espalhar a boa-nova. Vale a pena.