Lula aciona ONU ‒ 2

José Horta Manzano

Nota
Este artigo retoma o tema de ontem. Pra poder acompanhar, é interessante dar uma espiada, nem que seja de relance, no post anterior. É esse que aparece logo abaixo.

Interligne 28a

Lula caricatura 2Vamos dar continuação a nossa conversa de ontem. Falávamos sobre o Lula, esse pedregulho incontornável, essa figura que invariavelmente aparece na origem (ou no epílogo) de nossas mazelas atuais.

Eu dizia que a ONU, além de não ter poder para intervir na querela, tem problemas mais importantes a cuidar. A última coisa que gostariam é de arrumar briga com o Brasil, o que aconteceria se se intrometessem em nossos problemas internos.

Convenhamos: para uma entidade que lida com conflitos planetários, com milhares de mortos, com milhões de refugiados, com tensões políticas e com perigo nuclear, não faz sentido perder tempo com a choradeira de nosso guia.

Mandaram logo o aviso: aqui ninguém dá carteirada. O caso do demiurgo vai entrar no fim de uma fila em que já estão uns 500. Apanhe a senha na entrada, se faz favor. Deixaram claro que ia levar pelo menos dois anos. Com isso, praticamente enterraram o assunto.

Diferentemente do que a defesa do Lula parece acreditar, a ONU dispõe de equipe eficiente de observadores. Como você e eu, também eles estão a par do que se passa no Brasil. Macaco velho não mete a mão em cumbuca.

Lula caricatura 2aAo tentar acionar a ONU, o Lula desclassificou a Justiça brasileira. Deu-se mal. A reação dos magistrados veio no mesmo dia: entrou para a lista dos réus no vendaval de escândalos que varre o país. Com duas particularidades. A primeira é que seu caso não foi parar nas mãos do temido Sérgio Moro, numa prova de que há outros juízes e procuradores sérios no país. A segunda é que a acusação é bem mais pesada do que a propriedade clandestina de triplex ou de pedalinho de lata. O ex-presidente responde agora por obstrução de Justiça, crime bem mais grave.

Um Lula visivelmente abalado houve por bem dar resposta. Não lhe ensinaram que, em certas ocasiões, mais vale se eclipsar. Fez-se de desentendido. Perante plateia amestrada, esquivou-se da acusação mais grave e ateve-se a repetir que não possuía imóvel registrado em seu nome, lenga-lenga que todos já ouviram.

Lula caricatura 2Mal aconselhado ‒ ou «alterado», segundo as más línguas ‒, ameaçou candidatar-se à presidência do Brasil em 2018. Sim, distinto leitor, até o próprio Lula já se deu conta de que o espectro de sua volta ao poder soa como ameaça. Foi como se dissesse: «se insistirem nas investigações, posso até voltar».

A meu ver, errou. Deu ideias aos juízes. Entregou o ouro aos bandidos, como se diz. Ativou o risco de ser condenado à perda dos direitos civis. Numa demonstração de que vive desligado da realidade, está cutucando a onça com vara pra lá de curta.

Lula aciona ONU

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Assombrado com a ordem de prisão, cada dia mais nítida, o batalhão de advogados do Lula implora à ONU que faça alguma coisa para proteger o antigo mandatário.

Não por acaso, usei o verbo implorar. O Brasil, como país soberano, dispensa tutela de organismos estrangeiros ou supranacionais. Se nem o Mercosul tem poder de influenciar nossas instituições, menos ainda terá a Organização das Nações Unidas. O Lula há de estar em pânico, o que explica estar arriscando as últimas fichas na empreitada. Acaba de dar passo perigoso.

Há duas possibilidades: a ONU tanto pode aprovar como reprovar o funcionamento da Justiça brasileira. Caso considere o processo isento e honesto, Lula terá perdido definitivamente a batalha ‒ quiçá a guerra. Caso considere que o ex-presidente é vítima de jogo de cartas marcadas, como numa «república de bananas», nosso Judiciário se sentirá, com razão, afrontado, ofendido e desafiado.

Lula caricatura 2aNinguém gosta de se sentir afrontado, nem ofendido, muito menos desafiado. O orgulho nacional será atingido. Nossos magistrados se sentirão todos insultados. Esse sentimento periga voltar-se contra o acusado, surtindo efeito contrário ao que estava sendo buscado.

É verdade que o Lula não tem muitas opções. Como cônjuge de cidadã italiana, deve ter imaginado poder um dia, em caso de necessidade, refugiar-se na Itália. O caso Pizzolato freou seus ardores. A Itália provou que, quando lhe parece justo, não hesita em extraditar os próprios cidadãos.

Caso consiga escapar das garras do juiz Moro, como tem tentado, quem garante que nosso guia não cairá nas mãos de magistrado ainda mais rigoroso? Moro não é o único juiz competente e tenaz.

Lula caricatura 2Se escolher deixar o país e estabelecer-se em alguma ilha paradisíaca, estará abrindo o flanco para os EUA pedirem ‒ e obterem ‒ sua extradição. Transação internacional de dinheiro sujo ou limpo costuma transitar por aquele país. No escândalo que emaranha Lula, Petrobrás, Mensalão, Eletrobrás, BNDES & companhia, não será difícil encontrar fundamento jurídico para pedido de extradição. Bilhões de dólares roubados aqui transitaram por lá.

Sobra ainda a possibilidade de o Lula pedir asilo político a algum país. (Quem garante que a eventualidade já não tenha sido sondada?) Não vai ser fácil encontrar abrigo. Se ninguém quis acolher um simples Snowden, quem abrigará um Lula? A Bolívia ou a Venezuela talvez? Pode ser um caminho. Pelo menos, enquanto não caírem os respectivos governos.

Vão ainda duas ou três reflexões. A primeira, mais evidente, é quanto ao custo do batalhão de advogados. Quem paga? Estarão todos trabalhando por amor a um acusado desvalido?

Outra observação é quanto à escolha do escritório de Mister Robertson, jurista australiano especializado em direitos humanos, que conta com Salman Rushdie e Julian Assange entre seus clientes. Não é um fantástico cartão de visitas.

Lula caricatura 2aO escritor britânico Salman Rushdie sobrevive há quase 30 anos, sob rigorosa proteção policial, a uma ordem de assassinato expedida pelo bondoso (e já finado) aiatolá Khomeini. Quanto a Mister Assange, esconde-se há quatro anos num cubículo da embaixada do Equador em Londres. Visto o histórico da banca de advocacia de Mister Robertson, não fica claro o que podem fazer pelo Lula.

Penso ainda no foro competente para julgar nosso ex-presidente. Por enquanto, é acusado comum. Na inimaginável eventualidade de dona Dilma voltar à presidência, o Lula poderia até ser nomeado ministro, o que lhe daria direito a ser julgado pelo STF. Ainda assim, não é concebível que a maioria de nossos magistrados-mores se pronunciem pela total inocência do indiciado. Nenhum deles vai querer entrar para a História com reputação manchada.

Uma saideira: ninguém garante que as informações vazadas até agora representam a totalidade dos indícios e das provas. Debaixo desse angu ainda deve ter muita carne.

Interligne 18c

Observação
Para quem acaba de chegar de Marte, aqui está a notícia no Estadão e na Folha de São Paulo.

Autoilusão

José Horta Manzano

Uma chamada do Estadão de 27 de jan° me chamou a atenção. Falo de uma sintomática declaração do presidente do CIO ‒ Comité International Olympique. Ao desembarcar no Rio, Herr Bach foi logo deixando claro: «Temos inteira confiança no Brasil». Hmmm…

JO 2016Alguém imagina a autoridade máxima do esporte mundial soltando frase assim logo antes do início dos Jogos Olímpicos de Londres? Algo do tipo «Temos inteira confiança no Reino Unido»?

Quando um dirigente insiste em afirmar o que deveria ser evidente é mau sinal. Soa menos como convicção e mais como o que os ingleses chamam «wishful thinking», uma interpretação dos fatos que não traduz a realidade como ela é, mas como gostaríamos que fosse.

Chamada Estadao, 27 jul° 2016

Chamada Estadao, 27 jul° 2016

Na hora me vieram à mente duas imagens. A primeira é a de um certo ex-presidente que ousa duvidar haver «nessepaiz» viv’alma mais honesta que ele. Ao dar-se conta de que ninguém mais lhe dá crédito, o enjeitado líder sentiu necessidade de soltar a frase lapidar.

A segunda imagem é a de certa presidente afastada que, embora tenha ocupado funções de mando nos últimos 13 anos, insiste em considerar-se alheia a todo o descalabro que se instalou no país. «Sou mulher honesta, não cometi crime e nunca me vali de caixa 2.»

Autoilusão.

Os coxinha

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que ascensão social não rimava necessariamente com geladeira em casa nem se restringia a adquirir bens de consumo. Gente fina sabia se comportar. Quem não sabia fazia questão de imitar a boa postura e o falar que lhe pareciam corretos. Palavrão e palavreado chulo, nem pensar: eram reservados pra discussão de boteco.

As pessoas de poucas letras procuravam se esmerar. Conheci gente simplesinha que, num fenômeno que gramáticos chamam de hipercorreção, pronunciavam «galfo» em vez de garfo. Era na intenção de não fazer feio. Em resumo, a evolução não devia se limitar ao aumento do saldo bancário ‒ devia atingir diferentes facetas.

Faz uns meses, o Brasil inteiro tomou conhecimento de conversa telefônica entre dona Marisa Lula da Silva e um dos filhos. O palavreado não era edificante. Entendo que a família Lula da Silva tenha origem humilde. Isso não é defeito nem doença ‒ tem remédio e tem cura.

Marisa Leticia 1O fragmento de diálogo deixou claro que os mais de trinta anos de ascensão social não foram suficientes para elevar o nível de compostura da família. Terão certamente adquirido geladeira e talvez tenham até dispensado o pinguim que costumava morar em cima. Mais que isso, dizem as más línguas que têm apartamento na praia, sítio com pedalinhos e até algumas dezenas de milhões encafuados por aí.

Quanto ao palavreado entre mãe e filho, é consternador. Não se bonificou com a ascensão da família. Meus distintos leitores com certeza ficaram chocados. Durante os oito anos(!) em que foi primeira-dama do país, aquela senhora permaneceu enclausurada em inexplicável mudez. Hoje, entende-se por quê. Foi melhor assim.

De ex-primeira-dama flagrada soltando palavrão, seria de esperar que se envergonhasse e se escondesse debaixo da cama até baixar a poeira. Com o tempo, tudo se esquece. Espantosamente, não é o que se viu. A referida senhora teve a petulância de pleitear, junto à União, indenização por danos morais. Reclama trezentos mil reais.

É o mundo de ponta-cabeça. O maltratado cidadão brasileiro, chocado e machucado pelo palavreado chulo da ex-primeira-dama, é conclamado a abrir a carteira para indenizá-la. É caso paradoxal em que o ofendido é obrigado a ressarcir o ofensor.

Observação
A Advocacia-Geral da União acaba de dar parecer contrário ao pleito da ex-primeira-dama.

Falam de nós – 18

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não sei se, aí no Brasil, a frase «espirituosa» de senhor Paes, prefeito do Rio, criou remoinho. Por aqui, está dando que falar. Refiro-me à zombaria que o alcaide dirigiu aos esportistas australianos que não apreciaram ter de morar em prédio ainda em obras. Senhor Paes declarou que ia «botar um canguru» à frente do alojamento para acalmar os atletas visitantes. Reflexão fina, civilizada e bem-educada, sem dúvida.

Canguru 1Para ter uma ideia de quanto uma frase desastrada pode ofender, imagine o distinto leitor a situação inversa. Imaginemos que os Jogos Olímpicos tenham lugar na Austrália. Digamos que, ao tomar posse dos alojamentos que lhe destinaram, a delegação brasileira se dê conta de problemas sérios, reclame e se recuse a se instalar. Nessa altura, chega o prefeito da cidade e promete «botar uns macaquinhos» para animar e acalmar os visitantes. Dá pra avaliar a dor do insulto?

E dizer que senhor Paes, apesar dos pesares, não é chucro como um certo ex-presidente do país. Para ilustrar o que digo, garanto tê-lo visto, na época em que os Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Rio, fazer um discurso… em inglês! Esse verniz de cultura, raro em nosso país, só faz dar mais peso ao pronunciamento.

A mídia planetária sabe que o Rio não é Londres. Todos já imaginavam que haveria alguns tropeços. Os primeiros ‒ as obras inacabadas ‒ talvez tivessem até passado batidos, não fosse a calamitosa declaração do prefeito. Para curiosos, aqui está a matéria tratada pelo Courrier International (França), pelo Stuttgarter Zeitung (Alemanha) e pela Tribune de Genève (Suíça).

O Los Angeles Times traz matéria de fundo, sem referência direta ao incidente provocado pelo mandatário carioca. Assim mesmo, o título é duro e desanimador: «The Olympics are coming, but Brazil, beset by troubles and gloom, yawns» ‒ Os JOs estão chegando, mas o Brasil, acossado por distúrbios e pela melancolia, boceja.

JO 2016 3O francês Challenges evoca a Olimpíada do Rio por outro ângulo. O título da matéria não tem como fugir à evidência: «Jeux Olympiques 2016: le Brésil, un hôte à bout de souffle» ‒ JOs 2016 : o Brasil, anfitrião exausto. O texto relembra que os Jogos, idealizados para confirmar o status de grande potência do Brasil, «perigam destacar a precariedade» de nossas instituições.

Na continuação, o texto dá conta do quebra-cabeça que Monsieur François Hollande e outros chefes de Estado e de governo terão de enfrentar quando da visita ao Brasil. Dado que temos atualmente dois presidentes, qual deles deve ser tratado como homólogo? Qual deles terá direito à descontração que costuma reinar entre colegas?

O rigoroso cerimonial não prevê essa situação. Não seria problema tratar com rei que reina ao lado de rei que abdicou. Tampouco causaria embaraço lidar com presidente que é e com presidente que já foi. Mas encarar dois presidentes é cenário insólito.

Interligne 18cObservação:
Nenhum jornal publicou o pedido de desculpas do prefeito. Parece que ficou por isso mesmo. Ele não aprendeu a lição da Pátria Educadora.

Feriados desaparecidos

José Horta Manzano

Você sabia?

Feriado é dia em que assalariado é pago sem precisar trabalhar. A disposição, em princípio, aplica-se a todos. No entanto, por óbvio, certas profissões e funções não podem seguir à risca. Bombeiros, urgentistas, policiais, controladores aéreos, taxistas, cozinheiros, enfermeiros fazem parte das exceções.

Feriados oficiais mudam com o vento e variam com o tempo. Tentar elencar os feriados nacionais brasileiros é pisar terreno pantanoso. Leis, decretos, resoluções e calendários nem sempre estão em sintonia. O emaranhado de dias festivos nacionais, estaduais e municipais tem muito cipó.

Ferias e feriados 2Para confundir de vez, aparece o «ponto facultativo», figura singular, de perfume arcaico. Não é impossível que sua origem seja o «bank holiday» inglês. Nesses dias, o trabalho pode até ser ‘facultativo’, mas não se costuma ver ninguém batendo ponto.

Salvo melhor juizo, os sete feriados nacionais oficiais estão elencados em lei de 2002. São eles: 1° janeiro, 21 abril, 1° maio, 7 setembro, 2 novembro, 15 novembro e 25 dezembro. Fora dessa lista, há os mencionados ‘pontos facultativos’, as festas estaduais e as municipais.

Achei interessante comparar as festas nacionais atuais com as de um século atrás. Em 1916, eram dez dias, três a mais que hoje. Em compensação, não se falava ainda em pontos facultativos.

Carro 15Entre os feriados de 1916, alguns ainda são comemorados. Outros desapareceram. Entre os que sumiram, estão:

24 de fevereiro
Festejava-se a promulgação da Constituição Federal de 1891. Dado que, depois dessa, já tivemos quase meia dúzia, o feriado desapareceu. Não faz sentido mudar a data a cada 15 ou 20 anos.

3 de maio
Comemorava-se a descoberta do Brasil. A escolha do dia 3 de maio devia-se a um erro histórico. O primeiro nome dado às terras avistadas por Pedro Álvares Cabral foi Ilha da Vera Cruz. A liturgia católica consagra o 3 de maio à celebração da verdadeira cruz de Cristo, a Vera Cruz. A carta de Pero Vaz de Caminha, com a data exata, andou extraviada por uns trezentos anos. Na falta de outro indício, adotou-se o 3 de maio para marcar o descobrimento. Hoje se sabe que foi num 22 de abril, mas a informação chegou atrasada: o feriado já tinha caído.

13 de maio
Era a festa da «extincção da escravatura». Já faz tempo que deixou de ser feriado.

Calendario 191614 de julho
Como sabem meus cultos leitores, é o dia da Tomada da Bastilha, festa nacional francesa. A comemoração foi abrasileirada, digamos assim. No Brasil, o 14 de julho passou a comemorar a liberdade e a independência dos povos americanos. De todos os povos americanos, não somente daqueles cuja ideologia do momento empatasse com a nossa. Também esse dia já deixou de ser festa.

12 de outubro
Era o dia do Descobrimento da América. Por coincidência, hoje é um daqueles feriados ‘informais’. Já não faz mais alusão a Cristóvão Colombo, mas a Nossa Senhora Aparecida.

Quais serão os feriados daqui a um século? Quem viver verá.

Ai, meu nome!

José Horta Manzano

Você sabia?

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Chamada da Folha, 22 jul° 2016

Admito que é tarde demais. Mas foi pena ninguém ter avisado ao astro do Barça que Lucca não é nome de gente. É nome de uma belíssima cidade da Toscana (Itália).

Melhor teria feito o neomilionário se tivesse nomeado o filho Luca. Esse, sim, é nome palatável, que aparece na Bíblia e é nome de santo. É muito usado na Itália, na Romênia e, em certa medida, na Alemanha.

Lucca, Toscana, Itália

Lucca, Toscana, Itália

É nome amplamente difundido em numerosas línguas. Veja só:

Indonésio = Lukas
Eslovaco  = Lukáš
Finlandês = Luukas
Húngaro   = Lukács
Japonês   = Rukasu
Armênio   = Ghukas
Francês   = Luc
Polonês   = Łukasz
Russo     = Лука (Luka)
Inglês    = Luke
Tcheco    = Lukáš

Como se vê, o “c” (ou o k) não é dobrado em nenhuma língua. O duplo “c” do nome do menininho, além de parecer esquisito, é de gosto duvidoso.

Amok

José Horta Manzano

Você sabia?

Sabe aquela plantinha à toa, sem graça, que você recebe de presente? Falo daquela que não te agrada, que lhe parece inútil, que chega numa hora em que você não tem vasinho disponível. O que é que você faz? Pois acaba passando adiante. Dá àquela vizinha que adora planta. Em seguida, vira a página e esquece o assunto.

Um dia, muitos anos depois, você percebe que a vizinhança toda exibe, bem na frente da varanda, um vaso enorme, com uma planta linda, viçosa, verdinha, que dá até flor. Observando bem, algo lhe parece familiar. Mas sim! É aquela plantinha à toa que lhe tinham dado um dia e que você tinha desprezado!

Planta 1Como é possível que todo o mundo tenha a mesma? Pergunta daqui, pergunta dali, você descobre que todas são descendentes daquela que um dia foi sua. É que ela pega de galho, vai daí, foi passando de vizinho em vizinho sem você se dar conta.

No finzinho dos anos 1400, o navegador português Bartolomeu Dias dobrou um cabo que marcava a ponta sul do continente africano. Estava se cumprindo a esperança de encontrar caminho marítimo para o Oriente. O primeiro nome ‒ Cabo Tormentoso ‒ foi logo alterado para Cabo da Boa Esperança, dada a boa perspectiva que anunciava.

De fato, a rota se abriu e os lusitanos foram os primeiros a visitar lugares onde nenhum europeu havia jamais botado os pés. Goa, Damão, Malaca, Diu, Baticaloa, Macau são lugares em que os visitantes estabeleceram postos comerciais. Do contacto com os nativos, muito se aprendeu, inclusive palavras e expressões novas.

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Cabo da Boa Esperança, África do Sul

Nas regiões onde predominam línguas do grupo malaio-polinesiano ‒ que vão de Madagascar até o Pacífico, passando por Malásia, Indonésia e Filipinas ‒ os portugueses observaram estranho fenômeno. Durante certas cerimônias, os celebrantes pareciam tomados de loucura furiosa. Queimavam os mortos, matavam os vivos, devoravam crianças, voltavam-se contra si mesmo, rodopiavam sem parar até cair extenuados. A isso chamavam amok. Com o passar dos séculos, o costume felizmente se perdeu, ao menos por aquelas bandas. Mas o nome ficou.

Como plantinha à toa, os portugueses trouxeram a palavra pra casa mas, não vendo utilidade, cederam aos vizinhos e nunca mais pensaram nisso. Acontece que ela pega de galho. Praticamente em desuso entre nós, o termo permaneceu vivo no resto das línguas europeias. Tem-se revelado utilíssimo nestes tempos de repetidas carnificinas.

Estes dias, todos os jornais alemães fazem referência ao Amok ‒ matança em grande escala ‒ que ocorreu num centro comercial de Munique. Russos, poloneses, italianos, franceses, suecos, espanhóis e numerosos outros guardam a grafia original. Os ingleses hesitam entre amok e amuck. Nós temos a escolha entre amoque e amouco. Mas não adianta nem usar: ninguém vai entender. A palavra está em coma, falta ressuscitar. Há uma alternativa muito na moda: reimportar do inglês sem tirar nem pôr. Quem sabe?

Livro 8 AmokO escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou, em 1922, o livro Amok, que relançou o termo em alemão. Discorre sobre o Amokläufer ‒ indivíduo tomado de brusca loucura assassina. O termo é adequado para descrever os atos de alguns dos que temos chamado ‘lobos solitários’.

Para encerrar o assunto, fica a pergunta: por que é que toda essa matança acontece de repente, em repetidas ações sem nexo aparente entre elas? Uma emulação me parece evidente, um efeito de imitação. Já quanto às motivações, é melhor consultar doutor Freud.

Ocultação de crime

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Chamada do Estadão, 22 jul° 2016

Na máfia, essa atitude é conhecida como omertà(*). Criminoso apanhado pela Justiça mente para cobrir e proteger um superior. Faz parte dos códigos da bandidagem.

Em terras civilizadas, isso se chama não denunciação de crime (ou ocultação de crime ou ainda obstrução de Justiça), ato que costuma ser reprimido e punido pela lei. Na hipótese mais benigna, será considerado fator agravante de outros crimes. Como reagirão os juízes de Curitiba?

(*) Nota linguística
Omertà é palavra presente em dialetos do sul da Itália, especialmente em napolitano. É a maneira local de dizer umiltà (= humildade). A Lei da Humildade é outro nome da Lei do Silêncio. Segundo ela, bandido não tem o direito, em nenhuma hipótese, de denunciar comparsa. É obrigado a calar-se, evitando, assim, que o companheiro seja apanhado pela Justiça.

Na mafia siciliana, na camorra napolitana e na ‘ndrangheta calabresa, quem entregar companheiro tem o destino selado: mais cedo ou mais tarde, será despachado desta para melhor.

Na organização criminosa que se apoderou de nosso andar de cima, porém, as regras são mais flexíveis: a Lei do Silêncio transformou-se na Lei do Salve-se Quem Puder. Afinal, o brasileiro é, antes de tudo, cordial. Ou não?

Extremismo à brasileira

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cabeçalho 13

Olá,

Somos um grupo amador brasileiro especializado em atentados a bancos, empresas e veículos de segurança, tráfico de armas e de drogas. Apesar de já termos galgado posição de destaque junto à criminalidade dentro e fora do território do Rio de Janeiro, sentimos que ainda não alcançamos a projeção a que aspiramos e à qual acreditamos ter direito na mídia brasileira e internacional. Atribuímos esse estado de coisas à acirrada concorrência que temos enfrentado nos últimos anos na esfera política nacional. São tantos e tão variados os escândalos de corrupção na administração municipal, estadual e federal que praticamente não sobra tempo à imprensa livre para cobrir eventos ‒ por mais impactantes que sejam ‒ fora do âmbito político-empresarial.

Assalto 10Em função dessas contingências, estamos pensando em nos profissionalizar e atuar fora de nossa área de especialização, evoluindo para a área do terrorismo internacional. Contamos com muitas habilidades que, temos certeza, serão de grande valia para sua organização durante a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Conhecemos cada minúsculo beco da cidade-sede, temos gente nossa infiltrada em milícias das várias comunidades cariocas, na polícia estadual e até mesmo em quadros da administração local. Além de podermos facilmente nos misturar à multidão, não enfrentamos obstáculos maiores para lidar com o controle de fronteiras, em especial no sul do país, já que contamos com soldados habituados a tratar com militares na tríplice fronteira Brasil – Argentina – Paraguai.

JO 2016Para melhor servi-los, já nos inscrevemos em cursos diversos, inclusive artes marciais, tiro e língua árabe. Adquirimos recentemente algumas metralhadoras AK-47 numa transação virtual com lojas do Paraguai para não levantar suspeitas desnecessárias, coisa que certamente teria ocorrido caso nos tivéssemos deslocado até lá.

Outro de nossos diferenciais é que fazemos parte de uma população universalmente reconhecida como inventiva, adepta da improvisação e aberta às mais diversas orientações sociais, religiosas e ideológicas. Multiculturalismo, acolhimento de estrangeiros e sincretismo religioso são pontos fortes de nossa cultura e de nosso grupo. Ainda que nos agrade pensar que somos abençoados pelo Cristo Redentor, não vemos incongruência em aderir aos preceitos muçulmanos, principalmente se as virgens prometidas aos mártires da fé puderem ser desfrutadas com antecedência, já neste plano, e se nossa cervejinha santa de todos os dias puder ser consumida excepcionalmente por nossos combatentes, ao menos nos dias de ação.

Cerveja 1Podemos adicionalmente oferecer consultoria quanto às características físicas, vestimentárias e comportamentais a ser observadas por lobos solitários que venham a ser recrutados. Como deve ser de seu conhecimento, o calor da cidade do Rio de Janeiro, inclusive no inverno, torna contraindicado trajar vestes pesadas ou portar cinturões de explosivos que só serviriam para retardar o deslocamento e a fuga. Dispomos de farto estoque de bananas de dinamite que poderiam ser rapidamente alocadas em diversos locais de concentração de público. Ninguém se assustaria também com a visão de armas de grosso calibre, nem com eventuais tiroteios, uma vez que isso já faz parte da paisagem natural carioca. Nosso trânsito caótico pode permitir ainda a utilização de todo tipo de veículos leves e pesados, mesmo em áreas interditadas. Atropelamentos não são exatamente uma novidade para nós. Podemos considerar inclusive a utilização de embarcações de todos os tipos para rápido deslocamento por mar durante as provas aquáticas. Finalmente, estamos preparados para nos valer de infinitas formas de disfarce, como é tradição em nosso Carnaval.

Odalisca 1Expostas todas essas características, só nos resta torcer para que vocês, companheiros de luta, se sensibilizem e aceitem nosso pedido de filiação. Aguardamos ansiosamente sua resposta e nos colocamos à disposição para toda informação adicional concernente à nossa expertise. Aproveitamos o ensejo para solicitar que a comunicação entre nós fique restrita à troca de faxes, considerando o alto risco de rastreamento de nossos celulares.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Extradição de nacionais

José Horta Manzano

Embora não seja romance palpitante, nossa Constituição não deixa de ter capítulos interessantes. Tem também muita coisa chata, que ninguém se engane. A regulamentação da repartição das receitas tributárias ou as disposições gerais do Poder Judiciário, por exemplo, são para especialistas. Assim mesmo, para leigos, há coisa melhor.

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

O artigo 5°, que aparece logo no Primeiro Capítulo, está entre os mais extensos. Trata dos direitos e garantias fundamentais do cidadão e conta com nada menos de 77 alíneas. Entre elas, a de número 51 é taxativa: «nenhum brasileiro será extraditado». A exceção fica por conta dos naturalizados que tenham cometido crime antes da naturalização ou que sejam acusados de tráfico de drogas.

Certas disposições, que podiam fazer sentido um século atrás, vêm sendo atropeladas pelo galope da globalização. Relações entre países têm rapidamente abandonado antigos ritos e cerimoniais que já não cabem no mundo de hoje.

Fica a desagradável impressão de que nossa atual Constituição já nasceu envelhecida. É verdade que teve o azar de ser promulgada em plena Guerra Fria, pouco antes de a União Soviética desmoronar. Tivesse sido concebida um ano mais tarde, a orientação geral teria sido diferente. Mas assim são as coisas.

No meu entender, a proibição absoluta de extraditar brasileiro é discutível. Tinha de ser permitida sob certas condições. Que se protejam conterrâneos de serem julgados em países onde regras democráticas não passam de ficção é compreensível. Ninguém imaginaria despachar acusado, seja ele quem for, para a Coreia do Norte, para Cuba ou para o Afeganistão.

Cela de prisão suíça

Cela de prisão suíça

No entanto, não enxergo escândalo em extraditar, para fins de julgamento ou de cumprimento de pena, brasileiros que tenham cometido crime em país onde a Justiça for universalmente reconhecida como sensata e equânime ‒ ainda que mais rigorosa que a nossa.

O México, país hermano não tão diferente do nosso, aprovou, mês passado, a extradição para os EUA de um líder do narcotráfico. O indivíduo era procurado por introdução e distribuição de cocaína em território americano. Mais que isso, pesava sobre ele acusação de homicídio. Para citar outro exemplo, não faz muito tempo que a Itália nos devolveu signor Pizzolato, cidadão italiano, para cumprir pena no Brasil, onde havia delinquido.

Acho que cada um deve responder por seus crimes no país onde os tiver cometido. Não vejo nisso nenhuma desonra nem renúncia à soberania nacional.

Olimpíada e cheiro de cavalo

José Horta Manzano

João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999) foi o mais recente militar a ocupar a chefia do Executivo. Último presidente da série iniciada em 1964, não se pode dizer que tenha sido pessoa de fino trato. A ele, atribuem frases pra lá de politicamente incorretas. Eis algumas:

  • «Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.»
  • «Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.»
  • «Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.»

Essa é pequena parte da coleção. Há coisa bem mais apimentada. No entanto, ninguém é totalmente branco nem inteiramente preto. Entre os dois extremos, todos carregamos nuances de cinza. O general Figueiredo não era exceção. Entre as barbaridades que pronunciou, há pelo menos uma que fez muito bem ao Brasil.

Cavalo 1A Copa do Mundo de 1986 estava programada para ter lugar na Colômbia. Graves desordens naquele país obrigaram a Fifa a procurar, de última hora, novo país-sede. João Havelange, então chefão do futebol mundial, propôs a João Figueiredo que o Brasil acolhesse o Campeonato.

Desprezando a «honra» que a fabulosa proposta oferecia ao país, o mal-humorado presidente deu resposta curta e grossa a Havelange: «Você já viu uma favela no Rio de Janeiro ou uma seca no Nordeste? Acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?» A frase foi confirmada, anos depois, pelo neto do general.

A Copa foi para o México e a página foi virada. Os anos passaram. O Brasil, acreditando nas juras de honestidade de um grupo que parecia ter moralidade acima da média, foi ludibriado. Caiu na rede de um bando de criminosos que conseguiram assaltar o país por longuíssimos 13 anos.

Figueiredo pode ter sido ignorante, mas mostrou ter mais apreço por seu país do que o finado governo. E pensar que o lulopetismo se dizia «popular e voltado ao social». Quanta hipocrisia!

O general presidente, embora chucro, deu-se conta de que o Brasil tinha outras prioridades além do futebol. Recusou e bateu pé. Já o demiurgo populista, igualmente chucro, deu-se conta de que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos abriam excelente oportunidade para negócios. E para obscuras transações.

Sondagem DataFolha, jul° 2016

Sondagem DataFolha, jul° 2016

O resultado é um Brasil empobrecido que ainda espera, pires na mão, os benefícios que a Copa 2014 devia ter trazido. Que espere sentado.

Infelizmente, a coisa continua: ainda temos pela frente um evento mundial, os Jogos Olímpicos Rio 2016. A Folha de São Paulo ‒ jornal que não pode ser acusado de oposição sistemática ao lulopetismo ‒ revela que 63% dos brasileiros (dois em cada três) consideram que a Olimpíada vai trazer mais prejuízos que benefícios.

Só que agora é tarde, minha gente. A quem elegeu o Lula, sobram os olhos pra chorar. A quem não votou nele, sobra a esperança de que tudo vai passar. Um dia, ainda hemos de sair do buraco.

Dicas para atentado

José Horta Manzano

Seria cômico se não fosse trágico. Ok, a frase é batida, já virou chavão, mas continua dando recado certo. Não fosse a triste realidade, seria piada daquelas de a gente se esborrachar no chão.

Da meia dúzia de megalópoles brasileiras, o Rio de Janeiro é a primeira a vir à mente quando o assunto é violência e ousadia da bandidagem. Estatisticamente, o Rio pode até ser superado por alguma outra capital. No entanto, no imaginário do brasileiro, persiste a ideia de que a cidade é violenta.

Chamada do Estadão, 21 jul° 2016

Chamada do Estadão, 21 jul° 2016

Já ensinava o Conselheiro Acácio que é muito difícil prever o futuro, que todos podemos nos enganar. Mas arriscar um palpite não é proibido. Quanto a mim, o risco de atentado terrorista no Brasil ‒ e nos JOs do Rio em particular ‒ é muito baixo.

É um bocado problemático imaginar um candidato a camicase embarcar num avião em Istambul ou Paris, desembarcar no Rio, procurar seu contacto, receber instruções, cintura de explosivos e kalashnikov, chegar até o lugar do atentado em dia e hora, burlar todos os controles e, finalmente, ser bem sucedido em sua façanha. Há muito obstáculo pelo caminho: distância transcontinental, barreira da língua, diferença de aparência física, dificuldade de transitar com material explosivo debaixo de roupas leves como as que usamos em clima tropical.

Assalto 2Quanto à bandidagem nacional, não há problema, é de outra natureza. As motivações estão a anos-luz de todo fanatismo religioso. Nossos bandidos domésticos são mais chegados à desonestidade, à malandragem, à boa-vida. Não me parece que se deixem comover por apelo de djihadistas. Faz anos que sabem como agir sem precisar de orientação.

Não há grande coisa que se possa fazer pra evitar distúrbio maior. De toda maneira, nossa catástrofe já está aí, diária, crônica, longeva e permanente. Já temos similar nacional, dispensamos importação.

Uótisápi ‒ 2

José Horta Manzano

O CIO ‒ Comité International Olympique, autoridade que controla e regula as atividades esportivas, anda cheio de dedos. Cabe-lhe tomar decisão pra lá de crucial: autorizar (ou bloquear) a participação dos atletas russos nos JOs Rio 2016, programados para daqui a duas semanas.

Comitê Internacional Olímpico Maquete da nova sede, Lausanne, Suíça

Comitê Internacional Olímpico
Maquete da nova sede, Lausanne, Suíça

A situação é embaraçosa e o veredito, seja qual for, será criticado. Se a Rússia for autorizada a enviar todos os seus esportistas, muitos ressentirão como se isso fosse um prêmio à dopagem, um incentivo à esperteza. Caso a participação da delegação seja vetada, a decisão soará como punição coletiva, situação intolerável em que inocentes pagam pelos «malfeitos» de pecadores. Punição coletiva pode ser cômoda para quem pune, dá menos trabalho, mas não cabe em nossa noção de Direito.

Como já havia acontecido em maio passado, a decisão autocrática de um magistrado brasileiro suspendeu, com efeito imediato, o funcionamento do aplicativo uótisápi (em brasileiro, whatsapp). A intenção é punir a empresa por negar-se a fornecer à Justiça certos dados confidenciais.

Whatsapp 1Está aí, de novo, um caso típico de desagradável (e desnecessária) punição coletiva. Não saberemos nunca se faltou imaginação ao juiz que determinou a interdição ou se a intenção era exatamente ser mimado com um dia de notoriedade e glória.

Há outras formas mais eficientes, embora menos vistosas, de pressionar uma empresa. Que tal uma multa diária? Fica aqui a sugestão para a próxima vez.

Definitivamente, não é justo punir todos os usuários do aplicativo. Não vale a pena acrescentar mais um tijolo ao edifício da insegurança jurídica que reina, majestosa, em nosso país. No estrangeiro, cai mal pra caramba.

Tribunal da consciência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estou seriamente preocupada. Esgotaram-se os argumentos que eu poderia usar em minha defesa caso um dia fosse acusada injustamente de alguma transgressão grave.

Mortificada com a atual onda de delações, premiadas ou não, eu vinha me preparando para enfrentar o surgimento de potenciais acusadores, conhecidos ou desconhecidos, cujas motivações me fossem sabidas ou sentidas como absolutamente sem propósito.

Me engana, que eu gosto

Me engana, que eu gosto

Só para que se possa dimensionar melhor o tamanho da minha aflição, eis uma lista não exaustiva das alegações que coletei ao longo de poucas semanas:

  • Sou absolutamente inocente e provarei isso no momento oportuno.
  • Tenho a consciência limpa e tranquila.
  • Sou a alma mais pura do planeta.
  • Isso é uma calúnia, uma difamação intencional.
  • Não há provas contra mim.
  • Delação não é prova.
  • Sou uma pessoa honesta.
  • Não menti. Nunca fiz nada de que possa me arrepender.
  • Tenho uma longa história de prestação de serviços a meu povo.
  • Estou sendo vítima de perseguição política.
  • Meus advogados provarão em tribunal que não tenho nenhuma responsabilidade.
  • Confio na Justiça do meu país e tenho certeza de que a verdade prevalecerá.

E por aí vai. Que ninguém se engane, os malfeitos de que podemos todos ser acusados não se restringem ao campo político. Destruição intencional do sistema ecológico; contratação de mão de obra infantil ou de trabalhadores em regime análogo à escravidão; acobertamento de pedófilos, estupradores e criminosos, comuns ou de trânsito; discriminação racial, religiosa, social ou ideológica, etc. e até maus tratos a animais são outras possibilidades bastante comuns.

É por isso que minha paranoia persiste. Mesmo tendo muitas vezes a impressão de que sou uma pessoa do bem, generosa e responsável, sempre comprometida com o bem-estar de terceiros, não posso descartar a chance de que outras pessoas me avaliem sob ótica diferente. Alegar que agi contra a lei movida por “questões humanitárias”, como já tentaram antes, também não me serve de salvo-conduto. Sou humana, eis tudo.

ContriçãoOntem fui dormir preocupada, ainda sob o impacto do mais recente atentado terrorista. No limiar entre a vigília e o sono, me perguntava como e por que as pessoas enlouquecem e se dispõem a destruir tudo à sua volta. Serão esses eventos extremos uma triste consequência da confusão que estamos fazendo entre o mundo virtual e o real? Quando uma pessoa aceita se divertir com jogos virtuais que propõem atropelar o maior número possível de pessoas ou disparar tiros de metralhadora a esmo para atingir o máximo de “inimigos”, como ela faz para conter a náusea provocada pelas imagens de corpos destroçados? Será que é preciso sentir o cheiro de sangue para que a experiência do horror se concretize?

Outro detalhe relevante para entender meu pesadelo. Durante a tarde, eu tinha gasto também algumas horas cuidando da tradução de um termo de responsabilidade redigido em sutil palavreado jurídico. A empresa solicitava que contratados temporários assinassem uma declaração isentando o empregador de responsabilidade por eventuais acidentes de que pudessem ser vítimas no trabalho. Senti um aperto no peito ao buscar os termos mais adequados para traduzir essa intenção e tentei me livrar dele pensando com meus botões que, fosse como fosse, o documento não teria validade jurídica em nenhuma corte nacional nem internacional.

Não me arrependo de nada

Não me arrependo de nada

Sonhei que estava em Nice e era contratada pelo dono da empresa de transportes para traduzir um comunicado público, através do qual ele pretendia “dourar a pílula” de sua responsabilidade pela tragédia do 14 de julho. Continha frases como “já transportamos cargas e cargas de alegria, esperança e vida”, “caminhões são apenas ferramentas”, “não podemos responder legalmente pelo mau uso de nossos veículos”, “o motorista não fazia parte de nossos quadros”, etc.

O crescente incômodo com aquelas tentativas vergonhosas de livrar a própria cara acabou me forçando a interromper o trabalho. Resolvi telefonar para o proprietário e alertá-lo sobre as consequências negativas para a imagem de sua empresa. Lembrei a ele que muitas famílias traumatizadas poderiam acioná-lo judicialmente pela insensibilidade de não oferecer ajuda. No limite, disse, ele estaria dando um tiro no próprio pé, correndo o risco de nunca mais conseguir alugar seus caminhões para boa parcela da população local. Arrogante, ele enfatizou que cabia a mim apenas a tarefa de colocar em palavras exatas de outro idioma o que estava contido no documento original. Que, por não ser advogada, não me cabia julgar a adequação da conduta da empresa.

Cidade de Nice, que já foi lígure, grega, romana, ostrogótica, saboiana, piemontesa e italiana. Hoje faz parte da República Francesa.

Cidade de Nice, que já foi grega, romana, ostrogótica, genovesa, saboiana, piemontesa e italiana.
Hoje faz parte da República Francesa.

Indignada, informei então que estava desistindo da tarefa que me fora confiada. Ele reagiu com indiferença. Desliguei o telefone e sai à rua, tentando me acalmar. Meu cérebro, no entanto, não me dava sossego. A pergunta circulava com velocidade cada vez maior na minha cabeça: “Afinal, não foi isso o que você sempre fez e sempre se orgulhou de fazer? Convencer as pessoas com palavras bonitas de que suas intenções são nobres?”

Acordei encharcada de suor. Pensando bem, talvez tenha sido esse, de fato, o propósito de todo meu labor. Mas, se isso é verdade, o que dizer das palavras que meu anjo sopra em meu ouvido quando estou perdida? Será que ele não passa de um embusteiro, um demônio provocador?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.