O pós-pandemia

José Horta Manzano

Em março último, assim que o surto de coronavírus apertou e virou pandemia, o presidente da França fez importante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e tevê. Na fala, destacou os perigos da doença nova e, solene, declarou que o país estava em estado de guerra. Guerra contra o vírus, naturalmente.

Acrescentou que muitos sacrifícios estavam por vir e que o combate não podia ser encarado com pouco caso. Talvez, naquele momento, nem ele nem ninguém tivesse consciência da extensão da diabrura que o coronavírus estava aprontando.

Passados nove meses, a tempestade continua rugindo. E ainda estamos no olho do furacão, posição de onde ainda não dá pra ver o fim da agitação. Não sabemos quanto tempo ainda vai durar nem qual será o desfecho. Muitas interrogações ainda flutuam, irrespondidas.

Será que as vacinas vão imunizar mesmo? Quem já teve a doença pode ter de novo? E se o vírus sofrer mutação, a vacina continua valendo? Por que razão pessoas relativamente jovens são vítimas de forma grave da doença, enquanto outras, mais velhas, dão três espirros e logo estão curadas? Só não continuo a lista de perguntas por falta de espaço.

Entre altos dirigentes mundiais, poucos devem estar vislumbrando com exatidão as consequências da pandemia. Ela botou por terra muitas das certezas que a humanidade tinha acreditado serem direito adquirido. Quem, em sã consciência, dois anos atrás, teria imaginado um mundo em que os cidadãos andam mascarados, não apertam mãos, não se abraçam? Um mundo em que adultos não vão a restaurante, e crianças não vão à escola? Um mundo em que cúpulas de chefes de Estado se fazem por vídeo?

Algumas consequências, mais evidentes que as outras, me ocorrem.

  • A juventude ficará marcada por um ano em que o aprendizado foi perturbado, interrompido, chacoalhado.
  • Companhias aéreas estão todas com a língua de fora. As que puderem contar com repescagem governamental se salvarão; para as outras, o futuro é escuro. O ramo de transporte e turismo vai guardar sequelas por anos.
  • A indústria, que tende a acelerar a cadência a fim de recuperar as perdas causadas pela pandemia, deve provocar forte aumento da poluição atmosférica e, como consequência, precipitação do desastre climático.

Muitas mudanças mais hão de ocorrer. Conceitos terão de ser revisitados e leis terão de ser reescritas.

O pós-pandemia será período propício para a introspecção e para a reflexão. Ainda não é possível avaliar o mundo que emergirá deste período turbulento. Se ele for menos injusto que o atual, já estaremos no lucro.

O ladrão e o larápio

José Horta Manzano

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Orgulhoso de estar dando um furo de reportagem, o autor da façanha não se deu conta da contradição e mandou para publicação. O estagiário não pensou duas vezes: paginou a manchete conforme as instruções recebidas. Ficou esquisito.

Primeiro, a notícia aponta dedo acusador a youtubeiros (=youtubers) que conseguem obter informações privilegiadas do Planalto. Em seguida, não mais que uma linha abaixo, conta que o Estadão teve acesso a mais de mil páginas de um inquérito sigiloso que corre no STF.

Ora, se a acusação é contra cidadãos que receberam informação privilegiada vinda do topo do Executivo, não fica bem ter-se inteirado do ilícito por meio de informação privilegiada vinda do topo do Judiciário.

Taí exemplo uivante do roto falando do rasgado. Ou do ladrão falando do larápio.

Valéry Giscard d’Estaing

José Horta Manzano

Valéry Giscard d’Estaing, que presidiu a França de 1974 a 1981, era uma dessas figuras sorridentes que a gente achava que não fossem morrer nunca. Mas ninguém é eterno. Ele faleceu ontem, aos 94 anos de idade, de complicações da covid.

Valéry Giscard d’Estaing

VGE, como era popularmente chamado, ficou conhecido pelas reformas instauradas durante seu governo, que ajudaram a desempoeirar uma França que cheirava a mofo. A sociedade avançou em diversos pontos.

  • A maioridade civil, congelada na idade de 21 anos desde 1792, foi reduzida a 18 anos de idade.
  • A mulher casada ganhou direitos, entre os quais o de abrir uma conta bancária em seu nome, sem ter de pedir autorização ao marido. Embora hoje pareça algo evidente, foi um grande avanço numa época em que a mulher casada era vista como uma espécie de ‘propriedade’ do esposo.
  • O aborto voluntário foi legalizado e regulamentado.
  • VGE foi o primeiro governante a criar uma Secretaria de Estado dedicada à mulher.
  • O divórcio amigável passou a ser admitido nos tribunais. Até então, para divorciar, o cônjuge requerente tinha de provar a culpabilidade do outro.

Visto que foi presidente jovem, sobreviveu muito tempo depois de deixar o poder. Foram praticamente 40 anos de aposentadoria da vida política.

Seu falecimento me fez lembrar Rodrigues Alves, presidente do Brasil de 1902 a 1906, vítima da Gripe Espanhola em 1919. São ex-presidentes que sucumbiram à pandemia de seu tempo.

Pérfida Albion

José Horta Manzano

O governo britânico acaba de anunciar que a vacinação contra a covid-19 começa semana que vem em todo o reino. O primeiro lote de 10 milhões de doses já está pronto. Ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses já estão de braço estendido à espera da picada.

Governo e população dos demais países europeus estão espantados e incomodados. Uns, por acharem que é temerário utilizar vacina nova demais, recém-saída do forno. Outros, por se sentirem despeitados de ver a ‘pérfida Albion’ queimando a largada e deixando os vizinhos (e o resto do mundo) a comer poeira.

Meus distintos leitores hão de estar intrigados com o título deste artigo. Que história é essa de ‘Pérfida Albion’? É expressão pejorativa usada na França para designar a Inglaterra.

Albion, tradicional alternativa para nomear a ilha, faz referência à cor das falésias que se erguem abruptas no litoral de Dover, porta de entrada da ilha para quem chega da Europa continental. O adjetivo latino albus/alba significa branco/a. A propósito, entre nós, essa raiz deu alvo, alvura, alvorada, alviverde, albino, albumina.

White cliffs of Dover: as brancas falésias de Dover

Quanto à perfídia, não é característica geográfica; neste caso, a palavra é pronunciada com entonação de ofensa. Como toda expressão antiga, sua origem se perde na memória. Há conjecturas. Já encontrei longas listas com momentos históricos em que a Inglaterra teria traído a França. Nesse histórico de deslealdade e traição, finco um pé atrás.

Quando há grande permeabilidade entre países vizinhos, é natural que, em momentos da história, haja surgido uma rusguinha aqui, outra ali. Os argentinos, por exemplo, não hão de ter apreciado nem um pouco quando doutor Bolsonaro declarou, mês passado, que a Argentina ‘vai pessimamente mal por causa do comunismo’. Esse foi um ato de deslealdade para com nossos hermanos, uma ofensa gratuita ao povo que, em voto majoritário, elegeu o presidente Fernández.

Desde tempos antigos, a proximidade entre França e Inglaterra tem favorecido as trocas. Trocas de mercadoria, de ideias e… de flechadas. Para o bem ou para o mal, os atritos continuam e hão de continuar por muitos e muitos anos. Excetuando-se uma catástrofe tectônica, os dois países vão continuar sendo vizinhos de parede.

Quanto à vacina, estão todos acompanhando com atenção a evolução da situação em terras britânicas. Se der certo, eles estarão mostrando o caminho a seguir; se der errado, estarão mostrando o caminho a não seguir. Olho neles!

Os símbolos de lá e os de cá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 novembro 2020.

Berlim, 29 de agosto de 2020
Era uma passeata autorizada. Milhares de manifestantes desfilaram pela cidade para exigir a suspensão da obrigação de usar máscara de proteção contra a covid-19. A manifestação decorreu pacífica, mesmo porque, fora a reivindicação dos participantes, não havia choque de ideias. Não se tratava de embate entre facções; os que se dispunham a acatar a ordem de usar máscara ficaram em casa.

Lá pelas tantas, um grupo de 200 a 300 simpatizantes de extrema-direita, mais exaltados que os demais, conseguiu saltar as grades de proteção que rodeiam o Reichstag, a sede do Parlamento Nacional. Alguns chegaram até a subir os degraus da escadaria antes de serem dispersados por policiais munidos de bombas de gás lacrimogêneo.

Numerosos invasores, saudosistas, agitavam a bandeira do Império Alemão (1871 a 1918) assim como a do início do III° Reich (1933 a 1935). É atitude temerária num país em que cicatrizes de um passado trágico ainda não se fecharam de todo. Ninguém ousou erguer a bandeira nazista, aquela com a suástica, que isso é pecado mortal na Alemanha, passível de encrenca pesada com a Justiça. Após o malogro, os invasores revelaram ter tido intenção de ‘ocupar’ o Parlamento.

Brasília, 13 de junho de 2020
Fazia tempo que apoiadores de Jair Bolsonaro tinham montado acampamento na Esplanada dos Ministérios. Era uma forma peculiar de protestar contra determinadas instituições da República cujo funcionamento não era do gosto deles. O assentamento era selvagem. A lógica elementar ensina que é vedado a um particular assenhorear-se do espaço público, mormente instalando lá sua residência, ainda que temporária. O governo do Distrito Federal ordenou a remoção das tendas. Naquele dia, a ordem foi cumprida. Os apoiadores do presidente, simpatizantes de extrema-direita como os berlinenses, não apreciaram o despejo.

Lá pelas tantas, um grupo mais exaltado de recém-expulsos teve a bizarra ideia de munir-se de fogos de artifício e utilizá-los como mísseis terra-terra. Atiraram os artefatos em direção à sede do STF, como se de bombardeio se tratasse. Jornalistas presentes à ocorrência gravaram ameaças acompanhadas de um caudal de impropérios, todos endereçados a ministros do Supremo.

Conclusão
Ambos os episódios têm pontos em comum. Por exemplo, as duas manifestações começaram dentro de relativa calma para, no final, desandarem por obra e graça de grupos radicais. Por seu lado, seguindo um figurino de romantismo adolescente, alemães e brasileiros se rebelavam contra a ordem estabelecida, fosse ela encarnada por insituições do Estado, fosse pela obrigatoriedade de portar a detestada máscara anticovid. Mais um ponto comum: os manifestantes, tanto os de lá quanto os de cá, estavam cientes de não ter a menor chance de atingir o objetivo esboçado. Nem o Reichstag seria tomado, nem o STF, incendiado. Os atos eram claramente simbólicos.

Ao observador atento, porém, não há de escapar a discrepância maior entre os manifestantes de Berlim e os de Brasília: a simbologia contida na violência de cada episódio. Os exaltados de Berlim mimaram uma tomada de assalto do Parlamento alemão. Por trás de toda purpurina, estava o desejo de tomar a si as rédeas de uma instituição do Estado. Foi como se dissessem: «Arredem daí! Nós, o povo, vamos cuidar do Parlamento melhor do que vocês. Fora!». Nada, na movimentação dos manifestantes alemães, deixou transparecer desejo de eliminar o Parlamento; só de corrigi-lo e de pô-lo no ‘bom caminho’.

Já em Brasília, foi diferente. Nossos exaltados não mostraram intenção de ‘corrigir’ nem de redirecionar a atuação do STF para o ‘bom caminho’. A simbologia contida na simulação de ataque balístico era de destruição pura, de eliminação da Justiça republicana, como quem dissesse: «Não queremos uma Justiça independente. Essa instituição podre tem de ser eliminada. Exigimos que esse Poder seja entregue a nosso líder».

A conclusão que se pode tirar é tenebrosa: nossos exaltados tupiniquins são mais perigosos do que os herdeiros do III° Reich.

Brasileiro não sabe votar?

José Horta Manzano

Para doutor Bolsonaro, a derrota de Trump já tinha sido uma senhora bordoada. Agora, nas municipais, conheceu uma derrota… que adjetivo usar? Vamos lá: estrepitosa. Ou fragorosa. Ou estrondosa. São todos termos que têm a ver com barulho forte de alguma coisa que se espatifa no chão.

O barulho foi tão forte que atravessou o Atlântico. Pela primeira vez, vejo a mídia europeia dar notícias das eleições municipais brasileiras – um assunto, em princípio, sem importância internacional. Pois imagine o distinto leitor que os principais órgãos soltaram uma breve nota sobre o assunto. A ênfase foi posta no fracasso de nosso doutor presidente no teste de meados do mandato.

Para todos os que, como este blogueiro e muita gente fina no planeta, andavam preocupados com a perspectiva de um Trump reeleito e de um Bolsonaro revalidado, foi um alívio. Um grande uff!

No tempo em que os militares mandavam, corria a voz de que ‘brasileiro não sabe votar’. Aliás, a frase foi repetida pelo Pelé, numa declaração imprudente que marcou o personagem e que o persegue até hoje. Olhe que, na época, podia até ser verdade, visto que os eleitores dos anos 70 eram menos esclarecidos que os atuais. Mas a situação mudou, e a prova está no resultado destas eleições.

Em mostra de amadurecimento cívico, o eleitor está reparando erros cometidos ao longo dos últimos vinte anos. Fosse hoje, é de duvidar que figuras simplórias como Lula, Dilma e Bolsonaro fossem eleitas.

by Angel Boligán Corbo (1965-), desenhista cubano

Ninguém está totalmente blindado contra aventureiros que prometem o que jamais poderão entregar. No entanto, o resultado destas municipais mostra um brasileiro menos ingênuo, mais objetivo, mais preparado para filtrar promessas e descartar potenciais estelionatários da política.

O resumo da ópera é que, se conseguir se segurar até o fim do mandato – o que não está garantido –, doutor Bolsonaro chegará ao fim da carreira em 2022. Não será reeleito. Nem ele, nem seu eventual indicado. Aliás, apadrinhamento de Bolsonaro é tóxico: é receber sua bênção e despencar nas pesquisas.

Outro que está queimado é o Lula. E seu partido junto. Não terão chance nenhuma de vencer em 2022. O Brasil acaba de mostrar que se enganou ao crer que Bolsonaro era o antídoto de Lula. Depois de experimentar ambos, optou por uma terceira via.

Assim, Lula e Bolsonaro podem saudar o público e sair de cena. Tanto eles como os respectivos afilhados. Assim que cair o pano sobre o atual governo, poderemos começar a reconstruir o país. Vai ser demorado e trabalhoso, mas não há outro jeito.

Ao vencedor, as batatas!

José Horta Manzano

Para 38 milhões de eleitores, hoje é dia de ir às urnas. De novo. E é bom votar direitinho, porque não há terceiro turno. A escolha de hoje é definitiva e o mandato dos eleitos, de quatro anos.

É de Machado de Assis (1839-1908) a expressão «Ao vencedor, as batatas!», que aparece no romance Quincas Borba. O tubérculo – que antigamente chamávamos batata-inglesa, por oposição à batata-doce – é originário da América do Sul, mais precisamente das encostas da Cordilheira dos Andes. Ainda hoje é a base da alimentação de populações inteiras naquela região.

Os primeiros europeus que visitaram a América se interessaram por aquele estranho tubérculo que alimentava tanta gente. Levaram mudas e se surpreenderam com a facilidade com que a nova planta se aclimatava às condições europeias. Não precisou muito tempo para a batata ser consumida e apreciada por todos os povos do Velho Continente. Seu consumo logo se equiparou ao do pão, chegando até a suplantá-lo na Europa do Norte.

Entre 4500 e 5000 variedades de batata (!) estão inventoriadas pelos organismos dedicados à classificação dessa solanácea. Em muitos países, entre os quais a França, sua produção é rigorosamente controlada. Não se pode vender qualquer tipo de batata assim, sem mais nem menos. Para que a comercialização de uma variedade qualquer seja autorizada, ela tem obrigatoriamente de estar inscrita Catálogo Oficial francês.

Em 2010, apenas 214 variedades estavam oficialmente registradas. Assim, somente elas tinham o direito de ser comercializadas. Antes do plantio, o agricultor prudente consulta a lista oficial. Caso tente vender uma variedade não autorizada, estará cometendo infração. Portanto, estará exposto a sanções. É possível inscrever uma nova variedade no catálogo oficial, mas não é fácil. O caminho é longo e a burocracia, pesada.

Espantado? Eu também fiquei no dia em que soube da existência da lista oficial e, principalmente, da proibição de escapar dela. Mas o problema é só de princípio, tem pouca influência sobre a vida de todos os dias. Os comércios, mesmo as épiceries fines (mercearias finas), não oferecem mais que 10 ou 15 variedades. São amplamente suficientes para a realização das receitas mais sofisticadas.

Sem dúvida, é muito interessante saber que, entre nativas e manipuladas, milhares de variedades de batata já foram identificadas. Para o cidadão comum, no entanto, não passa de mera estatística.

Nota
“Ao vencedor, as batatas!”, a frase marcante de nosso escritor maior, tem de ser adaptada à realidade de nosso século. Hoje em dia, convém dizer “Ao vencedor, o abacaxi!”.

Publicado originalmente em 29 dez° 2012.

Bolsonaro e o pau no chão

Carlos Brickmann (*)

No início do Governo, a fiscalização encontrou invasores derrubando árvores amazônicas. Usavam aquelas máquinas enormes, com correntes, que arrancam grandes árvores com raiz e tudo, para abrir uma clareira na mata, onde implantariam uma fazenda em terra pública e supostamente preservada. As árvores, ilegalmente abatidas, seriam ilegalmente vendidas.

Os fiscais agiram conforme as normas: puseram fogo nas máquinas, única maneira de desativá-las, já que seria impraticável tirá-las de lá. O presidente Bolsonaro entrou em erupção: na hora, suspendeu a política federal de destruição de máquinas usadas para botar abaixo as árvores.

Dado o sinal de vale-tudo, em pouco tempo começaram os incêndios na Amazônia – havia até um grupo de WhatsApp coordenando as queimadas. Na comoção dos incêndios, que desviou as atenções, os desmatadores foram derrubando árvores. O governo Bolsonaro não pode ver pau em pé; deixa que os grandes troncos beijem o chão, sejam vendidos e só então interfere, para botar a culpa nos países e empresas estrangeiras que compram ilegalmente a madeira ilegalmente abatida. Gringos espertos! São capazes de se entender com os espertos daqui!

Alguém acredita que um jacarandá de 25 metros de altura (um prédio de oito andares) com tronco de 80 cm de diâmetro sumiu sem que ninguém notasse sua viagem para o porto? Um ipê de 40 metros (12 andares de altura!) pode ter entrado escondido no navio ilegal, sem conivência de ninguém? A culpa é só dos gringos? E aqui trabalhamos para preservar a Floresta Amazônica?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Coronavoucher

José Horta Manzano

O Instituto PoderData publica sua mais recente pesquisa sobre a percepção do eleitor quanto ao trabalho de doutor Bolsonaro. A opinião de 2500 cidadãos representativos da população brasileira, distribuídos nas 27 unidades da Federação, é incontestável: a popularidade do doutor cai. As curvas se cruzaram, mostrando que a desaprovação (48%) supera a aprovação (42%).

Analistas atribuem a queda de aprovação a diversos fatores. Entre eles, está a chegada da vacina, fato que contraria a postura de um Bolsonaro descaradamente hostil, sobretudo em se tratando da vacina chinesa. O crime do Carrefour é outro acontecimento que, tendo em vista o silêncio do presidente, convence o eleitor de que o governante é racista, ensimesmado e distante do país real. Por último, o mais importante: o fim anunciado do coronavoucher.

O fracasso de quase todos os candidatos a prefeito apoiados pelo presidente já era sintoma do declínio de sua influência – se é que um dia ela foi benéfica. Ao fim e ao cabo, vai ficando claro que a subida do nível de aprovação é que foi o ponto fora da curva. Bolsonaro está retornando ao fundo das estatísticas. A Lei da Gravitação, cláusula pétrea da Constituição do planeta, ensina que tudo aquilo que sobe acaba descendo um dia.

Coronavoucher
Quando a situação aperta e o fim do mês está longe, o funcionário pede um vale por conta do salário. O passado recente da nação está salpicado de outros vales: vale-transporte, vale-gás, vale-brinde, vale-refeição.

Curiosamente, na hora de dar nome ao auxílio especial ligado à epidemia, poucos disseram vale-corona. A expressão que se firmou foi coronavoucher. Minha hipótese é de que o termo coronavírus, já no ouvido de todos, terá contaminado.

Voucher era um verbo do francês medieval, usado em textos administrativos. Significava chamar, dar nome a e tinha as formas vochier/vogier. Nos anos 1300, atravessou o Canal da Mancha e foi enriquecer o inglês.

É interessante que o termo desapareceu da língua francesa, enquanto permanece vivíssimo em inglês. O pai de família é o verbo latino vocare. Em nossa língua, temos numerosos descendentes: vogal, vocábulo, vocação, advogado, convocar, evocar, invocar, provocar, revogar, equívoco, provocação. Há inúmeros outros.

Covid e as novas expressões

José Horta Manzano

Dos seres humanos que estão hoje vivos, nenhum jamais presenciou pandemia com as dimensões da atual. Houve a Gripe Espanhola de 1918-1919(*), é verdade. Mas os que, à época, estavam em idade de entender já se foram.

Nestes cem anos, a humanidade fez progressos incríveis. De uma época de comunicações precárias, quando nem rádio havia, passamos a uma fase buliçosa, em que todos falam com todos, em que tribunais informais berram em silêncio nas redes sociais, em que cada indivíduo condena ao fogo do inferno quem não lhe for simpático. Será que a precariedade antiga era melhor que a agitação de hoje? Taí uma boa pergunta pra futuros filósofos.

A pandemia gerou realidades novas. E foi preciso dar nome a elas. Rápidos no gatilho, anglo-saxões mergulharam na língua riquíssima e maleável que têm. E de lá sacaram nome perfeito pra cada fato novo. Agências de notícias traduzem despachos redigidos em inglês. Vai daí, a urgência (e a preguiça) optam pela facilidade: alguns termos são transplantados com raiz e tudo. São adotados como eram no original.

Há casos em que, para descrever a mesma realidade em nossa língua, precisaria de uma linha e meia, o que complica a vida; quando é assim, o remédio é adotar o termo original. Há outros casos, porém, em que basta um pouco de imaginação para encontrar termo equivalente. Vamos ver.

by Emmanuel Chaunu (1966-), desenhista francês

Homeschooling
Já falei sobre este termo em outro post. A mim parece que escola em casa é tradução perfeita. Tem a vantagem de evitar o vexame de pronunciar palavra inglesa com sotaque estrangeiro. Romi-iscúlim, por exemplo.

Coronavirus
Essa questão está resolvida. Ficou combinado adotar a forma inglesa com um acentozinho pra dar um ar tropical. Em vez de vírus corona, que tem mais ares nossos, vamos de coronavírus mesmo.

Social distancing
Fixou-se a expressão distanciamento social. Errado, não está. Eu teria adotado distanciação social. Distanciação é genuína palavra nossa, já dicionarizada. Apresenta a vantagem de ser raramente utilizada, excelente argumento pra servir de nome para um conceito novo.

Self isolation
Não tenho visto esta expressão utilizada no Brasil, nem no original, nem traduzida. Talvez o conceito esteja sendo confundido com lockdown (confinamento). Tem a ver, mas é mais específico. Está em auto-isolamento o cidadão que se isola por conta própria, sem ser obrigado pelas autoridades.

Key worker (ou keyworker)
Tendo em vista a balbúrdia em que se transformou o enfrentamento da pandemia no Brasil, essa expressão pouco aparece na mídia nacional. Key workers são os funcionários essenciais, os únicos autorizados a circular nas ruas em caso de confinamento rigoroso. São funcionários de hospital, supermercado, transporte em comum, corpo de bombeiros, polícia & assemelhados.

Protective distance
Não vi ninguém cair na tentação de dizer “distância de proteção”. A expressão protective distance vem sendo corretamente traduzida por distância de segurança.

Home office
Não resta dúvida: o original inglês é pra lá de chique. Dá impressão de que a gente está no 85° andar de uma torre envidraçada, apreciando a paisagem do Rio Hudson. Mesmo assim, ainda prefiro nosso teletrabalho, uma expressão que dá a ilusão de que nossa língua aboliu aquele castigo de Deus que é o hífen. Quem diz home office deixa a impressão de ter trazido o escritório para casa. Já o teletrabalho separa bem as coisas: o escritório e a residência ficam cada um no seu lugar; o funcionário é que espicha os braços, faz o trabalho que tem a fazer, depois encolhe os braços e volta pra casa. Há ainda a possibilidade de utilizar trabalho remoto, expressão a ser usada com cuidado, visto que remoto é termo ambíguo, que pode também significar antigo, remoto no tempo.

Lockdown
A perfeita tradução de lockdown é confinamento. Informa que o indivíduo (ou a população inteira) está obrigado, queira ou não, a ficar trancado num determinado espaço confinado. Antes do covid, o termo era usado em tempo de guerra ou para prisioneiros que, em caso de mau comportamento, são condenados a passar um tempo na solitária. Quem está sob lockdown fica confinado. Que diga lockdown quem quiser; mas, se for pra pronunciar “loquidáũ”, recomendo adotar confinamento mesmo. Soa mais natural.

(*) A ‘Espanhola’ não era espanhola. Levou esse nome porque, naqueles tempos de guerra mundial, a Espanha era um dos raros países em que informações sobre a epidemia puderam ser livremente publicadas. Fora daquele país, ninguém falava da doença. Com isso, fixou-se a informação falsa de que a doença era espanhola. Veja o alcance (secular) que um fake news pode ter!

Causada por um vírus da família H1N1, a gripe fez estrago feio. Segundo o Instituto Pasteur, o saldo de mortos situa-se entre 20 milhões e 50 milhões. Avaliações mais recentes chegam a mencionar 100 milhões de vítimas, ou seja, um morto para cada 20 habitantes do planeta. Uma enormidade.

Ilha da Trindade

José Horta Manzano

Vendée Globe é uma competição esportiva. Considerada a mais importante corrida em barco a vela do mundo, é organizada a cada quatro anos. O regulamento é rigoroso. Cada barco tem de ter um único tripulante – sem direito a assistência. Pode comunicar-se e receber instruções por rádio ou telefone, mas não pode pedir ajuda física a ninguém nem que haja problema no barco. Se precisar, pode até parar num porto, mas terá de fazer sozinho qualquer conserto. Se alguém ‘der uma mão’, o corredor será desclassificado.

A largada se dá na cidade francesa de Sables d’Olonne. Em seguida, os concorrentes devem dar a volta ao mundo, fazendo o percurso na direção oeste-leste (Atlântico Norte, Atlântico Sul, Índico, Pacífico, Estreito de Magalhães, Atlântico de novo). O ponto de chegada é o mesmo porto de onde partiram. O recordista de velocidade conseguiu fazer o percurso em pouco mais de 74 dias.

Não há de ser fácil fazer esse trajeto. Frio, calor, vento, tempestade, ondas de alto-mar – cada um tem de enfrentar isso sozinho, sem ajuda e com muito pouco tempo pra dormir. Se houver problema maior, o socorro pode levar dias pra chegar, o que pode ser um problema em caso de acidente grave.

O sinal de partida da atual edição foi dado quinze dias atrás. Os competidores ainda estão em mar calmo, ‘descendo’ o Oceano Atlântico ao longo das costas do Brasil. As coisas vão se complicar daqui a alguns dias, à medida que se aproximarem do Polo Sul. Aí, vento, frio e ondas gigantescas vão começar a castigar feio.

A bela foto que ilustra este post foi tirada estes dias por Yannick Bestaven, um dos concorrentes. Ao fundo, aparece a silhueta das ilhas da Trindade (à direita) e de Martim Vaz (à esquerda), sentinelas avançadas da terra brasileira, plantadas em pleno Atlântico a mais de 1000km da costa capixaba.

Lei do Ecocídio

José Horta Manzano

O governo francês acaba de anunciar o envio ao parlamento de uma lei que criminaliza todo e qualquer ato capaz de causar dano importante ao meio ambiente. Visto que o governo conta com folgada maioria, o novo dispositivo deverá ser aprovado. Será provavelmente conhecido como Lei do Ecocídio.

O texto ainda deve sofrer alterações, mas o cerne permanecerá. Na mira do legislador, estão não somente os danos intencionais, mas também os que forem causados por negligência. Deverão ser punidos comportamentos como despejar num rio material poluente, atear fogo à vegetação, expelir fumaça tóxica.

As multas previstas são dissuasivas: vão de 375.000 a 4,5 milhões de euros. Segundo a ministra da Ecologia, o poluidor periga levar multa de até dez vezes o valor que ele economizou despejando seu esgoto industrial no rio.

Um segundo projeto de lei está em preparação para punir as agressões ainda mais graves. Os crimes que se enquadrarem neste outro dispositivo vão render ao autor pena de até um ano de prisão em regime fechado.

Não se deve esquecer que os 594 membros de nosso Congresso constituem um Poder independente do Executivo e do Judiciário. Tirando os que, por convicção ou por interesse, se ajoelham diante de doutor Bolsonaro, os demais deveriam mirar-se no exemplo francês.

Com o presidente empacado que temos e com o execrável ministro do Meio Ambiente que o assessora, não há esperança. Está claro que o Executivo não vai se mover na boa direção.

O Congresso está aí justamente para servir de contrapeso a uma presidência que bate cabeça enquanto nossos rios se enchem de mercúrio e de esgoto, e nossa vegetação vira fumaça.

No dia em que nossos desmatadores e poluidores começarem a ser encarcerados, os atentados contra a natureza cessarão rapidinho.

Problema de tradução

José Horta Manzano

Ah, ninguém segura esses estagiários que escolhem facilidade aparente na hora de traduzir!

Este blogueiro é do tempo em que, quando alguém recebia violento golpe emocional, ficava arrasado. Podia também dizer que tinha ficado abalado ou abatido.

O que fica devastado é um prédio atingido por um míssil, uma cidade após um terremoto, um pasto depois do estouro da boiada. Gente devastada? Não é comum.

Tuíte – 17

José Horta Manzano
Chanceler Federal (Bundeskanzler) é o título que se dá na Alemanha ao chefe do governo.

Faz hoje exatamente 15 anos ininterruptos que a chanceler Frau Angela Merkel (1949-) ocupa o posto. É longevidade pra ninguém botar defeito.

O poder costuma desgastar, mas parece que os anos não têm afetado a popularidade de Merkel. Ao contrário, sua imagem melhora a cada dia. O exemplo maior está ocorrendo agora mesmo. Desde o começo da pandemia, sua popularidade subiu incríveis 21 pontos. Este mês, está em 74%, um nível de fazer inveja a qualquer dirigente. Seu modo de gerenciar a crise da covid é a razão principal da satisfação popular.

Infelizmente, em nosso país, a gestão da pandemia não tem trazido melhora na imagem do presidente. É pena porque, se ele perde, perdemos nós também.

“Realizei tudo sozinho”

José Horta Manzano

Domingo passado, o Brasil assistiu, surpreso, à inusitada demora na apuração dos votos. Pra quem está acostumado, há vinte anos, a conhecer os resultados na hora, a espera foi longa. Teorias conspiratórias logo se alevantaram. “Isso é obra dos russos”, “Eu te disse que os chineses iam atrapalhar”, “Só pode ser coisa da CIA” – foram as hipóteses que correram por aí.

Em típica atitude defensiva – que ocorre esporadicamente no mundo todo, mas que, no Brasil, se tornou esporte nacional –, as autoridades responsáveis logo trataram de pôr a culpa em terceiros. “Não fomos nós!” Impossibilitados de negar a evidência do atraso, acusaram a covid, os computadores, os técnicos, os fornecedores, o faxineiro, a moça do café.

Dias depois, aparece o verdadeiro culpado. “Realizei tudo sozinho”, avisa um pirata informático (=hacker). Longe de se mostrar envergonhado, exibe o orgulho de que somente os muito jovens são capazes. O rapaz, um português de 19 anos, esclarece ter cometido a façanha munido de um simples telefone celular, desses que todo o mundo tem no bolso.

Por que fez isso? Ora, pelo frisson(*). Tendo ouvido dizer que o TSE tinha reforçado a segurança do voto eletrônico, resolveu testar. O resultado foi além da expectativa: perturbou a vida de 100 milhões de eleitores e ainda deu munição aos desajustados do Planalto para lançarem suspeita sobre a lisura do pleito. Desculpem qualquer coisa aí, hein!

O mundo informático, marca dos novos tempos, é contrastado. Do lado bom, está a facilidade infantil com que a gente se comunica, pouco importando a distância. O custo das comunicações, que caiu a quase zero, também é excelente notícia. Porém, do lado mau, está essa permeabilidade do sistema.

Nos tempos de antigamente, para grampear um telefone, era preciso subir no poste e instalar o dispositivo de arapongagem. Dava mão de obra e era indiscreto. Hoje em dia, com dois cliques um operador faz o mesmo trabalho – com a vantagem de poder grampear um indivíduo ou um bairro inteiro, se assim lhe apetecer.

Antes da informática, as palavras que se diziam ao telefone chegavam ao correspondente, em seguida se perdiam no espaço e se apagavam. Hoje não funciona mais assim. Gosto de imaginar que, nalgum bunker secreto no Arizona ou em Utah, todas as comunicações e mensagens telefônicas (escritas ou de voz) são gravadas e armazenadas para eventual uso futuro.

Não é ficção científica. Pense um pouco. Se um adolescente, com um telefone na mão, consegue invadir o complexo sistema do TSE e devassar o voto de uma população do tamanho da nossa, fica demonstrada a facilidade de manipular resultado de eleição.

Falando em manipulação, se alguma já não foi feita nas eleições passadas, fica aqui a sugestão. Quem tiver telefone pode tentar. O frisson(*) é garantido. As instruções de piratagem devem se encontrar na internet, acredito eu.

Ah, ia esquecendo de prevenir. Quando você tiver ganas de falar mal de alguém, em mensagem escrita ou de voz, pense duas vezes. Esse alguém pode até um dia invadir o bunker do Arizona. Se ele descobrir a maledicência, vai dar um forrobodó dos diabos.

(*)Frisson
É palavra francesa dicionarizada no Brasil sem alteração da grafia. Em sentido próprio, significa arrepio, calafrio. Aqui foi usada no sentido figurado, dado que arrepio não seria a melhor opção. O termo é descendente longínquo do verbo latino frigere = ter frio, através da forma medieval frictio/frictionis, que acabou dando nossa fricção. A idéia é que quem tem frio treme e sente arrepios.