Semipresidencialismo?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 julho 2021

Nestes tempos de desordem climática, o planeta vem sendo castigado por fenômenos extremos. Calor escaldante onde costuma fazer frio, inundação onde pouco chove, geada em terra tropical – nunca se sabe quais surpresas desagradáveis estão por vir. Os alemães, normalmente tão habituados a ver chover, foram surpreendidos este mês por precipitações diluvianas. Tanto choveu e por tanto tempo, que campos se encharcaram, rios transbordaram e casas ruíram. Ruas viraram rios e estradas foram tragadas. Cerca de 200 pessoas perderam a vida, um desastre nacional.

Impôs-se evitar semelhante tragédia no futuro. Mas é impossível segurar as forças da natureza. Se, em tempos normais, já não era simples, numa era de desarranjo atmosférico ficou ainda mais difícil. Já que não se pode afastar o perigo, o jeito é estar atento e prevenido. Ficou combinado que o método tradicional de alerta por toque de sirenes será pouco a pouco aposentado. O novo sistema, mais em conformidade com nosso tempo, alertará a população por SMS. Com essa providência, todos os cidadãos serão avisados, onde quer que estejam, com mais antecedência e maiores detalhes. Quando não se pode parar a chuva, convém abrir o guarda-chuva.

O capitão que, um tanto desastradamente, o povo escolheu para dirigir o Brasil tem soprado nas brasas desde o dia em que tomou posse do cargo. Manipulando, sôfrego, a pá e o bafo, ele tem alimentado o braseiro: a pá leva o carvão; o bafo calibra o sopro. Qual flama olímpica sem brios, o foguinho vai virando fogueira que periga incendiar o país. Agora, que todos estão cientes de suas intenções insurrecionais e de seus métodos putschistas, o sinal de alarme começa a soar.

Soluções para pôr fim ao problema têm sido tiradas do chapéu, uma atrás da outra, como se coelhinhos fossem. A proposta mais recente é a adoção do semipresidencialismo, caminho que o Brasil ainda não trilhou. Embora aventada há pouco, a hipótese já conta com apoio de muita gente fina. O sistema vigora há décadas na França e em Portugal. Pode-se até, num futuro, pensar em implantá-lo entre nós. Agora, não. A afobação não é boa conselheira. Solução adotada no ponto alto de uma crise periga parecer deslocada quando a crise desincha.

O problema urgente do Brasil, que se saiba, não está no sistema de governo. Não é o regime que está transtornando o andamento da vida nacional. Nosso distúrbio nacional é provocado por um elemento perturbador, que todos conhecem de sobejo: Jair Bolsonaro. Com seu comportamento irresponsável, o presidente responde sozinho pela gravidade da disfunção.

Implantar novo regime para curto-circuitar um mau dirigente equivale a caçar passarinho com canhão, uma medida extremada, desnecessária e de eficácia duvidosa. Não precisamos disso. É o tipo de decisão de consequências duradouras, mas sem garantia de favorecer nosso avanço civilizatório. Não é mudança que se deva fazer de afogadilho. Tudo o que é feito às pressas tende a ser mal costurado. Uma decisão desse calibre, mal ajambrada, pode nos castigar por muito tempo. Além do mais, todos sabem que o capitão é daquele tipo de dirigente com potencial de pôr tudo a perder, seja qual for o regime. Nosso ordenamento jurídico prevê medidas de contenção para refrear arrebatamentos do presidente – inclusive para apeá-lo do cargo. São medidas amplamente suficientes. Basta usá-las.

Há quem acredite que uma tentativa de “autogolpe”, desferido pelo presidente, poderia até dar certo. Não é meu caso. Todos conhecem o caráter movediço, imprevisível e insidioso de Bolsonaro. Com exceção de seus familiares, ninguém pode atestar que terá lugar garantido à mesa dos vencedores em caso de aventura putschista vitoriosa. Isso vale até (e principalmente) para seus assessores mais próximos, civis ou militares. Os que apoiam o presidente por motivos venais devem fazer as contas; chegarão à conclusão de que o risco de se darem mal é maior que o sonhado butim.

Adular o capitão sai barato. Já acompanhá-lo numa louca empreitada são outros quinhentos. Ninguém é besta.

Os milicos que se cuidem

Ruy Castro (*)

Foi num dia de semana à tarde, em 1970, auge da ditadura —me contaram. Um garoto de seus 15 anos ganhou uma flautinha de plástico e foi à praia com ela. Sentado na areia, numa Ipanema vazia, tentou tirar o Hino Nacional —afinal, ouvia-o todo dia. Ao extrair algo parecido com a frase inicial, percebeu uma sombra entre ele e o Sol. Olhou para cima e viu um sujeito forte, bronzeado, de cabelo reco. O homem rugiu: “Por que está tocando isso?”. O garoto, surpreso, ficou mudo. Não havia resposta. O homem emendou: “Estou ali naquela barraca escutando tudo. Se continuar com gracinha vai se dar mal!”. Um vendedor de mate sussurrou para o garoto: “Coronel do Exército”.

É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.

O governo Bolsonaro não é uma ditadura – ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como “povo”, “democracia” e “liberdade” e da expressão “homem de bem”. São “homens de bem” os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.

Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos – o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.

Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Desleixo

José Horta Manzano

Para os saudosistas, volta e meia a tevê francesa passa algum trecho de programa dos primórdios da televisão, programas dos anos 1950 ou 1960. As imagens são em preto e branco e não têm a nitidez das atuais, mas são retrato saboroso de uma época.

A construção da identidade de uma nação se faz a partir desse tipo de memória. Sem a imagem, ficamos na conjectura. Aprender com o passado, quando não há desenho, nem estampa, nem figura, fica complicado – especialmente para as jovens gerações, que nasceram num mundo de imagens.

França, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Itália e os demais países da Europa ocidental têm todo o acervo de programas televisivos gravado e conservado desde que os primeiros aparelhos de videotape permitiram, lá pelo final dos anos 1950. O mesmo vale para todas a emissões de rádio, devidamente registradas e arquivadas desde que os meios técnicos permitiram a realização de gravações.

Quando a gente vê imagens com cenas de rua de Londres, Paris e Berlim de um século atrás, é de ficar babando. Há quantidade desses filmes que mostram a vida como ela era, não só nas cidades, mas também nos vilarejos. Das nossas principais cidades – que, no entanto, já eram grandinhas no começo do século XX – não há praticamente nada. A conservação da memória através da imagem nunca foi uma preocupação nacional.

E tudo indica que continua não sendo. A perda do Museu da Língua Portuguesa pelo fogo, faz sei anos, mostrou que o descaso para com um dos pilares da formação de nossa nação é mal de raiz. Três anos atrás, repeteco: a pavorosa destruição pelo fogo do Museu Nacional deixou evidente que nada havia mudado, e que continuávamos a desdenhar daquelas “velharia inúteis que não dão camisa a ninguém”.

A tristeza mais recente é a ruína de parte do acervo da Cinemateca Brasileira, de novo pelo fogo, perpetrada estes dias. Antes de tirar o lenço pra chorar a perda, é bom preparar a raiva. Fique-se sabendo que, nos últimos 60 anos, a Cinemateca já foi parcialmente destruída por 5 incêndios e uma enchente! Bota descaso nisso!

Os incêndios precedentes tinham ocorrido em 1957, 1969, 1982 e 2016. Em 2020, foi a vez da água da enchente, que inutilizou 113 mil DVDs.

A gestão(?) Bolsonaro não tem a culpa pelo que aconteceu no passado, sejamos justos. Mas tem responsabilidade – e como! – pelo que acontecerá daqui pra frente. As consequências do pouco caso da atual administração federal hão de se fazer sentir por décadas.

Se a destruição da memória nacional continuar no ritmo atual, os brasileirinhos dos anos 2100 vão se sentir como nós hoje, privados de memória visual do passado. Terão de contar com a transmissão oral, como nas civilizações que ainda não atingiram o estágio da escrita.

É fome?

José Horta Manzano

Quando um competidor está louco, vidrado, desesperado pra ganhar, se diz que está com “fome de vitória”. Mas é metáfora, força de expressão. Na hora de comer, há quem goste de feijão, há quem prefira pizza, outros não abrem mão de um hambúrguer. Já engolir metal é mais raro. Por que será então que tantos esportistas medalhados fazem pose mordendo a medalha diante das câmeras? Será fome?

É um costume bizarro, de origem obscura, talvez comparável ao (mau) hábito que quase todo futebolista tem de cuspir no gramado, comportamento nunca visto em esportista de nenhuma outra modalidade. (Exceção feita, talvez, dos ases da natação que, ao terminar a prova, encostam na parede da piscina, olham firme em direção ao painel eletrônico e aproveitam pra soltar pela boca um líquido que uns juram ser água clorada, enquanto outros asseguram que não é.)

Voltando às medalhas mordidas, por que fazem isso? A CNN se interessou pelo assunto e resolveu explorar. Constataram que não é somente em provas olímpicas que isso acontece. Um grande tenista como Rafael Nadal, por exemplo, é habitué de uma dentada no troféu. Morde cada prêmio com gosto, como se pretendesse tirar um pedaço.

Um tanto alarmados com o que têm visto, os dirigentes do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Tokyo resolveram lançar um alerta. Veio a bordo de um tuíte bem-humorado:

“Gostaríamos de confirmar oficialmente que as medalhas de #Tokyo2020 não são comestíveis!

Nossas medalhas são feitas de material reciclado a partir de aparelhos eletrônicos doados pelo público japonês.

Portanto, convém não morder… mas sabemos que vocês vão continuar mordendo.”

A melhor explicação para o estranho hábito de morder medalha ao posar para foto foi dada por um perito da Sociedade dos Historiadores Olímpicos. Diz ele que os atletas fazem isso numa tentativa de contentar a mídia. No início, foi uma solicitação de fotógrafos correndo atrás de uma foto sensacionalista. Com o tempo e com a insistência de mais e mais fotógrafos, acabou por se tornar tradição, uma passagem obrigatória.

Sabemos que a imensa maioria dos atletas olímpicos são estrangeiros. Todos eles conhecem o sushi, mas não estão familiarizados com a exótica culinária japonesa. Mas daí a comer medalha… precisa ter bons dentes.

A visita da duquesa

José Horta Manzano

Beatrix Amelie Ehrengard Eilika von Storch, duquesa de Oldenburg, é uma mulher política alemã. Nascida em 1971, tem sólida formação jurídica adquirida nas Universidades de Heidelberg (Alemanha) e de Lausanne (Suíça). Foi eleita deputada junto ao Parlamento Europeu em 2014 num grupo conservador. Três anos mais tarde, tendo sido eleita para o parlamento alemão, renunciou ao mandato europeu. A essa altura, já estava afiliada a novo partido.

Fundado em 2013, o novo partido da duquesa se chama AfD (=Alternativa para a Alemanha). O agrupamento segue um ideário rigoroso, que inclui: descrença na União Europeia, ultranacionalismo alemão, populismo de direita, negacionismo climático, oposição à imigração, anti-islamismo, antifeminismo. Propagam a saída da Alemanha da UE, a expulsão dos estrangeiros, a perseguição aos muçulmanos, a abolição de políticas feministas. Como se vê, os afiliados são gente fina.

A duquesa, que segue linha mais dura que a do partido, vai mais longe. Costuma ser descrita como “reacionária descomplexada”, homofóbica, violentamente contrária a tudo o que não for alemão. É o protótipo da xenófoba caricatural. É vista como anti-islamista militante, desejosa de “empreender uma cruzada contra o Islã”.

Como se não bastasse, Frau von Storch é visceral e agressivamente contrária à contracepção, ao aborto voluntário e ao casamento homossexual. A distinta senhora não esconde o fato de ter “chorado de alegria” assim que foi anunciado o Brexit. No seu raciocínio, era o prenúncio do desmanche da Europa unida.

Como se pode imaginar, já se declarou contrária à presença de jogadores não-descendentes de pura estirpe alemã na seleção nacional de futebol. Traduzindo em miúdos, fica assim: pretos, árabes e descendentes de estrangeiros… fora!

Pelo lado materno, é neta do conde Schwerin von Krosigk (1887-1977), jurista e homem político, que foi ministro das Finanças da Alemanha durante todo o período nazista. Com a derrota da Alemanha, o conde foi acusado de crimes de guerra, julgado em 1949 e condenado a 10 anos de cadeia. Dois anos mais tarde, no bojo de uma anistia, foi liberado.

Resumi o percurso de vida do avô só pra constar. Acredito que ninguém deva pagar pelos crimes de um outro, ainda que seja seu avô. Além do mais, o homem foi julgado e pagou a pena.

Contei a historinha de Frau Storch só pra dar ao distinto leitor umas pinceladas sobre a personalidade da deputada alemã que um sorridente capitão recebeu outro dia em palácio – fora da agenda, registre-se. Nosso presidente, conhecemos. Agora que temos melhor ideia de quem é a convidada, o encontro dos dois me faz pensar num abraço de afogados.

Chacoalhada na Alemanha em razão de seu extremismo, a duquesa precisava aparecer numa foto com o presidente de um país grande. Pouco importa que fosse Bolsonaro; quem está na situação dela não escolhe.

Chacoalhado no Brasil pelo conjunto de sua obra e visto pelo mundo como um pestilento do qual ninguém quer passar perto, o capitão precisava aparecer numa foto com uma personalidade estrangeira. Pouco importa que fosse uma duquesa extremista; quem está na situação dele não escolhe.

Ambos se equivalem. O marketing está de bom tamanho. Como dizia minha avó, “Pra quem é, goiabada basta”.

Esguicho

José Horta Manzano

O brasileiro é um povo criativo. A toda hora, dá pra sentir a força da inventividade de uma gente que nem sempre conta com instrução formal, nem com meios adequados. Quando a gente não sabe, sacumé, tem de ser esperto. Esperteza é o que não falta em nossa terra.

No entanto, na hora de dar nome às coisas e fatos novos, parece que há um engasgo. Não costumava ser assim. Até meio século atrás, talvez pelo isolamento de um mundo sem tevê e sem viagens, o engenho de nossa gente era mais ativo.

As brincadeiras que conheci nos anos 1960, por exemplo, embora viessem dos EUA, tinham o nome imediatamente adaptado a nossa fonética. O hula hoop, aquele anel que a criançada balançava em torno da cintura, guardou seu nome original na maioria das línguas. Na nossa, não: chamou-se bambolê. Foi febre naquela época e, dizem, responsável por traumatismo renal nos aficionados mais ferrenhos.

Há baciadas de exemplos de nomes adaptados para uso nacional. Hoje, parece que o empenho desapareceu. Toma-se a expressão inglesa no original, nua e crua. Por exemplo, ninguém diz escola em casa, mas “homeschooling”. O mesmo vale para o importado “homeoffice”, usado em vez de um simples e eficaz teletrabalho. Parece que a criatividade entrou em letargia. Quem sabe, um dia acorda.

Nestes dias de Jogos Olímpicos, temos muita notícia do Japão. Li outro dia esta frase: “Em diversas instalações, como no centro principal de mídia, há esguichos de água, que parecem jogar uma garoa.

Pela volta que o repórter deu pra descrever os “esguichos de água”, fico imaginando que ele nunca tenha visto nada parecido. Logo logo essas engenhocas chegam ao Brasil, se é que já não estão no porto, à espera de desembaraço alfandegário.

Taí uma excelente oportunidade de dar nome a esse dispositivo novo. Esguichos assim existem na Europa há alguns anos. Quando o calor era raro, não havia necessidade. Estes últimos tempos, porém, com as temperaturas saarianas que temos tido, tornaram-se imprescindíveis. São ligados no verão, naturalmente. E servem para amenizar o sufoco dos dias tórridos.

Os franceses, que gostam de dar nome a tudo, já decidiram: entre eles, esse esguicho é conhecidos como brumisateur. É simples, a palavra deriva de bruma (névoa, nevoeiro) e designa o aparelho que produz bruma. Fica a dica.

Quem sabe a criatividade brasileira acorda, esquece “esguicho” ou “chuveirinho” e opta por brumizador. Ou talvez nebulizador. Ou até um sofisticado garoizador. Seja qual for, sempre vai ficar melhor que “esguicho de água que parece jogar uma garoa”.

Briga de bandido

José Horta Manzano

Não sou especialista em política africana, mas sei que, perto do que acontece em alguns daqueles países, nossos trambiques nacionais ficam parecendo troca de figurinhas entre garotos batendo bafo. Será que alguém ainda bate bafo? Será que ainda existem cromos e figurinhas? Será que alguém ainda coleciona estampas e preenche álbuns?

Estive lendo n’O Observador, jornal português, um artigo abracadabrante sobre os caminhos da corrupção nas altas esferas da política angolana. Angola é uma das antigas colônias de Lisboa na África, daí o interesse lusitano pelo que lá ocorre.

Pra dizer a verdade, não entendi (nem procurei entender) o enredo de cabo a rabo. Trata-se de um monstruoso escândalo de corrupção, com dezenas de pessoas envolvidas entre portugueses, espanhóis e angolanos. Os montantes que passaram de mão em mão não fazem feio diante do que vimos na Lava a Jato. (Alguém se lembra da operação enterrada por Bolsonaro?)

Dezenas de milhões pra cá, outras dezenas pra lá, umas migalhas de 200 mil dólares pra um certo Manuel, 150 mil para um tal de Mangueira, 100 mil para o Gomes. Ministros, ministros sem pasta mas exercendo ‘de facto’, assessores que “mandavam mais que ministro”, ex-ministros aparecendo na folha de pagamentos de empresa fornecedora de serviços ao Estado angolano.

As investigações, que já se arrastam por mais de 7 anos, ainda não chegaram ao fim. Os crimes incluídos no balaio são de corrupção, fraude,  falsificação de documentos, organização criminosa (=formação de quadrilha) e branqueamento de capitais (=lavagem de dinheiro). Como se vê, em matéria de trambique, não temos mais nada a ensinar a eles. Já sabem tudo.

Recentemente, Bolsonaro enviou o vice-presidente a Luanda para tentar aliviar a barra da Igreja Universal de Edir Macedo, que anda com a imagem manchada por lá. Aliás, foi reprovado ao capitão ter mandado um político oficial, em viagem oficial paga pelos cofres públicos, pra resolver o problema particular de uma seita amiga. Até agora, não houve consequências. É possível que tudo fique por isso mesmo.

A tal Igreja amiga de Bolsonaro anda bem enrolada em Angola. Seus dirigentes são acusados de traquinagens como roubo, extorsão de fundos, adultério, atentado contra menores de idade, sonegação. Não é coisa pouca. Uma centena de membros graduados da igreja (pastores), todos brasileiros, já foram expulsos do país.

Choque de ministros
É permitido crer que ministros corruptos do governo angolano possam ter entrado em choque frontal com ministros corruptos da seita brasileira.  Talvez o problema seja a invasão de território. Fiquei imaginando que a implantação da seita de Macedo em Angola deve ter sido como se uma tropa do Comando Vermelho (CV, do Rio de Janeiro) elegesse residência em território do Primeiro Comando da Capital (PCC, de São Paulo). Não ia ficar por isso mesmo.

Quadro de medalhas fraudado?

José Horta Manzano

O colunista Renato Terra dá título sugestivo a seu artigo de hoje na Folha de São Paulo: “Bolsonaro afirma ter provas de que Quadro de Medalhas foi fraudado”.

O humorista, que só queria fazer graça, não deve ter se dado conta de que, ao mesmo tempo que ele redigia a crônica, um dos três grandes quotidianos do país se esforçava pra tornar realidade a imaginária fraude.

Estas duas capturas de tela foram feitas no mesmo momento, quando o Brasil havia conquistado suas primeiras 3 medalhas. Veja só.

Jornal A

 

 

Jornal B

 

No quadro do jornal A, com 3 medalhas, o Brasil aparece na 15ª. posição entre as nações. Na imagem do jornal B, com as mesmas 3 medalhas, o país é degradado ao 23° lugar. Como é possível?

“É fraude!” – exclamaria o capitão, “estão fazendo isso de propósito pra eu perder a eleição!”. (Ele provavelmente diria “pra mim perder”, mas não vamos nos perder nessas minúcias.)

Fraude, não é. Sobram duas possibilidades: ignorância ou desleixo. Opto pelas duas, um pouco de cada.

O jornal B, que nos mostra em 23° lugar, fez a conta certa. Estar no 23° lugar significa que, independentemente de quantos empates houver entre os demais, somos precedidos por 22 países no quadro final.

O jornal A, que nos põe em 15ª. posição, bobeou. Confundiu-se com o fato de vários países estarem empatados.

As regras olímpicas determinam que, quando dois atletas terminam empatados, o que é muito raro, a medalha seguinte não seja atribuída. Aconteceu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi (2014). Numa das provas de esqui feminino, duas competidoras fizeram o percurso num tempo rigorosamente idêntico: 1 minuto e 41,57 segundos. Foi o melhor tempo. No pódio, ambas receberam a medalha de ouro. A concorrente seguinte ficou com a medalha de bronze. Naquele ano, a medalha de prata não foi atribuída.

Por analogia, a regra olímpica se estende também à classificação dos países no quadro de medalhas.

Depol

José Horta Manzano

Estava lendo hoje a sequência do relato daquele estranho incidente que vitimou doutora Hasselmann, deputada federal. Foi impressionante ver suas imagens com o rosto intumescido. Não se conhece ainda o fim da história, se é que se conhecerá um dia. Mas já deu pra aprender um detalhe que pelo menos este blogueiro, até ontem, ignorava.

Eu sabia da existência de um corpo de polícia especialmente dedicado à Câmara Federal. Imaginei que as atribuições dele se limitassem a cuidar da ordem no recinto parlamentar, como uma espécie de segurança reforçada. Pensava que servisse para expulsar visitantes inoportunos, para conter deputado surtado, para apartar briga entre excelências. Pois acabo de aprender que seu raio de ação é bem mais amplo.

Além de cuidar de incidentes menores, o Departamento de Polícia Legislativa (Depol) cuida também da segurança dos parlamentares, servidores “e quaisquer pessoas que eventualmente estiverem a serviço da Câmara”.

Essa disposição deve criar situações curiosas. Suponhamos que o distinto leitor se encontre no recinto da Câmara e, por um motivo qualquer, tem uma discussão com um parlamentar ou com um servidor. Os ânimos se exaltam e estoura uma briga. A polícia legislativa intervirá para garantir a segurança do parlamentar (ou do servidor). Quanto a você, cidadão rasteiro, terá de chamar a polícia comum e esperar que venha. Pode parecer brincadeira, mas, se forem respeitadas as atribuições, o Depol não está lá pra defender gente de fora. Só os do clube.

O Depol dá também segurança ao presidente da Câmara em qualquer ponto do Brasil e no exterior. Isso significa que quando doutor Lira, presidente da Câmara, viaja de passeio a Paris, tem direito a um par de seguranças postados à entrada do bistrot enquanto degusta uma bandeja de ostras regadas por um vinho branco da Alsácia. E você sabe quem paga a conta do festim.

Pra fechar o capítulo das incumbências, cabe ainda ao Depol apurar infrações penais cometidas no recinto legislativo, em suas dependências ou contra qualquer das excelências. Eis por que a deposição de doutora Hasselmann foi tomada pelo Depol, que, investigando sob sigilo, cuidará de apurar a denúncia de agressão.

Confesso que não sabia da existência dessa polícia paralela. E muito menos sabia que agisse na legalidade, abrigada na Casa do Povo. Sabia apenas da existência de milícias privadas estabelecidas geograficamente longe da Câmara. Cada dia dá pra entender melhor por que razão tanta gente sem eira nem beira procura se eleger. É pra fazer como um certo capitão que passou 28 anos no bem-bom, com polpuda remuneração, apartamento funcional, auxílio-gravata e outros balangandãs (alguns bem rachadinhos). E, ainda por cima, contando com uma polícia privada pra chamar de sua.

Eu me pergunto se a Câmara precisava realmente investir nosso dinheiro numa polícia especial, só dela, pra fazer um trabalho que a polícia comum já faz. Que tivessem um corpo de seguranças, vá lá. Mas… uma polícia que se encarrega de apurar infrações penais? Será que dispõem de um corpo técnico, com investigadores, frota de veículos, helicópteros, dactiloscopistas, psicólogos, que se comportam como nos filmes americanos, quando entra em cena a polícia técnica?

Nossa República é cheia de surpresas. Todo dia a gente fica sabendo de uma nova. Essa que acabo de descobrir é um resultado perverso do sistema em que legisladores legislam em causa própria. Em países normais, onde os eleitos são indivíduos de razoável bom senso, o autocontrole evita excessos, que, de qualquer maneira, não seriam aceitos pelo eleitorado. Nunca ouvi falar de nenhum país normal que disponha de corpo de polícia especial, agindo unicamente a serviço de parlamentares, seus servidores e seus familiares, a duplicar o trabalho da polícia comum. Mas nosso país, francamente, não é normal.

Não gostam de mim

by Kleber Sales/Estadão

José Horta Manzano

É possível que o distinto leitor não tenha tido oportunidade de estar presente ontem no cercadinho do Alvorada quando o presidente se dirigiu a seus devotos. Por problemas de agenda, eu também não estive lá. Mas li o relato nos jornais.

Referindo-se à avalanche de críticas de que é alvo, o capitão saiu-se com esta:

“O cara não gostar de mim, tudo bem, mas ser apaixonado pelo Lula? Desvios, roubalheira em tudo quanto é lugar. O que muita gente quer é o poder, a volta da impunidade e da corrupção. Será que não conseguem enxergar isso?”

Ao ver que o auditório concordava sem objeções, abotoou:

“Querem me criticar, critiquem, até gente que se diz de direita, né? Tudo bem, se eu sair fora, você vai ficar com quem em 2022?”

Foram poucas palavras. Assim mesmo, nem precisa refletir muito pra extrair um par de conclusões.

Primeiramente, ao dizer “querem me criticar, critiquem”, o presidente deixou claro que, apesar de viver dentro de sua bolha, está a par da baciada de críticas que recebe o tempo todo. Ao tapar os olhos pra não enxergar a verdadeira razão da impopularidade, ele põe tudo na conta daqueles “caras” que “não gostam de mim”. Nós, que não costumamos tapar os olhos nem fugir da realidade, sabemos que não é bem assim. Não é uma questão de simpatia, nem de “gostar” do presidente. É que ele é um indivíduo desonesto, traidor, covarde, enrustido, não-confiável, primitivo, ignorante. Um péssimo presidente. É por isso que imensa maioria dos eleitores quer mais é vê-lo pelas costas. Não é questão de “gostar”.

Segundamente, quando diz que “até gente de direita” o critica, deixa implícito que acredita ser “de direita”. Não quer admitir (ou simplesmente não se dá conta) de que é nada mais que um reacionário desprovido de ideologia e de objetivo que não seja o de continuar a se fartar das tetas do Estado e do fruto da corrupção que grassa em seu entourage.

Terceiramente, ao soltar um tímido “se eu sair fora”, Sua Excelência confessou admitir a possibilidade de vir a ser rejeitado nas próximas eleições.  Em se tratando de um candidato, não é atitude corriqueira. É raro ver um postulante abrindo o flanco dessa maneira. É que para ele, aos poucos, vai caindo a ficha. Daí sua obsessiva insistência num hipotético voto impresso que lhe permitisse judicializar a eleição, eternizar a apuração e, com a preciosa colaboração das milícias que julga ter, melar o jogo.

Quartamente, além de malcriado, Sua Excelência é topetudo. Ao confessar que não admite que alguém possa gostar do Lula, mostra ser dono daquele tipo de insolência que só a ignorância permite. Quem é ele pra querer controlar o arbítrio do eleitor? Não cabe a ele escolher o(s) candidato(s) que vai(vão) vencê-lo nas urnas.

Falando em urnas, as pesquisas indicam, com clareza cada dia maior, que qualquer adversário vencerá o capitão no segundo turno. Qualquer um deles. Há até excelentes chances de ele nem mesmo passar do primeiro turno. Taí um bom motivo de alegrar nossa semana.

Olímpica

Ascânio Seleme (*)

Excelente exemplo da delegação brasileira que desfilou na abertura dos Jogos de Tóquio com apenas quatro integrantes. Fazer bonito de vez em quando não custa nada e ajuda a diminuir a antipatia global causada pelo capitão. O número reduzido de desfilantes era para mostrar preocupação com a pandemia de coronavírus.

No Brasil, os atletas devem ter sido vaiados por você sabe quem.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 24 julho 2021.

Podendo substabelecer

José Horta Manzano

Alguma vez, o distinto leitor já deve ter passado procuração a alguém. Quando um cidadão dá a outro o poder de representá-lo, é comum o documento exibir, lá no finalzinho, a expressão “podendo substabelecer”. Isso significa que o procurador tem poderes para confiar a terceiros o cumprimento de parte ou até da totalidade do mandato.

Em alguns casos, essa modalidade de procuração é incontornável. Quando a gente dá poderes ao dono de um escritório de advocacia, por exemplo, para nos representar e agir em nosso nome, é bom lembrar que ele pode não ter condições de cumprir física e pessoalmente todos os pontos do mandato. Em determinados casos, a atribuição será estendida a um funcionário do escritório para executar. É o que se chama substabelecer.

Uma informação da semana passada me impressionou. Como todos sabem, o senador Nogueira, chefão do Centrão, foi agraciado com a “vaga” de ministro da Casa Civil da Presidência da República – um posto pra lá de importante, que põe seu titular no coração do poder. Quando se leva em conta que a principal promessa de campanha de Bolsonaro era uma grande faxina para purificar o governo e livrá-lo de todo resquício de corrupção e de fisiologismo, a notícia é impactante.

Mas o que me abalou foi um detalhe que não chegou a ser comentado quanto devia. Diferentemente do que ocorre na França, no Brasil não é possível exercer dois cargos políticos ao mesmo tempo. A lei francesa permite, por exemplo, que um deputado junto à Assembleia Nacional continue sendo prefeito de sua cidade. Muitos e muitos políticos estão nessa situação. Mas no Brasil não pode. O senador Nogueira tem de escolher: ou continua senador e declina o convite para o ministério, ou vai ser ministro e deixa o cargo no Senado.

Até aí, tudo bem. O interessante vem agora. Ao deixar o Senado, senhor Nogueira não se despede definitivamente. Ele apenas “tranca a matrícula”, expressão antiga que não sei se ainda se usa. Faz que vai, mas não vai. E a cereja em cima do bolo vem agora. Para substituir o senador, assumirá a mãe dele! Dona Eliane Nogueira há de ser excelente pessoa; para comprovar, basta observar a criação que proporcionou ao filho – expoente do Centrão não é para qualquer um. O problema não está aí; o esquisito é essa peculiar figura do “suplente”. É curioso que, entra Constituição, sai Constituição, o suplente permanece no nosso ordenamento.

A mim não parece justo nem republicano entregar uma cadeira de senador a um indivíduo que não teve nem um voto. O titular, bem ou mal, recebeu os milhões de votos necessários e tem legitimidade para representar os interesses da população de seu estado. Já o suplente, fruto de mera dedada, representa unicamente os interesses de seu padrinho. O caso dos Nogueiras combina bem com o espírito clânico do atual governo: a troca de cadeiras se faz entre mãe e filho. Em família.

Senador da República é cargo importante demais pra ser exercido por procuração. Para evitar aberrações como essa, seria útil que, se um dia sobrar espaço entre um e outro conchavo, Suas Excelências se debruçassem sobre o problema e debatessem sobre um modo de modificar essa norma cujo efeito é criar senadores biônicos, igualzinho aos tempos da ditadura.

Seria útil se o fizessem, digo eu, mas tenho pouca esperança. Os únicos beneficiários do sistema atual são exatamente eles, os que fazem as leis. E ninguém gosta de serrar o galho onde está sentado.

Contraste fascinante

No DNI (Documento Nacional de Identificação), Argentina inclui opção para pessoas não-binárias.
La Nación (Buenos Aires), 21 julho 2021

 

 

O Globo (Rio de Janeiro), 22 julho 2021

 

Observação
Quem escreve “Bolsonaristas” assim, com letra maiúscula, deve também escrever Malufistas, Flamenguistas, Garantistas, Aposentados – tudo com maiúscula. Questão de isonomia.

Quando aperta o peito

José Horta Manzano

Todo estudante de inglês, vez ou outra, já deparou com a palavra “nightmare”. É como os ingleses chamam nosso conhecido pesadelo. Quando eu ainda não conhecia a origem do ‘pesadelo inglês’, a palavra me parecia pra lá de estranha. De onde viria um termo tão diferente?

A história vem do tempo em que os bichos falavam e as florestas europeias eram povoadas de elfos, fadas, sílfides, druidas e bruxas. Entre essas entidades mitológicas, (umas boazinhas, outras menos), havia uma figura maléfica – feminina em certas culturas, masculina em outras – que passava o tempo a perturbar a vida dos mortais.

A figurinha entrava nas casas pelo buraco da fechadura e seu prazer era sentar-se no peito de quem estivesse dormindo. Isso causava ao infeliz uma tremenda opressão acompanhada de horrível sensação de não poder gritar, nem se defender, nem escapar.

Essa entidade não aparece nas lendas dos países latinos, mas está presente na mitologia das regiões germânicas, escandinavas e eslavas. Em alemão moderno, seu nome é Mahr. As demais línguas utilizam o mesmo étimo: mara (sueco), mura (tcheco), mora (servo-croata), kikímora (russo). E assim chegamos ao nightmare dos ingleses. Literalmente, é o “mare” que vem à noite, o diabinho noturno.

A língua francesa, embora não seja germânica, adotou o mesmo étimo. Na forma atual cauchemar, o primeiro elemento é o verbo cochier, do francês medieval, que significa apertar. E o segundo é o mesmo monstrinho descrito nas línguas germânicas.

Em italiano, o “mare” não é mencionado. Utiliza-se a palavra de origem latina íncubo. A raiz é diferente das que são usadas na Europa do norte, no entanto a imagem de opressão é a mesma. Incubar (que existe em português, e é a forma culta de dizer “chocar”) significa sentar em cima ou deitar por cima, como a ave que choca os ovos. É sempre a imagem do diabinho sentado em cima do peito, a atormentar os que estão dormindo.

Em espanhol (pesadilla) e em português (pesadelo), não temos a imagem do espírito malévolo. Mas o efeito continua presente: o peso da criatura aparece em pesadelo e pesadilla.

Todo pesadelo é experiência desagradável – um sufoco, na verdadeira acepção da palavra. No entanto, assim que a gente abre o olho e vê que está vivo e em boa saúde, o perigo se desmancha no ar.

Como chamar, então, o momento de angústia que vivemos neste Brasil que parece ter sido abandonado pelas entidades boas? Como descrever estes tempos em que todas as notícias que vêm da Corte parecem obra de seres do mal? Como qualificar o sufoco que Jair Bolsonaro nos impõe? Terá ele aberto as porteiras do inferno?

A cada manhã, ao abrir o olho, a gente tenta imaginar que o pior já passou… mas não! O capitão continua lá, atormentando a existência de todos, como um imenso demo sentado em cima do bom povo.

Todo pesadelo costuma acabar de manhã, mas – ai de nós! – este túnel que estamos atravessando parece não ter fim. É pesadelo interminável, mais pesado que qualquer pesadelo. Que nome se deve dar?

O bode na sala

Carlos Brickmann (*)

Dizem que há muitos anos, numa região muito pobre, um lavrador vivia com a enorme família numa casa minúscula, quase em ruínas. Um dia, ele se queixou ao padre da aldeia da vida que levava: a família toda vivia reclamando das más condições e do pouco espaço da casa, mas como mexer nisso sem dinheiro?

O padre o aconselhou: leve seu bode para dentro de casa, e daqui a uma semana voltamos a conversar. O lavrador obedeceu. Na semana seguinte, voltou dizendo que tudo estava muito pior: o espaço tinha diminuído, o bode destruía o que podia e ainda cheirava pior que as histórias de compra de vacinas. O padre lhe disse: tire o bode de dentro da casa. Dois dias depois, o lavrador agradeceu ao padre: sem o bode na sala, todo mundo estava mais feliz, se sentia melhor, e as queixas tinham virado elogios.

Essa história de o fundão eleitoral passar de R$ 2 bilhões (o que já é um despropósito) para R$ 5,7 bilhões não é igualzinha a botar o bode na sala? O presidente veta R$ 5,7 bi, se acertam todos em algo como R$ 4 bi, e todos ficam felizes: Bolsonaro fatura o veto, Suas Excelências comem o dobro da já enorme verba de campanha, e haverá quem acredite que o presidente que come picanha de R$ 1.700,00 o quilo por nossa conta defendeu o Tesouro.

O gasto público na campanha eleitoral brasileira já é o maior do mundo – isso antes do bode na sala. Como diria Dilma Rousseff, alcançada a meta, dobramos a meta. E continuamos trabalhando para alimentar pançudos.

De ponta a ponta
Quando se trata de sugar mais dinheiro da população, ideologia deixa de ser importante: deputados que adoram Lula e deputados que amam Bolsonaro votaram juntos para triplicar as verbas de campanha. Farinha do mesmo saco. Condenarão a tunga, embora tenham votado por ela. Aceitarão com ar de sofrimento, em nome do interesse nacional, a falsa redução de verbas que representará, na verdade, o dobro daquilo que já mamam.

Senhor juiz, pare agora!
A única solução para a indecente situação do financiamento de campanha é o pedido, já feito ao Supremo, para que suspenda o escândalo. Espera-se que o ataque a nossos bolsos vá contra a lei. Ou a politicalha vai tomar o nosso.

Em poucas palavras
O Fundo Eleitoral é o dinheiro que as Excelências tomam dos cidadãos para decidir quem ocupará os cargos que lhes permitirão continuar a tomá-lo.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.