A polêmica instaurada ao redor do tema da adultização de crianças e adolescentes – que, na verdade, parece ter apenas retomado a discussão mais antiga sobre a sexualização precoce – foi tão intensa que vem ofuscando um outro fenômeno que considero tão ou mais perigoso para as áreas da educação e da psicologia social: o da correspondente infantilização dos adultos.
Penso na frase de John Steinbeck: ‘A boy becomes a man when a man is needed’ (1). Afinal, é preciso perguntar: quem em nossa atual sociedade detém o poder e a autoridade para planejar a própria existência, tomar decisões responsáveis, assumir o comando dos próprios desejos e controlar desvios? Diz a lógica que, se não há um adulto na sala, resta a quem está dentro dela organizar-se para aprender, através de ensaio e erro, a tomar as rédeas da situação. Assistimos todos os dias figuras públicas de renome, em especial as pertencentes ao quadro político nacional, se comportando como a turma dos fundos da sala da 5ª série. E as consequências não poderiam ser mais previsíveis: pretensos adultos legislando por birra, chantagem e retaliação, governando por conveniências e espúria troca de favores e julgando por omissão dos outros poderes. Nada mais emblemático do que a velha máxima que alerta: ‘Quand le chat s’en va, les souris s’amusent’. (2)
E vejam que não estou falando de idade cronológica. Estou me referindo à maturidade intelectual e emocional necessária para ser membro proativo de uma sociedade harmoniosa, colaborativa e equilibrada, que vise ao bem comum.
Vale a pena rememorar como esse fenômeno foi se desenrolando: primeiro foi a onda dos livros de colorir. Milhares de pessoas, homens e mulheres, aderiram à moda alegando que eles representavam um alívio importante do estresse cotidiano, além de ajudá-las a desenvolver sensibilidade humana e artística. Era um encontro com um bem-vindo aliado para lidar com um mundo centrado na compulsiva produção de resultados financeiros e pouca ou nenhuma sensibilização para com as necessidades individuais.
Na sequência, vieram os bonecos Labubu, uma mistura intrigante de pelúcias fofinhas e monstrinhos excêntricos. Vendidos como itens de luxo, acessíveis apenas a uma elite enfadada com os símbolos convencionais de status, eles rapidamente extrapolaram o universo infantil e passaram a ser objetos de desejo de adultos arregimentados por influenciadores digitais e subcelebridades.
Daí veio a onda mais forte, mais preocupante e mais duradoura: a dos bebês reborn. A moda se espalhou como um rastilho de pólvora entre mulheres de todas as idades e classes sociais, apesar do alto custo de exemplares personalizados. Evoluiu de tal forma, num crescendo de perda de contato com a realidade, que chegou ao ponto de uma mulher levar seu boneco para consulta com uma pediatra, a qual acabou sendo processada pela “mãe” por ter recusado o atendimento.
Esses bebês acabaram se tornando testemunhos sombrios da profunda solidão feminina em meio a um mundo misógino e violento, e da angústia diante de laços afetivos que se esgarçam com o tempo, como na relação com filhos humanos reais, ainda que possam ser entendidos também como uma forma de escape do dilema de não poder conciliar a maternidade e o investimento na carreira profissional, ou de não ter como lidar com a síndrome do ninho vazio.
Apesar de muitos profissionais da área de humanas defenderem que se trata de uma forma “saudável” ou aceitável de lidar com o sofrimento psíquico da vida real, fico me perguntando o que diria o papa Francisco se vivo ainda estivesse. Depois de tanta peroração contra a tendência de substituir filhos humanos por pets, como trabalhar terapeuticamente a urgente necessidade que muitas mulheres sentem hoje em dia de pertencimento, inclusão, acolhimento, respeito e imagem de respeitabilidade, de toque sensorial afetuoso, do desejo de cuidar e ser cuidado?
Mas, se cães e gatos já preenchiam as expectativas parentais de não serem abandonados um dia por seus filhos e de terem companhia amorosa na velhice, será que bebês reborn foram projetados para assumir o mesmo papel? Honestamente, eu duvido. Interagir com seres vivos é uma coisa bem distinta da falta de troca energética quando o apego se dá com objetos inanimados. Ainda sinto arrepios só de pensar na rotina de “cuidar” de uma boneca, sem dispor da fértil imaginação infantil: corpo imóvel, ausência de sons (choro e sorrisos) e impossibilidade de mudança/evolução no status da relação. Para mim, o inanimado está associado à morte, corresponde à relação com o próprio vazio existencial e com o que já está morto dentro de cada um – o que, sem dúvida, pode levar a um perigoso aprofundamento das doenças mentais e alucinações.
É na intersecção desses dois fenômenos – adultização de crianças e infantilização de adultos – que, a meu ver, precisa ser buscada a solução. O uso abusivo de telas, que interfere no cotidiano de todas as idades, restringe dramaticamente as vivências emocionais e corporais, prejudica o contato consciente com as pulsões do mundo interior e anula a possibilidade de transcendência.
O que ainda está por vir nesse contínuo de desorientação coletiva? A julgar pela recente tendência de buscar respostas através da “terapia” com chatbots e recursos de inteligência artificial, ainda teremos de enfrentar muito suor, sangue e lágrimas para redefinir o que significa “maturidade”.
(1) Um menino torna-se homem quando é necessário [contar com] um homem.
(2) Quando o gato vai embora, os ratos se divertem.




















