Saudação militar

José Horta Manzano

Doutor Moro foi flagrado outro dia, ao lado do presidente da República, batendo continência durante uma cerimônia militar. Prestar continência é gesto inabitual para um civil. Ficou esquisito. Aliás, muita coisa esquisita anda acontecendo estes últimos tempos.

Voltando ao gesto de saudação, é curioso que nenhuma língua além da nossa use a palavra continência pra designá-lo. Todos usam alguma expressão girando em torno do tema da saudação militar: salut militaire (francês), salute (inglês), militärischer Gruß (alemão), saluto militare (italiano) & cia.

Entendo o motivo de haverem escolhido o termo continência. Ao fazer o sinal de saudação diante de oficial superior, o militar menos graduado dá mostra de submissão, comedimento, sobriedade, resguardo, temperança – qualidades sugeridas pelo termo continência.

Falando em sinal de saudação, ocorreu-me que a palavra sinal faz parte de extensa família. Assinar, assinatura, sinalizar, sinaleira, pelo-sinal, sino, sinete são todos parentes.

Um outro membro da família merece atenção especial. É senha, termo que, embora não guarde parecença, é da mesma tribo sim, senhor. Está aí outra peculiaridade nossa.

Enquanto a palavrinha senha, sozinha, nos basta, outras línguas não conseguem designar o mesmo fato com um termo simples. Vai daí, são obrigados a valer-se de expressões compostas de duas ideias que transmitem a ideia de «palavra a pronunciar pra poder passar». Password, mot de passe, wachtwoord, Passwort são alguns exemplos. E pensar que, apesar de nossa senha estar presente na língua há 400 anos, há muita gente por esse Brasilzão usando password. Pra dizer a mesma coisa.

Bem, gente, vejam como são as coisas. Começamos este escrito falando em doutor Moro e terminamos falando em senha. É que senha lembra privacidade. Privacidade lembra hackeamento. Hackeamento lembra doutor Moro. E o círculo se fecha.

Garde à vue

José Horta Manzano

Michel Platini, glória do futebol francês nos anos 80, subiu na vida depois que abandonou o gramado. Chegou à presidência da Uefa, a União das Associações Europeias de Futebol, equivalente a nossa Conmebol.

Acusado de envolvimento em obscuras negociatas, voltou à luz dos holofotes. Só que, desta vez, não são os holofotes do estádio, mas os da mídia internacional, que se delicia quando um figurão tem contas a acertar com a justiça.

Chamada do Estadão, 18 jun 2019

O Estadão errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada da Folha de SP, 18 jun 2019

A Folha de São Paulo errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada d’O Globo, 18 jun 2019

O Globo acertou! Platini foi detido.

Na França – e também no Brasil – ser preso e ser detido são coisas diferentes. Platini foi hoje «placé en garde à vue».

Segundo os procedimentos policiais e judiciais da França, no decurso de uma investigação policial, o suspeito pode ser detido e instalado numa cela especial, dentro da delegacia de polícia. A todo momento, pode ser chamado para interrogatório. Dorme ali. Come ali. Esse regime, chamado de «garde à vue – retenção à vista», dura geralmente 48 horas. Ao final, o suspeito será apresentado a um juiz, que decidirá se o deixa livre ou se o despacha direto para a prisão.

Atualmente, Michel Platini está nessa situação. Nos filmes policiais, a cela costuma ser um engradado, num canto da delegacia, sem privacidade, à vista de quem por ali passar. Na vida real, pode ser situada em local mais discreto.

Amanhã ou depois, conheceremos a decisão do juiz. Saberemos se será aberto processo judicial e, se for o caso, se Platini poderá responder em liberdade. Ou não.

The bac is back!

José Horta Manzano

Como todos os anos, a estudantada francesa está em efervescência. É época do «bac», que equivale a nosso Enem. «Bac» é redução de baccalauréat, o nome completo. Encolhido a uma sílaba só, o exame parece menos assustador, torna-se quase amigo íntimo. Isso deve servir pra esconjurar o pânico.

Nesta época, a mídia dá conselhos aos candidatos. Evitar comida pesada, não tomar calmante, não varar a noite estudando de última hora, tomar café da manhã antes de sair de casa (ou, se o nervoso tiver causado enjoo, tomar pelo menos um chá com açúcar e levar um lanchinho pra mais tarde). Chegar ao local da prova com boa antecedência. São recomendações de bom senso.

A estranha palavra baccalauréat formou-se no latim medieval. Naquela época, era o nome da primeira distinção concedida pelas universidades de Teologia, de Medicina e de Direito. Na composição do termo, é evidente a influência de laureare (=oferecer ao homenageado uma coroa de folhas de louro). Acredita-se que a primeira parte da palavra venha de bacca (=designação comum a certas frutinhas silvestres). Portanto, baccalaureatus é aquele que recebeu a coroa de louros. Note-se que a forma latina bacca deu, em português, bago e baga.

No país de Voltaire, Sartre, Montesquieu e Raymond Aron, a Filosofia ocupa lugar de destaque. As provas do ‘bac’ sempre começam por essa disciplina. Todos os candidatos têm de passar por ela, embora o peso atribuído varie conforme a carreira. Tem peso maior para os que escolheram Letras. Mas até os que se propõem a fazer estudos científicos têm de enfrentar a ‘filô’.

E a prova de ‘filô’ foi hoje. Não sei como anda o nível do Enem, mas é de constatar que o “bac” francês mantém padrão elevado. Aqui estão os temas de Filosofia correspondentes a cada carreira. O candidato pode escolher entre duas proposições e tem quatro horas pra bolar uma dissertação.

Carreira científica
Tema 1
A pluralidade de culturas é nociva à unidade da humanidade?

Tema 2
Reconhecer seus deveres significa renunciar à própria liberdade?

Carreira econômico-social
Tema 1
A moral é a melhor das políticas?

Tema 2
O trabalho divide os homens?

Carreira literária
Tema 1
É possível fugir ao tempo?

Tema 2
Vale a pena explicar uma obra de arte?

Pronto. Celular desligado, o distinto leitor dispõe de quatro horas pra produzir sua obra-prima. Em francês, s’il vous plaît.

ET
A palavra “baccalauréat” pertence à família que deu o inglês bachelor e nosso familiar bacharel – todos eles bambambãs em Filosofia, naturalmente.

Intestinos envenenados

Vinicius Torres Freire (*)

Era uma vez um governo que teria dois superministros, Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Entraram por uma porta, saíram por outra.

São príncipes transformados em plebeus da Esplanada dos Ministérios pelo caldeirão da política de Jair Bolsonaro, que tem intestinos envenenados, filé de serpente, pelo de morcego, língua de cão e múmias de feiticeiras, como o cozido das bruxas de Macbeth, mas não tem coalizão parlamentar. Fim.

(*) Vinicius Torres Freire tem graduação em Ciências Sociais (USP) e mestrado em Administração Pública (Harvard). O texto é parte de artigo publicado na Folha de São Paulo.

Reconstruindo Chico Buarque

Eduardo Affonso (*)

Meu primeiro texto a viralizar nas redes sociais, em 2015, foi uma carta aberta ao Chico Buarque. Nela eu me apropriava dos seus versos para confrontá-lo por ter se tornado cúmplice de malandro oficial, de malandro investigado na Polícia Federal. Por defender quem não tem decência, nem nunca terá; quem não tem vergonha, nem nunca terá; quem não tem limite. Por não se importar em ver a Pátria Mãe, tão distraída, ser subtraída em tenebrosas transações.

Dizia-lhe que ele estava diferente, que já não o conhecia mais. Trocando em miúdos, que, apesar dele – e do PT – amanhã haveria de ser outro dia.

Eu era um pote até aqui de mágoa, claro. A trilha sonora da minha infância incluía ver a banda passar cantando coisas de amor. Depois houve dias de me sentir como quem partiu ou morreu, ao meio-dia só pensar em dizer não, comer feijão com arroz como se fosse um príncipe e catar a poesia entornada no chão.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Chico me ajudou a pensar em Deus como um cara gozador, que adora brincadeira. A perder a vergonha de fazer amor até mais tarde e ter muito sono de manhã. A me supor capaz de subir uma montanha não como anda um corpo, mas um sentimento; de tirar o chão dos pés, de criar raiz e me arrancar, de me indagar se é perigoso a gente ser feliz.

Chico foi a voz dos que, ouvindo passos já no vão da escada, sabiam que não havia nada a fazer senão chamar o ladrão – e pedir que afastassem de nós este “cale-se!”. Foi a mais perfeita tradução daqueles tempos de um pé na soleira e um pé na calçada, de uma mulher chamada Angélica que só queria embalar seu filho que morava na escuridão do mar.

Mas eis que chegou o destino e carregou Chico Buarque para lá – para o lado dos que apoiam ditaduras, fecham os olhos às maracutaias, se indignam seletivamente. Em algum momento sua estrada entortou, e ele resolveu ir até o fim. Se é que não tinha sido assim desde sempre, e o dono destes neurônios não via.

O PT nos roubou uma década e meia. Desviou bilhões. Nos tirou a esperança de um país mais justo, mais solidário, sem miséria. De um Brasil de todos. E, de quebra, nos tomou Chico Buarque.

Pegamos ranço dele, da sua voz de taquara rachada, da sua prática de louvar o subúrbio e a favela, e morar no Leblon. De se derreter por Havana, Luanda e Manágua, e tirar férias em Paris. Tornamo-nos macarthistas tardios, fiscais da coerência alheia. Fizemos seu funeral no mesmo cemitério dos mortos-vivos onde o cartunista Henfil um dia sepultara Elis Regina, Carlos Drummond, Clarice Lispector e todos os que cometessem o sacrilégio de colaborar com o adversário político (na ocasião, o regime militar).

Jorge Amado não é só dos baianos ou de quem cultua os orixás. Adélia Prado não é exclusiva das devotas da Festa do Divino de Divinópolis, em Minas Gerais. Por que haveria Chico Buarque de ser monopólio da sua seita?

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Se Vinicius de Moraes, também de esquerda, fosse vivo e frequentasse o palanque de Lula, Dirceu, Gleisi e Dilma, nosso amor por ele seria finito enquanto durasse essa opção política? Ou continuaríamos a amar seus versos por toda a nossa vida? Trataríamos Tom Jobim a pau e pedra? Negaríamos a Nara Leão a liberdade de ter opinião?

Santo Agostinho pregou odiar o pecado e amar o pecador. Dá para seguir sua lição ao revés: desdenhar da ideologia do autor e amar a obra. Até porque, ao contrário da relação pecado/pecador, não há vínculo entre o marxismo e a métrica, a acumulação do capital e a riqueza da rima, a ditadura do proletariado e a transcendência da poesia. “Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons”…

Chico, o eleitor, tem o direito de professar ideias contrárias às da maioria da população – direito inalienável numa democracia e utópico nos regimes que ele apoia. Chico, o compositor, é parte da nossa memória afetiva, é patrimônio nacional, não importando se a História passou na janela, só ele não viu.

O PT, que inventou o “nós x eles”, ora, tenha a fineza de desinventar. De nossa parte, parar de jogar pedra no Chico e de adorá-lo pelo avesso é uma forma de começar a reconstruir a nós próprios.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

Em nome da causa

Demétrio Magnoli (*)

À sombra de Lula, a Petrobrás foi saqueada. A Lava a Jato prestou serviços valiosos à nação, expondo máfias políticas e empresariais dedicadas à pilhagem sistemática de recursos públicos. Mas, agora sabemos, desviou-se pelos atalhos do arbítrio. Não há inimigo mais letal do combate à corrupção do que juízes e procuradores dispostos a flexibilizar a lei em nome da causa.

(*) Demétrio Magnoli é geógrafo. O texto é trecho de artigo publicado na Folha de São Paulo de 15 junho 2019.

Libra

José Horta Manzano

Não é clara a origem da palavra libra. Parte dos etimologistas acredita que descenda de um hipotético proto-itálico *leithra, já então nome de uma unidade de peso. O que se sabe é que o nome passou para as línguas neolatinas.

Em italiano moderno, aparecem as formas libra/libbra (= unidade de peso) e lira, que é o nome da defunta moeda nacional.

Em francês, a forma evoluiu para livre, com dois significados: por um lado, é nome da unidade de peso utilizada nos países anglo-saxônicos; por outro, é a moeda em vigor em diversos países (Reino Unido, Turquia, Líbano, Egito).

Em espanhol, a forma libra é usada com vários significados. Pode ser a unidade monetária em vigor em diversos países; pode também ser o nome de moeda usada antigamente em algumas regiões do país; pode ainda dar nome a uma medida de capacidade equivalente a aproximadamente meio litro. Pode ainda se referir à constelação da Balança.

Em português, a forma é idêntica ao castelhano: libra. Encerra diversos significados: unidade de peso, nome da moeda em vigor no Reino Unido e em mais meia dúzia de países, constelação zodiacal, signo do zodíaco.

Saiu hoje a notícia de que, no rastro de outras criptomoedas que circulam por aí, Facebook está preparando o lançamento de moeda virtual própria. A novidade deve começar a circular daqui a alguns meses, mas o bebê já tem nome: vai-se chamar libra.

Libra: a criptomoeda de Facebook

Fico meio pensativo. A central de inteligência dessa empresa deve concentrar elevado número de gênios. É gente (muito bem) paga, que está lá justamente pra espremer as meninges e gerar ideias fabulosas, daquelas que fazem a empresa dar saltos à frente da concorrência. Cáspite! Como é que podem dar à nova moeda o nome de libra?

O nome já existe e é amplamente utilizado. Se a palavra soa exótica aos ouvidos formatados dos gênios californianos, deveriam, pelo menos, ter consultado gente de ouvidos mais arejados. Não precisa ir muito longe: nos USA, calcula-se que 40 milhões de pessoas sejam de língua castelhana. Além deles, os latino-americanos são centenas de milhões a falar espanhol ou português. Todos (ou quase) são usuários de Facebook. E todos dão o nome de libra à moeda inglesa.

Não acredito que o fato de haver duas moedas importantes com o mesmo nome venha a criar confusão. Também não acredito que alguém deixe de investir na nova ‘moeda-fumaça’ por causa do nome. Mas, francamente, com tanto nome por aí, deram prova de tremenda falta de imaginação.

Hacker

José Horta Manzano

No original, o verbo inglês to hack significa cortar grosseiramente. O nome hacker, portanto, designa o sujeito que passa o dia com a faca na mão a cortar, decepar, romper ou rachar. Dado que cortadores profissionais não são multidão, deduz-se que esse substantivo não há de ter sido muito usado nos séculos de antigamente.

A segunda metade do século 20 assistiu a lento movimento de popularização do computador. Alguém teve a ideia de pescar no vocabulário inglês o termo hacker pra designar o perito em segurança informática. No início, o termo indicava o profissional ‘do bem’, que exercia suas funções sem causar dano a ninguém.

Com o passar dos anos e a crescente democratização dos computadores, o número de especialistas mal-intencionados aumentou. Muito agressivo, este novo tipo de hacker age por curiosidade, por pura má-fé, por consciência política ou por interesse financeiro. Diante de um leque tão amplo de motivações, todos nós estamos ameaçados de hackeamento.

O cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder, não precisa temer que sua privacidade seja invadida por razões políticas. Assim mesmo, é aconselhável proteger-se contra ataques movidos por hackers de má-fé, que nunca se sabe – tem muita gente perturbada por aí.

Já os que navegam nas esferas mais elevadas – políticos, magistrados, milionários, grandes empresários – têm de ser espertos. Por óbvio, estão em permanência no olho do furacão, na mira de muitos interesses. Não há problema em usarem o telefone pra dar bom-dia ou pra marcar encontro. O embaraço começa quando têm de manter conversa confidencial, seja verbal ou escrita.

Pra garantir privacidade total, só há um meio: utilizar telefone criptografado(*), daqueles cuja inviolabilidade é garantida. Assim mesmo, o utilizador, seja ele magistrado, político ou empresário, deveria procurar assistência de um perito que o iniciasse nas artes de bloquear tentativas de invasão.

Pode parecer complicado, mas é indispensável. Mentir, mentimos todos. Bobagens, proferimos todos. Atalhos pouco republicanos, tomamos todos. Pra resumir: ninguém é santo. Portanto, mais vale prevenir antes que nossos podres sejam expostos em praça pública.

Antes de fechar, uma reflexão: todas essas revelações não fazem Lula da Silva inocente. Nem Eduardo Cunha. Nem Sergio Cabral Filho. Nem o resto da turma.

(*) Criptografado não me parece palavra adequada a esse caso. O segundo elemento (grafado) desorienta. Melhor seria dizer “telefone criptado”. Acontece que o verbo criptar ainda não está dicionarizado. Um dia, quem sabe.

Birra
Sei que não tem jeito – hacker, hackear e hackeamento vieram pra ficar. Ainda assim, continuo preferindo pirata, palavra muito mais flexível. Dá pra usar: piratagem, pirateamento, piratear, piratinha (já imaginaram “hackinho”?). E mais: piratesco, piratada, piratíssimo. O resto fica por conta da criatividade de cada um.

Prisão aos 13 anos

José Horta Manzano

Desde sempre, a legislação francesa tem sido vaga e pantanosa no trato de delinquentes juvenis. Um decreto de 1945, ainda em vigor apesar de inúmeras alterações, proíbe que um jovem infrator seja submetido à justiça dos adultos. Menores de idade serão sempre julgados por tribunal especial e, em caso de condenação, não serão encarcerados em companhia de condenados adultos. Serão objeto de medidas de proteção, de educação ou de reforma.

O decreto de 1945 é vago e impreciso, permitindo que o jovem delinquente seja efetivamente preso em estabelecimento dedicado à juventude. Para coibir abusos, a ministra da Justiça acaba de anunciar novo projeto de lei a ser apresentado pelo governo daqui a dois meses.

A ideia principal é fixar uma idade mínima, abaixo da qual o jovem será considerado inimputável. A idade proposta é de 13 anos. Portanto, caso seja aprovada a nova lei, crianças com menos de 13 anos só poderão ser julgadas (e eventualmente condenadas) com autorização especial emitida pelo Juiz de Menores.

Para delinquentes a partir de 13 anos de idade, nada muda: continuarão a ser enquadrados pela justiça de menores. Não sei se os ativistas do ‘politicamente correto’ já baniram a expressão que estou para usar. Seja como for, uso assim mesmo: eles, que são brancos, que se entendam.

Essa historinha francesa merece ser comparada com a situação brasileira. Enquanto nós discutimos o adiantamento da maioridade penal de 18 para 16 anos, eles propõem que se deixe de julgar menores de 13 anos.

No fundo, adiantar ou atrasar a maioridade penal não resolve o problema da criminalidade. No Brasil, o santo remédio está assentado em dois pilares: a instrução dos cidadãos e a diminuição da desigualdade social. Fora disso, toda reforma será apenas cosmética.

A bomba e o Bessias

José Horta Manzano

Outro dia, um jovem desequilibrado vestiu agasalho com capuz, saiu da periferia de Lyon (França), foi até o centro da cidade de bicicleta, depositou discretamente, numa rua frequentada, uma bomba fabricada na cozinha de casa e acionou o detonador a distância. A explosão feriu meia dúzia de pessoas. Dois dias depois, o rapaz estava atrás das grades.

Em 2016, ficou famosa uma misteriosa conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff e o já ex-presidente Lula da Silva. Era aquela em que a doutora prometia ao chefe mandar o ‘Bessias’ com o ‘papel assinado’ – o título de ministro da Casa Civil, que livraria o demiurgo das agruras da Justiça comum que, como todos sabem, foi feita para o populacho e não para criminosos de categoria. Bastou um curto espaço de tempo pra o Brasil inteiro tomar conhecimento do caso. Com todos os detalhes, hilariantes ou tenebrosos.

Estes dias, o Brasil ficou sabendo de alentada troca de mensagens entre integrantes da força-tarefa da Lava a Jato e doutor Moro, hoje ministro da República. Em praça pública, pra quem quiser ver, estão disponíveis as conversas, tim-tim por tim-tim. E por escrito, o que não deixa de ser melhor que o episódio do ‘Bessias’ da doutora.

Qual é o fio condutor que liga essas três historietas? É a abolição – lenta e gradual, mas inexorável – da privacidade. Golpes diários vêm ferindo de morte a vida particular de cada cidadão. Não dá mais pra escapar. Nem o terrorista de Lyon, nem a doutora, nem o Lula, nem o ministro Moro, nem a turma da Lava a Jato se deram conta de que o mundo mudou.

Telefonema e troca de mensagens são pirateados com facilidade desconcertante. Todo deslocamento físico de quem quer que seja é flagrado por câmeras instaladas por toda parte neste mundaréu que Deus fez. Está cada dia mais difícil refugiar-se na discrição. A devassa perpassa todas as atividades humanas.

Assim, de cabeça, só me ocorre um jeito de comunicar em total discrição: é a velha carta. Para nossos padrões, correspondência epistolar – ô palavra chique! – é um bocado lenta. Mas não dá pra ter tudo. Tivesse a doutora mandado uma carta ao Lula, era bem possível que ele tivesse escapado à Justiça do povão. Tivessem o MP e doutor Moro trocado epístolas, nenhum pirata teria ficado sabendo. Nem mesmo o Capitão Gancho.

Quanto ao perturbado que fabricou a bomba, ah, pra esse, carta não resolve. Ainda bem.

Cumprindo promessas

Ascânio Seleme (*)

Bolsonaro mandou ao Congresso projeto liberando compra e uso de armas de fogo de potência e em número nunca imaginados. Também encaminhou proposta reduzindo multas de trânsito, inclusive para quem circular com crianças soltas dentro dos carros.

Por portaria, já liberou 197 agrotóxicos, mais de um por dia. O governo diz que o presidente está cumprindo promessas de campanha. Não me lembro de Bolsonaro ter prometido tomar medidas que garantidamente aumentassem o número de brasileiros mortos a cada ano.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 9 junho 2019.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Falam de nós – 28

José Horta Manzano

Neymar, jogador de futebol, é figurinha conhecida no mundo todo. Mais que os demais países, o Brasil e a França o consideram como alguém de casa. O Brasil, naturalmente, porque o moço nasceu e cresceu aqui. E a França, porque ele está contratado pelo time de Paris – que, de parisiense, tem cada vez menos, dado que é propriedade pessoal de um príncipe do Catar; mas isso não vem ao caso.

No Brasil e na França, as vicissitudes do turbulento rapaz têm ocupado lugar de destaque na mídia. O esbanjamento típico de novo-rico, como o deslumbrante solar em que ele vive nos arredores de Paris, encantam alguns, mas deixam muita gente irritada. A agressividade que o jovem demonstrou outro dia contra um torcedor não ajudou a melhorar sua imagem perante a opinião pública.

Essa história um tanto indecorosa do desentendimento entre ele e a moça mandada vir do Brasil para fins de namoro rápido anda dando pano pra mangas. Na minha visão pessoal, esse assunto é do foro íntimo dos dois amantes e deveria ser resolvido entre eles. Mas cada um dá às próprias mazelas o tratamento que lhe parece mais adequado.

by Moisés de Macedo Coutinho (1972-), desenhista paulista

Meio boquiaberta, a imprensa francesa tomou conhecimento de que, no caso do pretenso estupro, o presidente do Brasil apoia Neymar. Pátria dos direitos humanos, a França faz questão de repetir, a quem interessar possa, que respeita a presunção de inocência. Ninguém será considerado culpado antes de ser julgado e condenado. Daí o espanto geral ao ver que nosso mandatário-mor não só respalda o acusado, como também vai de visita ao hospital onde ele está internado e ainda tira selfie. O presidente escolheu seu campo antes mesmo de qualquer decisão da Justiça. No entender dele, seja o que tiver acontecido entre os pombinhos, a culpada é a moça. É uma aposta arriscada.

Pra quem não sabe direito o que caracteriza um político populista, aí está mais um elemento de informação. Repetindo o que Lula da Silva fez durante sua longa gestão, doutor Bolsonaro fatura em cima do futebolista brasileiro mais em voga. Até aí nada demais. O que ele não devia fazer é dar apoio ao acusado de um crime que ainda está em fase de investigação. Suponhamos que Neymar seja considerado culpado e acabe sendo condenado – como é que fica? Doutor Bolsonaro vai continuar apadrinhando um criminoso? A imprudência periga custar-lhe caro.

Eco na mídia francesa:
BFM – Canal de televisão
La Croix – Jornal impresso e online
Orange – Portal esportivo

Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.