Palacio Quemado

José Horta Manzano

Não é qualquer país que tem o governo funcionando num palacete chamado “Palacio Quemado”. Pois é o caso de La Paz, Bolivia – cidade que não tem feito jus ao nome, nestes dias de tumulto. Paz não há. Desconheço a origem do nome do palácio. À primeira vista, trata-se de edifício que já foi vítima, no passado, de incêndio. Pelo histórico do país hermano, não espantaria que a queima do edifício não tenha sido acidental, mas provocada.

Os incêndios continuam. Residências de dignitários de alto coturno vêm sendo queimadas. Francamente, a destruição pelo fogo parece fixação nacional. Pressionados pelos eventos, pelas manifestações e, principalmente, pela deserção do exército e da polícia, o governo acabou caindo. Acuados, os dirigentes tinham subido ao telhado quando, espertamente, as forças armadas e a população descontente retiraram a escada. Não houve jeito. Tiveram de pedir arrego e arreglo.

Chegou o capítulo final da longa novela que ali se desenrola há quase 14 anos, desde a eleição de Morales, ainda nos tempos de nosso jurássico mensalão. Imagine o distinto leitor que, quando señor Evo Morales foi eleito pela primeira vez, Chávez ainda encantava Lula da Silva com a lorota dos dólares do petróleo. Foi quando um Morales recém-eleito nacionalizou uma usina da brasileira Petrobrás, cujo maior acionista é o governo brasileiro. Um aparvalhado Lula deixou por isso mesmo.

Evo Morales
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

O presidente da Bolívia é um recordista de longevidade. Nos 26 anos que correm de 1980 a 2006, ano de sua primeira eleição, nada menos que 19 presidentes governaram o país, boa parte deles ditadores militares. Isso dá média de um ano e quatro meses para cada mandato. Desde os tempos de Simón Bolívar (que, além de dar nome ao país, presidiu-o por 139 dias), nunca se havia visto presidência tão longa.

Señor Evo Morales um dia teve apoio e ajuda de Cuba, Venezuela, Equador, Nicarágua, Argentina e, mais que todos, do imenso Brasil do PT. Sem o Brasil, a Bolívia é país economicamente inviável. Quem compraria o gaz, de que o país é flatuloso?

Como é fácil de imaginar, Cuba, Venezuela, Argentina e Rússia – cada um por motivo próprio – protestaram contra a renúncia de Morales, que classificam como golpe de Estado. Pode até ser. Mas não há que passar em branco as manobras pouco republicanas que o resiliente presidente boliviano empreendeu para agarrar-se ao Palacio Quemado. Se há golpe hoje contra ele, golpes já houve de autoria do próprio. A coisa vai, um dia a coisa volta.

Mais pragmático, o governo mexicano oferece asilo tanto a Evo quanto aos que lhe são chegados. Boas-vindas ao novo governo do país hermano, que é o vizinho com o qual o Brasil tem, de longe, sua mais longa fronteira: quase 3500km. Vamos torcer para que, desta vez, consiga presidir civilizadamente o país. Ah, e que nenhuma propriedade brasileira seja encampada!

Melhor que um ‘derby’

José Horta Manzano

Hoje não era dia de escrever, mas tem horas em que é difícil ficar de boca fechada. Ou de dedos parados, depende. A decisão que o STF tomou ontem valeu mais que um Fla-Flu – um derby, como se dizia antigamente. Que hoje convém escrever dérbi, coisa mais sem graça. A decisão foi daquelas que revelam o humor do momento sem dar indicações de como será o momento seguinte. (Falo do STF, não do ‘dérbi’, que isso é doutra freguesia.)

Sabemos hoje que o cidadão que delínque – e que tem dinheiro, isso é importante! – corre baixíssimo risco de ter de cumprir prisão. Se for condenado por um juiz de primeira instância, nada acontece: fica em casa. Se apelar e for recondenado por tribunal colegiado, nada acontece: fica em casa. Se reapelar e a culpabilidade for reconhecida pela terceira vez (pelo STJ), nada acontece: fica em casa. Se provocar o STF, tem 9 chances em 10 de o crime prescrever por decurso de prazo antes da decisão definitiva. Se – para um sujeito hiperazarado – o crime não estiver prescrito e a sentença for confirmada, basta aparecer em público com ar aparvalhado, babando ligeiramente, empurrado numa cadeira de rodas, munido de atestado médico. Nada acontecerá: voltará pra casa em «prisão domiciliar».

Não é uma maravilha? Que venham todos os bandidos do mundo pedir para serem julgados pela Justiça brasileira! Atenção: falo dos que têm dinheiro, naturalmente. São bandidos? Pouco importa. A isso, estamos acostumados. Uns a mais, uns a menos, não faz diferença. São ricos? Que transfiram a fortuna para o Brasil e que a apliquem em investimento produtivo, não especulativo. Será excelente injeção em nossa minguante economia. (De qualquer modo, há que convir: todas as montanhas de dinheiro que voam ao redor do planeta sofrem de alguma irregularidade passada, presente ou em preparação.)

E pare com essa cara de espanto! Na nossa terra querida, nada mudou. Aliás, as coisas estavam querendo mudar, mas estão voltando aos eixos. Estes últimos cinco ou seis anos, dominados por essa tal de Lava a Jato que ninguém sabe donde veio, tinham sido assaz incômodos pra muita gente fina. Agora as antigas certezas voltaram. Cadeia é só para os tres pês: preto, pobre e prostituta. Faz 500 anos que é assim! E não se fala mais nisso.

Nota de pé de página
Más línguas garantem que doutor Bolsonaro estourou champanhe ontem à noite. Lula solto é tudo o que ele queria. É a garantia de que, ainda que muita gente não aprecie, o segundo turno das próximas eleições presidenciais terá dois candidatos definidos desde já: a dupla inoxidável Lula x Bolsonaro.

A escolha vai ser pra lá de difícil. Fosse a eleição hoje, o Lula teria grandes chances. Daqui a três anos, tudo pode mudar. Daqui até lá, muito esgoto ainda há de passar por debaixo da Ponte da Freguesia do Ó.

A lógica do cidadão sem lógica

José Horta Manzano

A lógica do cidadão sem lógica é, às vezes, chamada de bom senso. Suas Excelências estarão discutindo, hoje, no STF, o futuro do entendimento atual sobre prisão em segunda instância.

Variando ao sabor da mudança de composição do colegiado – ou da bizarra mudança de posição de algum componente – a prisão do condenado condenado por tribunal simples e confirmada por tribunal de apelação já foi considerada legal, ilegal, legal, ilegal. No momento em que escrevo, vige. Amanhã, só Deus sabe. Vige!

A lógica do cidadão sem lógica é mais direta, sem essas nove horas. Não é cheia de nós pelas costas, como se dizia antigamente. Ela corre por fora de eventuais mudanças de (com)posição de togados. Baseada no bom senso, é menos política, mais simples e mais próxima do entendimento do eleitor.

A lógica do bom senso entende que a questão está mal formulada. Não se devia estar perguntando se é legal prender um indivíduo condenado duas vezes, uma das quais por tribunal colegiado. A pergunta correta é: como é possível que um tal indivíduo, duplamente condenado, ainda esteja fora das grades? Esse é o detalhe de nossa estranha Justiça que surpreende o observador não iniciado. Não conheço outro país onde se possa ver bizarrice assim. É mais comum ver encarcerados à espera de julgamento do que duplamente condenados que esperam em casa por uma terceira ou uma quarta confirmação que não se sabe quando virá.

Se o caso Lula da Silva é excepcional, assim deve ser tratado: com soluções e expedientes excepcionais. O que não vale é alicerçar jurisprudência de olho no caso desse cidadão. Que sua tropa de advogados exija impugnação do(s) tribunais que o condenaram. Que seja considerado inimputável. Que seja objeto de graça presidencial. Pouco importa. O que não pode é a Justiça brasileira continuar refém de um caso pessoal. Por mais importante que o atual condenado tenha sido em outra existência, seu caso pessoal não pode abalar a estrutura do ordenamento legal do país. Nem o (questionável) guilhotinamento do rei Luís XVI teve o condão de mudar a aplicação do Código Penal francês.

O Lula não pode ser o barômetro nem a estrela-guia da Justiça do Brasil. Não é ele quem dá o tom. Que se libere o Lula. Que se o tire da cadeia. Que se o despache para uma mansão cinematográfica construída numa praia caribenha paradisíaca, banhada por águas tépidas e translúcidas de cor turquesa. Que se o mande para o raio que o parta. Mas que os doutos e cultos espíritos que ocupam as onze poltronas do STF tenham a lucidez de encarar a realidade com a lógica do bom senso. Que admitam, de uma vez por todas, que lugar de criminoso condenado duas vezes – sendo uma por tribunal colegiado – é na cadeia.

Nota
Por minha parte, acredito que indivíduo condenado em primeira instância a cumprir pena de mais de dois anos de prisão já devia ser encarcerado. Recurso, todos interpõem, de qualquer modo. Ainda que o encarcerado apele à Justiça e requeira revisão da condenação, terá de esperar atrás das grades. Chame-se ele Luiz Ignacio ou Zé da Silva. Não é justo que os que dispõem de fortuna (por vezes mal amealhada) aguardem tranquilamente em casa, enquanto os demais sejam os únicos a serem presos.

China capitalista

José Horta Manzano

Não consegui ficar sabendo quais foram os resultados comerciais da visita de doutor Bolsonaro a seu colega chinês, Xi Jinping. O que mais se ficou sabendo é que nosso presidente afirmou estar «num país capitalista» – versão que há de ter irritado muita gente na alta cúpula de Pequim. Doutor Bolsonaro tem o dom de, com poucas palavras, demolir estratégias cuja construção havia levado meses. Visita de Estado não se resolve assim, da noite pro dia.

A tolerância dos dirigentes chineses, em certos temas, é limitada. O sistema de governo é um deles. Melhor não tocar no assunto. Bolsonaro não sabia. Ninguém nasceu sabendo, é verdade, mas seus ineficazes assessores deveriam ter-lhe ensinado. Eles também não nasceram sabendo. Deviam ter estudado mas, sacumé, dá um trabalho!

Aqui entre nós, numa escala de zero a cem, eu classificaria o regime chinês como 75% capitalista com 25% de comunismo remanescente. Mais que comunista ou capitalista, o regime de Pequim é au-to-ri-tá-rio. Essa é a palavra-chave. Mas eu, José Horta Manzano, posso dizer isso à vontade. Falo em meu nome, não represento ninguém. O presidente do Brasil é a voz oficial da República Brasileira, cáspite! Ele não pode dizer esse tipo de coisa. Não devia dizer, mas disse. Quem nasceu pra tostão dificilmente chegará a milréis.

Se alguém ficou sabendo do montante total dos contratos firmados durante a visita, faça a gentileza de me avisar. Não encontrei em lugar nenhum. Para compensar, tenho outra história de visita presidencial.

Emmanuel Macron e Xi Jinping

Emmanuel Macron, presidente da França, está hoje encerrando sua visita a Pequim. (Será que Xi Jinping tem tempo pra outra coisa que não seja receber chefes de Estado estrangeiros?) Orgulhosa, a imprensa francesa publicou o montante total dos contratos firmados. São 15 bilhões de dólares (= 61 bilhões de reais – 61 bi!) Macron confirmou – num discurso pronunciado ao lado de Xi Jinping, portanto, sem mentira possível – ter tido uma conversa franca com o colega chinês. Disse ter falado da preocupação francesa com a pouca atenção que a China presta à proteção de certos direitos humanos. Disse haver externado sua inquietude com os distúrbios que, há meses, castigam Hong Kong. Mostrou-se especialmente aflito com o destino dos numerosos cidadãos franceses que vivem na antiga colônia britânica.

Bem treinado e escolado, Emmanuel Macron não se preocupou em dar sua avaliação, em público, sobre as características do regime – comunismo ou capitalismo. Nem precisava. Pra quê? Só pra irritar os donos da casa? Nesse tema, a palavra mais inocente periga ser mal interpretada.

Já doutor Bolsonaro tinha de botar reparo numa declaração malcriada e arrogante que havia feito, meses atrás: a de que a China podia comprar do Brasil, mas não o Brasil. Em matéria de declaração desajeitada, essa figura entre as dez mais. Deve ter acreditado que chamar o regime de «capitalista» fosse elogio. Para Pequim, não é. Em vez de suavizar a besteira que havia dito quando ainda candidato, pisou na bola de novo.

Qual é mesmo o montante total dos contratos comerciais firmados entre doutor Bolsonaro e Xi Jinping?

Uber em Genebra

José Horta Manzano

Você sabia?

Seguindo o exemplo de outras cidades espalhadas pelo planeta, como Barcelona, por exemplo, Genebra acaba de proibir o sistema de taxi por aplicativo. Leia-se Uber, o ator principal desse nicho.

Na verdade, proibição não houve – foi mais sutil. O governo do cantão atendeu ao reclamo dos taxistas regulares. Estes últimos têm de se registrar, ser aprovados num exame cabeludo e comprar uma licença de exercer (que custa uma nota).

Ainda por cima, Genebra sendo cidade fronteiriça com a França, volta e meia um taxista francês (do outro lado da fronteira) vem trazer um passageiro ao aeroporto ou à estação de trem e, na volta, apanha clandestinamente um passageiro. Esses motoristas estrangeiros não são registrados, não prestaram exame nem pagaram licença, portanto não têm direito de pegar passageiro na cidade. Mas o controle é difícil e quem acaba perdendo a corrida é o taxista registrado.

Táxi no tempo em que ainda se lia jornal

O governo cantonal não proibiu o Uber, na verdade. Simplesmente determinou que, se quiserem trabalhar como taxistas, os motoristas de aplicativo têm de seguir as mesmas regras que os demais: enfrentarão o exame, comprarão licença de exercer, serão registrados como funcionários da Uber, receberão salário e terão direito a todas as regalias (e às obrigações) que regem as relações trabalhistas. O que não pode é serem considerados «autônomos», escaparem à legislação trabalhista e estarem desprovidos de cobertura social. Quem seguir a boa receita, sim, vai poder circular.

Uber sentiu o golpe e não gostou nadinha. A filosofia da empresa é justamente deixar investimento e risco na mão dos que trabalham para ela, sem ter de se preocupar com relações trabalhistas. Ficam com a parte boa e deixam os podres para os mais fracos. Inconformados, os dirigentes da Uber já avisaram que a empresa vai entrar com recurso junto aos tribunais.

Nota
Dado que muita gente gostaria de ser taxista regular em Genebra – cidade que costuma aparecer no topo da lista dos táxis mais caros do mundo –, o governo avisa a todos os candidatos que a lista de espera é longa. Todos os que se inscreverem têm, naturalmente, direito a saber em que lugar estão na lista de espera. Podem fazer isso a todo momento, por internet, cada um torcendo pra que os que estão à frente desistirem. Ou resolverem seguir outra profissão. Ou chegarem à idade da aposentadoria. A espera pode se prolongar por anos. Um passinho à frente, que a fila anda!

Fingir que preside

José Horta Manzano

Que doutor Bolsonaro é ignorante e inculto, já ficou claro desde o discurso de posse;

que ele é grosseiro e malcriado, faz tempo que todos já sabem;

que ele é rancoroso, a maioria já descobriu;

de que ele é teleguiado pelo guru boca-suja, já é notícia antiga;

de que ele cobre os ‘malfeitos’ dos filhos destrambelhados, restam poucas dúvidas;

de que ele é vingativo, muitos já se deram conta;

que ele gostaria mesmo é de virar ditador, alguns já estão começando a perceber;

de que ele, mesmo tendo sido eleito pra representar o Estado Brasileiro, se nega obstinadamente a fingir que é um presidente à altura do cargo, está sendo dada a prova definitiva. Pra quem ainda tivesse dúvida, agora ficou claro.

Doutor Bolsonaro anunciou pela enésima vez que não comparecerá à cerimônia de tomada de posse do novo presidente da Argentina. Faz sentido. Mauricio Macri tampouco compareceu à posse de Bolsonaro. Mas não é por isso que nosso presidente faltará à festa. É porque está fazendo birra para o novo presidente. Doutor Bolsonaro considera señor Fernández um perigoso comunista e até já o chamou de bandido.

Assim vão os dois grandes vizinhos do Cone Sul. Sempre aos trancos, tentando evitar os barrancos. Um presidente fazendo beicinho para o outro. E os milhões de cidadãos sempre governados por aprendizes. Fossem só aprendizes, seria trágico mas consertável. O caso é que, além de aprendizes, são todos mal-intencionados e ignorantes. Aí fica mais complicado.

Lula, Bolsonaro e a revolução

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 outubro 2019.

Uma revolução, pra dar certo, pede dois ingredientes essenciais: um líder e um programa. Se for complicado estruturar programa, que haja ao menos reivindicações consistentes. Pra puxar o trem, alguém terá sempre de assumir o papel de locomotiva, aquela que apita estrondosa e leva adiante o reclamo do populacho. Tem sido assim desde o tempo em que os bichos falavam.

Neste Brasil – que também é de todos os santos – revoluções andam capengas. Ora falta uma perna, ora falta a outra. Se há líder, falta programa; quando há programa, o que falta é o líder. Pra não espichar, vamos examinar o que ocorreu no vigor da atual Constituição, essa que já foi descrita como ‘cidadã’ mas hoje muitos olham de esguelha. Collor de Mello, por exemplo, trouxe, sim, boas ideias. Embora possa hoje parecer inacreditável, telefone e carro importado estavam fora de alcance do brasileiro médio. Se o trem andou, tributo seja prestado ao autoqualificado «caçador de marajás». Tirando a falta de jeito no trato da economia, até que havia ideias. Mesmo não revolucionárias, eram novas no Brasil. O que faltou foi liderança. Bem que o presidente tentou, mas, para ser locomotiva, não basta querer. Faltou lenha. Deu no que deu.

Após um interregno em que o vice foi içado de supetão sem se dar conta do que ocorria, subiu FHC. Dizer que o Brasil foi mal administrado naqueles anos seria inexato. Dizer que o governo foi desastroso seria rematado exagero. Foram oito anos sem história. O país avançou, sem dúvida, em muitos pontos. Mas marcou passo em inúmeros outros. Nem chegamos ao Brasil potência, nem saímos do Brasil miséria. Com as armas e o prestígio de que dispunha, FHC podia ter feito melhor. Revolução, portanto, não houve. O governo foi assim assim. Não há que dizer: a prova de que o povo ansiava por agito maior foi a eleição de Lula da Silva.

E ele foi eleito com louvor, como antigamente se dizia de aluno que mostrasse desempenho acima da média. Sua liderança era incontestável, talvez a mais sólida que este país já conheceu. Lula tinha, na mão, a faca, o queijo, o prato e a embalagem. Ideias, até que havia, que o PT tinha sido, até àquela época, partido programático. O que aconteceu a partir da subida da (até então) virtuosa agremiação corresponde a conhecido dito popular: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Lambuzaram-se todos. Em poucos meses, estavam todos besuntados, engordurados, obesos e emporcalhados. A liderança se manteve, mas as ideias se perderam. Pra que ideias, quando se está no bem-bom? Revolução, que é bom, não houve.

Com a chegada de uma turbulência de nome Dilma e de um susto de nome Temer, enfrentamos aventurosa travessia de um Mar dos Sargaços nacional, com armadilhas e enroscos. Melhor até nem lembrar desse intervalo que a história, sábia, vai acabar esquecendo. Passado o sobressalto, chegou a vez de Jair Bolsonaro, candidato eleito par défaut, como dizem os franceses – por falta de opção. Nas primeiras semanas da nova gestão, as decisões pareceram esquisitas. Mudança da embaixada do Brasil em Israel e exclusão da Argentina de visita presidencial pareceram apenas pontos fora da curva. Não eram. Estavam perfeitamente alinhados com a curva. O futuro viria rapidinho confirmar que esquisitice, no novo governo, não era exceção, mas regra. Doutor Bolsonaro deixou passar todas as oportunidades de mostrar liderança. Ainda recentemente, afrontando os fiéis da religião mais arraigada e (ainda) majoritária, ajoelhou-se à frente de bispo neopentecostal. Dias depois, fez questão de esnobar a caravana que reverenciou Irmã Dulce, a santa dos pobres. O presidente tem mostrado que prefere continuar a ser o «mito» apenas de um grupo que, se já não era grande, definha.

O Brasil hoje sabe que o atual governo é um descampado de ideias. Intrigas palacianas entravam o surgimento de um líder. Sem ideário e sem liderança, o governo enerva o eleitor esclarecido, mas não lhe mete medo. Se é verdade que o país vai continuar empacado, é também garantido que não haverá revolução.

Golfo Pérsico

José Horta Manzano

Nosso inconsequente aprendiz de presidente teve de se dobrar.

•Apesar de ter jurado que mudaria de endereço a embaixada brasileira em Israel;

• apesar de ter asseverado que bastava estar bem com Israel para nosso comércio exterior com o Oriente Médio estar garantido(!!!);

• apesar de ter menosprezado o poderoso conjunto dos países árabes, dizendo que «não precisamos dessa gente»,

foi obrigado a se humilhar.

Desagravo indispensável

O que não deveria passar de uma rotineira visita de Estado transformou-se num ritual expiatório. Passando por cima das imposições de seu guru boca-suja, vergou-se a uma verdadeira visita de desagravo ao Oriente Médio. Não conseguiu suportar o peso econômico dos países do Golfo Pérsico. Depois de levar um choque de realidade, foi forçado a penitenciar-se.

Um dia, quem sabe, doutor Bolsonaro aprenderá que política externa não se faz insultando parceiros, nem menosprezando clientes. Ou, quem sabe, não dará tempo de aprender. Cada um que escolha a opção que lhe parecer mais realista.

Nota geográfico-linguística
Faz meio século, desde o surgimento do pan-arabismo e do sentimento nacionalista – impulsionado pelo petróleo, que lhes trouxe riqueza – os países árabes, majoritários na região, sentem-se incomodados com a tradicional denominação daquele mar interior: Golfo Pérsico.

«Por que só pérsico» – perguntam –, «se banha também uma pancada de países árabes como o Iraque, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Sultanato de Omã, os Emirados?» Alternativas criativas têm sido propostas, como «Golfo Islâmico» ou até «Golfo Muçulmano», expressões que soam estranhas, como se aquele braço de mar fosse a entrada de um templo.

O formato atualmente aceito sem muita cara feia é Golfo Árabo-Pérsico. Pra não ofender ninguém, a mídia francesa costuma utilizar essa forma. Quanto a nós, um nome que não desagradaria e certamente pegaria bem seria «Golfo das Mil e Uma Noites». Já pensou? Dá quase pra ouvir Xerazade contando histórias.

Aclamada lá, ignorada aqui

José Horta Manzano

Neste comecinho de carrancuda tarde europeia – e neste comecinho de manhã brasileira que espero radiosa –, está sendo dada a partida da Transat Jacques Vabre(*), uma corrida de veleiros que, com o vigor de seus 26 anos de existência, tornou-se verdadeira tradição.

O percurso começa no porto de Le Havre (norte da França) e termina na sorridente cidade de São Salvador de Todos os Santos (Bahia). É organizada de dois em dois anos e, há 17 anos, o destino tem sido Salvador. Cada veleiro é pilotado por dois marinheiros. A corrida é chamada, às vezes, ‘Rota do Café’, em contraposição a outra tradicional corrida entre a França e o Caribe, a ‘Rota do Rum’.

Transat Jacques Vabre 2019: partida

Precisa muito treino, muito conhecimento e, principalmente, uma coragem impressionante pra enfrentar os perigos do oceano em embarcações bem menores do que as caravelas dos descobridores. É verdade que os modernos meios de comunicação ajudam, mas, quando uma tempestade faz o barco virar com os marinheiros aprisionados embaixo, telefone celular não é de grande valia.

A escolha de Le Havre é simbólica. Está ali «O Vulcão», construção monumental, uma espécie de canudo evasé truncado na parte superior, concebido por Oscar Niemeyer. É dedicado a manifestações artísticas, espetáculos teatrais, música e dança. É composto de dois auditórios.

“Le Volcan”, obra de Oscar Niemeyer
Le Havre (França)

Na França, faz dias que a mídia anda efervescente com a corrida. Hoje, estações de rádio e de televisão estão transmitindo ao vivo a largada. Especialistas comentam, técnicos explicam, engenheiros pontificam, antigos marinheiros relembram. Não há um francês que não esteja sabendo da partida dos barcos.

Consultei a imprensa brasileira. Hoje, dia da largada, nenhum dos grandes veículos nacionais deu a notícia. Nenhum. Nem mesmo a edição online de A Tarde, quotidiano de referência de Salvador. Por que esse desinteresse? Pra que serve o Ministério do Turismo? Francamente, fica às vezes a impressão de que o Brasil flutua num universo paralelo. Daqui a três semanas, quando os primeiros navegadores aportarem em Salvador, talvez apareça alguma nota de rodapé.

(*) A forma transat é usada na linguagem coloquial francesa para transatlântico.

Presidente sem partido

José Horta Manzano

Até quem tem bons olhos, às vezes atira no que vê e acerta o que não tinha visto. Quem vive na escuridão, então, é useiro e vezeiro desse tropeço. Que nenhum cego nem nenhum militante pacifista se ofenda, nem me entenda mal: estou falando por metáforas. Nesta fábula, todos veem, ninguém atira e (quase) ninguém tropeça.

Doutor Bolsonaro – personagem central da historinha – está entre os que vivem na escuridão. E olhe que minha fala não está carregada de preconceito de classe. Nosso presidente, apesar de ter origens humildes, está há 30 (trinta) anos na política. É uma existência! Imagine o que uma pessoa esforçada teria aprendido em trinta anos de boa-vida, bom salário, trabalho sem patrão, horário praticamente livre, apartamento funcional, mordomias e todo o resto. Em vez disso, nada: o homem continua encruado como se tivesse saído mês passado de uma (péssima) escola primária.

É por isso que ele, embora fale pelos cotovelos, parece não dizer coisa com coisa. Só tem a casca: terno, gravata, cabelo (mal) cortado, ar sério e carrancudo. Mas falta o miolo. De aparência, convenhamos, é melhor que um Lula da Silva. Mas é só. Ambos falam sem conteúdo. O presidente anterior, hoje cumprindo pena em Curitiba, tinha seguido caminho semelhante. De origem humilde, conciliou a vida boa de líder sindicalista com a boa-vida de deputado federal. Apesar disso, trinta anos mais tarde, continuava acreditando que a terra era plana.

Estou me perdendo. Comecei falando de Bolsonaro e, lá pelas tantas, me dei conta de que ele e o Lula têm percurso comparável. Origem humilde, trinta anos de bem-bom, verborragia descontrolada. Placar final: pouca instrução, muito palpite, muita opinião pessoal, mas pouco miolo. Mas o Lula não tem nada que entrar nesta fábula. Xô!

Minha intenção é comentar uma frase que doutor Bolsonaro pronunciou ontem, frase que, apesar da aparência desconexa, encobre uma verdade. «Eu posso ser um presidente sem partido» – foi o que o homem disse, entre uma xícara de chá verde e um confeito de gengibre. A frase, todos perceberam, tem a ver com a operação de desmanche do PSL, partido pelo qual ele se elegeu. Sem ousar admitir, ele já deixou subentendido que perderá o apoio desse partido e que provavelmente jamais será acolhido com reverência em nenhum outro.

Lá no começo, eu disse que Bolsonaro costuma atirar no que vê e acertar o que não tinha visto. Neste caso, atirou no que estava vendo: o derretimento do partido que lhe dava sustento. Mas acertou ao dizer que um presidente pode sobreviver «sem partido». Eu diria até que, mais que poder, tem o dever de se afastar da politicagem partidária. Pelo menos, em aparência e em público. No paralelo, cada um é livre de trocar dólar como quiser.

O cargo de presidente do Brasil é função dupla. Ao mesmo tempo, o sujeito é chefe do Estado brasileiro e chefe do governo da República. São funções distintas que, fora das Américas, costumam ser atribuídas a pessoas distintas. Se acrescentarmos a essa carga a liderança de um partido, teremos um homem sobrecarregado. Ninguém é super-homem. Quem tenta exercer três funções pesadas ao mesmo tempo vai acabar executando mal o trabalho, ainda que seja bom de bola – o que não é necessariamente o caso de doutor Bolsonaro.

No momento em que veste o terno e sobe a rampa, o entronizado se torna presidente de todos os brasileiros. Nada o impede de continuar filiado a um partido, mas o bom senso o aconselha a fazer política partidária o mais discretamente possível. Justamente para não melindrar os que não aderem a esse partido, mas que são súditos do mesmo Estado, à cabeça do qual está o mesmo presidente.

No fundo, um presidente «sem partido» não é ideia absurda. Há outras maneiras de conseguir apoio no Congresso; e doutor Bolsonaro, que já foi congressista por 7 (sete!) legislaturas consecutivas, sabe muito bem disso.

Fim do Mercosul?

José Horta Manzano

Uma maldição pesa sobre chefes de Estado quando fazem visita ao estrangeiro. Não acontece só com o Brasil, mas com o planeta inteiro. Faz alguns anos, o papa fez declarações de arrepiar os cabelos quando de um voo transatlântico. Jacques Chirac e François Hollande, que foram presidentes da França, fizeram o mesmo: abriram-se em confidências que nunca deveriam ter saído dos salões aveludados do governo francês. Até nosso Lula da Silva andou confessando o que não devia, faz muitos anos, quando de viagem à Inglaterra.

Doutor Bolsonaro não escapa à maldição. No caso dele, o problema é duplo. De ordinário, seu quotidiano já costuma ser recheado das barbaridades que profere – e que convivem com as cobras e os lagartos criados no gabinete do ódio, vizinho ao seu. Quando viaja, então, nosso presidente se torna perigo maior. Ao ver-se rodeado de jornalistas nacionais e estrangeiros, empolga-se, solta o verbo e profere desatinos pesados.

O mais recente exemplo de disparate acaba de ser proferido no Japão. Doutor Bolsonaro confessou ter mandado avaliar os comos, os porquês e as consequências de uma saída do Brasil do Mercosul. Consistente, valeu-se da ocasião para criticar de novo o mais que provável próximo governo argentino.

A queda do Brasil derrubaria todos os vizinhos

Não passaria pela cabeça de nenhum empresário, ainda que fosse medíocre, ofender seu terceiro maior cliente. Muito menos assim, gratuitamente, sem ter sido provocado. Só a cabeça de um incapaz pode parir esse tipo de coisa. Pois é justamente o que Jair Messias faz, em nosso nome, contra o terceiro parceiro comercial do Brasil. O drama é que esse incapaz ainda vai segurar, por algum tempo, as rédeas de nosso destino coletivo.

«Sair do Mercosul», como planeja Sua Excelência, significa acabar com o bloco, enterrá-lo e rezar missa de réquiem. O Brasil representa mais de 70% do peso demográfico e econômico do Mercosul. Os parcos 30% que restariam não dão camisa a ninguém. Sem o Brasil, o mercado comum não se sustenta.

Espero que o sistema de pesos e contrapesos da República não permita que esse presidente sem eira nem beira destrua um edifício que vem sendo construído, com muita dificuldade, há quase 30 anos. Seria o tipo de coisa em que não haveria vencedor: Brasil e demais sócios sairiam perdendo. Decisão dessa magnitude não pode ser tomada por um só, ainda que fosse indivíduo extremamente capaz. E nosso presidente, infelizmente, não é.

Dos males, o pior

José Horta Manzano

Pra saber o que vai acontecer neste ziguezagueante governo que nos cabe tolerar, só tendo bola de cristal guardada no armarinho da farmácia do banheiro. Bem à mão, como escova de dente e cortador de unha.

No momento em que escrevo, a mídia séria (ainda) afirma que um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado estadual – desistiu de postular posto de embaixador da República do Brasil junto aos Estados Unidos da América do Norte. Nada garante que, quando este post tiver sido mandado ao éter, a notícia já não se tenha modificado. You never know – nunca se sabe.

No país, os que têm ouvidos de ouvir ouvem. Os que ainda têm um olho aberto observam. Os que guardam capacidade de cogitar cogitam. E todos eles se perguntam: «Que será pior? Guardar o filho deslumbrado junto ao regaço do pai ou despachá-lo pra além-mar?».

Se ficar por aqui, periga reforçar o time da maldade, aquele grupelho já conhecido como ‘gabinete do ódio’. Bom para o país é que não há de ser. Pode-se ter certeza de que as intrigas palacianas só tenderão a aumentar.

Se for mandado pra longe, sua exposição internacional será necessariamente maior. Sabe Deus a vergonha que nos fará, então, passar! E tudo junto à corte do país mais vigiado do planeta, aquele de que todos escrutam o menor suspiro. Vai ser um sufoco.

Confesso que, as duas opções traduzem o real significado da palavra dilema, qual seja, uma escolha obrigatória entre duas possibilidades más. Seja o que acontecer, será ruim para o Brasil. Valha-nos, São Benedito!

Chamada Esdatão, 22 out° 2019

Ao dar a notícia, o repórter do Estadão escorregou. Disse que o bolsonarinho desistiu da embaixada em meio à resistência de seu nome no Senado.

Enganou-se. Devia ter dito que o rapaz desistiu em meio à resistência a seu nome no Senado. Quem resiste, resiste a algo, não de algo. Existe resistência a alguma coisa, não de alguma coisa. Exemplos:

Resistiu à ideia de ir ao cinema.

Resiste a aceitar a oferta.

Não ofereceu resistência à prisão.

Conselho de Direitos Humanos

José Horta Manzano

Nesta quinta-feira, houve renovação parcial dos integrantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Essa instância é composta de participantes de 47 países, todos devidamente eleitos. O Brasil, candidato à reeleição pela enésima vez, conseguiu o intento. Por dois anos, seu representante terá assento no Conselho.

De resto, Cuba perdeu a cadeira mas foi substituída pela Venezuela. A China e a Arábia Saudita foram mandadas embora pra casa, mas o Afeganistão continua firme e forte no Conselho, assim como o Paquistão, o Catar, o Bahrain, o Sudão – todos eles regidos por exemplar democracia, ciosa dos direitos humanos, como se sabe.

Doutor Bolsonaro, quando candidato, havia bravateado que, se eleito, retiraria o Brasil da ONU. Diante de reação indignada, deu-se conta da enormidade que havia pronunciado e suavizou: «Sacumé, eu só queria dizer sair do Conselho de Direitos Humanos, não da ONU inteira, talquei?».

Talquei. Não só o Brasil não «saiu» do Conselho, como ainda se candidatou à reeleição, fez campanha oficial e foi reeleito. Algum guru menos tapado há de ter aconselhado nosso presidente a ficar quietinho desta vez.

Agora, falemos nós. Francamente. Conselho de Direitos Humanos que teve, até ontem, China, Arábia Saudita e Cuba, e que hoje conta com Venezuela e Paquistão é hilariante. Está mais pra piada que pra coisa séria. A Arábia Saudita é aquele país onde mulher não tem direito de sair à rua sem a companhia de um homem. Não tem direito nem de dirigir automóvel. Na China e no Paquistão, todo o mundo sabe como funciona: lugar de direitos humanos é na lata do lixo. E a Venezuela, que acaba de chegar? Não é aquele país que manda os brucutus atropelarem manifestantes nas avenidas? Não é aquele país de onde só não escapou quem é ligado ao regime ou quem não tem dinheiro pra comprar a passagem?

Com um Conselho de Direitos Humanos assim, mais teria valido cair fora. Como de costume, os gurus do presidente andam defasados. No presente caso, doutor Bolsonaro devia mesmo é ter batido pé firme na primeira bravata em vez de dar ouvido a gurus. Devíamos ter caído fora desse Conselho. Que o Brasil não empreste (o que resta de) seu prestígio a essa farsa.

Meu querido subjuntivo

José Horta Manzano

Tradicionalmente, o modo subjuntivo é exclusividade das línguas latinas. É quase desconhecido em inglês e alemão, idiomas nos quais somente o verbo ser/estar costuma ser expresso nesse modo. E olhe lá, só de vez em quando!

Em nossa língua, sem chegar a ser bicho de sete cabeças, o subjuntivo era um modo que, podendo, se procurava evitar. Mesmo porque, em certos casos, é difícil acertar. Quer ver? «Se ele pôr isso aqui», «quando nós nos vermos de novo», «se ele não fazer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervir» são frases que se ouvem dez vezes por dia. Há erro em cada uma. Veja a correção lá no fim.(*)

Apesar do respeito que o modo subjuntivo impõe, tenho notado sua aparição frequente em frases onde antes se usava o infinitivo pessoal, nosso velho conhecido. O Brasil não é um país simples, todo o mundo sabe. Taí um exemplo: o complicado dando um chega pra lá no simples. O que se tem visto, de braçada, são frases iniciadas por «para que», seguidas de um subjuntivo. Veja, aqui abaixo, uma coleção colhida em recentes notícias de jornal.

O órgão fixou prazo de dez dias para que o MEC informe se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para que estudantes e professores participem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para que a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo aconteça o quanto antes.

Disse que o esforço é para que ele continue a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para que a gente consiga o mais rápido possível superar essas tensões.

Errado, não está. Mas fica com sotaque. Parece tradução automática, dessas que qualquer um pode pedir ao Google. Por que recorrer ao sofisticado modo subjuntivo quando temos nosso infinitivo tão simples, tão caseiro, tão nosso? E que dá conta do recado! Veja se não fica mais natural substituir subjuntivo por infinitivo. Repito abaixo as frases mencionadas.

O órgão fixou prazo de dez dias para o MEC informar se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para estudantes e professores participarem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo ocorrer o quanto antes.

Disse que o esforço é para ele continuar a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para a gente conseguir o mais rápido possível superar essas tensões.

Quando vejo esse tipo de formulação, lembro sempre do ditado alemão: «Warum einfach, wenn es auch kompliziert geht?» – Por que fazer fácil, se complicado também funciona? É sabedoria teutônica.

Se eu tivesse acesso a essas redes sociais de grande alcance, lançava uma campanha de apoio ao infinitivo, algo como #infinitivotambéméserhumano. Não sei se as regras permitem acento. Se não, fica descaracterizado. Ah, melhor deixar pra lá.

(*) Corrigindo
«Se ele puser isso aqui», «quando nós nos virmos de novo», «se ele não fizer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervier».

Prêmio Camões

José Horta Manzano

Já devo ter falado no assunto, mas certas coisas não posso deixar passar em branco. Não bebo da mesma fonte que Chico Buarque de Hollanda, tampouco comemos no mesmo prato. Regulamos na idade, é verdade (embora a vaidade me permita contar que ele é um pouco mais velho). Crescemos num mesmo Brasil, mas tivemos vivências diferentes – o que é, no fundo, natural. Afinal, cada um vive a própria vida, não a do outro.

O posicionamento político do Chico me deixa arrepiado. Mais que assustado, pensativo. Como é possível – cogito eu – que um rapaz tão inteligente, tão culto, tão estudado e tão sensível suba ao palanque de uma Dilma e se derreta por um Lula, a ponto de viajar a Curitiba pra visitá-lo na cadeia? Enfim, são coisas dele. Concluo que, embora tudo isso me pareça aberrante, não é, afinal, nenhum crime. Não seria justo tratá-lo de Geni e alvejá-lo com esterco, se é que me entendem.

Isso posto, vamos ao que interessa. Chico Buarque de Hollanda forma, junto com Tom Jobim e Ary Barroso, o trio maior da MPB no século XX. Cada um seguiu linha pessoal e tem mérito próprio: Tom Jobim, pela criação músical refinada; Chico, pelo sofisticado burilamento das palavras; Ary, pelo espírito incrivelmente avançado para a época. Para mim, estão os três num pedestal, todos no mesmo patamar. Até o momento, insuperados.

No entanto, há que considerar os comos e os porquês. Uma coisa é o posicionamento político do Chico, fora de meu limitado alcance intelectual. Outra coisa, bem diferente, são suas qualidades excelsas de ourives das palavras, de mestre da língua, daquele que tem o poder de concentrar, em meia dúzia de versinhos, o suco do modo de ser brasileiro. Para esse Chico, tiro meu chapéu e me inclino, reverente.

by Carlos Avelino, desenhista paulista

Aos 75 anos, o artista acaba de ser agraciado com o Prêmio Camões, a marca maior da excelência dos escritores de língua portuguesa. É distinção rara, distribuída a conta-gotas – um agraciado por ano –, atribuída a Raquel de Queirós, Jorge Amado, Lígia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago. Como se vê, não é pra qualquer um.

O Prêmio Camões foi instituído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil. É, portanto, financiado pelos dois Estados. Tradicionalmente, o diploma que o oficializa vai assinado pelo presidente da República. É nada mais que formalidade, pois o prêmio, com ou sem assinatura, já foi atribuído. Doutor Bolsonaro, movido pela habitual arrogância que só a monumental ignorância lhe permite, negou-se a assinar o diploma. Decidiu esnobar. Prometeu assinar no dia de São Nunca.

Sua atitude tem várias consequências. Em primeiro lugar, ofende o artista que já encantava o Brasil quando doutor Bolsonaro não passava de moleque de calças curtas. Em segundo lugar, ofende os brasileiros que, inteligentes, conseguem enxergar o excepcional criador por detrás da cortina de inesperadas preferências políticas. Em terceiro lugar, doutor Bolsonaro reforça a própria imagem de homem tosco, primitivo e – agora se vê – mesquinho.

Menina esquálida

José Horta Manzano

Doutor Araújo, ministro das Relações Exteriores de nossa República, abrilhantou, com sua presença, a mais recente edição da CPAC – Conferência de Ação Política Conservadora, que teve lugar em São Paulo estes dias. Não assisti ao convescote mas, pelo que pude ler, entendi que é um clube de simpatizantes da extrema-direita teleguiados por Steve Bannon e por aquele guru boca-suja venerado pelos Bolsonaros. Fico a imaginar que sorriso e bom-humor devem ser artigos raros naquelas reuniões.

Tomando a palavra, o ministro referiu-se a sueca Greta Thunberg, aquela adolescente de 16 anos que luta por um futuro menos envenenado que esse que está despontando no horizonte. Com intenção de impressionar, Araújo traçou um paralelo entre a ativista sueca e uma menina da Venezuela, de 14 anos, emagrecida pela fome gerada pelo “regime horroroso” do país.

by Mokrane Rahim, desenhista argelino

“Greta, de 16 anos, bem alimentada, bem nutrida, acolhida pelas Organização das Nações Unidas (ONU), a mesma que não faz nada por essa menina de 14 anos na Venezuela” – disse ele, aplaudido pela plateia amestrada.

Doutor Araújo se esquece de que o Brasil é bem mais rico e poderoso que todos os demais na América do Sul. Pra completar o quadro, não estamos falando de fome na longínqua África, mas na Venezuela, um vizinho de parede. Na qualidade de ministro – e homem sensível, pelo que seu discurso demonstra – Araújo tem maior obrigação e melhores condições do que Greta Thunberg, ONU ou qualquer outro organismo de fazer algo por essa “menina malnutrida” que serve de argumento a todos mas que ninguém mexe um dedinho pra ajudar. Que é mesmo que doutor Araújo fez?

Quá! O ministro vê o cisco no olho alheio mas não enxerga a tora de madeira que está no seu.

Dia zero dois

José Horta Manzano

Faz muito tempo, dinheiro grosso não se carregava em cueca nem se estocava em mala dentro de apartamento. Para quantias importantes, havia documentos escritos. Os mais comuns eram a nota promissória e o cheque. O devedor preenchia o título à mão e entregava ao credor. Era menos volumoso que maços de notas ‒ e bem mais prático.

Como o Brasil sempre foi um país onde todo cuidado é pouco, o devedor costumava se precaver contra falsificações que, caso ocorressem, poderiam custar-lhe caro. Quando o valor era de mil e pouco, não grafava «mil», mas «hum mil». Procurava assim evitar que algum mal-intencionado pudesse transformar o «mil» em «dez mil», por exemplo. A mesma técnica era aplicada para grafar a data. Caso o dia fosse anterior ao 10 do mês, punha-se um zero à esquerda. Dia 8 virava dia 08.

Esse tempo passou. As transações eletrônicas aposentaram os antigos títulos de pagamento. No entanto, por uma força inercial difícil de explicar, muita gente continua a tascar um zero ao grafar o dia do mês: dia 02, dia 05 e por aí vai. Não é só o dia que ganha a curiosa companhia desse simpático zero. Tenho visto crianças de 03 anos, pintos de 01 dia e provas de 07 questões.

E olhe que o modismo tende a perpetuar-se, visto que é ensinado aos pequerruchos desde que se aplicam a desenhar os primeiros garranchos na escola. Estranho costume.