Ano passado eu não morri, mas este ano eu morro.
Só de saber que vou ter de enfrentar o pesadelo de eleições presidenciais nas quais corremos mais uma vez o risco de voltar para a Idade Média em termos de costumes e aos anos de chumbo das décadas de 60/70/80, meu cérebro endoidece e capota na tentativa de entender por que gente pretensamente bem-informada ainda pensa em votar no atraso. Do Brasil do futuro passamos a sonhar em voltarmos a ser orgulhosamente o Brasil do passado imperial, escravocrata e misógino.
Outra coisa que me apoquenta enormemente é a próxima Copa do Mundo de Futebol. Todos os programas de televisão, todos os jornais e telejornais, todas as propagandas estarão dando prioridade novamente a informações circunstanciais sobre os jogadores, estádios, torcedores, preço dos ingressos, etc. As reviravoltas diplomáticas e o número acachapante de mortos nas guerras EUA-Irã, Israel-Líbano, Rússia-Ucrânia deixarão de ter relevância nos noticiários. Da mesma forma, o risco de a epidemia de ebola no Congo se espalhar por outros países perderá importância na mente das pessoas. As providências para neutralizar os efeitos de mais um El Niño abrasador que se aproxima a galope vão poder esperar. Além da tortura de ouvir os debates acalorados repetidos ad nauseam sobre o desempenho de nossa seleção, vou ter de aturar o sofrimento de passar o mês inteirinho trancada no meu quarto, ao lado da minha cachorra, ambas com tampões nos ouvidos, para não enlouquecer com as comemorações e distúrbios generalizados pós-jogos. Afinal, quem ainda associa a camisa verde-amarela ao patriotismo?
Além desses dois assuntos tortuosos, quem não quiser brigar comigo pelo resto da vida vai ter forçosamente de evitar tecer comentários ou pedir minha opinião sobre:
- Daniel Vorcaro e Banco Master
- Clima de insegurança pública e as soluções apresentadas para a violência urbana pelos candidatos na próxima eleição
- Fim da escala 6 x 1
- Trump e o “terrorismo” do PCC/CV ameaçando a soberania nacional
- Trump e Irã/Venezuela/Cuba
- Netanyahu e Gaza/Líbano
- Putin e a Ucrânia
- Juliano Cazarré e seu curso para a machosfera
- Luciano Huck e o Bolsa Família.
Pelo amor de Deus, gente! Vamos mudar de assunto? Nunca vi tanta obsessão em opinar a respeito de temas sobre os quais tudo já foi dito. Parece até que acrescentar mais um post indignado, seja para discordar da maioria ou para colocar ainda mais gasolina no fogo, vai fazer diferença, trazer novas luzes ou solucionar o problema. Acreditem ou não, nossa impotência não diminui nem um pouquinho com tanta falação. Que tal pararmos de olhar para as circunstâncias externas e começarmos a matutar sobre qual é nossa parcela de responsabilidade em fazer com que as coisas permaneçam do jeito que estão?
Gerar indignação virou mantra e meta de vida. Embora a indignação possa gerar catarse coletiva, disponibilizando alvos para culpar por nossa sensação de desamparo, ela quase sempre fica restrita a uma descarga emocional momentânea, que não evolui para ações que provoquem uma transformação duradoura da realidade. E, pior, a repetição obsessiva desse cenário de fim de mundo acaba gerando acomodação e reforçando a sensação de impotência. Num ano eleitoral, tudo isso fica ainda mais problemático. Pouca gente se dá conta da mensagem que está por trás da exposição de tantos infortúnios. A quem serve o medo e a angústia da população? A ode ao apocalipse nunca termina bem numa democracia.
Meu fígado já perdeu praticamente toda a sua capacidade de digerir esse acúmulo de toxinas e o resultado óbvio é uma sensação permanente de asco e náusea que torna insustentável boa parte dos meus dias. Tenho tido sonhos perturbadores e visões apocalípticas. Não consigo ler nem escrever. Minha censura interna impede que eu ultrapasse os primeiros parágrafos. Comecei a sentir uma espécie de cansaço com todo tipo de digressão intelectual. Para que continuar pensando e levantando novas possibilidades de solução se o esforço de compreender a realidade não implica abrir mão da minha imobilidade?
Dormir tem sido minha única estratégia de sobrevivência. Quando minha ansiedade bate no teto, desligo a tevê, ignoro os irritantes apitos das notificações que chegam pelo celular, deito e tento submergir no sono. Mas, em poucos minutos, começo a me perguntar: qual o preço a pagar pela alienação? Minha paz interior pode valer mais do que o desejo de mudança? Acordo resoluta: entre a cruz e a espada, ainda prefiro ficar com a espada.
Pra frente, Brasil!
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.



















