Carlos Ghosn é pisciano de 1954. Filho de cristãos maronitas de origem libanesa, nasceu no então Território do Guaporé (hoje Rondônia). Anos antes, seu avô já estava ancorado naquelas brenhas, à frente de prósperos negócios que iam da extração da borracha à compra e venda de diamantes.
Aos seis anos de idade, foi levado para Beirute, no Líbano, terra dos avós. E lá continuou a escolaridade em liceus franceses. Chegando à maioridade, mudou-se para Paris, para obter seu diploma de engenheiro na École Polytechnique. Esse vai e vem lhe garantiu o aprendizado de três línguas (português, francês e árabe) e lhe valeu três nacionalidades (brasileira, francesa e libanesa).
Carlos Ghosn deve ser inteligente. Basta observar a carreira sólida que construiu dentro da indústria automotiva. Começou pelo fabricante de pneus Michelin, onde trabalhou 18 anos. Durante esse período, seu conhecimento da língua portuguesa foi importante para que fosse mandado ao Brasil, na chefia da divisão sul-americana. Ghosn conseguiu dar uma boa melhorada nas vendas da região.
Anos mais tarde, a Renault o contratou. Era a época do casamento entre Renault e a japonesa Nissan, que andava mal das pernas. O plano de recuperação da empresa, lançado por Carlos Ghosn foi um sucesso. Foi necessário passar por uma hecatombe de demissões: mais de 20 mil japoneses perderam o emprego. Três anos mais tarde, a Nissan já se tinha tornado a montadora mais lucrativa do Japão.
Os anos passaram, e algum urubu deve ter pousado no ombro do franco-líbano-brasileiro. Tanto na França, quanto no Japão, passou a ser acusado de malversações com o dinheiro da empresa. A história é meio nebulosa, e o fato de ele nunca ter sido julgado impede qualquer conclusão definitiva. O fato é que a polícia japonesa prendeu o antigo patrão miraculoso. Mas não o trancafiou numa cela. À espera de julgamento, ele foi deixado em residência vigiada, numa casa monitorada por câmeras, situada numa rua que também era monitorada por câmeras.
A partir daí, a história envereda pelo ramo de ficção policial. De fato, os acontecimentos que se seguem parecem ter escapado da imaginaçâo fértil de um autor inspirado.
Em dezembro 2019, sem avisar seus vigias, Ghosn deixou a residência sob um disfarce que o tornava irreconhecível. De transporte coletivo, foi a um hotel e subiu até o apartamento onde já era esperado. Ali ele foi instalado dentro de uma enorme mala, dessas usadas para carregar aparelhagem de som, mas com fundo falso. Levado até um aeroporto secundário, perto de Osaka, passou sem problema os controles aduaneiros e foi embarcado num jato privado. O voo fez escala em Istambul (Turquia), e se dirigiu em seguida a Beirute (Líbano).
Foi só no dia seguinte que, furiosos, os japoneses se deram conta do logro em que tinham caído. Um alerta vermelho foi lançado via Interpol. A imprensa mundial foi avisada. Mas já era tarde. Carlos Ghosn tem nacionalidade libanesa. O Líbano, de qualquer modo, não tem tratado de extradição com o Japão.
Portanto, o ex-patrão miraculoso está a salvo, enquanto não puser os pés fora do Líbano. O país é pequenino, é verdade, mas é sempre mais espaçoso que uma cela de 3m x 2m.
Os jornais deram, estes dias, a notícia de como Donald Trump enganou o mundo inteiro ao deixar a Turquia fingindo que viajaria no avião que tinha recebido de presente dos potentados do Golfo Pérsico. Na frente das câmeras, entrou no avião presidencial. Em seguida, foi instalado dentro de um caminhão contêiner de serviço de bordo e levado, de mansinho, para outro avião, no qual realmente viajou.
Talvez para não ficar refém de algum funcionário que poderia amanhã, quem sabe, chantageá-lo ou dar com a língua nos dentes, Trump mandou que o estratagema fosse revelado. Ficou cômico imaginar aquele grandalhão espremido dentro de um armário.
O ponto comum entre a espetacular fuga de Carlos Ghosn num baú de alto-falante e a escapada de Donald Trump num guarda-comida é o planejamento detalhado e a execução perfeita do plano.
Convenhamos, não é método de ladrãozinho pé de chinelo, mas coisa de bandido de alto coturno. É por isso que ambos os personagens puderam protagonizar história quase igual. E nenhum destoou.




















