José Horta Manzano
Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.
Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.
Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.
Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.
No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.
Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:
“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”
Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.



















