De volta ao amadorismo

Ruy Castro (*)

A história é conhecida. Em 1956, no Rio, o jornalista Lucio Rangel apresentou o jovem Tom Jobim a Vinicius de Moraes no bar Villarino, como sendo o homem que Vinicius procurava para musicar sua peça “Orfeu da Conceição”. Para Vinicius, se Lucio Rangel o indicava, é porque Tom devia ser bom mesmo. E fez com a cabeça algo como “Ótimo!” ou “Vamos nessa!”. E, então, Tom perguntou: ”Tem um dinheirinho nisso?”.

Lucio quase caiu de seu copo de uísque. Recuperou-se e esbravejou: “Tom, este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes! Como é que você me fala em dinheirinho?” ‒ como se o simples fato de trabalhar com Vinicius fosse remuneração suficiente. E Tom, já quase querendo se matar, balbuciou: “É que… eu preciso pagar o aluguel”.

Bem, Tom e Vinicius saíram dali parceiros e o que fizeram juntos, pelos seis anos seguintes, entrou para a história. E teve, sim, um dinheirinho para Tom. Mas o que interessa aqui é a ideia de que, em 1956, o teatro e a música popular ainda eram uma operação romântica, em que falar de dinheiro era quase uma ofensa. Dava-se de barato que os artistas trabalhassem pela glória e só almoçassem de vez em quando.

Mas, a partir dos anos 70, o Brasil se profissionalizou. A arte brasileira ingressou no capitalismo e todos lucraram: os artistas, os produtores, o público, o país. O mundo se encantou com o que fazíamos, e isso só foi possível porque nossos artistas já podiam viver de sua arte.

Mas o mundo gira e, de repente, regredimos a 1956. Desde 2015, quando Dilma Rousseff quebrou o país, o dinheiro sumiu. Incontáveis projetos na área da arte e da cultura foram cancelados; outros tantos nem saíram do papel. E, sob a ignorância ou má-fé dos beleguins de Jair Bolsonaro, a Lei Rouanet virou palavrão. Na área cultural, o Brasil dispara de volta rumo ao amadorismo. Perguntar pelo dinheirinho pode ser, de novo, uma ofensa.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Voto no bico de pena

José Horta Manzano

Você sabia?

É difícil dizer se os brasileiros sabem ou não votar. Taí um conceito de geometria variável. Quando elegem candidato que nos é simpático, concordamos que, sim, amadureceram e aprenderam a votar. Ao contrário, quando votam maciçamente em quem não nos agrada, afirmamos que são todos ignaros, atrasados, que ainda vivem na Idade da Pedra Lascada. Como vemos, a etiqueta de «bom eleitor» é elástica.

No Brasil, antes de 1932, votava-se no bico de pena. O voto não era secreto. Cada eleitor escrevia o nome do candidato preferido num grande livro e assinava ao lado, à vista de todos. Há que reconhecer que a transparência era absoluta, o que praticamente impossibilitava fraude na apuração. Em caso de litígio, lá estava o livro com o nome de cada votante seguido pelo do candidato escolhido. Se precisasse, bastava recontar.

Por seu lado, num Brasil ainda mais estratificado que o de hoje, como escapar à ordem do patrão, do coronel, do poderoso do lugar? Cada um era livre de votar em quem quisesse… desde que votasse no candidato do dono do pedaço. E ai de quem ousasse desobedecer!

Embora hoje o voto secreto nos pareça natural e evidente, nem sempre foi assim. Quando veio, significou conquista grande. Nosso país adotava o voto pessoal, livre e secreto com 20 anos de atraso com relação à França. Mas há que relativizar. Vinte anos, naquela época, não era tanto tempo assim.

Voto de cabresto

Adotado o segredo eleitoral, o voto ‘no bico de pena’ desapareceu. O Brasil enterrou, pelo menos em princípio, o ‘voto de cabresto’, aquele em que o cidadão era forçado a seguir as ordens do mandachuva local. Assim mesmo, ainda hoje se fala em ‘compra de votos’, prática difícil de controlar. Como ter certeza de que o eleitor ‘comprado’ realmente cumpriu o acordo?

É possível que, em lugarejos pequeninos, o dono do pedaço terrorize seus súditos dizendo-lhes, por exemplo, que tem meios de ficar sabendo em quem cada um votou. Com eleitores muito simples, é capaz de funcionar. Portanto, embora não se fale muito no assunto, o ‘voto de cabresto’ não só sobrevive como tem dias promissores pela frente.

O sistema eleitoral francês guarda, em certa medida, semelhanças com o brasileiro. Mas diverge fortemente em algumas particularidades. Uma especificidade de lá, dificilmente encontrada em outras terras do globo, é o voto por procuração. O eleitor que não puder (ou simplesmente não quiser) se deslocar até a secção eleitoral pode dar procuração a outra pessoa para votar em seu nome. As formalidades são simples: basta anunciar com antecedência à autoridade eleitoral por meio de formulário adequado. As exigências também são básicas: o procurador deve ser maior, cidadão francês e residente no mesmo município.

É verdade que, para coibir abusos, cada procurador só pode receber mandato de um único eleitor. Em outros termos, ninguém pode votar no lugar de vários eleitores ausentes. Assim mesmo, essa prática soa bizarra. Quem garante que o eleitor que vota em nome de um terceiro não terá obtido a procuração por meio de coação?

Francês adora reclamar. Todos exprimem opinião sobre qualquer assunto, mesmo sobre matérias que desconhecem ‒ parece uma obrigação incontornável. Pois acredite o distinto leitor que, até hoje, nunca ouvi ninguém se levantar contra o princípio do voto por procuração. É sinal de que ninguém enxerga aí nenhum inconveniente. Vasto mundo…

Publicado originalmente em 6 maio 2017.

TV Brasil Internacional

José Horta Manzano

Certas coisas são difíceis de compreender. Acabo de ler um artigo no Estadão que fala do projeto de recriação da TV Brasil Internacional. A intenção é melhorar a imagem internacional do Brasil (leia-se: do governo brasileiro), embaçada pela maldosa mídia comunista internacional, que não pára de inventar ruindades e inverdades.

Privatização
O artigo informa que a EBC (conglomerado que abrange a TV Brasil) está na lista, preparada pelo governo Bolsonaro, de estatais a privatizar. Por minha parte, acho excelente a ideia de vender estatais ineficientes e deficitárias, só me pergunto quem é que vai querer comprar empresa ineficiente e deficitária.

Bom, estou me desviando do assunto. Não sei se a EBC faz parte das ineficientes, mas sei que ela é uma estatal que controla diversas mídias públicas. Mídias públicas não são financiadas por publicidade mas pelo dinheiro dos impostos.

Não entendo como é que essa empresa pôde entrar na lista das privatizáveis. Na hipótese de ser posta à venda, é bem capaz de surgir algum maluco disposto a comprar. Uma vez vendida, perderá o financiamento público (senão, não faria sentido vender). Não mais financiada com nosso dinheiro, terá de se sustentar com propaganda. Se já não tem muita plateia sem anúncios, fico a imaginar quem serão os futuros aficionados dispostos a assistir a programas entrecortados por reclames de sabão em pó ou de remédio contra dor de cabeça.

Sem aumentar custos
Os gênios que estão por detrás dessa ideia de internacionalização da TV Brasil pretendem executar o projeto ‘sem aumento de custos para a emissora pública’. Seria bom se fosse realista.

Consultei o site da EBC. Ele é inteiramente escrito em língua pátria. Nem uma palavra de língua estrangeira – nem um suspiro de inglês macarrônico pra dar água na boca. Já escutei a Rádio MEC e a Rádio Nacional, braços do conglomerado. Só proseiam em versão tupiniquim não-legendada. Nunca assisti à TV Brasil; a não ser que eu esteja enganado, devem também transmitir em português, mais nada.

Agora conte-me, distinto leitor, como é possível “melhorar a imagem do Brasil no exterior” através de órgãos de mídia que não têm petrechos linguísticos pra se comunicar com esse “exterior”? Como é que se fará essa abertura para o mundo sem aumento de custos? Pretendem abrir contratação de pessoal voluntário? Onde está a mágica?

Confira como a mídia pública internacional se comunica

France 24, conglomerado de mídia pública francesa voltada para o exterior, transmite em francês e mais 3 línguas.

RT, conglomerado de mídia pública russa voltada para o exterior, transmite em russo e mais 5 línguas.

Xinhua, conglomerado de mídia pública chinesa voltada para o exterior, transmite em chinês e mais 8 línguas.

SWI, conglomerado de mídia pública suíça voltada para o exterior, transmite em alemão e mais 9 línguas.

SR, conglomerado de mídia pública sueca voltada para o exterior, transmite em sueco e mais 10 línguas.

NHK, conglomerado de mídia pública japonesa voltada para o exterior, transmite em japonês e mais 20 línguas.

DW, conglomerado de mídia pública alemã voltada para o exterior, transmite em alemão e mais 29 línguas.

BBC, conglomerado de mídia pública britânica voltada para o exterior, transmite em inglês e mais 33 línguas.

Nesse clube, nosso conglomerado monolíngue vai fazer papel de pé-descalço.

Olhar da mídia

José Horta Manzano

Houve uma época, e não foi ao tempo dos Sumérios, em que não havia internet. A informação vinha pela imprensa. No exterior, o Brasil costumava aparecer nas páginas turísticas. Sol, praia, futebol, Carnaval era o que se lia. Copacabana, Iguazú (sic), Ipanema – eram esses nomes exóticos que emolduravam as imagens de coqueiros, de sol, de sal, de sul.

Com a virada do século, veio a grande (e bem-sucedida) jogada de marketing do lulopetismo. Um Lula paz e amor, todo sorridente, percorria o mundo. Dizia e fazia besteiras, mas tudo lhe era perdoado por transmitir a imagem de paizinho dos pobres. Lentamente, o Brasil saiu do caderno Turismo para entrar nas páginas políticas.

A derrocada do regime abalou muita gente. Ao redor do mundo, alguns não entenderam até hoje o que aconteceu e preferem se agarrar à imagem do demiurgo injustiçado. Cada um é livre de venerar os santos de sua preferência.

Um belo dia, na esperança de enterrar o governo marqueteiro, o povo brasileiro elegeu doutor Bolsonaro, um desconhecido que prometia fazer melhor do que tudo aquilo que havia sido feito antes.

Bolsonaro é bem-sucedido em recurso contra a obrigação de usar máscara
Artigo do Deutschlandfunk

A magia não durou muito. O rojão estava molhado e deu chabu. Depois do caderno Turismo e das páginas políticas, o Brasil escorregou para a rubrica policial, aquela que os franceses chamam «faits divers – fatos diversos», e que engloba crimes e acidentes.

A ilustração é do Deutschlandfunk, um dos braços do conglomerado de mídia pública alemã. Explica a história sombria de uma briga judicial de doutor Bolsonaro contra a obrigação de usar máscara de proteção contra covid-19.

Este blogueiro teria vergonha de ser ameaçado de multa por se negar a proteger o próximo contra a epidemia que assola o país. Mas vergonha é palavra que não consta do indigente vocabulário presidencial.

Sem mistura

José Horta Manzano

No Brasil, desigualdades sociais são tão frequentes e tão brutais, que não assustam. Muitas vezes, passam despercebidas, sem que ninguém se comova. Ainda ontem, com o adiamento das eleições municipais, um desses desequilíbrios voltou, gritante, à ordem do dia. Mas ninguém viu.

Com o voto na Câmara, as eleições ficam transferidas para 15 de novembro. O segundo turno, se houver, terá lugar duas semanas depois, em 29 de novembro. O problema está escondido por trás do ‘se houver’.

Em grandes cidades, quando nenhum dos candidatos a prefeito supera 50% dos votos válidos, organiza-se um segundo turno de votação com participação dos dois mais votados. Em pequenos municípios, essa possibilidade desaparece. Desaparece por quê? Por qual razão os eleitores de 5400 dos 5600 municípios brasileiros são tratados de modo diferente?

Pela lei atual, mais da metade dos eleitores são privados do direito de afinar a escolha daquele que vai governar a cidade por 4 anos; têm de se contentar com o menos pior. Se um pequeno município tiver, por exemplo, 4 candidatos que recebam respectivamente 35%, 30%, 25% e 10% dos votos, o primeiro da lista será eleito para a prefeitura. Com votos de 1 eleitor em cada 3! É justo isso?

É evidente que não. Se discriminação assim podia passar despercebida 30 ou 40 anos atrás, hoje não faz mais sentido. Os votos dos grandes centros são computados na mesma velocidade dos votos da Amazônia, do sertão do Nordeste ou das campinas do Rio Grande. A tecnologia aplainou um bocado de diferenças – mas o legislador ainda não se deu conta.

Já se viu o segundo colocado no primeiro turno passar à frente do adversário e vencer o segundo turno. Não é normal privar metade da população dessa chance.

Vejam a contradição: nas eleições presidenciais, todos os municípios votam no segundo turno. Por que não nas eleições municipais, justamente aquelas que interessam de perto os eleitores locais? Volta e meia ouve-se um figurão repetir o bordão: «Ninguém vive na República, todos vivem no município». Então? Se é possível organizar um segundo turno para as presidenciais, há de ser também assim para as municipais.

Todos têm o direito de poder ajustar o tiro na hora de escolher o prefeito. Não é possível continuarmos a ter eleitores de primeira e de segunda classe, uns que comem refeição completa e outros que têm de se conformar com arroz e feijão, sem mistura.

Vergonha internacional

José Horta Manzano

Chamada do jornal francês Le Parisien

Os sorrisos forçados são apenas fachada. Por dentro, devem sentir engulho.

O vexame do quase futuro ministro levantou uma onda que já chegou à Europa. A edição de 30 de junho do jornal francês Le Parisien dedicou um artigo ao assunto.

«Brésil: le CV ‘gonflé’ du nouveau ministre de l’Education fait polémique»

«Brasil: o currículo ‘inchado’ do novo ministro da Educação cria polêmica»

Não me lembro de ter visto, na mídia brasileira, artigo sobre ministro estrangeiro que tivesse ‘inchado’ o currículo. É assunto interno que, em princípio, não interessa a ninguém no Brasil. Inversamente, o vexame de nosso ‘doutor’ chega até Paris. Por quê?

Faz parte do custo Bolsonaro, um componente que atravanca a imagem do Brasil. Do exterior, enxergam nosso país com crescente desconfiança.

Como já escrevi antes, essa deterioração não atinge diretamente o brasileiro, ou seja, não é do cidadão que se desconfia. A prevenção é contra os dirigentes.

Assim mesmo, se a administração de doutor Bolsonaro contribui para que se fechem portas no exterior, quem paga o pato, no final, é o cidadão brasileiro.

França: ex-primeiro-ministro condenado

José Horta Manzano

François Fillon é político francês. Nos últimos 30 anos, já exerceu numerosos cargos: foi presidente de administração regional, deputado, senador, ministro de Estado (diversas vezes). Seu posto mais importante foi o de primeiro-ministro, cargo que ocupou durante toda a presidência de Nicolas Sarkozy.

No começo de 2017, corria solta a campanha para presidente da República. Monsieur Fillon tinha vencido as primárias de seu partido (direita moderada), e o futuro se apresentava sorridente. Com a bagagem que carrega, tinha boas chances de vencer a eleição. Eis senão quando, uma reportagem do jornal satírico Le Canard Enchaîné veio espalhar pedras por seu caminho.

François Fillon: a queda vertiginosa

Foi acusado de nepotismo por ter garantido à própria esposa, durante uma dezena de anos, emprego de assessora fantasma no tempo em que ele tinha sido parlamentar. O político defendeu-se como pôde. Alegou que, longe de serem fictícias, as funções de Madame Fillon correspondiam ao ordenado que recebia. Mas o estrago estava feito. Instalou-se a desconfiança. Monsieur Fillon, cuja candidatura se apresentava tão promissora, não foi ao segundo turno. Ninguém pode afirmar o que teria ocorrido caso o escândalo não tivesse estourado.

A máquina judiciária, inexorável, levou três anos investigando. O veredicto saiu ontem, 29 de junho. O ex-primeiro-ministro foi condenado a 5 anos de prisão, sendo dois anos em regime fechado. Pra coroar, levou multa de 375 mil euros e foi agraciado ainda com 10 anos de inelegibilidade. A esposa saiu-se melhor: 3 anos de prisão com suspensão de pena, mais outra multa de 375 mil euros.

As penas são pesadas até para padrões franceses. E olhe: sem Lava a Jato e sem Sergio Moro. Imaginem se a moda pega no Brasil. Imaginem se o Bolsonarinho – aquele que está enrolado com a Justiça – leva uma condenação desse quilate pra cada funcionário fantasma com o qual é acusado de praticar rachadinha. Não sai da cadeia até o fim da vida.

Observação
Monsieur Fillon foi condenado em primeira instância. Não foi encarcerado imediatamente porque seus advogados tencionam recorrer.

Ministros da Educação

José Horta Manzano

À moda de lá
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio – sua tese de doutorado havia sido fortemente ‘inspirada’ de textos anteriores, com largos trechos idênticos.

Em países sérios, não se brinca com essas coisas. Quando é um cidadão comum que escorrega, a mentira já pega mal; quando a mutreta vem de um ministro de Estado, o mundo desaba. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira.

A espertona nem tentou dar desculpa. De cara no chão, foi chorar sua vergonha longe dos holofotes. Nunca mais se ouvir falar dela.

À moda daqui
Com o pranteado Weintraub fugido do país, o terreno estava aplainado para entrada triunfal do substituto. Afinal, ser melhor do que o anterior é barbada: qualquer um consegue.

Besteiras, todos cometemos. Só que, para os mortais comuns, que vivemos longe do palco, os deslizes podem passar a vida toda esquecidos. Para quem aceita cargo importante, a coisa é diferente: saem todos os jornalistas à cata de falhas do passado. Quem procura, acha. No caso do novo ministro da Justiça, não demorou muito.

Alguns dias atrás, o reitor da Universidade de Rosario (Argentina) veio a público em pessoa para uma ‘retificação’. Doctor Decotelli, nosso novo ministro, havia afirmado, no currículo inserido por ele mesmo na plataforma Lattes, ter obtido o título de doctor em Administração naquela universidade. Negativo – o reitor desautorizou o ministro mentiroso. Ai, que coisa feia!

Dois ou três dias depois, lá vem bomba de novo. Desta vez, o novo ministro é acusado de plágio na dissertação de mestrado que apresentou à FGV em 2008. Como a ministra alemã, doctor Decotelli também é suspeito de haver copiado passagens inteiras, palavra por palavra, de trabalhos anteriores.

Só que aqui não estamos na Alemanha. Brasília não é Berlim. Diferentemente de Frau Merkel, que despachou rapidinho sua ministra de volta a casa, doutor Bolsonaro continua quietinho no seu canto. Nem um pio. Quanto ao ministro, seguiu o padrão dos políticos brasileiros que enfrentam acusações. Longe de se dobrar às evidências, ousou contestar. Nega tudo.

Em lugar de agarrar o touro pelos chifres, mandou o ministério soltar nota. Saiu um daqueles contorcionismos do tipo ”caso” haja alguma ilicitude, terá sido mera distração, “que corrigiremos imediatamente”. O problema será contornado, 12 anos após a entrega da dissertação, com o acréscimo do crédito aos verdadeiros autores dos trechos plagiados. E pronto.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Doctores

José Horta Manzano

Em razão da epidemia, o governo francês emitiu decreto, em março passado, autorizando a vinda de médicos cubanos às Antilhas Francesas (Guadalupe e Martinica). O intuito foi de reforçar equipes locais no enfrentamenteo da covid-19.

Ontem, sexta-feira, uma delegação de 15 médicos cubanos desembarcou na ilha da Martinica, situada a umas 3 horinhas de voo de Havana. Como de costume, o desembarque é festa profana, com direito a máscara e bandeira de Cuba. Acredito que o desfile de bandeira em punho seja exigência da gerontocracia cubana. É curioso. Ninguém imagina humanitários enviados pela Alemanha, pelos EUA ou pelo Japão desfilando na pista do aeroporto com bandeira.

Martinica: chegada de médicos cubanos

Falando nisso, não entendi até hoje por que é que os médicos cubanos sempre aparecem vestidos com o jaleco profissional, seja onde estiverem. Ainda que, numa hipótese optimista, essa peça de vestuário venha a ser lavada e esterilizada antes de o profissional entrar em serviço, pega mal pra caramba. Fica a impressão de falta de higiene, um cartão de visita bastante negativo.

Segundo a agência de notícias AFP, o envio de médicos ao estrangeiro é especialidade cubana lucrativa. No total, cerca de 30 mil profissionais estão constantemente em missão no exterior. Atuam em 60 países.

O programa, lançado nos anos 1960 por Fidel Castro, cresceu em importância com a pandemia. Estima-se que, em 2018, a atividade dos médicos cubanos tenha rendido 6,3 bilhões de dólares, o que representa suculenta fonte de renda para Cuba.

O marketing e o bom senso

José Horta Manzano

Para vender bem , convém esclarecer o público-alvo sobre as qualidades do produto. É o primeiro passo que o fabricante tem de dar. A informação pode ser passada com ar professoral, distante. Fica imponente, mas periga ser fria e pouco eficaz. Melhor será estabelecer uma proximidade com o consumidor. Mais que isso: uma cumplicidade.

Na hora de vender um sabonete, o anunciante pode dizer: «Compre meu sabonete, pois é o melhor da praça, feito com azeite de dendê e óleo de mamona». Fica bastante técnico, mas cria um fosso entre vendedor e potencial cliente. Melhor criar cumplicidade entre os dois. Assim, por exemplo: «Oi! Eu sou Maria da Silva, atriz de novelas. Minha pele andava feia, ressecada. Eu já não sabia mais o que fazer quando descobri este sabonete. Impressionante! Foi-se a secura! Fiquei com pele de recém-nascido! Experimente, que eu garanto».

Quem anuncia de maneira distante acaba tendo menos sucesso do que o fabricante que consegue passar a impressão de uma amiga aconselhando outra. Esse princípio vale para qualquer produto – desde que usado com moderação e bom senso.

No fim de 2019, um jornal importante teve a boa ideia de criar um podcast, difundido em episódios, para dar mão forte aos que se preparam pra enfrentar vestibular. Em matéria de exames, não se deve perder de vista a diglossia em que vivemos mergulhados, essa confusão mental que acaba transformando provas de redação em calvário. Passamos a vida nos exprimindo num dialeto em que nos sentimos à vontade quando, de repente, na hora do exame, temos de mudar de estação e utilizar um outro dialeto – chamado ‘norma culta’ –, que não nos é familiar. Daí o enrosco.

Os marqueteiros do jornal precisavam dar título à série de podcasts. No afã de estabelecer proximidade com o público-alvo, negligenciaram a encruzilhada linguística nacional. Foram com tudo: «Se liga no vestibular»(*) foi o título escolhido. Seria excelente, caso estivessem vendendo sabonete. Mas vestibular não é sabão. Numa prova em que será medido o desembaraço de cada candidato no trato da ‘norma culta’, não é boa ideia abandoná-la e pespegar título em linguagem caseira.

Atenção, estudantes, vestibulandos e concurseiros! É melhor reter a lição. Na hora da prova, que ninguém se atreva a reproduzir o linguajar relaxado do dia a dia. Não se pode começar uma frase com pronome oblíquo. Experimente – com certeza vai perder pontos.

(*) O distinto leitor pode achar que estou chovendo no molhado; afinal, todos sabem fazer a diferença entre língua de casa e norma culta. Pois acredite: tem muita gente que não sabe.

Bernardo Guimarães

José Horta Manzano

Em março de 1884, morria Bernardo Guimarães, homem de letras mineiro. Sua obra mais conhecida, o romance A Escrava Isaura, daria a volta ao mundo, cem anos mais tarde, nas asas de uma telenovela exportada para 150 países. Infelizmente para ele, esse sucesso planetário só viria um século depois de sua morte. Bem que teria ajudado se tivesse chegado enquanto o autor vivia.

O jornal Liberal Mineiro, de Ouro Preto, na edição de 29 de março de 1884, publicava a notícia de uma comissão formada para coletar fundos para ajudar a viúva do escritor e os filhos, todos menores. Vai com a grafia e o saboroso estilo da época:

«Consituio-se nesta cidade uma commissão central, que se encarrega de promover em toda a provincia uma subscripção em beneficio da viuva e filhos do finado poeta e romancista, Bernardo Guimarães.

Este homem illustre não deixou de certo sua familia na indigencia, mas não legou-lhe riquezas, que nunca ambicionou, nem sua viuva e parentes as possuem para poderem educar seis meninos, cujos talentos, que herdarão (=herdaram) do pai – honra dos mineiros – não se deve permittir que fiquem incultos.»

E o artigo segue com a menção dos integrantes da commissão, todos eles figurões da capital da província das Minas Gerais.

Liberal Mineiro (Ouro Preto), 29 março 1884

Fui conferir e encontrei, em outra fonte confiável, a informação de que Bernardo Guimarães teve oito filhos, não seis. Imaginei que pudesse haver um erro, um falando em seis, outro fazendo conta de oito. Mas o artigo que falava dos oito filhos dava o nome de cada um, acompanhado do ano de nascimento e morte. Não, não havia margem para erro. Com nome e data? Tinha cara de ser verdade. Por seu lado, o anúncio inserido pela commissão, redigido dias após a morte do escritor, tampouco podia estar errado. Era muita gente assinando embaixo. Como explicar o disparate?

Pensei um pouco, reli o nome dos filhos e… descobri! Quando o sujeito é constituído de nomes masculinos e femininos, nossa língua exige que o plural vá para o masculino. Ex: ‘laranjas, maçãs, uvas, peras, bananas e figos são bons para a saúde’. Na mesma linha, quando a filharada conta com meninos e meninas, costuma-se falar “dos meninos” do casal, expressão que agrupa todos os filhos. Esmiuçando o nome das crianças, constatei que, entre os oito filhos de Bernardo Guimarães, havia seis rapazes e duas moças.

Quando a commissão pediu contribuições para educar os filhos «para evitar que ficassem incultos», referia-se apenas aos rapazes. Para as meninas, não havia necessidade, que o caminho estava traçado: haviam de se casar, ter filhos, ficar em casa e cuidar da família. Não precisavam de maiores cuidados com a educação formal. Nas melhores famílias, o máximo que se ensinava à meninas era piano e bordado. Escola? Só a elementar. Estudos superiores? Isso não passava pela cabeça de ninguém. De lá pra cá, o mundo mudou.

Ignorância de raiz

José Horta Manzano

Você sabia?

A impressora de tipos móveis, desenvolvida na Europa por Johannes Gutenberg, apareceu por volta de 1450. Na década de 1530, a imprensa chegou à América Espanhola – ao México, mais precisamente. Antes de 1540 já circulavam panfletos e outros avisos impressos.

Quanto à colônias portuguesas da América, as ordens de Lisboa eram claras: proibição absoluta de imprimir fosse o que fosse. Portanto, no Brasil não havia impressoras. Livros, os poucos que havia eram trazidos da metrópole. A informação e a cultura não circulavam.

Foi preciso que Napoleão desse uma ajudazinha. Quando suas tropas apontavam na esquina e se preparavam para ocupar Lisboa, a família real pôs o rabo no meio das pernas e escapou rapidinho. Partiram para o Brasil levando armas, bagagens e tudo o que de precioso possuíam.

Ao aportar no Rio de Janeiro, o rei João VI se deu conta do atraso em que vivia a colônia. Achou que fazia falta pelo menos um jornal. Mandou vir uma impressora de Portugal, o que permitiu o aparecimento do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro. Haviam-se passado 300 anos da chegada de Cabral.

Esse descaso, sozinho, não é a causa da pouca familiaridade do brasileiro com as letras; mas certamente não ajudou a assentar a cultura nacional em bases sólidas.

Um século de pérolas presidenciais

José Horta Manzano

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes, ao terminar o mandato

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Parente em governo sempre cria problemas. Para o governo ou para o parente.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Senador é só pose; quem manda mesmo é deputado.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Todos os dias leio os jornais para saber o que penso.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A esquerda também é conservadora e tem medo do novo.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Greve sem corte de ponto é férias.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, em visita a Windhoek, capital da Namíbia, África

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Eu acredito que nós temos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto (sic)…porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah! O legado é só depois’. Não vai deixar um legado antes, durante e depois.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Eu tenho orgulho de ser presidente. Convenhamos, é uma coisa extraodinária. Para mim, é algo tocante. É algo que não sei como Deus me colocou aqui.”
Presidente Michel Temer

“E daí?”
Presidente Jair Messias Bolsonaro

Atualização de post publicado faz alguns anos. A coleção de pérolas presidenciais se enriquece a cada santo dia.

Presidente Wilson dixit

José Horta Manzano

I am very much more afraid of the man who does a bad thing and does not know it is bad than of the man who does a bad thing and knows it is bad; because I think that in public affairs stupidity is more dangerous than knavery, because harder to fight and dislodge.

Tenho muito mais medo do homem que erra sem saber que errou do que daquele que erra sabendo que errou. Acho que, na trato da coisa pública, a estupidez é mais perigosa do que a velhacaria, por ser mais difícil de combater e eliminar.

Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA, em seu livro The New Freedom, publicado em 1913.

Saiu corrido

José Horta Manzano

Weintraub, nosso pranteado ministro da Educassão, abandonou o Brasil às carreiras, antes de sua exoneração ser publicada no Diário Oficial. O atropelo tinha dois motivos.

Em primeiro lugar, fugiu por razões sanitárias. O governo norte-americano restringiu, em razão da covid-19, a entrada de pessoas provenientes do Brasil. O ‘esperto’ Weintraub aproveitou que ainda tinha no bolso um passaporte diplomático(*) e escafedeu-se. Conclui-se que, na curiosa contabilidade americana, diplomatas estão imunizados, razão pela qual sua entrada é permitida. É que o governo americano não sabe, mas o risco representado pelo ex-ministro é de outra natureza. O moço é bem mais nocivo do que aparenta.

Em segundo lugar, fugiu por pânico. Ao perder o cargo, o doutor perde o foro por prerrogativa de função (foro dito “privilegiado”). Em termos simples: se bobear, dança; e vai pra cadeia. Com a procissão de acusações que seu comportamento rasteiro acumula, o risco é real. Nos EUA, fica temporariamente longe dos braços da Justiça brasileira. Mas um dia acaba voltando. Que tome cuidado!

(*) Já me exprimi, em outras ocasiões, sobre o uso – e principalmente o abuso – que vêm sendo feitos do tal passaporte diplomático. Em princípio, o documento destina-se a diplomatas e a funcionários que viajam a serviço do país. No entanto, depois que Lula da Silva, no último dia de mandato e antes de apagar a luz, concedeu passaporte diplomático a todos os parentes, avacalhou de vez.

Doutor Weintraub, que não está nos EUA em missão oficial, não tem direito a viajar com o documento. Mas vivemos uma situação em que crimes maiores ofuscam ‘delitozinhos’ como esse. Estivéssemos em país civilizado, ele ainda teria de responder, diante da Justiça, pelo uso indevido de documento oficial não autorizado. Seria gratificado com pesada multa. Em país civilizado, disse eu.

Pós-crise

José Horta Manzano

A pesada crise provocada pela epidemia de covid-19 surge como inesperado revelador de realidades dormentes ou encobertas. Quando o tempo é bom, todo o mundo é capitão, todos sabem navegar. Quando o céu vem abaixo e o temporal desaba, aí é que são elas.

Nas bandas da oficialidade, o mundo está assistindo, entre surpreso e inquieto, à cena bizarra de holofotes iluminando líderes que não lideram. Se o distinto leitor voltou o olhar para os lados do Planalto, acertou. Nas altas esferas da República, o pandemônio faz companhia à pandemia. Leigos dão receita médica; médicos aconselham beijos e abraços em momento de contágio. Um mundo de ponta-cabeça.

Outras verdades, normalmente encobertas por véu pudico, vêm à luz. A solidariedade nacional corre pra ajudar os que têm menos. Mas primeiro precisa saber quem e quantos são. Constrangido, o governo reconheceu, a contragosto, que 70 milhões de compatriotas estão no grupo de trabalhadores informais. Setenta milhões! Esse imenso contingente representa quase metade da população ativa – um despropósito que, não fosse a crise sanitária, continuaria invisível aos olhos da outra metade dos ativos.

Não é um punhadinho de gente, é uma multidão. É gente que pode até ter família, mas não tem carteira assinada; que pode existir para o pastor, mas não existe para a Receita. Não é aceitável que metade da força de trabalho nacional opere nas sombras, como se abstração fosse.

Quando essa epidemia se acalmar, algo vai mudar. Tenho certeza de que doutor Bolsonaro, que, a estas alturas, já tomou ciência dessa desordem, vai agir. Preocupado que está com o bem-estar da população, vai dar início a um processo de reconhecimento do contingente oculto. Ficará na história como aquele que descobriu o outro Brasil. Ou não.

Quem tem telhado de vidro – 2

José Horta Manzano

O inclassificável Abraham Weintraub foi-se. Homem de pouca leitura, também tinha cara de poucos amigos. Não é de espantar que tenha colecionado inimigos. Entre eles, surpreendentemente, a colônia judaica. Uma façanha!

Foi ministro durante ano e pouco, tempo insuficiente pra fazer estrago maior na Instrução Pública. Imagino que os danos sejam reversíveis, se bem que, à boca pequena, corre a informação de que o sucessor será alguém ‘terrivelmente ideológico’. Isso quer dizer que, tirando aquele inimitável ar aparvalhado de Weintraub, a troca será de seis por meia dúzia. Pobre Brasil…

Correio Braziliense: capa da edição impressa de 19 jun° 2020

Como toda a imprensa, sem exceção, o Correio Braziliense também deu a notícia em primeira página. O redator quis fazer troça com o “imprecionante”, aquele pontapé que o (agora ex-) ministro tinha dado na língua algum tempo atrás. Até aí, nada de mais, que a falta de familiaridade do moço com a língua não era segredo pra ninguém. No entanto, quem atira pedra ao telhado do vizinho deve assegurar-se de não estar coberto por telhas de vidro.

O jornal descuidou-se. Duas linhas abaixo do “imprecionante”, tascou, por conta própria, um “distencionar”. Ai, ai, ai. O verbo deriva de tenso, que se grafa com s. Portanto, toda a família acompanha. Tensão, distensão, extensão, ostensão, tensionar e, naturalmente, distensionar. Paft! – o telhado estilhaçou.

Melhor faria se tivesse usado distender, que é sinônimo e tem a vantagem de ser desprovido de armadilhas.