Milagre?

José Horta Manzano

Num raro sincericídio cometido nas barbas de apoiadores entusiastas, Jair Bolsonaro confessou ontem que é milagre ter conseguido segurar-se no mandato até agora.

Apesar do apreço que tenho e da reverência que sinto para com o capitão, devo discordar. Peço vênia, Excelência!

Milagre, em nossa língua, é palavra reservada para acontecimentos benéficos, favoráveis e auspiciosos. É sempre usada em sentido positivo.

Tem sido assim desde os milagres bíblicos, em que paralíticos voltavam a caminhar, cegos recobravam a visão e multidões eram alimentadas com meia dúzia de peixes.

Milagre não é a faísca acidental que bota fogo na casa, mas a chuva que apaga o incêndio.

Como tem feito em frequentes ocasiões, Sua Excelência distorce a realidade a seu favor. O fato de ter-se mantido na Presidência até agora não é milagre. A língua oferece um balaio de termos que se adaptam melhor. À escolha:

maldição,
desgraça,
fatalidade,
desventura,
cataclismo,
desventura,
infortúnio,
sinistro,
catástrofe,
adversidade,
desdita,
calamidade,
desastre,
estrago.

A lista não é exaustiva, mas vou parar por aqui pra este post não ficar demais deprimente. Ai de nós!

Protestos

Amsterdã: protesto em letras laranja, a cor-símbolo do país

José Horta Manzano

Brasileiros que vivem no exterior, mesmo que estejam em situação apertada e passando necessidade, não recebem auxílio de Brasília. É natural. Bizarro seria se a pátria-mãe continuasse a sustentar filhos que decidiram deixar o lar e morar sozinhos.

Essa não-dependência lhes permite acompanhar com certa isenção os acontecimentos nacionais. O fascínio lulopetista, por exemplo, que arrebatou multidões em território brasileiro, pegou menos firme por aqui. O brasileiro do exterior logo se deu conta de que artifícios como a bolsa família, apesar do intenso marketing, estavam mais pra embuste eleitoreiro que pra solução radical pra extinguir a miséria.

Nas eleições de 2018, os brasileiros estavam, em maioria, decididos a dar um basta ao lulopetismo. Fosse qual fosse o candidato, votariam nele, desde que afastasse o Lula e seus companheiros. O resultado é que, apesar do histórico de sucesso do partido, somente 45% dos eleitores votaram em Haddad. Brasileiros do exterior foram ainda mais explícitos: apenas 29% dos eleitores deram seu voto ao candidato lulopetista, exprimindo nas urnas um sonoro basta!. Foi de encher de orgulho qualquer brasileiro pensante.

Tendo em vista o desastre que tem sido a gestão Bolsonaro, parece-me justo e natural que os que vivem no Brasil e que sentem na pele as consequências de um governo caótico se revoltem e se disponham a sair às ruas em passeata. Mas… e no exterior? Será que a rejeição a Bolsonaro se aplica também aos compatriotas que vivem fora? Aqueles que, em 2018, votaram em massa em Bolsonaro e lhe garantiram 71% do total dos votos eram realmente bolsonaristas ou apenas antipetistas? Está chegando a hora do “vamos ver”.

E estamos começando a ver. Foi no sábado que passou. Cento e cinquenta cidades brasileiras foram palco de passeatas e manifestações diversas em que milhares exprimiram repúdio a Bolsonaro. No mesmo dia, os brasileiros do exterior deram a resposta à dúvida que expus logo acima. A colônia estabelecida na Europa e nos EUA não se fez de rogada. Brasileiros saíram às ruas de Londres, Berlim, Lisboa, Zurique, Nova York, Paris com o mesmo ardor dos que encheram avenidas paulistanas, cariocas e soteropolitanas.

As urnas de 2022 confirmarão, mas podemos desde já nos sentir aliviados: se os brasileiros do exterior consagraram Bolsonaro em 2018, não foi pelos méritos do capitão, mas por ter encarnado a imagem do antipetista por excelência. E estamos todos assistindo à decomposição dessa imagem. Como ensinou Ary Barroso, “toda quimera se esfuma como a brancura da espuma que se desmancha na areia”.(*)

(*) Do samba-canção Risque (1953).

Kit covid

José Horta Manzano

As autoridades japonesas estão monitorando de perto tudo o que diz respeito à organização dos Jogos Olímpicos, que terão lugar no país daqui a um mês.

Neste domingo, apresentaram a Vila Olímpica à imprensa e anunciaram as mais recentes medidas de proteção dos atletas. Entre elas, estão a instalação de uma clínica especializada no estudo da febre, assim como a distribuição de um kit covid.

O estojo anticovid contém álcool em gel e sabonete medicinal. Pode parecer uma evidência, mas não há que esquecer que o país vai receber atletas de quase 200 países – e nem todos têm hábitos de higiene suficientes para protegê-los nestes tempos de pandemia.

Se nosso capitão, em vez de investir tempo, esforço e dinheiro em remédios milagrosos, tivesse, desde o começo, mandado distribuir sabonete e álcool em gel a toda a população – jovens e velhos, ricos e pobres, urbanos e rurais –, certamente não estaríamos hoje chorando a morte do quingentésimo milésimo(*) brasileiro.

Num país de pobres, só mandar lavar as mãos não funciona – o cidadão às vezes não tem dinheiro nem pra comer. Precisa dar o sabão. É mais eficaz que cloroquina.

(*) = 500.000°

Estúpido

Ascânio Seleme (*)

A declaração de Bolsonaro de que é preferível se contaminar com o coronavírus do que tomar a vacina é o ponto máximo que sua ignorância conseguiu alcançar nestes dois anos e meio de governo. Desnecessário explicar a idiotice criminosa.

É urgente que se pare o festival de besteiras que ele pronuncia diariamente nas redes sociais. Esperar por Arthur Lira não adianta. Talvez seja o caso de apelar para as redes. Por muito menos, Donald Trump foi suspenso do Facebook e banido pelo Twitter.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 19 junho 2021.

Rodeios

José Horta Manzano

Às vezes é complicado abordar um assunto. Nessas horas, a gente dá voltas, enrola, tergiversa, rodeia, fica sem jeito e não encontra coragem. O tempo passa e o que tinha de ser feito vai ficando cada dia mais difícil. É o que está ocorrendo há mais de ano na política brasileira.

Logo que assumiu a Presidência, Jair Bolsonaro começou a dar sinais inquietantes de que não era o funcionário certo no cargo certo. Sua adoração por Trump, a história da mudança da embaixada em Israel, a ofensa à mulher de Macron acenderam luz amarela. “Será que esse homem bate bem da bola?” – era a pergunta que corria por becos e ladeiras.

A pergunta continua no ar, sem resposta definitiva. Será um bobão amalucado ou simplesmente um ignorante mal-intencionado? Saberemos um dia com certeza. O que, desde já, sabemos é que a prova de fogo da pandemia foi um revelador que desnudou o rei. O atual presidente não está capacitado pra exercer o cargo. Sua troca é mais que urgente. Só não enxerga quem não quer.

Os poderosos do andar de cima, no entanto, têm-se mostrado incapazes de atacar o problema. Rodeiam, rodeiam e sempre atiram para os lados sem mirar o centro. Faz tempo que estão nesse “faz que vai, mas não vai”. Parece que têm medo do tigre de papel.

Em vez de pressionar o presidente da Câmara para instaurar logo um processo de impeachment, instalaram uma CPI. Convocam gregos e troianos, gente fina e gente à toa, bem-intencionados e mentirosos. Mandaram que um determinado indivíduo seja trazido à força diante do comitê. Sabem todos perfeitamente que o nome do mal é um só: Jair Bolsonaro. Mas evitam atacá-lo de frente.

Será que todos têm medo de melindrar o capitão? Eleitoralmente, terá muito a ganhar quem se dispuser abertamente a desalojá-lo do pedestal. Essa atitude de “rabo no meio das pernas” não é produtiva. Num dos momentos mais dolorosos de sua história, não é disso que o Brasil precisa. Francamente.

Como é que é?

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que lei obrigava. O que estava na lei era pra ser cumprido sem discussão.

Fico feliz em saber que, nestes admiráveis tempos modernos, leis apenas sugerem. Deve ser sinal de que nosso povo evoluiu e chegou ao ponto de dispensar imposições. Sugestões bastam.

Ninguém segura o progresso.

Chué

José Horta Manzano

Quero crer que a foto foi batida no interior de um dos palácios oficiais que a República destina ao presidente: Alvorada, Planalto ou Granja do Torto. Dá pra imaginar o momento que antecedeu a imagem congelada.

De repente, o capitão se levanta e ordena a um serviçal que, de pé, assistia ao jogo, pronto pra atender a um chamado.

“Ô amizade! Pega teu telefone aí e tira uma foto de mim aí! Péra, não, você fica ali, péra um pouco, é pra mim sair na frente da tela. Deixa eu espichar o dedo. Pronto, agora, pode tirar!”

O resultado é o que se vê acima. É raro ver tanto mau gosto reunido numa só imagem. É verdade que bom gosto não é exatamente o que se espera do personagem. Assim mesmo, a gente tem sempre um fiozinho de esperança – que se esfiapa a cada vez.

A tela
Sua Excelência, aproveitando-se da exposição que o cargo lhe dá, aponta para o logo de uma emissora de televisão amiga. Ao fazê-lo, faz propaganda da empresa. Pega muito, mas muito mal. Presidente da República, justamente pela visibilidade de que dispõe, não pode exercer o papel de garoto-propaganda de empresa nenhuma. É indigno do cargo, e injusto para com as emissoras concorrentes.

Se eu fosse responsável por uma dessas emissoras que não tiveram direito a receber a bênção presidencial, entrava com pedido de ressarcimento pelo fato de minha empresa não ter sido contemplada com tratamento igual. É questão de isonomia. Ou Sua Excelência faz propaganda de meu canal também, ou exijo compensação financeira. A Justiça não ia ter como negar. E serviria de lição ao presidente descarado.

Eu poderia fazer propaganda de quem bem entendesse, que o alcance de minhas palavras não iria muito longe. Quando são figuras públicas que se pronunciam, como o presidente da República, é diferente. Uma palavra dessa gente causa forte impacto. Vale como exemplo o gesto do jogador Ronaldo, que outro dia, numa entrevista coletiva, empurrou para o lado uma garrafa de Coca-Cola: 30 minutos depois, a marca havia perdido 4 bilhões de dólares de valor de mercado.

Qualquer dia destes, o capitão devia fazer-se fotografar em frente à tela na hora da novela. Queria ver qual é o logo que aparece no canto.

A camiseta
Pelo que entendi, a camiseta (ou camisola, como preferem nossos amigos lusos) que o presidente veste é o uniforme de um time de futebol de Santa Catarina. Uma cadeia de lojas patrocina o time, o que explica as letras de 20cm de altura. Neste caso, fica complicado falar em propaganda indevida, como no caso da emissora de tevê.

Mas não fica complicado falar do requinte de mau gosto do capitão. De fato, quem ostenta um barrigão daqueles deve abster-se de vestir camiseta justinha. Pior ainda se for de cor amarela. O homem engordou muitíssimo de um ano e meio pra cá. A boia do palácio deve ser superior ao que serviam na cantina da Câmara.

Os fios
Esta não tem muito a ver com o capitão, mas ele não deixa de ser cúmplice. Você reparou naqueles fios que saem do decodificador de tevê? Minha casa não é o Palácio da Alvorada, mas aqui os fios são mais comportadinhos. Aquela fiação pendurada que aparece na foto presidencial está mais pra gato montado pra sugar o sinal do vizinho otário que paga a assinatura.

Os objetos
Repare na coleção de objetos disparates captados pela câmera. Temos:

  • o decodificador (que ficava melhor se estivesse disfarçado dentro de um compartimento, com os fios camuflados dentro de uma canaleta ou de um conduíte);
  • um calendário (que lembra brinde de fim de ano da farmácia da esquina);
  • um objeto (que parece ser um agrupamento de cristal de rocha desses que a gente traz de lembrança de viagem);
  • um livrinho azul (que não deve ser a Constituição, pois o presidente guarda a dele religiosamente na mesinha de cabeceira, para consulta diária, como todos sabem);
  • um vaso azul.

Ah, vou contar um segredo, que talvez nem o capitão saiba. Vamos falar baixinho, que é pra ele não ouvir. Sabe o vaso de porcelana que aparece justamente entre a tela e o capitão? Vão me desculpar pela ousadia, mas é a peça de maior valor nessa imagem; vale mais que a tela e o dono da casa adicionados. Pelo alto valor, até destoa dos demais objetos expostos. Só que tem um senão: o vaso é… chinês!

Não deixem que o capitão fique sabendo, senão ele vai ter pesadelos à noite.

Chué
Faz tempo que não ouço o termo chué, que pus no título. Me pergunto se seu prazo de validade já não estaria vencido. É adjetivo e significa ordinário, à toa, reles, pífio, cafona.

É palavra de origem árabe, língua em que significa pouco, pequena quantidade. Entrou na nossa língua no tempo da ocupação da Península Ibérica pelos mouros. É interessante que tenha sobrevivido em português, mas não em espanhol nem em catalão.

Por outro caminho, o termo também chegou ao francês atual. A importação foi feita na época em que a Argélia, região onde se fala um dialeto árabe, era colônia francesa. Em francês, a palavra é usada ora como substantivo, ora como advérbio. Tem a forma chouya (pron: chuiá) e mantém o significado original de quantidade pequena, pouco.

Se ele pôr

José Horta Manzano

Tenho dificuldade em entender a razão pela qual um cidadão é obrigado a dizer a verdade sob risco de ser preso, enquanto um outro é eximido dessa responsabilidade, podendo ficar em silêncio ou até contar mentiras.

Não entendo tampouco por que razão a CPI mantém o convite a pessoas que gozam do privilégio de poder mentir sem sofrer sanções. Que valor tem um depoimento em que o arguído pode até estar mentindo?

Por último – mas não menos importante –, a conjugação dos compostos do verbo pôr é complicada. Isso acontece porque muitos falantes (e escreventes) se esquecem de detalhe importante: todos os verbos derivados se conjugam exatamente como o pai da família.

Os tempos mais comuns não apresentam dificuldade. Ela surge na hora de utilizar o futuro do subjuntivo.

      • Pôr    =  se ele puser
      • Dispor =  se ele dispuser
      • Compor =  se ele compuser
      • Repor  =  se ele repuser

e, naturalmente:

      • Depor  = se ele depuser.

Consertando a linha fina da chamada: Se depuser, ex-governador poderá ficar em silêncio e não precisará assumir compromisso de falar a verdade.

(Dizer a verdade ficaria melhor. Mas não vamos pedir demais.)

O presidente está com medo

Rosângela Bittar (*)

A autoconfiança, expressa em sinais de que pode tudo, é falsa. Acompanhamos sua performance como se ele estivesse no picadeiro. Ora engolindo fogo e soprando-o sobre a seleção brasileira de futebol, que obrigou a jogar a Copa América, competição refugada por três países mais responsáveis que o nosso. Resultado parcial: 52 infectados em apenas duas rodadas.

Ora no tiro ao alvo dos palanques eleitorais, nos quais nem a motocada de 12 mil fanáticos, nem a genuflexão de militares da ativa, conseguem lhe dar consistência. Como no globo da morte, irrompe em avião prestes a decolar lotado, onde colhe o fundo musical de sua campanha à reeleição, que não será aproveitado nos jingles: Genocida!

(*) Rosângela Bittar é jornalista. O texto é parte de artigo de 16 jun° 2021, que merece ser lido na íntegra. 

Brazilian lives matter

VIDAS BRASILEIRAS CONTAM

 

José Horta Manzano

Quando se fala em populações que passam fome, nós, os bem alimentados, costumamos imaginar que isso só ocorre em terras distantes – Etiópia, Sudão do Sul, Eritreia – lugares que a gente só conhece de ver no mapa.

Temos dificuldade em admitir que nosso país abriga legiões de malnutridos. Não estou a falar dos que sofrem as consequências de eventual catástrofe; falo dos famintos crônicos, pessoas com quem cruzamos na rua, que vivem nas mesmas cidades que nós, gente que carrega uma chaga invisível que temos grande dificuldade em reconhecer. São um mundaréu de gente que ninguém vê.

Ainda que pareça exagero, a verdade é que o Brasil é um país onde a fome é crônica. Sempre foi assim, e continua. Os dirigentes lulopetistas, mais preocupados em meter a mão nos cofres da República, demoraram mais de 13 anos no andar de cima, mas não resolveram o problema. Bolsonaro, mais preocupado em comprar apoio (com nosso dinheiro) para perpetuar-se no poder e assim escapar de futuros processos, não está nem aí para o drama dos que têm fome dia após dia. A pandemia, por seu lado, só fez piorar o quadro.

Nós nos recusamos a enxergar, mas os estrangeiros veem. A artista americana Beyoncé acaba de lançar uma campanha de assistência às famílias brasileiras que passam fome. Dá muita vergonha ver nosso país na situação dos que têm de estender a mão pra poder sobreviver. Exatamente como os paupérrimos Sudão e Eritreia – é assim que somos vistos.

No entanto, dinheiro há. O que não há (nem nunca houve) é o desejo sincero de resolver o problema da pobreza no Brasil. Se outros países que já foram pobres lograram eliminar a miséria, por que não conseguimos nós?

Em 1970, nosso PIB per capita era de US$ 450, ou seja, 60% maior que o da pobre Coreia do Sul, com seus US$ 280. Passaram-se 50 anos. O Brasil descobriu petróleo, se livrou do regime militar, mandou até um astronauta passear (de carona) no espaço. A população mais que dobrou de tamanho. E o país não deslanchou. Em 2018, nosso PIB per capita foi de US$ 9.080. Por seu lado, com investimento maciço na Instrução Pública, a Coreia conseguiu, no mesmo ano, um PIB de US$ 32.730, ou seja, quase 4 vezes o do Brasil.

Faço votos para que a campanha de dona Beyoncé traga algum alívio às barrigas que roncam em nossa terra porque, se depender de nossos eleitos, vão continuar roncando.

Passaporte vacinal

José Horta Manzano

Pôôôxa! O homem não perde ocasião de mostrar que é empacado mesmo! Olhe, não é pra fazer inveja a ninguém, mas tenho de informar que já recebi meu passaporte vacinal. Sem discussão, sem blablablá, sem veto, sem polêmica. É tão natural.

Um exemplo simples. Dono de restaurante não é obrigado a deixar entrar todo o mundo; tem o direito de recusar a entrada daqueles que não preencherem determinadas condições. Pode barrar o acesso a quem estiver não estiver convenientemente vestido, por exemplo. E tem também o direito de só permitir entrada a quem tiver sido vacinado. O mesmo vale para uma companhia aérea e até para um país. Em certos países tropicais, só entra quem puder provar ter sido vacinado contra malária.

Para agradar aos devotos, o capitão tem de tomar essas atitudes que vão contra o bom senso. Ele tornou-se refém dos radicais.

Encontro bilateral

Villa La Grange (Genebra) e seu parque
Sede do encontro histórico

José Horta Manzano

Em 1917, a cidade de Genebra, na Suíça, recebeu uma herança valiosa. Monsieur William Favre, riquíssimo habitante, legou à cidade uma propriedade familiar que consistia em uma enorme mansão, grande como um palácio, plantada em meio a um parque de 200 mil m2, área equivalente a 30 campos de futebol. Tudo isso situado às portas da cidade.

A propriedade tem sido utilizada como parque público, aberto para a visitação. Em raras ocasiões, o château é sede de algum evento excepcional. É o que vai ocorrer amanhã, quarta-feira 16 de junho de 2021. Uma cúpula reunindo Joe Biden e Vladimir Putin terá lugar no local.

Pra se ter uma ideia da raridade desses encontros bilaterais, o último que ocorreu entre dirigentes dos dois países teve lugar também em Genebra, no longínquo ano de 1985. Na época, Ronald Reagan havia se encontrado com Mikhail Gorbatchov.

Que ninguém espere grandes resultados do encontro de amanhã. Não será hora e meia de tête-à-tête que há de iluminar o caminho do planeta. O importante desses eventos é o lado simbólico. Com a crescente importância da China no cenário mundial, a Rússia – potência militar de primeira linha – está se tornando o trunfo que tanto chineses quanto americanos gostariam de ter a seu lado. Ciente disso, Putin deve estar adorando a paquera, que fortalece sua imagem.

Faz duas semanas que milhares de pessoas trabalham sem descanso, cada um nas suas atribuições, pra que tudo dê certo amanhã. É um batalhão de gente, operários, especialistas em logística, seguranças, mecânicos, eletricistas, cozinheiros, motoristas, militares, policiais. Por seu lado, o exército suíço deslocou 1000 homens em dedicação exclusiva. Centenas de policiais de Genebra participam, e boa parte da cidade está interditada ao tráfego. Com o espaço aéreo fechado, o aeroporto está sofrendo perturbação. Há atiradores de elite encarapitados nos prédios e homens armados com metralhadora por toda parte. A gente não se dá conta do desafio logístico que representa um deslocamento do presidente americano. É impressionante.

Como eu dizia, não se deve ter ilusões. Em geral, grandes decisões não são tomadas nesses encontros, mas nos bastidores. O encontro vale mais pela imagem que fica. Conversar é sempre melhor do que arreganhar os dentes, cada qual no seu canto.

Bolsonaro e a política externa

Elio Gaspari (*)

Quando Joe Biden venceu a eleição americana, Jair Bolsonaro levou mais de um mês para felicitá-lo.

Sua diplomacia acreditava na lorota de Donald Trump, que dizia ter sido roubado. Quatro dias depois da eleição de Pedro Castillo, o capitão disse que “perdemos agora o Peru”, pois a seu juízo “só um milagre” reverterá a derrota de Keiko Fujimori.

Demorou para reconhecer um resultado e apressou-se para admitir o outro.

Nomeando Marcelo Crivella para a representação do Brasil na África do Sul, Bolsonaro entra para os anais da diplomacia como o primeiro chefe de Estado a nomear um embaixador que está proibido de deixar o país pela Justiça.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 13 jun° 2021.

Efeito Bolsonaro

Cúpula do G7: foto de família em modo distanciamento social

José Horta Manzano

O status de “potência emergente” que o planeta atribuía ao Brasil até pouco anos atrás murchou feito pastel de vento depois da primeira mordida. A pandemia tem parte nisso, mas não é a única responsável. A danada afetou o mundo todo, não só nosso país. Se demos um passo atrás por causa dela, todos também deram. Portanto, empatou. Essa desculpa é furada. Atualmente, a grande diferença, o principal fator que alarga a distância entre nós e o mundo mundo civilizado tem nome: é Jair Bolsonaro.

Nossas instituições – Congresso, Forças Armadas, Poder Judiciário – vêm aceitando flacidamente o extravio presidencial, cada dia mais evidente. Por seu lado, o povo continua anestesiado, a discutir o número exato de motocicletas que participaram da última motociclata patrocinada pelo capitão. Fora de nossas fronteiras, em terras em que o peso de palavras e atos segue outra escala, a história é diferente.

Pouco divulgada no Brasil, teve lugar no fim de semana passado a cúpula anual do G7. Os grandes deste mundo se reuniram – presencialmente! –  de 11 a 13 de junho numa estância balneária do sul da Inglaterra. Pra se ter uma ideia da importância do encontro, note-se que é a primeira viagem de Joe Biden ao exterior desde que assumiu a Presidência.

A última cúpula do G7 realizada em caráter presencial tinha sido a de Biarritz (França), em agosto de 2019. Na ocasião, a zombaria que Bolsonaro acabava de fazer com relação à aparência física da primeira-dama francesa tinha sido posta à mesa pelo presidente Macron e abundantemente comentada pelos participantes estupefatos.

Tradicionalmente, nas cúpulas do G7, o anfitrião tem o direito de convidar dirigentes de outros países, que vêm na qualidade de observadores. Nesta edição, Boris Johnson, o dono da casa, resolveu convidar a Índia, a África do Sul, a Coreia do Sul e a Austrália. Honrados, todos aceitaram o convite. O distinto leitor há de ter reparado que, à exceção da China e da Rússia, que não são considerados países democráticos, o Brics inteiro foi chamado pra fazer a festa. Faltou o Brasil. É que, graças ao trabalho incansável do capitão, nosso país passou a fazer parte dos empestados, aqueles que ninguém quer ver por perto.

Tem avançado a ideia de reformar o G7 e transformá-lo no D10, um clube com as dez principais democracias. Índia, Coreia do Sul e até Austrália são cotados para entrar na agremiação. Nosso país, apesar de ter peso econômico maior do que os futuros integrantes, não aparece entre eles. De fato, não passaria pela cabeça dos integrantes do G7 convidar o Brasil de Bolsonaro. Quando se sabe que um país pode causar dor de cabeça, ele é posto na geladeira. Ninguém abre a porta de casa para sujeito encrenqueiro.

Como se sabe, nosso país não é uma ilha nem está situado no planeta Marte. Estamos com os pés fincados na velha e boa Terra, e daqui não há meio de sair. Os vizinhos que temos – próximos e distantes – são o que são, não temos escolha. São eles que compram o que produzimos em excesso; é deles que compramos aquilo que não colhemos nem produzimos. Não somos autossuficientes, sequer em produção de alimentos. Portanto, não é possível dar uma banana pro mundo, como faz nosso capitão, e esperar que, em troca, nos mandem beijinhos. Amor, com amor se paga.

Reparem que, com Bolsonaro no poder, já começamos a ser discriminados. As portas fechadas do D10 são apenas um aperitivo, uma amostra das sanções que nos esperam. São só o comecinho.

Rainha Isabel

José Horta Manzano

O aportuguesamento de nomes e sobrenomes era comum nos antigamentes. Todas as línguas procediam exatamente da mesma maneira. Há exemplos a dar com pau.

No original italiano, Cristóvão Colombo era Cristòforo Colombo. Em inglês, ficou Christopher Columbus; em espanhol, Cristóbal Colón; em francês, Christophe Colomb; em alemão, Christoph Kolumbus.

O português Fernão de Magalhães virou Fernand de Magellan em francês, Ferdinando Magellano em italiano, Fernando de Magallanes em espanhol.

Em nossa língua, o polonês Mikołaj Kopernik transformou-se em Nicolau Copérnico. Ingleses e alemães conhecem nosso D. Pedro II como Peter II, enquanto italianos dizem Pietro II e franceses preferem Pierre II.

Os espanhóis, até hoje, traduzem o nome dos membros da realeza estrangeira. Quando se referem à família real inglesa, é divertido ouvir falarem da rainha Isabel e dos príncipes Carlos, Guillermo, Henrique e Jorge. A gente precisa retraduzir mentalmente pra saber de quem estão falando.

No Brasil, hoje em dia, é raro ver nome estrangeiro traduzido ou adaptado. Mas de vez em quando escapa um. Foi o que fez o estagiário do Estadão, ao mencionar o nome daquele que (parece que) acaba de ser eleito para o cargo de presidente do Peru: Castillo virou Castilho.

Mas vamos ser justos: foi sem intenção. Na hora de escrever, o automatismo falou mais alto e os dedinhos correram soltos.

Face, Google, Twitter e o golpe

Pedro Doria (*)

Prezados Zuck, Sundar e Jack,

Aqui no Brasil, não costumamos escrever a CEOs como vocês, de Facebook, Google e Twitter, chamando pelo apelido ou prenome. Mas vou me permitir escrever assim, na informalidade americana tão típica no Vale do Silício. É para ser mais direto.

É preciso que vocês prestem atenção na política brasileira. Agora.

Em 6 de janeiro último, uma turba invadiu o Capitólio, em Washington. A polícia legislativa não acreditava que isto seria possível. Dá para entender. Numa democracia longeva que não interrompeu o ciclo de eleições regulares nem com uma guerra civil, como seria possível imaginar que cidadãos americanos invadissem o Parlamento para interromper a homologação de um pleito? Mas aconteceu. Pessoas foram radicalizadas a esse ponto em ambientes digitais e aí insufladas por um presidente que desprezava a ideia de uma sociedade livre.

No Brasil, a história nos obriga a imaginar essa possibilidade.

Minha geração de jornalistas aprendeu o ofício com colegas quinze ou vinte anos mais velhos que enfrentaram, na condição de repórteres e editores, a ditadura mais recente. Alguns desses amigos, que ainda trabalham nas redações, gente por quem temos afeto, foram exilados, presos e torturados pelo exercício das liberdades políticas essenciais: a de pensar, a de se expressar, a de se manifestar, a de publicar e a de se reunir para debater.

Donald Trump segue persona non grata em várias das redes. A decisão de excluí-lo seguiu um princípio que qualquer democrata endossa: o Paradoxo da Tolerância, descrito pelo filósofo austríaco Karl Popper. No limite, uma sociedade aberta não pode abrir espaço para que intolerantes usem destas liberdades para ameaçar o regime democrático.

A República brasileira nasceu com um golpe militar, em 1889. De lá para cá houve golpes de Estado em 1891, 1930, 1937, 1945, 1955 e 1964. Só um deles, o de 1955, fracassou. Em rigorosamente todos estes momentos, a ruptura de regime começou no momento em que foi quebrada, nas Forças Armadas, a exigência de disciplina que proíbe militares de se envolverem na política.

Há duas semanas, pela primeira vez desde a restauração da democracia no Brasil em 1985, um general da ativa subiu ao palanque em apoio ao presidente. Seus superiores no Exército, intimidados pelo mesmo presidente, nada fizeram. O sinal histórico de ameaça à democracia foi dado.

Em um ano teremos eleições. Como Trump, Jair Bolsonaro vem espalhando entre seus seguidores que há risco de fraude. Não é a única das mentiras que seu movimento trabalha diariamente para espalhar. São mentiras que têm por objetivo disseminar naquela parcela radicalizada da população elementos que a convençam de que não devem confiar nas instituições da democracia.

Bolsonaro está seguindo o script de Trump. Não há, na história do Brasil, nada que nos garanta que o desfecho será como o americano. Aqui, vivemos o receio concreto de que os generais não tenham mais pleno controle de suas tropas. E sabemos que os governadores não controlam mais plenamente suas polícias.

Me permitam ser explícito: numa situação limite, um 6 de janeiro, no Brasil, poderia contar com o apoio de parte da polícia enquanto o Exército nada faz.

Vocês conhecem as plataformas que comandam. Sabem do peso que elas têm em todos esses acontecimentos. Agir depois do ato fatal, como fizeram com Trump, aqui pode ser tarde demais.

Nós, brasileiros, não temos qualquer tipo de influência sobre as decisões que vocês tomam. Mas somos nós e nossos filhos que sofreremos pelas decisões que tomarem. É hora de ligar o alerta vermelho em Menlo Park, Mountain View e San Francisco.

O golpe, se houver, fracassado ou não, será batizado com o nome das empresas que vocês comandam.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no Estadão de 11 junho 2021.

Desinformação

Folha de São Paulo

 

José Horta Manzano

Vivemos a época do “politicamente correto”. No fundo, que bicho é esse? É a arte de encontrar palavras suaves pra descrever uma realidade que a gente tenta eclipsar. É o jeito de girar em torno do objetivo pra dizer, no final, a mesma coisa. Em palavras cruas, o “politicamente correto” não deixa de ser um tipo de fingimento, de hipocrisia, de impostura.

Não é de hoje que se usam expressões politicamente corretas. Só que, antigamente, não eram a seita dominante. A gente usava sem se dar conta. Ao dizer “João é um rapaz de cor”, “Maria está conservada”, “Joana está um pouco forte de corpo”, estávamos trilhando caminhos politicamente corretos antes da moda.

Hoje é religião oficial, que nos obriga a cumprir direitinho os ritos, que é pra não ser condenado à execração pública. No entanto, adotar a religião do “politicamente correto” não implica fazer reforma integral do vocabulário a fim de eliminar palavras de sentido negativo. Não há que exagerar.

Segundo a chamada de jornal que reproduzo acima, “Bolsonaro desinforma ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais”. Não concordo com a expressão. Não há por que recorrer a formulações suaves para traduzir o que disse o capitão. Praticar negacionismo explícito, quando uma tenebrosa pandemia está em curso, é ato grave. A meu ver, quem ajuda a abafar a realidade torna-se cúmplice do negacionismo presidencial.

A língua oferece uma dúzia de verbos que se aplicam melhor para descrever a atitude do presidente: enganar, ludibriar, engodar, falsear, enrolar e tantos outros.

Consertando a manchete, temos:

“Bolsonaro engana ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engazupa ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro tapeia ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engrupe ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”

Etc.

Desinformar & desinformação
O verbo desinformar entrou só recentemente na linguagem de todos os dias. Nos anos 1960, não existia. O que se via às vezes era a palavra desinformação – que tinha, naquela época, o sentido de desconhecimento.

Ex: “Nota-se que, no meio estudantil, há grande desinformação quanto à recente reforma curricular”.

Foi só a partir dos anos 1970 que desinformar começou a fazer raras aparições na imprensa, já com o sentido que lhe atribuimos hoje. Um dos primeiros a usar esse verbo foi justamente o então sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, numa entrevista de julho de 1986 em que criticava a imprensa e acusava um determinado jornal de desinformar (=enganar) o público.

Como se vê, críticas à imprensa não são exclusividade de simpatizantes desta ou daquela corrente política. O expediente é velho como o mundo: quando não se aprecia a notícia, a culpa é sempre do mensageiro.

Campeonato de baixaria

José Horta Manzano

12 agosto 2019
Antes das eleições presidenciais pra valer, o sistema eleitoral argentino prevê a realização de prévias. Com 48% dos votos, Señor Fernández (esquerda) botou pra correr Señor Macri (direita), que só obteve 32%.

Bolsonaro, que já era presidente, se encontrava no Rio Grande do Sul. Soltou uma fala raivosa em que mandava os gaúchos se prepararem para um afluxo de refugiados vindos da Argentina, caso a “esquerdalha” ganhasse a Presidência naquele país. Em referência aos refugiados venezuelanos, acrescentou que o Rio Grande ia se transformar “num novo estado de Roraima”.

13 agosto 2019
No dia seguinte, Señor Fernández, ainda candidato, declarou que, com o Brasil, teria uma relação esplêndida, e que Bolsonaro não passava de “uma conjuntura” na vida do país. Classificou o capitão como “racista, misógino e violento”.

21 agosto 2019
Bolsonaro resolveu dar mais uma martelada no prego. Tuitou: “Com o possível retorno da turma do Foro de São Paulo na Argentina, agora o povo saca, em massa, seu dinheiro dos bancos. É a Argentina, cada vez mais próxima da Venezuela”.

Nosso extravagante chanceler, aquele barbudinho bobão, seguiu o caminho do chefe e criticou, por antecipação, o futuro governo Fernández.

1° novembro 2019
Dois dias depois da vitória de Fernández, que derrotou o candidato favorito de Bolsonaro, nosso capitão deixou claro que não compareceria à tomada de posse do novo presidente do país hermano. Com sublime elegância, acrescentou que a Argentina havia “escolhido mal” e que ele não ia dar parabéns ao vencedor. Assim mesmo, num repente de condescendência, prometeu não fazer “retaliação”(?) à Argentina.

30 novembro 2020
Neste dia teve lugar a primeira Cúpula do Mercosul à qual os dois presidentes compareceram. Conciliador, Fernández pediu a Bolsonaro que deixasse de lado as rusgas entre os dois e que ajudasse a dar um impulso ao mercado comum. Não consta que o capitão tenha dito sim ou não.

10 junho 2021
Em discurso pronunciado diante de Señor Sánchez (primeiro-ministro espanhol em visita a Buenos Aires), Fernández ousou a seguinte frase: Los mexicanos salieron de los indios, los brasileños salieron de la selva, pero nosotros, los argentinos, llegamos en los barcos, de Europa” (Os mexicanos vêm dos índios, os brasileiros vêm da selva, mas nós, os argentinos, chegamos nos barcos, da Europa).

Em suma, o presunçoso mandatário nos tratou de selvagens. Pegou mal pra caramba. Não consta, até agora, nenhuma reação do capitão, que viu seu povo inteiro tratado de bugre.

Resumo
Nesse campeonato de baixaria várias perguntas flutuam no ar.

Quem é…

… o mais agressivo dos dois presidentes?

… o mais insensível?

… o mais inconsequente?

… o mais presunçoso?

… o mais antidiplomático?

… o mais despreocupado com o futuro do próprio povo?

… o mais malcriado?

… o mais elefante em loja de porcelana?

… o mais desagradável?

… o mais imbecil?

… o mais perigoso?

O páreo é duro. Cartas para a redação, por favor.