Land art

José Horta Manzano

Monsieur Guillaume Legros, cidadão francês, é enfermeiro de formação. Desde a adolescência, sentiu-se atraído pela arte de rua. Nos arredores da cidade de Belfort, sua região natal, começou marcando território com pichações.

Com o tempo, sua arte evoluiu. Hoje executa, sob encomenda, pinturas gigantescas que fazem parte do movimento land art. Os retratos, feitos com tinta biodegradável, são visíveis durante alguns dias. Em seguida, desaparecem. O que é bom dura pouco. Não é tanto a chuva que lava a tinta; é o crescimento da relva que faz desaparecer a pintura.

Monsieur Legros adotou o nome artístico de Saype, uma contração de Say peace ‒ Diga: paz.

Seguem algumas amostras do trabalho de Saype. Um dos trabalhos mais recentes (quarta imagem aqui abaixo) é uma pintura de 5000m2 feita num parque de Genebra. Simboliza os migrantes que buscam refúgio em território europeu, grande parte dos quais não logra chegar com vida ao destino. Um vídeo de três minutos mostra imagens aéreas do trabalho espetacular.

 

Land art – by Guillaume ‘Saype’ Legros, artista francês
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Land art – by Guillaume ‘Saype’ Legros, artista francês
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Land art – by Guillaume ‘Saype’ Legros, artista francês
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Land art – by Guillaume ‘Saype’ Legros, artista francês
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Publicado originalmente em 19 set° 2018.

Ondas perdidas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 maio 2020.

Nestes tempos de epidemia, a história se precipita. Da noite para o dia, o ritmo acelerado dos acontecimentos envelhece as notícias. Casos da semana passada já estão no arquivo morto; coisas de três meses atrás já estão entrando no livro de história. Faz quatro meses, Paulo Guedes visitou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde recebeu, na ausência do presidente, as honras devidas ao Brasil. Sua fala passou quase despercebida. É verdade que ele não fez nenhuma revelação acachapante. Referindo-se a nosso país, filosofou: “Perdemos a grande onda da globalização e da inovação, então essa mudança vai levar um tempo, mas estamos a caminho”.

O ministro não foi o primeiro a passar recibo da lentidão de reação de nosso país. Cem anos atrás, o estadista francês Georges Clémenceau (1841-1929) já havia se dado conta disso. Quando lhe contaram que o Brasil era o país do futuro, replicou ferino: “e há de continuar assim por muito tempo”. Tinha razão. Um século depois, o futuro radioso ainda não se vê. Toda vez que a gente pensa que a hora boa chegou, a realidade se encarrega de nos desenganar. Perdemos não só a onda da globalização e da inovação, sublinhada pelo ministro, mas muitas outras. Chegassem todas juntas, formariam um tsunami. Nossa maré baixa já vem de longe.

Perdeu-se a memória do Brasil imperial, defunto há mais de 130 anos. Nenhum vivente sabe mais, de experiência própria, como era então a vida. Mas a história ensina que, em terras onde o chefe de Estado é permanente e desprovido de poder real, a estabilidade política é superior. Entra governo, sai governo, a figura do patriarca vitalício é garantia de segurança. Essa onda da estabilidade política, que a República não soube compensar, perdemos.

A grande onda de Kanagawa
by Katsushika Hokusai (1760-1849), artista japonês

O ensino foi sempre tratado com pouco caso. A primeira universidade das Américas foi fundada nos anos 1530; a abertura da Escola de Cirurgia da Bahia – primeiro curso superior do Brasil – só ocorreria 250 anos mais tarde. Já demos a largada com dois séculos e meio de atraso. O desdém para com o estudo se reflete até nossos dias. Na virada do século 19 para o 20, dois em cada três brasileiros maiores de 15 anos eram analfabetos. Em 1950, metade da população ainda não sabia ler nem escrever. Foi só nestes últimos 70 anos que os números começaram a sorrir – sorriso tímido, visto que o analfabetismo resiste e ainda condena 7% dos brasileiros à ignorância. Como pode a sociedade aceitar que 1 compatriota em cada 15 viva na escuridão? A onda da Instrução Pública, perdida, continua a nos desafiar.

O Brasil rateou também na hora de decidir sobre mobilidade. Sucumbindo a interesses poderosos, elegeu o transporte rodoviário como solução única, relegando a estrada de ferro ao ferro-velho. Na mesma fieira, não soube prever que a supremacia absoluta do transporte de superfície em detrimento do metrô geraria entupimento permanente nas grandes cidades.

Na Saúde Pública, perdura uma surpreendente jabuticaba – bizarrice que não parece comover ninguém. Longe da contenção de gastos recomendada a todo país pobre, boa parte dos assalariados brasileiros são compulsoriamente afiliados a dois sistemas de saúde redundantes. O sistema nacional (SUS) e uma rede de convênios privados correm em paralelo. Um dos dois sistemas será sempre supérfluo, dado que cada ato médico só poderá ser ministrado uma vez. O cliente passa a vida pagando dobrado. Quando se pensa na dificuldade que o Brasil tem para suprir necessidades básicas de seus filhos, esse contingente de cidadãos sobreassegurados é tremendo desperdício. A pandemia de covid-19 tem mostrado que, apesar do sistema duplo, o circuito hospitalar segue assoberbado, próximo do colapso. Está aí um problema que, visto o atual descaso com a Saúde, só deverá ser enfrentado por um próximo governo.

A fala do ministro em Davos mostra que, além de não resolver problemas passados, continuamos a adicionar ondas perdidas à contabilidade nacional. Enquanto não encararmos essa realidade pra valer, seguiremos dando razão ao velho Clémenceau: estamos condenados a ser eternamente o país do futuro.

A gente lamentamos

José Horta Manzano

«A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo o mundo».

A edição impressa da Folha de São Paulo traz na capa desta quarta-feira as palavras que doutor Bolsonaro dirigiu ontem a uma apoiadora. A curta frase dá ensejo a três reflexões.

Impiedade
Mais uma vez, fica confirmada a ausência de compaixão do presidente. Aquele “mas” inserido entre as orações é terrível: ele anula a primeira parte da fala e transforma o lamento do capitão em pronunciamento burocrático saído da boca de um espírito seco. Mal comparando, faz lembrar o General Figueiredo, último presidente militar, que preferia a companhia de cavalos à do povo. Mas há uma diferença. Doutor Bolsonaro, como não é general, dispensou os cavalos e preferiu cercar-se de burros.

Correio Braziliense
Capa da edição impressa – 3 jun 2020

Poltronice
O doutor não tem a coragem dos próprios posicionamentos; esconde-se atrás de um ruborizado “a gente” em vez de se apresentar peito aberto com um sonoro “eu”.

Déficit de inteligência
Depois de a pandemia ter derrubado crenças e certezas através do globo, o doutor continua a tratá-la como se fosse assunto menor, sem importância. Mostra que ainda não entendeu a gravidade do momento mundial. Não consegue se dar conta de que, nos futuros relatos da história do Brasil, seu mandato estará irremediavelmente ligado à covid-19 e seu nome ecoará como o de um Nero que soprou nas brasas da discórdia nacional. Para todo o sempre, já está marcado.

O rumor, o boato e a notícia falsa

José Horta Manzano

Desde os anos 1300, o nome da coisa é rumor. Dois séculos mais tarde, a língua se enriqueceu e a coisa ganhou mais um nome: boato. A modernidade do século 20 trouxe expressão nova para designar a mesma coisa: notícia falsa. E a vassalagem pós-moderna do século 21 obrigou a língua a importar expressão inglesa para a mesmíssima coisa: é “fake news”. São variações em torno do mesmo tema. A abundância de nomes dá a dimensão da importância que o boato adquiriu em nossos dias.

A disseminação das redes ditas ‘sociais’ – que chamo, maldosamente, associais – inunda os usuários com um magma de informação que chega em jorro contínuo. O portentoso volume dificulta a separação do joio e do trigo. A cada notícia nova, vem a dúvida: é verdade ou boato? Em compreensível reação de impotência, cada um tende a botar fé naquilo que lhe soa simpático, naquilo que lhe afaga as crenças. E acaba abonando notícia falsa.

Dirigentes populistas exploram essa insegurança de leitores que passam por cima de todo pensamento crítico para abraçar a notícia que vai de encontro a suas esperanças. É desse alimento que se fortalecem os oportunistas instalados no andar de cima.

Neste momento, tramita no Senado um projeto para combater “fake news”. Combater boatos é tão irrealista quanto combater erupções vulcânicas, terremotos ou aguaceiros. O que se gostaria, na verdade, é de reprimir a propagação de notícias falsas por redes (as)sociais. Essa judiciarização é sintomática dos tempos que vivemos.

Cinquenta anos atrás, os produtos alimentícios não vinham com data de validade. Minha avó abria, observava, cheirava e dava o diagnóstico: está (ou não está) bom. Cada um usava a própria capacidade de tomar decisão sem muleta. Hoje mudou. Se dou com uma notícia inesperada no meu grupo virtual, me falta expediente pra decidir sozinho se é verdadeira ou falsa. Daí a necessidade de uma lei que faça o trabalho por mim. Daí a utilidade do projeto que tramita no Senado.

É pena assistir a essa crescente infantilização da população, que não consegue mais distinguir sozinha entre o joio e o trigo das informações. E pensar que a solução é simples: para ter certeza, basta informar-se nos grandes órgãos da mídia. Não é garantia absoluta, mas ainda é o melhor caminho pra escapar de boatos e deixar de engolir gato por lebre.

Orthographia ‒ 1

José Horta Manzano

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.”

Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935), escritor, poeta, crítico e polemista português.

Interligne 18b

Fernando Pessoa aferrou-se, a vida toda, à grafia etimológica (ou pseudoetimológica) pela qual se havia alfabetizado. Recusou dobrar-se à nova regra – dita “simplificada” – instituída pela Reforma Ortográfica portuguesa de 1911.

Fernando Pessoa 1

Para constar, note-se que essa reforma de 1911 foi temperada, cozida e gratinada exclusivamente em Portugal. O Brasil só foi avisado uma vez que o acepipe já estava à mesa, disposto em terrinas fumegantes, pronto a ser servido. Naturalmente, a reforma foi ignorada deste lado do Atlântico. Mas veja só!

Não é de hoje que constantes e inconsistentes imposições de novas regras têm acentuado o sentimento de insegurança linguística que nos fere a todos. Essas frequentes alterações podem até satisfazer o ego (e o bolso) de um punhado de confrades, mas constrangem o cidadão comum. Seja ele brasileiro, luso, angolano ou timorense.

Se as línguas que nos cercam conseguem manter o vigor sem reformas ortográficas, por que razão precisamos nós remendar a nossa tão seguidamente? Que nos preocupemos em consertar o que estiver avariado, pois não? Nosso caminho é outro: nenhuma reforma ortográfica será capaz de salvar nosso falar da degradação.

Orthographia 1

O inglês é língua oficial de jure ou de facto de 79 países ou entidades territoriais. A língua francesa é oficial em 48 países ou entidades. Quanto ao espanhol, 22 países o têm como língua oficial. A despeito dessa disseminação – ou talvez por causa dela – nenhum dos falantes dessas línguas vive engessado num normativismo sufocante como vivemos nós.

Para dar um basta a essa esbórnia, uns bons Fernandos Pessoas andam fazendo muita falta.

Publicado originalmente em 8 mar 2015.

Quanta fronteira!

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando se pensa em fronteira, vem logo a imagem de um quiosque à beira da estrada, guarda uniformizado e armado, apresentação de passaporte, revista de bagagem. É isso, sem dúvida, mas não só. Além de confins terrestres, os países têm também fronteiras marítimas. Não são visíveis, mas estão lá. Delimitam a zona de exploração marítima exclusiva de cada nação.

Com exceção dos países sem saída para o mar e daqueles situados em ilhas sem vizinhos próximos, os demais têm fronteiras marítimas. O Brasil não dispõe de territórios ultramarinos; por isso, suas fronteiras marítimas são poucas, apenas duas: com a França (Guiana Francesa) e com o Uruguai. Dado que, com esses dois países, temos também fronteira terrestre, nosso total de vizinhos de parede não se altera: dá 10 no total.

Há particularidades exóticas. A Argentina, por exemplo, faz fronteira (marítima) com o Reino Unido na altura das Ilhas Falkland (Malvinas). Portugal encosta no Marrocos, a Itália beija a Tunísia e a Turquia está colada em Chipre. Embora estejam distantes um do outro, a Costa Rica e o Equador têm fronteira marítima comum, por causa das Ilhas Galápagos.

Zonas exclusivas de exploração marinha
e fronteiras marítimas

Há um país – caso único no mundo – que, entre terrestres e marítimas, faz fronteira com 34 países! E esse país não são os EUA. Trata-se da França. São resquícios de um tempo em que seu poderio era bem maior que hoje. Subsistem pequenas ilhas espalhadas ao redor do planeta. Além da metrópole europeia, a França tem territórios no Caribe, na América do Norte, no Atlântico Sul, no Pacífico, no Índico. A lista de vizinhos é pra ninguém botar defeito:

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Pra terminar, é interessante notar que o Brasil não é o único país não contíguo com o qual a França faz fronteira. Eles têm outros dois vizinhos situados longe do território nacional: a Venezuela (pela Guiana Francesa) e a Holanda (na ilha binacional de St.Martin, Caribe).

Caladão

José Horta Manzano

Convocado a depor, ministro Weintraub mantém-se calado.

Cá entre nós, não é banal ser convocado a dar explicações à polícia por ter feito travessuras. Quando se está ministro, então, é mais grave. Quando se é ministro da Educação, ser chamado à ordem por ter proferido insultos é vexame a figurar em futuros livros de história.

Ajuizados, os romanos já haviam previsto a situação. Veja:

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Canicross

José Horta Manzano

O perfil longilíneo, de magreza esquelética, é um pouco arqueado. Os traços angulosos, os olhos azuis cavernosos, a calvície avançada e a fala mansa e pausada infundem respeito. Até três meses atrás, Daniel Koch era um desconhecido. Quando caminhava a pé pelas ruas de Berna (Suíça) – terno, gravata e mochila nas costas –, ninguém prestava atenção.

Herr Koch era chefe da Divisão de Doenças Contagiosas do Ofício Federal Suíço da Saúde Pública, equivalente a nosso Ministério da Saúde. Desde que a epidemia de covid-19 se instalou, ele tornou-se a figura central de todas as coletivas de imprensa concedidas, num total de 36. Em cada entrevista, vinham os números atualizados de vítimas da doença, assim como as orientações à população.

Canicross

Dia 13 de abril, em plena pandemia, Herr Koch completou 65 anos. Chegou a hora da aposentadoria, já programada fazia tempo. Assim mesmo, ele preferiu adiar por um mês, até que a covid-19 mostrasse sinais de cansaço. Neste fim de maio, com o número de novos contagiados encostando no zero, chegou a hora.

Escolas já reabriram; comércios também; bares e restaurantes ainda mantêm, por algum tempo, restrições de proximidade entre as mesas. Em serviços do tipo cabeleireiro ou salão de beleza, onde o atendente tem de estar muito próximo do cliente, o profissional tem de usar máscara; todo o material tem de ser desinfectado entre dois clientes.

Canicross: Daniel Koch

Daniel Koch, agora conhecido como Mr. Covid-19, pode se aposentar tranquilamente e dedicar-se ao canicross(*), uma de suas paixões. Sua figura esguia ainda está tentando habituar-se a ser reconhecido por onde passa, novidade absoluta para o homem recatado. Na rua, costuma ser agora aplaudido por desconhecidos.

Se alguém encontrar alguma semelhança com nosso ministro da Saúde, é pura imaginação. Um não tem nada a ver com o outro.

(*) Canicross
Até poucos dias atrás, eu não sabia o que era. Agora, na Suíça, todos sabem o que é canicross. Mal explicando, é como se você fosse levar seu cachorro para fazer pipi; só que o passeio-pipi não é moleza: é uma corrida tipo maratona, em que dono e cão correm juntos e fazem o mesmo esforço. Coisa para atletas de verdade.

Pedir para fazer pipi

José Horta Manzano

A grande mídia nacional, cujos órgãos chegam a publicar manuais de redação, deveria tomar mais cuidado com a escrita. Mormente nos títulos. O erro que anoto hoje é pra lá de recorrente. Na língua nossa caseira de todos os dias, passa; nas páginas da mídia séria, engasga.

O verbo pedir tem diferentes acepções, mas só se constrói com a preposição para em um caso: quando se pede licença para fazer algo. Portanto, a expressão «pedir para» comporta um termo oculto. Será sempre: «pedir (licença) para».

Chamada Estadão

Assim, em frases como pedir para entrar, pedir para ir ao banheiro, pedir para sair mais cedo, é adequado empregar a preposição para depois do verbo. Já a chamada do jornal é inadequada. Deveria ser «Governo pede ao Supremo que suspenda depoimento (…)».

Se a boa mídia não conseguir aprimorar a difusão da língua culta, seria desejável, pelo menos, que não atrapalhasse.

Tuíte – 14

José Horta Manzano

Ontem, a PF lançou operação de busca e apreensão contra os governadores do RJ e de SP. Doutor Bolsonaro apresentou seus cumprimentos à PF.

Hoje, a mesma PF lançou operação de busca e apreensão contra cinco apoiadores do presidente. Até o momento, não se tem notícia dos cumprimentos de doutor Bolsonaro.

Será que a PF só é boa quando age no meu interesse? Vai pegar mal.

Cloroquina – 4

José Horta Manzano

Dois meses atrás, um decreto do governo francês havia autorizado a utilização da cloroquina para tratamento da covid-19. Desde então, muita água correu debaixo do rio Sena, milhares de cidadãos morreram e outros milhares se safaram da doença. Tratados ou não com o remédio polêmico, frise-se.

Faz alguns dias, como informei neste blogue, a revista médica britânica The Lancet publicou resultado de portentoso estudo feito com 96.000 pacientes. Chegou-se à conclusão de que nem a hidroxicloroquina nem seus derivados são eficazes contra a covid-19 em pacientes hospitalizados. Além de não fazer bem, o danado do medicamento ainda aumenta o risco de acidentes cardíacos. Cruz-credo!

As autoridades sanitárias francesas decidiram não arriscar. Nesta quarta-feira, 27 de maio, saiu um decreto no Journal Officiel (Diário Oficial) revogando a autorização dada em março. A partir de hoje, fica proibido administrar cloroquina para tratamento de covid-19. A única exceção fica por conta de pesquisas médicas com pacientes voluntários.

Doutor Bolsonaro já demonstrou que odeia a ciência. Além disso, é monoglota. Logo, é compreensível que não tenha lido o estudo publicado em The Lancet. Mas será que ninguém na sua assessoria ouviu falar, nem de leve, no assunto?

Isso vai acabar dando a impressão de que algum figurão do primeiro escalão é acionista do laboratório fabricante; e que prefere manter os ganhos financeiros à custa da saúde da população.

Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Uma dúzia de anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
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Atualmente, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.

Artigo publicado originalmente em 14 março 2018.

Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

Se eu morrer, saibam quem me matou

Ignacio de Loyola Brandão (*)

Esta é a crônica mais delirante e real que escrevi nestes meus 27 anos neste jornal. Se eu morrer de covid-19, saibam que fui assassinado. Sei que posso ser morto apesar dos cuidados que tomo. Estou há 50 dias encerrado em casa. Não desço sequer para atender motoboys que trazem medicamentos, compras de supermercados ou refeições. Gastei hectolitros de álcool gel, cheguei ao máximo de, após receber uma ligação, dar um banho no telefone com medo de ser contaminado pelo som. Quando vejo noticiário, desligo se o presidente começa a falar, enraivecido, espalhando perdigotos, tossindo, espirrando, dando a mão, insensível, abusado.

Tenho medo de ser infectado. Aqueles olhos claros que poderiam ser amorosos e cordiais nos fuzilam com chispas de ódio. Como deve sofrer quem vive assim na defensiva. Porque ele é pura defensiva o tempo todo. Segundo os sábios, não podemos olhar nos olhos de uma pessoa que odeia tudo, o mundo, a vida, porque podemos trazer para dentro de nós o que ela tem de maligno. Há o perigo de nos tornarmos como ela, malvada, perversa. Dona Ursulina, senhora sábia, que cozinhava como poucos, avó de um primo querido, diante de gente ruim costumava dizer: “Isso não é gente, isso é o demônio”. E esse presidente se diz religioso, vai a cultos, agrada a fiéis, bispos, pastores, o que for. Quem ele quer enganar?

(*) Ignacio de Loyola Brandão é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O texto é fragmento de artigo publicado em 22 maio 2020.

O país de ressaca

José Horta Manzano

Pra quem achava que os (longos) anos do lulopetismo eram o pior que se podia imaginar em matéria de governo, aqui está doutor Bolsonaro pra provar que o que já é ruim pode sempre ser piorado.

O lulopetismo roubou os dinheiros da nação; o bolsonarismo está roubando a alma do povo. Dinheiro, trabalhando e economizando, sempre se consegue juntar de novo; alma, já fica mais complicado. Não há trabalho nem economia que conserte alma arranhada.

Se não for logo interditado, este governo vai deixar um rastro de desolação em que todos sairão perdendo. Dirigentes que desprezam a cultura, desdenham a ciência e destroem a natureza estão agindo pior do que os que assaltaram o erário: estão hipotecando o futuro do Brasil como nação civilizada.

Não sei quantas reuniões ministeriais já houve desde que doutor Bolsonaro assumiu. Alguém acredita que as anteriores tenham sido diferentes dessa que foi desvelada? Moro não apontou a reunião de 22 de abril porque havia nela palavrões, mas porque escorava sua acusação de que o presidente tencionava intervir na PF.

Reunião ministerial

Incivilidades, impropérios e rasteiras parecem ser o prato do dia, servido em todas as refeições àquela gente insaciável. Todos os presentes, excluídos o cinegrafista e a mulher do café, estão na mesma salada. Ainda que alguns aparentem constrangimento, não leve a sério. Se constrangidos estivessem, já faz tempo que teriam entregado o chapéu. Se lá continuam, é porque se sentem entre iguais. Damares inclusive, com toda a pureza que exibe, deve ter os ouvidos acarpetados de palavrões.

Falando em Moro, é curioso que tenha se segurado quietinho durante ano e quatro meses, calado, apagado, apático. Há de ter ouvido muito palavrão, muita impropriedade, muitos planos antidemocráticos. No entanto, não soltou um pio. Só decidiu abandonar o barco quando a água já estava batendo na cintura.

O Centrão acaba de aceitar, com volúpia, convite pra integrar essa caravana de insanos. Como moscas atraídas pelo mel, os do baixo clero só têm olhos para as vantagens que virão em troca de apoio ao governo. Esquecem que toda moeda tem dois lados.

Ao fazer barragem a um processo de impeachment, estão levando água ao moinho do aprendiz de ditador e contribuindo para o sucesso de seu projeto autoritário. Caso o pior acontecesse e o golpe se consumasse, o Congresso seria fechado e eles – tolinhos! – seriam as primeiras vítimas. Perderiam o mandato e só com muita sorte não terminariam na cadeia. A cupidez é defeito muito feio.

Cloroquina – 3

José Horta Manzano

Acaba de sair a notícia. The Lancet, uma das três revistas médicas mais respeitadas do mundo, publicou hoje o resultado de pesquisa sobre ganhos & perdas ligados ao uso da cloroquina em pacientes atingidos pela covid-19.

O estudo, levado a cabo entre dezembro 2019 e abril 2020 em 671 hospitais ao redor do globo, esmiuçou o prontuário de 96 mil doentes internados. Chegou à conclusão de que o uso desse remédio não trouxe nenhum benefício, enquanto os malefícios foram notáveis. Mesmo nos casos em que foi associada a antibióticos, a cloroquina aumentou em 45% os casos de morte por arritmia cardíaca ventricular. Com ou sem tratamento coadjuvante, a esperança de vida dos doentes encurtou.

É imprecionante como esse pessoal age. Vejam só: 96 mil doentes e 671 hospitais unidos em perfeita cumplicidade – e ao redor do mundo! – de propósito só para contradizer as orientações de doutor Bolsonaro. É imprecionante a desonestidade intelectual desse pessoal. Fazer isso logo com nosso presidente, sempre tão ponderado, refletido e preocupado em acertar. É injusto! É um complô comunista! Assim não dá.

Tuíte – 13

José Horta Manzano

Volta e meia se vê algum analista repetir que, lá fora, o Brasil de Bolsonaro virou piada. Dá impressão de que basta mencionar o nome de nosso país para fazer estourarem gargalhadas em Londres, Paris e Berlim. Não é bem assim. Aliás, não é nada disso.

‘Lá fora’, não se costuma brincar com coisa séria. O Brasil – como os EUA, a China, a Rússia – é grande demais pra ser alvo de riso. Ninguém acha engraçado o drama que se desenrola sob a batuta do maestro Bolsonaro. O Brasil não virou piada, virou objeto de perplexidade. Se nós, que temos familiaridade com o assunto, não entendemos o que acontece, imagine o que se passa na cabeça de um estrangeiro. O espanto é maior do que a vontade de rir.