Já muito tempo passou desde a última vez em que entrei numa igreja para ouvir a missa. Visitas turísticas a catedrais góticas e românicas não contam, que essas, vi muitas.
Só para vosmecê ter uma ideia, no tempo em que eu ia à missa, ela ainda era dita em latim. Já na época, ouvia-se dizer que o Vaticano estava considerando substituir o latim pela língua vernácula. Eu não sabia exatamente o que era “língua vernácula”; só mais tarde aprendi que era a que se falava no dia a dia, no nosso caso, português do Brasil.
Embora antigos, esses tempos não se confundem com o do Deus dos tempos bíblicos, aquele personagem sisudo e implacável que inspirava mais pavor que amor. Sem chegar a ser propriamente liberais, os preceitos da Igreja da minha época já eram menos engessados do que, digamos, no tempo de meus avós. O fogo eterno já não ameaçava os pobres mortais por um sim, por um não.
No púlpito, na hora do sermão, o vigário brandia o indicador apontado para um ponto no horizonte, percorria com os olhos o conjunto do fiéis e os alertava do perigo do pecado mortal. Os que caíssem em tentação tinham de se confessar e comungar rapidamente porque, se morressem naquelas condições, seria quase impossível alcançar a salvação. Hoje, acredito que a fala visava mais é a manter unido o rebanho de fiéis. Em todo caso, funcionava.
Afagos e ameaças eram sempre dirigidos aos paroquianos. Párocos não pronunciavam discursos farisaicos do tipo “Nós somos puros e vamos para o céu; aqueles ali são pecadores e têm entrada garantida no inferno”.
O Globo informa que o distinto pastor de uma “denominação” neopentecostal da periferia de São Paulo, apoiador de Bolsonaro, não gostou da apresentação da escola de samba carioca que teve a ideia esquisita de homenagear o Lula e desancar com a oposição. Gosto por gosto, eu também não gostei. Com tanto assunto por aí, homenagear presidente candidato à reeleição me pareceu péssima escolha.
O pastor tampouco apreciou que a tal escola de samba tenha menosprezado certos valores religiosos que lhe são caros. Quanto a mim, não discordo: apreciei menos ainda. Acho que não se deve nunca zombar da religião alheia.
O ponto em que o pastor e este escriba estão em desacordo vem agora. No que me diz respeito, ainda me prendo aos preceitos que aprendi.
-
- Roupa suja se lava em casa;
-
- fuja-se de farisaísmos do tipo “eu sou bom, eles é que são maus”;
-
- religião e política não se misturam;
-
- temos direito de gostar ou não, mas quem julga e condena é Deus.
Já nosso pastor assumiu comportamentos que considero indignos de um sacerdote.
-
- Lavou sua roupa em público, via redes sociais;
-
- não se vexa de pôr religião e política no mesmo balaio;
-
- não se restringiu a criticar a apresentação da alegoria, foi além;
-
- apontou culpados, condenou-os e fixou-lhes a pena.
O pastor misecordioso disse que os integrantes da escola que homenageou o Lula terão câncer de garganta(!). Dado que ele não especificou, a maldição vale para todos os integrantes, dos diretores aos faxineiros, passando por passistas, porta-bandeiras, criadores, mecânicos, costureiras, modistas, músicos.
É verdade que a escola de samba desafinou, mas o pastor trocou os pés pelas mãos e atravessou o passo. Fez aquilo que o Cristianismo condena: rogou praga para todo o pessoal da escola. E fez isso publicamente, na frente de fiéis e de infiéis. Será pecado mortal?
Me sobrou uma curiosidade. Se, por assustadora hipótese, a escola tivesse homenageado Bolsonaro e ridicularizado a imposição de cinzas da quarta-feira, qual teria sido a reação de nosso pastor rogador de praga? Uma maldição virulenta ou um gostoso afago em cada integrante da escola de samba?




















