Falem de mim

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Outro dia, estava escutando um programa numa estação de rádio suíça. Era um diálogo em que os dois conversavam de algo banal, nem me lembro exatamente qual era o assunto.

Lá pelas tantas, um faz ao outro uma pergunta meio cabeluda, daquelas que demandam um tempo pra reflexão. Enquanto pensava na resposta, o indagado enrolou um pouco:

Ô, mais c’est compliqué ça!
Rapaz! Mas isso é complicado!

E o que tinha perguntado, na lata:

Eh, oui. C’est aussi compliqué que de chercher un peu d’humanité chez Bolsonaro.
É verdade. É tão complicado quanto procurar um pouco de humanidade no Bolsonaro.

Os dois continuaram a conversa, mas eu parei, surpreendido pela menção do nome do capitão, assim, de supetão, no meio de uma conversa amena, que não tinha nada a ver com ele.

Me lembrei de um antigo político que costumava dizer “Falem bem, falem mal, mas falem de mim”.

Parece que o autor da frase não é bem o político, mas o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900). No original, era: “There is only one thing in life worse than being talked about, and that is not being talked about.”“Só há uma coisa na vida pior do que ser falado; é não ser falado”.

Não tenho dúvida de que deve ser agradável ser popular; faz bem ao ego. Mas tornar-se sinônimo de desumanidade é pesado. Imagino que não faça bem ao ego de ninguém. Nem do próprio Bolsonaro.

A che punto siamo arrivati! – como dizem os italianos – A que ponto chegamos!

Amigo da onça

José Horta Manzano

Nos anos 1940, não havia internet nem televisão. Nos jornais, tudo era impresso em preto e branco, até as fotos. Para desfrutar imagens que não fossem as da vida real, só indo ao cinema ou comprando uma revista. As décadas de 1940 e 1950 marcaram o período áureo da telona e das revistas semanais.

A revista O Cruzeiro, publicada desde os anos 1920, era a mais importante. Toda semana, estava nas bancas um novo número com variedades, análise dos fatos do momento, seções assinadas por escritores de peso como Rachel de Queiroz.

E havia a tradicional página com um quadrinho (um quadrão, na verdade) do Amigo da Onça, personagem criado pelo desenhista pernambucano Péricles Maranhão (1924-1961). Figurinha um tanto sádica, o Amigo da Onça trajava sempre um impecável dinner jacket branco e azedava a vida de todos. Adorava pôr os outros em situação difícil – em saia justa, como se diz.

Não sei se é implicância minha, mas desde a primeira vez que vi Monsieur Zemmour, atual candidato da extrema-direita à Presidência da França, achei que ele se parecia com o Amigo da Onça. Não falo de semelhança de caráter (ainda que…), falo de parecença física. Dê uma olhada na ilustração que botei lá na entrada.

Ontem foi o primeiro grande comício do candidato, com vistas às eleições presidenciais de abril próximo. Desenrolou-se num miniestádio coberto, nas cercanias de Paris. Calcula-se que umas 15 mil pessoas tenham estado presentes. A gente se pergunta como é que é possível alguém sair de casa e viajar quilômetros para assistir ao discurso de um Zemmour. Enfim, cada cabeça, uma sentença.

O comício foi perturbado por diversos acontecimentos violentos. Os repórteres e cinegrafistas de um canal de tevê que costuma mostrar antipatia pelo candidato foram ameaçados por militantes e tiveram de ser evacuados pelos seguranças. O mesmo destino coube aos jornalistas de Mediapart, um jornal de esquerda. Francamente, os da extrema-direita não apreciam a imprensa. Dependesse deles, todos os jornais podiam fechar – com exceção dos que só publicam reportagens elogiosas.

Quando se encaminhava ao palco para discursar, Monsieur Zemmour foi agarrado pelo pescoço por um jovem desconhecido e, na confusão, acabou torcendo o pulso. O rapaz foi detido para averiguações e o candidato encontrou um médico camarada que lhe prescreveu 9 dias de licença médica.

Digo que o médico foi camarada porque, apesar de estar de licença médica por quase dez dias, o candidato não parecia estar sofrendo durante o discurso. Frise-se que, na França, toda agressão que acarretar mais de 8 dias de licença médica é considerada delito grave, com pena de até 3 anos de prisão mais 45 mil euros de multa. Nesta segunda-feira, o agressor continuava sendo interrogado nas dependências da delegacia. Ele alegou ser fã de Zemmour, mas os investigadores não parecem estar convencidos.

Um pouco mais tarde, um grupo de militantes de uma ONG de combate ao racismo, chamada SOS Racisme, foi reconhecido por devotos mais exaltados. Os integrantes do grupo foram então agredidos fisicamente, sangue correu, gritaria subiu, e a explicação terminou na rua, longe do recinto.

Resumo da ópera: gente gritou, o povo correu, cadeiras voaram. Hoje em dia, todos filmam tudo; as imagens falam mais que mil palavras. Ao final da festa, 62 pessoas tinham sido detidas para averiguações.

Acredito (e espero) que o eleitorado francês não desça ao ponto de eleger essa figura para a Presidência da pátria dos direitos humanos. Seria o cúmulo. Mas isso mostra que os simpatizantes da direita extrema não são gente tranquila, disposta a dialogar nem a debater.

A invasão do Capitólio de Washington, os buscapés atirados contra o STF em Brasília, as cadeiras voando em Paris são faces de um mesmo poliedro. Os devotos não são muitos (felizmente!), mas são barulhentos. Todo cuidado tem de ser tomado para não acreditar que sejam majoritários. Não são.

Despesas lá e cá

Carlos Brickmann (*)

As de cá
Afinal de contas, é preciso pagar despesas inadiáveis como as novíssimas universidades, que só terão custos mas não terão vaga para nenhum estudante. E para pagar coisas como a farra aérea de agosto passado, quando Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, requisitou avião da FAB para viajar de Brasília a São Paulo com Michelle Bolsonaro, para assistir a um evento do programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama.

Decreto do Governo Federal determina que a comitiva que acompanha a autoridade no avião deverá ser ligada à agenda a ser cumprida. Mas, apesar do decreto, o avião – cujas despesas o caro leitor paga – transportou sete parentes da primeira-dama, mais a esposa do ministro do Turismo, Sarita Pessoa, de carona.

À noite, Damares e Michelle participaram da festa de aniversário do maquiador Agustín Fernandez. Na volta, Agustín Fernandez também pegou carona no voo, ao lado da filha mais velha, de três irmãos, de uma cunhada e de dois sobrinhos de Michelle, e de Sarita Pessoa.

As de lá
Num país evidentemente muito mais pobre que o Brasil, a Alemanha, a primeira-ministra, Angela Merkel, passou as férias na Croácia com o marido. Ela, por questão de segurança, viajou no avião oficial.

O marido foi em voo comercial. E explicou: se tivesse viajado no avião oficial, teria de pagar tarifa cheia de primeira classe, sem desconto. Preferiu economizar: voou em linha comercial, ida e volta, classe turística.

Aliás, em recente entrevista, Angela Merkel revelou que, em 16 anos de poder, continuou morando em seu apartamento, sem empregada. Deixa o governo sem precisar fazer mudança.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Nas Arábias

Rafale, caça francês

José Horta Manzano

Emmanuel Macron, presidente da França, foi de visita aos Emirados Árabes Unidos. Não pra fazer turismo nem pra inaugurar embaixadas, que isso é trabalho secundário, que não requer presença de presidente da República. Foi fazer negócios. E fez.

Em Dubai, assinou nesta sexta-feira o contrato de venda de 80 (oitenta) aviões Rafale, o suprassumo da tecnologia militar francesa, aquele aparelho que o Lula se comprometeu a comprar de Sarkozy, mas depois acabou esquecendo.

O valor da transação é de 16 bilhões de euros (mais de 100 bilhões de reais). Além dos aviões de combate, o príncipe herdeiro comprou ainda 12 helicópteros Caracal de transporte militar. O total da fatura ultrapassa 17 bilhões de euros (108 bilhões de reais).

Faz 15 dias, nosso capitão passeou pelas areias da mesma região, pisou os valiosos tapetes dos mesmos palácios, admirou (será?) os mesmos mármores e os mesmos ouros, contou lorota aos mesmos emires. E o que é que trouxe de volta?

Doutor Guedes explicou que os árabes têm interesse em comprar dois times de futebol. Que estupendo! Isso é o que se chama, na linguagem do capitão “vender o Brasil”. Taí uma viagem presidencial que realmente valeu a pena.

Frase do dia – 537

Laurent Sagalovitsch (*)

Je ne suis guère sensible aux questions de genre ou de race, du moins dans la manière dont elles sont utilisées de nos jours. À force de revendiquer tout et n’importe quoi, de défragmenter la société en autant de communautés bien distinctes, on en vient à dresser les individus les uns contre les autres, dans une sorte de surenchère victimaire où la souffrance des uns vient concurrencer l’apparente normalité des autres.

Não sou nem um pouco sensível a questões de gênero ou de raça, em especial da maneira como vêm sendo tratadas nos dias de hoje. De tanto reivindicar e fragmentar a sociedade num número infinito de coletividades bem distintas, acaba-se insuflando a oposição entre indivíduos, uns contra os outros, numa espécie de escalada vitimista em que o sofrimento de uns entra em concorrência com a aparente normalidade dos outros.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Autobiografia precoce

“Je m’appelle Kylian” – Tarde de autógrafos

José Horta Manzano

É raro ver autobiografia escrita por um jovem de 22 anos. Faz alguns dias, saiu uma. Vem assinada pelo astro do futebol francês Kylian Mbappé e tem uma particularidade: não foi escrita em prosa, mas como história em quadrinhos, um achado. A história foi contada pelo próprio futebolista, mas as imagens são da prancheta de um desenhista especializado.

O editor (e os autores) têm grande expectativa quanto ao volume de vendas. A primeira edição saiu com 300 mil exemplares. A proximidade das festas de fim de ano não é coincidência: a criançada vai fazer fila nas livrarias.

Uma sessão de autógrafos foi organizada ontem em Paris, especialmente dedicada aos admiradores-mirins do astro. Pra evitar tumulto, a entrada foi limitada a 150 crianças previamente inscritas. Saíram todos com os olhinhos brilhando de emoção de ter passado um instante cara a cara com o ídolo.

Mbappé e Neymar, como todos sabem, têm contrato com o mesmo clube, o PSG – Paris Saint Germain. Só que tem uma diferença que conta: Mbappé é francês, enquanto Neymar não passa de um estrangeiro. Pra piorar, as entrevistas do brasileiro precisam ser traduzidas porque, em 4 anos na França e apesar de ser ainda jovem, ele parece não ter feito esforço pra aprender a língua local. Nunca se ouviu o moço pronunciar uma palavra de francês em público. Nem mesmo um “merci”; ele só se exprime em espanhol. Os torcedores do clube provavelmente vêem essa atitude como desdém, e se encrespam. Quando podem, dão o troco.

Fico pensando no curioso destino futebolístico de Neymar. Dinheiro é o que não falta ao rapaz; ele ganha por dia o que a maioria de nós não ganha numa vida inteira de trabalho. Fora isso, parece que ele tem pé frio. Se machuca com frequência. Já jogou duas Copas do Mundo com a Seleção, mas não teve sucesso. Jogou no Barça, onde sua figura foi ofuscada pelo Messi.

Em 2017, quando assinou com o PSG, achou que sua vez tinha chegado. Mas a alegria durou pouco. Logo no ano seguinte, a França ganhou a Copa e projetou o nome do rapazote Mbappé. Resumindo, o azarado Neymar se livrou do Messi pra cair na sombra do francês.

Bom, sombra ou não, azarado ou não, o fato é que o rapaz tem muito, mas muito, dinheiro. É verdade que dinheiro não traz felicidade, mas… ajuda bastante.

Pé-rapado

José Horta Manzano

Consultei em várias fontes. O curioso plural “pé-rapados” não é interpretação do repórter, mas reproduz fielmente a fala do discursante. O suave pastor realmente pronunciou assim. Os termos não são lá muito elevados, mas decerto o palavreado fazia parte do sermão.

Só que… o pastor há de ter pulado uma aula de Português. Foi no dia em que Dona Maricotinha ensinou que o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número. Pé-rapado é composto de um substantivo (pé) + um adjetivo (rapado). Portanto, tem de seguir a regra. O adjetivo gruda no substantivo e vão juntos para o plural: pés-rapados. Sim, senhor.

Os ofendidos devem ter festejado em coro:

Pé-rapado é o teu nariz
Mais pé-rapado é quem me diz

Onomástica
Malafaia é nome que vem do sul da Itália. Sua origem é difícil de decifrar. A primeira parte (mala) é moleza: é feminino de malo, o contrário de bom. Já o segundo elemento é mais complicado de identificar. Há duas possibilidades.

A primeira aponta para uma alcunha de origem grega – o que não espanta, visto que o sobrenome Faia é frequente na Sicília, terra que foi colônia grega na Antiguidade. O apelido significaria brilhante. Dado que mala não encaixa com brilhante (que brilha mal? brilho falso?), a dúvida fica no ar.

A segunda possibilidade é mais tentadora, embora mais difícil de provar. Faia é forma usada em alguns dialetos e línguas latinas (entre as quais o português) para dar nome a um tipo de árvore comum na orla mediterrânea: o Fagus selvatica. Se realmente fizer referência a essa árvore, Malafaia significaria “faia ruim”. Ruim por quê? Porque, de algum modo, atrapalhava a vida dos aldeões de 800 anos atrás? Ou porque os que viviam à sua sombra, longínquos antepassados do discursante, eram gente pouco recomendável? Nunca se saberá.

Sotaques que se perderam

Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintor francês

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 novembro 2021

Por que é que a fala brasileira é tão diferente da portuguesa? Razões, há várias. O isolamento em que viveram as colônias lusas na América é fator essencial, responsável pela permanência, em nosso falar, de formas arcaicas já caídas em desuso em Portugal. Por seu lado, mudanças fonéticas ocorridas lá nem sempre repercutiram aqui.

Também é importante lembrar a influência das línguas indígenas, transmitidas aos primeiros brasileirinhos como consequência da formação de famílias mistas, com pai português e mãe índia. É permitido imaginar que, antes de o Marquês de Pombal proibir o uso do tupi, o bilinguismo fosse frequente nas capitanias do sul.

Os imigrantes europeus da virada do século 19 para o 20 trouxeram na bagagem palavras e expressões que acabaram incorporadas à língua. Mas não há que esquecer que, ao chegarem, essas populações encontraram um falar bastante cristalizado, já próximo do que conhecemos hoje.

A influência mais profunda sofrida pelo falar brasileiro, não há que se diga, veio dos negros africanos trazidos ao Brasil como escravos. Descobrir quantos eram, em diferentes momentos de nossa história, não é fácil. O primeiro censo oficial só teve lugar em 1872. Antes dele, não havia estudos demográficos sistemáticos. O que há são trabalhos recentes, obra de pesquisadores de paciência beneditina, que garimparam inventários dos séculos passados. O escravo, equiparado a um objeto, não contava como gente. Portanto, para apurar sua existência, convém compilar listas de bens dos defuntos, onde eles aparecem ao lado de louça e peças de mobiliário.

Esses trabalhos dão uma boa ideia da população negra no Brasil dos séculos 17 e 18. Estima-se que, em meados do século 18 (1750), na época em que nosso falar começava a se fixar, a população da capitania das Minas Gerais era composta por 60% de escravos africanos, o que dá uma ideia do enorme contingente populacional vindo de fora e que falava, como segunda língua, um português tosco.

Esses “imigrantes” forçados eram cuidadosamente triados pelos senhores para evitar a formação de grandes grupos que falassem o mesmo dialeto. Prevenir motins e rebeliões era preocupação constante. Originários da costa ocidental da África, os cativos falavam línguas e dialetos da grande família banta. Apesar disso, a intercompreensão entre os diferentes falares era geralmente impossível.

Foi assim que o português acabou se impondo como lingua franca entre os próprios africanos. O português foi aprendido de ouvido, sem escola, sem gramática, sem coach de correção de pronúncia. O sotaque da massa de escravos, típico do estrangeiro que fala uma língua aprendida, há de ter influenciado o falar da minoria branca. De um lado, os africanos sorveram língua e vocabulário dos senhores; de outro, devolveram um português mastigado, triturado, amolecido, rearranjado. A maneira como falamos hoje descende dessa permuta que atingiu seu pico no século 18.

Seria valioso ouvir os escravos se exprimirem na nova língua. Será que já dava pra identificar, naquele linguajar incipiente, traços e marcas que ficariam de herança para nosso falar atual? Infelizmente, os tempos não permitiam registros sonoros. Ainda assim, temos atualmente um modo de recuperar esse passado de sotaques.

Um pequeno contingente de africanos vive hoje no Brasil – imigrantes e, principalmente, refugiados. Por coincidência, são originários das mesmas costas de onde provinham os escravos que povoaram nossa terra. Por que não aproveitar e fazer um registro sonoro da fala desses africanos legítimos, que estão em pleno aprendizado do português? A língua materna de todos será uma variedade da família banta, como ocorria com os escravos de outrora.

Os negros que vivem na França, que também provêm das costas ocidentais da África, têm um sotaque característico, facilmente identificável ao falarem francês. Mas não formam contingente numeroso ao ponto de influenciar o falar dos franceses. No Brasil de antigamente, chegaram a ser a maioria dos habitantes. É mais que provável que nossa fala guarde pontos de contacto com a deles. A presença, em nosso território, desses recém-chegados constitui excelente ocasião pra conferir. Os que entendem do riscado não deveriam desperdiçar a oportunidade.

Antivax e terra plana

Antivax (contrário à vacinação)
by Rick McKee, desenhista americano

José Horta Manzano

Para reforçar o que escrevi dias atrás no post A grande derrota de Bolsonaro, a Folha publicou ontem alguns números de um estudo sobre a aceitação das vacinas. A pesquisa é fruto de parceria entre o Banco Mundial e o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Praticamente todos os países da América Latina foram investigados. Entre essas 24 nações, o Brasil é aquele em que a vacina contra a covid-19 tem a mais ampla aceitação. Apenas 3% da população é antivax (ou vacino-hesitante, ou contrário à vacinação – é tudo a mesma coisa). Nos 24 países, a média dos que são contra a vacina é de 8%.

O estudo não diz a razão da hesitação. Medo de virar jacaré? Medo de ser menina e virar menino (ou vice-versa)? Medo de pegar aids? Medo de “morte, invalidez, anomalia” – como preveniu o capitão? A meu ver, é medo de agulha mesmo. Um inconfessável e irrefreável medo de levar picada. Talvez seja algum resto de fobias herdadas, como medo de picada de pernilongo, de aranha, de escorpião.

O importante é constatar que a pregação do presidente não serviu pra nada, rigorosamente pra nada. Com ou sem pregação, sempre haveria esses gatos pingados que recusariam a vacinação.

O resultado do estudo nos ensina que, na hora do vamos ver, cada um cuida de si. Vão pro lixo ideologias, posições no espectro político e convicções íntimas. Os devotos, que juram que se atirariam num precipício se o capitão mandasse, mostram que a devoção não é tão forte assim.

A cada dia que passa, o “mito” vai deixando claro que é isso mesmo: ele não passa de mito, uma “narrativa” que pouco a pouco se desnuda. Seu poder de aglutinar o povo é balela. O homem tem mais é poder de espantar e botar todos pra correr, inclusive os que um dia porventura tenham depositado confiança nele.

Fica de novo confirmada a grande derrota de Bolsonaro. Não conseguiu convencer nem os próprios terraplanistas.

Pátria amada, pátria amada,
logo logo estarás libertada!
O estropício, enxotado!
Nosso pendão, recuperado!

Dedo de honra

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, para se apresentar, o cidadão estendia seu cartão de visita. Estava ali o básico: nome, sobrenome, profissão, endereço e telefone (se houvesse). Quem recebia o cartão tinha ainda a possibilidade de examinar as características: tamanho, espessura e qualidade do papel, cor da tinta, impressão em relevo ou não. De posse dessas informações, já era possível saber muita coisa sobre o titular.

Nestes tempos em que o “Oi!” substituiu o cartão, para saber a que veio cada um, é preciso observar seu tom de voz, seu sotaque, seu comportamento, seu gestual. Ah, o gestual! Esse é ponto importante. Dispensa palavras. É feito exatamente pra ser visto de longe.

Me impressionou muito aquele gesto elegante que nosso ministro da Saúde fez em Nova York, logo depois de comer pizza na calçada. O distinto leitor há de se lembrar que, apupado por manifestantes quando já se encontrava dentro do ônibus, o doutor espichou o braço e mostrou o dedo do meio à multidão.

No arsenal obsceno da minha juventude, não constava o gesto do ministro. Deve ter sido popularizado mais tarde. O gesto equivalente era “dar uma banana”, com os punhos cerrados e os braços cruzados, sendo um na vertical. O significado era o mesmo. Esse gesto de mostrar o dedo do meio, aliás, nem nome tinha. Se hoje tiver, desconheço. Agradeço a quem puder mandar uma cartinha para a Redação desvelando o mistério.

Só que tem uma coisa. O que pode ser tolerável num adolescente – irrequieto e ainda pouco familiarizado com os códigos de comportamento da sociedade – é absolutamente inaceitável de parte de um ministro da República. Um ministro? Impensável!

Outro dia já falei do candidato surpresa nas presidenciais francesas que terão lugar daqui a 4 meses. Trata-se de Monsieur Eric Zemmour, jornalista e escritor, que professa ideias da direita extrema, entre as quais um ódio feroz contra imigrantes em geral e árabes em particular.

O extremista ainda não oficializou sua candidatura. Por enquanto, percorre o país fazendo publicidade para seu novo livro e testando a receptividade da população a sua presença. Sábado esteve em Marselha. Como de costume, foi acolhido tanto por admiradores como por oponentes. A um dado momento, não se conteve e mostrou o dedo a uma mulher (veja a imagem).

Ficou-se sabendo que ele estava apenas reagindo. A distinta senhora também lhe havia feito o mesmo elegante gesto. Pouco importa. O candidato é ele, não ela. Assim como é inaceitável o que fez o ministro brasileiro, é intolerável ver o mesmo gesto vindo de um candidato à presidência da França. Um homem público não tem o direito de reagir como um homem comum em todas as ocasiões.

Dois casos isolados de figuras públicas que se permitem esse tipo de baixaria em público, como os que mencionei, são pouca coisa; não dão amostragem suficiente para um estudo científico. Mas o fato de os dois pertencerem à mesma família política (extrema direita) deixa no ar uma interrogação. Serão todos assim? O palavreado e o gestual rasteiro fazem parte da cartilha de todo aprendiz fascistoide?

Ao se dar conta da onda de indignação que rugiu nas redes por causa de seu gesto, Monsieur Zemmour tuitou uma pirueta: “Madame, naquele momento hão havia tempo para um debate como eu aprecio. É por isso que usei a única linguagem que a senhora e seus camaradas ‘antifascistas’ compreendem imediatamente: a de vocês!”.

A vulgaridade agressiva é a arma dos que não têm argumentos. Assim como Trump e Bolsonaro não tinham, tampouco esse candidato tem programa para seu país. Taí a origem do comportamento rasteiro de todos eles.

Título
Em francês, o gesto de mostrar o dedo do meio se diz “doigt d’honneur”, dedo de honra. A expressão é calcada sobre “bras d’honneur”, braço de honra, que é nossa “banana”.

Ômicron x oméga

José Horta Manzano

Uma das características dos vírus é ter mutações frequentes, até em ritmo diário. O corona, causador da atual epidemia, não escapa a essa realidade. Cientistas do mundo inteiro transmitem à OMS as informações sobre as novas cepas de covid-19. Elas são então catalogadas e recebem um nome. A denominação é geralmente um código complicado, difícil de memorizar, composto de letras e números, não apropriado para difusão entre o grande público.

Toda cepa de periculosidade maior, que representa ameaça importante para o homem, tem direito a receber um nome especial. No caso do vírus que causa a covid-19, ficou decidido dar, a essas cepas perigosas, nome seguindo o alfabeto grego. Isso evitou dar-lhes o nome do país onde haviam surgido, o que podia ser estigmatizante.

A variante B.1.1.7, que foi primeiro identificada na Grã-Bretanha e que estava sendo chamada de “variante britânica” tornou-se Alfa. A cepa B.1.351, que apareceu na África do Sul, virou Beta. A variante P.1, chamada no princípio de “variante de Manaus” ou “variante brasileira”, tornou-se Gama. E assim por diante.

A série de cepas preocupantes, que começou em Alpha, já correu boa parte do alfabeto (Épsilon, Zeta, Eta, Theta, iota, Kappa, Lambda, Mu, Nu, Xi) e acaba de chegar ao Ômicron, que é a 15ª letra.

É curioso notar que o alfabeto grego tem as letras Ômicron e Oméga (que é, aliás, a última da lista). Ambas são de origem antiquíssima: provêm do alfabeto dos fenícios e, procurando mais longe, desconfia-se que derivem de certos hieróglifos egípcios.

Ômicron, “o pequeno” ou “micro o”, é composto de o + micron. Oméga, “o grande” ou “mega o”, é composto de o + mega. Essas partículas gregas são usadas frequentemente em nossa língua com o mesmo sentido de “grande” ou “pequeno”: megaevento, megaestrutura, microempresário, microfibra.

Esperemos que Ômicron faça jus a sua partícula e não nos cause senão “microperigos”. Em matéria de “megaproblemas”, já temos um híper, incrustado lá no Planalto. Já basta.

A grande derrota de Bolsonaro

José Horta Manzano

Desde que a pandemia tomou conta do mundo, Bolsonaro não perdeu ocasião de desdenhar. Chamou-a de gripezinha. Assegurou que, com dois ou três comprimidos de cloroquina, a questão se resolvia. Zombou do povo que o elegeu ao nos tratar de maricas. Mandou que todos se juntassem e se esfregassem, que era pra pegarem a doença, eliminando, ao final, os mais frágeis – todo o mundo tem de morrer mesmo, não é? Antivax desde o primeiro momento, segurou quanto pôde a compra das vacinas. Tentou frear a produção do Butantan porque, politicamente, não lhe convinha.

Mas há uma justiça. O preço da vitória – 600 mil mortos – foi elevado, mas o Brasil acabou vencendo. Bolsonaro perdeu. Ele queria chegar à imunidade coletiva (ou “de rebanho”, expressão que ele prefere) sem aplicação de vacina. Na sua cabecinha tosca, a doença eliminaria os fracos e deixaria os robustos, num arremedo de eugenismo tropical.

Sua estratégia não deu certo. Na sua biografia, estarão para sempre gravados os mortos e o epíteto de genocida. E a vacina foi aplicada. Graças ao trabalho de governadores menos obtusos que o capitão e graças ao empenho de todo o pessoal da área de saúde, o Brasil já vacinou integralmente mais da metade de seus habitantes. Apesar da inépcia de um Pazuello, aquele que, em matéria de saúde pública, entrou sem saber e saiu sabendo menos ainda.

Segundo a contabilidade global de vacinação contra a covid-19, atualizada em 25 de novembro, o Brasil aparece em honrosa posição, com 60,4% da população completamente vacinada. Está até melhor que os EUA, que só vacinaram 59,1% dos habitantes. Estamos muito à frente de grandes países produtores de vacina como Rússia (38,1%) e Índia (30,6%).

À nossa frente, só aparecem uns poucos microestados e alguns países europeus. Portugal, com espantosos 86,6%, é o país europeu que mais vacinou. Bem à frente de potências como a Alemanha (68.2%), França (69,5%) e Reino Unido (68,8%).

Estes dias, foi anunciada a descoberta de uma nova variante, batizada de Ômicron, que surgiu na África do Sul. É cepa perigosíssima, altamente contagiosa, bem mais assustadora do que todas as que tinham aparecido até agora. Bolsas caíram, aeroportos se fecharam, a covid voltou a frequentar as manchetes.

Mas por que razão essas novas cepas surgem sempre em países populosos e pouco desenvolvidos? Tivemos a variante indiana Beta, a brasileira Gama, as sul-africanas Delta e, agora, Ômicron. A razão é simples: o vírus gosta de gente. Quanto mais gente houver, maior a possibilidade de ajuntamentos, de promiscuidade, de extenso contágio. O atraso na vacinação e o descaso na observação das medidas de contenção – álcool em gel, máscara, distanciação social – são fatores agravantes.

Dado que a taxa de vacinação completa ainda está baixa em alguns países populosos, a ameaça não desapareceu. Alguém já disse, com razão, que o planeta só estará protegido quando todos os cidadãos estiverem protegidos. Não adianta um país atingir 100% de plano vacinal, se os demais ainda estiverem gerando cepas resistentes às vacinas disponíveis. Com essas variantes agressivas, o mundo não está livre de voltar ao ponto de partida e ter de esperar por novas vacinas. E a começar a contar de novo os mortos.

Índia (30,6%), África do Sul (23,8%), Rússia (38,1%), Nigéria (1,7% !), Indonésia (34,0%), Paquistão (22,5%), Bangladesh (21,7%) são países populosíssimos, com plano vacinal em atraso. Constituem terreno fértil para a epidemia. Vamos torcer para que nenhuma cepa resistente se desenvolva lá enquanto o vírus ainda circula redondo.

Enquanto seu lobo não vem, alegremo-nos, irmãos! O Brasil venceu Bolsonaro. Apesar do atraso e da má-fé do capitão, a competência nacional em matéria de vacinação forçou a porteira e mostrou que o povo brasileiro é maior que a ignorância do presidente e que o oportunismo irresponsável do grupelho que o cerca.

Ah, se inveja matasse!

José Horta Manzano

Se Bolsonaro pôde viajar a Nova York para comer pizza na calçada e, dias depois, fazer turismo na Itália para cuspir na tumba dos pracinhas, é sinal de que está apto a viajar para qualquer parte do globo. O chato é que ninguém o convida nem o quer receber.

Na verdade, ninguém quer saber dele. Aparecer em foto a seu lado? É o pesadelo de qualquer mandatário que se preze! O capitão é pestiferado, como aqueles infelizes da Idade Média, que, infestados pela bubônica, não tinham sequer permissão para pôr os pés no vilarejo onde viviam. Xô!

O máximo que o capitão conseguiu foi ser recebido nos ouros e nos mármores dos potentados médio-orientais, gente com petróleo de mais e escrúpulos de menos. Visitas assim rendem fotos cintilantes, mas não dão prestígio a ninguém – e Bolsonaro sabe disso.

Já o Lula, apesar de ter instaurado corrupção sistêmica no país e ter gramado ano e meio de masmorra (de 1ª. classe), ainda goza de boa imagem lá fora. Veja só, se um ex-presidiário condenado por corrupção é paparicado enquanto o presidente em exercício é enxotado, é porque este último é ruim de fato. Não tem nada que se aproveite.


“A França não é exemplo para nós, muito menos o seu Macron. Seu Macron está muito bem acompanhado do Lula, e Lula, muito bem acompanhado do seu Macron. Eles se entendem, falam a mesma linguagem.”


Essa foi a reação do capitão ao referir-se à acolhida do Lula pelo presidente da França, dias atrás. Ai, se inveja matasse!…

Em três anos de mandato, nenhum chefe de Estado ofereceu ao capitão hospitalidade tão prestigiosa quanto essa que o Lula acaba de receber de “seu” Macron. Aliás, que eu me lembre, tirando as viagens que fez a Netanyahu e a Trump logo no início do mandato, nenhum chefe de Estado jamais convidou o capitão.

Talvez seja uma das razões pelas quais nosso presidente se tranca no banheiro, de madrugada, para chorar, o pobrezinho. Não estou inventando, foi ele mesmo quem confessou. Não deve ser fácil pra ninguém se achar o rei da raspadinha e, ao mesmo tempo, ser rejeitado pelo mundo ingrato.

Vamos esperar que nenhum dos dois ETs, nem o Lula nem o Bolsonaro, venha a ser o próximo presidente da República. É verdade que o Brasil tem carma pesado, mas nossa geração já pagou boa parte da dívida. Que sobre um pouco para a próxima.

Quatorze anos de PT, mais dois de Temer, mais quatro de Bolsonaro: são vinte anos! Há duas décadas estamos resgatando os pecados cometidos ao longo dos últimos 5 séculos. Bem que podia dar uma refrescadinha. Que venha um outro qualquer. Desde que não seja malandro como um nem maluco destrambelhado como o outro, terá o apoio da nação agradecida.

Para explicar o título
“Ah, se inveja matasse”, o capitão estaria em estado de rigidez cadavérica, pronto pra receber sete palmos de terra por cima. Sem choro nem vela.

1964: Golpe ou revolução?

José Horta Manzano

Todo país medianamente desenvolvido tem um exame geral para testar os adolescentes e conferir-lhes o certificado de conclusão da escolaridade , documento que lhes vai abrir caminho para o ensino superior ou para a vida profissional.

O “Baccalauréat” francês, o “Bachillerato” espanhol, o “Esame di Stato” italiano e o “Abitur” alemão são exemplos. As particularidades de cada um deles podem variar, com exigências diferentes, mas todos se inserem no mesmo princípio: atestar que o jovem recebeu formação escolar satisfatória e está capacitado a seguir adiante.

Excluídos os regimes ditatoriais – dirigistas por natureza, todas as diretrizes emanando dos teóricos do poder –, não costuma haver interferência governamental na organização desse tipo de exame.

O bom senso indica que não faz sentido dar melhores notas a candidatos afinados com a filosofia do governo, deixando os demais na rabeira. Ter (ou não ter) afinidade com os ideólogos de turno não pode ser critério de atribuição de notas. Afinal, nenhum dos examinandos está postulando admissão numa seita.

No Brasil, o certificado é fornecido a quem tem sucesso no Enem. Às vésperas da abertura dos portões para as provas deste ano, o escândalo estourou. Nestes tempos de excesso de baixaria, quase ninguém se espantou quando o Bolsonaro declarou que o Enem deste ano tinha “a cara do governo”. A frase presidencial foi muito comentada, mas sem espanto. Todos já sabem que bom senso é mercadoria em falta crônica nas prateleiras do Planalto.

Ficou-se sabendo que o capitão tinha pedido que, em vez de se falar no Golpe de 1964, se mencionasse a Revolução de 1964. O mundo veio abaixo. Não por uma questão semântica, mas porque é de conhecimento público a paixão presidencial por ditaduras, militares, regimes autoritários, transformação de adversários em inimigos a aniquilar. Logo, se o capitão recomenda, boa coisa não pode ser.

Este blogueiro junta-se à maioria da população e arreganha os dentes quando lê qualquer pronunciamento do Bolsonaro. Sinto por ele o mesmo profundo desprezo que tantos outros conterrâneos sentem. Acredito que o distinto leitor, se me leu até aqui, não faça parte dos devotos do capitão. Vamos baixar a bola por um instante.

Repito mais uma vez: sinto asco pelo presidente. Agora, vamos em frente.

Toda mudança de regime, a não ser que seja resultado de plebiscito, cheira a golpe. Grande parte dos golpes de Estado que já ocorreram em nossa história (e houve muitos) receberam nomes poéticos, até charmosos. Mas nem por isso deixaram de ser golpes.

O Grito do Ipiranga ou Proclamação da Independência não passou de golpe contra a Coroa Portuguesa. Pior ainda, foi golpe de filho contra o próprio pai, o destino de todo um povo decidido numa rusga de família.

A Proclamação da República foi outro caso de golpe que sobrevive com nome poético e é festejado todos os anos. Foi golpe militar contra a monarquia, que era o regime legítimo que vigorava então.

Nossa história guarda também memória de golpes e contragolpes que passaram à história com o charmoso apelido de “revolução”.

A Revolução de 1930, por exemplo. Foi um golpe armado assestado por Getúlio Vargas contra um presidente em fim de mandato. Nesse ponto, guarda pontos de semelhança com a Proclamação da República: em ambos os casos, o chefe do Estado foi destituído e condenado ao exílio no exterior. Ainda que não se festeje mais a Revolução de 1930, que instituiu uma ditadura de 15 anos, o nome continua sendo “revolução”, não golpe.

Em 1932, espocou em São Paulo um contragolpe armado contra a ditadura Vargas. Houve morte e destruição nos quase 3 meses de combate, mas a tentativa fracassou. O ditador continuou firme e forte. Assim mesmo, o contragolpe é conhecido até hoje como Revolução Constitucionalista. Uma revolução que não chegou a revolucionar, em suma.

E chegamos a 1964. Das dezenas de sobressaltos que sacodem nossa história, é o mais recente. Assim que se consumou, naquela manhã de 1° de abril, foi chamado “revolução”, que era o nome que se dava a todas as quarteladas, pequenas ou grandes. Se a tentativa tivesse fracassado, teria passado à história como Revolução de 1964, sem contestação de ninguém. Só que…

Só que foi vitoriosa. Começou de mansinho, sem tiros nem sangue derramando, com apoio popular, mas, em poucos meses, apertou. Mandatos cassados, gente presa, desterrada, torturada, perseguida, censurada. Foi uma noite que durou duas décadas.

Enquanto durou o regime militar, não passaria pela cabeça de ninguém qualificar o movimento de ‘64 de “golpe”. Podia dar cadeia. O nome oficial era Revolução de 1964. No entanto, mesmo depois de enterrada a ditadura, o termo “revolução”, tão arraigado no falar das gentes, não foi imediatamente execrado nem substituído por “golpe”. Foi preciso esperar a chegada dos governos petistas.

Hoje em dia, é verdade, já não ocorreria a ninguém dizer “Revolução de 1964”. Convém referir-se àqueles acontecimentos como “Golpe de 1964”. Só alguns saudosistas dos tempos da ditadura ousam ainda se referir ao movimento de 1964 como “revolução”.

Este blogueiro entra numa categoria especial. Cheguei a morar alguns anos no Brasil durante o período militar. No entanto, dado que não vivo em território nacional há décadas, não experimentei o dia a dia dos anos petistas. Quando saí, todos ainda se referiam à “Revolução de ’64”, sem medo de levar pedrada. Será por isso que essa expressão não me choca.

Repito, caso não tenha ficado claro: não sou militarista, nem saudosista da ditadura, nem muito menos bolsonarista. Pelo-sinal, minha gente, pelo-sinal!

Rudeza vs. sensibilidade

Ruy Castro (*)

Há um mês, o garoto Luiz Felipe Salinas Almeida, 20 anos, tocava seu violoncelo numa rua de Santos quando ouviu algo se chocando contra a madeira do instrumento. Sem parar de tocar, examinou-o e viu a baba escorrendo. Alguém o alvejara com um ovo.

Diante da gratuita brutalidade, Luiz Felipe teve vontade de chorar. Mas se segurou e continuou tocando. Os transeuntes que o ouviam olharam em torno tentando identificar quem fizera aquilo. Não conseguiram – o ovo poderia ter vindo de alguma janela. Outros perceberam a agressão e aproximaram-se, solidários. Isso só ampliou a humilhação de Luiz Felipe. Como ele disse depois, não queria ser objeto de piedade.

Não era a primeira agressão que sofria. Luiz Felipe toca nas ruas para viver e para pagar a pensão alimentícia de seu filho Valentim, de um ano. Seu palco são as cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais. Em algumas, o comércio ao alcance de sua música já chamou a polícia para tirá-lo dali e apreender seu instrumento.

Luiz Felipe pode não ser um virtuose como o catalão Pablo Casals e o russo Mstislav Rostropovich, duas lendas do violoncelo, ou o sino-americano Yo-Yo Ma, um prodígio contemporâneo. Mas o violoncelo não é um instrumento agressivo. Seu território é o clássico e, sempre que emprestado à música popular, deu a esta uma sobriedade e classe que ela poderia ter incorporado de vez – vide o americano Kronos Quartet tocando Thelonious Monk e o nosso trio Paula e Jaques Morelenbaum e Ryuichi Sakamoto tocando Jobim. Numa época de música em decibéis intoleráveis para o ouvido humano, é impossível a um menino armado com um arco e quatro cordas, como Luiz Felipe, ferir a sensibilidade de alguém.

Resta ver até quando nossa sensibilidade resistirá à selvageria oficial, emanada dos atuais ocupantes do poder. Nunca o Brasil foi reduzido a tal rudeza e sordidez.

A pessoa que atirou o ovo personifica esse Brasil.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Caminhão elétrico

José Horta Manzano

Você sabia?

Para preparar este artigo, tive de mergulhar no mundo do transporte por caminhão. Mergulhar não é o melhor termo; só molhei a pontinha do pé. É que eu precisava conhecer o nome em português de um determinado tipo de caminhão conhecido aqui como semi-remorque.

Para leigos, caminhão é caminhão, tudo a mesma coisa. Mas não é assim tão simples. Aprendi que o mundo dos caminhões se subdivide em dois grandes ramos: o caminhão propriamente dito e a carreta. O caminhão é um veículo fixo, feito de um bloco só. Já a carreta é articulada, com o cavalo mecânico na frente e o semirreboque atrás.

Talvez o distinto leitor já soubesse dessas minúcias. Quanto a mim, acabo de aprender.

Nota
Muitos escrevem semi-reboque, que leva jeito de ser mais correto. No entanto, a ortografia oficial manda grudar tudo e, ainda por cima, acrescentar um R no meio: semirreboque. Fica esquisito, mas é assim. É como semirreta, semirrei, semirrígido, semirrústico, semirrisonho. Um espanto.

A Suíça acaba de fabricar o maior caminhão do mundo movido a eletricidade. Na verdade, é uma carreta, um veículo articulado, com cabine + plataforma (ver imagem). O cavalo mecânico (cabine) tem dois eixos e o semirreboque tem mais três. O mastodonte é capaz de levar até 40 toneladas de carga. Vazio, tem autonomia de 900 km; carregado, roda até 500 km sem recarregar as baterias de lítio.

Esse primeiro modelo saiu em dois exemplares, que tiveram até direito a uma cerimônia especial realizada no Museu dos Transportes de Lucerna. A parte mecânica, qualquer um sabe construir. O grande feito tecnológico está nas quatro baterias de lítio de mais de uma tonelada cada uma. O veículo roda em silêncio quase total. Quando ele passa, ouve-se um leve zumbido, semelhante ao de um patinete elétrico.

A proeza, inimaginável até um ano atrás, se insere na onda mundial da transição energética. A queima de combustíveis fósseis vai sendo rapidamente abandonada em prol de outros meios, renováveis e sustentáveis. As crianças que nascerem daqui a 20 anos, se quiserem conhecer um veículo de motor a explosão, terão de ir ao museu.

Agrotóxicos

Os europeus parecem estar mais preocupados do que os brasileiros, os mais afetados

 

José Horta Manzano

Você sabia?

Leis e regulamentos são, muitas vezes, hipócritas. A maioria dos países europeus proíbe a utilização de dezenas de agrotóxicos, aqueles da pesada. Já os regulamentos de exportação desses mesmos países são bem mais condescendentes quando se trata de exportar os ditos venenos. Em resumo: fabricar e exportar pode; espalhar em solo europeu, nem pensar!

A indústria mundial de fertilizantes, integrada por firmas da estatura econômica de uma Syngenta ou de uma Bayer, é poderosíssima. Se as leis europeias parecem contraditórias (pode fabricar, mas não pode utilizar), ponha-se o milagre na conta dos ativíssimos lobbies financiados pelos fabricantes.

Assim como agem para conseguir manter a fabricação em solo europeu, filiais desses mesmos lobbies agem em países mais atrasados, para que o uso de pesticidas perigosos continue permitida. Se esses produtos são proibidos na Europa, não é por capricho de legisladores. É porque estudos demonstraram sua nocividade.

Nessa prateleira de venenos, há os cancerígenos, os que matam abelhas, os que acabam com os peixes. E todos eles terminam, pelo menos em parte, nos leçóis freáticos, contaminando a água que os humanos vão beber amanhã.

Quando as rédeas do país estão entregues ao clã do Bolsonaro, então, ai, meu Deus! Deve ter um bocado de gente ganhando comissões polpudas pra garantir que continue autorizada a importação de venenos agrícolas. “O povão que se lixe” – devem dizer – “meu croissant chega todos os dias fresquinho de Paris”.

É interessante saber que o Brasil é o segundo maior importador mundial de agrotóxicos, incluindo os que estão proibidos na Europa. Em 2018, importou 10 mil toneladas. Em 2019, foram 12 mil toneladas. Não disponho de dados mais recentes, mas é permitido desconfiar que, com a chegada do capitão ao Planalto e as autorizações que tem concedido para uso desse tipo de veneno, devam ter aumentado muito.

Mas o mundo dá voltas. Os netos do capitão ainda hão de amaldiçoar o avô, quando descobrirem que a polinização desapareceu por falta de abelhas, e que não se pode mais tomar água por estar contaminada. Mas aí será tarde. O chato é que será tarde para nossos netos também.

Mas tem remédio. Quando a coisa chegar a esse ponto, basta parar de utilizar os venenos. E aguardar umas poucas centenas de anos. A natureza sempre acaba por se regenerar. Passa logo.

Linguagem gestual

José Horta Manzano

Eu não conhecia a nobre deputada acriana retratada acima. Ao votar nas prévias do PSDB, a moça desentendeu-se com os colegas, fez denúncias de corrupção e armou um fuzuê. Para coroar, berrou: “Sou Bolsonaro!”.

Suponhamos agora que o distinto leitor nunca tenha visto foto da deputada e desconheça os fatos. Olhe bem a imagem. Francamente, o ar suave da moça já indica quais são suas simpatias. Ou alguém imaginava que ela fosse admiradora de Madre Teresa de Calcutá?