O preço da gasolina

José Horta Manzano

O Washington Post desta sexta-feira traz um infográfico que compara o preço da gasolina nas 15 maiores economias do globo. Os países estão divididos em três categorias de renda: alta, média superior e média inferior. O Brasil está classificado no grupo do meio.

O cálculo foi feito com base num modelo Toyota Camry de 2010. Os desenhinhos mostram a distância que o veículo percorreria com US$ 40 de gasolina.

O automobilista leva vida apertada na Europa. Na Inglaterra, França, Itália e Espanha, não vai muito longe com os quarenta dólares no tanque. Nos EUA e no Japão, roda bem mais folgado.

As distorções são mais significativas nos países de renda média. Chineses e brasileiros pagam um preço bem próximo do americano, enquanto mexicanos e especialmente russos rodam mais quilômetros com menor gasto.

Já guiar automóvel na Índia não é pra qualquer um. A gasolina lá é vendida ao preço brasileiro, mas o cidadão comum não tem condições financeiras de encarar. Carro é privilégio de gente abastada.

O automobilista brasileiro reclama com razão do preço da gasolina. O infográfico compara preço com preço, sem levar em conta a renda média dos cidadãos de cada país. O fato é que os salários brasileiros são bastante inferiores aos americanos. Portanto, embora a gasolina no Brasil custe aproximadamente o mesmo que nos Estados Unidos, pesa muito mais no bolso do automobilista brasileiro.

Pra finalizar, constata-se que o país mais atraente para o automobilista é a Rússia. Com os mesmos quarenta dólares, os russos podem dar a volta no rodoanel de Moscou zilhentas vezes e ainda vai sobrar combustível. Só que… lá eles têm Putin, o que quebra o encanto na hora.

No fundo, é melhor ir aguentando o capitão. Falta pouco.

Os EUA à beira da ruptura

Laurent Sagalovitsch (*)

Se os Estados Unidos continuarem a se dilacerar desse jeito, vai acabar chegando um momento em que o país terá de fazer uma escolha terrível: ou uma guerra civil ou uma separação em duas entidades distintas. Não haverá outra opção possível, considerando que o vão que separa o lado progressista do outro, chegado a um conservadorismo retrógrado, se alarga a cada dia que passa.

Uma nação só faz sentido se seus habitantes compartilharem pelo menos alguns ideais em comum, um punhado de grandes princípios em torno dos quais a vida em sociedade consegue se articular. Não se trata de serem todos uniformemente semelhantes, mas de se entenderem pelo menos um pouco sobre valores que garantem a cada um o direito de levar a vida como melhor lhe parece, sob o império de uma lei igual para todos.

Isso é ainda mais verdadeiro num regime democrático, em que a pluralidade de opiniões contribui para a riqueza do país. Podemos não estar de acordo em nada, mas pelo menos concordamos em achar que todas as opiniões têm seu valor, desde que se inscrevam tanto no respeito das liberdades individuais como no rigoroso respeito das instituições.

Pois hoje, nos Estados Unidos, não somente ninguém mais está de acordo sobre nada – sobre o aborto, sobre as armas de fogo, sobre o papel da religião, sobre o meio ambiente, sobre a economia – mas até a vida democrática, em sua expressão eleitoral, não suscita mais consenso. A divisão é tão profunda que ninguém mais está disposto a aceitar a chegada de um presidente qui não seja de seu campo político.

Assim sendo, fica difícil enxergar como um país desse jeito poderia continuar a funcionar. Se não somente eles se opõem em questões de sociedade mas, além disso, questionam o próprio princípio de alternância no topo do Estado, é sinal de que se encontram de facto em estado de guerra latente, de enfrentamento ideológico que a qualquer momento pode degenerar em violência e sangue.

Atualmente, o que é que têm em comum os eleitores republicanos com seus compadres democratas? A resposta é simples: nada. Um nada que revela a oposição entre uma parte do país, pronta para despencar numa espécie de ditadura religiosa a um pulinho do obscurantismo, e uma outra, que cultiva o princípio da liberdade, da tolerância e do progresso social. Estamos de fato diante de uma ruptura, uma confrontação entre duas visões do mundo em que cada lado chega a negar ao outro a possibilidade de existir.

A verdade é que é difícil imaginar como, dilacerado por tantas divergências, o país poderia continuar a existir como nação. Os Estados Unidos, do jeito que se apresentam hoje, não fazem mais sentido. Parecem um trem com duas locomotivas, uma na frente e outra atrás, puxando em sentidos opostos, uma em direção a uma sociedade mais respeitosa de suas minorias, mais apta a encarar os desafios ecológicos dos séculos vindouros, e a outra se dirigindo para um modo de funcionamento em que pressupostos religiosos – tão inúteis quanto discutíveis no plano ético – procurassem trazer o trem de volta aos séculos passados.

Os EUA têm de se reinventar, e para isso, em vez de depurar suas querelas existenciais no sangue – guerras civis são em geral as mais cruéis, os EUA sabem disso muito bem – optar pela única solução capaz de manter a paz civil: a separação de papel passado. Ou seja, um bloco progressista enraizado na costa do Pacífico ao qual se juntariam o nordeste do país e outros estados dispersos aqui e ali, e um bloco nacionalista-conservador-religioso situado entre os dois oceanos, no coração do país.

Não sei que forma poderia tomar uma reorganização desse porte. Uma divisão pura e simples com criação de duas novas nações, ou uma espécie de confederação sem fronteira física mas com dois governos bem distintos, duas Constituições, dois presidentes – duas entidades capazes de comerciar reciprocamente sem se meter nos negócios internos uma da outra. Cada cidadão poderia escolher estabelecer-se na parte do país que melhor correspondesse a sua sensibilidade. Não seria uma guerra, só um divórcio amigável em que cada um trataria de viver sua diferença sem procurar impor ao outro seu modo de vida e sua maneira de pensar.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.

Cuidado com o sub do sub

José Horta Manzano

No Brasil, tirando algum analista mais comedido, as grosserias e o palavreado chulo que são marca registrada do capitão parecem não incomodar. Deve ser efeito da repetição. É como quem mora numa avenida movimentada que, de tanto ouvir barulho de caminhão, nem percebe mais que tem veículo passando. Ou de quem vive no eixo da pista de aeroporto movimentado, que acaba não se dando mais conta de que um avião rela seu telhado a cada 15, 10 ou 3 minutos.

Já nos States, tem disso não. A coleção de impropérios e palavrões deles é tão rica quanto a nossa, o problema não está aí. O fato é que, num país cuja certidão de nascimento foi assinada por um grupo de famílias devotas que estavam imigrando por motivo de perseguição religiosa, certas baixarias são reservadas para o âmbito privado; é inconcebível pronunciá-las em público.

A CPI que investiga o comportamento de Donald Trump nos dias que precederam a invasão do Capitólio de Washington, no ano passado, ouviu ontem uma moça jovem, assistente do chefe de gabinete do presidente. Ela encarna aquela figura meio invisível, que trafega livre e despercebida pelos altos círculos. Sua presença não intimida, de modo que ninguém policia muito as palavras diante dela, e as falas correm fluidas.

Pois foi essa senhora que, chamada a depor na comissão parlamentar, botou a boca no trombone. É que ouviu, da boca do presidente, um palavreado que – nos Estados Unidos – presidente não deveria ousar.

Não vou aqui repetir a notícia que todos já conhecem. O que me chamou a atenção foi, primeiro, o que disse Trump; segundo, como o palavrão foi estampado na mídia internacional

O que ele disse
“I’m the effing president. Take me up to the Capitol now!”
“Effing” é a forma suavizada usada pela imprensa para evitar de escrever o original fucking, que, embora frequente na linguagem falada, é considerada ofensiva demais pra aparecer em jornal. Pra saber o que o presidente disse exatamente, substitua-se effing por fucking.

Em espanhol
“Soy el maldito presidente, ¡llévame al Capitolio ahora!”
Foi assim que saiu a maioria dos títulos em espanhol. Maldito, nesse caso, embora seja expressão pesada, não chega a ser tabuística.

Assim mesmo, o jornal El País, decerto pra não correr risco de ofender ninguém, mostrou que a moda do “politicamente correto” vem fazendo estragos em seu país e optou por omitir a palavra mais vulgar. Numa solução radical, suavizou:
“Soy el presidente de Estados Unidos, ¡llévenme allí!”

Em alemão
A imprensa alemã utilizou expressão corrente na língua. Curiosamente, trata-se da tradução do mesmo “maldito” espanhol. Ficou assim:
“Ich bin der verdammte Präsident, bringt mich zum Capitol”

Em italiano
Os italianos aproveitaram a ocasião. Usaram uma palavra que trota na cabeça de todos, mas que só vem à boca depois que as senhoras tenham deixado a sala. É cazzo (= cacete).
“Sono il cazzo di capo, vai al Campidoglio!”

Em francês
Os franceses fizeram como os italianos – idem com batatas.
“Je suis le putain de président, amenez-moi au Capitole tout de suite!”
A palavra tabuística lembra a nossa versão, dado que usa um substantivo que não faz sentido lógico naquela posição mas denota exasperação e traz carga ameaçadora. Putain = puta.

Em português
No Brasil, a mídia deitou e rolou. Alguns veículos deram a letra inicial do palavrão seguida por estrelinhas, forma antiga de dizer sem dizer. Mas a maioria mandou ver:
“Eu sou a porra do presidente, me leve para o Capitólio agora!”

Já em Portugal, a grande imprensa preferiu uma saída à moda de El País:
“Sou o presidente, leve-me ao Capitólio agora!”
Não dói no ouvido, mas também não transmite o estado furibundo em que se encontrava Trump.

Em holandês
Na Holanda, país em que grande parte da população fala, além da língua do país, inglês fluente, a expressão inglesa não dá medo a ninguém.
“Ik ben de fucking president, breng me naar het Capitool, nú.”

Moral da história
Desconfie do sub do sub. Por mais alheio que ele possa parecer, ele também tem ouvidos para ouvir e boca para falar.

Brasil à mesa dos grandes

José Horta Manzano


Este blogueiro não tem a menor simpatia pelo Lula. E jamais votou em candidato petista. Quem me lê sabe disso, mas não custa repetir.


Cúpulas do G7
As reuniões anuais de cúpula dos países mais industrializados começaram em 1975 e continuaram a ser organizadas anualmente. Os que têm mais de 30 anos hão de se lembrar que o grupo dos países mais industrializados se chamava G8. Isso foi enquanto a Rússia, que era um dos participantes, foi considerada terra civilizada. Tudo mudou em 2014, quando Putin mandou a tropa invadir e tomar a região ucraniana da Crimeia. A partir de então, a Rússia foi suspensa do grupo e nunca mais conseguiu seu bilhete de entrada.

Tirando o ano de 2019, em que a covid grassava freio, houve cúpula todos os anos. Desde a virada do século, o país que hospeda a reunião ganhou o direito de propor a líderes de países não-membros que participem como convidados de honra. Lula da Silva, então presidente do Brasil, foi convidado nas seguintes cimeiras:

2003, realizada na França
2005, realizada no Reino Unido
2006, realizada na Rússia
2007, realizada na Alemanha
2008, realizada no Japão
2009, realizada na Itália

Nosso Guia, como se sabe, deixou a Presidência em 2010. Coincidência ou não, depois disso, o Brasil nunca mais recebeu convite para participar. Nem Dilma, nem Temer, nem muito menos Bolsonaro tiveram a honra. A bem da verdade, diga-se que o capitão estava na lista de convidados para a cúpula de 2019, a ter lugar nos EUA durante o governo de Trump. A pandemia acabou com a festa e obrigou ao cancelamento.

Aqui vai uma curiosidade pra deixar o atual presidente verde de inveja. Sabe quem esteve entre os convidados de honra este ano, na cúpula que acaba de terminar na Alemanha? Pois foi Señor Alberto Fernández, representando a Argentina. Além dele, foram homenageados os líderes da Indonésia, da Índia, da África do Sul e do Senegal. O Brasil ficou na geladeira, fazendo companhia à Rússia (banida) e à China (que nunca entrou).

Sabe quando é que o Brasil de Bolsonaro vai voltar a ter alguma chance de participar? Nunca. Só depois que voltar ao normal, ou seja, após a partida de Bolsonaro. Nem que, por impiedade do destino, o homem fosse reeleito e ficasse mais quatro anos no palácio: seriam quatro anos sem Brasil entre os grandes. Agora, se Nosso Guia vestir a faixa em janeiro próximo, boas são as chances de o Brasil subir de novo ao palco.

Anote aí
As próximas reuniões de cúpula do G7 estão previstas para 2023 no Japão e 2024 na Itália.

O crime e a punição

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 25 junho 2022

Corrupção existe no mundo todo. Em certas regiões do globo, está mais presente que em outras. Seja como for, pouca ou muita, corrupção sempre há. Em países em que a observância de leis e regras é pouco rigorosa, a corrupção acaba se instalando como fato corriqueiro, presente no dia a dia de todo cidadão.

A América Latina, com o Brasil em destaque, é conhecida como um dos polos mundiais no assunto. Que se chame gorjeta, propina, cervejinha, cafezinho, molhadela, suborno, jabaculê, lambidela, joia – tanto faz: são variações em torno de um mesmo tema.

Dado que a corrupção crônica é vista no exterior como realidade indissociável de nosso país, ninguém se comoverá com o fato de este cidadão roubar mais que aqueloutro. Está aí, por certo, o segredo da persistente popularidade de Lula da Silva além-fronteiras. Processo, condenação e encarceramento não foram suficientes para manchar-lhe o retrato. Verdadeira ou não, a imagem que o mundo reteve dele foi a de um dirigente que cuidou seus compatriotas humildes e desvalidos – atitude incomum em nossos trópicos. Isso marcou.

O atual presidente martela: “No meu governo, não tem corrupção!”. Pode ser que o mantra funcione entre devotos mais crédulos; no estrangeiro, tem efeito nulo. Quando já se dá por favas contadas que todo dirigente sul-americano é desonesto, não é uma figura farisaica a bater no peito e a repetir “Eu, não!” que vai comover alguém. Portanto, fica claro que o fator corrupção não é suficiente para abalar a reputação do Brasil.

Passemos a um exercício de futurologia política. Vamos trabalhar sobre uma hipótese cujo peso, neste momento, é difícil avaliar. Inventemos um roteiro fictício.

Apesar da algaravia armada em torno da urna eletrônica, o capitão sofre derrota estrepitosa nas eleições. Dia seguinte, num balé incubado de longa data, tropas evacuam Congresso, STF e TSE, e lhes impõem rendição. Em cadeia nacional de rádio e tevê, o presidente aparece cercado por uma penca de fardados estrelados – generais, almirantes, brigadeiros. Todos ostentam o cenho franzido e o ar grave que convém aos momentos cruciais da vida nacional. O capitão anuncia o golpe.

Na sequência, estado de sítio é decretado. Garantias e liberdades individuais são suspensas. O Congresso é fechado, assim como o STF e o TSE. As personalidades que possam causar estorvo ao regime que se instala são detidas e encarceradas – o primeiro da lista é naturalmente o vencedor da eleição. Senadores e deputados têm os mandatos suspensos.

Nos dias que se seguem, manifestações internacionais de protesto pipocam. Os EUA são os primeiros da lista, instando o novo regime a repor o Brasil nos trilhos. Seguem-se a União Europeia, o Japão, o Reino Unido. Logo atrás, vêm os países da América Latina, num coro uníssono. A OEA e a ONU reiteram a mesma injunção: o resultado das eleições tem de ser respeitado e o Congresso, reaberto. Indiferentes às súplicas internacionais, o capitão e seu generalato levam adiante o golpe. Dada a vacância do Legislativo, o presidente passa a governar por decreto. É a estreia de um regime autocrático.

Fosse o Brasil um país pequenino e desimportante, talvez o mundo não se comovesse com a situação. Mas não é assim. Nosso país tem o peso de 200 milhões de habitantes e uma economia significativa. Nessas condições, ao ver que o novo ditador e a junta que o apoia sonegam resposta à súplica internacional, as nações, capitaneadas pelos EUA, decidem engatar a segunda.

Assim como foi feito com a Rússia, sanções contra o Brasil são decretadas. No primeiro pacote, a mais vistosa delas é a decisão de proibir cidadãos envolvidos no golpe de entrarem nos EUA e nos países adiantados. Os haveres desses indivíduos no exterior ficam bloqueados.

A notícia dessa decisão cai como bomba no Planalto. “Como assim? Quer dizer que não tenho mais acesso a minha conta bancária na Suíça? E não vou mais poder passar férias no meu apartamento de Paris? E nunca mais vou poder andar de xícara na Disneylândia?”

O mundo não precisa editar um segundo pacote de sanções. Esse basta. Tendo dado com os burros n’água, os golpistas encerram a brincadeira. Rapidinho.

ETs

Carlos Brickmann (*)

Um sábio empresário disse certa vez a este jornalista que se alguma coisa só existe no Brasil, e não é jabuticaba, não presta. Pois vamos em frente.

Como se sabe, o Senado não costuma trabalhar às sextas-feiras. Mas nesta sexta, 24, o Senado trabalhou: comemorou o 75º aniversário do Dia Mundial dos Discos Voadores, por iniciativa do senador Eduardo Girão, do Podemos do Ceará.

Na sessão, o ex-deputado Wilson Picler disse que quase um terço dos brasileiros acreditam em ETs; e mais da metade dos ateus e agnósticos creem em discos voadores e seres espaciais, “mais em ETs do que em Deus”. Girão disse que o Brasil é o primeiro país a reconhecer que discos voadores existem e são extraterrestres. Chamou a sessão de “histórica”.

Fome, guerra, inflação? São temas que podem esperar a semana que vem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Reescrevendo o passado

José Horta Manzano

Benito Mussolini (1883-1945) foi o criador e chefe supremo do fascismo, regime personalista e autoritário que vigorou na Itália de 1922 a 1945.

Sua entrada na vida adulta não foi gloriosa. Aos 19 anos, saiu da Itália para fugir do serviço militar obrigatório. Foi parar na Suíça, onde viveu dois anos durante os quais levou vida agitada e sobreviveu de expedientes. Morou em diversas cidades. Trabalhou de pedreiro, ajudante de obras, balconista. Chegou a ser preso por vadiagem.

Por curto período, tomou aulas na Universidade de Lausanne. Só voltou à Itália quando, por ocasião do nascimento do príncipe herdeiro, uma anistia geral foi concedida. O ditador subiu na vida, tornou-se poderoso e conhecido, mas manteve aquela aura sulfurosa e aquela cara de poucos amigos.

Corria o ano de 1937. Num descuido que viria a dar muito que falar, a Universidade de Lausanne decidiu outorgar ao ditador (e ex-aluno) um diploma de doutor honoris causa.

O que tinha de acontecer, aconteceu. Sua aliança com Hitler conduziu o povo italiano à desgraça de uma guerra perdida, milhões de mortos e um país destruído. Mussolini morreu de morte violenta e passou para o lado sombrio da História. Apesar disso, o doutorado suíço nunca lhe foi cassado.

Nos últimos 75 anos, o diploma conferido ao antigo ditador “por motivo de honra” incomodou um bocado. Não foram poucos os que preferiam que que a homenagem lhe fosse retirada. Mas não era chegado o tempo de decidir. Nestes dias em que o “politicamente correto” se impõe, não foi mais possível adiar.

A direção da universidade encarregou um grupo de trabalho interno, composto por quinze integrantes oriundos de sete diferentes faculdades, de se debruçar sobre a questão. Depois de dois anos de reflexão, a comissão entregou suas recomendações num relatório de 29 páginas. Saiu na sexta-feira que passou. As conclusões são surpreendentes.

“O grupo de trabalho considera que a outorga do doutourado ‘honoris causa’ a Benito Mussolini constituiu um erro grave cometido pelas instâncias universitárias e políticas da época. Esse título constitui a legitimação de um regime criminoso e de sua ideologia. Recomenda-se à Universidade de Lausanne reconhecer e assumir esse fato.”

A universidade aceitou a recomendação da comissão, e reconheceu ter falhado em sua missão e “ter desvirtuado os valores acadêmicos fundados sobre o respeito do indivíduo e a liberdade de pensamento”.

No entanto, em vez de renegar ou apagar esse episódio, optou por deixá-lo “servir de advertência permanente para possíveis derivas ideológicas que possam vir a vitimar a sociedade”. Em resumo, um banimento equivaleria a bloquear o debate democrático.

Talvez os que hoje pregam tratar personagens do passado como se nunca tivessem existido devessem se inspirar na decisão da Universidade de Lausanne, que me parece cheia de sabedoria.

O título foi conferido ao ditador, isso é ponto pacífico. Nada nem ninguém será capaz de apagar esse fato. Ocultá-lo e fingir que nunca existiu não é a melhor solução. Portanto, melhor será deixá-lo intacto para servir de exemplo de um erro que nunca mais se deverá repetir.

Saltando do barco

José Horta Manzano

As pesquisas, a persistirem no ritmo atual, apontam para inevitável derrota do capitão em outubro.

Os parlamentares mais firmes, aqueles dotados de estofo ideológico, não arredam pé de suas convicções.

Já os que nadam na geleia geral – e que constituem o abundante ventre flácido da República – estão se preparando para saltar do barco. Efetivamente, diz-se que os ratos são os primeiros a saltar. (Peço desculpas aos ratinhos, que entraram neste parágrafo como Pilatos no Credo.)

Na foto vemos o presidente da Câmara, bolsonarista desde criancinha, que de bobo não tem nada. Sua Excelência entendeu de que lado sopram os ventos e já prepara sua reconversão.

Dois dias atrás, foi comer brigadeiro na festinha de aniversário de Zeca Dirceu. O homenageado é deputado federal pelo PT do Paraná. Além disso, é filho do José Dirceu, companheiro que tem sido, há décadas, fiel aio do Lula.

Este blogue dá os parabéns ao aniversariante. Em troca espero ser nomeado para uma sinecura. Afinal, é dando que se recebe.

Disclaimer:
Este artigo contém ironia.

Seis por meia dúzia

José Horta Manzano

Nossa memória coletiva é curta. Fatos que enchiam a atualidade 5 ou 6 anos atrás sumiram, saíram de cartaz e ninguém fala mais deles.

Lula da Silva assumiu a Presidência em 2003. Com o passar dos anos, o lulopetismo foi se entranhando na cena política nacional. Com linguajar soviético-policial, dizia-se que o PT tinha “aparelhado” as instituições da República; que seus braços tinham “infiltrado” estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições; que estava tudo “dominado”.

A infiltração parecia estar instalada para todo o sempre. A menos que se faça uma despetização, “o Brasil está perdido”, temia-se. Nesse espírito, Bolsonaro foi eleito.

Não foi preciso esperar os 13 anos da era anterior. Hoje, passados apenas 4 aninhos, eis que de novo a sensação geral é de que a República está infiltrada. A diferença é que, desta vez, não são mais elementos lulopetistas, mas bolsonáricos.

Contas feitas, jornalistas informam que, nos altos escalões, seis mil militares estão refestelados. Sem contar montanhas de apadrinhados em estatais, autarquias, semiautarquias, agências, departamentos e repartições.

Igualzinho ao que era antes. Trocamos seis por meia dúzia.

Isso deixa uma notícia ruim: esteja quem estiver instalado no trono, sinecuras serão tomadas de assalto por uma horda de companheiros e apaniguados sem qualificação para o posto nem disposição para o batente.

Tem-se a impressão de viver num rodopio, num moto perpétuo, num movimento pendular supernocivo para a sociedade, mas no qual nós, os membros da sociedade, não podemos participar.

Por seu lado, a prisão de doutor Ribeiro, ex-ministro da Educação – pessoa notoriamente não qualificada para o cargo que exerceu – é boa notícia. Não digo a prisão em si, dado que, dependendo do juiz, um habeas corpus a qualquer hora vai tirar o doutor do cárcere. A boa notícia é que, diferentemente do que às vezes se imagina, não está tudo dominado.

A Polícia Federal continua cumprindo sua missão e mostrando que não é órgão do governo, mas do Estado brasileiro. É um alívio, uma constatação importante nestes tempos de desvirtuamento das instituições. Não é a salvação da lavoura, mas não deixa de ser um bálsamo.

Povo com fome

José Horta Manzano

Enquanto o capitão passeia de jet ski e de motocicleta, o mundo observa o drama deste país em que boa parte da população passa fome.

Acredito que o distinto leitor nunca tenha passado por esse tipo de aperto, de não ter o que pôr no prato. Ou de não saber se vai poder comer amanhã. É muito difícil imaginar.

O grau de civilização de uma sociedade se mede pelo cuidado que ela dedica a seus membros mais frágeis. Analisado por esse prisma, nosso país ainda está a anos-luz do objetivo.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A Amazônia Legal, que representa 60% do território nacional, tem zonas imensas onde o Brasil não chega. São regiões onde a lei não vigora, e manda quem tem garrucha e pontaria. A situação não é nova, mas o problema se agravou exponencialmente na era bolsonárica.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

Cidades importantes, como o Rio de Janeiro, também comportam zonas onde a lei não vigora, e manda o mais forte. É o reino da bandidagem.

Enquanto isso, o capitão passeia de jet ski.

A fila do Auxílio Brasil (novo nome da Bolsa Família) aumentou. É fato inacreditável e sem sentido. Em programas desse tipo, o que se espera é que haja cada vez menos clientes e que a fila encolha, não que se alongue. O foco do governo tinha de estar dirigido para resolver essa disfunção.

Mas o capitão não tem apetência para acudir aos infelizes que sofrem. Prefere passear de jet ski. E, pra espairecer, organizar uma motociata.

Os brasileiros e as brasileiras

José Horta Manzano

Certos tiques de linguagem são irritantes. Essa tendência que acomete jornalistas e outros escribas a confundir sexo de gente com gênero de palavra complica desnecessariamente o trabalho de escrita. Este blogueiro, por ser antigo, conserva os hábitos dos tempos de antigamente.

De fato, não é do meu feitio usar a moderna “linguagem inclusiva” do tipo “Brasileiros e brasileiras!”, saudação introduzida pelo pranteado (embora ainda vivo) presidente Sarney.

Se não me dobro a essa modernidade, não é tanto por convicção, mas por não achar que ela seja útil nem necessária. Portanto, quando digo “o brasileiro”, estou me referindo a todos os brasileiros e brasileiras, independentemente de sexo. Se menciono “o político brasileiro”, estou incluindo os personagens políticos de todos os sexos. Me parece uma evidência.

Se menciono, genericamente, “o jornalista”, “o mensageiro”, “o diretor”, estou me referindo, naturalmente, a jornalistas homens e a jornalistas mulheres, a mensageiros e mensageiras, a diretores e diretoras. Seria ridículo dobrar-se a modismos como “os jornalistas e as jornalistas”, “o diretor ou a diretora”, “o (a) mensageiro (a)”. Sobrecarrega a frase sem precisão.

Em dez anos de blogue, jamais recebi nenhuma reclamação ligada a essa recusa a me dobrar diante dessa imposição. É sinal de que meus leitores são gente inteligente. E minhas leitoras também, evidentemente.

O que acabo de dizer não precisava nem ser explicado. Mas, explicando, fica melhor ainda.

Alimenta um bilhão?

José Horta Manzano

Faz dez dias, em discurso na Cúpula das Américas, Jair Bolsonaro garantiu que “o Brasil alimenta 1 bilhão de pessoas no mundo”. Foi rematado exagero.

Os dez principais produtos que o Brasil exportou em 2021 foram:

Que levante a mão quem encontrar, nessa lista, alimento para um bilhão de pessoas.

Soja? E alguém come soja? Tirando algum tofu que se come uma vez por ano, a soja não é para consumo humano. Serve para a engorda de animais. Óleo de soja? Fora do Brasil, nunca vi.

Farelo de soja, que são os resíduos após extração do óleo, destina-se também à alimentação animal.

Entre os dez principais ítens exportados em 2021, somente as carnes e os açúcares servem para comer. Será exagero dizer que esses produtos “alimentam um bilhão”. Onde está esse bilhão que se alimenta de carne e de açúcar?

A pauta das exportações brasileiras me deixa pensativo. Sei que a humanidade tende a tornar-se vegetariana. Na Europa, a oferta de produtos vegetais que substituem a carne aumenta a cada dia. Em diversos países, são lançadas campanhas para diminuir o consumo de produtos animais.

Me parece surpreendente que, tirando os “açúcares e melaços”, as locomotivas que puxam nossas exportações continuem baseadas em carnes e produtos para engorda animal.

Com o trigo, a Ucrânia e a Rússia – essas, sim – alimentam um bilhão. O Brasil, não.

Um governo previdente captaria o Zeitgeist – o espírito das grandes transformações da sociedade global – e incentivaria o plantio de outros vegetais,  grãos principalmente.

Eu disse um governo previdente.

Türkiye

O presidente da Turquia em convescote com seus ministros

José Horta Manzano

Governante esperto sabe tomar a temperatura do país e adotar medidas que reconfortem o povo. Nosso país, atualmente presidido por um senhor estranho que se esforça em solapar os interesses nacionais, está desacostumado de ver no trono um governante normal.

Em 2021, a inflação turca atingiu o patamar de 36%, o mais alto dos últimos 20 anos. Como se sabe, inflação nesses níveis desorganiza a economia, e quem mais sofre com isso são as classes populares. A carestia não perdoa e deixa um rastro de descontentamento.

Recep Erdoğan, que se mantém no topo do poder turco há duas décadas, botou o termômetro e constatou que sua popularidade está baixando. Agora não perde ocasião de se mostrar antenado com os anseios do povo turco. Suas decisões podem até nem ser de grande utilidade para o dia a dia da população, mas são espetaculosas.

Em inglês, o nome da Turquia é Turkey. Acontece que, como contei em post de alguns dias atrás, essa palavra, em inglês, tem função dupla. Tanto serve para dar nome ao país quanto para designar o o peru (a ave). Que se saiba, essa particularidade nunca incomodou nenhum turco.

Aliás, observe-se que os turcos usam a palavra portakal (derivada de Portugal) para dizer laranja, fato que jamais comoveu nenhum português. Esses mesmos turcos chamam o mês de abril de Nisan (pronuncie Nissan), sem que nunca se tenha ouvido reclamação por parte da montadora japonesa.

Com intenção de melhorar sua popularidade, o presidente turco teve uma ideia. Mandou carta ao secretário-geral da ONU solicitando que seu país não mais fosse chamado de Turkey, mas sim de Türkiye, que é a forma original turca. A ONU, que deixa a cada país-membro a liberdade de ser chamado como preferir, aceitou imediatamente o pedido.

A partir de agora, em todos os documentos oficiais da organização, a Turquia passou a ser identificada como Türkiye. Com isso, o presidente do país espera ser reconhecido por seus súditos como o protetor da nação, aquele que cuida dos interesses do país e do povo.

Só tem uma coisa: a mudança de nome é só pró-forma. Na pronúncia, vai ficar tudo como antes. Ao deparar-se com a inabitual forma Türkiye, os de língua inglesa continuarão a pronunciar… Turkey.

Vamos ver se a popularidade interna do presidente turco melhora. Tenho cá minhas dúvidas. Quando a carestia aperta, esse tipo de mudança cosmética costuma ser inócua.

Em todo caso, ele pelo menos terá tentado. O nosso, nem tentar tenta.

A reforma da gramática

Eduardo Affonso (*)

A tentativa de implantar uma linguagem neutra, obrigando 213 milhões de brasileiros a incorporar novos substantivos (amigue, alune, patroe, empregade), pode até não ser uma ideia ruim de todo.

Se essa turma voltar ao poder (e ela está à frente nas pesquisas de intenção de voto), teremos a chance única de pegar carona no fim do machismo tóxico do idioma, aproveitar o inevitável processo de realfabetização e liquidar vários outros problemas da língua.

Com os novos adjetivos (progressiste, gorde, fasciste, golpiste), podíamos dar um jeito nos verbos irregulares.

Não há criança que não diga “eu fazi” antes de ser repreendida e adestrada a dizer “eu fiz” – que não faz nenhum sentido e vem sem qualquer explicação.

“Fazi” é, intuitivamente, o certo – e o cérebro (principalmente o infantil) é inteligente o bastante para entender conceitos, generalizá-los e colocá-los em prática. Cada verbo irregular é obstáculo ao aprendizado, uma freada brusca nas sinapses, um “volte duas casas” na compreensão de como funciona essa abstração maravilhosa que é a linguagem.

Se a criança diz “eu comi, eu li, eu corri”, por que haveria de estar errada ao dizer “eu queri, eu sabi, eu trazi ou eu cabi”? Acabemos com o falocentrismo do masculino genérico e com as irregularidades verbais, de uma tacada só.

Como vamos ter novos pronomes inclusivos (elu, minhe, nenhume, outre, cuje), que tal eliminar os privilégios ortográficos? Poderíamos começar pela palavra “exceção”, que costuma ser escrita das mais variadas formas – excepcionalmente, até da forma correta.

Pronomes neutros e tratamento igualitário à grafia – isso, sim, é uma pauta democrática. Se o som é de S, só o S deve ter lugar de fala (ops, de escrita). Não à apropriação fonética feita por Ç, SS, SC ou X. Exceção vira “esesão” – e, assim, até ministros do atual governo serão capazes de escrever palavras difíceis como “acesso” e “impressionante” (doravante, tudo com S). O mesmo valerá para o que soe como Z ou como J. Quem corrige prova do Enem poderá se ater apenas ao conteúdo, sem uma síncope a cada batatada ortográfica.

Com particípios também passados a limpo (eleite, derrotade, auditade, ressentide), será hora de abolir o hífen. Por que guarda-chuva tem hífen e mandachuva não tem? Por que não tem hífen em camisa de força e tem em água-de-colônia? “Fora, hífen!” viria se juntar às faixas de “Fora FHC!”, “Fora Temer!”, “Fora Bolsonaro!” e “Fora ____!” (preencher com o nome do próximo presidente que não for de esquerda). Vírgula separando o vocativo, por favor.

Mas pode-se também partir para a terceira via, que é ensinar a língua como se deve, entendendo que mudanças ocorrem naturalmente e que as supostas imperfeições têm uma história e só tornam o idioma mais belo, mais humano. Que não se obriga ninguém a nada, seja na linguagem, seja na política: conversa-se, articula-se, dialoga-se, trocando o “vencer” pelo “convencer” (etimologicamente, “vencer junto”).

Emília, a boneca de pano que resolveu reformar a natureza, colocou abóboras em árvores e jabuticabas em plantas rasteiras. Quem leu Monteiro Lobato sabe no que deu.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Para Bolsonaro, Dom e Bruno não tinham nome

Vera Magalhães (*)

Das muitas demonstrações de falta de empatia de Jair Bolsonaro com o assassinato sórdido de Dom Phillips e Bruno Pereira, enfim confirmado depois de nove dias de desaparecimento e buscas, é espantoso que o presidente não os tenha nunca, em momento algum, chamado pelo nome.

“Esse inglês”, “os dois”, “ambos”. Para o homem que governa o Brasil, duas pessoas que morreram fazendo seu trabalho e lutando pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas não tinham rosto, não tinham identidade, não tinham propósito.

(*) Vera Magalhães é jornalista.

Anônimos

Chamada de O Globo, 17 jun 2022

José Horta Manzano

Desde os tempos bíblicos, uma das diferenças entre o ser humano e o resto dos animais é o fato de os humanos terem nome próprio. Todos os humanos. Até esquimó e índio têm nome.

Dependendo do estágio de civilização, alguns pequenos grupos de indivíduos, por razão de viverem isolados, podem até não ter (ainda) inventado o costume de dar sobrenomes. Mas prenome, isso sim, cada pessoa tem pelo menos um.

Sempre achei inadequado tratar indivíduos desconhecidos por “anônimos”. Como é possível que haja “anônimos” numa multidão, se todos temos nome?

Numa época em que todos buscam se exprimir de modo politicamente correto, me parece desrespeitoso tratar um conjunto de pessoas que aparecem numa foto como se constituíssem uma massa informe, sem identidade e sem individualidade, contratados pra dar volume ao retrato.

Operários, obra de 1933
by Tarsila do Amaral (1886-1973), artista paulista

Ninguém jamais associou mulato à ideia de mula até o dia em que apareceu um desmancha-prazeres pra apontar a etimologia. Ninguém jamais pensou estar sendo indelicado ao chamar um índio de índio, até que ficou combinado que não pode: agora os índios viraram “povos originários”.

A lista de palavras e expressões legítimas que se tornaram impróprias está se alongando a cada dia. Minha observação sobre a impropriedade de tratar de anônimo aquele de quem simplesmente se desconhece o nome entra nessa categoria de inutilidades que só estão aí pra azucrinar.

Mas, cá entre nós, se o termo “anônimos” fosse substituído por “desconhecidos”, até que a chamada do jornal ficava mais sexy, não acha? Veja:


Cenas inéditas da Passeata dos Cem Mil mostram desconhecidos e famosos marchando contra a ditadura militar.


 

Corrupção bolsonarista

Conrado Hübner Mendes (*)

Bolsonaro representa fração da velha política patrimonialista que dedica 100% de sua carreira a parasitar o bem público para fins pessoais. Não tem ideias, proposta política ou visão de futuro. Nunca participou de qualquer projeto coletivo ou se mobilizou por qualquer causa.

Para além da retórica em defesa da ditadura, da tortura e da violência policial, que lhe rendeu votos mas não se traduziu em ato para melhorar vida de policiais, teve vida política inócua e preguiçosa. Não consta, como deputado, uma única realização digna de nota no processo legislativo. Foi se esgueirando pelas brechas da ilegalidade tolerada.

(*) Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e em Ciência Política.

Clube dos Ricos?

OCDE: países-membros

José Horta Manzano

É desde o tempo em que o Lula era presidente que se fala em OCDE. Brasil entra na organização, não entra, os EUA apoiam, deixam de apoiar, vizinhos aplaudem, vizinhos chiam, parece que agora vai, parece que não vai dar. E assim por diante, num vai e vem sem fim. Mas, afinal, que vem a ser essa organização?

Não é nenhum bicho de sete cabeças. Trata-se de um fórum de discussão, de debates e de formulação de políticas públicas. Os membros conversam, debatem, podem até formular sugestões e fazer recomendações. Mas seu poder termina aí: as resoluções não têm força de lei.

No Brasil, a OCDE é vendida como o “Clube dos Ricos”, conceito que não corresponde à realidade. Criada em 1961, a organização tem sede em Paris. Os membros fundadores são 20. Ao longo dos anos, outros países foram sendo admitidos. São hoje 38 países-membros.

Se o Brasil não entrou para o clube até hoje foi porque não quis. Diferentemente de outros países latino-americanos, nossos sucessivos governos não mostraram interesse e não se candidataram. O interesse só surgiu com a subida do lulopetismo ao poder.

Quando o Lula “chegou lá”, ficou patente sua ânsia de pôr o Brasil sob holofotes internacionais, em todas as instâncias onde fosse possível. Era sua tática para melhorar o status “dessepaiz”.

A prova de que a OCDE nunca foi “clube de ricos” é o fato de encontrar, entre os membros fundadores, Portugal, Espanha, Grécia e Turquia – países que, sessenta anos atrás, eram pobres e francamente subdesenvolvidos.

Ao longo dos anos, outros remediados foram entrando para a organização. Entre eles, estão alguns de nossos vizinhos: o México em 1994, o Chile em 2009, a Colômbia em 2018 e até a Costa Rica em 2020.

A organização conta com países populosos e de economia poderosa, como os EUA, a Alemanha, a França, o Japão. Mas há também países de escassa população e diminuto peso econômico: a Lituânia com 2,8 milhões de habitantes; a Eslovênia com 2,1 milhões; a Letônia com 1,9 milhão; a Estônia com 1,3 milhão.

O que a OCDE sabe fazer melhor são as estatísticas comparativas do desempenho de cada país-membro. A organização é verdadeira máquina de produzir números.

Se e quando o Brasil entrar nessa confraria, é bom ir preparando um bom ministério para acomodar especialistas na matéria. No fundo, nada mal para um país habituado ao inchaço crônico da máquina federal. Mais um cabide de emprego à vista.

Mas… só um senão: nas estatísticas comparativas, aquelas em que aparece o desempenho de cada um em cada área, nosso país nem sempre vai sair bem na foto.

Vox populi – 3

José Horta Manzano

Semana passada, uma pesquisa encomendada ao Ipespe deu que falar. Entre outros pontos, media a percepção que o eleitor tem da honestidade de cada candidato.

Nesse quesito, 35% dos eleitores julgam que, entre todos os candidatos à Presidência, Lula é o que melhor se enquadra no conceito de honestidade. Quanto a Bolsonaro, são 30% os eleitores que o veem honestidade nele – 5 pontos percentuais abaixo do placar do Lula.

Não deixa de causar certa surpresa que o Lula, depois de gramar ano e meio de masmorra úmida por ter sido reconhecido como corrupto – por três instâncias –, ainda seja visto como campeão de honestidade.

Outra curiosidade vem do fato de Bolsonaro, que insiste em garantir que não há corrupção em seu governo, receber pontuação mais baixa que o Lula.

A pesquisa causou um choque nas hostes bolsonaristas. Choveram pedidos de bloqueio dos resultados. Pelo que entendi, os sondadores se encolheram e suspenderam a publicação, mas o estrago já estava feito. Todos os veículos da mídia nacional já tinham publicado a notícia.

Derramado o leite, só nos resta avaliar o que esses números dizem do Brasil que se oculta atrás de uma persistente cegueira coletiva e contagiosa.

Se for bem agitada a bateia, o ouro da pesquisa vai aparecer, bem escondido, lá no fundo. Pra se dar conta da realidade, basta examinar esses números ao contrário.

Se 35% dos eleitores acreditam que o Lula é honesto, isso significa que 65% o consideram desonesto. É verdade estatística. E o capitão? A pesquisa atesta que 70% dos pesquisados o veem como desonesto.

Fica a certeza de que, seja qual for o vencedor, o Brasil será presidido por um desonesto. Ou, pelo menos, por um indivíduo que é pressentido como desonesto por 2 em cada 3 brasileiros.

Brasil, país do futuro? Brasil, país sem futuro.