Troca-troca

José Horta Manzano

Esta manchete de agora há pouco mostra o estado de descontrole ao qual chegamos. A tibieza do governo da República leva alguns cidadãos mais ousados a mercadejar: “Pago pra me deixar abrir a loja”. É o cúmulo.

Desorientados, os brasileiros são bem capazes de sair nadando atrás do canto da sereia. Muita gente fina ainda vai aprovar o gesto desse comerciante mais preocupado com o próprio lucro do que com a saúde dos clientes. Alguém pode até se deixar impressionar: “Veja que generosidade! Oferece respiradores, artigo que está em falta nos hospitais”.

Respiradores não se tiram do chapéu. É altamente improvável que esse camarada tenha estocado esses aparelhos no porão de casa. Portanto, está fazendo terrorismo barato, brincando com a ansiedade da população.

Tem mais. Ainda que ele tivesse um carregamento de respiradores, a proposta de toma lá dá cá seria indecente. Se esse lote de aparelhos realmente existir, o comerciante merece sofrer confisco da mercadoria e processo por tentar se aproveitar da ingenuidade alheia em proveito próprio.

Líderes de lá, de cá

José Horta Manzano

Quando atingiu a França, a avalanche do coronavírus pegou o presidente Macron num momento de fragilidade. Meses de protestos dos Coletes Amarelos tinham desidratado o governo, que já não sabia mais que fazer pra acabar com a crise.

A chegada do covid-19 foi providencial. Diante do inimigo maior, os últimos protestatários vestidos de amarelo baixaram os braços e voltaram pra casa. Um esperto Macron entendeu que, mais que nunca, os franceses desamparados precisavam de um líder forte. Em duas ou três falas solenes, transmitidas em cadeia nacional, mostrou que havia entendido a angústia do povo e que estava conduzindo a batalha.

Espalhou-se a sensação de que, apesar das privações, o barco tem um timoneiro. Diante disso, a popularidade do presidente subiu às alturas. A oposição, que costuma contestar tudo o que vem do governo, está silenciosa. Também, pudera! O avião tem piloto; contestar o quê?

Giuseppe Conte, primeiro-ministro italiano, andava desprestigiado antes da epidemia. Assim que ela surgiu, seu governo tomou as rédeas. O país se uniu em torno de Signor Conte, e a oposição anda calada.

O espanhol Pedro Sánchez era outro que andava mal das pernas. Primeiro-ministro havia pouco, sofria forte contestação. Quando a epidemia atingiu a Espanha, o homem foi para a luta e, da noite pro dia, ganhou músculos e ficou forte e corado. A contestação tirou férias.

Falei dos três países europeus mais castigados pelo coronavírus. Em todos eles, o mandatário-mor soube aproveitar a ameaça pra surgir como salvador da pátria. Enquanto isso…

Enquanto isso, no Brasil, ai, ai, ai. Doutor Bolsonaro é tão desastrado que conseguiu a proeza de se deixar consumir pelo vírus sem tê-lo contraído (pelo menos oficialmente). Com seus vaivéns, suas hesitações, suas falas desequilibradas, suas bolas fora, suas declarações sem nexo – com tudo isso, conseguiu a façanha de perder o bonde. Dormiu no ponto e deixou-se ultrapassar por governadores, prefeitos, magistrados e até ministros nomeados por ele mesmo.

Temos hoje um presidente tonto, batendo cabeça, dando mais ouvidos aos delírios de seus aiatolás do que aos conselhos de assessores mais sensatos.

O defeito maior de doutor Bolsonaro, aquele que antecede todos os outros… vamos dizer de maneira suave: ele é curto de inteligência. Quando o indivíduo têm forte carência intelectual na base, todo aprendizado fica prejudicado. Ele não entende direito o que lhe dizem. Ciente disso, desconfia de tudo e de todos.

Na dúvida, prefere seguir o conselho dos filhos que, no seu entender, são os únicos a quererem o bem do pai. Infelizmente, seus rebentos são destrambelhados; ele, sem captar direito situações complexas, segue os conselhos filiais. E arruinados estamos nós.

PT – Cancelamento de registro

José Horta Manzano

A procuradoria da Justiça Eleitoral deu parecer favorável a um pedido de cassação do registro do PT – Partido dos Trabalhadores. A agremiação é acusada de ter recebido financiamento do estrangeiro, o que é proibido pela legislação eleitoral. Dificilmente o caso progredirá. As reações dos extremos do espectro político foram contrastadas.

Do lado dos populistas de direita, choveram aplausos; os apoiadores de doutor Bolsonaro estão soltando foguetes. Do lado dos populistas de esquerda, o que se ouve são protestos indignados; os simpatizantes de Lula da Silva estão soltando fogo pelas ventas.

Se eu fosse do time dos populistas de direita, deixaria de lado esse sentimento de vitória e refletiria com calma; se eu fosse do time dos populistas de esquerda, esqueceria essa sensação de orgulho ferido e pesaria os prós e os contras.

Para o projeto de reeleição de doutor Bolsonaro, o desaparecimento do PT não convém. O presidente foi eleito na onda do anti-petismo. Volta e meia, ele nos assusta com o perigo da volta ao poder do adversário. Ora, se o PT desaparecesse, quem encarnaria o espectro da volta dos ‘comunistas’ no discurso bolsonarista? Melhor que o partido da bandeira vermelha continue existindo. E, se seguir desidratado como está, melhor ainda. Nada de cassar-lhe o registro.

Estrela do PT formada com sálvias.
Foi plantada no Alvorada quando Lula era presidente. Descaracterizou o jardim, um projeto paisagístico oferecido ao Brasil pelo imperador do Japão.

Para o projeto dos petistas – com exceção de Lula da Silva –, o desaparecimento do partido é uma bênção. O PT, convenhamos, anda com o nome sujo na praça. Mensalão e petrolão deixaram marca pesada, indelével, que não sai nem lavando com água quente. Há que considerar que a extinção da legenda não significa a sumidura dos afiliados. Alguns eleitos migrarão para outras siglas. Os que permanecerem, simplesmente fundarão um novo PT, com outro nome. Seria até boa ocasião para ascenção de figuras novas, menos ‘lulodependentes’.

Em princípio, mudar de nome parece manobra grosseira e fadada ao fracasso. Mas não é assim. Vejam o caso do DEM: alguém ainda se lembra que é a continuação do antigo PFL, sucessor da Arena, partido da ditadura? E alguém se dá conta de que o Cidadania sucedeu ao antigo PPS, partido que reclamava a abolição da propriedade privada?

Se a reciclagem deu certo para eles, havia de dar também para o PT. A mudança de nome seria o melhor caminho pra surgir como partido novo, livre de vícios e de pecados.

Nota
Não sou petista e muito menos bolsonarista. Que fique claro.

Le casse du siècle

José Horta Manzano

Na manhã da segunda-feira 19 de julho de 1976, os funcionários da agência de Nice (França) do Banco Société Générale ficaram intrigados. Quando o encarregado foi ao subterrâneo buscar dinheiro para distribuir aos caixas antes da abertura ao público, constatou que a pesada porta de aço blindado da sala dos cofres não se abria. Tenta daqui, tenta dali, e nada. Chamaram ajuda externa.

Serralheiros tampouco lograram destravar a blindagem. Foi preciso chamar reforço e arrombar a porta. Ao penetrar no salão, deram-se conta de que a porta havia sido soldada por dentro. Olhando entorno, contemplaram um espetáculo desolador: 371 cofres de clientes haviam sido arrombados e pilhados. Pior que isso, a porta que dava para o cofre central da agência estava aberta e, no lugar do compartimento blindado, havia um enorme buraco.

Passado o primeiro momento de estupor, caíram na real: o banco havia sido assaltado durante o fim de semana. Feitas as contas, chegou-se a uma estimativa do valor subtraído. Tinham desaparecido quarenta e seis milhões de francos da época, equivalentes a 30 milhões de euros atuais (150 milhões de reais).

Agência de banco assaltada

Na verdade, nunca se conhecerá o valor exato, dado que clientes costumam armazenar valores cuja existência preferem dissimular do fisco. Estava consumado «le casse du siècle» ‒ o assalto do século. Nem um centavo dos valores roubados foi recuperado até hoje. Ficou famosa a frase que os malfeitores deixaram escrita a giz na parede: «Ni coup de feu, ni violence, ni haine» ‒ nem tiro, nem violência, nem ódio.

Toda a força policial da França arregaçou as mangas pra descobrir os autores. Um assalto daquela envergadura não era obra de uma pessoa só. Uma equipe robusta e aguerrida tinha de estar por detrás. As investigações revelaram que os malfeitores, depois de descer pelas bocas de esgoto a uns 100m de distância, tinham levado três meses escavando um túnel. Tinham feito uso de material sofisticado levado ao local peça por peça pra não despertar suspeita.

Foram logo apanhados três ou quatro indivíduos, velhos conhecidos da polícia. Confessaram ter feito parte da turma dos tatus, mas eram arraia miúda. O que se procurava mesmo era o cérebro do bando. Descobriram que seria um tal de Monsieur Spaggiari, notório integrante da bandidagem. Encontrado, foi preso e acusado. Seis meses mais tarde, durante um interrogatório, o homem conseguiu escapulir. Peregrinou durante anos por França, Oropa e Bahia. Até pelo Brasil, o homem passou. Jamais recapturado, faleceu em 1989.

A façanha rendeu três filmes, mas a busca pelos malfeitores, passados tantos anos, foi aos poucos abandonada. Quase quarenta anos mais tarde, é lançado um livro em que o escritor se denuncia e confessa ser o verdadeiro chefe do bando, o autor intelectual. A obra foi escrita sob pseudônimo mas, em casos assim, a justiça tem direito a conhecer quem se esconde por detrás. Não tardou a baterem à porta de um certo Monsieur Cassandri, que acabou detido e interrogado.

Seu advogado argumentou que o crime estava prescrito, razão pela qual o assaltante se tinha sentido livre pra confessar a façanha ao distinto público. De fato, pela lei francesa, o falastrão não pode mais ser processado pelo roubo. Só que não previram um detalhe: a lei não prevê prescrição para o crime de lavagem de dinheiro.

Trajeto da boca de esgoto até o banco

Monsieur Cassandri ‒ que não consta tenha jamais trabalhado na vida ‒ é homem rico. Nestes quarenta anos, saindo do nada, comprou, entre outras coisas, uma casa nos Alpes, um night-club em Marselha, numerosos terrenos na Córsega. Investiu ainda dezenas de milhares de euros em casacos de pele. Dado que os originais do livro foram encontrados em seu computador, o assaltante não teve como negar a autoria.

O resultado da vaidade foi pesado. Não só o autor do assalto como esposa, filhos e outros chegados estão sendo processados por lavagem de dinheiro. De fato, toda a família participou da festança. Atualmente, estão todos prestando contas à Justiça de Marselha. Vai ser difícil escaparem à mão pesada de desabusados juízes.

Moral da história:
Segredo é pra quatro paredes. Quem cometeu ‘malfeito’, o melhor é calar, que nunca se sabe. (Com perdão do anacoluto).

Texto publicado originalmente em 14 fev° 2018.

O vírus e o pão

José Horta Manzano

O surto de coronavírus assusta. Dizem que pegou o mundo de surpresa. Pudera! Alguém estaria suficientemente escolado pra encarar um pesadelo desses sem surpresa? O susto vira pânico quando se descobre que não há remédio contra a infecção.

Estamos acostumados a ter medicamento pra tudo. Tuberculose, sífilis, lepra, poliomielite, sarampo e outros males que flagelaram a humanidade por séculos hoje têm cura e, em certos casos, até vacina imunizante.

De repente, surge um bichinho desconhecido, sorrateiro, oportunista; e todos passam a desconfiar de todos. Se passa alguém de máscara, logo imaginamos que esteja doente. Se alguém tosse ou dá um espirro, logo se afastam todos à sua volta – e ainda olham feio.

Aqui onde vivo, nos supermercados, os pães estão às moscas (força de expressão). Pão sobra mas, em compensação, não se encontra mais fermento. Há duas razões para isso. Por um lado, o confinamento deixa o povo sem ter que fazer; ir para a cozinha amassar pão é excelente remédio contra o tédio. Por outro, muitos preferem agora fazer pão em casa por receio de contaminação; nunca se sabe: alguém pode ter tossido em cima do pão na gôndola.

Não sei se ainda se acha fermento no Brasil neste momento. Se houver, sugiro ao distinto leitor tentar a experiência de amassar e assar o próprio pão. É simples, basta respeitar as regras. Receitas há, aos montes: basta passear pelo youtube. Bom apetite.

Bomba-relógio

José Horta Manzano

O mundo anda de olho grudado no Brasil. E não estão sonhando com o rumor das ondas de Ipanema nem com o rugido da onça-pintada na floresta tropical. Estão temerosos do desastre que começa a tomar forma com a chegada do coronavírus.

«O Brasil, nova bomba-relógio do planeta» – é a manchete do diário francês Le Parisien.

O medo é que os vaivéns presidenciais tenham prejudicado a tomada de decisão sobre as melhores estratégias para enfrentar a epidemia. Cada dia perdido no bate-cabeça que paralisa o Planalto contribui para aumentar a força da bomba que está por explodir.

«No Brasil e no México, a luta contra o coronavírus está marcada pela ignorância» – estampa o alemão SWP (Südwest Presse). Tem razão. A ignorância é a única explicação para um Brasil que destoa no concerto global. Todos vão, disciplinados, em compasso de marcha enquanto, por aqui, vai da valsa.

«O Brasil se dirige a uma terrível tormenta» – é a sombria previsão lançada pela Deutsche Welle, conglomerado alemão de mídia.

«O receio do pior nas favelas do Brasil» – é o temor expresso por France TV, conglomerado francês de mídia.

Como disse um magistrado, estes dias, só os astronautas não correm risco de contágio. Enquanto permanecerem no espaço, naturalmente.

Reparem que, em matéria de coronavírus, ninguém ousaria tratar nenhum outro país de ‘bomba-relógio’. Nem mesmo os EUA, que lideram a triste estatística de vítimas, são vistos como um perigo para a humanidade. Só nosso país. E todo o mundo sabe por quê.

Como é possível que um só personagem, fraco e cercado de meia dúzia de imbecis, possa causar tanto estrago? Será que não encontram um meio de acabar com essa trágica farsa? Temos um cipoal de leis. Temos centenas de parlamentares e milhares de magistrados. Vamos, gente, coragem!

Nós aqui, do andar de baixo, não dispomos dos meios necessários. O Brasil não aguenta mais três anos assim. Só a interdição desse homem pode nos devolver a tranquilidade. É melhor agir antes que o povo se subleve.

Ah, ça ira!

José Horta Manzano

Libération, veterano jornal da esquerda francesa, se pergunta se a epidemia de Covid-19 vai finalmente forçar o Brasil a cobrar impostos dos ricos. Esclarece que nosso país figura entre os mais desiguais do mundo, somente comparável a certos países da África ou do Oriente Médio. A diferença de posses entre os que têm mais e os que têm menos é brutal.

Explica que 206 bilionários brasileiros detêm 20% da riqueza nacional. Vamos fazer umas continhas. O país tem 200 milhões de habitantes. Vinte porcento da população dá 40 milhões de pessoas. Portanto, 206 ricaços possuem o que, em teoria, deveria pertencer a 40 milhões de compatriotas. É chocante. Diferenças sempre há, mas distorções a esse ponto são inconcebíveis num mundo civilizado.

O jornal francês assinala que o imposto é cobrado principalmente do consumo ou seja: do arroz e do feijão, da gasolina, das fraldas do bebê, do cafezinho e da farinha de mandioca. Portanto, pesa muito mais no bolso dos desfavorecidos. Os altos rendimentos são poupados. No Brasil, a alíquota máxima é de 27,5%, enquanto a média na OCDE é de 43,5% – um cruel desequilíbrio.

Apesar de suas simpatias pela esquerda, o jornal confessa que nem Lula e seu PT, em 13 anos de poder, ousaram corrigir as distorções. Ao contrário: se a era Lula fez os pobres um pouco menos pobres, em compensação, deixou os ricos bem mais ricos.

Libération conclui filosofando: no Brasil, os ricos ainda têm belos dias pela frente.

Aqui no original francês.

(*) O título deste post – Ah, ça ira! – faz referência a um refrão que surgiu em 1790, como prenúncio da Revolução Francesa. Ao longo dos anos, inúmeras versões e paródias se encaixaram na métrica dos versos. A mais ameaçadora delas é justamente a mais conhecida:

Ah, ça ira, ça ira
Les aristocrates, on les pendra!

Em tradução livre, fica assim:

Sim, venceremos, venceremos
Os aristocratas, enforcaremos!

Que fique claro: este blogueiro já passou da idade de ser incendiário. Não estou recomendando mandar nenhum bilionário para o patíbulo.

Três indícios e uma hipótese

José Horta Manzano

O que escrevo aqui abaixo não é fake news. É pura suposição minha, que não deve ser tomada por verdade bíblica. O distinto leitor é livre de discordar.

Primeiro indício
Faz menos de uma semana, os dirigentes dos países do G20 se reuniram numa cúpula especial realizada por videoconferência. Como é natural, a conversa não foi pública; o que sabemos é o que filtrou do Planalto.

Devido ao grande número de participantes e ao tempo exíguo, cada dirigente que quis se manifestar teve poucos minutos. No tempo que lhe coube, doutor Bolsonaro preconizou que a proteção da saúde ande de mãos dadas com a preservação dos empregos, o que é uma evidência. Até aí, ninguém discordou.

O resto de seu tempo, nosso presidente gastou tecendo elogios a uma substância farmacêutica chamada hidroxicloroquina, vendida no Brasil sob a marca comercial de Plaquinol. Segundo o doutor, o remédio – desenvolvido para tratar paludismo e poliartrite crônica evolutiva – é tiro e queda pra curar covid-19. É fácil imaginar a surpresa dos demais dirigentes. É que as palavras do doutor cairiam bem na boca de um representante farmacêutico; vindas do presidente do Brasil, soam esquisitas.

Segundo indício
Doutor Bolsonaro diz ter sido testado duas vezes pra descobrir se estava infectado pelo coronavírus. Afirma que, nas duas vezes, o teste deu negativo. Jornalistas reclamaram a prova do teste. O hospital, que deve ter sido pressionado pela Presidência, negou-se a mostrar papel assinado.

Terceiro indício
Domingo passado, doutor Bolsonaro saiu a passeio por bairros de Brasília para atirar-se nos braços de admiradores e «ouvir o que o povo quer». Mostrou não estar nem um pouco preocupado com contágio, nem ativo, nem passivo.

Hipótese
Juntando os três indícios, é possível formular uma hipótese. Doutor Bolsonaro teria sido contagiado pelo vírus, exatamente como Wajngarten, o general Heleno e mais uma vintena de assessores. Assim que sintomas leves apareceram, ele fez o teste. Deu positivo. Aceitou, então, conselho para medicar-se com Plaquinol. Como acontece na maioria dos casos de infecção pelo novo coronavírus, os sintomas foram leves e desapareceram após dois ou três dias. Os sintomas teriam desaparecido espontaneamente, mas o presidente atribuiu a cura milagrosa ao remédio que havia tomado.

Se verdadeira, minha hipótese explica:

• por que Bolsonaro usou o tempo de palavra no G20 pra elogiar uma molécula cujo efeito contra o coronavírus ainda não está acertado. O remédio é perigoso: tem mais de 30 efeitos secundários potenciais. Só poderá (ou não) ser indicado para combate ao vírus ao fim de estudo específico e sério.

• por que Bolsonaro se negou a mostrar o resultado do teste em papel assinado pelos diretores do hospital.

• por que Bolsonaro continua a sair por aí, a se jogar nos braços do povo, a circular como se não houvesse epidemia.

• por que Bolsonaro se gaba de seu passado de atleta ter driblado a doença: sou forte, pulo no esgoto e nada me acontece.

• por que Bolsonaro nega a gravidade da covid-19 e continua a fazer força pra desconfinar os confinados.

Até atitudes aparentemente irracionais, como as de nosso presidente, têm explicação. Difícil é encontrá-la.

A chave da informação

José Horta Manzano

Um grande ponto de interrogação percorre toda a mídia francesa nesta segunda-feira. Refere-se ao número de mortos informado oficialmente pela China quando da epidemia de Covid-19. O governo de Pequim anunciou que, em todo o imenso território nacional, morreram menos de 3.300 pessoas.

Quando se compara essa cifra aos mortos (até agora) computados na Europa, boa dose de desconfiança é permitida quanto à veracidade das estatísticas chinesas. Até o momento, mais de 6.500 espanhóis e mais de 10.000 italianos sucumbiram ao vírus. O bom senso indica que os números fornecidos pela China estão fortemente subavaliados. (Sinto falta de um hífen em subavaliados, mas parece que é assim que se tem de escrever.)

Relatos clandestinos provenientes de corajosos cidadãos chineses corroboram a dúvida. Terminada a primeira vaga da epidemia, cada habitante de Wuhan que perdeu um parente ficou autorizado a vir buscar a urna com as cinzas do falecido – o que estava proibido durante a longa quarentena. Assim que foi feito o anúncio, milhares e milhares de pessoas se aglomeraram diante do local de distribuição. Filas de até 5 horas se formaram.

Leve-se também em consideração que, durante a epidemia, o governo chinês mudou cinco vezes o método de contagem das vítimas. Alguns dizem que a versão final da contagem não considera os pacientes com doenças pré-existentes, artifício que deixa fora das estatísticas a absoluta maioria das vítimas. Os três mil e poucos mortos seriam os raros que, estando perfeitamente sãos, sucumbiram à covid-19. Em resumo, a malandragem teria sido contar somente os casos excepcionais.

Há também desconfiança de que o vírus está circulando desde o mês de setembro do ano passado. As autoridades teriam silenciado sobre isso para que as visitas ao país não passassem a ser evitadas por turistas e homens de negócio. Quando se deram conta do tamanho do estrago que a epidemia estava causando, já era tarde demais; a doença estava disseminada, e muitos estrangeiros já a haviam exportado.

Autoridades da Saúde Pública francesa estimam que o total de falecidos não deve ser inferior a 100.000. A mim, esse número ainda parece baixo demais. É o que dá viver sob regime autoritário. Os negócios passam à frente da sobrevivência da população. Esse conceito, aliás, é o que foi adotado por doutor Bolsonaro: «Terão mortes, paciência!» (sic).

Observação
O sempre bem informado jornalista Lauro Jardim relata:

“O governo resolveu centralizar todas as divulgações e anúncios sobre o coronavírus feitos pelas assessorias de imprensas de órgãos federais. Assim, a Secom terá que ser informada “antecipadamente (…) estratégia que será adotada para divulgação”. E só depois do ok da Secom a ação será anunciada.”

Se alguém imagina que isso possa servir pra maquiar as estatísticas brasileiras de mortalidade em decorrência da epidemia, pode até estar com a razão.

Florilégio

José Horta Manzano

Está aqui um florilégio de opiniões sobre as mais recentes façanhas de nosso capitão.

Bolsonaro se acha incólume porque um dia foi atleta. E estendeu essa blindagem aos brasileiros que, segundo ele, mergulham no esgoto e nada sofrem. No momento em que a Ciência tem um grande papel, Bolsonaro, cercado de terraplanistas, tornou-se uma espécie de Jim Jones, o pastor que levou seus seguidores ao suicídio coletivo.
Fernando Gabeira, jornalista

Bolsonaro não faz o que faz por incompreensão do problema e dos riscos. Ele não se importa com o perigo que estamos correndo. O centro de suas atenções está apenas nele próprio e nos seus filhos. Vê em cada sombra um adversário, em cada discordante, um traidor, em cada decisão de outra autoridade, uma conspiração contra o seu poder.
Míriam Leitão, jornalista

Na semana passada, Bolsonaro chegou a dizer que brasileiro pula no esgoto e não acontece nada. Não dá para saber ao certo o que ele está pensando. Talvez ele não saiba o significado de crescimento exponencial ou talvez ache que os vulneráveis terão de morrer para proteger o resto da população das agruras do impacto econômico do isolamento.
Steven Levitsky, cientista político e professor da Universidade de Harvard (EUA).

Os desvarios de Jair Bolsonaro não cabem mais na esfera da política. Quando o presidente se torna uma ameaça à saúde pública, sabotando o esforço nacional contra a pandemia, seus atos devem ser submetidos aos tribunais.
Bernardo Mello Franco, jornalista

Eco planetário

José Horta Manzano

O mundo continua embasbacado com o bate-cabeça que se vê em Brasília no trato da pandemia de Covid-19. Todos começam a entender que as atitudes que vão contra a corrente emanam diretamente de doutor Bolsonaro.

Estivesse tudo isso ocorrendo numa ilhota do Pacífico, ninguém se importaria. Mas o Brasil, francamente, é um país que conta. Ninguém entende como nosso presidente pode ser tão atrasado.

Está aqui um florilégio de manchetes internacionais.

Bolsonaro ironiza sobre o vírus enquanto sobe o número de mortos
Clarín, Argentina

 

Bolsonaro pouco se importa com os perigos da epidemia de coronavírus. Isso poderia anunciar seu fim político.
Stuttgarter Zeitung, Alemanha

 

Bolsonaro põe em dúvida número de mortes por coronavírus no Brasil
France 24 em inglês

 

O Brasil tem dois problemas: o coronavírus e o presidente Bolsonaro
Il Post, Itália

 

O último negacionista
O presidente Bolsonaro continua minimizando a extensão da epidemia de coronavírus. Em protesto, a população agarra colheres e panelas.
Der Spiegel, Alemanha

 

O exército brasileiro, do positivismo ao anticomunismo paranoico
Le Monde, França

Covid-19, o Brasil determina que cultos religiosos são “essenciais”
(Reparem: “essenciais” entre aspas)
La Croix, jornal católico francês

 

 

Coronavírus: a situação alarmante do Brasil preocupa a população da Guiana Francesa
France Info – emissora local de rádio, Guiana Francesa

 

 

No Brasil, a luta contra a propagação do coronavírus se aproxima de uma luta de classes
France 24, portal de informação da TV francesa

 

Bolsonaro está disposto a sacrificar os idosos?
Dagens Nyheter, Suécia

Na pressão

Eduardo Affonso (*)

Não tenho medo de solidão.

Não tenho medo de cair no banheiro, bater a cabeça no tento de mármore do box e só me encontrarem quando eu já tiver escorrido pelo ralo e não restar nem o esqueleto, porque os cachorros terão levado os ossos para a sala e tudo que restará de mim será um fêmur meio roído, na boca do Tião.

Não.

Eu tenho medo é de panela de pressão.

A panela de pressão é uma esfinge. Uma bomba-relógio. Um campo minado.

Meu pai, homem intimorato, daqueles de andar com duas armas – uma na canela, outra embaixo do sovaco – só foi derrotado pelo câncer e pela panela de pressão (não nessa ordem, obviamente).

Ele entrava na cozinha apenas para perguntar por que é que o almoço ainda não estava pronto. Ele almoçava às 11 horas em ponto, para poder estar no Fórum pontualmente ao meio-dia. Por volta de 10h45, começava o inferno astral da minha mãe:

– Conceição, já são quase 11 horas. Cadê o almoço, Conceição?

Minha mãe suspirava resignada, e cozinhava, de modo que às 10h59 a primeira travessa chegasse à mesa, onde meu pai já a esperava, de garfo e faca na mão.

Um dia – morávamos em Visconde do Rio Branco – meu pai extrapolou sua jurisdição.

Invadiu a cozinha e resolveu pular os intermediários e pressionar diretamente a panela de pressão.

A panela, claro, não tinha a paciência infinita da minha mãe.

Seguiu-se uma explosão. Quando cheguei em casa não entendi o que havia acontecido, ou de onde surgira aquele teto cravejado de feijão.

Ninguém se feriu, e, tirando o feijão e o teto, salvaram-se todos. Meu pai deve ter entendido que ninguém está acima das leis da física. Que tudo neste mundo tem seu tempo, cada coisa tem sua ocasião.

O feijão com arroz, aquele dia, foi só arroz, quebrando – ao que eu saiba, pela primeira e única vez – uma milenar tradição. Minha mãe saboreou, grão por grão, essa vitória, obtida por interposta panela.

Fim do flexibeque.

Um lar só é um lar quando tem tapetinho na porta e panela de pressão. O tapetinho eu não tenho, mas comprei a panela, há alguns anos. Trouxe-a para casa como quem abre os portões para um cavalo de Tróia, sabendo o que ele guarda na barriga.

Usei-a poucas vezes, durante as faringites – quando uma sopa descia bem melhor que um sanduíche. Mas sempre o fiz com respeito, quase com reverência.

Levanto a válvula com a ponta dos dedos e espero que a panela desabafe, se acalme, sinta que está entre amigos. Depois, dou-lhe uma ducha de água fria, para aquietar-lhe os ânimos. Ela ainda resmunga um pouco, solta algum vapor pelas ventas, e só quando parece pacificada é que dou um passo para trás e destravo a tampa.

Tem funcionado.

Hoje, vencendo um trauma de décadas, cozinhei feijão. Escapamos incólumes: eu, a panela, o teto, o fogão.

Mais algumas experiências bem sucedidas com essa criatura explosiva e já me sentirei capaz de arriscar alguma coisa com uma mulher de Escorpião.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Paranoia ou método?

José Horta Manzano

«Minha campanha, eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude

«[Essa quantidade de óbitos] está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político. Não estou acreditando nesse número

Ambas as frases, nem precisa dizer, foram pronunciadas por doutor Bolsonaro. A primeira, em Miami, num evento neopentecostal. A segunda, no Brasil, em entrevista a uma estação de televisão.

Em ambas, ele abre o jogo: deixa claro que, no seu entender, manipulação de resultados é matéria corriqueira, coisa que todo o mundo faz. Está brincando com assunto sério, Excelência! Nem sua proverbial mania de perseguição explica essa desconfiança.

A menos que…
A menos que, por detrás dessa conversa boba de matuto, haja método, armação, orquestração. É permitido imaginar que Sua Excelência esteja preparando o espírito do distinto público para uma dança de números, jogados no ventilador com o intuito de causar polêmica, confusão e descrença geral. Ele mesmo já deu a dica de como enxerga o problema quando insinuou não acreditar nos números paulistas porque pode ser um jogo de números para favorecer interesse político”.

Imaginemos um cenário
O Planalto sabe muito bem que, afrouxadas as medidas de confinamento, a doença vai se alastrar. Assim mesmo, decide apoiar o afrouxamento, com o fim de evitar catástrofe que lhe parece mais importante: a perda de renda dos trabalhadores informais. Diga-se, en passant, que o presidente já avisou que «terão mortes»(sic).

Pra evitar que esse ‘terão mortes’ resulte em número assustador, prepara-se para maquiar estatísticas e mascarar a realidade. Afinal, cada hospital tem seus números, mas só o governo federal é dono da planilha que coleta todos os dados. Com um pouco de arte, não é difícil ‘achatar’ essa curva. Os números paulistas são os que fazem a curva empinar, daí o descrédito que o presidente lança, desde já, sobre eles.

O achatamento artificial somado à não notificação de casos em que a morte tiver ocorrido em casa, longe de amparo e assistência, vão dar o resultado sonhado pelo doutor. Ficará demonstrado que ele tinha razão ao liberar geral.

Engenhoso, não?