Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Quem diz o que quer

José Horta Manzano

Tem gente que não aprende. Lula da Silva, considerado por alguns como dotado de superior inteligência e de fino faro político, não me parece tão esperto assim. Entra nessa categoria daqueles que têm certeza de que já nasceram sabendo tudo e que, portanto, não precisam aprender mais nada. Nem os quase quatorze meses passados na cadeia foram suficientes pra livrá-lo do torpor e pra afinar-lhe a astúcia.

A prudência é qualidade supimpa. Quanto mais um indivíduo se encontra em situação delicada, mais deve medir o alcance dos próprios atos e gestos. Não convém destratar aqueles de quem se pode vir a precisar no futuro. Atropelar essa regra é tolice pura.

Chico Buarque – que é amigo do peito de Lula da Silva, batalhou contra a destituição de Dilma e defendeu a fracassada candidatura de Haddad à Presidência – foi agraciado com o Prêmio Camões. Nada mais justo, que o moço é verdadeiro ourives da língua pátria. Concorde-se ou não com suas posições políticas, há que reconhecer sua excelência no trato das palavras.

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Lula da Silva resolveu escrever uma cartinha ao amigo Chico. Não satisfeito em apenas dar-lhe os parabéns, aproveitou a carta aberta pra alfinetar a rede Globo de rádio e televisão. Contou ter ficado muito feliz porque «a Globo teve que colocar você no ar em horário nobre, pela primeira vez vi sua cara na Globo (sic)».

Magnânimo, o conglomerado carioca de mídia teve a clemência de responder. Retrucou que, nos últimos nove anos, Chico Buarque já apareceu 28 vezes no horário nobre da televisão. O Lula, que, em matéria de tevê, já confessou interessar-se unicamente por novela, certamente perdeu as aparições do amigo. Quem diz o que quer acaba ouvindo o que não quer.

Não é inteligente alfinetar a maior empresa de televisão do país. Quem tem esperança de um dia voltar à política não deveria fazer isso. Não digo que o demiurgo devesse ter-se prostrado diante da emissora – bastava ter mantido recato. O silêncio, que não pede esforço nenhum, nessas horas vale ouro.

Desde que o velho Tancredo saiu de cena, a política brasileira tem sentido muita falta de um presidente sagaz. Perspicácia é artigo que há décadas anda em falta no Planalto.

A coroa do rei

José Horta Manzano

Quando prenderam o Lula, o Brasil se dividiu. De um lado, ficaram os que não gostavam do antigo presidente, assim como os que acreditavam que lugar de bandido é cadeia. Do outro, se colocaram os que gostavam dele e todos os que receavam ser atingidos pela Justiça. Minha explicação está bem simplificada mas, tirando floreios, a verdade não está longe.

De lá pra cá, a casta dos políticos e dos empresários interessados em negociatas esperneou. Se o Lula foi preso, pensaram, qualquer um pode acabar no xilindró. Com frequente cumplicidade do STF, pregos e tachinhas têm sido espalhados pelo caminho com a evidente intenção de estourar os pneus da Lava a Jato. O resultado tem sido contrastado. Grandes beneficiários da corrupção como doutor José Dirceu estão livres e soltos, gozando as delícias do patrimônio acumulado à custa do suor alheio. Ao mesmo tempo, vários doleiros ‒ que não são corruptores nem beneficiários, mas meros intermediários ‒ estão há anos vendo o sol nascer quadrado.

Estes últimos meses, desde que doutor Moro subiu a rampa e se tornou ministro, a Lava a Jato andava raquítica, anêmica, desmilinguida, sem fôlego. A espetaculosa prisão de doutor Temer traz de volta o vigor antigo. Quarenta anos de negócios escusos e de desvios chefiados pelo ex-presidente começam a ser servidos ao distinto público. Todo o mundo já desconfiava, mas agora é oficial. O velho político, embora seja apenas mais um a passar por exame de corpo de delito, vale por dez.

Com a ação de ontem, ganha o Brasil decente. Volta a esperança de que, apesar dos percalços destes últimos meses, a caça aos corruptos vai continuar. É difícil apanhar todos ‒ Sarney, por exemplo, deve escapar. Mas ainda há muita gente fina com contas a acertar com a Justiça. Ninguém se esquece, por exemplo, da doutora Dilma, envolvida até o pescoço no descalabro que foi a compra da refinaria de Pasadena, que sugou um bilhão do erário. A partir da prisão de Temer, a velha senhora vai precisar tomar chazinho de camomila pra dormir.

Mais uma vez, tem-se a prova de que o Brasil vem sendo dirigido, há anos, por quadrilhas de assaltantes. O destino dos seis últimos presidentes da República (de Collor a Temer) é eloquente. Um morreu. Dois passaram por impeachment e foram destituídos. Dois estão na cadeia por corrupção. Só um vive aposentadoria presidencial tranquila como manda o figurino. Ninguém poderá dizer que a Justiça não funciona no país. Quatro entre seis presidentes receberam punição, o que dá uma boa média. E que sirva de aviso para doutor Bolsonaro & descendência. Ninguém está a salvo.

Como disse o outro, não há risco de a prisão de doutor Temer alevantar clamor popular. Ninguém gosta do homem. Não haverá vigília nem acampamento diante da PF do Rio.

A contradança

José Horta Manzano

Com a redemocratização, começaram a ser feitos levantamentos de opinião pública para aferir a popularidade do presidente. Já temos hoje um estoque de 25 anos de dados, prazo que confere credibilidade a essas pesquisas. Hoje é possível comparar a marca atingida pelos diferentes presidentes em determinadas fases do mandato.

Os números referentes a doutor Bolsonaro, quentinhos do forno, acabam de ser publicados pelo Ibope. Ao dá-los a público, a mídia se encarregou de os confrontar com o escore obtido pelos presidentes anteriores, cuja popularidade foi medida na mesma altura do mandato. O resultado é desastroso.

O histórico de aprovação de governo inclui os presidentes Collor de Mello, FHC, Lula da Silva e Dilma Rousseff ‒ uma boa amostragem. Os resultados referentes a doutor Bolsonaro informam que a pontuação do presidente atual é inferior à de qualquer outro presidente no terceiro mês de mandato. (Do cálculo, estão excluídas as avaliações de presidentes em segundo mandato.)

Nem Collor, nem Dilma ‒ que seriam mais tarde destituídos ‒ sofreram apreciação tão baixa já no terceiro mês. No caso deles, a degradação da opinião pública só se manifestou mais tarde. Se eu estivesse na pele de doutor Bolsonaro, levaria muito a sério esses primeiros resultados. É hora de parar pra pensar, analisar, descobrir onde é que a engrenagem está pegando e tratar de consertar rápido antes que seja tarde.

É verdade que não precisa pensar muito pra encontrar o problema. Ele não decorre das ações do governo, praticamente inexistentes até aqui. Vem, antes, da contradança entre o despreparo e a incapacidade. As ações dos três irrequietos primeiros-filhos tem dominado a crônica de costumes.

Não se passa um dia sem que um deles não protagonize episódio bizarro. Por capricho ou vaidade, já derrubaram até ministro. Já armaram futricas contra gente graúda. Já cutucaram militares. Já se indispuseram com meio mundo. Na louvável intenção de ajudar o pai, ainda vão ser responsáveis por sua perdição. O levantamento do Ibope está aí plantado como presságio: «Depois não digam que não avisei».

Um século de pérolas presidenciais ‒ bis

Texto publicado originalmente em 28 jun° 2015

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

Presidente 3“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.

O baile das eleições

Vera Magalhães (*)

Uma parcela do eleitorado abraçou um candidato que vocifera contra a política mesmo vivendo dela há quase três décadas e nela colocando toda a família, que diz não entender nada de economia e promete vagamente cumprir um programa que é o oposto da sua vida parlamentar, sem ter maioria mínima para mudar nem nome de praça.

Do outro lado do salão de baile, está o eleitor que viveu a ilusão da pujança dos governos Lula, foi perdendo tudo aos poucos e se esqueceu que houve Dilma Rousseff, também criada por ele, para levar o país à breca e à situação em que eles se encontram hoje.

Os dois lados do salão do baile do pé na jaca da democracia achincalham a imprensa, flertam com a modificação da Constituição e com a relativização da democracia de forma irresponsável, com o beneplácito de seu eleitorado disposto a beber até o último gole.

(*) Vera Magalhães é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado pelo Estadão em 16 set° 2018.

Reiva

José Horta Manzano

Doutor Aécio foi «tornado réu», como convém dizer. Apesar de acusado de crime pesado, continua no circuito Elisabeth Arden da justiça brasileira. Permanece na crista da onda, por cima da carne seca e, principalmente, longe do juiz Moro. Distinção é pra quem merece.

A gente se exaspera com as estrepolias do pessoal lá de cima. É crime que não acaba mais. Deputado, senador, ministro ‒ não há fronteira para o malfazer. Mas até no campo criminal, uns atos são mais graves que outros.

O «malfeito» de doutor Aécio é particularmente grave. Esse moço teve mais de 50 milhões de votos ‒ inclusive o meu. Não é que eu o conhecesse ou o apreciasse em especial, mas era a barreira contra doutora Dilma.

Do lulopetismo, já se conhecia boa parte da podridão. O ex-governador de Minas se apresentou como paladino da justiça, como guardião da retidão. Daí a maior gravidade de seus crimes.

Os delitos materiais ‒ malas de dinheiro pra cá e pra lá ‒ têm peso definido pela lei. Já a afronta moral operada por esse senhor contra a metade do povo brasileiro que lhe deu o voto tem alcance incomensurável. É verdadeiro atentado, ainda que não catalogado na lei. A gente se sente despeitado pela ousadia do elemento que, embora vestisse trajes de cavalheiro, não passava de um cafajeste, um canalha que deu uma rasteira em 50 milhões!

Como diria Adoniran Barbosa, dá «uma baita duma reiva»(*).

(*) Num dos falares paulistanos dos anos 1950, “réiva” era raiva. Aparece no Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa e Alocin.

Frases do Lula

José Horta Manzano

O Globo listou 25 frases marcantes do ex-presidente do Brasil, publicadas pelo quotidiano desde a década de 90. Estavam guardadas na minha gavetinha. Achei que hoje valia a pena publicá-las.

1) “De todos os deputados do Congresso Nacional, há pelo menos 300 picaretas. E eles foram eleitos, não caíram lá de paraquedas. São políticos que põem seus interesses acima de suas obrigações com a comunidade.”
Em 9/9/1993, referindo-se ao envolvimento de parlamentares no escândalo da CPI do Orçamento, durante o governo de Itamar Franco.

2) “Nunca fui candidato a santo.”
Em 12/5/2004, durante café da manhã com líderes da base do governo, ao comentar expulsão de jornalista de “New York Times”. Caso havia criado desconforto internacional, gerando comentários de jornalistas ao redor do mundo, inclusive do porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Richard Boucher.

3) “Sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta e é uma necessidade orgânica, da espécie humana e da espécie animal. Como não temos controle disso, o que precisamos é educar.”
Em 7/3/2007, ao defender a distribuição gratuita de camisinhas no lançamento de plano para conter a disseminação da aids entre as mulheres.

4) “Crie um G que o Brasil vai estar lá dentro. Não tem país mais preparado para achar o ponto G que o Brasil.”
Em 12/2/2010, ao falar sobre a participação do país em grupos como G20, G4 e G8. Lula foi a Goiânia inaugurar uma barragem e uma escola em uma vila onde casas populares estavam sendo construídas.

5) “Não interessa se foi A, B ou C. Todo o episódio foi como uma facada nas minhas costas.”
Em 29/12/2005, ao comentar sobre o Mensalão durante entrevista ao programa “Fantástico”.

6) “Sou que nem massa de bolo. Quanto mais batem, mais cresço.”
Em 11/5/2006, ao comentar a relação entre a crise política e seu desempenho nas pesquisas.

7) “O caos aéreo é como uma metástase. A gente acha que está tudo bem, mas só descobre que o problema é bem maior quando ele surge.”
Em 2/8/2007, ao admitir ter sido surpreendido pela crise aérea.

8) “Estou preparado para enfrentar mais essa batalha e acho que nós vamos conseguir tirar de letra. Basta que a gente siga recomendações médicas, basta que a gente faça aquilo que precisa ser feito. Acho que vou vencer esta batalha. Não foi a primeira e não será a única batalha que eu vou enfrentar. Com a solidariedade de vocês, vai ser muito mais tranquilo, muito mais fácil.”
Em 1/11/2011, em vídeo gravado ao sair do hospital após receber o diagnóstico de câncer na laringe.

9) “Lá (nos EUA), ela é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.”
Em 4/10/2008, ao debochar dos efeitos no Brasil da crise mundial, que estourara no mês anterior com a quebra do gigante bancário americano Lehman Brothers, revelando-se a crise mais severa enfrentada pelo planeta desde a Grande Drepressão dos anos 30.

10) “É uma crise causada, fomentada, por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis, que antes da crise parecia que sabia tudo e que, agora, demonstra não saber nada.”
Em 26/3/2009, ao falar sobre os responsáveis pela crise mundial que abalou a economia mundial a partir de 2008. O presidente estava ao lado do então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que tem olhos claros. Com razão, o visitante estrangeiro pareceu constrangido com o comentário.

11) “Você não acha chique emprestar dinheiro para o FMI? E eu, que passei parte da minha juventude carregando faixa em São Paulo: ‘Fora FMI!’”
Em 3/4/2009, ao confirmar, durante reunião do G20 (grupo de países mais ricos e os principais emergentes), que o Brasil iria se tornar, pela primeira vez, credor do Fundo Monetário Internacional (FMI).

12) “Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.”
Em 22/10/2009, em entrevista à Folha de S.Paulo, ao ser questionado sobre seus aliados políticos.

13) “Uma mulher não pode ser submissa ao homem por causa de um prato de comida. Tem que ser submissa porque gosta dele.”
Em 15/1/2010, durante discurso na cerimônia de lançamento da pedra fundamental e de início das obras da Refinaria Premium I, numa frase politicamente incorretíssima.

14) “O povo pobre não precisa mais de formador de opinião. Nós somos a opinião pública.”
Em 18/11/2010, ao acusar, durante comício em Campinas, a imprensa de não agir de forma democrática. A frase revelou particular ausência de modéstia.

15) “Parece um governo de mudos.”
Em 18/6/2015, ao criticar Dilma Rousseff (sua cria política) e os ministros dela, principalmente os do PT.

16) “É um triplex minha casa minha vida.”
Em 4/3/2016, durante depoimento prestado à Polícia Federal (PF) sobre triplex no Guarujá (SP), mostrando desdém pelas moradias entregues aos mais pobres. Na época da reportagem do Globo, a PF investigava se a empreiteira OAS havia reformado o apartamento para uso da família Lula em troca de benefícios.

17) “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando. (…) Tchau, querida.”
Em gravação telefônica divulgada no dia 16/3/2016, em que Dilma dizia estar mandando termo de posse como ministro da Casa Civil, o que concederia ao Lula o direito a foro privilegiado.

18) “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT e o PCdoB acordaram e começaram a brigar. Nós temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido, não sei quantos parlamentares ameaçados, e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e que vai todo mundo se salvar. Eu, sinceramente, tô assustado com a “República de Curitiba”. Porque, a partir de um juiz de 1ª instância, tudo pode acontecer ‘nesse’ país.”
Em gravação telefônica divulgada no dia 16/3/2016, em que Lula, em conversa com a presidente Dilma Rousseff, atacou setores e instituições do governo.

19) “Nem o Moro, nem o Dallagnol, nem o delegado da Polícia Federal tem a lisura, a ética e a honestidade que eu tenho nestes 70 anos de vida.”
Em 24/4/2017, durante evento do PT que discutia os efeitos da Operação Lava-Jato no país. Lula reclamou da atuação dos investigadores e atacou o procurador Deltan Dallagnol, a quem chamou de “moleque”. Releve-se a pequena marca de vaidade do ex-presidente que, à época, já tinha completado 71 anos.

20) “Nós estamos reivindicando a participação na OMC porque achamos que o Brasil é um país que tem muita importância.”
Em 28/1/2005, durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O Brasil já fazia parte da organização na época.

21) “Sabe, porque… até a Clara Ant (…) porque fica procurando o que fazer. Faz um movimento da mulher contra esse filho da puta. Porque ele batia na mulher, levava ela pro culto, deixava ela se foder, dava chibatada nela. Cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido?”
Em 15/3/2016, sobre uma suposta falta de ação das feministas do PT, em telefonema ao ex-ministro Paulo Vannucchi gravado com autorização judicial.

22) “No Brasil é assim: quando um pobre rouba, ele vai para a cadeia, mas quando um rico rouba, ele vira ministro.”
Em 14/2/1988, ao comentar reportagem do Globo que revelara um dossiê no Palácio do Planalto com nomes de parlamentares que receberam doações de empresas na eleição de 1986. Para Lula, o governo deveria “mandar prender”, e não divulgar lista de políticos com recursos ilegais.

23) “Prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante, por estar mudando na medida que as coisas mudam. Não tenho a dureza de um partido comunista ortodoxo.”
Em 6/12/2007, sobre a mudança de opinião a respeito da CPMF, imposto contra o qual lutou quando foi aprovado em 1996, mas que tentou prolongar a sua existência durante seus dois mandatos.

24) “Eu e Palocci somos unha e carne.”
Em 28/4/2005, ao elogiar e declarar confiança no novo ministro da Fazenda, o médico Antonio Palocci.

25) “Eu conheço o Palocci bem. Se o Palocci não fosse um ser humano, ele seria um simulador. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. É médico, calculista, é frio.”
Em 14/9/2017, durante depoimento ao juiz Sérgio Moro. Lula foi acusado pelo ex-companheiro Antonio Palocci de fazer um “pacto de sangue” com a construtora Odebrecht.

O ocaso da narrativa de Lula

José Fucs (*)

Foram-se os tempos em que Lula, o PT e seus aliados à esquerda conduziam a opinião pública do País a seu bel-prazer. Lula pode até aparecer na frente nas pesquisas, mas, nesta altura, sem candidaturas definidas, nem a dele próprio, isso não quer dizer muita coisa. Hoje a população está muito bem informada sobre o tudo o que ele aprontou e o estrago que causou ao país.

Voto dos residentes no exterior
Eleições presidenciais 2014, segundo turno.
Infográfico de O Globo

Condenado em 2ª instância, Lula perdeu a aura faz tempo, embora relute em admitir isso em público. Os protestos que enfrenta por onde passa e os atos minguados promovidos pelo PT e seus satélites atestam o que qualquer observador minimamente atento pode constatar a olho nu.

A narrativa de Lula e do PT perdeu a hegemonia. Hoje, apesar de alguns lampejos, ela só entusiasma a tropa de choque do partido e a turma do “me engana que eu gosto”, além de um punhado de brasileiros que vivem no exterior e de simpatizantes infiltrados em órgãos internacionais.

(*) José Fucs, jornalista, exibe currículo opulento com passagem por órgãos tais como: Estadão, Folha de São Paulo, Exame, Gazeta Mercantil.

Nota deste blogueiro

Não contesto que haja «um punhado» de lulistas no exterior. Mas esse punhado já era minguado em 2014 e deve ter encolhido ainda mais nos dias atuais.

Registre-se que, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, Dilma não chegou a 23%. Aécio, cujo lado sombrio ainda era desconhecido, ganhou de lavada, com 77%.

Para o Juízo Universal

J.R.Guzzo (*)

O Supremo Tribunal Federal já deixou, há muito tempo, de ter alguma relação com o ato de prestar justiça a alguém. O que se pode esperar da conduta de sete ministros, entre os onze lá presentes, que foram nomeados por um ex-presidente condenado a doze anos de cadeia e uma ex-presidente que conseguiu ser deposta do cargo por mais de 70% dos votos do Congresso Nacional?

Outros três foram indicados, acredite quem quiser, por José Sarney, Fernando Collor e Michel Temer. Sobra um, nomeado por Fernando Henrique Cardoso – mas ele é Gilmar Mendes, justamente, ninguém menos que Gilmar Mendes.

Deixem do lado de fora qualquer esperança, portanto, todos os que passarem pela porta do STF em busca da proteção da lei. Quer dizer, todos não ‒ ao contrário ‒, o STF é o melhor lugar do mundo para você ir hoje em dia, caso seja delinquente cinco estrelas com recursos financeiros sem limites para contratar advogados milionários.

O STF, no fundo, é uma legítima história de superação. Por mais que tenha se degenerado ao longo do tempo, a corte número um da Justiça brasileira está conseguindo tornar-se pior a cada dia que passa e a cada decisão que toma.

Ninguém sabe onde os seus ocupantes pretendem chegar. Vão nomear o ex-presidente Lula para o cargo de Imperador Vitalício do Brasil? Vão dar indulgência plenária a todos os corruptos que conseguirem comprovar atos de ladroagem superiores a um milhão de reais? Vão criar a regra segundo a qual as sentenças de seus amigos, e os amigos dos amigos, só «transitam em julgado» depois de condenação no Dia do Juízo Universal?

(*) José Roberto Guzzo é jornalista e colunista.
O texto foi extraído de artigo publicado no site da revista Veja. Vale a pena continuar a leitura.

Aos quatro ventos

José Horta Manzano

O Estadão, jornal brasileiro de referência, inaugurou estes dias um site voltado para as eleições deste ano. Apropriadamente, deu-lhe o nome de BR18. Como convém nestes tempos em que a imagem obrigatoriamente acompanha os fatos, criou uma identificação visual. Ei-la:

O desenho surpreende pela simplicidade e pela sobriedade. Não sei se terá sido intencional, fato é que sintetiza a realidade destas eleições. Repare o distinto leitor que os traços se projetam a todos os quadrantes, sem uma direção preferencial. É um desenho quadrifurcado, uma esquina a partir da qual todos os caminhos são possíveis, retrato acabado da encruzilhada em que nos encontramos.

De 1964 pra cá ‒ com a solitária exceção de 1989 ‒, o resultado de eleições presidenciais era previsível. Durante o regime militar, dúvidas não havia: fosse qual fosse o ungido, nenhum solavanco seria de esperar. Em 89, a disputa foi mais aberta, mas… deu no que deu.

Nos anos seguintes, as vitórias de FHC, do Lula e de Dilma não chegaram a surpreender. Idem para o desempenho deles. Cada um fez o que a própria capacidade lhe permitia, sem causar espanto em ninguém. (A não confundir desempenho na função com torrente de corrupção, que esta já pertence à alçada criminal.)

Estamos de novo diante de um cenário do tipo 1989, só que potencializado. Perigamos ter um candidato fazendo campanha detrás das grades. Os demais são mais do mesmo. A ansiada novidade, aquela figura capaz de injetar ânimo no eleitor, não apareceu. Vamos continuar encarando a urna por obrigação, não por convicção. Será mais pra evitar multa que por entusiasmo.

Caso nas próximas semanas não surja um candidato confiável, teremos de nos conformar: o Macron brasileiro fica pra próxima.

Dinheiro vivo

José Horta Manzano

Olhando assim, distraidamente, a gente quase não se dá conta, mas o fato é que a vida de corrupto está cada dia mais complicada. Corrupção sempre houve e não está perto de acabar mas antigamente passava praticamente despercebida. Uma vez a cada morte de papa, estourava um escândalo ‒ que costumava acabar numa confraternização em torno de uma bela pizza. E tudo bem.

A tendência a descerrar a cortina entrou na pauta do dia. O fator principal foi o advento da internet, que escancarou portas para a propagação da informação em larga escala e em alta velocidade. Muito lixo inútil circula na rede, mas quem tem o cuidado de separar o joio do trigo encontra informações preciosas. Sem o concurso da internet, a própria Operação Lava a Jato não teria tido o sucesso espetacular que teve.

Não devemos perder de vista que, apesar do sentimento difuso de impunidade continuada, terminamos o ano de 2017 com um balanço extraordinário, fora dos padrões nacionais. Temos um ex-presidente condenado a quase dez anos de gaiola, uma presidente destituída, os dois maiores figurões políticos da primeira década do século em prisão domiciliar ou fechada (Dirceu & Palocci). Sem contar governadores de Estado, prefeitos, deputados, senadores presos e condenados. Até o Maluf entrou em 2018 vendo o sol nascer quadrado. Um espanto!

A acelerada extinção de paraísos fiscais confiáveis tem dado dor de cabeça a muita gente com dinheiro para esconder. Nem a Suíça escapou! Os portos seguros que subsistem nem sempre inspiram confiança. Alguém cometeria a temeridade de guardar fortuna no Panamá ou em Chipre?

Doleiros existem às centenas. Quem quiser mandar para o exterior (ou de lá mandar vir) cinco ou dez mil dólares não encontrará problemas. Já pra dinheiro grosso, a história é diferente. Os grandes atores brasileiros do mercado de transferência internacional de capitais estão na cadeia ou com tornozeleira. A quem apelar?

Sobrou a última desesperada opção: guardar dinheiro em casa. Ninguém há de se esquecer da foto do ano, aquela que mostra um apartamento abarrotado com mais de cinquenta milhões. É a prova das atuais dificuldades de movimentar grandes montantes. Em outras épocas, aquela fortuna já estaria agasalhada em Genebra, em Luxemburgo ou em Jersey.

Mas o pior vem agora. Dia 1° de janeiro entrou em vigor instrução normativa exarada pela Receita Federal regulamentando movimentação em espécie. Todo pagamento acima de 30 mil reais em dinheiro será obrigatoriamente declarado, por quem recebe, à Receita Federal. Realmente, a coisa está preta.

Por curiosidade, fiz as continhas. Pra escoar aqueles 51 milhões encontrados no apartamento baiano ‒ pagando no máximo 29 mil reais de cada vez, para escapar ao contrôle ‒ seria preciso fazer 1750 pagamentos. E deixar um certo espaço de tempo entre cada um deles, que é pra não dar na vista. Já imaginou a mão de obra?

Francamente, corruptos profissionais precisam seriamente pensar em mudar de profissão.

 

Turismo à nossa custa

José Horta Manzano

Corrupção, peculato, prevaricação, concussão, malversação são termos que se ouvem quotidianamente. Embora se os chame pudicamente «malfeitos», são atos criminosos tipificados pelo Código Penal Brasileiro no capítulo que trata dos crimes praticados por funcionário público(*) contra a administração.

Estes últimos anos, o aumento de volume deles coincidiu com a expansão vertiginosa da propagação de notícias. O resultado é um jorro contínuo de coisas tortas. Francamente, não dá pra esconder mais nada. Mesmo assim, na maior parte do tempo, terminam em nada. Ou em pizza, se preferirem.

O exemplo mais recente de malversação de dinheiro público está sendo dado estes dias por ninguém menos que o presidente da Câmara Federal ‒ o primeiro nome na atual linha sucessória da presidência da República. Doutor Maia convocou a esposa e mais nove(!) deputados federais para um giro de uma semana por Oriente Médio, Itália e Portugal. A orla mediterrânea tem clima muito quente no verão, razão que deve ter levado Sua Excelência a escolher este comecinho de novembro. Passeia-se mais à vontade.

A razão oficial da viagem não ficou clara. Falou-se vagamente em «motivação diplomática», seja lá o que isso queira dizer. Vários indícios põem em dúvida a alegação. O primeiro-ministro de Israel recusou-se a receber os parlamentares. O prefeito de Jerusalém idem. Dois ou três encontros com parlamentares locais foram de mera cortesia e não duraram mais que 20 minutos. Na maior parte do trajeto, a presença de jornalistas e de fotógrafos não foi admitida.

A viagem se fez em avião da FAB. Hospedagem em hotel de cinco estrelas e alimentação também vão para a conta do contribuinte brasileiro. O deputado Orlando Silva, do Partido Comunista, faz parte da comitiva. É aquele que foi ministro do Esporte tanto do Lula quanto da doutora. O moço é lembrado por ter usado cartão corporativo do governo federal, certa ocasião, para pagar uma tapioca. Supõe-se que, no Oriente Médio, não se tenha contentado com churrasquinho grego. Por lá, há restaurantes supimpas. Os preços são elevados, mas… que importa? Quem paga somos nós.

Sabe o distinto leitor o que vai acontecer com esses parlamentares quando voltarem? É claro que sabe: nada.

Malversación
Semana passada, os deputados regionais da Catalunha (Espanha) votaram a independência do território. Considerando que os parlamentares cometeram uma ilegalidade e violaram a Constituição, a Justiça nacional abriu processo contra os principais implicados.

Entre os crimes dos quais são acusados, está a malversação, o desbarato de dinheiro do contribuinte. De fato, o plebiscito que organizaram, à valentona, em 1° de outubro custou mais de um milhão de euros aos cofres públicos. Caso sejam considerados culpados com circunstâncias agravantes, a pena pode chegar a oito anos de prisão acrescida de perda dos direitos civis por um prazo de até 20 anos.

Se o mesmo rigor fosse aplicado aos parlamentares brasileiros, não sobraria muita gente no Congresso.

(*) Funcionário público
No Artigo 327, o Código Penal Brasileiro define como funcionário público, para efeitos penais, «quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública». Durante o exercício do respectivo mandato, portanto, todo parlamentar é funcionário público.

Pré-sal

José Horta Manzano

Uns dez anos atrás, falou-se muito no petróleo a extrair do fundo do mar que beira a costa brasileira, tesouro escondido debaixo de alentada camada de sedimentos e de sal. À época, nosso guia & acólitos chegaram a posar para fotos fantasiados de operário da Petrobrás, com as mãos lambuzadas de óleo. Até Hugo Chávez, que ainda não se havia transmutado em passarinho, chegou a comentar, com uma pontinha de inveja, que o Brasil estava para converter-se em potência petroleira.

Depois disso, mazelas antes inimagináveis começaram a emergir. O governo da doutora foi um desastre. Veio a Lava a Jato. Os podres de nosso guia e de toda a (extensa) turma vieram a público. A Petrobrás, rapinada e maltratada, por pouco não desmoronou. No corre-corre, o assunto do pré-sal saiu de foco. O que cada um queria mesmo era salvar a própria pele.

Hoje o tema ressurge. Os optimistas dirão que é bom sinal: indica que o pior da tempestade político-policial passou. Não tenho tanta certeza, mas vamos admitir que assim seja. É hora de examinar de perto o significado dessa reserva, desconhecida até poucos anos atrás.

Por mais que Mister Trump tape os olhos com peneira, as mudanças climáticas se tornam mais evidentes a cada dia. Países mais adiantados implementam políticas de substituição de combustível fóssil por fontes de energia renováveis. A Alemanha já decretou que, o mais tardar em 2030, proibirá a circulação de veículos com motor a combustão ‒ o que exclui todos os movidos a gasolina, óleo diesel, querosene ou mesmo gasogênio. Somente veículos movidos por energia não-poluente serão permitidos.

Se a humanidade ainda existir daqui a 500 anos, fico imaginando o que os terráqueos de então pensarão de nós. A queima desmedida de óleo fóssil para mover automóveis será vista como um dos maiores desatinos já praticados pela humanidade primitiva dos séculos 20 e 21. Além de poluir a atmosfera da qual dependemos todos, a combustão de derivados de petróleo desperdiça uma riqueza que levou milhões de anos para se constituir.

Dê uma olhada a seu redor, distinto leitor. Bote reparo nos objetos que o cercam. Uma tela de computador? Um telefone celular? Uma caneta? Uma almofada? Um tapete? Um copo? Uma folha de plástico? A moldura envernizada de uma porta? Pois há forte chance de que, na composição de cada um desses objetos, tenha entrado algum derivado de petróleo.

Por que, então, extrair a fórceps essa riqueza? Para queimá-la em motor poluente de automóvel? Não faz sentido. No Brasil, não é o dinheiro que falta. Nosso problema maior, como todos hoje se dão conta, é o roubo e o malbarato do dinheiro público. Uma (pequena) diminuição da corrupção nas altas esferas trará mais benefício do que a exploração do pré-sal. De quebra, as gerações futuras agradecerão.

A doutora na Finlândia

José Horta Manzano

A Finlândia me é simpática. Não fosse por outro motivo, foi ali que passei meu exame de motorista e recebi minha primeira carteira. Já faz muito tempo, mas guardo o documento de lembrança até hoje ‒ uma cadernetinha, como se usava na época, com páginas hoje amarelecidas. Os dados eram todos inscritos à mão numa língua que poucos conseguem ler. Bons tempos.

Doutora Dilma está estes dias na Finlândia. Ninguém sabe direito o que madame estará fazendo por lá além de desancar com nossas instituições e denegrir ainda mais a imagem do país. Por falar nisso, ninguém sabe ao certo o que a doutora tem feito estes últimos vinte anos. Além da saudação à mandioca e ao ET de Varginha, a memória coletiva nacional não guardou lembranças imperecíveis de sua passagem pelas altas esferas.

Em vista da viagem, ela solicitou ao Planalto que lhe fossem concedidos três assessores ‒ pagos com nosso dinheiro, naturalmente. O pedido foi acolhido. Assim, estamos nós todos financiando o alegre giro turístico da antiga presidente e de seus esforçados companheiros. Segundo a revista Época, ela pretende espichar a vilegiatura por 12 dias, entre Finlândia e Rússia. Rancorosa, continuará insistindo, em palestras diversas, na demolição das instituições do país.

Ao final do passeio, madame terá perdido mais uma vez. Não conseguirá ser reintegrada na presidência nem terá convencido finlandeses ou russos, quem têm outras fontes de informação além da fala confusa da palestrante. Aliás, nós outros, na qualidade de financiadores do giro, também teremos perdido. Pagaremos para dar à doutora a ocasião de admirar as cores deste começo de outono naquela região de floresta boreal.

Já na primeira palestra, proferida na Universidade de Helsinque, madame asseverou que o Lula estará na eleição de 2018 «vivo ou morto». Taí afirmação que, em matéria de surrealismo, rivaliza com a saudação à mandioca. Disse mais a ilustre palestrante. Assegurou que o Lula «sempre estará presente porque ele não é mais uma pessoa: já é um projeto».

Quem não há de ter apreciado é o próprio Lula. Ao dizer que o demiurgo, mesmo morto, pode participar de uma eleição por já se ter transformado em projeto, a doutora não faz um favor a seu criador. Admite, nas entrelinhas, que, ainda que esteja detrás das grades acolhedoras de Curitiba, nosso guia participará ‒ em espírito ‒ da eleição. Com amigos assim, o ex-presidente não precisa de inimigos.

Resumo da ópera: segundo a doutora, o projeto lulista continuará assombrando a próxima eleição. A candidatura do torneiro mecânico, na ótica de madame, não é indispensável. Qualquer um que encarne o suposto projeto serve. Te esconjuro!

Só fico com pena dos encarregados de traduzir o dialeto em que a doutora exprime seu pensamento confuso. Pra traduzir, é obrigatório ter entendido. Nós não entendemos, e intérpretes estão no mesmo barco. Que mensagem estarão passando a atônitos finlandeses e russos?