Ah, ça ira!

José Horta Manzano

Libération, veterano jornal da esquerda francesa, se pergunta se a epidemia de Covid-19 vai finalmente forçar o Brasil a cobrar impostos dos ricos. Esclarece que nosso país figura entre os mais desiguais do mundo, somente comparável a certos países da África ou do Oriente Médio. A diferença de posses entre os que têm mais e os que têm menos é brutal.

Explica que 206 bilionários brasileiros detêm 20% da riqueza nacional. Vamos fazer umas continhas. O país tem 200 milhões de habitantes. Vinte porcento da população dá 40 milhões de pessoas. Portanto, 206 ricaços possuem o que, em teoria, deveria pertencer a 40 milhões de compatriotas. É chocante. Diferenças sempre há, mas distorções a esse ponto são inconcebíveis num mundo civilizado.

O jornal francês assinala que o imposto é cobrado principalmente do consumo ou seja: do arroz e do feijão, da gasolina, das fraldas do bebê, do cafezinho e da farinha de mandioca. Portanto, pesa muito mais no bolso dos desfavorecidos. Os altos rendimentos são poupados. No Brasil, a alíquota máxima é de 27,5%, enquanto a média na OCDE é de 43,5% – um cruel desequilíbrio.

Apesar de suas simpatias pela esquerda, o jornal confessa que nem Lula e seu PT, em 13 anos de poder, ousaram corrigir as distorções. Ao contrário: se a era Lula fez os pobres um pouco menos pobres, em compensação, deixou os ricos bem mais ricos.

Libération conclui filosofando: no Brasil, os ricos ainda têm belos dias pela frente.

Aqui no original francês.

(*) O título deste post – Ah, ça ira! – faz referência a um refrão que surgiu em 1790, como prenúncio da Revolução Francesa. Ao longo dos anos, inúmeras versões e paródias se encaixaram na métrica dos versos. A mais ameaçadora delas é justamente a mais conhecida:

Ah, ça ira, ça ira
Les aristocrates, on les pendra!

Em tradução livre, fica assim:

Sim, venceremos, venceremos
Os aristocratas, enforcaremos!

Que fique claro: este blogueiro já passou da idade de ser incendiário. Não estou recomendando mandar nenhum bilionário para o patíbulo.

Discurso assombroso

José Horta Manzano

Hoje o Brasil acordou em efervescência por causa do discurso do presidente. Foi pronunciamento assombroso. Tome-se assombroso no sentido literal: discurso que lança sombra sobre o destino dos brasileiros; um falatório que ensombreia e apaga a luz que tínhamos esperança de ver no fim do túnel.

Não adianta procurar, na fala presidencial, algum traço de coerência: não há. Que não se busque tampouco linha de conduta ou objetivo fixado: não há.

É interessante comparar o modo de agir dos dois grandes falastrões que se sentaram na poltrona presidencial neste começo de século: Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O Lula, finório por natureza, modulava o discurso de acordo com a plateia. Embora soltasse alguma asneira aqui e ali, era mais astuto. Sabia, por intuição, até onde podia esticar a corda; ao discursar, não costumava transgredir as regras da decência. Via de regra, seu discurso mostrava compaixão para com os menos favorecidos, atitude que invariavelmente lhe angariava simpatia. Tudo era da boca pra fora, mas isso só se soube mais tarde.

Doutor Bolsonaro tende a comportar-se como um Lula da Silva sem talento. Não é orador (mal sabe enunciar as palavras); não tem rumo; não é astuto; é fraquinho de intuição; desconhece as regras da decência; não deu mostras, até hoje, de nenhuma preocupação social. Ora, com todas essas insuficiências, a coisa se complica. Como fazer um discurso? Que dizer?

Homem de visão

Atualmente, discursos importantes estão sendo preparados por assessores de cunho radical. O problema maior é que tanto Bolsonaro quanto os que o rodeiam vivem encerrados dentro de uma bolha, fechados ao exterior, ignaros do que acontece no Brasil e no mundo. Como não têm programa nem falam para todos os brasileiros, discursos são moldados com um só propósito: alimentar a torcida alojada nas redes sociais.

No fundo, o presidente não está nem aí para o fechamento ou a abertura de comércios, transportes, serviços. Ele não vive no mundo real em que vivemos nós, mortais. Comida, na sua despensa, não vai faltar. Jatinhos da FAB suprem a falta de aviões. Seu cabeleireiro vem atendê-lo dentro do palácio. Portanto, se prega o fim atabalhoado da quarentena, é porque está tentando agradar à sua torcida.

Não tentem analisar nem encontrar lógica. Não encontrarão. Taí a razão pela qual o canal de comunicação entre o presidente e a maior parte da população está entupido. É que ele vive dentro da bolha; nós não. A lógica dos que habitam na bolha é interesseira e visa a manter privilégios. A nossa, cá fora, é de sobrevivência: gostaríamos todos de chegar sãos e salvos ao fim desta crise.

Falando em crise, quando é mesmo que o doutor vai mostrar o resultado de seu teste de Covid-19 assinado pelos diretores do hospital? Fica cada dia mais evidente que o dele deu positivo. Será que ele pretende continuar a contaminar, sem pudor, todos os que dele se aproximam? De um Bolsonaro, pode-se esperar tudo.

Lula levanta poeira

José Horta Manzano

A vinda de Lula da Silva a Paris continua levantando poeira. Tanto seus admiradores quanto seus críticos estão em ponto de bala. Do lado dos admiradores, está, em primeiro lugar, a prefeita de Paris. Madame Anne Hidalgo foi autora do convite e idealizadora da outorga da cidadania parisiense honorária ao ex-presidente do Brasil. O convite feito ao Lula é interesseiro: no final, é ela a grande beneficiária da popularidade que ele ainda goza na Europa.

É curioso que, na cabeça da maioria dos europeus, tenha ficado marcada a imagem de um Lula benevolente, caridoso, justo, pai dos pobres. O outro capítulo da novela – o assalto ao erário e as condenações – ainda não passou por aqui. Por que isso acontece? Para mim, é um enigma.

Há quem atribua a magia à máquina de propaganda do lulopetismo. Não acredito. Essa máquina não era forte a ponto de manter o herói no pedestal apesar de todo o infortúnio que se abateu sobre ele desde que deixou a presidência.

Como se sabe, a mente humana é seletiva: digere as verdades que lhe interessam e repele as que lhe são incômodas. Na minha visão, a opinião que europeus têm de Lula da Silva se encaixa nessa mecânica. Registraram a parte boa e rejeitaram os podres. Talvez o identifiquem com a figura tragicômica daquele que rouba mas faz. Trocado em miúdos, o raciocínio do europeu fica assim: naquele país, roubar, todos roubam; este, pelo menos, pensou nos mais pobres.

Fenômeno semelhante aconteceu com Mikhail Gorbatchev, respeitado e paparicado no exterior, mas malvisto em seu país. Sua gestão levou liberdade ao povo russo, razão suficiente para mantê-lo no pedestal dos europeus. Já os russos estão do outro lado do espelho. Por lá, a popularidade do antigo mandatário é sofrível; ele é visto como aquele que fez o império russo virar pó.

Madame Hidalgo não para de falar do Lula. É “Lulá” pra cá, é “Lulá” pra lá. O partido dela, o PS (Partido Socialista) está em declínio acentuado há uma década. Nas últimas eleições presidenciais, conseguiu apenas 6,4% dos votos. A estratégia de Madame é encobrir o nome do partido, omitir os podres de sua gestão como prefeita, e mostrar só coisas boas – como a presença do Lula, por exemplo.

É raro, mas acontece
O jornal francês Valeurs Actuelles, ancorado fortemente à direita, quase escorregando para a direita extrema, não vê o Lula como ‘pai dos pobres’. Fabricou hoje uma manchete assassina e mandou ver: «Lula: tentativa frustrada de ressurreição de um condenado por corrupção – com o apoio de Hidalgo, Hollande e Sarkozy».

Lula no palanque

José Horta Manzano

Você sabia?

Daqui a dez dias, como fazem a cada 6 anos, os eleitores franceses vão às urnas eleger vereadores e prefeitos. Apesar do protagonismo do coronavírus estes dias, a campanha corre solta, com beliscões, mordidas, acusações, revelações, golpes baixos.

Naturalmente, a disputa pela prefeitura de Paris atrai o interesse da nação inteira. Há já seis anos, a capital é governada pela franco-espanhola Anne Hidalgo, nascida Ana Maria Hidalgo Aleu. Ela nasceu na Espanha mas foi, ainda pequena, para a França, para onde a família emigrou. Perfeitamente bilíngue espanhol-francês, cresceu no país de adoção e naturalizou-se. Sempre militou no PS – Partido Socialista.

Madame Hidalgo concorre à reeleição. Sua mais recente jogada, que deixou boquiabertos e indignados os adversários, foi chamar Lula da Silva para dar uma forcinha em sua campanha. Ontem de manhã, valendo-se dos poderes que lhe confere o cargo de prefeita, Madame Hidalgo convidou-o para uma cerimônia oficial em que lhe concedeu o título de cidadão honorário de Paris. Horas mais tarde, nosso ex-presidente aparecia ao lado da prefeita num comício eleitoral. E não foi à festa sozinho: levou Dilma e Haddad.

Lula, Dilma e Haddad com a prefeita de Paris
2 março 2020

Os adversários de Madame Hidalgo chiaram. Disseram que não é normal ela gastar dinheiro público convidando gente e organizando cerimônias com a única finalidade de alavancar a própria candidatura.

No fundo, eles têm razão. Mas o que ela fez não é proibido; só pega mal. Quanto a nós, o importante é que nossos dois ex-presidentes, assim como doutor Haddad, não venham se servir na arca da Receita Federal para financiar viagens particulares. Acredito que não seja mais o caso. Além do que, o polpudo salário que se paga aos ex-presidentes dá pra essas ninharias.

Curiosidade
Nestas eleições francesas, uma centena de municípios não têm candidatos nem a prefeito, nem a vereador. Visto do Brasil, parece estranho. Como é que é?

O fato é que, num município pequeno, o salário é baixo e o trabalho, puxado. O prefeito funciona como padre no confessionário: tem de ouvir os problemas de cada um, resolver todos os conflitos, estar de prontidão o tempo todo. E, no final, o salário é baixo, não compensa.

Na França, salário de prefeito não é decidido em cada município. É fixado por lei nacional e varia de acordo com a população. Alguns exemplos:

Vilarejos de menos de 500 habitantes: 661,20 euros

Vilarejos entre 500 e 999 habitantes: 1.205,71 euros

Cidadezinhas entre 1000 e 3499 habitantes: 1.672,44 euros

E assim por diante, aumentando pouco a pouco, até chegar ao mais bem pago, o prefeito de Paris, que recebe 9.207 euros por mês.

Note-se que o salário mínimo em 2019 estava em 1.521 euros. É fácil entender que somente prefeito de cidade grande pode dar-se ao luxo de não ter outra atividade. A imensa maioria dos eleitos, depois de empossados, continuam a exercer sua profissão.

Quem quiser saber mais sobre o salário dos prefeitos franceses deve clicar aqui.

Quarta-feira

José Horta Manzano

Em vídeo lançado nas redes, doutor Bolsonaro autoqualificou-se de «presidente cristão, patriota, capaz, justo e incorruptível». A falsidade intelectual contida da frase é tamanha, que faz a desonestidade petista parecer coisa pouca. Aliás, em matéria de hipocrisia, o atual inquilino do Planalto está deixando o próprio Lula no chinelo. Uma façanha!

Em atitude pra lá de temerária, Bolsonaro encasquetou de convocar o povo pra afrontar o Congresso. Levando em conta que o Congresso foi eleito por esse mesmo povo, algo está fora de lógica. Enfim, como exigir lógica de um presidente desequilibrado?

A lei permite que o mandato de um indivíduo (congressista ou o próprio presidente) seja cassado. Há regras para isso, sem necessidade de botar o povo nas ruas. No entanto, não é possível fechar o Congresso, cassando assim, de facto, o mandato de todos os congressistas. Isso tem nome: é golpe de Estado.

Posso entender a boa intenção dos que votaram no Lula em 2002, assim como a dos que votaram no Bolsonaro em 2018. Por seu lado, tenho dificuldade em captar a lógica dos que votaram no lulopetismo depois do mensalão e do petrolão, assim como dos que apoiam doutor Bolsonaro depois de um desastroso primeiro ano no poder.

Respeito todos os apoiadores de um e de outro. Assim mesmo, recomendo a todos aproveitar esta Quarta-Feira de Cinzas pra dar uma passadinha numa igreja qualquer e tomar as cinzas – prática com a qual os fieis de antigamente se penitenciavam dos excessos carnavalescos. Pode servir pra apaziguar ânimos e aclarar mentes.

No avião

José Horta Manzano

Pouco importa que o presidente, os filhos, os áulicos e o guru sejam tremendos bocas-sujas. Como é de público conhecimento (apesar de algumas vozes discordantes), não vivemos no país de Joseph Goebbels. O fato de uma aberração ser repetida sem cesso não a faz entrar à força nos usos e costumes nacionais.

Doutor Guedes, aquele que, em três tempos, havia de tranformar o país de calhambeque em Rolls-Royce, escorregou na mesma casca de banana que seu entourage costuma pisar dia sim, outro também. Que o tivesse feito entre amigos acomodados ao redor de um copo de pinga – que digo! – de um uísque 18 anos, passaria. O problema é que escorregou em público. E o público, como se sabe, dificilmente perdoa a quem resvala.

Pra quem esteve de quarentena em Wu Han estes dias e perdeu o último capítulo, o enredo é simples. Em fala pública sobre o valor do dólar, doutor Guedes soltou esta: “Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, em função de importações, turismo, todo mundo indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Peraí”. (O grifo é meu.)

Seria cômico se não fosse trágico. Se Guedes ‘está’ ministro, é porque doutor Bolsonaro – seu chefe e empregador – assim quis. Bolsonaro foi eleito em contraponto ao lulopetismo, é verdade, mas unicamente porque o regime petista, na cabeça dos eleitores, tinha se tornado sinônimo de roubalheira. O que se queria era eliminar a podridão e manter as conquistas.

Empregada em avião… e daí? Pois ela já não vive dentro da casa de distintas famílias? Já não exerce a primordial função de primeira educadora de muito pimpolho bem-nascido? Por que é que no avião não pode? Será medo de coronavírus ou hipocrisia grossa?

Doutor Guedes não entendeu a cançoneta. Milionário, segundo dizem, é legítimo representante daquela gente de nariz empinado a quem o Lula apontava o dedo reprovador. Naquela época, muita gente fina acompanhou o dedo reprovador e acabou acreditando nessa conversa – que parecia generosa e humana – até que o próprio Lula escorregou no melado, se lambuzou, e foi parar na cadeia por corrupção. Será por isso que alguns narizes por aí estão se sentindo de novo livres pra se empinar. E será também por isso que certos doutores estão voltando a se horrorizar com doméstica em avião.

A chacoalhar desse jeito, o avião de doutor Guedes não chega a bom porto. Em país decente, ministro nenhum continuaria no cargo depois de dizer o que disse doutor Guedes. Vamos ver se Bolsonaro se toca.

Melhor que um ‘derby’

José Horta Manzano

Hoje não era dia de escrever, mas tem horas em que é difícil ficar de boca fechada. Ou de dedos parados, depende. A decisão que o STF tomou ontem valeu mais que um Fla-Flu – um derby, como se dizia antigamente. Que hoje convém escrever dérbi, coisa mais sem graça. A decisão foi daquelas que revelam o humor do momento sem dar indicações de como será o momento seguinte. (Falo do STF, não do ‘dérbi’, que isso é doutra freguesia.)

Sabemos hoje que o cidadão que delínque – e que tem dinheiro, isso é importante! – corre baixíssimo risco de ter de cumprir prisão. Se for condenado por um juiz de primeira instância, nada acontece: fica em casa. Se apelar e for recondenado por tribunal colegiado, nada acontece: fica em casa. Se reapelar e a culpabilidade for reconhecida pela terceira vez (pelo STJ), nada acontece: fica em casa. Se provocar o STF, tem 9 chances em 10 de o crime prescrever por decurso de prazo antes da decisão definitiva. Se – para um sujeito hiperazarado – o crime não estiver prescrito e a sentença for confirmada, basta aparecer em público com ar aparvalhado, babando ligeiramente, empurrado numa cadeira de rodas, munido de atestado médico. Nada acontecerá: voltará pra casa em «prisão domiciliar».

Não é uma maravilha? Que venham todos os bandidos do mundo pedir para serem julgados pela Justiça brasileira! Atenção: falo dos que têm dinheiro, naturalmente. São bandidos? Pouco importa. A isso, estamos acostumados. Uns a mais, uns a menos, não faz diferença. São ricos? Que transfiram a fortuna para o Brasil e que a apliquem em investimento produtivo, não especulativo. Será excelente injeção em nossa minguante economia. (De qualquer modo, há que convir: todas as montanhas de dinheiro que voam ao redor do planeta sofrem de alguma irregularidade passada, presente ou em preparação.)

E pare com essa cara de espanto! Na nossa terra querida, nada mudou. Aliás, as coisas estavam querendo mudar, mas estão voltando aos eixos. Estes últimos cinco ou seis anos, dominados por essa tal de Lava a Jato que ninguém sabe donde veio, tinham sido assaz incômodos pra muita gente fina. Agora as antigas certezas voltaram. Cadeia é só para os tres pês: preto, pobre e prostituta. Faz 500 anos que é assim! E não se fala mais nisso.

Nota de pé de página
Más línguas garantem que doutor Bolsonaro estourou champanhe ontem à noite. Lula solto é tudo o que ele queria. É a garantia de que, ainda que muita gente não aprecie, o segundo turno das próximas eleições presidenciais terá dois candidatos definidos desde já: a dupla inoxidável Lula x Bolsonaro.

A escolha vai ser pra lá de difícil. Fosse a eleição hoje, o Lula teria grandes chances. Daqui a três anos, tudo pode mudar. Daqui até lá, muito esgoto ainda há de passar por debaixo da Ponte da Freguesia do Ó.

A lógica do cidadão sem lógica

José Horta Manzano

A lógica do cidadão sem lógica é, às vezes, chamada de bom senso. Suas Excelências estarão discutindo, hoje, no STF, o futuro do entendimento atual sobre prisão em segunda instância.

Variando ao sabor da mudança de composição do colegiado – ou da bizarra mudança de posição de algum componente – a prisão do condenado condenado por tribunal simples e confirmada por tribunal de apelação já foi considerada legal, ilegal, legal, ilegal. No momento em que escrevo, vige. Amanhã, só Deus sabe. Vige!

A lógica do cidadão sem lógica é mais direta, sem essas nove horas. Não é cheia de nós pelas costas, como se dizia antigamente. Ela corre por fora de eventuais mudanças de (com)posição de togados. Baseada no bom senso, é menos política, mais simples e mais próxima do entendimento do eleitor.

A lógica do bom senso entende que a questão está mal formulada. Não se devia estar perguntando se é legal prender um indivíduo condenado duas vezes, uma das quais por tribunal colegiado. A pergunta correta é: como é possível que um tal indivíduo, duplamente condenado, ainda esteja fora das grades? Esse é o detalhe de nossa estranha Justiça que surpreende o observador não iniciado. Não conheço outro país onde se possa ver bizarrice assim. É mais comum ver encarcerados à espera de julgamento do que duplamente condenados que esperam em casa por uma terceira ou uma quarta confirmação que não se sabe quando virá.

Se o caso Lula da Silva é excepcional, assim deve ser tratado: com soluções e expedientes excepcionais. O que não vale é alicerçar jurisprudência de olho no caso desse cidadão. Que sua tropa de advogados exija impugnação do(s) tribunais que o condenaram. Que seja considerado inimputável. Que seja objeto de graça presidencial. Pouco importa. O que não pode é a Justiça brasileira continuar refém de um caso pessoal. Por mais importante que o atual condenado tenha sido em outra existência, seu caso pessoal não pode abalar a estrutura do ordenamento legal do país. Nem o (questionável) guilhotinamento do rei Luís XVI teve o condão de mudar a aplicação do Código Penal francês.

O Lula não pode ser o barômetro nem a estrela-guia da Justiça do Brasil. Não é ele quem dá o tom. Que se libere o Lula. Que se o tire da cadeia. Que se o despache para uma mansão cinematográfica construída numa praia caribenha paradisíaca, banhada por águas tépidas e translúcidas de cor turquesa. Que se o mande para o raio que o parta. Mas que os doutos e cultos espíritos que ocupam as onze poltronas do STF tenham a lucidez de encarar a realidade com a lógica do bom senso. Que admitam, de uma vez por todas, que lugar de criminoso condenado duas vezes – sendo uma por tribunal colegiado – é na cadeia.

Nota
Por minha parte, acredito que indivíduo condenado em primeira instância a cumprir pena de mais de dois anos de prisão já devia ser encarcerado. Recurso, todos interpõem, de qualquer modo. Ainda que o encarcerado apele à Justiça e requeira revisão da condenação, terá de esperar atrás das grades. Chame-se ele Luiz Ignacio ou Zé da Silva. Não é justo que os que dispõem de fortuna (por vezes mal amealhada) aguardem tranquilamente em casa, enquanto os demais sejam os únicos a serem presos.

Lula, Bolsonaro e a revolução

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 outubro 2019.

Uma revolução, pra dar certo, pede dois ingredientes essenciais: um líder e um programa. Se for complicado estruturar programa, que haja ao menos reivindicações consistentes. Pra puxar o trem, alguém terá sempre de assumir o papel de locomotiva, aquela que apita estrondosa e leva adiante o reclamo do populacho. Tem sido assim desde o tempo em que os bichos falavam.

Neste Brasil – que também é de todos os santos – revoluções andam capengas. Ora falta uma perna, ora falta a outra. Se há líder, falta programa; quando há programa, o que falta é o líder. Pra não espichar, vamos examinar o que ocorreu no vigor da atual Constituição, essa que já foi descrita como ‘cidadã’ mas hoje muitos olham de esguelha. Collor de Mello, por exemplo, trouxe, sim, boas ideias. Embora possa hoje parecer inacreditável, telefone e carro importado estavam fora de alcance do brasileiro médio. Se o trem andou, tributo seja prestado ao autoqualificado «caçador de marajás». Tirando a falta de jeito no trato da economia, até que havia ideias. Mesmo não revolucionárias, eram novas no Brasil. O que faltou foi liderança. Bem que o presidente tentou, mas, para ser locomotiva, não basta querer. Faltou lenha. Deu no que deu.

Após um interregno em que o vice foi içado de supetão sem se dar conta do que ocorria, subiu FHC. Dizer que o Brasil foi mal administrado naqueles anos seria inexato. Dizer que o governo foi desastroso seria rematado exagero. Foram oito anos sem história. O país avançou, sem dúvida, em muitos pontos. Mas marcou passo em inúmeros outros. Nem chegamos ao Brasil potência, nem saímos do Brasil miséria. Com as armas e o prestígio de que dispunha, FHC podia ter feito melhor. Revolução, portanto, não houve. O governo foi assim assim. Não há que dizer: a prova de que o povo ansiava por agito maior foi a eleição de Lula da Silva.

E ele foi eleito com louvor, como antigamente se dizia de aluno que mostrasse desempenho acima da média. Sua liderança era incontestável, talvez a mais sólida que este país já conheceu. Lula tinha, na mão, a faca, o queijo, o prato e a embalagem. Ideias, até que havia, que o PT tinha sido, até àquela época, partido programático. O que aconteceu a partir da subida da (até então) virtuosa agremiação corresponde a conhecido dito popular: quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza. Lambuzaram-se todos. Em poucos meses, estavam todos besuntados, engordurados, obesos e emporcalhados. A liderança se manteve, mas as ideias se perderam. Pra que ideias, quando se está no bem-bom? Revolução, que é bom, não houve.

Com a chegada de uma turbulência de nome Dilma e de um susto de nome Temer, enfrentamos aventurosa travessia de um Mar dos Sargaços nacional, com armadilhas e enroscos. Melhor até nem lembrar desse intervalo que a história, sábia, vai acabar esquecendo. Passado o sobressalto, chegou a vez de Jair Bolsonaro, candidato eleito par défaut, como dizem os franceses – por falta de opção. Nas primeiras semanas da nova gestão, as decisões pareceram esquisitas. Mudança da embaixada do Brasil em Israel e exclusão da Argentina de visita presidencial pareceram apenas pontos fora da curva. Não eram. Estavam perfeitamente alinhados com a curva. O futuro viria rapidinho confirmar que esquisitice, no novo governo, não era exceção, mas regra. Doutor Bolsonaro deixou passar todas as oportunidades de mostrar liderança. Ainda recentemente, afrontando os fiéis da religião mais arraigada e (ainda) majoritária, ajoelhou-se à frente de bispo neopentecostal. Dias depois, fez questão de esnobar a caravana que reverenciou Irmã Dulce, a santa dos pobres. O presidente tem mostrado que prefere continuar a ser o «mito» apenas de um grupo que, se já não era grande, definha.

O Brasil hoje sabe que o atual governo é um descampado de ideias. Intrigas palacianas entravam o surgimento de um líder. Sem ideário e sem liderança, o governo enerva o eleitor esclarecido, mas não lhe mete medo. Se é verdade que o país vai continuar empacado, é também garantido que não haverá revolução.

Nesta surpreendente República

José Horta Manzano

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, o Lula deve logo estar de volta à cobertura de São Bernardo. Se alguém está torcendo pra encontrá-lo no aeroporto e viajar no mesmo avião, esqueça: Lula não é homem de pôr os pés em aparelho comum e se misturar ao populacho. Desde que, em 2007, foi vaiado no Maracanã, quis ver o povo longe. Só se apresenta a plateias amestradas. Ao despedir-se de Curitiba, voará com as próprias asas – ou com asas amigas, o que dá no mesmo.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, além de ser solto, o Lula deve logo ganhar direito a novo processo. O atual será anulado. Volta tudo à estaca zero. Com uma ajudazinha de nossa lenta Justiça, o homem pode dormir tranquilo: não viverá suficientes anos pra ver o fim do processo. Pode até receber de volta o sítio e o triplex confiscados, com direito a desculpas oficiais e indenização. Não duvide.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, uma vez solto e “desjulgado”, o Lula se agarrará à primeira ocasião de se candidatar à presidência. Será em 2022. Sergio Moro tem dado mostra de que, até lá, deverá ter derretido por completo. Outros eventuais candidatos não são páreo. A disputa se travará entre o Lula e doutor Bolsonaro.

Do jeito que vão as coisas nesta surpreendente República, teremos uma situação do tipo “feitiço contra o feiticeiro”. Me explico. Em 2018, um desprestigiado Lula, no comando de um desgastado PT, foi o grande responsável pela eleição de doutor Bolsonaro. Se o demiurgo de São Bernardo tivesse sido menos arrogante e dado apoio a um candidato da mesma família política mas não afiliado ao PT, o resultado da eleição poderia ter sido outro.

Em 2022, caso os finalistas sejam doutor Bolsonaro e o Lula, a vitória periga mudar de campo. Fortemente desprestigiado com menos de um ano de mandato, o atual presidente deve estar na lona daqui a três anos. Apesar dos revezes, continua arrogante como só ignorantões conseguem ser. Sua antipatia fará dele o grande cabo eleitoral do Lula. Será o feitiço engolindo o feiticeiro.

Meteu a mão

José Horta Manzano

«O cara meteu a mão» – foi o aveludado diagnóstico proferido por doutor Bolsonaro sobre a situação de Lula da Silva. Como de costume, Jair Messias usou palavras que combinam com seu esmerado discurso. Foi numa entrevista dada segunda-feira ao Estadão.

Na mesma ocasião, Bolsonaro deu sua opinião sobre a concessão de liberdade condicional ao Lula, soltura que o encarcerado recusa. Disse: «É direito de Lula ficar preso lá; quer ficar, fica». O linguajar é pedregoso, mas basta completar as palavras faltantes pra tudo ficar claro.

Discordo da opinião do presidente. Não acho que “ficar preso lá” seja um “direito” do Lula. Acho menos ainda que “se quer ficar, fica”. Levar a vida em liberdade, sim, é um direito de todo cidadão que nada deve à justiça. Já o condenado está com esse direito suspenso. Enquanto não tiver pagado a dívida, terá de “ficar preso lá”. Não por direito, mas por imposição. Não tem escolha. A sentença impôs-lhe cerceamento da liberdade de ir e vir.

Seguindo o mesmo raciocínio, o presidente se engana quando diz “se quer ficar, fica”. Prisão não é a casa da mãe joana. Não entra quem quer quando quer. Não sai quem quer quando quer. Se a Justiça determinar que ele deve ficar, ele fica. Se ela determinar que ele tem de sair, ele tem de sair. Não cabe ao condenado decidir se quer passar um tempinho a mais na cadeia, seja por qual motivo for. Cadeia não é hotel custeado pelo contribuinte.

Nessa história estão todos errados.

Doutor Bolsonaro. Não tem de se meter em assuntos que nâo lhe dizem respeito. Por mais que ele seja estabanado, as regras da liturgia presidencial não se amoldaram a ele; continuam as mesmas de sempre: do presidente, espera-se comedimento.

A Justiça. Não deveria determinar o livramento condicional do Lula justo agora, quando o STF está prestes a tomar decisões cruciais. Fica parecendo politicagem.

Lula da Silva. Deveria mais é meditar sobre a passagem do tempo. Sua idade lhe permite. Cada um tem seu momento. O ápice de sua carreira já passou faz um bocado; não volta mais. Daqui para a frente, é tempo de colher. Seus «deslizes» foram desastrosos e mancharam a biografia. Eventual anulação do processo não o inocenta. Atrasa o processamento da justiça, mas não o torna inocente, nem o isenta de enfrentar de novo os tribunais. A tentativa de ressurgir das cinzas é estéril, que o Lula está na ladeira descendente. O povo está cansado de salvadores da pátria. Os grandes triunfos dele ficaram no passado.

Mañana

José Horta Manzano

O Brasil enxergado pelos estrangeiros se encaixa num clichê imutável. Na composição do quadro, entram: praias, fio dental, caipirinha (ou caipiriña, como se vê em botecos da Europa), clima quente, carnaval, uma certa lentidão nos gestos e na fala, simpatia, bela música, baixa afeição pelo batente e uma grande simpatia por mañana – a arte de postergar. Que nos agrade ou não, é assim que somos vistos.

Entra presidente, sai presidente, o clichê não muda; é inabalável. Por mais que o lulopetismo tenha alçado a corrupção ao patamar de filosofia de governo, o brasileiro não passou a ser visto como indivíduo especialmente corrupto ou corrompível. Não mais do que já era no século passado, antes do Lula. Quanto a doutor Bolsonaro, por mais que arreganhe os dentes e insulte chefes de Estado a mancheias, como fez na ONU, os brasileiros não são passaram a ser vistos como especialmente agressivos ou provocadores.

No duro mesmo, o que o mundo sente é dó do povo brasileiro – assim como nós sentimos pena dos infelizes norte-coreanos, obrigados a sobreviver sob a bota de ditadura cruel. Todo o mundo faz a distinção entre o povo e os dirigentes de turno. Um exemplo? Aqui adiante.

Não deixes para mañana o que puderes fazer hoje. Deixa pra depois de amanhã e assim terás hoje e mañana livres.

Faz poucas semanas, caiu Matteo Salvini, uma das duas cabeças do então bicéfalo governo da Itália. Salvini era aquele que insistia num discurso de ódio e de intolerância, com relentos mussolinianos, num estilo aparentado ao de Bolsonaro. Agora que ele saiu, será que alguém mudou seu conceito com relação aos italianos? Certamente não. Com Salvini no governo ou sem ele, o povo peninsular seguirá sendo visto como sempre foi.

Outro exemplo são os EUA de Trump. Depois que ele tiver pendurado as chuteiras, o povo americano continuará sendo visto como sempre foi. Um governo de turno não tem o poder de distorcer o modo como o mundo enxerga a população do país.

Portanto, fique frio. O Lula e Dilma nos envergonhavam. Na mesma linha, doutor Bolsonaro continua a nos açoitar com um vexame atrás do outro. No entanto, felizmente, o mundo sabe fazer a distinção entre o mandatário-mor e a população. Continuam e vão continuar a nos ver na praia, de fio dental, caipiriña na mão, sempre deixando as coisas sérias para mañana.

Para o bem o para o mal, as coisas são desse jeito. E, pelo momento, a situação continua sem conserto. Mañana, quem sabe?

É irritante constatar a que ponto, no exterior, nossa língua é ignorada em favor do espanhol. Um exemplo está na ordem do dia. Desde que o futuro acordo Mercosul-União Europeia foi anunciado, o nome de nosso claudicante mercado comum tem sido frequentemente citado. Curiosamente, não aparece nunca como Mercosul, mas sempre Mercosur, à espanhola. Vai ver que é pra fazer companhia à caipiriña.

Chirac – o funeral

José Horta Manzano

Quinta-feira passada morreu Jacques Chirac, que foi presidente da França por doze anos, na virada do século (1995 – 2007). Como todo político, teve um lado bom e outro mais escuro. Foi sem dúvida o presidente mais popular destes últimos 50 anos, desde que De Gaulle deixou o poder.

Assim que a notícia chegou, chefes de Estado do mundo todo emitiram nota expessando pesar e deixando algumas palavras de elogio. Quando alguém acaba de falecer, convém lembrar do lado bom. Só se pode começar a falar dos podres depois de alguns dias.

Nesta segunda-feira, teve lugar o funeral, com as honras devidas a todo ex-chefe de Estado. Os franceses são bons nisso. São capazes de organizar cerimônias que, de tão solenes, dão arrepio. Tambores rufando, militares em uniforme de gala, sino de Notre Dame badalando, o Requiem de Gabriel Fauré como fundo musical, a Marselhesa na hora certa – tudo milimetricamente organizado.

Dirigentes de praticamente todos os países se manifestaram. Ou mandaram mensagem, ou compareceram. Na cerimônia, estavam todos os ex-presidentes da França, além de Vladimir Putin, Bill Clinton, o presidente da Itália, o príncipe de Mônaco, chefes de Estado europeus e mais uma centena de personalidades estangeiras. O Lula, sentadinho na palha úmida da masmorra onde vive, não pôde estar presente em Paris; mas reagiu com um tuíte simpático.

Só faltou… quem poderia ser? Faltou Donald Trump! Malcriado e mal-assessorado, o tuiteiro-mor não se dignou de soltar duas linhas em homenagem a um francês que, por sinal, era muito próximo dos EUA, país onde chegou morar durante um ano, na juventude.

E quem é que acompanhou o presidente americano no desdém? Qual é o importante personagem nacional que passa o tempo tuitando e não julgou importante escrever três palavras em nome do Brasil? Quem adivinhar ganha uma passagem de ida simples pra Caracas – de ônibus. Resposta no próximo parágrafo.

Claro! Foi doutor Bolsonaro. Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

Erros de português

Sérgio Rodrigues (*)

O perfil do presidente da República no Twitter inventa a grafia “fácelmente”, mais original que o plural “cidadões” do encarregado do Enem. Para não ficar atrás, seus filhos criam o plural de raiz em “raises” e o ponto mais baixo possível como “fundo do posso”.

Deixemos de lado o potencial poético de “fundo do posso”, com sua insinuação de um limite último e inapelável para toda forma de poder. Por critérios escolares muito valorizados pelas multidões conservadoras que apoiam os personagens acima, todos são erros feios de português.

“Ah, e o Lula? Errava pouco?” Chegaremos lá. Primeiro vamos combinar que “erro de português” não é um tema simples. Julgamos merecedoras de enfática correção e até de escárnio grafias baseadas na fala (“fugiro”) e construções da gramática popular que ignoram a culta concordância (“os preso fugiro”), mas toleramos palavras sem sentido algum numa petição judicial.

Num país em que a desigualdade social é um aleijão, a linguística tem denunciado a carga de discriminação socioeconômica – o que, no caso do Brasil, significa dizer também racial – embutida na caça agressiva a manifestações de português “errado”.

É por isso que, para o senso comum, sociolinguistas pregam o vale-tudo, como se o erro não existisse. Errado. Eles sabem que a língua de documentos, leis, literatura e outros discursos de prestígio é de importância vital, e universalizar seu ensino, tarefa de qualquer Estado democrático. Nesse âmbito, o erro não só existe como pode custar caro.

Seja como for, apontar o dedo para a língua dos outros foi deixando de ser diversão garantida, ainda bem. (Por outro lado, a escola continua a valorizar um ensino rico em decoreba e pobre de leitura, com provas cheias de pegadinhas tolas – mas esta é outra coluna.)

Um exemplo da mudança de ares: a imprensa rolou de rir com o “imexível” do então ministro Antonio Magri. Era 1990. Poucos anos depois, as bicudas de Lula na gramática culta teriam recepção bem diferente.

Sim, a depreciação continuava lá. As lulices eram comentadas privadamente ou por alusões. Ria-se delas, mas sua tematização pública aberta, restrita a opositores mais duros, tendia a ser considerada no mínimo de mau gosto.

Na minha opinião, era. Lula fez um grande mal à educação brasileira quando a declarou perfeitamente dispensável, autonomeando-se a maior prova desse fato, mas seus desvios do português padrão – que foram escasseando com o passar do tempo – nunca me pareceram um problema.

No entanto, hoje eu vejo um claro problema cultural, quem sabe até cívico, nos fartos sinais de falta de intimidade com a língua culta espalhados pelo presidente e seu séquito. Se algo de absoluto pode ser dito dos erros de português, é que seu peso é sempre relativo.

Quanto mais chance de estudar a pessoa tiver, quanto maior for seu poder, quanto mais ela pregar a obediência à tradição, quanto mais transformar professores em bodes expiatórios e cultivar em área tão crítica marquetices politiqueiras como a “Lava-Jato da educação” – tanto mais justo será medi-la pela régua com que mede o mundo.

Do contrário, a impressão que ficaria é que o analfabetismo funcional crônico, essa praga brasileira, está tão impregnado no sistema que agora tanto faz. Seria trágico: a língua não precisa de lei para ser um símbolo nacional muito mais importante do que todos os hinos da República.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Prezado Jair

Eduardo Affonso (*)

Prezado Jair,

Lula não inventou a corrupção nem Dilma, o ridículo. Tampouco é sua a invenção da falta de compostura, civilidade e empatia. Mas é preciso que se dê conta de que governa o Brasil, não a Bolsolândia. Que 57 milhões de brasileiros o escolheram porque queriam no poder um “homem comum”, com aqueles princípios morais tão escassos nos governos anteriores. E estes sete meses não fizeram jus a essa esperança.

O sentimento anti-PT ajudou a elegê-lo. A repulsa ao seu comportamento pode trazer o passado de volta. O senhor tem até outubro de 2022 para começar a se portar como um presidente. Não espere chegar lá para refrear esse falastrão descontrolado. Pode ser tarde demais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro. A sequência do artigo está aqui.

Loop, segundo tempo

Eduardo Affonso (*)

Com o empate no tempo regulamentar e na prorrogação, o jogo entre Lula F.C. e o Clube de Regatas L.J. vai para a disputa nos pênaltis.

O goleiro Sérgio Fernando, titular absoluto da L.J. se posiciona. Quem vai bater é Cristiano.

Lá vem Cristiano e… Fora! Cristiano chuta para fora, senhores!

Cristiano reclama com o juiz, diz que o apito tirou sua concentração e pede para bater de novo.

O juiz concede, e lá vai Cristiano – agora sem o apito.

Sérgio Fernando esfrega as mãos, Cristiano corre, dá uma paradinha e… bola na trave!

A torcida da L.J. comemora, mas a comissão técnica do L.F.C. exige que a cobrança seja feita novamente, porque a paradinha de Cristiano atrapalhou sua performance.

O árbitro acata, e lá vai Cristiano em sua terceira tentativa. Toma distância, dá uma bicuda e… Sérgio Fernando espalma com categoria.

Parece que… não, Cristiano exige bater outra vez porque Sérgio Fernando teria adivinhado o ângulo e defendido por pura sorte. Exige uma melhor de três.

O juiz informa que essa já foi a terceira cobrança perdida, mas Cristiano e a torcida da L.F.C. não se dão por vencidos. Apesar de ser uma partida do campeonato local, ameaçam recorrer à à Conmebol e à Fifa.

Nova cobrança é autorizada. Cristiano toma distância, enche o pé, mas Sérgio Fernando é um muro no gol e agarra.

Fim de jogo, amigos do esporte! L.J. é a camp… Não, ainda não. A L.F.C. exige que o árbitro consulte o VAR, porque Sérgio Fernando teria dado um passo para trás e a bola teria ultrapassado a linha.

O árbitro consulta o vídeo. Vamos aguardar seu veredito.

Volta o árbitro, e informa que apenas o calcanhar do goleiro Sérgio Fenando tocou a linha. A bola não entrou.

Cristiano e a comissão técnica cercam o juiz, argumentando que o árbitro de vídeo foi parcial, que a tecnologia não é confiável, que todo o campeonato deve ser anulado e o goleiro Sérgio Fernando suspenso.

Muita tensão no estádio, senhores, com a torcida do L.F.C. subindo no alambrado e ameaçando invadir o gramado.

A proposta apresentada pelos dirigentes do L.F.C. é que Cristiano continue batendo pênaltis indefinidamente, até a bola entrar. Enquanto isso não acontecer, a cobrança não terá validade.

Há um confronto generalizado nas arquibancadas, com as duas torcidas se engalfinhando. A PM se protege no fosso e pede reforços.

O técnico do L.F.C. tenta impugnar a bola, a grama, o tom de branco das linhas de marcação da grande área, a iluminação, a acústica e a localização do estádio, além de apresentar nudes do goleiro Sérgio Fernando, feitos com uma cam escondida no vestiário.

Sérgio Fernando aguarda o desenrolar dos acontecimentos encostado na trave e parece murmurar algo como “Om Mani Padme Hum” – ou “PQP MQGCDC”, segundo nossos especialistas em leitura labial.

Vão ser retomadas as cobranças. E, segundo as regras impostas pelo L.F.C, enquanto a bola não entrar, não vale.

Pode isso, Arnaldo?

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.

O dilema do presidente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 junho 2019.

A sinceridade não costuma ser a qualidade primeira do homem político. Uns mais, outros menos, todos acabam contornando promessas feitas quando era hora de atrair e cativar eleitores. Tanto faz que tenham sido promessas de raiz ou de circunstância. Virada a página da eleição, faz-se tábula rasa e o passado some. Alguns eleitos exageram no caradurismo. Roçam a desfaçatez. A julgar por declarações dadas recentemente, doutor Bolsonaro parece esforçar-se para aparecer nesta última categoria.

Em visita ao município onde passou a infância, nosso presidente foi claro. (Clareza não é lá seu forte mas, com boa vontade, dá pra entender o que ele quis dizer.) Pra começar, agradeceu aos que votaram nele e, curiosamente, também aos que lhe negaram voto. Dado que essa generosidade d’alma não é comum em suas falas, fica a impressão de ele estar seguindo, a seu modo, o conselho de algum assessor mais antenado. O objetivo nítido era contentar a todos, mas não se sabe se foi atingido. Devotar-se, ao mesmo tempo, a Deus e a Mamom é complicado.

No começo da Copa América de 1997, Zagallo, técnico da Seleção, andava desprestigiado. Ao final, assim que o Brasil conquistou a taça, ele despejou sobre seus críticos: «– Vocês vão ter que me engolir!». Vinte anos mais tarde, Lula da Silva repetiu a tirada de Zagallo. Foi num discurso em Vitória, quando pesquisas lhe sorriam enquanto nuvens judiciárias já lhe escureciam o horizonte. Dirigindo-se à pequena minoria que, em sua imaginação, não votaria nele para presidente, soltou a mesma frase: «– Vocês vão ter que me engolir!». Acabou engolido pelos acontecimentos.

Ainda na visita à terra da infância, doutor Bolsonaro não se contentou com agradecer pelos votos e pelos não votos. Fez uma ameaça que lembra a de Zagallo e a de Lula da Silva. Não usou as mesmas palavras, mas o sentido está lá. Disse que, caso não haja uma ‘boa reforma política’, será candidato à própria sucessão. Ficou claro o desafio lançado a deputados e senadores. Se o Congresso não conseguir costurar uma reforma que proíba a reeleição, os brasileiros terão de engolir Jair Messias de novo.

De fato, caso o Legislativo não releve o desafio de vedar reeleições, o diagnóstico do presidente quanto a sua futura candidatura é inequívoco: «– Lá na frente, todos votarão [em mim]», profetizou. Por um lado, a frase confirma a intenção de disputar a reeleição. Por outro, a julgar pelo valor de face, denota indisfarçável pendor totalitário. Eleições em que todos votam no mesmo homem são aquelas em que o partido único impõe um candidato só. Visto ser altamente improvável que a miríade de partidos brasileiros aceitem hipotética fusão geral que dê nascença a um partidão solteiro e único, doutor Bolsonaro vai ter de neutralizar concorrentes no muque.

Com apenas seis meses de estrada mas já de olho em 2022, o presidente não tem tarefa fácil pela frente. Que ninguém se deixe iludir pelo fato de a oposição estar destroçada neste momento. No jogo político brasileiro, pra ganhar eleição, o candidato pode dispensar respaldo de partido forte ou de coalizão. A prova disso é o atual presidente que, nanico na partida, vestiu a faixa na chegada. Portanto, aquele que desafiará o atual presidente no próximo pleito pode ser figura hoje desconhecida.

A obrigação primeira de quem quer receber o voto de todos é limpar o terreno arredando rivais e superarando concorrentes. Nesse particular, doutor Bolsonaro está diante de um dilema visguento. Sergio Moro, o pilar moral de seu governo, está atravessando fase de turbulência. Como capitão, o presidente tanto pode atirar o homem ao mar quanto dar-lhe amparo e abrigo. Se decidir abandonar o ministro e condená-lo à fritura em banha quente, eliminará o concorrente mas, em troca, seu governo perderá o esteio. Caso lance uma boia e salve o ex-juiz, o governo recuperará a garantia de intolerância contra a corrupção. Em compensação, doutor Bolsonaro estará vitaminando aquele que poderá vir a ser seu mais perigoso concorrente. E agora, Jair?

 

A coroa do rei

José Horta Manzano

Quando prenderam o Lula, o Brasil se dividiu. De um lado, ficaram os que não gostavam do antigo presidente, assim como os que acreditavam que lugar de bandido é cadeia. Do outro, se colocaram os que gostavam dele e todos os que receavam ser atingidos pela Justiça. Minha explicação está bem simplificada mas, tirando floreios, a verdade não está longe.

De lá pra cá, a casta dos políticos e dos empresários interessados em negociatas esperneou. Se o Lula foi preso, pensaram, qualquer um pode acabar no xilindró. Com frequente cumplicidade do STF, pregos e tachinhas têm sido espalhados pelo caminho com a evidente intenção de estourar os pneus da Lava a Jato. O resultado tem sido contrastado. Grandes beneficiários da corrupção como doutor José Dirceu estão livres e soltos, gozando as delícias do patrimônio acumulado à custa do suor alheio. Ao mesmo tempo, vários doleiros ‒ que não são corruptores nem beneficiários, mas meros intermediários ‒ estão há anos vendo o sol nascer quadrado.

Estes últimos meses, desde que doutor Moro subiu a rampa e se tornou ministro, a Lava a Jato andava raquítica, anêmica, desmilinguida, sem fôlego. A espetaculosa prisão de doutor Temer traz de volta o vigor antigo. Quarenta anos de negócios escusos e de desvios chefiados pelo ex-presidente começam a ser servidos ao distinto público. Todo o mundo já desconfiava, mas agora é oficial. O velho político, embora seja apenas mais um a passar por exame de corpo de delito, vale por dez.

Com a ação de ontem, ganha o Brasil decente. Volta a esperança de que, apesar dos percalços destes últimos meses, a caça aos corruptos vai continuar. É difícil apanhar todos ‒ Sarney, por exemplo, deve escapar. Mas ainda há muita gente fina com contas a acertar com a Justiça. Ninguém se esquece, por exemplo, da doutora Dilma, envolvida até o pescoço no descalabro que foi a compra da refinaria de Pasadena, que sugou um bilhão do erário. A partir da prisão de Temer, a velha senhora vai precisar tomar chazinho de camomila pra dormir.

Mais uma vez, tem-se a prova de que o Brasil vem sendo dirigido, há anos, por quadrilhas de assaltantes. O destino dos seis últimos presidentes da República (de Collor a Temer) é eloquente. Um morreu. Dois passaram por impeachment e foram destituídos. Dois estão na cadeia por corrupção. Só um vive aposentadoria presidencial tranquila como manda o figurino. Ninguém poderá dizer que a Justiça não funciona no país. Quatro entre seis presidentes receberam punição, o que dá uma boa média. E que sirva de aviso para doutor Bolsonaro & descendência. Ninguém está a salvo.

Como disse o outro, não há risco de a prisão de doutor Temer alevantar clamor popular. Ninguém gosta do homem. Não haverá vigília nem acampamento diante da PF do Rio.