Brasileiro não sabe votar

by Bruno Struzani, desenhista paulista

José Horta Manzano


Alguém disse um dia que brasileiro não sabe votar. Desde então, volta e meia a frase se repete. Será verdade?


O voto do último domingo deixou claro que nós, eleitores brasileiros, embora apáticos em tempos normais, sabemos, quando espicaçados, levantar de nosso berço esplêndido, sacudir a preguiça, arregaçar as mangas e, passo firme, parar de choramingar, e batalhar pela solução de nossos próprios problemas.

Dinheiro na mala, dólares na cueca, emendas parlamentares que vão encher bolsos amigos, orgias entre homens de bem e profissionais do sexo, palavrões pronunciados no seio de famílias cristãs – esses fatos já não escandalizam. Na hora de escolher candidato, o brasileiro hoje releva deslizes que, em outros tempos, trariam grande desonra pública a quem os cometesse.

Os resultados do primeiro turno de votação escancararam o tremendo risco de um miliciano (nas palavras do Lula) ser guindado à Presidência do país. Muitos eleitores não deram importância, mas o perigo deixou a maioria do eleitorado assustada. Diante do perigo, os “brasileiros que não sabem votar” animaram-se, arrebanharam amigos, vizinhos, parentes, avôs e avós, e acudiram às urnas a mostrar que conosco ninguém podosco.

Conseguiram o que ninguém imaginava possível: deram a Lula 10 milhões de votos a mais do que ele tinha recebido no primeiro turno. Coisa de louco. Com isso, Luiz Inácio deixou Bolsonaro jr comendo poeira. O crescimento do Lula foi tão grande, que deixa a impressão de ele ter recebido boa parte dos votos dos candidatos nanicos, mais os votos que correspondem à queda na abstenção, mais uma parte dos votos de Bolsonaro jr., dados por eleitores arrependidos.

Seja como for, foi um alívio e uma boa surpresa. Lula tem agora quatro anos para dourar sua biografia. Tem de fazer tudo para que seu último mandato corresponda à confiança que os eleitores depositaram nele.

E tem mais: chegou a hora de deixar o egoísmo de lado, afrouxar rédeas e permitir o surgimento de novas lideranças em seu entorno, pra evitar que seu partido desapareça junto com ele.

Eleições vêm aí – 5

Moleques petulantes

José Horta Manzano

Daqui do outro lado do oceano, consigo ouvir o burburinho que se alevanta de Pindorama à aproximação do segundo turno das presidenciais. Parece até que o destino do Brasil será definido pelo voto de domingo. É verdade que, em nosso regime, um presidente pode muito. Só que não pode tudo.

Dia 4 de outubro, o voto dos eleitores já definiu os integrantes da Câmara e de boa parte do Senado. Para esses, o resultado é definitivo, não há segundo turno possível. Os candidatos da ultradireita, em grande parte aninhados na agremiação do senhor Valdemar Costa Neto, já dão a grande tendência dos próximos quatro anos: um Congresso recurvado fortemente à direita.

Seja qual for o presidente escolhido domingo, ele terá pela frente um Parlamento (bem) à direita. Se Bolsonaro jr. vencer, estará com a faca e o queijo na mâo para completar a obra que o pai deixou pela metade. Se o vencedor for Lula, ele terá de buscar no Centrão os votos que lhe faltam para aprovar projetos de seu interesse. Assim mesmo, nâo será fácil.

O que dói mesmo é ver moleques petulantes e ignorantes eleitos com milhões de votos para a deputação federal. 80% dos “influenciadores” que se candidataram conseguiram eleger-se, mostrando o caminho das pedras àqueles que sonham com o enriquecimento fácil à custa de negociatas e maracutaias.

Para que serve ter trabalho elaborando projetos e programas, se é tão mais simples instalar-se diante do celular e gravar qualquer bobagem para se tornar conhecido. Qualquer coisa serve, quanto mais escandaloso o assunto, melhor efeito fará.

Se já faz tempo que o Brasil tinha deixado de ser o país da esperança, vai-se tornando aos poucos um país sem futuro, um arremedo de teocracia espandongada, com um povo representado no Congresso por moleques irresponsáveis e por adultos mal-intencionados.

No domingo, vamos ao voto. Mas o mal já está feito.

Sturmabteilung

Sturmabteilung – uniformes

José Horta Manzano

Nesta segunda-feira pós-voto, acordei com um gosto amargo na boca. Não é o amargor da derrota, mas a aflição de entrever um Brasil correndo desabalado para o precipício. Me sinto em Berlim, na virada dos anos 1920 para os anos 1930, quando multidões de alemães se puseram a enxergar em Hitler o salvador da pátria, e a espichar o braço para saudar sua passagem.

Como os alemães de cem anos atrás, os brasileiros que ontem deram seu voto a candidatos da extrema direita parecem agir pensando somente em antipatias e problemas de hoje, como se não houvesse amanhã. Não parecem se dar conta do alcance de seu voto, nem imaginam estar contribuindo para o desastre de amanhã.

Tenho certeza de que boa parte dos que votaram na direita radical sofrem de um déficit de informação. Estarão sendo movidos por antipetismo, influência das redes, apego a uma religião rigorosa, ou outro motivo desse jaez. Ainda há cidadãos que, ao votar em candidatos ultradireitistas, acreditam estar dando voto aos “mais puros” e aos “não corruptos”, indiferentes ao fato de todos eles estarem afiliados a um partido (PL) cujo dono é um dos grandes corruptos deste país, presidiário na época do mensalão.

Há quem acredite em alguma possibilidade de Lula vencer Fávio B. no segundo turno. Não acredito em milagres, portanto, não creio. No fundo, ainda que Lula conseguisse a façanha de alcançar o contendor, o mal já está feito. O PL de Valdemar Costa Neto e dos Bolsonaros conseguiu eleger:

  • a maior bancada da Câmara dos Deputados,
  • a maior bancada do Senado,
  • o deputado mais votado do Brasil (Nikolas Ferreira, de MG),
  • a “bancada Bolsonaro” composta por irmãos de Flavio B., madrasta, tios, mãe & agregados.

Como se vê, esse partido extremista está com a faca e o queijo nas mãos. Têm força para impichar quem quiserem, inclusive (e principalmente) ministros do STF. Têm força para alterar a Constituição. Têm força até para modificar nosso regime político. Com ou sem Lula, o pior já aconteceu, acredite quem quiser.

Para formar nossa Sturmabteilung (Divisão de Assalto), como na Berlim dos anos 1920, só falta convocar integrantes e organizar seminários iniciáticos. Em seguida, nossa extrema direita já estará capacitada para perseguir e violentar oponentes. Quanto a nosso uniforme, já faz tempo que está em vigor: não é a sinistra camisa parda, mas a antes simpática camiseta amarela. Logo virá o gesto de saudação ao Guia Maior.

Fique ligado nas redes. A chamada será logo anunciada.

Eleições vêm aí – 4

José Horta Manzano

No fim de março passado, Lula ainda era visto como provável vencedor da corrida presidencial. Não fazia muito tempo que Flávio B. tinha sido designado pelo pai como candidato, e muito poucos arriscariam suas fichas naquele sujeito desbotado e insosso. No entanto, a eleição estava muito longe e tudo poderia acontecer. Vorcaro e crise do STF não passavam nem pela mais delirante das mentes.

Mesmo sem me basear em pesquisa nenhuma, achei demasiado pretensioso de parte de Luiz Inácio lançar-se à corrida atrás de um quarto mandato. Me pareceu que ele estaria arriscando muito para ganhar pouco. Resolvi deitar essa impressão no papel. Preferi fantasiar meu texto de fábula de Natal, ainda que estivéssemos fora de época.

Designei o texto como artigo mensal a enviar ao Correio Braziliense para o fim do mês. Enviei. Os dias passaram, e nada de o texto ser publicado. Achei esquisito. Escrevi mail. Nada de resposta. Telefonei via uótisápi à diretora da Editoria de Opinião. Nada de resposta. Com o passar do tempo, entendi. Meu artigo havia tocado uma corda altamente sensível daquele pessoal. Eram lulopetistas mais fanáticos do que eu imaginava.

Me dei conta de que “Editoria de Opinião“ não era mais que um título pomposo, mas vazio de sentido. Publicam artigos de opinião desde que a opinião de quem escreve coincida com a opinião da editoria. Pus termo a uma relação de 15 anos de colaboração. Assim que tomei a decisão, publiquei minha “Cartinha ao presidente” aqui neste espaço. Afinal, aqui mando eu.

Meu artigo perdeu o momentum. Luiz Inácio manteve a candidatura, e não há meio de voltar atrás. Mas estou mais que nunca convencido de que o Lula, ao se candidatar para um quarto mandato, fez o maior erro de sua vida. Se ganhar, será uma vitória suada, apertada, sofrida, inexpressiva. E o risco de perder é grande.

Meu pensamento continua válido nos termos deste parágrafo que faz parte do texto de março:

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

E a conclusão diz ainda hoje o que eu queria dizer à época:

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Não estou torcendo para ele perder. Tomara que ganhe e nos livre do clã B. Quanto a você, prezado leitor, e a você, graciosa leitora, se aguentou ficar até aqui, espere, que termino já.

No domingo, chova ou faça sol, vá votar. Nada de branco ou nulo. Vote de verdade. Nem preciso fazer recomendação. Quem frequenta este blogue não vota na extrema direita nem em linha auxiliar que possa favorecer extremistas.

O discurso na ONU

Lula na ONU , 22 set° 2026

José Horta Manzano

A cada vez que nosso ex-presidente, hoje preso, subia à tribuna da ONU para proferir seu discurso anual, os brasileiros ligados já sentiam subir pela garganta o incômodo de ter de ouvir enormidades. Me lembro de ele ter-se gabado, uma vez, de ter “livrado o Brasil do socialismo”. Esqueceu-se, ou simplesmente não sabia, que grande parte dos países europeus já teve governo socialista: Suécia, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Noruega e outros mais. Nenhum deles naufragou, muito ao contrário. O autor dos discursos de Bolsonaro tinha a mente tão entupida quanto a do patrão.

Já o discurso que Lula pronunciou estes dias na mesma tribuna foi elaborado com engenho e arte. Muito bem estruturado e articulado. Não foi um discurso de campanha, como julgaram alguns. Veja só, numa disputa acirrada em que nenhum voto pode ser desperdiçado, Luiz Inácio ousou tachar Netanyahu e o governo de Israel de genocidas. Sente-se que, nesse momento, Lula não falou para plateia nenhuma. Ele disse bem alto o que muitos pensam em voz baixa.

Para aqueles que desfilam no 7 de Setembro enrolados na bandeira israelense, não há de ter sido um convite a votar pela reeleição do atual presidente. Se havia votos a desperdiçar, aqui foram alguns pelo ralo.

Aliás, essa acusação de genocídio lançada contra o Estado de Israel, embora muitos concordem, é pouco diplomática. Há outras maneiras de expressar descontentamento sem apelar para esse tipo de expediente. Mas entendo a explosão de raiva que Lula deve estar sentindo desde que foi etiquetado como persona non grata em Israel por esse mesmo governo Netanyahu. Sua fala foi uma espécie de revanche. Assim mesmo, teria sido melhor não se expressar assim.

Longe de discursar para ganhar votos, Lula falou como verdadeiro estadista, em contraste com os discursos tradicionalmente pronunciados por presidentes brasileiros – incluindo suas proprias falas dos anos anteriores.

Tratou de Gaza, falou do Tribunal Penal Internacional, mencionou a Cisjordânia ocupada. Discorreu sobre o Irã, a guerra Russo-ucraniana. Criticou o regime da Nicarágua (Aleluia!), lembrou do desprezado Haiti, disse duas palavras sobre a Venezuela. Estendeu-se um pouco mais sobre o drama atual de Cuba.

A meu julgar, os redatores do discurso não se lembraram de que as palavras do presidente estariam sendo traduzidas nas 6 línguas oficiais da ONU. Expressões difundidas no Brasil, mas desconhecidas no exterior, deveriam ter sido substituídas. Por exemplo, Escala 6×1, Tarifaço, BETs deveriam ter sido mais bem explicadas.

Na frase “Impor derrota ao negacionismo”, ficou faltando explicar que se trata de negacionismo climático, e não do negacionismo que antissemitas propagam desde 1945, negando que as câmaras de gás tenham existido.

O ponto alto do discurso – não sei se era a intenção dos autores, mas é o que ocorreu – foi quando Luiz Inácio garantiu que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. De tão genial e marcante, a frase ecoou em numerosas línguas estrangeiras, de “backyard” a “giardino di casa”, cada um traduziu a seu modo, que nem todos têm quintal.

Não sei se os brasileiros têm noção do privilêgio que nos é concedido de poder ser o primeiro a discursar a cada ano, antes mesmo do dono da casa. Além de o Brasil passar em primeiro, nossa fala precede a dos EUA. Essas duas razões fazem que a plateia esteja lotada e nos escute com atenção.

Os demais países, que não gozam do privilégio de ser os primeiros, discursam na terça, na quarta, e assim por diante, até o sábado. Sempre com plateia esvaziada, diga-se. A França, por exemplo, país fundador e membro permanente do Conselho de Segurança, falou na 3ª. feira de manhã em 14° lugar. Imagine como a plateia já estava cansada de ouvir discurso. À Itália coube discursar na quarta-feira à tarde, o 17° discursante da tarde, ou seja, o 38° do dia.

Percebem o imenso privilégio de ser o primeiro?

Se Luiz Inácio conseguir se reeleger, temos uma boa perspectiva para o discurso de abertura da ONU para os próximos anos. Se ele perder, que é que se pode fazer? Esperar que o filho seja menos primitivo que o pai.

Se bem que… é permitido duvidar.

Eleições vêm aí – 3

Cantar de galo

José Horta Manzano

Quintal do vizinho
Lula às vezes parece discursar para fãs que aplaudem sem ouvir e para jornalistas sonolentos que ouvem sem escutar. No 11 de set°, durante um ato de campanha em Porto Alegre, explicou que estará na sessão de abertura da ONU daqui a uma semana. Como de hábito, será o primeiro a discursar, e dirá a Trump: “Eu não me meto nas eleções americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano”. Acrescentou que “o filho da dona Lindu (ele, Lula) gosta de respeitar e de ser respeitado”.

Estamos habituados a tanta falsidade neste Brasilzão de Deus, que ninguém se preocupou em checar as palavras de Lula. Nestes tempos em que não precisa mais consultar arquivos de jornal para verificar, levei exatamente 45 segundos para encontrar o que procurava. Dia 1° de novembro de 2024, em entrevista ao vivo a LCI, canal televisivo francês, Lula se exprimiu sobre as eleições presidenciais americanas, confirmando sua preferência pela vitória da candidata democrata, Kamala Harris, diante de Donald Trump.

A plateia que aplaudiu a fala de Lula em Porto Alegre pode ter apreciado o que ouviu. Mas Trump, que às vezes costuma ser bem informado, há de ter achado estranho ver mais um mentiroso liderando país importante. Ele deve até ter comentado: “Welcome to the club!”

“Os que me seguem”
É curiosa a capacidade que um facho de holofotes tem de fazer o enfocado subir no salto, vestir a saia justa e cantar de galo. Até outro dia, o senhor Augusto Cury, hoje candidato à Presidência da República, era autor de livros de autoajuda, conhecido apenas entre os adeptos desse gênero de literatura. A candidatura a cargos eletivos está aberta a todo cidadão brasileiro, dentro de certas regras – por exemplo, fichas sujas não podem concorrer.

Com a candidatura aprovada por seu partido político, sr. Cury decidiu concorrer. Estes dias, numa entrevista, foi questionado sobre quem apoiaria no segundo turno, caso ele mesmo não passasse pelo “vestibular” do primeiro. O candidato não se fez de rogado, deu logo sua resposta. Declarou que apoia Flavio B., mas com uma condição: de que ele prove que não houve corrupção na ajuda de milhões de dólares recebidos para financiar o filme em louvor ao pai. E tem mais: para, enfim, apoiar plenamente o filho do capitão, Flavio B. vai ter de “pegar o meu plano de governo e, num cartório, assinar que vai executá-lo”.

É aqui que entram o salto, a saia justa e o galo a cantar. Cury acrescenta: “Se ele (Flavio B.) fizer isso, as pessoas que me seguem estão liberadas para votar nele”. Disse isso com a candura dos que acreditam piamente ser donos do eleitorado, que primeiro espera que seu Mestre mande, para em seguida repensar seu voto.

Dito isso, renego o artigo que escrevi algumas semanas atrás. Deixei-me levar pelo ar sério desse senhor. Vislumbrei ali uma fresta de luz para o Brasil sair das trevas atuais. Infelizmente, não é assim. Penitencio-me.

Com alguém que recomenda voto em Flavio B., seja por que motivo for, seja com as ressalvas que forem, o facho de luz se extingue. Cury não prometeu indultar Bolsonaro pai. Mas também não prometeu deixar que o Judiciário cuide dos problemas que lhe dizem respeito. Convém guardar distância desse iluminado.

Lé com lé

Ilustração by Alcy Linares, desenhista paulista

José Horta Manzano

Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.

Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.

Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!

Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.

Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?

Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.

Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.

Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.

A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.

Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.

Tome cuidado, Flávio B.!

Inteligência curta

José Horta Manzano

Em matéria de política brasileira, este escriba – assim como muitos conterrâneos – acreditava que a síndrome de inteligência curta fosse própria aos Bolsonaros. O passar do tempo está se encarregando de mostrar que não é bem assim. Que fique claro: Jair Messias & família continuam imbatíveis nesse terreno. Situam-se nas camadas mais profundas da ignorância nacional.

O ferro de solda na tornozeleira, a busca de asilo na embaixada da Hungria, as providências para prejudicar o Brasil com impostos de importação estratosféricos são provas evidentes do desvario familiar. Mas eles não estão sozinhos na pouco invejável posição de homens sem visão. (Aliás, sem visão, se me permitem, são os que persistem em votar neles.)

A penúria de bestunto em personagens de alto nível no topo da república, que é o que se tem visto estas últimas décadas, não poupa nenhum órgão, nenhuma instância, nenhum partido, nenhuma instituição. Felizmente a epidemia não atingiu toda a população: ainda há gente fina em postos decisórios; mas são poucos, bem menos do que seria necessário para tocar um país complexo como o nosso.

Outro dia, um jovem deputado federal liderou uma peregrinação rodoviária, qual um Forrest Gump seguido de uma tropa de maratonistas que não sabiam para onde se dirigiam nem o que estavam fazendo ali. Antiquado, este escriba acreditava que o papel de um deputado era fazer leis para melhorar o dia a dia de seu povo. Parece que a inteligência turva que vigora atualmente alterou as regras e impele parlamentares a dedicar seu tempo a pleitear soltura de condenados pela Justiça.

Nosso presidente, que a mídia nos vende como raposa esperta de faro infalível, passa por cima da realidade de estar na nona década de vida. Parece não se dar conta de que não é imortal. Pretende candidatar-se a mais um mandato de quatro anos, do qual sairá, se eleito for, com a respeitável idade de 85 anos. Age como se, fora de Luiz Inácio, não houvesse salvação, o que não passa de um orgulho mal controlado que pode acabar manchando sua biografia. Fosse menos deslumbrado e mais inteligente, estaria largando o osso e ungindo seu sucessor.

A carência de inteligência acaba de atingir mais uma instituição – graúda! É o STF. Com o julgamento dos participantes do golpe de Estado de 2022/23 chegando ao fim, seria hora de o Tribunal Supremo voltar à rotina tradicional, que foi, digamos assim, um tanto “extrapolada” estes últimos dois ou três anos. Qualquer observador concordaria que o espetáculo terminou e que é hora de os togados retomarem o ramerrão.

Suas Excelências, porém, têm outra opinião. Não todos, mas boa parte deles recusam que se lhes imponha um decálogo de boa conduta explicitando as linhas vermelhas a não ultrapassar no funcionamento do tribunal. É quase inacreditável que os guardiães da Constituição se julguem intocáveis e hostis a normas que regulem suas atividades.

Se parasse por aí, seria atitude prepotente, mas restrita ao campo das opiniões. Mas as excelências vão além. Fazem corpo duro, com pé no breque e declarações retumbantes contra todo manual de regras. Parece mentira.

Vê-se que a síndrome da inteligência curta se alastrou pelo STF. Ninguém gosta de regras, conceda-se. Mas opor-se frontalmente não é atitude esperta. Chama a atenção do distinto público, que acaba ficando na torcida: vão aceitar o código de boa conduta, não vão aceitar, vão aceitar… e assim por diante.

Uma aceitação, nem que fosse de fachada, seria mais razoável. Em seguida, na hora de compor o código, nos bastidores, bastaria trabalhar para que saísse mais genérico, menos rigoroso. Eles sabem como fazer. E, no final, todos ficariam contentes.

Só nos resta torcer para que o Espírito Santo baixe naquele ambiente togado e oriente as excelências. Será melhor para todos.

COP: o grande evento

José Horta Manzano

Em maio de 2023, quando o Brasil se ofereceu como sede da COP30, me senti um tanto inquieto. A COP é um evento muito importante, com delegações de mais de 150 países, conferências, colóquios, discursos, tradução simultânea. São milhares de delegados, sem contar turistas, jornalistas, repórteres, equipes de televisão. Requer organização perfeita, difícil de ser alcançada.

Em dezembro 2023, na sessão plenária da COP28 em Dubai, a candidatura de nosso país foi confirmada para sediar a COP30, a realizar-se dois anos mais tarde. Lula da Silva, eufórico e sorridente como se tivesse acertado o prêmio grande da Mega Senna, declarou à plateia que Belém, como grande cidade amazônica, estaria perfeita para acolher o evento.

Se o Lula se alegrou, eu fiquei arrasado de vez. (Em vez de arrasado, “devastado”, anglicismo da moda, também serve.) Vamos ter problemas graves, pensei. Não comentei com ninguém, que é pra não parecer ave agourenta. Não é da noite pro dia que se capacita uma cidade inexperiente a acolher tanta gente com tanto aparato. Para uma manifestação desse quilate, não temos no Brasil mais que uma ou duas capitais preparadas a receber.

De fato, Belém pode receber com esmero nossos turistas internos, sejam eles dezembristas ou julhistas. Já uma multidão de estrangeiros vem com outras expectativas. Não se lhes pode servir tacacá e tucupi todos os dias. A estrutura hoteleira de Belém não está armada para receber essa massa de visitantes de uma tacada só. O primeiro desfalque foi a decisão de certas delegações que, ou não vieram, ou diminuíram drasticamente o número de visitantes, o que é pena.

O Estadão publicou as impressões de uma fotógrafa da ONU acostumada a comparecer a eventos de magnitude importante para fazer seu registro de imagens. Em sua conta pessoal no Instagram, a moça, que se chama Kiara Worth, contou o que viu na COP30 de Belém:


“Chuvas torrenciais, inundações, uma invasão ao local, militares em cada esquina, calor sufocante, frio congelante, cortes de água e energia e, hoje, o local estava literalmente em chamas”, escreveu. “É inacreditável. Nunca aconteceu nada parecido.”


Kiara Worth descreveu a COP de Belém como a conferência mais difícil que já cobriu em sua longa carreira. Depois do incêndio, ainda teve ânimo para uma tirada filosófica: “Viemos aqui em busca de um acordo climático, mas talvez a verdadeira lição seja mais profunda. A verdade é que o mundo inteiro está em chamas e temos esta breve janela de oportunidade para escolher o que emergirá da fumaça.”

Quanto a nós, o vexame já foi dado. Vamos ver se, da próxima vez, a escolha leve em conta a capacidade da cidade sede em acolher dignamente os visitantes.

COP30: os zigues e os zagues

José Horta Manzano

Vamos fazer de conta que a COP30 é um zigue-zague. Vamos combinar as regras do jogo? Digamos que o zigue é o positivo, o que vai pra frente, são passos que seguem as regras do jogo. Já o zague é o negativo, o que vai pra trás, são decisões que contrariam as regras e fazem o jogo fracassar.

Quinta e sexta, nos preliminares da COP de Belém, presenciamos muito oba oba. Dirigentes do mundo todo, reis e rainhas, Macron tietado na avenida, o Príncipe de Gales, mão no coração, declarando-se encantado com o Brasil. Mas o tapete vermelho durou só dois dias. As excelências se foram e entregaram a arena aos que aqui vieram para o trabalho de salvar a vida no planeta da autoextinção que se aproxima.

Zigue
Foi num arroubo, provavelmente irrefletido, que o presidente Lula propôs que a COP30, atribuída ao Brasil, se realizasse em Belém. Segundo ele, o propósito desse tipo de reunião combinava com um ambiente amazônico.

Zague
No entanto, ao propor Belém, Lula deu mostra de que, como muitos conterrâneos, não se dá plenamente conta da utilidade de um congresso desse tipo. Ele parece imaginar que ali se discute unicamente a preservação da floresta equatorial e mais nada. No entanto, o tema é bem mais amplo. O abandono da utilização de combustível de origem fóssil é tão premente quanto o fim do desmate.

Problema colateral não previsto por Lula ao designar Belém: a cidade não está capacitada a abrigar tantos hóspedes estrangeiros ao mesmo tempo. Falta infraestrutura decente, falta alojamento, faltam restaurantes, falta quem pelo menos balbucie inglês. Simpatia é bom, mas não basta.

Zigue
O Brasil tem mostrado aplicação no sentido de que o saldo desse congresso seja positivo e resulte em avanço real da causa. É sempre importante que o anfitrião abrace o tema que estará sendo debatido.

Zague
Continua um mistério o fato de os barões do agronegócio brasileiro não estarem implicados na luta contra as mudanças climáticas. Eles estão entre os maiores interessados. Tanto na agricultura quanto na pecuária, o regime de chuvas é essencial. Sem precipitações regulares, que caiam na temporada certa e em quantidade razoável, não é possível obter boa colheita nem criar gado saudável. Sabendo-se que o gradual desaparecimento da floresta amazônica já está modificando o clima brasileiro, com longas secas e enchentes catastróficas, cruzar os braços para o clima e divertir-se num rodeio é suicídio programado.

Zigue
Bom de bico que sempre foi, o presidente Lula tem feito belíssimos discursos, que incluem até ousados beliscões em Donald Trump.

Zague
A escutar nosso presidente, ninguém diria que ele não vê a hora de fazer os primeiros furos de prospecção de petróleo na margem equatorial. Ele me faz lembrar o bêbado e a equilibrista, sendo que, no caso, o bêbado e o equilibrista são o mesmo personagem. É difícil exercício de equilibrismo entre a proteção do clima e a candidatura do Brasil à OPEP.

Um Zigue para resumir
Está passando da hora de os brasileiros aprenderem, desde a escola elementar, que a proteção do meio ambiente começa em casa, nos pequenos gestos do quotidiano. Plantar uma mudinha no Dia da Árvore é bonito, mas não basta. A água que escorre sem necessidade da torneira, o pão de ontem que, em vez de ser jogado fora, pode ser guardado num saco plástico e esquentado no forno ou na chapa. Há mil e um conselhos que se devem dar a todos para se conscientizarem de que a natureza não está só na distante Amazônia, mas também aqui. Somos todos parte da mesma natureza.

A natureza somos nós!

O extremista caolho

José Horta Manzano

Não sei por onde andavam os extremistas de direita quando os de esquerda explodiam estações de estrada de ferro, sequestravam artesãos e matavam indiscriminadamente nos anos 70 e 80. Isso foi na Europa, mas até no Brasil, num tempo em que a vida andava muito vigiada e reprimida por aqui, esquerdistas extremados empreenderam ações ousadas e mataram gente.

Calada naqueles anos, a extrema direita só deu o ar de sua graça a partir dos anos 2010, coincidindo com a subida ao poder de Trump, Bolsonaro, Orbán e outros colegas europeus. Veio tarde, mas veio com força. Como prova disso, vejam o estrago que tem provocado no Brasil e no mundo. Bem tudo isso mostra que, independentemente da ideologia, a violência pode estar presente, basta cutucá-la com vara curta.

Direitistas extremos têm traços comuns com seus contrapontos da extrema esquerda. O desinteresse pelas grandes causas do país é um deles. O tarifaço de Trump dá mostra interessante. Para efeito de argumentação, vamos passar por cima dos capítulos iniciais da novela. Vamos direto ao capítulo mais recente, o encontro entre Lula e Trump.

O sucesso das tratativas, pelo menos até o momento atual, trouxe um alívio a inúmeros brasileiros. Muitos de nós estávamos assustados e apreensivos com o que estava acontecendo, cada um por um motivo. Uns temiam que sua pequena empresa exportadora fosse à falência, outros receavam perder o emprego, outros ainda se sentiam profundamente incomodados com o ataque intolerável à soberania nacional. Todos se sentiram aliviados de saber que as negociações iam no bom sentido.

Todos, não! A reação de bolsonaristas e de outros integrantes da direita extrema foi esquisita. Calaram-se e submergiram. Pior: tentaram (e continuam tentando) menosprezar e minimizar o que aconteceu na Malásia, que não lhes parece importante.

Ora, esse comportamento demonstra que certas pessoas não têm capacidade de enxergar além da ponta do nariz. Este escriba, que não é petista nem nunca foi, percebe que as tratativas entre EUA e Brasil estão indo no bom sentido. E festeja, porque, do jeito que as coisas vão, o final deve ser bom para brasileiros e americanos.

Não vejo por que razão eu deixaria de aplaudir iniciativas tomadas por políticos com quem nem sempre concordo, mas cuja ação me parece boa para todos. Infelizmente, parece que os extremistas, engessados por uma visão caolha, não têm capacidade de vislumbrar a grandeza de uma visão alargada do mundo. É pena.

O fim do dólar

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

O que Luiz Inácio já deu de declarações estapafúrdias não está escrito – como se diria em linguagem coloquial. Por ignorância, por excesso de autoconfiança, por entusiasmo momentâneo incontrolado, ou seja lá qual for a razão, já foram dúzias e dúzias de falas machistas, fora de contexto, ofensivas, errôneas, incompreensíveis.

Uma delas, que certamente deixou o interlocutor sem jeito. Foi em 2007, quando George Bush (filho) estava de visita por aqui. Desinibido, Lula quis dizer que as conversações entre Bush e ele estavam avançando bem. Usou os termos seguintes: “Estamos andando com muita solidez para encontrar o chamado ponto G e para fazermos alguma coisa”. Acompanhou as palavras de uma risadinha maliciosa. Bush esboçou um vago sorriso e ninguém ficou sabendo se ele entendeu a pesada alusão. O público americano certamente não entendeu, mesmo porque o locutor da transmissão omitiu esse trechinho.

Estes dias, em Djacarta, às vésperas de um possível encontro em tête-à-tête com Donald Trump previsto para ocorrer em Kuala Lumpur (Malásia), Luiz Inácio fazia um discurso ao lado de seu anfitrião, o presidente da Indonésia. Entre os afagos e as flores, Lula voltou a bater na tecla do abandono do dólar nas transações externas do Brasil, um de seus cavalos de batalha.

Não era o momento e nada exigia botar o assunto sobre a mesa, mesmo porque não consta que a aposentadoria do dólar esteja entre as prioridades indonésias. Mas Lula fez questão de levantar o tema, resoluto como de costume.

Nas redes, não sei se houve eco, mas os analistas que li e ouvi estavam contrariados. Reclamaram todos que não era hora de falar nisso, especialmente a poucos dias do encontro com Trump. O presidente americano é frontalmente contrário a toda tentativa de contornar o dólar e uma vez alertou os incautos que, se insistissem, perigavam receber tarifas de 100%.

Sei que Luiz Inácio é impulsivo. Sei também que o funcionamento do mundo não é exatamente sua especialidade. Assim mesmo, sei que não é tonto. Aliás, neste particular, se distingue do ex-presidente Bolsonaro. Assim, acredito que, se introduziu em seu discurso considerações aparentemente fora de contexto, não foi por descuido, mas com intenção.

Acrescentar mais uma camada aos diferendos entre o Brasil e os EUA bem às vésperas de encontrar o “ogro” pode ser uma estratégia. Ousada, sim, temerária até, mas calculada. Funciona assim.

Em toda negociação, como a que vai haver, há sempre trocas tipo toma lá dá cá. A abolição do dólar como moeda das trocas internacionais é muito mais uma birra pessoal do Lula do que um objetivo do comércio exterior brasileiro. Dado que não é moeda conversível, o real não pode ser usado como moeda internacional. Portanto, que seja o dólar, o yuan, o euro ou o franco suíço, será sempre necessário adquirir moeda estrangeira para comerciar.

Na hora do toma lá da cá, é interessante ter na pauta alguns itens que atrapalham nosso interlocutor, mas que não são realmente importantes para nós. Assim, poderemos sempre nos comprometer a não mais reclamar o fim do dólar em troca desta ou daquela concessão da parte adversa. Por exemplo, podemos prometer tirar de pauta nossa birra contra o dólar em troca do abandono, por parte de Trump, de sanções contra autoridades brasileiras.

Se a inclusão da fala sobre dólar no discurso de Djacarta tiver seguido essa estratégia – e espero que assim tenha sido –, foi boa ideia. Mostra que há esperança sempre, e que o governante de espírito empedernido sempre acaba aprendendo.

Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental”. Não muda quase nada, mas muda tudo.

Lula & Trump: os discursos

José Horta Manzano

A 80ª Assembleia Geral da ONU abriu hoje com o discurso dos dois. O Brasil antes, porque assim manda uma tradição não escrita. Em seguida, Trump, por ser o anfitrião.

Quem se acostumou com os discursos de nossos presidentes nos últimos anos, de Bolsonaro e do próprio Lula, se surpreendeu com a fala deste ano. Parece que o Lula andou frequentando aulas de “estadismo”, se é que essa disciplina se ensina nalgum lugar. Falou como estadista. Não tivesse feito menção, no finalzinho, a Pepe Mujica e ao papa Francisco, – citação que me pareceu fora de lugar –, eu diria que o discurso foi perfeito.

Em vez de fazer como um infantil Bolsonaro, que se gabou um dia de “ter salvo o Brasil do socialismo”, o Lula fez um discurso digno de chefe de uma potência regional, que se respeita e que respeita o mundo. Mencionou, por alto, alguns feitos de seu governo, mas gastou bom tempo acentuando os ataques que o Brasil vem recebendo. Não mencionou o nome do agressor, mas insistiu na natureza do ataque.

Falou da carnificina que vem sendo praticada na Faixa de Gaza e deu nome aos bois: chamou a ação de Israel de genocídio, que é a descrição correta. Seu discurso foi interrompido uma meia dúzia de vezes por palmas. Não são todos os discursantes que fazem tanto sucesso.

Em seguida, veio Trump. Quem esperava ouvir Trump não se decepcionou: Trump se comportou como… Trump. Como se estivesse acima das regras do jogo, ultrapassou folgadamente os 15 minutos alocados a cada discursante. Veio com uma maquiagem de assustar. A pele do rosto estava escura, puxando para o alaranjado do cabelo. Ouvi dizer que ele usa um spray facial. Deve achar bonito.

Na primeira metade da fala, teceu elogios a si mesmo. Lançou à plateia um rosário de números inverificáveis referentes a inflação, desemprego, índice da Bolsa e inúmeros outros índices. Todos os números estão no melhor patamar desde que o mundo é mundo. Um verdadeiro milagre.

Me lembrou o Lula de outros tempos, quando dizia “nunca antes na história desse(sic) país”. O Trump de nossos dias vai pelo mesmo caminho “never before” nunca antes, etc. Mencionou o presidente anterior (Biden) uma meia dúzia de vezes, sempre para criticá-lo ou ridiculizá-lo. Chegou a mencionar o “sleepy President”, presidente sonolento.

Já na reta final, falou do Brasil. Me deu a impressão de estar desconfortável, de estar falando só pra dar uma resposta ao discurso do Lula. Pode ser só impressão minha. Começou a dizer que os EUA tiveram de agir (mas não disse de que ação se tratava) porque o Brasil estava exercendo pressões sobre firmas e cidadãos americanos, principalmente com censura, exercida por um “judiciário corrupto”. (O STF há de ter apreciado.)

Nessa altura, para não se enrolar ainda mais, fez uma digressão. Contou que, nos bastidores, antes de discursar, cruzou com o presidente do Brasil, Disse que os dois se cumprimentaram e se abraçaram(!). Revelou ainda que achou o Lula muito simpático e que tinha gostado dele. Acrescentou: “Ainda bem, porque, quando não simpatizo com uma pessoa, não faço conversa nem negócio”.

Trump não voltou mais a discorrer sobre as tensões com o Brasil. Por seu lado, explicou que, nos poucos segundos em que se encontraram, já tiveram tempo de marcar um encontro para a semana que vem.

Vamos cruzar os dedos para que essa simpatia mútua dure até a semana que vem, que se encontrem realmente e que a tensão se desanuvie. O Brasil está precisando.

É bom já ir

by Marília März
in Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Imaginem uma loja de comércio que pegou fogo. Depois do fogaréu, vem a hora do rescaldo. Limpa-se tudo e separam-se cuidadosamente artigos carbonizados de produtos ainda em estado de ser vendidos: são os salvados de incêndio.

Na semana que termina neste dia 13, o rigor de um julgamento, rígido e preparado nos conformes, foi perturbado pela explosão de vaidade de um dos julgadores que, esquecido de que a palavra é de prata e o silêncio, de ouro, autoimolou-se na fogueira das vaidades. Num surto de verborragia, deitou fora uma solitária fala de quatorze horas, na qual desafiou a lógica, destratou os colegas e insultou a inteligência dos ouvintes. Um despautério. Tentou livrar os réus da condenação, mas foi voto vencido. Há quem diga “voto vendido”, mas há controvérsia.

Entre os salvados do incêndio, está o pequeno Mauro Cid, ajudante de ordens do então presidente Bolsonaro. Coube ao rapaz o papel de bom menino, por ter sido o único a fornecer verdades importantes para a instrução do processo. Embora teoricamente condenado, na prática sai livre e solto. Foi o único.

De aplaudir é também o estoicismo dos julgadores que, apesar da ameaça bem real de Trump de privá-los de visto, de conta bancária e de cartão de crédito, não se encolheram e enfrentaram de peito aberto. (Não foi o caso de Luiz Fux, que preferiu o caminho da desonra.)

Entre os artigos carbonizados, está o próprio Bolsonaro. Por mais que seus defensores reclamem, gritem, esperneiem e se apliquem a requerer habeas corpus, revisão de processo e quejandos, não hão de conseguir mexer na essência. Uma condenação a 27 anos de cadeia, ainda mais pronunciada pelo STF, não é bagatela.

Em termos práticos, Bolsonaro, mesmo sem a sentença ter transitado em julgado, está preso. Em prisão domiciliar, é verdade, mas de lá não deve sair. Trancado e incomunicável, não tem como açular sua malta. Dele, estamos livres. Espera-se que nos deixe tranquilos para sempre.

Vêm aí as eleições. Já sabemos que a urna não emitirá papelzinho (pra ser mostrado ao patrão). Será eletrônica, como estamos acostumados. Tirando os Bolsonaros menos perturbadores, que costumam visar a vereança, não devemos ter nenhum dos dois graúdos na cédula. Um porque está preso; o outro, porque não vai ousar voltar para o Rio, vai continuar nos EUA. Meio sem ter o que fazer, é verdade.

Não se sabe ainda quais serão os nomes que enfrentarão Lula. Em todo caso, três ou quatro governadores, que estão de olho gordo no Planalto, já perderam meu voto. Foram aqueles que defenderam Bolsonaro e, ao mesmo tempo, atacaram o STF. São também aqueles que prometeram conceder indulto presidencial a Bolsonaro. Entre eles, estão Tarcísio, Zema, Caiado, Ratinho Jr.

É bom que apareça alguma figura menos interesseira, se não vamos ter de votar no Lula de novo. Ui!

Conversa de surdo

José Horta Manzano

Hoje me lembrei daquela piada do tempo em que ainda se podia fazer humor sem que alguém chamasse a polícia. Falava de dois velhinhos meio surdos que se avistavam, um de cada lado da rua.

O primeiro grita:
“– Vai pescar?”

O segundo responde gritando:
“– Não! Vou pescar!”

O primeiro (sempre gritando):
“– Ah, pensei que ia pescar!”

A última edição de The Economist, revista que não costuma ter papas na língua, publicou uma análise da baixa da influência de Lula da Silva, tanto no plano exterior quanto no interno. Argumentou que Luiz Inácio tem perdido influência no exterior ao mesmo tempo que se tem tornado menos popular no Brasil. Sua postura em relação às questões internacionais continuam hostis ao Ocidente – emenda a revista –, o que acaba afastando o Brasil dos antigos parceiros.

Falando da participação do Brasil no Brics, The Economist considera que o grupo parecia ser bom trampolim para a influência global do Brasil, mas a postura de Lula, de grande hostilidade ao Ocidente (leia-se: antiamericanismo), tem neutralizado essa possibilidade.

A mídia brasileira deu notícia do artigo da revista inglesa. O Itamaraty, ministério em que, por definição, ainda se conhecem línguas estrangeiras, entre as quais o inglês, também leu o texto. Lula ficou sabendo da crítica. Indignado, mandou Mauro Vieira, nosso chanceler, responder por escrito. O chanceler acatou e assinou uma carta de protesto em nome da República do Brasil(!).

Mais que surpreso, fico incomodado que o chanceler de um país como o Brasil, irritado com um artigo de revista, se sinta obrigado a justificar por escrito. Acho que ele não devia ter feito isso. Eriçar-se por tão pouco é ato que, além de não engrandecer nosso país, só faz aumentar o prestígio da revista. Aposto que, se a revista não fosse inglesa, mas uruguaia, indonésia ou egípcia, o Itamaraty não teria dado sinal de vida. Isso mostra que, ao contrário do que prega, Lula continua vidrado no que o Ocidente pensa dele.

O pior é que a “resposta” do Itamaraty não contesta o que foi dito – nem teria como. A influência de Lula no exterior está em baixa, é fato indiscutível. Sua popularidade entre eleitores também está em baixa, é um fato indiscutível. O que diz, então, a carta? Louva as qualidades de Lula e relembra, no detalhe, feitos de sua carreira. O que mais poderia dizer? Foi a carta do Itamaraty que me lembrou a piada dos velhinhos surdos: um diz uma coisa, outro responde algo totalmente fora de contexto.

Em primeiro lugar, acho que Lula não devia ter se mostrado incomodado com artigo de revista. Não fica bem para um chefe de Estado. Em segundo lugar, acho que Lula faria melhor em tomar nota da opinião do editor de The Economist, que, não fazendo parte de seus áulicos, diz a verdade como ela é. Talvez lhe servisse para refletir sobre a biografia que pretende deixar.

O reclamão

José Horta Manzano

Sabe aquele parente mais pobrezinho, que você convida para um jantar de família na esperança de que ele aprecie e se sinta feliz? Pois é, suponhamos que ele aceite o convite e compareça, sorridente, bem vestido, distribuindo sorrisos tranquilizadores. De repente, quando menos se espera – e sem motivo aparente – o visitante muda bruscamente de atitude. Passa a botar reparo nos móveis, reclamar da comida, se lamentar de só ser chamado raramente em vez de ser convidado fixo. Quando você já está de olhos arregalados de ver tanta petulância e tanta malcriação, a visita vem com mais. Faz beicinho, estufa o peito e se vangloria de que as reuniões do ramo pobre da família se tornaram mais importantes do que os almoços do ramo rico como aquele, por exemplo. Deboche total.

Parece piada de mau gosto, não parece? Pois é assim que nosso presidente Lula costuma se comportar quando é convidado a provar dos comes e bebes no clube dos ricos, o G7. Suas reclamações são um misto de despeito e de amargura. Despeito pelo fato de o Brasil ainda não ser membro titular do clube; amargura por ver chegando o fim de sua jornada política sem vislumbrar a menor possibilidade de nosso país sair do banco e entrar para o time principal.

O site de notícias Poder 360 fez um levantamento das viagens de Lula ao G7 (que já se chamou G8, no tempo em que incluía a Rússia). As primeiras idas foram à França em 2003 e à Grã-Bretanha em 2005. Ainda recatado, Lula comportou-se como visita educada, limitando-se a propor a criação de um fundo de combate à fome. Foi a partir do terceiro convite, em 2006, que Lula começou a botar as manguinhas de fora, como se dizia antigamente. E a partir daí, não parou mais.

Já reclamou da não inclusão do Brasil nas discussões sérias; já afirmou, na cara de pau, que o grupo perdeu importância para o G20; já pediu reforma do Conselho de Segurança da ONU; já se imiscuiu na guerra decorrente da invasão da Ucrânia pelo exército russo. Desta vez, nosso presidente lançou seus gracejos adolescentes antes do início da conversa séria: disse que estava indo ao G7 deste ano “antes que os EUA anexem o Canadá”. No momento em que escrevo, está em pleno voo Brasília – Calgary. O G7 desenrola-se no Canadá.

Não sei o que faria vosmicê se pertencesse ao ramo rico da família e estivesse organizando a reunião. Convidaria o Lula? Eu hesitaria muito em mandar-lhe o convite. Visita que chega com quatro pedras no bolso para atirá-las na hora do almoço é problemática.

O próprio Lula, por que razão continua aceitando o convite se suas falas se perdem no ar e ninguém lhe dá ouvidos? Vê-se que está sendo convidado por algum outro motivo, não pelo conteúdo de suas falas, que não parecem interessar a plateia.

Outra pergunta é: Por que é que continuam chamando nosso presidente para esses convescotes de ricaços? Talvez seja apenas para animar a festa. Ou quem sabe é para mostrar ao mundo uma abertura de espírito de fachada.

Está aberta a temporada de conjecturas sobre a razão dos repetidos convites feitos ao Lula. Quem tiver mais alguma ideia, mande uma cartinha para a Redação. Obrigado.

Mãos repugnantes

Putin tomando banho com sangue ucraniano

José Horta Manzano

Todo político sabe que, na vida pública, há que engolir sapos. Faz parte da função.

Imagine um dirigente visceralmente contrário à monarquia e a todo regime cujo chefe ascenda ao poder por herança de sangue ou “pela graça de Deus”. Pense agora que o dirigente de nosso exemplo se encontre, numa recepção mundana, com o príncipe de Mônaco. Ai, um príncipe! Que fazer? Dar as costas e fingir que não viu? Ou apertar aquela mão aristocrática e sentir o sangue azul pulsando logo abaixo da pele? Nosso dirigente, que não é grosseirão, aperta a mão do nobre. E um sapo lhe desce goela abaixo.

Imagine agora um dirigente de direita, de tendências extremistas, daqueles que abominam pobres, não-brancos, LGBTs e tudo o que não se pareça com eles.

(Abro aqui um parêntese para contar que já conheci pelo menos dois figurões de comportamento constrangedoramente efeminado, daqueles que falam em falsete e quebram o pulso a cada frase – um sufoco. Não convém revelar nomes, só digo que um deles tinha sido rei da Itália e o outro era o xeique de Abu Dhabi à época. Mas faz tantos anos, que a poeira do tempo já cobriu tudo. Fecho o parêntese.)

Voltemos a nosso dirigente fricoteiro e homofóbico. Vamos imaginar que seja apresentado a um figurão que rebola, cheio de trejeitos. Vai dar as costas e recusar o aperto de mão? Ainda que extremista, nosso dirigente não é um ogro ignorante. Aperta a mãozinha. E solta logo. Mais um sapo escorre-lhe pela garganta.

Foram dois exemplos bastante forçados, caricatos. Dificilmente ocorreriam na vida real. Ou talvez… nunca se sabe.

Agora vamos a um caso bem real, que aconteceu de fato, notícia fresquinha desta semana. Não foi encontro casual ou fortuito. O colóquio foi real, pesado e pensado, discutido e deglutido, revolvido e resolvido. Não foi resultado de ato irrefletido, daqueles de que a gente acaba se arrependendo.

Lula decidiu aceitar o convite que Vladímir Putin lançou aos poucos “amigos” que lhe restam. Convocou a comitiva e, encantados feito crianças que saem de férias, embarcaram num avião de nossa Força Aérea para voar umas 13 horas rumo a Moscou.

Ao chegar – não sei se terá pensado nisso – calhou de ser, entre os convidados de Putin, um dos raros dirigentes democráticos. A seu redor, tinha uma boa seleção do melhor que o mundo tem em matéria de ditadores e dirigentes autoritários.

Além do anfitrião e de seu vizinho Xi Jinping, estavam Miguel Díaz-Canel (Cuba), Nicolás Maduro (Venezuela), Viktor Orbán (Hungria), Robert Fico (Eslováquia). Estavam lá também os dirigentes de Tajiquistão, Uzbequistão, Bielorrússia e de dezenas de outros regimes afins.

Vladímir Putin, cuja lista de guerras de conquista já inclui Tchetchênia, Geórgia e Ucrânia, é responsável direto pelos mortos, feridos, amputados e estropiados que esses conflitos engendraram – contando por baixo, serão entre 2 milhões e 3 milhões de velhos e jovens, homens e mulheres, militares e civis, anciãos e recém-nascidos, todos ceifados pela sede de poder e glória de um único homem.

Pois nosso Luiz Inácio, todo lampeiro, convoca acólitos e credores de favor, cruza o oceano, veste sua roupa de gala para apertar a mão do responsável por tanta desgraça. São mãos asquerosas, vermelhas de sangue inocente.

Lula agarra Putin como se fosse uma pessoa normal. Não é.

No momento desse repugnante aperto de mão, nenhum dos protagonistas engoliu sapo. Foi o Brasil, o Brasil decente, o Brasil atento, o Brasil humanitário, o Brasil digno, o Brasil amoroso – foi esse Brasil que engoliu mais um sapo.

Tudo por tua causa, Lula! Está na hora de cair na real e largar de prestigiar essa cambada de ditadores nojentos!

Madame vai primeiro

José Horta Manzano

Todo chefe de Estado, antes de viajar ao exterior, envia exploradores para preparar sua chegada e sua permanência. Vão verificar assuntos variados, desde questões de segurança, alojamento e deslocamento até detalhes do cardápio a ser servido ao visitante. Além de contar com sua equipe de especialistas, Lula pode se apoiar numa personagem que lhe é especialmente próxima e fiel: sua esposa, Janja.

Lula ainda não foi, mas Madame já está lá, tendo embarcado cinco dias antes do marido e chefe. Um programa foi especialmente preparado para ela, incluindo manifestações ligadas à educação, à cultura e ao combate à fome. Está também prevista uma visita ao Teatro Bolshoi de Moscou para assistir a uma representação de “O lago dos cisnes”, balé composto por Tchaikovski.

O motivo oficial da longa viagem de Lula é prestigiar os festejos do 80° aniversário do fim da Segunda Guerra na Europa. Na Rússia, a guerra mundial é chamada Grande Guerra Patriótica. Por lá, a história oficial dá relevo à participação soviética, deixando para segundo plano os aliados. Nos demais países europeus, o fenômeno inverso ocorre: a glória maior é conferida aos europeus e norte-americanos, ficando os russos com um papel marginal.

É curioso que Lula nunca tenha pensado em comparecer à celebração do Desembarque do 6 de Junho de 1944, considerado o ponto de virada da vitória aliada na Segunda Guerra. Esse evento é comemorado todos os anos na Normandia, norte da França. Terá seus motivos para não ter ido; talvez porque seria apenas um entre vários, enquanto que, em Moscou, será um convidado importante. Putin, mandado para o banco pelo mundo democrático, precisa de visitantes conhecidos.

Os principais dirigentes a prestigiar os festejos moscovitas são ditadores ou dirigentes autoritários: Bielorrússia (Lukatchenko), Hungria (Orbán), Eslováquia (Fico), Azerbaidjão, Sérvia, Tadjikistão, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela. A figura de maior projeção a ter anunciado presença é Xi Jinping, ditador da China.

Entre eles, lá estará nosso Lula, cujas intenções não ficaram claras. Quem sabe:

  • Estará dando um enésimo sinal de rebeldia para com os EUA? Mandando uma banana pra eles, como quem diz: “Aqui sou amigo do rei”?
     
  • Está tentando recuperar para si a liderança do Brics, perdida desde que o grupo foi expandido, tornando-se uma agremiação de países heterogêneos, sem programa e sem objetivo.
     
  • Cansado dos miasmas tóxicos de Brasília, decidiu mudar de ares por alguns dias. O sacrifício de encarar mais de 24 horas de viagem de avião (ida mais volta) compensa. Afinal, não é todo dia que se dá um aperto de mão no coreano Kim Jong-Un.

Sejam quais forem as ideias que povoam a cabeça de Luiz Inácio, uma certeza fica: não é prestigiando a Rússia que ele vai obter vantagem. Simplesmente porque Moscou não tem nada a oferecer além de fertilizantes e armas. Fertilizantes, já compramos; armas, não, obrigados.

Bolsonaro disse um dia, em Moscou, diante de Putin, que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Agora vai Lula e, com sua visita, reitera as palavras do capitão. Putin vai acabar acreditando.

Ocaso dos populistas

José Horta Manzano

Lula anda se comportando feito barata acuada. Corre pra um lado e pra outro, hesita em trocar ministros, tira da cartola um programinha populista aqui, outro ali, tudo de circunstância, sem consistência. Mostra, a cada dia, não ter programa de governo. Na sua cabeça, que parece ter estacionado no tempo de seus mandatos anteriores, imaginou que pudesse se comportar como Midas moderno, resolvendo todos os problemas com um toque. Não está dando certo.

Bolsonaro é outro que anda deslizando, cada vez mais enrolado. Nos bons tempos em que lhe serviam café quente, vencia todas e agredia sem medo todas as autoridades da república. Pairava, inatingível, acima da ralé e da grã-finada. Hoje o vento mudou. Não entra mais em palácio. Seus comparsas estão presos ou à beira de o ser. Desconcertado, agarra-se a qualquer miragem que lhe pareça poder livrá-lo da cadeia com a qual já tem encontro marcado.

Trump está decepcionando os que dele esperavam um poderoso “abre-te sésamo” que projetasse os EUA num futuro brilhante de riqueza e prosperidade. Suas promessas de campanha andam mal das pernas. A expulsão de 11 milhões de trabalhadores clandestinos está se verificando meta inatingível, fora de qualquer cogitação. O conflito ucraniano, que seria resolvido em 24 horas, foi posto de molho. Bombas continuam explodindo na capital ucraniana. O vaivém dos impostos de importação mostrou, depois de perturbar as finanças do planeta, que não tinha vindo pra ficar, que era só uma ameaça. Caiu mal.

Putin continua lá no seu canto, jururu, sem conseguir vencer a guerra que declarou contra um vizinho bem menor e menos poderoso que ele. Ele também há de estar perdendo a confiança em Trump, aquele que prometia acabar com a guerra em um dia.

Milei, dizem, também anda inconformado. Seu sonho teria sido que a Argentina, e não o Canadá, tivesse sido convidada a se tornar o 51° estado americano.

Marine Le Pen é deputada francesa da extrema direita populista. A cada eleição para a presidência da república, seu nome na urna é tão infalível quanto brigadeiro em festa de criança: está sempre lá. E já faz umas duas ou três vezes que passou para o segundo turno. Pois Madame acaba de receber uma pena de prisão e de cinco anos de inelegibilidade. Em vez de prisão, terá de andar com tornozeleira eletrônica, mas a inelegibilidade é pra valer: não poderá disputar a próxima eleição.

Os que mencionei não são os únicos, há muitos outros líderes populistas no mundo. Falei dos que estão mais próximos de nosso universo. A julgar por eles, este ano da graça de 2025 parece assinalar o fim – ou pelo menos uma pausa – na pestilenta vaga de populismo que nos circunda.

Tomara que a pausa dure bastante tempo. Tomara que as próximas presidenciais brasileiras não tragam nenhum candidato populista na urna. Uma eleição sem Lula e sem Bolsonaro será uma bênção.

São Benedito é santo forte. Não sei se seus braços alcançam Le Pen, Milei, Putin e Trump. Mas sei que têm poder em Brasília.

Sem Lula e sem Bolsonaro(s), por favor, meu Santo!