Quem vai enfaixar o presidente?

José Horta Manzano

Nosso bizarro presidente será, com certeza, bizarro até o último dia. É grande a possibilidade de ele se recusar a passar a faixa ao sucessor. Como dizia o humorista Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é que não sai nada. Se a birra do capitão se confirmar, como é que fica?

Com aquele seu jeito espandongado, o general Mourão, o vice, já declarou que não entrega faixa a ninguém. Argumenta que essa incumbência não lhe assenta, visto que, segundo ele, faixa é coisa de presidente, não de vice. Mostra que se conformou com a ideia de ter sido um vice meramente decorativo.

Escanteado o vice, sobra a interrogação: quem vai enfaixar Lula?

Surgiu a ideia – dizem que é realmente do presidente eleito – de reunir um grupo de cidadãos para a cerimônia. Caberia a eles trazer a faixa numa bandeja e entregá-la ao empossando.

Imaginar que qualquer grupo de cidadãos represente o povo brasileiro é ideia distorcida e carregada de naftalina populista. Os parlamentares, gostemos ou não, são os representantes da população legitimados pelas urnas. Atrás de cada um deles, está o homem, a mulher, o índio, o preto, o LGBT, o ancião, o incapaz. E até o devoto e o golpista. Não faz sentido rejeitar os representantes que todos elegeram e substitui-los por um grupo selecionado pela equipe de transição.

A solução cogitada pelos que orbitam ao redor de Lula é engraçadinha mas, a meu ver, é simples tapa-buraco. Depois de quatro anos com um presidente que tentou por todas as maneiras destruir ritos e tradições, não acho que seja de bom augúrio já começar o novo governo com improvisações.

A República não pode ser modulada ao gosto do freguês como cardápio de restaurante fino. Seus ritos, baseados na Constituição ou na tradição, têm de ser respeitados. Chega de desrespeito às normas!

A linha de sucessão presidencial está prevista na Constituição. O primeiro na linha é o vice-presidente; em seguida vêm, na ordem: o presidente da Câmara, o presidente do Senado, o presidente do STF.

Por analogia, a mesma linha de sucessão deve ser aplicada na hora de passar o adereço. Pra não ficar esquisito, a autoridade que entregar a faixa não deve vir vestida com ela. A faixa será trazida sobre uma bandeja, e o empossando se vestirá sozinho ou eventualmente auxiliado por um ajudante de ordens.

Improvisação só caberia se todas as quatro autoridades da linha de sucessão se recusassem a entregar a faixa. Mas isso não deve ocorrer.

É importante mostrar que o Brasil está voltando a ser um país normal.

O público e o privado

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 26 novembro 2022

Monsieur Pierre Maudet é um político suíço. Talentoso, aos 33 anos já era prefeito de Genebra. Poucos anos depois, chegou ao posto máximo de seu cantão, o de presidente do Executivo colegiado. Muitos já vislumbravam para o jovem prodígio um posto de primeira gandeza no plano federal.

Em 2015, ele aceitou convite do príncipe herdeiro de Abu Dabi para passar três dias no emirado. Durante a visita, Maudet encontrou-se com dirigentes do país, inclusive com o emir. O episódio passou despercebido até que, três anos depois, o MP de Genebra abriu inquérito sobre o passeio. Queria saber se a viagem era privada ou de cunho político.

Monsieur Maudet jurou que tinha sido viagem de lazer com despesas pagas de seu próprio bolso. Mas nosso mundo digital não perdoa: tudo fica gravado e a verdade acaba vindo à tona. O inquérito prosseguiu e acabou descobrindo que o político estava mentindo: ele tinha viajado a convite do emir – e com todas as despesas pagas, inclusive o voo em primeira classe.

A carreira do promissor político estancou. Foi expulso do partido. O Tribunal Federal, última instância judiciária do país, acaba de confirmar sua condenação definitiva. Ele é culpado de ter aceitado favores indevidos, pouco importando a existência ou não de contrapartida aos mimos recebidos.

Outro dia, Lula da Silva, nosso presidente eleito, tomou a iniciativa de ir ao Egito para a Cúpula do Clima. Embarcou no jato particular de um empresário. O detalhe incômodo é que este último, enroscado na Lava a Jato, fez acordo de delação e devolveu 200 milhões ao erário.

A imprensa sentiu o cheiro de queimado. Indagado, o presidente eleito não se mostrou constrangido e informou com candura: “Não pedi o avião, foi ele quem me ofereceu. Não foi empréstimo, foi carona.”. Em outros tempos ou em outras terras, esse passo em falso teria potencial de ofuscar a totalidade do mandato, podendo até justificar o impedimento do recém-eleito.

Mas não estamos em outros tempos nem em outras terras. Em nosso leniente Brasil, em geral dá-se um jeito. Assim mesmo, há momentos em que fica difícil dar jeitinho. Os destituídos Collor e Dilma estão aí para provar. Assim como os condenados na Lava a Jato. E também os bolsonaristas enredados na justiça. Lula que tome cuidado.

O novo presidente vai governar num cenário diferente do de mandatos anteriores. Em vez de parlamentares bonachões, terá diante de si uma oposição do tipo “quatro pedras no bolso e faca entre os dentes” – uma espécie de PT ao quadrado, feroz, pronto a agarrar qualquer pretexto para tocar trombone e bater panela. Não terá a vida fácil.

Com razão ou não, a imagem de Lula no papel de chefe de quadrilha está cristalizada na mente de muitos eleitores. A justiça julgou, penas foram purgadas, mas o estigma ficou. Se todo homem público tem de escolher com atenção as pedras em que pisa, Lula tem de tomar cuidado redobrado, que há muita gente de olho em seu primeiro escorregão.

Na equipe de transição, já há um grupo de trabalho para o combate à corrupção. A preocupação com o tema é louvável. A ideia deveria ser levada adiante, quiçá com a criação de uma secretaria permanente. No entanto, por mais que uma secretaria cuide de apontar e coibir casos de corrupção, ela será sempre consituída de funcionários subordinados ao governo. No frigir dos ovos, temos funcionários do governo que tentam controlar o próprio governo. Como se sabe, certas verdades costumam ser edulcoradas para agradar ao chefe.

O ideal será que essa secretaria seja complementada por um Observatório da Corrupção, organismo independente, composto de conselheiros maduros e de ilibada reputação. Podem ser juristas, ex-juízes, ex-parlamentares, professores, cientistas, empresários, gente de bom senso. É vital que não sejam remunerados. Farão trabalho voluntário e serão apenas ressarcidos de despesas. Só um controle externo como esse tem o poder de chegar direto à Presidência, sem preocupação de agradar ou desagradar ao chefe.

O Observatório da Corrupção seria o órgão adequado para convencer o presidente a não mais mesclar o público com o privado, como na viagem ao Egito. Contra uma oposição feroz, todo cuidado é pouco.

Prognóstico

Corriere della Sera, 24 nov° 2022

José Horta Manzano

“O líder da direita [Bolsonaro] contabilizou o apoio de Neymar e fez duas promessas: “Eu vou ganhar as eleições e ele, a Copa”. A primeira aposta frustrou-se. Quanto à segunda, hoje começa o baile.

E se, no final, a seleção que mais títulos já recebeu na história devesse chegar de novo ao topo, provavelmente Lula vai esquecer a brincadeirinha de Neymar e vai abraçá-lo como um filho predileto. Porque essa é a democracia, e sobretudo esse é o futebol (não somente) no Brasil.”

Equipe efêmera

José Horta Manzano

Na noite de 30 de outubro, quando foi declarado vencedor, Lula sacou do bolso de trás um discurso de meia hora, com começo, meio e fim. Disse tudo o que tinha de ser dito, agradeceu, louvou, prometeu e comoveu. Um pronunciamento daqueles não se improvisa. Vê-se que foi fruto de profunda reflexão, de erros e acertos, de trabalho conjunto, de polimento. A preparação há de ter consumido dias, talvez semanas.

Vencida a corrida presidencial, veio o momento de anunciar a composição da equipe de transição, que funcionará até o fim do ano, num total de 61 dias.

Considerando que o discurso de vitória foi montado com antecedência e com tanto zelo, seria de esperar que o esqueleto da equipe de transição também já estivesse planejado.

A realidade mostra que não era bem assim. Já se passaram 17 dias, e a montagem da equipe ainda não terminou. A cada dia, aparecem nomes novos. Sem estar totalmente formada, a equipe não tem como funcionar. Falta articulação. É como um veículo que, para rodar, precisa estar completo – se faltar uma roda, não anda.

Será que a intenção dos escolhidos é realmente delinear a ossatura da futura governança? Está mais parecendo um convescote entre companheiros, uma vitrine de vaidades do tipo: “Tchau, mãe! Ói eu aqui!”.

Vamos ver se conseguem terminar a montagem daqui até o Natal. Se conseguirem, ainda sobra uma semana pra trabalhar, entre Natal e o réveillon.

Virando a página

by Luciano “Kayser” Vargas (1970-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

No Brasil, ainda se ouve o eco das reclamações dos que ficaram desagradados com o resultado da eleição. Ainda tem gente imitando o guru Roberto Jefferson e jogando paus e pedras na polícia. E até dando tiros de revólver contra a força pública. A razão é que esses inconformados pressentem que dificilmente poderão contar de novo com um extremista na Presidência. O pesadelo (chamado de “sonho” por bandidos, garimpeiros selvagens, madeireiros ilegais, grileiros, milicianos e ingênuos) acabou.

Esse estropício que está de saída do Planalto conseguiu chegar lá em 2018 porque ninguém tinha a medida do que poderia ser um indivíduo nazi-fascista sentado no trono. Ninguém tinha nunca convivido com um. Agora todos sabem. É por isso que, pelas próximas décadas, é de duvidar que outro espécime da mesma laia seja eleito. Nem ele, nem uma imitação.

No Brasil, ainda pipoca aqui e ali uma notícia de rodapé sobre aqueles agrupamentos de gente embandeirada zanzando de um lado pro outro como se estivessem todos em estado de transe coletiva, a chorar o messias naufragado. Já no estrangeiro, Bolsonaro e seus devotos são página virada. O Brasil agora é mencionado em relação à COP27 e, cada vez mais, em relação à Copa.

O canal de informação contínua France Info se alegra de ver o Brasil de retorno à COP27(*) e lamenta que a China de Xi Jinping esteja ausente.

France Info

O sueco Nyheter 24 também se enche de esperança ao mencionar a presença de Lula na Conferência Climática. Diz textualmente:

“A recente vitória de Luiz Inácio “Lula” da Silva nas eleições presidenciais brasileiras é vista como um possível ponto de inflexão na luta pelo cumprimento das metas climáticas globais. Com o negacionista climático Jair Bolsonaro no poder, as florestas tropicais vitais da Amazônia foram desmatadas a um ritmo acelerado – o que Lula diz querer parar.”

Nyheter 24

O inglês The Guardian anuncia que o Brasil, a Indonésia e o Congo estão em tratativas para formar uma aliança estratégica para a conservação da floresta úmida. O novo clube, que reúne mais de 50% da floresta equatorial, já recebeu o apelido de “OPEP das Florestas Tropicais”, em alusão à Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

The Guardian

A edição alemã do site esportivo GOAL escolheu outro tema. Publica artigo sobre o fervor com que a Seleção canta o hino nacional. Lembra que, na Copa de 2014, o público presente no estádio continuava a cantar a cappella quando os 90 segundos regulamentares permitidos pela Fifa para cada hino se esgotavam e o acompanhamento musical silenciava.

Para completar, o artigo conta a história de nosso hino e traz a versão alemã da letra – com todos os versos. E inclui ainda um vídeo de um jogo de 2014 com o estádio inteiro cantando de pé. Era uma época em que vestir-se de amarelo significava apenas ser um cidadão direito, não de extrema-direita.

Goal (deutsche Ausgabe)

(*) COP = Conference of the Parties (Conferência das Partes). Na verdade, o nome em inglês é Climate Change Conference (Conferência de Mudanças Climáticas). No entanto, a sequência CCC foi abandonada visto que, na língua inglesa, a sigla já tinha mil e uma utilidades.

Na política dos EUA dos anos 1930:
Civilian Conservation Corps

Nos negócios:
Cash Conversion Cycle

Nos aplicativos de mensagem:
Coricidin Cough and Cold

Na escola:
Community Classroom Collaborative

Na administração californiana:
California Conservation Corps

Na área de saúde:
Clinical Competency Committee

Na temática LGBT:
Classic Closet Case

Vai passar a faixa?

José Horta Manzano

Está fervendo a especulação sobre como será a cerimônia de 1° de janeiro 2023. Afinal, Bolsonaro vai passar a faixa ao sucessor? Passa ou não passa?

Do capitão, pode-se esperar tudo, inclusive o pior. Portanto, é bom ir com calma nas expectativas. Faltam quase dois meses para o dia da transmissão de poder – uma eternidade, quando se trata de personalidade instável.

Sabe-se que o espantalho maior do (ainda) presidente é a prisão. No momento em que descer a rampa, voltará a ser um cidadão comum, sujeito a chuvas e trovoadas como qualquer um de nós. Só que ele carrega uma baciada de processos, e nós não. E ele sabe que tem um armário cheio de esqueletos.

Para o 1° de janeiro, há a solução de deixar o país, encarregar o vice de entregar a faixa a Lula, e só voltar alguns dias depois. Parece simples, mas há um perigo.

Os mais antigos talvez se lembrem do que aconteceu em 1998 com o general Pinochet, que tinha sido ditador do Chile. Aos 83 anos, já retirado da vida política, ele estava de passagem em Londres para tratamento de saúde. Para sua surpresa, foi um dia despertado no hospital pela polícia inglesa. Recebeu voz de prisão.

É que um persistente juiz espanhol tinha pedido ao governo inglês que concedesse extradição do ex-ditador para ser julgado na Espanha. O velho Pinochet passou 503 dias em prisão domiciliar, até que o governo britânico o liberou por motivos humanitários depois de ele sofrer um AVC e ficar meio gagá.

Com o caminhão de acusações que carrega, seria temerário Bolsonaro se aventurar no exterior depois de ter perdido a imunidade presidencial. Ao redor do planeta, muitos juízes estão à espera desse momento para mandar prendê-lo e despachá-lo ao Tribunal Penal Internacional.

Resta a opção de engolir o orgulho e passar a faixa ao sucessor. Seria a melhor solução. Todos vão apreciar, tanto o público interno quanto o internacional. O Brasil transmitirá uma imagem de democracia normal e amadurecida em que ex-presidentes não saem pela porta dos fundos.

Já o futuro do capitão, em matéria internacional, parece delicado. Fosse ele, eu evitaria pôr os pés fora do território nacional, seja qual for a razão, seja qual for o destino. Lá fora, pode até surgir um juiz zeloso que peça sua prisão preventiva. Nunca se sabe.

As viúvas de Bolsonaro

José Horta Manzano

 


Visão de mundo das carpideiras do mito defunto


 

Entre os dois turnos da eleição, Bolsonaro já havia deixado clara sua visão do povo brasileiro. Foi quando insinuou que o Nordeste era povoado por analfabetos e ignorantes, razão pela qual votam no Lula.

Traduzindo o pensamento transcendente de Seu Mestre, deduz-se que os brasileiros não são todos iguais. Por um lado, há os que votaram no “mito”, cidadãos letrados e inteligentes cujo voto deveria valer mais que o dos outros. Por outro, há os que preferiram Lula, cidadãos de segunda classe cujo voto teria de ser impedido a qualquer custo.

A declaração do presidente deu sinal verde para as blitzes efetuadas no Nordeste pela PRF no dia do segundo turno. O objetivo era impedir que cidadãos de segunda classe se aproximassem da urna eletrônica. Pode até ser que milhares de eleitores tenham sido mandados de volta pra casa naquele dia, talvez se descubra um dia.

Outra consequência da senha lançada por Seu Mestre afetou o bom funcionamento do país inteiro. Foram os bloqueios que devotos do capitão montaram nas estradas, enquanto outros discípulos decidiram organizar manifestações de protesto defronte a quartéis do Exército. Todos fantasiados de verde-amarelo como manda o figurino.

De memória de eleitor, ninguém nunca viu, desde a redemocratização, hordas de carpideiras chorarem a má sorte do candidato perdedor e organizarem manifestações de indignação em que o Exército é chamado pra dar um jeito. De tão fora de esquadro, a coisa roça o grotesco.

Atribua-se ao capitão a culpa dessa baderna que perturba a vida da sociedade inteira. Foi ele quem fez seus seguidores acreditarem que estavam um degrau acima dos eleitores do candidato adversário. É essa a lógica que embasa a indignação dos protestatários, que devem pensar: “Como assim? O voto dos cidadãos de segunda classe não pode sobrepujar o nosso!”. Daí o sentimento de ódio e revolta.

Se faz urgente um trabalho de retropedalada. É preciso mostrar a esses indignados que, diferentemente do que parecem acreditar, a escravidão não foi reinstaurada no país. Não há dois níveis de cidadania. Todos os conterrâneos têm direitos e deveres iguais. O voto do bonitão vale tanto quanto o do esfarrapado.

Vai ser muito difícil mudar essa visão distorcida. Essa gente vai continuar esperando um próximo messias que venha salvá-los.

Simpatia

José Horta Manzano

Este blogueiro cresceu num tempo em que quase não havia vacinas. Doenças infantis infecciosas, toda criança acabava pegando. Tive as quatro mais corriqueiras: catapora, coqueluche, caxumba e sarampo. Quando uma das crianças caía doente com sarampo e ficava de molho na cama, minha mãe pendurava no quarto uma cortina vermelha. Dizia que era simpatia, que ajudava a resolver o problema e ficar bom logo.

Outro dia, no supermercado, vi uma banca de cuecas em oferta, daquelas promoções em que o freguês tem de levar um pacotinho de meia dúzia. No pacote, as cores já vêm misturadas e não há meio de escolher: ou leva tudo ou desiste da compra.

Levei um pacote. No meio das cuecas, havia uma vermelha, de um vermelhão Chapeuzinho Vermelho. Mesmo sendo peça que se usa debaixo da roupa e que ninguém vê, deixei no fundo da gaveta. A cor me pareceu espantada demais.

Anteontem, domingo de eleição, foi dia importante. Era a derradeira oportunidade de se livrar do capitão, desalojá-lo do palácio e devolvê-lo ao submundo de onde veio. As pesquisas anunciavam um escrutínio apertadíssimo.

Para varrer Bolsonaro, só havia um meio: votar no Lula. Não era uma perspectiva empolgante. Mas raciocinei como muita gente. Pensei: “Coragem! Dos males, o menor. É só apertar um trezezinho aí, que o dedinho não vai cair”.

Antes de pegar a estrada para Genebra, na hora de me vestir, lembrei da cueca vermelha. Lembrei também da simpatia da minha mãe. Pensei: “Por que não tentar repetir a simpatia? Se funciona pra curar doença, quem sabe não funciona também pra curar um país doente?”. Vesti a peça vermelha.

No local de votação, vi grupos espalhafatosos com gente de amarelo e alguns até enrolados em bandeira. Vi também grupos mais discretos, em que todos (ou quase) tinham pelo menos um detalhe vermelho na indumentária. Não sei se ostentavam o detalhe por paixão lulista; no meu caso, não havia nem um grãozinho de paixão. Era por “simpatia” – pode também chamar de magia branca.

Pelo fuso horário daqui, já era comecinho da madrugada quando saiu a notícia oficial: o capitão estava derrotado. Na hora de estourar o champanhe(*), lembrei da cueca e me dei conta de que a simpatia tinha funcionado.

Tive então a certeza de que, não fosse ela, ainda teríamos de aguentar palavrões e ameaças por quatro anos. Talvez, num futuro próximo, o capitão ainda tivesse a macabra ideia de proibir as vacinas infantis, condenando os pequerruchos ao sarampo e à catapora.

Se foi mal com ele, melhor será sem ele.

(*) É força de expressão.

#naovaitergolpe – 2

José Horta Manzano

Se alguém espera que parlamentares bolsonaristas recém-eleitos se abalem pra “salvar” o capitão ou pra apoiar um golpe de Estado, pode tirar o cavalinho da chuva. Isso não periga acontecer. Por quê?

A razão é simples. Eles todos, que eram desconhecidos até anteontem, subiram agarrados no elevador bolsonarista. Surfaram a onda e assim foram eleitos. Agora, que estão lá, não querem nem ouvir falar de golpe. Nem por brincadeira.

A primeira consequência de todo golpe que se preza é o fechamento do Congresso. Parlamentares são todos postos de molho por tempo indefinido. Em seguida, vêm as cassações de mandato. “Quem garante que o meu não será cassado?” – é o que se pergunta o deputado ajuizado.

Melhor deixar como está. Deputados estão com cargo, salário, jetons, apartamento funcional, mordomias e principalmente imunidade parlamentar garantidos por quatro anos. No caso dos senadores, são oito anos. Quem vai fomentar golpe e arriscar perder tudo isso? Ninguém é besta.

Parlamentares bolsonaristas estão agindo rápido para reconhecer a derrota de Seu Mestre. Entre os primeiros, estão: Sergio Moro, Carla Zambelli, Zé Trovão, Ricardo Salles, Tereza Cristina, Arthur Lira, Nikolas Ferreira, Damares Alves. Esta última, apesar de residir no DF, pediu que um apartamento funcional seja posto a sua disposição.

Quem é que trocaria essa moleza por um temerário golpe só pra “salvar” um desequilibrado?

Carta ao vencedor

José Horta Manzano

O último páreo corre amanhã. Depois de quatro intermináveis semanas, chegou a hora do vamos ver. Com a respiração suspensa, o Brasil palpita à espera do resultado. Hoje, véspera do Dia D, não temos ainda o placar final, mas tudo indica que deve ser apertado. Não serão muitos pontos de porcentagem a separar o vencedor do derrotado.

Oito anos atrás, escrevi, neste mesmo espaço, carta aberta à presidente Dilma Rousseff, que acabava de ser reeleita. Desta vez, achei interessante dar um salto no escuro. Escrevo minha cartinha ao novo presidente antes mesmo de conhecer seu nome. Vamos lá.


Senhor Presidente,

Antes de mais nada, deixo aqui minhas felicitações pela vitória. A meu juízo, foi o pleito mais emocionante desde a eleição de Tancredo Neves – que foi indireta mas carregada de suspense e simbolismo.

Meus parabéns vão a vosmicê, mas também ao perdedor. O fato de terem chegado à final embalados por dezenas de milhões de votos há de ser lisonjeira para ambos. Quando se pensa que, quatro anos atrás, um dos finalistas de hoje era um apagado parlamentar do baixo clero enquanto o outro estava fora do jogo político por motivo de prisão, a caminhada de ambos foi excepcional.

Vosmicê, senhor Presidente, vai encontrar um país partido em dois. É lugar comum dizer que é hora de unir, não de separar – só que, desta vez, o sulco é profundo. É urgente agir antes que o fosso vire um cânion intransponível. Já faz vinte anos que o sulco começou a ser cavado; os últimos quatro anos só fizeram alargá-lo. Esses rachas podem comprometer até nossa integridade territorial. Não se brinca com essas coisas.

Não é hora de procurar culpados, é hora de agir. A continuar como está, a combinação de divergências religiosas com desnível sócio-econômico periga armar uma bomba-relógio desregulada que vai explodir a qualquer momento. Não tenho certeza de que isso seja boa notícia para o governo, seja quem for o presidente. Convulsão social nem sempre segue o itinerário que se gostaria. Em geral, costuma se voltar contra o poder.

Num país de desigualdades sócio-econômicas abissais como o Brasil, programas de redistribuição de renda não são meros truques eleitoreiros – são necessidade absoluta para a sobrevivência de dezenas de milhões de conterrâneos. Seja qual for sua orientação ideológica, senhor Presidente, é indispensável dar prosseguimento a eles. O que pode (e deve) ser acrescentado é uma porta de saída, um objetivo, um incentivo, uma meta. Todo beneficiário tem de sentir que, em troca do auxílio, deve algo ao poder público. Pouco importa o valor da contrapartida, o que interessa é incutir a ideia de troca: “recebo, mas tenho que dar”.

O Brasil é grande, mas está longe de ser uma ilha autossuficiente pairando acima das querelas do mundo. Estamos inseridos na economia global, seja qual for o credo de nosso governante. Atitudes sectárias e clivantes do tipo “ênfase nas relações Sul-Sul” ou “reforço de laços com governantes de direita” são contraproducentes. Nosso país tem de se abrir ao mundo. Seu destino é muito mais amplo do que o encruamento em que se encontra.

Como repetia o General De Gaulle, nações não têm amigos, têm interesses. O presidente do Brasil, dado o imenso poder que lhe confere a Constituição, tem de se compenetrar desse fato. Não o fazendo, nossas trocas comerciais vão se ressentir e nossa imagem no cenário internacional vai continuar desbotando.

Daqui a meio século, senhor Presidente, não estaremos mais aqui, nem vosmicê nem eu. Cidadão desimportante, me contentarei com uma lápide de pedra barata. Já vosmicê estará nos livros de história. Sua memória poderá ser exaltada ou pisoteada, dependendo de seus atos e palavras nos próximos quatro anos. Quando, no futuro, se referirem a vosmicê, será melhor que digam “aquele que fez o Brasil decolar” ou “aquele que fez o país empacar de vez”?

Receba meus votos de sucesso.

O último debate

José Horta Manzano

Os mais velhos talvez se lembrem da campanha para as presidenciais de 1989. O voto do primeiro turno eliminou 19 candidatos e deixou dois finalistas para o segundo turno: Lula e Collor. Poucos dias antes da votação final, as pesquisas mostravam os dois em empate técnico.

Foi nessa reta final que Collor deu o que uns consideram “golpe de mestre” enquanto outros julgam ter sido “golpe baixo”. O alagoano contou ao Brasil inteiro a história de uma filha que Lula tinha tido com uma namorada, fora do casamento. O petista teria incitado a gestante a abortar. Não sendo atendido, não reconheceu a menina.

Um calafrio percorreu a nação. Lula, fortemente abalado pela revelação, preferiu não reagir nem tocar no assunto por ocasião do último grande debate, levado ao ar a dois dias do segundo turno. Foi seu grande erro. O efeito da revelação foi fulminante. Praticamente todos os indecisos deram seu voto a Collor, que ganhou com 53% contra 47% de Lula.

É verdade que revelações de condutas desviantes – crimes, delitos ou até simples infidelidades conjugais – podem impactar o eleitorado e levar um candidato à derrota. Nestas presidenciais de 2022, muita gente receia que, durante o debate da Globo, seu candidato seja surpreendido por uma revelação desairosa, fique sem resposta e entregue os pontos (no sentido real da expressão).

Não acredito que isso possa acontecer. Não que os candidatos sejam anjinhos: se pudessem, nenhum deles hesitaria em pôr à mesa a louça suja do adversário para tentar afundar-lhe a candidatura. A razão de minha descrença é outra.

A atual campanha tem sido cruenta, suja, de baixo nível, rasteira, agressiva, mais acusatória que propositiva, violenta, intimidante. O distinto público já viu e ouviu de tudo. Os mais recentes projéteis que cruzam o ar zunindo se chamam “pintou um clima”, “pacto com o diabo”, “genocida”, “corrupto”, “fascista”, “comunista”. Entre as falsas e as verdadeiras, as acusações têm sido tão numerosas, tão frequentes e tão contundentes, que nada mais pode aparecer que impressione um público blasé.

Ainda que o candidato A trouxesse um filminho em que o candidato B trucidasse a própria mãe em praça pública na frente de cinquenta testemunhas, nem assim o efeito seria devastador. Os adeptos do candidato assassino dariam de ombros alegando tratar-se de vídeo forjado ou editado. E nenhum voto escorregaria.

Portanto, não perca tempo seguindo o debate de amanhã. Em vez disso, escolha um bom filme. Ou vá dormir cedo, que é excelente opção.

Mais ecos do debate

José Horta Manzano

O debate que Lula e Bolsonaro protagonizaram na tevê ecoou forte além-fronteiras. Debates à brasileira, que se assemelham cada dia mais a briga de criançada do ensino fundamental, são desconhecidos na Europa, onde o nível costuma ser menos rasteiro.

Essa história de “Acusado! Eu vi você mostrando a língua pra professora!” não cabe numa confrontação entre candidatos à Presidência de país civilizado. O que tem divertido a imprensa estrangeira são justamente essas alfinetadas pré-adolescentes, comportamento que destoa vindo de dois personagens que já ocuparam o posto máximo.

 

 

El Mundo
O espanhol El Mundo não se ateve a detalhes. Deu uma nota global: “Um eletrizante debate corpo a corpo”.

 

 

Corriere della Sera
O Corriere della Sera é escrito numa língua (italiano) que não é pródiga no uso de diminutivos. Para traduzir a expressão “pequeno ditadorzinho”, que Lula dirigiu a Bolsonaro, o jeito foi duplicar o adjetivo: “Um piccolo piccolo dittatore”um pequeno pequeno ditador.

 

 

The Guardian
O mesmo problema de diminutivos tem a língua inglesa. Na hora de verter o “pequeno ditadorzinho”, o Guardian de Londres escreveu: “Tiny little dictator” – minúsculo pequeno ditador.

 

 

Sud Ouest
O francês Sud Ouest fez a chamada em dose dupla, com réplica e tréplica. Não só o “ditadorzinho” apareceu, mas a “vergonha nacional” também. Falaram então de “petit dictateur” – ditadorzinho e “honte nationale” – vergonha nacional.

 

 

HLN
Já o holandês HLN escolheu outro par de insultos. Afinal, não foi dícil encontrar, tantas foram as ofensas estúpidas e contraproducentes. A chamada incluiu: “klein dictatortje” – pequeno ditadorzinho e “koning der leugens” – rei da mentira.

 

 

Thuner Tabglatt
Mais dramático, o suíço Thuner Tagblatt escolheu palavras impactuosas para descrever o que considerou ‘batalha de lama’: “Pädophil” e “Kannibale”. Dispensam tradução.

 

 

Para travar a língua
A descrição alemã do debate, mostrada nesta última ilustração, traz uma palavra de aspecto assustador: Schlammschlacht. Essa fila indiana de 15 letras comporta apenas 2 vogais para 13 consoantes. Essa massa de letras forma só duas sílabas, acredite. Significa batalha de lama.

Debate

José Horta Manzano

Não assisti ao último debate entre os dois presidenciáveis. Para me inteirar do que foi dito, não me fiei a hashtags, memes ou rumores da internet – fui direto à imprensa séria, que dá mais certo.

Depois de dar uma vista d’olhos a uma dezena de artigos e análises, fiquei sabendo de tudo. Está aqui abaixo o que retive.

• Bolsonaro provocou Lula. E este errou ao cair na arapuca

• Bolsonaro chamou Lula de “vergonha nacional”

• Lula chamou Bolsonaro de “pequeno ditadorzinho”
(Dessas duas últimas, quem me informou foi a mídia estrangeira)

• Bolsonaro tocou no ombro de Lula, o que causou frisson nacional

• Moro deu conselhos a Bolsonaro durante o debate.

• Dados distorcidos de segurança, covid e corrupção foram citados por ambos

• Houve ironias, uma encarada e até troca de sorrisos entre os protagonistas

• A audiência foi pr’as alturas

• A esposa de Lula bocejou ostensivamente enquanto Bolsonaro discursava

• Lula vestiu a gravata preferida por presidentes de 2014 pra cá

• Bolsonaro vestiu gravata verde (amarela teria dado demais na vista)

• Lula estourou o tempo, e permitiu um monólogo bolsonárico

• Bolsonaro enrolou sobre mexida na composição do STF. Não confirmou nem informou, muito pelo contrário

• Os candidatos se trataram mutuamente de “mentiroso”
(E acertaram)

• O ambiente esteve menos agressivo; gestos e palavras foram menos incivis do que estamos acostumados

Bom, chegando a este ponto, é hora de fazer umas perguntas. E daí? Pra que serviu o debate? Resumiu-se a tentativas de desqualificar o adversário? Que projetos foram discutidos? Quais foram os novos planos revelados ao distinto público?

Pelo que entendi, nenhum projeto foi tratado com a profundidade que se deve. Ideias soltas, do tipo “farei isso” ou “farei aquilo” surgiram, mas os candidatos giraram em torno da compota sem botar a mão dentro.

Ambos se referem basicamente ao passado, sem revelar sua visão de futuro (talvez por não a terem), sem a menor ideia do lugar que o Brasil deve ocupar num mundo transtornado pela nova distribuição de forças, com guerra na Europa, exportação de combustiveis bloqueada, mudanças climáticas, ameaça de conflito nuclear, veganismo em marcha acelerada, Amazônia em chamas, alta da inflação mundial, bolsas mundiais em queda desde o começo do ano.

Não se discutiu nenhum projeto para tirar o país do atraso. Educação, saúde, transportes, saneamento básico, formação profissional foram temas ausentes.

O horizonte está sombrio. Se os candidatos tivessem ideia de como agir para melhorar a vida da população, por certo teriam exposto seus planos. Se não o fizeram, é porque não sabem o que fazer.

Como de costume, vamos votar de olhos vendados. Dos dois, Bolsonaro tem sido o mais transparente. Sabemos que, com ele, o projeto será um só: sua permanência vitalícia no poder, custe o que custar, doa a quem doer(*).

Quem se contentar em ter na Presidência um cafajeste candidato a ditador, que vote no capitão. Ele não costuma decepcionar.

(*) Fico devendo para amanhã uma reflexão sobre a expressão “doa a quem doer”.

O Google mostra o caminho

José Horta Manzano

Este blogue está no ar há dez anos e conta com um acervo de quase 5.500 posts. Há de tudo aqui dentro. Em maioria, são artigos meus, mas há também textos alheios, máximas latinas, provérbios, desenhos de humor, reproduções de pinturas.

Durante os primeiros seis anos, dei muita pancada em Lula, Dilma e no lulopetismo. Eram os tempos do petrolão e das passeatas multitudinárias do “Fora, Dilma!”. Me parecia que, em matéria de dirigentes incapazes, o Brasil se tinha precipitado no fundo do poço. Achei que mais não era possível. Engano meu.

Foi-se o petismo, entrou em cena um cafajeste que prometeu mudança e acabou seguindo a mesma trilha dos anteriores, em versão piorada. À incapacidade dos anteriores, acrescentou a violência. À ignorância dos anteriores, acrescentou a demolição da cultura. Ao iletrismo dos anteriores, acrescentou o negacionismo da ciência. Seu governo foi esse horror que estamos cansados de saber.

A plataforma WordPress, que hospeda este blogue, oferece informações interessantes. Posso saber, por exemplo, quantas visitas cada post recebeu a cada dia. Certos textos, escritos muitos anos atrás, costumam receber visitas o tempo todo. São uns 20 ou 30 que entraram para a categoria dos “most viewed” – os mais procurados. Não passa um dia sem que cheguem visitantes por ali. Esses posts, eu sei quais são.

O que tenho notado estes dias é que outros artigos, que foram lidos à época em que foram publicados e depois caíram no esquecimento, estão sendo obrigados a varrer a sala às pressas e tirar as teias de aranha porque há uma fila de visitantes novos a cada dia.

São textos que respondem às palavras-chave que os brasileiros devem estar lançando no Google estes dias. Não sei quais são esses termos de busca, mas suponho que sejam algo como: “Lula, Nicarágua” ou “Bolsonaro, fome” ou “Lula, corrupção” ou “Bolsonaro, corrupção”. E por aí vai.

Fico orgulhoso de que minhas opiniões possam servir para orientar quem está se sentindo um pouco fora de eixo. Quem procurar artigos que desancam o Lula, vai encontrar. Quem preferir artigos que surram o Bolsonaro, também vai encontrar. Podem vir, que tem pra todos. Este espaço é eclético.

The day after

José Horta Manzano

Diante dos resultados oficiais do voto de ontem, ninguém ficou indiferente. Todos se surpreenderam. Grosso modo, metade do eleitorado estourou o champanhe e a outra metade baixou as orelhas e pôs as barbas de molho.

Os institutos de pesquisa levaram uma pancada na moleira – todos eles. Não conseguiram avaliar os sentimentos latentes na população dos grandes colégios eleitorais: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Agora tentam se escorar na explicação de um suposto “voto envergonhado”, fato que não bate com a realidade.

Veja só. Tenho conhecidos que, ao percorrerem o interior do estado de São Paulo seis meses atrás, já tinham me confiado que, naquela região, “todos são bolsonaristas”. Quase não acreditei, pois não é o que as sondagens indicavam. Se um simples cidadão consegue captar esse sentimento dominante, me parece erro grave que institutos especializados não detectem o fenômeno.

Andei fazendo umas continhas. Tomei o desempenho de Lula e Bolsonaro nesta eleição e comparei com eleições passadas. Cheguei a um resultado interessante. Vejam.

Em 2002, Lula conseguiu pela primeira vez passar para o segundo turno. Naquele primeiro turno, cravou 46,4% dos votos.

Na eleição seguinte (2006), depois de passar 4 anos no poder, nosso demiurgo se recandidatou e chegou de novo à final. No primeiro turno daquele ano, fez 48,6% dos votos, um incremento de 2,2 pontos percentuais. Excelente desempenho.

Seguiu-se um hiato de doze anos, em que se sucederam mensalão, petrolão, processos, julgamento, recurso e prisão. Passada a tempestade, Lula voltou à carga e recandidatou-se. Neste primeiro turno de 2022, acaba de obter 48,4%. Ou seja, apesar dos pesares, praticamente igualou sua marca de 12 anos atrás. Haja resiliência!

Em 2018, o candidato Bolsonaro passou para a etapa final. Naquele primeiro turno, atingiu a marca de 46,0% dos votos, excelente para um iniciante. Seguiram-se 4 anos caóticos, com pandemia tratada a bofetadas, destruição da Amazônia, disseminação de armas, insultos e baixarias no varejo e a granel.

Logo após a publicação dos resultados deste primeiro turno de 2022, o capitão se gaba de ter tido mais votos do que em 2018. O que ele omite é que o eleitorado cresceu 10%, proporção muito maior que os votos que ele recebeu a mais.

O TSE confirma que Bolsonaro acaba de cravar 43,2%, uma marca inferior de quase 3 pontos ao resultado de 2018. Uma análise honesta revela que, enquanto Lula soube conservar seu capital eleitoral, o capitão perdeu cerca de 3.300.000 votos (três milhões e trezentos mil). Portanto, teve, sim, menos votos do que em 2018.

Ser abandonado por milhões de eleitores nunca é bom sinal. O básico, para um governante que pretende se reeleger, é reforçar seu patrimônio eleitoral ao longo do primeiro mandato. Se o capitão não conseguiu, apesar de toda a ginástica que tem feito, é porque não leva jeito para a coisa.

Consideração final
Não acredito que metade dos brasileiros seja bolsonarista e que a outra metade seja lulopetista. Não é assim que se devem analisar os resultados. A meu ver, mais do que a adesão às ideias ou ao “programa” de cada um deles, os resultados estão a indicar um voto contra.

É simples: há os antipetistas e há os antibolsonaristas. Uns juram não querer um ladrão na Presidência. Outros afirmam não suportar um cafajeste no Planalto.

Partindo do princípio que, uns mais e outros menos, todos roubam, a escolha não me parece complicada.

O mundo de olho

“Debate venenoso entre Bolsonaro e Lula”
Le Monde, França – 30 set° 2022

José Horta Manzano

Antes deste ano da graça de 2022, nunca jamais uma eleição presidencial brasileira tinha despertado tamanho interesse além-fronteiras. No tempo dos militares, nem se fala. A “eleição” estava mais pra nomeação e não levantava paixões. Desde a redemocratização, o interesse aumentou, mas não resultou em entusiasmo internacional.

Este ano é diferente. O mundo está assustado. Assustado com o espantalho de um Trump ameaçando voltar a se apossar do governo da maior potência do planeta. Assustado com a ditadura de Putin, que aterroriza com suas bombas atômicas. Assustado com regimes populistas e autoritários que pipocam no coração da Europa: Hungria, Polônia. Assustado com as eleições da semana passada na Itália, que deram a vitória a uma extrema-direita populista e xenófoba.

O mundo civilizado tem acompanhado os quatro anos do desastre bolsonárico. Embora dirigentes dos principais países respeitem o dever de reserva que se exige deles, sabe-se que todos estão preocupados com as eleições brasileiras.

O temor de um autogolpe, presente até pouco tempo atrás, arrefeceu. Bolsonaro, decerto por não receber o apoio que esperava, anda mais calmo. E todos nós nos damos conta de que o perigo de uma reviravolta no regime, se não estiver de todo esconjurado, está menos ameaçador.

Resta o risco de uma reeleição do capitão, fato considerado um verdadeiro desastre. Bolsonaro, com sua visão simplória de geopolítica, não tem capacidade de entender o perigo representado pela ditadura totalitária de Putin. Chegou a declarar que “o Brasil é solidário à (sic) Rússia”. Dirigentes de visão sentem calafrios ao imaginar o Brasil entrando no clube das pseudodemocracias autoritárias.

Não se passa um dia sem que se fale de nosso país e destas eleições. Estações de rádio e de tevê mandaram enviados especiais, que já estão no país à espera do domingo. Diariamente, há bloco nos telejornais especialmente para analisar o Brasil pelo direito e pelo avesso. Os jornais seguem na mesma linha. Assisti estes dias a dois longos documentários sobre o clã dos Bolsonaros. O primeiro, com uma hora de duração, passou na tevê suíça; o outro, de três horas espalhadas por três capítulos, passou na britânica BBC.

Até o debate de ontem já apareceu na imprensa europeia. A ilustração mostra longo artigo com boa análise feita praticamente no fogo da ação.

Faz bem ao ego ver que o mundo se interessa pelo país da gente. Só que, francamente, eu preferia que esse interesse fosse por aspectos mais civilizados de nossa sociedade, e não por esse indivíduo repulsivo.

Que ele seja logo despachado de volta pr’a geleia geral dos baixos círculos milicianos. De onde nunca deveria ter saído.

De uniforme ou sem?

by Alberto Benett (1974), desenhista paranaense

José Horta Manzano

Não sei como anda a moda vestimentária da juventude no Brasil. Aqui onde vivo, as cores desapareceram: todos (ou quase todos) os jovens se vestem de preto. Dos pés à cabeça. Minto – é só das canelas à cabeça. O calçado escapa à ditadura do luto. É a única peça que dá um pouco de cor à silhueta.

Quando este escriba era jovem, o uso era o inverso do que é hoje. O sapato é que era obrigatoriamente preto, enquanto a roupa era livre. Era uma época mais colorida, com camisas estampadas, calças de todas as cores imagináveis. Só o calçado era uniformizado. Não usar sapato preto era pecado tão grave quanto ir a um baile de formatura de smoking e sandália de dedo.

Não sei de onde terá vindo essa ideia de cada um tentar afirmar a própria personalidade vestindo-se todos de urubu.

Enfim, se estão felizes assim, melhor pra eles.

O dia do voto está chegando. Os eleitores sairão de casa e, se não forem incomodados por algum assalto ou bala perdida, entrarão na cabine de votação. Cabine, daquelas de cortininha, é modo de dizer; nestes tempos de penúria, a cabine é virtual. Virou um minibiombo de papelão.

Aos que, distantes de corpo e alma da pátria-mãe, vêm me pedir orientação sobre os candidatos, dou meu conselho. E não esqueço de acrescentar um ponto primordial: o cuidado com a indumentária.

O risco não é grande, mas no exterior também há grupelhos exaltados e até violentos. São, em geral, pupilos do capitão – veja-se o que aconteceu em Londres, diante da residência do embaixador, quando da estada de Bolsonaro. Aquela gente mostrou aos ingleses o grau de incivilidade que a passagem do capitão pela Presidência provocou.

Aconselho a todos evitar vestir-se de vermelho no dia de votar. Touros selvagens se excitam com essa cor e podem tentar dar chifrada. Por seu lado, é bom evitar também a cor amarela. Ninguém é santo, e não é impossível que algum apóstolo inflamado do demiurgo de Garanhuns saque a peixeira.

Nesta época do ano, em que camisetas já foram lavadas, dobradas e empilhadas no fundo do armário, estamos todos de agasalho pesado, que costuma ter cores menos vibrantes. É raro ver capote vermelhão; mais raro ainda é ver abrigo amarelo. Assim mesmo, todo cuidado é pouco.

A gente se espanta e se solidariza com as infelizes mulheres iranianas que estão sendo massacradas por saírem de casa sem o véu islâmico. Ao mesmo tempo, não nos damos conta de que em nosso país, a sinistra função de Polícia de Costumes foi delegada a todos os cidadãos. Os mais desvairados estão sempre prontos a despachar para o Pronto Socorro os que não rezam pela sua cartilha. Para o Pronto Socorro ou para o outro mundo.

Veja quanto regredimos!

Caminho traçado

José Horta Manzano

Em março último, faz exatamente 6 meses, o Estadão passou a publicar um agregador de pesquisas eleitorais. Com metodologia própria, colhe os dados levantados por 14 diferentes institutos e chega a um resultado depurado.

A ferramenta é interessante, visto que atenua imprecisões, distorções e até dados fora da curva que algum instituto individualmente possa ter publicado.

Consulto com frequência esse agregador. Com respeito às pesquisas da corrida presidencial, tenho notado uma surpreendente constância nos resultados.

 


Em 12 de abril deste ano, bem antes do início da campanha oficial, Lula era creditado com 44% das intenções de voto; naquela altura, Bolsonaro estava com 30%.


 

De lá pra cá, tivemos distribuição de dinheiro a rodo via orçamento secreto, milhões torrados na campanha oficial, propaganda gratuita em rádio e tevê, aumento substancial da mensalidade da Bolsa Família, exposição tímida do projeto de cada um, debates entre candidatos, exposição na mídia, posicionamento firme de figurões (cada um apoiando seu candidato). E qual foi o resultado?

 


Na última atualização, publicada ontem, o agregador mostra Lula com 45% e Bolsonaro com 33%.


 

Constata-se que, pouco mais ou menos, ambos oscilaram dentro da margem de erro. Seis meses se passaram e as intenções não arredaram pé. É notável essa estabilidade. Parece que todo esse frenesi e essa gastança de dinheiro público não serviram para nada.

O astral não deve estar muito alto na equipe de campanha do capitão. Ele continua garantindo que vence no primeiro turno, mas a gente se pergunta qual é a receita para mudar em 10 dias um cenário que está congelado há 6 meses.

A menos que uma catástrofe venha chacoalhar o picadeiro – tipo assassinato, morte súbita, terremoto ou bomba atômica – o caminho parece traçado.

Deu no Stern

José Horta Manzano

Stern, revista semanal alemã com tiragem de um milhão de exemplares, publicou análise da campanha eleitoral brasileira. O título já dá o tom:


Wahlkampf in Brasilien: Es geht um nicht weniger als die Zukunft der Demokratie

Campanha eleitoral no Brasil: nada menos que o futuro da democracia está em jogo


Na apresentação dos dois principais candidatos, não se perde tempo bordando a bainha. Os alemães são concisos e vão direto ao ponto, dando apenas uma síntese de cada personagem:


O ex-militar que um dia aterrissou na prisão por envolvimento em tumultos contra o ex-líder sindical que um dia aterrissou na prisão sob acusações de corrupção.


Precisa dizer mais?

Que tal dar adeus ao voto útil e escolher candidato mais palatável no primeiro turno? Tebet, Thronicke, até Ciro. Muita gente acha melhor quitar a fatura no primeiro turno para evitar um segundo. Pensam tirar do caminho a ameaça de golpe.

Quanto a mim, acredito que a ameaça de golpe está no ar desde o primeiro dia do capitão na Presidência. E lá ficará até o último dia. Não me parece que um segundo turno de eleição aumente o risco. Pelo contrário: tendo falhado no primeiro, o capitão perderá força e embalo.

Aviso aos navegantes: a candidata do PCB, que se chama Sofia Manzano, não tem relação de parentesco com este blogueiro. Mas, se alguém tiver simpatia pelo partidão, que vote nela. Por que não?

As eleições na mídia internacional

José Horta Manzano

As primárias e os debates que precedem a eleição presidencial nos EUA costumam ser acompanhados com atenção pelo mundo todo. Mas por acaso o distinto leitor já viu, na mídia nacional, relatos sobre debates eleitorais de algum outro país exceto os EUA? A resposta é provavelmente não.

É natural. Pelo peso mastodôntico da economia dos EUA, suas eleições interessam ao mundo inteiro. Já campanhas de outros países dão, no máximo, nota de rodapé. Mas isso não é particularidade da imprensa brasileira: por toda parte é igual. A política dos países vizinhos sempre interessa um pouco; já, de países distantes, pouco ou nada se fala.

Mas exceções acontecem. De uns 2 ou 3 anos para cá – e não exatamente pelas melhores razões –, a política brasileira entrou no foco dos holofotes. Meio divertido, meio assustado, o mundo inteiro acompanha a singular batalha presidencial que se travam dois típicos políticos nacionais: um admirador de Hugo Chávez que já passou pela casa prisão contra um admirador de Hugo Chávez que ainda há de estacionar na mesma casa.

A mídia internacional não perdeu o festival de insultos ao qual o baixo nível dos dois candidatos reduziu um momento que deveria ter sido dedicado a uma civilizada exposição de argumentos.

Foi mais uma prova de que os dois protagonistas são carentes de ideias. São ambos reativos (quando reagem…), raramente propositivos. Incapazes de traçar um programa de governo, navegam em modo visual, sem instrumentos, ao léu, ao deus-dará. Como se diz popularmente, só pegam no tranco. Isso, quando pegam.

Aqui está um florilégio de reações da mídia internacional ao debate da Band. A repercussão chegou à Turquia. E até à longínqua Lituânia, país que não é qualquer um que conseguiria apontar num mapa.

 

 

“A temperatura sobe quando Lula e Bolsonaro se encontram”
Upsala Nya Tidning, Suécia

 

 

“Bolsonaro descontrolado, Lula exausto e candidatos alternativos vitoriosos”
El Mundo, Espanha

 

 

“A senhora decerto sonha comigo à noite”
Süddeutsche Zeitung, Alemanha

 

 

“Bolsonaro e Lula se enfrentam”
Le Figaro, França

 

 

“No Brasil, corrida presidencial esquenta”
Sözcü, Turquia

 

 

“O primeiro duelo na tevê entre Bolsonaro e Lula foi uma tempestade de insultos”
Agenzia Italia, Itália

 

 

“Bolsonaro e Lula da Silva se enfrentam no debate nas eleições presidenciais brasileiras”
15min, Lituânia