Beicinho

José Horta Manzano

Como se ainda precisasse, doutor Bolsonaro deu mais uma prova de não ter entendido em que consiste sua função. Para o bem ou para o mal, ele representa nosso país perante as demais nações do planeta. Nossa Constituição estipula que, além de chefe do governo, ele é chefe do Estado brasileiro – realidade que ainda não lhe entrou na cabeça. São dois bonés. A cada momento, precisa saber qual deles enfiar no cocuruto.

A função de chefe de Estado é honra suprema. Governos são efêmeros, o Estado fica. Mas nossa Constituição determina que assim seja; não há nada que se possa fazer, a não ser mudar a Lei Maior. Enquanto isso não acontece, temos de ir levando o barco com os remos que temos.

O chefe de Estado é o representante maior do povo brasileiro. Em relações exteriores, principalmente, não convém misturar as duas funções. Governo, com suas futricas, intrigas e conchavos, é uma coisa; Estado é bem diferente.

Faz algumas semanas, señor Fernández foi eleito presidente da Argentina, país vizinho e hermano. É praxe que se prestigie a tomada de posse de todo novo dirigente de país vizinho e hermano. Não se espera que doutor Bolsonaro compareça pessoalmente à cerimônia de entronização de todos os presidentes do mundo. Fizesse isso, passaria o tempo todo viajando, coisa que, em princípio, não é conveniente. Para nós, no entanto, a Argentina não é um país qualquer. Terceiro parceiro comercial do Brasil, sócio no Mercosul, vizinho de parede. O par Brasil – Argentina corresponde ao casal França – Alemanha: vizinhos, rivais tradicionais, sócios, parceiros inseparáveis.

Ao ser informado de que Lula da Silva e Evo Morales perigam aparecer na hora da festa, doutor Bolsonaro fez beicinho e bateu o pé: «Eu não vou, nem ninguém do governo vai.»

O que é isso, santo Deus? Tomada de posse de presidente não é festa de família, em que parentes brigados não comparecem, com medo de dar de cara. Doutor Bolsonaro não se dá conta de que, ao se comportar dessa maneira, dá recado errado. É como se o Brasil inteiro estivesse menosprezando o chefe do Estado vizinho. O Brasil inteiro fazendo beicinho e batendo o pé. Isso é coisa de adolescente espinhudo que ainda não consegue entender o mundo em que vive.

O próprio Bolsonaro já fez coisa parecida, se não pior. Quando tomou posse, todos hão de se lembrar que o convidado de honra era Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, pessoa detestada por meio mundo. Que se saiba, nenhum convidado deixou de comparecer em virtude da antipatia do hóspede incômodo. É sempre possível evitar aparecer na mesma foto que um desafeto. Presidentes dispõem de um exército de assessores justamente pra cuidar dessa parte.

Pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por Lula da Silva nem por Evo Morales. Mas, gostemos ou não, ambos foram presidentes. Por muitos anos. Não me parece anormal que sejam convidados para a cerimônia em Buenos Aires.

Mas não adianta. Ainda que passasse anos no Planalto, doutor Bolsonaro dificilmente se compenetraria do alcance de suas palavras e da solenidade de suas funções. Ele não consegue desgrudar do chão e alçar voo majestoso para mostrar que está acima dessas platitudes. Um presidente que faz beicinho para o vizinho… Mas vejam só. Só faltava essa.

Pior a emenda

(Adendo acrescentado em 10 dez° 2019)

Depois de levar uma cotovelada de alguém de bom senso, doutor Bolsonaro resolveu mandar o vice-presidente como representante do Brasil na cerimônia de tomada de posse de señor Fernández. Seria mal menor, mas o estrago já estava feito. Não tivesse feito beicinho e batido o pé, até seria uma saída honrosa mandar o segundo personagem do Estado. Mas… honra é artigo raro na prateleira de qualidades presidenciais. Fazer o quê?

China capitalista

José Horta Manzano

Não consegui ficar sabendo quais foram os resultados comerciais da visita de doutor Bolsonaro a seu colega chinês, Xi Jinping. O que mais se ficou sabendo é que nosso presidente afirmou estar «num país capitalista» – versão que há de ter irritado muita gente na alta cúpula de Pequim. Doutor Bolsonaro tem o dom de, com poucas palavras, demolir estratégias cuja construção havia levado meses. Visita de Estado não se resolve assim, da noite pro dia.

A tolerância dos dirigentes chineses, em certos temas, é limitada. O sistema de governo é um deles. Melhor não tocar no assunto. Bolsonaro não sabia. Ninguém nasceu sabendo, é verdade, mas seus ineficazes assessores deveriam ter-lhe ensinado. Eles também não nasceram sabendo. Deviam ter estudado mas, sacumé, dá um trabalho!

Aqui entre nós, numa escala de zero a cem, eu classificaria o regime chinês como 75% capitalista com 25% de comunismo remanescente. Mais que comunista ou capitalista, o regime de Pequim é au-to-ri-tá-rio. Essa é a palavra-chave. Mas eu, José Horta Manzano, posso dizer isso à vontade. Falo em meu nome, não represento ninguém. O presidente do Brasil é a voz oficial da República Brasileira, cáspite! Ele não pode dizer esse tipo de coisa. Não devia dizer, mas disse. Quem nasceu pra tostão dificilmente chegará a milréis.

Se alguém ficou sabendo do montante total dos contratos firmados durante a visita, faça a gentileza de me avisar. Não encontrei em lugar nenhum. Para compensar, tenho outra história de visita presidencial.

Emmanuel Macron e Xi Jinping

Emmanuel Macron, presidente da França, está hoje encerrando sua visita a Pequim. (Será que Xi Jinping tem tempo pra outra coisa que não seja receber chefes de Estado estrangeiros?) Orgulhosa, a imprensa francesa publicou o montante total dos contratos firmados. São 15 bilhões de dólares (= 61 bilhões de reais – 61 bi!) Macron confirmou – num discurso pronunciado ao lado de Xi Jinping, portanto, sem mentira possível – ter tido uma conversa franca com o colega chinês. Disse ter falado da preocupação francesa com a pouca atenção que a China presta à proteção de certos direitos humanos. Disse haver externado sua inquietude com os distúrbios que, há meses, castigam Hong Kong. Mostrou-se especialmente aflito com o destino dos numerosos cidadãos franceses que vivem na antiga colônia britânica.

Bem treinado e escolado, Emmanuel Macron não se preocupou em dar sua avaliação, em público, sobre as características do regime – comunismo ou capitalismo. Nem precisava. Pra quê? Só pra irritar os donos da casa? Nesse tema, a palavra mais inocente periga ser mal interpretada.

Já doutor Bolsonaro tinha de botar reparo numa declaração malcriada e arrogante que havia feito, meses atrás: a de que a China podia comprar do Brasil, mas não o Brasil. Em matéria de declaração desajeitada, essa figura entre as dez mais. Deve ter acreditado que chamar o regime de «capitalista» fosse elogio. Para Pequim, não é. Em vez de suavizar a besteira que havia dito quando ainda candidato, pisou na bola de novo.

Qual é mesmo o montante total dos contratos comerciais firmados entre doutor Bolsonaro e Xi Jinping?

Fingir que preside

José Horta Manzano

Que doutor Bolsonaro é ignorante e inculto, já ficou claro desde o discurso de posse;

que ele é grosseiro e malcriado, faz tempo que todos já sabem;

que ele é rancoroso, a maioria já descobriu;

de que ele é teleguiado pelo guru boca-suja, já é notícia antiga;

de que ele cobre os ‘malfeitos’ dos filhos destrambelhados, restam poucas dúvidas;

de que ele é vingativo, muitos já se deram conta;

que ele gostaria mesmo é de virar ditador, alguns já estão começando a perceber;

de que ele, mesmo tendo sido eleito pra representar o Estado Brasileiro, se nega obstinadamente a fingir que é um presidente à altura do cargo, está sendo dada a prova definitiva. Pra quem ainda tivesse dúvida, agora ficou claro.

Doutor Bolsonaro anunciou pela enésima vez que não comparecerá à cerimônia de tomada de posse do novo presidente da Argentina. Faz sentido. Mauricio Macri tampouco compareceu à posse de Bolsonaro. Mas não é por isso que nosso presidente faltará à festa. É porque está fazendo birra para o novo presidente. Doutor Bolsonaro considera señor Fernández um perigoso comunista e até já o chamou de bandido.

Assim vão os dois grandes vizinhos do Cone Sul. Sempre aos trancos, tentando evitar os barrancos. Um presidente fazendo beicinho para o outro. E os milhões de cidadãos sempre governados por aprendizes. Fossem só aprendizes, seria trágico mas consertável. O caso é que, além de aprendizes, são todos mal-intencionados e ignorantes. Aí fica mais complicado.

Golfo Pérsico

José Horta Manzano

Nosso inconsequente aprendiz de presidente teve de se dobrar.

•Apesar de ter jurado que mudaria de endereço a embaixada brasileira em Israel;

• apesar de ter asseverado que bastava estar bem com Israel para nosso comércio exterior com o Oriente Médio estar garantido(!!!);

• apesar de ter menosprezado o poderoso conjunto dos países árabes, dizendo que «não precisamos dessa gente»,

foi obrigado a se humilhar.

Desagravo indispensável

O que não deveria passar de uma rotineira visita de Estado transformou-se num ritual expiatório. Passando por cima das imposições de seu guru boca-suja, vergou-se a uma verdadeira visita de desagravo ao Oriente Médio. Não conseguiu suportar o peso econômico dos países do Golfo Pérsico. Depois de levar um choque de realidade, foi forçado a penitenciar-se.

Um dia, quem sabe, doutor Bolsonaro aprenderá que política externa não se faz insultando parceiros, nem menosprezando clientes. Ou, quem sabe, não dará tempo de aprender. Cada um que escolha a opção que lhe parecer mais realista.

Nota geográfico-linguística
Faz meio século, desde o surgimento do pan-arabismo e do sentimento nacionalista – impulsionado pelo petróleo, que lhes trouxe riqueza – os países árabes, majoritários na região, sentem-se incomodados com a tradicional denominação daquele mar interior: Golfo Pérsico.

«Por que só pérsico» – perguntam –, «se banha também uma pancada de países árabes como o Iraque, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Sultanato de Omã, os Emirados?» Alternativas criativas têm sido propostas, como «Golfo Islâmico» ou até «Golfo Muçulmano», expressões que soam estranhas, como se aquele braço de mar fosse a entrada de um templo.

O formato atualmente aceito sem muita cara feia é Golfo Árabo-Pérsico. Pra não ofender ninguém, a mídia francesa costuma utilizar essa forma. Quanto a nós, um nome que não desagradaria e certamente pegaria bem seria «Golfo das Mil e Uma Noites». Já pensou? Dá quase pra ouvir Xerazade contando histórias.

Canoa furada

José Horta Manzano

Donald Trump acaba de renegar os aliados curdos. Esqueceu-se de que a vitória sobre a Organização Estado Islâmico não teria sido possível sem a preciosa ajuda dos curdos sírios e iraquianos, que reconquistaram corajosamente, metro a metro, casa a casa, o território perdido.

Dois dias atrás, ao levantar-se com pé torto, o presidente americano informou, por um tuíte, que tinha resolvido chamar de volta pra casa os militares americanos estacionados na região. Sem a proteção americana, os curdos estarão expostos ao poderio terrestre e aéreo do temível exército turco. Vão levar muita bomba.

Artigo do Washington Post resume bem a situação:

“President Trump’s erratic foreign policy gives allies good reason to doubt America will follow through on its security commitments or protect friends in their hour of need.”

“A política externa errática do presidente Trump dá aos aliados boas razões pra desconfiar que os EUA não honrarão a promessa de proteger os amigos na hora da precisão.”

Doutor Bolsonaro – nosso arremedo tropical de Trump – tem apostado todas as fichas na pessoa do presidente americano. Sua adoração é pessoalmente dirigida a Donald Trump; não é necessariamente extensiva aos demais 330 milhões de americanos. Com insultos, desfeitas e demonstrações explícitas de desprezo, doutor Bolsonaro tem dado de ombros ao resto do planeta. Está fascinado pela figura de Trump.

Seria importante que algum assessor lhe contasse como os aliados curdos foram tratados. Seria importante que algum assessor o alertasse para a instabilidade emocional de seu ídolo. Em conhecimento de causa, talvez doutor Bolsonaro reflita e modere o comportamento antes que seja tarde. Ou não.

Chirac – o funeral

José Horta Manzano

Quinta-feira passada morreu Jacques Chirac, que foi presidente da França por doze anos, na virada do século (1995 – 2007). Como todo político, teve um lado bom e outro mais escuro. Foi sem dúvida o presidente mais popular destes últimos 50 anos, desde que De Gaulle deixou o poder.

Assim que a notícia chegou, chefes de Estado do mundo todo emitiram nota expessando pesar e deixando algumas palavras de elogio. Quando alguém acaba de falecer, convém lembrar do lado bom. Só se pode começar a falar dos podres depois de alguns dias.

Nesta segunda-feira, teve lugar o funeral, com as honras devidas a todo ex-chefe de Estado. Os franceses são bons nisso. São capazes de organizar cerimônias que, de tão solenes, dão arrepio. Tambores rufando, militares em uniforme de gala, sino de Notre Dame badalando, o Requiem de Gabriel Fauré como fundo musical, a Marselhesa na hora certa – tudo milimetricamente organizado.

Dirigentes de praticamente todos os países se manifestaram. Ou mandaram mensagem, ou compareceram. Na cerimônia, estavam todos os ex-presidentes da França, além de Vladimir Putin, Bill Clinton, o presidente da Itália, o príncipe de Mônaco, chefes de Estado europeus e mais uma centena de personalidades estangeiras. O Lula, sentadinho na palha úmida da masmorra onde vive, não pôde estar presente em Paris; mas reagiu com um tuíte simpático.

Só faltou… quem poderia ser? Faltou Donald Trump! Malcriado e mal-assessorado, o tuiteiro-mor não se dignou de soltar duas linhas em homenagem a um francês que, por sinal, era muito próximo dos EUA, país onde chegou morar durante um ano, na juventude.

E quem é que acompanhou o presidente americano no desdém? Qual é o importante personagem nacional que passa o tempo tuitando e não julgou importante escrever três palavras em nome do Brasil? Quem adivinhar ganha uma passagem de ida simples pra Caracas – de ônibus. Resposta no próximo parágrafo.

Claro! Foi doutor Bolsonaro. Como dizia o Barão de Itararé, «de onde menos se espera, daí é que não sai nada».

O Brasil e o bicho-papão

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro subiu ao púlpito da ONU e falou. Sua dicção não melhorou nadinha, mas, desta vez, ele teve sorte: apareceu um orador pior que ele. Pele escura e barrete no cocuruto, o senhor que presidia aos trabalhos tinha uma fala ainda mais absconsa. Impressionante, não sei se vocês ouviram. O homem falou antes de Jair Messias. Discursava em inglês, mas juro que só dava pra pescar uma palavra aqui, outra ali. Que fala enrolada, sô! Uma dublagem teria sido bem-vinda.

Estudos mostram que 9 em cada 10 leitores lê somente o título de cada artigo ou, no máximo, o primeiro parágrafo. O mesmo vale pra discursos solenes. Importantes são os primeiros dois ou três minutos; depois disso, o olhar vagueia e o ouvido amolece.

A primeira parte do discurso de nosso presidente levou a marca de Ernesto Araújo, seu ministro de Relações Exteriores. Não sei se ele fez de propósito, mas fato é que os primeiros minutos do discurso de Bolsonaro foram uma calamidade. O presidente autoproclamou-se paladino da luta contra a implantação do «socialismo» no país. Como é que é? Ele pronunciou a palavra ‘socialismo’ como se pecado fosse. Só faltou um pelo-sinal.

Alguém precisa dar umas aulas de política àquele pessoal do Planalto. Eles precisam urgentemente aprender o significado de conceitos básicos como socialismo, comunismo, nazismo, fascismo, liberalismo e quejandos. Embora essa família política não seja minha favorita, um governo socialista não é nenhum bicho-papão. Socialista não é comunista, aquele que come criancinhas. Os presidentes Mitterrand e Hollande, chefes do Estado francês, eram membros do Partido Socialista. A Espanha é atualmente governada por socialistas. O socialista Mário Soares foi presidente de Portugal. Por décadas, os países escandinavos foram governados por sócio-democratas. E nenhum desses países virou uma Venezuela.

Fiquei imaginando o espanto de um auditório que reunia a fina flor da política do planeta. Se o autor do discurso do presidente pretendia impressionar, pode ficar tranquilo: atingiu o objetivo. Só que impressionou no mau sentido. Doutor Bolsonaro subiu ao púlpito vestido e de lá desceu nu. Depois de contar que salvou o Brasil do socialismo, discursou por mais uns quinze minutos. Falou mal de Cuba, da Venezuela, do Irã. Mas o que disse não tinha mais importância. Os primeiros três minutos escancararam a realidade e carimbaram nosso presidente e sua troupe com um adjetivo incômodo: ignorantes. Pra fazer esse papelão, melhor teria sido ficar em casa.

Compromisso onusiano

José Horta Manzano

Em respeito a tradição não escrita, o Brasil tem o privilégio de fazer o discurso de abertura de cada sessão anual das Nações Unidas, em sua sede nova-iorquina. É uma deferência e tanto. Logo de manhã, quando têm início os trabalhos, os ouvidos estão ainda frescos e virgens. É o momento ideal pra fazer passar a mensagem do Brasil. Num resumo de dez minutos, o orador dirá a quantas anda o Estado brasileiro e o que propomos para aprimorar a convivência planetária.

Estes últimos anos, nosso país tem enviado o próprio presidente da República a esse honroso encontro de gente fina. Os discursos nem sempre têm estado à altura. A fala ‘menos pior’ que me vem à mente foi a de Michel Temer. Foi a mais comedida, com pouca autopromoção e pouca jactância. É importante lembrar que ninguém está interessado em saber de nossos problemas internos. A hora é propícia pra discorrer sobre as relações entre o Brasil e os demais países, sobre nossa inserção no tabuleiro global.

Este ano, a sessão inaugural do dia 24 de setembro porá o Brasil numa situação delicada. Depois de arrumar briga com uma penca de países, doutor Bolsonaro receia ser alvo de recepção glacial. Há até quem tema a deserção de determinadas delegações. Imagine o distinto leitor fileiras inteiras de participantes se levantando ostensivamente e abandonando o recinto bem na hora em que nosso presidente subir ao púlpito. Uma humilhação.

Também, pudera! O homem se fartou de desprezar, zombar, debochar, escarnecer, achincalhar. Os países árabes (que são mais de 20), a China, a União Europeia como um todo (com seus 27 países), a França individualmente, assim como a Irlanda, a Dinamarca, a Noruega, a Alemanha foram alvo de chacota. Pior ainda, a Argentina e o Chile – nossos vizinhos! – estiveram na mira dos disparos do ‘mito’. Agora vem o troco.

Quando se vê atacado, Doutor Bolsonaro tem mostrado uma reação peculiar: foge da raia. Fez isso já durante a campanha eleitoral, quando recusou participar de debates. Agora que foi eleito, a cada vez que um jornalista lhe faz pergunta embaraçosa, se irrita, solta impropérios e encerra a entrevista. Não seria espantoso se ele se esquivasse e faltasse ao compromisso onusiano. Ou será que ele tem fígado pra encarar uma afronta no palco planetário? O tempo dirá.

Bolsonaro, o insulto e a Macedônia

José Horta Manzano

Se o distinto leitor não sabe muito sobre a Macedônia do Norte, não há por que ficar encabulado: quase ninguém sabe nada. O minúsculo país, com dois milhões de habitantes e superfície menor que a do estado de Alagoas, é produto da explosão da antiga Iugoslávia. Sem saída para o mar, está encravado entre Grécia, Bulgária, Sérvia e Kosovo. Como se dizia antigamente, fica pra lá do fim do mundo.

Em média, doutor Bolsonaro costuma protagonizar um escândalo por dia. A maioria é para uso interno e não atravessa fronteiras. Alguns, no entanto, são de alcance internacional. O deste fim de semana, produzido sábado passado, é tipo exportação. Repercutiu forte na mídia europeia. Chegou até à longínqua Macedônia – uma façanha!

Reporter – Jornal online da Macedônia
Tradução da manchete: “Macron tem inveja de eu ter mulher melhor que a dele”- Bolsonaro insulta Brigitte por causa da aparência física

Aos que ainda não sabem e quiserem conhecer os detalhes sórdidos da história, aconselho consultar a mídia ou as redes. Aqui ou também aqui, por exemplo. Resumo: doutor Bolsonaro endossou um comentário, postado numa rede social, que zombava da aparência física de Madame Brigitte Macron, mulher do presidente da França. Se o pecado já é repugnante em si, é surrealista que um chefe de Estado tenha ousado cometê-lo. E é desesperador que esse chefe de Estado seja o presidente de nosso país.

Na França é, compreensivelmente, o assunto do dia. No resto da Europa, idem. Ai, senhor, que vergonha! Já tirei, faz anos, a bandeirinha verde-amarela que estava grudada no porta-malas do carro. Não são as molecagens desse presidente ignorante e malcriado que me farão içar de novo o pavilhão.

Ofensas como essa não se esquecem facilmente. Guerras já estouraram por menos que isso. Um dia, os brasileiros, mesmo não sendo diretamente culpados, acabarão pagando a conta. A não ser que se redimam destituindo o presidente. Porquoi pas? – por que não? De todo modo, o próximo não poderá ser pior. Ou?

República ou republiqueta?

José Horta Manzano

De 24 a 30 de setembro, terão lugar os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, encontro que marca o início dos trabalhos do período 2019-2020. Como manda uma regra não escrita – mas respeitada todos os anos –, o Brasil tem a honra e o privilégio de ser o primeiro na lista de oradores.

Visto que todo país pode se inscrever, a lista de discursantes é longa, com dezenas e dezenas de chefes de Estado, chefes de governo, chefes de delegação. Doutor Bolsonaro vai ser o primeirão. Vai encontrar uma plateia cujos ouvidos ainda guardam o frescor de quem saiu da cama pouco tempo antes. É uma oportunidade e tanto.

Ser o primeiro orador é oportunidade única. Imperdível, como diria o outro. Ele vai falar antes de Trump, antes de Macron, antes de Putin, antes de Xi Jinping. Como é fácil imaginar, o primeiro discurso é ouvido com mais atenção do que o décimo sétimo ou o trigésimo terceiro.

O momento é solene. Neste anos recentes, o discurso do presidente do Brasil tem saído pasteurizado, sem grande relevo, sem força. Ninguém se lembra do que disse Michel Temer, nem do teor das palavras da doutora. Quanto ao Lula, então, sua fala ficou prisioneira da espessa bruma do passado.

Que dirá doutor Bolsonaro? Esperamos todos que ele já chegue com discurso pronto, escrito no papel, com letra bem grande. É a melhor maneira de prevenir que nos envergonhe proferindo torrente de bobagens. Imaginem o que seria se ele soltasse uma daquelas falas proibidas pra menores, daquelas que terminam invariavelmente com um ‘talquei’?

Dizem que ele anda preocupado com a sabatina que o bolsonarinho deve enfrentar no Senado antes de assumir a embaixada de Washington. Receia que o filho leve bomba no exame. (Essa era a expressão que se usava, nos tempos de antigamente, pra dizer que alguém foi reprovado.) Não quer que os dirigentes presentes à assembleia o enxerguem como incapaz de obter maioria no Senado. Considera que seria uma vergonha.

No meu entender, doutor Bolsonaro está equivocado. Nas democracias, descompasso entre o Executivo e o Legislativo é coisa corriqueira. Essas rusgas só são dramáticas em regimes autoritários. Se o parlamento chinês, por exemplo, desautorizasse Xi Jinping, seria o fim do mundo. No nosso tipo de regime, não tem grande importância. O próprio Trump encontra resistência, a toda hora, na Casa de Representantes.

Muito mais grave que desentendimento entre poderes é a própria nomeação do filho. Toda a imprensa mundial terá dado a notícia. O presidente do Brasil subirá ao púlpito no papel caricato daquele personagem de republiqueta de banana que distribui, entre parentes, cargos importantes e bem remunerados.

Não adianta. Se, no momento do discurso, a nomeação do filho já tiver sido confirmada pelo Senado, doutor Bolsonaro não será enxergado como presidente de uma República decente, mas como chefe de clã. Será visto com bigode e chapelão tipo sombrero. Ainda que apareça com a cara habitual.

Qui se ressemble – 2

José Horta Manzano

O Mercosul não foi criado pra ser clube ideológico. A intenção dos fundadores era mais elevada. Visavam a alcançar maior integração comercial entre os membros e, obedecendo ao princípio de que a união faz a força, dar impulso às exportações de todos. Infelizmente, o relacionamento entre os sócios andou constantemente emperrado. Uma crise aqui, uma recessão ali, um deslize acolá – foi como se as rodas da carroça estivessem sempre entravadas.

Na época em que o lulopetismo dominava o país e encontrava eco na Argentina dos Kirchners, no Uruguai de Mujica, na Bolívia de Evo e na Venezuela de Chávez, o Mercosul tornou-se definitivamente um clube ideológico. Chefes de Estado se reuniam de vez em quando para muita foto de família e pouca resolução. O projeto de poder de cada governante tornou-se bem mais importante do que os avanços comerciais do grupo.

Foram-se os lulopetistas, foram-se os Kirchners, foi-se Mujica, foi-se Chávez. (Evo ainda está aí, mas quietinho, parado no ar, na expectativa de saber o que lhe reserva o futuro.) Quando Macri e doutor Bolsonaro anunciaram que o acordo comercial com a União Europeia estava assinado, só faltando ser ratificado, muitos disseram ‘agora vai’. Inclusive este blogueiro.

Que desencanto! A euforia durou pouco. Confirmando o que já diziam as sondagens, o voto popular das ‘primárias’ presidenciais argentinas apontou para a (mais que provável) derrota de Macri, o atual titular. Foi a conta. A turma do Planalto mostrou que o clube está tão ideológico quanto costumava ser. Antes, como todos comungavam os mesmos ideais, a caixa de ressonância do grupo funcionava com harmonia. Agora, que Brasil e Argentina estão na iminência de enxergar o mundo com óculos diferentes, a caixa de ressonância começou a desafinar.

Doutor Paulo Guedes, ministro da Economia, já deixou claro que a dissonância ideológica entre Brasil e Argentina pode significar a dissolução do Mercosul. Veja a que ponto chegamos, distinto leitor: um grupo criado para promover a harmonia, o progresso e o bem-estar entre Estados periga desaparecer por motivo de divergência ideológica entre governos! Será que ninguém se dá conta de que governos são efêmeros, passam, enquanto Estados são permanentes, não se vão?

O provável futuro presidente da Argentina chama-se Alberto Fernández. Na mesma chapa, Cristina Kirchner disputará a vice-presidência. Portanto, se vencerem, señor Fernández será presidente, enquanto señora Kirchner será vice. Passando por cima dessas miudezas, doutor Guedes já inferiu que a Presidência será exercida de facto pela vice-presidente. E não se acanhou de referir-se a ela de forma debochada: «E se a Kirchner quiser fechar (o Mercosul pra acordos externos), a gente sai. E se quiser abrir, então vou dizer: ‘bem-vinda, moça, senta aí’»

Não precisa muito esforço de imaginação pra identificar a pesada marca de família nesse modo desrespeitoso de falar dos outros. Acertou, leitor! É assim que doutor Bolsonaro costuma se exprimir. Você e eu, que não somos figuras públicas, podemos nos permitir esse tipo de linguagem de botequim. Eles, não.

Que fazer? Como dizem os franceses, «qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem». Eta, nós! Estamos bem arrumados.

Bolsonaro e minha médica

José Horta Manzano

Fui pra uma visitinha de rotina à médica que faz o que pode pra manter a saúde deste blogueiro à tona. Casada com um suíço, a doutora mora aqui há muitos anos. Mas guardou a vivacidade e o sotaque dos que nascem e crescem pelas bandas do Rio da Prata.

Procurando ser simpático, sempre chego cumprimentando e soltando as primeiras frases em castelhano. Só faço isso no comecinho, que espanhol não é a língua em que me sinto mais à vontade. Só que ontem não foi possível passar logo para o francês. Aqui vai o porquê.

Assim que nos cumprimentamos, evoquei a débâcle da bolsa argentina no dia anterior e deixei escapar um «que desastre ayer en Buenos Aires, doctora!». Ah, foi a conta. Como boa portenha, minha cara ‘doctora’ estava em estado de choque com o que está acontecendo no seu distante país. Soltou o verbo. Me lembro de ter ouvido os termos «hecatombe», «horror», «desgracia», «tragedia» y otras cositas amables.

Por discrição, não perguntei quais eram as preferências políticas dela. Fiquei sem saber se estava satisfeita ou indignada com a derrota de Macri nas prévias presidenciais. Por seu lado, não foi difícil perceber que estava enfurecida com as declarações de doutor Bolsonaro. É compreensível. Ela não está sozinha nessa fúria. Seus 45 milhões de compatriotas hão de compartilhar o mesmo estado de espírito.

Ao esculhambar nossos hermanos, desqualificando e tratando de «esquerdalha» a ampla maioria que votou no candidato Fernández, nosso presidente foi muito mais longe do que toleram as regras básicas de convivência entre nações. Ele não tem direito de se intrometer no resultado de um pleito democrático e limpo organizado no estrangeiro.

Alberto Fernández, vencedor das prévias argentinas, devolve as amabilidades a Bolsonaro tratando-o de racista, misógino e violento. A política da boa vizinhança começa bem.

Se as barbaridades proferidas por doutor Bolsonaro incomodam no plano nacional, fora do país é ainda pior: chocam e horrorizam. Afinal, a fala do presidente é a voz oficial do Brasil! É como se nós todos tivéssemos ofendido os hermanos. Nossos vizinhos devem estar se sentindo hostilizados pelos 200 milhões de brasileiros.

Doutor Bolsonaro se excedeu no derrame verbal. Vaticinou um futuro de miséria para os argentinos e, inspirado em Trump, anunciou que não estamos dispostos a receber hordas de “balseros” – refugiados provenientes do país vizinho. Humilhou um povo inteiro. Dá muita vergonha.

A verdade é que doutor Bolsonaro passará, mas a Argentina será sempre nossa vizinha de parede. Não convém se indispor com quem vive ao lado. Tenho certeza de que os brasileiros decentes estão se sentindo constrangidos.

Não recebi procuração para pedir desculpas em nome do povo brasileiro. Mas fiz questão mostrar à ‘doctora’ minha indignação. Disse-lhe o que penso de nosso presidente. Tenho a impressão de que ela se acalmou.

Agrément

José Horta Manzano

Mandando às favas toda a tradição diplomática, doutor Bolsonaro anunciou urbi et orbi – à cidade e ao mundo – que nomearia um dos bolsonarinhos para a chefia da embaixada do Brasil em Washington, o posto mais cobiçado da carreira, de costume reservado a profissional calejado e ultraexperimentado. O anúncio causou frisson. A memória do Itamaraty não registra caso de nome divulgado antes da obtenção do agrément. É que, caso ele não seja concedido, a estrepolia resultará num tapa na cara do Estado brasileiro, uma senhora afronta. Não convém facilitar. Mas o que é mesmo esse tal de agrément?

Como costuma ocorrer em matéria diplomática, a palavra é francesa. Foi importada tal e qual, com a grafia original. O acento que aparece sobre o é não é nosso acento tônico. Segue a ortografia francesa. É que a letra e, em francês, pode ter três sons diferentes. O acento tônico indica que, neste caso, o e tem som fechado, como nosso ê. A palavra inteira, para nossos ouvidos, soará oxítona, com acento tônico na última sílaba – algo próximo a «agremã».

O agrément é o reconhecimento emanado de uma autoridade oficial. Na França, onde seu uso é mais amplo, atesta que o indivíduo tem a formação e as qualidades necessárias para exercer a função que pleiteia. Em português, o campo semântico se estreitou. O agrément é usado exclusivamente em linguagem diplomática. Emitido por um Estado, significa que ele concorda com receber determinado indivíduo como representante de outro Estado.

Rei Luís XIV recebe o embaixador da Pérsia – Versailles, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

A palavra deriva do verbo agréer (= acolher favoravelmente, aceitar). Por sua vez, esse verbo descende de gré, que é a forma francesa do adjetivo latino gratus (=grato). E aí chegamos ao ancestral comum. Se não temos, em nossa língua, palavra correspondente ao agrément francês, temos uma coleção de primos próximos e afastados. Grato, gratidão, malgrado, agradecer, grado, gratificar, congratular, grátis, graça, gratuito. Todas essas palavras carregam, de perto ou de longe, um sentido de gratidão.

Ao receber o agrément do Estado que o acolherá, o novo embaixador passará a ser persona grata, ou seja, pessoa acolhida de bom grado, de boa vontade, sem objeção. Se o agrément lhe devesse ser negado, o infeliz se tornaria persona non grata, vexame pelo qual ninguém quer passar.

Doutor Bolsonaro assumiu pesado risco ao tornar pública a nomeação do bolsonarinho antes de receber o agrément de Washington. Traquinagem de gente inexperiente. Mas observadores atentos garantem que o “de acordo” virá. Por seu lado, muitos acham que o desterro de um dos problemáticos filhos do presidente só pode ser benéfico para o Brasil, na medida que doutor Bolsonaro perderá um dos tripés que o sustentam. Pessoalmente, não sou dessa opinião.

Acredito que a embaixada em Washington é muito mais do que um festival de mundanidades, com um coquetel aqui, uma visita ali, uma recepção acolá. A chefia da embaixada tem de ser entregue a um profissional ultraexperiente, o que não é o caso do bolsonarinho. Que os filhos em torno do presidente sejam dois ou três, pouca diferença faz: o desvario do pai será o mesmo. Um dos rebentos enxertado na embaixada de Washington pode causar estrago maior.

La famiglia
O distinto e culto leitor certamente conhece o verbo inglês to agree (=concordar) assim como o substantivo agreement (=acordo). Agora já se deve ter dado conta de que são empréstimos tomados diretamente do francês. To agree vem do verbo agréer. E o agreement inglês é o exato correspondente do agrément francês.

Ispiquingri?

José Horta Manzano

Fosse doutor Bolsonaro dotado de sagacidade em matéria política, a gente até acreditaria ser balão de ensaio, daqueles que a gente solta só pra ver que efeito faz. Mas não. Nosso presidente passou longe da fila da sutileza logo antes de descer à terra no bico da cegonha. Com ele, não há balão de ensaio. O que diz é o que pensa, vem cru e sem tempero. O problema, como bem frisa o Conselheiro Acácio, é que as consequências costumam vir depois. E olhe que vêm mesmo.

A mais recente tirada estapafúrdia do presidente foi o anúncio de sua intenção de nomear um dos bolsonarinhos para chefiar a embaixada do Brasil em Washington. Não é balão de ensaio, acreditem. É o que doutor Bolsonaro pensa, o que ele acha melhor para ele, logo, para o Brasil. Escolheu o filho que, eleito deputado federal em outubro passado, com monumental votação, não tem sido a figura mais assídua do hemiciclo.

Mas os brasileiros podem dormir tranquilos porque, antes de assumir o posto, o bolsonarinho deverá passar pelo crivo do Senado da República. Por pior que sejam os parlamentares da Câmara Alta – e não são tão ruins assim – não deixarão passar esse disparate.

Cego guiando cego
by Frits Ahlefeldt, desenhista dinamarquês

O filho do presidente não é diplomata. Nunca chefiou embaixada, nem consulado. Não foi sequer atendente de guichê de entrega de passaporte. É lícito pensar que não passaria no exame de entrada no Instituto Rio Branco. No de saída, então, nem em sonho. Nossos diplomatas são numerosos e estão entre os profissionais mais bem formados do país. Não faz sentido introduzir um estranho no ninho. Em festa de inhambu, jacu não entra.

A escolha do rebento presidencial para o mais alto posto de nossa diplomacia passa incontestável atestado da falência da Instrução Pública no país e dá prova escancarada do constrangedor monolinguismo nacional: o rapaz conhece bem inglês. Ah, se o rapaz conhece bem inglês, então está em condições de assumir o cargo – é o que imagina doutor Bolsonaro.

Ora, ora… Vejam, senhores: a ignorância nacional em matéria de conhecimento de línguas estrangeiras é tão monumental que o fato de um cidadão arranhar seu inglesinho já lhe dá currículo suficiente pra ser titular da mais importante embaixada que o Brasil mantém.

In terra caecorum monoculus rex.
Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

A que ponto chegamos!

Reunião na cadeia

José Horta Manzano

Artigo do jornal argentino Clarín relata a visita feita por Alberto Fernández a Lula da Silva, em Curitiba. Señor Fernández é candidato ao cargo de presidente da Argentina. Sua chapa tem, como vice, ninguém menos que Cristina Kirchner. A ex-presidente, figurinha carimbada da política do país hermano, está atualmente enrolada com a justiça por suspeita de corrupção. Seu processo só não avança devido ao fato de ela ser senadora, cargo que lhe garante imunidade.

O promotor da viagem e mestre-sala do candidato em Curitiba foi o inoxidável Celso Amorim, responsável pela bizarra orientação da política externa brasileira durante os dois mandatos de Lula da Silva.

A frase soltada pelo candidato à presidência argentina, mencionada no início deste escrito, faz sentido. Doutor Bolsonaro é visto com desconfiança pelos argentinos. Mauricio Macri, atual presidente e candidato à reeleição, anda mal das pernas, maltratado pelas pesquisas. Bolsonaro tem dado apoio explícito a Macri. Ao fim e ao cabo, visto que apoiador e apoiado estão na berlinda, cada elogio do apoiador reforça a síndrome do abraço de afogados. Nessa briga, quem sai ganhando mesmo é o candidato Fernández – que leva Cristina a tiracolo. Daí o comentário debochado reproduzido na entrada deste artigo.

Curitiba: o candidato Fernández e o inoxidável Amorim

É consternante notar que, entre os dirigentes latino-americanos, desapareceu toda cautela para evitar acidente diplomático. A própria noção de incidente diplomático está em recesso.

Desde que os governos petistas se puseram a apoiar explicitamente candidatos nas eleições do Equador, da Bolívia, da Venezuela e de outros países ‘amigos’, liberou geral. Atitudes inimáginaveis, pelos cânones da diplomacia tradicional, tornaram-se corriqueiras.

Apoio declarado à reeleição de Trump é o pão nosso de cada dia do entourage de nosso presidente. O próprio doutor Bolsonaro declarou com todas as letras que, caso a dupla Fernández/Kirchner vença as eleições argentinas, o país vai virar uma Venezuela. O troco veio rápido. Em visita a nosso território, o candidato ofendido se permite debochar de nosso presidente. E tudo bem. Admirável mundo novo!

Acordo UE-Mercosul: por que agora?

José Horta Manzano

Por inesperado, o destravamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia surpreendeu. Com altos e baixos, estava em banho-maria havia 20 anos. Até uma semana antes da cúpula do G20, não se imaginava que seria assinado tão já. Até mesmo na véspera da assinatura, ainda se punha o verbo no condicional.

Frise-se que o documento sacramenta apenas um acordo de princípio, que poderá (ou não) entrar em vigor um dia. Na hipótese optimista, passará a valer daqui a alguns meses; na pessimista, será daqui a muitos anos. É que tem de ser ratificado individualmente pelo parlamento dos 28 membros da UE e dos 4 integrantes do Mercosul. São 32 congressos nacionais (31, caso o Reino Unido deixe a UE). Não é brincadeira.

Já no dia seguinte ao da assinatura, mais de 300 ONGs ligadas à preservação da natureza se alevantaram, indignadas. Valendo-se da forte ação lobística de que são capazes, têm intenção de pressionar os governos europeus para que suspendam a ratificação enquanto o Brasil não der provas de ter tomado medidas concretas para impedir o avanço da destruição da floresta úmida. Alô, madeireiras!

Na França, sindicatos e associações de classe que representam os interesses dos agricultores estão de cabelo em pé e armas na mão. Enxergam a produção agrícola brasileira como ameaça. Temem que o mercado deles, antes cativo, seja inundado com produtos brasileiros, o que geraria crise na produção, com perda de renda e de empregos. Também eles sabem fazer pressão sobre os parlamentares. Alô, exportadores agrícolas!

Mas o que é que terá precipitado a conclusão de um acordo guardado na geladeira por tantos anos? Por que justamente agora, sob os holofotes da cúpula do G20, vitrina midiática de importância capital para os figurões que participam? É bem possível que o súbito desenlace tenha ocorrido por razões que pouco têm a ver com floresta tropical, defensivos agrícolas ou concorrência desleal. A razão pode ser bem mais banal.

Monsieur Macron, fragilizado pela crise dos Coletes Amarelos, precisa mostrar serviço. A finalização do acordo durante a vitrine do G20 há de ter-lhe parecido excelente ocasião. Decidiu embarcar nesse trem mesmo tendo de se expor à fúria de ecologistas e agricultores. Feitas as contas, deve ter concluído que os ganhos superam as perdas.

Frau Merkel está em fim de carreira. Já anunciou que não será candidata à reeleição. Viu no acordo um valioso item a acrescentar ao currículo. É permitido especular que tenha combinado antes com Monsieur Macron; afinal, França e Alemanha, juntas, são o motor da Europa.

Monsieur Jean-Claude Juncker é o presidente da Comissão Europeia, com mandato terminando estes dias. Pelas mesmas razões que Frau Merkel, tinha todo interesse em ver o sucesso das tratativas. Será lembrado como aquele que assinou o acordo mais importante da história da União Europeia. Ninguém resiste à força desses três personagens.

Resta falar de señor Macri e de doutor Bolsonaro, que colhem frutos que não plantaram. O presidente do país hermano, que está em campanha de reeleição, anda mal das pernas, castigado por pesquisas desfavoráveis. Para ele, a assinatura do acordo cai como luva. É trunfo não desprezível na corrida eleitoral.

Como seu colega argentino, doutor Bolsonaro está em queda de popularidade junto ao povo, em conflito com o Congresso, embrenhado no cipoal que lhe tecem os filhos. Por essas e outras, deve ter soltado um sorriso de orelha a orelha, tamanha a satisfação de ter podido assinar o acordo. Não resolve todos os problemas, mas dá-lhe oxigênio e uma trégua bem-vinda.

Eis como a convergência de interesses pessoais, alheios ao que estava sendo discutido, teve o condão de agilizar a conclusão de um acordo no qual, de tão emperrado, ninguém mais botava fé.

Sans moi

Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo ‘trumpista’ é sinal de perda de contacto com a realidade.

José Horta Manzano

O que o brasileiro diz, em falar caseiro, «me inclua fora» tem tradução perfeita em francês. Em Paris, diz-se «ce sera sans moi» (=será sem mim).

Monsieur Macron, presidente da França, usou esse recurso de linguagem hoje em previsão da conversa com doutor Bolsonaro. Logo ao chegar a Osaka, antes do encontro agendado (depois desagendado, em seguida reagendado, afinal realizado), avisou: «Se não pudermos discutir sobre o Acordo de Paris, ce sera sans la France (=sera sem a França)».

Depois da ameaça de «levar um pito» de Frau Merkel, doutor Bolsonaro sofreu ameaça de «levar um fora» de Monsieur Macron. Note-se que não estamos falando de dirigentes da Mongólia ou do Zimbábue. Alemanha e França são os dois países mais importantes da Europa e formam juntos o motor do continente.

França: temperaturas previstas para 28 junho 2019

Meu pai dizia: ‘Se não for por bem, vai por mal’. Em matéria de defesa da ambição climática do planeta, doutor Bolsonaro escolheu ‘ir por mal’. A adesão cega e total aos propósitos ignorantes que Mister Trump emite nesse particular é nociva a nosso país e nos está fazendo mal. A reviravolta climática já não é ameaça, é realidade.(*) Pra evitar catástrofe maior, cada cidadão pode (e deve) fazer sua parte, mas governos podem muito mais.

Liberar, no Brasil, agrotóxicos já proibidos na Europa é atitude insensata. Agasalhar desmatamento desenfreado também é. Nosso presidente é responsável por esses dois atos. Além de prejudicar a saúde, essas atitudes típicas de mentes desinformadas botam obstáculos na negociação de acordos comerciais.

Doutor Bolsonaro devia pôr na cachola que Mr. Trump não é eterno e que será substituído um dia. Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo trumpista é sinal de perda de contacto com a realidade. É como tomar carona num veículo que não se sabe pra onde vai. A gente acaba se perdendo. Doutor Bolsonaro precisa recalibrar seu GPS e começar tudo de novo.

(*) A onda de calor temporã que oprime a Europa neste fim de junho já está aí faz quatro dias. Não se sabe exatamente quando terminará – talvez no meio da semana próxima. No país de Monsieur Macron, preveem-se temperaturas entre 40° e 45° para este fim de tarde. Na amena Suíça onde vive este blogueiro, o termômetro marcava 29° à uma da manhã na noite que passou. Durma-se com um bafo desses.

Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Chicanas de lá e de cá

José Horta Manzano

Cesare Battisti – lembra dele? É aquele italiano que, escapando à Justiça de seu país, tinha conseguido abrigo e asilo no Brasil de Lula, apesar de condenado à prisão perpétua por envolvimento em quatro homicídios. É aquele cidadão que, ao ver que o lulopetismo estava prestes a cair, sentiu que a coisa estava ficando complicada e tratou de correr do Brasil pra refugiar-se na Bolívia.

Pouco adiantou o expediente. O homem foi descoberto em Santa Cruz de la Sierra por policiais italianos que o denunciaram às autoridades locais. Em três tempos, a Justiça boliviana tomou decisão radical. Em vez de devolver Battisti ao Brasil, entregou-o diretamente aos italianos que, rapidinho, o carregaram para a Itália sem ao menos fazer escala no Brasil. A entrega do hóspede indesejado foi oficialmente registrada como expulsão.

Ficou claro que tanto Roma quanto La Paz tinham entendido que seria um risco enorme e desnecessário fazer Battisti transitar pelo Brasil. O perigo era de que a lei brasileira, permissiva e rica de sinuosas chicanas, se interpusesse. A novela da entrega do fugitivo às autoridades italianas podia, nesse caso, arrastar-se por anos. E no final, com o STF que temos, o risco de o terrorista ser de novo solto era real. Pra fugir desse perigo, os italianos convenceram a Bolívia a entregar-lhes o prisioneiro em mãos. E assim ocorreu. Se Roma ofereceu alguma contrapartida a La Paz, ninguém ficou sabendo.

Desde janeiro, Battisti está encarcerado numa prisão de segurança máxima na ilha da Sardenha. Seus advogados italianos apresentaram um pedido de recálculo da pena. Alegam que, para o cálculo, o que tem de valer é o acordo firmado entre a Itália e o Brasil pelo qual a pena do criminoso seria comutada de prisão perpétua para trinta anos de reclusão. Já fizeram até as contas. Adicionando o tempo em que signor Battisti esteve preso preventivamente – na Itália, na França e no Brasil – chegam a quase dez anos.

Abatendo esses dez anos dos trinta combinados entre a Justiça brasileira e a italiana, a pena residual é de meros vinte anos. Sexta-feira passada, 17 de maio, a defesa de Battisti foi convocada para uma audiência na Procuradoria-Geral de Milão. Expuseram sua tese de fazer valer o acordo de extradição firmado entre Brasil e Itália. O procurador-geral, no entanto, não acolheu a argumentação. Retrucou que, no momento da prisão, o condenado estava na Bolívia e não no Brasil. O acordo de extradição só poderia valer se o interessado estivesse no território do país signatário. Dado que não estava, o Brasil passou a ser, nesse episódio, apenas um «terzo osservatore estraneo – um observador externo estranho ao caso».

A decisão final ainda está pendente, mas tudo indica que a defesa de Battisti vai perder a causa. Se assim for, o condenado deverá cumprir a pena de prisão perpétua. Pensando bem, signor Battisti fez tudo errado. Tivesse ficado no Brasil, tranquilo em casa à espera da PF, sua defesa poderia ter acionado o cipoal de chicanas de que a lei brasileira dispõe. A batalha judicial podia se arrastar por algum tempo, com boas chances de o processo ser sorteado pra ser julgado por aquela turma do STF que gosta de soltar bandidos. Ainda que tudo desse errado e ele fosse despachado à Itália, seu tempo de encarceramento não poderia exceder 30 anos, em acatamento do acordo de extradição. Aí, sim, o pedido de recálculo de tempo teria boas chances de ser acolhido.

O desfecho do caso Battisti deixou um bocado de gente com gosto amargo na boca. Por um lado, o próprio terrorista, que pulou da panela direto para o fogo. Por outro, doutor Bolsonaro, que viu escapar-se-lhe das mãos a ocasião de aparecer como aquele que entregou o bandido à Itália. Até o STF recebeu uns respingos. Pra bom entendedor, ficou claro que a Itália organizou resgate do prisioneiro sem fazer escala no Brasil justamente pra evitar as chicanas brasileiras e a exagerada brandura com que nosso tribunal maior às vezes trata bandidos.

As pérolas de doutor Araújo

José Horta Manzano

Cronista que tem doutor Ernesto Araújo no Itamaraty nunca está desamparado. Nosso chanceler se encarrega de preencher a paisagem com pérolas diárias. Seu antecessor mais marcante foi doutor Celso Amorim, o chanceler do Lula, um dos principais responsáveis pela marginalização do Brasil que, sob sua batuta, se afastou do circuito dos países cuja voz é respeitada internacionalmente.

Confesso que, quando o chanceler do Lula saiu de cena, senti um misto de alívio e de apreensão. O alívio vinha do fato de não ser possível imaginar pior desempenho à frente do Itamaraty. A apreensão vinha do sentimento de que aquela folclórica criatura fosse insubstituível. Havia o receio de que, depois dele, não haveria mais do que falar.

O desempenho de doutor Araújo tem causado frustração e consolo. Frustração porque ele nos ensinou que, por mais que a atuação de alguém deixe a desejar, seu sucessor pode ser ainda pior. E consolo porque, pelo menos, temos matéria diária a comentar.

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Segunda-feira desta semana, doutor Araújo discursou para alunos do Instituto Rio Branco. Discorrendo sobre o comércio exterior brasileiro nas últimas décadas, seguiu raciocínio primário e linear. Disse que a opção de integração com a América Latina, a Europa e o Brics foi equivocada. O doutor se esquece de que, na hora de vender seu peixe, o produtor não escolhe cliente, mas vende àqueles que estiverem dispostos a comprar. Se o Brasil vende soja e minério de ferro à China é porque ela compra e paga o preço. Não há aí nem um suspiro de ideologia.

Continuando na mesma linha de comparar o incomparável, o chanceler lembrou que o Brasil foi o país de mais forte crescimento quando seu principal parceiro eram os EUA. E que, desde que passou a vender à China, estagnou. O argumento é falacioso. O comércio exterior é apenas um dos elementos da economia. Se atrelar a economia nacional à dos EUA levasse a progresso fulgurante, o México ‒ cuja economia está visceralmente ligada à do vizinho do norte, que lhe absorve majoritariamente as exportações ‒ seria a economia mais florescente do planeta. A realidade não é bem essa.

Os óculos de doutor Araújo o fazem enxergar ideologia até em transações comerciais. Dependesse dele, é possível que toda exportação para a China e para a Europa fosse barrada. Felizmente o mundo é bem mais vasto do que as lentes do chanceler permitem ver. Por sorte não compete ao ministro das Relações Exteriores determinar quem pode e quem não pode comprar produtos brasileiros. Assim, nossa pauta de exportação continuará a vender a quem estiver interessado em comprar. E a pagar.