Bolsonaro e a política externa

Elio Gaspari (*)

Quando Joe Biden venceu a eleição americana, Jair Bolsonaro levou mais de um mês para felicitá-lo.

Sua diplomacia acreditava na lorota de Donald Trump, que dizia ter sido roubado. Quatro dias depois da eleição de Pedro Castillo, o capitão disse que “perdemos agora o Peru”, pois a seu juízo “só um milagre” reverterá a derrota de Keiko Fujimori.

Demorou para reconhecer um resultado e apressou-se para admitir o outro.

Nomeando Marcelo Crivella para a representação do Brasil na África do Sul, Bolsonaro entra para os anais da diplomacia como o primeiro chefe de Estado a nomear um embaixador que está proibido de deixar o país pela Justiça.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 13 jun° 2021.

Efeito Bolsonaro

Cúpula do G7: foto de família em modo distanciamento social

José Horta Manzano

O status de “potência emergente” que o planeta atribuía ao Brasil até pouco anos atrás murchou feito pastel de vento depois da primeira mordida. A pandemia tem parte nisso, mas não é a única responsável. A danada afetou o mundo todo, não só nosso país. Se demos um passo atrás por causa dela, todos também deram. Portanto, empatou. Essa desculpa é furada. Atualmente, a grande diferença, o principal fator que alarga a distância entre nós e o mundo mundo civilizado tem nome: é Jair Bolsonaro.

Nossas instituições – Congresso, Forças Armadas, Poder Judiciário – vêm aceitando flacidamente o extravio presidencial, cada dia mais evidente. Por seu lado, o povo continua anestesiado, a discutir o número exato de motocicletas que participaram da última motociclata patrocinada pelo capitão. Fora de nossas fronteiras, em terras em que o peso de palavras e atos segue outra escala, a história é diferente.

Pouco divulgada no Brasil, teve lugar no fim de semana passado a cúpula anual do G7. Os grandes deste mundo se reuniram – presencialmente! –  de 11 a 13 de junho numa estância balneária do sul da Inglaterra. Pra se ter uma ideia da importância do encontro, note-se que é a primeira viagem de Joe Biden ao exterior desde que assumiu a Presidência.

A última cúpula do G7 realizada em caráter presencial tinha sido a de Biarritz (França), em agosto de 2019. Na ocasião, a zombaria que Bolsonaro acabava de fazer com relação à aparência física da primeira-dama francesa tinha sido posta à mesa pelo presidente Macron e abundantemente comentada pelos participantes estupefatos.

Tradicionalmente, nas cúpulas do G7, o anfitrião tem o direito de convidar dirigentes de outros países, que vêm na qualidade de observadores. Nesta edição, Boris Johnson, o dono da casa, resolveu convidar a Índia, a África do Sul, a Coreia do Sul e a Austrália. Honrados, todos aceitaram o convite. O distinto leitor há de ter reparado que, à exceção da China e da Rússia, que não são considerados países democráticos, o Brics inteiro foi chamado pra fazer a festa. Faltou o Brasil. É que, graças ao trabalho incansável do capitão, nosso país passou a fazer parte dos empestados, aqueles que ninguém quer ver por perto.

Tem avançado a ideia de reformar o G7 e transformá-lo no D10, um clube com as dez principais democracias. Índia, Coreia do Sul e até Austrália são cotados para entrar na agremiação. Nosso país, apesar de ter peso econômico maior do que os futuros integrantes, não aparece entre eles. De fato, não passaria pela cabeça dos integrantes do G7 convidar o Brasil de Bolsonaro. Quando se sabe que um país pode causar dor de cabeça, ele é posto na geladeira. Ninguém abre a porta de casa para sujeito encrenqueiro.

Como se sabe, nosso país não é uma ilha nem está situado no planeta Marte. Estamos com os pés fincados na velha e boa Terra, e daqui não há meio de sair. Os vizinhos que temos – próximos e distantes – são o que são, não temos escolha. São eles que compram o que produzimos em excesso; é deles que compramos aquilo que não colhemos nem produzimos. Não somos autossuficientes, sequer em produção de alimentos. Portanto, não é possível dar uma banana pro mundo, como faz nosso capitão, e esperar que, em troca, nos mandem beijinhos. Amor, com amor se paga.

Reparem que, com Bolsonaro no poder, já começamos a ser discriminados. As portas fechadas do D10 são apenas um aperitivo, uma amostra das sanções que nos esperam. São só o comecinho.

Rainha Isabel

José Horta Manzano

O aportuguesamento de nomes e sobrenomes era comum nos antigamentes. Todas as línguas procediam exatamente da mesma maneira. Há exemplos a dar com pau.

No original italiano, Cristóvão Colombo era Cristòforo Colombo. Em inglês, ficou Christopher Columbus; em espanhol, Cristóbal Colón; em francês, Christophe Colomb; em alemão, Christoph Kolumbus.

O português Fernão de Magalhães virou Fernand de Magellan em francês, Ferdinando Magellano em italiano, Fernando de Magallanes em espanhol.

Em nossa língua, o polonês Mikołaj Kopernik transformou-se em Nicolau Copérnico. Ingleses e alemães conhecem nosso D. Pedro II como Peter II, enquanto italianos dizem Pietro II e franceses preferem Pierre II.

Os espanhóis, até hoje, traduzem o nome dos membros da realeza estrangeira. Quando se referem à família real inglesa, é divertido ouvir falarem da rainha Isabel e dos príncipes Carlos, Guillermo, Henrique e Jorge. A gente precisa retraduzir mentalmente pra saber de quem estão falando.

No Brasil, hoje em dia, é raro ver nome estrangeiro traduzido ou adaptado. Mas de vez em quando escapa um. Foi o que fez o estagiário do Estadão, ao mencionar o nome daquele que (parece que) acaba de ser eleito para o cargo de presidente do Peru: Castillo virou Castilho.

Mas vamos ser justos: foi sem intenção. Na hora de escrever, o automatismo falou mais alto e os dedinhos correram soltos.

Face, Google, Twitter e o golpe

Pedro Doria (*)

Prezados Zuck, Sundar e Jack,

Aqui no Brasil, não costumamos escrever a CEOs como vocês, de Facebook, Google e Twitter, chamando pelo apelido ou prenome. Mas vou me permitir escrever assim, na informalidade americana tão típica no Vale do Silício. É para ser mais direto.

É preciso que vocês prestem atenção na política brasileira. Agora.

Em 6 de janeiro último, uma turba invadiu o Capitólio, em Washington. A polícia legislativa não acreditava que isto seria possível. Dá para entender. Numa democracia longeva que não interrompeu o ciclo de eleições regulares nem com uma guerra civil, como seria possível imaginar que cidadãos americanos invadissem o Parlamento para interromper a homologação de um pleito? Mas aconteceu. Pessoas foram radicalizadas a esse ponto em ambientes digitais e aí insufladas por um presidente que desprezava a ideia de uma sociedade livre.

No Brasil, a história nos obriga a imaginar essa possibilidade.

Minha geração de jornalistas aprendeu o ofício com colegas quinze ou vinte anos mais velhos que enfrentaram, na condição de repórteres e editores, a ditadura mais recente. Alguns desses amigos, que ainda trabalham nas redações, gente por quem temos afeto, foram exilados, presos e torturados pelo exercício das liberdades políticas essenciais: a de pensar, a de se expressar, a de se manifestar, a de publicar e a de se reunir para debater.

Donald Trump segue persona non grata em várias das redes. A decisão de excluí-lo seguiu um princípio que qualquer democrata endossa: o Paradoxo da Tolerância, descrito pelo filósofo austríaco Karl Popper. No limite, uma sociedade aberta não pode abrir espaço para que intolerantes usem destas liberdades para ameaçar o regime democrático.

A República brasileira nasceu com um golpe militar, em 1889. De lá para cá houve golpes de Estado em 1891, 1930, 1937, 1945, 1955 e 1964. Só um deles, o de 1955, fracassou. Em rigorosamente todos estes momentos, a ruptura de regime começou no momento em que foi quebrada, nas Forças Armadas, a exigência de disciplina que proíbe militares de se envolverem na política.

Há duas semanas, pela primeira vez desde a restauração da democracia no Brasil em 1985, um general da ativa subiu ao palanque em apoio ao presidente. Seus superiores no Exército, intimidados pelo mesmo presidente, nada fizeram. O sinal histórico de ameaça à democracia foi dado.

Em um ano teremos eleições. Como Trump, Jair Bolsonaro vem espalhando entre seus seguidores que há risco de fraude. Não é a única das mentiras que seu movimento trabalha diariamente para espalhar. São mentiras que têm por objetivo disseminar naquela parcela radicalizada da população elementos que a convençam de que não devem confiar nas instituições da democracia.

Bolsonaro está seguindo o script de Trump. Não há, na história do Brasil, nada que nos garanta que o desfecho será como o americano. Aqui, vivemos o receio concreto de que os generais não tenham mais pleno controle de suas tropas. E sabemos que os governadores não controlam mais plenamente suas polícias.

Me permitam ser explícito: numa situação limite, um 6 de janeiro, no Brasil, poderia contar com o apoio de parte da polícia enquanto o Exército nada faz.

Vocês conhecem as plataformas que comandam. Sabem do peso que elas têm em todos esses acontecimentos. Agir depois do ato fatal, como fizeram com Trump, aqui pode ser tarde demais.

Nós, brasileiros, não temos qualquer tipo de influência sobre as decisões que vocês tomam. Mas somos nós e nossos filhos que sofreremos pelas decisões que tomarem. É hora de ligar o alerta vermelho em Menlo Park, Mountain View e San Francisco.

O golpe, se houver, fracassado ou não, será batizado com o nome das empresas que vocês comandam.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no Estadão de 11 junho 2021.

Desinformação

Folha de São Paulo

 

José Horta Manzano

Vivemos a época do “politicamente correto”. No fundo, que bicho é esse? É a arte de encontrar palavras suaves pra descrever uma realidade que a gente tenta eclipsar. É o jeito de girar em torno do objetivo pra dizer, no final, a mesma coisa. Em palavras cruas, o “politicamente correto” não deixa de ser um tipo de fingimento, de hipocrisia, de impostura.

Não é de hoje que se usam expressões politicamente corretas. Só que, antigamente, não eram a seita dominante. A gente usava sem se dar conta. Ao dizer “João é um rapaz de cor”, “Maria está conservada”, “Joana está um pouco forte de corpo”, estávamos trilhando caminhos politicamente corretos antes da moda.

Hoje é religião oficial, que nos obriga a cumprir direitinho os ritos, que é pra não ser condenado à execração pública. No entanto, adotar a religião do “politicamente correto” não implica fazer reforma integral do vocabulário a fim de eliminar palavras de sentido negativo. Não há que exagerar.

Segundo a chamada de jornal que reproduzo acima, “Bolsonaro desinforma ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais”. Não concordo com a expressão. Não há por que recorrer a formulações suaves para traduzir o que disse o capitão. Praticar negacionismo explícito, quando uma tenebrosa pandemia está em curso, é ato grave. A meu ver, quem ajuda a abafar a realidade torna-se cúmplice do negacionismo presidencial.

A língua oferece uma dúzia de verbos que se aplicam melhor para descrever a atitude do presidente: enganar, ludibriar, engodar, falsear, enrolar e tantos outros.

Consertando a manchete, temos:

“Bolsonaro engana ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engazupa ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro tapeia ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”
“Bolsonaro engrupe ao dizer que as vacinas anticovid são experimentais.”

Etc.

Desinformar & desinformação
O verbo desinformar entrou só recentemente na linguagem de todos os dias. Nos anos 1960, não existia. O que se via às vezes era a palavra desinformação – que tinha, naquela época, o sentido de desconhecimento.

Ex: “Nota-se que, no meio estudantil, há grande desinformação quanto à recente reforma curricular”.

Foi só a partir dos anos 1970 que desinformar começou a fazer raras aparições na imprensa, já com o sentido que lhe atribuimos hoje. Um dos primeiros a usar esse verbo foi justamente o então sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula, numa entrevista de julho de 1986 em que criticava a imprensa e acusava um determinado jornal de desinformar (=enganar) o público.

Como se vê, críticas à imprensa não são exclusividade de simpatizantes desta ou daquela corrente política. O expediente é velho como o mundo: quando não se aprecia a notícia, a culpa é sempre do mensageiro.

Campeonato de baixaria

José Horta Manzano

12 agosto 2019
Antes das eleições presidenciais pra valer, o sistema eleitoral argentino prevê a realização de prévias. Com 48% dos votos, Señor Fernández (esquerda) botou pra correr Señor Macri (direita), que só obteve 32%.

Bolsonaro, que já era presidente, se encontrava no Rio Grande do Sul. Soltou uma fala raivosa em que mandava os gaúchos se prepararem para um afluxo de refugiados vindos da Argentina, caso a “esquerdalha” ganhasse a Presidência naquele país. Em referência aos refugiados venezuelanos, acrescentou que o Rio Grande ia se transformar “num novo estado de Roraima”.

13 agosto 2019
No dia seguinte, Señor Fernández, ainda candidato, declarou que, com o Brasil, teria uma relação esplêndida, e que Bolsonaro não passava de “uma conjuntura” na vida do país. Classificou o capitão como “racista, misógino e violento”.

21 agosto 2019
Bolsonaro resolveu dar mais uma martelada no prego. Tuitou: “Com o possível retorno da turma do Foro de São Paulo na Argentina, agora o povo saca, em massa, seu dinheiro dos bancos. É a Argentina, cada vez mais próxima da Venezuela”.

Nosso extravagante chanceler, aquele barbudinho bobão, seguiu o caminho do chefe e criticou, por antecipação, o futuro governo Fernández.

1° novembro 2019
Dois dias depois da vitória de Fernández, que derrotou o candidato favorito de Bolsonaro, nosso capitão deixou claro que não compareceria à tomada de posse do novo presidente do país hermano. Com sublime elegância, acrescentou que a Argentina havia “escolhido mal” e que ele não ia dar parabéns ao vencedor. Assim mesmo, num repente de condescendência, prometeu não fazer “retaliação”(?) à Argentina.

30 novembro 2020
Neste dia teve lugar a primeira Cúpula do Mercosul à qual os dois presidentes compareceram. Conciliador, Fernández pediu a Bolsonaro que deixasse de lado as rusgas entre os dois e que ajudasse a dar um impulso ao mercado comum. Não consta que o capitão tenha dito sim ou não.

10 junho 2021
Em discurso pronunciado diante de Señor Sánchez (primeiro-ministro espanhol em visita a Buenos Aires), Fernández ousou a seguinte frase: Los mexicanos salieron de los indios, los brasileños salieron de la selva, pero nosotros, los argentinos, llegamos en los barcos, de Europa” (Os mexicanos vêm dos índios, os brasileiros vêm da selva, mas nós, os argentinos, chegamos nos barcos, da Europa).

Em suma, o presunçoso mandatário nos tratou de selvagens. Pegou mal pra caramba. Não consta, até agora, nenhuma reação do capitão, que viu seu povo inteiro tratado de bugre.

Resumo
Nesse campeonato de baixaria várias perguntas flutuam no ar.

Quem é…

… o mais agressivo dos dois presidentes?

… o mais insensível?

… o mais inconsequente?

… o mais presunçoso?

… o mais antidiplomático?

… o mais despreocupado com o futuro do próprio povo?

… o mais malcriado?

… o mais elefante em loja de porcelana?

… o mais desagradável?

… o mais imbecil?

… o mais perigoso?

O páreo é duro. Cartas para a redação, por favor.

Açougueiro da Bósnia

Folha

Estadão

O Tempo

José Horta Manzano

Séculos atrás, açougue era o nome do estabelecimento onde reses eram abatidas e desmembradas para posterior consumo. A prática continua, mas o nome do estabelecimento mudou: hoje se diz matadouro. Em nossos dias, açougue designa apenas a loja que vende carne. Açougueiro, por consequência, é o indivíduo que lá prepara a mercadoria e atende aos clientes.

Em inglês é diferente. O termo butcher serve para designar tanto o funcionário do açougue quanto o do matadouro. Ao dar a Ratko Mladić a alcunha de “Butcher of Bosnia”, não o estão comparando ao açougueiro da esquina, mas a um funcionário do abatedouro, um matador, aquele cuja função é abater animais. A imagem é contundente, especialmente porque o referido senhor não era propriamente funcionário de um matadouro. Fazia por gosto. E com gente. Dá até arrepio.

Ao traduzir “Butcher of Bosnia” por “Açougueiro da Bósnia”, toda a dramaticidade da expressão inglesa se perde. Mais adequada será dar-lhe a alcunha de “Carniceiro da Bósnia”.

Butcher
A palavra inglesa é a adaptação fonética do francês boucher. Na Idade Média, quando foi importado, o termo designava o homem que abatia reses para, em seguida, vender a carne no varejo. Um serviço completo, do pasto ao prato.

No francês atual, a palavra corresponde a nosso açougueiro. Em inglês, todavia, butcher mantém os dois sentidos – o homem que abate e o que vende são designados pelo mesmo termo.

Eis por que, em inglês, faz sentido dizer que nosso gentil personagem é um “butcher”. No Brasil, para guardar o mesmo impacto, temos de dizer “carniceiro”.

Nota final
Um genocidário não perde por esperar. A justiça acaba por alcançá-lo, nem que seja um quarto de século depois.

Imunidade de rebanho

Imunidade coletiva

José Horta Manzano

Depois que os integrantes de hordas não-bolsonaristas resolveram chamar os integrantes de hordas bolsonaristas de gado, os termos que se referem à pecuária devem ser utilizados com muito cuidado, especialmente quando aplicados a humanos.

Dizer que, com a aceleração da vacinação, a imunidade de rebanho será logo alcançada, pode melindrar espíritos mais sensíveis. Talvez os integrantes das hordas bolsonaristas apreciem o elogio, talvez reclamem da implicância. Quanto aos integrantes das hordas não-bolsonaristas, certamente detestarão a expressão, justamente por não admitirem ser confundidos com gado. Gado, como sabemos, são sempre os outros.

Para não ofender nem uns nem outros, a língua – generosa – oferece diversas opções. Eis algumas:

    • Imunidade de grupo
    • Imunidade gregária
    • Imunidade de comunidade
    • Imunidade coletiva
    • Imunidade de população
    • Imunidade de massa

Está vendo? Pra evitar mal-entendidos, fuja da duvidosa imunidade de rebanho. Quando se fala em eliminar febre aftosa, a expressão que convém é exatamente imunidade de rebanho. Para gente, mais vale evitar polêmica.

Imunidade
A palavra deriva do adjetivo latino immunis (=imune), formado pela partícula in (negação) + munem (de munus = obrigação, dever). Na origem, tinha o sentido que hoje damos a isento. Quando determinados cidadãos estavam desobrigados de pagar uma taxa, por exemplo, dizia-se que estavam imunes.

Até hoje, as bagagens do diplomata passam a alfândega sem inspeção, em virtude da imunidade diplomática. Por seu lado, eleitos do povo são protegidos pela imunidade parlamentar.

O sentido que a palavra imunidade adquiriu em medicina é bem mais recente. Só apareceu no século 19, com a popularização da vacina antivariólica. O primeiro registro é da edição de 1865 do Dicionário Médico Littré-Robin (=immunité). De lá, passou às demais línguas.

Influenciador

José Horta Manzano

Se covardia fosse crime, muita gente estaria na cadeia, condenada à perpetuidade. Aliás, nosso capitão, legítimo integrante dessa turma, já faz tempo que teria sido defenestrado e encarcerado. Infelizmente, covardia não é crime. É atitude baixa, feia, reprovável, indigna, odiosa, mas, a rigor, crime não é.

Outro dia, os jornais deram notícia de um brasileiro que, em viagem turística ao Cairo, deu mostra de baixeza de caráter. Ofendeu uma vendedora jovem e ingênua. Ridicularizou-a usando expressões de botequim pronunciadas em português, língua que a moça desconhecia. Orgulhoso da proeza, documentou a cena em som e imagem. E publicou nas redes.

O vídeo circulou, saiu de controle, acabou chegando às mãos das autoridades egípcias – que não apreciaram nadinha o episódio. Chamaram o rapaz para investigação. Enquanto corriam as averiguações, ele ficou detido. Com medo, desmanchou-se em desculpas, declarou-se arrependido. Magnânima, a vendedora ofendida perdoou publicamente o ofensor. Ao cabo de uma semana, as autoridades soltaram o rapaz.

Estranhei a duração da prisão. Uma semana por uma molecagem digna de adolescente retardado me pareceu muita coisa. Dizem os jornais que o indivíduo é médico. Dizem também que é “influenciador”, seja lá o que isso significar. Acrescentam que ele faz parte do círculo de devotos de nosso capitão. Quando li isso, entendi.

Faz um ano e meio que Bolsonaro, logo no comecinho de sua desastrada aventura presidencial, declarou ter intenção de transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. De lá pra cá, as barbaridades presidenciais foram tantas que, no Brasil, poucos se lembram disso. A memória acaba se perdendo diante do fluxo contínuo de horrores que emanam do Planalto. Só que, no mundo árabe, ainda está vivíssimo o trauma que o anúncio causou.

No episódio do turista ofensor, as autoridades egípcias hão de ter sido informadas de que o engraçadinho, além de brasileiro, era devoto do capitão. Foi a conta. Cadeia nele! Não fosse o perdão concedido pela vendedora, era bem capaz de ainda estar mofando nas masmorras egípcias.

A desconfiança e a má vontade com que brasileiros são recebidos no exterior é “efeito colateral” da política externa do capitão. Sofremos todos, mas bolsonaristas sofrem ainda mais.

Fico pensando nos seguidores desse “influenciador”. Imagino que tenha um séquito de “influenciados”. Francamente, já não se fazem gurus como antigamente. Pobres seguidores!

Militares nos EUA e no Brasil

Nos EUA, militares seguiram a lei em vez de Trump, e afastaram temor que agora há no Brasil

Pedro Doria (*)

Comandante do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, o general Mark Milley discursou em novembro de 2020 sobre o dever de cada militar em sua visão, após o presidente Donald Trump promover uma série de mudanças no alto escalão do Pentágono. “Não fazemos juramento a um rei”, ele afirmou, “a um tirano ou a qualquer pessoa. Juramos defender a Constituição dos Estados Unidos.”

O cargo de Milley está acima do dos três comandantes de cada uma das Armas e ele é o militar mais graduado do país, imediatamente abaixo do secretário da Defesa, que em geral é civil. Existe um motivo para que, em democracias liberais, militares não possam se manifestar politicamente. Não é uma razão trivial. É, isso sim, uma razão da qual depende a essência da democracia.

As Forças Armadas são, o próprio nome diz, a instituição mais armada de uma nação. Tem tanques, mísseis, caças, toda sorte de armas, e profissionais especialistas em seu manuseio. Elas precisam existir. Se um país é atacado, precisa se defender. A existência de Forças Armadas já é um motivo para evitar guerras.

Mas isso cria, para democracias, um dilema. Armam-se essas instituições e seus integrantes – e o que acontece se elas decidem se envolver em política? O debate público não pode envolver violência. Não pode, portanto, ter a participação de elementos que ameacem de alguma forma, com violência, a defesa de seus ideais. É por isto que qualquer cidadão, quando escolhe a carreira militar, abre mão imediatamente de se manifestar publicamente sobre política.

Porque tem acesso às maiores armas de um país, não pode entrar no debate sobre política. É preciso que o debate público ocorra sem que um lado tenha força militar.

Não é uma peculiaridade do Brasil. Está no alicerce de qualquer democracia. O que o alto-comando do Exército decidiu na quinta-feira, ao não punir o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello por ter participado de uma manifestação com o presidente Jair Bolsonaro, é, portanto, isto: militares já podem se manifestar publicamente em favor do presidente da República. Uma decisão temerária: o Exército acaba de se colocar na política.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor. O artigo foi publicado no jornal O Globo de 4 junho 2021.

Membra

José Horta Manzano

De vez em quando, a gente hesita na hora de especificar o gênero gramatical de certas palavras. Quando a palavra termina em o (ou a), é quase certo que seja masculina (ou feminina). No entanto, se acabar em e, aí pode complicar.

Em certos casos, os falantes oscilam entre os dois gêneros, o que leva a Academia, num rasgo de magnanimidade, a admitir ambos. É o que acontece com as estrangeiras omelete e fondue. De fato, segundo os dicionários, tanto o omelete quanto a omelete são formas legítimas. O mesmo vale para fondue.

Nossa língua não é a única a sofrer esse tipo de engasgo. Em francês, há um caso curioso. Para designar a parteira, usa-se o termo sage-femme, onde sage=sábio(a) e femme=mulher. Portanto, ao pé da letra, mulher-sábia. Acontece que, estes últimos anos, alguns homens têm escolhido essa profissão. Fazem o curso, recebem o diploma e podem exercer. Como chamá-los? Sage-homme? Depois de certa hesitação e muita discussão, ficou sage-femme mesmo. Não deixa de ser peculiar um homem exercer a profissão de mulher-sábia.

O inglês também tem um caso semelhante. As enfermeiras, tradicionalmente mulheres, foram chamadas com uma palavra francesa: nurse. Trata-se da adaptação à fonética inglesa do francês nourrice (=ama de leite). A palavra transmite a ideia de alguém que cuida. Como no caso das parteiras, um dia homens começaram também a escolher essa profissão. Como chamá-los? O inglês optou por male-nurse (male = macho, masculino).

Há um caso curioso também em Portugal. Naquele país, a diarista (empregada doméstica que não mora no emprego) é chamada de mulher-a-dias. A prosperidade dos últimos anos atraiu importante corrente imigratória formada por indivíduos sem formação profissional. Na falta de outra opção, homens também têm procurado emprego de diarista. Como chamá-los? Homens-a-dias? O martelo ainda não foi batido. O futuro dirá que solução foi adotada.

Em português, há palavras que, por mais que a gente não queira, só admitem um gênero. É o caso de ídolo, por exemplo. Nada de “minha ídola”. Falando de uma mulher, fica: “Aquela atriz é meu ídolo”. O mesmo rigor se aplica a membro. Dizer “ela é membra do Conselho Olímpico” dói no ouvido. Diferentemente do que decidiu o estagiário ao redigir a chamada estampada acima, mais vale manter a pose: “Ela é membro do Conselho Olímpico”. Fica melhor.

Observação 1
O VOLP (Vocabulário editado pela Academia Brasileira de Letras) não admite o feminino membra. O Houaiss, no entanto, abona o verbete, especificando que é forma pouco usada. Devia ter dito também que é forma não recomendada. Pelo menos, por enquanto. Mas a língua evolui. Amanhã, talvez.

Observação 2
O recorte de jornal me foi enviado por Aldo Bizzocchi, linguista e atento leitor. Fica aqui meu agradecimento.

Perigo vermelho

José Horta Manzano

Consultei o Regulamento Disciplinar do Exército, código oficializado em agosto de 2002 na forma de decreto-lei. Com 74 artigos, ele é extenso, mas claro e preciso.

Faz alguns dias, por ocasião de uma manifestação de rua, Eduardo Pazuello subiu ao palanque do presidente. Não precisa ser versado nas artes jurídicas pra entender, após rápida vista d’olhos ao regulamento, que o general transgrediu. A disciplina é valor essencial da carreira. Na visão militar, todo desvio de conduta, fosse ele pequeno, exige punição.

Pois não foi o que ocorreu. Depois de tergiversar por dias e dias, o alto-comando do Exército decidiu não decidir. Resolveram que o general não transgrediu e que tudo fica por isso mesmo. Soou estranho. A inabitual condescendência não encontra justificativa no regulamento. Portanto, a razão tem de ser procurada alhures.

Para entender, convém voltar meio século, ao tempo em que a Guerra Fria determinava o destino do planeta e assombrava muita gente. No Brasil, a justificativa que disparou o golpe de 64 e que perpassou todo o período da ditadura militar foi defender o país contra a ameaça comunista. Ao apagar das luzes do regime militar, quando se extinguia a repressão, surgiu o PT como encarnação do perigo vermelho.

Treze anos de governos petistas mostraram que, de comunistas, eles não têm nada – se é que um dia tiveram. Estão mais é pra oportunistas, trambiqueiros e desonestos. No entanto, tudo indica que, nos círculos militares, a mensagem não chegou. Tem-se a impressão de que as autoridades militares estacionaram nos anos 70 e continuam a enxergar o PT como a encarnação do perigo vermelho que um dia ainda há de implantar o comunismo no Brasil. E o Lula, naturalmente, é seu símbolo maior.

A absolvição de Pazuello se inscreve nessa lógica: contra o comunismo, Bolsonaro surge como o melhor antídoto. Daí apoiarem integralmente o capitão e dobrarem-se cegamente a seus caprichos. Há sinceridade na luta dos militares, mas há sobretudo grande ingenuidade. Eles parecem ter dificuldade em entender que o Muro de Berlim caiu em 1989, que o mundo mudou, que o combate hoje é outro.

Até onde darão apoio a Bolsonaro? Será que toda a cúpula militar enxerga o mundo pela mesma luneta? Será que todos concordariam com a quebra das instituições em favor de um capitão arrivista, a fim de proteger o país contra o Lula?

Não tenho a resposta. As sugestões do distinto leitor são bem-vindas. Cartas para a redação, por favor. E bom fim de semana a todos.

Leva eu!

 

 

 

José Horta Manzano

Nos anos 1960, um grupo vocal de nove componentes ficou bastante conhecido. Era Nilo Amaro com seus Cantores de Ébano, nome que fazia referência ao fato de serem todos negros. O som do conjunto era afinado e harmônico. O maior sucesso deles foi a toada Leva eu, sodade.

Cada vez que ouço ou leio a informação de que Fulano vai ao STF ou que afiliados ao Partido Não Sei das Quantas vão ao STF, me lembro da música. A letra era assim:

Ô leva eu, minha sodade,
Que eu também quero ir, minha sodade,
Quando chego na ladeira, tenho medo de cair
Leva eu, leva eu, minha sodade.

Já que eles vão (ao STF), eu também quero ir, ora. Leva eu!

Falando sério, que falta de imaginação, não? Com tanto verbo à disposição, repetem sempre o mesmo. De tanto usar, vai gastar.

Caso um dia o distinto leitor tenha de redigir um artigo informando que, digamos, os deputados “vão” ao STF, aqui ficam algumas sugestões. É pra variar um pouco.

Os deputados apelam para o STF
Os deputados invocam o STF
Os deputados dirigem-se ao STF
Os deputados recorrem ao STF
Os deputados buscam o STF
Os deputados procuram o STF

Se for feriado, que é dia de vestir roupa bonita, há formas que dão o recado com maior elegância.

Os deputados acodem-se do STF
Os deputados valem-se do STF
Os deputados socorrem-se do STF

Procure escapar do verbo ir. Um pouco de variedade não faz mal a ninguém.

Traição

Manchete da Folha, 3 junho 2021

José Horta Manzano

É inacreditável observar trem de subúrbio: por mais cheio que esteja, sempre cabe mais um. É também impressionante observar a corda dos caprichos de Bolsonaro: por mais que ele estique, ela não se rompe e continua, galharda, à espera de mais um puxão. Mas nada é eterno, nem a corda, nem muito menos Bolsonaro. Mais dia, menos dia, um deles vai ter de ceder: ou o presidente pula fora, ou a corda arrebenta. O que acaba dando no mesmo.

Pelas minhas contas (a não ser que nova barbaridade tenha surgido hoje de manhã), o puxão mais recente que ele deu na corda foi ontem. Ao representar o tradicional papel de desaforado, que os devotos tanto apreciam, ele se saiu com a pérola que está aí na manchete da Folha.

Depois de 30 anos pendurado nas tetas da República, o capitão está de tal modo distante da vida real que já não se dá conta de que o Brasil está habitado por um povo – por sinal, aquele que o elegeu. E que esse povo é constituído, em imensa maioria, de famílias pobres, para as quais um real é um real.

Bolsonaro passou três décadas auferindo polpudos vencimentos de parlamentar (sem falar dos extras, ‘rachados’ ou não). Promovido a presidente, faz dois anos e meio que não precisa mais nem fazer conta. À sua passagem, as portas se abrem, os serviçais se inclinam, automóveis e aviões estão sempre à espera para conduzi-lo aonde desejar. Já não tem contas a pagar – luz, água, combustível, restaurante, feira, supermercado, empregados, secretárias, seguranças. Tornou-se o habitante mais poderoso e mais privilegiado do território.

Se, para um indivíduo com a cabeça medianamente no lugar, esse estilo de vida pode dar vertigem, imagine para um mequetrefe como o capitão. É perdição na certa. O infeliz, cuja formação mental e moral já não era lá essas coisas, perdeu todo contacto com a vida real.

Daí a impossibilidade de reconectar-se com o povo a quem jurou servir. Ele se refere a “essa gente” como se se referisse a habitantes do planeta Marte. Não consegue ligar uma coisa à outra, ou seja, aqueles que imploram por uns caraminguás para poderem se alimentar são os mesmos que lhe deram o voto em 2018.

Se trair cônjuge já é feio, trair os milhões de pessoas que se jurou servir é o quê?

Voto auditável

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 maio 2021.

É perceptível a desconfiança que todas as falas de Jair Bolsonaro suscitam. Nós, os que já nos demos conta de que o capitão profere uma bobagem atrás da outra, tendemos a jogar no lixo tudo o que ele disse, está dizendo ou vier a dizer. Nem adianta conferir, que nada presta.

No entanto, talvez não seja essa a melhor atitude. Por mais que um indivíduo tenha ideias embaçadas, sempre pode brotar, de quando em quando, uma proposição mais consistente. Antes de descartar, convém verificar.

Está na ordem do dia a discussão sobre o “voto auditável”, também conhecido como “voto impresso”. Num primeiro momento, cheguei a acreditar que a ideia, mal explicada, fosse de abandonar a urna eletrônica e ressuscitar a velha cédula de papel. Tendo em vista a quantidade de gente fina reclamando que isso seria um retrocesso, vejo que muitos pensaram como eu.

Com o passar das semanas, creio ter entendido a proposta do capitão. O que ele quer é que uma impressora seja acoplada a cada urna eletrônica. Assim que o eleitor apertar o código de seu candidato e mandar um “confirma”, o sistema faz duas coisas: registra eletronicamente o voto e imprime o nome do candidato escolhido. Nessas alturas, o eleitor tem o direito de conferir o papelzinho – só conferir, sem poder tocar o papelito.

Se estiver de acordo, dá sua autorização para a finalização do voto. Se não estiver, aí já não sei o que a lei vai prever. Talvez o cidadão tenha de pôr a mão na cabeça e começar a gritar. Será um problemão porque, sendo o voto secreto, ninguém mais, a não ser o votante, tem direito a entrar na cabine. Enfim, os parlamentares, que são inteligentes, hão de encontrar uma saída. Quando a gente quer, sempre dá um jeito, não é?

Tirando a complicação que eventual enguiço da maquineta possa causar, o sistema não é de todo ruim. À primeira vista, a gente até que poderia se espantar: “Ora, por que é que quase todos estão descartando a novidade? Só porque a ideia vem do capitão?”

Bom, isso é à primeira vista. Após reflexão, vem a segunda vista. E aí as coisas começam a clarear. Já deve fazer algum tempo que Bolsonaro se deu conta de que terá dificuldades nas eleições de 2022. A reeleição, tão almejada, está longe de ser garantida. Com sorte (e muito marketing), ele chegará ao segundo turno. É aí que a porca vai torcer o rabinho.

Seja qual for o adversário, Lula ou um outro, o páreo vai ser dureza. As chances do capitão são magrinhas. Suponhamos que, anunciados os resultados, ele seja declarado perdedor. (Ele já há de ter feito essa suposição.) Como é que fica? Chama o “seu” exército e bota os tanques nas ruas? Convoca os baixas- patentes das PMs para prender governadores e tomar de assalto as metrópoles? Manda um bolsonarinho com um cabo e dois soldados fechar o Supremo? Por menos esclarecido que seja, nosso presidente já deve ter entendido que o caminho não pode ser esse.

Talvez ele tenha se inspirado na novela que foi a apuração das presidenciais americanas de 2000, quando George Bush Jr ganhou no tapetão, por decisão da Suprema Corte, depois de um mês de batalha jurídico-eleitoral. Com nossa urna eletrônica tradicional, é impossível seguir os passos de Bush. Já com cem milhões de papelitos, a coisa fica viável. Basta pedir a milhares de cupinchas que entrem com questionamento junto a todos os tribunais eleitorais do país, estado por estado. Imaginem o estrago que isso provocaria. Juntas de apuração teriam de se reunir às pressas, como nos anos 1950, com todos os riscos que o manuseio das (mini)cédulas comporta. Aí, sim, estará aberto o caminho para fraudes, falcatruas e votos-fantasma, exatamente como nos velhos tempos.

Eis por que o “voto auditável” é uma falsa boa ideia. Uma proposta que, apesar da aparência inocente, abriria as portas para gente mal intencionada tumultuar o processo. Os tempos atuais já estão suficientemente conturbados por si só. Além disso, nosso sistema de votação já deu provas suficientes de funcionar bem. Não vale a pena introduzir uma novidade que, além de não ajudar, pode complicar o processo. Que Bolsonaro procure ganhar a eleição baseado nos próprios méritos e não amparado por parceiros interessados e interesseiros.