Em nome da causa

Demétrio Magnoli (*)

À sombra de Lula, a Petrobrás foi saqueada. A Lava a Jato prestou serviços valiosos à nação, expondo máfias políticas e empresariais dedicadas à pilhagem sistemática de recursos públicos. Mas, agora sabemos, desviou-se pelos atalhos do arbítrio. Não há inimigo mais letal do combate à corrupção do que juízes e procuradores dispostos a flexibilizar a lei em nome da causa.

(*) Demétrio Magnoli é geógrafo. O texto é trecho de artigo publicado na Folha de São Paulo de 15 junho 2019.

Libra

José Horta Manzano

Não é clara a origem da palavra libra. Parte dos etimologistas acredita que descenda de um hipotético proto-itálico *leithra, já então nome de uma unidade de peso. O que se sabe é que o nome passou para as línguas neolatinas.

Em italiano moderno, aparecem as formas libra/libbra (= unidade de peso) e lira, que é o nome da defunta moeda nacional.

Em francês, a forma evoluiu para livre, com dois significados: por um lado, é nome da unidade de peso utilizada nos países anglo-saxônicos; por outro, é a moeda em vigor em diversos países (Reino Unido, Turquia, Líbano, Egito).

Em espanhol, a forma libra é usada com vários significados. Pode ser a unidade monetária em vigor em diversos países; pode também ser o nome de moeda usada antigamente em algumas regiões do país; pode ainda dar nome a uma medida de capacidade equivalente a aproximadamente meio litro. Pode ainda se referir à constelação da Balança.

Em português, a forma é idêntica ao castelhano: libra. Encerra diversos significados: unidade de peso, nome da moeda em vigor no Reino Unido e em mais meia dúzia de países, constelação zodiacal, signo do zodíaco.

Saiu hoje a notícia de que, no rastro de outras criptomoedas que circulam por aí, Facebook está preparando o lançamento de moeda virtual própria. A novidade deve começar a circular daqui a alguns meses, mas o bebê já tem nome: vai-se chamar libra.

Libra: a criptomoeda de Facebook

Fico meio pensativo. A central de inteligência dessa empresa deve concentrar elevado número de gênios. É gente (muito bem) paga, que está lá justamente pra espremer as meninges e gerar ideias fabulosas, daquelas que fazem a empresa dar saltos à frente da concorrência. Cáspite! Como é que podem dar à nova moeda o nome de libra?

O nome já existe e é amplamente utilizado. Se a palavra soa exótica aos ouvidos formatados dos gênios californianos, deveriam, pelo menos, ter consultado gente de ouvidos mais arejados. Não precisa ir muito longe: nos USA, calcula-se que 40 milhões de pessoas sejam de língua castelhana. Além deles, os latino-americanos são centenas de milhões a falar espanhol ou português. Todos (ou quase) são usuários de Facebook. E todos dão o nome de libra à moeda inglesa.

Não acredito que o fato de haver duas moedas importantes com o mesmo nome venha a criar confusão. Também não acredito que alguém deixe de investir na nova ‘moeda-fumaça’ por causa do nome. Mas, francamente, com tanto nome por aí, deram prova de tremenda falta de imaginação.

Hacker

José Horta Manzano

No original, o verbo inglês to hack significa cortar grosseiramente. O nome hacker, portanto, designa o sujeito que passa o dia com a faca na mão a cortar, decepar, romper ou rachar. Dado que cortadores profissionais não são multidão, deduz-se que esse substantivo não há de ter sido muito usado nos séculos de antigamente.

A segunda metade do século 20 assistiu a lento movimento de popularização do computador. Alguém teve a ideia de pescar no vocabulário inglês o termo hacker pra designar o perito em segurança informática. No início, o termo indicava o profissional ‘do bem’, que exercia suas funções sem causar dano a ninguém.

Com o passar dos anos e a crescente democratização dos computadores, o número de especialistas mal-intencionados aumentou. Muito agressivo, este novo tipo de hacker age por curiosidade, por pura má-fé, por consciência política ou por interesse financeiro. Diante de um leque tão amplo de motivações, todos nós estamos ameaçados de hackeamento.

O cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder, não precisa temer que sua privacidade seja invadida por razões políticas. Assim mesmo, é aconselhável proteger-se contra ataques movidos por hackers de má-fé, que nunca se sabe – tem muita gente perturbada por aí.

Já os que navegam nas esferas mais elevadas – políticos, magistrados, milionários, grandes empresários – têm de ser espertos. Por óbvio, estão em permanência no olho do furacão, na mira de muitos interesses. Não há problema em usarem o telefone pra dar bom-dia ou pra marcar encontro. O embaraço começa quando têm de manter conversa confidencial, seja verbal ou escrita.

Pra garantir privacidade total, só há um meio: utilizar telefone criptografado(*), daqueles cuja inviolabilidade é garantida. Assim mesmo, o utilizador, seja ele magistrado, político ou empresário, deveria procurar assistência de um perito que o iniciasse nas artes de bloquear tentativas de invasão.

Pode parecer complicado, mas é indispensável. Mentir, mentimos todos. Bobagens, proferimos todos. Atalhos pouco republicanos, tomamos todos. Pra resumir: ninguém é santo. Portanto, mais vale prevenir antes que nossos podres sejam expostos em praça pública.

Antes de fechar, uma reflexão: todas essas revelações não fazem Lula da Silva inocente. Nem Eduardo Cunha. Nem Sergio Cabral Filho. Nem o resto da turma.

(*) Criptografado não me parece palavra adequada a esse caso. O segundo elemento (grafado) desorienta. Melhor seria dizer “telefone criptado”. Acontece que o verbo criptar ainda não está dicionarizado. Um dia, quem sabe.

Birra
Sei que não tem jeito – hacker, hackear e hackeamento vieram pra ficar. Ainda assim, continuo preferindo pirata, palavra muito mais flexível. Dá pra usar: piratagem, pirateamento, piratear, piratinha (já imaginaram “hackinho”?). E mais: piratesco, piratada, piratíssimo. O resto fica por conta da criatividade de cada um.

Prisão aos 13 anos

José Horta Manzano

Desde sempre, a legislação francesa tem sido vaga e pantanosa no trato de delinquentes juvenis. Um decreto de 1945, ainda em vigor apesar de inúmeras alterações, proíbe que um jovem infrator seja submetido à justiça dos adultos. Menores de idade serão sempre julgados por tribunal especial e, em caso de condenação, não serão encarcerados em companhia de condenados adultos. Serão objeto de medidas de proteção, de educação ou de reforma.

O decreto de 1945 é vago e impreciso, permitindo que o jovem delinquente seja efetivamente preso em estabelecimento dedicado à juventude. Para coibir abusos, a ministra da Justiça acaba de anunciar novo projeto de lei a ser apresentado pelo governo daqui a dois meses.

A ideia principal é fixar uma idade mínima, abaixo da qual o jovem será considerado inimputável. A idade proposta é de 13 anos. Portanto, caso seja aprovada a nova lei, crianças com menos de 13 anos só poderão ser julgadas (e eventualmente condenadas) com autorização especial emitida pelo Juiz de Menores.

Para delinquentes a partir de 13 anos de idade, nada muda: continuarão a ser enquadrados pela justiça de menores. Não sei se os ativistas do ‘politicamente correto’ já baniram a expressão que estou para usar. Seja como for, uso assim mesmo: eles, que são brancos, que se entendam.

Essa historinha francesa merece ser comparada com a situação brasileira. Enquanto nós discutimos o adiantamento da maioridade penal de 18 para 16 anos, eles propõem que se deixe de julgar menores de 13 anos.

No fundo, adiantar ou atrasar a maioridade penal não resolve o problema da criminalidade. No Brasil, o santo remédio está assentado em dois pilares: a instrução dos cidadãos e a diminuição da desigualdade social. Fora disso, toda reforma será apenas cosmética.

A bomba e o Bessias

José Horta Manzano

Outro dia, um jovem desequilibrado vestiu agasalho com capuz, saiu da periferia de Lyon (França), foi até o centro da cidade de bicicleta, depositou discretamente, numa rua frequentada, uma bomba fabricada na cozinha de casa e acionou o detonador a distância. A explosão feriu meia dúzia de pessoas. Dois dias depois, o rapaz estava atrás das grades.

Em 2016, ficou famosa uma misteriosa conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff e o já ex-presidente Lula da Silva. Era aquela em que a doutora prometia ao chefe mandar o ‘Bessias’ com o ‘papel assinado’ – o título de ministro da Casa Civil, que livraria o demiurgo das agruras da Justiça comum que, como todos sabem, foi feita para o populacho e não para criminosos de categoria. Bastou um curto espaço de tempo pra o Brasil inteiro tomar conhecimento do caso. Com todos os detalhes, hilariantes ou tenebrosos.

Estes dias, o Brasil ficou sabendo de alentada troca de mensagens entre integrantes da força-tarefa da Lava a Jato e doutor Moro, hoje ministro da República. Em praça pública, pra quem quiser ver, estão disponíveis as conversas, tim-tim por tim-tim. E por escrito, o que não deixa de ser melhor que o episódio do ‘Bessias’ da doutora.

Qual é o fio condutor que liga essas três historietas? É a abolição – lenta e gradual, mas inexorável – da privacidade. Golpes diários vêm ferindo de morte a vida particular de cada cidadão. Não dá mais pra escapar. Nem o terrorista de Lyon, nem a doutora, nem o Lula, nem o ministro Moro, nem a turma da Lava a Jato se deram conta de que o mundo mudou.

Telefonema e troca de mensagens são pirateados com facilidade desconcertante. Todo deslocamento físico de quem quer que seja é flagrado por câmeras instaladas por toda parte neste mundaréu que Deus fez. Está cada dia mais difícil refugiar-se na discrição. A devassa perpassa todas as atividades humanas.

Assim, de cabeça, só me ocorre um jeito de comunicar em total discrição: é a velha carta. Para nossos padrões, correspondência epistolar – ô palavra chique! – é um bocado lenta. Mas não dá pra ter tudo. Tivesse a doutora mandado uma carta ao Lula, era bem possível que ele tivesse escapado à Justiça do povão. Tivessem o MP e doutor Moro trocado epístolas, nenhum pirata teria ficado sabendo. Nem mesmo o Capitão Gancho.

Quanto ao perturbado que fabricou a bomba, ah, pra esse, carta não resolve. Ainda bem.

Cumprindo promessas

Ascânio Seleme (*)

Bolsonaro mandou ao Congresso projeto liberando compra e uso de armas de fogo de potência e em número nunca imaginados. Também encaminhou proposta reduzindo multas de trânsito, inclusive para quem circular com crianças soltas dentro dos carros.

Por portaria, já liberou 197 agrotóxicos, mais de um por dia. O governo diz que o presidente está cumprindo promessas de campanha. Não me lembro de Bolsonaro ter prometido tomar medidas que garantidamente aumentassem o número de brasileiros mortos a cada ano.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 9 junho 2019.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Falam de nós – 28

José Horta Manzano

Neymar, jogador de futebol, é figurinha conhecida no mundo todo. Mais que os demais países, o Brasil e a França o consideram como alguém de casa. O Brasil, naturalmente, porque o moço nasceu e cresceu aqui. E a França, porque ele está contratado pelo time de Paris – que, de parisiense, tem cada vez menos, dado que é propriedade pessoal de um príncipe do Catar; mas isso não vem ao caso.

No Brasil e na França, as vicissitudes do turbulento rapaz têm ocupado lugar de destaque na mídia. O esbanjamento típico de novo-rico, como o deslumbrante solar em que ele vive nos arredores de Paris, encantam alguns, mas deixam muita gente irritada. A agressividade que o jovem demonstrou outro dia contra um torcedor não ajudou a melhorar sua imagem perante a opinião pública.

Essa história um tanto indecorosa do desentendimento entre ele e a moça mandada vir do Brasil para fins de namoro rápido anda dando pano pra mangas. Na minha visão pessoal, esse assunto é do foro íntimo dos dois amantes e deveria ser resolvido entre eles. Mas cada um dá às próprias mazelas o tratamento que lhe parece mais adequado.

by Moisés de Macedo Coutinho (1972-), desenhista paulista

Meio boquiaberta, a imprensa francesa tomou conhecimento de que, no caso do pretenso estupro, o presidente do Brasil apoia Neymar. Pátria dos direitos humanos, a França faz questão de repetir, a quem interessar possa, que respeita a presunção de inocência. Ninguém será considerado culpado antes de ser julgado e condenado. Daí o espanto geral ao ver que nosso mandatário-mor não só respalda o acusado, como também vai de visita ao hospital onde ele está internado e ainda tira selfie. O presidente escolheu seu campo antes mesmo de qualquer decisão da Justiça. No entender dele, seja o que tiver acontecido entre os pombinhos, a culpada é a moça. É uma aposta arriscada.

Pra quem não sabe direito o que caracteriza um político populista, aí está mais um elemento de informação. Repetindo o que Lula da Silva fez durante sua longa gestão, doutor Bolsonaro fatura em cima do futebolista brasileiro mais em voga. Até aí nada demais. O que ele não devia fazer é dar apoio ao acusado de um crime que ainda está em fase de investigação. Suponhamos que Neymar seja considerado culpado e acabe sendo condenado – como é que fica? Doutor Bolsonaro vai continuar apadrinhando um criminoso? A imprudência periga custar-lhe caro.

Eco na mídia francesa:
BFM – Canal de televisão
La Croix – Jornal impresso e online
Orange – Portal esportivo

Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.

Desembarques da Normandia – 75 anos

José Horta Manzano

A história da Europa está salpicada de guerras. Da Idade Média até o fim do século 19, foram centenas de conflitos, uns mais longos, outros menos. Houve a interminável Guerra de Cem Anos, que durou de 1337 a 1453 e envolveu França, Inglaterra e mais uma dozena de principados e ducados. Outras guerras foram mais curtas, como a da Crimeia, travada nos anos 1850 entre a Rússia e uma coalizão de Estados europeus, que durou três anos.

Todos esses conflitos deixaram marcas. Modificaram fronteiras entre Estados. Derrubaram impérios e provocaram o surgimento de outros. Deixaram rastro de milhares e milhares de mortos. Foram determinantes na lenta fermentação que desembocou na Europa como a conhecemos. No entanto, apesar da importância histórica, a memória de todos esses conflitos sobrevive apenas em museus e em livros de história. Não se fazem cerimônias comemorativas.

Com os conflitos do século 20 – principalmente com as duas guerras mundiais – o panorama é outro. São constantemente lembrados pela grande mídia. Dirigentes mundiais se reúnem para comemorar esta ou aquela data. Estes dias, por exemplo, celebra-se o 75° aniversário do maciço desembarque de tropas aliadas nas praias da Normandia (França), operação organizada pra dar cabo da dominação do continente pela Alemanha nazista.

Comemoração do 75° aniversário dos Desembarques da Normandia
Entre outros, distinguem-se: Emmanuel Macron, Theresa May, o príncipe Charles, a Rainha Elizabeth, Donald Trump, Angela Merkel, o primeiro-ministro da Holanda, o primeiro-ministro do Canadá.

Hoje e amanhã, na Inglaterra e na França, estarão reunidos os chefes de Estado dos países que combatiam juntos em 1944. Até Frau Merkel, cujo país estava do outro lado da linha de combate, foi convidada – e compareceu. Só faltou Vladimir Putin, presidente da Rússia, país que era importante aliado à época. Segundo a imprensa britânica, ele não foi convidado. Se for verdade, não me parece justo. Afinal, a solenidade não foi convocada pra homenagear dirigentes atuais, mas pra lembrar o esforço que cada país despendeu faz três quartos de século. Não vale permitir que querelas atuais ofusquem heroísmos passados.

Por que será que as duas guerras mundiais, as do século 20, são lembradas e comemoradas todos os anos, enquanto conflitos mais antigos não saem do museu ou das bibliotecas? Sem dúvida, elas foram infinitamente mais destruidoras que as anteriores, mas não é só esse o motivo. Outros conflitos regionais do século 20, por exemplo, são também evocados com frequência: Guerra Civil Espanhola (1936-1939), Guerras da Iugoslávia (anos 1990), Revolução Húngara (1956).

A razão maior é a existência de imagens. Até meados do século 20, vivíamos num mundo de letras e de sons. O advento da televisão e da internet nos trouxe a imagem, componente hoje indispensável a toda informação. Quando se evocam os reis medievais, só temos alguma gravura colorida que nos mostra vagamente o rosto deles. Para os hábitos atuais, não basta. Só acontecimentos com imagem interessam. E temos fotos e filmes, às vezes abundantes, de todos os conflitos do século 20.

Nossos longínquos descendentes do século 25 terão de nós uma ideia melhor do que a que temos dos personagens medievais. Não estaremos aqui pra conferir, mas é um consolo ter a ilusão de que não seremos esquecidos.

Ministro evangélico

José Horta Manzano

O comportamento de doutor Bolsonaro e dos bolsonarinhos tem marcas peculiares. Uma delas é a intempestividade – qualidade daquilo que ocorre fora do momento ideal. Timing errado é como se deve dizer em portinglês(1). Outra característica dos atuais gestores do país é o costume de dirigir a fala ao auditório presente, esquecendo-se de que tudo o que dizem em público é gravado, filmado e reproduzido para plateia nacional. O Lula costumava fazer isso, só que, naquela época, internet e redes sociais estavam engatinhando. Hoje mudou. O que se diz a um público alegre e receptivo acaba extravasando e chegando aos ouvidos de uma multidão mal-humorada que rechaça aquela ideia. Aí, danou.

Na sexta-feira 31 de maio, o presidente esteve de visita a um templo da associação religiosa Assembleia de Deus, um dos numerosos grupos neopentecostais surgidos nos últimos vinte anos. Sentindo boa receptividade na fervorosa audiência, fincou pé e soltou o verbo. Disse estar convencido de que «está na hora de termos um ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal». Abafou. Foi standing ovacionadover (1) durante quase um minuto, duração que o aplausômetro do envelhecido plantel atual de artistas brasileiros já não costuma registrar.

É, mas uma coisa é falar para plateia homogênea e outra é falar para o conjunto do eleitorado. Tudo o que o presidente diz em público, ainda que falando para círculo restrito, acaba ecoando no país inteiro. E a fala se alastra em questão de minutos. Levando em conta esse parâmetro, deduz-se que doutor Bolsonaro não foi muito esperto.

De fato, apesar do crescimento exponencial que vêm conhecendo estes últimos anos, as denominações neopentecostais (ditas ‘evangélicas’) englobam, grosso modo, um terço dos brasileiros. Por exclusão, conclui-se que dois em cada três conterrâneos não são adeptos de nenhum desses movimentos. É um contingente enorme.

Ao preconizar que o próximo ministro a ser nomeado para o STF seja ‘evangélico’, doutor Bolsonaro agrada um terço dos eleitores enquanto irrita os outros dois terços. Não me parece um bom cálculo. O marketing presidencial dá prova de continuar enguiçado.

E tem mais. A Constituição dá ao presidente total liberdade na hora de escolher ministro para o STF. Trocado em miúdos: quem decide é ele mesmo, sem precisar dar satisfações a ninguém. Portanto, além de imprudente, a fala presidencial é intempestiva – ocorre na hora errada. Irrita quem não devia, na hora em que não devia, sem necessidade real. É ruído desnecessário.

(1) Portinglês (ou portuglês, ou portenglish, ou portunglês) é uma língua mista – um crioulo, como dizem os linguistas – formado do encontro de uma língua estrangeira (inglês) com a língua nativa (português). A sintaxe segue o modelo da língua nativa, enquanto o léxico é fortemente alterado pela língua importada. O crioulo fica impregnado de termos ingleses tratados conforme a sintaxe portuguesa.

A parte importada é frequentemente truncada e sistematicamente pronunciada com sonoridade distante do original. Por exemplo, a palavra importada “doping” é pronunciada “dópinh”, quando o original é “dôuping”. Para o falante do crioulo, bem pronunciada ou não, a importada soa mais chique que a reles dopagem nacional – palavra, aliás, dicionarizada.

The Pixuleco

José Horta Manzano

Mr. Donald Trump está sendo esperado em Londres esta segunda-feira. A metade da população inglesa que não quer o Brexit e que não aprecia o jeitão ‘rolo compressor’ do visitante preparou-lhe uma recepção colorida. Inspirados no boneco que reproduz o Lula, inventaram The Pixuleco – a versão britânica do original brasileiro. É um very big balão inflável representando o presidente americano de fralda e topete. Inglês tem senso de humor.

Perfeitamente dentro de seu estilo tosco e brutal, mister Trump tuitou hoje de manhã que gostaria que Boris Johnson, político que já foi prefeito de Londres, assumisse o lugar de primeiro-ministro, em substituição à demissionária Theresa May. O presidente americano é useiro e vezeiro nesse tipo de intromissão em assuntos de outros países, atitude reprovada pela ética internacional.

“The Pixuleco”, o boneco inglês prontinho para homenagear Donald Trump.

O clã que nos dirige já agiu assim. O pai fez isso recentemente ao exprimir publicamente o desejo de que doña Cristina Kirchner não seja eleita nem para a presidência nem para a vice-presidência da Argentina. Quanto ao filho, aquele que funciona como ministro de Relações Exteriores bis, já apareceu em público, nos EUA, com o boné ‘Trump 2020’ enfiado no cocuruto.

Com isso, igualam-se a Trump em prepotência e descortesia. Só que tem um detalhe importantíssimo. Trump dirige o país mais poderoso do planeta, diante do qual os demais dão um reverente passo atrás. As patadas de mister president podem criar antipatia mas não prejudicam os negócios do Estado. Já os Bolsonaros não têm o mesmo poder. Se os EUA têm músculos pra aguentar a volta do bumerangue, o Brasil não tem.

Mas celebremos, irmãos! Para orgulho da raça, saibam todos que já estamos exportando gigantescos bonecos infláveis, uma genuína criação do engenho nacional. Bom mesmo seria se conseguíssemos exportar a corrupção que deu origem ao boneco. Que fosse inteirinha mandada para além-mar e não voltasse mais.

Mãe analfabeta

José Horta Manzano

Tirei esta frase do editorial do Estadão deste domingo:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens negros, residentes em áreas rurais do Nordeste e que a mãe é analfabeta, apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Muitos escribas, seja pra dar prova de maior proximidade com o leitor, seja por outra razão qualquer, reproduzem na escrita a linguagem oral. É um recurso de estilo muito útil, que este blogueiro usa com frequência.

Como sabemos, o português brasileiro apresenta crescente afastamento entre a escrita e a oralidade. Na verdade, ninguém aprende em casa o português dito “certo” ou “correto”. A língua materna de todos nós não tem nome, mas qualquer um concordará: ela é diferente da língua escrita. Esse não é um fenômeno universal. Em países como a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Suécia e tantos outros, a língua falada coincide com a escrita. Se diferenças há, elas se limitam a uma ou outra expressão familiar ou coloquial.

O respeito e o receio que nos inspira a língua culta vem do fato de nos sentirmos inseguros ao lidar com ela. Seria exagero classificar o português culto como língua estrangeira, mas a forma erudita não nos é nada familiar. Pra manejá-la, temos de calçar luvas, usar pinças e trabalhar com muito cuidado.

Em outras terras, o único problema de quem escreve é a ortografia, dificuldade que qualquer corretor automático elimina. Fora isso, quem escreve pode soltar as amarras. Basta escrever como está acostumado a falar, que vai dar certo. Uma delícia que nós outros não conhecemos.

Em contexto informal, o uso de fórmulas coloquiais na escrita é permitido. No editorial de um jornal de referência, cai mal. Pois foi o que fez o Estadão hoje, na frase que destaquei no alto desta página. Convido o distinto leitor a relê-la. Todo o mundo entende, é verdade, mas não é assim que se deve escrever em português culto. A frase é torturada. Pega mal, principalmente inserida em editorial que se alarma com os índices de evasão escolar.

Na linguagem oral, faz muito tempo que o pronome “cujo” desapareceu. Mesmo na escrita, só aparece raramente. Quem escreve, sempre dá um jeito de torcer a frase pra evitar usá-lo. Tivesse sido usado na frase do Estadão, teria aliviado a tortura – que, todos sabem, é proibida pela Constituição!

A frase do jornal reproduziu o formato popular que substituiu o “cujo” pelo “que”. É o que ocorre em frases como:

Aquela moça que o pai morreu (= moça cujo pai morreu)

O livro que a capa estragou (livro cuja capa estragou)

O carro que a porta caiu (carro cuja porta caiu)

No artigo do jornal, mesmo sem o “cujo” teria sido possível evitar essa reprodução da fala popular. Poderiam ter escrito:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens nordestinos negros, com mãe analfabeta e residentes em áreas rurais, (vai-se constatar que) apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Há outras possibilidades de revirar a frase sem escorregar da forma culta para a coloquial. É sempre a mesma história: pra quem sabe, é fácil; pra quem não sabe, é mistério insondável.

Trompe-l’œil ‒ 6

José Horta Manzano

O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.

Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.

Quando se passeiam os olhos pela imagem, as pétalas parecem girar embora estejam perfeitamente estáticas.
Clique para ver melhor

Ao passear os olhos pela imagem, tem-se a impressão de que os corações pulsam.
Clique para ver melhor

O quadrado no centro da folha impressa parece ter relevo e estar destacado do fundo. É ilusão.
Clique para ver melhor

Esta é excelente, basta ampliar a imagem. As rodas parecem girar. Impressionante.
Clique para ver melhor

 

Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana o olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.

Macron e a casca de banana

José Horta Manzano

A notícia passou meio despercebida na imprensa francesa, neste momento mais preocupada com as consequências das eleições europeias, com o interminável folhetim do Brexit e com os irritantes protestos dos derradeiros Coletes Amarelos. Vamos rebobinar o filme.

Dia 21 de abril, Volodimir Zelenski, jovem ator ucraniano de 41 anos, foi eleito presidente de seu país. Exemplo de ficção que se torna realidade, o moço tinha encarnado, numa minissérie televisiva, um professor de História que se tornava, por acaso, presidente do país. No auge da popularidade mas sem nenhuma experiência política, candidatou-se à Presidência assim como quem não quer nada. Com estonteantes 73% dos votos, venceu, no segundo turno, o presidente atual, que disputava a reeleição. Foi bem sucedido num desafio que nem nosso Tiririca ousou enfrentar!

Como acontece nessas horas, todos os dirigentes do planeta sentiram a necessidade de dar parabéns ao recém-eleito e desejar-lhe boa sorte. Dois humoristas russos, especialistas em dar trotes e pregar peças a personagens importantes, resolveram preparar uma pegadinha pra Monsieur Macron, presidente da França. Valendo-se do caminho mais simples, ligaram para o palácio presidencial francês e deixaram o número de celular do novo presidente. O número, naturalmente, era do celular deles.

Tranquilizados pela voz com sotaque carregado, os responsáveis pelo cerimonial da Presidência francesa não desconfiaram. Transmitiram o número a Emmanuel Macron. Pouco depois, o francês liga para o número que lhe haviam dado e, convencido de que estava a conversar com o novo presidente ucraniano, sente-se à vontade e solta as amarras.

 Do outro lado, a suposta voz do presidente recém-eleito provoca:

«– Veja, Monsieur Macron, com meus 73%, eu me sinto como meu vizinho Vladimir Putin, o presidente da Rússia.»

E Macron, que não perde a ocasião pra responder na lata:

«– É, mas eu tenho a impressão de que o sistema na Ucrânia ainda não está tão bem organizado como na Rússia. Você ainda não botou todos os seus oponentes na cadeia.»

Ai, ai, ai… Os humoristas russos, que tinham gravado tudo, puseram o áudio à disposição em sua conta no Twitter. Estavam à mesa todos os ingredientes de um sério incidente diplomático. Alguns poucos comentaristas franceses se mostraram surpresos pelo fato de o Palácio do Eliseu ter se deixado tapear com tanta facilidade. E também pela imprudência de Macron ao pronunciar palavras sarcásticas contra o presidente da Rússia, país importante e amigo.

Passado um mês, uma constrangida Presidência francesa segue firme na recusa de confirmar o fato. Tampouco emitiu desmentido, o que já é meia confissão. Por seu lado, a embaixada da Rússia em Paris informou não ter intenção de tecer comentários sobre o ocorrido.

Como se vê, não é só nosso presidente linguarudo que se mete em palpos de aranha ao dizer o que não deve a quem não convém. A diferença é que, enquanto outros escorregam na casca de banana que alguém lhes colocou no caminho, doutor Bolsonaro atravessa a rua pra escorregar na casca que avistou na outra calçada.