Brincando de candidato

José Horta Manzano

Na hora de votar, paulistas e paulistanos são gente pouco preconceituosa. Não costumam ser mesquinhos. A capital já elegeu prefeitos cariocas (Faria Lima, Celso Pitta), uma prefeita vinda da Paraíba (Luíza Erundina), um mato-grossense (Jânio Quadros). Este último, aliás, antes de chegar à Presidência da República, foi governador dos paulistas durante quatro anos, eleito pelo voto direto. Lembremos que Fernando Henrique, o carioca que viria mais tarde a presidir o Brasil, também foi senador por São Paulo durante oito anos.

Paulistas não gostam é de ver gente que só conhece o estado de ouvir falar se apresentando como “profundo conhecedor” da terra dos bandeirantes. Vez por outra, aparece algum político que, não se sabe por que razão, se recusa a subir um degrau após o outro e prefere ser lançado de paraquedas pra pousar logo no topo da escala.

Não faz muito tempo, o paranaense Sergio Moro arrumou um endereço fantasma e, numa burla às regras, tentou inscrever-se como candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. Foi apanhado e caiu do cavalo. Conhecia pouco ou quase nada do estado.

Temos agora o caso do doutor Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo ao governo paulista. Nascido do Rio e tendo passado boa parte de sua vida em Brasília, ele tem tanta intimidade com o estado de SP quanto você, distinto leitor, tem com a Mongólia. Pra quem nunca ouviu falar desse senhor, foi diretor de autarquia nomeado no governo Dilma, em seguida ministro nomeado por Bolsonaro. Costumava aparecer na garupa do presidente em alguns passeios de moto à la Mussolini.

A jornalista Bela Megale relata, em artigo d’O Globo, que senhor Freitas caminhava outro dia pelas ruas de Osasco (grande SP), quando um popular lhe perguntou se conhecia o estado. “Conheço mais que paulista” – foi a resposta, petulante e grosseira, ao melhor estilo bolsonarista.

O artigo nos informa também que, antes de bater o martelo, senhor Freitas relutava em aceitar a candidatura à governança de São Paulo, como lhe exigia o capitão. Em vez de candidatar-se a governador por um estado que não conhece, teria preferido representar o estado de Goiás no Congresso, o que lhe permitiria levar vida tranquila e continuar residindo em Brasília. No final, a pressão presidencial foi tamanha que, bom devoto, cedeu.

Agora chegamos ao ponto. Como eu dizia na entrada, não é questão de mesquinharia nem de rejeição ao forasteiro. O que os paulistas teriam preferido era um candidato com raízes no estado, pouco importando seu lugar de nascimento. Afinal, os 46 milhões de habitantes de São Paulo equivalem à inteira população da Espanha ou da Argentina. Se o estado fosse uma nação independente, seu PIB a situaria entre as 20 maiores economias do planeta.

Diga-me agora se é normal que a governança de uma massa de gente e de bens de tal magnitude seja entregue nas mãos de um indivíduo que, além de mal conhecer o estado, carece totalmente de experiência política? E que, ainda por cima, se candidatou de má vontade, só porque Seu Mestre mandou.

Governar o estado mais importante da União não é função para indivíduos desmotivados, que lá estão só porque o chefe insistiu.

Essa clique que se aglutina em torno da Presidência está tratando cargos políticos como bibelôs, que a gente escolhe na prateleira pensando em combinar com a cor da cortina da sala, manda embrulhar e leva embora. Os brasileiros merecem maior consideração.

11 de agosto

Ascânio Seleme (*)

Não adianta Bolsonaro e bolsonaristas reagirem com deboche ou ódio, o 11 de agosto entrou para a História como data nacional de repúdio à ditadura. Será comemorado daqui para sempre. Será lembrado como o dia do basta, o dia em que a sociedade civil tomou a si a defesa da democracia como bem maior da nação.

Os brasileiros fizeram o que seus representantes no Congresso não fazem por interesses privados e escusos: disseram não ao golpe e ao golpista.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Cochilou

Chamada da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O autor da chamada cochilou. O escritor Salman Rushdie não é iraniano. Iraniano era o aiatolá Khomeini, que, em 1989, lançou sentença de morte sobre sua cabeça. A chamada do jornal confundiu sujeito e objeto.

Sir Ahmed Salman Rushdie nasceu em 1947 na cidade indiana de Bombaim, numa época em que a Índia integrava o Império Britânico. Cresceu na Índia e, jovem ainda, estabeleceu-se na Inglaterra.

Desde o ano 2000, vive nos EUA, país do qual adquiriu a nacionalidade em 2016. Tem, assim, as duas cidadanias: britânica e americana.

Passeata virtual

Brasileiros mobilizados para salvar a democracia
Le Temps, diário suíço de referência

José Horta Manzano

Não é só no Brasil que o capitão virou motivo de piada. Também na Europa, a menção de seu nome vem geralmente em tom de caçoada. Nosso presidente costuma ser visto como uma espécie de palhaço, mais ou menos na linha de outros dirigentes cômicos – como o líder da Coreia do Norte, por exemplo.

A Carta aos Brasileiros – verdadeira passeata virtual que reuniu mais de um milhão de participantes – foi noticiada com euforia por toda a mídia europeia. De redes sociais, não sei, mas rádios, tevês e jornais ecoaram o grito retumbante de um povo heroico.

É um alívio constatar que ainda há brasileiros pensantes e que importante naco da população parece ter acordado de um coma profundo. Vamos ver se dura.

A norma culta do futuro

Aldo L. Bizzocchi (*)

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

République bananière

 

José Horta Manzano

“Mas… de onde saiu essa gente?” – é a pergunta que se faz desde que o capitão vestiu a faixa. De onde vem esse povo estranho que cerca o presidente, gente desprovida de inteligência, de bom senso e de lógica, sempre com quatro pedras no bolso e uma faca entre os dentes? Onde se escondiam antes? Como é que passaram despercebidos até chegar ao entorno de Seu Mestre?

Todos os jornais da França, sem exceção, reproduziram a inacreditável fala de Sua Excelência Guedes, ministro-chave desta República, que ousou apontar o dedo para a França e declarar que ela estava “ficando irrelevante para nós”.

O trecho do discurso em que o ministro chantageia o tradicional parceiro do Brasil e o ameaça de “irrelevância”caso não cessem as críticas sobre o desmatamento da Amazônia foi estampado em todos os jornais. Até o palavrão (coisa fina, Guedes!) sujou o papel. Fico aqui imaginando a incredulidade que marcou a expressão dos leitores, gente pouco habituada ao baixo nível da fala de Guedes. Talvez o ministro nem desconfie, mas francês é um povo que lê.

Falando nisso, muitos dados importantes sobre o comércio exterior brasileiro devem estar escapando a nosso bizarro ministro. Levantamento do Estadão mostra que, segundo dados fornecidos pela embaixada da França em Brasília, há 1.042 empresas francesas instaladas em nosso país, que dão emprego a 471.784 funcionários e atingem um volume anual de negócios de 66,1 bilhões de euros (R$ 350 bi).

No ano de 2020, com um volume de 32,3 bilhões de dólares (R$ 165.3 bi) a França foi o terceiro investidor estrangeiro no Brasil, atrás apenas dos EUA e da Espanha. Agora vem o dado mais interessante: enquanto a França ocupa o 11° lugar entre todos os países que vendem para o Brasil, o Brasil ocupa o 36° lugar entre todos os países que vendem para a França.

Tenho o dever de contradizer o ministro e informá-lo de que, no ponto em que estamos, é o Brasil que se está tornando irrelevante para a França, não o contrário. Sem as importações do Brasil, a França poderia continuar funcionando sem sobressaltos. Já sem as importações da França, o Brasil teria problemas.

É verdade que Paulo Guedes é reincidente. Já reclamou do horror que seria ter de viajar de avião ao lado de uma empregada doméstica; já deixou claro que lugar de filho de porteiro não é na faculdade; já insultou a primeira-dama da França ao dizer (em discurso público) que ela era feia mesmo. Tudo isso é verdade.

É verdade que ele é tolo, arrogante, boca-suja, inconsequente, imbuído da própria importância. Só que tem uma coisa: se seu chefe fosse um outro presidente que não Bolsonaro, sua soberba e essa sujeira que lhe sai pela boca ficariam quietinhas, guardadas no fundo de uma gaveta e trancadas a sete chaves. Se abre as asinhas e se comporta como se discursasse para bêbados num botequim, é porque se integrou no time presidencial e absorveu os princípios éticos e morais em vigor no Planalto.

Senhor Guedes acaba de dar excelente contribuição para cristalizar, aos olhos europeus, a imagem do Brasil como legítima república de bananas.

No Brasil, sua fala já saiu das manchetes e faz parte do passado; na França, há de marcar nossa imagem por décadas.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

Como é que é? Vosmicê ainda não assinou? Corra, que amanhã já é o dia da leitura oficial da carta. Não deixe passar a oportunidade de fazer parte oficial da História do Brasil.


Neste 10 de agosto,
o total de adesões está batendo nos

850.000  cidadãos!


 

Não sabe onde assinar? É por aqui:

https://estadodedireitosempre.com

Sabonete Lever e… democracia

José Horta Manzano

Quando eu era criança (faz muito tempo), muito anúncio de sabonete aparecia em rádio, jornal e revista. As marcas mais conhecidas – algumas hoje desaparecidas – eram: Palmolive, Eucalol, Gessy, Phebo, Lifebuoy. E também o conhecido Lever, o “sabonete das estrelas”, que um dia passou a chamar-se Lux.

Esse Lever se gabava de ser usado por 9 entre 10 estrelas do cinema. (Que se saiba, o fabricante nunca publicou pesquisa feita por instituto sério para embasar a afirmação.) Já este blogueiro, que nunca teve vocação pra acreditar em tudo o que se diz, ficava a matutar: “Mas qual será a marca usada pela estrela que, numa amostragem de 10, recusa o Lever?”.

Estes dias, tive notícia de uma pesquisa levada a cabo pela Fundação Tide Setúbal. Mais de 400 empresários brasileiros foram entrevistados e responderam a uma lista de questões. Note-se que eles provêm de empresas grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Representam toda a paleta: comércio, indústria e serviços. Segue um apanhado da sondagem.

Democracia
Forte maioria deles (82%) concorda que a democracia, ainda que imperfeita, é preferível a qualquer outro sistema de governo.

Tortura
Uma pergunta era concernente à tortura: 82,5% dos entrevistados repeliu o emprego de tal violência, independentemente das circunstâncias.

Autocracia
Indagados se achavam que, em situação de crise, seria justificável que o presidente da República fechasse o Congresso e governasse sozinho, 55% repudiaram vigorosamente essa solução.


Agora vamos voltar à brecha aberta pelo velho sabonete Lever. Como em toda sondagem, uns concordam com isto, outros discordam daquilo. Voltemos à pesquisa em pauta e analisemos o outro lado da medalha.


Democracia
Considerável fatia dos entrevistados (18%) prefere um sistema de governo diferente da democracia. A pesquisa não perguntou qual era esse regime, mas é lícito supor que 18% dos empresários dão preferência a um regime ditatorial. Não está longe de 1 em cada 5 empresários.

Tortura
De novo, quase 1 em cada 5 empresários (17,5% dos pesquisados) não vê nenhum inconveniente em empregar a tortura em determinadas situações. A pesquisa não perguntou quem teria o poder de utilizar esse método brutal. O carcereiro na cadeia pra corrigir um preso indisciplinado? O policial na delegacia pra extorquir uma confissão? O dirigente de empresa dentro da fábrica pra dar uma lição nos representantes sindicais? O pai de família no quartinho dos fundos pra corrigir o filho rebelde ou a empregada respondona?

Autocracia
Esta parece pior que as demais. Dos empresários entrevistados, 45% acham normal que, em situação de crise, o Congresso seja extinto e que plenos poderes sejam dados ao presidente da República. Não ficou claro o significado de “situação de crise” mas, seja como for, o Congresso abriga os representantes do povo. Fechar essa instituição equivale a curto-circuitar a população e dar plenos poderes à panelinha que constitui o Executivo. Quase metade dos empresários não vê nenhum mal nisso.


Se a pesquisa tiver sido bem conduzida – e tudo indica que foi – a paisagem do empresariado nacional é aterradora. Porção significativa de grandes e pequenos empresários encara a tortura, a autocracia e a ausência de democracia como situações aceitáveis, pra não dizer desejáveis.


A conclusão a que se chega é que o país vai mal mesmo. Pior do que se imaginava. A disposição do empresariado diante dessas três questões concretas é estonteante. Se a pesquisa tivesse sido feita num reduto de devotos do capitão, não se esperaria outro resultado. Agora, de uma amostragem variada de empresários, é de dar vertigem.

Com um empresariado assim, falta muito pouco pra batermos no fundo do poço.

Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.

O paladar

José Horta Manzano

Pequim está fortemente empenhado em demonstrar sua tese de que Taiwan, a “província rebelde”, é parte histórica da grande nação chinesa e que um dia há de ser reintegrada à pátria-mãe. Para reforçar a posição de seu governo, a senhora Hua Chunying, porta-voz do Ministério Chinês de Relações Exteriores, tuitou:

“Em Taipé (capital de Taiwan), há 38 restaurantes que vendem ravioli de Xantum (província chinesa) e 68 que vendem talharim de Xanxi (outra província chinesa). O paladar não mente! O filho desgarrado há tantos anos voltará à pátria.”

Por mais que o governo de Pequim gostasse, não é possível controlar integralmente a internet. O Tweeter, por exemplo, escapa à censura. Os internautas aproveitaram e comentaram com ironia:

“Quer dizer então que o monte de McDonald’s que temos em Pequim informam que somos todos historicamente americanos?”

Homem de moral

Lagoinha, Belo Horizonte, 7 ago 2022

José Horta Manzano

Em 1962, pela voz do cantor Noite Ilustrada, foi lançado um dos sambas mais conhecidos do grande Paulo Vanzolini. O título era Volta por cima. A música foi responsável pela difusão da expressão hoje dicionarizada ‘dar a volta por cima’.

A certa altura, a letra dizia:

O homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher lhe venha dar a mão

O samba falava de um homem de moral.

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

É tão simples!

Carlos Brickmann (*)

Tem gente discutindo política externa Sul-Sul, tem gente discutindo se urnas eletrônicas são confiáveis ou não, tem gente fazendo coisas que nos velhos tempos seriam chamadas de compra de votos, tem casal que vive sob o mesmo teto em que a residência do marido é contestada e a da esposa é aceita, tem gente que não consegue viver sem um tacão de coturno nos calcanhares.

Há candidatos que só querem saber se alguma coisa dá voto. E a resposta é tão simples! Um garoto de onze anos de idade telefonou para a Polícia, na região metropolitana de Belo Horizonte, pedindo comida. “Estamos com fome!”

Talvez nem seja necessário alimentar esse nosso povo por muito tempo: basta criar condições para que os pais possam trabalhar e ganhar um salário suficiente para oferecer três refeições diárias à família. Não é preciso importar armas caríssimas e perigosas: bastam talheres à mesa.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Patrulha julga atos do passado com régua moral de hoje

Eduardo Affonso (*)

O telescópio James Webb apresentou um grave defeito antes mesmo de ser lançado ao espaço. Não nas lentes e espelhos (que funcionaram magnificamente), mas no nome. O homenageado é um ex-diretor da Nasa, nascido em 1906, acusado de perseguição à comunidade LGBTQIAP+ nas décadas de 1950 e 1960.

Sim, não basta não ser homofóbico hoje, quando a homofobia é entendida como violação de um direito humano fundamental. É preciso não o ter sido no passado, sob a vigência de outra régua moral. Algo como receber multa retroativa por haver circulado numa rua cuja mão foi invertida. Você não estava na contramão em 1960, mas isso é irrelevante – perde pontos na carteira assim mesmo.

A Nasa ignorou os protestos do movimento #RenameJWST – ou abriria um flanco para o rebatismo de boa parte de seu equipamento. Antibelicistas poderiam exigir um novo nome na fuselagem do Hubble. Afinal, graças aos estudos do astrônomo Edwin P. Hubble na divisão de balística do Exército americano, bombas e foguetes tornaram-se mais eficazes – vale dizer, mais mortíferos. Kepler (1571-1630) tampouco seria poupado: filho de pai mercenário e mãe curandeira, não se dedicou apenas à matemática e à astronomia, mas também à astrologia – uma crendice, segundo a ciência moderna. Sem falar na indignação de ateus militantes e cristãos fundamentalistas diante de artefatos que evocam divindades como Júpiter, Saturno e Apolo.

Não adianta lançar esses nomes ao círculo do inferno destinado aos hereges: nada nos garante que os novos agraciados (progressistas, descolados, desconstruídos) não estejam sujeitos a pecados ainda por inventar. Quando os veganos dominarem o planeta, quem quer que tenha traçado uma picanha ou pedido um misto-quente na padaria (com uma média de café com leite) estará automaticamente no índex dos canceláveis.

Se o Webb perscruta lá fora, com sua nebulosa sexualidade, as origens do Universo, aqui neste planetinha pedregoso os arqueólogos agora discutem não o sexo dos fósseis, mas seu gênero. Pela análise do tamanho e formato dos ossos, é possível determinar se um esqueleto é de um espécime macho ou fêmea. Ativistas argumentam que essa atribuição presta um desserviço à causa, pois não leva em conta a maneira como aquele indivíduo se identificava. Ninguém garante que Lucy (hominídeo que viveu há cerca de 3 milhões de anos onde hoje é a Etiópia) e Luzia (sapiens de aproximadamente 11.500 anos, em Minas Gerais) se reconhecessem como mulheres. Seus nomes deveriam ser mudados, pois perpetuam a cisnormatividade, o colonialismo e a supremacia branca. Esse anacronismo vem de longe, e o céu parece não ser o seu limite.

O Hubble e o James Webb – rebatizados ou não a cada geração de acordo com os novos ideais de pureza ideológica – prosseguirão em sua jornada por onde nenhum homem (ou mulher, ou homem trans ou mulher trans) jamais esteve, desvendando a gênese do Universo. Enquanto isso, seguiremos aqui adaptando nosso próprio passado às conveniências contemporâneas.

Com uma única certeza: ao contrário do que sonhava Fidel Castro, a História não nos absolverá.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.